Chicos 55 - 22.12.2018

Chicos

Chicos é uma e-zine que circula apenas pelos meios digitais.
A linha editorial é fundamentalmente voltada para a literatura dos cataguasenses, mas aberta ao seu entorno e ao mundo. Procura manter, em cada um dos seus números, uma diversidade temática.
Neste número, o poeta da primeira página é Luiz Ruffato. Dono de uma obra em prosa consagrada em vários idiomas mundo afora, é autor de uma poesia que merece ser lida pela qualidade.

55

22 de dezembro de 2018

e-zine de literatura e ideias de

Cataguases – MG

Um dedo de prosa

Esta é a nossa edição 55

Chicos é uma e-zine que circula apenas pelos meios digitais.

Envie-nos seu e-mail e teremos prazer de te enviar

nossas edições ou visite-nos nos links listados nesta

página.

A linha editorial é fundamentalmente voltada para a

literatura dos cataguasenses, mas aberta ao seu entorno

e ao mundo. Procura manter, em cada um dos seus números,

uma diversidade temática.

Neste número, o poeta da primeira página é Luiz Ruffato.

Dono de uma obra em prosa consagrada em vários

idiomas mundo afora, é autor de uma poesia que merece

ser lida pela qualidade.

Ronaldo Cagiano e Eltânia André, residindo atualmente

em Portugal, têm nos apresentando uma gama de escritores

portugueses contemporâneos de altíssima qualidade,

e aqui, dentro da medida do possível, vamos compartilhando

com vocês. E com prazer apresentamos alguns

poemas da vigorosa e polêmica Natália Correia.

Neste número de início do verão quem nos concede um

mimo natalino é o genial baiano Antônio Torres com

seu saboroso Relações transatlânticas.

Capa: Foto Vicente Costa

Uma agradável leitura para todos! E até o início do outono.

Editores:

Emerson Teixeira Cardoso

José Antonio Pereira

Os Chicos

Colaboradores:

Projeto gráfico - Gabriel Franco

Fotografia - Vicente Costa

Ilustrações - Altamir Soares e Merson

Fale conosco: cataletras.chicos@gmail.com

Visite-nos em:

http://chicoscataletras.blogspot.com/

https://independent.academia.edu/ChicosCataletras

https://www.yumpu.com/pt/chicos_cataletras

01


Chicos

03 LUIZ RUFFATO

O amor encontrado

17 FLAUSINA MÁRCIA

DA SILVA

Zarpar +1

19 HELEN MASSOTE

Barbacena

21 FERNANDO ABRITTA

Canto VI de umÁrvore

27 INÊS LOURENÇO

Requiem para Ruth Handler

29 RONALDO CAGIANO

Autópsia do instante

32 WHISNER FRAGA

Essa dor + 2

35 SIMONE DE ANDRADE

NEVES

Haver no sentido de existir + 4

40 TCHELLO D’BARROS

Soneto das ditaduras + 5

46 NATÁLIA CORREIA

Cosmocópula + 3

53 ANTONIO GERALDO

FIGUEIREDO FERREIRA

armadilha + 2

57 JOSÉ ANTONIO

PEREIRA

Noite de agonia

59 ANTÔNIO TORRES

Relações transatlânticas

67 ANTÔNIO JAIME

SOARES

Esse menino extraordinário de

Cataguases

69 LUIZ RUFFATO

Lendo os clássicos

71 EMERSON TEIXEIRA

CARDOSO

O meu livro da infância e da

juventude

73 GERALDO LIMA

Eltânia André faz literatura sobre

violência e luta pela liberdade

75 VANDERLEI PEQUENO

Duas Cruzes

78 ANDRESSA

Dois poetas e um acaso

BARICHELLO

83 CLIPS

Outros papos ...

65 JOSÉ VECCHI

Silêncio

DE CARVALHO

02


Chicos

Luiz Ruffato

Luiz Ruffato nasceu em Cataguases (MG).

Atualmente mora em São Paulo (SP). É autor

de Eles eram muitos cavalos, De mim já nem se

lembra, Estive em Lisboa e lembrei de você e

Inferno provisório, entre outros títulos. Seus

livros receberam prêmios nacionais (Machado

de Assis, APCA, Jabuti) e internacionais (Casa

de las Américas, Hermann Hesse) e estão traduzidos

e publicados em 12 países.

Publicou três livros de poesia: As máscaras

singulares - São Paulo: Boitempo, 2002; Paráguas

verdes - São Paulo: Ateliê Acaia, 2011;

O amor encontrado - São Paulo - Edição não

comercial, 2013.

“Meus colegas poetas não me consideram

poeta e sim prosador... Mas eu sou muito mais

leitor de poesia do que de prosa. A poesia é

fundamental pra mim. Escrever o que escrevo

sem a intermediação da poesia seria impossível.

Mesmo minha prosa é encharcada de poesia.”

Em entrevista a Daniel Mandur Thomaz (Carta

Maior - 31/05/2015)

03


Chicos

O amor encontrado

1

Desperto: a noite farfalha

teu nome. Estiveste aqui

há pouco. O chão da casa

acaricia teus passos breves,

tua voz ilumina caligrafias

na parede, molda tua pele

o lençol ainda impregnado

de ausência. Desperto.

04


Chicos

2

Há qualquer coisa de azul na tarde que escapole para além dos edifícios.

E não é nuvem, não é véu. Não é espectro, labareda, água.

Talvez relógios enguiçados, canções interrompidas,

Talvez visitas inesperadas, primaveras extintas.

Talvez tua delicada sombra fugidia.

05


Chicos

3

Dezembro emergiu do calendário

agarrado em teus cabelos negros.

Boiam horas impalpáveis,

sobrenadam palavras ainda virgens.

No tumulto do oceano hostil

nossos sonhos resgatamos

conduzindo-os em cardumes

à região mais transparente.

06


Chicos

4

No último dia do último ano da falseada infância,

vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,

não imaginava que tu já existias, forma entre formas,

magros dedos desenhavam efêmeros rabiscos

na suada vidraça de um inverno engastalhado na memória,

cicatrizes maculavam teu corpo inúbil,

pernas ocultavam silêncios entre os móveis,

noites aqueciam mágoas

aqueciam nódoas.

No último dia do último ano da falseada infância,

vomitando solidão pelas noturnas ruas da cidade,

só eu não existia ainda: tu me inventaste.

07


Chicos

5

No princípio

eras palavra

verbo adjetivos

imagem subsumida

no etéreo universo.

Então encarnaste

sujeito predicados

nítida metáfora

flor calor cor

mar ar amar.

08


Chicos

6

Cativo, em silêncio

amanhãs olores

de outras tardes

talvez havidas

no caos das horas

sempre as mesmas.

Mas lá, onde gemem

de frio as noites úmidas,

apascentavas sonhos,

interpretavas pegadas,

desertavas das dores,

refugiada em alheias vidas.

Quanto de ti ressuma

paredes trêmulas,

bocas silentes,

mãos vazias?

Quanto de ti

são lonjuras, distância,

poeira de estradas

nunca percorridas?

09


Chicos

7

Quatro ou cinco motivos

para renunciar, eis a coluna

de haveres. E persisti,

embora tenham sumido

canetas e dias inteiros

no estranho calendário

que carrego às costas.

Eu não sabia – tu não sabias –

mas as fomes de domingos

as madrugadas rodoviárias

os nomes que se apagavam

as errantes ofertas dos ventos,

tudo nos empurrava para a porta

nunca aberta, nunca cerrada.

10


Chicos

8

E súbito compreendo o primeiro não:

meus frágeis pés tocaram a água fria

e vi, descidos dos retratos ovais, rostos

que entulhavam a despensa de histórias.

E súbito compreendo o primeiro não:

meus braços cingiram a madrugada

rejeitando nomes, tão pouca terra

para tão grandes desaparecimentos.

E súbito compreendo o primeiro não:

o tempo avança do agora para o anteontem.

11


Chicos

9

Ainda há pouco era dia.

Eu asilava na sombra

a estirpe dos antepassados.

Temia a chegada da tarde

com seus pássaros, vertigens,

cortejos, fantasmagorias.

No entanto, sem sabermos,

caminhávamos, ombro a ombro,

evitando as largas veredas.

E quando afinal a tarde desceu

entre labirintos, vales e cristais,

entrelaçamos as mãos inseguras.

Juntos, partilhamos o tempo,

reconstruindo pedra e pedra

a vida que quedou imediata.

12


Chicos

10

Não é a mesma tristeza de quando, assentado o dia,

recolhíamos a pálida solidão estendida no varal.

Não é a mesma tristeza de quando, cajados e ferrugem,

cerrávamos as portas ao uivo aflitivo das idades.

Não é a mesma a tristeza de quando, a lua ignorando,

pulsava insone a treva, sob prenúncio do fim absoluto.

Não é a mesma tristeza de quando, carregada a alma,

despetalávamos as cinzas reveladas no monturo.

Não é a mesma tristeza de quando, intuída à distância,

imaginava-a em imensos quartos cultivando abris e maios.

Não é a mesma tristeza de quando, pertencente ao nada,

inventei teus abraços esculpidos em promessas e pólen.

Não, não é a mesma. Essa, a de agora, é beleza de cântaros

descansando vinhos, aquários vazios a aguardar caranguejos.

13


Chicos

11

A madrugada me desperta com seus dedos frios,

súbito me arrancando do lugar dos sonhos e maçãs.

Estive lá, amigos, em suores, tremores, elisões,

um país habitado por labaredas azuis, tão longe de tudo

e tão perto que meus olhos cansados me descreem,

desacostumados a olor de terra, a negras melenas.

Mas estive lá, amigos, os sulcos na pele testemunham,

estes espelhos nativos atestam, minhas mãos caladas certificam.

14


Chicos

12

Poderia, quisesse, por estas ruas caminhar, olhos semicerrados.

Os pés calcam paralelepípedos de outrora, de antes de ontem,

os pássaros que lusco-fuscam a tarde imorredoura.

O mesmo céu azul, as mesmas nuvens, a igual melancolia.

As portas das casas humildes murmuram a dura lida.

As portas das casas humildes silenciam, obscuras.

Tudo me abraça, me retém. Tudo me refuta, me rejeita.

São hoje pó os velhos, ruínas os jovens. Nada, todos nós.

Meu corpo veste este mapa dilacerado, ignota senda.

Tu, que longe estás, inalcançável, tu és mais real

que esta cidade que percorrem meus olhos fatigados,

pedras e árvores que pouco a pouco transmudam em paisagem.

in O amor encontrado - São

Paulo - Ed. não comercial, 2013.

15


Chicos

Arqueologias

Envelhecemos, e teus projetos

aos sonhos retornam.

Aquela casa de campo,

quantos iriam visitá-la?

O filho inconcebido,

como mesmo irias nomeá-lo?

A viagem à Europa,

este país, que naquele.

Envelhecemos, no entanto,

e tudo à volta rui.

A cidade irreal,

envolta em névoa, tua.

Envelhecemos, e teus sonhos

em sonhos permanecem.

In As máscaras singulares -

São Paulo: Boitempo, 2002

16


Chicos

Flausina Márcia

Nasceu em Cataguases (MG) e mora em Belo

Horizonte (MG) onde trabalhou na Secretaria

de Cultura de Minas Gerais.

Publicou entre outros: Vagalume (2002), Sua

Casa Minha Cruz (2003) e Poemas Declives

(2014).

a palavra é outra coisa

monossilabicamente

de tão grande, se esqueceu

de ser palavra

e outra coisa, mas é ou

tra coisa

a palavra é outra coisa

dom de todos

confusão

e tantas outras coisas.

17


Chicos

Zarpar

Um ogro sai da gruta

com tigres de bengalas

vai do primeiro ao quinto

dos infernos e suas alas

Sou letra minúscula,

é nada, cair do cavalo

o problema é de embalo

e sumiço da bússola

Vai saber

Labareda era inferninho

gruta é um nome de bar

jogo de bicho dá azar,

mas asas fora de ninho

Vai saber

18


Chicos

Helen Massote

Nasceu em Belo Horizonte (MG) e mora no

Rio de Janeiro (RJ). Redatora, poeta e cronista

trabalha no Portal Fiocruz.

Barbacena

Cheguei aqui com seis anos

Papai casou de novo

Vela com feltros

E ramos na

Periferia

A geometria das rosas

Te coloca

Eternamente no

Seu não-lugar

Tenho as costas

Doendo de tanto

Abraço que recebi

Agora vou tirar

Os sapatos

Em Diamantina

19


Chicos

Isso não é um poema

Vamos calçar os

Sapatos que sempre

Foram do nosso

Número e cada um

Que tome o seu rumo

de preferência

O mesmo

20


Chicos

Fernando Abritta

Nasceu no Cataguarino em Cataguases (MG)

mora em Juiz de Fora (MG) . Publicou: umÁrvore,

O Caso da Menina que Perdeu a Voz,

Uma Verde História (parceria com Joaquim

branco) e Relâmpago (e-book). Inéditos MulaSemCabeça

e A Árvore do Esquecimento.

Participou: Grupo-13 RJ (1971); Expoética-Rio

de Janeiro RJ (1973); Totem (1975 - 1977); De

Fato (1977); Tabu (1977); Expoética-Natal RN;

Arte de Rua - Brusque SC (1978); Expoética-

Cataguases MG (1980) e Cataguases-Cartazes

(2014)

Canto VI de umÁrvore

umÁrvore teve alguns exemplares,

em 2008, talvez dez, impressos

em casa, formato A4 e encadernados

manualmente por que não se conseguia

definir o que ali estava escrito, nem a

forma nem a valia. Considerando a resposta,

em 2009, foi feita uma edição piloto

de 35 exemplares que numerados

circularam no meio literário próximo ao

autor. Em 2010, através de Lei Murilo

Mendes de incentivo à cultura, a Funalfa,

fundação responsável pela política

cultural do município de Juiz de Fora,

editou mil exemplares. Portanto umÁrvore

está fazendo dez anos em 2018 se

considerarmos a edição feita na impressora

jato de tinta da casa do autor.

O Canto VI traz um lamento dos

indígenas em sua resistência sofrida no

confronto com a sociedade onde o capital

converte tudo em mercadoria e tem

a terra mãe como valor inicial da acumulação

primitiva. A esta força opõe

seus corpos, aquilo que eles possuem.

Um corpo e a terra, um corpo e seu

uso, um corpo e os outros parecem clamores

que não se calam nem se calarão

tão cedo e celebram estes dez anos de

umÁrvore.

21


Canto VI a

Chicos

ESSE CORPO:

(UM CORPO E A TERRA)

? que você achou

de minha morte ?

junto a senhores brancos

bebi

depois pra minha terra aldeia vim

no caminho dormi:

E as patas dos cavalos me acharam

cavando meu corpo

rasgando

a vida

de coletores¹ de

poaia, ipecacuanha², ipeca, sapucaia³

que por azar ( ? )

brancos cavalos encontrassem

dormindo em seus caminhos

nas patas dos cavalos brancos

minha vida foi

esmagada

? que você

achou de minhas mortes ?

? era seu

este corpo cavado de patas cavalas

era meu ?

1 - In “Marlière, o civilizador”, Oiliam José, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, transcreve tradução de Lúcia Furquim Lahmeyer da obra

“Reise in Brasilien” do médico, botânico, antropólogo Carl Friedrich Philipp von Martius ( 1794-1868):

“O preço nas matas é muito reduzido, uns duzentos réis a libra; as índios não aceitam dinheiro, porem permutam com cachaça, utensílios de ferro, pano de

algodão”

2 - Dicionário Aurélio Eletrônico – V.2.0

Verbete: ipecacuanha [Do tupi ipega'kwãi, 'pênis de pato'.] S. f. Bras.

1. Erva humilde, da família das rubiáceas (Cephaelis ipecacuanha), de longas raízes grossas e nodulosas, que fornece a emetina, e cujas pequenas flores se reúnem

em capítulos. Vive no solo das florestas pluviais da BA e de MT.

[Sin.: cagosanga, poaia, raiz-do-brasil.]

3 - Dicionário Aurélio Eletrônico – V.2.0

Verbete: sapucaia [Do tupi ïasapuka'i, 'fruto que faz saltar o olho'.] S. f.

1. Bras., N.E. a L. Árvore da família das lecitidáceas (Lecythes pisonis), da floresta atlântica, de folhas oblongas e acuminadas, flores grandes, carnosas, violáceopálidas,

e com muitos estames fundidos, sendo os frutos enormes cápsulas lenhosas e cilíndricas, com grandes sementes oleaginosas, muito apreciadas como

alimento saboroso, e a madeira ótima para obras externas. [Sin.: sapucaieira, cumbuca-de-macaco, quatetê.]

22


Chicos

Canto VI b

TOQUE MEU CORPO:

(UM CORPO E SEU USO)

e

a machali torrada

de sol estirada no acostamento

interrompe o tráfego

no pretume de asfalto da

estrada do boi

da cara preta

o corpo da

machali inchado

de muito sol e cachaça

irrompe no trânsito

Toque meu corpo

machacali

toque aqui

onde o sol mais queimou

este sorriso inchado

Toque

pois que bebi

e aqui me deitei

ao lado do caminho

negro de asfalto

e a névoa da cachaça

23


Chicos

me fechou olhos

que sol queimou

Toque aqui

onde guerreiros gerei

aqui

onde arqueiros sugaram

aqui

onde carreguei o de comer

aqui

onde calos cresceram

aqui

onde a pele estourou

de tanto caminho andado

Toque aqui

onde saíram

machacalis

toque

sem pensar

que eles

morreram

sem me levar

o sol

que ainda brilha

os viu

correr gritar sorrir cantar chorar

24


Chicos

Toque meu corpo

e me deixe estar

que essa estrada

está fechada

impedida por minha ossada

que esse caminho

nada de bom nos trouxe

somente dor

e cobiça branca

me deixe

que urubus

limparão minha caveira

que o sol

desgarrou da carne

para que eu

fique

fincada bandeira

sem panos sem cores

sem carne sem nada

fechada essa estrada

que só boi trouxe

e nada mais

toque

25


Canto VI c

Chicos

? MEUPAI ONDEESTÁ

MINHAMÃE ESTÁONDE ? :

(UM CORPO E OS OUTROS

e

o índio Galdino brasil

vermelha brasa

queimando em Brasília

iluminando a noite

brasílica


? meu paionde está

minha mãeestá onde ? :

brasil

Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe

em brasa

em cinza em história em

luta pelo chão

queima :

? e você gostou da minha morte ?

se olhar bem atento

verá as outras

e outras

até aquelas

da baía de niterói dos índios

guanabara

e verá outras ainda

que acontecerão

e mais

outras brasis

fumegantes outras brasílicas

26


Chicos

Inês Lourenço

Nasceu no Porto - Portugal, onde vive. Criou e

dirigiu a revista Poesia – Hífen, para divulgação

da poesia lusófona contemporânea (1987-

1999). De sua obra, com mais de uma dezena

de títulos, destacam-se: Os solistas (1994), Um

quarto com cidades ao findo (2000), poesia

reunida), O segundo olhar (2015) e O jogo das

comparações (2016)

Requiem para Ruth Handler

Morreu ontem a mãe da Barbie,

a boneca adolescente. À semelhança de

Atena, Barbie saiu armada dum

cérebro, não divino, mas industrioso,

com a longa cabeleira e a azúlea mirada;

Morreu a mãe da Barbie, a filha

que nunca será órfã, pequeno duende

de soutien 38 e de 33 polegadas

de altura. Trinta e três polegadas

multidesejantes de sonho

anatomicamente impossível.

Morreu a mãe da Barbie, que

faz ballet, ski, patins em linha e

todos os desportos radicais e tem

um namorado elegante, que jamais

a trairá e amigos tão anatomicamente

imperfeitos como ela.

27


Chicos

Morreu a mãe da Barbie, que vai

a todas as festas com muitos

vestidos de gala e enegreceu

há uns anos, qual Naomi Campbell, para

ser consumida pela boa

consciência racial do Ocidente.

Morreu a mãe da Barbie, que jamais

a viu, assim anatomicamente imutável,

padecer de uma gravidez adolescente.

A Barbie é sabida e deve ter tido educação

sexual. Que fará ela, com o Ken

no regresso de tantas festas?

Nem paixão, nem desgosto, nem fome

ou uma boa tareia dos adultos alteram

a sua fábula de plástico, muito menos

fabulosa que a Branca de Neve ou a

Bela Adormecida, onde existiam

humanas bruxas, vencidas maldições

e príncipes que davam beijos ao acordar.

Morreu a mãe da Barbie, cedo demais

para inventar uma Barbie de burka,

ou de explosivos escondidos no cinto. No

fim da vida continuava a vender milhões

de próteses mamárias, na sequência da sua

própria mastectomia. Coisas sem brilho,

impossíveis de acontecer

à Barbie.

28


Chicos

Ronaldo Cagiano

Nasceu em Cataguases, mora em Portugal. É

autor dentre outros, de Dezembro indigesto

(Contos, Prêmio Brasília de Produção Literária

2001), O sol nas feridas (Poesia, Finalista do

Prêmio Portugal Telecom 2012) e Eles não moram

mais aqui (Contos, Prêmio Jabuti 2016).

Autópsia do instante

.

Nada sobrou para nós senão

o cotidiano que avilta, deprime.

Carlos Drummond de Andrade

Nesse dia sujo e grave,

ao atravessar a Praça da República

(nenhum sol entre as ruínas),

contemplo aquelas vidas

(inquilinos do caos)

em seus rudes acampamentos de papelão,

domicílios da indignidade

na escória repetida dos dias

29


Chicos

Refugiados

da opulenta miséria quotidiana,

a cena de chão improvisado

e bocas vazias

encena o teatro repetitivo

de um mundo que desaba com seus insultos

mas seus escombros

não afrontam

o comodismo e a inércia

que habitam os donos do poder

e os síndicos do capital

nesse país de desgovernos

e placebos

Feito corvos

predando o coração

dos nossos olhos,

esse repertório

de fraturas expostas

desastres

& passivos

é uma neblina que não se dissipa

cega

e avilta,

enquanto os homens dissimulados

enviesam entre os canteiros anônimos

e nesse oceano onde procelam tantas existências

não há cardumes de afetos

30


Chicos

Saio daqui

e continuo a velar o meu espanto

com os punhos da minha insônia

e ergo um verso que não respeita

guerra nem apocalipses

e tenta apagar a caligrafia torta de deus

31


Chicos

Whisner Fraga

Nasceu em Ituiutaba (MG), tem três livros publicados,

todos de contos: Seres & Sombras, Edição do

Autor, 1997; Coreografia dos Danados, Edições Galo

Branco, 2002; A Cidade devolvida, 7Letras, 2005.

Publicou poesia e ficção em diversos jornais e revistas,

entre os quais Correio Braziliense, Revista Cult,

Revista E, Rascunho, Revista Brazzil, Revista Literatura

e Iararana. Ultimamente vem escrevendo resenhas

para o Jornal do Brasil, Estado de Minas e

Rascunho.

Essa dor

O ramo se intromete na erosão do abandono calcinado

Eu saboreei essa dor terrível

O silêncio abafado, inerte

O estupor manchando esse estrato de serenidade

O silêncio em riste

Você sabe o que é maturar uma dor terrível?

Ouço um conforto inócuo:

Vai ficar tudo bem

Interrompo a respiração para afrontar o silêncio

Irmanados como inimigos

Nada ainda é possível

Nada é páreo para esta dor terrível

Discuto com o silêncio:

Abraço-o piedosamente:

Cinco mil toneladas dele entornadas sobre minha dor

Sobre minha dor indecifrável

Já que tenho tudo

Inclusive essa dor terrível.

32


Domingo

Chicos

Uma pedra fura a película de rio, que rasteja no leito

A pedra parece uma tartaruga se entretendo no fluxo

A menina aponta o vendedor de algodão-doce

Os cabos de aço, as braçadeiras, os parafusos

A parafernália de mecanismos se dissolvendo na natureza

A botânica se organiza para a orgia

A menina está alta, nos ombros do homem

Eu caminho pela ponte e fotografo uma viga enferrujada

Há uma beleza inadiável na transgressão

Uma mulher desdobra um lenço na grama e organiza a venda

Perto, há três talvez quatro construções abandonadas

O capim escala as vértebras das paredes

Dois moradores de rua dividem uma bituca e riem da manhã

A menina acompanha a correnteza

O olhar escolta um galho que se submete ao ziguezague da água

Ela aperta minha mão

Um socó assovia do alto de um salgueiro

A menina inclina a cabeça

O semblante me traduz uma vontade de ir embora.

Eu também quero sair dali.

33


Sangria

Chicos

O ramo se intromete na erosão do abandono calcinado

As paredes se ressentem com o descaso

Eles disputam as vértebras da casa

E todos reivindicam justiça

Uma justiça de premissas ilusórias:

As coisas são do mundo

Quem é dono do chão da bauxita das esculturas dos aviões

Da vaidade?

Ninguém devia ter dono

Nem os cachorros nem os gatos nem os peixes ornamentais

Nem os empregados

Quantas brigas naqueles quartos?

Quantos sacrifícios, quanta perda naquelas cales?

Já não se atentam

O que importa é o que pagam pela hora

O resto é desperdício

Não é ramo: É caule

E o vão é alicerce

Não percebem que a vida rasga os tijolos em busca de ar?

A árvore oferece frutos que estancam a noite.

34


Chicos

Simone de Andrade

Neves

Nasceu em Belo Horizonte (MG). Na infância e

adolescência morou em Dionísio (MG). Publicou

"O coração como engrenagem", edição do autor,

em (1994); Corpos em Marcha, Editora

Scriptum, (2015); Dor Andorinha, Edição Leve1Livro,

(2015) e em parceria com o músico

Chiquinho de Assis Missa do Envio, Edição Casa

Impressora de Almeria, (2017). Seus poemas

foram publicados em diversos periódicos dentre

os quais Suplemento Literário de Minas Gerais,

Revista Poesia Sempre - Fundação Biblioteca

Nacional e Revista Olympio - literatura e

arte.

Haver no sentido do existir

Manhã e tarde

as gralhas-do-campo

ocupam os pés de goiaba

e as mangueiras.

Rotina mantida quando fruto não há

Território é conquista diária.

35


Casa da Erva Mate

Chicos

Há soldados

que não portam rifles

mas sabres.

Sabes o efeito de um sabre?

Em marcha contínua

pernas pás

no desintegro da carnadura.

Toras de madeira

- ou Soldados de Salamina -

pisam a erva e voltam-se os pés.

No fêmur com o ilíaco

vai a erva contra a madeira

desistindo de ser.

E quando pensa-se que não

renasce o verde

no coração da casa.

36


Tecido branco

Chicos

O morim,

tecido branco,

vai cobrir o menino.

Menino morre.

O tio busca o pano.

Anota-se.

Arma-se o caixão de madeira de caixote.

Lá vão deitar o menino pobre.

Envolto no morim

Leva-se o menino à cova

e volta-se à vida.

37


Cirúrgico

Chicos

Um corpo não se subordina

na ânsia por adocicados.

Muitos anos

uma sutura

e a pele reage sensível ao tato

na linha que transpassa

o estômago e evolui acesso às coronárias.

Bate no vago da aorta

todas as palavras não ditas

quando oportunas

Vem da cava na aorta

o desejo do mergulho

e emergir a fonte na isenção

dos vultos em dança sobre a pele:

projetos da tua mão,

tão precisa,

na sombra de toda calma,

a perfurar a carne e deslizar

pungindo linhas negras

no traçado de pontos indigeríveis

que forçam o engasgo

todas as vezes em que dá-se à corrida

atrás do que se perdeu.

38


Oco

Chicos

para Dino, meu pai.

O tom da terra

nas olhaduras marroquinas

representa o couro sagrado.

Marrom

Resulta do unir o vermelho ao verde

mesmo modo

em contrário.

E é da terra e do tom

onde as peles de imagens

vão se desintegrar

o emergente permissivo de viver

às alvas larvas

nutridas em seivas e desintegro

emboladas no solo

contorcendo os corpos

em forma da terceira letra do alfabeto

de onde inicia coração.

39


Chicos

Tchello d'Barros

Nasceu em Brunópolis (SC) mora no Rio de Janeiro

(RJ) Escritor e artista visual, dedica-se

desde 1.993 à criação de poemas, poemas visuais,

contos, crônicas e ensaios. Publicou 6 livros

de poemas e possui textos em mais de 50 antologias,

coletâneas e livros didáticos. Com 31

exposições individuais, suas imagens já participaram

de mais de 100 exposições coletivas, no

Brasil e Exterior. Tem ministrado em diversas

instituições oficinas literárias e realiza curadorias

no campo das Artes Visuais.

Soneto das ditaduras

40


41

Chicos


42

Chicos


43

Chicos


44

Chicos


45

Chicos


Chicos

Natália Correia

Nasceu em São Miguel (13.09.1923) nos Açores,

faleceu em Lisboa (16.03.1993). Sua obra estende-se

por géneros variados, desde a poesia ao

romance, teatro e ensaio. Colaborou em diversas

publicações portuguesas e estrangeiras. Durante

as décadas de 1950 e 1960, na sua casa

reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de

Lisboa. A partir de 1971, essas reuniões passaram

a ter lugar no bar Botequim. Ficou conhecida

pela sua personalidade livre de convenções

sociais, vigorosa e polémica, que se reflete

na sua escrita. A sua obra está traduzida em

várias línguas.

Cosmocópula

I

Membro a pino

dia é macho

submarino

é entre coxas

teu mergulho

vício de ostras

46


II

Chicos

O corpo é praia

a boca é a

nascente

e é na vulva que

a areia é mais sedenta

poro a poro vou

sendo o curso de

água

da tua língua

demasiada e

lenta

dentes e unhas

rebentam como

pinhas

de carnívoras plantas

te é meu ventre

abro-te as coxas e

deixo-te crescer

duro e cheiroso como o

aloendro

em "Eros de passagem - Poesia erótica contemporânea".

[seleção e prefácio de Eugénio de Andrade].

Porto: Editora Campo das Letras, 1997.

47


O Poema

Chicos

O poema não é o canto

que do grilo para a rosa cresce.

O poema é o grilo

é a rosa

e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui

uma determinação

na fonte donde ele flui

e naquilo que descreve.

O poema é o que no homem

para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras

e a poesia transcendê-las

na já longínqua noção

de descrevê-las.

E essa própria noção é só

uma saudade que se desvanece

na poesia. Pura intenção

de cantar o que não conhece.

in "Poemas (1955)"

48


Poema Involuntário

Chicos

Decididamente a palavra

quer entrar no poema e dispõe

com caligráfica raiva

do que o poeta no poema põe.

Entretanto o poema subsiste

informal em teus olhos talvez

mas perdido se em precisa palavra

significas o que vês.

Virtualmente teus cabelos sabem

se espalhando avencas no travesseiro

que se eu digo prodigiosos cabelos

as insólitas flores que se abrem

não têm sua cor nem seu cheiro.

Finalmente vejo-te e sei que o mar

o pinheiro a nuvem valem a pena

e é assim que sem poetizar

se faz a si mesmo o poema.

in "O Vinho e a Lira"

49


Queixa das almas jovens censuradas

Chicos

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

mais um letreiro que promete

raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário

que tem a forma de uma cidade

mais um relógio e um calendário

onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim

para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos um prêmio de ser assim

sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu

para tirarmos o retrato

Dão-nos bilhetes para o céu

levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos

com as cabeleiras das avós

para jamais nos parecermos

conosco quando estamos sós

50


Chicos

Dão-nos um bolo que é a história

da nossa historia sem enredo

e não nos soa na memória

outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados

que adormecemos no seu ombro

somos vazios despovoados

de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho

e um pacote de tabaco

dão-nos um pente e um espelho

pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça

e uma cabeça presa à cintura

para que o corpo não pareça

a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro

com embutidos de diamante

para organizar já o enterro

do nosso corpo mais adiante

51


Chicos

Dão-nos um nome e um jornal

um avião e um violino

mas não nos dão o animal

que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão

com carimbo no passaporte

por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte

In: "O Nosso Amargo Cancioneiro"

52


Chicos

Antonio Geraldo

Figueiredo Ferreira

Nascido em Mococa, SP. Estudou na USP, onde se

graduou em Letras. Na década de 90, abandonou a

academia e foi morar em Arceburgo, MG. Publicou

o livro peixe e míngua, poemas, pela Nankin Editorial,

e outros textos em diversos jornais e revistas.

Em 2012, publicou seu primeiro romance, as visitas

que hoje estamos, pela Editora Iluminuras. Em 2014,

estreou na literatura infantil com o livro O Amor

pega feito um bocejo, pela Companhia das Letrinhas.

armadilha

o maldito ladrão entrou de novo em casa, levou o que tinha de mais valioso,

...umas porcarias sumiram, também,

o que me deixou mais puto ainda, porque, misturadas às peças de mais valor, as

miudezas desapareceram da memória, e fiquei sem saber a extensão exata do que

perdi,

o tamanho do meu prejuízo,

...sem contar que uma coisa, um algo qualquer, com

o tempo, pode muito bem ganhar força e vir a ser o centro da vida,

bem,

...ou o furo do compasso na existência, claro,

tudo

um chiclete que ela cuspiu no cinzeiro e você não jogou fora por preguiça,

por exemplo,

53


Chicos

de manhã, acorda intumescido de amor, olha a goma mastigada e ri, inconformado

de ter mandado a fulana embora de casa e de si, pego de cara inchada

pelo amor estremunhado, que aproveitou um cochilo e entrou também furtivamente

no peito, de corpo inteiro, altas horas da noite,

...não é assim que se diz?,

e o chiclete cuspido no cinzeiro, então, um objeto de valor,

as marcas dos dentes dela, a saliva,

maldito ladrão...,

...maldito ladrão!,

levou o que talvez pudesse me tirar desse buraco, quem sabe?,

peguei a espingarda de dois canos, cartuchos com chumbo grosso,

agora ele vai ver,

amarrei a arma na cômoda pesada, apontando para as venezianas do quarto,

isso é que dá morar nessas casas antigas, com as janelas dando para a rua,

...um fio de nylon passando pelos gatilhos, fazendo a volta, esticados

o tanto certo, até a maçaneta da cremona,

pronto, pronto, é hoje, não passa desta noite,

não vejo a hora de bater as mãos nos bolsos,

ficar puto por ter perdido as chaves e correr até a janela do meu quarto, forçando

as folhas para poder, finalmente, entrar em casa de vez

e descansar

54


um brinde

Chicos

abro a janela e me atiro

a arma roçando a testa

encho o copo de veneno

quero a corda que me enforque

recorto as veias do pulso

a artéria do pescoço

pulo do décimo andar

me encharco de gasolina

toco fogo na carcaça

bebo no fundo do açude

tin-tim

giro

festa

tremo

torque

pulso

osso

ar

sina

caça

saúde

ti

em

e

um

e

é

no

em

à

a

por

55


o resto sim

Chicos

o resto sim, são histórias,

pachukanis foi um dos escritores

que me fizeram entender o modo como penso a vida, hoje,

a justiça é cega não porque os homens sejam homens,

mas porque devem ter o peso sistêmico das coisas, oportunamente ajeitadas

nos pratos daquela ridícula balança,

nesse caso, o direito se faz como entidade do mercado,

deixando de enxergar a inteireza do gênero humano,

mercadoria

que dispensa a venda nos olhos fechados por conveniência fulcral, mas ali

amarrada ao rosto como sarcasmo da sujeição cega ao dinheiro...,

sim, uma venda de olhos fechados, também,

toda ambiguidade carrega franquezas encobertas,

olha, eu me lembrei..., espera um pouco, vou pegar o livro,

aqui, ó...,

(procura no índice, pigarreia)

escute este poema

56


Chicos

José Antonio Pereira

Nasceu em Cataguases MG, é coautor de A

casa da Rua Alferes e outras crônicas (2006) e

autor de Fantasias de Meia Pataca (2013).

Noite de agonia

É noite ainda. Lá fora com certeza

chove. Constantemente uma aragem úmida

percorre o ambiente num frio cortante para

os corpos mal agasalhados. Naquele local

com pouca luz estão todos amuados em torno

de uma mesa grande. Silenciosos e preocupados

com a ausência de Luiz. O levaram

já se faz um bom tempo.

Antônio pensava com os seus botões, que

ideia maluca era aquela. Olhando para Martins

com uma raiva incomum solta entre dentes,

– Em que merda me meti! Sexta-feira eu

estava assistindo um filme no Cineclube Eva

Nil. Tudo tranquilo. Aí me aparece você. –

Eu? Indaga Martins num ar de cínica inocência.

– Você mesmo! Você e o Telles é que

me apareceram com esta maluquice. Agora

estamos aqui nesta sala escura, sabe-se lá

quando sairemos daqui.

Telles, alheio ao que conversavam, choraminga

com os cotovelos apoiados sobre a mesa

enquanto bate as mãos espalmadas na cabeça.

– Eles tomaram minhas relíquias. Lamentando

a perda de duas peças daquilo que

chama de sua coleção de minerais. Aquilo

aumenta a agonia de Antônio que esbraveja.

– A gente aqui se borrando de medo e este

cara preocupado com duas pedras de aluvião.

Porra em qualquer beira de rio tem um monte

delas. Luiz por ser o mais viajado era a

esperança de todos. Mas nada dele reaparecer.

Ambrósio que até ali só roía as unhas e apesar

da baixa temperatura transpirava consumido

pela ansiedade. – Este trambiqueiro ia

tentar vender para algum incauto estas pedras

como jurássicos ovos fossilizados. Só

falta ter insinuado isto para o cara que o

abordou. Vamos nos ferrar mais ainda. Martins

que sempre está se esquivando de qualquer

problema. – É Telles! Se a coisa apertar

te entrego. Você já vendeu para turistas inocentes,

muitas pedras lá de São Thomé das

Letras como se fossem samambaias fossilizadas.

Pura picaretagem!

Luiz reaparece seguido por um cara fardado

e outro de terno. Martins o aborda imediatamente,

– E o jogo? Vai dar tempo de ver?

Não compramos ingressos ainda. Allez les

bleus!!! – Deixa de ser idiota e puxa-saco

Martins! Luiz dirige-se ao Telles. – Capitão!

Eles querem falar contigo. Telles olhando para

o fardado assume uma postura meio autoritária.

– Monsieur sou capitão de exército.

Reformado, mas sou. – Para mim capitão

que respeito e admiro é capitão de folia.

Continua Luiz que sempre exerceu uma

ascendência sobre todos, apesar de ser mais

57


jovem. Ele, o fardado, Telles e o de terno

desaparecem na escuridão da sala que parece

imensa. Luiz é o único que chama Telles

de capitão, todos sabem que há algo de

nebuloso na relação dos dois. Afinal o pai

de Luiz é um desaparecido político e por

conta disto ele passou boa parte de sua

adolescência com sua mãe exilados primeiro

na Argélia e depois em alguns países europeus.

Ambrósio repete o que sempre

afirma sobre os dois. – Estes dois, depois

de umas cachaças, sempre começam um

bate-boca que descamba para as agressões

verbais. Tem alguma coisa mal resolvida

entre eles.

Depois de algum tempo, Telles retorna

acompanhado pelo fardado. Numa atitude

servil, bate continência para o policial. Está

trêmulo. – Não entendi nada. Eu capitão

de exército sendo tratado como um terroristazinho

de merda. Só por que acharam

no meu bolso três cabeça-de-nego. Lá no

Maracanã, da arquibancada, a gente atirava

sobre a ralé da geral, explodiam antes de

chegar ao chão. Mas quando chegava... Era

um barato. Ver os geraldinos abrirem um

clarão às cotoveladas, se empurrando feito

boi em estouro de boiada. Era divertido pra

carai! E nervosamente começa a rir. Martins

e Ambrósio também estão agoniados.

Todos eles não têm a menor ideia do que

está acontecendo. Horas de cabeças povoadas

por pensamentos absurdamente

ruins. A sala vai lentamente revelando alguns

contornos de objetos que não se consegue

identificar, que parecem dormir. A

qualquer momento poderão acordar e saltar

Chicos

sobre todos. Aquele ar sombrio vai se ampliando

desesperadoramente. O pânico

crescendo. De repente luzes vermelhas piscam

e projetam números difusos e distorcidos

na penumbra.

– Bom dia Jorge! Antônio entra na padaria

passa pelo colega de trabalho, o guarda

-chuva molhado o incomoda, coloca-o junto

a uma lixeira onde sombrinhas e guardachuvas

se apertam num canto. Volta, passa

pelo balcão onde pede uma média de café

com leite e um pão de queijo. Senta-se de

frente para o colega de trabalho. Este que

olhava em direção à avenida, – Cara, que

chuvinha chata. Né não? – Jorge, além desta

chuva pra aporrinhar, acordei puto hoje.

– Uai, o que houve? – Acordei de madrugada

com o bate-boca de um casal de vizinhos.

Eram três da manhã. Casal em crise,

é foda. Está tudo errado, ninguém tem razão

e fica aquela troca de ofensas em que a

única coisa que um diz para o outro que é

verdade é “A culpa é sua! ”. – Perdeu o sono?

Aí é foda né Antônio? – Custei, mas

peguei no sono de novo. A merda é que

toda vez que acordo no meio da noite abruptamente,

me fodo. Ligo o despertador

do velho rádio relógio e é pesadelo na certa

ao dormir de novo. Jorge mastigando seu

pão de queijo, movimenta a cabeça concordando.

– Não deu outra. Desta vez, pode

uma merda destas, Jorge? Estávamos eu e

alguns amigos em Paris para um jogo Brasil

e França. E aí começou a agonia.

E Jorge rindo ironicamente. – E o jogo?

Quem ganhou?

58


Chicos

Antônio Torres

Nasceu em Sátiro Dias (BA), mora em Itaipava

distrito de Petrópolis (RJ). É autor, dentre outros,

os romances Um Cão Uivando para a Lua,

Um táxi para Viena d'Áustria, Meu querido

canibal, A trilogia Essa Terra, O cachorro e o

lobo e Pelo fundo da agulha. O livro de contos

Meninos, eu conto. Sua obra foi traduzida e

publicada em 21 países. Tido como um dos melhores

autores da geração contemporânea.

Relações transatlânticas

AUTO-RETRATO

O’Neill (Alexandre), moreno português,

Cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

Nariguete que sobrepuja de través

A ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui uma frase censurada...)

(Em homenagem a Alexandre O’Neill, “um poeta bestial,

pá!, neto de irlandês e parente de Santo Antônio)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a somovente estátua do prazer.

Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se

Do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Lisboa, 25 de junho de 1965.

Ontem desembarcou aqui um brasileiro sem

passagem de volta. E com apenas 600 dólares

no bolso. Ele tem 24 anos, nasceu na Bahia, mas

veio de São Paulo. Viera na classe turística de

um navio italiano bonitão, o Augustus — que

fazia a linha Buenos Aires-Gênova — no qual

embarcara no porto de Santos, ao anoitecer de

um dia cinzento. Chegou a Lisboa nesse domingo,

num fim de tarde ensolarado, oito dias depois.

À primeira vista, a cidade de casario senhorial,

coberto de telhas, a admirar-se no espelho

das águas do Tejo, era mesmo cheia de encanto

e beleza, como a cantavam, nos dois lados do

59


Chicos

Atlântico. “Se o que vês não é apenas um monte

de casas velhas, tu a mereces”, ele se disse. Bela

porta de entrada à Europa! Mas haja expectativa,

ansiedade, incerteza diante de seu novo mundo,

dali por diante.

De mala à mão, desceu do navio, despachouse

na alfândega sem problemas, recebeu e leu

um telegrama, assinado por um desconhecido,

que lhe desejava boas vindas e se desculpava

por não poder recepcioná-lo, em virtude de um

compromisso de última hora, intransferível. Grata

surpresa. Sentiu-se a adentrar um território

hospitaleiro. E pegou um táxi, que o levou para

uma pensão na Praceta João do Rio. Precisava

ficar perto da Praça de Londres, onde havia um

emprego à sua espera, numa agência de publicidade,

garantido pelo próprio dono dela – o senhor

Coelho -, numa carta que ele portava, e à

qual respondera informando o mês e o dia em

que chegaria, daí o telegrama que lhe entregaram,

ao desembarcar.

Instalou-se na pensão, onde a mesa era farta

e o quarto confortável. Respirou os ares da praceta

frondosamente arborizada, mergulhou numa

banheira de água quente e dormiu o sono dos

viajantes. Hoje acordou cedo, bem dormido, mas

ansioso para apresentar-se à empresa que, logo

descobrirá, fica num belo endereço. Marinheiro

de primeira viagem, ele se regozija pelo mar de

almirante em que navega até agora. Aguardemos,

porém, a sua primeira tormenta, logo ao

chegar ao que julgava o seu porto seguro, e ser

recebido por um gerente que, do alto da sua

franqueza gerencial, disse-lhe, de cara, na lata,

sem mais delongas, que ele, o brasileiro, não

devia ter vindo. Sua mudança para Portugal havia

sido um equívoco: “Pensávamos que o senhor

fosse um desenhador e não redactor”.

Imagine o pânico. Os seus 600 dólares mal

dariam para uma passagem de volta. Irredutível,

o gerente esclarecia-lhe que Portugal não precisava

importar redactores publicitários brasileiros,

pois os tinha de sobra, a maioria romancistas e

poetas famosos, como José Cardoso Pires e Alexandre

O’Neill, já os havia lido?

Nada a fazer. Só lhe restava (a ele, o senhor

gerente), desculpar-se pelo mal-entendido e...

“Passar bem”.

O brasileiro não se deu por vencido: “Quer

dizer que a assinatura do seu patrão não significa

nada para o senhor?” A pergunta desestabilizou

toda a convicção com que o até então empedernido

gerente o despachava. Percebeu isso

pelos seus visíveis sinais de hesitação, ao vê-lo

pegar um lenço e passá-lo na testa, a dizer:

- Deixemos que ele próprio decida.

E telefonou para o senhor Coelho, que se

encontrava em casa, a cuidar de assuntos pessoais,

informou. O patrão não hesitou em honrar o

compromisso assumido através de uma carta

transatlântica. E pediu ao gerente para passar o

telefone ao redactor brasileiro. Para lhe dar as

boas-vindas, desta vez de viva voz. Ufa!

Começará amanhã. Portanto, hoje terá tempo

para flanar pela cidade. Desceu e engraxou os

sapatos em frente ao Café de Londres, enquanto

se refazia do transe vivido nas primeiras horas

do dia. Aquela situação embaraçosa poderia ter

sido evitada, se o tal gerente, ao agir como um

cão de guarda patronal, tivesse raciocinado com

rapidez, e consultado o patrão, antes de atacá-lo

(a ele, o recém-chegado), com todas as unhas e

dentes. Que cara, quer dizer, gajo, de raciocínio

lento! Seriam todos os portugueses assim, e

cheios de má vontade com um brasileiro? Mas

não. Pela diligência e simpatia do senhor Coelho

não podia botá-los num mesmo saco.

Ficou um tempo observando os homens que

iam e vinham pela calçada, todos muito velhos,

tristes, cabisbaixos, pesadões, um passo hoje,

outro anteontem, a dar voltas em torno de si

mesmos, num círculo de desesperança. Como se

carregassem nas costas e na alma o fardo de

quatro décadas de totalitarismo - na era de Dom

António de Oliveira Salazar -, três séculos de

inquisições, dois mil anos de cristianismo. Parecia

não haver nesta cidade uma só viv’alma da

sua idade. Os jovens estavam na guerra na África

ou haviam fugido Europa adentro. Perguntouse

o que tinha vindo fazer aqui. Daí a pouco perceberia

que a viagem havia começado a valer a

pena.

Foi assim:

No Café de Londres, ainda a remoer um resto

de angústia, pelo impasse que o tal gerente criara,

lembrou-se de que precisava telefonar para

um certo Galveias Rodrigues, o dono da Telecine-Moro,

a maior produtora de filmes publicitários

de Portugal. O motivo da ligação era um

presentinho que ele trazia do Brasil – um boizi-

60


nho de barro do mestre Vitalino -, enviado por

um diretor de arte de São Paulo chamado Laerte

Agnelli, que havia trabalhado seis meses em Lisboa.

Desenhador podia, claro!

Apressou-se em comprar ficha e se valer de um

telefone público. Galveias Rodrigues o atendeu

prontamente. Em menos de uma hora já estava

em seu gabinete. E dele sendo levado a conhecer

os estúdios de filmagem, sala de projeção,

filmes produzidos, story-boards de comerciais

em produção e, por fim, a ala dos criativos. Foi

aí que o nome de Alexandre O’Neill lhe foi mencionado

pela segunda vez, nessa manhã. Logo,

quase que o conhecia, antes de a ele ser apresentado.

O poderoso Galveias Rodrigues despediu-se, deixando-o

aos cuidados do seu próprio redactor,

“um poeta bestial, pá”, que adorava o Brasil,

sem nunca lá ter ido. Deu para notar isso logo à

entrada da sua sala, que tinha uma das paredes

decorada com crônicas de Rubem Braga, Fernando

Sabino, Paulo Mendes Campos, Vinícius

de Moraes e Rachel de Queirós.

— Com que então és brasileiro! – ele exclamou.

– Nasceste num país grande e por isso andas pelo

mundo como se estivesses atravessando um

quintal.

- E o que dizer dos portugueses, que nasceram

num país pequeno e se meteram em quase todos

os cantos do planeta?

- Ó pá! Agora me destes uma volta.

Ato contínuo, Alexandre O’Neill levou sua inesperada

visita à parede, na qual colara também

poemas de João Cabral de Melo Neto. Ao mostrá-los,

disse ter sido o organizador de uma antologia

de João Cabral publicada pela Portugália

Editora, em 1963. E que era amigo dele. Costumava

visitá-lo em Sevilha, onde o poeta brasileiro

da sua maior admiração diplomaciava, como

cônsul do Brasil. Encerrando esse capítulo, comentou

o rigor de João Cabral com as palavras,

que lhe parecia obsessivo:

- Ele afia tanto a ponta do lápis que ainda vai

acabar cortando os dedos.

Chicos

Antes de partirem para almoçar, ele pegou o seu

paletó, que estava pendurado nas costas de uma

cadeira. Enquanto o vestia, surpreendeu o brasileiro

com uma observação prosaica:

- É bonito este teu casaco.

- O teu também é bacana.

- Mas não tem o corte e o caimento deste

teu.

- Foi feito sob medida, para a viagem. No

entanto, não tem lá essas diferenças do teu. A

não ser na cor.

- Queres trocar?

Então o brasileiro passou-lhe o seu paletó

azul e vestiu um marrom. Os dois encaminharam

-se para um espelho. E concordaram que a permuta

havia caído bem em cada um. Além de

selar o começo de uma amizade, que atravessaria

os tempos. Foi na casa de Alexandre O’Neill

que o brasileiro encontrou guarida, ao ficar desempregado

em Lisboa – e por quatro meses! –,

sendo assim recebido, à Rua da Saudade, 23:

- Não precisas de emprego, mas escrever.

Vou te tratar a pão e água, para que escrevas.

- E por que achas que tenho que escrever.

- Porque um dia, logo ao chegares, recitastes

para mim, de memória, trechos e mais trechos

de Scott Fitzgerald. Então eu pensei: “Tenho que

levar esse gajo a sério”.

Amigo

Mal nos conhecemos

Inauguramos a palavra “amigo”

“Amigo” é um sorriso

De boca em boca,

Um olhar bem limpo,

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,

Um coração pronto a pulsar

Na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)

“Amigo” é o contrário de inimigo!

“Amigo” é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,

É a verdade partilhada, praticada.

“Amigo” é a solidão derrotada!

61


“Amigo” é uma grande tarefa,

Um trabalho sem fim,

Um espaço útil, um tempo fértil,

“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

Claro está que aquele brasileiro ainda não havia

lido isto. E que, até o dia 25 de junho de

1965, não fazia a menor idéia de quem era Alexandre

Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões

– por um lado, neto de um irlandês, e, por

outro, parente de Santo Antônio, que também

era um Bulhões. Portanto, não sabia que ele, aos

40 anos, era um dos maiores nomes das letras

portuguesas do século 20, às quais legou páginas

memoráveis, sobretudo em versos, como os

de “Um adeus português”, “A pluma caprichosa”,

“O poema pouco original do medo”, “O

país relativo”, “Portugal”.

Sua obra poética está toda reunida num só

volume, de mais de 500 páginas. Publicou livros

de crônicas, com títulos curiosos, como “As horas

já de números vestidas” e “Uma coisa em

forma de assim”. Amou muitas mulheres (o brasileiro

desta história conheceu algumas delas:

Noêmia, a mãe de seu filho Xaninha, Pâmela e

Teresa, com quem teve outro filho). Mudou de

endereço uma vez, para a Rua da Escola Politécnica,

48. Teve um programa de TV, coluna em

jornal, e muitos patrões, até não achar mais

quem lhe desse emprego. Entre os altos e baixos,

viveu à rasca, ou seja, com problemas de

dinheiro. Viajou ao Brasil em 1983, quando conheceu

o Rio, São Paulo, Salvador e Fortaleza,

fazendo parte de uma delegação de escritores,

que incluía José Saramago, Lídia Jorge, José

Cardoso Pires e Lobo Antunes. (Ao embarcar de

volta a Lisboa, no Galeão, disse: - Quem chega

por este aeroporto pela primeira vez, fica a achar

que está a chegar num dos países mais ricos do

mundo.).

Alexandre O’Neill bebeu e fumou demais.

Sofreu o primeiro enfarto aos 52 anos. Morreu

no dia 21 de agosto de 1986, aos 62.

Em 6 de julho de 82, ele havia publicado no

Jornal de Letras, de Lisboa, a seguinte crônica:

“Quando se está com pane cardíaca o universo

míngua e um sujeito ‘desliga’. Passa para a

categoria de ‘bom doente’ para ver se salva o

canastro, mas não tem propriamente medo. Só

tem medo que se enganem nos remédios e lhe

Chicos

enfiem os que são para algum vizinho... De resto,

nada mais, a não ser que, quando se volta

para casa, se sente tudo fora do sítio e não se

acredita que o canastro volte à normalidade.

Nem com um jornal na mão se pode andar. Nem

se pode caminhar contra o vento. Nem... Nem...

Nem... Até que um dia um sujeito se sente de

repente melhor que novo e recomeça a fazer asneiras...”

Lisboa, 6 de novembro de 1995.

*

“Numa noite escura da alma são sempre

três horas da manhã”.

Alexandre O’Neill: esta frase aí é de Scott

Fitzgerald (lembra?) e serve à perfeição para revestir

as horas já de números vestidas, sem que

eu consiga pegar no sono. Vem um motorista

me buscar aqui no hotel, às sete, para me levar

ao aeroporto, onde devo embarcar para Roma,

se sobreviver até lá. Que coisa estranha: rodei,

rodei, rodei para, afinal, vir morrer em Lisboa.

Estou com medo. E achando que desta noite não

escapo. Não adianta mudar de posição na cama,

deitar de lado até o ombro doer, esperando que

o sono chegue. Já fui ao banheiro várias vezes,

me olhei no espelho, pra ver se há algum sinal

de morte na minha cara, que parece normal. Já

bebi potes de água, e nada do sono baixar. É

estranho mesmo. Muito estranho. Para piorar as

coisas, vêm-me à memória uns versos da sua

lavra:

Eu estava bom pra morrer

nesse dia.

Não tinha fome nem sede,

nem alarme ou agonia.

Comigo me desavenho nas horas que vão se

vestindo de branco.

Estou no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade.

Ainda há pouco cheguei à janela e vi as árvores

negras, peladas, desvestidas de folhas, como

em todos os outonos de Lisboa. E pensei:

“Provavelmente um dia eu já tenha vivido aqui.

Mas isso faz muito tempo. Foi no tempo de Alexandre

O’Neill”. O que escreveu:

62


Subamos e desçamos a Avenida,

Enquanto esperamos por uma outra

(ou pela outra) vida.

Estou aqui como jurado do Prêmio Camões,

ora veja. E vim com o romancista Márcio Souza

e o poeta Affonso Romano de Sant’Anna. O prêmio

saiu para José Saramago, aquele que me

deu uma carona da casa do nosso amigo Fernando

Santos para a sua, numa noite de fevereiro de

1984, em que fui seu hóspede (outra vez!), por

cinco dias.

Àquela altura, você estava passando a pão e

água, eu me recordo. A ponto de catar tostões

para uma refeição por dia, como me contou. E

remoia-se em atribulações pelo fracasso de um

casamento; um filho com problemas (parece que

veio a se suicidar); nenhuma perspectiva de trabalho.

Ainda assim, você se contorcia em dúvidas:

se devia ou não aceitar uma bolsa mensal

do Instituto Português do Livro, oferecida pelo

presidente daquela instituição, António Alçada

Baptista, seu amigo de todas as horas, até a última.

(Foi ele quem me telefonou um dia, para me

dizer, desolado, que você havia entrado em coma).

- Não achas que essa bolsa é uma espécie de

esmola? – você me perguntou, num daqueles

cinco dias em que me oferecia a sua casa, pela

última vez.

- Aceite-a como um direito. Autoral. Como

um pagamento do que os editores lhe devem. E

isso está vindo em boa hora, não é? – foi o que

lhe respondi, incitando-o a não vacilar mais, para

não continuar se martirizando com a falta de

dinheiro, até para o pão de cada dia.

Fui encontrá-lo no Instituto, depois dos seus

acertos burocráticos com o Alçada Baptista, conforme

o combinado. Quando cheguei lá, vocês

dois conversavam animadamente. Você sorria.

Gostei de vê-lo de novo ânimo, de uma hora para

outra. O Alçada levou-me a um passeio entre

ruas de livros. Estava orgulhoso do trabalho que

vinha fazendo ali. E eu dele, pelo bem que lhe

fizera. A você, Alexandre O’Neill, que por um

momento voltava a sorrir.

Dali fomos almoçar com o bom Irineu Garcia,

o brasileiro dos discos de poesia, amigo de toda

a gente do meio literário nos dois lados do

Atlântico, e que já havia se tornado um lisboeta.

Chicos

No entanto, confessou-nos estar em dúvida se

deveria ou não voltar para o Brasil. Não teve

muito tempo para se decidir. Acabou sendo encontrado

sem vida, pelo Cardoso Pires, num dia

em que marcara um almoço com ele.

Ainda há pouco o José Carlos de Vasconcelos,

o do JL, em que você tanto colaborou, veio

buscar o Affonso Romano de Sant’Anna e eu

para um jantar de lordes. No caminho para o

restaurante, o carro em que nos levava cruzou a

Rua da Escola Politécnica. Olhei à direita tentando

localizar o prédio onde você morava, mas

não deu para vê-lo. Depois a jornalista brasileira

Norma Couri me levou ao teatro, para assistirmos

a uma peça de Hélder Costa.

Findo o espetáculo, o Hélder me deu uma carona

para o Procópio, onde a atriz (e que atriz!)

Maria do Céu Guerra nos aguardava. E, como

sempre, para cobrar as minhas memórias de você,

que são as do meu tempo de Lisboa, de Portugal,

àquele tempo definido pelo Fernando Santos

como “um doce país fascista”, então a atravessar

uma das ditaduras mais longevas do mundo.

E é esse o país que está ao fundo de seus

poemas.

Agora, Lisboa já não parece a cidade de homens

dos pés redondos, a dar voltas em torno

de si mesmos, tal qual parecia ao meu primeiro

olhar, naquela manhã em que engraxei os sapatos

na calçada do Café de Londres, no dia 25 de

junho de 1965. Agora a cidade está chiquezinha,

engraçadinha, internetadazinha, globalizadazinha.

Agora, sim, é que ela desfila no “luxo blindado

dos seus automóveis”. Importados, pois,

pois! Percebe-se uma nova classe nesse desfile.

Resta saber de onde veio, o que faz e para aonde

vai.

Hoje à tarde parei diante de uma vitrine aqui

ao lado do hotel, atraído por um paletó bacanérrimo.

Recordei-me do nosso primeiro encontro,

na Telecine-Moro. Entrei na loja e perguntei o

preço. 500 dólares! Ora, viva: Lisboa não era a

cidade mais barata da Europa? Pensei: esse não

vou poder permutar com o O’Neill. Desta vez

fico-lhe devendo um novo paletó.

No Procópio, a Maria do Céu estava cercada

de amigos, como o Raul Solnado, o comediante

lendário. De repente me chamam ao telefone.

Era a Leonor Xavier, que amanhã estará lançando

um livro muito bem editado sobre Maria Barroso,

a senhora Mário Soares. Falando nisso, me

63


contaram uma história... engraçada? Vá lá.

Consta por aqui que, quando você agonizava na

cama de um hospital, disse que queria a presença,

ao pé dela, do presidente da República, que

não era outro senão Mário Soares. Ao saber disso,

ele foi visitá-lo. Mas deixou o hospital sem

entender nada. Você o teria enxotado, aos berros:

“Tirem esse homem daqui! Quem o chamou?

Não quero falar com ele!”

Feita essa digressão (para você rir aí um pouquinho

de si mesmo), volto ao telefonema da

Leonor Xavier: “Tu aqui e o O’Neill cá já não

está”. Desligou e veio correndo, não sei se para

me ver ou ao Raul Solnado, com quem andava

estremecida, mas pelo que pude perceber acabaram

voltando às boas.

Seja como for, gostei de revê-la. A última vez

que a havia visto foi numa festa no Rio de Janeiro,

patrocinada por ela, há muitos anos — para

José Saramago! O que acaba de levar o Prêmio

Camões. A propósito, estranhei um cidadão que

me interpelou no Procópio. Ele havia me visto

na televisão, a dizer bem do premiado. Disseme,

na lata, ao jeito lusitano sem peias, que não

entendia o fascínio brasileiro pelo Saramago.

- Esse gajo é um chatarrudo, um antipático,

que vive a dizer mal de Portugal — e continuou

desatando uma data de impropérios nada glorificantes

a respeito do velho Zé, que está famoso

como um corno, e com toda pinta de Prêmio

Nobel. Mas aqui lhe sovam. Imagine os estilhaços

verbais que sobraram para mim, por ter participado

do júri e dito na televisão que o prêmio

era justo etc. Chiça! Tudo como dantes. Dizer

Chicos

mal de toda a gente é uma tradição portuguesa,

com certeza.

Também diziam muito mal de você, eu me

lembro. Quando você fazia um programa na televisão

e tinha uma coluna no Diário de Lisboa.

Deviam pensar que você estava de tripa forra,

com dinheiro saindo pelo ladrão. Sem terem antes

o cuidado de verificar o seu saldo bancário.

A vida é assim. Ou será uma coisa em forma de

assim?

Se sobreviver a esta madrugada que avança

com as horas cada vez mais se vestindo de números,

escreverei umas linhas a seu respeito,

nem que seja apenas para dizer que você foi um

amigo como poucos.

E não foi?

Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 2007.

*

Pois, pois. Cá estou, sobrevivendo às minhas

próprias “mós de baixo”. E condenado ao seu

auto-de-fé:

Folha de terra ou papel,

Tudo é viver, escrever...

64


Chicos

José Vecchi de Carvalho

Nasceu em Cataguases (MG), após morar por

muito tempo em Viçosa (MG) vive hoje em

Paula Candido (MG).

Coautor de A casa da Rua Alferes e outras crônicas

(2006), e autor de Duas Cruzes (contos

2018).

Silêncio

O carro deslizava seu brilho alucinado

pelas ruas da cidade. Depois de avançados

quinze minutos e três semáforos, passou

pela guarita do condomínio de luxo e

entrou ruidosamente na garagem. O elevador

subiu até o último andar.

A ducha despejou um banho morno e

demorado, embaçando o espelho e todo o

ambiente. Na estante da sala, o aparelho de

som tocou uma música no último volume. A

enorme televisão, desligada, aguardava uma

oportunidade. Com avidez e presteza, o buchanan’s

derramou seu líquido no copo com

gelo, generosamente. A mesa de centro, perto

do sofá, ofereceu um pó branco enfileirado.

Outra dose saltou da garrafa. Outro trago.

O som de uma longa, profunda e lenta

respiração parecia transmitir o alívio de um

dia conturbado ou até mesmo monótono.

Um par de olhos espremidos (como se procurassem

distinguir as letras miúdas de uma

notícia de jornal sem o auxílio dos óculos)

olhava para as cortinas que balançavam levemente

com o vento. Não havia jornal, nem

notícias, nem letras miúdas ou graúdas. Havia,

sim, a mobília e seus componentes que

se insinuavam. Outro trago sorvido. A mesinha

de centro ainda ofereceu mais um bocado

do pó branco, por certo, para a maquiagem

da noite. O uísque fugia apressadamente

da garrafa. Um lisérgico, talvez, mais tarde,

acompanhasse a sanha daquela sextafeira.

A sacada tinha as luzes apagadas e recebia

uma sobra de iluminação que escapava

da sala. O par de olhos brilhava sobre os

pontos iluminados da cidade aos seus pés.

65


Chicos

O contrabaixo saía do aparelho e tocava no

oco da cabeça. As guitarras, com sons

agudos e estridentes, espetavam os miolos.

Volume alto, muito alto. Mais alto que o

apartamento de onde saíam os sons que se

espalhavam por todo o prédio e alcançava

até os outros blocos daquele luxuoso condomínio.

Mais uma dose mergulhada no

copo. O parapeito da sacada parecia tremer.

A cidade lá em baixo tremeluzia.

Olhos vidrados, braços trêmulos. O corpo

parecia levitar. A cidade, agora, mostravase

diferente, como outro mundo. Os olhos

aquilinos sobrevoaram a noite barulhenta.

A janela descortinada do apartamento da

ex-mulher deixava escapar a imagem do

quarto ainda desarrumado, talvez, por um

recente ato de amor.

Mais além, depois de um voo desinteressado,

outro apartamento mostrava a namorada

se aprontando com esmero.

O som reverberava nas vidraças e a sacada

toda parecia tremer. Novamente a farta

mesinha de centro e o copo. O estampido

de um tiro misturou-se à música. As paredes

e o chão da sala estremeciam. As figuras

do denso tapete dançavam ao som

de uma música diferente da que tocava no

aparelho da estante. As paredes movimentavam-se

em ondas e o chão parecia fugir.

Os móveis viraram monstros que avançavam

em direção ao centro da sala. Os lustres

precipitavam-se. A escada que dava

para a cobertura estreitava-se, rompendo o

paralelo dos corrimãos que, então, faziam

um xis e abriam fendas nos degraus contorcidos.

Mas o sofá, sempre acolhedor,

aconchegou os músculos de um corpo extenuado

e quase inconsciente. Os músicos

foram saindo da sala dando horrendas gargalhadas.

Restou um zunido que foi-se enfraquecendo

lentamente até se perder no

meio da sala, no meio da noite, enfim.

O sol alcançou o sono do sofá na manhã

seguinte, tentando restituir o brilho

àqueles olhos agora fechados, e o calor a

um rosto pálido e frio. Os músicos pareciam

outros e tocavam agora notas graves e

de longa duração em volume muito baixo.

Um lenço surgiu na sala tentando enxugar

o rosto encharcado de uma mãe desesperada;

o pai, cabisbaixo e pensativo, ao

lado do inseparável amigo contador e conselheiro,

parecia fazer um balanço e, com

ar resignado, passava os olhos alternadamente

pelo teto, pelo chão, pelas paredes,

pela mobília. Tudo em seus devidos lugares.

Nenhum movimento agora.

A família fechou-se por trás das cortinas.

Silêncio. Talvez um envenenamento; o

namorado da ex-mulher; o apartamento em

jogo, a pensão... os valores.

A namorada não veio. Mais uma vez

não houve jornal. Silêncio.

66


Antônio Jaime

Soares

Chicos

Nasceu em Cataguases - MG, lá na Chave. Participou

de um dos movimentos culturais mais

ativo dos anos 60 em Cataguases, o CAC.

Depois de morar um longo tempo no Rio de Janeiro,

onde entre outras foi redator de publicidade.

Retornou a Cataguases direto para a Vila.

Poeta e cronista publicou Pedra que não quebra

(crônicas - 2011)

Esse menino extraordinário de Cataguases

"Eu creio que só mais tarde se

apreciará melhor a figura desse menino

extraordinário de Cataguases, que é Rosário

Fusco. Tipo de argentino, com uma segurança

ingênua de si mesmo, das suas

verdades e uma confiança absoluta na vida.

Foi ele incontestavelmente o agenciador

das colaborações brasileiras e estrangeiras

para a Verde.” – Mário de Andrade,

1932.

Paulo Emilio Salles Gomes disse

que, nos anos 30, teve notícia “desse menino”

através de Mário, que lhe mostrou

cartas desabusadas e, numa delas, Fusco

pedia colaborações, “uma bosta qualquer”,

para a revista. Gostou de cara e,

trinta anos mais tarde, esteve várias vezes

aqui, colhendo dados para seu muito bem

-estruturado e documentado Humberto

Mauro, Cataguases, Cinearte, provavelmente,

o melhor livro que se escreveu sobre

nossas artes e manhas (muitas, digase)

até 1930 e poucos.

Em 1925, “esse menino”, com 15 anos,

edita em Cataguases o jornal Jazz Band e,

de 1927 a 29 participa do grupo Verde,

escreve e desenha na revista do mesmo

nome. Também escreve e edita livros de

poemas e, em 32, muda-se para o Rio.

Trabalha como jornalista, locutor de rádio

e crítico literário, formando-se em Direito

cinco anos depois. Em 40, mais dois livros

e, a seguir, dirige com Almir de Andrade

Cultura Política: Revista de Estudos Brasileiros,

publicação oficial. Em 43, sai seu

romance mais conhecido, O agressor, que

teve três edições.

Apresenta um trabalho no Congresso

Latino-americano de Urbanismo,

em Santiago do Chile. Escreve para teatro,

candidata-se a deputado federal por Minas

Gerais, não eleito, apesar dos bons

slogans que criou, fazendo jus à sua verve

de radialista e escritor. Continua produzindo

livros, tendo uma peça encenada nos

Estados Unidos. Muda-se para Paris e dez

anos depois, volta para Cataguases, falecendo

em 1977.

67


Chicos

Luís Antônio Giron escreveu: “Segundo

os especialistas, a obra de Fusco desafia

os historiadores a reavaliar o cânone literário.

O ‘nosso Kafka’, na definição do crítico

Antonio Olinto, ainda não encontrou

um nicho entre os grandes mestres. ‘Ele

foi um dos maiores do século XX’, diz o

crítico Sábato Magaldi...”. O acadêmico

Ledo Ivo observou que sua escrita era psicológica,

movida por forças do acaso, na

contracorrente da tendência da época,

marcada pelo romance de cunho social,

nordestino, quase sempre.

O chamado regionalismo, que Guimarães

Rosa varreu do mapa, com o monumental

Grande sertão: veredas, entre outras

obras, destronando muitas cabeças

coroadas da literatura tupiniquim. O Brasil

se tornava a cada dia mais urbano, e Fusco

percebeu isso. Seu mundo era este que

a gente habita, um poço sem fundo, cheio

de contradições, em que cada um tenta se

safar como pode. Não havia mais lugar para

o que o ferino Paulo Francis chamava

de “a vaquinha do compadre Nhô Nhô”.

Mas insistiam.

Fusco era um gigante, em tamanho e

talento. Nascido no interior, em 1910, poderia

inventar mil peripécias de coronéis e

jagunços, temperadas com crendices populares

e – uma de suas especialidades –

muito sexo. Obteria, tranquilo, dinheiro e

fama, como muitos contemporâneos seus

fizeram. Seu gênero, contudo, era outro,

coisa assim como perscrutar os desvãos

da consciência humana. Por outra, dizia

nunca ter namorado a “Dona Glorinha”,

referindo-se à fama passageira.

Para terminar: li O agressor três vezes

e, nas três, parecia estar vendo Luiz Linhares

no papel do atormentado David, personagem

central do livro. Luiz era outro

que não fez concessões, no caso, às novelas

de TV, preferindo papéis menores em

filmes e, de qualquer tamanho, no teatro,

seu verdadeiro ambiente, como o de Rosário

Fusco era o romance.

68


Luiz Ruffato

Chicos

Nasceu em Cataguases MG, reside em

São Paulo SP. Entre tantas obras de sua autoria

destacam-se: Eles eram muitos cavalos,

de 2001, ganhou o Troféu APCA oferecido

pela Associação Paulista de Críticos de Arte e

o Prêmio Machado de Assis da Fundação

Biblioteca Nacional. Esse livro o tornou um

escritor reconhecido no país. Em 2011 concluiu

o projeto Inferno Provisório, com a publicação

do romance Domingos Sem Deus, iniciado

com Mamma, son tanto Felice em 2005, composto

por cinco livros sobre o operariado brasileiro.

Lendo os Clássicos

A paz dura pouco (1960)

Chinua Achebe (1930-2003) - NIGÉRIA

Tradução: Rubens Figueiredo

São Paulo: Companhia das Letras, 2013, 194 páginas

69


Chicos

Corre o ano de 1956. Obi Okonkwo,

25 anos, está de volta à Nigéria, após quatro

anos estudando Inglês em Londres, financiado

pela União Progressista de Umuofia,

"vilarejo de língua ibo na Nigéria Oriental"

(p. 13), cidade-natal do protagonista.

Obi - de nome completo Obiajulu, "a mente

afinal em repouso" (p. 15), criado no anglicanismo

- é o primeiro cidadão de sua aldeia,

situada a 800 quilômetros de Lagos, a

capital, a conseguir um "'cargo europeu' no

serviço público" (p. 16), ou seja, a tornar-se

um funcionário civil de primeira classe, o

que "basta para alçar um homem das massas

para a elite" (p. 109), dando-lhe direito a

apartamento funcional, adiantamento para a

compra de um carro e salário mensal de

47,10 libras, valor equivalente ao que seus

concidadãos levavam até um ano para ganhar.

Entusiasmado com as perspectivas futuras

e cheio de ideias progressistas, Obi luta

para tornar-se uma cidadão exemplar, objetivando

contrariar a visão dos colonizadores

ingleses, que achavam que os africanos "ao

longo de muitos séculos, foram vítimas do

pior clima do mundo e de todas as doenças

imagináveis", o que os deixou "moral e fisicamente

solapados" (p. 12). Instalado no escritório

da Comissão de Bolsas de Estudo,

Obi tenta sobreviver com o pouco que lhe

sobra após pagar a cota da dívida para com

a União Progressista de Umuofia (20 libras)

e a mandar dinheiro para os pais (10 libras).

Pouco a pouco chegam as cobranças pelo

seguro do carro, as cotas referentes ao imposto

de renda, as novas despesas contraídas

para manter as aparências de sujeito bemsucedido...

Para piorar, Obi descobre que

sua família interpõe-se de maneira irredutível

ao casamento com Clara Okeke, por conta

de uma maldição que pesa sobre os Okeke,

e aumenta ainda mais as dívidas para pagar

seu aborto. Cada vez mais enredado, Obi

Okonkwo acaba aceitando subornos, tanto

em dinheiro quanto em sexo, inicialmente

para resgatar débitos, depois por hábito, até

ser afinal pego em flagrante delito... Maravilhoso

romance sobre como a realidade dos

países periféricos, submetidos à miséria e

aos maus políticos, arrastam até os mais

bem intencionados... Ou, usando as palavras

do próprio protagonista: “A tragédia de verdade

nunca se resolve. Prossegue para sempre

sem esperança. A tragédia convencional

é muito fácil. O herói morre e nós nos sentimos

purgados de nossas emoções. Uma tragédia

de verdade se passa numa esquina,

num local sujo (...). O resto do mundo não

tem consciência daquilo. (...) Não existe purgação

das emoções para nós, porque não

estamos lá" (p. 51-52).

Avaliação: OBRA-PRIMA

70


Chicos

Emerson Teixeira

Cardoso

Nasceu em Cataguases MG, é autor de Símiles

(2001) poesia, coautor de A casa da Rua

Alferes e outras crônicas (2006). Traduziu O

retorno do nativo de Thomas Herdy. Sempre

ativo em publicações literárias. Iniciou-se em

Estilete (1967), mimeografado, editor/fundador

do Delirium Tremens (1983) e Trem Azul (1997).

O meu livro da infância e da juventude

“Tinha eu quatorze anos, quando

meu pai me chamou?” Não, não é nada

disso, esqueça o samba famoso de Paulinho

da Viola porque eu estou falando de uma experiência

única, um momento de minha já

distante infância, quando li não sei se tomado

de empréstimo da biblioteca do Colégio

Cataguases um livrinho escrito para adolescentes,

segundo o prefácio do mesmo, mas

que viria a se metamorfosear em obra prima

clássica lida com encanto por pessoas de todas

as idades, de todos os países.

Num arrabalde de Budapeste, um grupo

de meninos, colegas do mesmo colégio, reuniam-se

para jogar bola, brincar de exército,

eleições, num faz de conta tão verdadeiro

que era mesmo como se fosse real.

É importante ressaltar que o autor desta

preciosidade literária – teve mais de um milhão

de leitores só no Brasil – Tinha então,

28 anos.

Vemos no desenrolar da trama uma Budapeste

que já estava se transformando em

metrópole, e o leitor atento é capaz de notar

os efeitos dessa mudança no próprio comportamento

daquelas crianças, influenciadas

pelos problemas provenientes do contato

com os adultos e da promiscuidade urbana.

A história é contada pelo escritor que reproduz

ali cena por cena sua infância naquela

cidade: O temível Chico Áts, o impreciso

Geréb e o franzino Nemecsek são alguns dos

personagens que depois da aula reuniam-se

no grund da rua Paulo – área disputada por

um grupo rival. Acontece que os componentes

do primeiro grupo não estavam dispostos

a entregá-lo sem luta e para defender aquele

pedacinho de terra organizavam-se num pequeno

exército.

71


Chicos

Os meninos da rua Paulo, esta epopeia

juvenil é no dizer de Paulo Rónai, seu tradutor:

“Um livro que nos acompanha pela vida

afora, livro de guerra que nos reconcilia com

a humanidade. O livro discute valores como

lealdade, a traição, o heroísmo e a covardia,

a inveja e a nobreza, elementos que permeiam

o mundo dos pequenos valores que seriam

desafiados a partir da deflagração da

guerra que assolaria o continente a partir de

1914. Sobre Paulo Rónai acrescente-se que

é também de origem judaica e aqui ficou,

fugindo da nazificação completa da Hungria.

E onde tornou-se notável tradutor inclusive

deste que é considerado um clássico da juventude.

Li Os meninos da rua Paulo e lembrei-me

da minha própria infância a beira da linha, lá

no início da hoje Avenida Astolfo Dutra, antes

Antonio Carlos, onde ficava nossa casa

de família e ainda está, muito próxima da

antiga usina de açúcar Santa Teresa e com o

rio Pomba, a seus pés. Nas retas e curvas

travávamos gloriosas batalhas com grupos

inimigos cujas fragatas eram improvisados

barcos de nossa precária carpintaria aprendida

na oficina do Lacerda.

Consta que se apresentou aos jornais, na

Hungria recentemente, um sujeito que reivindicava

a glória de ter servido de modelo à

personagem de Nemecsek. E que o mesmo

não teria morrido no final da história como

realmente acontece na narrativa. O esperto

pseudo Nemecsek teve suspensa a sua sede

de glória quando foi desmascarado e acusado

de tentar descontruir um mito.

É interessante notar a diferença de costumes

e das instituições entre a Hungria de

1889 e o Brasil de hoje, a diferença é incalculável;

os alunos na ocasião em que o romance

foi escrito, 1889 estavam sujeitos a

punições severas se tivessem alguma conduta

que fosse desrespeitosa para com os professores,

dos quais tinham verdadeiro temor.

Estes pairavam, noutra esfera muito mais elevada

como verdadeiros semideuses.

Tomo de empréstimo este singelo parágrafo

de uma das muitas e boas crônicas de

Rubem Braga: “Emoções misturadas de infância

e adolescência, perdidas e esquecidas

há muito tempo”

Vivíamos bem nessa irrealidade ou para

dizer melhor nesse sério faz de conta, que no

dizer do meu saudoso filósofo Ronaldo de

Melo, a respeito das histórias em quadrinhos,

eram absolutamente reais enquanto vívidas e

vividas em nosso imaginário.

Os Meninos da Rua Paulo foi ilustrado com

o traço econômico e inconfundível de Tibor

Gérgely que nos transporta ao longo da história

a uma Budapeste de 1907. Um livro

que nos conecta à infância, ao contato violento

com os adultos e a ameaça dos conflitos

urbanos.

Em tempo: O autor de Os Meninos da

Rua Paulo é Ferenc Molnár que por ironia do

destino morreu longe de sua cidade natal.

Perseguido pelo nazismo refugiou-se nos Estados

Unidos, e nunca retornaria à Hungria.

Os últimos dias de sua vida dedicou-se a escrever

suas memórias.

Escultura dos Meninos da Rua Paulo em Budapeste,

de Szanyi Péter

72


Chicos

Geraldo Lima

GERALDO LIMA é escritor, dramaturgo e roteirista.

Tem algumas obras publicadas, entre

elas, Baque (conto, LGE Editora), UM (romance,

LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3x4,

Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado

(teatro, Ponteio Edições). Participou

de algumas antologias literárias, como:

Antologia do conto brasiliense (org. por Ronaldo

Cagiano, Projecto Editorial, 2004)

Eltânia André faz literatura sobre violência

e luta pela liberdade

Eltânia André, mineira de Cataguases,

estreou na literatura com o livro de

contos Meu nome agora é Jaque [Rona Editora,

2007]. Esse livro reúne várias histórias

contadas por um único narrador [um contador

de causos, podemos dizer assim], Tizé,

que, aposentado, passa a se denominar Jaque

(“Já que estou aqui no mundo, vou viver plenamente

cada dia”). São histórias que se passam

no interior e são contadas num tom leve

e bem-humorado.

No seu segundo livro, Manhãs adiadas

[contos, Dobra Literatura, 2012], a autora dá

uma guinada no tom narrativo: as histórias,

narradas por vozes diversas, são densas e

desvelam o cotidiano de vidas humanas marcadas

pela desilusão e pela falta de perspectiva.

Assenta-lhes bem o verso do poeta Manuel

Bandeira no poema Pneumatórax: “A

vida inteira que poderia ter sido e que não

foi”. Agora, em Duelos [contos, Editora Patuá,

2018], Eltânia nos apresenta uma série

de histórias em que adensa mais ainda o tom

narrativo, expondo com lirismo e, às vezes,

com secura, o desencanto da vida contemporânea

num Brasil sitiado pela violência e pela

mercantilização da vida humana.

O livro já abre com um conto impactante,

intitulado Uma das mil e uma noites, no qual

a autora apresenta um recorte aterrador do

Brasil atual: a violência contra homossexuais

perpetrada por indivíduos de tendência fascista.

“Um dos pontapés atingiu o crânio.

Outro quebrou uma costela. O chute na cara.

Bicha”. É esse espírito de extermínio, que

contaminou a alma de parte do nosso povo,

solapando o conceito de cordialidade do brasileiro,

criado pelo historiador Sérgio Buarque

de Holanda, que esse conto expõe com

crueza. É tão forte e apavorante a cena

73


Chicos

descrita que, a certa altura, o autor interrompe

a sua criação, enojado: “...o sujeito ia partir

para o ato — eu asfixiado, sem planejamento,

retiro os dedos do teclado num átimo

de lucidez, tentando estabelecer em que

mundo dormitava meu pesadelo” .

Podemos vê-lo, sufocado, premido pela necessidade

de mostrar ao mundo essa atrocidade

e, ao mesmo tempo, tomado pela sensação

de impotência ante o terror: “Salve a

Wanderléa, p...! Resignado, entendo que

nunca pude salvar ninguém. Apenas indignar

-me. Sinto náuseas. Não me reestabeleço. Os

personagens assaltam-me, pedem para que a

literatura seja vida e sopre neles o espírito

que os moverá”.

A metalinguagem aqui não se apresenta como

mero artifício, mas, sim, como meio para

expor os limites da criação literária e o papel

do escritor diante do horror que nos sitia:

“Estamos sitiados. Peço desculpas àquele poeta

que sussurrou pela rede seu apelo por

histórias mais líricas, poéticas e ternas —

que também me rodeiam —, contudo elas

hão de esperar, porque o mundo é esse caos

obsessivo e possesso ladrando nos quintais”.

Frente à ameaça de perda das liberdades democráticas

e da escalada da violência, o escritor

brasileiro parece se encontrar de novo

diante da questão que Luís Costa Lima tentou

responder no seu livro Por que Literatura?

(Editora Vozes, 1969). Expondo sempre a

importância de se valorizar a questão estética

e nos alertando para o risco da simplificação

da linguagem em busca de uma comunicação

direta, ele escreve num dos ensaios que

compõem o livro: “A tarefa da literatura continuará

a ser, agora como antes, a de atingir

e a de trazer na palavra a raiz das coisas onde

se deposita a raiz do homem” . Imerso

nesse dilema e nessa crise, o autor/

personagem/narrador do conto de Eltânia se

socorre das palavras de Ortega y Gasset [“eu

sou eu e minha circunstância”], sabendo que

não poderá jamais fechar os olhos para o

mundo ao seu redor. “Ainda há para contar

pelo menos outras mil histórias que não recolhi

na Pérsia distante de Sherazade”. O como

contar essas histórias, sem prejuízo do

fator literário, é a questão que se impõe agora,

e isso, como podemos ver nos demais

contos de Duelos, Eltânia faz com perícia e

extrema sensibilidade.

Em pelo menos quatro dos contos de Duelos,

Eltânia explora o aspecto experimental da

narrativa. São eles: Uma das mil e uma noites,

Enquanto lia Faulkner, Matança de passarinhos

e Teatro a céu aberto.

Duelos” – Contos de Eltânia André – Editora Patuá – São Paulo - SP.

2018, 122 p.

Link para compra e pronto envio:

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74


Chicos

Vanderlei Pequeno

Nasceu em Cataguases- MG, músico, compositor

escritor e ativista cultural. Autor da Lei Ascânio

Lopes ( lei de incentivo à cultura de Cataguases)

É autor, dentre outros livros, de 50

Casos de nosso futebol, Casos e Acasos e coautor

de A Casa da Rua Alferes e outras crônicas.

Duas Cruzes

A partir dos confins de Paula Cândido,

município do interior de Minas Gerais,

dialogando com grilos, galinhas, plantas e

luares – coisas que por nós urbanos passam

despercebidas - e matutando histórias, José

Vecchi de Carvalho aparece com a bela obra

“Duas Cruzes”, trabalho que instiga e encanta

pelo modo singular que foi composto.

Na primeira orelha do livro, o escritor, José

Antonio Pereira, nos convida a “percorrer as

“geografias” do lugar” e invoca a origem do

autor, descendente de narradores e contadores

de histórias das vendas de estradas e vilas...

das rodas em torno das fogueiras e dos

altos de serras. J. A. Pereira sentiu também

no texto a “melancolia do tempo escorrendo

nos silêncios.”

Num texto mais acadêmico, a escritora e

educadora Lisete Bertotto remonta à mitologia

egípcia, buscando Hórus, cujo olho esquerdo

simboliza lua e o direito o sol. Arguta

em suas observações, Lisete encontrou no

Duas Cruzes um “olhar que descreve e outro

que intui” e fala da “simplicidade elegante

dos amantes da literatura.” A escritora segue

no seu prefácio, com colocações filosófico

literárias que só lendo para avaliar a beleza

de seu texto.

Na última capa, o escritor Emerson Cardoso,

dá a sua contribuição e expõe suas impressões,

selecionando de início, uma frase que

metaforiza o “sorriso próprio de lua crescente”

e continua falando dos "costumes interioranos,

laços familiares, questões políticas e

morais, traições e personagens que se utilizam

da leitura como lenitivo para os momentos

de solidão.”.

Do lado de cá, e diferentemente dos escritores

que citei, recebi a obra já composta, vestida

e na sua morada final – o livro - o que

dá ainda mais significados às palavras de José

Vecchi.

Como se depreende depois da primeira leitura

dos contos, estamos tratando de um livro

inspirador e bem cuidado na sua criação.

Coisas de mineiro que tateia o teclado, pesa,

pondera, volta e sem pressa põe significado

75


Chicos

no que pensa, através das palavras que tece.

Desde a capa azul, onde vemos um miserável

cão expondo as costelas - seu nome seria

Pelanca, vim saber no ato da leitura – e um

jogo de palavras cruzadas encimando a patética

figura, deixa entrever em cores brancas e

amarelas os enunciados “Duas” e “Cruzes”.

Curiosamente, a ossaria de Pelanca me remeteu

à forma das cruzadas, mas isso foi

apenas uma associação sem nexo de minha

imaginação, confesso. O que é certo é que a

compleição de pelanca, com suas parcas carnes

e músculos nos contam também, como o

fazem as palavras, mas aqui de forma simbólica,

a história da miséria do mundo. Não é a

toa que imagem de Pelanca em preto e branco

perpassa praticamente todo o livro.

A escrita de José de José Vecchi é coloquial

até o osso. E, como as boas obras, nos

deixa incomodados, questionadores. O que

haveria por trás desse texto de leitura fácil e

de temas correntes? Quais são as mensagens

subliminares do texto? Essas são as perguntas

que me fiz para buscar essa modesta avaliação

deste “Duas Cruzes”. Vencida a ansiedade,

comecei a releitura palmilhando o caminho

de minhas impressões sobre excertos

da obra que me impressionaram, ora pela

beleza, ora pela simplicidade e singeleza e

alguns pela carga filosófica que continham.

Já na página 08, escreve o autor: “Seu Juca

era homem de pequenas lavouras e uns boizinhos;

calos nas mãos e pele crispada. Haviam

me falado para ter certo cuidado com as

palavras, ir devagar nos assuntos, sem atropelos.

O rio esconde os peixes e os mistérios

nas profundezas do leito. Tudo o que mostra

são as superfícies e as margens. Se quer conhecer

melhor, tem que mergulhar movendo

as águas, tocando levemente o barro, a areia

e os seus segredos, revolvendo os seixos sem

turvar a água, sem estardalhaço.”

(Posso estar exagerando, mas a poética e a

carga de sabedoria dessas palavras sobre a

“Prudência” que devemos ter com o que parece

nos ser conhecido, nos remete a grandes

nomes como Machado de Assis, com seu

Dom Casmurro, Rosa e seus personagens

mateiros. Sem exagero, nos leva, às lições

sobre as Virtudes humanas escritas pelo mais

distante no tempo e tão próximo de nossas

vidas, o mestre da filosofia, Aristóteles).

Compulsando o livro encontramos na página

57, um primor de texto. Ao relatar a morte

de Leocádio Hora, que sofrera um enfarte

diante da presença do irmão, por ele traído

em tempos autoritários, encerra o parágrafo

com maestria, denunciando o falso e oportuno

sentimento de pesar dos presentes ao velório,

que nega a história de traição do morto:

“O perdão mora na pele; a mágoa no intestino.”

Eis outra construção poética e filosófica

da obra.

José Vecchi demonstra também no seu Duas

Cruzes ser um construtor de belas metáforas.

Vejamos: Ao escrever sobre a falta de perspectiva

na vida do tio: “Era sempre assim,

ficava um bom tempo por ali, com sua quietude,

meio escondido por detrás das densas

cortinas de samambaias choronas. A luz apagada.

Ele e seu silêncio. Sua vida parecia um

ponto final...” (pg.24).

Sobre o remorso do mesmo personagem:

“Sua tia foi-se de desgosto. Fico aqui remoendo,

pagando essa dívida, parcelas que não

acabam mais.” (pg. 25).

Sobre o tempo e a memória: “Porque o

tempo parece um velho como eu, manias e

hora certa para cada um. Basta um pequeno

descuido, uma pequena pausa nos afazeres,

e ele põe o vento a passar levemente, puxando

uma linha como se fosse um varal. As

coisas vão desfilando penduradas nesse fio

em nossa frente, devagar. A gente vai vendo

tudo num varal de memórias. Tem coisa que

para, fica ali agarrada. É como se o vento

formasse um redemoinho, coisa do cão, fazendo

a linha ali se enrolar no corpo da gente.

Vira um emaranhado.” (pg. 26)

76


Chicos

“O tempo e as atribulações soterram os sentimentos,

eles ficam ali, silenciosos, sepultos,

consumidos pelos vermes cotidianos. Depois

voltam e nos assombram.” (pg. 53)

Sobre o ciúme: “Mas o Nilo se enciumou,

andou reclamando com ela. Isso ajudou a

despertar algum interesse. Ciúme demais é

como sopro de vento na brasa, atiça o fogo

como se fosse magia.”

Sobre a noite: “A noite estava bonita. Um

céu invisível de tão escuro, ponteado de estrelas

grandes e pequenas, e uma lua escancarando

um sorriso próprio de lua crescente.”

(pg. 28)

Sobre o desejo: "Joana me olhava e seus

olhos entravam pelos meus, feito uma sonda,

me esquadrinhavam a alma.” (pg. 36)

“Segurou minha mão e seus olhos me engoliram

feito um redemoinho.”(pg. 35)

“É cheiro, gosto, vontade mesmo. Acho que

ela te espera. Fogo brando. Vento que atiça

o fogo trouxe você de volta aqui.” (pg. 29)

Enfim, trata-se de um livro agradável

de ler, cheio de ensinamentos, que nos alenta,

transforma e enriquece de bons sentimentos,

mesmo diante dos sofrimentos humanos

que perpassam seu texto: “Caminhava às cegas,

o que não me era comum. Parecia conduzido

pelo fio zombeteiro do destino, lentamente,

com venda nos olhos para não saber

aonde e como iria chegar.” (Pg.52)

“Joana ficou triste. Trabalha muito. E ainda

ajuda o pai. Moça distinta. Tinha tudo para

ser boa esposa e mãe. Mas beleza, quando é

demais, tanto atrai como afasta. “(Pg. 29)

“A despeito da liberdade que abduziu de

tanta gente, tornou-se prisioneiro de si mesmo,

do medo e da própria desonra.” (pg.

106)

Para não fugir à regra dos bons escritores,

José Vecchi, no conto, Mirina, a louca

da estrada, deixa fluir sua mineiridade ao

destilar a frase: “O que se sabe é que ela não

era assim de nascença” (Pg. 70); o faz também

de forma definitiva no conto que dá nome

à obra: “Isso foi muito inhantes de tudo.”

(Pg. 102)

E como não poderia faltar dito popular

em um bom livro de contos, José Vecchi, dá

início a um dos parágrafos do conto O Fim

do Mundo com mais uma pitada de mineiridade

e sabedoria: “Quando a conversa é

boa, o tempo voa.”

É de se comemorar a aparição desse

trabalho de José Vecchi. Duas Cruzes é um

livro definitivo no seu currículo e, ainda se

ele quiser, pode entrecruzar seus personagens

e histórias, produzindo a partir daí, um

belo romance.

Mas isso é apenas um pitaco meu.

77


Chicos

Andressa Barichello

Nasceu em São Paulo - SP, atualmente mora

em Portugal. É autora do livro Crônicas do Cotidiano

e outras mais (Scortecci, 2014). É cofundadora

do projeto fotoverbe-se.com.

Dois poetas e um acaso.

Livro Como se fosse a casa (uma correspondência)

de Ana Martins Marques e

Eduardo Jorge explora territórios com delicadeza

e provoca o leitor a refletir sobre modos

de estar.

Eduardo Jorge passa uma temporada fora

do país. Ana Martins Marques precisa de pouso

em Belo Horizonte. Ele tem o apartamento

e se faz ausente, ela pode entrar com o corpo.

Esse é o contexto, ou o pretexto, que dá

ensejo à escritura dos poemas que integram o

livro Como se fosse a casa (uma correspondência)

[Relicário Editora, 2017,48p.]. Mas

dizer que a obra, feita em coautoria, é resultado

das correspondências poéticas trocadas

entre os dois durante o período em que Ana

residiu no Edifício JK, em Belo Horizonte, parece

pouco para tentar situar a potência desse

trabalho, capaz de sublinhar tão bem que

há camadas de afeto a recobrir até mesmo

questões de aparência eminentemente práticas.

O gesto de ocupar a casa de alguém durante

uma ausência parece acentuar naquele

que está à distância a sensação de [não] saber

o que se desenrola no espaço que abriga

grande parte de seus objetos pessoais e, especialmente,

a dimensão de sua intimidade.

Ao mesmo tempo, desencadeia um esforço

em dar conta dessa ausência que a presença

de alguém pontua. Mas seria possível sabê-lo

antes de aceitar o ingresso e a permanência

do outro?

E seria possível, então, admitir que a casa

que chamamos de nossa continua a existir a

despeito do nosso deslocamento? Será nada

além de fantasia a ideia de que alguém possa,

mais do que ocupar, ocupar-se desse território?

Terá sido possível à Ana reconhecer-se

como senhora daquelas coisas que ali se dispunham

ao uso? Se não, como construir um

espaço de acomodação? Talvez via palavra

incluir, de modo virtual, uma presença também

ela em potência? Terá sido possível a

Eduardo não fazer de Ana, enquanto lá, uma

extensão falante, um guia, capaz de ajudar a

traduzir o que é que se passa na extensão de

si mesmo enquanto falta? Terão as palavras a

capacidade de transformar o que é ausência

em mera distância? Quais são, de fato, as

fronteiras entre lugares, corpos e afetos?

Como se fosse a casa (uma correspondência)

é um livro que borra [e barra] a ideia de

que providências e arranjos podem existir

sem que movimentem algo nos sujeitos da

ação, porque, ainda que provisórias, a saída

78


Chicos

de Eduardo Jorge e a entrada de Ana no edifício

JK inauguram desde logo um movimento e despertam

outras necessidades e inquietações quando

tudo, no discurso, poderia, ou pareceria, encerrar-se

num mero estar hospedado.

No contexto da obra, a palavra “hospedar”

remete a um sentido que ultrapassa o abrigo. O

apartamento-corpo recebe Ana como um novo

órgão ou tecido ao passo que o apartamentouniverso-simbólico-de-Eduardo

nutre a amiga

poeta. Ana, quase uma parasita, pois ainda que

não causasse dano, trazia seu corpo, um corpo

estranho, para dentro de outro.

O apartamento, então, lido como um organismo

que, mesmo parado, executa uma série de

processos necessários à vida – tendo funcionamento

próprio ao mesmo tempo em que se presta

como ponto de observação para tudo que se

desenrola fora e que pode ser visto através das

janelas. Mais do que habitar uma unidade, os

poetas habitaram um edifício inteiro, capaz de se

estender pela multiplicação de palavras até alcançar

o outro lado do oceano. A habitação provisória

possibilitou que ambos estivessem ao

mesmo tempo dentro e fora do edifício JK.

Embora pensar em casa remeta à ideia de um

estar dentro, vale lembrar que os poetas compartilham

também a experiência de um estar fora.

Nesse ponto as concepções de “lar” e “exílio” se

alternam e levam o leitor a refletir sobre os lugares

de sua própria intimidade, percorrendo da

casa da infância à casa sonhada, entre as casas

da fantasia, as que nunca foram e nem serão,

mas sobretudo podendo passar a se ocupar da

casa que há.

Tendo o acaso como catalisador, por meio da

criação despretensiosa de uma estadia providencial,

os autores tornaram possível uma investigação

sobre modos de estar no espaço – especialmente

quando esse espaço ainda carrega as marcas

de um habitante pregresso. Nesse ponto, são

rompidos os limites da relação privada e doméstica,

com um convite a pensarmos a própria vida

no coletivo e as relações que estabelecemos com

a alteridade e com o tempo passado, presente e

futuro. Será possível a construção de uma casa

sem essa alteridade por vezes acolhedora e outras

vezes tão incômoda? Será possível, entre

tantas impermanências, a existência de uma casa

que não seja aquela simbólica, chama carregada

no próprio corpo por todos e cada um? Conjugados

são os apartamentos – mas também os verbos,

tantos jeitos de morar. Ana Martins Marques

e Eduardo Jorge também levaram a cabo a

tarefa de manter plural a linguagem em troca

que possui um eixo comum mas conserva as

marcas autorais; tantos jeitos de habitar a palavra.

Para além das hesitações e questionamentos

e do lirismo que acompanha a construção de poemas,

que parecem pequenos ensaios sobre a

condição de habitante/residente, encontramos

referências ao concreto. As regras do condomínio,

os protocolos e tantas outras determinações

alheias à autoria de cada morador dão notícias

de alguns dos embates que ocorrem na mediação

entre o espaço físico e simbólico, entre desejo

e contingência durante a tarefa infinita de

recorte de um espaço real no qual possamos espelhar

e refletir nossa subjetividade.

O subtítulo do livro, “uma correspondência”,

fala, por óbvio, de uma troca de mensagens ao

estilo de uma troca de cartas, mas toca também

na questão da similitude, na possibilidade de

analogia entre coisas, pessoas e ideias a despeito

das diferenças. Na brincadeira de pensarmos a

correspondência em alusão à matemática temos,

por extensão, o sentido da regra por meio da

qual cada elemento de um conjunto é associado

a um ou mais elementos de outro conjunto.

Ana e Eduardo Jorge também fizeram, por

que não, uma espécie de brincadeira no resgate

lúdico de criar um conjunto descolado dos textos

curtos e instantâneos que utilizamos em nosso

cotidiano. A escritura e o envio de poemas instalam

um tipo de intercâmbio e reciprocidade que

acontece num tempo próprio, e cujos efeitos

produzidos não se podem dar a ver de imediato,

no momento da ação. O sentido se desenrola no

presente, no endereçamento e, claro, no depois.

Prova disso é que a posterior reunião dos escritos

para publicação exigiu dos poetas um retorno

às próprias palavras, uma ressignificação do

todo-dito. Como se fosse a casa (uma correspondência)

é, portanto, aquilo que se escolhe compartilhar;

é a redução, talvez, de uma casa ao

seu essencial, como se fosse a casa uma correspondência

devolvida ao seu vazio teimoso preenchido

de palavras – vazio que materializa no

objeto livro a celebração de que, sempre entre

paredes, somos feitos de ecos de outras vozes.

79


Chicos

Por Ana Martins Marques

Numa entrevista Anne Carson diz que

se a prosa é uma casa

a poesia é um homem em chamas

correndo rapidamente através dela

numa entrevista, quando lhe perguntaram

o que salvaria

se sua casa pegasse fogo

Jean Cocteau respondeu

que salvaria o fogo

no protocolo de incêndio

do condomínio do Edifício JK

está escrito

não fique parado na janela sem nenhuma defesa

o fogo procura espaço para queimar

e irá buscá-lo se você não estiver protegido

e também: mantenha-se vestido e molhe suas roupas

e também: feche todas as portas atrás de você

e ainda: rasteje para a saída, pois o ar é mais puro

junto ao chão

e ainda: uma vez que tenha conseguido escapar

não retorne

*

um caramujo

como uma caixa de fósforos

que levasse nas costas

o incêndio da casa.

80


Chicos

Por Eduardo Jorge

como se casa fosse

a casa, como se a casa fosse

fóssil, casca, espaço físsil

momento preciso, decisão

de cisão do mundo, mas

fora, comendo números

bebendo lácteos, doces, salgados

refeição ordinária e sacra

o especulador expele fumaça

e é cantado por coroinhas

o vai e vem do sal: o sono

cardíaco com um véu de tabaco

o nome em contrato soma

as contingências, estatística

de êxitos, casa, como se casa fosse,

números, os dela os dele, e,

em saber de máscara,

em saber de miséria, existe

a repetição: nenhuma,

nenhuma tradição a oferecer

salvo uma partida,

vontade estelar, vontade

como se vontade encenada fosse

pela pessoa a trinta

graus de mim, fosse

este erro eu, a casa, lar, ela pensa,

81


Chicos

vontade estelar, a beleza tão

esperada em pão, água:

comem, roem a beleza.

limpam a libido dos olhos,

e coçam a pergunta, como sono,

seria uma lei falada o amor?

Como se fosse a casa: uma correspondệncia

Autores: Ana Martins Marques, Eduardo Jorge

Editora Relicario Edições, 2017

https://www.relicarioedicoes.com/como-se-fosse-a-casa

82


Chicos

Clips

"Se em “Tradução das manhãs” e “O livro das

mãos” (vencedores em 2014 e 2018 do Prêmio

Glória de Sant’Anna 2018) Gisela Gracias Ramos

Ramos já vinha pronunciando o seu rigor

formal e a economia de meios como recursos

para sua pulsação poética, em “A pedra e o corpo”

a autora radicaliza seu estilete, ao conformar

uma obra ainda mais burilada e reduzida ao

essencial, naquilo que ela persegue desde sempre:

a comunicação plena sem rodeios verbais

ou adereços de qualquer espécie. Poesia enxuta,

de uma consciência aguda e esmero da linguagem,

mescla poemas curtos e diretos, à maneira

de João Cabral de Melo Neto com uma densidade

interna, em que o tecido íntimo de sua invenção

vai cortando na própria epiderme da palavra,

fruto de um meticuloso processo de elaboração

que confronta o racional e o sensorial,

pontos nevrálgicos de sua arte."

Ronaldo Cagiano, no posfácio.

Esta é a Sapeca nº 15

Editada pelo nosso impagável Tonico Soares

https://www.yumpu.com/pt/document/view/62226276/sapeca-15

Em breve nas livrarias o novo livro de Inez Andrade

Paes - Sobre a Água . Dentro Dela . Anda

uma Ponte - Editora Glaciar

83


Chicos

Os rios de mim

Nessas águas andarilhas

do velho e escaldado rio

que serpenteia pela minha cidade

(ou pela minha veia?)

debruço-me num espelho insosso:

histórias que vão e vêm

entre expurgos do que não f(l)ui.

O poeta e escritor brasileiro Ronaldo Cagiano

conhece seu ofício de escrever, de percorrer palavras

em versos que marcam e poemas que

atravessam a memória. Prova disso é este belo

Os rios de mim, uma reunião de poemas que

tem ao fundo Cataguases, em Minas Gerais, no

Brasil, a cidade onde nasceu que vive em sua

lembrança. Basta citar um verso de um poema

no final do livro: “A viagem ao passado nunca

regressa”. O livro de Cagiano é uma viagem que

salta de Cataguases e percorre sua poesia por

muitos outros lugares do mundo e também pelas

ruas rudes de São Paulo, onde vive toda a angústia.

Não é à toa que Ronaldo Cagiano escolheu

versos de Fernando Pessoa para sinalizar

seus poemas ao leitor: “Entre o que vive e a vida/

para que lado corre o rio?”. No caso de Cagiano,

trata-se do rio de Cataguases, a exemplo

do rio da aldeia de Pessoa. O poeta adianta que

velhas histórias vão no leito desse rio de sua cidade.

No fundo, toda a paisagem de Cataguases,

que o poeta atravessa nostálgico de si mesmo,

a colher as imagens que pertencem à sua

vida, seus cardumes de solidão.

Conversando num poema com o poeta Murilo

Mendes, Cagiano diz que a poesia está em pânico.

É verdade. Mas, no seu caso, um pânico de

encantamento, se é que cabe a expressão, de

envolvimento com a poesia num mergulho profundo

a descobrir ainda o que viveu e ainda vive.

Cagiano revela em Os rios de mim o grande

poeta que é.

Um poeta que não cede a qualquer tipo de facilidade

e segue com passos firmes em busca dessa

poesia necessária à vida dos seres humanos.

Poemas de fina elaboração, de palavras corretas

no devido lugar de sua narrativa poética de absoluta

qualidade. Eis um livro de poesia que merece

respeito. Um livro que contém versos assim:

“Não há metáfora possível/ no cativeiro da

fé”. É o encontro da Beleza.

Álvaro Alves de Faria

http://editoraurutau.com.br/

formato: 14 x 19,5

páginas: 94

papel: pólen 80 gramas

ano de edição: 2018

edição: 1ª

84

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