Revista ComTempo, edição nº 3, de janeiro a março de 2019

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Sua revista digital com jeitinho de impressa.

EDITORIAL

QUALQUER COISA É SÓ DIZER

QUE FOI UMA METÁFORA

Após a posse do novo presidente

do Brasil, muitos inteligentes começaram

a ter a sensação de dejavú.

Alguns, com mais bagagem

de vida e experiência, já assistiram este

filme mais de uma vez. Muitos se sentiram

entrando em 1964 e não em 2019.

Para outros, em sua grande maioria os

EDIÇÃO Nº 1 - Comtempo

Equipe de idealização e redação

Gabriela Brack, José Piutti, Kimberly Souza e Marcos Pitta

Equipe de criação

Marília Toffoli e Henrique Escher

Diagramação

Marcos Pitta

Edição e monitoramento de rede social

José Piutti e Carolina Paulino

Colaboradores de reportagens

Mayra Carvalho da Silva, Pedro Leal, Mariana Ferreira,

Ana Carolina Januário e Martina Colafemina.

Colaboradores de artigos

Natália Salvador, Ana Karen Soares e Marcos Bergamasco.

Arte ComTempo última página

Fernando Ravanelli

profissionais da comunicação, tiveram a

sensação de estar nos Estados Unidos da

América.

O governo Bolsonaro para com a

imprensa começa da mesma forma que

o governo Trump na maior potência mundial,

com descaso. Como pode, em pleno

século 21, um presidente eleito democraticamente

desmoralizar e ferir uma das

profissões mais antigas do mundo, que

está ali para fazer, nada mais que seu trabalho

de informar.

O relato da jornalista Monica Bergamo

na Folha de São Paulo foi suficiente

para ver que mais dias de cão, virão. Centenas

de profissionais viram seus quatro

anos de estudo árduos jogados no chão,

assim como eles. Afinal, foi no chão que

eles aguardaram o momento da posse,

pois não havia cadeiras no salão. Aliás,

até tinha, mas foram retiradas.

Primeiro de janeiro de 2019 certamente

foi um dia histórico, um novo presidente

assume a nação após 12 anos

de mandato de um único partido. Eleito

democraticamente, prometendo mudanças,

salvação e, em seu primeiro dia, fere

aquela que seria sua principal aliada, a

comunicação.

Nos dias seguintes, mais tristezas,

só para citar dois exemplos, a comunidade

LGBTQ+ foi retirada das diretrizes dos

direitos humanos e a ministra da Mulher,

Família e Direitos Humanos, disse após

assumir a pasta, que menino veste azul e

menina veste rosa, talvez a frase mais infeliz

já dita por ela em toda sua trajetória.

Após a repercussão de sua fala, a

ministra Damares Alves disse, em entrevista

ao Jornal das Dez, da Globo News,

não estar arrependida do que disse: “Foi

uma metáfora. Nós temos no Brasil o ‘Ou-

tubro Rosa’, que diz respeito ao câncer de

mama com mulheres, temos o ‘Novembro

Azul’ com relação ao câncer de próstata

com o homem. Então, quando eu disse

que menina veste cor de rosa e menino

veste azul, é que nós vamos estar respeitando

a identidade biológica das crianças”,

disse.

Dito isso, é melhor prepararmos

olhos e ouvidos, para enxergarmos e

ouvirmos comentários preconceituosos,

racistas, machistas e homofóbicos disfarçados

como figuras de linguagens. O

editorial desta edição não vem disfarçado

de receita de bolo de cenoura, mas se

algum dia for preciso usar deste artifício,

será fácil encontrar a solução. Afinal, bastará

dizer que se trata de uma metáfora.

Aliás, se tudo continuar com o andar

da carruagem de quase um mês de

governo, os brasileiros já pode começar

a inserir esta palavra em seu dicionário

do dia a dia. Qualquer atitude que possa

ser usada contra você pode ser facilmente

substituída por uma metáfora. O melhor

de tudo, é que serão quatro anos de muitas

gargalhadas. Pessoas que até ontem

não sabiam o significado de uma figura de

linguagem, hoje defendem a fala da ministra

com imensos textos nas redes sociais.

Por falar em redes sociais, elas serão as

mais beneficiadas com tudo isso. As notícias

irão dobrar; as fake news triplicar

e quanto aos memes, nem é bom tentar

calcular. O espetáculo já começou, só que

de forma invertida. São mais de 209 milhões

de palhaços sentados nas arquibancadas

deste grande circo, e no picadeiro o

presidente e seus partiners ministros que

dominam este grande circo. Calma, essa

comparação foi só uma metáfora muito

bem utilizada.


OPINIÃO

JORNALISMO

CONVENIENTE

NATÁLIA SALVADOR PEREIRA

É

o décimo quinto dia de 2019. Abro o notebook

para escrever este artigo e me dou conta

de que ainda não liguei minha tevê este

ano. Outra constatação é não ter lido uma linha

de qualquer de revista ou jornal impresso. Apesar

disso, não passei um dia sem acompanhar as notícias

do Brasil e do mundo.

São 7h26 da manhã. Checo

meu e-mail e a edição do Canal

Meio já está em minha caixa de entrada,

com o resumo das principais

notícias do dia. Enquanto dou uma

conferida, meu namorido vem até o

escritório me dar bom dia. Ele está

com o celular ligado, ouvindo o Café

da Manhã, podcast de notícias da

Folha de São Paulo.

Essa migração no consumo

de informações, de canais tradicionais

para novas plataformas, não foi

um processo pontual nem intencional.

Em 2015, me apaixonei pela

plataforma Medium e lá conheci o

projeto Brio, dedicado a publicação

de grandes reportagens, algumas

delas divididas em capítulos semanais.

Na época eu acompanhava as

histórias com o apego de quem seguia

um seriado.

Em meados de 2018, no

ápice da campanha eleitoral e das

famigeradas fake news, me tornei

assinante do Nexo, jornal digital que

eu já acompanhava há alguns anos

e que estava fazendo uma cobertura

de altíssimo nível.

Outra forma que passei a

acompanhar os resumos das notícias

é pelo Instagram Stories e IGTV.

Gosto da criatividade dos jornais para

adaptarem sua linguagem para as

mídias sociais e divulgarem seus conteúdos.

Vale conferir o perfil da National

Geographic Channel com abordagens

fascinantes, a edição diária Não

Durma Sem Saber, da Folha, e o bem

Como o novo jornalismo

se ajustou à minha

rotina e transformou

meus hábitos

de consumir notícias.

humorado Drops, do Estadão.

Nos últimos meses um novo hábito toma

conta dos meus dias: ouvir podcasts. Um amigo

me apresentou o semanal Foro de Teresina, da

Revista Piauí, que de cara virou favorito. No campo

dos noticiários, outros queridinhos são o já citado

Café da Manhã, da Folha, e o Durma com Essa,

do Nexo, que ouço diariamente pelo Spotify.

O que vejo de mais legal nesse movimento

de novas mídias e forma de fazer jornalismo é a

liberdade que a internet possibilita de experimentar,

sair do óbvio e arriscar novos formatos. Percebo

que o jornalismo está cada vez mais conveniente.

Ao invés de eu ter que adaptar meus horários para

receber as notícias, são as notícias que se adaptam

à minha rotina e ao meu estilo de vida. E mais:

diferente daquele modelo de jornalismo formal e

sisudo, surgem plataformas leves e irreverentes,

com nível de qualidade excelente.

Por outro lado, sei também do desafio

para os veículos conseguirem

retorno financeiro com seus projetos.

Infelizmente por essa questão,

muitas iniciativas bacanas acabam

morrendo. O Brio, por exemplo, teve

que adaptar seu formato para poder

sobreviver. A mídia em geral atravessa

uma crise braba e busca se ajustar

a novos tempos de receitas cada vez

mais pulverizadas.

Nesse cenário, vejo muitas pessoas

lamentando a crise do jornalismo e

das empresas jornalísticas. Entretanto,

percebo o quanto nós, brasileiros,

somos resistentes a pagar para consumir

notícia de qualidade, ainda que

o custo-benefício seja indiscutível.

São 20h15 da noite. Ligo o notebook

para revisar este artigo e abro

uma cervejinha para relaxar. Noto que

o preço da cerveja equivale a quase

um mês de assinatura desses jornais

super bacanas que acabei de citar.

Em tempo – a cerveja não é daquelas

especiais e caras, não. Está aí outra

conveniência do novo jornalismo: em

geral, custa menos do que pensamos

e entrega muito mais qualidade do que

estávamos acostumados a receber.

Colaboração de Natália Salvador, Jornalista

por formação e publicitária por

dedicação. Mãe da Helena e sócia

da com5 comunicação, está sempre

pronta para tomar uma cervejinha, jogar

conversa fora ou discutir o futuro

do passado.


OPINIÃO

Os movimentos que as

declarações de Bolsonaro

causam no cenário internacional

(Allan Santos/Presidência da República)

ANA KAREN SOARES FERREIRA

Desde o início da disputa eleitoral, o

atual presidente Jair Bolsonaro já

causava insegurança no cenário internacional

com suas declarações

sobre os acordos econômicos e ambientais

que existem entre o Brasil e vários outros Estados.

Um exemplo, é a declaração que Bolsonaro

fez em uma transmissão ao vivo por uma

rede social de que o país deixaria o Acordo de

Paris, caso as mudanças propostas não fossem

atendidas. Porém, pouco tempo depois

de sua declaração, o presidente disse que o

país não deixaria o acordo climático. O problema

das afirmações que o presidente eleito faz

é a instabilidade que gera no exterior. O outro

problema das declarações de Bolsonaro é que

elas se assemelham as declarações de Donald

Trump, presidente dos Estados Unidos,

que em julho de 2017 deixou o Acordo de Paris

com a justificativa de que as exigências do

acordo do clima não eram justas e que prejudicariam

a economia do país norte-americano.

Recentemente, o presidente brasileiro

confirmou a saída do Brasil do Pacto Global

de Migração, outra medida que se aproxima da

política anti imigrantes de Trump. A decisão tomada

pelo presidente deixa o Brasil com uma

imagem negativa internacionalmente, pois o

país foi muitas vezes reconhecido como um refúgio

para imigrantes. Ademais as crises com

os imigrantes venezuelanos que ocorrem na

fronteira entre os dois Estados se intensificaram

após declarações provocativas de Bolsonaro

contra a Venezuela. Como a pauta sobre o

Mercosul que gera instabilidade e insegurança.

O Mercosul é um tratado de Livre Comércio

entre os países da América Latina e

Bolsonaro já afirmou que o bloco econômico

era uma ferramenta de “viés ideológico” utilizado

pelos petistas. O ministro da econômia do

governo de Bolsonaro, Paulo Guedes afirmou

logo depois da eleição que o bloco econômico

não seria visto com prioridade no governo. Tais

afirmações são prejudiciais tanto para o Brasil

quanto para os demais países do tratado, pois

a relação de livre comércio existente no bloco

econômico é benéfica para todos os Estados

presentes. Outra afirmação de Jair Bolsonaro

que gera desconforto entre os países, ainda

sobre o Mercosul é de que segundo a cláusula

democrática do tratado, a Venezuela não

deveria fazer parte do bloco. Porém, segundo

o Protocolo de Ushuaia a Venezuela está suspensa

do Mercosul desde 2017. A declaração

sobre o país latino-americano serviu apenas

para provocação e aumento da instabilidade

política e econômica que existe atualmente entre

a Venezuela e outros Estados da América.

Além das provocações do presidente para com

a Venezuela, houveram provocações com a

China. A China respondeu as declarações de

Bolsonaro com uma publicação em seu principal

jornal estatal afirmando que as exportações

do Brasil para a China são importantes para o

crescimento econômico de ambos os países.

Essas e outras afirmações do presidente

tiveram repercussão negativa internacionalmente

devido ao seu conteúdo radical e

contraditório na medida em que se aproxima do

discurso neoliberal de Donald Trump e do discurso

nacionalista e patriota dos militares. Além

disso, houveram outras alegações que feriram

direitos humanos já conquistados internacionalmente

e dos quais o Brasil faz parte nos tratados

internacionais dos direitos humanos. Ainda que

certas alegações não se tornem efetivamente

ações, elas são uma ameaça para a imagem

internacional do país, causando um ambiente

inseguro na política e na economia.

Colaboração de Ana Karen Soares Ferreira,

graduanda do curso de Relações Internacionais

da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp).


OPINIÃO

O aprisionamento por

trás do uso excessivo

de aplicativos mobile:

MARCOS EDUARDO DA SILVA BERGAMASCO

É

difícil imaginar nossas vidas sem o

uso de aplicativos para celulares, não

é? Ainda mais para nós brasileiros

que somos campeões mundiais em

uso de aplicativos mobile segundo a App Annie

que faz análises globais sobre o mercado

de aplicativos em dispositivos móveis. O estudo

da companhia registrou que o brasileiro

usa em média 12 aplicativos a cada 24 horas

em seu aparelho celular.

Se tornou eminente o fato de que hoje

os aplicativos celulares são indispensáveis

até mesmo nas horas de trabalho de várias

empresas que utilizam os serviços de aplicações

para garantir uma maior eficiência e

agilidade em seus afazeres.

Entretanto o uso de aplicações em

celulares, não estão somente ligadas a obrigações

pessoais, mas sim durante todo o dia

incluindo principalmente horários de lazer, no

qual o maior número de usuários é referente

aos jovens com a faixa etária de 10 a 22 anos

de idade.

A partir do uso compulsivo dos softwares,

se dá início ao isolamento social, onde as

pessoas se veem interagindo estaticamente

com seus dispositivos móveis, sem realizar

nenhum tipo de atividade com pessoas ao

seu redor. Neste momento, já é perceptível

a presença do vício que o indivíduo tem em

relação ao uso do aparelho.

Acreditava-se que o uso prolongado

dos aparelhos móveis poderia provocar uma

síndrome denominada TextNeck que afeta a

coluna vertebral, porém em estudos mais recentes,

pesquisadores afirmam que não há

relação da síndrome com o uso exacerbado

dos celulares, e dessa forma, não poderiam

causar riscos significativos ao nosso corpo.

Apesar disso, diversas pessoas relatam dores

cervicais e desalinhamento na postura

durante o constante uso de aparelhos móveis,

e em função disso, um projeto de lei

está sob análise em Comissão de Defesa do

Consumidor do Senado que tem como proposta

a inscrição obrigatória de alertas para o

uso moderado nos aparelhos celulares.

Será mesmo que estamos livres de

complicações físicas em relação ao consumo

dos aplicativos mobile? o que eles possuem

para conquistar tantas horas de atenção que

são dedicadas por nós? Por que utilizamos

aplicativos de forma demasiada?

As empresas desenvolvedoras de

aplicativos híbridos para mobile estão cada

vez mais investindo em estudos de usabilidade

para poderem aprimorar seus softwares e

torna-los sempre mais adaptados ao usuário.

Dessa forma, não é necessário aprender a

utilizar um aplicativo, pois o mesmo já possui

técnicas de interface que deixam claro qual o

objetivo de cada função visível na tela. Este

processo permite que a pessoa já tenha conhecimento

do uso da aplicação antes mesmo

de usa-las.

Para esclarecer melhor sobre a interface,

nas próximas linhas vamos definir o que

ela é, para que ela serve e por que ela é tão

importante.

A interface é tudo aquilo que nós conseguimos

interagir com o aplicativo, seja por

meio da visão, tato ou audição. Isso significa

que, em um aplicativo, tudo que possamos

ver, “clicar” e ouvir é tratado como interface,

que por sua vez, é a responsável por criar

uma “ponte” do sistema do software para o

usuário final, e assim permitir que pessoas

consigam entender qual a finalidade de cada

função da aplicação, como por exemplo um

botão, um campo de texto, uma imagem entre

outras diversas funções.

Agora já sabemos o por que ela é tão

importante, afinal imagine como seria um

aplicativo sem botões, barras, ícones, imagens,

cores ou qualquer coisa que possamos

interagir. Seria totalmente ocioso e não teria

objetivo algum.

Além desta jogada de usabilidade,

assim como nós, as empresas desenvolvedoras

de aplicativos também sabem que

hoje em dia a busca por entretenimento se

tornou muito maior do que a busca por conhecimento,

e isso ficou muito claro quando

a UOL compartilhou a lista dos aplicativos

mais baixados do mundo, tendo nos 5 primeiros

lugares o Instagram, Snapchat, Facebook,

Messenger e o Whatsapp que ficou

com a primeira posição.

Eu sei o que você deve estar pensando.

“O Whatsapp é um aplicativo para

comunicação, e não para utilizar como entretenimento”.

Errado! A verdade é que o

Whatsapp inicialmente tem o objetivo de

promover contato por texto, áudio ou vídeo

entre as pessoas. Porém hoje em dia ele é

mais usado para compartilhamento de áudios,

fotos e vídeos que são usados apenas

como diversão coletiva, permitindo assim o

enriquecimento do entretenimento virtual perante

os humanos.

Dessa maneira é predominantemente

visível que os aplicativos sociais para mobile

estão cada vez mais caminhando para a

ascensão das plataformas de aplicações utilitárias.

Em contrapartida nos vemos totalmente

consumidos pelos softwares que em sua

real essência, buscam abranger mais usuários

para garantir sucesso, e eventualmente

trabalhar com atualizações para melhorar o

empenho da aplicação, no intuito de manter

as pessoas sempre próximas ao aplicativo, e

é neste ponto onde nos vemos como prisioneiros

de algo que nós mesmos pensamos

controlar, mas na verdade, estamos apenas

sendo controlados.

Colaboração de Marcos Eduardo da Silva

Bergamasco, estudante de Sistemas de Informação

do Centro Universitário Unifafibe.


EDUCAÇÃO

Dos 13 milhões de desempregados no

país, 32% têm entre 18 e 24 anos

de idade. O levantamento realizado

pelo Instituto Brasileiro de Geografi a

e Estatística (IBGE), divulgados em agosto de

2018 é alarmante, mas não tão desesperador

quanto a situação dos jovens que terminaram

a faculdade e não conseguem colocação efetiva

no mercado de trabalho.

A solução, em alguns casos, é investir

em trabalhos temporários, em vagas que

fogem às habilidades para as quais se graduou

ou, como traz a edição da ComTempo,

trabalhos alternativos. Diante das incertezas,

somado ao desejo de independência e inovação,

os jovens, cada vez mais cedo, estão

optando por empreender.

É o caso de Douglas Matricarde, 23,

natural de Barretos, SP. Após terminar sua

faculdade de História, resgatou uma habilidade

antiga para tocar sua vida: o Inglês.

Em sua sala de aula virtual – e por vezes,

física, promove aulas do idioma de forma

acessível, personalizada e para diversas necessidades

e faixas etárias.

“EU ENSINO

PARA PESSOAS

COMO EU”

KIMBERLY SOUZA


Além da sala de aula digital, Douglas disponibiliza um espaço para ensinar (e inspirar) seus alunos.

ComTempo: Fale um pouco sobre

você.

Douglas: Tenho 23 anos, nasci e moro em

Barretos. Gosto de ouvir música, ler, ver

uns filmes nos fins de semana, escrever e

fazer várias pesquisas inúteis, que um dia

vão ser úteis pra algo.

ComTempo: Como a História entrou

em sua vida?

Douglas: Como existe um sistema que

praticamente obriga os jovens a decidirem

seu futuro aos 17 anos e eu tendo sido um

péssimo aluno no Ensino Médio, repetido

de ano e tudo mais, só queria deixar

aquilo pra trás e segui pra próxima etapa.

Foi quando, sem saber o que queria fazer,

prestei vestibular para a matéria que nunca

tinha ficado de recuperação. Junto com

a vontade de sair da casa dos meus pais,

comecei o curso em Jaboticabal e, depois

de um ano sofrido, voltei pra Barretos e

continuei o curso por aqui. Nessa época eu

já tinha deixado de só tentar fazer um curso

para cursar o que eu realmente queria.

Tive a sorte de descobrir nesse primeiro

ano de faculdade que minha vocação era

ser professor.

Diante do

desemprego, um

jovem decidiu

empreender e

revolucionar a

forma de

aprender idiomas.

ComTempo: Qual área da História te

interesse mais?

Douglas: É muito difícil dizer porque a História

te fornece um leque tão gigantesco de

informação e possibilidade, aguça tanto sua

criticidade, te apresenta todos os fatos que

a História acadêmica julga importante desde

a pré-história até ontem. Mas tenho uma

queda especial pela história social, que estuda

a sociedade como um todo, as divisões

de classe, o mecanismo de poder social e a

história cultural que é mais antropológica e

estuda as culturas populares e as interpretações

humanas sobre as coisas.

ComTempo: Pode falar um pouco do

seu Trabalho de Conclusão de Curso?

Douglas: Meu TCC foi bem sucinto, mas

com bastante empenho – cheguei a ler uns

40 livros pra fazer. O título dele é A Construção

Histórica Do Homossexual: Os Desdobramentos

Que Moldaram A Imagem E O

Preconceito Do Gay No Século XXI. Basicamente

eu tentei chegar ao início do que

a gente vê hoje como homofobia. Como as

relações humanas sobre sexualidade mudaram

após a ascensão do capitalismo, quem

padronizou o que entendemos hoje como

“normal” e quem julgou os que não fazem

parte deste padrão como “anormais”. Busquei

onde as palavras (como homossexualismo,

por exemplo) surgiram, quem criou e

por qual motivo. Estudei a influência da religião,

mas principalmente da medicina sobre

o controle dos corpos sociais. O controle que

queriam impor e quem queria impor. Estudei

como a chegada ao poder pela burguesia

colocou as pessoas em determinadas caixinhas

sendo elas principalmente divididas

em: o que era aceito e o que não era e como

isso refletia nos tabus e nos preconceitos

que estão enraizados na sociedade contemporânea.

30 páginas. Nota máxima.


ComTempo: E o Inglês? Como entrou

em sua vida?

Douglas: Como disse, eu era um péssimo

aluno. No ensino fundamental e médio,

sempre estava na escola fazendo recuperações

e exames. Com o inglês não era diferente.

Daí a patroa dos meus pais decidiu

me ajudar e uma vez por semana eu ia na

casa dela estudar Inglês. Ela disse então,

que eu tinha facilidade com o idioma, e que

me colocaria em um curso de Inglês. Eu estudava

em escola particular e agora também

em uma escola de idiomas pagos por ela. Eu

detestava.

ComTempo: Como foi o processo de

aprendizagem? Quanto tempo?

Douglas: Devo ter feito uns 5 anos de inglês.

Minha professora era americana e no

primeiro dia de aula disse: “Dentro da sala

não se fala Português. Façam mímica, desenhem,

mas não se fala português na sala de

aula, ok?”. Então ou aprendia ou aprendia.

Então comecei a pegar gosto pela língua.

Nunca quis ir para os EUA, mas gostava de

saber falar outro idioma.

ComTempo: Quando decidiu tornarse

professor de Inglês?

Douglas: Quando se é universitário (com

um bônus de morar sozinho), se é também

muito sem grana. Fazia estágio na Biblioteca

Municipal de Barretos e um amigo me disse

que iria sair do trabalho em uma escola

de inglês. Fui lá, fiz entrevista e entrei. Não

foi uma escolha, precisava de dinheiro e havia

uma vaga que cabia nos meus horários.

Além disso, o estágio iria acabar em seis

meses. Depois de uns meses percebi que

por mais que adorasse História, eu gostava

ainda mais de ser professor. O gosto pelo

Inglês voltou.

ComTempo: O que oferece como diferencial?

Douglas: Tudo que a escola tradicional

oferece, tento destruir ou pelo menos modificar.

Existem coisas que são muito difíceis de

se desvincular, mas acredito que o fato de

eu – como professor – me colocar no mesmo

patamar do aluno, que ensina e aprende simultaneamente,

tenha ele 10, 20 ou 60 anos,

já é uma quebra de paradigma. Colocando

isso com o fato de não seguir nenhuma “regra

de etiqueta” que uma sala de aula impõe

me torna mais próximo dos meus alunos e

alunas além de introduzir temas transversais

como a misoginia, o racismo, a LGBTfobia e

a consciência de classes dentro das aulas

de forma natural para que não sejam temas

especiais, apenas temas.

ComTempo: Por que optou por aulas

mais acessíveis?

Douglas: Acredito que quando temos a

sorte de nascer privilegiados de alguma forma,

temos que usar desses privilégios para

sermos úteis para quem não os teve. Então

decidi começar a dar aulas particulares incentivado

por uma amiga, em um valor justo.

Avaliei meus gastos, meu tempo, meus

materiais e coloquei um valor onde consigo

lucrar e proporcionar um curso de Inglês de

qualidade para quem quisesse fazer. Os livros

são caros, fiz minha própria apostila.

Nem todo mundo tem um lugar silencioso e

confortável para estudar, montei uma salinha

em casa.

Para quem não pode sair da sua cidade

para ter aulas, fazemos de forma virtual.

Para quem procura uma escola regular por

conta do certificado, procurei como poderia

emitir e agora emito. Tento juntar o meu privilégio

de saber outra língua, minha faculdade

de licenciatura e tentar passar isso por

um preço que não vai comprometer 30, 40%

da renda do aluno, como acontece.

ComTempo: Qual seu público e que

tipos de curso oferece?

Douglas: Confesso que ainda não desenvolvi

habilidade de lecionar para crianças

muito novas. Meus alunos e alunas são jovens

e adultos. Tenho uma aluna de 17 anos

que vai começar a faculdade em 2019 e uma

senhora de 55 que quer aprender porque

gosta de ouvir louvores em inglês e quer entender

o que dizem. Porém meu público médio

são pessoas jovens que estão tentando

uma ascensão social e profissional.

A maioria está entre os 20 e 30 anos.

Hoje ofereço cursos servem desde para

quem não sabe nada até para quem já tem

um nível avançado. Eu leciono com certificação

os cursos de Inglês Básico, Intermediário,

Avançado, Conversação, para viagens,

preparatórios para concursos e exames internacionais,

e inglês instrumental.

ComTempo: Você acredita que a

Educação deve ser acessível a todos?

Douglas: Claro. Acho que o professor que

não acredita nisso ou que se tornou professor

para ganhar muita grana, além de fazer

péssimas escolhas, está na profissão errada.

A educação é libertadora, o conhecimento

destrói a submissão.

Quem têm medo que o povo se eduque

é esse sistema que vivemos, em que o

objetivo é perpetuar a desigualdade social.

Eu sou filho de doméstica e de trabalhador

rural. Eu ensino para pessoas como eu.

ComTempo: Qual seria o “mundo

ideal” da Educação?

Douglas: É claro que atingir o que vou dizer

é muito difícil, leva muito tempo e soa

utópico, mas acredito que uma Educação

crítica e que atinja a todos é o ideal. Principalmente

uma Educação que não é tratada

como mercadoria.

ComTempo: Quais seus planos para

o futuro do seu curso de inglês?

Douglas: Meu objeto é atingir o máximo

de pessoas dentro das minhas próprias limitações.

É sempre desenvolver meu conhecimento

com o objetivo de melhorar o

aprendizado dos que me escolheram como

professor. Pretendo fazer alguns cursos voltado

pra professor de línguas para poder

lecionar Inglês sobre algumas áreas específicas

como Comunicação, Administração,

Pedagogia e Direito.

Não tenho a pretensão de abrir uma

escola, apenas melhorar a maneira como

ensino para melhorar a maneira que meus

alunos aprendem.

ComTempo: Você acredita que todos

devem aprender Inglês?

Douglas: Acredito que todos que queiram

aprender, deveriam ter a oportunidade.

O problema é que existe uma espécie

de fetichismo na língua inglesa por parte

do mercado de trabalho. Como os EUA é

uma nação imperialista que forja muitas

das regras ocidentais, sua língua se tornou

quase uma exigência para que você

seja visto como um bom profissional. Então

existe uma pressão universal.

Tudo depende do seu objetivo

e sei que muita gente precisa tentar se

destacar no mercado para que consiga

sobreviver. Mas seja Inglês ou Corte e

Costura, o importante é aprender algo

que te faça bem.


INOVAÇÃO

“SE O MERCADO

TRANSFORMA,

TRANFORME-SE

JUNTO”

MARCOS PITTA

Ele é formado em jornalismo pela

Universidade do Norte do Paraná,

em Londrina. Criou, em 2015, um

site sobre casamentos e relacionamentos

e conseguiu atingir 4 milhões de

visualizações, conquistando uma comunidade

de mais de 500 mil leitores por mês.

Foi eleito, em 2017, Top Voice Linkedin

como um dos 15 maiores influenciadores

da plataforma. Seu nome? Murilo Leal.

A ComTempo entrevistou o profissional

da comunicação, que em 2018 integrou

o time e professores do ‘O que move o

Marketing’ com cursos sobre conteúdo

pelo Brasil inteiro.


ComTempo: Você é formado em jornalismo.

Atuou em grandes veículos

como a Folha de Londrina. Como enxerga

o jornalismo impresso atualmente?

Realmente, com o avanço

da tecnologia, existe uma escassez

ou ainda há esperança de renovação

nesta área da informação?

Murilo Leal: Acredito que o problema do jornalismo

impresso hoje é justamente o modelo

de negócio que não será mais aplicável.

O jornalismo diário é reflexo da gestão. Antigamente,

o jornalismo sobrevivia de notícias,

mas agora ele precisa antes ser viável

comercialmente para ser executável. Neste

sentido, a crise do jornalismo não é só com a

disputa pela audiência e atenção com outros

canais, mas principalmente em ter que aprender

a reinventar seu próprio negócio.

Arquivo Pessoal

ComTempo: Você foi eleito, em 2017,

um Top Voice Linkedin, como um dos

15 maiores influenciadores da plataforma.

Como é ser responsável por

levar informação e conhecimento a

tantas pessoas? Qual a sensação de

receber este reconhecimento?

Murilo Leal: Na verdade ainda não faço ideia

do poder da minha fala. É claro que hoje, ter o

número de alcance de uma cidade inteira é realmente

importante, mas hoje ainda perco de

dimensão, o impacto real de tudo que produzo,

faço e participo. Eu acho que um reconhecimento

serve apenas chancelar um trabalho

bem feito. O Linkedin veio na minha vida como

um marco na minha carreira, mas eu fazia isso

já há muito tempo com outros projetos.

ComTempo: Você é palestrante e

aborda nos eventos temas como

educação, a importância de escrever

bem, marketing, entre outros.

Qual tema você concorda que mais

atrai as pessoas em suas palestras?

Por que?

Murilo Leal: Eu acho que desenvolvimento

pessoal. Todo meu conteúdo, no fundo é pra

falar para as pessoas como elas podem viver

bem melhor do que vivem hoje.

Seja na sua profissão, seja na sua vida relacional,

na sua rotina pessoal. Tudo que envolve

pessoas e suas dores, expectativas e

desejos tem uma alta força de engajamento.

ComTempo: Existe uma fórmula a

ser seguida pelos profissionais de

comunicação, diante de um mercado

que se transforma com frequência?

Murilo Leal: Eu não acredito em fórmulas de

Murilo Leal, eleito em 2017 como um dos 15 maiores influenciadores do Linkedin, dá palestras por todo o Brasil.

nenhuma espécie. Sucesso é realmente uma

coisa que cada um percebe de maneira diferente.

Quando profissionais de comunicação,

sejam iniciantes ou já seniors me procuram

para vasculhar isso eu sempre digo a mesma

coisa: Faça seu trabalho como uma obsessão

e bem feito que sempre terá espaço para

isso no mercado. Se o mercado

transforma, transforme-se junto.

ComTempo: Qual a maior dificuldade

em produzir um bom conteúdo, seja

para mídias online ou impressas?

Murilo Leal: Muita gente faz muita coisa que

é mais do mesmo. Acredito mesmo que o

grande diferencial é justamente ser capaz de

inovar a cada conteúdo. Fugir do que todos

oferecem e criar uma linguagem própria para

conversar com sua audiência. Além disso,

acho que muita gente quer resultados rápido

e isso não existe na produção de conteúdo.

ComTempo: Você terminou de escrever

um livro digital sobre seus pilares

para construir um bom conteúdo. O

que o estimulou a desenvolver este

projeto? Pode citar a ComTempo alguns

destes insights trazidos no livro?

Murilo Leal - Sempre tive um fetiche pessoal

com compartilhamento de ideias. Tudo que

aprendi na vida foi porque alguém acabou

dividindo, e é isso que me motiva a sempre

criar cursos, palestras, conteúdos, textos.

Meu desejo mesmo é que todo mundo tenha

a sua própria voz. Seja uma marca, uma

pessoa ou uma instituição. Gosto de dizer

que ser capaz de ter empatia, de gerar ajuda,

de trazer

experiência, de construir um lado diferenciado

para sua audiência é o que vai fazer você

se destacar. Foi assim que foi comigo. É sobre

isso que falo no livro.

ComTempo: Por que a ideia de escrever

um livro no formato digital e não

impresso? Acredita atingir mais pessoas

por este caminho? De qual forma

as pessoas poderão ter acesso?

Murilo Leal: Foi exclusivamente por uma

questão de facilidade. Um livro impresso

envolve outras coisas como editoração

avançada, distribuição, logística e outras

questões que complicam, mas estamos estudando

possibilidades para isso se tornar

também físico. O livro está sempre disponível

em bit.ly/livrotop.

Meus links estão em www.murilloleal.com.br


JOSÉ PIUTTI

PORNOGRAFIA

DE VINGANÇA

Antigos moldes sociais que

permanecem no meio digital


“Relacionar-se é caminhar na neblina

sem a certeza de nada”, disse Zygmunt

Bauman em seu livro “Amor Líquido”,

onde alerta a sociedade sobre a crescente

fragilidade das relações afetivas na

atualidade. Em um mundo onde tudo se volta

ao consumismo e a agilidade proporcionada

pela internet, o sociólogo afirma que

a necessidade de concretizar relações está

suspensa.

Devido a correria do dia a dia, não

existe tempo para aprofundamento de relações

- que na maioria das vezes demandam-o

em demasia - e a atualidade prova

que é possível tratá-los com superficialidade

ao habitar zonas de confortos que protegem

do real.

A tecnologia trouxe um novo modus

operandi para as relações: o liga e desliga,

antes utilizado em eletrodomésticos, tornou-se

ferramenta utilizada em atividades

interpessoais. Aplicativos para relacionamentos,

por exemplo, tornaram-se um novo

botão para iniciar uma relação.

O Tinder - aplicativo mais famoso

do nicho - atingiu em 2014 marca de 100

milhões de usuários, sendo 10% deles, brasileiros.

Dois anos depois, em 2016, anunciou

que o recorde anterior havia sido ultrapassado,

não revelando números brutos,

dizendo apenas que o Rio de Janeiro é a cidade

com mais usuários ativos, com 7,4%

dos números globais.

Deslizar o dedo para a direita - caso

o perfil apresentado agrade o usuário - ou

para a esquerda, caso contrário, é a maneira

pela qual uma nova relação pode ou

não surgir. Um “match” acontece se a recíproca

entre perfis for verdadeira e a partir

daí, dura até o momento em que um deles

desejar desativar a relação, seja ao apontar

seus motivos ou apenas utilizar alguma

artimanha digital, como bloquear o perfil do

antigo affair.

A estudante de psicologia Vanessa

Delai, 20, utiliza o aplicativo há dois anos e

diz que as relações ali iniciadas têm tendência

pouco duradoura. “A maioria dos matchs

não saem do aplicativo e quando rola algum

encontro, continua sendo algo superficial. É

uma forma mais rápida de se conectar com

alguém sem muitas dificuldades, e caso a

pessoa não agrade ou ‘encha o saco’, é só

desfazer o match’.

Em entrevista a ComTempo, a jovem

toca no assunto abordado no início desta

reportagem. Em seu argumento, ela defende

que muitas pessoas utilizam o Tinder

para alimentar o ego dos usuários. “Os relacionamentos

passageiros da sociedade

líquida em que vivemos geram uma carência

muito grande. As pessoas tentam suprir

isso por meio das redes sociais, pela quantidade

de likes nas fotos ou de matchs, e

assim por diante”.

MANDA NUDES!

Com a liquidez social, não só a procura

pelo par perfeito ou paquera ideal sofreu

mudanças. Há alguns anos, muito discutia-se

sobre sexo no primeiro encontro.

Hoje, um pequeno anglicismo foi adotado

ao vocabulário brasileiro para definir um

crescente fenômeno entre os jovens: sexting.

Questões como ‘o tempo ideal para

iniciar uma relação sexual com um novo

parceiro’ caem por terra na medida em que

se torna possível transar por meio de fotos,

textos e vídeos, no conforto de sua casa.

A expressão inglesa sexting, refere-se

ao ato de trocar fotos, vídeos e até

mesmo mensagens de texto de cunho erótico

através de aparelhos eletrônicos, como

computadores ou smartphones que segundo

pesquisa realizada pela ComTempo, tem

tornado algo completamente normal.

A enquete respondida por 90 pessoas

de idade entre 15 e 42 anos, mostra que

80% dos participantes já enviaram fotos íntimas

para alguém. O número dos que receberam

fotos pessoais é maior, chegando

aos 92,2%. Questionados sobre o compartilhamento

de fotos de terceiros - ato considerado

crime no Brasil -, 43,8% afirmou já

ter praticado. Desse número, 62% é composto

por homens.

Gabriel Mariano (21), estudante de

psicologia, enviou seu primeiro nude aos

18 anos, recebido em terras longínquas,

em Portugal - outra artimanha da tecnologia.

Segundo ele, o receptor o provocou

por meio das mensagens de texto, deixando-o

com vontade de enviar. “O ser humano

quando está com tesão não pensa no

que faz, apenas faz. As consequências vêm

depois”, respondeu à ComTempo, após ser

questionado sobre a possibilidade de ter

seus nudes vazados. “Senti medo no começo,

mas logo passou. Acho que isso é algo

normal, cada um faz o que bem entender.”

Já uma estudante do ensino médio,

de 17 anos, que preferiu manter o anonimato,

conta nunca ter trocado fotos íntimas.

“Esse tipo de situação requer muita confiança

e, para mim, é complicado confiar este

tipo de conteúdo a alguém, não me sinto

confortável.” A questão de gênero é um dos

principais fatores para a jovem evitar a prática.

“Principalmente no caso das mulheres,

uma foto vazada resulta em problemas sociais,

psicológicos e familiares. Tenho amigos,

por exemplo, que riram ao saber que

seus nudes haviam sido vazados, enquanto

uma amiga, que teve um vídeo atribuído a

ela, tentou suicídio, e nem era ela”, conta.

SE ORGANIZAR CERTINHO…

“Confesso que antes eu temia essa

história de enviar nudes”, diz um estudante

de enfermagem que também não quis identificar-se.

Ele, praticante assíduo do sexting,

está inserido em grupo no WhatsApp

que tem como objetivo a de troca de nudes

próprios entre os integrantes.

Mesmo com o grupo todo formado

por desconhecidos, cerca de 123 membros,

ele segue com pé atrás. “É diferente de trocar

nudes com alguém da minha rua, por

exemplo. Um conhecido pode vazá-las por

aí. Com desconhecidos, os riscos são mínimos

pelo fato de não saberem nada sobre

minha vida pessoal. Mesmo assim, sigo

com cautela. Nunca envio imagens com

meu rosto, por exemplo”.

Segundo o estudante, o local é politizado.

Possui regras que se - caso quebradas

- geram o banimento do membro. Entre

elas, estão a apresentação com nude, local

e idade do participante. Apagar os nudes

após o envio e mencionar alguns assuntos,

como política, religião e futebol, também

causam punição do participante.

Sobre a dinâmica do ambiente, ele

explica: “os participantes postam ‘seminudes’

- imagens que não mostram as genitais,

por exemplo - para atrair parceiros.

Cabe ao interessado chamar no privado e

iniciar a conversa.

Para ele, a prática não é normal nem

anormal, porque o que mudou foi a “forma

de corresponder aos desejos sexuais, seja

por meio de fotos de alguém pelado, que

talvez você nem conheça a fundo, e antes,

por exemplo, tínhamos revistas pornos e

blogs especializados no assunto.”

A CERTEZA DE NADA

Os resultados da pesquisa por esta

revista realizada, mostram que - mesmo

com peso criminal - as pessoas seguem a

compartilhar imagens íntimas de terceiros.

Os motivos não foram questionados, porém,

as consequências são, quase sempre,

catastróficas - e exemplos, infelizmente,

não faltam, como o caso de Giana Laura

Fabi.

Fabi, na época com 16 anos, tomou


medidas extremas ao receber a notícia de

que suas fotos haviam vazado. O ano era

2013, quando em uma conversa por skype

a jovem recebeu pedido para que mostrasse

os seios. No momento em que o fez, um

rapaz de 17 anos - que não teve identidade

divulgada - realizou captura de tela.

Pouco tempo depois, a foto foi compartilhada

em aplicativo de mensagens e

chegou até amiga íntima da vítima, que a

alertou. Mesma amiga que, após contatar

Giana, viu tweet dela em um microblog,

onde dizia que iria colocar fim na própria

vida para não se tornar um estorvo para

ninguém.

A amiga tentou por diversas vezes

falar com Giana pelo telefone, mas já era

tarde. A jovem havia se enforcado, em casa,

com um cordão de seda.

VINGANÇA

No entanto, em meio às mais diversas

hipóteses, existe um motivo para o

compartilhamento que tem colocado o judiciário

- ainda mais - em alerta: a chamada

Pornografia de Vingança. Considerado uma

nova modalidade de violência de gênero, o

termo remete ao ato de expor publicamente,

fotos e vídeos íntimos de terceiros, sem

o consentimento dos mesmos, com o intuito

de vingança. O ato geralmente é praticado

após términos de relacionamentos, como

aconteceu com Larissa, em 2013.

Na época em que transitava dos 13

para 14 anos, Larissa relacionou-se com

Rafael, um menino de sua sala de aula pelo

qual tinha certo interesse. Após uma ida ao

cinema, ele anunciou que ambos haviam

iniciado um relacionamento e, por gostar

dele, aceitou.

Em duas semanas, ele pediu que

Larissa o enviasse fotos ‘mais picantes’.

De início, ela relutou contra o pedido, mas,

por medo de perdê-lo, o realizou. “Ele continuava

insistindo e brigando comigo pra

que eu enviasse as fotos, e por medo de

o perder, acabei enviando. Não eram nem

nudes reais, eu estava de calcinha e sutiã.

Mas isso não fez diferença no julgamento

das pessoas.”

Os dois mantinham o relacionamento

em segredo, mas os pais de Larissa descobriram

e a trocaram de sala de aula. Os dois

se afastaram e não tiveram um término de

relacionamento saudável. Após um tempo,

Rafael encaminhou para Larissa todas as

fotos intimas que ela havia mandado. “Eu

perguntei se ele as enviaria pra alguém e a

resposta foi: você vai dormir sem saber.”


Alguns meses depois, a jovem se

envolveu com outro garoto da mesma escola

e este, segundo ela, pode ter sido o que

motivou seu ex namorado e espalhar suas

imagens. “Ele deve ter ficado com o ego ferido,

por todos seus amigos terem me visto

com outro menino”.

Em uma festa agropecuária local,

Rafael anunciou para seus amigos que tinha

no celular algumas fotos íntimas de

Larissa, que uma pessoa havia lhe enviado.

Frente o interesse dos colegas pelas

fotos, ele montou um grupo no WhatsApp e

enviou as imagens, que, em pouco tempo,

chegaram até o círculo social da jovem.

“Um dia eu estava almoçando e recebi

mensagem de uma amiga.” Eu sei o

que você fez’, disse para Larissa, que ao

questionar o que era, foi informada que

suas fotos íntimas haviam vazado.

“Depois disso a vida virou um inferno.

Fiquei de castigo em casa e meus amigos

viraram a cara pra mim. Na escola, as

meninas apontavam e riam enquanto eu

passava, sem disfarçar. Um dia, uma menina

me viu lanchando sozinha e apontou

pro Rafael, dizendo: tá vendo? Você tá aí

sozinha enquanto ele lá, cheio de amigos.”

“Eles ficaram muito decepcionados”,

conta, referindo-se aos pais, que ficaram

sabendo do caso através da filha de um casal

de amigos. Porém, entraram com procedimentos

legais contra o autor do crime,

que realizou serviço voluntário como pena.

No ápice de seu sofrimento, Larissa

tentou suicídio, mas sua fé a salvou. “Eu

comecei a tomar vários remédios, vários.

Mas alguma coisa, que pra mim é Deus,

me disse pra parar, que uma hora as coisas

iriam melhorar.

Ela só conseguiu se recuperar completamente

em 2017. Antes disso, qualquer

olhar diferente na rua já lhe remetia ao fato,

causando-lhe medo e insegurança. “Isso

tomou muito tempo na minha vida, mas

me fez mais forte. Depois de ter enfrentado

tudo isso, é muito difícil algo me abalar.

Manda bala que eu ‘to nem ai.”

MOTIVOS E CONSEQUÊNCIAS

Vitória de Macedo Buzzi, advogada,

membro da Comissão Nacional de Direitos

Humanos da OAB e autora do livro ‘Pornografia

de Vingança: Contexto Histórico-

Social e Abordagem no Direito Brasileiro’,

conta ser difícil desvendar exatamente a

subjetividade de quem divulga a intimidade

alheia por vingança, mas que, em geral, o

ato é resultado de um movimento de insubordinação

da vítima.

“Por exemplo, quando se recusa a

reatar ou quando não abre mão da guarda

dos filhos ou de um imóvel durante um

processo de divórcio, é que esse ex-companheiro

usa a sexualidade da própria mulher

como uma arma contra ela. É como

se, contrariando o que ele espera dela - o

poder que ele imaginava possuir sobre ela

-, devesse ser punida ou humilhada publicamente.”

Para a Vitória, a forma pública de

humilhação só funciona pelo entendimento

social que foi criado ao redor da sexualidade

feminina.

“Estamos todas e todos inseridos em

uma sociedade que entende a sexualidade

feminina como um tabu, como algo que

não deve ser público e deve existir apenas

enquanto sexualidade subordinada a uma

sexualidade masculina. É justamente num

contexto baseado em uma sexualidade masculina

gloriosa, pública, e uma sexualidade

feminina privada, a serviço de alguém é que

a pornografia de vingança torna-se possível.

SIMETRIA

Durante as pesquisas que a advogada

desenvolveu e que culminaram em

seu livro, ficou claro que as mulheres são

as maiores vítimas deste crime. Segundo

Buzzi, são elas as que mais buscam ajuda

online após o vazamento de material íntimo

na rede e também as que menos se sentem

seguras em compartilhar material próprio na

internet, em comparação com os homens.

“As análises que encontrei variam,

mas, percentualmente, estamos falando

que entre 75 e 90% de todo material classificado

como “pornografia não consensual”

é disponibilizado na internet com o objetivo

de expor uma mulher. Sites foram criados

com o objetivo exclusivo de divulgar, de

forma não autorizada, imagens e vídeos de

mulheres, sejam elas anônimas ou famosas.”

Ela conta, também, que ao contrário

do que esse dado possa dar a entender,

são os homens, na verdade, que mais se

expõem na internet, compartilhando material

íntimo com pessoas com as quais eles

têm ou não têm intimidade. A diferença é

que raramente esse material é usado como

uma forma de chantagem ou de vingança

contra ele.

“Ainda que digam que também existe

o vazamento de material íntimo masculino,

é uma falsa simetria supor que as causas

e consequências são as mesmas. Um

homem em muito menor escala é exposto

por outra pessoa na internet, e, quando é

exposto, raramente é feito num contexto

de humilhação e constrangimento porque

o comportamento sexual masculino não é

socialmente tido como algo humilhante e

constrangedor. Pra mim, essa é a exemplificação

clara do que Simone de Beauvoir

chamou de “celebração da sexualidade

masculina” - tornar pública a sexualidade

masculina não causa constrangimento porque

só evidencia um comportamento esperado

e incentivado aos homens”.

ComTempo: Por que a pornografia

de vingança deve ser considerado

um crime de violência de gênero?

Vitória Buzzi: Ela é uma violência baseada

no gênero da vítima porque ela só consegue

agredir da maneira que o agente busca,

pela condição de vítima da mulher. O

agente que compartilha esse material quer

o estrago na vida da mulher, quer o julgamento,

quer a humilhação. Isso só é possível

quando a vítima é mulher, e vai ser

julgada socialmente pelo exercício da sua

própria sexualidade.”

Esse argumento é ainda mais poderoso

quando levamos em consideração que

o crime geralmente ocorre em um contexto

de insubordinação da mulher ao companheiro

que acreditava ter controle sobre

aquela mulher, como expliquei anteriormente.

Quando a mulher questiona a autoridade

que o ex-companheiro imaginava possuir

sobre ela, é que esse homem a expõe na

internet.

Por isso, defendo que essa é uma

violência pensada contra a vítima por ela

ser mulher, e não apesar dela ser mulher. É

a alienação completa do direito que ela tem

sobre o próprio corpo, sobre com quem ela

quer compartilhar sua intimidade.

ComTempo: O que o Código Penal

Brasileiro prevê como pena?

Vitória Buzzi: Após as alterações feitas

pelas leis 13.718/18 e 13.772/18, que

acrescentaram os artigos 218-C e 216-C ao

Código Penal Brasileiro, foi que a pornografia

não consensual passou a ser crime no

Brasil. Para os casos de registro não autorizado

da intimidade sexual (art. 216-B),

a pena é detenção, de 6 meses a 1 ano, e

multa. Para os casos de divulgação de cena

de estupro ou de cena de estupro de vulnerável,

de cena de sexo ou de pornografia

(art. 218-C), a pena é de reclusão, de 1

(um) a 5 (cinco) anos.


ComTempo: Quais os primeiros passos

legais que uma vítima pode tomar?

Vitória Buzzi: Para quem deseja buscar a

reparação no poder judiciário, primeiramente

é importante registrar como esse material

está circulando e, se for o caso, os sites

em que ele está sendo disponibilizado. Isso

pode ser feito através de print-screen ou do

backup de conversas, por exemplo. Uma

providência importante, mas não obrigatória,

é fazer uma ata notarial desse material no

cartório de notas. Depois, recomendo que

se lavre um boletim de ocorrência e procure

uma advogada ou a defensoria pública.

Uma providência importante é tentar,

o mais rápido possível, remover o conteúdo

da rede. Essa é geralmente a primeira providência

que as mulheres vítimas desejam.

Para isso, deve ser feito um pedido extrajudicial

aos provedores ou sites que estejam

com o conteúdo hospedado para que o retirem

do ar. Graças ao Marco Civil da Internet,

esse pedido não precisa ser feito na

justiça, bastando a notificação extrajudicial.

Para conseguir identificar o responsável,

é necessário solicitar às empresas

que disponibilizem os dados de navegação

dos usuários, na tentativa de descobrir o

primeiro a publicar a imagem. Não só a primeira

pessoa que disponibilizou o material,

mas também as que o compartilharam podem

ser punidas. Isso é feito mediante ação

judicial, por isso a importância de recorrer à

advogada ou defensoria.

Com o agressor ou os agressores

identificados, pode-se entrar na justiça com

pedido de indenização por danos morais

e possíveis danos materiais causados. Na

seara penal, como a ação é pública incondicionada,

cabe ao Ministério Público oferecer

a denúncia. A vítima, contudo, pode se

habilitar como assistente da acusação.

É importante ter em mente que para

superar a pornografia de vingança não basta

que se fale em criminalização. Só iremos

compreender a pornografia de vingança

e a melhor forma de lidar com suas causas

e consequências quando discutirmos

e compreendermos o direito ao corpo e os

limites do seu acesso ao corpo do outro, e

principalmente, neste contexto, o direito da

mulher ao próprio corpo, os limites que ela

determina sobre o acesso ao corpo dela. A

criminalização não muda o modo como uma

sociedade enxerga e entende a sexualidade

feminina. O agente pode ser condenado,

mas segue sem compreender que não pode

dispor do corpo de outra pessoa sem o seu

consentimento.


SAÚDE E COMPORTAMENTO

YOGA E MEDITAÇÃO:

AQUI E AGORA

GABRIELA BRACK


Em grupo ou de maneira autônoma, Giovanna Borges reconhece

serem inúmeros os benefícios da yoga.(Arquivo Pessoal).

“Principais diferenças entre yoga e meditação”. “Yoga, muito além de posturas

e meditação”. “Yoga e meditação amenizam estresse, afirma neurofisiologista”.

“Como aprender a meditar sozinho”.

Estes são alguns dos conteúdos encontrados somente na primeira página

de resultados de uma breve pesquisa no Google, ao digitar “yoga e meditação”.

Antigamente, até poderiam parecer práticas um pouco distantes de nossa

realidade, voltadas a um público muito segmentado, como pessoas mais alternativas

e holísticas. Mas no caso da yoga, por exemplo, o número de adeptos, no

mundo, mais que dobrou em 8 anos: de 15,8 milhões para 36,7 milhões, entre 2008

e 2016. Os dados são da Yoga Aliance e Yoga Journal.

Com certa relação, mas não necessariamente caminhando juntas, as práticas

são trazidas pela ComTempo em parte por quem entende do assunto, mas

também por quem vivencia, necessita e sente seus inúmeros efeitos. O que eles

têm em comum: buscar e encontrar muitos benefícios, ao corpo, e principalmente à

mente.

Final de período da faculdade. Quem vivenciou ou também não o ambiente acadêmico

sabe ou pode fazer ideia de todos os seus ônus para estudantes. E foi exatamente

num período como este, acompanhado de estresse e principalmente ansiedade,

que a bacharel em Relações Internacionais Giovanna Borges, 22, decidiu

iniciar a prática da yoga.

“Li muito sobre a prática de yoga como forma de controlar essa ansiedade,

gastar energia, ‘limpar’ a mente”, conta Giovanna, que aliou a yoga à prática da meditação.

O primeiro contato da internacionalista foi através de aulas guiadas online,

possibilitando a prática em casa, seguindo para a leitura de livros e busca de informações

sobre posturas e a filosofia da yoga.

Giovanna conta que após iniciar a prática autônoma, pesquisou opções de aulas

presenciais “com valores que cabiam no meu orçamento ou gratuitas, e acabei encontrando

aulas na universidade, que eram ministradas por grupos diferentes de

yoga (cheguei a fazer yoga gratuito 3x por semana na Universidade!) e também em

parques públicos da cidade”.

Atualmente ainda aproveitando as aulas presenciais, a internacionalista

mantém rotina de yoga em casa, seguindo conforme sua disponibilidade, geralmente

com 5 dias por semana. “Fazer as práticas com instrutores ajuda muito na correção

das posturas e a te guiar na filosofia do yoga, mas tudo vai do quanto pode

gastar, pois nem sempre as aulas em studios são baratas, por isso optei pelas aulas

gratuitas”, analisa.

Sobre os benefícios, Giovanna é enfática ao dizer que são muitos: “Além de

reduzir muito minha ansiedade, me ajuda a trilhar minha vida de forma mais leve,

ter clareza nos meus pensamentos, ações, etc. Consigo dormir melhor, pois também

é uma prática interessante de exercícios. No yoga você também desenvolve

o autoconhecimento, a força, flexibilidade e equilíbrio corporais! É considerada uma

das práticas mais completas que existe, porque trabalha corpo e alma... O yoga me

ajudou muito no momento que iniciei a prática e me ajuda até hoje, é um momento

incrível de reflexão”, completa.

“Se você tem um corpo e uma mente, se você respira, então yoga é para

você” - Jivana Heyman

“A palavra yoga vem do sânscrito atrelar, unir, representando a união de mente e

corpo. Desenvolvemos maior consciência no pensar, agir, falar, nos traz para o presente.

Com o aprimoramento desses aspectos desenvolvemos, maior consciência

postural, respiratória, maior controle da ansiedade, dos níveis de estresse, qualidade

de sono, tônus muscular, alongamento, foco e equilíbrio. Não há um nicho específico,

pode ser praticada desde a infância até a melhor idade”. Assim é definida a yoga

pelo instrutor Vittor Roko, 29.

Tendo contato com a yoga desde a adolescência, mas decidindo transmitir

a prática após apenas ganhar conhecimento, o instrutor, já há 4 anos, elenca alguns

dos motivos que levam as pessoas a procurarem pela prática: “Grande parte das

pessoas que vem até o núcleo tem o objetivo de desenvolver maior consciência

postural e respiratória. Outros aspectos seriam, por exemplo, dores na coluna lombar,

ciático, em alguns casos hérnia discal. Nosso dia a dia muitas

vezes nos coloca em funções em que passamos grande parte

do dia sentados, o que pode acarretar desgastes ou mesmo falta

de força na musculatura. Na parte dos aspectos psicossomáticos

seriam relacionados a controle da ansiedade, estresse, ajuda na

concentração, para acalmar a mente, ou mesmo como auxílio no

combate a depressão”.

Sobre práticas autônomas, como é o caso de Giovanna

Borges, o instrutor afirma serem válidas, mas com atenção às questões

posturais. “Algumas posturas podem apresentar alto grau de

dificuldade e consciência postural, para evitar lesões o ideal é que

o aluno procure uma orientação e a partir dela inicie suas práticas

em casa. Como é uma atividade que não exige muitos materiais,

dá liberdade para ser praticada em casa, em praças e clubes”, diz.

Definir objetivos de curto prazo está entre as dicas e Vittor

para quem nunca foi em busca de uma experiência na yoga: “Com

anos de prática vamos desenvolver vários aspectos físicos e mentais.

Porém devemos focar nas questões que mais nos atrapalham

e incomodam no dia a dia. Após definir seus objetivos, o aluno deve

procurar a yoga que mais se adéqua para alcançar seus objetivos,

ou que traz maior prazer e conforto. Às vezes podemos levar um


“A partir do momento que comecei a dar as aulas, me senti confortável,

gostei do que estava fazendo”, diz o instrutor de yoga

Vittor Roko.(Arquivo Pessoal).

tempo maior para alcançar os objetivos, mas o caminho pode ser

mais agradável”.

Meditação: “higiene mental”?

Pelo menos 15 anos é o tempo que o design gráfico e

ilustrador Thiago Petruccelli, 33, pratica meditação, ao menos esporadicamente,

sendo muitas vezes atrelada à yoga mas, eu seu

caso, ao budismo, por meio de matéria de uma revista. “Decidi

experimentar. Foi muito bom naquela época; eu chegava a fazer

por 45, 50 minutos. Mas não fazia todo dia. Porém ficou uma lembrança

da sensação boa que eu sentia. Chegava um momento

em que eu sentia o corpo todo relaxar, e conseguia ficar sem

pensar em nada por alguns breves instantes”, conta.

A decisão de iniciar a prática, segundo Thiago, deu-se pelos

benefícios até então investigados. “Dizem que se você praticar

todos os dias, nem que seja por 10 minutos, seu cérebro vai mudando.

O seu humor fica mais fácil de controlar, a saúde melhora.

Tem até uma pesquisa recente que diz que as células das pessoas

que meditam envelhecem mais devagar. E, quando você

realmente está presente, parece que tudo fica mais “vivo”, mais

intenso. Estamos sempre em outro lugar com a nossa mente,

difícil estar presente no agora. Andar na rua e simplesmente prestar

atenção no seu ambiente – o vento no seu rosto, as árvores

balançando, os cheiros... Parece algo simples, mas pode ser extraordinário”,

detalha.

Como método que guia sua prática, o design gráfico utiliza

o aplicativo em inglês Headspace, que segundo ele traz abordagem

“mais científica”. Sinto que vou aprendendo mais cada

vez que faço. “Mas existem outros aplicativos que parecem muito

bons também. Penso em experimentar o Lojong mais para frente, que é em português

e traz as práticas dentro da tradição budista”, exemplifica.

Apesar dedebutar” na prática sem assiduidade, Thiago conta ter decidido recentemente

se comprometer à pratica todos os dias. Até o dia da entrevista, 15 de janeiro,

já estaria com 160 dias completos.

“Acho que os benefícios da meditação são a longo prazo, você realmente

começa a sentir depois de uns 10 dias praticando sem parar. A meditação não resolve

nenhum dos problemas que você tem – eu por exemplo tenho ansiedade e

insônia – mas ajuda muito a lidar com isso. É como se você estivesse ‘abaixando o

volume’ das suas emoções; de 10 ela abaixa para 5, 4. Me lembro que no meio do

ano passado, antes de começar a praticar todo dia, estava muito estressado. Brigava

com as pessoas aqui de casa por qualquer coisinha. Tudo parecia muito intenso, ou

me machucava demais ou me irritava demais. Depois que comecei a praticar, parece

que ficou mais fácil lidar com tudo. Existem pesquisas que dizem que a meditação

atua muito no córtex pré-frontal, que é uma região do cérebro ligada com autocontrole

e empatia. Então, antes de explodir com alguém, parece que eu automaticamente

‘freio’ e consigo pensar se é daquela maneira mesmo que devo agir”, detalha o design

gráfico, sobre sua experiência.

Ainda numa análise mais macro, Thiago diz acreditar que a maioria das pessoas,

atualmente, tem alguma questão de saúde mental.

“Não sei se antes já era assim, ou se as coisas do nosso tempo estão agravando

– como a tecnologia – mas eu como ansioso, reconheço uma ansiedade geral

nas pessoas. O smartphone se popularizou não faz muito tempo e muitas pessoas

não criam relações saudáveis com eles. As redes sociais são capazes de liberar muita

dopamina ao cérebro, de forma que ficamos de certa forma ‘viciados’ nisso. A prática

da meditação ajuda a regular nosso cérebro, e ensina a viver o momento presente.

Ajuda a estar atento ao seu corpo, o que ele está sentindo e o que ele precisa. Parece

que a vida fica mais leve com a meditação. Eu sou suspeito para falar, recomendo a

meditação para muita gente... Acho que muitas pessoas poderiam experimentar uma

qualidade de vida melhor adotando a meditação como prática diária. É quase como

uma higiene mental. Assim como escovamos os dentes todo dia, limpar a mente todo

dia também faz muito bem”.

Há 15 anos voltado à meditação, Thiago Petruccelli usa como

analogia à prática uma “higiene mental”. (Arquivo Pessoal).


Não é tudo, mas muito do

que você precisa saber.


JORNALISMO & FUTURO

PROFISSIONALISMO

ALÉM DAS TELAS

MARCOS PITTA

“Gaúcha de alma e de nascença, ribeirão-pretana

de coração”. É assim

que Lucieli Dornelles, editora de

texto e apresentadora do jornal da

EPTV, afiliada da Rede Globo, no interior

de São Paulo, apresenta-se em sua rede

social com quase 24 mil seguidores. A jornalista,

que todos os dias no horário do

almoço faz companhia para milhares de

pessoas, aglomera um conhecimento vasto,

dá palestras e ainda consegue tempo

para agradecer o carinho dos fãs nas redes

sociais.

Neste início de 2019, Dornelles passou

a comandar as duas edições do Jornal

da EPTV, e mesmo com a rotina atribulada

conseguiu responder a ComTempo, enquanto

desdobrava-se na redação, sempre

enfatizando que o cansaço existe, porém

não há nada que lhe deixe mais feliz

do que fazer o que gosta.

Lucieli fala sobre o avanço da era

digital e como isso influenciou a maneira

de fazer jornalismo, Fake News, a maneira

como lida com notícias trágicas e ainda comenta

sobre seu outro lado, o de palestrante,

artifício que a ajudou ganhar mais voz.


ComTempo: Com a era digital se desenvolvendo

cada vez mais, a forma de se

fazer jornalismo é a mesma ou mudou?

Se houve mudanças, qual a principal até

o momento?

Lucieli Dornelles: As mídias sociais transformaram

completamente o nosso jeito de fazer jornalismo.

Do início ao fim: desde a hora em que nasce

a notícia até o momento em que ela vira um

produto (reportagem) e é veiculada na tela da TV.

Uma década atrás, por exemplo, o comum na redação

era “correr” atrás das informações. Agora,

a sensação que se tem é que as notícias “caem

no nosso colo”. Veja que grande mudança: antes

a nossa equipe de produção passava o dia inteiro

apurando e organizando as possíveis pautas

das 66 cidades da área de cobertura da emissora.

Pelo menos quatro vezes por dia, os produtores

telefonavam para prefeituras, bases da Polícia

Militar, Corpo de Bombeiros, hospitais, etc. Hoje

não. Hoje tudo o que acontece se espalha com

rapidez, em questão de minutos. Isso é ótimo,

mas também pode ser perigoso.

ComTempo: Você trabalha com jornalismo

televisivo, qual a principal dificuldade

em selecionar as pautas? O que é

levado em consideração?

Lucieli: O nosso critério de relevância não mudou.

No jornalismo, dividimos as reportagens em factuais

(aquilo que acaba de acontecer) e não-factuais

(frias, podem ir ao ar em qualquer dia da semana).

A seleção é natural: priorizamos a informação que

tem mais impacto no dia-a-dia das pessoas ou

pode servir como exemplo/visibilidade para que

elas tenham uma vida melhor. Exemplo: falar sobre

falta de remédios na rede pública de saúde é

mais importante do que falar sobre mato alto, assim

como falar sobre mato alto é mais importante

do que falar sobre dicas de organização no armário

de casa. As reportagens que não pedem urgência

na veiculação ficam guardadas no nosso sistema

– em um lugar que chamamos de geladeira - e vão

ao ar quando tem espaço no telejornal.

ComTempo: Com tantos anos de experiência

na TV, tem alguma cobertura marcante

em sua trajetória?

Lucieli: É difícil escolher só uma, já que o meu

trabalho em TV começou aos 17 anos de idade,

como estagiária. De lá pra cá, viajei o Brasil inteiro

fazendo coberturas especiais e passei por uma

infinidade de experiências – algumas incríveis, outras

assombrosas. Vou destacar aqui uma série de

reportagens que mexeu bastante comigo: sobre

as comunidades Quilombolas do Sul do país. Ver

de perto uma realidade tão diferente a da maioria

das pessoas foi impactante e transformador. Conversei

(e convivi) com filhos e netos de escravos,

gente que vive à margem da sociedade e ainda é

afetada pelo regime de violência e brutalidade que

existiu no nosso país. Não posso negar que me tornei

uma pessoa mais empática e engajada depois

desse trabalho, foi um dos grandes aprendizados

que o jornalismo me proporcionou.

ComTempo: Como você vê a aproximação

do público com o jornalismo através

das redes sociais? É completamente

saudável e importante?

Lucieli: Eu costumo dizer que vivi para ver isso

acontecendo. Nada me deixa mais realizada do

que poder fazer jornalismo com tanta proximidade

do telespectador - e muitas vezes junto com

ele. Temos hoje um canal muito mais amplo de

denúncia, interatividade e expressividade do público.

Eu adoro tecnologia e me considero bastante

otimista em relação às mudanças! Acredito

que saímos ganhando, em todos os aspectos:

em quantidade e em rapidez de informação também.

Percebe que agora acabamos quase que

por contrariar a Lei da Física? Com tantos vídeos

e fotos chegando pelas redes sociais “em tempo

real”, é quase como se estivéssemos em mais de

um lugar ao mesmo tempo.

ComTempo: Como fazer jornalismo sério

sem ser afetado pelas fakenews que

só crescem?

Lucieli: O nosso princípio básico, de responsabilidade

com a informação, continua o mesmo. A

diferença é que o nosso trabalho de checagem e

apuração agora é ainda maior – e mais minucioso.

Nunca antes foi tão importante checar a veracidade

do fato e se debruçar sobre todos os aspectos

e versões de uma reportagem. Afinal, nos dias de

hoje, o que é relevante e o que não é se confundem

em um espaço onde impera o excesso. Todo

mundo tem voz, não é? Isso seria maravilhoso,

não fosse um detalhe: grande parte das pessoas

não se preocupa com o bom senso ou com a credibilidade

da informação que compartilha. E é aí que

entra o jornalista: não apenas com o compromisso

de transmitir a informação correta e precisa, mas

corrigir e desmentir os boatos que se espalham por

aí. Estamos suscetíveis ao erro? Sim, pode acontecer.

Mas tomamos todas as medidas de precaução

para que não aconteça. Em caso de dúvidas,

optamos por não veicular.

ComTempo: Como é para você noticiar

casos trágicos, como casos de feminicídios,

assassinatos? Como lidar com

essas notícias para que ela chegue ao

telespectador da maneira mais correta

possível?

Lucieli: Esta é uma curiosidade recorrente: as

pessoas costumam me perguntar qual é a tática

que uso para controlar as emoções, ao noticiar

alguma tragédia. Não sei se existe. Eu tenho

como hábito respirar fundo e intensificar o grau

de concentração. Mas não creio que fique mais

fácil com o passar dos anos. Pelo contrário, é

como se o trauma de cada vítima fosse um pouco

meu também. Algumas histórias têm detalhes

tão assustadores que eu custo a acreditar que

sejam fatos da vida real e não da ficção. Mas

sei que elas fazem parte do ofício e tenho como

obrigação não deixar que os meus sentimentos

atrapalhem o meu trabalho. Vale dizer que

transparecer um semblante triste, revoltado ou

chocado é muitas vezes inevitável. Acontece, sai

naturalmente. Só não pode prejudicar a notícia.

Nosso cuidado maior, em casos assim, é contar

o fato com riqueza de detalhes e ouvir todos os

lados envolvidos - inclusive o de quem cometeu

a atrocidade - sem escandalizar o telespectador.

Dependendo do grau de violência da imagem,

optamos por tirar o foco ou não transmiti-la.

ComTempo: Você ministra palestras sobre

motivação profissional, mercado de

trabalho e fala bastante em nunca desistir,

e em ter orgulho de sua trajetória.

Como você enxerga o resultado final de

suas palestras? As pessoas pedem para

falar com você no final, tiram dúvidas e

pedem conselhos?

Lucieli: As palestras ampliaram a minha voz na

região de Ribeirão Preto de uma maneira muito

especial. Para mim, é o momento de plantar a

sementinha do trabalho e do comprometimento,

principalmente nos jovens estudantes que me assistem.

Faço questão de brincar com eles dizendo

que sou a “tia chata” e estou ali para dar puxões de

orelha. Tento usar a minha trajetória de vida para

motivá-los. Não porque ela seja exemplar, mas

para que eles entendam que nada nesta vida cai

do céu. A garotada de hoje faz parte da geração do

imediatismo e, na maioria das vezes, quer trabalhar

pouco e ganhar muito. Minhas palestras mostram

que profissão é construção, não acontece de

um dia para o outro. Recebo muitas mensagens

positivas dos professores - falando sobre a mudança

de comportamento dos alunos - e dos próprios

adolescentes. Grande parte me escreve para contar

que estava perdida, sem rumo, e se viu com

forças e capacidade para estudar e ir atrás dos sonhos

que tem. Eu me emociono muito quando isso

acontece! Em relação à parte final das palestras, é

incrível como todo mundo gosta de conversar, dar

um abraço forte e tirar uma selfie. E eu adoro também!

Acredita que as pessoas costumam me enxergar

como uma amiga? Até porque estou todos

os dias na casa delas, não é mesmo? Algumas me

fazem confidências e todas me tratam com muito

amor. Fico extremamente feliz.


A jornalista durante uma de suas palestras. Na foto, Lucieli conversa

com estudantes no Unifafibe, em Bebedouro-SP. (Arquivo Pessoal)

ComTempo: Para você, ser jornalista é?

Lucieli: Um propósito de vida. Hoje sei que não

vou conseguir mudar o mundo (meu grande ideal

quando entrei na faculdade), mas continuo valorizando

o papel social da minha profissão. Principalmente

porque sei que, por meio dela, consigo

transformar pequenos mundos, pequenas comunidades,

todos os dias. Isso já é suficientemente

incrível pra mim. Aliás, esse é outro diferencial do

jornalismo de TV, impulsionado pela internet: as

mídias sociais ampliaram o poder do jornalismo

comunitário. Sinto que somos como o espelho do

telespectador. Estamos ali para refletir o que eles

vivem, para dar voz e vez para quem nos assiste.

Desconheço sensação melhor.

ComTempo: Existe desvalorização da

profissão por parte do público? E do

mercado?

Lucieli: O jornalismo, assim como acontece com

outras profissões, está mudando muito rápido.

Quem não acompanhar vai ficar para trás, isso

é inevitável. E é lógico que, diante de tudo o que

as mídias sociais proporcionam hoje, é impossível

não refletir sobre a parte que ainda nos cabe.

Mas sem esquecer: em meio a uma avalanche de

informações compartilhadas, minuto a minuto, os

nossos grandes diferenciais são a capacitação e

a experiência. Afinal, como eu já disse aqui, quem

mais, além do profissional de jornalismo, vai filtrar

a informação e ouvir todas as versões de um mesmo

fato? Creio que o público entenda e reconheça

isso. Já tivemos muitos exemplos de boatos desmentidos

ao vivo, no jornal do meio-dia. O telespectador

ligou a TV para checar a veracidade da

informação recebida pela internet.

ComTempo: Como é o mercado de trabalho

para quem quer seguir a área da

comunicação? Que conselhos você dá

para quem está começando?

Lucieli: Destaco dois pontos importantes. Primeiro,

lembrar que esta é a hora do jornalista descobrir

novos nichos no mercado e se reinventar,

sem comodismo. As oportunidades aumentaram

com o boom da internet, basta olhar para elas

com carinho, sem preconceito. O segundo ponto

é ter a consciência de que sempre haverá espaço

no mercado para o trabalhador proativo, bem-disposto

e comprometido. No jornalismo, a parte do

comprometimento ganha uma relevância ainda

maior, já que o nosso trabalho nem sempre tem

hora para começar ou terminar. É fundamental que

o estudante leve isso em consideração, quando for

escolher a profissão. Não há glamour! O glamour

é uma ilusão. Nós trabalhamos muito, com prazos

curtos, responsabilidades gigantes e muita pressão

interna e externa. Eu adoro isso. Amo! Mas

conheço centenas de pessoas que desistiram por

não dar conta de tanta pressão. Ah, pode parecer

óbvio, mas também tem que gostar bastante de ler

e de escrever – já vi muito aprendiz de jornalista

preguiçoso ou escrevendo errado na redação.

ComTempo: Como é seu dia-a-dia?

Lucieli: Bastante corrido. A maioria das pessoas

olha pra gente e pensa que a nossa vida é um conto

de fadas, principalmente por causa da imagem

que se vê na televisão. Mas apresentar o jornal

é apenas 10% da minha realidade profissional.

Quando entro no ar, já trabalhei por muitas horas

longe dos holofotes (chego cedo, também sou

editora de texto dos telejornais e coordenadora de

mídias sociais em Ribeirão) e continuo trabalhando

nos bastidores, depois que o jornal termina. Nossa

jornada ainda inclui feriado, fim de semana, Natal,

Réveillon, etc. É uma profissão repleta de abdicações,

a pessoa tem que gostar muito. Sem contar

que somos jornalistas 24 horas por dia, né? Não

tem como ser diferente, faz parte do compromisso

que assumimos. Tudo o que a gente enxerga ou

enfrenta no dia-a-dia pode virar pauta.

Quando estou de folga, tento acalmar a mente

com leitura, filmes, séries e, claro, na companhia

dos amigos: jogo vôlei toda semana, sou fã de um

bom churrasco com samba/pagode e amo viajar.

ComTempo: Você possui 23mil seguidores

no Instagram, como consegue dar

atenção a tantos comentários e questionamentos

que chegam até você? Como

é sua interação com os fãs?

Lucieli: A minha grande preocupação hoje na internet

é mostrar quem é a pessoa física por detrás

da pessoa jurídica. Não quero ser “a moça da televisão”.

Quero que me enxerguem como uma

mulher de 34 anos que estudou e trabalhou muito

para ser quem é e estar onde está. Uma mulher

como todas as outras - que fica triste e tem

problemas. Parece simplório falar assim, mas é

incrível perceber como consigo me conectar melhor

com o público quando falo sobre alguma dificuldade

pela qual passei. Hoje, faço questão de

responder a todos (com exceção de perguntas

desrespeitosas e invasivas, claro). São questionamentos

variados: sobre a minha alimentação,

meus cuidados com a saúde, minha trajetória profissional,

meu dia-a-dia atribulado, enfim. Confesso

que até pouco tempo atrás eu não conseguia

me organizar para responder, mas hoje – mesmo

que demore – consigo dar atenção para todos os

seguidores. E sinto como isso é importante para

a pessoa que está do outro lado! A troca de energia

é surreal. Algumas me acompanham há muitos

anos (desde a época da faculdade, quando

eu escrevia em um blog). Elas torcem por mim,

passaram comigo por vários momentos felizes ou

difíceis e se lembram de coisas que às vezes nem

eu mesma me lembro. É maravilhoso sentir esse

carinho e essa energia positiva! Tento retribuir

como posso. Hoje, gosto de falar sobre assuntos

que possam contribuir com a reforma íntima de

cada um que está ali no meu perfil: autoconhecimento,

saúde, fé, depressão, solidão, vaidade,

liberdade, relacionamento, amor próprio, intolerância,

empatia, preconceito, etc, etc. O retorno é

instantâneo. E sensacional.

ComTempo: Você tem o hábito de ler.

Qual o primeiro livro que você leu? E

qual sua melhor leitura até hoje?

Lucieli: Comecei a ler muito cedo, pouco antes

de completar quatro anos de idade. Minha paixão

da infância eram os gibis da Mônica e outros livros

infantis. Na adolescência, devorei (em apenas um

fim de semana) “Gabriela, Cravo e Canela”, de

Jorge Amado, e nunca mais consegui deixar de

lado o hábito da leitura. Além dele, “O Nome da

Rosa”, de Umberto Eco, “O Morro dos Ventos

Uivantes”, de Emily Brontë e “A Arte da Guerra”,

de Sun Tzu foram livros que me marcaram profundamente.

Uma curiosidade: gosto de ler mais

de um livro ao mesmo tempo, faz parte da minha

personalidade inquieta.


VOCÊ REPÓRTER

ANSIEDADE

QUEM AINDA NÃO ENFRENTOU ESSE MAL?

PEDRO LEAL E MARIANA FERREIRA


1

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Ao pesquisar o signifi cado da palavra

ansiedade na internet, o resultado é

de sua origem latina com signifi cado

de “angústia”; um estado psíquico de apreensão

ou medo provocado pela antecipação

de uma situação desagradável ou perigosa.

O Brasil lidera o ranking de pessoas que

sofrem de ansiedade, com 18,6 milhões

de pessoas sofrendo deste transtorno, o

correspondente a 9,3% da população. No

mundo, este número é de 246 milhões de

pessoas.

A segunda edição do Você Repórter

traz reportagem especial sobre este mal que

tanto afl ige os brasileiros. Para isso, a Com-

Tempo entrevistou Valéria Chechia, doutora

em psicologia pela USP e coordenadora de

Psicologia do Centro Universitário Unifafi be,

que esclareceu dúvidas sobre o assunto.

ComTempo: O que é a Ansiedade?

Dra. Valéria: A palavra “Ansiedade” tem origem

no latim “Anxiesta”, do verbo “angere”

que signifi ca apertar, sufocar. Assim, ansiedade

é um estado emocional desagradável

e apreensivo, provocado pelo pressentimento

ou previsão de um perigo para a integridade

da pessoa. Quando os perigos são

reais, como por exemplo, “passar seus dados

pessoais para alguém que ligou dizendo

que você foi premiado com um celular”,

a esse tipo dá –se o nome de “Ansiedade

Realista” porque as pessoas estão vivendo

em um mundo virtual de extrema insegurança.

Além desse tipo, temos a “Ansiedade

Antecipatória ou Ansiedade Neurótica” cujo

indivíduo processa um medo, uma insegurança

imaginária, onde prevê que algo ruim

vai lhe acontecer, mas sem nenhum dado

realístico.

A ansiedade pode ter manifestação

física: suor, tremores, taquicardia, e manifestações

de ordem subjetiva: sentimentos

de apreensão que não são suscetíveis ou

que não possuem probabilidade de acontecer,

são imagens e sentimentos gerados

pela imaginação da pessoa. Concluindo,

para Carl Gustav Jung, há muitas gerações

às pessoas estão sujeitas à ansiedade, Jung

explica que isso acontece porque o mundo

nunca nos pareceu seguro.

ComTempo: Qual é o tratamento

para ansiedade? Como ele é?

Dra. Valéria: Em situações cuja ansiedade

é ameaçadora para o bem estar da pessoa,

como a “ansiedade agudo-crônica”, orienta-se

que seja procurada uma avaliação

médica para constatar os sintomas físicos

que estão tirando-lhe a capacidade de viver

bem. Por exemplo, é comum, em casos

agudos, a pessoa ter distúrbios do sono, alimentar-se

demais ou de menos, perder ou

aumentar o peso, ter crises de taquicardia,

aumento da pressão arterial, difi culdade de

concentração, entre outros. Nesses casos,

uma avaliação minuciosa do estado físico

pode levar a medicação da pessoa até que

ela consiga restabelecer os padrões mínimos

necessários para sua vida.

Concomitante a isso, orienta-se a

psicoterapia para auxiliar o desenvolvimento

de habilidades para combater os sintomas e

promover o autoconhecimento, colaborando

para que a pessoa encontre as causas da

ansiedade e assim, conseguir o auto equilíbrio

emocional.

O tratamento depende de duas

avaliações: física e psicológica, portanto,

não há uma indicação precisa para todos

os casos, sempre é necessário refletir os

danos físicos e emocionais para iniciar o

tratamento.

ComTempo: Qual a importância do

terapeuta? Apenas este profissional

pode resolver um problema de

ansiedade? Há algum tratamento

alternativo, além da terapia, como

por exemplo a meditação?

Dra. Valéria: A importância do psicoterapeuta

está na razão para fazer a pessoa

compreender o que está causando a ansiedade

e o quanto o nível dos sintomas está

afetando sua vida emocional. Nesse sentido,

o profi ssional auxiliará na busca da estabilidade

dos seus comportamentos frente às

situações que lhe causam ansiedade. Em

segundo lugar, não somente o profi ssional

da psicologia pode auxiliar a pessoa com

quadro de ansiedade, um psiquiatra com o

diagnóstico dos sintomas pode orientar medicamentos

específi cos, ajudando a pessoa

a combater crises agudas. Em terceiro, a

meditação é uma alternativa de tratamento,

mas se for acompanhada, com um profi

ssional especialista nesse método ou com

um dos profi ssionais citados anteriormente,

pois requer muito treino, então, em caso de

a pessoa estar em crise, a mesma terá difi -

culdade em obter os resultados.

A meditação e também, atualmente a

“Mindfulness”, exercício acompanhado por

um profi ssional especialista nessa abordagem,

vem tornando-se importante ferramenta

para o tratamento da ansiedade, uma vez

que se trabalham as distrações, pensamentos

externos e sentimentos anteriores, para

intencionalmente sentir, ouvir, viver plenamente

a situação presente.

ComTempo: Hábitos saudáveis ajudam

no controle da ansiedade?

Dra. Valéria: Como a pessoa se sente em

relação a si mesma está relacionada à forma

como se sente a respeito de seu corpo

e de seu físico. Sendo assim, a pessoa com

ansiedade que insere no seu dia a dia, hábitos

que valorizam seu bem estar e sua qualidade

de vida, tem maior probabilidade de

restaurar sua estabilidade. Por exemplo, caminhar,

praticar esporte, alimentar-se mais

com frutas, verduras, legumes e proteínas,

beber água constantemente, inserir leituras

e meditações, são costumes que irão colaborar

para o equilíbrio físico-mental do indivíduo

ansioso.

ComTempo: Por que quase ninguém

leva a saúde mental a sério? Por

que a ansiedade virou “gíria”, como,

por exemplo, “estou ansioso com o

show de sábado”?

Dra. Valéria: A princípio, a sociedade brasileira,

mobilizou-se para promover a saúde

mental dos brasileiros se comparada a

décadas anteriores. Talvez, com o advento

das tecnologias, das redes sociais e das

telecomunicações, as pessoas têm utilizado

muita parte de seu tempo nas relações

virtuais, do que nas pessoais. A interação

social é importante para o desenvolvimento

do ser humano, no entanto, com o advento

tecnológico as pessoas estão tornando-se

solitárias, não dialogam tanto como as gerações

anteriores, não riem como antes, isso

parece que está fazendo a pessoa viver um

mundo de aparências e não de realidades.

Também os discursos de ódio nas

redes sociais têm levado as pessoas perderem

a essência humana de respeito ao

próximo e isso tem deixado todos mais tristes

e mais sombrias. Desse modo, quando

se trata de uma pessoa propensa à ansiedade,

essas novas formas de se relacionar

pode contribuir para que ela fi que insegura,

com medo e ansiosa, pois possibilita exposição

pessoal desnecessária, e quando não

é aceita seu quadro tende a piorar. Quanto

às “gírias” sobre estados psicológicos, costumamos

chamar de “psicologização”, ou

seja, pessoas sem conhecimento da ciência

da psicologia utilizam-se de termos da

psicologia para se defi nirem e/ou defi nirem

outros indivíduos. Nesse caso, acreditamos

que as pessoas acabam sofrendo atualmente

muito mais pelas palavras que pelo que


está passando verdadeiramente.

ComTempo: Quais os perigos em ignorar

o que está acontecendo em

relação a ansiedade e a saúde mental

de uma maneira geral?

Dra. Valéria: Naturalmente, a pessoa que

está passando por crise de ansiedade antecipatória

está sofrendo de variados sintomas

como descrito anteriormente. Dessa

maneira, se esses sintomas forem ignorados

a pessoa pode transcender para uma

depressão associada à ansiedade porque o

desconforto físico acaba interferindo no seu

dia a dia. Igualmente, se a pessoa ignorar

ambos os quadros esses sintomas podem

desenvolver uma crise do pânico. Consequentemente,

o quadro emocional, físico e

mental se agravará e o tratamento pode

ser mais demorado. Logo, orienta-se a pessoa

fi car atenta aos sinais quando perceber

que estão lhe tirando a paz, a tranquilidade e

afetando sua qualidade de vida e já no início

procurar por profi ssionais para se cuidar.

ComTempo: Como você vê o futuro

das pessoas se a ansiedade (patológica)

for ignorada?

Dra. Valéria: Embora a pessoa possa conhecer

os sintomas é necessário que a mesma

não veja isso como algo normal ou passageiro.

Muitas vezes, um indivíduo ansioso pode

buscar o isolamento emocional, como forma

de se proteger. Mas, no isolamento emocional

o indivíduo reduz suas necessidades e

se retrai numa espécie de concha de passividade.

Como consequência, abaixa o nível

de motivação, de aspirações profi ssionais e

de realização de seus objetivos. Orienta-se

que a pessoa refl ita porque deixar de se envolver

com os assuntos da vida não a fará

menos ansiosa e mais feliz. Ao contrário, o

isolamento causado pela ansiedade conduzirá

o indivíduo a um abismo, difi cultando

sua vida em todos os sentidos. Por exemplo,

as pessoas ansiosas precisam saber que

viver e conviver trazem riscos e somente no

enfrentamento desses riscos o indivíduo criará

resistências para evoluir emocionalmente,

profi ssionalmente e socialmente.

Ao falar sobre ansiedade é inevitável

esquecer-se dos jovens na transição do

Ensino Médio para a faculdade. Muitos sofrem

por conta de não terem ideia de qual

curso irão fazer, outros pela pressão dos

pais em seguir uma carreira que não quer

ou simplesmente a cobrança da vida adulta.

Sabendo disso, o Grêmio Estudantil de 2017

da escola Abílio Manoel, de Bebedouro, no

interior de São Paulo, realizou uma atividade

pós-aula com psicóloga para que os alunos

pudessem conversar e desabafar sobre problemas

e angústias pelo qual passavam no

momento.

A ComTempo foi em busca da responsável

pelo Grêmio, a professora mestre Silvia

Helena de Carvalho, atual diretora da

escola José Francisco Paschoal, na mesma

cidade, e a questionou sobre a experiência.

Ela relatou que sua convivência com os alunos

e pais era ativa.

ComTempo: Qual sua relação, na

época, com o Grêmio Estudantil e

com os alunos do Abílio Manoel?

Mª. Silvia: Eu era vice-diretora da escola

que faz parte do Programa Ensino Integral,

e nas escolas deste programa, o vice-diretor,

além de outras atribuições, trabalha como

PMEC (Professor Mediador Escolar e Comunitário)

e é responsável pela atuação do

Grêmio Estudantil, portanto, como mediadora,

eu conversava com os estudantes e com

seus familiares e, como responsável pelo

Grêmio, auxiliava os gremistas na realização

de seus projetos.

ComTempo: Os jovens do Ensino Médio

estavam aflitos com quais situações?

Quais eram as principais reclamações?

(Pressão da escola, dos

pais, vestibular...)

Mª. Silvia: Acredito que administrar as

questões próprias da idade (namoro, sexualidade

e relacionamentos em casa e na sociedade)

com as exigências escolares mais

as expectativas de um futuro incerto já é

motivo de angústia, ansiedade e medo para

os adolescentes e jovens, porém o principal

fator da reclamação deles, na época, era a

pressão familiar.

ComTempo: Qual foi o estopim para

a iniciativa do Grêmio Estudantil

com a psicóloga na escola? Como

foi o contato com a médica?

Mª. Silvia: Foram os relatos feitos por colegas

do Coordenador Geral do Grêmio sobre

seus problemas, que por sua vez, me procurou

para conversar e pedir ajuda. Resolvemos,

então, entrar em contato com o pessoal

da ONG DCA (Desenvolvendo a Criança e

Adolescente), com qual a escola tinha uma

parceria, que nos indicou uma psicóloga. Em

reunião, expliquei a situação, pensamos em

estratégias para a realização da ação e, assim,

convidamos os alunos para participar

das sessões de terapia.

ComTempo: Como eram as sessões?

Mª. Silvia: A psicóloga convidava os participantes

a expor seus sentimentos (medos,

ansiedade, tristeza, alegria e outros) numa

roda de conversa que acontecia uma vez por

semana, após o fi nal do período de aulas.

ComTempo - Qual foi o feedback dos

alunos? Obteve respostas positivas?

Mª. Silvia - Os alunos que participaram,

não foram muitos, deram retorno positivo

da ação.

A ComTempo entrevistou uma das alunas

que participou das atividades na escola.

Preferindo não se identifi car, ela falou

sobre a vivência dos alunos e fala sobre as

cobranças.

“Desde o início do ensino médio

surgiram muitas cobranças, algumas pela

família e outras pela escola que, às vezes,

atrapalhavam o rendimento. Os alunos em

geral entram em nervosismo pois querem ter

um excelente futuro e orgulhar suas famílias,

mas são muitas coisas importantes para realizar

até o fi m dos 3 anos do Ensino Médio.

Começar uma faculdade e trabalhar geram,

após o término do ensino médio, mais pressão

e cobranças que na cabeça do adolescente,

nunca se sabe o que pode virar.”

Nesses casos, a busca por um profissional

da área para relatar o caso e ser orientado

corretamente é de extrema importância. Além

dos profissionais que atendem em consultórios

próprios, o Unifafibe oferece atendimento em

sua clínica à todos de forma gratuita.

Caso o jovem não queira uma consulta

presencial, o CVV oferece um serviço

de conversa com voluntários instruídos que

pode ser feito de forma anônima. O atendimento

é feito via chat, pelo site, e-mail, carta,

pessoalmente em cidades que tem sede

ou pelo telefone 188 que é gratuito para

todo país. “Nossos voluntários são treinados

para conversar com todas as pessoa

que procuram ajuda e apoio emocional.”,

consta no site do CVV (Centro de Valorização

da Vida).

De qualquer forma, é indispensável

que qualquer pessoas procure ajuda, seja

ela qual for. Como disse a Dra. Valéria, “o

isolamento causado pela ansiedade conduzirá

o indivíduo a um abismo difi cultando sua

vida em todos os sentidos.” podendo agravar-se

em doenças mentais mais graves.

Não hesite em buscar uma ajuda profi ssional.

Sua vida é valiosa!


FAMÍLIA

MATERNIDADE

ATIVA

MARTINA COLAFEMINA

Frente às dificuldades

encontradas socialmente

e no mercado de trabalho,

nascem novas alternativas

para ajudar mães, principalmente

solo, a criarem redes de

apoio e a se colocarem

no mercado.


A

maternidade traz mudanças significativas

para a vida de uma mulher.

Quando se trata da maternidade

solo, as mudanças representam,

muitas vezes, mais dificuldades para manter a

vida financeira em ordem. “Não importa o quanto

você é boa no que faz, as chances de não ser

contratada por ter um filho são enormes. Quando

você não tem filhos, as empresas entendem

que você não tem outros compromissos e que

poderá trabalhar até mais tarde, em finais de

semana, vai viver para a empresa”, comenta

Nanie Aguirre, grafiteira e proprietária do Amei

Ateliê, em que produz acessórios e bordados

à mão. Nanie conta que só conseguiu voltar a

trabalhar fora de casa quando seu filho, Cadu,

completou dois anos. “Isso só foi possível porque

eu tinha meus irmãos e minha mãe que ficavam

com ele aos finais de semana, e durante

a semana ele ia para a escola em período integral”,

completa.

Durante sua trajetória, Nanie conta que

enfrentou dificuldade para arrumar emprego

e que passou por entrevistas invasivas. Hoje,

através do grafite e do ateliê, ela busca inspirar

outras mulheres e conquistar a estabilidade

financeira. A grafiteira é também uma das

seguidoras do Maternativa, uma rede de apoio

a mães empreendedoras que as reúne através

de páginas no Instagram e Facebook, além de

um grupo que conta com cerca de 22 mil mães.

“Através do uso das hashtags “maternativa”

e “compredasmaes” no Instagram, ajudamos

a promover o trabalho estimulando o

consumo consciente e incentivando direcionamento

de investimentos financeiros em produtos

artesanais, locais, de pequenos produtores,

enfim das mães”, explica Vivian, uma das sócias

da Rede Maternativa. “A importância da autonomia

financeira para a mulher ganha traços

de urgência quando pensamos nas mães solo.

Muitas mulheres nessa situação, sem ter rede

de apoio, optam pelo empreendedorismo. Elas

empreendem por necessidade, tanto financeira

quanto de flexibilidade”, explica Vivian.

Encontrar uma rede de apoio foi fundamental

para Mari Rosa, fotógrafa e mãe de

Alice. “Quando a Alice tinha 5 anos fui morar

com amigas que também são mães solo. Acabamos

criando essa rede de apoio porque nos

ajuda financeiramente, emocionalmente. Uma

ajuda a outra com os filhos, também, quando

precisamos. Por isso, por enquanto, creio

que a melhor alternativa seja encontrar outras

mães, fazer grupos e uma ajudar a outra”, frisa

Mari. “O sistema ainda é muito injusto com as

mulheres e a sociedade muito julgadora, principalmente

com mães. A partir do momento

que quebramos esses padrões, criamos força”,

completa a fotógrafa.

Trazer clareza para o momento da maternidade

é a aposta da coach Sabrina Wenckstern,

criadora do Materna S/A, uma agência

de consultoria para mães que buscam empreender

e principalmente, se descobrir. “Às vezes

não se sabe o porquê de as coisas estarem

como estão. Neste lugar de não compreender,

a mudança não é possível. A primeira questão

é entender porque equilibrar maternidade e trabalho

é tão difícil”, observa Sabrina. Discussões

sobre os impasses que mães solo enfrentam

para criar uma rede de apoio, além do entendimento

de questões salariais também são pautas

da coach para trazer mais oportunidades às

mães que a procuram.


Korean Wave ou Hallyu, “Onda Coreana”

em tradução literal, pode ser definido

como o fenômeno que popularizou

a cultura sul-coreana na Ásia e tem

conquistado cada vez mais países do ocidente.

Suas principais bases são: K-pop (abreviação

de Korean pop); K-dramas (novelas/séries televisivas);

e o cinema. No entanto, outros produtos

também se propagaram em uma escala

menor, mas que está crescendo gradativamente,

como livros, quadrinhos, games, comidas,

cosméticos, moda e produtos tecnológicos.

Antes de entender o K-pop é necessário

conhecer sua origem, que por sua vez se

iniciou com o Trot – ou Teuroteu -, conhecido

como o antecessor do K-pop, surgido por volta

de 1900 durante o domínio japonês. O Trot é

proveniente do enka – música tradicional japonesa

– e canções ensinadas aos coreanos por

missionários vindos do ocidente. Tal melodia

ficou conhecida como changga. Hoje o Trot é

tido como um símbolo da música tradicional coreana.

Geralmente se refere ao K-pop como

um gênero musical, porém há diversos grupos

e cantores solos que produzem vários estilos

musicais diferentes, como hip hop, R&B,

rock, pop e jazz. Mesmo sendo comparado ao

pop americano, o K-pop possui características

muito específicas, entre elas: coreografias extremamente

complexas, álbuns bastante conceituais,

Music Videos super elaborados e também

a constante mudança de visual dos Idols

para cada lançamento.

O K-pop é dividido por gerações, estando

hoje na quinta. A cada geração a influência

americana nas músicas e a expansão no mercado

estrangeiro fica maior.

A solista BoA é uma das principais artistas

da SM Entertainment (uma das maiores

agências de K-pop) e está em atividade desde

2000, quando lançou seu primeiro single: “ID;

Peace B”. A música, inclusive, apresenta uma

forte influência de Britney Spears e Madonna.

A cantora também se destacou bastante no

Japão cantando músicas de animes – como

Beside You, Masayume Chasing e Every Heart

dos respectivos animes: Monkey Typhoon,

Fairy Tail e Inuyasha. BoA alcançou um sucesso

tão grande que hoje é chamada de “Rainha

do K-pop”.

Além de BoA, outros nomes do K-pop

também se tornaram referência na indústria

musical coreana, como H.O.T, Seo Taiji & Boys,

TVXQ e SHINee. Jonghyun, membro do boygroup

SHINee, se tornou uma das maiores

estrelas do K-pop justamente por sua voz e

facilidade em alcançar High Notes. Jonghyun

cometeu suicídio em dezembro de 2017.

CURIOSIDADE

MAYRA CARVALHO DA SILVA

O FENÔMENO

DO K-POP


PELO BRASIL

Em meio a tantas notícias sobre a situação

do meio ambiente, fica difícil

acreditar que exista alguém preocupado

com este fator que se agrava a

cada dia. O que temos visto, são áreas sendo

desmatadas na Amazônia, rios poluídos

em todos os cantos do Brasil e do Mundo, e

quando não estão poluídos, estão secando,

desaparecendo. Efeitos de um aquecimento

global que a cada dia preocupa mais e, ao

mesmo tempo, é deixado de lado pela maioria

das pessoas.

O que não se pode negar é a coragem,

determinação e preocupação que alguns

demonstram com o mundo, pensando

no seu próprio universo, afinal, é assim que

podemos começar a transformar o planeta,

se engajarmos uma mudança em nosso

território. Foi este o pensamento de Sheldon

Sobral, estudante da escola Cidadã Integral

Técnica Estadual Erenice Cavalcanti Fidelis,

localizada na cidade de Bayeux, em João

Pessoal, na Paraíba.

O jovem que ingressou no curso de

Mecânica Industrial por acaso, através de

indicações, se apaixonou pela área e aguçou,

ainda mais, sua preocupação com o

meio ambiente.

Em entrevista a ComTempo, Sobral

disse que começou a perceber a dificuldade

dos pescadores da sua cidade em executar a

pesca, com tamanha poluição da água. “Foi

a partir desta situação que iniciei meu projeto,

a criação de um ecobarco, onde através

da energia do sol, os barcos se movem, sem

precisar de combustível. Assim, a poluição

não será reduzida a zero, mas será menor,

e além do mais, os benefícios para os pescadores

são grandes, eles vão gastar menos e,

com isso, ter um rendimento maior”.

A ideia do jovem rendeu a ele a participação

na 33ª Mostratec, a maior feira

de tecnologia da América Latina, em Novo

Hamburgo, no Rio Grande do Sul, que aconteceu

entre 22 e 27 de outubro de 2018, com

representantes de 22 países e de todos os

estados brasileiros.

O projeto de Sobral, o ‘Ecobarco’ faz

com que o barco com motor elétrico, mova-se

à base da energia solar, que tem por

finalidade agregar o conceito de desenvolvimento

sustentável a partir das energias

renováveis. Para isso, existe a necessidade

da utilização de placas fotovoltaicas como

fonte de energia de barcos dos pescadores

de seu município.

JUVENTUDE

CONSCIENTE

O Rio Sanhauá juntamente com seus

afluentes que banham e margeiam a cidade

onde vive o estudante, não é um dos mais

poluídos do Brasil, mas foi a forma que Sobral

encontrou de melhorar as precariedades

ao seu redor, podendo assim, futuramente,

elevar seu projeto e iniciar uma

batalha do bem para salvar o meio

ambiente.

“Os motores elétricos

apresentam maior durabilidade

em relação aos modelos

de motores que utilizam

combustão, reduzindo assim,

a emissão de gases

poluentes na natureza.

Fiquei extremamente

orgulhoso e feliz por ter

conseguido inscrever o

projeto na Mostratec, foi

uma experiência única,

tive a oportunidade de conhecer

muitas pessoas, ter

contato com outros projetos

incríveis e agregar ainda mais

conhecimento”.

A feira premiava os quatro

primeiro finalistas, e Sheldon não ficou

entre eles, mas a representação de seu estado

na Mostratec, lhe rendeu bons elogios

e fidelizou sua apresentação em outra feira

de tecnologia, desta vez, no Rio Grande de

Norte, onde foi aprovado, aplaudido e conseguiu

passe para apresentar seu Ecobarco em

mais uma feira. Esta terceira apresentação

será ainda no primeiro semestre de 2019.

Sobral aproveita, na entrevista, para

agradecer a orientação de seu professor

neste projeto: “Tive apoio e confiança do

professor Josemar Medeiros da Silva. Ele

empolgou-se com a seleção do projeto para

a feira e esteve comigo no evento”.

A Mostratec apresentou, nesta última

edição, 755 projetos. Destes, 420 foram de

MARCOS PITTA

estudantes do ensino médio e técnico (categoria

da qual Sheldon fez parte), e 335 incluíram-se

na Mostratec Júnior, para alunos do

ensino fundamental.

O estudante enfatizou acreditar

bastante em seu projeto: “Ainda não tive

ninguém interessado em patrocinar ou me

apoiar nesta iniciativa, mas irei batalhar e

estudar muito mais para conseguir melhorar

a vida desses pescadores, não só os da

minha cidade, futuramente, quem sabe, de

todo o Brasil”, finaliza Sobral.


“Nossa Senhora do Cerrado

Protetora dos pedestres

Que atravessam o eixão

Às seis horas da tarde

Fazei com que eu chegue

são e salvo

Na casa da Noélia

Nonô Nonô Nonô Nononô…”

JOSÉ PIUTTI

DE ROLE PELO

MUNDO COM NOEH


A

partir deste trecho da música Travessia

do Eixão, da banda Legião Urbana,

surgiu o nome da Kombi Noeh,

que passa os dias a rodar o mundo.

Paraguai, Argentina, Chile e Bolívia são alguns

dos destinos traçados por seus donos, Bruno e

Marina Trizolio, que cansados da rotina infeliz de

muito trabalhar, decidiram dedicar a vida explorando

o mundo ao redor.

“Todos os dias a gente acordava, trabalhava

e dormia. Não fazíamos nada que

nos trouxesse paz. Aquilo já não nos completava

e nossos momentos de alegria surgiam

apenas quando conseguíamos um dia de

folga para viajar. Então, pensamos: “por que

sermos felizes um dia no mês se podemos

ser felizes todos os dias?”

Após decidirem que iriam viver o sonho

de dar a volta ao mundo, iniciaram as preparações:

O trabalho que os consumia permaneceu,

para que a casa sobre rodas pudesse

tomar forma. Mas antes, ela precisava existir

e, para isso, o casal abriu mão de um terreno

recém adquirido, e com a grana em mãos, compraram

a charmosa Noeh.

Optaram por uma Kombi com motor refrigerado

a água para manter a temperatura do

motor mais uniforme e poderem viajar tranquilos.

Com a kombi em mãos, deram o segundo passo:

a documentação. Alteraram o documento de

nove, para três lugares. Passaram pelo Detran,

Inmetro e cumpriram série de burocracias para

não enfrentarem apuros pelo caminho.

Em seguida, foi a vez de cuidar da lataria.

Depois de bem lavada, iniciaram o isolamento

térmico: os buracos foram tampados com

auxílio de cola de parabrisa e todo o interior revestido

com manta dupla de alumínio, isopor e

espuma expansível de poliuretano, para garantir

temperatura agradável durante as viagens. Tudo

foi coberto de madeira e envernizado, criando

cama e pia com água.

“Fomos construindo-a passo a passo,

com nossas próprias mãos. Começamos pelo

isolamento térmico, depois os móveis, a elétrica,

a hidráulica... Três meses e meio de muito

trabalho para dar vida ao nosso sonho. A Noeh

tem quase tudo que precisamos. Tem geladeira,

fogão, armário de cozinha, despensa, pia

com água, guarda-roupa e uma deliciosa cama

de 2 x 1,4 metros ! A única coisa que não temos

é o banheiro. Sempre dependemos de banheiros

externos.”

Com tudo pronto, partiram para a primeira

aventura, rumo ao litoral de São Paulo, em Ubatuba.

De lá, seguiram para o Rio De Janeiro e Minas

Gerais. No total, já percorreram oito estados brasileiros

e cinco países, sem muito planejamento.

“Não temos muitos planos, deixamos acontecer.

Nosso único plano é dar a volta ao mundo. Por

exemplo, estávamos subindo o nordeste rumo ao

norte e quando chegamos na Bahia tivemos uma

oportunidade de trabalho em São Paulo e logo

mudamos nossos rumos - explicam.

NA ESTRADA

Na nova rotina, percorrem - por dia - cerca

de duzentos quilômetros muito bem acompanhados

pela fiel escudeira Lomita, cachorra

do casal, que é levada para passear todos os

dias depois do café da manhã. Após a primeira

refeição do dia, retornam a rota até o momento

mais esperado: almoço, que tem sempre belas

paisagens como palco. Durante a tarde, aproveitam

para conhecer a cidade que os acolheu,

trabalhar nos vídeos que são postados no canal

do youtube, que registra as aventuras do casal,

ou trabalhar com artesanato. Com a chegada

da noite, procuram lugar seguro para dormir e

tomar banho, preparam o jantar e claro - “ agradecemos

por mais um dia!”

Sobre as despesas, Bruno e Marina explicam

ter começado as viagens vivendo com a

renda da venda de brigadeiros, mas hoje, vendem

artesanato. “Hoje, nossa fonte de renda é a

venda da nossa arte, que são cortes artísticos reaproveitando

discos de vinil. O Bruno é eletricista

e faz parte elétrica de motorhomes para ajudar a

custear nossas despesas e sempre que aparece

um bico abraçamos, também.”

Nesses quatro anos de aventura e milhares

quilômetros rodados, afirmam não ter um

destino favorito, mas sim, lembranças de locais

que os encantaram.

“Argentina nos mostrou lindas

montanhas coloridas e

uma paisagem com cactos

inesquecíveis, o Chile nos

mostrou suas montanhas

com cumes de gelo e o deserto

do Atacama impressionante,

a Bolívia nos presenteou

com o salar do Uyuni

- maior e mais alto deserto de

sal do mundo -, Curitiba com

seus belos parques, Minas

com suas cachoeiras, povo

gentil e montanhas maravilhosas,

o Rio tem as praias mais

lindas que já vimos, a Bahia não

fica pra trás, no Mato Grosso do

Sul fomos surpreendidos pela

fauna e flora... enfim... não temos

um lugar preferido!”

Com tantas estradas

percorridas, histórias de aventuras

enfrentadas pelos dois, não

faltam. “Uma vez que estávamos

subindo as montanhas de Cachi na Argentina, e

a kombi quebrou no meio do nada. Felizmente,

tínhamos peças reservas e foi possível resolver

tudo por ali mesmo.” Sobre situações engraçadas,

apontam os banhos que costumam tomar,

como o canequinha atrás de posto de gasolina

ou de bica no beiro de uma estrada.

“Conhecer novas pessoas, fazer amizades,

se abrir para outras culturas e costumes...”

são essas as experiências apontadas

como a melhor parte em viajar o mundo. “Além

do crescimento pessoal, passamos a dar valor

a muitas coisas que antes eram despercebidas

e deixamos de dar valor a coisas que não

tem necessidade.”

Atualmente, o mundo possui 193 países

reconhecidos. A caminhada de Bruno e

Mariana será longa, mas o casal deixa claro

que não se arrependem da escolha que fizeram

e contam que o segredo é aproveitar o

curto tempo de vida que temos. “A vida é muito

curta para dispensá-la ao fazer tudo apenas

pelo dinheiro ou pelo conformismo. Nos deixar

levar pelo que a sociedade estipula que devemos

fazer ao invés vez de nos deixar levar pelos

nossos sonhos e pelo nosso coração não é

justo. Já tivemos amigos que perderam a vida

tão cedo e não aproveitaram nada... E se fosse

com a gente? Por isso queremos aproveitar

o presente, porque não sabemos até quando

estaremos nessa vida.”


De acordo com o dicionário artista é

“aquele que cultiva as belas-artes, que

tem habilidade ou vocação artística”

para Amanda Sabioni sua história com

a dança é sua história de vida, começou a dançar

quando tinha três anos e hoje formada em

bacharelado e licenciatura em dança pela Unicamp,

seu amor à arte se tornou seu trabalho e

profissão. “Eu via a dança como atividade física,

quando comecei enxergar como um hobbie e

uma arte e fiz vários outros tipos de dança além

do ballet clássico, comecei a me aproximar ainda

mais desse universo” conta Amanda.

“Viver da arte não é fácil mas nas pequenas

chances eu deixo o que estudei e o que eu

acredito”. Apesar de sempre ter uma relação

próxima à arte a dançarina resolveu prestar

vestibular para medicina e para isso teve que

abrir mão da dança totalmente e se dedicar aos

estudos e foi uma das fazes mais difíceis pois

ao deixar sua rotina de dar e ter aulas na academia

de dança o dia todo ela abriu mão de

uma parte de si, “abrir mão me fez ter certeza

da minha relação com a dança, foram os seis

meses mais difíceis porque não era falta de me

movimentar, era falta de dançar de ser eu” e

a partir desse momento ela decidiu mudar de

rumo e prestou vestibular para dança.

Amanda conta que uma das maiores dificuldades

da sua trajetória foi “se aceitar artista”

por conta de todo o preconceito e desvalorização

da arte no país e a dificuldade das pessoas

em entender que a dança além da arte, e é uma

área do conhecimento e uma profissão, que vai

além do ballet, jazz e do sapateado.

“Hoje eu consigo ver a dança no mercado

de trabalho, eu sei que a minha profissão

é artista, viver da arte não é fácil mas nas pequenas

chances eu deixo o que estudei e o

que eu acredito”

CULTURA

PERSONA

PROFISSÃO:

ARTISTA

ANA CAROLINA JANUÁRIO

O OUTRO LADO DOS PALCOS

Para Maria Fernanda Rezende viver

da arte não foi uma opção, hoje cursando psicologia

ela conta que o mundo dos atores não

é para todos “é um meio muito competitivo,

com muita gente jogando sujo para conseguir

crescer, tem gente que te ajuda e te põe pra

cima mas a maioria vai competir e fazer coisas

como dar em cima de professores e diretores

para conseguir papéis por exemplo”

No ensino médio por indicação de professores

Maria Fernanda começou a fazer aulas

de teatro e ao pisar no palco pela primeira

vez sentiu que ali era seu lugar, quando decidiu

que realmente queria levar a paixão pela

arte para frente ela optou pela conceituada

Escola de Atores Wolf Maya, em São Paulo,

criada pelo diretor e ator Walfredo “Wolf” Campos

Maya Júnior, onde aprendeu sobre teatro,

técnicas de atuação e postura de palco com

enfoque maior em cinema e televisão.

“Vida de artista é muito difícil, é necessário

muito estudo, dedicação e abrir mão de

coisas importantes para conseguir ter o mínimo

de sucesso”

“Vida de artista é muito difícil, é necessário

muito estudo, dedicação e abrir mão de

coisas importantes para conseguir ter o mínimo

de sucesso, houve vezes que eu deixei de

ir ver minha família para participar de testes

em que não fui chamada ou peguei um papel

que pagava absurdamente mal” relata Maria

Fernanda, que conta ainda que tiveram testes

em que o diretor chegou a humilha-la em frente

à outros atores, que sempre foi necessário

ser forte para passar por tudo.

A estudante diz que após passar na

faculdade de psicologia ela ainda tentou conciliar,

mas ser atriz exigia uma dedicação em

tempo integral e por fim optou por trancar o

curso na Escola de Atores e investir no futuro

como psicóloga.

A ideia do belo está em tudo que nos

rodeia, inclusive no próprio processo do fazer

artístico e seu estudo e cabe aos artistas

transmitir essa beleza mas para isso é preciso

enfrentar o sistema de ensino que suprime

a criatividade cada dia mais, o preconceito e

as barreiras financeiras que são colocadas

no caminho de cada um e como disse George

Santayana “Um artista é um sonhador que

consente em sonhar o mundo real.”


PERSONA

HISTÓRIA,

UM PROPÓSITO

KIMBERLY SOUZA

Nainôra Freitas atravessa

horizontes e dificuldades

pelo que ama.

Hoje ela sonha ainda

mais alto e serve como

espelho para dezenas

de alunos.


A

História sempre lhe foi um objetivo

muito bem definido, uma forma de

alcançar lugares onde poucos têm

acesso e também de se conectar

com sua verdadeira essência e seus interesses,

como a religião e a gastronomia.

Ainda envolvida nas reflexões sobre o

valor da memória, a terceira edição da Com-

Tempo traz a história Nainôra Freitas, historiadora,

pesquisadora e uma apaixonada por tudo

o que a desafia.

Desde a infância, passando por momentos

trágicos até chegar aos dias de hoje,

ela conta sobre a sua vida entrelaçada à profissão

e traz sua perspectiva sobre pautas da atualidade.

Não só um banho de conhecimento, a

primeira personagem de 2019 nos brinda com

muita inspiração.

ComTempo: Conte um

pouco sobre sua vida:

idade, onde nasceu, onde

vive, sobre sua família e

como foi sua infância.

Nainôra: Nasci e cresci na

pequena cidade de Patrocínio

Paulista, vizinha de Franca

mas ao lado de Minas Gerais.

Minha família era pequena e

sou a mais nova, irmã de gêmeas

Maria Célia (já falecida)

e Maria Cecilia. Cresci num lar

cercado de amor pelos meus

pais José e Romilda que foram

casados por 32 anos até a

morte de minha mãe. Tudo na

minha infância remete a brincadeiras

de rua, férias na fazenda

(maior prazer era andar a cavalo),

bem como recordo com

carinho dos prazeres da boa

mesa (comida caipira). Comecei

a ler muito cedo por incentivo

de minha mãe Na minha

casa tinha jornais e revistas

que meus pais assinavam e

frequentei assiduamente as bibliotecas

das escolas por onde

passei. Estudei até o colegial

na minha cidade em escola

pública. Durante o ensino fundamental

uma de minhas professoras

de literatura incentivou

muito a leitura de livros clássicos

nacionais e estrangeiros,

foi quando fiquei conhecendo

ainda mais sobre autores como

Gabriel Garcia Marques, Jorge

Luis Borges e outros.

ComTempo: Como e quando se deparou

com a história?

Nainôra: A opção por História foi simples: queria

ser professora e de História. Amava compreender

sociedades distintas e distantes no tempo e

no espaço. Estudei História na Unesp de Franca

viajando todos os dias para estudar no período

noturno. Quando escolhi História já era apaixonada

por museus, por tudo que se refere a memória

e identidade. Queria ser professora, era

mais do que uma meta, representava um modo

de vida. Sonhava em pesquisar, estudar paleografia

para ler documentos antigos e acima de

tudo ficava fascinada com a história dos países

vizinhos dos quais pouco conhecia, mas achava

que as pirâmides do México e a cidade de Machu

Picchu mais interessante que o Egito.

ComTempo: Qual disciplina mais lhe

atraía e qual menos gostava?

Nainôra: História da América e História do Brasil

eram disciplinas que fascinava, outras como

Teoria da História despertaram para outros padrões

de relações entre teoria e prática. Como

fui bolsista de iniciação científica a pesquisa passou

a fazer parte de minha vida acadêmica desde

a graduação. Durante a graduação participei

de um projeto com a profa. Haydee Marquaiafave

Pugliesi que possibilitou fazer pesquisa nos

grandes arquivos brasileiros como Arquivo Nacional

e Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro e

em arquivos dos estados de Minas Gerais, São

Paulo e Mato Grosso. Foi um mergulho na pesquisa

e uma paixão que segue até os dias atuais,

o trabalho de campo do historiador.

ComTemo: E depois da

faculdade, qual caminho

seguiu?

Nainôra: Participando desta

pesquisa como estudante

da graduação conheci uma

documentação que mudou a

minha vida. No arquivo eclesiástico

da Arquidiocese de Mariana

pela primeira vez entrei

em contato com documentos

procedentes das irmandades

leigas que funcionavam nas

igrejas de Minas Gerais: livros

de Compromisso, Livros de

Entrada de Irmãos, Livros de

Receita e Despesa... Havia

irmandades para brancos e

negros, para ricos e pobres, irmandades

donas de ricas igrejas

e outras estabelecidas em

altares laterais dentro das igrejas.

Esse universo me levou a

pesquisar não só Igreja católica,

mas religião e a relação

com as pessoas e suas crenças.

O passo seguinte foi que

terminei a graduação em História,

colando grau em dezembro

de 1985, prestei a prova

de mestrado no mês de janeiro

1986 e em fevereiro estava

cursando a pós graduação em

História e passei oficialmente

a pesquisar escravidão africana

e irmandades religiosas laicas

de Mariana, Minas Gerais.

No meio do mestrado minha

mãe faleceu, meu orientador

pediu demissão, pensei em

largar tudo e fazer Agronomia.


Tenho uma ligação visceral com a terra. Mas,

como tudo tem um propósito na vida, fiquei com

a História.

ComTempo: Qual sua relação pessoal

e profissional com a religião? Por que

decidiu estuda-la?

Nainôra: Mais de uma após a morte de minha

mãe, vim trabalhar em Ribeirão Preto, onde

moro até hoje. Passei a lecionar no período noturno

no curso de História na Faculdade Barão

de Mauá. Ao mesmo tempo, a convite de uma

amiga, levei meu currículo para uma escola de

Filosofia da Arquidiocese de Ribeirão Preto onde

passei a lecionar no curso preparatório para seminaristas

pela manhã. Nesta escola soube por

um colega de um curso de verão de História da

Igreja no Brasil. Em janeiro de 1989 fiz este curso

em São Paulo que possibilitou mergulhar um

pouco mais dentro das questões que trabalhava

no mestrado. Durante o curso soube que haveria

um outro curso maior na cidade do México no

ano seguinte e resolvi me inscrever. Meu pai deu

todo o apoio possível e em 1990 tirei um afastamento

na Barão de Mauá, o outro curso havia

fechado e transferido os alunos para outra escola,

tranquei o mestrado e passei o segundo

semestre morando na cidade do México, junto

com pessoas de 13 países, local em que fiz um

mergulho profundo nas questões da América

Latina e das igrejas católica e protestante, bem

como estudando cultos afro-indígena na América

latina. Antes de iniciar o curso, passei um

mês junto com três outros amigos viajando desde

a Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Costa

Rica até chegar ao México onde íamos estudar.

Foi um caminho sem volta de paixão pelos vizinhos

cuja história, cultura, comida, entre outros

aspectos são fascinantes.

ComTempo: Como foi o processo de

Mestrado e Doutorado? O que defendeu

em suas teses?

Nainôra: No retorno ao Brasil em 1991 terminei

o mestrado cuja dissertação teve por título: “O

Rosário de Mariana e suas irmandades: segunda

metade do século XVIII”. Não havia internet

e conhecimento se adquiria na biblioteca por

meio dos livros e era lá meu lugar predileto. Um

mundo a ser desbravado. Entre o mestrado e o

doutorado foram quase 10 anos, a escolha do

doutorado foi uma surpresa. O projeto inicial era

a respeito dos jesuítas, mas, como trabalhava

com História da Igreja na arquidiocese de Ribeirão

Preto desde 2000, cada vez mais me instigava

conhecer o processo de criação da diocese.

A pesquisa me levou a vários arquivos em São

Paulo, Curitiba e na região de Ribeirão Preto,

mas foi a experiência de pesquisar no Arquivo

Secreto do Vaticano, no coração de Roma, que

trouxe uma documentação inédita a respeito da

História da Igreja Paulista. Para um pesquisador

isso não tem preço.

ComTempo: Quais foram os desafios

nesta caminhada?

Nainôra: Os desafios foram muitos, o primeiro

deles: dinheiro para os deslocamentos em arquivos

regionais e de outros estados. Por isso

trabalhei durante todo o tempo em que escrevi a

tese. A bolsa de estudos de uma instituição alemã

chamada Adveniat trouxe o dinheiro necessário

para a estadia europeia. Outros obstáculos

também foram superados como as dificuldades

com a língua, já que tinha contato com documentos

manuscritos em italiano e latim. A tese

foi defendida em 2006 na Unesp de Franca com

o título: “A criação da diocese de Ribeirão Preto

e o governo do primeiro bispo D. Alberto José

Gonçalves”.

ComTempo: Nos seus anos de carreira,

o que aprendeu de mais marcante

sobre a religião?

Nainôra: Ao longo dos anos dedicados a pesquisar

religião fui despertando cada vez mais

para uma palavra que entre os católicos vinha

do Concílio Vaticano II: ecumenismo. Após o

doutorado, meu olhar foi ampliando para outras

facetas da pesquisa em áreas que esbarram

nas crenças mas voltadas para o patrimônio

cultural e mais recentemente para a

comida. A cultura como modo de vida passou

a ser parte das pesquisas e, mais recentemente

voltadas para a comida.

ComTempo: O que a incentivou a seguir

a carreira de docente? Onde ministra

aulas atualmente e por onde

passou enquanto professora?

Nainòra: Fui professora de escolas públicas

em Patrocínio Paulista, Itirapuã e Ribeirão

Preto, ministrando aulas no ensino médio e

fundamental. Leciono no Centro Universitário

Barão de Mauá desde 1988 e no CEARP

(Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão

Preto) voltei a lecionar coma reabertura

da Faculdade de Filosofia em 1995. Em 2000

passei a lecionar História da Igreja no curso

de Teologia sendo a única mulher neste cago.

Nestes dois locais leciono atualmente diferentes

disciplinas na área da História.

ComTempo: Qual sua opinião sobre a

desvalorização do professor?

Nainôra: Quando penso nas décadas de professora

e nos muitos alunos que tive só tenho

uma recomendação: não tenha medo de fazer

um mergulho profundo e se entregar para a

docência. Existe uma desvalorização grande

do profissional e um desconhecimento da história,

da identidade, da memória que é parte

constitutiva da nossa história, do nosso cotidiano,

saberes, fazeres. Esse desconhecimento,

indiferença, preconceito de dizer que

história e museu são velharias representam

uma ignorância da população brasileira a respeito

do que é próprio da nossa cultura, da

raiz, da identidade formativa da sociedade, de

cada cidadão.

ComTempo: Qual o valor da memória?

Nainôra: A memória, o patrimônio está em

sua maioria desvalorizados, abandonados

às traças neste país. A cultura como modo

de vida pode inclusive impulsionar a economia,

basta olhar para vários outros lugares

do mundo que vive de seu patrimônio cultural

e o povo tem um profundo respeito e

consciência da importância do patrimônio.

No Brasil valorizamos muito o que vem de

fora e o que é genuíno nosso fica em segundo

ou terceiro plano. Brasileiro tem o

que chamo de memória curta. Acredito que

precisamos de políticas públicas de gestão

adequadas que somadas a processos educativos

podem melhorar a preservação da

memória e do patrimônio cultural.

ComTempo: Indique um livro e uma

música.

Nainôra: Quando tenho que optar por um livro

é difícil, segue dois: Grande Sertão Veredas,

do Guimarães Rosa; r Cem anos de Solidão,

do Gabriel Garcia Marques. Uma música, ah!!

tem várias: Romaria, do Renato Teixeira e Volver

a Los 17, da Mercedes Sosa.

ComTempo: Qual seu sonho e seus

planos para seu futuro profissional e

pessoal?

Nainôra: Sempre um pé aqui e outro nos vizinhos.

Fazer o que é uma paixão assim como

os cavalos. Meu sonho: viver em uma sociedade

justa, humana para todos, limpa e que

todas as pessoas tenham acesso a educação,

saúde, moradia, lazer. Vida plena para todos.

ComTempo: Deixe um recado para os

leitores que pensam em seguir a carreira

da História.

Nainôra: Se você que ser professor de História,

acredite em seu trabalho e na preservação

da identidade, da memória que é parte constitutiva

da história. Eu tenho um sonho: que as

pessoas possam viver em paz em suas comunidades,

paz interna e paz externa.

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