A GRANDE REFAZENDA

cbeto00002
  • No tags were found...

Presidente da República do Brasil

President of the Republic of the Brazil

Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro da Cultura

Minister of Culture

Gilberto Passos Gil Moreira

Ministro das Relações Exteriores

Minister of Foreign Affairs

Embaixador Celso Amorim

Secretário Executivo do Ministério da Cultura

Executive Secretary of Culture Ministry

João Luiz Silva Ferreira (Juca Ferreira)

Secretário-Geral das Relações Exteriores

Secretary General of Foreign Affairs

Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Coordenador da II CIAD

CIAD II Coordinator

Conselheiro Marcelo Dantas

Fundação Cultural Palmares

Presidente

President

Edvaldo Mendes Araújo (Zulu Araújo)

Chefe de Gabinete

Cabinet Chief

Juscelina S. do Nascimento

Diretor de Promoção, Estudos, Pesquisas e

Divulgação da Cultura Afro Brasileira

Promotion, Study, Researches, and Publicizing of

Afro-Brazilian Culture Director

Antônio Pompêo

Diretora de Proteção do Patrimônio Afro-

Brasileiro

Afro-Brazilian Patrimony Protection Director

Maria Bernadete L. da Silva

Chefe da Assessoria de Gestão Estratégica

Advisor for Strategic Management Chief

Clemildes T. Carvalho

Coordenadora Geral de Gestão Interna

General Management Coordenator

Simoni Andrade Hastenreiter

Procuradora Geral

Attorney General

Ana Maria Lima Oliveira

Produzido e publicado no âmbito do convênio PRONAC nº 0611463, firmado entre a

Fundação Cultural Palmares/MinC e Associação Cultural Os Negões

A Grande Refazenda

The Great Revival

África e Diáspora Pós II CIAD

Africa and Diaspora Post - CIAD II

Edição/Edition

Fundação Cultural Palmares/Palmares Cultural Foundation

Organização/Organization

Waldomiro Santos Júnior

1ª Edição, Brasília

1 st Edition, Brasilia

Santos Júnior, Waldomiro

A Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD – Organização Waldomiro Santos Júnior. – 1 ed. – Brasília, DF

Fundação Cultural Palmares, 2006

Texto em português e inglês

p. 120

ISBN


Textos/Texts

8 - Apresentação/Preface/Waldomiro Júnior

11 - A Grande Refazenda/The Great Revival/Gilberto Gil

16 - Uma ponte por sobre o Atlântico/A Bridge over the Atlantic/Zulu Mendes Araújo

19 - Uma reflexão sobre o futuro/Reflection on the Future/Marcelo O. Dantas

25 - O novo cavalo de Tróia/The New Trojan Horse/José Carlos Capinan

28 - O Brasil na rota do pan-africanismo/Brazil on the Route of Pan-Africanism/Carlos Alberto Medeiros

30 - A Necessidade de um Pacto Político entre a África e a Diáspora/The Need for a Political Agreement

Between Africa and the Diaspora/Edna Maria Santos Roland

33 - Relações Brasil-África nas rotas das literaturas africanas/Brazil-Africa Relations in the Realm of

African Literature/Iris Maria da Costa Amâncio

36 - A Diáspora e o Renascimento Africano/The Diaspora and the African Renaissance/João Jorge Santos

Rodrigues

39 - O mito ainda não está morto/The Myth Lives On/Jocélio Teles dos Santos

42 - A internacional negra na Bahia/The Black International in Bahia/Jorge Portugal

44 - Como os filhos se parecem/They look so much alike.../Lepê Correia

46 - De Lucy ao CIAD/From Lucy to CIAD/Maurício Pestana

48 - Um rio chamado Atlântico/A River Called the Atlantic/Paulo Miguez

50 - O trauma da viagem da volta/The trauma of the return journey/Vilma Santos de Oliveira (Yalorixá

Mukumby)

Fotos/Photographs

54 - A África aqui/Africa Here

60 - A história exposta/History Exposed

62 - Africanidade/Africanness

64 - As vozes da alma/Voices of the Soul

68 - Cortinas descerradas/The Curtain Rises

70 - Diversidade em Comunhão/Diversity in Communion

72 - Encantos de ébano/The Charms of Ebony

74 - O canto da negritude/The Song of Blackness

80 - O corpo em liberdade plena/The Body in Absolute Freedom

82 - O fazer das mãos/Manual Labor

84 - Senhor Resistência/Mr. Resistance

86 - Um pedaço da África/A Little Piece of Africa

88 - Uma ponte sobre o Atlântico/A Bridge over the Atlantic

Anexos/Appendix

91 - Carta de Salvador/The Salvador Declaration

Imprensa/Press


“Para continuar resistindo, os africanos

submetidos ao cativeiro e seus

descendentes tiveram que refazer tudo,

refazer linguagens, refazer parentescos,

refazer religiões, refazer encontros e

celebrações, refazer solidariedades,

refazer cultura. Esta foi a verdadeira

Grande Refazenda”.

Gilberto Gil

“In order to continue resisting, the Africans who were confined to captivity

and their descendants had to revive everything - revive languages, revive

family relationships, revive religions, revive encounters and celebrations, revive

solidarities, revive culture. This was the true Great Revival”.

Gilberto Gil


Preface

Waldomiro Santos Júnior*

The way in which the west perceires Africa invariably

consigns the nations of the African continent

to a fatalness without future hope. These countries

and, consequently, their peoples, are presented as

incapable of inserting themselves into the process of

global development. A vision that, not by chance, is

extended to countries on other continents that, as a

result of slave traffic, have populations and cultures

marked by Afro-influences. A stigma that is not so

different for Black populations who live in countries

that today control the economy of the planet.

Heads of state, intellectuals, directors of

non-governmental organizations, and institutional

organisms from countries in Africa and the Diaspora

met together in Brazil at the Conference of Intellectuals

from Africa and its Diaspora – CIAD and CIAD

Cultural -- which took place in Salvador, offering

the world another take on the reality of Africa and

of peoples of African descent spread throughout the

continents. This time, theirs was the perception of

protagonists.

The Great Revival: Africa and Diaspora Post-CIAD

II, a project of the Palmares Cultural Foundation/Ministry

of Culture, brings together intellectuals and

protagonists involved in the process of Brazilian

ethic affirmation and their take on the consequences

brought about by the Conference and CIAD Cultural

towards the construction of an authentic Brazilian

racial democracy and the interrelationship of Brazil

with Africa and with other countries in the Diaspora.

Not one, but many perceptions, in an interdependent

plurality of common proposals and objectives,

so that the body of articles gathered here expresses

the same respect for diversity that guides the sentiment

and the force of those who seek to construct

an egalitarian world, free of the barriers of prejudice

and intolerance.

The title The Great Revival comes from the article

written by the Minister of Culture Gilberto Gil, an invitation

to us all, of all races, cultures, and countries

to be engaged in the process of reviving pathways

towards the aim of an African Renaissance, seeing

Africa as a primordial element in the construction

of a new world order that, above all, considers the

meaning of humanness.

CIAD is very well described by its coordinator

Marcelo Dantas, but for all of the authors, the concern

8 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Apresentação

Waldomiro Santos Júnior*

O olhar do mundo ocidental sobre a África, invariavelmente,

remete as nações do continente africano a uma fatalidade

sem esperança de futuro. Esses países e, consequentemente,

seus povos, são apresentados como incapazes de se inserir no

processo de desenvolvimento global. Uma visão que, não por

acaso é extensiva aos países dos demais continentes que, em

função do tráfico de escravo, têm populações e culturas marcadas

pela influência afro. Um estigma que não é diferente

também para as populações de negros que vivem nos países

que hoje comandam a economia do planeta.

Chefes de estado, intelectuais, dirigentes de organizações

não governamentais e organismos institucionais dos países

africanos e diásporos se reuniram no Brasil na II Conferência

dos Intelectuais da África e da Diáspora – CIAD e o CIAD

Cultural realizados em Salvador. Ofereceram ao mundo um

outro olhar para a realidade da África e dos povos de matrizes

africana espalhados pelos continentes. Desta vez, o olhar dos

protagonistas.

Idealizada pela Fundação Palmares/Ministério da Cultura,

A Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD reúne o

olhar de intelectuais e protagonistas do processo de afirmação

étnica brasileira sobre as conseqüências trazidas pela Conferência

e o CIAD CULTURAL, na construção de uma autêntica

democracia racial brasileira e na inter-relação do Brasil com a

África e os demais países diásporos.

Um olhar não único, mas diverso, numa pluralidade complementar

de propósitos e objetivos comuns, de tal forma que

conjunto de artigos aqui reunidos expressa o mesmo respeito à

diversidade que norteia o sentimento e o esforço daqueles que

buscam construir um mundo igualitário, liberto das barreiras

do preconceito e intolerância.

O título A Grande Refazenda vem do artigo assinado pelo

ministro da Cultura Gilberto Gil, um convite ao engajamento

de todos nós, de todas as raças, culturas e países, no processo

de refazer caminhos na direção do renascimento africano,

entendendo a África como elemento primordial na construção

de uma nova ordem mundial, que contemple prioritariamente o

sentido humano.

A CIAD é muito bem descrita no artigo do seu coordenador,

Marcelo Dantas. Mas há em todos os autores, a preocupação

de traduzir o sentimento renovador, a busca por um

renascimento africano, capaz de inspirar um novo posicionamento

nas relações internacionais. Um processo em que cabe

ao Brasil, conforme evidenciaram os textos reunidos em A

Grande Refazenda, o papel de ser um dos protagonistas ativos,

de estabelecer uma ponte ligando os dois lados do Atlântico,

como sentenciou o presidente da Fundação Cultural Palmares,

Zulu Mendes Araújo.

A diversidade de olhares na visão de cada autor nos remete

a reflexão sobre a nossa própria realidade, como fez o

antropólogo Jocélio Teles dos Santos, ao relacionar o mito da

construção da nossa nacionalidade, a partir de Diogo Álvares

Caramuru e Catarina Paraguaçu, analisando as suas conseqüência

na consolidação do processo étnico brasileiro. Ou ainda

no texto de Vilma Santos Oliveira (Yalorixá Mukumbi), que

descortina os traumas dos negros brasileiros herdados (quem

sabe?) geneticamente ou impregnados em suas almas a partir

do sofrimento dos seus antepassados.

Mas há também os olhares críticos sobre o contexto de um

mundo cada vez mais interligado. Edna Roland nos traz um

paralelo entre a III Conferência Mundial contra o Racismo,

em Durban e os atentados do 11 de setembro, ocorridos dias

depois, num exemplo de que está na compreensão e aceitação

da complexidade étnica, o passo decisivo para a solução dos

principais conflitos da humanidade.

Íris Amâncio faz uma análise do poder libertário da poesia

africana e a interligação entre a literatura desses países

e a literatura brasileira, analisando os seus pontos comuns e

profetizando a interação literária como um dos instrumentos de

consolidação da nossa integração às nações da África.

O olhar poético de Jorge Portugal viu na II CIAD e no

CIAD Cultural, um paralelo com a II Internacional Nacionalista,

de 1889 em Paris. E Lepê Correia identificou no renascimento

africano a possibilidade de se oferecer ao mundo um

renascimento com a força do movimento que no século XVI,

a partir da Itália, mudou as concepções políticas, econômicas,

sociais e culturais.

A contribuição lúcida de quem participa ativamente de um

processo étnico de transformação é outra marca de A Grande

Refazenda. Carlos Alberto Medeiros, João Jorge Santos Rodrigues,

Maurício Pestana, Paulo Miguez, assim como os demais

autores, transcendem a visão acadêmica, trazendo conscientemente

o acúmulo dos conhecimentos adquiridos por experiências

próprias e no contato direto com as realidades étnicas em

nosso país e nos mais diversos países.

No anexo, uma mostra selecionada dos registros da II CIAD

e do CIAD Cultural na imprensa, refletindo a importância e a

expectativa de conseqüências dos acontecimentos protagonizawith

putting the renovative spirit into words, is the

quest for an African Renaissance, capable of inspiring

a new stance in international relations. As evidenced

in the texts gathered in The Great Revival, a process in

which Brazil can play a role as an active participant,

with the responsibility, as Zulu Mendes Araújo the

President of the Palmares proposes, of “building a

bridge” linking the both sides of the Atlantic.

The diversity in the way each author perceives

things, leads us to reflect upon our own reality,

as the anthropologist Jocélio Teles dos Santos did

in relating the myth of how our nationality was

constructed, beginning with Diogo Álvares Caramuru

and Catarina Paraguaçu, analyzing its consequences

within the consolidation of the Brazilian ethnic

process. Or, as in the text by Vilma Santos Oliveira

(Yalorixá Mukumbi), which reveals the traumas of

Black Brazilians, inherited (who knows?) genetically,

or instilled in their souls due to the suffering of

their ancestors.

But, there are also critical perceptions concerning

the context of a world which is becoming increasingly

interconnected. Edna Roland shows us a parallel

between the World Conference against Racism III, in

Durban, and the terrorist attacks of September 11,

which occurred soon afterwards, in an example of

how to comprehend and accept ethnic complexity,

the decisive step towards the solution of humanity’s

main conflicts.

Íris Amâncio conducted an analysis of the freeing

power of African poetry and the interconnection

between the literature of these countries and

Brazilian literature, analyzing their common points

and prophesizing literary interaction as one of the

instruments for the consolidation of our integration

with the African nations.

The poetic perception of Jorge Portugal saw a

parallel between Nationalist International II, which

took place in Paris in 1889, and CIAD II and CIAD

Cultural. And, Lepê Correia identified the possibility

of offering the world a rebirth in the African Renaissance,

which gained force from the 16th Century

movement, in Italy, changing political, economic,

social, and cultural conceptions.

The clear contribution of those who actively

participate in the ethnic process of transformation

is another characteristic of The Great Revival. Carlos

Alberto Medeiros, João Jorge Santos Rodrigues,

Maurício Pestana, Paulo Miguez, as well as other

authors, transcend academic perception, consciously

bringing us an accumulation of knowledge, acquired

through their own experiences and direct contact

with the ethnic realities in our country and in several

other countries.


10 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

A Grande Refazenda

The Great Revival

In the appendix there is a chosen sample of

press registers from CIAD II and CIAD Cultural

reflecting the importance and expectations of the

consequences and of the events protagonized by

their participants, which is expressed very well in

The Salvador Declaration, the conclusive text, also

included in this publication.

Besides the written words, the images from

CIAD II and CIAD Cultural captured by the cameras

of Edson Ruiz and Júnior Esteves, perpetuate the

gathering of diversity, the effort towards the interaction

of peoples and nations, and the celebration of

Africanness.

Returning to the themes and proposals discussed

at CIAD II and the lively expression of what the poet

José Carlos Capinam defines as the ways of knowing

and doing raised by CIAD Cultural, The Great Revival:

Africa and the Diaspora Post-CIAD II is, at the

same time, a documentary register of this unique

moment in the history of the relationships among

peoples, a broad reflection of the reality of the

contemporary world and, principally, a reaffirmation

that the inclusion of Africa and diasporic peoples in

the process of development, is not only possible, but

also inevitable.

*Waldomiro Júnior is a journalist, General Secretary of the

Mário Gusmão Study Center (CEMAG), [and] coordinator of

the editorial project The Great Revival: Africa and Diaspora

Post-CIAD II.

dos pelos seus participantes, tão bem traduzidos na Declaração

de Salvador, o texto conclusivo, também incluído nesta publicação.

Além das palavras escritas, as imagens da CIAD e do CIAD

Cultural, captadas pelas câmeras de Edson Ruiz e Júnior Esteves,

perpetuam o congressamento da diversidade, o esforço

pela interatividade entre povos e nações e a celebração da

africanidade.

Ao resgatar os temas e propostas discutidas na II CIAD e a

expressão viva do que poeta José Carlos Capinam define como

saberes, sentires e fazeres, trazidos pelo CIAD CULTURAL, A

Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD é ao mesmo

tempo, um registro documental desse momento único na história

das relações entre povos, uma ampla reflexão sobre a realidade

do mundo contemporâneo, e, principalmente, uma reafirmação

de que a inclusão da África e povos diásporos no processo de

desenvolvimento, não é apenas possível, mas também inevitável.

*Waldomiro Júnior – jornalista, secretário-geral do Centro de Estudos Mário Gusmão (Cemag), coordenador

do projeto editorial A Grande Refazenda – África e Diáspora Pós II CIAD

Gilberto Gil*

Ao longo de 50 anos de lutas contra o colonialismo, pelas

independências nacionais e contra o sistema do apartheid

outrora instalado no coração da África, africanos e afro-descendentes

estiveram unidos pela bandeira da libertação.

Hoje, depois de tantas lutas e guerras, é preciso reconstruir as

economias, recompor solidariedades, consolidar as nacionalidades

e, ao mesmo tempo, estabelecer um novo relacionamento

econômico com um sistema mundial globalizado. A própria

transformação da OUA-Organização da Unidade Africana em

UA-União Africana, é o sinal destes novos tempos de renascimento

africano.

Para responder a este grande desafio da contemporaneidade,

todos os filhos da África são chamados. Do lado ocidental

do Atlântico, atenderam ao chamado os descendentes de

africanos, constituintes de diversos países americanos e caribenhos.

Marcados todos pela história colonial da escravidão

e pela sobrevivência posterior em sistemas de subalternização

social e econômica, fizeram emergir as lutas pela reparação das

perdas do passado e pela criação de mecanismos de igualdade

que promovam o acesso pleno à cidadania e ao bem-estar. A

rigor, os protagonismos negros libertários produziram um caleidoscópio

de experiências ambientadas nas circunstâncias de

cada sociedade. E assim construíram novas Áfricas.

A predominância nesses mundos negros de uma grande

diversidade de projetos não produziu uma Torre de Babel exatamente

porque não predominou a lógica materialista da sociologia

européia, seja a de Durkheim, seja a de Marx, pela qual

os interesses objetivos soldariam as solidariedades de grupo ou

de classe. O cimento era outro. Acredito que nossas solidariedades

sempre foram uma expressão de nossas identidades que

vicejaram em uma cultura afro-global, o que significa dizer que

as representações que construímos de nós mesmos foram mais

fortes do que as condições de exploração e de pobreza a que

fomos submetidos.

Para melhor entendermos este processo, é necessário fazer

uma remissão histórica às características especiais da diáspora

africana que formou as Américas. Ela se deu, a partir do

século XV, no bojo de um processo de expansão européia e de

mundialização do capitalismo. Um processo mundializado de

acumulação de riquezas para a Europa requeria o reordenamento

de outras populações para as tarefas produtivas no novo

mundo, na condição de força de trabalho. Mas quem eram estes

outros? Eram exatamente aqueles não cristãos e, portanto,

Gilberto Gil*

Throughout the fifty years of struggle against colonialism,

for national independence and, at another

moment, against the system of Apartheid installed in

the heart of Africa, Africans and those of African descent

were united under the flag of liberation. Today,

after so many struggles and wars, it is necessary to

reconstruct economies, reaffirm solidarities, consolidate

nationalities, and, at the same time, establish a

new economic relationship in a worldwide, globalized

system. The very transformation of OAU--Organization

for African Unity--into the AU--African Union--is

a sign of these new times of African Renaissance.

In order to respond to this great contemporary

challenge, all of Africa’s offspring are summoned.

From the western side of the Atlantic, those of African

descent, from various American and Caribbean

countries, answer the call. All marked by the colonial

history of chattel slavery and by the later survival of

dehumanizing social and economic systems, they

made the birth of struggles for the reparation of losses

in the past and the creation of mechanisms of equality

that promoted full access to citizenship and well-being

possible. More to the point, set in the given circumstances

of their societies, Black freedom-bent activities

produced a kaleidoscope of experiences. And in this

way, they constructed new Africas.

The predominance of these Black worlds of widely

diverse projects did not produce a Tower of Babel precisely

because European sociology’s idea of materialist

logic, whether it be the school of Durkheim or Marx

where objective interests motivate the allegiances of

a group or class did not prevail. The cement was different.

I believe that our allegiances were always an

expression of our identities that flourished in a global

Afro-culture, which is to say, the representations of

ourselves that we constructed were stronger than the

conditions of exploitation and of poverty to which we

were subjected.

In order for us to better understand this process,

it is necessary to historically cross-reference the

special characteristics of the African Diaspora that

formed the Americas. Since the fifteenth century, the

African Diaspora has became the staging ground for

a process of European expansion and the worldwide

spreading of Capitalism. The worldwide process of

the accumulation of wealth for Europe required the

re-ordering of other populations for productive tasks

in the new world, as work force. However, who were

these others? They were precisely those non-Christian

and, therefore, non-European others. They were


the heathens, the Muslim infidels, the Indians, the

Blacks, and the other barbarians. Their cultures,

their identities were considered irrelevant and judged

ripe for eradication by the exercising of powers by

conquerors, which my friend Caetano Veloso calls the

“putrid powers”.

The king of Portugal recommended that his governors

in Brazil that they “master the heathens” that is,

enslave the indigenous villages. As for the Africans,

this lordly power would tear people from their cities,

from their forests, from their villages, to bring them

by force to the other side of the Atlantic and to use

them as cogs in an infernal machine to produce riches.

Thus, in the common language of slave traffic, each

person was called a piece or a load, an individual

transformed into merchandise.

This was a process different from other slaveries

and diasporas, in which the populations were expelled

from their countries in tribes, groups, and families,

of Jews, Armenians, and other peoples, victims of

compulsory dispersal. Each of the Africans, males

and females, natives of various regions, ethnicities,

and nations, were separated from their group of

origin, mixed with a multitude of strangers on slave

ships, stored on plantations, in contingents of persons

speaking distinct languages, so that they could not

communicate with each other and could not plot

resistance and rebellion against their captors.

For the implementation of transcontinental

mercantile slavery it was necessary to produce each

slave, that is, to transform free persons into captives.

For this, it was necessary to transform each one of

the eleven million men and women who came to the

Americas into a single person, stranger to everything

and to all around him, becoming completely

dependent on his owner. In this perverse process of

slave production, the aim was to destroy the entire

identity of the captive. The destruction of the native

name, through which each one identified family,

lineage, and place as a free person in African society,

is an example. Alien and anonymous, automaton

productive machines, this was the objective of this

genocidal and ethnocidal practice of slavery.

In order to continue resisting, the Africans who

were confined to captivity and their descendents had

to revive everything, revive languages, revive family

relationships, revive religions, revive encounters and

celebrations, revive solidarities, revive cultures. This

was the true Great Revival. The first step in this

monumental process of reinventing humanity was to

overcome of the general alienation. In contrast to the

12 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

não europeus. Eram os gentios, os mouros da terra, os índios,

os negros, os outros bárbaros. Suas culturas, suas identidades

eram consideradas irrelevantes e deveriam ser erradicadas

pelo exercício dos poderes dos conquistadores, o que meu

amigo Caetano Veloso chama de “podres poderes”.

O rei de Portugal recomendava aos seus governadores no

Brasil “senhorearem os gentios”, ou seja: submeterem as aldeias

indígenas à escravidão. No caso dos africanos, este poder

senhorial deveria arrancar as pessoas de suas cidades, de suas

florestas, de suas aldeias, trazê-los à força para o outro lado

do Atlântico e utilizá-los como peças de uma máquina infernal

de produzir riquezas. Aliás, na linguagem corrente do tráfico

de escravos, cada pessoa era chamada de uma ‘peça’ ou um

‘fardo’, um indivíduo transformado em mercadoria.

Este foi um processo diferente de outras escravidões e

diásporas, nas quais populações foram expulsas de seus países

em tribos, grupos e famílias - falo de judeus, de armênios e

de outros povos vítimas de dispersão compulsória. Cada um

dos africanos e africanas, originário de várias regiões, etnias

e nações, foi separado do seu grupo originário, misturado em

uma multidão de estranhos nos navios negreiros, armazenado

em senzalas, em contingentes de pessoas de falas distintas,

para que não se comunicassem entre si e não engendrassem

resistências e revoltas contra o cativeiro.

Para a implementação da escravidão mercantil transcontinental,

era preciso produzir cada escravo, ou seja, transformar

pessoas livres em cativos. Para tanto era preciso transformar

cada um dos onze milhões de homens e mulheres que chegaram

às Américas em uma pessoa só, estranha a tudo e a todos

à sua volta, inteiramente dependente do seu senhor. Nesse

perverso processo de produção do escravo, buscava-se destruir

toda a identidade do cativo. É exemplar a destruição do nome

originário, pelo qual cada um identificava a sua família, a sua linhagem,

o seu lugar de pessoa livre em sua sociedade africana.

Estranhos e anônimos, máquinas produtivas semoventes, este

era o objetivo desta prática etnicida e genocida da escravidão.

Para continuar resistindo, os africanos submetidos ao

cativeiro e seus descendentes tiveram que refazer tudo, refazer

linguagens, refazer parentescos, refazer religiões, refazer

encontros e celebrações, refazer solidariedades, refazer culturas.

Esta foi a verdadeira Grande Refazenda. O primeiro passo

neste monumental processo de reinvenção da humanidade foi

a superação do estranhamento geral. Ao invés de estranho, o

outro passou a ser o ‘malungo’, o que veio no mesmo navio

negreiro, um companheiro de travessia, um parente. Na minha

terra, a Bahia, construiu-se um parentesco simbólico, não

sanguíneo e não linhageiro: todos os nascidos na outra costa

do Atlântico passaram a se tratar como parentes. Essa nova

identidade foi tão forte que, no português falado por eles, os

pronomes pessoais para designar o outro- o tu e o você- foram

substituídos por “parente”. Nas histórias que ouvi de minha

tia-avó, um diálogo entre velhos africanos era assim narrado:

- Assunta parente, que feitor ta de olho em parente

- Eu sei parente e já abri o olho, parente.

Esses parentes, na verdade, se reconheciam como “africanos”

na Bahia. Esta nova identidade genérica não destruía as

identidades étnicas originárias dos milhares de nagôs, gêges,

angolas, congos, moçambiques, bambaras, mandingas, fantis e

ashantis. Pelo contrário, permitia a comunicação, a solidariedade

e a afetividade entre eles.

Outras foram as construções culturais em que os cativos

africanos se reconheceram. A constituição no Brasil do sistema

religioso do Candomblé é o maior exemplo desta reculturação.

A partir de cada culto ancestral trazido de cidades e regiões

específicas das muitas Áfricas, constituíram-se panteões solidários

de ancestrais místicos, não geografizados ou telúricos e sim

arquetipizados, agrupados em grandes denominações nacionais

como os Nagôs, os Gêges e os Angolas.

Este sistema religioso inter-africano, deu o cimento e a

pedra para comunidades negras, abertas à participação de

outros não negros, e gerou e reproduziu as “famílias-de-santo”.

Assim, ninguém é estranho no Candomblé. São todos parentes

de santo.

Também no catolicismo, os africanos construíram seus espaços

próprios de reconhecimento mútuo e de solidariedade nas

irmandades negras, espalhadas por todo o Brasil, onde se cultuam

santos negros como São Benedito e Santa Efigênia, onde

são relembrados o rei Antonio do Congo e a rainha Nzinga de

Matamba, onde se dançam Congadas e Moçambiques.

Processo idêntico verificou-se em todas as formações sociais

americanas construídas pelos filhos e filhas de África. Entendemos

que a dispersão africana nas Américas foi uma espécie

de semeadura da diversidade cultural africana, que produziu

florestas de híbridos e mutantes, verdadeiras novas Áfricas

negro-mestiças.

Do lado oriental do Atlântico, os povos que continuaram no

Continente Africano experimentaram uma trajetória histórica

própria, submetida ao estatuto colonial, forma pela qual os

vários países africanos foram integrados na dinâmica mundial

do capitalismo. Desde então, a luta pela identidade, independência

e desenvolvimento fez nascer uma nova África, embalada

pela solidariedade continental representada pela OUA.

alien, the other became the malungo (fellow traveler),

who came on the same slave ship, a companion from

the crossing, a kinsperson. In my native land, Bahia,

a symbolic kinship was forged, not of blood and not

of lineage: all those born on the other Atlantic coast

came to be treated as kin. This new identity was so

strong that, in the Portuguese they spoke, “kinfolk”

was substituted for the personal pronouns which

designate the other, the second person you. In the

stories that I heard from my great-aunt, a dialogue

between elderly Africans went like this:

-Pay attention kinfolk, the overseer is watching

kinfolk.

-I know kinfolk, and I’m already on the lookout,

kinfolk.

These kinsfolk, truly, recognized each other as

“Africans” in Bahia. This new generic identity did not

destroy the native ethnic identities of the myriad of

Nagôs (Sudanese descended), Gêges (Dahomey descended),

Angolas, Congos, Mozambicans, Bambaras,

Mandingas, Fantis, and Ashantes. On the contrary,

it permitted communication, solidarity, and affection

among them.

Others were the cultural constructions in which the

captivated Africans recognized each other. The Brazilian

Constitution for the religious system of Candomblé

is the best example of this cultural recovery. Based

on each ancestral cult brought from specific cities and

regions from the many Africas, altruistic pantheons

of mystical ancestors, not bound to space nor place,

and yes archetypical, gathered in great national

denominations like Nagôs, Gêges, and Angolas.

This inter-African religious system provided the

cement and the stone for Black communities, open to

the participation of non-Black others, and generated

and reproduced the “saint families”. In this way, no

one is a stranger in Candomblé. Everyone is a kin of

a saint.

Also within Catholicism, Africans constructed their

own spaces of mutual recognition and of solidarity

through Black Brotherhoods, spread throughout

Brazil, where black saints like Saint Benedito and

Saint Efigenia were worshiped, where King Antonio

of the Congo and Queen Nzinga of Matamba are

remembered, where Congadas and Mocambiques

are danced.

An identical process was verified in all of the

American social entities constructed by the daughters

and sons of Africa. We understand that the African

dispersal in the Americas was a type of sowing of African

cultural diversity that produced forests of hybrids

and mutants, true new Black-crossbred Africas.

On the eastern side of the Atlantic, the peoples

that continued on the African continent experienced a


54 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Africa Here

They came from every continent. They crossed

oceans, hundreds and thousands of kilometers, to

arrive at the city of Salvador, Salvador of Bahia,

on the All Saints Bay. At the place where the first

slave auction square was constructed, heads of

state, intellectuals, and artists from nations in Africa

and its Diaspora came together to share with

the world the new thought that writes tjhe Africas

on every continent. A thought which is alive,

contemporary, and inclusive, contributing to the

humanization of the planet. It began on July 11,

2006 at the opening of the Second Conference of

Intellectuals from Africa and its Diaspora (CIAD)

and CIAD Cultural.

A África aqui

Vieram de todos os continentes. Atravessaram oceanos, percorreram

centenas, milhares de quilômetros, até a Cidade do Salvador

da Bahia de Todos os Santos. Na terra onde se construiu

o primeiro pelourinho, chefes de estado, intelectuais, artistas

das nações da África e da Diáspora, se reuniram para mostrar

ao mundo o novo pensamento que une as áfricas de todos os

continentes. Um pensamento vivo, contemporâneo, inclusivo,

contributivo com a humanização do planeta. 11 de Julho de

2006 foi o começo, a abertura da II Conferência dos Intelectuais

da África e da Diáspora (CIAD) e do CIAD Cultural.

O presidente do Brasil, na presença de outros cinco

chefes de Estado, abre oficialmente a II Ciad (The

President of Brazil, in the company of five other Heads

of State, officially opens CIAD II).


56 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Presidente do Brasil (President of Brazil), Luiz Inácio

Lula da Silva

Presidente do Senegal (President of Senegal),

Abdoulaye Wade

Presidente de Gana (President of Ghana), John Kufuor

Presidente de Cabo Verde (President of Cape Verde),

Pedro Pires

Presidente de Botsuana (President of Botswana),

Festus Mogae

Presidente da Guiné Equatorial (President of Equatorial

Guinea), Teodoro Obiang Nguema

Primeira Ministra da Jamaica (Prime Minister of

Jamaica), Portia Simpson Miller


58 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Presidente da Comissão da Unidade Africana (Chairman

of the Commission of the African Union), Alpha

Omar Konaré

Ministro de Estado da Cultura do Brasil (Minister of

Culture Brazil), Gilberto Gil, co-presidente da II Ciad

(co-President of CIAD II)

Ex-presidente do Parlamento Sul-Africano (Former

President of the South African Parliament), Frene Guinwala,

co-presidente da II Ciad (co-President of CIAD II)

Secretária de Política de Promoção da Igualdade Racial

do Brasil (Secretary of Policies for the Promotion of

Racial Equality in Brazil), Matilde Ribeiro

Prêmio Nobel da Paz (Nobel Peace Prize Laureate),

Wangari Maathai

Cantor (Singer) Steve Wonder, convidado

especial(Special Guest)

Presidente Lula com o presidente da Comissão da

Unidade Africana (President Lula with the President

of the Commission of the African Union)


60 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

A história exposta

History Exposed

A look through the lens, over time, juxtaposing

the everyday life of Black Brazilians at various

historical moments. Past and present together,

framed by the city square, in the photography of

Januário Garcia.

Um olhar através da lente, por sobre o tempo, colocando lado

a lado o cotidiano de negros brasileiros de tempos diferentes.

O passado e o presente juntos, emoldurados na Praça pela arte

de Januário Garcia.


62 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

Africanness

Lively colors printed on silhouettes, and

sometimes majestically crowned heads, make a

luminous contrast. At CIAD, the identity of African

and Diasporic peoples regally paraded through

the conference salons and the streets and squares

of the city of Salvador, expressing all of the effervescence

of a past materialized in a stimulating

present of new roads towards the future.

Africanidade

As cores vivas estampadas por sobre as silhuetas, às vezes

coroadas com majestade por sobre as cabeças, formam um

contraste luminoso. Na CIAD, a identidade dos povos africanos

e diásporos desfilava soberanamente nos salões de conferências

e nas ruas e praças da Cidade do Salvador, expressando

toda a efervescência de um passado materializado numa

contemporaneidade estimuladora de novos caminhos para o

futuro.


64 A Grande Refazenda, África e Diáspora Pós II CIAD

As vozes da alma

Voices of the Soul

Similar to the heart, it pulsates in the energy

of the voices that sing in praise of God and the

orishas [deities].

Como o coração ele pulsa na energia das vozes que cantam em

louvor a Deus e aos orixás.

More magazines by this user
Similar magazines