Revista Dr Plinio 252

revistadp

Março de 2019

Publicação Mensal Vol. XXII - Nº 252 Março de 2019

Celestial paradoxo:

Deus Se fez escravo!


Extraordinária

força de alma

Flávio Lourenço

São João de Deus foi fundador

de uma Ordem religiosa

famosa, tornando-se um

dos homens mais conhecidos de

seu tempo.

Sua fisionomia é toda marcada

pelo olhar. Os traços são comuns,

regulares, não dizem nada

de especial. O bigode, muito

fininho, ralinho, com certeza fazia

parte dos costumes do tempo;

e a barba aparada, cobrindo

quase todo o rosto. Caixa ocular

bem feita, com certa profundidade,

mas nada de extraordinário.

Nariz, sobrancelhas, testa

e carnatura comuns. Entretanto,

tudo sai do banal por causa

desses olhos escuros e profundos.

Olhar pensativo e analítico,

ao mesmo tempo de um místico

e teólogo, cogitando em algo muito elevado que o toma por inteiro. Uma força de alma

verdadeiramente extraordinária.

Quando consideramos um semblante como este, devemos compará-lo com as fisionomias

que encontramos nas ruas. Quantas caras comuns existem pelas vias públicas! Mas

este olhar, onde encontraremos?

Compreendemos assim o trabalho da graça, colhendo um homem que provavelmente

foi comum, tornando-o uma grande alma e fazendo, através dele, uma grande obra.

São João de Deus - Casa dos Pisa, Granada, Espanha

(Extraído de conferência de 17/1/1986)


Sumário

Publicação Mensal Vol. XXII - Nº 252 Março de 2019

Vol. XXII - Nº 252 Março de 2019

Celestial paradoxo:

Deus Se fez escravo!

Na capa, Anunciação do

Anjo a Nossa Senhora

Museu de Bellas

Artes, Dijon, França.

Foto: Flávio Lourenço

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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Impressão e acabamento:

Northgraph Gráfica e Editora Ltda.

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02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Editorial

4 Lição de humildade

Piedade pliniana

5 “Faça-se a vossa vontade!”

Dona Lucilia

6 Elevação de alma e bondade

De Maria nunquam satis

10 Encarnação do Verbo: o mistério

da Contra-Revolução

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

12 Espírito metafísico e

espírito sobrenatural - II

Perspectiva pliniana da História

16 Considerações sobre o

Brasil Império - I

Calendário dos Santos

24 Santos de Março

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 200,00

Colaborador........... R$ 300,00

Propulsor.............. R$ 500,00

Grande Propulsor....... R$ 700,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Hagiografia

26 São Teófanes e os peculiares

esplendores da Igreja no Oriente

Apóstolo do pulchrum

30 Símbolo da santidade,

majestade e força - II

Última página

36 Consorte da Sede da Sabedoria e

pai do Leão de Judá

3


Editorial

Lição de humildade

A

Anunciação

do Anjo São Gabriel a Nossa Senhora é uma das maiores festas da Santíssima

Virgem.

Ela tem um significado especial, pois é a festa em que se realiza, com a Encarnação do

Verbo, esse mistério insondável de Nosso Senhor Jesus Cristo Se colocando numa dependência tão

completa de Nossa Senhora que, como diz São Luís Maria Grignion de Montfort, Ele Se fez escravo

d’Ela.

Realmente, o Deus onipotente, infinito deixou-Se conter pelo ventre puríssimo de uma Virgem.

Durante esse tempo, o Criador de todo o universo ficou em relação a Maria Santíssima na maior dependência

que alguém possa estar em relação a uma pessoa.

Se tomarmos em consideração que desde o primeiro instante de sua concepção o Verbo de Deus

humanado foi inteiramente consciente, compreenderemos o que significava essa presença n’Ela: a

intimidade inefável ao lado dessa dependência completa. Por outro lado, podemos imaginar também

o cuidado, a veneração, a ternura sem fim da Santa Virgem das virgens conduzindo em Si este Celeste

e Divino Prisioneiro.

Aquele que é maior do que todo o universo foi contido no ventre puríssimo de Nossa Senhora.

Que paradoxo celeste, que grandeza neste paradoxo, e que imensa lição de humildade nos dá Nosso

Senhor Jesus Cristo logo ao entrar nesta vida, obscuro, apagado, despretensioso, ignorado dos homens,

reduzido ao menor estado em que uma criatura possa estar, mas adorado pelos Anjos que não

tinham o que dizer de enlevo e de entusiasmo pelo que viam e, muito mais do que pelos Anjos, adorado

por sua Mãe Santíssima, que sendo criatura humana, entretanto – outro paradoxo –, na ordem

sobrenatural valia incomparavelmente mais do que todos os Anjos reunidos!

Então, o que devemos fazer no dia da Anunciação? Eu acredito que esta data pode ser considerada

o dia especial daqueles que se consagram a Nossa Senhora como escravos. É o dia próprio a imitarmos

Nosso Senhor Jesus Cristo e pedirmos à Mãe de Deus que faça conosco, na sua misericórdia,

o que Ela fez com seu Divino Filho: que Ela nos abranja, nos envolva, nos prenda, nos acorrente

a Ela, e faça com que tenhamos em relação a Ela a dependência perfeita e omnímoda que Nosso

Senhor teve.

É, portanto, o dia adequado para aqueles de nós que tenham feito a consagração a Maria como escravos,

renová-la. Por esta forma nós nos entregamos à Santíssima Virgem do modo incondicional e

absoluto pelo qual a Ela entregou-Se Nosso Senhor Jesus Cristo. *

* Extraído de conferência de 24/3/1969

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Francisco Barros

Mãe do Bom Conselho - Capela de Nossa Senhora

da Boa Ajuda, Montreal, Canadá

“Faça-se a vossa vontade!”

ÓMãe do Bom Conselho, tende compaixão de mim nos desacertos e nas perplexidades

em que minha alma culpada se encontra. No meio de todas as minhas misérias,

vossa graça me dá a convicção de que é melhor qualquer padecimento a

continuar como estou. Portanto, se a condição para deixar o estado infeliz em que me

encontro é que Vós me façais sofrer, peço-vos a força para suportar o sofrimento que

me enviardes. Com os joelhos dobrados em terra e as mãos unidas, de toda a alma, ó minha

Mãe, peço-vos o sofrimento necessário para eu ser totalmente vosso.

Entretanto, se for possível unir-me inteiramente a Vós sem esse sofrimento, suplico-

-vos que afasteis de mim esse cálice. Mas, a exemplo de vosso Divino Filho, digo: Faça-

-se a vossa vontade e não a minha! A vossa vontade, Mãe de misericórdia, pois Vós sois

o conduto necessário, por desígnio de Deus, para subirmos a Ele e para que as graças

venham até nós.

Mãe do Bom Conselho, uma vez mais vos peço, tende piedade de mim!

5


Dona Lucilia

Elevação de alma

e bondade

A Revolução insinua existir um conflito entre elevação e

grandeza, de um lado; bondade e amenidade, de outro. Dona

Lucilia desmentia este erro pela sua presença. Do alto de seu

espírito desciam, como quedas d’água limpidíssimas e discretas,

ondas de doçura, bondade, ternura sobre as pessoas que se

aproximavam dela. Mas com quanta elevação e dignidade!

Na alma de todo revolucionário

existe um horror –

que eu não hesitaria em

qualificar de ateu – a uma dimensão

das coisas, a certa profundidade, certa

elevação de vistas que vê tudo com

uma grandeza fenomenal, relacionada

com uma porção invisível e maior, tão

grande que chega até aos pés de Deus.

A Revolução detesta

contemplar as coisas

pelo lado mais elevado

A Revolução acusa esse estado

de espírito de gerar a guerra santa,

o fanatismo, não a bondade; pode

gerar o entusiasmo, não o bem-estar.

As grandes elevações de espírito

conduzem a alturas que o espírito

não foi feito para habitar. E, portanto,

no máximo se deve esvoaçar por

lá um pouco e depois voltar às planícies

do cotidiano. Em outros termos,

é preciso viver a vida a pé ou montado

num burro, como Sancho Pança,

ao invés de viver montado a cavalo,

como Dom Quixote.

Insinua a Revolução que há um

conflito entre esses dois estados de

espírito, essas duas perfeições: a elevação

e grandeza, que se exprimem

numa seriedade extraordinária, de

um lado, e de outro a bondade, a

amenidade.

Tenho lido furtivamente uma ou

outra descrição desses voos em que

o astronauta sai da órbita da Terra e

entra numa espécie de noite que há

entre os vários astros, e vê tudo se

modificar. Noto que fazem uma descrição

de caráter estritamente científico,

sem perceber a seriedade que

aquilo tem, a qual envolve o homem.

Quando o astronauta sai da atração

da gravidade da Terra e começa

a se deixar atrair por outros planetas,

isto tem uma seriedade imensa.

Ele é chamado para vias que não

são as comuns do homem, e para órbitas

que não são as dele. Ele constitui

uma exceção na ordem do universo

e é posto como espetáculo para os

Anjos e para os homens.

O homem moderno detesta contemplar

as coisas por este prisma.

6


NASA (CC2.0)

Gustave Doré (CC2.0)

Ele quer ver na viagem astronáutica

um mero percurso de uma mercadoria.

Mandam um foguete para a Lua.

Dentro tem um homem que aperta

uns botõezinhos e complementa a

máquina. Esse homem chega ou não

chega? Traz ou não traz amostras para

a Terra? Acabou-se.

O grandioso dessa viagem interastral

formidável, que nunca ninguém

fez até então, a grandeza do homem

que extrapola da regra e fica num zênite

ao longo dos séculos, como sendo

o único que pousou na Lua – uma

coisa fenomenal! – isso as pessoas

não querem perceber. Todas as grandezas

estão alheias.

Grandeza sem interstícios

de mediocridade

Os revolucionários querem afirmar

que esse tipo de alma não tem bondade,

doçura, amenidade, nem misericórdia

e, portanto, perto de uma pessoa

assim encanta-se sem se distender.

E como não se pode viver tenso, é necessário

tomar férias da grandeza.

Se analisarmos os mais diversos ambientes

contemporâneos, encontraremos,

talvez com raras exceções, o choque

entre a grandeza de alma a que os

panoramas da Fé nos convidam e o pedestre

do pequeno arranjo doméstico,

da pequena situação para resolver: a

criada que entrou, o emprego que o pai

tem ou não tem, o famoso problema da

saúde, enfim, essas coisas todas que vão

entrar na primeira linha da preocupação.

E o homem é levado, pelos hábitos

mentais recebidos desde muito cedo, a

esperar precisamente que lhe seja dado

um intervalo entre grandeza e grandeza,

no marco da mediocridade. Esses

são os momentos de interstício dentro

da vida de entusiasmo, de grandeza.

Esta espécie de tentação dos hiatos

de grandeza encontrava na alma de

mamãe o desmentido mais completo.

Porque se uma coisa havia que a caracterizasse

era exatamente essa grandeza

que ela punha na menor coisa.

Dona Lucilia era uma pessoa a

quem se fosse dada uma rosa podia ficar

horas contemplando a flor e fazendo

comentários. Mas comentários que

7


Dona Lucilia

tinham isso de característico: desciam

ao mais miúdo da vida e tomavam os

pormenores mais minúsculos para os

analisar. Entretanto, quando se via com

que espírito aquilo estava sendo analisado,

percebia-se que tocava no alto.

Tudo interessava a ela na medida em

que certas altas cogitações, que ela não

largava nunca, estavam presentes nela.

Devo dizer que, embora um homem

em nada se deva comparar a

uma flor – ele pode se comparar a um

fruto ou a uma árvore, mais do que a

uma flor –, entretanto, era assim que

eu me sentia tratado por ela em minha

infância. A vinculação profunda

de alma entre ela e eu tinha a sua razão

mais profunda neste ponto de enlevo

meu com ela, desde pequeno.

Arquivo Revista

“Luciliotropismo”

Eu percebia que, sendo muito pequenino,

mamãe tratava comigo, debaixo

de certo ponto de vista, como

com um brinquedinho. Ela achava

graça na minha fragilidade, na minha

insipiência, enfim no meu estado de

principiante em tudo. Mas eu notava

que naquilo entrava uma espécie

de carinho contemplativo que ia até

as mais altas regiões e – vejam o paradoxo

da linguagem – as mais altas

profundidades da alma dela. E que

aquele carinho, cheio de um pensamento

inteiramente superior, me envolvia

todo: “Este é meu filho. Dele

tenho razão para esperar que seja de

tal jeito, de tal outro... Vou brincar

com ele envolvendo-o no meu afeto,

protegendo-o, mas procurando nele

os sintomas precursores de minha

esperança. O que de minha esperança

poderá se realizar?” Eu me sentia

estimulado por uma indagação esperançosa

como quem dizia com afeto:

“Meu filho, tu serás aquilo que eu

tenho no fundo de minha alma?”

Assim como existe o heliotropismo,

pelo qual a planta procura o Sol,

assim também, por uma espécie de

“Luciliotropismo”, eu era tendente

a me voltar a ela. Quando mamãe fazia

as menores coisas para mim, como,

por exemplo, ajudar-me a passar

de minha cama de menino de dois ou

três anos para a dela, sorrindo, brincando,

eu percebia que algo de muito

mais alto me envolvia e que um

dia compreenderia a doçura dos altos

píncaros, a distensão e a suavidade

dos altos ideais, e como aquilo que

era majestoso era doce e atraente!

Isso aprendi com ela de tal maneira

que contemplei nela até o fim da sua vida,

e tive com ela o trato cheio de veneração

que correspondia a uma alma

como a dela. Minha mãe merecia

meu respeito e eu prezava essa circunstância.

Mas não era só isso. Ela era daquele

jeito e tinha em sua alma aquela

grandeza; por esta razão, eu sentia que

todas aquelas qualidades dela caíam

sobre mim, circundavam-me e penetravam

em mim por uma osmose, para a

qual eu abria todos os meus poros.

É no alto das serranias

que se encontra a paz

Mais de uma vez desci com ela o

caminho de Santos em trem, num período

em que quase não se fazia essa

viagem de automóvel. É um lindo caminho

que passa por serras com manacás

em flores, e onde se vê a água

correr abundante do alto dos penhascos,

e escorrer até os vales que circundam

aquilo tudo, no meio do verde

de uma floresta onde nunca os pés

humanos pousaram, e que estão como

os via o Padre José de Anchieta.

Quantas vezes acompanhei o olhar

de Dona Lucilia que contemplava

aquele panorama! Ela baixava o vidro

da janela, encostava a fronte sobre

o braço e ficava olhando aquela

natureza toda...

Confesso que eu olhava muito

mais para ela do que para o panorama.

Discretamente, para ela não

perceber, porque ela não gostaria...

Mas são os raros contrabandos que

um filho pode fazer.

Eu olhava para tudo aquilo e pensava:

“Isso tem uma qualquer analogia

com ela, que algum dia explicitarei...”

Estou explicitando agora. Do alto

do espírito dela desciam as ondas de

doçura, de bondade, de ternura, como

quedas d’água limpidíssimas, discretas

– não é a Cachoeira Paulo Afonso com

aquela barulheira –, e vinham suave e

docemente como tudo quanto dela baixava

sobre nós. Mas quanta elevação,

quanta altura, quanta dignidade!

Se nós queremos encontrar a paz, a

tranquilidade, a doçura, o afeto de que

por alguns lados, a justo título, a nossa

alma é sedenta, sejamos os homens

que compreendem que isso só se acha

no alto das serranias. E cada vez que,

arrastados pela influência subconsciente

do espírito moderno, procura-

8


Quantas vezes acompanhei o olhar de Dona Lucilia

que contemplava aquele panorama! Ela baixava

o vidro da janela, encostava a fronte sobre o

braço e ficava olhando aquela natureza toda...

Confesso que eu olhava muito mais para ela

do que para o panorama. Eu olhava para tudo

aquilo e pensava: “Isso tem uma qualquer

analogia com ela que algum dia explicitarei...”

Divulgação (CC2.0)

Arquivo Revista

mos o cotidiano sem as suas grandezas

e sem sua beleza, de fato nós estamos

afastando com a mão essa coisa colossal,

pois todas as suavidades e convites

para a doçura do Quadrinho 1 não

vão com quem tem a alma posta nessas

coisas revolucionárias.

Subir as vias escarpadas

da grandeza

Pelo contrário, mamãe fazendo-me

sentir, desses altos píncaros, a bondade,

a doçura, o bem-estar do convívio

com ela, tive uma ideia experimental,

viva, do que sejam essas qualidades,

como não conheço que tenha havido

igual. Quer dizer, quem busca o muito

alto, muito majestoso, muito grandioso,

aquele que caminha com o passo

resoluto até dentro do trágico, e que

é sedento do trágico porque sabe que

este é a escada que leva até os píncaros

– a Via Crucis é a única que conduz

até o alto do Calvário –, esse encontra

as coisas que procura. O outro é desviado

pelo espírito moderno.

Na hora em que tudo convida à falta

de seriedade, ao relaxamento, ao meramente

florido, ornamental, gostozinho,

nós devemos estar de pé, em toda

a nossa estatura, contra a tentação

da trivialidade e escorraçá-la com o pé,

dizendo: “Futuro, com os pés postos

sobre os escombros desta banalidade

blasfema, eu te chamo. Vem, ó futuro!”

Ide resolutamente escalando as

vias escarpadas da grandeza. Ao longo

dessas vias encontrareis não só a proteção

de quem com uma real grandeza

teve tanta bondade, mas Aquela que,

incomparavelmente superior a todas

as criaturas, é ao mesmo tempo a Rainha

majestosa do universo que calca a

serpente para todo o sempre. Ela é a

Conceição Imaculada, de quem dizemos:

“Vida, doçura, esperança nossa,

salve, ó Rainha! ”

Subi, não vos deixeis atrair pelo

visgo do cotidiano, evitai o banal e

amai a grandeza, e ter-me-eis dado

aquilo que mais desejo de vós!

v

(Extraído de conferência de

12/12/1982)

1) Quadro a óleo, que muito agradou

a Dr. Plinio, pintado por um de seus

discípulos, com base nas últimas fotografias

de Dona Lucilia. Cf. Revista

Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

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De Maria nunquam satis

Fra Angelico (CC3.0)

Encarnação do Verbo:

o mistério da Contra-Revolução

A Festa da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora nos convida a admirar

este sublime paradoxo: no momento em que a Virgem Santíssima

afirmava ser a serva do Senhor, o próprio Deus quis fazer um supremo

ato de servidão, de dependência e de escravidão em relação a Ela.

Nisto encontramos a perfeição do espírito da Contra-Revolução.

Em seu Tratado da Verdadeira

Devoção à Santíssima Virgem

1 , São Luís Grignion de

Monfort tem o seguinte pensamento:

Os verdadeiros devotos de Nossa

Senhora terão uma devoção especial

pelo mistério da Encarnação do Verbo,

a 25 de março, que é o mistério

adequado a esta devoção,...

Quer dizer, da sagrada escravidão.

...pois que esta devoção foi inspirada

pelo Espírito Santo: primeiro, para

honrar e imitar a dependência em

que Deus Filho quis estar de Maria, para

glória de Deus seu Pai e para nossa

salvação; dependência que transparece

particularmente neste mistério em que

Jesus se torna cativo e escravo no seio

de Maria Santíssima, aí dependendo

dela em tudo; segundo, para agradecer

a Deus as graças incomparáveis que

concedeu a Maria, principalmente por

tê-La escolhido para sua Mãe digníssima,

escolha feita neste mistério. São estes

os dois fins principais da escravidão

a Jesus Cristo em Maria.

Um grau de sujeição

inimaginável

O pensamento muito profundo é

de que Nosso Senhor, vivendo em Maria

durante o tempo da Encarnação,

esteve em uma dependência incomparável

d’Ela, pois sendo já inteiramente

lúcido, ficou, entretanto, completamente

dependente, como uma criança

no seio materno depende de sua mãe.

É o maior estado de submissão

que se possa imaginar. Uma crian-

10


ça fora do ventre materno tem uma

vida própria, liberdade de movimentos,

enfim, todo um dinamismo próprio

ajudado pela mãe. Mas não vive,

propriamente, da vida da mãe.

Pelo contrário, a criança que está no

seio materno, vive da vida da mãe;

em tudo é conduzida e, por assim dizer,

circunscrita por ela.

Como sujeição, é um estado bastante

semelhante ao de escravidão,

porque neste o escravo renuncia

completamente à sua liberdade para

ficar inteiramente circunscrito pela

vontade de seu senhor. Sua vida,

seus atos são para o serviço de seu

senhor, seus pensamentos tendem a

ele. Assim era Nosso Senhor em relação

a Nossa Senhora.

Aquele que, sendo infinito, criou

o universo e a quem o Céu e a Terra

não podem conter, foi contido pelas

entranhas indizivelmente gloriosas

da Santíssima Virgem e teve para

com Ela um grau de sujeição inimaginável!

Em resposta ao “Non

serviam” de Lúcifer, o

“Amém” do Filho de Deus

Portanto, quem quiser ser verdadeiro

escravo de Nossa Senhora deve

venerar de modo muito especial essa

miraculosa e insondável sujeição de

Jesus a Maria, na qual o infinitamente

maior deixou-Se dominar e conter

pelo menor, na realização de um

plano divino, cuja sabedoria excede a

qualquer cogitação humana.

Por outro lado, este é o mistério da

Contra-Revolução, porque se a Revolução

é um grande “Non serviam” 2 ,

o mais alto grau de alienação – praticado

pelo Filho de Deus em Maria

Santíssima – é o mistério que mais esmaga

a psicologia, a mentalidade e os

falsos ideais da Revolução. Em lugar

do “Non serviam” é o “Amém”. Lúcifer

bradou: “Não servirei”; Nosso Senhor

disse: “Assim seja” a tudo quanto

Nossa Senhora quis.

Exatamente isso dá uma constrição

especial no homem de espírito revolucionário,

diabólico. Não é apenas

ver a Deus servido por sua criatura

e, portanto, sendo observada aí uma

espécie de ordem de mérito, mas é o

próprio Criador querendo obedecer à

sua criatura e esta mandando n’Ele.

É levar a obediência a um grau que se

não soubéssemos, pela Revelação, ter

havido a Encarnação, nunca poderíamos

imaginar que essa virtude chegaria

a tal extremo.

Se isso deu tanta glória a Deus, a

ponto de naquilo que abusivamente

poderíamos chamar a História d’Ele

– porque Deus é infinito e não tem

História – Ele quis que figurasse esse

ato de obediência insondável, compreendemos

também como a obediência

praticada por nós dá glória a

Nossa Senhora. Em contrapartida,

como a revolta injuria a Maria Santíssima

e seu Divino Filho.

Vemos, assim, até que ponto a Revolução

é odiosa a Deus, e isso nos leva

a compreender melhor o Inferno,

com seus tormentos eternos, o desespero

completo, o esmagamento perpétuo

do demônio, à vista do fato de

que ele atentou contra este princípio:

ele deveria obedecer e não quis.

Certos teólogos dizem que a revolta

de Lúcifer deu-se porque lhe

foi mostrado o plano da Encarnação

e dada a ordem de adorar o Verbo

de Deus Encarnado. E por ser um

anjo de tão alta categoria, ele não

quis e revoltou-se.

Esta hipótese, que me parece totalmente

provável, adquire uma clareza

ainda maior se pensarmos no

demônio considerando Nosso Senhor

Jesus Cristo contido no claustro

sacratíssimo de Nossa Senhora

e obedecendo a Ela. Ver essa obediência

do Verbo Encarnado a uma

criatura infinitamente menor do que

Deus – por mais excelsa que seja –,

e a inferioridade d’Ele em relação a

essa criatura, isso deve ter levado ao

paroxismo a indignação de Lúcifer.

A festa da Contra-Revolução

Nós podemos dizer, portanto, que

o dia 25 de março é a festa da Encarnação

do Verbo, da escravidão a

Nossa Senhora, da Contra-Revolução.

É a festa na qual se celebra o espírito

de obediência, o amor à hierarquia,

à ordem, à dependência, a

tudo quanto a Revolução odeia.

É mais do que concebível que nos

preparemos para essa festa por meio

de orações especiais para pedir a

Nossa Senhora que esse espírito representado

pela Encarnação atinja

em nós a plenitude desejada por

Deus quando nos criou.

De outro lado, vemos também o

espírito mais do que humilde e contrarrevolucionário

de Maria Santíssima

em face deste mistério. Quando

Ela soube que o Verbo Se encarnaria

n’Ela, sua reação não foi de Se

vangloriar, mas de pronunciar esta

frase humílima: “Eis aqui a escrava

do Senhor, faça-se em mim segundo

a tua palavra” (Lc 1, 38). Como

se dissesse: “Se Deus quer de mim

essa coisa inexplicável, isto é, que eu

mande n’Ele, até isso Ele pode exigir

de mim. Portanto, se Deus pede

o meu consentimento a essa situação

inimaginável, por obediência a Ele,

n’Ele mandarei! Mas é Ele o Senhor,

e a sua vontade, em todas as coisas,

eu farei.”

Como ganha um realce especial, à

luz disso, a atitude de Nossa Senhora

na Anunciação, dizendo-Se escrava

de Deus no momento em que Ele

queria fazer um ato supremo de servidão,

de dependência, de escravidão

em relação a Ela! Encontramos

nisto a perfeição do espírito da Contra-Revolução.

v

(Extraído de conferência de

16/3/1971)

1) Cap. VIII, art. 1, §4, n. 243.

2) Do latim: “Não servirei.”

11


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Tomas T.

Espírito metafísico e

espírito sobrenatural - II

Parque Nacional

de Yellowstone,

Estados Unidos

A pessoa com espírito

verdadeiramente católico

é muito hierárquica,

pois em todas as coisas

procura os arquétipos

aptos a encaminhá-la para

Deus Nosso Senhor. Eis

o ponto fundamental de

toda verdadeira formação

católica, nos termos que

podem interessar ao

homem de nossos dias.

São Tomás apresenta cinco provas

racionais da existência de

Deus. Destas provas uma das

menos tratadas pelos autores de vida

espiritual é a chamada “quarta via” 1 .

Esta procede de um princípio muito

bonito que tentarei explicar agora.

Flavio Lourenço

As qualidades existentes em

determinado ser procedem

de seres superiores

Exprimindo-me em termos meramente

físicos, se eu analiso um azul-

-claro percebo que deve haver uma

cor intensamente azul da qual este

azul tênue não é senão uma mistura.

O fato de existir o azul tênue

12

Santo Tomás de Aquino jovem - Igreja de

São Domingos, Osuna, Espanha


Gabriel K.

é uma prova de que em algum lugar

do mundo há um azul-marinho intenso,

carregado.

Então, poderíamos afirmar, de algum

modo quase alegórico, que todos

os azuis existem porque há um

azul – que, numa linguagem também

inadequada, chamaríamos de absoluto

– do qual todos os outros são dimanações.

Esse princípio abre o nosso espírito

para outro mais genérico: sempre

que uma coisa tem uma qualidade

em determinado grau, ela só existe

porque há algo mais perfeito do qual

ela participa. O ser dotado de qualidade

em grau menos alto participa

de algum modo dessa mesma qualidade

existente em grau supremo em

outro ser.

Suponhamos que alguém vá à Inglaterra

e encontre várias senhoras

finas, distintas. São senhoras da boa

burguesia antiga e tradicional da Inglaterra.

Donde receberam as influências

que as tornam tão finas? De

uma classe social superior, a nobreza,

que ainda tem muito mais finude

irradiação de qualidade dos quais os

outros participam.

Assim está organizado o universo.

Todas as qualidades existentes em

determinado ser procedem de seres

superiores.

Pirâmide de arquétipos

Madonna dei Raccomandati - Catedral de Orvieto, Itália

ra do que essas senhoras da burguesia.

Portanto, a finura delas é a participação

da finura das

senhoras nobres. E essas

senhoras da nobreza,

de quem receberam

esta finura? De uma

rainha, o protótipo da

finura, que possui essa

qualidade como em

sua fonte. Há burgueses

finos porque existem

nobres, e nobres

porque há reis.

Num país com a vida

cultural bem constituída,

se vemos homens muito

cultos chegamos à conclusão

de que esse país tem

excelentes universidades e

deve contar com grandes

sábios, porque não pode

haver tantos homens cultos

sem a existência de um

foco em uma universidade

dotada de alguns sábios,

pelo menos. Quer dizer,

deve haver sempre focos

Deste princípio São Tomás tira a

seguinte conclusão: se existe numa

criatura uma qualidade qualquer,

deve haver um ser extrínseco ao universo

criado que tenha essa qualidade

em grau infinito.

Com efeito, o exemplo da rainha

não explica tudo, pois quem lhe deu

tal predicado? Se chego apenas até a

rainha, tenho uma pirâmide truncada.

Deve existir um Ser de quem ela

tenha recebido aquela qualidade, o

qual, por sua vez, a possua de modo

absoluto e infinito, e não a tenha recebido

de ninguém. Este Ser no qual

todas as coisas excelentes existem de

um modo perfeito e infinito é Deus.

Elisbeth I no dia de sua coroação

Coleção Real, Londres, Inglaterra

Royal Collection (CC3.0)

13


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Assim, o fato de haver no mundo

coisas belas, nobres, elevadas, harmônicas,

ordenadas demonstra a

existência de Deus. Demonstração

esta muito importante para se compreender

o verdadeiro feitio do espírito

católico e o dinamismo do amor

de Deus.

Nisso está, inclusive, a prova da

existência dos Anjos, pois é preciso

haver criaturas que tenham de um

modo arquetípico essas qualidades,

e é de arquétipos em arquétipos, ora

maiores, ora menores, que as coisas

se difundem.

O arquétipo é um tipo que tem

certas qualidades de um modo ultracaracterístico,

saliente e pleno, tanto

quanto cabe em uma criatura. Então

podemos ter tanto um rei quanto

um porteiro, como um guerreiro ou

um professor arquetípico.

Quando existe um

arquétipo, florescem

em torno dele muitos

homens possuindo

em grau menor as

qualidades desse arquétipo,

participadas

dele. E para que as

qualidades existam

no gênero humano

é preciso haver uma

pirâmide de arquétipos.

Todas as

qualidades

presentes nas

criaturas

existem em Deus

de modo infinito

Porém, para além

do gênero humano

deve haver Anjos

que possuam determinada

qualidade

com uma densidade

muito maior do que

Arquivo Revista

nós, homens, temos. E depois é preciso

que haja Deus. Quer dizer, prova-se

a existência dos Anjos com o

mesmo argumento da existência de

Deus.

Todas as qualidades presentes nas

criaturas – Anjos, homens, animais,

vegetais e minerais – existem em

Deus de modo infinito. Por que um

brilhante brilha? Porque Deus tem,

de um modo espiritual, uma qualidade

cuja imagem material é o brilhante.

Se Deus deixasse de existir, todos

os brilhantes deixariam de brilhar

porque todo o brilho dos brilhantes

deflui continuamente de Deus que

não brilha como uma pedra porque

Ele não é pedra, mas tem uma perfeição

que a pedra imita brilhando.

O perfume de uma flor é uma

qualidade que, a seu modo, exis-

Dr. Plinio recebe a Sagrada Eucaristia em 1990

te de maneira infinita em Deus, como

num espírito e não como na matéria.

Ao sentir o aroma daquela flor

tem-se uma ideia misteriosa e inefável

de algo presente em um Ser perfeito

e infinito.

Passando para o gênero humano,

se eu conhecesse um perfeito causeur,

um homem que conversa brilhantemente,

portanto agradável, interessante,

atraente, gentil, enfim,

com todas as qualidades possíveis,

teria vontade de passar o tempo inteiro

em contato com essa pessoa.

Imaginem alguém cujo repouso

me descansasse, cuja ação me estimulasse

a agir, cujo timbre de voz

soasse para mim como uma música,

cujo olhar emitisse uma luz, cuja

presença fosse um calor! Pois bem,

eu olharia para esse homem e pensaria:

“Ele é um tão

grande causeur, entretanto

poderia ser

mais. Em última análise,

se ele tem isso

deve haver alguém

que tenha mais do

que ele e, por fim,

um Ser que possua

essa qualidade em

proporções infinitas.

Que maravilha

quando eu puder ver

Deus face a face!”

Todas as coisas foram

criadas e dispostas

para despertar

em nós o gosto pelo

mais. Querer mais é

o movimento contínuo

da alma católica.

Não só desejar mais,

mas querer tudo. E

porque quer tudo,

não encontra a plena

satisfação em nada

terreno, mas a razão

mostra que existe

além da Terra e de

um modo infinito.

14


Nasce, então, a possibilidade de

gostar das coisas de um modo não

frustrante, porque embora todas as

criaturas decepcionem, considerando-as

nesta linha elas contêm um

anúncio, uma promessa e um antegozo.

Aí sim somos capazes de viver,

tendo o espírito anti-igualitário, pois

naqueles que são arquétipos vemos

imagens de Deus, aptas a me atrair

como a plenitude atrai a parte, mas

que me encaminham depois para a

plenitude das plenitudes que é Deus

Nosso Senhor. Por esta forma eu me

oriento para Deus. Eis como o espírito

católico deve estar continuamente

considerando as coisas.

Fra Angelico (CC3.0)

Isso é viver; o resto é

arrastar a vida

Fra Angelico visitado pelos anjos

Museu de Belas Artes de Rouen, França

Esta postura diante da vida, ao

invés de torná-la monótona, torna-

-a entretida. Tenho pena de quem

não faz isso como alguém que enxerga

tem compaixão de um cego. Mais

ainda: se aguento tantos dissabores

desde a manhã até a noite é porque

este entretenimento me dá forças.

Por exemplo, na hora da Comunhão

pensar como este Deus perfeito

e absoluto, omne delectamentum

in Se habentem – tendo em Si toda

espécie de sabores –, embora de

modo insensível, entra na minha alma,

e já nesta Terra, nesta noite, me

é concedida a semente da luz que terei

quando meus olhos se fecharem

definitivamente para este mundo.

Esta é a impostação do espírito

católico, o qual é muito hierárquico,

porque em todas as coisas procura o

arquétipo, a maior perfeição criada, e

depois voa para a perfeição incriada.

Dou um exemplo de como se faz

uma operação mental dessas. Enquanto

falava, meus olhos caíram na

parte de trás dessa imagem de Nossa

Senhora, e me chamou a atenção a

boa ordenação das dobras do manto

esculpido, dando a impressão de um

pano grosso que não se deixou amarfanhar

nem amarrotar, mas que também

não está dobradinho como para

uma vitrine; são dobras aparentemente

espontâneas, produzidas por

um bonito movimento.

Passou-me pela mente como seria

interessante estar junto ao escultor e

vê-lo imaginar essas dobras. Por assim

dizer, entrar na sua cabeça e ver

qual o estado de espírito por onde

ele excogitou isso. Para mim, ver o

espírito dele produzir a dobra é ainda

mais interessante do que fazê-la.

Então, ter visto o escultor excogitar

a dobra, esculpi-la, olhar para ela e,

por fim, analisar a fisionomia do escultor

e fechar o ciclo da minha observação

entreter-me-ia extraordinariamente.

Em vários museus europeus

vi artistas pintando e gente em

volta olhando os pintores, e compreendo

isso.

Porém eu quereria mais. Como

seria maravilhoso ver Deus quando

criou o mundo! Na criação de todo

o universo, que coisa superior! Deus

é eterno e imutável, e vendo-O face

a face, eu O verei como quando Ele

estava criando o universo.

Está aí uma meditação que me

eleva. Isso é viver, o resto é arrastar

a vida.

v

(Extraído de conferência de

17/11/1972)

1) Cf. Suma Teológica I, q. 2, a. 3.

15


Perspectiva pliniana da História

Considerações sobre o

Brasil Império - I

O reinado de Dom Pedro I,

príncipe romântico, impulsivo,

tumultuoso e inconstante, inquietou

e deslumbrou pacatos brasileiros,

desorientou combativos portugueses,

deixando um sulco na alma e na

formação psicológica do Brasil.

Ao fazer uma exposição sobre

a História do Brasil, se

eu fosse começar por mencionar

as capitanias, os governadores,

pondo num quadro-negro a lista

deles todos, datas em que tomaram

posse e deixaram seus cargos, a história

das bandeiras, era muito pouco

provável que despertasse a apetência

de meus ouvintes.

O verdadeiro numa formação intelectual

e, sobretudo, espiritual é alargar

o campo do interesse, de maneira

que os ouvintes tenham amplos horizontes.

Não ficar tratando como especialista

de um tema, por exemplo,

de que doença morreu Fernão Dias

Pais Leme. Não sou médico, nem contemporâneo

dele, não me interessa

saber do que ele faleceu, isso não é tema

para mim. Mas alargar os horizontes,

isto sim é formação.

Dois modos tipicamente

brasileiros de interessar-se

pela História

Nas anteriores reuniões sobre

História do Brasil fui jogando no

ar dados com alguma conexão entre

si, mais ou menos como um piloto

a bordo de um navio que, entrando

num porto, vai atirando sondas para

saber por onde sua embarcação deve

rumar. Fui lançando sondas para

ver quais eram os temas que interessavam

mais. E acabei percebendo

que um assunto que interessa muito

ao feitio do nosso povo e, aliás,

corresponde à mentalidade e ao ambiente

brasileiro diz respeito à seguinte

temática:

Cada chefe de Estado que passa é

uma figura; ele governa e pode-se fazer

a história do seu governo. O go-

GAP (CC3.0)

16

Dom Pedro I - Museu

Imperial, Petrópolis, Brasil


verno dele é o conjunto de atos de caráter

político, diplomático, econômico,

administrativo com os quais ele

dirigiu o Estado brasileiro durante

certo período, seja um monarca, seja

um presidente da República, seja um

ditador. Esta é uma faixa na qual se

pode estudar a História de um povo.

Mas há outra faixa que me parece

muito mais brasileira. Um chefe

de Estado consegue ou não projetar

a sua figura aos olhos do povo,

de maneira a ser uma personalidade

que marque por sua presença

a vida psicológica, intelectual, afetiva

do povo. Se ele consegue isto,

o período de governo dele é

uma era na História. E quando

ele sai, o colorido da História

muda.

Tem pouco a ver com

a diplomacia, as finanças,

a guerra e tudo mais. É a

apresentação e a ação que

toda pessoa exerce sobre outra

quando estão juntas.

Tomem dois homens num gabinete

dentário, por exemplo, esperando

a hora de serem atendidos.

Eles não se conhecem, olham-se vagamente

e um não se interessa pelo

outro, se rejeitam. Dir-se-á que não

exerceram influência um sobre o outro.

Não é verdade. Naquela mútua

rejeição cada um afirmou alguma

coisa de si que o outro recusa. E

naquilo eles se acentuam em alguma

coisa.

Todo contato humano exerce

uma influência afirmativa

ou negativa. Mesmo quando

essa influência é neutra, ou seja,

fecha o guichê, ainda aí há

uma afirmação.

Dom Pedro I, um

verdadeiro herói

de romance

Um chefe de Estado

tem sua presença muito

mais realçada do que

um particular. Então,

pergunta-se:

Coroa Imperial do

Brasil - Museu Imperial,

Petrópolis, Brasil

essa presença não exerce um efeito

sobre toda a nação? Exerce. Qual

foi o efeito pessoal de Dom Pedro I?

E o de Dom Pedro II? Como eram

eles? Como o Brasil os recebeu? Como

foram os primeiros presidentes

da República Velha? São temas de

que se poderia eventualmente tratar.

Parece-me que nesta faixa interessaria

muito mais do que o estudo de finanças,

por exemplo. Então, vamos

expor um pouco sobre isso.

Dom Pedro I era um príncipe romântico

por excelência. A Europa

estava sob o signo do romantismo,

do qual fazia parte uma sentimentalidade

opulenta, ligada a um gosto

pela aventura e a uma certa ponta

de heroísmo pessoal. Sem isso não

se era um verdadeiro herói de romance.

Divulgação (CC3.0)

Monumento à Independência

São Paulo, Brasil

Danilo Prudêncio Silva (CC3.0)

17


Perspectiva pliniana da História

Jean-Baptiste Debret (CC3.0)

Litogravura do “Dia do Fico” - Biblioteca do Congresso

dos Estados Unidos, Washington, EUA

Modelado pela época, Dom Pedro

I foi um verdadeiro herói de romance.

Os heróis de romance têm

muito de romance e pouco de herói.

Eles não merecem ser chamados heróis,

a não ser num certo sentido da

palavra, porque aquilo não é heroísmo.

Satisfazer seus impulsos não é

heroísmo. Dirigi-los segundo a Lei

de Deus, isso é o heroísmo!

Ele era um homem eminentemente

impulsivo, e toda a sua vida, que poderia

ter sido uma série de êxitos brilhantes,

foi uma sucessão de fracassos.

Porém, esses fracassos foram brilhantes,

porque ele conduzia suas derrocadas

com a virtuosidade de um herói de

teatro. Essa teatralidade fez dele uma

pessoa que inquietou os pacatos brasileiros,

mas um pouco os deslumbrou.

Agitou os portugueses de então – pouco

pacatos e muito combativos –, mas

os desorientou. Assim, ele marcou a

fundo as duas nações.

Dom Pedro I era um homem, em

certo sentido da palavra, brilhante.

Muito vistoso, com muita vitalidade,

tinha um todo verdadeiramente aristocrático

que ele conduzia com ideias

democráticas e acessos de absolutismo,

dependendo da veneta dele. Ele

era fundamentalmente “veneteiro”.

Uma Commonwealth

luso-brasileira

O que teria sido o êxito de Dom

Pedro I? Se considerarmos o assunto

do ponto de vista meramente da

ambição pessoal, na situação em que

ele estava como homem ambicioso,

o que poderia ter feito?

Ele declarou a independência do

Brasil e o fato ficou consumado. A

partir desse momento ele rachou os

Estados do pai dele, que eram muito

amplos e compreendiam: Angola,

Moçambique, Guiné e outras possessões

na Índia, o que constituía um

império muito vasto. Mas a maior

esmeralda ou rubi desse império

caiu da coroa no momento em que o

Brasil se separou de Portugal.

Com efeito, quando se separou, o

Brasil deixou de ser colônia para se

tornar reino unido a Portugal. O que

vem a ser um reino unido?

Antigamente, os reis de Portugal

recebiam este título: Rei de Portugal

e dos Algarves. Algarves é a parte

sul de Portugal, assim chamada

por causa do sentido de uma palavra

moura algaribe, que designava terras

onde habitavam mouros. Como a dinastia

portuguesa conquistou os Algarves

para Portugal, o monarca ficou

sendo Rei de Portugal e dos Algarves.

O Algarve não ficou uma colônia,

mas um reino bem menor do

que Portugal, com suas leis, seus costumes

próprios, como hoje em dia

são a Inglaterra e a Escócia. A Escócia

não é uma colônia da Inglaterra,

é um reino irmão geminado com ela,

o qual tem seus hábitos, estilos, sua

autonomia, embora constitua um todo

com a Inglaterra.

O Rei de Portugal, Dom João VI,

tinha declarado o Brasil reino unido

a Portugal. Esse reino foi separado

por Dom Pedro I e declarado Império.

Mas não estava dito que o imperador

do novo Império não pudesse

herdar a coroa de Portugal;

nem que, separando uma monarquia

da outra, Dom Pedro I não pudesse

herdar a velha monarquia e reconduzir

à união. A meu ver, se ele

olhasse para sua ambição pessoal, a

18


jogada inteligente dele seria levar as

coisas de maneira a sossegar os brasileiros

quanto à animosidade deles

contra os portugueses. Assim, quando

morresse Dom João VI, Dom Pedro

I deveria tentar reunir os dois

reinos.

Nessas circunstâncias, ele teria

uma linda tarefa para executar que

corresponde a um problema muito

bonito a resolver. O mundo português

do lado de lá do Atlântico

tem o pequeno peso de uma economia

metropolitana e de um território

também pequenos, mas o peso

enorme de uma História gloriosa,

de uma longa tradição, de uma ligação

afetiva muito grande com o Brasil,

além do peso considerável de todo

o império colonial que Portugal

ainda possuía, e com o qual o Brasil

perdeu o nexo quando se tornou

independente. Não seria inteligente

ter proposto aos brasileiros e aos

portugueses uma Commonwealth,

à maneira da Inglaterra,

com todos esses

Estados? Era evidente

que o Brasil ficaria

tão grande que,

em certo momento,

não seria mais governável

a partir

de Lisboa.

É como o Canadá

e a Inglaterra.

O Canadá

não é governável

a partir da Inglaterra.

Os ingleses

tiveram o bom senso

de ir dando uma

certa autonomia ao

Canadá, para não pesar

demais num cetro

que acabaria se quebrando.

Fizeram um regime

um pouco parecido com

Dom João VI - Arquivo

Nacional, Rio de

Janeiro, Brasil

Rodrigo.Argenton (CC3.0)

Arquivo Nacional (CC3.0)

Proclamação da

Independência - Museu

Paulista, São Paulo, Brasil

19


Perspectiva pliniana da História

Jean-Baptiste Debret (CC3.0)

Casamento de Dom Pedro I com Dona Amélia - Coleção Itaú Cultural

a velha monarquia austro-húngara,

em que os imperadores da Áustria

eram reis da Hungria, da Checoslováquia,

duques de tal e tal lugar na

atual Iugoslávia. Tinham todas essas

coroas e iam tocando essa política

juntos.

Fracassos de Dom Pedro I

Os reis de Portugal tinham pensado

em transferir a sede da monarquia

portuguesa para o Pará e

fazer uma monarquia amazônica,

a pouca distância de Lisboa, portanto

governável meio de Lisboa

e meio do Pará e, através deste,

exercer sua influência sobre todo o

Brasil. A meu ver – se consultasse a

ambição dele – Dom Pedro I deveria

ter dirigido sua política no sentido

de constituir uma monarquia

bipolar: Pará-Lisboa. E quando os

meios de comunicação fossem mais

rápidos, passar o governo ao Rio

de Janeiro. Mas esperar e deixar

maturar a história. Ele não fez isso.

Chegou ao Brasil, brigou com os

brasileiros, foi para Portugal, abriu

uma questão e brigou com os portugueses.

Acabou morrendo prematuramente

tuberculoso em Portugal,

vítima da doença de que os

heróis de romance achavam bonito

morrer.

Como se deu isso? Ele declarou a

independência, foi coroado e entronizado

como Imperador do Brasil.

Aliás, a coroa dele é bonita e está no

Museu de Petrópolis.

Ele recebeu uma monarquia absoluta,

como vigorava em Portugal.

Entretanto, começou um movimento

para transformá-la em monarquia

parlamentar, com a convocação de

um Parlamento e uma Constituição

que limitasse os poderes dele.

O que fez Dom Pedro I? Disse

que sim, mas com uma condição: a

Constituição seria concedida por

ele, que inauguraria o Parlamento.

Mas quando ele quisesse fecharia

o Parlamento e revogaria a Constituição.

Compreende-se que essa hipótese

de nenhum modo agradaria os liberais,

pois aquela era uma liberdade

condicional. Na hora em que o Imperador

franzisse a sobrancelha, cessaria

a liberdade. Disseram-lhe, então,

que não aceitavam, e saiu daí

uma tensão medonha que acabou

dando em sua partida para Portugal,

porque ele não podia mais governar

o Brasil.

Guerra entre absolutistas

e liberais

Dom Pedro I embarcou num navio

para Portugal com a sua segunda

esposa, Dona Amélia de Leuchtenberg,

e com a filha que ele tivera da

Marquesa de Santos, a Duquesa de

Goiás.

20


Eduardo Bueno (CC3.0)

António José Quinto (CC3.0)

Dom Miguel - Biblioteca Nacional,

Lisboa, Portugal

Corte Portuguesa em 1822 - Museu Paulista, São Paulo, Brasil

Chegando a Portugal, encontrou

a seguinte situação: Dom Miguel, irmão

mais novo de Dom Pedro I, tinha

se candidatado ao trono português.

Morreu Dom João VI, Dom Pedro

I tornara-se Imperador do Brasil

e se descolara de Portugal. Logo,

argumentava Dom Miguel, uma vez

que ele traíra a nação, separando dela

uma parte, não tinha mais direito

a ser Rei de Portugal. E afirmava:

“O rei sou eu!” Dom Pedro I dizia o

contrário: “Eu não renunciei, e agora

que deixei o Brasil quero governar

aqui em Portugal!”

A isso somava-se uma complicação

de caráter ideológico: também

os monarquistas portugueses estavam

divididos pela mesma questão

que dividira as opiniões no Brasil.

Aliás, era a grande questão daquele

tempo: saber se uma monarquia

deveria ser absoluta, à maneira

do Ancien Régime, ou parlamentar,

como vigorou após a Revolução

Francesa.

Os partidários de Dom Miguel

eram monarquistas absolutistas, enquanto

os de Dom

Pedro I eram a favor

da monarquia

parlamentar. Ele

que no Brasil tinha

sustentado o princípio

da monarquia

absoluta, com

o direito de fechar o

Parlamento quando

quisesse, em Portugal

chefiou o parido

liberal.

A guerra entre

esses dois partidos

dividiu Portugal a

fundo. Quase todas

as boas famílias de

Portugal tiveram antepassados lutando

ou do lado dos “miguelistas”,

ou de Dom Pedro I, ou de sua filha,

Dona Maria da Glória, a quem ele

deixou os direitos quando morreu.

Morto Dom Pedro I, sua imagem

apagou-se na recordação dos brasileiros

como fato político, mas permaneceu

como fato lendário-histórico.

E ficou como a de um príncipe

tumultuoso e inconstante.

Muito curiosamente veio parar

em mãos de minha família uma espada

pertencente aos partidários de

Dona Maria da Glória, filha de Dom

Pedro I. Era uma espada em forma

ligeiramente curva à maneira das espadas

turcas, em cuja copa estava es-

21


Perspectiva pliniana da História

José Joaquim Rodrigues Primavera (CC3.0)

aventuras, e o próprio caso da Marquesa

de Santos, deu um certo colorido

à sua vida – um colorido vivaz,

mas nem sempre limpo... Trata-

-se de uma pessoa cuja biografia se

compreende, por exemplo, que uma

revista publique porque é uma coisa

interessante.

No total, a recordação dos brasileiros

é positiva. Vê-se, por exemplo,

uma coisa curiosa em Brasília, a cidade

moderna projetada por Oscar

Niemeyer. Na sala do Presidente da

República – que é um recinto inteiramente

do estilo da cidade –, atrás

da cadeira de despacho dele, colocaram

um quadro representando Dom

Pedro I como Imperador do Brasil,

com todas as suas condecorações.

Pode-se bem compreender o que

isto representa no sentir de toda a

Nação. Não foi um homem qualquer,

mas um chefe de Estado hábil

que mandou pendurar o quadro

lá, por saber que causava bom efeito

em todos os visitantes do exterior

e do interior que ali chegassem e encontrassem

a recordação daquele

homem, com aquele passado.

Imaginem uma arara que voasse

de modo meio aloucado, ora quase

caindo, ora subindo novamente,

mas que durante seu voo nada bonito

desse a oportunidade de se ver,

em vários aspectos, suas lindas penas

coloridas. Este foi o reinado de Dom

Pedro I e o sulco que deixou na alma

e na formação psicológica do Brasil.

“Meu Imperador

e meu filho!”

Morte de Dom Pedro I - Biblioteca Nacional, Lisboa, Portugal

culpida em marfim uma cabeça de

turco, com turbante e tudo. Na espada

vinham gravados os dizeres: “Viva

Dona Maria I”. Era, portanto,

uma arma com a qual tinha combatido

algum homem graduado, provavelmente

nobre – a julgar pelo tipo

da espada –, a serviço de Dona Maria

I. Quer dizer, a favor da causa

constitucionalista.

Infelizmente, quando se dividiram

os bens de minha família, isso

ficou com outro ramo e não sei

que fim levou. Assim, não pude reter

essa espada que era uma curiosidade.

Como o voo aloucado

de uma arara

Apesar de tudo, há alguns lances

brilhantes da vida de Dom Pedro

I, como o casamento dele com

a Princesa Leopoldina d’Áustria,

a Proclamação da Independência

do Brasil. Além disso, o fato de ele

ser um homem cheio de repentes e

Dom Pedro I tinha um ministro

com quem conviveu numa amizade

adversária e numa adversidade amiga:

José Bonifácio de Andrada e Silva.

Os três irmãos Andrada eram inteligentíssimos

e tinham feito excelentes

estudos em Coimbra. José Bonifácio

viajou por vários países da

Europa e se tornou amigo de muitos

dos homens que haveriam de trabalhar

depois na Revolução Francesa.

Imperador Dom Pedro II e

suas irmãs - Museu Imperial,

Petrópolis, Brasil

22


Mas ele era caracteristicamente um

aristocrata brasileiro.

Havia no Brasil duas espécies de

aristocracia: uma era a aristocracia

dos nobres de Portugal vindos para

cá, nomeados pelo rei; outra, nascida

da terra. Famílias que vieram para cá,

não aristocráticas, que se constituíram

aqui, tiveram larga descendência

e uma longa série de gerações de proprietários

rurais, exercendo seu domínio

sobre extensões enormes.

Essas pessoas tomavam um ar,

uma tradição e um jeito aristocráticos

e descendiam, em geral, dos fundadores

do lugar onde viviam. Eram

reconhecidas pelas leis coloniais do

Brasil como aristocratas, e não menos

autênticos do que os portugueses.

Era uma aristocracia nascida da

terra. Isso se deu largamente no Brasil

e de uma delas era José Bonifácio.

Homem muito inteligente, cortês

e representativo.

Com a partida de Dom Pedro I, os

acontecimentos políticos no Brasil

Pedro Corrêa do Lago (CC3.0)

poderiam ter transcorrido

de tal maneira

que com ele

fosse exilada para

Portugal toda a sua

descendência. Entretanto

tal não se

deu, e isso assegurou

a unidade nacional.

Porque o Brasil

era grande demais

para não se fragmentar,

como ocorreu

com as colônias

José Bonifácio de Andrada e Silva

Museu Paulista, São Paulo, Brasil

espanholas quando

ficaram independentes.

A única coisa

que podia torná-lo

unido era um

chefe de Estado não

originário de nenhuma

das Províncias

brasileiras, mas que

pairasse acima do

Brasil como um símbolo.

Assim, mantiveram-se

aqui os filhos

de Dom Pedro I, órfãos

de Dona Leopoldina

e já então

órfãos de pai também,

porque este ia

para longe, para outra

vida com outra esposa. Eles ficavam

sem nada... Dom Pedro I deixou

como tutor de seus filhos o próprio

José Bonifácio, como o mais capaz

de educá-los, orientá-los.

Narra-se que, quando Dom Pedro

I partiu para Portugal, José Bonifácio

foi ao Palácio Imperial tomar

contato com as crianças, e apresentaram-lhe,

deitado numa almofada,

o Imperador Pedro II. Ele tomou

com ternura a almofada com o pequeno

monarca e disse: “Meu Imperador

e meu filho!” O que é uma exclamação

muito brasileira...

A reverente compaixão nacional

pousou sobre essas crianças órfãs e

isoladas, a bem dizer pupilas do País

inteiro, e por cuja salvaguarda,

educação, saúde, casamento sentia-se

responsável a Nação inteira

também.

Desabrochava, assim, um vínculo

filial e afetivo em torno da figura de

Dom Pedro II, de todo o seu reinado

e de sua família, constituindo uma

espécie de relação familiar que vinha

desse berço de onde renascia a monarquia.

E fez com que Dom Pedro

II, ao longo de sua vida, se tornasse

pai e depois avô do Brasil. v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

23/11/1985)

Benedito Calixto (CC3.0)

23


fotograf nieznany (CC3.0)

C

alendário

Beata Ângela Salawa

1. São David, bispo (†c. 601). Fundou

em sua diocese de Menévia, País

de Gales, um mosteiro de onde partiram

missionários para evangelizar a

Irlanda, a Cornualha e a Armórica.

2. São Lucas Casali de Nicósia,

abade (†s. IX). Abade do mosteiro de

Agira, Itália, célebre por sua humildade,

sabedoria e prudência.

3. VIII Domingo do Tempo Comum.

Beato Pedro Jeremias, presbítero

(†1452). Religioso dominicano que,

confirmado por São Vicente Ferrer

na pregação, consagrou-se totalmente

à obra da salvação das almas. Faleceu

em Palermo, Itália.

4. São Casimiro (†1484).

Beata Maria Luísa de Lamoignon,

viúva (†1825). Após seu marido

ser guilhotinado, fundou em Vannes,

França, a Ordem das Irmãs da Caridade

de São Luís.

dos Santos – ––––––

5. São João José da Cruz, presbítero

(†1734). Franciscano que, seguindo

o exemplo de São Pedro de Alcântara,

restaurou a disciplina da Regra em

muitos conventos de Nápoles, Itália.

6. Quarta-Feira de Cinzas.

São Fridolino, abade (†s. VIII).

Oriundo da Irlanda, peregrinou através

da Gália e chegou a Säckingen,

Alemanha, onde fundou dois mosteiros

em honra de Santo Hilário.

7. Santas Perpétua e Felicidade,

mártires (†203).

Beato José Olallo Valdés, religioso

(†1889). Da Ordem Hospitaleira de São

João de Deus, dedicou-se aos enfermos

durante 54 anos servindo como enfermeiro

num hospital de Havana, Cuba.

8. São João de Deus, fundador

(†1550). Ver página 2.

Beato Faustino Míguez, presbítero

(†1925). Religioso escolápio que fundou

a Congregação das Filhas da Divina

Pastora, em Sanlúcar de Barrameda,

Espanha, para a formação das jovens.

9. Santa Francisca Romana, religiosa

(†1440).

Santa Catarina de Bolonha, virgem

(†1463). Fundadora e abadessa do mosteiro

das clarissas da Bolonha, Itália.

Destacou-se por seus dons místicos e pelas

virtudes da humildade e penitência.

10. I Domingo da Quaresma.

Beato João José Lataste, presbítero

(†1869). Dominicano e fundador

da Congregação das Irmãs Dominicanas

de Betânia, em Frasne-le-Château,

França.

11. Santos Marcos Chong Ui-bae e

Aleixo U Se-yong, mártires (†1866).

Decapitados em Sai-Nam-The, Coreia,

por praticarem e propagarem a

Fé Católica.

12. São Teófanes, abade (†817).

Ver página 26.

Beata Ângela Salawa, virgem

(†1922). Terciária franciscana, santificou-se

exercendo a profissão de empregada

doméstica, em Cracóvia, Polônia,

onde morreu em extrema pobreza.

13. São Leandro de Sevilha, bispo

(†c. 600). Irmão de Santo Isidoro, São

Fulgêncio e Santa Florentina, governou

a Arquidiocese de Sevilha, Espanha,

e com sua pregação converteu à

Fé Católica o rei visigodo Recaredo.

14. Beata Maria Josefina de Jesus

Crucificado, virgem (†1948). Priora

do Carmelo de Ponti Rossi, em Nápoles,

Itália. Aceitou com alegria várias

enfermidades, oferecendo tudo pelas

almas e sacerdotes.

15. São Zacarias, Papa (†752). Governou

a Igreja com sabedoria e prudência,

freou a invasão dos lombardos,

indicou o justo governo aos francos, do-

Mattis (CC3.0)

24

São Zacarias


––––––––––––––––– * Março * ––––

tou de igrejas os povos germanos e promoveu

a união com a Igreja Oriental.

reclusa numa cela junto ao convento

dos franciscanos, em Tours, França.

16. São Julião de Anazarbus, mártir

(†s. IV). Por se recusar a negar a Fé,

depois de várias torturas, foi fechado

num saco com serpentes e lançado ao

mar, na Cilícia, atual Turquia.

17. II Domingo da Quaresma.

São Patrício, bispo (†461).

Beata Maria Bárbara da Santíssima

Trindade, virgem (†1873).

Nascida em Viena, fundou em Catumbi,

Rio de Janeiro, a Congregação

do Imaculado Coração de Maria.

18. São Cirilo de Jerusalém, bispo

e Doutor da Igreja (†c. 386).

São Frediano, bispo (†c. 588). Natural

da Irlanda, reuniu em Lucca, Itália,

uma comunidade de monges em

torno a si, desviou o curso do Rio Serchio,

tornando mais fértil a terra, e

converteu os lombardos à Fé Católica.

19. São José, esposo da Bem-

-Aventurada Virgem Maria, Padroeiro

da Igreja Universal.

20. São João Nepomuceno, presbítero

e mártir (†1393).

21. Santo Agostinho Zhao Rong,

presbítero e mártir (†1815). Sendo

guarda de cristãos encarcerados, converteu-se

e tornou-se sacerdote. Durante

perseguição em Sichuan, China,

foi preso e morto.

22. Beato Clemente Augusto Graf

von Galen, bispo (†1946). Como Bispo

de Münster, Alemanha, refletiu

diante do povo e do clero a imagem

evangélica do Bom Pastor. Lutou

abertamente, contra os erros do nacional-socialismo

e contra a violação

dos direitos do homem e da Igreja.

23. São Turíbio de Mogrovejo, bispo

(†1606). Nascido na Espanha, foi

eleito Bispo de Lima, no Peru, onde

Domkapitular Gustav (CC3.0)

Beato Clemente Augusto

Graf von Galen

defendeu a Igreja, catequizou os povos

nativos e combateu com sínodos

os abusos no clero da época.

24. III Domingo do Tempo Comum.

São Mac Cairthind, bispo (†s. V).

Governou a diocese de Clogher, Irlanda.

Acredita-se que tenha sido discípulo

de São Patrício.

25. Anunciação do Senhor. Ver página

10.

26. São Pedro de Sebaste, bispo

(†c. 391). Irmão mais novo de São Basílio

Magno, lutou como Bispo de Sebaste

(atual Sivas, Turquia), defendeu eximiamente

a Fé contra a heresia ariana.

27. Beato Peregrino de Falerone,

presbítero (†1232). Um dos primeiros

discípulos de São Francisco de

Assis, que dirigindo-se como peregrino

à Terra Santa, esperando receber

o martírio, não teve seus anseios

realizados, pois suscitou a admiração

dos próprios sarracenos.

28. Beata Joana Maria de Maillé,

viúva (†1414). Após a morte de seu

esposo na guerra, reduzida à miséria

e expulsa de sua própria casa, viveu

29. São Guilherme Tempier, bispo

(†1197). Governou com prudência

e firmeza a diocese de Poitiers, França,

corrigindo os costumes do povo

e dando exemplo irrepreensível de

uma vida íntegra.

30. São Leonardo Murialdo,

presbítero (†1900). Fundou em Turim,

Itália, a Pia Sociedade de São

José, para que as crianças abandonadas

pudessem sentir os efeitos da

Fé e da caridade cristãs.

31. IV Domingo da Quaresma.

São Benjamim, diácono e mártir

(†c. 420). Por insistir em pregar a palavra

de Deus, na Pérsia (atual Iraque),

foi torturado e morto sob o governo

do imperador sassânida Vararanes V.

São Fridolino

Samuel Holanda

25


Hagiografia

São Teófanes

e os peculiares esplendores

da Igreja no Oriente

Pertencendo a uma das mais nobres famílias do Império Bizantino,

Teófanes abandonou todas as suas riquezas e dirigiu-se para um

mosteiro, do qual se tornou abade. Um imperador adepto da seita

dos iconoclastas lançou-o num calabouço, onde permaneceu por dois

anos sofrendo horríveis privações e chicotadas. Depois foi exilado

para a Samotrácia e ali entregou sua bela alma a Deus.

ichel Wolgemut, Wilhelm Pleydenwurff (CC3.0)

T

emos para comentar uma ficha

biográfica a respeito de

São Teófanes, abade, que me

dá a oportunidade, antes mesmo de

entrar na consideração da vida deste

Santo, de analisar a expressão, o

valor simbólico e o efeito que o nome

produz para se considerar o indivíduo.

Um nome que evoca teofania:

a manifestação de Deus

Um homem comum, da vida corrente,

que se chamasse Teófanes poderia

nos dar a impressão, antes de conhecê-lo,

de alguém pertencente ao que

se costuma chamar classe média baixa,

de um jeito extremamente anacrônico

dentro dessa classe, vestido à conservador,

com um colarinho engomado alto

e amarelado, uma gravatinha pequenininha

ensebada, tossindo abundantemente,

com os óculos à meia distância

entre a ponta e o topo do nariz, com

uma vozinha roufenha, magrelinho e

pretensioso. Esse poderia ser, segundo

nossa imaginação, o Sr. Teófanes.

Xilogravura de Constantinopla

26


Para a sensibilidade de certas pessoas,

o nome “Teófanes” tem qualquer

coisa de glacialmente sentencioso,

hirto. Entretanto, o sentido

etimológico da palavra é lindo, porque

teofania é a manifestação de

Deus. Ora, um homem chamado Teófanes

deveria ser uma pessoa maravilhosa,

ter um jeito de Anjo celeste,

herói, um São Miguel Arcanjo, algo

assim. Mas os conceitos variam e os

nomes acabam tomando essa conotação

pejorativa.

Contudo, quando se pensa num

Abade Teófanes, já a coisa muda

completamente. Porque abade é um

título que evoca um homem meio

misterioso, isolado, colocado acima

de seus monges, com pouca comunicação,

em geral, com os outros homens,

e correspondendo à frase que

uma revista de História, a qual li outro

dia, punha nos lábios de Moisés:

“Senhor, fizestes de mim um homem

solitário e poderoso.” É bem a ideia

que faço de um abade: poderoso na

ordem espiritual, mas solitário. Todo

vestido com um grande traje beneditino

preto, com aquelas pregas que

se desdobram, um capuz que vira um

pouquinho para trás, um bastão na

mão e um ar cheio de ideias, de pensamentos,

que fala pouco, mas domina

toda uma comunidade de cenobitas,

todos eles em silêncio ou entoando

o cantochão, em longos corredores

com arcadas regulares, e que

voltando para as celas rezam de novo,

fazem iluminuras e trabalhos de

pesquisas inimagináveis.

O abade mantém na abadia uma

atmosfera de bom gosto, de luta

guerreira, de polêmica e, ao mesmo

tempo, de recolhimento e de silêncio

que dá todo o perfume da Idade Média

e, mais ainda, do antigo monaquismo

do Oriente, mosteiros gregos

situados em montes de nomes fabulosos,

em ilhas do Mediterrâneo onde

os Apóstolos ensinaram, em colinas

da Terra Santa onde Nosso Senhor

fez milagres, etc. Essa é a ideia

que me dá um Teófanes abade, e me

incentiva a conhecer sua biografia.

Membro de uma das

mais nobres famílias do

Império Bizantino

São Teófanes

Teófanes, nascido em Constantinopla,

pertencia a uma das mais nobres

famílias do Império Bizantino. Perdendo

seu pai aos três anos de idade,

foi educado pelo próprio Imperador

Constantino Coprônimo.

Casou muito jovem ainda, praticamente

obrigado, com uma jovem patrícia.

Mas ambos, de comum acordo,

fizeram voto de continência perpétua.

Seu sogro, vindo a descobrir isso mais

tarde, encheu-se de furor, pois desejava

herdeiros que entrassem no gozo da

imensa fortuna do genro. Queixou-se

assim ao imperador e este enviou Teófanes

para Sísico com o título de Intendente

Real dos Trabalhos Públicos

no Helesponto e na Lísia. Aí o Santo

encontrou um monge que o iniciou

nos caminhos da contemplação e Teófanes

abandonou o mundo, recolhendo-se

a um mosteiro, onde veio a ser

abade.

Que coisa linda: um dignatário

da corte imperial de Constantinopla!

Para pensar nisso é preciso

imaginar aqueles basileus, aqueles

imperadores de Constantinopla

hirtos, com aquelas caras de ícones,

todos rodeados de pérolas, com ar

sentencioso, com uma mão que ensina

ou com uma vara toda de marfim,

com uma imagem de ouro de

São Miguel em cima, e olhando para

todos os séculos, imóveis sobre

um fundo de ouro.

Podemos imaginar como era o palácio

imperial em Constantinopla,

junto às margens poéticas do Bósforo

e à Basílica de Santa Sofia, onde

o Imperador Coprônimo educou Teófanes.

Divulgação (CC3.0)

27


Hagiografia

Luis Samuel

Teófanes é um homem puro que

se casa com uma moça pura; e os

dois, coisa ainda mais rara, resolvem

guardar a castidade perfeita.

O Imperador intervém e manda

esse homem para uma espécie de

exílio dourado. Ele vai com um título

meramente administrativo, mas

pomposo – todos os títulos bizantinos

eram pomposos –, para essa região

exercer suas funções. Imaginem

como era uma cidade de província

daquele tempo: pequena, com um

pequeno palácio destinado ao representante

do imperador, com um tronozinho,

sendo a miniatura – mas

que miniatura! – do fausto imperial,

e Teófanes movendo-se dentro daquilo

diante de um povo genuflexo.

Abandona tudo e vai

para o deserto

Entre os que vão falar com Teófanes

aparece um monge vindo de

algum deserto, de onde saiu levando

consigo todos os silêncios daqueles

pores de sol incandescentes, daquelas

montanhas torradas pelo Sol,

ou batidas por um vento tremendo,

daquelas contemplações caracteristicamente

orientais, com aqueles

olhos enormes olhando para um firmamento

lindíssimo e rezando. Esse

monge sai de repente de seu isolamento,

vai para a cidade e encontra

Teófanes.

Pode-se imaginar a conversa dos

dois:

— Teófanes, o que te adianta gozar

essas coisas da Terra? Vejo em

ti que és um homem puro, Deus te

chama para uma pureza maior. Deixaste

as delícias da carne, deixa, ó

Teófanes, os outros deleites, pois

maiores maravilhas te aguardam.

E Teófanes pergunta:

— Pai santo, o que farei?

— Vai comigo ao deserto, onde os

varões amados de Deus se separam

de tudo quanto é do mundo e vivem

exclusivamente na familiaridade do

Senhor.

Então, Teófanes deixa tudo e vai

para o deserto. Isso é ambiente, isso

é vida, isso é história.

Após fazer promessas

de benefícios, o

Imperador o ameaça

Anos depois, quando Leão, o Armênio...

Que lindo nome para um imperador!

Todas essas coisas em Constantinopla

têm um outro jeito. Há uma

coisa mais banal do que um homem

chamado Leão? Há coisa mais comum

do que um homem ser um armênio?

Mas “Leão, o Armênio”, Imperador

de Constantinopla, é uma

coisa que se destaca de uma série

de outras por vários imponderáveis.

O Imperador Leão, o Armênio, que

traz consigo os luxos e os mistérios da

Armênia para o trono de Bizâncio, é

uma coisa muito mais evocativa.

Continua a ficha:

Leão, o Armênio, renovou a perseguição

às santas imagens...

Era a heresia dos iconoclastas,

que quebravam as imagens nas igrejas,

uma forma ancestral de protestantismo

e de progressismo.

...e soube que Teófanes gozava de

alta consideração entre os ortodoxos.

Ortodoxos aqui somos nós, católicos,

porque não tinha ainda havido

o cisma.

Querendo atraí-lo à sua causa,

chamou-o à Constantinopla. Quando

ele ali chegou, recebeu uma carta do

soberano: “Vossas disposições pacíficas

me fazem crer que aqui viestes para

confirmar com vossos votos minhas

opiniões sobre esse problema. Esse,

aliás, é o meio certo de obter meus favores

e de conseguir para vós, vossos

parentes e vossos mosteiros, todas as

graças que estão ao alcance do imperador

conceder...”

Portanto, todas as que existem,

porque o Imperador de Constantinopla

era onipotente.

Se, ao contrário, vos recusardes a

aquiescer comigo, incorrereis em minha

indignação e dela sentireis todo o

peso, vós e vossos amigos.

É bem claro, o Armênio. No meio

de frases amáveis, a coisa é suborno

ou tiro.

Jogado num calabouço

Teófanes, que nunca se intimidara

com promessas ou ameaças, assim

respondeu:

“Idoso e enfermo como estou, tenho

cuidado em não ambicionar as

coisas que desprezei por Jesus Cristo,

em minha juventude, quando me era

fácil usufruir das coisas do mundo.”

Linda resposta. “Você me oferece

o que eu desdenhei quando podia

28


IABI (CC3.0)

Um aspecto da Basílica de Santa Sofia em Constantinopla

gozar? Você pensa em me comprar

com essas coisas, agora que não estou

em idade de gozá-las? Oh!” Vê-

-se o Armênio minguar...

“Quanto ao meu mosteiro e aos

meus amigos, coloco sua sorte nas

mãos de Deus. Quanto ao mais, se

acreditais assustar-me com vossas esperanças

como se assusta uma criança

com as varas, vos enganais. Porque,

embora não tenha forças para

caminhar e esteja sujeito a numerosas

outras enfermidades corporais,

espero que Jesus Cristo me dará coragem

de sofrer pela sua causa todos os

suplícios aos quais poderíeis me condenar.”

Tudo dito, está acabado. Quer dizer:

“Seus subornos não me interessam,

suas ameaças não me fazem recuar.

Está feito seu balanço, ó Leão,

o Armênio.” É um Teófanes, a manifestação

de Deus através da boca de

um homem.

Encolerizado, o imperador enviou

Teófanes a um calabouço, onde o

Santo permaneceu por dois anos, sofrendo

horríveis privações. Chegaram,

um dia, a dar-lhe trezentos golpes de

chicote.

Num velho enfermo, hein!

Saindo da prisão, exilaram-no na

Samotrácia, onde ele morreu a 12 de

março de 817.

Aqui está a história de São Teófanes.

Nós podemos imaginar a Samotrácia

e São Teófanes morrendo. Talvez

embaixo de uma palmeira, ao ar

livre, assistido apenas por um auxiliar.

Mas na hora em que ele morreu,

uma bola de fogo subiu ao céu, e na

cidade tal viram isso e comentaram:

“Morreu Teófanes, o virtuoso...” Ou

algo nessa linha. Seria o desfecho

legendário e simétrico dessa história.

Com isso nos familiarizamos um

pouco com os esplendores peculiares

que a Igreja teve no Oriente. v

(Extraído de conferência de

17/3/1971)

29


Apóstolo do pulchrum

Arquivo Revista

Símbolo da

santidade,

majestade e

força - II

Percorrendo o périplo que nos

conduz das realidades visíveis

às invisíveis, por meio da

bondade e beleza das criaturas,

chegamos a Deus, Nosso

Senhor. Nada torna a vida tão

agradável e interessante quanto

fazer este tipo de meditação.

Estamos longe de analisar o leão simplesmente

enquanto um animal forte que domina os outros.

Consideramo-lo, isto sim, como um ser de uma

rara beleza, que exprime certos predicados intrínsecos

de sua natureza, entre os quais um determinado tipo de

força e de coragem.

30

“Sala do Reino de Maria”,

São Paulo, Brasil


Força régia a serviço

da majestade

A força possui todas as

características do vigor a

serviço de quem é rei. É

uma força régia, quer dizer,

de quem tem o direito

e a missão de mandar,

possui a nobreza intrínseca

de uma superioridade

de alma inerente ao ser dele,

tem um direito normal a

ocupar os cargos de mando e

deve normalmente ocupar esses

cargos. E por causa disto o

leão exprime a ideia de força régia

a serviço de uma majestade régia

e dominadora. O papel da heráldica

é exatamente pintá-lo de um modo

meio irreal, que exprima o melhor da realidade

dele, de maneira que se percebe mais

facilmente do que num leão de verdade. O

que, aliás, é sempre o papel da arte: desfigurar um pouco

a realidade para obter o melhor da realidade.

O leão é, em última análise, o símbolo da majestade, a

qual inclui, entre outras coisas, a força. É próprio da majestade

ser suprema dentro da ordem e da lei, um ente

supremo que funciona segundo a ordem natural das coisas

e mantém esta ordem. O adequado da lei é ser um

ditame da razão, promulgado pela

autoridade competente; essa é

a definição de lei. O próprio do

rei, que é o autor da lei, é de ser

o auge do bem, o auge da sabedoria,

o auge da justiça e o auge

da força.

O leão tem exatamente isto:

está numa harmonia com toda a

natureza, é uma espécie de obra-

-prima da natureza. E, enquanto

tal, é verdadeiramente régio

porque supremo na boa linha, na

boa ordem; supremo considerado

como tendo uma força que

lhe assegura o exercício da supremacia

que lhe compete.

Um animal ordenador

Brasão de Armas do

Império Austro-Húngaro

conceito de leão. Ele representa

o que há de santo na dignidade

régia. Porque o que há

de santo, de reto conforme

a ordem estabelecida pelo

Criador, de supremo, de

excelente feito por Deus,

o leão representa. De maneira

tal que assim como,

Sodacan (CC3.0)

por exemplo, na heráldica,

temos águias com halos

de santos, nós poderíamos

ter um leão com um halo de

santidade. Pelo mesmo título;

e até a um título mais alto.

O que quer dizer a santidade

da majestade? A majestade

é o poder supremo legítimo, e toda

autoridade legítima enquanto tal é

santa. Quer dizer, foi instituída por Deus

para um fim santo. Posso falar da santidade

de qualquer autoridade: por exemplo,

de um professor dentro da sala de aula. Segundo

a própria expressão da palavra “santo”, a autoridade

do professor sobre os alunos decorre da ordem natural

estabelecida por Deus. E enquanto querida pelo

Criador para um fim bom aquela função é santa. Nesse

sentido a função de rei é ainda mais santa, porque mais

alta, mais nobre; é a mais alta de todas na esfera temporal,

portanto enquanto tal ela é a mais santa de todas.

Mathias Appel (CC3.0)

De onde, então, existe uma

ideia de santidade ligada ao

31


Apóstolo do pulchrum

Luis Samuel

O resultado disso é que se eu souber fazer uma boa

interpretação do leão, nele deverei ver a majestade santa,

portanto sabedoria santa pelo discernimento com que

ele cumpre o seu papel; força santa porque colocada a

serviço de quem precisa mandar e para o estabelecimento

da ordem que deve reinar. O leão é um animal ordenador.

O contrário de um chacal, por exemplo, que tira

os cadáveres da tumba, os devora e deixa toda a sujeira

sobre a terra.

Quem considera assim a figura de leão fica conhecendo

o que é santidade, majestade e força.

A convergência da teoria com o concreto

proporciona o conhecimento pleno

32

São Luis IX - Igreja Nossa Senhora

da Glória, Juiz de Fora, Brasil

Alguém poderia objetar que esse é um modo medíocre

de conhecer esses predicados. Melhor seria tomar

um compêndio de Moral católica ou uma enciclopédia e

ver a definição de majestade, santidade e força. Para que

toda essa explicação sobre o leão? A definição abstrata é

muito mais enriquecedora do que a noção de leão.

Eu digo: é preciso ter as duas coisas. Para um completo

conhecimento do que é a santidade, a majestade

e a força é necessário conhecer a definição e depois ir

ao leão e verificar como essa definição se aplica a ele. A

meu ver, quem se contenta com apenas uma dessas duas

formas de conhecimento faz o papel de um homem que

diz o seguinte: “Eu posso perfeitamente vender um olho

para um transplante, porque com um olho só vejo bem.

Basta-me ver com um olho só.”

Ora, embora se veja com um olho, a visão completa

se obtém pela conjugação dos dois olhos. É aí que a noção

completa da coisa se estabelece. A convergência da

noção teórica com a coisa concreta bem analisada é que

dá o conhecimento pleno. Nós não podemos nos contentar

com uma coisa ou com outra. O espírito integralmente

formado quer as duas coisas.

Um homem que tenha tido a oportunidade de ir a um

parque de leões e analisar tal atributo em um leão, tal

predicado em outro, tal atitude num terceiro, e depois

considerar o leão heráldico como reunindo todas as características

vistas nos vários leões, e só então conferir

com a noção consignada no dicionário, ficará com a ideia

completa e íntegra de santidade, majestade e força.

O Leão de Judá

Vendo as coisas assim, uma pessoa com a mentalidade

bem constituída ficaria com a alma cheia de cogitações.

Ao invés de pôr um ponto final no processo intelectual,

começaria a levantar uma pergunta: Se a santidade

e a majestade são qualidades tão belas, a santidade de


uma função é algo tão bonito, se é tão esplêndida a força

quando colocada a serviço da majestade, não haverá outros

seres nos quais eu possa considerar, para nutrimento

de minha alma, maior majestade, maior força, maior santidade?

Minha alma já se extasia vendo esses atributos

simbolizados no leão, mas eu quisera ver mais.

Vem, então, a conclusão: no homem precisa haver

mais majestade. Devem existir homens que me deem essa

ideia de um modo mais perfeito do que o leão. Que

homens terão sido?

A pessoa passará, então, a estudar os homens que foram

majestosos na Terra como, por exemplo, Carlos

Magno, São Luís IX. E, de majestade em majestade, chegará

Àquele que a Escritura qualificou de Leão de Judá:

Nosso Senhor Jesus Cristo.

Contempla o Santo Sudário de Turim e diz: “Nenhuma

majestade realizada por um filho de homem atingiu a

daquele infortúnio, daquela dor, daquela certeza, daquela

esperança e daquela recusa. Aquela é a majestade das

majestades, a mais alta das majestades que a face humana

possa exprimir!”

Então, na sua peregrinação pelas majestades, essa

pessoa vai estudar a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo

no Evangelho. E, após ter considerado a própria humanidade

do Redentor, dirá: “Nosso Senhor Jesus Cristo,

na sua humanidade, é Corpo e Alma. Entretanto, eu

vejo apenas os reflexos da Alma no Corpo, não vejo a Alma.

Que feliz seria eu se contemplasse a Alma d’Ele diretamente!

Como veria melhor a majestade e a santidade

d’Ele se eu pudesse ver a Alma d’Ele, e não apenas a

sua face divina!”

E depois dirá mais ainda: “A Alma d’Ele é humana, e

tudo quanto é humano é limitado. Deve haver algo infinitamente

maior do que a Alma humana d’Ele, e que

tem uma majestade, uma santidade e uma força que, estas

sim, concebidas em último grau, enchem completamente

a minha alma. Para contemplá-las eu serei capaz

de todos os esforços, todas as renúncias, todos os sacrifícios.

É a natureza divina d’Ele. Porque Deus é infinito,

supremo, perfeito, Ele tem tudo. Há, portanto, um Ser

incriado que foi o ponto de partida de todas as coisas,

e que possui num grau infinito aquilo que eu comecei a

considerar no leão de um modo finito.”

Père Igor (CC3.0)

Meditação com seu périplo total

Neste ponto os olhos se voltam novamente para o leão

e a pessoa passa a ver nele, em todos os seus movimentos,

em toda a sua sublimidade, reflexos criados da natureza

divina; um espelho de perfeições inexcogitáveis e infinitas

de Deus das quais, entretanto, a cada movimento

do leão pode-se ter uma certa ideia. Porque, ao contem-

Imperador Carlos Magno - Igreja

Saint-Géraud, Cantal, França

33


Apóstolo do pulchrum

Arquivo Revista

plar aquilo e perguntar-se como seria em ponto infinito,

fica no fundo da alma algo de indizível, objeto de uma

meditação propriamente religiosa e que lhe dá a verdadeira

apetência do Céu.

Esta é a fase religiosa e final da meditação. É um tipo

de meditação caracteristicamente da quarta via de São

Tomás de Aquino 1 que, através de um ente criado, nos

eleva até o Céu, mas depois nos faz voltar aos entes criados

para ir degustando-os como prelibações do Paraíso,

ocasiões de sentirmos um antegozo do Céu. Assim levamos

a vida cercados de coisas palpáveis e visíveis, sempre

considerando as coisas impalpáveis, supremas e invisíveis

que elas representam.

Então eu tenho o leão, acima dele o rei, acima do

rei os Anjos, acima dos Anjos Nossa Senhora, infinitamente

acima de Nossa Senhora, Nosso Senhor Jesus

Cristo, e em Nosso Senhor Jesus Cristo tenho o próprio

Deus.

Quer dizer, por esta forma eu faço todo um circuito. E

compreendo perfeitamente que no Reino de Maria houvesse,

por exemplo, uma igreja consagrada a Nosso Senhor

Jesus Cristo, onde existisse, quiçá do lado de fora,

na praça pública, um leão heráldico, escultura talvez fundida

em ouro, na base da qual estivesse escrito “Imagem

do Leão de Judá”. Sei que essa escultura deixaria muita

gente furiosa, mas isso seria exatamente fazer uma meditação

com seu périplo total.

A graça de ver os imponderáveis da Criação

É próprio à natureza humana desejar levar

uma vida agradável sobre a Terra. Eu lhes

posso garantir que nada, no sentido mais estrito

da palavra, torna a vida tão agradável

e interessante quanto vivê-la assim. Um

homem que não vive desse modo está para

quem vive pior do que um cego em relação a

quem enxerga normalmente. Mas muito pior,

não há comparação.

Poderíamos encerrar estas considerações

com a seguinte súplica a Nossa Senhora:

Ó Maria, Esposa Imaculada do Espírito

Santo, dai-me a graça de ver os imponderáveis

da Criação, de me enlevar por eles e

de ser impelido assim, por um amor desinteressado,

à contemplação das perfeições que

a alma humana possui pela natureza e pela

graça.

Fazei-me subir dessa consideração à da

natureza angélica, puramente espiritual e,

por fim, à de vosso Divino Filho que na sua

humanidade santíssima é o ápice e a síntese

de toda a Criação. Fazei-me em seguida, por

um voo ainda mais possante de desinteresse

e enlevo, fixar a minha mente na consideração

da própria essência divina, da qual toda a

Criação é imagem ou semelhança, de maneira

que, analisando depois as criaturas, possa

antegozar o Céu, preparando-me assim para

entrar nele e lá Vos louvar por toda a eternidade.

v

(Extraído de conferência de 5/1/1973)

Dr. Plinio em 1970

1) Cf. Suma Teológica I, q. 2, a. 3.

34


The Yorck Project (CC3.0)

A Coroação da Virgem - Museu do Louvre, Paris, França

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Marcus Ramos

Consorte da Sede da Sabedoria

e pai do Leão de Judá

Para se ter alguma noção do semblante de São José seria preciso deduzir, à maneira de suposição, o

caráter de um homem que esteve à altura de ser o pai d’Aquele cuja Sagrada Face está estampada

no Santo Sudário de Turim. Quer dizer, o homem que foi o educador, o guia, o protetor do Senhor

daquele rosto impresso no Sudário; um homem da mesma linhagem, parente e esposo da Mãe d’Ele.

Conceber algo menor do que isso é não ter ideia da extraordinária figura de São José, modelo de fisionomia

sapiencial porque consorte da Sede da Sabedoria, do Espelho da Justiça, Maria Santíssima. Modelo

de fortaleza, porque pai do Leão de Judá, Nosso Senhor Jesus Cristo.

A este verdadeiro São José devemos elevar nossas preces, rogando-lhe interceda por nós junto à Virgem

Santíssima e a seu Divino Filho, e nos alcance a graça de o imitarmos nas suas excelsas virtudes.

(Extraído de conferência de 18/3/1967)

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