edição de 22 de abril de 2019

referencia
  • No tags were found...

STORYTELLER

gustavofrazao/iStock

Rio, ainda?

Eu continuo amando o Rio.

Teimosamente continuo por aqui

Lula Vieira

Por que você está assim, meu Rio de Janeiro?

Que mal você fez para merecer

o que lhe está acontecendo? Seria acaso

aquela maldição à qual se referia Vinícius,

que pedia a Deus que protegesse a mulher

bonita, pois é a ela “que o homem molesta,

que o homem não presta, não presta,

meu Deus?” O Rio sofre a mais triste das

dores, a dor do que poderia ter sido e não

foi. Porque não há nada mais lindo que

o Rio de Janeiro, mesmo habitado. O Rio

não precisa ser selvagem para ser a Cidade

Maravilhosa. Mesmo com prédios, mesmo

sobrepovoada, é uma cidade única. Ou poderia

ser. Ou foi.

Quando eu cheguei por aqui, tive a mesma

sensação que os poetas que cantaram

a cidade tiveram: puro deslumbramento.

Nunca precisei imaginar a terra selvagem

para julgar o Rio abençoado, pelo contrário.

O carioca do meu olhar estrangeiro

recém-chegado completava a paisagem da

cidade, com seu humor, com seu espírito

gregário, com os corpos coloridos pelo sol.

Não falarei das mulheres, pois essa ousadia

não tenho. Você, minha leitora, meu

leitor, pode comparar o que digo com o

que já foi falado em rimas e texto por outros.

E (nem sempre, mas desta vez sim)

não estou disposto a expor-me ao ridículo

com tanta desfaçatez.

Mas seja lá como for, não houve no

mundo, pelo menos até onde vai meu conhecimento,

cidade tão abençoada. Havia

música, dança e alegria nesta cidade. E sou

testemunha, pois vi, ouvi e vivi um Rio de

encher olhos e alma com sons e luzes. Não

estou idealizando o passado, me esquecendo

das mazelas. Como embrião do que

ela se transformou, já existiam problemas.

Mas não havia medo, desesperança e ódio.

As desgraças que a natureza trazia, e trouxe

muitas, não eram provocadas de forma

tão cínica. Havia políticos picaretas, mas

era possível achar a contrafação à desonestidade

e ao cinismo.

Mesmo o ódio tinha certa compostura.

O que hoje é triste rotina, teve um tempo

que era manchete de jornal. Eu cheguei

a pegar lotações que, mesmo não tendo

qualquer tipo de organização, eram

mais civilizados, mesmo que conduzidos

de maneira selvagem. Sou testemunha

do impensável hoje em dia: prédios com

apartamentos térreos que permaneciam

de janelas abertas, onde se podia ver famílias

jantando ou vendo televisão e se podia

murmurar um “banoite” ao cruzar de

olhares mesmo desconhecidos.

O Rio já era metido a internacional, mas

na Tijuca, em Ipanema e em quase toda Zona

Norte havia cantões que lembravam a

minha Lapa de São Paulo. Que, aliás, era a

contrafação da Lapa do Rio. Uma, a paulista,

moradia de classe média baixa trabalhadora;

a outra, sinônimo de putaria. Hoje escrevo

com o sol às minhas costas, brincando

comigo, balançando o rabo como um cachorrinho

em busca de atenção. Um sol que

andou escondido há semanas, substituído

por um céu raivoso. Quero acreditar que as

coisas possam voltar a ser o que eram. Mas

infelizmente ele ilumina também a cara

horrorosa de um desgoverno tão devastador

quanto a natureza em fúria.

Cara que se reproduz em ruas abandonadas,

morros desabados, olhares assustados

e medrosos. A rua de meu novo escritório,

onde fica um dos restaurantes mais

velhos da cidade, que termina na Escadaria

Selarón, um dos pontos turísticos mais

conhecidos, no começo da noite se fecha,

medrosa. Os bares cerram suas portas justo

na hora que tempos atrás estavam lotados

de gente e música. Os passos que antes

passeavam, se apressam, levando gente de

olhar preocupado rumo à frágil segurança

de suas casas. Eu continuo amando o Rio.

Teimosamente continuo por aqui.

Lotei minha casa de alarmes e câmeras.

Só não consegui ainda convencer os

cachorros que nem todo mundo é amigo,

pois se alguém invadir meu terreno terá

a mais carinhosa recepção. Mas tem hora

que dá para ver um pedaço de montanha

ainda verde, uma nuvem brincando de fazer

um véu na cabeça do Cristo, uma nesga

de azul dourado, uma morena a caminho

do mar. Nessa hora acho que estou ficando

rabugento. E fico tentando procurar onde

foi que se escondeu a porra da esperança.

Ou é simplesmente um problema de meus

olhos? Esperança, volta, sua grande filha

da puta!

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa

e da Approach Comunicação, radialista, escritor,

editor e professor

lulavieira.luvi@gmail.com

jornal propmark - 22 de abril de 2019 31

More magazines by this user
Similar magazines