Revista Dr Plinio 254

revistadp

Maio de 2019

Publicação Mensal Vol. XXII - Nº 254 Maio de 2019

Auxiliadora maternal e ápice

de todas as maravilhas


Teodoro Reis

Um varão de dores

Francisco Barros

OProfeta Jeremias foi aquele que mais

chorou a queda de Jerusalém e, profeticamente,

a Paixão e Morte de

Nosso Senhor Jesus Cristo. Neste sentido, é

um dos profetas mais cheios de tristeza e de

lamentações. Foi o profeta das lágrimas que

melhor profetizou o pranto e a dor do Redentor

e de sua Mãe Santíssima.

Não há profeta que possa ser tomado a sério

se não for um varão de dores. Ele tem

que sofrer, mas não como os outros, porque

precisa ser um ponto de atração e de concentração

das dores. Estas confluem nele, e ele

deve recebê-las e abraçá-las como Nosso Senhor

abraçou a sua Cruz. O Profeta Jeremias

abraçou esse sofrimento imenso para, de fato,

realizar os desígnios da Providência.

(Extraído de conferências de

11/8/1967 e 16/9/1967)

Profeta Jeremias - Notre-Dame de Montreal, Canadá.

Ao fundo, Jesus atado à coluna da flagelação

Catedral de Santa Maria, Ontário, Canadá.


Sumário

Publicação Mensal Vol. XXII - Nº 254 Maio de 2019

Vol. XXII - Nº 254 Maio de 2019

Auxiliadora maternal e ápice

de todas as maravilhas

Na capa, Virgem com o

Menino - Museu de Belas

Artes de Lyon, França.

Foto: Flávio Lourenço

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423

02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Editorial

4 Diante de Fátima,

duas famílias de almas

Piedade pliniana

5 Viver para lutar ou

morrer por Nossa Senhora

Dona Lucilia

6 União de almas entre

Dona Lucilia e Dr. Plinio

De Maria nunquam satis

9 Jesus vivendo em Maria

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

14 O bom conhecimento da alma humana

Perspectiva pliniana da História

18 Considerações sobre o

Brasil Império - III

Calendário dos Santos

24 Santos de Maio

Preços da

assinatura anual

Comum .............. R$ 200,00

Colaborador .......... R$ 300,00

Propulsor ............. R$ 500,00

Grande Propulsor ...... R$ 700,00

Exemplar avulso ....... R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Hagiografia

26 Venerabilidade e espírito católico

Apóstolo do pulchrum

30 Contemplação do

universo sideral

Última página

36 A mais fulgurante de todas as estrelas

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Editorial

Diante de Fátima, duas

famílias de almas

Ante as afirmações, de uma grandeza apocalíptica, feitas por Nossa Senhora aos três pastorinhos

de Fátima em 1917, o mundo vai se dividindo cada vez mais em duas famílias de almas. Uma

considera que a humanidade é presa de um feixe de erros e iniquidades, as quais começaram

na esfera religiosa e cultural com o humanismo, a Renascença e a Pseudo-Reforma protestante. Tais erros

se agravaram com o iluminismo e o racionalismo, culminando na esfera política com a Revolução

Francesa. Do terreno político passaram para o campo social e econômico, no século XIX, com o socialismo

utópico e o socialismo dito científico. Com o advento do comunismo na Rússia, toda essa congérie

de erros passou a ter um começo de transposição, incipiente, mas maciça, para a ordem concreta

dos fatos, nascendo daí o império comunista, desde o coração da Alemanha até o Vietnã, e cuja unidade

é indiscutível. Ao mesmo tempo, sobretudo a partir da Grande Guerra, a moralidade se pôs a declinar

com rapidez espantosa no Ocidente, preparando-o para a capitulação ante o comunismo, o qual é

a mais audaciosa expressão doutrinária e institucional da amoralidade. Para incontáveis almas de todos

os estados, condições de vida e nações, que adotam este modo de pensar, a mensagem de Fátima é tudo

quanto há de mais coerente com a Doutrina Católica e com a realidade dos fatos.

Há também outra família de almas para a qual os problemas do mundo contemporâneo pouca ou

nenhuma relação têm com a impiedade e a imoralidade. Nascem eles exclusivamente de equívocos

involuntários resultantes de carências econômicas, e que uma boa difusão doutrinária e um conhecimento

objetivo da realidade podem dissipar. Com o auxílio da ciência e da técnica a crise da humanidade

se resolverá. Não havendo, como nota tônica das catástrofes e dos perigos em meio aos quais

nos debatemos, o fator culpa, a noção de um castigo universal se torna incompreensível.

Entre essas famílias de almas há muitas gamas. À medida que qualquer das correntes intermediárias

se aproxima de um polo ou de outro, para ela se vai tornando compreensível ou incompreensível

a mensagem da Santíssima Virgem. Fátima se encontra, pois, neste sentido, como um verdadeiro divisor

de águas das mentalidades contemporâneas.

Dar-se-ão os acontecimentos previstos em Fátima, e ainda não realizados até aqui? Em princípio,

não há como duvidar. Pois o fato de uma parte das profecias já se haver realizado com impressionante

precisão prova o caráter sobrenatural delas.

Sobreleva notar que, na Cova da Iria, Nossa Senhora formulou duas condições, ambas indispensáveis

para que se desviassem os castigos com que Ela nos ameaçava: a consagração da Rússia ao seu

Coração Puríssimo e a divulgação da prática da Comunhão reparadora dos cinco primeiros sábados.

Há ainda outra condição, implícita na mensagem, mas também indispensável: a vitória do mundo sobre

as mil formas de impiedade e de impureza que o vêm dominando. Tudo indica que esta vitória não foi alcançada

e, pelo contrário, nos aproximamos cada vez mais do paroxismo nesta matéria. E à medida que caminhamos

para esse paroxismo, mais provável se vai tornando que rumemos para a efetivação dos castigos.

A não serem vistas as coisas assim, a mensagem de Fátima seria absurda. Pois, se Nossa Senhora

afirmou em 1917 que os pecados do mundo haviam chegado a tal cúmulo que clamavam pelo castigo

de Deus, não pareceria lógico que esses pecados continuassem a crescer, o mundo se recusasse obstinadamente

e até o fim a ouvir o que lhe foi dito em Fátima, e o castigo não viesse.

Desde que não se operou no orbe a imensa transformação espiritual pedida na Cova da Iria, vamos cada

vez mais caminhando para o abismo, e aquela transformação se vai tornando sempre mais improvável*

* Cf. Bifurcação do mundo, em Última hora, 4/6/1982.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

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Piedade pliniana

Arquivo Revista

Viver para

lutar ou

morrer

por Nossa

Senhora

Dr. Plinio venera a imagem milagrosa de

Nossa Senhora de Fátima, por ocasião de sua

primeira peregrinação ao Brasil, em 1973

ÓSenhora de Fátima, Rainha combatida e, por ora, aparentemente derrotada; Rainha

das lágrimas hoje, Rainha vitoriosa amanhã; Virgem Imaculada, assim predestinada

por Deus antes de todos os séculos, e venerada no tempo e na eternidade!

Dai-nos a graça de que a consideração de vossa Mensagem, de vosso semblante e de vosso

pranto desperte em nós a convicção de que a hora presente tem toda a gravidade trágica

simbolizada por vossas lágrimas.

Tornai presente às nossas almas a infâmia do pecado imenso de Revolução e a gravidade

apocalíptica do castigo que este merece. E não permitais que essas considerações desfechem

num sentimentalismo vago, o qual – hoje mais do que nunca – seria criminoso.

Fazei-nos compreender que por vossas lágrimas quereis estimular-nos à luta entusiástica,

heroica e incessante. De tal forma, ó Senhora, que desapareçam as escórias da Revolução em

nossas almas e, em face de vossos inimigos, sejamos guerreiros inflexíveis, leões de Judá, verdadeiros

continuadores, na Terra, dos Anjos que expulsaram do Céu os espíritos rebeldes.

Fazei-nos homens de Fé, inteiramente puros, entusiasmados com as desigualdades harmônicas

que constituem a ordem do universo; homens de disciplina e de abnegação, cujo

pensamento dominante até a implantação de vosso Reino seja só este: É melhor morrer a viver

numa Igreja e num mundo devastados e sem honra. Viver, minha Mãe, é viver para lutar

ou morrer por Vós. Amém.

(Composta em 1973)

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Dona Lucilia

União de almas entre

Dona Lucilia e Dr. Plinio

Arquivo Revista

Dona Lucilia produzia grande

efeito sobre seu filho e, como mãe

modelar, procurava estimular

Dr. Plinio naquilo que ele tinha

de parecido com ela e incentivar

o que possuía de diferente dela.

Vendo-a, Dr. Plinio melhor

compreendia as coisas da Igreja

e da Civilização Cristã.

Graças a Deus, a união entre

mamãe e mim era realmente

muito grande. Se eu a tomasse

como pessoa e depois como

minha mãe, eu notaria que enquanto

pessoa, abstraindo da relação entre

mãe e filho, havia entre nós afinidades

enormes. Entretanto, existiam

também alguns pontos que não eram

de contraste, mas de diferença e que

se explicavam por aquilo que a Providência

queria de cada um de nós

no decurso desta vida mortal.

Uma espécie de

telegrafia sem fio

Ela deveria levar a vida na santa

campânula do ambiente familiar e doméstico,

com piedade e oração como

era naquele tempo, educar os filhos,

etc., com a elevação de vistas que lhe

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era própria. Eu, porém, era chamado

para as borrascas e tempestades.

É evidente que havia na alma dela,

legitimamente, um movimento

para concentrar, fechar, preservar,

isolar, proteger; enquanto o meu

movimento era o ímpeto para andar

dentro da ventania, para atacar, ser

atacado, enfim, para tocar a nossa

gesta para a frente.

O que criava, naturalmente, não

entrechoques, mas diferenças de

modo de ser que entram pelos olhos.

Acontece que somando a condição

de pessoa, de alma muitíssimo afim à

minha, à condição de mãe, eu era levado

a achar que ela era dotada de

uma espécie de cognição exatíssima,

muito delicada, de uma precisão extraordinária

daquilo que era eu enquanto

eu, e mesmo no que era diferente

dela. E aquilo ela queria, mesmo

quando não entendia inteiramente.

E fazia um esforço para apoiar e

incentivar que eu fosse eu. Procurava,

por esta forma, completar-me de

dois modos: estimular-me no que eu

tinha de parecido com ela e estimular

no que possuía de diferente dela.

Entrava aí uma graça qualquer

que não era apenas a dela como católica,

mas é a graça como mãe.

Uma mãe modelar, muito extremosa

e na qual esse relacionamento mãe e

filho tomava alguma coisa de parecido

com causa e efeito. Ela via até o

fundo o que estava em minha alma.

Às vezes por um olhar, um timbre

de voz, uma pequena oferta: “Você

quer aquilo?”, ou por uma carícia

quando eu passava... Era toda uma

espécie de telegrafia sem fio, que tinha

o efeito que ela e eu nos entendíamos.

Mamãe produzia um efeito

sobre mim, mesmo quando ela estava

numa outra sala e eu a ouvia falar;

quando ela se encontrava numa outra

casa, mas eu tinha conhecimento

de que ela estava lá; e até mesmo

quando ela se encontrava noutra cidade

ou noutro país, mas eu sabia

que ela estava sobre a face da Terra.

Graças recebidas junto à

sepultura de Dona Lucilia

É curioso que quando ouço alguém

me contar esta ou aquela graça

que recebeu junto à sepultura dela

no Cemitério da Consolação, não

digo nada, mas fico prestando atenção

e me lembrando. Enquanto a

pessoa descreve como a graça se fez

sentir nela, como a guiou, a apaziguou,

a estimulou, numa palavra, a

iluminou e a ordenou, eu me recordo

enormemente da ação de presença

que ela desenvolvia sobre mim.

Muito parecida com isso.

Portanto, para mim tem um duplo

sentido: o benefício feito às pessoas,

mas também algo por onde ela como

que me diz: “Meu filho, você se lembra?

Eu continuo sempre a mesma, estou

lá, ajudo você e um dia nos veremos

juntos. Esteja tranquilo, sereno, vá para

a frente. No momento, não pense

no dia em que nos encontraremos, mas

sim neste resto de trajeto que você precisa

percorrer, onde você ainda terá outras

notícias minhas como essa.”

Dr. Plinio em 1965

Estou me lembrando de que há

pouco tempo deu-se isso: era uma

pessoa boa que eu encontrava de vez

em quando, nos saudávamos, mas as

coisas mantinham-se paradas. Num

certo momento encontro com ele,

noto que me olha de um modo especial

e pensei: “Aqui tem uma graça

da Consolação.”

Eu nada lhe disse. Uns dias depois,

ele se encontra comigo, me diz

qualquer coisa e acrescenta: “O senhor

sabe, estive no Cemitério da

Consolação. Eu estava ali rezando –

e pelo gesto dele deu a entender que

eram orações de rotina – quando de

repente, não sei o que se passou em

mim, meu horizonte se abriu. Compreendi

tão bem uma série de coisas

que eu não tinha entendido, vi

tão bem coisas que eu não tinha visto,

que me sinto outro! E no convívio

com o senhor sinto um outro convívio

que não era o de antigamente.”

E aí me disse algumas coisas a respeito

dele. De fato, quando no primeiro

momento eu notei nele essa

transformação, pensei: “Aí tem graça

Arquivo Revista

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Dona Lucilia

do Cemitério da Consolação”. Depois

refleti: “Dir-se-ia que ele fisicamente

viu mamãe durante um momento”.

Vendo-a, Dr. Plinio melhor

compreendia a Igreja e

a Civilização Cristã

Mas eu quero descrever o efeito

de alma que senti inúmeras vezes

vendo a ela. Para responder a uma

pergunta de como era o meu relacionamento

com ela, aqui fica bem encaixada

a resposta.

O fato concreto é que isso se desenvolveu

da seguinte maneira: vendo-a,

eu melhor compreendia as coisas

da Igreja e da Civilização Cristã.

Hoje em dia, em que cheguei a

um longo convívio, graças a Deus

e a Nossa Senhora, com a Igreja,

compreendendo, portanto, melhor

– também tal seria! – do que

no tempo em que eu era pequeno,

aquilo que em alguma medida foi

reflexo de mamãe; hoje se reflete da

sua memória e serve para me lembrar

dela.

Outro dia, quando estivemos na

Igreja Coração de Jesus, quase que

por todos os lugares eu contemplava

primeiramente a igreja, mas depois

me parecia ver os estados de alma de

mamãe por toda parte. Isso compunha

enormemente a recordação que

eu levava dela.

É preciso dizer que não são muitas

as ocasiões em minha vida em

que ela interveio para afastar ou resolver

tal provação ou dificuldade,

em que eu possa dizer que tenha pedido

a intervenção de mamãe e senti

que ela interveio. Mesmo em sua vida

terrena, não são muitos os fatos

em que ela interveio com um conselho,

um ato ou qualquer coisa assim.

Era muito mais uma ação sobre mim

para me pôr em proporção com os

acontecimentos, do que desviá-los.

Mas isso é, de longe, o mais precioso!

E ela o fazia intensamente.

A palavra humana nunca

esgota inteiramente a realidade

Ser-me-ia difícil dizer mais do que

eu disse. Realmente raspei o fundo

das possibilidades da palavra humana.

A minha palavra esbarra numa

insuficiência de expressão. Seria como,

por exemplo, quem tomasse um

topázio azul e o pusesse contra a luz.

O topázio de si não pode dar a não

ser o que está nele!… Podem-se fazer

jogos de luz com ele, mas dará

somente o que está nele. Também no

que diz respeito a meu convívio com

mamãe, eu não saberia dizer mais.

Imaginem que alguém lhes perguntasse

que impressão tem olhando

para a foto do Quadrinho 1 . São

muitas impressões, mas que chegam

ao indizível. Ao cabo de alguns momentos,

não se sabe mais o que dizer.

Tem-se muito que falar, mas não

se sabe mais dizer, porque a palavra

humana nunca esgota inteiramente a

realidade.

Dr. Plinio na década de 1980

Aliás, uma das coisas que torna

bela a palavra humana é exatamente

o fato de que ela, no fundo de tudo

quanto diz, tem algo que não diz

e que se entrevê com a ajuda do que

ela diz. Isso dá à palavra uma beleza

especial.

Compreendo que me perguntem:

“Mas entrando mais a fundo na floresta,

o que existe?”

Respondo: “Árvores!” O que posso

dizer?

Quem sabe se num outro dia essas

recordações, postas debaixo de outra

luz, com outro ângulo, apresentam

novas refrações e eu possa dizer algo

a mais.

v

(Extraído de conferência de

28/10/1980)

1) Quadro a óleo, que muito agradou a

Dr . Plinio, pintado por um de seus

discípulos, com base nas últimas fotografias

de Dona Lucilia. Cf. Revista

Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

Arquivo Revista

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De Maria nunquam satis

Daniel Jolivet (CC3.0)

Vista panorâmica de Blois,

no Rio Loire, França

Jesus vivendo

EspéSiet (CC3.0)

em Maria

Nossa Senhora das Ajudas

Igreja de Saint-Saturnin

de Blois, França

Nossa Senhora deseja conceder-

-nos muito mais do que pedimos e

até o que não sabemos pedir. Mas é

preciso rogar a Ela com a intimidade

e a certeza de sermos atendidos como

se fôssemos uma criança de colo.

Comemora-se em Blois, na França,

a festa de Nossa Senhora

das Ajudas, a respeito da qual

há a seguinte nota aqui consignada:

Cidade onde a heresia

jamais penetrou

A devoção à Santíssima Virgem da

cidade de Blois, onde a heresia jamais

penetrou, é grande e sincera.

É importante que a heresia jamais

tenha penetrado lá, porque houve

um período de calvinismo agudo na

França em que mais ou menos em todas

as cidades, no século XVI, o protestantismo

penetrou em quantidade

maior ou menor. Que Blois tenha ficado

isenta dessa lepra é uma coisa

excelente e digna de nota, e se relaciona

adequadamente com a grande

devoção que essa cidade sempre teve

para com Nossa Senhora.

Seus habitantes, reconhecidos a tão

magnânima Senhora, deram-Lhe o título

de Nossa Senhora das Ajudas, pela

proteção constante da Virgem que

se faz sentir, não só nos tempos das

heresias e pestes, mas também em outras

circunstâncias trágicas.

Portanto, a cidade sempre reconheceu

ser especialmente protegida

pela Santíssima Virgem. Assim constituiu-se

a invocação de Nossa Senhora

das Ajudas.

Em 1784, as águas do Loire que

banham Blois ameaçavam submergir

a cidade. O povo, unido, recorreu à

sua intercessora e, durante a Missa, no

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De Maria nunquam satis

Flavio Lourenço

uma palavra amiga. Eis porque, por

exemplo, Nosso Senhor quis que seus

Apóstolos estivessem acordados e vigiassem

no Monte das Oliveiras. Ele

desejava o apoio, a doçura da amizade

na tribulação na qual estava.

Assim, nas angústias Nossa Senhora

é bondosa porque nos socorre

nas tribulações e perigos.

Há em São Paulo uma capelinha

com um lindo título: Nossa Senhora

dos Aflitos. É a Virgem Maria invocada

enquanto tendo pena, sendo clemente

e misericordiosa para aqueles que se

encontram em toda espécie de aflições.

Quando se trata de uma aflição que

Nossa Senhora pode remover sem diminuir

com isso o benefício espiritual

da pessoa, Ela remove. Sendo uma

aflição que, na sua sabedoria, Maria

Santíssima julga necessária para essa

mesma finalidade, Ela arranja um jeito

de a pessoa ter mais força, de sentir

a doçura d’Ela, de poder resistir melhor

àquela aflição. Esta é a ideia que

vem externada nesta e em tantas outras

devoções à Mãe de Deus.

Um ícone bizantino

muito significativo

Oração no Horto - Museu de Arte Sacra, Osuna, Espanha

momento da elevação, as águas começaram

a descer rapidamente, até o

rio voltar ao seu leito normal.

Ora, uma inundação decorre de

causas complexas que atuam com

certo vagar. De maneira que é difícil

que a água desça tão rapidamente.

Temos, pois, a conjunção de dois

fatores: de um lado, Maria Santíssima

protegendo nas necessidades

materiais, e de outro, tomando essa

proteção como um meio para encaminhar

as almas à ideia de que Ela

ampara também nas necessidades

espirituais. Este é o auxílio de Nossa

Senhora, o qual se manifesta aqui especialmente

no dom inestimável da

ortodoxia concedido a essa cidade

preservada de modo insigne.

Maria Santíssima nos

socorre nas angústias,

tribulações e perigos

Relaciona-se com isso o seguinte

pensamento de Santo Ildefonso:

Ó Virgem Maria, sois clemente em

nossas necessidades, doce em nossas

tribulações, boa em nossas angústias,

pronta a nos socorrer em nossos perigos.

Esta frase está muito bem calculada,

porque em relação às necessidades

é preciso ter pena, de onde vem

exatamente a clemência, pela qual

uma pessoa é tocada pelo infortúnio

e apuro que outrem está passando.

Então, torna-se generosa.

Nas tribulações, a pessoa quer doçura,

encontrar um amparo, um apoio,

Mais especialmente esta ideia se

exprime no culto a Nossa Senhora

Auxiliadora. Para compreendermos

cada vez melhor esta devoção, seria

interessante fazer aqui o comentário

de uma oração composta pelo famoso

Padre Condren, varão de alta espiritualidade

da França, completada

por Monsenhor Olier e enriquecida

por Pio IX, em 1853, com trezentos

dias de indulgência.

Esta oração foi objeto de um comentário

especial do venerável Padre

Libermann, e também Dom Chautard

tem alguns trechos em que ele

a comenta lindamente, em função

de um ícone bizantino que representa

Nossa Senhora com um olhar recolhido

em oração, onde se vê que Ela

está contemplando ideias, conceitos,

voltada para o mundo do espiritual e

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Helio G.K.

do imponderável, e não para as coisas

contingentes que A cercam.

Ela está de mãos abertas, que era

a atitude de quem rezava na antiga liturgia

bizantina, e sobre o seu peito

aparece um círculo, dentro do qual se

encontra Jesus com o halo de santidade

na cabeça, representado ainda como

muito mocinho, quase um meninote,

tendo um rolo de pergaminho

na mão esquerda e a direita em atitude

de quem está lecionando. É uma

alusão à Encarnação do Verbo. Tendo

em Si o Menino Jesus que, enquanto

vivendo n’Ela é um Mestre, Nossa Senhora

Se recolhe para ouvir os ensinamentos

d’Ele em seu interior.

Por outro lado, a atitude contemplativa

da Santíssima Virgem é

um ensinamento que Ela dá aos outros.

De modo que aqui a mediação

se exerce magnificamente. O Menino

Jesus ensina a Nossa Senhora e,

através d’Ela, instrui os de fora. O

recolhimento d’Ela é docente.

Este ícone representa precisamente

o princípio de que, se temos vida interior

e Jesus Cristo vive em nós pela

piedade, pela vida sobrenatural, pela

moral, pelo desejo de nos santificarmos,

pela fidelidade à ortodoxia – que

é um imperativo do primeiro Mandamento:

amar a Deus sobre todas as

coisas –, quando isto acontece, então

Nosso Senhor Se serve de nós como

de uma tribuna, um púlpito ou uma

cátedra, e através de uma osmose que

se nota em nossas palavras e em todo

o nosso ser, Ele ensina aos outros.

Jesus e Maria

vivendo em outros

Eu estava lendo uma biografia de

São Francisco de Sales, na qual o autor

Milagres de São João Maria Vianney - Ars, França

Dr. Plinio na Fazenda de Amparo

fazia observar que o Santo escreveu alguns

livros excelentes, como a “Introdução

à Vida Devota”, e outro muito

bom, sem ser tão célebre, que é o “Tratado

do Amor de Deus”. Pelas notas de

sermões dele, verifica-se que eram exposições

de pontos perfeitamente comuns

da Doutrina Católica. Entretanto,

as pessoas não se saciavam de ouvir.

Um calvinista daqueles mais horrorosos

foi ouvir o que ele dizia, e

depois o interpelou, dizendo:

— Ouvi o que o senhor disse. Quer

que eu lhe diga francamente? Não

compreendo sua fama. Não entendo,

sobretudo, porque essas senhoras

procuram tanto pelo senhor. Analisando

suas palavras, afinal de contas,

escrevendo, muitos já disseram o que

o senhor afirma. O que há, portanto,

de novo no que o senhor diz?

Pois bem. O que havia era Jesus e

Maria vivendo em São Francisco de

Sales. Existia tal unção, tal vida interior,

tal osmose da graça naquilo que

ele dizia, que Deus falava através dele

e dava uma fecundidade extraordinária.

De onde vinha a fecundidade?

Exatamente deste fato: a presença

de Jesus e Maria em alguém,

passando por osmose para outrem.

São João Batista Maria Vianney

era exatamente assim. Dom Chau-

Arquivo Revista

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De Maria nunquam satis

tard conta que uma vez um advogado

de Paris foi ver o Cura de Ars e,

voltando para a sua cidade, alguém

lhe perguntou:

— O que você viu em Ars?

Ele respondeu:

— É muito simples. Eu vi Deus

num homem.

Aqui está a ideia da “inabitação”

que não é física, evidentemente, não

tem relação nem sequer com a presença

real, mas é receber a graça e

irradiá-la. A graça vem exatamente

desta “inabitação” de Deus que Nossa

Senhora teve com presença física,

real e sobrenatural, em todos os

graus e modos possíveis.

Devemos ser leões que

rugem contra o mal

A este propósito, pediram-me

para comentar a seguinte oração, e

depois falarei de Nossa Senhora como

Auxílio dos Cristãos, em função

disso.

Ó Jesus, que viveis em Maria, vinde

e vivei em vossos servos: no espírito

de vossa santidade, na plenitude de

vossas forças, na perfeição de vossas

vias, na verdade de vossas virtudes, na

comunhão de vossos mistérios. Dominai

sobre toda potestade inimiga em

vosso espírito, para a glória do Padre.

Amém.

Jesus viveu em Maria e, por Maria,

Ele se comunica aos homens.

Nossa Senhora é o sacrário, o santuário

de dentro do qual todas as

graças se difundem para os homens.

Ela é o templo do Espírito Santo,

o tabernáculo onde está Nosso

Senhor, e por causa disso devemos

pedir a Jesus, enquanto vivente

em Maria, pois é de dentro deste

Templo que Ele quer receber nossas

orações.

Pedir o quê? Que Ele viva em nós.

Ou seja, que tenhamos o espírito de

Nosso Senhor Jesus Cristo, um espírito

todo ele santo, que é o espírito

da Santa Igreja Católica Apostólica

Romana. Portanto, o espírito contrarrevolucionário,

expressão mais

característica e radical do espírito da

Santa Igreja.

Além disso, roguemos a plenitude

das forças de Nossa Senhora. Maria

Santíssima é a Virgem forte, combativa,

intransigente e absolutamente

inflexível diante do demônio, do

mundo e da carne. Devemos pedir

essa força, que é intransigência, vigilância

e iniciativa dentro da combatividade.

Contra o quê? Primeiro, contra o

que há de mal dentro de nós. Em segundo

lugar, contra o mal que está

fora. De maneira tal que sejamos leões

rugindo contra o mal, como exatamente

Nosso Senhor Jesus Cristo

foi o Leão de Judá, e como sua Mãe

Santíssima, de Quem se diz que, sozinha,

esmagou todas as heresias do

mundo inteiro.

Seguir de modo perfeito

as vias de nossa vocação

Depois, pedir a perfeição das vias

de Jesus. Nosso Senhor é quem traça

a via para cada um. E para nós indicou

a via de nossa vocação. Muitos

não sabem qual é a sua vocação e rolam

pela vida como seixos do fundo

de um rio. Nós, graças a Deus, sabemos

qual é a nossa . A via para nós

está clara. Devemos pedir a graça de

segui-la de um modo perfeito, “na

verdade de vossas virtudes”, portanto,

não uma virtude fofa, balofa, inconsistente,

mas autêntica, verdadeira

e sincera. Esta é a vida de Jesus

que se comunica a nós.

Agora vem o pedido de uma ação

contra nosso adversário:

Dominai sobre toda potestade inimiga...

Dominai o demônio, as forças do

mundo que tentam arrastar-nos para

o mal. Nós pedimos para nosso bem,

é evidente, mas para a maior glória

de Deus, pois queremos isto por

amor a Ele.

Mais do que o êxito do

apostolado, precisamos

querer nossa santificação

Que relação tem esse comentário

com a festa de Nossa Senhora

Auxiliadora? O maior dos auxílios

que Maria Santíssima pode nos

dar é exatamente o de nos comunicar

este espírito de santidade, esta

força, esta perfeição de via, esta

autenticidade de virtudes, esta

comunhão de mistérios, esta vitória

contra o demônio; e comunicar-nos

tudo isso para nossa santificação.

Acima de tudo, mais até

do que o êxito do apostolado, queremos

que cada um de nós se santifique.

E para esta santificação, o

auxílio de Nossa Senhora se opera

por essa forma.

O pensamento “Jesus vivendo

em Maria” está muito ligado à noção

de Nossa Senhora Auxiliadora.

Ela apresenta-Se a nós, na imagem,

com o Menino Jesus no braço

para indicar a relação materna

que Ela tem com seu Divino Filho,

aquela relação de intimidade absoluta,

de atender as últimas e menores

dificuldades de uma criança,

com aquele afeto, aquela bondade,

que se tem, não para com o grande

e o forte, mas para com o pequenino

e o fraco.

Já pensaram o que representava

para Nossa Senhora ver uma criança

chorar? Perceber que ela tinha frio

ou fome, e saber que era Deus infinitamente

poderoso, nobre, Criador

d’Ela, ali chorando dentro do berço

e pedindo o auxílio d’Ela, querendo

ser tratado e adorado por Ela enquanto

pequenino?

De tal maneira está entranhada

nessa intimidade entre ambos a ideia

de que Ele é Filho d’Ela, que Jesus

quis receber de Maria um culto meigo,

miúdo, acessível, todo feito de

carinho, porque na essência divina

há um fundamento para isso.

12


Como se fôssemos uma

criança de colo...

Isto fez da Santíssima Virgem a

Mãe de todo o gênero humano. Nossa

Senhora, Mãe de Jesus Cristo e

de todos os cristãos, é Mãe do Corpo

Místico de Cristo. E em relação

a cada um de nós, a posição d’Ela é

de querer que sejamos como meninos,

como o filho carregado no colo

que Lhe pede toda espécie de coisas,

e a quem Ela dá muito mais do

que pede, até mesmo o que não sabe

pedir. Mas a condição é de rezar

com aquela intimidade, com a certeza

de ser atendido por Ela, como

se fôssemos uma criança de colo. É

a este título que Maria nos auxilia. É

aquela multidão de auxílios concedida

aos pequenos, muito mais do que

aos grandes.

Aqui está bem o traço filial da devoção

a Nossa Senhora Auxiliadora

e que estabelece uma linha de comunicação,

de afinidade ou de identidade

com a pequena via de Santa Teresinha

do Menino Jesus. É a criança,

o pequeno que cultua a Virgem

Maria por esta forma, e com quem

Ela quer ter relações assim. Debaixo

deste ponto de vista se poderia dizer

que o Reino dos Céus é dos meninos,

e quem não for pequenino não

entra nele.

Na Igreja, as almas mais grandiosas,

mais majestosas, mais fortes,

mais extraordinárias, sempre que

trataram da Santíssima Virgem Maria,

falaram nesse diapasão. Mesmo

quando disseram as coisas mais altas

sobre Ela, tinham bem em mente ser

a Mãe que desejava tratar a cada um

deles com aquela bondade, aquela

solicitude, aquele sorriso com que se

trata um menino. Aqui está um aperçu

da devoção a Nossa Senhora enquanto

Auxiliadora. v

Daniel A.

(Extraído de conferência de

23/5/1966)

Nossa Senhora Auxiliadora

13


Arquivo Revista

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

O bom conhecimento

da alma humana

Tratando com o próximo, não devemos desde logo considerar

seus defeitos, mas precisamos ter um conhecimento exato

de quais são seus lados positivos, e pensar como seria

aquela alma se correspondesse ao que deve ser.

Para se ter um bom conhecimento

da alma humana não

se deve ir desde logo aprofundando

na consideração dos defeitos.

Essa é uma concepção detetivesca

que para efeito de polícia terá sua

utilidade, mas para nós não é a verdadeira.

Procurar ver no outro o

que ele tem de melhor

É preciso, tratando com o próximo,

ter um conhecimento exato de

quais são os lados positivos, o que seria

aquela alma se correspondesse ao

que deve ser. A partir daí se faz uma

medida do que a alma deveria ser e o

que ela é, e se vê a diferença no que

está faltando. Depois pode-se ter a

consideração do que a pessoa infelizmente

é, do que pode vir a ser, do mal

para o qual ela tende. Mas a vista primeira

que elucida todo o resto é o conhecimento

do melhor aspecto da pes-

14


soa. Eu acho que o espírito dos ditos

argutos não vê isto, e por essa razão

eles acabam vendo muito pouca coisa.

Isso não é ingenuidade, porque não

quer dizer que se imagine ser a pessoa

como ela deveria ser, mas vê-se como

ela deveria ser e não é. O que supõe na

base da perspicácia uma generosidade

de alma pela qual se é propenso a ver

no outro o que ele tem de melhor, e

não um rival, mas uma complementação

de si próprio. Se a pessoa não tem

esse estado de alma nunca chegará à

verdadeira perspicácia.

Há, portanto, um certo discernimento

na base de todo conhecimento,

por onde se vê, antes de tudo, o

melhor aspecto da pessoa e algo que

tocaria quase na pessoa utópica, em

que ela fosse a plena medida de si

própria, na promessa de Deus. A

partir disso, então, é que vêm os vários

graus de conhecimento.

É muito importante esta impostação

para conhecer as pessoas e saber

agir em face delas, e ter assim o espírito

retamente construído. Daí nasce

um primeiro passo no caminho de

uma ordem ideal realizável, que consiste

em não se contentar com a vulgaridade,

com a trivialidade, como sendo

a própria face autêntica das coisas.

Ao contrário, entender que a vulgaridade

e a trivialidade são sempre deformações,

pois nada é, ex natura propria,

vulgar e trivial a não ser certas

coisas materiais feitas por Deus para

nos despertar a repulsa, pensar no Inferno,

outras coisas assim; mas, de si,

nada deve ser visto a não ser numa ordem

cumeada que faz com que o justo

viva de esperança e nunca perca, ao

longo de sua vida, esse movimento de

alma pelo qual ele trabalha continuamente

para que todos e tudo se aproximem

daquele ponto alto ideal.

A arte, a cultura, o

verdadeiro progresso

Decorre daí uma visão de um plano

de Deus sobre o conjunto das

pessoas, das instituições, que é uma

espécie de primeira elevação, primeiro

salto que ainda não é voo, mas

um ensaio de voo. A partir desse primeiro

salto começa-se a subir para

os saltos superiores.

A arte, a cultura, o progresso no

sentido bom da palavra são uma tendência

para isso. E o encanto da Europa

esteve em que ela intensamente

teve isso, foi muito modelada para

que no contato com cada coisa se visse

o ideal dela e que cada uma, sem

ser idêntica ao ideal, participasse em

algo do ideal que ela tinha consigo.

E a alma assim como estou dizendo

já acolhe essas participações com

simpatia, com bondade, ela não olha

para a coisa que apenas participa do

seu próprio ideal e afirma frustrada:

“Porcaria! Você não participa inteiramente.”

Não, ela diz: “É pena você

não participar inteiramente, mas em

tal ponto eu me encanto.”

Há, portanto, uma espécie de posição

benévola da alma que é o ponto

inicial. A influência da Igreja ajuda

fabulosamente as almas a serem

assim. Eu conheci uma pessoa ou

outra enormemente assim, que representava

um convite contínuo a se

colocar em função do próprio ideal.

Não com repreensão, mas um convite

generoso, bondoso, sem, contudo,

ocultar o amargo da decepção.

Assim, há um primeiro movimento

de alma por onde se constrói um

mundo para o qual se deve tender

com uma esperança infatigável, pois

vendo existir ali um plano de Deus,

tem-se sempre a esperança da misericórdia

d’Ele e da realização.

A partir daí a pessoa pode subir,

não digo cronologicamente, mas logicamente,

para a utopia e depois

para o sobrenatural. Há, pois, uma

gradação que me parece interessante,

mesmo porque não importa só à

criança, uma vez que cada idade tem

diante de si, a seu modo, essa encruzilhada

e essa possibilidade que se

abre.

Autêntico idealismo

Por exemplo, o modo de entender

a vida de família pode comportar

intimidades degradantes como também

um respeito mútuo nobilitante,

por mais pobre que seja, pois não

entra em cena questão de dinheiro.

Enfim, o convívio familiar pode

elevar ou rebaixar, ter um dinamismo

para cima ou para baixo, como

também ter cruzadas algumas coisas

muito altas e outras muito baixas onde,

em geral, o muito baixo prevalece,

naturalmente.

Ora, o feitio de espírito bem construído

não omite nada disso. Ao pensar

em morar no céu azul, não deixa

de considerar, em concreto, o ambiente

onde está, mas deseja o modelo

ideal de todas as coisas que vê,

e tende para ele, batalha por ele e

é, portanto, um homem imerso nesta

vida concreta. É muito diferente

do utopista que se lança num voo

com uma espécie de horror desta vida

concreta, um indivíduo que entre

duas leituras de Saint-Exupéry 1 poderia

perfeitamente estar numa estrebaria

malcheirosa, e para quem

a utopia faz as vezes de uma droga.

Não é isso! É do alto de uma vida

concebida nos seus modelos ideais,

na sua arquetipia – os arquétipos

têm um grande papel nisso – que se

situa o idealismo, palavra conspurcada

de todos os modos, mas cujo sentido

bom encontra-se nessa faixa; esse

é autêntico idealismo.

O indivíduo que, fazendo uma reta

análise de si mesmo, tem a noção

do que ele deveria ser e procura participar

do seu próprio papel na medida

em que suas condições lhe permitam,

não é um impostor, não visa

inculcar a ideia de ser ele o que não

é, mas procura ser tudo quanto deve,

fazendo-o notar às outras pessoas,

não para se estadear, mas por fidelidade

aos seus próprios princípios.

Isto é o oposto da teatralidade. O teatral

procura fingir ser o que não é, não

tem nenhuma vontade séria de ser o

15


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

que deve e procura até aparentar o que

ele não deve ser nem foi feito para ser.

Modos de enfrentar a

vida no mundo atual

É preciso levar em conta que o

mundo moderno corrente – não o

da quarta Revolução, mas da terceira

Revolução expirante em que nos

encontramos – apresenta a seguinte

máxima: olhar para baixo é um pesadelo,

olhar para cima é um sonho.

Nós devemos rejeitar o pesadelo e o

sonho, e viver nessa realidade chata

e lisa. Mais ainda, ter sonhos atrapalha

uma postura prática da alma por

onde se pode evitar o pesadelo.

Eu vejo, por exemplo, o modo de

um indivíduo conduzir uma doença.

O sujeito tem uma enfermidade

qualquer e considera isso um pesadelo

e uma inferioridade. Entretanto,

uma vez que tem essa doença, ele

precisa formar a ideia mais lúgubre

de tudo quanto possa lhe suceder de

pior e viver na espreita para evitar

que isso aconteça. Então, ele transforma

sua vida numa batalha contra

as hipóteses-pesadelo que o espreitam

ao longo da enfermidade. Mas a

mesma coisa se dá em relação à carranca

que lhe fez o diretor da repartição

onde ele trabalha; idem com o

tédio que o cliente decisivo sentiu

quando conversou com ele e que talvez

o faça abandonar o escritório...

De tudo isso o indivíduo prevê as

coisas piores que podem acontecer,

e fica lutando contra aquilo para evitar

uma ruína na sua vidinha e conseguir

os interstícios de umas férias gostosas,

numa viagem de transatlântico

para não sei onde. Isso não é vida,

não é ideal, mas é o mundo atual.

Eu vi pessoas dos antigos tempos

adoecerem. Elas sabiam que havia as

hipóteses extremas, mas as hipóteses

médias eram sempre as mais prováveis.

Então, preparavam-se para estas

e viviam confortavelmente dentro da

doença. O que se pode fazer a não ser

isso? Hoje, não: consultam-se quinze

médicos, fazem não sei mais o quê,

conversam entre si sobre Medicina

para saber se há mais uma invenção...

Um apelo para o

mais elevado

A inocência é uma visão global

das coisas que contém o que estou

dizendo. Portanto, não estou fazendo

outra coisa senão traçar um pormenor

da inocência. Por causa disso

também, a alma verdadeiramente

inocente é benévola, com boa vontade

se dá, acolhe, se abre. Com as

agruras da vida, a inocência comporta

uma decepção muito triste, mas

não uma amargura antiaxiológica.

Ela vê a realidade, mas tem esperança

de que isso se recomponha, se

reconstitua, pelo menos em alguma

medida, e trabalha generosamente

neste sentido, sem ilusões e sem se

deixar arrastar nem calcar aos pés.

Quer dizer, a inocência espera do

mal todo o mal, e quando vê em alguém

uma pontinha de mal, começa

a recear que aquilo tome conta da

pessoa à maneira de um câncer; isto

é positivo. Contudo, mesmo na pior

decepção aquela esperança fica.

Neste sentido é muito bonito o

modo de Nosso Senhor tratar Judas.

Aquela pergunta: “Judas, com

um ósculo trais o Filho do Homem?”

(Lc 22, 48) ainda tem algo, como

quem diz: “Eu vejo tudo quanto há

em você e lhe dou uma graça suprema

para ser o que deveria.” “Amigo,

a que vieste?” (Mt 26, 50). Pode

haver uma coisa que indique mais a

perseverança d’Ele na esperança de

que Judas ainda viesse a ser o que

deveria? Entretanto, Ele media também,

sem ilusões, a infâmia aonde o

traidor estava se atirando.

Isso gera um convívio no qual está

presente o vislumbre de todo o bem,

até o máximo a que pode chegar

uma pessoa, e de todo o mal, também

até o extremo onde pode afundar,

o que traz um relacionamento

ao mesmo tempo sem ilusões e nunca

desesperançado, que tem sempre

algo de condicional, de quem pensa:

“Levarei a minha esperança até o

último limite do ‘amigo, a que vieste?’,

mas não me iludirei e saberei

por que escadas tu desces, e o que

de ti devo esperar, e também saberei

tomar as precauções para me defender.”

O que supõe, naturalmente,

muito equilíbrio.

Como a maior parte das pessoas

não leva em consideração a existência

da graça, não interpreta bem

o que se passa dentro de si. Quando

A caridade de visitar os enfermos - Museu de Belas Artes, Lyon, França

Flávio Lourenço

16


Flávio Lourenço

O beijo de Judas - Museu Episcopal de Vic, Espanha

alguém tem numa parte da alma algum

elemento de virtude sobrenatural,

que não recusou inteiramente,

olha para si e pensa ter reservas morais

ilimitadas e muito nobres, sente

com isto um apelo para subir, o qual,

de fato, vem da graça.

Papel da bondade

Por outro lado, quem tem experiência

da vida espiritual é levado a

reconhecer o papel da graça neste

ponto: não há quem não tenha fossas

dentro da alma e que não se sinta

incapaz de vencê-las sem um milagre.

Uso a palavra “fossas” de propósito.

São infâmias, torpezas desconcertantes

que a pessoa sente que

não tem condições de vencer a não

ser pelo milagre. Ora, para isso entra

uma ação da graça, e a pessoa espera

que esse milagre se opere.

Até vou dizer mais: isso se presta,

com certa frequência, a abusos porque

acaba dando uma noção errada

da estabilidade à beira do precipício,

e a pessoa não se dá conta de

que, habituando-se a viver à borda

do precipício, pode até não cair nele,

mas o solo debaixo dos pés pode ir

afundando cada vez mais, constituindo

um outro modo de afundar num

precipício sem se dar conta.

Cada um de nós carrega fossas asquerosas

dentro da alma, e é justo,

normal, que alguém receie cair nessas

fossas. Como é natural também que

outro tenha em nós a grande esperança

de que alcancemos altos píncaros,

e que no relacionamento conosco

ele deseje enormemente que atinjamos

o nosso píncaro, mas não sem

um olhar atento para nos ajudar e se

proteger, caso estejamos facilitando

com a fossa. Não podemos ter a menor

ilusão a esse respeito.

Aqui entra o papel curioso da

bondade: quando alguém se aproxima

muito de sua própria fossa, mas

sente que o outro persevera em esperar

que ele suba, recebe um impulso

para cima. É uma baforada

vinda de fora para dentro que levanta

o homem todo; isto devemos fazer

com o outro. Por isso Nosso Senhor

disse a Judas: “Amigo, a que

vieste?” Por que Ele disse “amigo”?

Porque se naquela hora Judas dissesse

“sim”, entrava na condição de

amigo de Nosso Senhor, diretamente.

O convite que entrou nesse “amigo”

é o que devemos ter para todos,

até depois de tudo consumado.

Infelizmente, as pessoas se tornaram

insensíveis a esta forma de bondade

como, aliás, Judas o foi. Pode-se

usar esta bondade como se queira, as

pessoas não se incomodam. Elas preferem

a cumplicidade. Como não recebem,

tornam-se inimigas. v

(Extraído de conferência de

2/6/1982)

1) Antoine Jean-Baptiste Marie Roger

Foscolombe, Conde de Saint-Exupéry.

Escritor, ilustrador e piloto francês

(*1900 - †1944).

17


Perspectiva pliniana da História

Considerações sobre o

Brasil Império - III

No fim do período imperial, a cidade do Rio de Janeiro

se tornou comparável às muito boas urbes da Europa. O

bom gosto foi aparecendo, a urbanização se tornando mais

bonita. Pessoas de sociedade começaram a importar modas

muito elegantes, vindas principalmente da França.

Quando Dom João VI mudou-

-se para o Brasil, instalou-se

no Palácio dos Vice-Reis. Esse

edifício ainda existe e, com a proclamação

da República foi convertido

na Central de Correios e Telégrafos.

O prédio é uma característica construção

portuguesa do século XIX,

cuja arquitetura tem certo “sabor”,

mas não creio que seja qualquer povo

que apanhe o “sabor” que isso possui.

À primeira vista, é a arquitetura

que muitas casas apalaciadas e de fazenda

do Brasil vão tomar também, e

da qual posso falar livremente, porque

dando uma impressão, à primeira

vista desfavorável, estarei me referindo

ao meu País.

O Palácio dos Vice-Reis

Lembro-me muito dessa impressão

quando era pequeno e via certas construções

brasileiras. Eu passava diante

daquilo, olhava e pensava: “Mas, afinal

de contas, isso aqui no que é diferente

de uma caixa de sapatos? É um

quadrilátero enorme, com uma ponta

um pouco mais enfeitada em ci-

ma, uma fileira de janelas iguais, cada

uma com uma pequena sacada

e, entre janela e janela, um braço de

ferro com uma lâmpada dependurada.

Embaixo, outra porta ornamentada

e mais janelas. Percebe-se como

é a planta interna disso: um corredor

no centro e, em cima, quartos que dão

para a frente e para o fundo. Onde está

a arquitetura? Onde está a arte?

Onde está o bonito disso?”

Não se poderia imaginar uma

planta que desse menor dor de cabeça

a um arquiteto do que essa. Eu tinha

Palácio dos Vice-Reis em 1818

Karl Wilhelm von Theremin

18


Construções francesas do século XIX

ABACA (CC3.0)

ABACA (CC3.0)

objeções sérias contra isso, sobretudo

porque fazia a comparação entre esse

estilo de construção e os edifícios que,

naquele tempo, via em fotografias da

França. Eu me extasiava com as construções

francesas e, em consequência,

vendo essa simplicidade quase elementar,

estranhava e ficava objetante.

Recordo-me, entretanto, de que,

às vezes, no momento de virar a página

de um álbum de fotografias, eu

pensava: “Curioso, na hora de virar

a página estou achando isso bonito...

E percebia que, de vez em quando,

daquilo desprendia certa beleza que

não era a de uma coisa francesa, de

deixar o olhar encantado, mas tinha,

por vezes, uma chispa de pulcritude.

Mais tarde acabei percebendo que

essa chispa estava em alguma coisa

Luiz Ferreira (CC3.0)

Povo aclama a Princesa Isabel após a

assinatura da Lei Áurea em 1888

que sentimos depois de nos termos

habituado à monotonia. Então aparece

uma grandeza, uma seriedade,

uma distinção que nos encanta. Esse

era o Palácio dos Vice-Reis onde

Dom João VI se instalou.

A Quinta da Boa Vista

Não muito tempo depois, ele recebeu

o oferecimento de um comerciante

rico, português que morava

no Rio de Janeiro, pondo à sua disposição

uma grande propriedade

chamada Quinta da Boa Vista. Era

um lugar mais fresco, mais arejado

do que a cidade do Rio, que é terrível

no tempo de calor. Não havia

estrada de ferro para Petrópolis naquele

tempo. Então, naturalmente,

era preciso fugir do calor indo para

lugares mais arejados. A Quinta da

Boa Vista correspondia a essa necessidade

e Dom João VI foi residir lá.

Com o tempo, a Quinta foi sendo

ampliada e muito bem decorada.

Muitos anos atrás, eu tinha ido passar

uns dias de repouso no Rio de Janeiro

e fui visitar a Quinta da Boa Vista,

que havia sido transformada em Museu

de Ciências Naturais. Pela disposição

das salas, percebi que nem tudo

estava acessível aos visitantes, e

que eu poderia tentar visitar a parte

que não era mostrada ao público.

Com jeito, perguntei a um funcionário

o que havia além de algumas portas

trancadas e manifestei meu desejo

de conhecer aqueles recintos.

— Não, não pode! Essas salas estão

fechadas... – asseverou.

— Mas o que é que têm? Se estão

vazias, então não há razão para mantê-las

fechadas...

Depois de uma boa conversa, consegui

que ele me abrisse as portas.

Eram os aposentos da Princesa Isabel.

Encontrava-se ainda ali algo do

antigo mobiliário, mas pouca coisa.

Havia de encantador os vitrais do século

XIX trazidos da Europa, representando

personagens célebres do

tempo da Renascença: músicos e poetas,

principalmente italianos. Tenho

a impressão de que eram vitrais de

fabricação italiana. Percebia-se, pelo

acabamento das paredes e do teto,

que a quinta do português comerciante

tinha sido transformada gradualmente

no interior de um palácio

19


Perspectiva pliniana da História

Karl Robert (CC3.0)

Litografia da Quinta da Boa Vista em 1840

principesco, com muito espaço, muita

largueza, com bonitos móveis, etc.

Afinal, consegui entrar também na

Sala do Trono, onde havia um trono

e alguns móveis bonitos, dignos.

Foi na Quinta da Boa Vista que

grande parte do reinado de Dom Pedro

II se exerceu. Para as proporções

do Brasil daquele tempo, era um palácio.

O Monarca aumentou-o muito,

deu-lhe dignidade e esplendor.

Sedes de fazendas apalaciadas

Demetrius William Lima (CC3.0)

Quinta da Boa Vista em 2011

De outro lado, o corpo diplomático

no Rio de Janeiro foi crescendo.

Naquele tempo, a diplomacia era

um ofício dos nobres. A Europa estava

cheia de monarquias, e eram

nobres europeus que constituíam

quase sempre o corpo diplomático

no Rio. Famílias da primeira nobreza

europeia, com seus próprios palácios

de embaixadas existentes no Rio

de Janeiro, tudo isso dava muito brilho

à Corte.

Ademais, o plantio de café foi se

desenvolvendo muito no Rio de Janeiro.

Mais tarde, da cana-de-açúcar

também. As antigas famílias, que

desde o começo do povoamento do

Estado do Rio moravam lá, eram

as fundadoras da zona e se tornaram

muito ricas por causa da grande

plantação e exportação realizada,

precisamente por causa da ótima

marinha mercante que o Brasil

possuía, dotada de navios fabricados

com esplêndida madeira brasileira

e constituindo a segunda frota

do mundo, como contei na conferência

anterior 1 . Exportávamos para

o mundo inteiro! Mas exportar significa

entrar dinheiro. Com o dinheiro

que entrava, essas famílias ricas do

Estado do Rio, do Sul de Minas, do

Norte de São Paulo formavam uma

só rede. Mandavam vir móveis muito

custosos da Europa, tecidos finos para

revestir paredes, vitrais, maçanetas

de porta, lustres muito bonitos,

enfim, tudo o que faz o encanto da

vida interna.

No próprio Estado do Rio de Janeiro

foram aparecendo sedes de fazendas

a tal ponto apalaciadas que

até figuram em álbuns especializados.

Eu conheci até duas dessas casas

apalaciadas muito interessantes e

bonitas.

Uma linda casa nos

arredores de Campos

dos Goytacazes

Uma é a que serve de abrigo de

idosos, o Asilo do Carmo, nos arredores

de Campos dos Goytacazes,

pertencente outrora a uma grande

família aristocrática de plantadores

de cana-de-açúcar. É uma casa linda!

Com a forma de luxo que o Brasil

podia e ainda pode proporcionar

Sala do Trono no Palácio da Quinta da Boa Vista

Halley Pacheco de Oliveira (CC3.0)

Walter1809 (CC3.0)

20


aos que desejarem: salões e outros

compartimentos enormes.

Mas o que tem uma beleza especial

é o fato de, nas salas nobres pelo

menos, todo o chão estar coberto,

de ponta a ponta, por tábuas largas

de árvores com madeiras bonitas abatidas,

com certeza, da floresta virgem

daquele tempo. Para um país como o

Brasil é mais bonito ter, por exemplo,

uma mesa ou um assoalho de grandes

árvores que mostram a pujança de

nossas florestas, a riqueza de nosso

território. Uma beleza própria a essas

coisas é mostrar como ainda estamos

perto do mato, de nossas origens, até

que ponto somos ancestrais de um futuro

que nos vai seguir.

Quando se olha para o passado

e se diz: “Olhe aqui o meu remoto

quinto, oitavo, décimo avô”, é bonito!

Mas sentir-se como na origem de

uma coisa que vai deitar muitas gerações,

é mais bonito ainda! Em última

análise, é mais belo ser antepassado

do que ser descendente. Daí a

beleza daquelas toras enormes de

madeira, falando da possibilidade e

a força de nosso solo e, com isso, a

possibilidade e a força da Nação.

Logo depois da proclamação da

República, houve uma crise financeira,

e com isso grande parte das famílias

rurais perdeu a fortuna da noite

para o dia. Então, tiveram que abandonar

essas casas. E não havia quem

as ocupasse.

Essa de Campos, em concreto,

foi tomada por uma obra de caridade,

creio que pela Associação de São

Vicente de Paulo, que estabeleceu lá

um limpíssimo e modelaríssimo asilo

para idosos. Impressionou-me ver os

pobres velhinhos que não têm mais

com quem estar, às vezes pelo fato

de seus descendentes terem morrido

ou, coisa mais cruel, não querem o

velho e a velha, e jogam-nos lá, porque

dão despesa, obrigam a acordar

durante a noite para tratar deles, outras

coisas assim... Então, empurram-nos

de lado.

Sentir o ambiente do Brasil

no tempo de Dom Pedro II

Olha-se então para o pátio interno

da propriedade, onde outrora

pessoas com bonitas roupas conversavam

coisas agradáveis, há um velhinho

comendo, sentado no chão.

Mais adiante, uma velhinha... Quase

não conversam, a vida está esgotada...

São os últimos e preciosos anos

da vida em que o homem, pela conformidade,

repara seus pecados e se

prepara para o Céu.

E se vê um granito não-polido, cinzento,

e não-bonito. Parecido com o

granito que se encontrava antigamente

em todas as ruas de São Paulo, antes

de haver asfalto. Agradava ver pedaços

grandes desse granito nos peitorais

das janelas e enquadramentos

das portas. Pode-se imaginar a bela

vida, ao mesmo tempo de família e de

sociedade, que ali se levava, quando

fazendeiros de outras bonitas casas

visitavam esta, e os desta iam visitar

outras. Havia festas. Percebe-se pelo

tamanho a cozinha que foi um local

de gastronomia caipira, mas opulenta.

E a gastronomia caipira tem coisas

bem boas, que também fazem parte

do charme do Brasil e não devem

ser escondidas. Os pratos meio cheirando

à África que há aqui, a meu ver

seria uma imbecilidade ocultar: cus-

Asilo do Carmo

cuz, vatapá, feijoada, pratos excelentes

com um gosto forte, uma tropicalidade

boa. Percebe-se quanto de tudo

isso se comeu por lá...

Os diretores do asilo que me levaram

a visitar as várias partes do estabelecimento

contaram-me que todos

os anos, em certa data, aparecia uma

senhora idosa, de condições modestas,

e pedia licença para visitar a casa.

Ela nunca dizia que nexo tivera com

a propriedade, mas talvez tivesse sido

dona ou filha da dona, e sentia vergonha

de contar. Como era uma pessoa

respeitável, muito direita, abriam

a casa e ela andava por onde queria.

Visitava tudo, e em alguns aposentos

ela parava e chorava. Depois saía

e, na escadaria do lado de fora da casa,

sentava-se e chorava longamente

também. Por fim, ia embora e no ano

seguinte, na mesma data, ela voltava.

Alguém me dirá: “Isso não é História

do Brasil!” Mas é inegável que

em algo isso faz sentir o ambiente do

Brasil no tempo de Dom Pedro II.

Canal ligando o Rio de

Janeiro a Campos

Há também restos desse tempo

precisamente em Campos, onde existia

um canal que Dom Pedro II mandara

fazer para ligar, em linha reta,

com a cidade do Rio de Janeiro. Na-

Divulgação (CC3.0)

21


Perspectiva pliniana da História

Caiocapelari (CC3.0)

Adilson concerva (CC3.0)

Claudio Weliton Rodrigues Lima (CC3.0)

Argenz (CC3.0)

Rio Tietê

Rio Tocantins

Rio Araguaia

Rio Paraná

quele tempo, fazer estradas

era uma dificuldade,

e uma “estrada” de água

era um luxo. Então, ia-se

e vinha-se de Campos ao

Rio nesse canal que com

o tempo deixou de ter interesse

comercial e, pela

falta de cuidado, foi se

encolhendo. Ora, o planejamento

dos rios que

desembocavam no canal

para alimentá-lo com suas

águas era uma obra

de engenharia e, tendo-

-se relaxado na manutenção

disso, só chegava

um pouquinho de água

ao Rio de Janeiro ou para

a ponta de Campos.

No Rio de Janeiro entrava

num bueiro qualquer.

Em Campos, nem percebi

onde morria o canal.

Contudo, vendo esse

canal poderíamos ter

uma ideia de Dom Pedro

II com a Imperatriz Dona

Teresa Cristina e toda a

corte chegando em vários

barcos. Que poesia tem

uma viagem como essa e

quanto a navegação por

um canal é diferente das

viagens pelas estradas de

ferro ou de rodagem!

É preciso dizer que o

Brasil sempre negligenciou

uma coisa que tem

seu encanto próprio: a navegação

fluvial. Nós aproveitamos

muito as nossas

praias. Se o fizéssemos

dentro da moral, faríamos

muito bem, pois são praias

maravilhosas. Mas não se

ressalta que o Brasil tem

várias redes fluviais enormes,

as quais percorrem o

país quase de ponta a ponta.

Enquanto na Europa,

por exemplo, a navegação

fluvial é muito aproveitada. Hoje,

na era do automóvel, do trem, do avião,

ainda se anda naqueles rios à vontade.

É a forma de transporte mais cômoda

que se possa imaginar, porque o rio trabalha

por nós e nos leva para onde quisermos.

Pelo menos metade da viagem

é feita gratuitamente pelo rio, ele nos

carrega sem gasto de combustível ou de

braços humanos.

A navegação fluvial é um tesouro

que durante algum tempo – no fim do

Império e mesmo no começo da República

– se cultivou no Brasil. Depois,

a mania das estradas de ferro e

do progresso fez decair esse costume.

A riqueza, o bom gosto

e a cultura geral do

Brasil iam subindo

Mas voltando às considerações sobre

o tempo do Império, com a elevação

geral da sociedade no Rio de Janeiro,

começaram a importar modas

muito elegantes e finas vindas principalmente

da França. O bom gosto foi

aparecendo, a cidade do Rio de Janeiro

se tornando mais bonita. Já no

tempo colonial havia lindas igrejas,

mas se foram construindo novas. Assim,

o Rio de Janeiro foi se transformando

gradualmente de maneira a

dar, no fim do Império, numa cidade

que não se compararia com as principais

cidades da Europa, mas entre cidades

europeias bem boas, de segundo

nível, o Rio ocupava confortavelmente

uma bela posição, o que representava

um progresso, uma evolução.

Foi nesse tempo que também os

estilos da Corte foram se aperfeiçoando.

Por exemplo, os deputados

e senadores, para participarem das

reuniões da Câmara e do Senado,

não iam vestidos de qualquer jeito,

mas usavam um uniforme de veludo,

com galões dourados.

Meu bisavô materno era deputado

no tempo do Império, e nós conservávamos

em casa – depois isso entrou para

outros ramos da família – um objeto

22


Victor Meireles de Lima (CC3.0)

Marc Ferrez (CC3.0)

que era um encanto: um bonequinho

que ele mandou um alfaiate do Rio

vestir de deputado, com um chapeuzinho

feito da mesma matéria com que

eram confeccionados os chapéus dos

deputados, no estilo do chapéu napoleônico,

com dois bicos e um galão dourado.

Num cabeleireiro, ele mandou

fazer uma peruca igual à que ele usava.

Já não era uma peruca branca, como

no Ancien Régime, mas castanha e com

cachos dos dois lados, como o deputado

devia usar com o chapéu bicorne.

Esse meu bisavô era muito afeiçoado

à sua mãe e, como não havia fotografia

naquele tempo, para que ela

guardasse a recordação dele vestido de

deputado, enviou-lhe o bonequinho.

Estes pequenos pormenores mostram

como o nível da vida do Rio foi

se elevando, como expressão da riqueza,

do bom gosto e da cultura geral

do País que subiam também.

Razões pelas quais

o Império caiu

Ao lado disso, o território brasileiro

foi sendo ocupado por estradas de

ferro enormes, muito razoáveis em

lugares ou itinerários onde não havia

possibilidade de navegação fluvial,

algumas atravessando precipícios.

Eram estradas que se mandavam vir

inteiras de Londres – mas inteiras! –

Trajes usados pelos deputados no Brasil Império

porque não havia metalúrgica aqui.

Então, os trilhos vinham da Inglaterra,

que era a melhor fabricante dessas

coisas naquele tempo. Faziam-se

obras de engenharia ousadas. Naquela

época eram coisas importantes que

acentuavam a ideia de progresso.

Entretanto, o Império caiu por

três razões. Em primeiro lugar, porque

a Europa inteira estava varrida

por revoluções republicanas. A República

era a forma de Revolução

mais avançada naquele tempo, pois

o comunismo era pouco frequente e

não se tinha espraiado pelo mundo.

Era, portanto, elegante ser republicano.

Ser ateu e republicano denotava

ser uma pessoa com ideias fortes.

Assim, nas Faculdades de Direito

do Brasil, principalmente em São

Paulo, Recife e Rio de Janeiro, os

professores eram quase todos republicanos,

ou então monarquistas que

queriam reformar a Monarquia, reduzindo-a

quase a um papel puramente

decorativo, deixando as portas

abertas para a República.

Ademais, os monarquistas não

tinham coragem de defender suas

convicções, enquanto os republicanos

tinham. Tudo isso fazia da República

a forma de governo do futuro.

Outro dado que concorreu para

a proclamação da República foi

o próprio feitio pessoal do Imperador.

Ele se dizia religioso, e talvez

fosse, mas não era católico praticante.

Parecia um homem de bons

costumes. Pelo menos na aparência,

levava uma vida de família modelar:

esposo respeitoso e pai excelente.

Mas tinha toda espécie de preconceitos

anticlericais, de onde nasceu

a famosa questão religiosa com

Dom Vital, da qual trataremos em

outra ocasião.

v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

30/11/1985)

Halley Pacheco de Oliveira (CC3.0)

Estrada de ferro na cidade de Petrópolis em 1885

1) Cf. Revista Dr. Plinio n. 253, p. 19-20.

23


Flávio Lourenço

C

alendário

1. São José Operário.

São Jeremias, profeta. Prenunciou

a destruição da Cidade Santa e a deportação

do povo judeu. Sofreu muitas

tribulações, por isso a Igreja o

considera como figura de Cristo padecente.

Ver página 2.

2. Santo Atanásio, bispo e Doutor

da Igreja (†373).

Santo Antonino, bispo (†1459).

Religioso dominicano, aplicou-se

à reforma da Ordem promovida

pelo Beato Raimundo de Cápua.

Foi mais tarde nomeado Arcebispo

de Florença.

3. São Filipe e São Tiago Menor,

Apóstolos.

Beato Tomás de Olera, religioso

(†1631). Capuchinho franciscano,

grande mestre espiritual falecido em

Innsbruck, Áustria. Foi beatificado

no ano 2013, em Bergamo, Itália.

4. Beato Ladislau de Gielniow,

presbítero (†1505). Religioso franciscano

falecido em Varsóvia, pregou

Santo Antonino

dos Santos – ––––––

Flávio Lourenço

São Gregório VII

com zelo a Paixão de Nosso Senhor e

compôs piedosos hinos em seu louvor.

5. III Domingo de Páscoa.

Santo Avertino, diácono (†1189).

Acompanhou São Tomás Becket no

exílio e após a morte deste santo, regressou

para Vençay, França, onde se

fez ermitão.

6. Santa Benedita, virgem (†s. VI).

Monja romana, de quem São Gregório

Magno conta que, tal como pedira

a Deus com insistência, morreu um

mês após a morte de sua venerada

amiga, Santa Gala.

7. Beato Francisco Paleári, presbítero

(†1939). Sacerdote do Instituto

Cottolengo, dedicou sua vida ao ensino

e ao cuidado dos pobres e enfermos

da Pequena Casa da Divina Providência,

em Turim, Itália.

8. São Bento II, Papa (†685). Sucessor

de Leão II, foi insigne pelo seu amor

à pobreza, humildade, afabilidade, paciência

e liberalidade nas esmolas.

9. Beato Benincasa de Montepulciano,

religioso (†1426). Religioso da

Ordem dos Servos de Maria, retirou-

-se numa gruta do Monte Amiata, Itália,

onde levou uma vida penitente.

10. São Guilherme, presbítero

(†1195). De origem inglesa, foi pároco

em Pontoise, França, destacando-

-se por sua piedade e zelo das almas.

11. São Mamerto, bispo (†c. 475).

Perante a eminência de uma calamidade,

instituiu em Vienne, França, o

tríduo solene de ladainhas e rogações

antes da festa da Ascensão do Senhor.

12. IV Domingo da Páscoa.

São Nereu e Santo Aquiles, mártires

(†s. III).

São Pancrácio, mártir (†s. IV).

Santa Rictrudes, abadessa (†c. 688).

Após a violenta morte de seu marido,

aconselhada por Santo Amando, tornou-se

religiosa e com sabedoria dirigiu

o mosteiro de Marchiennes, França.

13. Nossa Senhora de Fátima.

Santo André Huberto Fournet,

presbítero (†1834). Embora proscrito

pelas autoridades civis durante a Revolução

Francesa, continuou fortalecendo

os fiéis na Fé. Fundou, junto

com Santa Isabel Bichier des Âges, o

Instituto das Filhas da Cruz.

14. São Matias, Apóstolo.

Santa Teodora Guérin, virgem

(†1856). Religiosa da Congregação

das Irmãs da Providência, na França.

Enviada aos Estados Unidos para fundar

uma nova comunidade, enfrentou

diversas dificuldades, demonstrando

caridade com suas irmãs de hábito.

15. São Caleb ou Elesbão, rei

(†c. 535). Para desagravar os mártires

de Nagran empreendeu o combate

contra os inimigos de Cristo e, se-

24


––––––––––––––––––– * Maio * ––––

gundo a tradição, depois de ter enviado

o seu diadema régio para Jerusalém,

abraçou a vida monástica.

16. São Simão Stock, presbítero

(†1265).

Beato Miguel Wozniak, presbítero

e mártir (†1942). Deportado da Polônia

ao campo de concentração de Dachau,

Alemanha, onde sofreu cruéis

torturas antes de morrer.

17. Beato João (Ivã) Ziatyk, presbítero

e mártir (†1952). Religioso redentorista,

que em tempo de perseguição

foi enviado ao campo de concentração

de Oserlag, Rússia, onde faleceu.

18. São João I, Papa e mártir (†526).

Santo Érico IX, rei e mártir (†1161).

Enviou à Finlândia o Bispo Santo Henrique

para propagar o Evangelho. Foi

apunhalado por seus inimigos, enquanto

participava da Santa Missa.

19. V Domingo da Páscoa.

Beato Rafael Luís Rafiringa, religioso

(†1919). Religioso lassalista,

que, convertido do paganismo, manteve

a presença e a vitalidade da Igreja

em Madagascar quando todos os

sacerdotes tinham sido expulsos.

20. São Bernardino de Siena, presbítero

(†1444).

Beata Colomba de Rieti, virgem

(†1501). Nascida de família nobre em

Perúgia, Itália, fez-se religiosa da Congregação

das Irmãs da Penitência de

São Domingos e promoveu a paz entre

as facções em conflito nessa cidade.

21. São Cristóvão Magalhães,

presbítero, e companheiros, mártires

(†1927).

São Carlos Eugênio de Mazenod, bispo

(†1861). Fundador do Instituto dos

Missionários Oblatos de Maria Imaculada,

em Aix-en-Provence, França, sendo

depois eleito Bispo de Marselha.

22. Santa Rita de Cássia, religiosa

(†c. 1457).

Beato João Forest, presbítero e

mártir (†1538). Religioso franciscano,

queimado vivo no reinado de Henrique

VIII na Inglaterra, por defender

a unidade católica.

23. São Guiberto, monge (†962).

Abandonando a carreira militar,

construiu um mosteiro nas terras que

possuía em Gembloux, Bélgica, e retirou-se

ao Mosteiro de Gorze, França.

24. Nossa Senhora Auxiliadora.

Ver página 9

São Simeão Estilita, o jovem,

presbítero e eremita (†592). Durante

quarenta e cinco anos viveu sobre

uma coluna no Monte Admirável, Síria.

Escreveu vários tratados sobre a

vida ascética.

25. São Gregório VII,

Papa (†1085).

São Beda, o Venerável,

presbítero e Doutor da

Igreja (†735). Ver página 26.

Santa Maria Madalena

de Pazzi, virgem (†1607).

26. São Filipe Néri, presbítero

(†1595).

São José Chang Song-

-jib, mártir (†1839). Farmacêutico

coreano convertido

à Fé cristã. Foi preso e

morto em Seul após sofrer

cruéis tormentos.

27. Santo Agostinho de

Cantuária, bispo (†604/605).

São Gonzaga Gonza,

mártir (†1886). Servo do

rei da Uganda, traspassado

pela lança de um verdugo

quando era conduzido acorrentado

para a fogueira.

28. São Justo de Urgel,

bispo (†s. VI). Bispo de

Urgel, Espanha, que escreveu

um comentário alegó-

rico do “Cântico dos Cânticos” e tomou

parte nos concílios hispânicos.

29. Santa Úrsula Ledóchowska,

virgem (†1939). Nobre polonesa, fundadora

do Instituto das Irmãs Ursulinas

do Coração Agonizante de Jesus.

Morreu em Roma.

30. São José Marello, bispo

(†1895). Bispo de Acqui, no Piemonte,

Itália, fundador da Congregação

dos Oblatos de São José.

31. Visitação de Nossa Senhora.

Beato Nicolau Barré, presbítero

(†1686). Professor de Teologia e fundador

em toda a França das Escolas

Cristãs e da Caridade, bem como das

Irmãs Mestras do Menino Jesus.

São Filipe Néri

Flávio Lourenço

25


Hagiografia

Venerabilidade e

espírito católico

Divulgação (CC3.0)

A Santa Igreja

comunica uma nota de

venerabilidade a tudo.

O contrário disso é a

influência exercida

pela “heresia branca”

e pela superficialidade

otimista de nossos dias.

26

São Beda - Museu do Prado, Madri, Espanha

Segundo a ficha que tenho em

mãos, São Beda, o Venerável 1 ,

foi um dos sábios mais ilustres

do seu tempo. Tal era a sua santidade

que, por não poderem chamá-lo

de Santo ainda em vida, deram-lhe o

título de Venerável, que não perdeu

depois da morte.

Título atribuído às

pessoas cujo processo de

canonização está em curso

Seria interessante fazermos um

comentário não tanto considerando

o Santo, mas o seu título. Ele era

reputado como um dos homens de

maior instrução e tão virtuoso que,

não ousando os seus contemporâneos

chamá-lo de Santo – porque ninguém

pode receber este título antes

de ser canonizado pela Igreja –, chamavam-no

de Venerável. Porque Venerável

é o título atribuído pela Igre-


TRUONG-NGOC (CC3.0)

ja às pessoas cujo processo de canonização

está em curso.

A aplicação desse título

tem variado ao

longo dos séculos,

de acordo com os

lugares e a disposição

do Direito

Canônico.

Até algum tempo

atrás, se chamava

Venerável

aquele cuja causa

de canonização tinha

sido introduzida,

mas que ainda não havia

sido beatificado. A beatificação

se dava quando a Igreja,

depois de examinar a vida e as obras

de uma pessoa, concluía que ela havia

praticado em grau heroico as virtudes

teologais e cardeais. Deveria

ser ratificada por um milagre e dava

a certeza de que a pessoa estava

no Céu. E importava a autorização

para um culto local, ou no lugar onde

a pessoa tinha vivido; “local” no

sentido de circunscrito às capelas ou

oratórios de uma Ordem Religiosa a

que ela havia pertencido.

Depois, com a canonização que

dependia apenas de novos milagres,

a pessoa era elevada à honra dos altares,

apontada como exemplo e posta

como objeto de culto pela Igreja

universal. O Venerável era, portanto,

aquilo que hoje se chama o Servo

de Deus, havendo todas as razões

para supor que ele vai ser canonizado,

uma vez que o seu processo foi introduzido.

Mas, de fato, o número de

processos de canonização que encalham

em curso é muito grande.

Venerável era, portanto, uma pessoa

digna de veneração, da qual se

presumia a santidade. E eu queria

me ater a esse título de Venerável

para considerar um aspecto da Moral

católica, o qual está muito pouco

em foco hoje em dia, e que os costumes

do mundo atual tornam especialmente

ignorado e malvisto.

Manuscrito de uma das obras de São Beda:

“História Eclesiástica do Povo Inglês”

Estrasburgo, França

Perfil moral de uma

pessoa venerável

O que é propriamente uma pessoa

venerável? Diz-se que alguém

é venerável, por exemplo, quando

atingiu uma idade provecta e tem a

seriedade e a dignidade desta idade.

Assim, um homem de oitenta anos

que cumpriu sempre os seus deveres,

teve uma prole numerosa, praticou

alguma ação insigne pela Igreja ou

pelo Estado; aquela longa continuidade

na prática de uma virtude, embora

não seja uma virtude extraordinária,

incute respeito. Então, se

diz que essa pessoa é venerável,

nós a veneramos.

Podemos dizer que

é venerável um homem

que, por

exemplo, se portou

heroicamente

durante uma

guerra e foi ferido

em combate.

Um general

que ganhou muitas

batalhas é um

homem venerável. Por

quê? Porque, evidentemente,

ele praticou atos extraordinários,

incomuns, que merecem

respeito. Uma religiosa que durante

muito tempo cuidou dos leprosos,

com risco do próprio contágio, é

venerável. Porque uma longa prática

de uma abnegação num estado de vida

sumamente respeitável, como é o

religioso, enfrentando o risco de contágio,

que aumenta a abnegação de

que a religiosa deu provas, tornam-

-na venerável. Então, de todas essas

aplicações correntes da palavra “venerável”,

que não são suas aplicações

canônicas, nós traçamos o perfil moral

de uma pessoa venerável.

Venerável é uma pessoa que tem

uma profundidade de espírito maior

Túmulo de São Beda - Catedral de Durham, Inglaterra

robert scarth (CC3.0)

27


Hagiografia

do que a comum, adquirida pelo estudo,

pela experiência, pela meditação.

Possui uma têmpera, uma força

de vontade, uma constância incomum.

Mesmo em circunstâncias adversas,

com sacrifício de sua própria

existência, sua saúde, de seu próprio

conforto, de sua riqueza, ela traçou

uma linha de conduta boa e a seguiu

até o fim. Ela se faz notar por um

modo de presença que incute o respeito.

A pessoa venerável está presente,

os outros amam de ver aquela

respeitabilidade e a respeitam, têm

uma tendência natural a se inclinar,

a prestar reverência, a obsequiar; e

fazem isso como quem pratica um

ato de justiça devido.

Como vemos, a ideia de venerabilidade

tem na sua raiz o conceito de

seriedade, e como corolário a ideia

de força e de abnegação. Quem é sério,

forte e abnegado, torna-se respeitável.

Aqui está o conceito de venerabilidade.

Seriedade, força, abnegação

Há no centro de São Paulo uma

imagem que dá uma ideia bonita de

venerabilidade: a de São Bento localizada

no pórtico do mosteiro beneditino.

Tanto aquela imagem quanto

a fachada devem ser consideradas

no momento em que o sino grave

do mosteiro anuncia

seis horas da tarde,

quando, sobre a

zoeira idiota e superagitada

da cidade,

descem aqueles

sons meditativos,

compassados e nobres.

Então, temos

as torres imutáveis,

perpétuas, de um

granito em que nada

toca, que resiste

a todas as transformações

da cidade e

são sempre as mesmas;

um sino vinculado

a uma tradição

que vem do fundo

dos séculos, com

timbre grave, solene;

o pórtico bonito,

nobre, que avança

sobre a rua, e a

torre em cujo ângulo

figura um Anjo

apoiado sobre um

letreiro que diz: Ora

et labora. É o símbolo

da venerabilidade.

“Reza e trabalha”

é o lema da

Ordem de São Bento:

medita, conside-

Imagem de São Bento na fachada do

mosteiro beneditino em São Paulo

Gabriel K.

Maik Pereira (CC3.0)

Mosteiro de São Bento, São Paulo, Brasil

ra, contempla e trabalha com as suas

próprias mãos.

Na frente, a figura de São Bento: um

homem já sexagenário ou mais, com

uma grande barba, um ar de pastor,

com um cajado, olhando a cidade que

passa. É o próprio exemplo da estabilidade,

da seriedade, da profundidade

de vistas, da alma patriarcal, do espírito

varonil desses homens que não têm

prole material, mas possuem prole espiritual

infinda, e cuja figura se impõe à

veneração de todos os séculos. Esta é a

venerabilidade. Ela, como eu disse, tem

como fundo a seriedade, como prolongamento

a força e como ponto terminal

28


Ken Crosby (CC3.0)

Mosteiro de São Paulo

Mosteiro de São Pedro

R J McNaughton (CC3.0)

Mosteiros onde São Beda passou a maior parte de sua vida, em Monkwearmouth-Jarrow, Reino da Nortúmbria

a abnegação. Quem é sério, forte, abnegado,

este é respeitável.

Quando virmos alguma coisa que

não é venerável, tenhamos certeza

de que ali não está o sinal distintivo,

o espírito próprio da Igreja Católica.

Ela comunica uma nota de respeitabilidade

e de venerabilidade a tudo.

A Igreja não toca em nada sem enobrecer

aquilo em que tocou, e não há

verdadeira nobreza que não se distinga

pela nota da venerabilidade.

As nocivas influências

da “heresia branca”

e do otimismo

A sacralidade é a mais alta expressão

da venerabilidade. Isto vale

para formar o nosso espírito contra

duas espécies de influências que recebemos:

primeiro, a “heresia branca”

2 expressa em certas imagens de

Santos que olham com uma carinha

sentimental e despreocupada. Não

deveriam ser assim. As coisas santas

precisam ser veneráveis, incutir respeito.

É necessário defender Nosso

Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora,

a Santa Igreja Católica contra isto.

Em segundo lugar, contra outra

forma de influência que reputo também

muito inconveniente e nociva: essa

espécie de otimismo cândido e engraçado

de nossos dias, que não é senão

uma espécie de bobeira oficializada.

Pessoas corroídas de preocupação,

que trabalharam o dia inteiro como

mouros, de olho afiado para pegar o

que puderam, e que, entretanto, chegando

a hora do jantar, à noite, estão

todas com umas carinhas de anjinhos

inocentes e idiotas, não Anjos verdadeiros,

mas uma caricatura.

É contra essas influências que destaco

o título de São Beda, o Venerável.

Como eu gostaria de o ter conhecido,

como me atrai imaginar seu

porte que é mais de um monumento

do que de gente; quando um homem

adquire tal ar, fica parecido com uma

catedral! Então, vendo São Beda, o

Venerável, ajoelhar-me diante dele,

oscular seus pés e implorar que ele

me obtivesse de Nossa Senhora algo

Morte de São Beda

dessa venerabilidade, sem a qual não

se tem o espírito católico. v

(Extraído de conferência de

27/5/1970)

1) Presbítero e Doutor da Igreja. Passou

toda a sua vida no mosteiro de Wearmouth,

na Nortúmbria, Inglaterra.

Dedicou-se com fervor a meditar e

expor as Sagradas Escrituras (†735).

2) Expressão metafórica criada por Dr.

Plinio para designar a mentalidade

sentimental que se manifesta na piedade,

na cultura, na arte, etc. As pessoas

por ela afetadas se tornam moles,

medíocres, pouco propensas à

fortaleza, assim como a tudo que signifique

esplendor.

The Project Gutenberg (CC3.0)

29


Apóstolo do pulchrum

NASA (CC3.0)

Contemplação do

universo sideral

Deus poderia perfeitamente ter feito fogos de artifício

magníficos e incomparáveis, perto dos quais os nossos

fossem uma caipirada. Entretanto, criando os astros,

deu-nos a ideia de um espetáculo pirotécnico, com

a possibilidade de projetar no ar uma ordem que,

debaixo do ponto de vista lógico e puramente estético,

em algo é mais bonita do que a ordem que Ele fez.

Ao considerarmos o universo sideral, vemos uma

tão grande série de maravilhas que o maravilhoso

se multiplica pelo maravilhoso e ficamos

sem saber o que dizer à vista de tudo isso. Os comentários

que mais saltam aos olhos são banais e morrem

por incertos, indecisos, restando um vagido inexpressivo

e insuficiente. Aquilo que é lindo pede uma exclamação:

“Que lindo!” Mas isso todo mundo viu. E se começamos

a descrever o lindo, quebra-se a impressão do conjunto

que ele causa.

Assim sendo, vou apenas esboçar três ou quatro comentários,

dos quais um não é de caráter artístico, porém

consiste mais em uma reflexão do que num comentário:

é a analogia entre o inter-relacionamento dos corpos

celestes e a sociedade humana.

Imagem possante da sociedade orgânica

Se formos ao centro de uma grande cidade, olharmos

do alto de um prédio para baixo e virmos aquele “formi-

Dhirajphotography (CC3.0)

30


gueiro” de gente que anda de um lado para outro, nossa

primeira impressão é de desordem. As pessoas correm

com toda espécie de objetivos, entrecruzam-se e, contudo,

não se chocam umas com as outras.

Ora, a impressão que se tem ao contemplar os corpos

celestes é de que estamos num arranha-céu, olhando

muito de longe um mundo de gente andando. Tudo isso é

posto em andamento por atrações diversas. Entretanto,

nesse todo que parece um magma sem sentido nem estrutura

que lhe dê uma significação especial, vemos que

há grupos de corpos geminados, irmanados, em relação

uns com os outros, formando galáxias e estas, por sua

vez, constituindo outros conjuntos nos quais encontramos

uma imagem possante da sociedade orgânica.

A sociedade orgânica, como ela existiu nos tempos da

Civilização Cristã, era assim. A partir da prodigiosa desordem

dos indivíduos, começa a se notar a aglomeração

em famílias, em corporações, em municípios, em regiões,

em feudos. Depois, esses mesmos se reúnem em outros

grupos até dar na estrutura de cúpula que era o Sacro Império

Romano Alemão, o qual poderia ser comparado um

pouco como uma visão de conjunto da abóbada celeste.

Percebemos, assim, que, para ordenar os corpos do

firmamento, Deus usou de um sistema parecido com

aquele pelo qual Ele quis ordenar a sociedade humana,

dando-nos uma noção de como o princípio da unidade

na variedade pode ser aplicado de um modo sumamente

conveniente.

Essa unidade, considerada nos seus elementos mais fundamentais

e mínimos, dá uma impressão de desordem.

Mas à medida que vão se formando vistas arquitetônicas

desses e daqueles seres, notamos como eles constituem

conjuntos que, por sua vez, encaixam-se em conjuntos sucessivos,

dando tudo numa grande ordem total que é a beleza

e a sábia disposição de tudo quanto ali se encontra.

Ora, não podia ser ignorada por Deus a possibilidade

de, com o avanço da Ciência, o homem vir a conhecer

o cosmo com riqueza de pormenores. E essa possibilidade

ocorreria quando na Terra esse princípio acima enunciado

estivesse mais negado e mais subvertido.

Na ordem sideral há uma negação

da mentalidade revolucionária

Vemos na ordenação dos astros uma imagem impressionante

dos céus e da Terra de fato cantando a glória de

Deus, como diz o salmista (cf. Sl 18). Mas narram-na da

seguinte maneira, entre outros aspectos: a ordenação orgânica

de todo o universo, e como tudo corre bem sem

trambolhões, nem choques, sem desastres e sem catástrofes.

Por outro lado, na Terra, quando esse mesmo princípio

é negado entre os homens, tudo corre mal. De fato,

céus e Terra narram a glória de Deus porque esse princípio

ordenativo, admitido no céu, causa essa ordem magnífica;

negado aqui na Terra, dá nesse caos pavoroso. Então,

no contraste podemos ver a afirmação da glória de Deus.

NASA (CC3.0)

31


Apóstolo do pulchrum

NASA (CC3.0)

Ademais, há na ordenação sideral uma negação da

mentalidade revolucionária. Sempre me chamou a atenção

o modo pelo qual certos problemas sociais, psicológicos,

educacionais, pedagógicos são postos em nossa época.

Vemos certos especialistas discorrerem, por exemplo,

sobre o problema infantil: “Ah, o problema da criança é

gravíssimo! Se, de fato, o Estado não tomar essas e aquelas

medidas, vai acontecer tal coisa...”

Eu penso: “Meu Deus, que pedagogia é essa que vê

em cada criança exclusivamente uma bomba? É um contínuo

apagar de incêndio. Tem que extinguir mil labaredas

nesse ente, que quase se diria ser uma pequena

hiena no mundo, e é uma

criança que nasceu. Tudo

isso é assim mesmo?”

Além do problema do

menor, tem o da velhice;

depois dos salários, das

comunicações. E a ordem

nesta Terra, em vez de ser

apresentada principalmente

como algo que se liga

e anda, embora sujeita

a insucessos e catástrofes

derivadas próxima ou remotamente

da impiedade

e do pecado, pelo contrário

é vista como sendo por

natureza uma coisa sempre

em explosão, em perigo

de choque. O corolário disso

é a necessidade da inter-

venção do Estado socialista,

planejando e dirigindo

tudo, para solucionar esse

pânico contínuo provocado

por certo tipo de Ciência

ao considerar os fenômenos

humanos.

Um indivíduo dominado

por esse espírito, ao analisar

o que se passa nos astros,

diria: “Há o problema

das explosões no céu. Pensamos

que de repente haja

uma explosão e um corpo

celeste pode mover-se em

sentido contrário, ocasionando

um desastre.”

Nós olhamos encantados

para essas explosões

trágicas e lindas, sem saber

se é a apoteose de um processo que foi se formando

na aparência da desordem para dar um magnífico

fogo de artifício, ou se, pelo contrário, é um verdadeiro

desastre.

Contudo, quer as explosões-desastre, quer as explosões-apoteose,

triunfais, em que uma determinada situação

se liquida no fulgor de uma bagunça magnífica,

não há epidemias de desastres. Esses fenômenos se

contêm, se circunscrevem, têm forças contrárias que os

compensam, etc. Assim também a verdadeira sociedade

orgânica, católica, em que a impiedade e o pecado estão

contidos.

Gabriel K.

32


Crochet.david (CC3.0)

Explosões da santidade, do gênio, do talento

Por certo, mesmo em uma sociedade humana virtuosa

e ordenada há desastres, choques, e convém

atendê-los. Mas não é uma coisa que está a toda hora

caindo, sendo preciso um Estado omnipotente, omnisciente,

tomando conta de tudo, fazendo prodigiosos

institutos, babéis securitárias para tomar conta disso.

Deus nos livre dessas “camisas de força” administrativas,

dentro das quais quase não se pode respirar

nem piscar sem se deixar carimbar, estampilhar, fazer

requerimento...

Felizmente ainda não foi dada aos seres humanos a

oportunidade de tentar controlar o movimento dos astros,

porque se houvesse essa possibilidade, podem ter

certeza de que caía o dirigismo por cima disso também.

E com ele sairia besteira. Isso tudo corre por si, pois não

tem ali o pecado, o mal, nem os fatores de desordem que

conhecemos.

Donde se tira uma conclusão que a mim agrada

muito: uma sociedade humana da qual a impiedade e

o pecado estivessem expulsos poderia ser nobremente

livre, cheia de imprevistos magníficos e até, num

certo sentido, de explosões benditas, que são as explosões

da santidade, do gênio, do talento, da originalidade

adequada, que de todos os lados se manifes-

tariam. Originalidade aqui não é extravagância, mas

novidade sadia.

De outro lado, constatamos até que ponto a impiedade

e o pecado organizaram a desordem para que o mundo

pudesse chegar ao ponto em que está. Esse próprio

equilíbrio das coisas humanas, pelo qual, dentro do âmbito

da virtude, elas podem entrar em desordem, mas se

compensam e se consertam; esse equilíbrio magnífico

que se pode chamar de saúde do gênero humano, entretanto,

foi destruído por uma obra científica intencional,

com o intuito de levá-lo até onde rolou e caiu.

Se não tivesse havido uma intenção e uma execução

desse método, não teríamos chegado onde estamos em

matéria de desordem, e não estaríamos ameaçados de

descer ainda mais baixo. É esse o contraste que podemos

notar entre o universo sideral e a sociedade humana, como

ela nos aparece hoje em dia.

Os céus de Versailles cruzados

por fogos de artifício

Imaginem o grande canal de Versailles, tendo ao fundo

o castelo magnífico, o parque que se desenvolve ordenadamente

de um lado e doutro do grande canal e se

desdobra até um emolduramento de florestas, em que

33


Apóstolo do pulchrum

cada árvore é uma obra-prima de elegância, de graça,

quase como se fosse um marquês ou uma marquesa, a

ponto de se poder falar, de certo modo, das florestas como

se fossem cortes.

Sobre as águas transitam harmoniosamente as gôndolas

douradas que Luís XIV ali mandou pôr; embarcações

com magníficos veludos que ficam pairando sobre

a massa líquida e constituem como que a cauda

pomposa da gôndola, algumas delas com lanternas iluminadas.

Em algumas se ri, em outras se canta, em outras

se toca música, em quase todas se come ou se bebe

um pouco.

De repente, os céus de Versailles são cruzados por

centenas de fogos de artifício magníficos que sobem e

delineiam uma feeria de luzes e corpos celestes, lançados

pelo homem para iluminar o firmamento, conforme

o próprio homem imaginaria como o céu seria bonito.

Portanto, uma imagem do firmamento toda ela artificial,

construída pelo homem.

Se confrontarmos esse espetáculo com as figuras que

vemos formadas pelos astros na abóbada celeste, poderíamos

nos perguntar o que é mais belo. E num primeiro

momento responderíamos com ênfase que a obra saída

diretamente das mãos de Deus é incomparavelmente

mais bela. Entretanto, não se pode negar que a ordenação

artística e visível que o fogo de artifício põe, efemeramente,

nos aspectos do céu tem para a mente humana

algo de mais belo do que nos apresenta o universo

sideral.

Esses astros, dispostos na desordem como alguém

que enchesse a mão de farinha e esparramasse sobre um

tecido, não têm para a concepção humana a beleza dos

fogos de artifício, os quais formam geometrias magníficas

quando lançados nos céus de Versailles ou de qualquer

outro lugar.

Estaremos errados? Há um choque entre a obra divina

e a humana? Deus trata o homem com tanto respeito

e delicadeza, que fez todas essas maravilhas, mas deu-

-lhe a oportunidade de superar em algo aquilo que Ele

mesmo criou. É um requinte de delicadeza e de misericórdia

paterna, por onde o próprio Criador quer aparecer

ao homem debaixo de outro aspecto, para que ele O

ame mais inteira e plenamente.

Creio que, se não houvesse estrelas no céu, o homem

não teria imaginado os fogos de artifício. Deus poderia

perfeitamente ter feito fogos de artifício magníficos e incomparáveis,

perto dos quais os nossos fossem uma caipirada.

Mas não fez. Entretanto, criando os astros, deu-

-nos a ideia de um espetáculo pirotécnico, com a possibilidade

de projetar no ar uma ordem que, debaixo do ponto

de vista lógico e puramente estético, em algo é mais

bonito do que a ordem que Ele fez.

Nossa Senhora é o centro e o ápice de

todas as maravilhas do universo

Alguém poderá objetar: “Mas isso não O diminui?

Não nos dá orgulho, fazendo-nos pensar que em algo somos

mais do que Ele?”

Ora, Deus é tão poderoso e é tão autêntica a infinitude

do seu poder, que Ele fez tudo isso, mas muito mais do

que isso: criou almas capazes de pensar, imaginar e compor

algo em certo sentido melhor do que aquilo criado

por Ele. Ao fazer isso, demonstra um poder incomparavelmente

maior, com a delicadeza de quem diz: “Meu filho,

complete o desenho!”

Ao mesmo tempo, manifesta Ele essa grandeza fabulosa,

como quem afirma: “Meu filho, veja o que tu és!

És pensante e capaz de acrescentar uma nota de harmonia

a tudo isso, porque és mais parecido comigo do que

todo o universo. Essas são minhas semelhanças, tu és a

minha imagem. Meu filho, como te amei quando assim

te criei e quando aproximei as nossas naturezas, elevando

a tua ao unir ambas numa só Pessoa! Veja como tudo

isso é zero em comparação com as grandezas intelectuais,

espirituais, morais, sobrenaturais para as quais foste

criado. Quando um dia passeares por essas vastidões,

em comparação com as quais és mais pequenino do que

um micróbio, sentir-te-ás um verdadeiro rei, pois compreenderás

que por teres existido, pensado, amado, sentido

e agido conforme a Mim, teu Deus, te tornaste incomparavelmente

mais belo do que todo o universo.”

Ó Sol, ó Lua, ó universo, ó maravilha! Ó poeira... A

menor das almas que está no Céu é mais maravilhosa do

que tudo isso.

Nosso Senhor Jesus Cristo Se voltaria para Nossa Senhora

e diria: “Vós sois minha Mãe, o centro e o ápice

dessas maravilhas. Em Vós há mais beleza do que em toda

a Criação. Quem contempla o vosso olhar, contempla

todo o universo em um grau de beleza e de perfeição como

não se pode imaginar.”

Por fim, imaginemos a Santíssima Virgem, do alto do

Céu, contemplando todas essas maravilhas e pedindo

em nosso favor a graça de fazermos bem esta meditação,

e Se interessando mais em ver o movimento da graça em

nossas almas do que em conhecer o universo. Para Ela,

cada um de nós vale muito mais do que essas imensidões

que nos deslumbram. Com isso compreendemos quanto

valemos, quanto Deus e Nossa Senhora nos amam, e

que possibilidades magníficas, como também responsabilidades,

há diante de nós. Assim, estaria feita uma reflexão,

entre mil outras que a contemplação do universo

sideral nos sugere.

v

(Extraído de conferência de 25/2/1977)

34


35

Gabriel K.


A mais fulgurante

de todas as estrelas

Flávio Lourenço

Detalhe de um vitral

em Notre-Dame de

Dijon, França

Nossa Senhora é chamada, muito a propósito, de Estrela Luminosíssima. Incontáveis

astros reluzem no firmamento, porém Ela é o mais resplandecente de todos, ou seja,

Maria é a mais luminosa das criaturas. E por que é simbolizada pela estrela? Porque

é durante a noite que cintilam as estrelas, e esta vida é para o católico uma noite, um vale

de lágrimas, uma época de provação, de perigo e de apreensões. Na eternidade teremos o dia,

porém na vida terrena temos o escuro da madrugada. E nesta noite existe uma estrela que nos

guia, que é a consolação de quem caminha nas trevas, olhando para o céu: Maria Santíssima,

a mais fulgurante de todas as estrelas!

(Extraído de conferência de 24/8/1965)

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