Revista Dr Plinio 255
Junho de 2019
Junho de 2019
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Publicação Mensal Vol. XXII - Nº <strong>255</strong> Junho de 2019<br />
Filho da Santa<br />
Igreja Católica<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 1 24/05/2019 09:42
Angelo L.<br />
Modelo do<br />
perfeito<br />
devoto de<br />
Maria<br />
ão São João Batista é uma alma tão<br />
ardentemente mariana que, ainda no<br />
Sseio materno, prestou a Nossa ra um ato de devoção intensíssimo. Ele é o<br />
Senhoapóstolo,<br />
o discípulo fiel, o devoto perfeito<br />
da Santíssima Virgem, que ouve sua voz, nela<br />
discerne os primeiros ecos da voz do Cordeiro<br />
de Deus que ele devia anunciar e estremece<br />
inteiramente de gáudio.<br />
Devemos, portanto, venerar em São João<br />
Batista o modelo do verdadeiro e perfeito<br />
devoto de Nossa Senhora, pedindo-lhe que<br />
faça de nós perfeitos devotos d’Ela e tenhamos<br />
um ouvido interior por onde, quando<br />
ouvirmos a voz de Maria Santíssima, estremeçamos<br />
de gáudio também, de maneira a<br />
nunca um pedido d’Ela nos encontrar de má<br />
vontade, tristes, aborrecidos, com desejo de<br />
não atendê-La. Pelo contrário, sua voz nos<br />
faça estremecer de alegria até quando diga<br />
uma palavra austera de renúncia, de sacrifício<br />
e sofrimento.<br />
(Extraído de conferência de 24/6/1964)<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 2 24/05/2019 09:42
Sumário<br />
Publicação Mensal Vol. XXII - Nº <strong>255</strong> Junho de 2019<br />
Vol. XXII - Nº <strong>255</strong> Junho de 2019<br />
Filho da Santa<br />
Igreja Católica<br />
Na capa, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
no ano de 1984.<br />
Foto: Arquivo <strong>Revista</strong><br />
As matérias extraídas<br />
de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
— designadas por “conferências” —<br />
são adaptadas para a linguagem<br />
escrita, sem revisão do autor<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />
propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />
ISSN - 2595-1599<br />
CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />
INSC. - 115.227.674.110<br />
Diretor:<br />
Roberto Kasuo Takayanagi<br />
EDITORIAL<br />
4 Quando as portas do<br />
Céu se abriram...<br />
PIEDADE PLINIANA<br />
5 Comunhão espiritual<br />
DONA LUCILIA<br />
6 O unum de Dona Lucilia<br />
Conselho Consultivo:<br />
Antonio Rodrigues Ferreira<br />
Carlos Augusto G. Picanço<br />
Jorge Eduardo G. Koury<br />
Redação e Administração:<br />
Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27<br />
02404-060 S. Paulo - SP<br />
E-mail: editoraretornarei@gmail.com<br />
Impressão e acabamento:<br />
Northgraph Gráfica e Editora Ltda.<br />
Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423<br />
02911-000 - São Paulo - SP<br />
Tel: (11) 3932-1955<br />
SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS<br />
10 A recusa ao chamado divino e<br />
a necessidade da reparação<br />
REFLEXÕES TEOLÓGICAS<br />
16 O Espírito Consolador<br />
CALENDÁRIO DOS SANTOS<br />
20 Santos de Junho<br />
HAGIOGRAFIA<br />
22 Execração até o último limite<br />
Preços da<br />
assinatura anual<br />
Comum . . . . . . . . . . . . . . R$ 200,00<br />
Colaborador . . . . . . . . . . R$ 300,00<br />
Propulsor . . . . . . . . . . . . . R$ 500,00<br />
Grande Propulsor . . . . . . R$ 700,00<br />
Exemplar avulso . . . . . . . R$ 18,00<br />
Serviço de Atendimento<br />
ao Assinante<br />
editoraretornarei@gmail.com<br />
PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />
24 Considerações sobre o<br />
Brasil Império - IV<br />
LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />
31 Cerimônia de investidura<br />
do cavaleiro medieval<br />
ÚLTIMA PÁGINA<br />
36 Transbordante de dons celestiais<br />
3<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 3 24/05/2019 09:42
Editorial<br />
Quando as portas do<br />
Céu se abriram...<br />
Certa ocasião, refletindo a respeito das penas do Inferno, passou-me pela mente a ideia, transformada<br />
desde logo em convicção, de que ao ser condenada, a alma é expulsa da Igreja Católica<br />
Apostólica Romana. Apesar de ter pensado em todos os horrores do Inferno, nenhum deles<br />
amedrontou-me tanto quanto a hipótese de ser expulso da Igreja Católica. Pareceu-me, naquele<br />
momento, que sofrer tudo aquilo, mas continuar na Igreja era muito menos dolorido do que não sofrer<br />
nada estando, porém, fora dela. Por aí se pode medir bem o quanto Nossa Senhora me ajuda a<br />
prezar a graça inestimável de ser filho da Santa Igreja Católica.<br />
Por minha natureza, sou uma pessoa tranquila e equilibrada. Entretanto, creio que se eu não fosse<br />
católico, teria ficado louco, pelo próprio fato de ser calmo, tranquilo, lúcido e ter podido avaliar,<br />
portanto, até que extremo vai a miséria de quem não encontra para os enigmas da vida uma explicação<br />
como a que é dada a quem pertence à Igreja Católica. É só olhar pelos prismas da Santa Igreja<br />
esses incontáveis problemas entrelaçados, terríveis, de recíprocas interações dilacerantes, que tudo<br />
se explica. Tudo reluz de verum, bonum e pulchrum, têm-se ânimo e coragem para tudo. E, ao expirar,<br />
morre-se tranquilo, mesmo no seio dos mais terríveis fracassos terrenos, porque se sabe que a<br />
Terra é efêmera, a eternidade é que fica.<br />
Considerem todos os deleites e graus de felicidade de que uma alma é capaz no mundo, tudo isso é<br />
nada em comparação com a felicidade do menor dos católicos membros da Igreja Gloriosa, e que celebra<br />
a sua vitória eterna no Céu. Tudo quanto o homem pode ter de alegria, beleza, bem-estar, grandeza,<br />
em graus diversos, os bem-aventurados possuem numa plenitude incomparável, porque cada<br />
um está em contato direto com Deus.<br />
Sem dúvida, o Céu Empíreo dará aos seus corpos uma felicidade que completará a que gozam na<br />
alma, mas nada é igual à seguinte felicidade: “Eu sou membro da Igreja, filho de Deus, em mim está<br />
uma participação da natureza divina, e por toda a eternidade serei um príncipe neste Céu, onde os<br />
menores são príncipes.”<br />
Meu desejo é que todos os que recebemos a graça inefável do Batismo vamos para o Céu, onde<br />
nos lembraremos do nosso Batismo com amor indizível. Chego a pensar se Deus, depois de ter incendiado<br />
todo o orbe, conservará alguns objetos especialmente relacionados à salvação dos bem-aventurados,<br />
e se em algum lugar serão guardadas as pias batismais que os desastres dos acontecimentos<br />
humanos não tenham destruído. De maneira que, por exemplo, seja-me dado, de vez em quando,<br />
descer à Terra e visitar a pia batismal da Igreja de Santa Cecília, junto à qual o caminho do Céu<br />
se abriu para mim.<br />
Nessa ocasião, cada um de nós será um ente glorioso, com corpo e alma, pois teremos ressuscitado,<br />
e iremos – com que alegria e suavidade de alma! – oscular a pia batismal e louvar aquele momento<br />
bendito em que o padre disse: “Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”; e as<br />
portas do Céu se abriram, o sol de Deus entrou e, por assim dizer, a eternidade começou.*<br />
* Excertos da conferência de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 7/6/1991, por ocasião do 82º aniversário de seu Batismo.<br />
DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />
4<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 4 24/05/2019 09:42
PIEDADE PLINIANA<br />
Comunhão<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
espiritual<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Ó<br />
Santíssima Mãe de Deus, no momento em que me preparo para a comunhão espiritual,<br />
imploro vosso auxílio. Tenho em mente, de modo especial, o período santo e<br />
glorioso em que Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em vosso claustro virginal, estava<br />
convosco, noite e dia. E Vos peço que, pelos méritos de tal fase de vossa vida, me obte-<br />
nhais um desejo ardente de receber, em meu pobre coração, o Santíssimo Sacramento.<br />
Também tenho em mente, ó Mãe Santíssima, a vossa Primeira Comunhão, quando da celebração<br />
da primeira Missa no Cenáculo. Com que atos inefáveis de adoração, ação de graças,<br />
reparação e de petição recebestes então em vosso peito o Santíssimo Sacramento! E<br />
pondero com enlevo que, segundo é licito crer, daí por diante a presença eucarística se conservou<br />
em Vós ininterruptamente até o último instante de vossa vida terrena. Quantos atos<br />
de piedade perfeitíssimos fizestes então a vosso Divino Filho, ó Mãe!<br />
Creio com toda a alma na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia.<br />
E me recordo, neste momento, das numerosas Comunhões que tive a honra e o gáudio<br />
espiritual de receber ao longo de minha vida. Recordo-as com amor, gratidão e sauda-<br />
de, pois, para atender aos meus deveres de<br />
estado, estou privado dessa graça inefável,<br />
nas circunstâncias em que ora me encontro.<br />
A ideia de que, neste instante, eu poderia estar<br />
recebendo Nosso Senhor Jesus Cristo re-<br />
almente presente na Sagrada Eucaristia me<br />
transporta de amor.<br />
Não podendo comungar sacramentalmente<br />
neste momento, apresento-me, entretanto,<br />
a Ele na qualidade de escravo de<br />
amor. Faço-o por vosso intermédio, ó Santíssima<br />
Mãe de Deus e minha, e peço que<br />
me obtenhais um ardente desejo de receber<br />
a Comunhão sacramental agora mesmo, se<br />
tal fosse possível. E assim espero que esta<br />
comunhão espiritual seja bem acolhida pelo<br />
meu Divino Salvador.<br />
Pelos rogos de Maria, os quais jamais deixais<br />
de atender, eu Vos peço, ó Senhor, que<br />
me obtenhais todas as graças necessárias<br />
para a minha pronta santificação. Amém.<br />
Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento,<br />
rogai por nós.<br />
Nossa Senhora do Santíssimo<br />
Sacramento - Minas Gerais, Brasil<br />
(Composta em 22/8/1985)<br />
5<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 5 24/05/2019 09:42
DONA LUCILIA<br />
Bonhams (CC3.0)<br />
O unum de<br />
Dona Lucilia<br />
Quando, nesta Terra, duas almas chegam a se conhecer<br />
a fundo, uma sabe discernir o unum da outra. Esse<br />
conhecimento é simples, abarcativo, completo.<br />
Entretanto, pode haver épocas na vida espiritual em que<br />
essa visão se apaga um tanto e a pessoa já não discerne<br />
o unum com tanta clareza. Foi o que se passou com <strong>Dr</strong>.<br />
<strong>Plinio</strong>, em sua juventude, com relação a Da. Lucilia.<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
6<br />
A<br />
o conviver com uma pessoa<br />
cuja alma esteja tocada de<br />
modo particular pela graça,<br />
sinto dar-se entre ela e mim algo do<br />
que se passava de mim para com mamãe.<br />
Percebo que essa pessoa não<br />
me vê aos pedaços, como se considerasse<br />
separadamente as peças de um<br />
mosaico. Mas, pelo contrário, é como<br />
quando se está diante de um mosaico<br />
bem feito, no qual se vê primeiro<br />
a figura e depois se nota que é um<br />
mosaico.<br />
A visão de conjunto<br />
e os pormenores<br />
Observa-se muito isso em mosaicos<br />
italianos, sobretudo na Basílica<br />
de São Pedro, no Vaticano. Mosaicos<br />
tão bem feitos que, ao olhá-los, sentimos<br />
certa estranheza, porque vemos<br />
não se tratarem de quadros pintados<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 6 24/05/2019 09:42
O que há nesse olhar de unum<br />
a unum? ? De si, o espírito humano<br />
reconhece a suma necessidade<br />
dos sentidos. Quando<br />
estivermos no Céu, conheceremos<br />
muitas coisas<br />
sem esta necessidade.<br />
Tanto isso é sim que nossas al-<br />
asconhecer-se<br />
a fundo,<br />
de fato elas se olham<br />
assim. Isso torna meio<br />
indescritível o contato de<br />
uma pessoa com outra, porque<br />
está no terreno da almas,<br />
embora separadas<br />
dos corpos<br />
no Céu até a ressurreição,<br />
vão conhecer<br />
muitas coisas.<br />
Esse conhecimento<br />
é simples,<br />
uno, abarcativo,<br />
completo. E quando,<br />
nesta Terra, duas<br />
almas chegam a<br />
ma, não do corpo.<br />
No Paraíso terrestre, vavelmente, o conhecimen-<br />
proto<br />
deveria ser assim. Para<br />
Adão dar o nome a cada<br />
animal, é porque ele conhecia<br />
o todo e a própria natureza,<br />
o unum do bicho. E o<br />
nome dado por ele não era<br />
uma qualificação científica,<br />
mas o por onde aquele<br />
animal é a semelhança de<br />
Deus. Ali estava o unum<br />
dominante que Adão via e<br />
dava àquela criatura o nome<br />
da perfeição de Deus<br />
que ela espelha.<br />
Enxergar ou sentir a<br />
possível perfeição das<br />
coisas que ainda não a<br />
atingiram, criar um ambiente<br />
onde todas essas<br />
perfeições em gérmen se<br />
anunciam em pontilhado<br />
como se já fossem árvores,<br />
e ver a floresta futusobre<br />
tela, mas não sabemos qual é a<br />
matéria, pois não percebemos a divisão<br />
entre as várias pedrinhas. Dir-se-<br />
-ia ser algo à maneira do quadro de<br />
Nossa Senhora de Las Lajas, na Colômbia,<br />
em que a própria pedra tem a<br />
cor da figura. Depois, fixando a vista<br />
com atenção, começa-se a perceber o<br />
quadriculado do mosaico. Mas antes<br />
disso não se percebia.<br />
Assim também, quando a pessoa<br />
está muito tocada por uma graça,<br />
tratando comigo, percebe aquilo<br />
que possa haver em mim do espírito<br />
da Santa Igreja. E embora considere<br />
depois este ou aquele aspecto unitariamente,<br />
o que fica, antes de tudo, é<br />
a visão de conjunto.<br />
Ora, também foi exatamente o que<br />
houve de mamãe comigo. Eu percebi<br />
nela, antes de tudo, o conjunto. Com<br />
o curso do tempo, vendo uma qualidade<br />
ou outra sobressair, eu dizia:<br />
“Olha que bonita qualidade!”<br />
No Quadrinho, por exemplo, não<br />
há uma coisa que chama a atenção à<br />
primeira vista. Ela não tem traço fisionômico<br />
notável, maior ou mais<br />
correto do que outro, qualquer coisa<br />
assim. Os traços fisionômicos são de<br />
uma senhora muito idosa, com os cabelos<br />
brancos. Mas há algo que vem<br />
antes de tudo e diz: É ela! O Quadrinho<br />
dá muito isso, que se exprime<br />
mais pelo olhar e depois vêm outros<br />
pormenores.<br />
O unum de cada ser<br />
Vejo isso no episódio do moço rico<br />
do Evangelho, quando ele disse<br />
a Nosso Senhor Jesus Cristo que tinha<br />
cumprido os Mandamentos a vida<br />
inteira, e perguntava o que poderia<br />
ainda fazer. Nosso Senhor, tendo-o<br />
olhado, o amou (cf. Mc 10, 21).<br />
Ou seja, não bastava que o moço fosse<br />
bom; mas quando Nosso Senhor<br />
olhou-o e, com certeza analisou-o<br />
unitariamente, o amou, pois aquela<br />
bondade apareceu nele. Trata-se,<br />
portanto, de pegar o unum da pessoa<br />
e querê-lo.<br />
Mosaico de São Marcos - Basílica<br />
de São Pedro, Vaticano<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Gabriel K.<br />
7<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 7 24/05/2019 09:42
DONA LUCILIA<br />
ra na germinação presente é um dos<br />
gáudios do convívio. Esta é propriamente<br />
uma ajuda que Nossa Senhora<br />
dá para a primavera e o rão da vida espiritual.<br />
ve-<br />
Entretanto, como no Paraíso,<br />
também esse estado de ma pode passar por tenta-<br />
alções.<br />
E às vezes inteiramente<br />
sem culpa, como Adão<br />
não tinha culpa de ser tentado.<br />
A tentação bateu na<br />
porta de Adão e Eva quando<br />
eles não tinham pecado;<br />
eles consentiram na<br />
tentação e aí pecaram.<br />
Mas faz parte do desígnio<br />
de Deus que cada ser inteligente<br />
seja provado.<br />
Então, pode haver épocas<br />
da vida espiritual em que essa<br />
visão se apaga um tanto e a soa já não discerne esse unum, e<br />
começa a ver os pedaços do pes-<br />
mosaico.<br />
Queda dos mitos<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Dou um exemplo. Há um to que aparece na história de muitas<br />
defei-<br />
adolescências, do qual o jovem nem<br />
sempre tem uma ideia clara, e que<br />
consiste no seguinte:<br />
A criança sente o peso da vida<br />
que vem. Eu, por exemplo, percebia<br />
ser duríssima, pesadíssima a vida<br />
que vinha. Para levar a cabo a vida<br />
como ela tem que ser conduzida é<br />
uma batalha! Não é subir uma montanha,<br />
mas carregá-la nas costas!<br />
Em contraste com isso, eu via a vida<br />
calma, ainda meio à Belle Époque 1 ,<br />
bem ordenada, tranquila e próspera<br />
das pessoas mais velhas da família,<br />
que funcionavam como relógios.<br />
Tudo lhes dava certo, acontecia como<br />
queriam e andavam com umas<br />
caras contentes, satisfeitas, sentavam-se<br />
e conversavam, contavam fatos<br />
nos quais tudo tinha corrido normalmente<br />
e até belamente para eles,<br />
davam risada.<br />
Eu sentia entre eles e mim um<br />
contraste que incluía mamãe. Eu<br />
<strong>Plinio</strong> na Praia do José<br />
Menino, em Santos<br />
a via em geral adoentada, mas não<br />
eram doenças graves, e sim achaques,<br />
incômodos que ela tomava<br />
com tanta bondade, tanta dignidade,<br />
tanta doçura e tanto bem-estar interior…<br />
Usavam naquele tempo um<br />
móvel chamado chaise longue, o nome<br />
já diz, uma cadeira longa, espécie<br />
de sofá, para as pessoas se inclinarem<br />
durante o dia.<br />
Nos aposentos dela, como mais<br />
ou menos em cada sala, havia uma<br />
chaise longue. Quando estava indisposta,<br />
vestia um chambre e reclinava-se<br />
ali, com a cabeça apoiada sobre<br />
uma das mãos. As dobras do<br />
chambre formavam algo à maneira<br />
das ondas do mar, em ordem, e ela<br />
recostada, na penumbra, olhava para<br />
um ponto indefinido com aquele<br />
seu olhar tão luminoso, sereno, firme,<br />
sem excitação.<br />
Por não diferenciar muito as coisas,<br />
para mim ela estava incorporada<br />
no mundo dos securitários, en-<br />
quanto eu me sentia, por oposição,<br />
pequenininho, fraco, desarvorado<br />
diante de uma tempestade, exposto<br />
a todas as incertezas, e os mais<br />
velhos cobrando de mim, com<br />
a melhor das intenções, um<br />
sorriso que não convinha ao<br />
meu estado de alma, do-me:<br />
dizenzas,<br />
tenho medos! E não<br />
quero entregar os pontos.<br />
— Então, vem cá. Como<br />
vai este menino? Divertindo-se,<br />
hein! Do que<br />
você está brincando?<br />
Eu tinha vontade de dizer:<br />
— Brincando não, estou<br />
pensando! Eu tenho<br />
problemas, tenho fraque-<br />
Isso vinha acompanhado<br />
com uma sensação de que, jogando<br />
dentro daquele mundo aparentemente<br />
tão estável uma certa insegurança,<br />
tinha-se um companheiro<br />
de infortúnio. De outro lado, também<br />
a impressão de que aquilo era menos<br />
sólido do que parecia, e que se estabelecêssemos<br />
ali um caos, rompia-se o<br />
mito. Então começava uma espécie de<br />
contestação, respostas atravessadas e<br />
atitudes assim, em que o prestígio dos<br />
mais velhos passava durante algum<br />
tempo por uma espécie de abalo.<br />
Com o meu gosto de analisar as<br />
pessoas, passei por essa fase muito<br />
agudamente, com uma espécie de<br />
quedas dos mitos onde havia uma<br />
forma de prazer dolorido por verificar<br />
que isso, aquilo e aquilo outro<br />
era mito.<br />
Vanglória de um tio<br />
Percebi isso, em certa ocasião, andando<br />
de automóvel com um tio e<br />
um primo pelas ruas de Santos. Meu<br />
tio voltava-se para seu filho e para<br />
mim e perguntava:<br />
— Como se chama esta rua em<br />
que estamos passando?<br />
Eu não tinha a menor ideia. Santos<br />
para mim era a orla dos hotéis,<br />
8<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 8 24/05/2019 09:42
dos restaurantes e do mar… Aquelas<br />
ruas dentro da cidade, para mim, como<br />
que não existiam. Então respondia<br />
com toda a inocência:<br />
— Não sei.<br />
E o meu primo dava a mesma resposta.<br />
Ao que meu tio concluía:<br />
— Estão vendo? Vocês andam<br />
pelas ruas sem saber os nomes delas.<br />
Agora, se quebrar o automóvel<br />
e vocês tiverem que ir para casa,<br />
não sabem onde estão. Um homem,<br />
como deve ser, conhece o nome<br />
das ruas.<br />
Pensei: “Para caber isso na minha<br />
cabeça, tenho que tirar outras coisas<br />
mais importantes. Este senhor<br />
nutre o espírito dele com essas noções?<br />
Sei perfeitamente como fazer<br />
se o automóvel quebrar. Eu desço e<br />
peço para qualquer um: ‘Estou hospedado<br />
no Parque Balneário, junto à<br />
praia. Quer me dizer como se vai até<br />
lá?’ Ele me diz: ‘Pega o bonde vinte,<br />
quinze ou zero...’ Tomo o bonde<br />
e pronto. Ou, então, se tiver um pouco<br />
de dinheiro na carteira, chamo<br />
um táxi e digo: ‘Toque para o Parque<br />
Balneário!’”<br />
Em certo momento percebi que<br />
ele nunca perguntava sem ter chegado<br />
ao fim do quarteirão, onde olhava<br />
na placa e, um pouco adiante, interrogava.<br />
Logo, ele também não sabia,<br />
e aquilo era só para vangloriar-se.<br />
Eu não disse para o filho dele, mas<br />
fiquei vendo… Este ficou fichado!<br />
Bondade, mansidão, respeito<br />
A essa tendência de chacoalhar os<br />
mais velhos e dizer coisas que os tornassem<br />
inseguros, infelizmente eu<br />
cedi, caindo no hábito de fazer isso<br />
com mamãe, coitada, que não merecia<br />
nem um pouco.<br />
Um dia em que Dona Lucilia estava<br />
se preparando para almoçar,<br />
entrei no seu quarto e, enquanto ela<br />
se arranjava diante da mesa de toilette,<br />
comecei a dizer coisas. Notei que<br />
ela ficava muito aflita, dolorida e insegura.<br />
Nada do que eu falava era<br />
um desaforo, nem uma impertinência,<br />
mas eram coisas que a abalavam.<br />
Ela me dava umas respostas logicamente<br />
insuficientes, e eu metia o dedo<br />
na falta de lógica, deixando-a ainda<br />
mais aflita. Em certo momento<br />
me veio uma ideia: “Por que estou<br />
fazendo isso? Olha como ela está<br />
respondendo a tudo quanto estou dizendo<br />
com bondade, mansidão, respeito.<br />
Com que carinho ela me responde!<br />
A aflição dela é por mim e<br />
não por ela. Por que estou fazendo<br />
esta estupidez?!”<br />
Parei no mesmo instante e comecei<br />
a agradá-la. Adquiri uma noção<br />
tão lúcida de quem era mamãe, que<br />
nunca mais em minha vida, até ela<br />
morrer, fiz qualquer coisa de parecido.<br />
Pelo contrário, fiz constantemente<br />
o oposto o tempo inteiro. De maneira<br />
a carregá-la, a bem dizer, daquele<br />
momento de fugaz dissabor<br />
até a sepultura, das rosas que meu<br />
carinho levado ao último ponto pudesse<br />
dar para ela.<br />
❖<br />
(Extraído de conferência de<br />
14/7/1980)<br />
1) Do francês: Bela Época. Período entre<br />
1871 e 1914, durante o qual a Europa<br />
experimentou profundas transformações<br />
culturais, dentro de um clima<br />
de alegria e brilho social. Ver <strong>Revista</strong><br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> n. 172, p. 29-31.<br />
Porto de Santos, em 1922, visto do Morro do Pacheco<br />
Mike Peel (CC2.0)<br />
9<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 9 24/05/2019 09:42
SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS<br />
A recusa ao<br />
chamado divino<br />
e a necessidade<br />
da reparação<br />
A. Chave<br />
Se Luís XIV tivesse sido fiel à Mensagem<br />
do Sagrado Coração de Jesus, a França<br />
inteira se converteria . Mas o rei não a<br />
levou a sério. Nosso Senhor esperava<br />
que as diversas classes sociais fossem<br />
deixando filtrar, de umas para as outras, a<br />
Mensagem, e todos os corações batessem<br />
em uníssono com a de um rei fiel ao<br />
Coração de Jesus. O supremo esforço desse<br />
apelo divino foi despertar um movimento<br />
de reparação: a Contra-Revolução<br />
Europicture.de (CC3.0)<br />
A<br />
atitude do Sagrado Coração<br />
de Jesus com Luís XIV<br />
foi de misericórdia, mas ao<br />
mesmo tempo de inteiro respeito –<br />
o Coração de Jesus podia chamar-<br />
-Se “Coração infinitamente respeitoso<br />
de Jesus” – em relação à organização<br />
político-social vigente.<br />
Era bem claro que Ele queria con-<br />
siderar o rei de maneira tal, que não<br />
fez nenhuma alusão direta à má vida,<br />
nem aos pecados pessoais do mo-<br />
narca, mas chamou de “filho dileto<br />
do meu Coração” um pecador que O<br />
tinha insultado publicamente de diversas<br />
maneiras. Basta mencionar a<br />
destruição do Calvário edificado por<br />
São Luís Maria Grignion de Montfort,<br />
mas há muitas outras coisas a<br />
mencionar para se compreender bem<br />
quanto Luís XIV errou, ao lado de algumas<br />
coisas magnificamente acertadas<br />
que ele fez como, por exemplo, a<br />
revogação do Edito de Nantes.<br />
10<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 10 24/05/2019 09:42
Consequências da infidelidade<br />
na correspondência ao<br />
chamado divino<br />
Acaba sendo, portanto, que o Sagrado<br />
Coração de Jesus tratou Luís<br />
XIV com muito afeto, porque quis fazer<br />
dele a primeira concha de repercussão<br />
de seu apoio, pois o recado<br />
d’Ele a Santa Margarida Maria Alacoque,<br />
que se dirige ao mundo inteiro,<br />
deveria ser comunicado antes de<br />
tudo ao rei. E, pela repercussão que<br />
encontrasse nele, ter uma dilatação<br />
por todo o bem-amado Reino da<br />
França, filha primogênita da Igreja.<br />
Na sua comunicação, fica bem<br />
claro que Nosso Senhor esperava<br />
que as diversas classes sociais fossem<br />
deixando filtrar, de umas para as outras,<br />
a Mensagem, e que, afinal de<br />
contas, esta se espraiasse pelo reino<br />
inteiro, com a aceitação da missão<br />
das classes mais altas de baterem os<br />
corações em uníssono com a de um<br />
rei fiel ao Coração de Jesus.<br />
Isto me parece muito importante<br />
inclusive do ponto de vista contrarrevolucionário,<br />
pois se Luís XIV tivesse<br />
feito assim e a França inteira<br />
se convertido ao som da voz do monarca<br />
amado pelo Sagrado Coração,<br />
creio que a Revolução Francesa teria<br />
ficado impensável. Notem bem:<br />
não é dizer que ela se tornaria impossível,<br />
mas ficaria impensável.<br />
Porque com o prestígio que tinha<br />
a realeza naquele tempo, mas também<br />
o prestígio individual colossal<br />
que Luís XIV, o Rei Sol, possuía na<br />
Europa inteira, tudo isso junto faria<br />
com que o modo de se embeber essa<br />
devoção na nobreza e depois no povo<br />
seria de um efeito extraordinário.<br />
Por conseguinte, se a torneira da<br />
Revolução não tivesse sido aberta<br />
sobre a França, não teria podido alcançar<br />
o mundo inteiro como alcançou.<br />
O prestígio da França concorreu<br />
enormemente para que a Revolução<br />
se tornasse universal. Então,<br />
fica um homem colocado na posição<br />
por onde depende dele tudo,<br />
dar-se ou voltar atrás. No<br />
que diz respeito à ati-<br />
tude reparadora de nossa espiritualidade,<br />
do Sagrado Coração de Jesus<br />
como devoção inspiradora de pensamentos<br />
e atitudes contrarrevolucionárias,<br />
isto vem muito a propósito.<br />
Estado de espírito<br />
difundido pelo mal<br />
Por que o Sagrado Coração de Jesus<br />
estava de tal maneira pisado?<br />
Ademais, em um período a respeito<br />
do qual São Luís Grignion chegou a<br />
afirmar que a impiedade estava inundando<br />
a Terra inteira. Como se explica<br />
que analisemos a situação do mundo<br />
no Ancien Régime quase com uma<br />
nostalgia daquilo que nós não conhecemos,<br />
e esta mesma situação até anteriormente<br />
ao fim do Ancien Régime<br />
– portanto, quando ela estava menos<br />
grave do que se tornou nas vésperas a<br />
Revolução Francesa – foi, entretanto,<br />
qualificada por São Luís Maria Grignion<br />
e tantos outros santos, e a fortiori<br />
pelo Sagrado Coração de Jesus, de<br />
uma situação gravíssima?<br />
Houve a difusão de um estado de<br />
espírito pelo qual, quando alguém denuncia<br />
o avanço do demônio, uma ou<br />
outra voz, em surdina, diz palavras de<br />
adiamento, de dúvida, de laissez faire,<br />
laissez passer 1 . Entrevê-se que Luís<br />
XIV e as pessoas de seu tempo que<br />
O assalto ao Palácio<br />
das Tulherias em 10 de<br />
agosto de 1792 - Palácio<br />
de Versailles, França<br />
L’Histoire par l’image (CC3.0)<br />
Luís XIV - Palácio de<br />
Versailles, França<br />
11<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 11 24/05/2019 09:42
SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS<br />
fatima.pt<br />
receberam a Mensagem do Sagrado<br />
Coração de Jesus participavam de um<br />
estado de espírito que lhes sugeria<br />
ideias mais ou menos assim: “Temos<br />
o Rei Sol e todo o princípio monárquico<br />
que brilha com o seu resplendor<br />
máximo; neste momento falar da<br />
possibilidade de uma Revolução que<br />
vai chegar à decapitação dos reis, a<br />
um virtual destronamento das dinastias,<br />
é um absurdo. Nosso Senhor disse<br />
isso à Sóror Margarida Maria, mas<br />
na superior sabedoria d’Ele, da qual<br />
eu sou partícipe – porque a vaidade<br />
não pode deixar de entrar nessas ocasiões<br />
–, percebo pelo meu feeling e<br />
pela sensação normal das coisas que<br />
isso vai demorar.”<br />
fatima.pt<br />
Transladação dos restos<br />
mortais de Jacinta Marto,<br />
em 12/9/1935<br />
Donde a ideia de que essa Mensagem<br />
não poderia ser tomada tão<br />
a sério, e deveria ser sensatamente<br />
relativizada. Assim, todos os apelos<br />
feitos por meio de São Luís Grignion<br />
e outras pessoas deveriam parecer<br />
radicalismos e fanatismos.<br />
Mensagens totalmente<br />
viáveis de serem cridas<br />
Isso constituiu um pecado enorme,<br />
pois esta Mensagem foi dada em<br />
condições de, logicamente, ser crida<br />
por todo o mundo. Deus não pediu a<br />
ninguém uma adesão irracional, mas<br />
sim um rationabile obsequium; havia<br />
todas as razões para acreditar na au-<br />
tenticidade desta Mensagem como,<br />
por exemplo, na de Fátima também.<br />
Estive lendo, há algum tempo,<br />
um relato sobre coisas de Fátima<br />
e encontrei o seguinte:<br />
o médico de Jacinta era um<br />
dos melhores de Lisboa. E<br />
no dia do enterro da vidente<br />
havia uma reunião de<br />
um centro médico católico<br />
de muita importância na<br />
vida cultural de Lisboa. O<br />
Cardeal Arcebispo Patriarca<br />
de Lisboa presidia a reunião,<br />
Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, onde faleceu Jacinta<br />
quando chegou atrasado esse grande<br />
médico cuja ausência todos estavam<br />
notando. Ele pediu desculpas<br />
ao cardeal pelo atraso e disse que fora<br />
a Fátima acompanhar o sepultamento<br />
de Jacinta. Apesar da respeitabilidade<br />
desse médico, a sala estourou<br />
em gargalhadas por causa da<br />
credulidade dele. Inclusive o cardeal<br />
ria a bandeiras despregadas.<br />
Quer dizer, a Mensagem de Fátima,<br />
dada por meio de três pastorzinhos,<br />
tinha todas as condições para<br />
ser crida. Pois bem, a atitude do público<br />
lisboeta diante do enterro de<br />
Jacinta é quase uma negação galhofeira.<br />
Vê-se que essa posição foi tomada<br />
por certas correntes em face da<br />
devoção ao Sagrado Coração de Jesus.<br />
Provavelmente houve risadas<br />
assim em círculos precursores do<br />
voltaireanismo, do iluminismo, etc.<br />
Um espírito tépido, ideal<br />
para abafar qualquer fervor<br />
Outras correntes foram mais moderadas.<br />
Quiçá tenha havido uma<br />
corrente comodista que não se ocupou<br />
muito com a coisa, pensando:<br />
“Essa mensagem talvez seja deira. Mas que importância<br />
verdaacabado.”<br />
tem isso em comparação com<br />
saber se Madame de Montespan<br />
e os filhos dela vão ser reconhecidos<br />
por Luís XIV ou<br />
não; ou se o rei vai fazer suas<br />
caçadas em Fontainebleau este<br />
ano? Isto sim é o importante:<br />
a vida da corte e dos círculos<br />
sociais que se seguem em<br />
hierarquia. O resto, se o Sagrado<br />
Coração de Jesus disse…<br />
Talvez tenha dito mesmo, mas<br />
não vale a pena estudar isso.<br />
Basta que eu tenha alguma devoção<br />
tradicional, boa, segura e<br />
que, sobretudo, não seja principalmente<br />
católico, mas sim um<br />
cortesão ou uma cortesã, está<br />
12<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 12 24/05/2019 09:42
Uma grossa parte de gente, que<br />
constituía o peso geral da opinião<br />
pública, tomava diante do fato essa<br />
atitude. Depois, algumas almas piedosas<br />
que tiveram conhecimento da<br />
Mensagem seguiram a coisa com<br />
atenção, e prolongaram uns filõezinhos<br />
que vararam de alto a baixo toda<br />
essa imensa crosta de classes sociais<br />
até chegar ao povinho. Então,<br />
há salpicos de devoção ao Sagrado<br />
Coração de Jesus em várias correntes<br />
da opinião pública.<br />
Essa marcha geral conjunta da opinião<br />
francesa diante desse fato mostra<br />
o espírito da Revolução Iluminista<br />
– ele próprio filho da Revolução<br />
anterior, portanto, da Renascença,<br />
do Humanismo, do Protestantismo –,<br />
que foi com o tempo radicalizando-<br />
-se. A bem dizer, o iluminismo já estava<br />
nascendo e ensopando de indiferença,<br />
de dúvida, essa devoção, não<br />
querendo aceitá-la porque ela pediria<br />
fervor, e essa grande massa não queria<br />
fervor, porque o fervor contrarrevolucionário<br />
é uma atitude diametralmente<br />
oposta à Revolução. Aliás,<br />
o próprio fervor revolucionário essa<br />
crosta grossa aprecia, mas não muito.<br />
É preciso viver tepidamente.<br />
“Oxalá fosses frio ou quente. Mas<br />
porque és morno, nem frio nem<br />
quente, estou para vomitar-te de minha<br />
boca”, diz Nosso Senhor (Ap 3,<br />
15-16). O pessoal vomitado pelos lábios<br />
divinos de Nosso Senhor é essa<br />
enorme crosta. Portanto, o grande<br />
esforço não era estar em dissonância<br />
com o rei, com esse ou com aquele,<br />
mas dissonar dessa enorme massa.<br />
A alma da Contra-Revolução<br />
é o espírito reparador<br />
Vemos, assim, a importância de<br />
uma concepção da História para<br />
compreender bem a devoção ao Sagrado<br />
Coração de Jesus, e para adotar<br />
diante dela a atitude devida em<br />
face dos tempos atuais. Não é capaz<br />
de tomar bem uma posição de<br />
compreensão da devoção ao Sagrado<br />
Coração de Jesus quem não leve<br />
em consideração a noção de que essa<br />
foi uma imensa providência tomada<br />
por Deus para sacudir a Revolução<br />
e acabar com a tepidez. Terminada<br />
esta, o resto desapareceria.<br />
Essa tepidez era produto de uma<br />
evolução histórica. Se um homem do<br />
tempo do Rei Sol não quisesse compreender<br />
tudo quanto ele perdeu na<br />
trajetória da Idade Média para Luís<br />
XIV, e que foi uma Revolução que lhe<br />
roubou tudo isso, não tinha solução.<br />
A Mensagem do Sagrado Coração<br />
dá a entender que diante da situação<br />
de derrocada, a qual, em profundidade,<br />
acentuava-se já naquele<br />
tempo, o específico era a promoção<br />
dessa devoção enquanto reparadora.<br />
Esses fatos despertam a cólera divina.<br />
Mas Deus não quer punir o mundo.<br />
Então Ele indica o caminho especial<br />
para evitar que essa punição<br />
se dê. Não é um caminho entre outros,<br />
é o caminho específico.<br />
Logo, o supremo esforço do seu<br />
amor é despertar um movimento de reparação<br />
que seja a Contra-Revolução,<br />
porque se tudo isso é a Revolução; por<br />
excelência e mais do que tudo, a Contra-Revolução<br />
é o que Ele está indicando.<br />
A própria alma da Contra-Revolução<br />
é o espírito reparador.<br />
O que isso significa? Deus está<br />
ofendido pela Cristandade em geral.<br />
Ele considera a Cristandade como<br />
um bloco pecador. Tão gravemente<br />
pecador que o último esforço<br />
do amor d’Ele é aquele, como quem<br />
diz: “Prestai atenção, mas se esse esforço<br />
que Eu estou deitando não for<br />
seguido como deve, virá algo que é a<br />
liquidação da ordem em que estais.”<br />
Indica também, com a visão histórica<br />
retrospectiva inerente a essa devoção,<br />
que já foram feitos nessa direção<br />
muitos esforços não correspondidos<br />
pelos homens. E que então<br />
Deus apresenta um esforço que é ao<br />
mesmo tempo último e supremo, tão<br />
expressivo de amor, tão capaz de to-<br />
Santa Margarida Maria Alacoque<br />
Igreja do Convento dos<br />
Agostinianos, Ribeauvillé, França<br />
car as almas, que não se pode cogitar<br />
mais do que isso.<br />
Assim, Ele convida a que, ao menos<br />
algumas almas de valor, se entreguem<br />
completamente a esse esforço<br />
reparador e sofram tanto que<br />
aplaquem a Deus, deixando-se crucificar<br />
como Nosso Senhor Se deixou.<br />
Dona Lucilia, sobre quem<br />
o Sagrado Coração de Jesus<br />
deitou diversas cruzes<br />
Deste modo, as palavras do Sagrado<br />
Coração de Jesus se transformam<br />
numa mensagem para almas de<br />
elite que, sendo em número suficiente<br />
e, sobretudo, com um amor inten-<br />
Ralph Hammann (CC3.0)<br />
13<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 13 24/05/2019 09:42
SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
so, suportam todo o peso desses pecados.<br />
Se o resgate pago não estiver<br />
na proporção dos pecados cometidos,<br />
a avalanche se desencadeia.<br />
Tenho a impressão de que se passou<br />
com esse lance de Nosso Senhor<br />
o mesmo que se deu com lances anteriores,<br />
ou seja, o número de almas<br />
que corresponderam foi real, com<br />
muito mérito e de um modo muito<br />
precioso, mas não foi suficiente. Muitos<br />
procuraram corresponder, mas de<br />
um modo mole. Várias organizações<br />
buscavam atender ao apelo do Sagrado<br />
Coração de Jesus, mas com falta<br />
de profundidade, de conceitos, etc.<br />
Por esta forma conseguiam que, já<br />
dentro do mar solto, alguns barquinhos<br />
continuassem a navegar, mas vítimas<br />
das ondas que os arrastariam<br />
para onde quisessem. Embora continuassem<br />
a ter sucessores nessa reparação,<br />
provavelmente em número e<br />
amor cada vez menores, até chegar a<br />
um ponto no qual o número fosse tão<br />
pequeno que a avalanche ficaria solta.<br />
Ora, dentro do horror desse mar<br />
tempestuoso, minha Obra seria um<br />
barquinho, preciosa resultante desses<br />
atos de reparação. Não se pode<br />
negar que no nascimento e na<br />
formação de minha Obra o Sagrado<br />
Coração de Jesus teve um papel<br />
muito grande, antes de tudo porque<br />
houve uma senhora sobre quem<br />
Nosso Senhor deitou cruzes desde<br />
meninota, e que sofreu desde pequena<br />
com uma resignação extraordinária<br />
e com os olhos voltados para<br />
o Sagrado Coração de Jesus. Esta<br />
senhora teve um filho que, por sua<br />
vez, fundou esta Obra.<br />
Tendo nascido de Dona Lucilia,<br />
posso dizer que nasci desse movimento<br />
descrito acima. Não propriamente<br />
nesse movimento, pois essa devoção<br />
já estava tão rarefeita na massa geral<br />
dos fiéis, que grande parte do que estou<br />
dizendo foi recomposto por mim<br />
pelo fato de eu ser contrarrevolucionário,<br />
e ter uma visão da História a<br />
qual me levou à conclusão de que a<br />
reparação é o único jeito.<br />
Abominação num<br />
lugar sagrado<br />
Quando tomei conhecimento das<br />
revelações de Paray-le-Monial eu teria<br />
uns dezessete anos mais ou menos.<br />
Para mim aquilo foi claríssimo. Portanto,<br />
tudo quanto estou dizendo agora<br />
é fruto de muita reflexão, ao longo<br />
de anos. Eu não disse antes porque a<br />
devoção ao Sagrado Coração de Jesus<br />
estava tão aguada, que se eu quisesse<br />
levá-la a todos esses extremos, receberia<br />
a objeção da imensa crosta dos tépidos<br />
que diriam: “Essas são considerações<br />
que se fossem verdadeiras estariam<br />
nos lábios de todos os bons padres<br />
que conhecemos...”<br />
Como eles tratam essa devoção?<br />
Não é à maneira de lábaro, pois este<br />
supõe um exército em ordem de<br />
batalha. Quando chegou o momento<br />
de movimentos piedosos serem quase<br />
liquidados sob o pretexto de constituírem<br />
piedade privada e não litúrgica,<br />
essa devoção já não apresentava<br />
mais este caráter bélico. Antes<br />
de o demônio fazer o que se permite<br />
agora, essa devoção foi enxugada da<br />
face da Terra.<br />
Deparei-me com um dos indícios<br />
mais marcantes desse destroçamento<br />
quando estive na França, na década<br />
de 1950, e fui visitar Paray-le-Monial.<br />
Saindo da igreja, minha vista bateu<br />
normalmente em uma livrariazinha<br />
católica que ficava em frente. Pensei<br />
em comprar para minha mãe uma<br />
14<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 14 24/05/2019 09:43
Jiulio Cezar<br />
Sagrado Coração de Jesus<br />
Igreja de São Domingos,<br />
Cuenca, Equador<br />
lembrança que mostrasse com quanto<br />
afeto lembrei-me dela nesse lugar<br />
tão ligado a ela. Então, dirigi-me a<br />
uma vitrine onde vi cartõezinhos preparados<br />
com o bom gosto francês em<br />
todos os sentidos, de boa qualidade.<br />
Aproximei-me para ver o que havia<br />
nos cartõezinhos, certo de trazerem<br />
fragmentos da Mensagem do Sagrado<br />
Coração de Jesus. Pensei: “Eu<br />
posso comprar para mamãe essa coleção<br />
de cartõezinhos; ela vai gostar.”<br />
Quando eu me inclino para ler,<br />
vejo se tratarem de trechos de Voltaire,<br />
Rousseau, d’Alembert, sem<br />
dizer uma palavra sobre o Sagrado<br />
Coração. Expostos numa livraria oficialmente<br />
católica, em frente à porta<br />
por onde saíam os que tinham ido<br />
venerar o lugar onde Nosso Senhor<br />
aparecera a Santa Margarida Maria<br />
Alacoque! Era a abominação no<br />
lugar sagrado, evidentemente.<br />
Diante do sofrimento<br />
devemos ter o<br />
espírito reparador<br />
Tomando tudo isso em<br />
consideração, vemos que se<br />
tivéssemos compreendido a<br />
necessidade da reparação e<br />
oferecido nossos sofrimentos<br />
com essa intenção reparadora<br />
o tempo inteiro, é fora<br />
de dúvida que teríamos<br />
obtido melhores resultados<br />
na luta contra a Revolução.<br />
Pelo favor de Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo e pela mediação<br />
onipotente de Nossa<br />
Senhora, conseguimos constituir<br />
a Contra-Revolução. Mas<br />
não somos ainda<br />
a Contra-Revolução<br />
marcada a fogo<br />
pela sua característica<br />
essencial: a reparação.<br />
Isto é o que falta!<br />
Porque entre nós há<br />
os que fazem parte da<br />
legião dos acomodados,<br />
dos tépidos. E essa<br />
tepidez nos afasta do<br />
desejo da reparação,<br />
da cruz e de qualquer<br />
forma de sofrimento.<br />
Ora, é preciso termos<br />
esse espírito reparador<br />
diante do sofrimento.<br />
Como se pode<br />
pretender vencer uma<br />
luta contra um tal inimigo<br />
sem aplacar primeiro<br />
a Deus? Como<br />
se Deus fosse um parceiro<br />
de segunda classe,<br />
cujo apoio na luta<br />
nós desejamos, é bom,<br />
vale a pena ter, nada<br />
mais. Mas o importante e decisivo<br />
fossem as regras de atuação na opinião<br />
pública. O que é isso em comparação<br />
com o que as circunstâncias<br />
exigem?<br />
Antes de tudo, desarmemos a cólera<br />
de Deus por meio das orações<br />
de Nossa Senhora, tomando-A como<br />
a grande reparadora, associando<br />
à devoção ao Sagrado Coração de<br />
Jesus a devoção ao Imaculado e Sapiencial<br />
Coração de Maria.<br />
Que essas palavras nos deem, pelo<br />
menos, um acento de especial desejo<br />
de que, por meio do Imaculado<br />
Coração de Maria, obtenhamos o<br />
perdão pela nossa afronta ao Sagrado<br />
Coração de Jesus. ❖<br />
(Extraído de conferência de<br />
29/1/1995)<br />
1) Do francês: deixai fazer, deixai passar.<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1995<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
15<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 15 24/05/2019 09:43
REFLEXÕES TEOLÓGICAS<br />
Marcio S.<br />
O Espírito Consolador<br />
Para a vinda do Reino de Maria não basta apenas o<br />
extermínio dos maus por meio de um castigo divino, mas se<br />
faz necessária uma efusão de graças do Espírito Santo que<br />
leve à conversão grande parte da humanidade. Até mesmo os<br />
contrarrevolucionários devem passar por uma transformação<br />
à maneira da taturana que se torna linda borboleta.<br />
Arespeito do Divino Espírito<br />
Santo e da Festa de Pentecostes,<br />
gostaria de dizer al-<br />
guma coisa no tocante a um dado de<br />
que temos falado: o Grand Retour 1 .<br />
Necessidade de graças<br />
excepcionais de conversão<br />
para a constituição do<br />
Reino de Maria<br />
Se considerarmos que os castigos<br />
previstos por Nossa Senhora em Fátima<br />
vão determinar o extermínio de<br />
grande número de pessoas, em especial<br />
das que não são boas, e que depois,<br />
escapando os bons, com estes<br />
nasce uma humanidade nova, parece-me<br />
que do ponto de vista demográfico<br />
ficamos na estaca zero. Porque,<br />
quantos são os autênticos contrarrevolucionários<br />
nos dias de hoje?<br />
E como garantir a perpetuação do<br />
gênero humano a partir de um punhado<br />
de bons que reste? É eviden-<br />
te que não basta apenas o extermínio,<br />
mas esses castigos têm que ser<br />
acompanhados de uma grande conversão.<br />
Sabemos ter sido<br />
o dilúvio, além de um<br />
castigo, uma ocasião<br />
de conversão para<br />
muita gente que,<br />
diante da iminência<br />
da morte, converteu-se<br />
e salvou-se.<br />
Podemos, pois, imaginar<br />
que as tragédias<br />
que castigarão<br />
a humanidade, caso<br />
ela não se emende,<br />
também constituam<br />
uma oportunidade<br />
para muitos se converterem.<br />
Mas como considerar<br />
essa graça<br />
para tanta gente,<br />
inclusive para contrarrevolucioná-<br />
rios tão deficientes e cheios de lacunas,<br />
quando levamos em conta que<br />
se trata de constituir a época mais<br />
brilhante da História da Igreja, que<br />
O dilúvio - Igreja de Santa Maria<br />
Madalena, Troyes, França<br />
Flávio Lourenço<br />
16<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 16 24/05/2019 09:43
é o Reino de Maria? Como resolver<br />
esse problema?<br />
Só podemos imaginar isso da seguinte<br />
maneira: em determinado<br />
momento, de um modo inesperado,<br />
Nossa Senhora produz sobre um<br />
grande número de pessoas uma ação<br />
sobrenatural de graças conseguidas<br />
por Ela que atuem sobre as almas<br />
para que se convertam, modifiquem-<br />
-se completamente e se transformem<br />
em contrarrevolucionárias.<br />
A algo disso posso dizer que, timidamente,<br />
assisti nos dias de minha<br />
vida. Porque quando comparo o que<br />
é hoje a minha Obra com as possibilidades<br />
existentes para a constituição<br />
de um movimento católico como este,<br />
quando começamos, e o que era<br />
o Brasil antes mesmo de começar o<br />
movimento católico, noto transformações<br />
enormes que não poderiam<br />
se dar sem graças muito especiais,<br />
evidentemente distribuídas pelo Espírito<br />
Santo às almas e obtidas por<br />
sua Santíssima Esposa.<br />
Quando nos lembramos da “geladeira”<br />
religiosa que era o Brasil no<br />
tempo, por exemplo, de Washington<br />
Luiz e comparamos com este miserável<br />
Brasil do Jango e o indeciso<br />
Brasil do Castelo Branco, vemos<br />
que, apesar de mil esboroamentos,<br />
mil recuos, houve um trabalho evidente<br />
da graça que, no seu gênero, é<br />
absolutamente maravilhoso, excepcional,<br />
que não está no método comum<br />
da Providência operar.<br />
Em qualquer estágio da<br />
vida espiritual, pedir uma<br />
transformação completa<br />
Evidentemente, precisaremos de<br />
operações excepcionalíssimas da graça.<br />
São essas que devemos pedir: graças<br />
muito especiais do Espírito Santo.<br />
E é muito conveniente que façamos<br />
este pedido ao Divino Espírito Santo,<br />
por ocasião da Festa de Pentecostes.<br />
Suponhamos alguém que, em sua<br />
vida espiritual, vai se conduzindo de<br />
um modo perfeitamente satisfatório;<br />
outro, de um modo medíocre; outro<br />
ainda, insatisfatoriamente. Como esse<br />
pedido de graças se põe para cada<br />
um?<br />
Para o primeiro, deve-se pedir a<br />
Nossa Senhora que lhe dê uma graça<br />
por onde o fervor dele seja tal que<br />
corresponda a uma verdadeira conversão,<br />
pela qual adquira um modo<br />
inteiramente novo de ver a vocação,<br />
uma renovação de todas as energias<br />
interiores, de maneira que a apetência<br />
de santidade, de sacrifício, o<br />
amor a tudo quanto é grande e sublime,<br />
e que verdadeiramente nos<br />
fala de Deus cresça enormemente, e<br />
ele seja, em relação ao que era antes,<br />
como a borboleta é para a crisálida.<br />
Tenho a impressão de que a imagem<br />
zoológica da transformação operada<br />
pela graça no homem é uma taturana<br />
que se arrasta pelo chão – ente<br />
vil, feio, metido dentro da poeira – e<br />
que, de repente, vai se transformando<br />
e dá numa borboleta linda. Eis a<br />
transformação espiritual do homem.<br />
Mais ainda devem pedir isso os<br />
medíocres, que sentem não estarem<br />
progredindo, e cuja vida de piedade<br />
se transforma em lero-lero, as Ave-<br />
-Marias se automatizam, os pensamentos<br />
de piedade perdem o suco,<br />
conserva-se por tudo isso uma espécie<br />
de estima convencional, mas o<br />
fundo da alma não corre para lá.<br />
Entretanto, eu gostaria de falar<br />
especialmente para aqueles que tenham<br />
a infelicidade de não estarem<br />
indo espiritualmente bem. Há situações<br />
da vida espiritual que são tão<br />
difíceis que a pessoa quase perde a<br />
coragem: “Não consigo, não aguento.<br />
É muito direito, é muito bonito,<br />
mas está provado que perdi o fôlego,<br />
e daqui não vou para a frente...”<br />
Ora, a Festa de Pentecostes é uma<br />
admirável lembrança de que esse modo<br />
de raciocinar é falso. Por maiores<br />
que sejam as dificuldades, o Divino<br />
Espírito Santo pode, de um momento<br />
para outro, pela intercessão de Nossa<br />
Senhora, atender nossos pedidos<br />
e fulminar uma alma com uma graça,<br />
como São Paulo a caminho de Damasco.<br />
Uma intervenção assim, qualquer<br />
um pode e deve pedir.<br />
Nessas condições, portanto, eu sugeriria<br />
que todos nós nos aproximássemos<br />
da Festa de Pentecostes com<br />
muita confiança, inteiramente persuadidos<br />
de que, se pedirmos, a Santíssima<br />
Virgem nos atenderá, obtendo<br />
para nós uma graça especial do<br />
Espírito Santo. Não posso afirmar<br />
que tal dom vá cair sobre nós no dia<br />
de Pentecostes, quando os sinos estiverem<br />
anunciando o meio-dia. As<br />
Luis Samuel<br />
17<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 17 24/05/2019 09:43
REFLEXÕES TEOLÓGICAS<br />
coisas na vida espiritual<br />
não se dão assim tão<br />
cinematograficamente.<br />
Mas deve-se pedir para<br />
receber no momento<br />
adequado e oportuno.<br />
A verdadeira<br />
ação do Espírito<br />
Consolador<br />
Flávio Lourenço<br />
A respeito da ação<br />
do Divino Espírito Santo<br />
em Pentecostes cabe<br />
ainda uma consideração.<br />
Devido à histórica<br />
torção do espírito religioso<br />
ao longo dos séculos,<br />
quando se fala da<br />
terceira Pessoa da Santíssima<br />
Trindade enquanto<br />
Espírito Consolador,<br />
insinua-se um<br />
pouco a ideia de uma<br />
viúva cheia de crepes,<br />
tendo perto de si três<br />
crianças, cada uma lambendo<br />
um biscoitinho,<br />
sentada ao pé de um<br />
salgueiro junto a um túmulo<br />
no cemitério da<br />
Consolação, e pensando:<br />
“Mas como o meu<br />
Pafúncio era bom! Tão amável, tão<br />
direitinho... Uma vez ele me traiu, é<br />
verdade, mas não vale a pena pensar<br />
nisso agora.” E depois de um tempo<br />
de chorinho bom e suave, ela se retira<br />
do cemitério consolada.<br />
Em uma de suas obras, o Proust 2<br />
tem o personagem de uma tia viúva<br />
que morava num quarto todo lindinho<br />
do qual ela nunca saía. A cama<br />
dessa senhora ficava junto a uma<br />
janela que dava para a rua, para ela<br />
poder ver todos os acontecimentos<br />
que ali se passavam. A parede do<br />
quarto era listada de azulzinho claro<br />
e branco, imitando tecido, onde<br />
estava pendurado um retrato do falecido<br />
esposo. Entre as distrações<br />
da viúva durante o dia, estava a de<br />
Pentecostes - Catedral de Santa María<br />
la Real, Pamplona, Espanha<br />
olhar para o quadro e comentar com<br />
a criada: “Como era bom esse meu<br />
pobre marido...”<br />
Essa é a ideia comum que se tem<br />
de “consolação”. Portanto, o Espírito<br />
Consolador seria também aquele<br />
que nos faria ter uma unção gostosa<br />
às horas da Ave-Maria; uma coisa<br />
melada da qual a pessoa sai, neste<br />
sentido melífluo da palavra, consolada.<br />
Porém, o Espírito Consolador não<br />
é este, mas sim o correspondente à<br />
etimologia latina da palavra “consolatio”,<br />
isto é, aquele que dá força.<br />
Ele é propriamente o Espírito de<br />
força, de ânimo diante da dor, do sofrimento<br />
e da luta. É o Espírito Santo<br />
que nos dá força para batalharmos<br />
pela virtude, para<br />
conseguirmos a santificação,<br />
combatermos<br />
pela Causa de Deus. É,<br />
pois, o Espírito animador,<br />
que dá ânimo para<br />
a pessoa lutar. E não,<br />
ao contrário, aquele<br />
que põe um gostosinho<br />
agradável da consolação<br />
nesse outro sentido<br />
da palavra.<br />
Sem dúvida, está<br />
também entre os efeitos<br />
do Espírito Santo certa<br />
forma de resignação<br />
doce, suave em meio ao<br />
grande sofrimento. Mas<br />
este é um efeito entre<br />
muitos outros produzidos<br />
pelo Espírito Santo,<br />
e que não tem nada a<br />
ver com o sentimentalismo<br />
melancólico, à Chopin<br />
3 , e outras coisas do<br />
gênero. É algo da resignação<br />
cristã, por exemplo,<br />
em Nossa Senhora,<br />
depois de Nosso Senhor<br />
ter subido ao Céu, passando<br />
Ela ainda muito<br />
tempo na Terra, para o<br />
bem da Igreja nascente,<br />
e com saudades d’Ele. Portanto, não<br />
tem nada de comum com a fraqueza<br />
sentimental da qual falávamos há<br />
pouco.<br />
Não conheço nada melhor do que<br />
os gisants da Idade Média para nos<br />
dar a ideia sensível desse espírito de<br />
ânimo, de energia, fruto do Espírito<br />
Santo, que nos leva a enfrentar a vida<br />
em todas as suas circunstâncias.<br />
Aqueles guerreiros deitados, em atitude<br />
de prece, armados para a vida<br />
e enfrentando placidamente a morte,<br />
tendo transposto com serenidade<br />
os umbrais da eternidade, com Fé<br />
em Deus e na Igreja Católica, prontos<br />
para comparecer perante o julgamento<br />
divino, confiantes em sua<br />
justiça e em sua misericórdia, repre-<br />
18<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 18 24/05/2019 09:43
está deturpada em nossos dias, sendo<br />
considerada como uma coisa mole,<br />
boba, sem sentido. Mas o que é a<br />
paciência? Este termo vem do vocábulo<br />
passio, que significa sofrer. Logo,<br />
paciência é a capacidade de sofrer,<br />
uma de cujas manifestações está<br />
em suportar as injúrias, quando é<br />
o caso de suportá-las.<br />
Mas essa não é uma atitude tola.<br />
A paciência é um elemento indispensável<br />
e integrante da coragem. É<br />
por ter capacidade de sofrer que o<br />
homem é corajoso. Mas que sentido<br />
teria, numa reportagem, dizer: “A artilharia<br />
avançou com admirável paciência<br />
sobre o adversário”? Ninguém<br />
entenderia. Entretanto, tem um sentido:<br />
com uma admirável disposição<br />
de sofrer, de dar e receber pauladas.<br />
É, portanto, um elemento integrante<br />
da coragem.<br />
Vamos pedir a Nossa Senhora que<br />
nos obtenha do Espírito Santo as<br />
graças para termos essa consolação,<br />
esse ânimo firme diante da dor, do<br />
sofrimento, de maneira tal que casentam<br />
bem, a meu ver, essa forma<br />
de firmeza que o Espírito Santo dá.<br />
Uma firmeza cheia de serenidade,<br />
que não é hirta, calvinista. Essa atitude<br />
de alma é uma das manifestações<br />
dessa ação do Espírito Santo.<br />
Ânimo firme e paciência:<br />
graças a serem obtidas<br />
do Espírito Santo<br />
Parece-me que se deveria tomar<br />
isso em consideração ao se tratar do<br />
problema da dor, a posição do católico<br />
diante do sofrimento, a admiração,<br />
a aceitação e a compreensão da<br />
dor como uma espécie de valor supereminente<br />
que ordena e esclarece<br />
toda a vida neste vale de lágrimas.<br />
Tudo isso só pode ser bem compreendido<br />
a partir desse ânimo sobrenatural<br />
que o Espírito Santo dá aos<br />
fiéis para toda espécie de luta e sacrifício,<br />
inclusive para a aquisição,<br />
conservação e progresso da virtude.<br />
Assim como a palavra “consolação”,<br />
também a noção de paciência<br />
minhemos com resolução, sobretudo<br />
na vida de santificação e na luta contra<br />
o adversário.<br />
❖<br />
(Extraído de conferência de<br />
2/6/1966)<br />
1) Do francês: Grande retorno. No início<br />
da década de 1940, houve na França extraordinário<br />
incremento do espírito religioso,<br />
quando das peregrinações de<br />
quatro imagens de Nossa Senhora de<br />
Boulogne. Tal movimento espiritual foi<br />
denominado de “grand retour”, para indicar<br />
o imenso retorno daquele país a<br />
seu antigo e autêntico fervor, então esmaecido.<br />
Ao tomar conhecimento desses<br />
fatos, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> começou a empregar<br />
a expressão “grand retour” no sentido<br />
não só de “grande retorno”, mas<br />
de uma torrente avassaladora de graças<br />
que, através da Virgem Santíssima,<br />
Deus concederá ao mundo para a implantação<br />
do Reino de Maria.<br />
2) Valentin Louis Georges Eugène Marcel<br />
Proust (*1871 - †1922). Escritor francês.<br />
3) Frédéric François Chopin (*1810 -<br />
†1849). Compositor e pianista polonês-francês<br />
da era romântica.<br />
Guilhem Vellut (CC3.0)<br />
Tumba dos Duques de Orleans - Basílica de Saint-Denis, França<br />
19<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 19 24/05/2019 09:43
Arquivo <strong>Revista</strong> Flávio Lourenço<br />
CALENDÁRIO DOS SANTOS –––––––<br />
Santa Paula Frassinetti<br />
1. São Justino, mártir (†c. 165).<br />
Beato João Batista Scalabrini, bispo<br />
(†1905). Bispo de Piacenza, fundador<br />
dos Padres Scalabrinianos e das<br />
Irmãs Missionárias de São Carlos.<br />
2. Domingo. Ascensão do Senhor.<br />
Santos Marcelino e Pedro, mártires<br />
(†304).<br />
São Domingos Ninh, mártir<br />
(†1862). Jovem agricultor, decapitado<br />
em Au Thi, Vietnã, por ter-se recusado<br />
a pisar a Santa Cruz.<br />
3. São Carlos Lwanga e companheiros,<br />
mártires (†1886).<br />
São João Grande, religioso<br />
(†1600). Religioso da Ordem Hospitaleira,<br />
faleceu contagiado pela peste<br />
em Jerez de la Frontera, Espanha.<br />
4. Beato Francisco Pianzola, presbítero<br />
(†1943). Sacerdote da diocese<br />
de Vigevano, Itália, fundou a Congregação<br />
das Irmãs Missionárias da Imaculada<br />
Rainha da Paz.<br />
5. São Bonifácio, bispo e mártir<br />
(†754).<br />
São Franco, eremita (†s. XII). Levou<br />
uma vida de contemplação e penitência<br />
numa estreita gruta entre os<br />
rochedos, perto de Assergi, Itália.<br />
6. São Norberto, bispo (†1134).<br />
São Marcelino Champagnat, presbítero<br />
(†1840). Religioso da Sociedade<br />
de Maria e fundador do Instituto dos<br />
Irmãos Maristas em Lyon, França.<br />
7. São Colmano, bispo e abade (†s.<br />
VI). Fundador do mosteiro de <strong>Dr</strong>omore,<br />
na Irlanda, que mais tarde se<br />
tornou sede episcopal.<br />
8. Santo Efrém, diácono e Doutor<br />
da Igreja (†373).<br />
9. Solenidade de Pentecostes.<br />
São José de Anchieta, presbítero<br />
(†1597).<br />
10. Beato Eustáquio Kugler, religioso<br />
(†1946). Religioso da Ordem<br />
Hospitaleira beatificado em 2009 em<br />
Ratisbona, Alemanha.<br />
11. São Barnabé, Apóstolo.<br />
Santa Paula Frassinetti, virgem<br />
(†1882). Fundadora da Congregação<br />
das Irmãs de Santa Doroteia, em Gênova,<br />
Itália.<br />
12. Beato Lourenço Maria de São<br />
Francisco Xavier, presbítero (†1856).<br />
Religioso da Congregação da Paixão,<br />
difundiu a devoção ao Menino Jesus<br />
em Capranica, Itália.<br />
13. Santo Antônio de Pádua, presbítero<br />
e Doutor da Igreja (†1231).<br />
Beata Mariana Biernacka, mãe de<br />
família e mártir (†1943). Ofereceu-se<br />
para ser presa, substituindo sua nora<br />
Ana que estava para dar à luz. Foi fuzilada<br />
em Naumowicze, Polônia.<br />
14. Beata Francisca de Paula de Jesus,<br />
“Nhá Chica” (†1895). Filha e neta<br />
de escravos, que tendo ficado órfã<br />
aos 10 anos, dedicou toda a sua vida<br />
à oração e ao serviço dos mais necessitados,<br />
em Baependi, Minas Gerais.<br />
15. Santo Amós, Profeta. Enviado<br />
por Deus aos filhos de Israel, para<br />
proclamar a sua justiça e santidade<br />
contra as prevaricações do seu povo.<br />
16. Santíssima Trindade.<br />
Beato Tomás Reding, mártir<br />
(†1537). Monge da cartuxa de Londres,<br />
Inglaterra. Por permanecer unido<br />
à Igreja foi acorrentado na prisão<br />
de Newgate, onde morreu de fome<br />
e doença sob o reinado de Henrique<br />
VIII.<br />
Beato João Batista Scalabrini<br />
17. Beato José Maria Cassant,<br />
presbítero (†1903). Aos 16 anos de<br />
idade entrou como noviço no mostei-<br />
20<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 20 24/05/2019 09:43
––––––––––––––––––– * JUNHO * ––––<br />
Flávio Lourenço<br />
São Gobano<br />
ro trapista de Santa Maria do Deserto,<br />
na diocese de Toulouse, França.<br />
Morreu tomado pela tuberculose aos<br />
25 anos, oferecendo seus sofrimentos<br />
por Cristo e pela Igreja.<br />
18. São Leôncio, soldado (†s. IV).<br />
Soldado que obteve em Trípoli, Líbano,<br />
a palma do martírio por causa das<br />
terríveis torturas sofridas na prisão.<br />
19. São Romualdo, abade (†1027).<br />
Beata Helena Aiello, virgem (†1961).<br />
Fundadora da Congregação das Irmãs<br />
Mínimas da Paixão de Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo, em Cosenza, Itália.<br />
20. Solenidade do Santíssimo Corpo<br />
e Sangue de Cristo.<br />
São Gobano, presbítero (†c. 670).<br />
Nascido na Irlanda, tornou-se discípulo<br />
de São Fusco na Inglaterra e de lá se dirigiu<br />
à França onde levou vida eremítica.<br />
21. São Luís Gonzaga, religioso<br />
(†1591).<br />
São Leufredo, abade (†738). Fundou<br />
em Évreux, França, a abadia de<br />
La Croix-Sain t-Leufroy e a regeu por<br />
quase 40 anos.<br />
22. São Paulino de Nola, bispo<br />
(†431).<br />
São João Fisher, bispo, e São Tomás<br />
Moro, mártires (†1535).<br />
23. XII Domingo do Tempo Comum.<br />
Beato Pedro Tiago de Pesaro, presbítero<br />
(†c. 1496). Religioso da Ordem<br />
dos Eremitas de Santo Agostinho falecido<br />
no Êremo de São Nicolau de<br />
Valmanente, junto a Pesaro, Itália.<br />
24. Natividade de São João Batista.<br />
Ver página 2.<br />
São José Yuan Zaide, presbítero e<br />
mártir (†1817). Sacerdote diocesano<br />
estrangulado por ódio à Fé na província<br />
de chinesa de Sichuan.<br />
25. Beata Maria Lhuillier, virgem<br />
e mártir (†1794). Religiosa das Cônegas<br />
Regulares Hospitaleiras da Misericórdia<br />
de Jesus, decapitada durante<br />
a Revolução Francesa em Laval,<br />
França, por sua inquebrantável fidelidade<br />
aos votos religiosos.<br />
26. São José Maria Robles, presbítero<br />
e mártir (†1927). Morreu enforcado<br />
numa árvore, em Guadalajara,<br />
durante a revolução mexicana.<br />
27. São Cirilo de Alexandria, bispo<br />
e Doutor da Igreja (†444). Ver página<br />
22.<br />
Beato Benvindo de Gúbio, religioso<br />
(†c. 1232). Franciscano que, trabalhando<br />
humildemente no serviço dos<br />
enfermos, se assemelhou com a vida<br />
de Cristo pobre. Morreu próximo a<br />
Bovino, Itália.<br />
28. Solenidade do Sagrado Coração<br />
de Jesus.<br />
Santo Irineu, bispo e mártir<br />
(†c. 202).<br />
Santo Heimerado, presbítero e<br />
eremita (†1019). Expulso do mosteiro<br />
e exposto ao desprezo e zombaria<br />
de muitos, viveu como peregrino por<br />
amor a Cristo, morrendo em Hasungen,<br />
Alemanha.<br />
29. Imaculado Coração de Maria.<br />
Santa Ema, viúva (†c. 1045).<br />
Viúva do Conde Guilherme de Sann,<br />
deu generosamente muitos dos seus<br />
bens aos pobres e à Igreja, em Gurk,<br />
Áustria.<br />
30. Solenidade de São Pedro e São<br />
Paulo, Apóstolos.<br />
Santos Protomártires da Igreja de<br />
Roma (†64).<br />
São Basílides, soldado e mártir (†c.<br />
202). Tendo procurado proteger Santa<br />
Potamiena dos insultos de homens impudicos<br />
enquanto a conduzia ao suplício,<br />
acabou por se converter a Cristo e<br />
receber também a palma do martírio.<br />
Santo Amós<br />
Samuel Holanda<br />
21<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 21 24/05/2019 09:43
HAGIOGRAFIA<br />
Execração até o<br />
último limite<br />
Partindo do exemplo de São Cirilo<br />
de Alexandria, arrojado defensor da<br />
Maternidade Divina de Maria, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
faz uma penetrante análise sobre como<br />
Deus execra aqueles que, entre a verdade e<br />
o erro, tomam uma posição intermediária,<br />
como está consignado no Apocalipse:<br />
Se fosses frio ou quente, Eu te aceitaria;<br />
mas como és morno, começo a vomitarte<br />
de minha boca. Os mornos são o<br />
melhor dispositivo de proteção do erro,<br />
mas os execrados do Coração de Jesus.<br />
Pedro K.<br />
S<br />
obre São Cirilo de Alexandria,<br />
Sde cuja memória é celebrada em 27<br />
junho, diz Dom Guéranger:<br />
Defensor da maternidade<br />
divina de Nossa Senhora<br />
Por carta, São Cirilo tentou recondu-<br />
zir Nestório, mas esse sectário aferrava-se<br />
a suas opiniões. Por falta de argumentos,<br />
Nestório queixava-se ao Patriarca da ingerência<br />
de São Cirilo. Como sempre em<br />
tais circunstâncias, Cirilo encontrou homens<br />
apaziguadores que, sem partilhar<br />
o erro nestoriano, considerava que o melhor,<br />
com efeito, era não responder, por<br />
temor de o irritar, de aumentar o escândalo<br />
e de ferir a caridade.<br />
A esses homens, cuja singular vir-<br />
tude tinha a propriedade de se abalar<br />
menos das audácias da heresia que da<br />
afirmação da Fé cristã, a esses partidários<br />
da paz a qualquer preço, respondia<br />
Cirilo:<br />
“Como Nestório ousa deixar dizer<br />
em sua presença, na assembleia dos<br />
fiéis, anátema seja quem chama Maria<br />
Mãe de Deus; pela noção de seus partidários,<br />
ele chama de anátemas nós e<br />
os outros bispos do universo e os antigos<br />
Padres que em todas as partes e em<br />
todas as épocas reconheceram e honraram<br />
unanimemente a Santa Mãe de<br />
Deus? E não estamos em nosso direito<br />
de devolver-lhe sua palavra e dizer:<br />
Se alguém nega que Maria seja a Mãe<br />
de Deus, seja anátema? Se o medo de<br />
qualquer aborrecimento afasta de nós<br />
o zelo pela glória de Deus e nos faz calar<br />
a verdade, com que rosto podemos<br />
celebrar em presença do povo cristão<br />
os santos mártires, quando o que faz<br />
22<br />
São Cirilo de Alexandria<br />
Santuário do Sameiro, Portugal<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 22 24/05/2019 09:43
o elogio desses que morreram é unicamente<br />
o cumprimento desta palavra:<br />
pela verdade combatiam até a morte?” 1<br />
O trecho é verdadeiramente magnífico.<br />
São Cirilo, que viveu no século V,<br />
combateu a heresia de Nestório afirmando<br />
a maternidade divina da Bem-<br />
-aventurada Virgem Maria. Nos primeiros<br />
séculos da Igreja houve pessoas<br />
que, impugnando o dogma da divindade<br />
de Nosso Senhor, afirmavam<br />
que Ele era só homem e não Deus.<br />
Outros afirmavam que Ele era Deus,<br />
mas não homem, e que tomava o aspecto,<br />
a aparência de homem, como<br />
um fantasma, porém negavam que Ele<br />
fosse o Homem-Deus. Dos dois lados<br />
a heresia tentou abalar a crença católica<br />
de que Nosso Senhor Jesus Cristo<br />
é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem,<br />
como professamos até hoje.<br />
Os que mais atrapalham<br />
a Causa católica<br />
A heresia de Nestório, ao negar a<br />
perfeita união entre as naturezas humana<br />
e divina em Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo, constituindo uma só Pessoa<br />
divina, tinha uma consequência<br />
no que diz respeito a Nossa Senhora,<br />
pois afirmava ser Ela apenas mãe do<br />
homem Jesus, e não Mãe de Deus.<br />
Portanto, a maternidade divina de<br />
Maria não existia.<br />
Estabeleceu, assim, a clássica distinção<br />
entre ortodoxos, que professavam<br />
haver em Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo ambas as naturezas em uma<br />
Pessoa Divina, e heterodoxos, partidários<br />
de Nestório. Entre essas duas<br />
correntes havia os tais pseudoequilibrados,<br />
querendo fazer ecumenismo e<br />
irenismo. Estes achavam, já no século<br />
V, ser melhor não fazer discussão porque<br />
irrita o adversário, tornando mais<br />
difícil a possibilidade de conversão,<br />
além de agir contra a caridade. Então,<br />
voltavam-se contra São Cirilo porque<br />
este Santo falava mal deles.<br />
Pergunto se não é exatamente o<br />
que se passa em nossos dias. Há uma<br />
raça de almas que correspondem<br />
àquilo que está dito na Escritura: Se<br />
fosses frio ou quente, Eu te aceitaria;<br />
mas como és morno, começo a tar-te de minha boca (cf. Ap 3, 15-16).<br />
Isto é, se tu aceitasses a verdade, Eu<br />
te aceitaria; se tu aceitasses o erro e<br />
te arrependesses, Eu te perdoaria.<br />
Mas como és daquela espécie de gente<br />
morna, que não está nem do lado<br />
da verdade, nem do lado do erro, tu<br />
Me causas a náusea que a água morna<br />
provoca. Sabe-se que a ingestão<br />
de água morna em certa quantidade<br />
é nauseante. É até usada para provocar<br />
a náusea, em determinadas doenças.<br />
São os execrados de Deus, que<br />
Ele vomita de sua boca, com aquele<br />
tipo especial de horror que é o nojo,<br />
que caracteriza a náusea. É isto que<br />
Nosso Senhor tem em relação a esses.<br />
vomi-<br />
São eles os que mais atrapalham a<br />
Causa católica. Porque sempre se aproximam<br />
dos outros dizendo para não seguirem<br />
os defensores da verdade, porque<br />
eles, mornos, são católicos também,<br />
mas não tão exagerados quanto<br />
os outros. É por causa disso que as fileiras<br />
dos verdadeiros seguidores da Causa<br />
católica contam muito menos adeptos<br />
do que deveriam contar. O melhor<br />
dispositivo de proteção do erro não está<br />
entre aqueles que o professam, mas<br />
entre os que dizem professar a verdade,<br />
porém nas táticas protegem o erro; são<br />
verdadeiramente a quinta-coluna que<br />
sempre existiu nesse tipo de luta.<br />
Isto nos deve levar a compreender<br />
que espécie de horror devemos ter a<br />
esse tipo de almas. E se queremos ser<br />
inteiramente conformes a Nosso Senhor,<br />
imaginem a náusea que essas<br />
almas nos devem dar! Quando ouvirmos<br />
tais argumentos, o que devemos<br />
sentir é náusea. Porque se devemos<br />
ser perfeitos como nosso Pai Celeste,<br />
e se é legítima aquela jaculatória<br />
“Sagrado Coração de Jesus, tornai<br />
meu coração semelhante ao vosso”,<br />
então precisamos também ter náusea<br />
daqueles de quem o Pai Celeste<br />
tem náusea. E se queremos ser como<br />
Virgen del Parto - Catedral<br />
de León, Espanha<br />
Samuel Holanda<br />
o Coração de Jesus, devemos ter horror<br />
àqueles de quem Ele tem horror.<br />
Aí está o pedido que devemos fazer<br />
a Nossa Senhora: compreender<br />
de modo vivo o horror dessa posição<br />
e ter contra ela toda a execração infinita<br />
que Deus possui em relação a esse<br />
tipo de gente. Uma execração que<br />
vai até o último limite: é o nojo, o asco,<br />
o desprezo. Essa posição intermediária<br />
atrai mais a cólera divina do<br />
que a definida posição contrária. ❖<br />
(Extraído de conferência de<br />
8/2/1966)<br />
1) Cf. GUÉRANGER, Prosper-Louis-Pascal.<br />
L’année liturgique. Septuagésime. p. 324.<br />
23<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 23 24/05/2019 09:43
PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />
Considerações sobre o<br />
Brasil Império - IV<br />
Após tomar uma série de medidas<br />
contrarrevolucionárias, Dom Vital foi preso<br />
por ordem de Dom Pedro II, censurado pelo<br />
próprio Pio IX e anistiado pela Princesa<br />
Isabel. Tendo viajado a Roma para se<br />
defender num processo contra ele instaurado,<br />
foi considerado inocente pela Santa Sé, de<br />
um modo inteiramente providencial, mas<br />
acabou sendo morto pelos inimigos da Igreja.<br />
Luis Samuel<br />
N<br />
aquele tempo, as confrarias<br />
religiosas eram muito ricas,<br />
porque vinham da época do<br />
Brasil Colônia, com muitas dades. Havia pouco fervor religioso,<br />
pela simples razão de que o clero passava<br />
por uma grande decadência. Por<br />
exemplo, um dos regentes do Império<br />
era o Padre Diogo Antônio Feijó, um<br />
jansenista que andou com os estudos<br />
adiantados para uma quase separação<br />
do Brasil com Roma. Era sabidamente<br />
um mau padre.<br />
proprie-<br />
Sagrado bispo na velha<br />
Catedral de São Paulo<br />
Por outro lado, os inimigos da<br />
Igreja tinham proibido o noviciado<br />
nas Ordens religiosas no Brasil, de<br />
maneira que nenhum brasileiro podia<br />
entrar em nenhuma delas. Então,<br />
as Ordens muito ricas começaram a<br />
mandar seus jovens candidatos, em<br />
quantidade, fazer os estudos na Europa,<br />
de onde voltavam já ordenados<br />
padres. Isso as leis não podiam proibir.<br />
Eram os felizes dias do pontificado<br />
de Pio IX, e os seminários davam<br />
a melhor formação possível.<br />
Um desses seminários era o dos<br />
capuchinhos na França, onde foi<br />
estudar um jovem pernambucano<br />
muito inteligente, alto, bem constituído,<br />
forte, com uns olhos oblongos,<br />
pretos, tão penetrantes que ele disse<br />
nunca ter olhado para uma fisionomia<br />
sem que num primeiro olhar<br />
Dom Vital - Recife,<br />
24 Pernambuco<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 24 24/05/2019 09:43
Sebastien Auguste Sisson (CC3.0)<br />
Litografia do Padre<br />
Diogo Antônio Feijó<br />
compreendesse completamente a<br />
psicologia, as intenções da pessoa.<br />
Seu nome era Vital Maria Gonçalves<br />
de Oliveira, natural da cidade de<br />
Goiana, em Pernambuco. Ordenou-<br />
-se, veio para o Brasil como capuchinho<br />
e começou a exercer o ministério<br />
em São Paulo.<br />
Ele não era meu parente, mas<br />
amigo de parentes meus originais de<br />
Goiana como ele. Ocupava, então, o<br />
cargo de Ministro do Interior do Império<br />
o meu tio-avô, Conselheiro<br />
João Alfredo Corrêa<br />
de Oliveira.<br />
Naquele tempo, quem indicava<br />
os bispos a serem nomeados<br />
pelo Papa era o Imperador.<br />
O Papa podia recusar,<br />
mas não lhe era permitido<br />
nomear um bispo sem<br />
ouvir o Imperador. O João<br />
Alfredo julgou que daria<br />
uma bela tacada nomeando<br />
essa pessoa muito chegada<br />
a ele para bispo, e propôs<br />
o Padre Vital ao Primeiro-<br />
-Ministro, Visconde do Rio<br />
Branco. Este, para comprazer<br />
ao João Alfredo, concordou<br />
e apresentou o nome<br />
ao Imperador, o qual<br />
aceitou e ele foi sagrado<br />
bispo na velha Catedral de São Paulo.<br />
Minha avó materna assistiu a essa<br />
ordenação e comentava que se lembrava<br />
dele, ainda em pé, na porta da<br />
catedral, dando a bênção ao povo,<br />
com as mãos de uma alvura e de uma<br />
beleza que chamara a atenção dela.<br />
Dom Pedro II decreta<br />
a prisão de D. Vital<br />
Ele foi para Pernambuco resolvido<br />
a tomar uma série de medidas<br />
contrarrevolucionárias. Ficou um<br />
ano ou dois em Olinda e Recife, tomando<br />
a temperatura, o pulso das<br />
coisas, orando e gemendo junto ao<br />
Santíssimo Sacramento, e pedindo<br />
que desse um jeito de vibrar um golpe<br />
nos inimigos da Santa Igreja.<br />
Em certo momento, julgou já estar<br />
em condições de desferir o golpe e o<br />
fez por meio de cartas pastorais, destituições<br />
de maus priores de confrarias<br />
e até suspendendo de ordens os maus<br />
padres. Isso produziu uma polvorosa.<br />
Ora, tudo isso Dom Vital fez baseando-se<br />
em um breve de Pio IX, e<br />
havia um velho tratado entre a Casa<br />
Real de Portugal e o Vaticano pelo<br />
qual, segundo a interpretação do Governo,<br />
os decretos papais não podiam<br />
ser aplicados sem a autorização do<br />
Imperador. O Vaticano negava isso.<br />
Os opositores de Dom Vital recorreram<br />
ao Imperador alegando esse<br />
tratado. Dom Pedro II enviou, então,<br />
o seguinte recado a Dom Vital:<br />
“Eu mando prendê-lo e trazê-lo para<br />
o Rio de Janeiro para ser julgado, se<br />
Vossa Excelência não revogar as medidas<br />
tomadas. Ao que ele respondeu:<br />
“Então venham me prender,<br />
porque é inútil, eu não mudo.”<br />
E o Imperador decretou a prisão.<br />
No dia estipulado para a execu-<br />
Visconde do Rio<br />
Branco em 1875<br />
Praça da Sé em 1880. À direita, a antiga Catedral de São Paulo<br />
Instituto Moreira Salles (CC3.0)<br />
Antônio de Souza Lobo (CC3.0)<br />
25<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 25 24/05/2019 09:43
PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />
Divulgação (CC3.0)<br />
ção do mandato, o chefe da Polícia<br />
de Recife foi ao Palácio da Soledade<br />
onde, na hora marcada, estava Dom<br />
Vital com mitra, báculo, vestido de<br />
grande cerimônia e cercado com as<br />
principais figuras de seu clero. Dirigindo-se<br />
ao chefe da Polícia, disse:<br />
— O senhor veio me prender?<br />
Prenda-me!<br />
O chefe da Polícia não esperava<br />
aquela cena... Ficou sem jeito e declarou:<br />
— Vossa Excelência está preso.<br />
— Assim não – retrucou Dom Vital<br />
–, é preciso que o senhor faça violência<br />
sobre mim.<br />
— Eu não farei violência sobre o<br />
senhor.<br />
— Se o senhor não fizer, não me<br />
entrego à prisão, porque quero que<br />
conste ter o Governo imperial exercido<br />
violência sobre mim.<br />
— Mas que violência?<br />
— Ponha a mão sobre o meu ombro<br />
e diga que eu estou preso. Assim<br />
entenderei que o senhor me ameaçou<br />
de força física e me entregarei.<br />
Ele pôs a mão sobre o ombro do<br />
bispo e disse:<br />
— Vossa Excelência está preso.<br />
— Está bem, vou a pé até o cárcere.<br />
Ora, isso era impossível. Levar<br />
como prisioneiro um bispo com mitra,<br />
báculo e todo paramentado, a pé<br />
para a cadeia, sairia uma arrelia popular<br />
que iria longe...<br />
Diz-lhe o chefe da Polícia:<br />
— Vossa Excelência é prisioneiro,<br />
quem manda sou eu! Está preparado<br />
um carro para levá-lo à prisão, onde<br />
deverá esperar o próximo navio que<br />
venha da Europa para levar Vossa<br />
Excelência para o Rio.<br />
— Está bem. Agora entro no carro<br />
como prisioneiro.<br />
Entrou e foi conduzido à prisão.<br />
Depois de dois ou três dias, passou<br />
um navio por Recife que o levou para<br />
o Rio de Janeiro.<br />
Chegada ao Rio de Janeiro<br />
Por uma tradição pitoresca e uma<br />
contradição cruel, Dom Vital viajou<br />
em um navio no qual tremulava no<br />
alto do mastro a bandeira do Império<br />
brasileiro, porque a Igreja estava<br />
unida ao Estado e o bispo era não só<br />
um alto dignatário eclesiástico, mas<br />
também do Estado. Entretanto, o<br />
dignatário que lá viajava estava preso.<br />
De maneira que nos vários portos<br />
onde o navio parava ao longo do<br />
extenso percurso, o ilustre viajante<br />
Detalhe do Palácio da Soledade em Recife<br />
permanecia a bordo, sob vigilância,<br />
impedido de desembarcar.<br />
Assim chegou Dom Vital ao Rio<br />
de Janeiro, onde uma prova particularmente<br />
cruel o aguardava. O Bispo<br />
do Rio de Janeiro naquele tempo era<br />
Dom Pedro Maria de Lacerda, homem<br />
mole, amigo de todas as composições<br />
e de todos os arranjos, única<br />
pessoa no Império que conseguia<br />
ter medo de Dom Pedro II, o mais<br />
patriarcal e bonachão dos imperadores.<br />
Dom Lacerda não se aguentava<br />
de medo ao ver seu colega, Dom Vital,<br />
expor a Igreja Católica aos riscos<br />
os quais ele imaginava que corria.<br />
O Visconde do Rio Branco, pai<br />
do famoso Barão do Rio Branco, era<br />
o Presidente do Conselho dos Ministros.<br />
A ele cabia, juntamente com o<br />
Conselheiro João Alfredo, Ministro<br />
do Interior, tornar efetivo o mandato<br />
imperial de prisão de Dom Vital.<br />
O Barão do Rio Branco,<br />
conhecedor exímio das<br />
fronteiras do Brasil...<br />
Uma vez mencionado o Barão do<br />
Rio Branco, abro um parêntesis na<br />
história de Dom Vital, adianto-me<br />
no tempo e entro na época da República<br />
Velha para narrar um episódio<br />
pitoresco.<br />
O Brasil, país de uma extensão<br />
enorme, estava com quase todas suas<br />
fronteiras indefinidas, porque não<br />
interessava à antiga colônia portuguesa<br />
fazer brigas por causa de limites<br />
de terras onde não se poderia<br />
chegar. A linha fronteiriça passava<br />
quase toda ela por terras incultas e<br />
inabitadas. Então, que interesse havia<br />
em discutir limites? Porém, já no<br />
tempo da República era de se prever<br />
o momento em que essas terras interessariam.<br />
Então, tornava-se necessário<br />
um homem que conhecesse,<br />
palmo a palmo, todo o traçado da linha<br />
do Tratado de Tordesilhas.<br />
Espanha e Portugal tinham uma<br />
dúvida a respeito do interior do con-<br />
26<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 26 24/05/2019 09:43
Arquivo Nacional (CC3.0)<br />
Barão do Rio<br />
Branco<br />
tinente, e para evitar uma guerra entre<br />
ambos os países, recorreram à arbitragem<br />
do Papa Alexandre VI. Ele<br />
traçou uma linha perpendicular a<br />
partir de determinados pontos, e essa<br />
divisão foi aceita pelos dois países<br />
ibéricos no famoso Tratado das Tordesilhas.<br />
Naturalmente, foi um dos<br />
elementos para determinar, mais tarde,<br />
os limites entre as antigas colônias<br />
tornadas nações independentes.<br />
O Barão do Rio Branco era cônsul,<br />
o que, naquele tempo, correspondia<br />
a um corte na carreira diplomática,<br />
pois o cônsul só tratava de<br />
questões comerciais e os diplomatas<br />
dos assuntos políticos. O diplomata<br />
era embaixador, usava um uniforme<br />
brilhante, com alamares de ouro,<br />
chapéu de dois bicos com pluma, espada,<br />
morava num palácio, era cercado<br />
de pompa. O mesmo não se dava<br />
com um cônsul.<br />
Ora, o Barão do Rio Branco tinha<br />
se embarafustado por essas questões<br />
de limites completamente, numa<br />
época em que ninguém se interessava<br />
por isso. Ele era um leão na matéria,<br />
possuía cópias dos tratados e toda<br />
a documentação.<br />
...é nomeado Ministro<br />
do Exterior<br />
Quando se apresentou a necessidade<br />
de fazer a delimitação do nosso<br />
território, apelou-se para ele<br />
que foi nomeado, logo de uma<br />
vez, Ministro do Exterior, por cima<br />
de todos os diplomatas.<br />
Entretanto, na hora de ser<br />
nomeado Ministro do Exterior,<br />
apareceu uma dificuldade: ele<br />
usava o título de barão, e a República<br />
não reconhecia títulos<br />
de nobreza. Portanto, nos decre-<br />
tos por ele outorgados seria obrigado<br />
a assinar José Maria da Silva<br />
Paranhos Júnior. Não podia utilizar<br />
o título de Barão do Rio Branco.<br />
Vejam como os tempos eram outros...<br />
O Presidente da República ia<br />
elevar esse homem da condição de<br />
cônsul para a de ministro, e uma brilhantíssima<br />
carreira se abria para<br />
ele. Só faltava tomar posse. Então<br />
lhe avisaram:<br />
— Vossa Excelência não pode<br />
usar o título de Barão do Rio Branco<br />
para ser ministro de uma república.<br />
A nobreza foi extinta e a República<br />
não reconhece barões.<br />
Ele disse:<br />
— Está bem, então desisto do<br />
meu título de ministro. Arranjem essas<br />
fronteiras como entenderem. Eu<br />
não aceito.<br />
Estava posta uma incompatibilidade.<br />
Mas na terra do “jeitinho” haveria<br />
de aparecer um meio de resolver<br />
esse impasse. E o “jeitinho” foi<br />
este: ele assinava “Rio Branco”, mas<br />
não “Barão”.<br />
Assim, todos os decretos promulgados<br />
por ele vinham assinados:<br />
“Rio Branco”. Ora, logicamente ele<br />
não tinha o direito de chamar-se<br />
“Rio Branco”, pois seu nome era José<br />
Maria da Silva Paranhos Júnior.<br />
“Rio Branco” correspondia ao extinto<br />
título de nobreza. Pois bem, todo<br />
mundo fingiu que estava muito bem<br />
e tocou-se a vida para a frente.<br />
Ele era um técnico exímio em matéria<br />
de Geografia, conhecia os limites<br />
do Brasil perfeitamente. Neste<br />
ponto era um gênio. Para traçar<br />
uma fronteira é preciso conhecer os<br />
mínimos acidentes geográficos: uma<br />
montanhazinha, um regatinho, um<br />
lago, um pântano, nem sei o quê...<br />
Ele não só conhecia isso, mas negociava<br />
muito bem. Resultado: ele obteve<br />
para nós os imensos limites de<br />
nossas fronteiras.<br />
O Bispo de Olinda e Recife é<br />
encarcerado na Ilha das Cobras<br />
Voltando ao Brasil Império: Dom<br />
Vital desembarcou no Rio de Janeiro,<br />
onde, por ordem do Visconde do<br />
Rio Branco e do Conselheiro João<br />
Alfredo, em cumprimento do man-<br />
Dom Pedro Maria de Lacerda<br />
Divulgação (CC3.0)<br />
27<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 27 24/05/2019 09:43
PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />
Augusto Stahl (CC3.0)<br />
dato do Imperador, foi enviado para<br />
a cadeia.<br />
Com Dom Pedro Maria de Lacerda<br />
apavorado, uma parte do clero brasileiro<br />
contrário a Dom Vital e a opinião<br />
pública brasileira mais ou menos<br />
sem entender o que estava se passando,<br />
pasma de ver um bispo preso, o<br />
Rio de Janeiro inteiro assistiu, apaixonado,<br />
os debates, que tiveram lugar no<br />
Supremo Tribunal e foram muito teatrais,<br />
à maneira do século XIX.<br />
Assim como o século XX, na sua<br />
primeira metade, foi o século do cinema,<br />
e na segunda metade o da televisão,<br />
o século XIX foi o do teatro.<br />
A Europa e o mundo se encheram<br />
de teatros, de companhias ambulantes<br />
de atores que visitavam todos<br />
os países.<br />
Dom Vital era bem moço naquele<br />
tempo, creio que ainda não tinha 30<br />
Princesa Isabel em 1865<br />
anos, alto, tez muito alva, barba longa,<br />
sobrancelhas espessas, trajando o<br />
burel franciscano. Ele entrou na sala<br />
escoltado pela polícia e dirigiu-se<br />
para o banco dos réus. Um ministro<br />
do Supremo Tribunal se levantou,<br />
pegou sua própria poltrona, foi até o<br />
banco dos réus e disse: “Senhor Bispo,<br />
vossa Excelência merece o lugar<br />
de um ministro. Tenha a bondade!”<br />
Naturalmente, aplausos delirantes<br />
dos partidários de Dom Vital e<br />
vaia dos seus adversários. O ministro<br />
pouco ligou, voltou ao seu lugar.<br />
Pouco depois veio um funcionário<br />
do Tribunal trazendo outra poltrona<br />
para o ministro se sentar, e o julgamento<br />
começou. Este durou várias<br />
sessões nas quais Dom Vital fez uso<br />
da palavra para se defender. Quiseram<br />
que ele constituísse um advogado,<br />
mas ele disse: “Eu não constituo<br />
advogado porque<br />
não reconheço a este<br />
Tribunal o direito de<br />
me julgar. Sou Bispo<br />
da Igreja Católica e<br />
a mim só há um poder<br />
que julga na Terra:<br />
é o Papa, em Roma.<br />
Mais ninguém!”<br />
Afinal o Tribunal<br />
condenou Dom Vital<br />
a quatro anos de<br />
prisão com trabalhos<br />
forçados. Contudo,<br />
o Imperador sentiu<br />
que era demais mantê-lo<br />
sob trabalhos<br />
forçados, porque se<br />
espalhariam por todo<br />
o Brasil uma série<br />
de gravuras representando<br />
o bispo com<br />
ferros e enxada nas<br />
mãos, vestindo trajes<br />
de sentenciado, o que<br />
daria a Dom Vital<br />
um redobrado prestígio<br />
de mártir. Então<br />
o monarca fez um<br />
decreto dando-lhe in-<br />
dulto quanto aos trabalhos forçados,<br />
mas obrigando-o à pena de prisão.<br />
Uma carta de Pio IX<br />
A partir daquele momento começou<br />
a vir gente do Brasil inteiro para<br />
visitar e venerar Dom Vital na prisão.<br />
Vinham pessoas de categoria do<br />
interior do Estado do Rio de Janeiro<br />
– fazendeiros, políticos –, mas também<br />
pessoas simples de todo o País,<br />
que viajavam a cavalo, em liteira ou<br />
banguê.<br />
A liteira era um meio de transporte<br />
onde a pessoa viajava sentada numa<br />
cadeira colocada dentro de uma<br />
cabinezinha carregada por escravos.<br />
O banguê era mais cômodo: uma rede<br />
presa a dois paus com dois escravos<br />
levando aos ombros e o dono<br />
deitado nela.<br />
Uma viagem dessas demorava vários<br />
dias e, por vezes, representava<br />
risco de morte. Tive ocasião de ver o<br />
testamento da famosa Marquesa de<br />
Santos, dispondo de todos os bens<br />
e pedindo Missas por sua alma, no<br />
qual ela declarava que viajaria para<br />
o Rio de Janeiro por mar e que,<br />
à vista do perigo considerável dessa<br />
viagem, precisava fazer o seu testamento.<br />
Apesar disso, foi gente em quantidade<br />
de São Paulo e dos mais longínquos<br />
confins do Brasil, chegava ao<br />
ancoradouro do Rio de Janeiro, tomava<br />
barquinhos fretados para levar<br />
os peregrinos até a Ilha das Cobras,<br />
só para ver Dom Vital, receber dele<br />
uma bênção e depois voltar.<br />
Até então, para o bispo prisioneiro<br />
era apenas um crescimento de<br />
prestígio. Entretanto, certo dia aparece<br />
Dom Pedro Maria de Lacerda<br />
acompanhado do Internúncio, aporta<br />
o barquinho, descem e pedem para<br />
falar com Dom Vital. Naturalmente,<br />
são recebidos, sentam-se e aí<br />
começa o martírio de Dom Vital.<br />
— Tenho uma carta do Santo Padre<br />
Pio IX para Vossa Excelência –<br />
diz o Internúncio.<br />
28<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 28 24/05/2019 09:43
Dom Vital sentiu que vinha um<br />
golpe. Ele, que lutara pelo Papado<br />
até o último ponto, levava um golpe<br />
do próprio Papa. Não podia ser<br />
mais cruel. Era um verdadeiro<br />
martírio de alma. Ele deu:<br />
responconhecia<br />
o conteúdo da carta,<br />
— Pois não, desejo ver.<br />
Um dos dois puxou a carta<br />
e lhe entregou. Ele abriu,<br />
leu, e viu tratar-se de uma<br />
carta de Pio IX mandada<br />
por meio do Secretário de<br />
Estado, Cardeal Antonelli,<br />
censurando a atitude dele.<br />
Terminada a leitura,<br />
Dom Vital dobrou a carta,<br />
colocou-a no bolso e ficou<br />
quieto. Um dos dois, que<br />
disse:<br />
— Mas, como? Vossa Excelência<br />
não nos comenta nada bre a carta?<br />
so-<br />
— Comento que a recebi.<br />
— Bom, mas Vossa Excelência<br />
não nos dá a carta?<br />
— Não, o destinatário sou eu.<br />
Portanto, sou o dono dela. Ela está<br />
no meu bolso.<br />
— Mas então, não há comentário<br />
a fazer?<br />
— Não. A carta é para mim, não é<br />
para Vossa Excelência.<br />
Ao que parece, ele não respondeu<br />
a Pio IX. Quando saísse da cadeia,<br />
ele iria a Roma se entender<br />
com o Papa.<br />
Anistia concedida pela<br />
Princesa Isabel<br />
Cardeal Antonelli<br />
Nesse ínterim o Imperador viaja<br />
para a Europa e deixa a Princesa<br />
Isabel como Regente do Império.<br />
Ela era a primogênita, e o Imperador<br />
não teve filhos homens. Logo,<br />
se ele morresse, a Imperatriz seria<br />
a Princesa Isabel. Naturalmente,<br />
ela ficava na regência do Império,<br />
como herdeira do trono. Sendo muitíssimo<br />
católica, uma das providências<br />
que ela teve mais empenho em<br />
tomar, na ausência do pai, foi anistiar<br />
Dom Vital.<br />
Uma vez libertado, Dom Vital<br />
voltou para Recife onde sua absolvição<br />
causou uma festa geral, sendo<br />
ele recebido apoteoticamente pelo<br />
povo. E foi para o Palácio da Soledade.<br />
Lindo título para um palácio<br />
de bispo; lembra a soledade de<br />
Nossa Senhora, ou seja, o estado em<br />
que Ela ficou só, no período entre a<br />
Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor.<br />
Então, Palácio da Soledade eu<br />
acho um nome imponente, lindíssimo.<br />
O Vigário Geral da Diocese tinha<br />
mandado pintar todo o palácio<br />
por fora e por dentro, e Dom Vital<br />
foi recebido com festas e permaneceu<br />
lá. Mas depois de ter passado<br />
algum tempo, ele declarou que ia a<br />
Roma para dar satisfações a Pio IX.<br />
Ele queria conversar sobre a carta,<br />
levava a missiva consigo.<br />
Em Lourdes, uma misteriosa<br />
voz infantil anuncia a vitória<br />
Ele partiu para Roma e foi recebido<br />
por Pio IX com frieza. O<br />
Papa comunicou-lhe que seria<br />
processado canonicamente e<br />
estudariam se ele estava ou<br />
não com a razão.<br />
De fato, o processo começou<br />
e ele compareceu<br />
às Congregações romanas<br />
competentes para prestar<br />
depoimento e depois viajou<br />
para Lourdes, onde estava<br />
começando o auge das<br />
curas milagrosas. Ali ele almoçou<br />
e foi fazer uma ses-<br />
ta, tendo um desses sonos em<br />
que as preocupações esvoaçam<br />
em torno da pessoa como<br />
morcegos. De repente, Dom Vital<br />
ouve uma voz de criança, que<br />
parecia vir do lado de fora do hotel,<br />
dizer: “Dom Vital, o processo está<br />
julgado, Vossa Excelência ganhou.”<br />
Ele se impressionou com aquilo,<br />
julgando que talvez fosse uma graça<br />
de Nossa Senhora, porque uma voz<br />
vinda da rua dizer-lhe isso em português,<br />
naquele tempo em que os turistas<br />
eram muito mais raros do que<br />
hoje, as viagens caras, difíceis, era<br />
uma coisa muito singular. Ele ficou<br />
impressionado e, algum tempo depois,<br />
recebeu um telegrama do representante<br />
dos capuchinhos em<br />
Roma, confirmando: “Seu processo<br />
está ganho.”<br />
Esse capuchinho escreveu a Dom<br />
Vital contando que a comissão de<br />
cardeais que devia julgar o caso dele<br />
permaneceu numa sala, à espera<br />
da hora marcada para o início do julgamento.<br />
Ali ele esteve com todos<br />
os cardeais antes de começar a reunião<br />
e, como representante da Ordem<br />
dos Capuchinhos, falava a favor<br />
de Dom Vital. Mas notou que todos<br />
os cardeais estavam contra.<br />
Quando eles se trancaram no recinto<br />
onde deveriam deliberar so-<br />
sailko (CC3.0)<br />
29<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 29 24/05/2019 09:43
PERSPECTIVA PLINIANA DA HISTÓRIA<br />
bre o assunto, o capuchinho ficou do<br />
lado de fora e já considerava o caso<br />
perdido. Não se sabe o que aconteceu,<br />
mas quando eles abriram a sala,<br />
estava pronto o decreto considerando<br />
Dom Vital inocente. Foi para ele<br />
uma vitória brilhantíssima!<br />
Pintam com tinta<br />
tóxica o quarto em que<br />
Dom Vital dormia<br />
Entretanto, outra provação se delineava<br />
no horizonte. Um padre, parente<br />
meu muito chegado, pernambucano<br />
de Goiana, e que era cônego,<br />
conhecido como Cônego Luís<br />
Cavalcanti, contou-me que ouviu isso<br />
do próprio secretário de Dom Vital,<br />
que viajava sempre com o Bispo<br />
de Olinda. Dizia este sacerdote brasileiro<br />
que Dom Vital era um fisionomista<br />
extraordinário e, tendo visto<br />
uma fisionomia, não esquecia mais.<br />
Em certo momento, ele disse para o<br />
secretário:<br />
— O senhor preste atenção: em<br />
todos os lugares aonde eu vou aparece<br />
sempre o mesmo homem, cuidadosamente<br />
disfarçado, me acompanhando,<br />
e sempre arranja um jeito<br />
de me saudar, fazendo-se de muito<br />
católico, querendo sempre saber<br />
para onde vou.<br />
Quando o fato se dava, depois de<br />
o homem ir embora, Dom Vital dizia<br />
para o secretário:<br />
— O senhor reconhece?<br />
O secretário afirmava que algumas<br />
vezes o homem estava tão bem<br />
disfarçado que ele por si não reconheceria,<br />
mas Dom Vital dizendo<br />
quem era, ele percebia. Outras vezes<br />
o secretário o reconhecia também.<br />
Dom Vital tratava o tal homem sempre<br />
com muita polidez.<br />
Dom Vital adoece de repente e<br />
começa a cuspir sangue junto com<br />
matéria orgânica preta, que parecia<br />
pedaços do pulmão. Chamaram<br />
os melhores médicos da França e todos<br />
diziam não ser tuberculose, mas<br />
não sabiam qual era a doença. Como<br />
não existia ainda a radiografia, eles<br />
só podiam diagnosticar por auscultação,<br />
e esta não indicava nada que<br />
ajudasse no diagnóstico. Para resumir,<br />
Dom Vital morreu.<br />
Houve naquela época, em Portugal,<br />
a morte de vários membros da<br />
Família Real portuguesa que atrapalhavam<br />
uma certa sucessão ao trono,<br />
e ninguém sabia do que morriam. Investigações<br />
feitas neste século provaram<br />
que na tinta utilizada para<br />
Dom Vital em 1879<br />
pintar as paredes dos quartos onde<br />
eles moravam era introduzida uma<br />
substância tóxica, que criava nos pulmões<br />
um processo de desagregação<br />
o qual levava à morte. Ao ser examinada<br />
a tinta do quarto de dormir<br />
de Dom Vital, foi detectada a mesma<br />
substância tóxica. Compreende-<br />
-se, então, por que Dom Vital morreu.<br />
❖<br />
(Extraído de conferências de<br />
30/11/1985 e 7/12/1985)<br />
Museu Paulista (CC3.0)<br />
30<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 30 24/05/2019 09:43
LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />
Cerimônia de investidura<br />
do cavaleiro medieval<br />
Quando um jovem era armado<br />
cavaleiro, o senhor de seu pai lhe<br />
entregava sua própria espada, dizendo:<br />
“Não a conquistei de um chefe<br />
sarraceno. Eu mesmo mandei forjá-la,<br />
e durante muito tempo a usei. Cabevos<br />
agora ser digno dela.” Na Idade<br />
Média todo mundo tinha um senhor,<br />
o qual era para com seu vassalo como<br />
um pai em relação a seu filho.<br />
Vamos comentar a descrição que Léon Gautier,<br />
em seu livro “A Cavalaria” 1 , faz da investidura<br />
do cavaleiro.<br />
As portas do heroísmo cristão, do<br />
martírio e do holocausto se abrem<br />
Daniel A.<br />
A noite desce sobre o velho donjon, e o mosteiro mais próximo<br />
encontra-se a uma légua. Rodeado por seus jovens pajens,<br />
o jovem que vai ser armado cavaleiro despede-se de sua<br />
mãe e de seus irmãos [...]. O caminho se faz alegremente,<br />
mas sem desordens [...]. A viagem não é longa, e eis que, de<br />
um momento para outro, percebe-se na penumbra o portal<br />
da igreja [...]. Os jovens entram alegres e recolhidos.<br />
Léon Gautier é um grande especialista em matéria de<br />
Idade Média, e por isso merece que se preste muita aten-<br />
31<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 31 24/05/2019 09:43
LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />
Flávio Lourenço<br />
ção a cada uma de suas palavras. Ele vai descrevendo a<br />
investidura do cavaleiro a partir dos seus mais remotos<br />
começos.<br />
O jovem deixa seu castelo para fazer a vigília de armas<br />
no mosteiro mais próximo. Ele vai acompanhado<br />
pelos seus pajens, jovens como ele e da mesma classe social,<br />
que mais tarde serão, eles próprios, cavaleiros também.<br />
Vão alegres para a vigília, mas, assinala o autor,<br />
sem barulho. Quer dizer, não é uma alegria estúrdia, tola,<br />
mas é um júbilo no qual se manifesta a admiração,<br />
o respeito pela ação que vai ser feita e, por causa disso,<br />
uma alegria cheia de recolhimento.<br />
O que quer dizer recolhimento neste caso? Uma alegria<br />
sem dissipação, na qual a pessoa tem em mente a alta<br />
razão pela qual está alegre: “Meu amigo vai receber<br />
a condição de cavaleiro pelo sacramental da Cavalaria,<br />
que um dia eu devo receber também. As portas do heroísmo<br />
cristão, do martírio, do holocausto se abrem, portanto,<br />
para ele. Que coisa linda! Eu admiro, respeito isso!<br />
Alegro-me em que meu companheiro vá receber esta<br />
graça.”<br />
Combatente na defesa da Civilização Cristã<br />
e para a expansão do Reino de Maria<br />
Esta alegria é verdadeira na medida em que ela conserve<br />
sempre a recordação dos seus próprios motivos. É<br />
diferente do gáudio do tonto que começa a se alegrar por<br />
uma razão boa e daqui a pouco está se regozijando por<br />
São Martinho de Tours entrega a metade de sua capa<br />
ao mendigo - Museu de Cluny, Paris, França<br />
uma asneira e se alegra como um asno. A alegria recolhida<br />
é diferente. É o júbilo da posse ou da expectativa da<br />
posse iminente daquilo que é superior. É esta a alegria<br />
que leva, pelas tranquilidades das serranias e dos campos<br />
da Idade Média, o grupo de jovens ao mosteiro que<br />
os espera.<br />
Não se distingue mais nada a não ser um grande foco luminoso,<br />
ao fundo, em uma das capelas. É lá que se realizará<br />
a vigília de armas, nessa capela consagrada a São Martinho,<br />
como indica um vitral que representa o Santo em trajes<br />
de cavaleiro, dando a um mendigo a metade de sua capa.<br />
Por uma dessas sínteses muito felizes em que aparece<br />
o gênio, a santidade e a sabedoria da Igreja Católica,<br />
o cavaleiro não é apenas combatente; é glorioso sê-lo na<br />
defesa da Civilização Cristã e para a expansão do Reino<br />
de Maria na Terra. E porque é terrível no combate,<br />
odiando o erro, mas sem ódio àquele que errou, ao mesmo<br />
tempo em que ele é um herói formidável, é um homem<br />
cheio de caridade. E por isso ele luta pelas viúvas,<br />
pelos órfãos, pelos pobres, é altamente esmoler. Não possui<br />
muito dinheiro consigo, porque não tem ocasião para<br />
fazer riqueza; ele não é um burguês, dono de uma padaria<br />
ou de uma casa onde se vendem tecidos, e que vai tirando<br />
e acumulando lucros, mas um homem desprendido,<br />
que sem outros interesses percorre a Terra para defender<br />
o Reino de Cristo. Então, ele tem pouco dinheiro,<br />
mas é esmoler.<br />
O vitral representa o episódio em que São Martinho<br />
de Tours, grande cavaleiro, ao mesmo tempo um símbolo<br />
da nação francesa, passando durante<br />
o inverno por um lugar onde<br />
há um pobre tiritando de frio,<br />
divide sua capa e dá metade dela<br />
ao indigente. Esse ato de amor<br />
ao próximo por amor de Deus deve<br />
ser praticado por aquele que,<br />
também por amor de Deus, vai<br />
combater e até odiar o próximo<br />
quando este se transforma num<br />
fautor, propagandista, baluarte<br />
do erro ou do mal.<br />
Eram as vésperas de Pentecostes.<br />
Foi escolhida, portanto, para<br />
receber a investidura da Cavalaria<br />
a lindíssima festa em que a<br />
Igreja celebra a descida do Espírito<br />
Santo sobre os Apóstolos e a<br />
transformação completa da mentalidade<br />
deles, de homens que tinham<br />
mostrado um espírito tão<br />
diferente do cavaleiro, fugindo<br />
quando Nosso Senhor foi preso,<br />
32<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 32 24/05/2019 09:43
e que recebendo o Espírito<br />
Santo se tornaram<br />
os primeiros cavaleiros<br />
de Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo, que foram sem<br />
dúvida os Apóstolos, verdadeiros<br />
heróis da Fé.<br />
Ao mesmo tempo<br />
em que mata o<br />
herege, o cavaleiro<br />
reza para que<br />
ele se salve<br />
Virgen del Castillo - Paróquia dos Ginés, Madri, Espanha<br />
Os futuros cavaleiros<br />
começam sua vigília invocando<br />
a Mãe de Deus.<br />
A noite será longa. É-lhes<br />
proibido sentar-se por um<br />
só instante.<br />
Por que “os futuros<br />
cavaleiros”? Porque os<br />
pajens do jovem um dia<br />
também serão cavaleiros<br />
e fazem junto a vigília.<br />
Um dos traços lindos<br />
da Idade Média é a devoção<br />
a Nossa Senhora. A<br />
vigília começa pedindo<br />
o auxílio da Medianeira<br />
de todas as graças, por meio da qual tudo se consegue e<br />
sem a qual coisíssima nenhuma se obtém.<br />
Proibido sentar-se um só momento; fica-se em pé ou<br />
ajoelhado a noite inteira. Alguém me dirá: “Mas é duro!”<br />
Esta é uma dureza minúscula em comparação com<br />
as outras agruras que deverá enfrentar o cavaleiro ao<br />
longo de sua vida. Ele entra na vida dura. E a razão de<br />
ser de todas essas festas é que é dura a via para a qual<br />
ele entrou. Se entrasse para uma via mole, tais festas seriam<br />
uma tolice. O motivo é que ele, por amor a Deus e a<br />
Nossa Senhora, ingressou na via dura.<br />
Eles rezam por si e pelos seus [...]. Pensam nos rudes golpes<br />
de lança que eles darão, talvez também naqueles que receberão.<br />
Oram provavelmente por aqueles que receberão seus<br />
golpes de lança. Aqui vemos caracterizado o amor ao<br />
próximo, por amor de Deus. Eles dão uma estocada no<br />
maometano ou no herege albigense e o derruba por terra,<br />
mas desejam a salvação eterna do homem que estão<br />
abatendo. Jogam no chão, mas não querem lançá-lo no<br />
Inferno. Ao mesmo tempo em que o matam, rezam para<br />
que ele se salve. São<br />
Bernardo chega a dizer<br />
que o guerreiro que luta<br />
com ódio pessoal é como<br />
um assassino, mas<br />
quem combate por um<br />
ódio doutrinário, porque<br />
aquele indivíduo adotou<br />
o erro e por isso deve ser<br />
combatido, este serve a<br />
Deus.<br />
Missa especial para<br />
armar o cavaleiro<br />
Eles pensam no grande<br />
dia que se levanta para<br />
eles, no elmo, [...] no gume<br />
de sua espada; rezam<br />
mais uma vez. Enfim uma<br />
pequena luz branca penetra<br />
no santuário que pouco<br />
a pouco vai se tornando<br />
claro. Não há dúvida,<br />
é a aurora.<br />
É muito bonita esta<br />
ideia: uma noite inteira<br />
de vigília, e depois<br />
uma pequena luz que entra<br />
aqui, lá, acolá, e as<br />
primeiras claridades da<br />
manhã penetram pelos vitrais do santuário onde estão<br />
os futuros cavaleiros que vão lutar pela glória de Deus,<br />
de sua Igreja e da Civilização Cristã.<br />
Então um barulho de passos se faz ouvir na igreja. Um<br />
sacerdote chega e se prepara para celebrar a Missa [...]. Essa<br />
Missa é muito solene e de muito remota origem. Ela é<br />
muito anterior à vigília de armas que os antigos não conheciam<br />
[...]. Mais tarde o noviço fará uma confissão geral e<br />
se aproximará do Sacramento da Eucaristia. No século XII<br />
ainda não se faz alusão a esta Comunhão. Enfim a última<br />
bênção do padre libera o jovem e seus companheiros que se<br />
dirigem para o portal da igreja. São seis horas da manhã. O<br />
ar é fresco e eles têm fome.<br />
Notem com que naturalidade isso é apresentado. Depois<br />
de uma coisa tão sublime, este pormenor: eles têm<br />
fome. Eis a naturalidade da Igreja que, tendo elevado os<br />
espíritos às mais altas considerações, cuida também do<br />
mais comum, porque tudo está dentro da ordem posta<br />
por Deus, harmonizado. O Criador quis que os homens<br />
tivessem fome de oração, mas também fome de pão. E a<br />
Igreja, ao mesmo tempo, estimula à oração e abençoa o<br />
Samuel Holanda<br />
33<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 33 24/05/2019 09:43
LUZES DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ<br />
Angelo L.<br />
Castelo de Bragança, Portugal<br />
pão. Tudo está numa sequência em que a harmonia incomparável<br />
do espírito católico se faz sentir.<br />
Aparentes oposições são próprias<br />
do gênio e do espírito da Igreja<br />
A volta para casa se faz novamente com alegria. Mas desta<br />
vez uma alegria mais vivaz. É bastante natural, depois<br />
de dez horas de meditação e de oração.<br />
O recolhimento deu-lhes certa necessidade de se expandirem.<br />
Voltam mais alegres porque suas almas estão<br />
penetradas de Deus. Depois de uma longa oração não se<br />
deve imaginar que o próprio é regressar para casa cansado,<br />
dizendo: “Puxa! Onde está a cama para eu ir correndo<br />
deitar-me?” Não. A alma que aproveitou bem a<br />
oração volta animada para a vida diária, e não preguiçosa.<br />
No castelo a mesa está posta. O futuro cavaleiro faz honra<br />
ao pão branco e às peças de caça que estão colocadas na<br />
mesa.<br />
É, portanto, um desjejum vigoroso, com carnes, etc.<br />
Ele está alegre, comungou, encontra-se em estado de<br />
graça, prevê a festa e a cruz que se segue àquela.<br />
É preciso tomar forças para a solenidade que está próxima.<br />
O dia será duro e belo [...]. Logo depois desta refeição<br />
matinal, a cerimônia de investidura do cavaleiro começa.<br />
O autor passa a descrever lentamente todas as partes<br />
da cerimônia na qual se arma o cavaleiro. É muito<br />
curioso ver como a Igreja vai aos poucos civilizando os<br />
povos. Aqueles eram tempos bárbaros<br />
nos quais o banho não era<br />
uma preocupação da pessoa. Como<br />
a Igreja promove o bem em<br />
tudo quanto faz e de todos os modos<br />
possíveis, mesmo naquilo<br />
que não está diretamente na sua<br />
missão, ela estabelece na cerimô-<br />
nia da investidura do cavaleiro<br />
um banho: o futuro cavaleiro tem<br />
que se banhar. Precaução altamente<br />
útil naquele tempo, ainda<br />
mais que não havia água encanada<br />
e o banho não era simples como<br />
em nossos dias.<br />
O banho era realizado numa<br />
tina com água de rosas. E aqui<br />
está mais um desses paradoxos<br />
magníficos da Igreja: o homem<br />
vai ser armado de aço da cabeça<br />
aos pés; pois bem, esse homem<br />
é preparado pela prece,<br />
depois por um banquete e, em seguida, um<br />
banho de água de rosas para chegar todo perfumado<br />
dentro da armadura. Essas aparentes<br />
oposições são próprias do gênio e<br />
do espírito da Igreja que faz tudo assim.<br />
Cerimônia de sua investidura<br />
Chega, então, o momento solene da investidura:<br />
O senhor de seu pai se dirige direto rumo a ele segurando<br />
a espada. A famosa espada tão ardentemente da, suspensa num rico talabarte.<br />
Por que o senhor do pai dele? Isso é muito bonito. Nós<br />
estamos numa sociedade feudal onde todo mundo tem<br />
um senhor. Houve um rei da França que fez um decreto<br />
dando ordem a todos os homens que ainda não tinham<br />
senhores que escolhessem um, mas todos deveriam ter<br />
um senhor. E o senhor era para com seu vassalo como<br />
um pai em relação a seu filho. Assim como numa festa<br />
em família, estando presente o avô, a presidência caberia<br />
naturalmente a ele, também o senhor do pai do neocavaleiro<br />
foi convidado para presidir essa grande festa.<br />
É ele, então, que vai armar o cavaleiro. É a presença do<br />
vínculo feudal, misturando a autoridade familiar com a<br />
desejado<br />
Estado.<br />
Dizia-se de um modo muito belo no Ancien Régime,<br />
continuador de tantas tradições medievais: o pai é o rei<br />
de seus filhos e o rei é o pai dos pais. Este era o pensamento,<br />
que vemos expresso nessa cerimônia.<br />
Quando o rapaz vê aproximar-se a espada com o talabarte,<br />
fecha os olhos e se recolhe. E o senhor do pai dele faz um<br />
Daniel A.<br />
34<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 34 24/05/2019 09:43
discurso: “Esta espada, eu não a conquistei de um chefe sarraceno.<br />
Fiz forjá-la eu mesmo, durante muito tempo a usei.<br />
Cabe-vos agora ser digno dela.”<br />
Que coisa bonita! O indivíduo recebe, portanto, a própria<br />
espada daquele que é suserano de seu pai, o qual<br />
diz: “Isso vale muito mais do que se fosse de um sarraceno;<br />
usou-a um herói católico. Agora você vai utilizá-la,<br />
torne-se digno dela. Tenha respeito por essa espada que<br />
foi empregada dignamente no serviço de Deus. Seja ela,<br />
nas suas mãos, utilizada do mesmo modo.”<br />
O jovem oscula respeitosamente o pomo da espada,<br />
que é oco e contém habitualmente augustas relíquias.<br />
Honra , delicadeza e força<br />
Enfim, o pai do novo cavaleiro se aproxima por<br />
sua vez: “Curva a cabeça que eu te vou dar a colée”.<br />
É um golpe que o pai dá no filho para torná-lo cavaleiro.<br />
Não é uma coisa puramente protocolar.<br />
Não é um golpe ligeiro que ele acena sobre a nuca de seu<br />
filho, mas sim um formidável golpe com a sua palma direita.<br />
O jovem quase cambaleia. Diz o pai: “Cavaleiro sejas, ó meu<br />
belo filho, e corajoso em face de teus inimigos!”<br />
Essa tapona é como quem diz: “Muitas virão, muitas<br />
receberás; seja a primeira a de teu pai para te ensinar a<br />
reagir como herói.” Eu acho isso perfeito. Não há nada<br />
mais que replicar.<br />
“Eu o serei, se Deus me ajudar”, responde o novo cavaleiro.<br />
Nada, portanto, de presunção: “Ó, meu pai, deixe comigo...”<br />
Não! Humildade: “Sem o auxílio de Deus, não<br />
serei; mas se Ele me ajudar, eu serei, ó meu pai.”<br />
Ouvem-se barulhos e gritos. As pessoas se afastam. Um<br />
relinchar claro se distingue. É a entrada dos cavalos. São cavalos<br />
enormes, magníficos. Eles chegam conduzidos pelos escudeiros.<br />
O cavalo de nosso barão é um presente de seu senhor.<br />
Ele é jovem, mas de raça e tem o nome de Veillantif, como<br />
o cavalo de Roland. Assim que o animal é trazido, o novo<br />
cavaleiro o abarca com um só olhar e dá alguns tapinhas<br />
amigáveis no pescoço; depois, de um salto só, ele se põe na<br />
sela, sem tocar no estribo.<br />
Para mostrar que a coisa é séria, para valer. Portanto,<br />
mais uma vez, delicadeza e força.<br />
Então lhe trazem suas duas últimas armas, as quais não<br />
se dão a não ser quando o cavaleiro está na sela: o imenso<br />
escudo que cobre um homem inteiro, e a lança que tem oito<br />
pés de altura.<br />
É muito bonito receber ali essas armas!<br />
Sobre o escudo está pintado o brasão da família.<br />
O símbolo da família nem sempre é pintado, mas em<br />
relevo no próprio metal, lembrando ao cavaleiro que a<br />
partir daquele momento toda a honra da família está relacionada<br />
com a coragem que ele tenha no campo de batalha.<br />
Se for valente, ele continua aquele rio de virtude,<br />
de coragem, que é o curso de sua família através da História;<br />
se for um poltrão, pelo contrário, vai envergonhar<br />
a sua família e todo o seu passado; mais ainda, transmitirá<br />
a seus filhos um nome desonrado, maculado.<br />
No alto da lança flutua um estreito e longo gonfalão com<br />
três faixas de pano. Não resta mais ao nosso barão senão<br />
provar que ele é bom cavaleiro.<br />
Está um final bem francês, elegante, bem-apanhado.❖<br />
(Continua no próximo número)<br />
(Extraído de conferência de 11/2/1977)<br />
1) Cf. GAUTIER, Léon. La Chevalerie. Cholet: Edition Pays &<br />
Terrois, 1999. p. 314-330.<br />
35<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 35 24/05/2019 09:43
Dormição de Nossa Senhora - Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Transbordante de dons celestiais<br />
mbora sempre cheia de graça, houve um determinado momento em que Maria Santíssima,<br />
Epor sua perfeitíssima fidelidade e gratuita predileção de Deus para com Ela, adquiriu a nitude de dons celestiais correspondente: o instante em que Ela Se tornou Esposa do Espírito<br />
ple-<br />
Santo e Mãe do Salvador.<br />
A santificação de Nossa Senhora continuou até o momento em que, depois da Ascensão de Jesus<br />
Cristo, recebeu o Espírito Santo para distribuí-Lo a toda a Igreja, pois em Pentecostes o Paráclito desceu<br />
sobre Ela na forma de uma chama que se derramou sobre todos os Apóstolos.<br />
Por fim, quando Lhe era como que impossível crescer em santidade, de tal maneira sua alma estava<br />
repleta de celestiais dons, a Mãe de Deus teve a sua “dormição”, como é chamada sua morte, por<br />
uma linguagem teológica muito apropriada e poética.<br />
Com efeito, foi da plenitude recebida por Maria que todas as graças vieram para os homens. Assim,<br />
a humanidade inteira se beneficia do transbordamento das graças da Santíssima Virgem.<br />
(Extraído de conferência de 4/8/1965)<br />
<strong>Revista</strong>_<strong>Dr</strong><strong>Plinio</strong>_<strong>255</strong>.indb 36 24/05/2019 09:43