Fundamentos do Jornalismo

arlinelins

Revista criada com textos dos alunos da disciplina Fundamentos do Jornalismo 2019.1 da Universidade Católica de Pernambuco.

p. 3

JORNALISMO ESPORTIVO

Reportagem com o apresentador do Globo

Esporte PE e o administrador do Podcast 45

revela os desafios desse gênero na atualidade

fundamentos do

jornalismo

p. 8

JORNALISMO INDEPENDENTE

Conheça um pouco da experiência da

Marco Zero Conteúdo em uma entrevista

com a jornalista Carol Monteiro

p. 14

JORNALISMO CULTURAL

Conversa com a editora da Revista Continente,

Adriana Dória, estimula discussão sobre o que é

cultura e jornalismo cultural


EXPEDIENTE

Edição: Cláudio Bezerra | Arline Lins

Diagramação: Arline Lins

Textos:

Alice Girão

Aline Vaz Curado

Camila Mendonça

Camila Rodrigues

Cláudia Rodrigues

Felipe Santana

Hadassah Carneiro

Hugo Galli

João Paulo Ribeiro

João Pedro Sousa

João Pedro Melo

Luis Lucena

Maria Eduarda Lavoisier

Maria Fernanda Queiroz

Wanderson Silva

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

Curso de Jornalismo

1º período | Fundamentos do Jornalismo 2019.1

Rua do Príncipe, 526, Boa Vista, Recife

Ilustração de Capa e Contracapa: freepik.com

2

EDITORIAL

O jornalismo é uma atividade profissional de

múltiplas faces e várias áreas de atuação. Foi

com esse entendimento que lançamos o desafio

aos alunos e alunas da disciplina Fundamentos

do Jornalismo de pesquisar, refletir e compartilhar

a experiência de conhecer de perto as áreas

de cultura, de esportes, da assessoria, do jornalismo

independente e do jornalismo comunitário.

Os resultados foram apresentados em sala de

aula por meio de seminários e agora estão aqui

nesta revista, em forma de matérias e entrevistas.

Mesmo cursando o primeiro período do curso,

a turma respondeu bem ao desafio e demonstrou

aptidão para exercitar algumas habilidades

necessárias para a prática do jornalismo: ouvir,

apurar e informar. Boa leitura!

Os editores


JORNALISMO

ESPORTIVO

João Pedro Melo

Hugo Galli

Maria Eduarda Lavoisier

3

Background photo created by jcomp - www.freepik.com

Ocomentarista Paulo Vinicius Coelho (PVC) fala, no livro Jornalismo Esportivo

(2004), que “talvez não haja área do jornalismo tão sujeita a intempéries quanto

a própria cobertura de esportes. O profissional enfrenta preconceito dos

próprios colegas, que consideram uma editoria menos importante, e também

do público, que costuma tratar o comentarista ou repórter esportivo como um

‘mero palpiteiro”. Por ser um assunto popular e que atrai o interesse da população em geral

pelo menos a cada dois anos, durante as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol, a cobertura

esportiva é vista como mero entretenimento, como um show que atrai multidões. Mas por traz

desses espetáculos, há o trabalho de milhares de profissionais desenvolvido diariamente em redações

de jornais, televisão e rádio. Uma atividade que traz informação, história, além das transmissões

dos eventos esportivos. A esse trabalho dá-se o nome de Jornalismo Esportivo.


4

A depender do meio em

que se trabalha, há diferentes

visões sobre a prática

do jornalismo esportivo.

Mas há uma coisa em comum

a todos: a necessidade

constante de inovar para

ter um diferencial e manter

o interesse do público. O

crescente número de acessos

em podcast, tem sido

principalmente, os que tem

como conteúdo o futebol ou

esportes em geral, e é uma

visão bastante distinta de

outros meios, já que o meio

do podcast, é considerado

“novo”.

Para Celso Ishigami, apresentador

e administrador de

um dos maiores podcast esportivos

do Brasil (Podcast

45), existe um mercado inovador

para o jornalismo esportivo

nos podcasts, e se

reinventar é necessário para

se desprender das grades

de programação propostas

ao público pelos meios de

comunicação em massa. “A

autenticidade é necessária

no podcast, porque se

o indivíduo se apresentar

seguindo os padrões já estabelecidos

e opinando sem

um diferencial, ele vai ficar

Celso Ishigami explica como é o mercado de podcast no jornalismo esportivo

na mesmice, pois muita gente

sabe fazer o básico. Para

o podcast é necessário fazer

diferente, claro, sem perder

a essência do conteúdo esportivo”,

declara Ishigami.

Já a televisão é um meio

bastante tradicional, mas

hoje divide espaço com os

portais da internet como

alvo de consumo de notícias

esportivas pelos fanáticos

torcedores. De acordo com

o apresentador do Globo

Esporte Pernambuco, da TV

Globo, Tiago Medeiros, as

emissoras também estão

promovendo mudanças na

cobertura esportiva.

Tiago conta que o jornalismo

esportivo tem se

unido ao entretenimento, e

exemplifica isso com o quadro

“Caldinho do GE”, que é

exibido todas as terças-feiras

no Globo Esporte PE, e

busca brincar com os torcedores

dos times pernambucanos,

usando como plano

de fundo um patrocinador

alimentício forte. Parece

que o entretenimento é um

aliado forte do jornalismo

esportivo, principalmente

quando falamos de futebol.

Fotos: reprodução de vídeo

Tiago Medeiros

gravando chamada do

Globo Esporte PE.


História

O que chamamos hoje “jornalismo esportivo”

surgiu em Londres, na Inglaterra no

século XIX, por meio do diário de esportes

Sportsman e os relatos eram feitos através

de telégrafos. Em 1856 a imprensa espanhola

criou uma revista chamada El Cazador

voltada para a prática da caça. Alguns

anos mais tarde, ainda na Espanha, surgiu

a revista El Sport Español, que mostrava

notícias relacionadas a atividades físicas e

passou a ganhar a atenção do público em

proporções cada vez maiores. Em Barcelona,

por volta dos anos 1900, foi criado o

jornal El Mundo Desportivo, cujo principal

atrativo se resumia em publicar notícias

sobre atletismo, automobilismo, ciclismo e

ginástica. Além disso, incentivava os jovens

a praticar esportes. No ano de 1916 foi criada,

em Madrid, a primeira revista esportiva

direcionada para o turismo, destacando

os locais em que os torneios e competições

eram realizados, com grande uso de fotografias.

Na Itália, curiosamente o jornal

Gazzetta dello Sport, foi lançado poucos

dias antes dos jogos olímpicos de Atenas, o

primeiro da era moderna. Na década de 20,

o futebol passou a ganhar mais destaque

nos noticiários tanto europeus quanto sulamericanos.

Foram formadas as primeiras

equipes especializadas, sobretudo na área

futebolística, valorizando o uso de opiniões

e fotografias. O rádio fez sua primeira

transmissão também nessa época, a qual foi

ininterrupta.

As lutas de boxes caracterizaram o principal

produto esportivo dos Estados Unidos.

Segundo alguns historiados isso contribuiu

para a popularização do rádio, transformando

as transmissões em verdadeiras

jornadas.

A primeira transmissão televisionada ocorreu

em Berlim, durante os jogos Olímpicos

e durou até o fim do evento. Era televisionado

apenas para o público presente nas

quadras e estádios. Deste modo, a televisão

transformou as coberturas em espetáculos,

atingindo proporções ainda maiores. Em

1937 e 1940 a BBC realizou, respectivamente,

a transmissão do Torneio de Wimbledon,

na Inglaterra, e uma partida de

beisebol realizada nos Estados Unidos. Daí

em diante, diversas transmissões esportivas

passaram a ser realizadas.

Em 1954, surge nos Estados Unidos a revista

Sports Illustrated que se tornou o maior

veículo impresso da época. Na década de

1990 foi criado o pay-per-view, na Inglaterra,

transformando o esporte como o

principal produto das emissoras de TV por

assinatura.

De acordo com PVC, o jornalismo esportivo

começa no Brasil em 1910, com relatos de

folha inteira dos times amadores italianos

em São Paulo, no jornal Fanfulla. Não era

um jornal das elites paulistanas, mas atingia

o crescente número de italianos na cidade.

Em uma de suas edições, convocava os

italianos a montar um clube, e assim nascia

o ‘Palestra Itália’, que durante a Segunda

Guerra mudaria de nome para ‘Sociedade

Esportiva Palmeiras’. Essa e outras informações

históricas – não só sobre futebol, mas

de outros esportes, como o primeiro jogo

de basquete no Brasil – estão conhecidas

graças ao Fanfulla. Ainda assim, eram apenas

relatos, não era o jornalismo esportivo

de hoje. Outros jornais, como o Correio

Paulistano, dedicavam apenas 3 colunas

para futebol e turfe. O remo, esporte mais

popular da época, que deu origem a maioria

dos clubes esportivos brasileiros, como

o Botafogo de Futebol e Regatas e o Clube

Náutico Capibaribe, não era suficientemente

importante para ser assunto de capa.

Em Pernambuco, o pioneirismo da crônica

esportiva fica por conta de Adonias de

Moura (1924-1996). Ponta-esquerda de Santa

e Sport na década de 40, saiu dos gramados

na década seguinte e trabalhou na

Folha da Manhã, na sucursal da Manchete

Esportiva e no Diário de Pernambuco,

onde atuou por quase 20 anos assinando a

coluna Dentro e Fora das Quatro Linhas.

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ASSESSORIA

DE IMPRENSA

João Paulo Ribeiro

Luis Lucena

Maria Fernanda Queiroz

6

Foto cedida pela Dupla Comunicação

Os primeiros

registros

da atividade de assessoria de

imprensa são de 1906, nos Estados

Unidos, quando o jornalista

Ivy Lee consegue reverter

a imagem negativa do empresário

John Rockfeller, acusado

de mandar matar os seus empregados

durante uma greve.

Lee conseguiu construir uma

imagem positiva da empresa

e do seu dono junto à opinião

pública ao apostar numa relação

aberta e informativa com a

imprensa. No Brasil, a demanda

por profissionais com esse perfil

se deu a partir do processo

de industrialização do país,

sobretudo na década de 1950,

com a chegada das empresas

automobilísticas. O assessor

de imprensa tem a função de

criar uma ponte entre a empresa

(ou pessoa física), e a

imprensa. À medida em que

a globalização e a tecnologia

evoluem, empresas dos mais

variados ramos são criadas.

Em uma sociedade imersa nas

mídias sociais, as empresas

necessitam de um profissional

para administrar e cuidar da

forma como ela se comunica

com o público. Portanto,

nota-se uma grande demanda

de assessores de imprensa, já

que é cada vez mais necessário

para os clientes estarem nesse

mundo virtual da maneira correta..

Segundo a Fenaj, cerca de

60% dos jornalistas do estado

do Ceará, por exemplo, trabalham

em assessoria e gestão

de mídias sociais.

No Recife, uma das maiores

empresas desse

ramo é a Dupla Comunicação.

De acordo Eduardo Sena, o

dos diretores da empresa,

um assessor deve trabalhar

pensando estrategicamente

na melhor forma de transmitir

informações do assessorado

para a sociedade, e da opinião

pública para o assessorado. “A

gente trabalha com editoração,


Foto cedida pela Dupla Comunicação

que são publicações e revistas,

produção de documentário e

produção de pesquisa para

documentário, gerenciamento

de crise, media training, que é

burilar o tratamento da fonte

com a imprensa. Então, o

profissional que hoje trabalha

na Dupla tem que responder a

essas expectativas, trazer sua

expertise de comunicação e

alinhar-se com as expectativas

do cliente e o objetivo dele

com a comunicação”, declara

Sena. Ou seja, o jornalista

desse ramo é responsável pela

administração da imagem de

um determinado cliente, seja

pessoa física, jurídica ou até o

próprio governo, como é o caso

das assessorias públicas.

Uma questão importante

acerca dessa função

está nas habilidades provenientes

do curso de graduação.

Há quem defenda que não

há necessidade do assessor

ser formado em jornalismo e,

sim, em Relações Públicas. As

competências que o profissional

adquire no curso em que se

formou são essenciais para um

bom desempenho no mercado

de trabalho. A preferência pelo

curso de Relações Públicas é

baseada nas aptidões provenientes

desse curso para lidar

com o público. Eduardo deixa

bem claro como é vista essa

situação pelos olhos de uma

empresa já consolidada no

mercado. “As habilidades que o

jornalismo concede para quem

se forma nele são habilidades

que a gente necessita no dia

a dia, então talvez por isso a

gente tenha um maior corpo

de jornalistas na nossa equipe.

O profissional de Relações

Públicas no Brasil, com o decorrer

dos anos, perdeu força.

Se tornou muito anacrônica

essa figura, porque o Relações

Públicas, obviamente que trabalha

sério, mas funciona como

uma espécie de lobista. Ele não

tem uma estratégia de comunicação

por trás”, aponta. Nota-se

portanto, a importância

da formação jornalística para

exercer a função de assessor..

Existe um segmento que

estuda as organizações

e suas relações, chamada de

Teoria Organizacional. Uma das

coisas que esta teoria pontua

é a relação entre as instituições

e a produção de informação.

Devido ao seu caráter

coercitivo, uma instituição

exerce influência e submete o

jornalista às suas diretrizes.

Consequentemente, o assessor

decide se adequar ou não a essas

condições. Essa situação é

bastante presente no mercado

de trabalho, entretanto acaba

se destacando quando um assessor

exerce suas funções no

âmbito público, ou seja, trabalhando

para o governo. Muitos

encaram o jornalismo como

o quarto poder, que denuncia

as ilegalidades. Será que esse

jornalista que se acomoda às

exigências do governo está

exercendo sua função de forma

plena ? A resposta vai de cada

um, mas é inegável que essa

discussão traz à tona um grande

conflito profissional.

Infere-se, portanto, que o

assessor tem uma função

essencial para o jogo empresarial,

assim como para o manejo

da imagem de qualquer cliente.

Embora existam algumas

questões polêmicas em relação

ao papel jornalístico do trabalho

do assessor, a exemplo da

sua formação acadêmica e as

relações com o poder público,

é inegável que trata-se de uma

área muito requisitada, motivo

pelo qual mais e mais profissionais

decidem segui-la.

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JORNALISMO

INDEPENDENTE

Alice Girão

Camila Rodrigues

Wanderson Silva

8

Foto: Reprodução da Internet/Marco Zero Conteúdo

Com o fim da Era Industrial Analógica,

um novo ciclo estava se formando nas

décadas finais do século XX: a Era Digital,

também conhecida como Era da Informação.

Esse período marcou o início de grandes

transformações em diversos campos da vida

social, sobretudo, na comunicação. No início

do século XXI, as inúmeras facilidades do

mundo digital foram rapidamente assimiladas

pela sociedade. Com o advento das redes

sociais, pouco a pouco os meios de comunicação

de massa foram perdendo a exclusividade

de informar. Os movimentos sociais também

cresceram e passaram a questionar a capacidade

da grande imprensa de produzir uma

informação isenta, em função dos compromissos

políticos e econômicos das corporações

midiáticas. É nesse contexto em que a mídia

independente cresce. Com a tecnologia sendo

uma forma muito mais acessível para produção

de conteúdo, além da ubiquidade que

ela proporciona, o jornalismo independente

floresce como nativo digital, atendendo às

necessidades de quem buscava alternativas


entrevista

Carol Monteiro

Jornalista

Marco Zero Conteúdo

à grande imprensa. Aliado à ideia de que a

democracia é necessária e positiva para a sociedade

em geral, o jornalismo independente

tem como objetivo seguir à risca o modelo jornalístico

ocidental, ou seja, não ser vinculado

financeiramente a qualquer instituição, seja

pública ou privada, a fim de manter a imparcialidade

ao transmitir o conteúdo e garantir

um jornalismo de qualidade. Embora a ideia

de não receber financiamento algum de qualquer

instituição seja admirável, nem todos os

veículos independentes conseguem se manter

assim: muitos sites independentes recebem

auxílio de instituições, mas não limitam em

seu conteúdo por causa dos anunciantes. Na

prática, o que torna uma mídia independente

é o fato dela não pertencer às grandes corporações

midiáticas. .

No cenário regional, a “Marco Zero Conteúdo

é um grande exemplo de jornalismo

independente. O site é formado por

um coletivo de jornalistas, os quais já trabalharam

na grande mídia, mas perceberam as

limitações impostas a eles como profissionais

dentro desse universo dos veículos e, dessa

forma, juntaram-se e abraçaram o jornalismo

independente. Em suas publicações, há um

foco para o jornalismo investigativo acerca

de três temáticas principais: semiárido nordestino,

urbanismo e relações de poder. Além

disso, o site se compromete a fazer cobranças

às promessas e obrigações assumidas por políticos

e empresas, praticando um jornalismo

com função social. A sobrevivência financeira

da Marco Zero depende de parcerias que o site

faz com organizações e fundações internacionais.

O coletivo de comunicação também presta

serviços, como consultorias, realizações de

cursos e palestras, mas, principalmente, conta

com as doações e colaborações dos leitores.

Uma das jornalistas que fazem parte do coletivo

da “Marco Zero” é Carol Monteiro. Formada

pela Universidade Federal de Pernambuco e

atuante como professora dos cursos de Jornalismo

e Fotografia na Universidade Católica de

Pernambuco, Carol também é diretora de cursos

e projetos da “Marco Zero Conteúdo” e nos

concedeu uma entrevista para falar sobre a mídia

independente:

WANDERSON: A grande imprensa sobrevive,

sobretudo, de seus anunciantes. Há relatos de

jornalistas que já foram impedidos de publicar

matérias de grande impacto devido às consequências

negativas que poderiam surgir para

os anunciantes do jornal. Qual a sensação de

trabalhar na mídia independente? ?

CAROL MONTEIRO: Eu acho que é gratificante.

Trabalhei 17 anos na redação de um

grande jornal da mídia tradicional e nos últimos,

particularmente, eu vinha muito insatisfeita

principalmente com essas relações de poder, que

envolvia também essa questão dos anúncios.

Além disso, insatisfeita também com a qualidade

do conteúdo e trabalho que estava fazendo,

fora as condições de trabalho. Foi muito desafiador,

mas também, sim, gratificante tentar

fazer algo diferente, buscando novas formas de

narrativas, novos modelos de negócio e trazer

esse jornalismo independente aprofundado, de

qualidade e investigativo: o que a Marco Zero

se propõe a fazer. Praticar o jornalismo em sua

essência e sermos inovadores.

W: Vocês praticam um jornalismo investigativo

sobre temas polêmicos, como a questão do

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10

semiárido nordestino, o urbanismo e as relações

de poder. Já houve na história da “Marco Zero”

alguma situação de ameaça?

CM: Não, diretamente não. Nunca sofremos

um processo, por exemplo. O que não acho que

seja resultado da passividade das pessoas que

denunciamos ou investigamos, mas, sim, fruto

da qualidade do trabalho, visto que temos uma

preocupação muito grande com o credibilidade,

métodos e processos para produção de uma matéria.

Em razão disso, nunca sofremos nenhum

processo ou ameaça. Algo que já aconteceu foi de

pessoas não quererem falar conosco, então, ainda

há um certo desdém e rejeição por parte dos

indivíduos com a mídia independente, diferentemente

da situação da grande mídia.

W: A “Marco Zero” é mantida por intermédio

de parcerias com fundações e organizações internacionais,

além de colaborações e doações de

leitores. Isso garante uma estabilidade financeira

para o grupo?

CM: Esse é o principal obstáculo que temos

para produzir o jornalismo independente, tentar

manter uma estabilidade econômica. Não podese

ter um modelo de negócio tendo baseado em

apenas uma fonte de receita, até a mídia tradicional

busca outras formas de receita fora os anúncios,

que já estão com os dias contados, uma vez

que é possível anunciar em plataformas como

Google ou Instagram, por um preço bastante

inferior. Esse é um problema: como garantir a

sustentabilidade financeira abrindo mão do que

é o principal modelo de negócio do jornalismo

há séculos? Então, é um ciclo de captação de

recursos, sempre tentando diversificar a receita.

No caso do ”Marco Zero”, há financiamento

das organizações internacionais, assinaturas,

cursos e até mesmo venda de camiseta. Temos

que montar o nosso orçamento anualmente, não

tem um momento que não estamos preocupados

com isso.

W: Várias pesquisas apontam que o ambiente digital

é o futuro da mídia. Como os grandes jornais

têm uma história antiga e tradicional, é possível

afirmar que a mídia independente, por ter uma

maior presença nas plataformas digitais, pode ter

um futuro mais promissor?

CM: A maior parte da mídia independente é o

que chamamos de “nativo digital”, que já nasceu no

ambiente da internet. Entretanto, isso não é uma

garantia por si só. Na “Marco Zero”, somos um

coletivo de jornalistas, todos na faixa dos 40 anos,

então temos um histórico ainda do texto, do jornal

impresso, da preocupação pequena com questões

da visualidade, audiovisual; coisas que estamos

sempre correndo atrás. Ser digital não significa ter

esse patamar de excelência em comunicar-se com o

público, como também ser tradicional não significa

ser atrasado. Como exemplo temos o “Washington

Post”, que hoje pertence ao dono da “Amazon”, ou

seja, é um veículo tradicional que já está inovando,

que soube se atualizar. Então, ter nascido digital

não é garantia de sua qualidade.

W: Alguns autores comparam o jornalismo

independente como o modelo jornalístico revolucionário.

O argumento é de que a independência

jornalística traz novos padrões para o mundo

midiático, sendo mais crítico e transparente. Você

considera o jornalismo independente uma revolução?

CM: Muitas vezes tenho a impressão de que o

que o jornalismo independente busca é o resgate

do velho jornalismo. Não é novo, é algo que já foi

feito anos atrás por grandes repórteres: um jornalismo

aprofundado, de qualidade, que cumpria sua

função social e que garantia realmente a liberdade

de expressão, os Direitos Humanos e a justiça

social. Esse jornalismo já foi feito, então, é algo que

o jornalismo, em geral, deveria estar fazendo, mas

não faz. Eu não o vejo como revolucionário, vejo até

mesmo como algo meio vintage, no sentido de buscar

fazer o que o jornalismo antigamente se propôs

a fazer e fez realmente, mas que, atualmente, vinha

se perdendo por todas essas questões capitalistas e

de dependência dos anúncios. É um resgate do que

é um bom jornalismo.


JORNALISMO

COMUNITÁRIO

Claudia Rodrigues

Hadassah Carneiro

Felipe Santana

O

Foto cedida pelo Jenipapo em Foco

jornalismo comunitário no

O Brasil tem como principais

meios de divulgação as redes sociais

e a internet. O custo para produção

de matérias é bem mais baixo

do que a versão impressa, além de

apresentar uma maior praticidade

pelo fácil acesso da população a

esses meios de comunicação.

participação da comunidade

A interfere de forma positiva

nesse engajamento social dos jornais

comunitários. Os profissionais

devem buscar um elo entre os moradores

e o conteúdo, pois ele enriquece o projeto

social e as dificuldades enfrentadas ganham uma

maior relevância e tornam-se mais fáceis de serem

resolvidas.

Um exemplo prático desse tipo de jornalismo

fica na comunidade do Córrego do Jenipapo,

na zona norte do Recife. O jornal Jenipapo em Foco

foi criado por Lucas Leandro, atualmente cursando

o quinto período do curso de jornalismo, sua irmã

Lígia Leandro e um amigo dos dois, Janf Gomes, com

o objetivo de trazer melhorias para a comunidade.

Hoje, o projeto conta com a participação de dez

pessoas.

Jenipapo em Foco mostra o que acontece na

comunidade. As principais pautas, são: infraestrutura,

descaso em relação às

obras de algumas ruas e avenidas,

problemas com a iluminação

pública, falta de abastecimento

de água, entre outros. A comunidade

busca soluções para os

seus problemas, tornando-os

cada vez mais visíveis, e chamando

a atenção das autoridades governamentais

para a necessidade

de resolvê-los.

11

Fotos cedidas pelo Jenipapo em Foco

Registros de atividades na

comunidade feitos pelo

Jenipapo em Foco. As fotos

foram cedidas pela equipe.


Foto: reprodução da Internet / Facebook

12

Exemplo de notícia

veiculada na página

principal do Jenipapo

em Foco. Qualquer

notícia que envolva a

comunidade se torna

pauta do jornal.

Mas o jornalismo comunitário também

visa a inclusão social promovendo

eventos beneficentes, como o Dia das Crianças

e festas de rua. Esses acontecimentos festivos

são amplamente divulgados pelo Jenipapo

em Foco. Os jornais comunitários têm a

finalidade de prestar um serviço social para

a comunidade na qual está inserida. A busca

por melhores condições de vida e ações que

beneficiem a todos os moradores tornam a

vida na comunidade mais agradável. A relação

entre moradores e os jornais comunitários

é de extrema importância para um serviço

social produtivo; é necessária a aproximação e

comunicação entre ambas as partes. Quando

há uma cooperação entre moradores e profissionais

desses jornais o resultado é mais

eficaz, como pode ser constatado na relação

dos moradores do córrego do Jenipapo com o

jornal comunitário Jenipapo em foco.


Fotos cedidas pelo Jenipapo em Foco

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Equipe do Jenipapo em

Foco trabalhando nos

eventos da comunidade.

O material produzido

fica disponível para

leitura em pouco tempo.


JORNALISMO

CULTURAL

Aline Vaz Curado

Camila Mendonça

João Pedro Sousa

14

O jornalismo cultural é uma das mais

antigas modalidades jornalísticas.Existe

desde o século XVII, quando os primeiros

jornais ingleses já produziam

resenhas sobre obras literárias e artísticas,

além de relatar novidades sociais.

Foi então que, um século depois, o The

Spectator foi criado com o intuito de ir

além de meras agendas culturais e passar

relatos reflexivos e filosóficos para

além das universidades e colégios.

Esse legado de reflexão e opinião se

estende até hoje, porém sem a mesma

força de anos atrás. Um dos motivos

para essa baixa popularidade não é a

desvalorização e nem o pouco consumo

de conteúdo cultural, mas sim o direcionamento

que é dado a esse tipo de

conteúdo.

Em primeiro lugar, deve-se levar em

conta a multiplicidade que a expressão

cultura evoca. Afinal, tudo aquilo que

produzimos é fruto de nossa expressão

e condição de existência como seres

humanos, portanto, tudo é cultura. Isso

mostra a complexidade do assunto. A

tentativa de definir cultura como “alta”

ou “baixa” já ficou no passado.

Mas se tudo é cultura, então por que

não falar de tudo e um pouco? É exatamente

esse o ponto: cultura não se resume

a uma coisa só. O Jornalismo Cultural

tenta abranger todos os temas atuais e

se adaptar às novas formas de observar

as coisas, sendo essas mudanças extremamente

constantes e desafiadoras. Se

o objetivo é falar de tudo, deve-se levar

em conta a observação dos fatos sem

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Sede da Revista

Continente no

Recife

Fotos: reprodução de vídeo

fugir da identidade reflexiva e democrática

do Jornalismo Cultural. Nessa modalidade

fala-se de tudo, porém não se

foge da sensibilidade que só um olhar

filosófico tem, de acordo com a editora

da Revista Continente, Adriana Dória.

“A gente tenta ao máximo impulsionar

conteúdo cultural de qualidade para as

massas, no entanto devemos nos adaptar

ao que as pessoas querem ou não

ouvir”, afirma. Sobre os desafios de produzir

esse tipo de conteúdo, Adriana diz

que não deve se prender a uma agenda

cultural e que existem vários tipos de

cultura a serem consumidos. “Não vejo

por que não falar da última temporada

de Game of Thrones e fazer uma matéria

sobre passinho e brega na próxima

página. É cultura a ser consumida, só

temos que adaptar nossa linguagem a

ela”, diz. Essa universalidade se torna

importante e crucial para que todas as

classes sociais possam se identificar

em certas reportagens, e torna possível

atingir um público muito mais abrangente.

O fato de poder flexibilizar sua linguagem

para atender à curiosidade de

todas as classes sociais e propagar conhecimento

humano democraticamente

faz do jornalismo cultural um modelo

único, principalmente quando não se

limita a críticas de obras e horários de

shows. Cultura é toda a forma de expressão

humana, independente do que

seja. E a partir de um olhar reflexivo, o

jornalista cultural tende a nos explicar

como a humanidade funciona.

15

Redação da Revista

Continente,

no Recife. Cerca

de 8 pessoas

trabalham diariamente

no local.


Universidade

Católica de

Pernambuco

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