Orion 3 & 4

sunmagic

Sci-Fi fantasy web-zine

1


2


ORION É UM FANZINE DE SCI-FI E FANTASIA COM UMA VERSÃO ELECTRÓNICA (WEB) E UMA IMPRESSA (APENAS

PARA OS COLABORADORES)

COORDENAÇÃO E EDIÇÃO: RENATO ABREU

COLABORAÇÃO NESTE NÚMERO: RENATO ABREU, ORNELLA MICHELI, LUÍS LOURO, SOFIA GONÇALVES LOBO,

NICOLA RETTINO, JOSÉ DE MATOS-CRUZ, BERNARDINO COSTANTINO, JEREMY SMOOKLER, MARCO LIMBO

MARAGGI, LUÍS FILIPE SILVA, LÉO QUIÈVREUX, FRANÇOISE DUVIVIER, ANDRO MALÍS, SHARA FISTHOLE, JOAN

BLAISSE

MAIL: ZORION@SAPO.PT

ACESSO Á VERSÃO ELECTRÓNICA: HTTPS://ZORION2.WIXSITE.COM/WEBSITE

FACEBOOK (COM INFORMAÇÃO SOBRE AS COLABORAÇÕES E AUTORES): HTTPS://WWW.FACEBOOK.COM/ZORION-

257337514876298/

C \ - B C

2ª 3ª - Marco Limbo Maraggi

Sofia Gonçalves Lobo - (pag. 2)

Joan Blaisse - (pag. 6)

Léo Quiévreux - (pag. 14)

José de Matos-Cruz/Luis Louro - , ,

(págs 21, 22, 23)

Françoise Duvivier - (págs. 24; 25; 26; 27)

Luís Filipe Silva/Ornella Micheli - , 2.0 (pág. 28)

Bernardino Costantino - “ ?” (Pág. 32)

José de Matos-cruz/Renato Abreu - . (Pág. 60)

Renato Abreu - “ - “ texto por José de Matos-Cruz (pág, 62)

Renato Abreu - “-” (págs 85 e 122)

Bernardino Costantino - " " story by "Nervous Gender Reloaded" (Edward Stapleton-Matt

Comeione). (Pág, 74)

José de Matos-Cruz/Renato Abreu - (pág, 86)

Andro Malis - “ " (pág. 88)

José de Matos-Cruz/Renato Abreu - - , (pág. 98)

Nicola Rettino- “ ” (pág. 100)

José de Matos-Cruz/Shara Fisthole - (pág. 116)

José de Matos-Cruz/Nicola Rettino - (pág.118)

José de Matos - Cruz/Jeremy Smookler - (pág.120)

1


Mãe Biónica

Sofia Guilherme Lobo

Anôa era a mais velha residente da Casa das Mães e não parecia ter intenções de mudar para a Casa Sénior tão

cedo. A azáfama das mães e das pequenas crianças não a incomodavam, pelo contrário. Naquele dia em especial a

confusão era maior do que o normal, uma criança tinha apanhado, de alguma forma, uma bactéria contagiosa comum

e as mães juntaram todas as que ainda não a tinham apanhado e o resultado foi uma choradeira sem fim e o cheiro de

leite azedo, fezes e infeção. Uma das mães colocou um pequeno chorão no seu quarto, um convite para ela sair. Não

resultou e a noite foi de insónia.

Entre uma muda de fralda e um vómito de leite azedo, Anôa lá adormeceu, com o pequeno moleque em cima

do peito, de polegar na boca, a chupar um pouco mais consolado, a mãe, em pé, ao lado da cama... nunca dormia; e

acordou assim… a mãe continuava ali, alerta, sempre, sem questionar, sem um queixume, sempre pronta para atender

quem dela necessitava.

- Acordáste. – Disse a mãe numa voz complacente, a repreender sem recriminar. – Estás atrasada para as aulas,

o teu Educador já perguntou por ti eu disse que estavas a dormir com um ovo e que não o podias partir.

O comentário originou uma risada forte de Anôa que acordou o dito ovo. Mali, assim se chamava a menina,

bocejou. Estava com melhor cara, o sono foi reconfortante e apaziaguador. O ponto alto da infeção já tinha passado e

tal como Mali todas as outras crianças iam melhorar.

2


Anôa pegou em Mali, que tinha saído de dentro

dela, e devolveu-a à mãe, uma das mães, uma mãe biónica

com uma inteligência artificial cujo único objetivo era ser

mãe, saltou da cama, cobriu-se com um vestido de linho

com pequenas flores pintadas na bainha, calçou as

sandálias de corda e saiu com um beijo nas bochechas de

Mali e outro no rosto metálico da mãe.

Diziam que em tempos tinham sido pessoas de

verdade, modificadas eletronicamente, fora-lhes

incorporado uma inteligência artificial programada para

o desempenho daquela função, tal como aos Educadores

e aos Cuidadores.

Anôa fazia isto muitas vezes, escapava das aulas a

meio da manhã e dava uma corrida rápida até à praia no

rio.

Quinhentos metros de floresta fechada a

separavam do recreio da escola até àquela pequena clareira

de areia grossa salpicada por pedras. Ágil, ao primeiro pé

na areia, desfazia-se da roupa em segundos e após dois

saltos atirava-se de cabeça para o fundo do rio surgindo

alguns metros mais baixo na curva onde a praia acabava e

começava a formação côncava com a graça de um ilha ao

centro.

Anôa não precisava de grande esforço para chegar

ao topo onde se deitava, deliciada, de rosto voltado para

a superfície das águas calmas do rio, as pernas dançavam

atrás da sua cabeça. Era uma menina quase mulher, tinha

crescido de uma forma muito rápida, o que lhe

proporcionou uma estranha magreza de ossos salientes e

pouca carne. Era preocupação constante das mães que

insistiam na sua alimentação.

De olhos pequenos, redondos, curiosos, de um

verde muito vivo e nariz aquilino num rosto em forma de

coração onde os lábios pareciam que bailavam animados

de boa disposição. Anôa não era bonita mas era

engraçada, bem-humorada, cheia de vitalidade e boa

disposição, uma força da natureza que cansava todos e era

causa de distração.

Ali era o seu lugar secreto, onde podia admirar um

velho peixe de dentes afiados e que já considerava seu

amigo. Acompanhava o seu ritual, diário, que consistia

em apanhar conchas do fundo do rio e, depois,

consecutivamente, atirava-as contra a rocha até se

partirem para se alimentar do seu conteúdo. Fazia isto

repetidamente, incansável, chegando a durar duas horas a

partir as conchas mais rígidas e disso dependia a sua vida.

Anôa sentia-se fascinada com aquela determinação.

Aquela tarefa tinha o fim de suprimir a

necessidade do peixe se alimentar. Se deixasse de o fazer

morreria de fome, chegou a essa conclusão como uma

revelação.

Executar uma tarefa. Seria isso possível?

Extraordinário!! Tinha que experimentar.

Atirou-se á água, apanhou duas conchas, partiu-as

de encontro à rocha e engoliu a magra recompensa. Pulou

e riu, cheia de orgulho em si própria, um novo

sentimento se apoderava dela, uma autossatisfação

impossível de ser descrita.

Tinha executado uma tarefa que lhe

proporcionou alimento. Isso era novidade.

No reduto do Círculo Arco Íris os Cuidadores

executavam todas as tarefas de subsistência enquanto as

Mães cuidavam das crianças e os Educadores ensinavam.

Era assim desde que aquela Colónia tinha

chegado àquele planeta, uma nave com um exército de

Cuidadores, Mães e Educadores, cuja única finalidade era

defender, criar e educar uma centena de humanos, ainda

em estado embrionário, ativados quando a chegada após

3


cento e cinquenta anos de viagem. Anôa já fazia parte da

segunda geração, onde a inteligência artificial

proporcionava todas as suas necessidades.

E se um dia eles desaparecessem? Podia ir apanhar

conchas e alimentar-se delas?

Essa pergunta aterrorizou-a de repente. E se…?

Lembrou-se de que uns dias antes um cuidador

andava em círculos na praça do Reduto como se não

soubesse o que devia fazer e continuou assim durante

algum tempo até acabar inerte no chão e outros

Cuidadores o levarem como algo de inútil.

Tinha avariado, diziam os mais velhos. Já não

tinha utilidade.

E quando todos avariassem? Quem lhes ia prover

alimentos? Manter as casas quentes, confortáveis e limpas?

Os Cuidadores estavam desenvolvidos para

executarem repetidamente determinadas tarefas que

sustentavam o Reduto, sem eles, passariam a ser como

aquele peixe. Parecia algo saído de um conto de horror,

contudo, para Anôa, a ideia não lhe pareceu assim tão má.

Afastou as nuvens escuras do medo, do eterno

desconhecido, e voltou a nado até à praia para se vestir,

sem pensar sequer de onde vinha aquela roupa de tecido

quente e macio, que lhe surgia, todos os dias, dobrada e

limpa, nas prateleiras do seu canto.

O retorno até ao recreio demorou o seu tempo.

Nunca havia pressa para nada, as Mães estavam na Casa

das Mães, os Cuidadores faziam tudo e os Educadores,

bem, não se incomodavam com ausências de participantes

desde que soubessem onde eles andavam. Os Educadores

parecia que sabiam sempre onde andavam todos.

Ainda fez um pequeno desvio pelo caminho, até

àquele lugar que todos consideravam sagrado e

reverenciavam, mas sem terem muita coragem para se

aproximarem.

Um gigante de ferro já meio coberto por alguma

vegetação e que foi a casa da primeira geração dos homens

da Nova Terra, ‘o berço da terra, era assim que era

chamada,’ a Nave, em forma de ovo, atravessou a galáxia

até àquele ponto remoto no espaço de Oríon. Outras

viriam, diziam as Mães, mas até as vozes delas se

silenciaram das promessas. Ficou apenas um desejo e uma

espera mal exprimida, porque ninguém sabia bem o que

devia esperar. Contudo, era ali que os Cuidadores faziam

a maioria das suas tarefas no mais profundo silêncio.

Ao contrário dos Cuidadores, os Educadores

falavam.

- Anôa, voltaste. Como estava a água do rio hoje?

Não muito fria, suponho, a temperatura não te impediu

de mergulhar? Muito semelhantes aos seres humanos,

estas inteligências artificiais tinham um corpo mecânico,

revestido de pele, que cobriam com umas túnicas brancas.

Os rostos eram os mais idosos que conheciam, visto que

no Reduto ninguém tinha mais de cinquenta anos e

gozavam de boa saúde. A voz era suave e assertiva, de uma

paciência infinita, mas afinal, era essa a função deles.

Alguns dos jovens do recreio acharam graça à

chamada de atenção.

- A água está gelada nesta altura do ano!!!

- Não achei nada!!- Reclamou. – E sabem o que

fiz? Apanhei conchas do fundo rio, parti-as e comi-as.

Mas ninguém lhe prestou mais atenção e

continuaram a desenhar-se uns aos outros, tarefa do

recreio naquele dia. O seu lugar, no banco de pedra,

estava à sua espera, com um bloco de folhas em branco e

alguns lápis afiados. E de onde vinham as folhas e os lápis?

Como eram feitos? Como seria se um dia acabassem?

O Educador sentou-se a seu lado, pegou no bloco

4


e ele próprio desenhou, em traços rápidos, o rosto

perturbado da aluna e virou-o para que ela o visse.

- Que te perturba?

- Que vai acontecer quando os Cuidadores caírem

todos? – Perguntou finalmente.

-Tudo. – Respondeu. – Como quando partiste a

concha e te alimentaste do seu interior, um dia terás de

partir outras conchas.

- Mas eu não sei como fazer isso!

- Mas podes aprender.

- Como?

- Não sei. Tens de ser tu a descobrir. Eu só tenho

uma função, mas o homem tem todas as que quiser.

Como aprendeste a partir a concha?

- Observei e imitei até conseguir.

- Então observa…

Anôa olhou à sua volta, ao longe uma mãe

destacava-se das outras, a Mãe, apesar de serem todas

iguais, era a sua Mãe, e aquela criança embalada nos seus

braços metálicos, devia estar nos seus braços. Era assim

que devia ser. Determinada, levantou-se e disse:

- Vou ser Mãe, vou ser Cuidadora e um dia vou

ser Educadora.

O Educador já tinha um discurso preparado, mas

ela nem lhe deu tempo de responder, algures na sua

Inteligência Artificial concluiu que era uma escolha lógica

e continuou a lição do dia aos restantes alunos. Desta vez

mudou completamente o tema para algo inesperado.

- Vamos para o rio!

- Fazer o quê Mestre?

- Vamos aprender a pescar. – E se pudesse teria

rido das expressões confusas daqueles jovens…

5


6


7


8


9


1012


1113


12


13


14


15


16


17


18


19


20


A FRONTEIRA ESQUECIDA

Não havia transições, muito menos limites. Entre aquém e além, de outrora ao futuro, espaço e presente eram só a

mesma, contínua presença. Uma actualidade fluida, fundida em memórias e anseios de quem então, ali habitara,

sobrepondo vivências com instantes, sob o suspenso equilíbrio dos desígnios ante as referências. Ciclos. Nexos.

Ainda porém, ou talvez assim, algo parecia oscilar, ou alguém tendia a vacilar. O instinto de origem. O

desafio da distância. Lapsos e tensões que instilavam a amplitude ou o isolamento. Vestígios ou destroços que

aludiam uma paradoxal volúpia de opulência, fascínio, supérflua e superficial. Sobre ídolos e cultos, desafios ou

infinitos…

Uma turbulência herdada, que já se dissipara. Uma vertigem ávida, que logo se

despenhou em cascata regeneradora, dos precários artifícios à floresta perpétua. Tais

pulsão e pulmão retinham, afinal, o despojo de civilizações perdidas, a génese de

fenómenos volúveis. Ou o improviso de um viajante insólito, ao exortar a magia

telúrica.

Relâmpago, lampejo. Transfigurando a noite primordial. Por prodígios e

invenções. Recriando a escuridão em que lhe brilha a mente. E parte pois, para si, o

visionário explorador. Inconstante, inacessível. Algures, no firmamento de maravilhas

vãs. Concebendo uma paisagem imaginária. Sublimando uma irrealidade persistente…

José de Matos-Cruz

As Crónicas do Livro Livre

21


O PRECEDENTE ORIGINAL

Havia um mundo que ficou retido na ilusão da permanência, logo petrificado na ansiedade de quem poderia

regressar. Tantos que partiram sem objectivo, visitantes que ali voltassem com um destino. Desígnio. Orientação.

Todos os sinais e sortilégios pairavam virtuais, expectantes, embora contaminados pelo próprio arbítrio de erosão.

Também, eram fragmentos dispersos, aspirações latentes. No auspício da composição global, pois apenas essa

lhes conferia enleio e consistência. Um elã que avassalava ou esmorecia, ao flagrante de impressões fortuitas. Som

límpido, luz sibilante, frémitos convulsos. Paroxismo disseminado. Domínio espectral, em mútuas resistências.

Projecção e saudade, sob uma alienação magnificente. Atrair o inesperado, sagrando a ausência. E a solidão

astral, ao arrepio da partilha satélite. Esqueletos de animais fantásticos serpenteando nas colinas ancestrais,

surpreendendo a mineral intensidade que a outros tempos correspondiam propensas divindades. Paradoxos

suspensos.

Afinal, perpetuara-se um sobressalto inextrincável, entre os estigmas da aparente lassidão e os estímulos

voláteis quanto aos mais notórios, dos que optaram em seguir, irradiar… Afoitos, deixando o devir e a deriva na

intuição dos pontos cardeais. Um só se cumpriu, evoluindo. Ou diluindo-se, ensimesmado pelo privilégio de

imaginar.

José de Matos-Cruz

As Crónicas do Livro Livre

22


A VITALIDADE EXTREMA

Se houvesse um desígnio que poderia inspirá-lo, era pois alcançar a utopia. Um destino motivado pela superação do

impasse, alheio no turbilhão da aparência. Etapas e universos que serpenteavam, de píncaros profundos a vertiginosas

plenitudes. Qual nómada atónito, seguia. Sem paciência para a lentidão, sem prontidão para a urgência.

Êxodos e atalhos. Obstáculos. Precipícios. Atraindo sombras silenciosas. Irradiando cores acrobáticas.

Envolvendo peixes alares. Expondo pontes suspensas. Evoluindo, ele, ao enleio das torrentes íntimas, surpreendentes.

Assim, cotejando o ímpeto premonitório de tais adventos em recriação, com o auge mutante dos seus arquétipos.

Átomos e atmosferas, afinal coincidiam. Vibrando a profusão luxuriante, sob o signo da catarse sobrenatural.

Níveis e escalas, logo se conciliavam. Pairando o esplendor integral, em subtil arquitectura onírica. Um emaranhado

intrínseco às suas extravagâncias. Egoísmo prenhe, já que só ele lograsse contemplar aquela incessante quimera.

Então, solitário ou totalitário, atingiria um dilema culminante. Apenas fugaz. Ou para sempre. Um desafio

forjado a perdurar. Um prodígio consumado na inversão dos artifícios. A essência volúvel, que o libertaria, ou

transcendesse… Ao flutuar, sobre tal fascinação mirífica. Ainda instável, qual reflexo espúrio das vivências originais.

José de Matos-Cruz

As Crónicas do Livro Livre

23


Ton regard est d'encre

(Françoise Duvivier)

24


Les vacances d'un temps sans rives

(Françoise Duvivier)

25


Tremblante de pureté

(Françoise Duvivier)

26


Le vomissement du miroir

(Françoise Duvivier)

27


Ai, Mouraria 2.0

Luís Filipe Silva

Amália, gigante e intermitente, desenhada no céu,

entra em força pela janela do quarto de Dulce,

despertando-a do torpor gerado pelo capacete de sono.

Estremunhada, Dulce ordena aos vidros que escureçam,

para suavizar o brilho daquela imagem emitida pela

poeira inteligente hoje lançada sobre o bairro. A fadista

canta a plenos pulmões numa língua invulgar: ultimam-se

os preparativos do Chuseok, que este ano também se

festeja na Europa. A transmissão em directo ocorrerá

dentro de poucas horas, e pretende juntar centenas de

bairros de vários países, em que cada qual se propõe

misturar o regional com o estrangeiro, honrando assim o

acordo económico recém-celebrado com os novos amigos

asiáticos.

Irritada por não ter concluido o ciclo REM, o

primeiro pensamento de Dulce vai para os resultados do

leilão internacional de emprego, que confere de imediato

no seu assistente pessoal, mas nem aí tem boas notícias:

um grupo sul-americano tomou de assalto as ofertas mais

procuradas com um dumping de salários. É a segunda vez

nesta semana. Novamente desempregada até ao meio-dia,

hora do próximo leilão, decide levantar-se e dar início a

um dia que começa mal – ao menos que acabe em alegria,

pois aguarda a chegada do filho de quatro anos,

despachado ontem pelo segundo marido em contentor

privado e selado cuja senha de abertura só os pais

conhecem. Acede à imagem do rapaz, que dormita

placidamente no avião de carga, algures sobre a baía da

Biscaia. Em breve aterrará em Beja, e o contentor será

colocado no camião dispensador que o trará a Lisboa.

Até naquele aspecto a crise mundial faz mossa,

espalhando a família pelo mundo – um dos maridos na

Indonésia, o outro em Amsterdão até concluirem as suas

empreitadas, e a necessidade de despachar rotineiramente

os filhos pelo mundo para matar saudades. Será de

considerar o aumento do agregado com um terceiro

marido, ou uma segunda esposa? Vai fazer cálculos e pesar

rendimentos, para abordar o assunto na próxima reunião

virtual com os maridos. Escaldado pelas sucessivas crises

e progresso trôpego, o mundo impõe cada vez mais um

pensamento utilitário em áreas que em deviam imperar os

sentimentos. A verdade é que, lembra-se Dulce,

casamentos arranjados, sempre os houve…

Mas não quer pensar mais nisso. Encomenda uma

limpeza básica aos serviços do bairro. Em poucos

minutos, uma sombra tapa a janela-interface e um alarme

suave anuncia a chegada dos electrodomésticos

dependurados nas calhas exteriores do prédio. Abrindo a

portinhola, Dulce entrega a roupa suja da semana para

lavagem a seco, enquanto balões rotativos com seis

tentáculos sobem ao tecto de modo a aspergir

desinfectantes aromáticos e alegres ratinhos saltam para a

carpete e se põem a capturar poeiras e matérias orgânicas

nos bigodes sensíveis e extra-longos, que prontamente

devoram.

Clareando novamente as janelas para as máquinas

se conseguirem orientar, Dulce sai momentaneamente

para a varanda. Suspensa no ar, comandada por impulsos

28


29


electromagnéticos, a poeira inteligente consolida-se,

forma uma barreira mais densa contra o vento e a imagem

da cantora volta a surgir, desta vez mais nítida, repetindo

a gravação. Ao fundo, brilham os condóminos dos ricos

da zona ribeirinha, local exclusivo e muralhado em que

poucos entram – experimenta-se a nova forma ecológica

de construir, usando betão orgânico repleto de tecido

vegetal: prédios que se confundem com arvoredo, cujas

amplas ramagens dão sombra a espaços de lazer,

entrelaçando-se com ribeiros que formam piscinas

naturais. Se ali não residir a felicidade, é porque não

existe.

Por baixo de Dulce, na apertada rua do bairro,

magotes de turistas enfileiram-se para darem passagem

uns aos outros, enquanto procuram não perder de vista os

drones que lhes servem de guias. Máscaras electrónicas

permanentemente ligadas à internet escondem-lhes as

nacionalidades, como se tornou hábito, embora Dulce

duvide que entre eles se encontre algum ocidental.

Agitam bastões eléctricos para repelir a insistência dos

anúncios-varejeiras que os massacram com sugestões de

restaurantes, ofertas de pílulas de sonhar, doces da região,

computadores auriculares, guarda-chuvas

monolaminares, ramos de flores sintéticas; fazem vista

grossa aos empregados das tascas da rua, que também os

incitam com cartazes escritos em mandarim e urdu.

Ocorre subitamente a Dulce que talvez haja ali uma

oportunidade: Bruxelas pretende reabrir o Programa de

Preservação da Cultura Local – talvez possa montar uma

loja típica e ganhar um subsídio. Unir forças contra a

globalização, mesmo que seja uma formiga a nadar contra

a corrente.

Por ora, engolirá o orgulho e solicitará uma ração

estatal à fábrica do bairro – conhece as instalações, sabe

que usam o melhor gel e cumprem as devidas vistorias das

estirpes de nanobôs regulamentares, ao contrário de

muitos outros bairros. Um direito básico e gratuito de

cada cidadão europeu ao qual não recorre há anos, mas é

o melhor a fazer. O que dizem os slogans? «Um

empresário em cada um de vós». Peças da grande

engrenagem económica. Sim, pensou ela, mas jamais

esquecer que as peças, quando se avariam, são

substituidas. Ser repetidamente preterida nas ofertas de

emprego começa a preocupá-la. Apesar da legislação que

protege, até certo ponto, os independentes, há quem

consiga contornar estes impedimentos com soluções

criativas de grupos de pressão, as «centopeias». Já esteve

mais longe de se unir a uma destas, para ter uma

vantagem nas selecções – não obstante o facto destes

aglomerados de exclusividade profissional consumirem

uma fatia importante dos pagamentos sem acrescentarem

valor, a não ser a ilusão de uma garantia de cumprimento

para quem contrata.

No limite, terá de abandonar este pouso

privilegiado num dos bairros mais antigos da capital e sair

da cidade, ir para as periferias, encontrar uma zona menos

degradada que não esteja nem no extremo da anarquia

com conflitos entre milícias e exército, como Alverca,

nem no extremo oposto dos redutos religiosos e das suas

insuportáveis normas de comportamento, como

Montelavar. Dulce estremece ao pensar no filho, obrigálo

a passar anos do período formativo mais importante da

sua vida neste ambiente. No limite, tem a opção

geograficamente contrária – mudar a família para o

Enclave Autónomo da Margem Sul. Dizem que prospera,

embora tenha regras muito restritas para conceder vistos

de trabalho. Podem sempre aproveitar a nacionalidade

estrangeira do segundo marido, que nasceu em Setúbal.

30


Mas seria uma mudança demasiado brusca; por muitos

defeitos que lhe encontre, Dulce gosta do bairro, do país

e, numa extensão maior, das oportunidades ainda

concedidas pela Utopia Europa.

A fadista estremece, translúcida, deixando ver as

nuvens no céu. A boca aberta, o peito erguido, os braços

esticados na pujança do acorde final da cantiga. Depois

desaparece, substituída pelo logotipo da emissão. Haverá

festança, logo à noite, revivalismo de bairro, animadores

vestidos com trajes populares, água-pé, manjericos e

chouriço assado – mas de soja, não aquele feito de carne

de que Dulce ainda se recorda de comer quando era

pequena. Podia ser nocivo para a saúde, mas ficou na

memória. Talvez leve o petiz. Já tem idade para apreciar,

e precisa de introduzi-lo aos poucos no mundo real. Eis

outra preocupação e fonte de despesas. Até ao final do

ano, inscrevê-lo numa escola de terapia presencial – foi

demasiado intenso o ataque de ansiedade do rapaz,

daquela vez em que se avariou o assistente pessoal, e

deixou-a preocupada. A orientadora da escola adiantou a

ausência prolongada dos pais como possível factor

desinteressantes, e não conviver com gente da sua idade –

e ela não se considera uma pessoa minimamente

disfuncional. Lembra-se das dificuldades financeiras, das

queixas com as crises e os apertos, de terem de mudar de

casa algumas vezes, antes de voltar a estabilidade. Os pais

sempre preocupados com ela, primeiro com a saúde e as

alergias, e depois, na adolescência, com a sua constante

rebeldia, exigindo que mantivesse activo o telemóvel, que

usavam (sabia-o bem) para vigiarem a sua localização – e

como não pretendia ser apanhada em flagrante com este

e aquele namorado, pedia a uma amiga para o guardar

durante um par de horas. Também o filho a enganará

com aqueles pequenos truques. Por muito que lhe doa,

será indício de saúde e normalidade. É um processo

eterno, uma história que se repete. Aliás, é sempre a

mesma história, mas contada com outros adereços,

variações discretas que quebram a monotonia – mas no

fundo, debaixo da roupagem, somos ainda macacos que

ontem largaram as árvores, catando piolhos, tentando

encontrar caminho, eternamente deslumbrados por este

admirável mundo novo.

contributivo daquela reacção, mas que não era nada

incomum, mero sinal dos tempos, Dulce que não tivesse

problemas, alguns meses na escola e o filho aprenderia a

viver, algumas horas por dia, sem o recurso a sistemas

electrónicos. É preciso ir aos poucos, dissera a

orientadora. Dulce pretende fazer os possíveis para

adiantar esta terapia, e talvez o espectáculo da noite seja

tão apelativo que possa convencê-lo a desligar os óculos

durante alguns minutos.

Foi mais fácil para os meus pais?, questiona-se e não

pela primeira vez. Mas lembra-se dos raspanetes

constantes por andar sempre mergulhada nos seus

pequenos dispositivos, hoje em dia básicos e

31


32


33


34


35


36


37


38


39


40


41


42


43


44


45


46


47


48


49


50


51


52


53


54


55


56


57


58


59


ENTRE AS TERRAS DO SOL

E O REINO DAS TREVAS

José de Matos-Cruz

9 de Novembro de 1903

Com o esbatido rosto em tristeza, Celeste pairou

o olhar, de novo, sobre as palavras escritas ao vento.

Apertou com quanta força podia e, pelo atrito do seu

desespero, a folha mensageira entrou em combustão

espontânea. Ou tê-lo-ia Hélio previsto? As frases

inflamadas, desistindo embora de mais um encontro, iam

esfumando as últimas expectativas íntimas à bela moça.

Tal baile de revelação e ocultação animara todo

um namoro de par destinado, desde que nasceram até à

vertigem entre a vida e a morte.

Quando Celeste não aguentou mais e decidiu-se,

enfim, por um refúgio além das mágoas palpitadas do

coração, tinha a ansiedade que Hélio assumisse, ele

próprio, uma reunião sobrenatural. Contudo, o equívoco

mancebo mantivera-se fiel às decepções esquivas. Furtivo

ao enleio das Devesas, em que tinham crescido ambos,

pela atracção desvairada do Porto.

Heróica, Celeste resistira pela transcendência do

seu amor, preservando-se então com um intenso apelo de

relação corpórea. Materializado nesse anelo tão etéreo de

correspondência que assim, e uma vez mais, Hélio

caprichara agora em lhe frustrar... De que valeria, pois,

sacrificar-se numa vacilação de alma penada, sem

60


esperança? Ai, Celeste era corroída pela melancolia.

Hélio sempre fora expedito em praticar as suas

omissões, inibindo-se porém na abstenção de iniciativas.

Insinuava uma comunhão plena, para depois se

acovardar em solitárias renúncias. E uma tal traição

cavava o pior dos agravos, ante Celeste já espectral pelo

supremo sacrifício.

Celeste languescia numa realidade virtual, que

era agonia a macerar a linha do horizonte entre o céu e a

terra. Esse instante volúvel em que o espírito, em vão,

deixa de ser inspiração e palpitante, ao transfigurar-se

como matéria imperceptível para a eternidade.

Presença e ausência. Tocar-lhe ou ocultar-se?

Não, por uma última vez, Celeste havia de

manifestar a Hélio a sua ténue inquietude. Para que ele

estremecesse. Ela, depois, reverteria à vacuidade essencial,

de onde não provêm vestígios ou sortilégios…

Subitamente, o alento de Hélio Alvorada foi

percorrido por um soluço de quebranto. Gemia. Fechou

os olhos, para atenuar, espairecer – e todavia, do seu

vulcão interior, em catadupa, voltaria sempre a

restabelecer-se o anseio vigoroso de Celeste Maldonado.

Hélio estava sentado entre restos e detritos que

ainda se amontoavam – ali, no Cunhal da Rua da

Madeira onde, até pouco antes, existia o Mosteiro da

Avé-Maria. A multidão já dispersava, antecipada pelos

monarcas a quem aplaudiram. Ao longe, embora, Hélio

lograra, ainda, lobrigar D. Adélia, sorrindo à colocação

da pedra fundamental para a Estação de São Bento. Hélio

correspondeu, inconsequente, abrindo uma greta entre

os lábios, pois a rainha lembrara-lhe o vulto de sua

própria mãe perdida.

Hélio não era um místico, mas sentia-se inquieto.

Hélio não tinha vontade própria, mas apetecia-lhe uma

solução. Hélio sabia-se assombrado pelas mulheres, mas

temia em si mesmo uma fatal feminilidade.

Cedo cercado pela aura sensual de Celeste, Hélio

derivara no seu labirinto umbilical com Estrela Alvorada.

Pode um filho assumir-se viúvo? Pode um noivo

desejar-se órfão?

Hélio Alvorada, que tanta vez, num devaneio

incerto e imaturo, suspirara por alívio e evasão,

languescia agora, sobressaltado em tão mesquinha

libertação, híbrida e solitária.

Não, sem elas, já ele cá não estava – era um mero

invólucro humano. Porém, Hélio também não

correspondia – ao elã siderado com que o atraíam cada

uma, Estrela ou Celeste irradiantes…

Hélio ergueu-se. Compôs o jaquetão. Olhou para

a biqueira dos sapatos – toda amassada, incerta, além de

que ele metia os pés para dentro. Pôs o chapéu na cabeça

– discretamente pois, naquele dia, até fazia sol.

Em seu redor, tudo parecia rutilante. E o

dividido havia de carrilar.

Portanto, Hélio Alvorada tinha duas opções. Ou

entrava no recém Túnel d’El-Rei – que ligava ao Pinheiro

e, antes de ali chegar, desapareceria no âmago das trevas.

Ou seguiria até à nova Ponte de D. Pia Maria, e lá havia

de se soltar – qual precipício, para o vazio inanimado.

Se bem o imaginou, pior o fez quanto à segunda

função. Desfez-se o encantamento. E, ao tocar no Rio

Douro, a lágrima prateada de Celeste Maldonado estava

de tal modo seca, que se desintegrou em estilhaços.

61


62


63


64


65


66


67


68


69


70


71


72


73


74


75


76


77


78


79


80


81


82


83


84


87

Entre-linhas


COM PENAS DE ANJO

E A EXPIAÇÃO DO DEMO

José de Matos-Cruz

29 de Agosto de 2002

Subitamente, Rui Ruivo suspendeu o voo,

girando sobre si mesmo para atenuar as sequelas da

fricção. É certo que a envergadura como Infante Portugal

lhe proporcionava, ainda, uma resistência inexpugnável.

Porém, a brusca assunção da sua condição humana, por

uma recorrência entre a textura física e a premência

anímica, tornava-o já vulnerável. Quando o prodígio

heróico se ia atenuando, o Infante Portugal debatia-se,

então, como Rui Ruivo entre a sobrevivência e a

imortalidade.

Era o instante mais perigoso dessa extraordinária

metamorfose. Uma vertigem em que, ao privilégio

transcendente, se sobrepunha a identidade secreta, e o

conflito de paladino - estrénuo defensor dos

desprotegidos, incansável combatente pela justiça - cedia

aos caprichos mesquinhos do estatuto burguês. Para o

Infante Portugal, além de sucumbir a uma íntima

rendição, era a vergonha dolorosa de estar circunscrito ao

exibicionismo literal como Rui Ruivo. Afinal, o mito

soçobrava em sua própria vitimação!

Suavemente, o Infante Portugal poisou junto aos

pés do Cristo-Rei, a contemplar Lisboa - quando o

pôr-do-sol cumpria o leito coleante do Rio Tejo, até

transformar-se na foz em Oceano Atlântico. Também ele

era, já, Rui Ruivo na essência, embora com o trajo

emulativo ainda a sujeitá-lo, qual colete-de-fraldas. Em

tal persistência híbrida, bastava-lhe aguardar a mutação

primordial - uma danse macabre em que o dínamo estelar

se introvertia no crepúsculo dos seus transes mais

aniquiladores.

Pouco depois, pela calada da noite, um impecável

Rui Ruivo estava ao volante do seu fogoso Matrix,

sulcando a Marginal - até ao Condomínio Alípio Ayres

onde residia, a poucos quilómetros de Cascais. Na manhã

seguinte, o advogado distinto voltaria aos seus negócios

para-jurídicos - com tanto recurso e prestígio, entre a

clientela da alta finança ou da baixa política - a partir de

um discreto palacete na Rua de Rufino Picão e Chagas,

quase ao virar para o Largo de Camões... Até mais um

apelo exacerbado, nacional, expiatório, que o arrebatasse

como Infante Portugal.

Aliás, a complexa consciência de Rui Ruivo não se

transcendia pela normalidade - antes oscilava numa

amálgama, sublimatória, dos seus excessos e contradições.

Também, ele nada contribuíra para se virtualizar como

Infante Portugal - tudo ocorrera durante uma visita

trivial à Exposição 98, em que foi investido por um

fenómeno de fervor ingente, telúrico, inexplicável.

Porquê tal pessoa, e tanto assim?

Qual a herança? Sob que sortilégio?

- É o destino... - discorrera Pereira Dias ao

deparar-se Rui Ruivo, em missão do Infante Portugal,

com o seu errático antecessor, algures nos labirintos

sórdidos da Musgueira. Aí, rebentado e, entretanto,

reformado enquanto Condestável Lusitano, exilou-se

aquele que por sua vez, desde a Exposição de Portugal no

Mundo, vinha perpetuando uma ínclita estirpe em que se

fundamentava o imaginário triunfal da irrealidade pátria.

Celebração do fausto. Desígnio ancestral.

Humildade e dignidade. Perante um Pereira Dias

já catártico, Rui Ruivo transfigurou-se na autopremonição

do desempenho aventuresco.

Entre passado e futuro.

Um povo em bruto. Iniciação do Infante

Portugal. O gesto e a gesta. Incongruência como

86


Condestável Lusitano.

A nata dos varões. Até que o espírito sobrevivesse ao simbolismo vácuo entre a esfera armilar e o escudo marcial.

Estaria, então, preenchido o dilema fatal, que era a matriz da raça, em recessão.

Os ciclos de depravação, ou a mística integral.

Nunca. Ninguém. Nunca mais. Rui Ruivo anónimo. E o outro, em seu poder, sempre anacrónico. Ninguém

mais nunca… Enfim!

Escuro como breu, Rui Ruivo ia fazendo estrada, junto à Boca do Inferno. Então, sentiu a invadi-lo aquele

clarão fulminante.

Exposto, o Infante Portugal enfrentava o monstro elementar. Era retinto, asqueroso, banal, sem traços

fisionómicos. Lutou, fruiu, despedaçou-o.

Nem êxtase, nem agonia, mas vibrava. Incompleto, demasiado. Em frustração. Em prostração. As forças vivas

que se encarregassem de o justificar.

Puro engano. Cortaram-no ao meio. Logo, as distintas partes foram divididas entre o Panteão Imperial e o

Cemitério Popular.

Os SobreNaturais

87


88


89


90


91


92


93


94


95


96


97


SINTO-ME IMPOTENTE,

EXPOSTO EM ESTA VIDA

José de Matos-Cruz

11 de Janeiro de 1911

A sua história começa com o princípio do mundo.

Naquele invernoso entardecer, em um qualquer

lugarejo bravio, sem viv’alma, junto à Estrada de Sintra

bordejada pelas penedias, a natureza em transe mais

parecia um inferno frio e feio, húmido e indiferente.

Exausto, entristecido, Folião enroscou-se ainda mais, no

meio de umas silvas. Porém, antes assim, ao relento, do

que ceder, cheio de vergonha, à desdita que o havia posto

em tal situação, deslocado entre o destino e a existência. A

simples consciência funesta era-lhe insuportável. E sofria,

no próprio corpo, as consequências dum infortúnio tão

abominável.

O dorso de Folião foi sacudido, ao espirrar em

convulsão. Os bigodes ficaram todos molhados, e não era

capaz de controlá-los. Além disso, famélico e sedento, com

os rins arrebentados, tinha urinado sem querer pelo pêlo e

na terra em volta, que em vão tentou limpar com a patita.

Mal conseguia aguentar a polpa já gasta de tanto andar, ou

as unhas esfaceladas.

Folião estava uma lástima. Sentia-se, em suma,

uma ruína patética. Também, a sua tremenda jornada

decorria, já, há muitas e muitas léguas, sem outra

orientação que não o apurado faro, raro descansando

precariamente, nas condições mais adversas. Seguindo

arduamente apenas graças ao elã felino, furtivo e

solitário, às vezes deixando soltar um miado suplicante,

aos céus que apenas lhe correspondiam, fazendo suceder

o dia e a noite.

Ora, Folião continuara sempre, sem eira nem

beira, apurando a ansiedade, bafejando a paciência,

indiferente a atravessar montanhas e planícies, evitando

povoados, instigado apenas pelo seu extraordinário

instinto, exposto a mil ameaças e, às vezes, aturdido em

ténue ou luxuriante fluir dos cheiros. Talvez, iludira-se,

estivesse próximo de seu objectivo. E acabou por

fraquejar, precisamente numa altura mais perigosa do

caminho, acercando-se do bulício humano. Apesar do

lusco-fusco, os carroceiros desfilavam com os cavalos sem

freios, a trote e a galope, com as suas carruagens sem

lanternas, de modo que os transeuntes a pé eram vítimas

de contínuos abalroamentos. Quanto mais um pobre

animal, furtivo e desprotegido...

Folião inibira-se ao contacto com os da sua raça,

prescindira dos rituais habituais e, em várias ocasiões,

tivera que escapar aos dentes afiados dos implacáveis cães.

E quando, ao longe, estes continuavam a ladrar, lá o

bichano ia com uma pressa prudente, metido apenas

98


consigo mesmo, como se o instigasse uma missão. Como

se tivesse esperança num reencontro - e, bem no fundo,

não o inquietasse a dúvida se o teriam deixado,

abandonado.

Porventura, caso houvesse entre eles um laço

umbilical, indestrutível, nunca Folião se deixaria abater. O

pacto sensorial torná-los-ia unos, tribais, para além de

todas acções, do tempo e da distância. Porém, corrompida

a tradição, o elo ancestral apenas poderia regenerar-se com

o sacrifício de Folião. Ou ainda era possível resgatá-lo, na

persistência e na catástrofe? Até ao regozijo? Esfusiante de

ternura? Confiança...

Atónito, o paradoxal viajante pareceu, então,

superar a infelicidade e o tormento físico, recuperando o

seu ânimo original. Era o mais lindo de uma ninhada,

como se diz, nascida em fatídico berço d’ouro. Sobre o

castanho retinto pairavam-lhe umas manchas fulvas.

Tinha os olhos penetrantes como o dourado solar. Era

diferente dos irmãos. O único que escapara ao baptismo

no Rio Mondego, com as outras crias metidas, ainda cegas

e sem carinho, num velho saco de estopa. Ai, que dor

cruel. A mãe quase alucinava, definhando naquele cíclico

horror. E de nada lhe valiam as arranhadelas, os pffs

lancinantes!

Porque faziam eles aquilo? Escolhendo um eleito?

A salvo, o mimado Folião tinha-se exuberado,

excepcional. Todo em dádivas, em caprichos. Agregado

à família, devotara seus privilégios de sedutor miniatural

a um certo Vaz de Moraes – que, regressado à pátria

madrasta, após anos de penúria filosofal pelo Oriente, se

remetera a um exílio lírico e rústico, na propriedade

d’uns parentes com os ares de Quinta das Lágrimas. Ali

se afeiçoara a Folião, numa cumplicidade displicente. Até

que os superiores cânones da vaidade e da cultura haviam

chamado à capital o dito poeta em ascensão. Que lhe

podia interessar o resto - um mero tareco que,

escorraçado ou suavizado pela expectativa de

reconciliação, logo partiu em busca do amigo?

Alvor. Ocaso. Entre o estremecer selvagem e o

estertor da civilização.

Do soberbo e fascinante Folião restaria,

interminável, uma melancolia trágica. Assim, apenas –

como um gato pingado, com o rabo entre as pernas.

Os SobreNaturais

99


100


101


102


103


104


105


106


107


108


109


110


111


112


113


114


115


116


VIVÊNCIAS PARTILHADAS

Fundem-se os dedos e as estrias – como braços e troncos, num abraço frondoso.

Prodígio telúrico, conciliando humano e natureza, entre os ciclos da alternidade e da

subsistência. Um auspício assumido, exposto desde a fruição original, quando se

desvendavam territórios e persistiam florestas. Até o instante mágico, irreversível, de

uma integral recriação…

Eu sei, ainda não sou – senão, uma minúscula semente. Dispersa, esparsa, com

algum princípio e sem qualquer destino. Depois, ao acaso, o meu voo suspende-se, e

caio sobre a terra. Entranho-me. Em torpor, ganho apoio e pulsação. Emirjo do subsolo.

Eis-me a respirar. A minha seiva impele-me. Vulto me faço, irradio em ramos. E os

nódulos doem.

Cresço. Enrijeço. Visto-me de folhas – exuberante, logo exposta. Ora, passam a

notar-me. Ao sol, extasio. Irmanada com outras árvores, a minha sombra recorta-se na

relva. Aparatosa, habitam-me os pássaros. Habituo-me. Desafio a tempestade, que quase

me verga. Resisto. Assim, estou. Envelheço e permaneço, estiolando avara, num torpor

sem tempo.

Enfim, retraio-me – disforme, já coberta de fungos e de musgos. Ávida. Farta,

esmoreço. Começo a definhar. A partir das raízes exaustas. O sangue seca-me, estala. O

corpo é flácido. Restam-me, da carne, uns estilhaços esqueléticos. Nua, em vertigem,

soçobro. E sucumbo, com o cerne a estremecer. Então, estendo as mãos… Enquanto

estiver, existirei.

José de Matos-Cruz

As Crónicas do Livro Livre

117


118


O CANTO DOS PRODÍGIOS

Em vão… Aquelas palavras destilavam desafios e tormentos, que seu espírito

expectante conciliava, com híbrida assombração. O anseio de sentir por carne, sangue e

nervos. A náusea ao sofrer sem alma, aura ou emoções. Vagueando, apenas, sob um

estímulo existencial, que havia colhido das matrizes e motivações implícitas no íntimo

mistério original.

Através de si próprio, à deriva em labirinto de espelhos. No qual não se reconhecia,

pois debatia-se entre a ausência de reflexos. Então, ensaiava aspectos mirabolantes, para

adquirir identidade. Ou encenava insólitas excentricidades, suplicando referências. Porém,

lastimaria um invólucro fosco. Lamentaria uma fraca exuberância. Paradoxo espectral.

No auge da imaginação, mais ansiedade estiolava. A mecânica do espírito. A utopia

de um corpo. Confinado ao espectáculo exuberante de uma catártica coreografia. Ao garbo

complacente dos artifícios e das vibrantes apatias. O requinte onírico de se exibir, desde um

mirífico e visceral vazio. A matéria frágil, trágica, que o predispunha, transfigurava.

Eis a escala e o condão. Suscitar um fantástico burlesco, para se reinventar. Semear

uma fanática libertação, que o inteirasse. Recriado, antes de nascer. Uma, e ainda outra vez.

Implantando um infinito de probabilidades. Sintonizando uma melodia suspensa. Talvez

despertasse, ou sonharia. Uma aspiração vivente. Um sopro humano. Para sempre…

José de Matos-Cruz

As Crónicas do Livro Livre

119


120


FASCÍNIOS E PARADOXOS

Um enigma enovela a espiral de olhares: quem espreita para além de si, pondo à mostra a

sua imagem? A indiscrição é um sortilégio mudo no auge do pasmo, tecendo o indescritível.

Logo se mesclam as versões e as visões, excedendo o foco de referências. E, quando a retina

óptica não basta, abastece-se a compulsiva exibição com uma captação mecânica.

Assim, maquinal, o processo simultâneo reproduzirá, fielmente, o instante exposto.

Espelhos da alma contaminando o reflexo dos corpos. Mas o flagrante, que trai a atenção alheia

ou humana, também atrai por outros motivos e volúveis comparsas. Ornamento. Observação.

Carnais, selvagens, à estilizada flor das peles digitais. O apetite em representação.

Mosaico entre elipse e catarse, sob assombro e turbilhão. Quem guarda o momento

efémero, acaso aguarda um movimento que o defina? Ansiedade, expectativa. Logrando vigiar,

divaga? Ou habita um labirinto desfigurado de máscaras, de sinais anacrónicos? E ver, virá para

o caso em frenético alerta, ou qual feitiço arcaico? Ritual doméstico, alienígena.

Os símbolos contrapostos à vibração. A curiosidade é instintiva, natural, ou emana de

um capricho fatal? Manchas esparsas, inexauríveis. Inexoráveis, soturnos arrepios. Ora, o

predador visado enreda-se a que gosto na própria teia de aparências e artifícios? Aliás, ou

reparando bem: a aranha antecipa seu festim? E, por que custo, a vítima precipita a caça?

José de Matos-Cruz

As Crónicas do Livro Livre

123 121


Entre-linhas

124


125


126

More magazines by this user
Similar magazines