Juventudes, a arte de lutar por seus direitos

childfundbrasil

((

Juventudes,

a arte de

lutar por

seus direitos

))

Karla Renata Corrêa Viana

(Organizadora)

ChildFund . 1 . Brasil


. 2 . . 3 .


Karla Renata Corrêa Viana

(Organizadora)

1ª Edição

Belo Horizonte

ChildFund Brasil

2019


Ficha técnica

Realização

ChildFund Brasil

Fotos

Luiz Antônio Reis da Silva

Wendel Jobert de Jesus

Francisco Ítalo Juvino de Alencar (P. 101)

Revisão

Claudine Figueiredo Andrada

Pedro Jorge Fonseca

Capa, Projeto Gráfico e Diagramação

Gisele Araujo

Catalogação

Wesley Viana Massena CRB-6 1909

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

V614j

Juventudes: a arte de lutar por seus direitos [recurso

eletrônico] / Karla Renata Corrêa Viana (Org.). – Dados eletrônicos.

– Belo Horizonte : ChildFund Brasil - Fundo para Crianças : Rede de

Juventudes em Defesa dos seus Direitos Sociais - REJUDES, 2019.

ISBN 978-85-88000-06-3 (Impresso).

ISBN 978-85-88000-05-6 (Eletrônico).

Texto eletrônico.

Modo de acesso: World Wide Web.

CDD B869

1. Literatura Brasileira. 2. Associações Sociais. 3. Problemas

Sociais. I. ChildFund Brasil - Fundo para Crianças II. Rede de

Juventudes em Defesa dos seus Direitos Sociais - REJUDES III.

Viana, Karla Renata Corrêa (Org.).

Wesley Viana Massena CRB 6 1909

Aos jovens e as jovens que

sonham e fazem a cada dia

da REJUDES uma realidade.


#

Sumário

Prefácio | 08

Rede de Juventudes em Defesa dos seus Direitos Sociais -

REJUDES | 13

A menina com coração de borboleta | 16

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Carta para mim mesma há dez anos... | 19

Érica Maria Alves Fonseca Santos

Adaptação da ‘’Canção do Exílio’’ de Gonçalves Dias | 22

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Ladrão de tempo | 24

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Sobre eleições... | 25

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Montanha Russa | 28

Raiara Mariane Carvalho

Querer, ter e vencer | 30

Raiara Mariane Carvalho

Amor recíproco | 32

Raiara Mariane Carvalho

O tempo passa | 34

Ana Caroline Ferreira Rocha

Até quando? | 36

Jorge Luís Oliveira Ferreira

Quem matou o negro de hoje? | 38

José Everton Holanda Ferreira

Meu choro mudo | 41

José Everton Holanda Ferreira

Diferenças | 44

Raiara Mariane Carvalho; Cleidiane da Cunha Silva

Ser jovem | 46

Adna Kelly Melo Firmino

Estamos cansados | 48

Adna Kelly Melo Firmino

Muitos falam | 50

Wilton Nonato do Nascimento Dantas

Semelhanças a anjos | 52

Marcio Glísson Ferreira de Oliveira

Poesia em homenagem às mulheres

(voz para quem tem o que dizer) | 54

Marcio Glísson Ferreira de Oliveira

Crítica ao mundo e à sociedade | 56

Gleisiana Ramos Nogueira


Racismo no Brasil | 58

Francisco Robson Candido da Silva

Juventude | 60

Leila de Oliveira Ferreira

Estatística Estática | 62

Andressa Andrade Silva

Gritos Surdos | 64

Andressa Andrade Silva

Força de vontade | 68

Israela Silva Melo e Maria Jaqueline Vilante

depende da gente | 70

Victor Almeida Pereira

Nossa luta | 72

Maria Jaqueline Vilante

Flor do inverno | 74

Valeria Moreira Costa

Caracterizou | 76

Ivani Ramalho Pereira

O teatro sou eu | 78

Raquel Arcanjo Amorim

O sonho | 81

Maelen Rizia Morais da Silva

Um pingo de esperança em um mar de caos | 85

Anabel Almeida de Oliveira

Jovens com sonhos na mente, REJUDES em frente | 87

Roseane Vitória

Juventude na Luta | 89

Natália Pinheiro Bezerra

Visão de mundo | 92

Rafaella Fernanda Rocha (Cacheada-da-Quebrada)

Rebeldia | 94

Rafaella Fernanda Rocha (Cacheada-da-Quebrada)

O diferente | 96

Rafaella Fernanda Rocha (Cacheada-da-Quebrada)

Fotografia | 98

Francisco Ítalo Juvino de Alencar

Vontade | 102

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Como é ser jovem na minha comunidade | 106

Yuri Aldo Pereira; Raiara Mariane Carvalho

Juventude viva | 108

Luiz Antônio Reis da Silva

Juntos um Coral | 109

Karen Antônia Ferreira

Somos Jovens | 110

Lauriane Vieira Soares

Vida Nova | 111

Lauriane Vieira Soares

‘’Nós’’ prendem melhor, mas o laço

deixa a vida mais bonita... | 113

Sâmia Ellen Amaro dos Santos


#

Prefácio

Foi o encontro com Sâmia Ellen Amaro dos Santos, na

Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, em

2016, que hoje me trouxe aqui, à escrita deste prefácio. Agora,

após a leitura dos poemas e pequenos contos e crônicas que

compõem este livro, enxergo mais claramente que, afinal, eu e

Sâmia devemos muito do nosso encontro à REJUDES, que, de

certo modo, a conduziu ao curso de Pedagogia, dentre outras

aventuras.

Estou, portanto, muito feliz e honrada que Sâmia tenha me

apresentado ao universo da REJUDES e, como uma pequena

parte dele, a este livro. Estou também honrada com o convite

para prefaciá-lo.

Começo por dizer que, se uma das intenções da REJUDES

é desenvolver nas juventudes a consciência sobre o seu lugar

social, direitos e deveres, esta coletânea é uma prova vivíssima

de que esse objetivo está sendo alcançado, pois a maioria do

material literário aqui apresentado trata disto, do direito à vida

e das estratégias cotidianas para a fuga da morte.

À medida que lia estes poemas e contos sobre o desafio

da sobrevivência das classes populares no Brasil urbano,

vinha-me à mente o poeta João Cabral de Mello Neto e o seu

clássico Morte e vida Severina. De fato, tal como na primeira

metade do século XX, era comum aos nordestinos pobres a

vida de retirante. As histórias, dores e dúvidas de que este livro

é composto também parecem comuns aos jovens que hoje

dependem das políticas públicas do Estado brasileiro. Porém,

. 8 . . 9 .


ao contrário da maioria desses jovens, as vidas daqueles que

aqui se expressam também contêm sonhos e esperanças. É

sobre a tessitura dessa fala que me concentrarei a partir daqui.

O livro é aberto com o conto intitulado A menina com

coração de borboleta, de autoria de Sâmia Ellen. Delicado

como a própria imagem da borboleta, o conto é uma espécie

de manifesto da esperança e da delicadeza; uma ode ao sonho

e aos sonhadores. Nada mais adequado, pois, para iniciar um

livro editado pela REJUDES e da autoria dos próprios jovens

em que nela estão enredados. O sonho da menina era voar, por

isso tanto se identificava com as borboletas! De tal modo que

“não queria apenas admirar as cores, o voo das borboletas, ela

queria ser uma delas” (p. 17).

Embora inicie desse modo, candidamente, não são o sonho e

a esperança a única matéria de que é composta esta coletânea.

Ao contrário, o lirismo que a atravessa é o mesmo que brota

dos sentimentos que habitam a vida dos seus autores. Desse

modo, a obra está também inundada pela dor, revolta, medo,

angústia e outros sentimentos constitutivos de cada história,

de cada subjetividade.

Com a adolescência, descortinam-se os desafios do

mundo dos adultos e a vida se revela em seus encantos,

arrebatamentos, mas também em sua precariedade. Raiane

Mariane, por exemplo, observa que “a solidão invade mesmo

quando estamos rodeados de pessoas” (p. 33). E Ana Caroline

quase profetiza: “O tempo passa (...) nada é como antes” (p.35).

O que não mais seria como antes? São inúmeras as coisas

que se transformam, que se movem. Algumas delas são

apresentadas por José Everton: “O santo dança / A fé encanta

/ O sino ressoa / E morre mais uma pessoa” (p. 39). Mas não é

apenas a morte, que de tão comum se banaliza e se transforma

no tema central de vários poemas, também a convivência com

certos destinos angustia e inquieta. É novamente José Everton

quem explica: “Não pedi a morte / Mas a sorte (...) e o azar dos

povos escuros” (p. 42).

Gleisiana Nogueira é ainda mais contundente: “O que dizer

desse mundo / Onde pessoas são tratadas como lixo? (...)

Jovens querem buscar os seus direitos / Antes que acabem

dentro de um caixão” (p. 57).

As coisas não são como antes porque a vida cotidiana cuida

de rasgar os véus das ilusões acalentadas na infância. O que

significa, por exemplo, a sorte e o azar dos povos escuros?

Além da solidão, quando rodeados de pessoas, esses jovens

têm de lidar com os destinos socialmente determinados e

suas divisões e segregações. E, muitas vezes, a consequência

dessa repartição desigual da riqueza social são as “estatísticas

estáticas” às quais se refere Andressa Andrade, quando fala da

sua perda:

Hoje lembrei-me de quando (ele) sorria e dizia que eu era

a filha mais linda do mundo.

Lembrei-me de quando chegava da escola e corria ao teu

encontro só pra te mostrar as notas e ouvir você dizer:

“filha, tu és o meu orgulho”.

Lembrei-me de quando era pequenininha e eu te pedia

aflita pra você nunca me abandonar e você sorria e dizia:

“filha, nada vai nos separar”.

(...) Mas a violência nos separou e te levou pra longe de

mim... assim, sem mais nem menos (...). Hoje meu pai faz

parte da estatística de pretos pobres assassinados (...)”

(p. 63).

É por isso, pela forma como a diferença e a desigualdade

marcam e definem destinos, que muitos dos poetas aqui

reunidos a tematizam como o faz Anabel Almeida, quando

afirma: “Por mais diferentes que sejamos, ainda temos muito

em comum, e é por sermos diferentes que precisamos uns dos

outros...” (p. 86).

Felizmente, do sofrimento consequente da discriminação e

do preconceito nascem não apenas a luta e a consciência da

. 10 . . 11 .


sua necessidade, mas também redes, a exemplo da REJUDES,

histórias de amor e amizade e muita arte, inclusive música e

poesia.

É, pois, com a força da vida que sempre se metamorfoseia

que a mesma Andressa que lamenta a perda do pai, no poema

transcrito na página anterior, também alerta desafiadora: “O

amor aqui dentro pulsa forte / E sem pudor te mostro” (p. 66).

Repito e concluo com Andressa: “O amor aqui dentro pulsa

forte”. Vocês, leitores, estão convidados a nele se aventurar

através dos seus diversos caminhos, tal como revelado pelos

autores desta coletânea.

REDE DE JUVENTUDES

EM DEFESA DOS SEUS

DIREITOS SOCIAIS

Bernadete Beserra

Professora titular da Universidade Federal do Ceará,

autora de Solidão equilibrista

. 12 . . 13 .


Inspirados pela metodologia de Monitoramento Jovem de

Políticas Públicas (MJPOP) e pela necessidade de estabelecer

sua própria identidade enquanto rede, jovens com idade entre

15 e 24 anos participantes dos projetos executados pelo

ChildFund Brasil e organizações sociais parceiras em municípios

do Ceará, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Pernambuco

conduziram de forma democrática o processo de construção e

estruturação da REJUDES.

Assim, a Rede de Juventudes em Defesa dos seus Direitos

Sociais (REJUDES) se estabelece em julho de 2015, tendo como

missão contribuir para o desenvolvimento das juventudes,

fomentando a participação autêntica na busca e defesa dos

seus direitos sociais, através de diversas metodologias e formas

de expressão artística, esportiva e cultural. Fundamenta-se

em três pilares: desenvolvimento pessoal, desenvolvimento

sociopolítico e desenvolvimento holístico.

Adota boas práticas de governança e se organiza em comitês

(nacional, regional, local) para atender a todos(as) os(as) jovens

que fazem parte da rede, possibilitando a democratização

dos processos de decisão, a não hierarquização das relações,

a transparência nos procedimentos de planejamento e a

organização de todas as ações que serão realizadas.

Assim, desenvolve intervenções em âmbito local e nacional

por meio de campanhas e ações que venham ao encontro das

necessidades dos(as) jovens em suas localidades, ocupando

espaços de tomada de decisão, atuando na defesa dos direitos

das juventudes.

Por estar alinhada às questões sociais, ambientais e

econômicas, a REJUDES estabeleceu como eixos norteadores

de sua estratégia os direitos humanos, o empreendedorismo,

os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - ODS (elencando

os cinco principais que se relacionam com a sua atuação: 4-5-

8-10-16) e o Estatuto da Juventude – Lei nº 12.852/2013 –, que

dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e as diretrizes

das políticas públicas de juventude.

Atualmente, 769 jovens participam diretamente dos comitês

locais, regionais e nacional, representando cerca de 7.000

jovens e sendo interlocutores junto a seus pares, contribuindo

para o engajamento da sociedade nas pautas das juventudes.

Os jovens e as jovens demonstram sua vocação ao utilizar as

palavras para criar arte e fortalecer sua identidade. Juventudes,

a arte de lutar por seus direitos reúne gêneros textuais que

colocam em voga o ser jovem no Brasil, seus desafios e suas

belezas.

Karla Renata Corrêa Viana

Assessora Desenvolvimento

Comunitário do ChildFund Brasil

. 14 . . 15 .


#

A menina com

coração de

borboleta

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Era uma vez uma menina que possuía um sorriso mais

iluminado que o sol, bochechas rosadas, cabelos encaracolados

e olhos bem redondos, cor de mel, olhos doces, assim como

seu coração. A menina gostava de brincar; sua brincadeira

favorita era imaginar, e nessa brincadeira ela viajava sem sair

do lugar. Essa menina sempre foi sonhadora, e um dos seus

grandes sonhos era voar, mas ficava triste, pois não sabia como

realizar esse sonho, já que asas ela não tinha. O pássaro tinha

asas, o avião tinha asas e até o super-homem tinha asa, e ela

não conseguia compreender por que não poderia ter também.

Como faço para ter asas? Ela perguntava para os adultos, que

logo se espantavam com a pergunta, alguns diziam ser besteira

de criança, outros nem respondiam. A menina ficava cada vez

mais aflita, porque sonhava com suas asas, sabia também que

uma hora ou outra teria que realizar o sonho de infância e não

poderia deixá-lo morrer, pois ela morreria junto. Na sua busca

incessante, encontrou um senhor contemplando a natureza;

ele observava com olhos de encantamento os pássaros. A

menina viu de longe a sensibilidade daquele homem e logo se

aproximou dele. O senhor logo disse que bastava contemplar

aquilo que ele amava para se sentir completo, mas a menina,

de tão sonhadora que era, não queria apenas admirar as cores,

o voo das borboletas, ela queria ser uma delas. Todos diziam

que aquilo era coisa de criança, mas no fundo ela sabia que

seu coração era de borboleta e, por isso, ela era uma também.

A menina foi crescendo, crescendo, crescendo, diferentemente

. 16 . . 17 .


de suas asas, que não cresceram. Ela quase se entristeceu,

mas, de tanto contemplar as borboletas, assim como o senhor

fazia com os pássaros, ela aprendeu a ser como uma, mesmo

sem asas. Na verdade ela tinha asas, mas só os sensíveis

conseguiam ver. Ela aprendeu que a borboleta é leve e livre,

parece uma flor que dança com o vento, a borboleta passa

por transformações, e a menina que já não era mais menina

também tinha passado por transformações. E, quando pensou

que era o fim, foi quando na verdade começou sua vida, porque

a borboleta perde o chão para ganhar o céu, e ela sabia que

com Deus também poderia voar; e de vez em quando Deus

mandava um pedaço do céu para ela em forma de borboleta.

#

Carta para mim

mesma há

dez anos

Érica Maria Alves Fonseca Santos

. 18 .

. 19 .


Cara eu,

Abri hoje a carta que você escreveu para mim há dez anos e,

antes de tudo, gostaria de dizer que escrevo do mesmo quarto

em que você me escreveu. A propósito, ainda durmo na mesma

cama e tenho o mesmo guarda-roupa; a única coisa que mudou

foi que agora tem uma escrivaninha com um computador onde

antes ficavam seus brinquedos; então, já lhe peço desculpas por

não estar em Paris ou Nova York, como você imaginava. Na sua

carta você pedia para que eu desse um beijo nos meus filhos,

no cachorrinho Bob, na Eliza (sua boneca favorita) e dissesse ao

meu marido o quanto eu o amo. Então, a verdade é que o Bob

morreu no ano seguinte ao que me escreveu, mas antes ele

destruiu a Eliza. Quanto a filhos, ainda não tive nenhum e, por

falar nisso, pensei melhor quanto àquela ideia que você tinha de

ter quatro: acho que, hoje em dia, se for pra ter, quero só um.

Quanto ao marido, lamento informar, mas você não se casou

com o Justin Bieber.

Sabe, quando li sua carta, senti vergonha por não ser

exatamente a pessoa que você esperava, mas, afinal, qual

criança se orgulharia do adulto no qual se transformou? Não

me formei em Medicina, como era o seu sonho, e descobri nesse

tempo que os sonhos mudam; na verdade parei de sonhar há

algum tempo.

Sua adolescência foi meio conturbada, mas a de quem não é?

Até sua cantora preferida, a quem você tinha como exemplo,

passou por momentos complicados e agora está em uma

clínica de reabilitação. Você não passou por isso, mas, olha, foi

por pouco.

Sabe o rio em que você ia para se divertir? Pois é, ele está se

acabando aos poucos, já não tem mais a areia fina e branquinha

que tinha e não mais aquela quantidade de água que corria por

debaixo da ponte. Os córregos? Esses secaram por completo.

Quase não existe mais fogão a lenha, e as pessoas não usam

mais se sentar nas calçadas como na sua época. As crianças

só querem saber de eletrônicos e não sabem mais o que é

brincar nas ruas, nem sequer sabem como se brinca de roda

ou se joga queimada. As pessoas agora trancam suas casas

durante o dia, pois o índice de criminalidade cresceu bastante.

É quase como viver em outro mundo, e, pensando agora em

você, sei o quanto tudo isso parece estranho, mas infelizmente

as pessoas se acostumaram a viver assim.

Só tenho que te agradecer por ter aproveitado bem o seu

tempo e ter se divertido, pois hoje já não tenho mais tempo

nem energia pra isso. Quero também te pedir desculpas por

ter destruído seus sonhos. Você não deveria ter desejado tanto

crescer, porque aqui estou eu, desejando encontrar uma forma

de voltar a ser você.

Bom, tenho que parar por aqui, vou aproveitar os poucos

minutos que ainda tenho livres para escrever uma carta para

mim daqui a dez anos. Espero que as coisas até lá mudem para

melhor.

. 20 . . 21 .


#

Adaptação da

Canção do Exílio,

de Gonçalves

Dias

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Minha favela tem beleza

coisa linda de se olhar

mas a mídia não diz isso

porque só sabe discriminar.

Os meninos são estrelas

as meninas, uns amores

eles merecem ter direito à vida

e vivê-la com todos os seus sabores

Mas quando chega a noite

começo a me preocupar

com o futuro dos meus vizinhos

que tanto a sociedade quer calar

Minha favela tem primores

vejo isso do lado de

todos os dias da varanda

tenho o prazer de contemplar

Minha favela tem belezas

e disso posso falar

não permita Deus que eu morra

sem a beleza da comunidade mostrar.

Para que outros desfrutem os primores

que vejo do lado de

sem que vejam que na favela

temos sonhos a realizar

. 22 . . 23 .


#

Ladrão

de Tempo

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Estava tudo apagado, nenhuma luz acesa, o homem já dormia

há horas, estava muito cansado dos afazeres diários. De

repente, uma música tocou, e a luz daquele objeto estranho

automaticamente acendeu. O homem encostou o ouvido ali e,

sem saber como, ouvia uma voz que ele, muito sonolento, não

sabia de onde vinha. Aquele objeto parecia mágico, o homem

conseguia ouvir a voz de seu filho, que não estava na cozinha

ou no quarto de casa, mas em outra cidade. Como isso era

possível? Com o passar do tempo, ele encontrou outro objeto

bem parecido, mas esse tinha uma tela maior. O homem

ficou surpreso, pois nesse não havia nenhum botão, então

ele encostou o dedo na tela e logo apareceu a imagem de

sua mulher. Quando apertou de novo, ele conseguiu se ver no

objeto, foi um espanto medonho; ele jogou o objeto no chão,

mas logo se arrependeu... era tão bonito! Ele viu que naquela

peça que cabia na palma da sua mão estavam vozes, fotos,

músicas, mensagens etc. Ele ficou deslumbrado, pois a partir

daquele momento não precisaria de tanto “entulho” na casa,

poderia jogar fora os álbuns de fotografias, as cartas que sua

amada havia lhe entregado, os discos que fizeram parte de sua

história. E, nessa loucura, nem sentia tanta falta de seu filho,

pois na hora que queria ligava e logo ouvia a voz que tanto

lhe agradava. O homem passava horas olhando para aquele

objeto. Então, um belo dia, olhando ao seu redor, percebeu que

havia se perdido ali dentro; parecia que ele estava rodeado de

pessoas, mas estava sozinho. Teclava sozinho, ouvia músicas

sozinho, via fotos sozinho, lia mensagens sozinho. O objeto,

apesar de lindo, era pequeno demais para a imensidão que era

a vida do homem.

. 24 . . 25 .


#

Sobre

eleições

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Querido eleitor

eu sei que há corrupção

mas, por favor, meu querido

não deixe ninguém na mão

As crianças não podem votar

alguns adolescentes também

não por isso cabe a você

essa grande decisão

O voto é um direito

tem nada de obrigação

é momento de escolha

e de expressar opinião

Tem presidente e deputado

até um tal de senador

candidatos conhecidos

muitas vezes como dotô

Dotô coisa nenhuma

só se tiver formação

com isso toco num assunto

o direito à educação.

Você tem muitos direitos

alguns deles vou lhe dizer

saúde, lazer, moradia

e comida pra comer

Não adianta se omitir

dizer que nada está

acontecendo

o pior cego é aquele

que não quer ver

aquele que finge que

não está vendo

Não adianta nada cobrar

depois da eleição

lugar de revolução é na urna

com o dedo no botão

. 26 .

. 27 .


#

Montanha

Russa

Raiara Mariane Carvalho

Chuva, mais do que água, formas de sentimentos

Garoa, talvez sentimentos sendo perdidos

Sol, felicidade, que, quando forçada demais pra ser vista, se

torna insuportável

Lua, a paixão que às vezes se esconde numa multidão de

nuvens escuras, sentimentos confusos, talvez envergonhados

A vida tem seu tempo, o tempo tem seus limites e estações,

o limite é indispensável e nunca calculado, a estação é a prática

em formas inusitadas, onde você pode e tem a liberdade de

escolher como vai ser. Afinal, a vida é uma montanha russa:

você escolhe se vai curtir ou se vai sofrer.

. 28 . . 29 .


#

Querer, ter

e vencer

Raiara Mariane Carvalho

Esperar!

Esperar o quê?

Pra quê?

Se tudo podemos fazer.

Esperar pra viver?

Pra ser?

Pra crescer?

Vamos fluir, adquirir, conquistar as coisas ao nosso redor.

Vamos fazer além, fazer para o bem, não pra ele ou pra ela,

mas sempre por alguém.

Podemos, sim, ir e querer, querer e ter, e vencer.

Se torne melhor pra você mesmo, faça mudanças

quando decidir que deve, viva o hoje com a certeza de que,

se a oportunidade do amanhã não vier, você venceu, ganhou,

conquistou ou pelo menos lutou e tentou ter ser o que queria.

. 30 . . 31 .


#

Amor

Recíproco

Raiara Mariane Carvalho

Tentar entender; pra quê?

O ser humano é o animal mais complexo, mesmo sendo o

mais vivido. É o menos amigo. É o mais dividido.

Ninguém te entende, mas muitos buscam entender;

percebam, por favor, que só queremos ter alguém para

compreender que precisamos, na verdade, de mais carinho,

de mais companhia, mais sorriso, mais abraços, mais amor

recíproco. A solidão invade, mesmo estando rodeados de

pessoas; às vezes, é questão espiritual ou até mesmo está

faltando aquela pessoa em especial.

. 32 . . 33 .


#

O tempo

passa

Ana Caroline Ferreira Rocha

O tempo passa

e logo você percebe

que tudo passa

nada é como antes

As folhas secam

as pessoas envelhecem

as árvores morrem

as pessoas falecem

O tempo passa

passa tão rápido

e ainda sinto seu cheiro

mas já não te vejo

As pessoas se vão

as coisas ficam

os sentimentos ficam

nada se leva

mas a saudade é eterna

. 34 . . 35 .


#

Até

quando?

Jorge Luís Oliveira Ferreira

São Luís do Curu

quem diria

fevereiro de 2018

um campo, vários disparos

mais um

o silêncio rodou e

depois o alvoroço

Gabriel, 18 anos,

uma vida inteira

Enquanto o som alto rolava

mais um silêncio,

quatro disparos

o som do paredão calou

a música que rolava parou

Mateus, 21 anos,

mais uma voz calada

Dia cansado, muito trabalho

reagi

dessa vez foram mais 4

correram, fui de encontro

ao chão

Leandro, 29 anos,

mais uma voz calada

Até quando?

Até quando, sonhos

serão roubados

por um tiro disparado?

Até quando vozes

serão caladas

pelo som de um tiro

disparado?

Como se não bastasse

a violência da retirada

de nossos direitos

querem os nossos sonhos

a nossa voz assaltados

a mão armada

Nomes fictícios

mas histórias tão reais

de uma cidade que

já foi conhecida pela paz

e o conforto visto hoje

tão raramente

já quase não se vê mais

Até quando?

Até quando?

. 36 .

. 37 .


#

Quem matou o

negro de hoje?

José Everton Holanda Ferreira

A pressa é castigo para alguém

Armas do tráfico circulam

Mas por quem?

Gritos anormais

Anomia dos iguais

O santo dança

A fé encanta

O sino ressoa

E morre mais uma pessoa

O socorro grita

O soco é normal

Enquanto a comunidade

se agita

Leva-te o policial

O arrastado se vai

Olhe, veja sua cor!

A cor que era para simbolizar braveza

Infelizmente simboliza dor

Injustiça por trás de injustiça

Mas quem matou o negro de hoje?

Se matam pra demonstrar poder

Então quem irá nos defender?

Nasce mais um pobre

Sabe logo que vai sofrer

. 38 .

. 39 .


Morre mais um jovem

Morre mais uma esperança

Morre então a ética

Morrem outras crianças

Morre a dignidade

E leva junto a felicidade

Morrem nossos valores

Morrem nossas cores

Morre um negro

ESPERA AÍ!

Mas quem foi o negro de hoje?

Morreu mais um alguém

Mas ninguém percebeu

Morreu! Mas é comum

Estranho seria alguém os salvar

Morreu mais um negro

E mais um

Não só hoje, todos os dias

Morreu mais um futuro

Morreu a falsa democracia

Quem matou o negro de hoje?

Ninguém saberá

Fardas escondem atrocidade

Desmoronam a comunidade

#

Meu choro

mudo

José Everton Holanda Ferreira

Morreu mais um jovem hoje

Morreu no desespero

A mídia condenou seu caso:

por ser negro

ele foi culpado.

Não queremos esperar mais

Um jovem negro morre a cada 23 minutos

Queremos que reine a paz

Quer mais justo

. 40 .

. 41 .


Este corpo que não me pertence

foi tirado por um presidente

Minhas risadas são tão falsas

quanto a sua cara

Eu morro pela fome que mata os pobres

e sofro pelo sofrimento dos que não têm onde morar

Eu choro

quando me esqueço de viver

Eu choro

quando me esqueço do mundo que eu sempre quis ter

Minha cabeça gira sem entender

Meu pulso firme-fraco luta

E resiste em vão

Pois os contras nos moralizam com inúmeros sermões

Não pedi a morte

Mas perdi a sorte

E o azar dos povos escuros

É vítima de chicote do racismo de brutos

A vida não quis me dar uma lição

Mas me torturou

Quando me mostrou a cena daquela criança,

símbolo de esperança, falecida no chão

Quem a matou?

Talvez tenha sido eu

Pois sou culpado de tudo neste mundo

Até pelo derramamento do sangue daqueles judeus

Mas não sou assassino

Pelo menos não me chamam assim

Mas parado, estável

Busco a saída a cada dia para o fim

Estou indo para a morte

Que não é verde

Não é politizada

Arranho-me com as unhas

Mas sempre estou parado

Ninguém pode me salvar

Pois não salvaram a vida deles

Eu pedi por ajuda, mas ninguém veio

Imagina se vão ajudar eles...

Temos força

Tememos o poder

Lutamos fracamente

Bradamos cautelosamente

Então

Deixamos eles surdos

E eu todos os dias escuto

Meu choro mudo

. 42 . . 43 .


#

Diferenças

Raiara Mariane Carvalho

Cleidiane da Cunha Silva

Que o homem não aprenda com a fé nem com a ciência a

conviver e respeitar a diferença. Respeite minha cultura que

eu respeito a sua, fazemos todos parte da mesma mistura;

às vezes o que é bom pra você outros estão dispensando e

não querem saber. Sabemos que nunca acharemos ninguém

no mundo inteiro igual a nós, às vezes parecidos, mas nunca

iguais. Somos poucos demais, na verdade fazemos pouco

demais, então vamos começar a notar o óbvio, perceber que

existem várias formas de gente, vários tipos e estilos, várias

fisionomias, em que se nota basicamente o que a pessoa está

sentindo; olhando ao seu redor, dá pra ver muitos tipos de

brasileiros. Triste saber que, num país tão diversificado, existe

tanto preconceito. Vamos mudar nossos pensamentos para

com as pessoas, vamos mudar nossas atitudes para com o

próximo. É tão clichê ficar falando que existe o preconceito e

que devemos mudar, mas o que estamos fazendo com o que

sabemos?! Você tem a informação, mas não tem o básico de

conhecimento para praticar e fazer acontecer. Quando isso

acontece, você não passa de um inútil, ouvindo a sociedade,

mas não agindo como cidadão. Você, que é tão preconceituoso,

pode aceitar que seu mundinho seja apenas seu quarto, onde

você se isola, tornando-se um ser nojento. Mas quando você

pisa no asfalto, querido, é onde todos andam, onde todos

mandam, o preto, o branco, o alto, o baixo, o triste, o alegre, o

homem, a mulher, o gay, o mendigo, o ateu, o judeu, o católico,

todos podem tomar posse, todos podem chamar de seu. Você

não vive isolado por não querer pisar ali, você tem que passar,

mesmo que seja por obrigação, então olhe ao seu redor, note

as diferenças, respeite-as; e ao menos as engula por educação.

Uma das causas de maior sofrimento do homem é a rejeição,

porque, ao rejeitar o outro, rejeita a si mesmo, uma vez que

vivemos da mesma fonte, sofremos porque rejeitamos,

sofremos porque somos rejeitados. Deixo um recado para

você: não se iluda: se quer que o mundo mude, erga a cabeça e

lute, faça a diferença e seja a diferença!

. 44 . . 45 .


#

Ser

jovem

Adna Kelly Melo Firmino

Ser jovem...

Ser jovem não é apenas aquela idade de florescer,

amadurecer, namorar e beijar...

Ser é jovem é protagonizar, reivindicar, é lutar!

E a cada luta se fortalecer, para fazer valer, para fazer

acontecer!

Muitos acham que a juventude não tem atitude

Mas sinto em dizer...

Nós neste momento

Não queremos o seu simples “lamento”

Ou o seu “não posso ajudar”

E como resposta vou lhe dizer

A juventude vai lutar!

. 46 . . 47 .


#

Estamos

cansados

Adna Kelly Melo Firmino

Drogas lícitas e ilícitas

Tudo havia misturado

Mas não se imaginaria

O tamanho do estrago

Disparados sobre ele

Dois tiros de oitão

Que o atingiram bem no coração...

Não tinha mais jeito

Sua mãe até hoje chora

O choro mais forte

Dentro do peito

Infelizmente ele se foi

E que Deus o perdoe!

E os que o julgam

Por que será, rapaz?

Será que é porque ele era preto, pobre, pardo...

Ou favelado?

Talvez um drogado

Mas era um jovem!

Tinha um mundo pela frente

Poderia hoje estar vivendo contente

Livre de drogas

Sorrindo para muita gente

Dando a volta por cima

Vivendo em paz

Mostrando que a juventude é capaz!

Estamos cansados

Falo em nome da juventude

Estamos cansados de tanta violência

De tanta má atitude

Estamos cansados do extermínio da juventude!

. 48 . . 49 .


#

!Muitos

falam

Wilton Nonato do Nascimento Dantas

Muitos falam que é horrível

que é nojento e um pecado

Falam com tanto gosto

e nem olham para o seu

lado

Onde está o seu irmão

que segue a mesma religião

Em que se encontra no

coração

uma angústia inexplicável

Frases de ódio, raiva e

rancor

Foi isso que pregou o seu

senhor?

Onde se encontram as belas

frases

em que sempre é citado

sobre o perdão e o amor?

Deverás amar ao próximo

como amas a ti mesmo

Onde está isso quando me

faltas com o respeito?

Também dizes em outra

parte

Não julgue para não ser

julgado

É isso mesmo que estás

fazendo

Ou será que estás fazendo

errado?

Se for isso, meu querido,

frase forte eu te digo

Que no dia do juízo

no inverno bem quentinho

sentarás bem ao meu lado

A nossa luta é constante

dificuldades sempre vamos

enfrentar

mas diferentemente de

muita gente

é o amor que iremos pregar

Sempre andamos com

alegria

viveremos nossas vidas

sempre na frente da guerra

E antes que acabe

não adianta mal de nós falar

pois de nada nos importa

quando falas, nos julgas

e no dia do juízo

Só Deus quem vai falar

. 50 .

. 51 .


#

Semelhanças

a anjos

Marcio Glísson Ferreira de Oliveira

Semelhanças a anjos, pessoas que vieram para ajudar.

Super-heróis. Não os vemos, não os tocamos, não os

presenciamos em ação. Mas imaginamos como são, nos vemos

ao seu lado e agradecemos pela bondade.

Não importa se está longe ou se mora ali do lado. Na

ausência de um abraço, vem a preocupação e sensibilização de

ajudar o próximo.

Um anjo superior, anjo dos anjos, já os reservou um cantinho

especial. Além de terem ocupado corações, essas pessoas já

estão garantidas entre os melhores seres, lá em cima com o

maior.

Aqui recebemos a solidariedade com carinho, logo somos

gratos por essa bondade. Um ato de amor, de amizade, em que

por muito tempo se concretiza a afetividade.

A bondade está entre os homens, mas amor só para quem

ama de verdade.

Somos filhos dessa casa, nosso berço de oportunidades.

Somos [frutos de trabalhos que por heróis são realizados].

Obrigado aos padrinhos, às madrinhas, aos heróis. Obrigado

pela bondade e pelo amor que têm por nós. Somos gratos por

vocês, por serem tão especiais.

Desejamos a todos muitos anos de felicidade, pois quem

semeia amor na vida no futuro colhe frutos doces dignos de

bondade.

. 52 . . 53 .


#

Poesia em

homenagem às

mulheres (Voz

para quem tem

o que dizer)

Marcio Glísson Ferreira de Oliveira

É tão notável quando o sol de cada dia se põe e, ao se pôr,

deixa a esperança de renascer de novo, trazendo no modo de

viver o brilho incomparável de ser mulher. Ser a mais bela, ter

mais amor, ser a mais amada, a mais forte e dedicada, ser um

anjo protetor.

Responsável pela vida, cada um de nós pertence a uma

deusa. Obrigado, minha diva, minha mãe, minha riqueza.

Como é ser mulher? Não sei, mas pela que tenho dentro

de casa, minha mãe, vejo que é fundamental para minha

sobrevivência, é por ela que estou vivo e foi dela a inteligência

de ter ensinado o que é certo e evitado consequências.

Como seria o mundo sem a feminilidade? Que mundo!?

Como seria a vida sem o toque feminino? Certamente não

seria tão gratificante.

Mulher faz do mundo sua vida, das lutas saem as glórias,

mesmo que sobrem feridas.

Por que só um dia dedicado a elas, quando na verdade o

infinito é tão próximo?

Vamos agradecer todos os dias, se possível gritar em

silêncio, pois mulher é delicada e exige comportamento. Claro!

Não é chegar, é se aproximar. Não é falar, mas, sim, dialogar.

Não é achar que tudo está certo, é rever e concordar a dois.

Há quem as julgue, quem fale mal ou agrida. Esses não são

homens. Pois quem é homem de verdade cuida e zela pelo

amor que alguém lhe entrega.

Nesse dia tão relevante, vocês são as protagonistas, as mais

belas e importantes, se sintam como artistas. Sejam o centro

das atenções, libertem as sensações e deixem a vida mais

bonita.

Sejam a mulher de sempre, dando amor, carinho e dedicação.

Vocês merecem. Enfim, só me resta dizer que moram no meu

coração.

A vocês digo: obrigado por terem comparecido, por serem

quem são e por terem nascido. Pois quem é mulher sabe a dor

de um parto e a alegria de ter um filho.

. 54 . . 55 .


#

Crítica

ao mundo e

à sociedade

Gleisiana Ramos Nogueira

O que há de se dizer deste mundo

Onde pessoas são tratadas como lixo

A sociedade perdeu a noção do perigo

E não existe mais aquele sentimento profundo

O mundo está quase todo perdido

Os valores estão sendo esquecidos

Os ladrões querem ter autoridade

E os policiais estão se tornando bandidos

Mas eu me pergunto, por que isso tudo?

Por que o direito de expressão

Está se acabando entre a população?

Jovens querem buscar os seus direitos

Antes que acabem dentro de um caixão

Ainda acredito em dias melhores

Acredito em heróis

Herói de uma vida só

Aquele que trabalha, batalha todos os dias

Para tornar o mundo melhor

O jovem sempre quis falar

Mas nem sempre teve chance

Tudo o que ele queria estava fora do seu alcance

Mas isso tudo vai mudar

A luta da juventude

Está acabando de começar

. 56 .

. 57 .


#

Racismo

no Brasil

Francisco Robson Candido da Silva

Já vem de muito tempo

Desde a colonização,

O racismo no Brasil

Espalha-se na nação

O assunto é comum

Mas causa preocupação

O africano brasileiro

Foi escravizado

De um lado branco e livre

Do outro negro explorado

E assim continuou

Preconceito por todo lado

Portanto, meu amigo

Preste muita atenção

Deus criou o mundo

Com muita perfeição

Somos todos iguais

Somos todos irmãos

Olhe para o próximo

Com carinho e amor

Deixe de besteira

Não se importe com a cor

O mundo é pequeno

Para viver com esse rancor

. 58 . . 59 .


Juventude empoderada busca

segundo a Constituição

sua grande importância

não só na sociedade

mas também

nesta enorme nação

A verdade é nossa meta

cantamos em coro

uma grande realidade

juventude empoderada

busca por uma bela importância

nesta sociedade

#

Juventude

Leila de Oliveira Ferreira

Princípio da igualdade

direito à vida igualitária

jovens empoderados vestem

a camisa da REJUDES na busca

pelos direitos realizados

Sabemos tanto dos nossos direitos

quanto dos deveres

esperamos um final de história

em que tudo por nós sonhado forme

um lindo sonho realizado

. 60 . . 61 .


#

Estatística

estática

Andressa Andrade Silva

Hoje lembrei-me de quando sorria e dizia que eu era a filha

mais linda do mundo.

Lembrei-me de quando chegava da escola e corria ao teu

encontro, só pra te mostrar as notas e ouvir você dizer: “filha,

tu és o meu orgulho”.

Lembrei-me de quando era pequenininha e eu te pedia aflita

pra você nunca me abandonar, e você sorria e dizia: “filha, nada

vai nos separar”.

Mas a violência nos separou, te levou pra longe de mim...

assim, sem mais nem menos... Deu nem tempo de a gente se

despedir.

Se eu soubesse que naquele dia, após os barulhos dos tiros,

eu iria te encontrar morto no chão, jamais teria deixado você

passar pelo portão.

Hoje meu pai faz parte da estatística de pretos pobres

assassinados que NÃO tiveram ESCOLHA e seguiram o caminho

errado.

. 62 . . 63 .


#

Gritos

surdos

Andressa Andrade Silva

Cadê os sorrisos?

Cadê os abraços?

Cadê os beijos?

Cadê os carinhos?

(...)

Cadê o Amor? Me digam onde está!

Eu não quero esse falso amor cheio de ódio.... Minha alma não

resiste a ele... Esse amor é tóxico!

Tenho que encontrá-lo!

Preciso nutrir minh’alma

A alma precisa viver

Preciso estancar o sangue que em mim corre... todos os dias!

Preciso salvar essa leviana

Cl (AMOR)

AME

AME

AME

. 64 . . 65 .


AME

AME...

AMAR É RESISTÊNCIA

AMAR ME FAZ FORTE

SOU UMA MULHER DE SORTE

O AMOR AQUI DENTRO PULSA FORTE

E SEM PUDOR TE MOSTRO

TODO AMOR QUE ME INVADE

CHEIA DE AMOR, ME TORNO O SER MAIS PLENO DESTE

UNI(VERSO)

E ENTRE MEUS VERSOS CLAMO

AME-SE

AME

AMAR

AMOR

RESISTIREMOS ATÉ A ÚLTIMA GOTA DE AMOR!

E SE ACABAR?

RE(INVENTAREMOS) POIS O AMOR NASCE FACIN FACIN... SÓ

EM TE VER SORRIR O AMOR JÁ GRITA BEM AQUI... DENTRO DE

MIM!

. 66 . . 67 .


O que engrandece a alma

É o que você faz de melhor

Abraçar o mundo

por uma causa melhor

valorizar cada sorriso

que anda perdido

em um mundo sofrido

por pessoas que não têm dó

#

Força de

vontade

Israela Silva Melo

Maria Jaqueline Vilante

Abrace mais

contemple os bons momentos

grite para todo mundo

o que se passa por dentro

e convide a todos

a relembrar os velhos tempos

e não esqueça de dizer

o quanto é magnífico viver

e fazer parte deste grande elenco

Somos protagonistas

e vivemos para transformar

tudo aquilo que é ruim

e que vem para nos pertubar

mas só esqueceram de uma coisa

que a ferida fortalece a pessoa

nos deixando motivados a lutar

Vamos fazer diferente

mostrar para toda a gente

que o amor pode vencer

e deixar todos contentes

fazendo o mundo crescer

e o amor prevalecer

atingindo todas as mentes

. 68 . . 69 .


#

depende

da gente

Victor Almeida Pereira

ão bom viver de boas coisas

E pensar que tudo pode ser perfeito

Onde as pessoas são felizes

Com amor e respeito

O mundo anda tão ferido

Maltratado e violentado

Mas se depender da gente

Ele voltará a ser arrumado

Precisamos de AMOR

Imploramos por RESPEITO

Precisamos de carinho

E de garantia de direitos

Somos massacrados a cada dia

Por um povo que acha que tem poder

Só esqueceram que também temos força

Para os problemas resolver

O mundo vai melhorar

E eu não me canso de sonhar

De lutar por um mundo decente

Onde as pessoas vão valorizar

As diferenças de todas as gentes

. 70 . . 71 .


#

Nossa

luta

Maria Jaqueline Vilante

Todos os dias são dias de luta

De mostrar a força

De mostrar bravura

Para construir um mundo

melhor

Diante de tanta loucura

Quem persiste alcança

Sabemos que não é fácil

Mas todo mundo merece

Viver em um mundo tranquilo

Carinhoso, bondoso e alegre

Tantos planos nós temos

Para seguirmos em frente

Alcançar nossos objetivos

E fazer um mundo diferente

Mas não fique parado

Pois só depende da gente

De mudar o mundo

De forma consciente

Vamos espalhar amor

Em qualquer lugar

Seja onde for

No céu, na terra, no mar

Pois é com nossa juventude

Que faremos o mundo mudar

Vamos fazer valer nossos

direitos

Mostrar a revolução

Para construir um mundo

perfeito

Com qualidade e educação

Com menos violência

Sabedoria e inteligência

E mais determinação

A juventude precisa

entender

Que é com

empoderamento que

podemos crescer

Mostrar o poder feroz

Que tem a minha, a sua, a

nossa voz

Para o mundo engrandecer

Temos também a REJUDES

Que veio contribuir

Dando força à juventude

Para juntos seguir

Fazendo a transformação

De mãos dadas e união

Com propósito de agir

Também convido você

A fazer parte desta luta

A se juntar à nossa rede

Com o propósito de busca

De efetivar os ODS

Para na vida futura

Termos igualdade,

equidade

E sentimentos de fartura

. 72 .

. 73 .


#

Flor do

inverno

Valéria Moreira Costa

No campo, sozinha

Ela, o céu, a sós

Eu amava aquela menina

Ela amava os girassóis

Floresceste, menina

Sozinha, junto ao sol

Já é inverno, ficarás sozinha?

Só te resta um girassol

Manter-te fria te fez feliz sozinha

No meu silêncio, tua voz

Egoísta, insensível menina

Só amas girassóis!

. 74 . . 75 .


#

Caracterizou

Ivani Ramalho Pereira

Da beleza dos contos

Sai a caixa mágica

Que parece nunca calar

De repente o som levando a gente

Gente de animação

Surge a criação

Do terço de

Zé do Chicão

Raça inteligente

Seguida pelo Deus da gente

Tudo bem diferente

Dos olhos arregalados

Daquele que vive distante

Pra ouvir: ouvir o som da alegria

Enriquecida pela simplicidade

Daquela comunidade

Da nobre capacidade

Da poesia envolvida pela felicidade

. 76 . . 77 .


#

O teatro

sou eu

Raquel Arcanjo Amorim

Certa vez, caminhando pelos corredores do teatro, fitei

um senhor que olhava insistentemente para a coxia do palco.

Calado, sereno, como se estivesse prestigiando uma peça

muito importante, seu cabelo grande e branco repousava no

terno preto e seus olhos brilhavam. Não pude me conter e

interrompi o silêncio: – Olá, está esperando alguém?

O senhor me olhou, levantou-se e subiu no palco. Me fez um

gesto com a mão, dizendo para subir. Ele tapou meus olhos

com a mão e disse: sinta. E pude perceber o vento que nos

envolvia e comecei a escutar o dançar de folhas, o som de

pássaros e comecei a sentir uma grama em meus pés, pude

sentir a umidade do ar e comecei a ouvir o som de muitas

águas, como uma cachoeira. E me disse: esta parte de mim se

chama escutar, ela vai além de apenas ouvir; então, aprendi a

arte de estar apta a escutar.

E tirou a mão dos meus olhos e a princípio só pude ver a

luz do sol, meus olhos desfocaram e vi um campo com muitas

flores e uma enorme árvore. E eis que, olhando fixo para uma

árvore, me disse: – Veja! E apontou para uma formiga que

subia sem esforço pelo tronco carregando uma folha; então,

pude ver o sol refletindo em uma gota de orvalho na folha que

estava sendo carregada.

Eis que virando me disse: esta parte de mim chama-se

detalhes; então, aprendi a arte de dar importância àquilo que

muitos desprezam.

. 78 . . 79 .


E olhando ao meu redor, fiquei encantada ao perceber que

um velho teatro havia se transformado em um lindo campo

florido.

– Está surpresa? Ele me perguntou, antes mesmo de eu

conseguir pensar em uma resposta. Ele prosseguiu: esta parte

de mim chama-se imaginação; então, aprendi que posso ir

aonde quiser sem mesmo sair do lugar.

– Feche os olhos novamente.

Obedeci. E ouvi a voz dele distante dizendo: este lugar no

qual está pisando pode ser apenas uma madeira velha de um

teatro velho ou pode ser sagrado. O que ele vai ser depende de

você antes mesmo de caminhar sobre ele. Cada vez a voz ia se

distanciando ainda mais... a emoção, a intensidade, a mágica

estão dentro de você, e não neste velho teatro.

Ao dizer a palavra teatro em um sussurro bem perto de

meu ouvido, abri subitamente os olhos, e vi apenas o teatro

vazio...

Então, percebi que quem conversava comigo era a própria

arte. Era o próprio teatro, e aprendi daí a arte de atuar.

#

O sonho

Maelen Rizia Morais da Silva

. 80 . . 81 .


Ontem à noite, eu tive um sonho

Nas ruas só havia paz

Acordei assustada com o barulho dos tiros

Mataram mais um na rua detrás

E quem morreu?

Foi Maelen? Não!

Quem morreu foi mais um preto e pobre

Para compor a coleção

E quem matou? Não há quem suspeite

A polícia tem facilidade

De colocar caso “fútil”

Debaixo do tapete

Eles dizem que combatem o crime

Reduzindo a maioridade penal

Pergunta como eles combatem

A desigualdade social?

Falta de remédio em hospital?

Ser humano que também é humano

Passando fome em terminal?

A polícia corrupta na manutenção

Do tráfico em nível mundial?

Do que importa se o Brasil

É hexa ou não?

A fome permanece em cada esquina

Angústia do coração!

O dinheiro é investido

Nos jogadores que têm “nome”

Quero ver pensar no pobre

Que, a todo instante, passa fome

Hoje em dia, alguns assaltos

Não são mais à mão armada

Pai de família dá o sangue,

Para ter casa sustentada

Os impostos que te esperam

No final de cada mês

São teus assaltos constantes

Cada um em sua vez

Há alguns meses atrás

Queria ver o meu amor

Triste fim para o meu governo

A passagem aumentou

E assim, pouco a pouco,

A distância me dilacerou

“Ser ou não ser, eis a questão”

Sendo ou não sendo

Todo dia tem jovens

Estirados pelo chão

Fernando Pessoa ensinou

Que matar um sonho é mutilar uma alma

Imagina quantos sonhos são mortos

na insensata madrugada?

Me pediram para acreditar na esperança,

Esperança que a gente tanto acredita

O que mais quero é findar essa aliança

Que só coloca mais jovens na estatística

Semana passada, João ia ver a namorada

Mas no caminho foi assaltado

. 82 .

. 83 .


Roubaram todos os seus sonhos

João levou três tiros por engano

E o sangue escorreu pela calçada.

“Me poupa do vexame de morrer tão moço”

Dizia João

João “dizia” como diz o verbo,

Agora reflita: o que garante que você

Não possa ser a próxima vítima?

A juventude quer voz, vez e lugar

Quer viver, construir e sonhar

A juventude tem fome, desejo e sede

E, nesse desfecho, deixar de indagar: não posso não!

“Você tem fome de quê?”

Vai acordar e reagir ou vai dormir que nem João?

#

Um pingo de

esperança em

um mar de

caos

Anabel Almeida de Oliveira

. 84 . . 85 .


Por mais diferente que sejamos, ainda temos muito em

comum, e é exatamente por sermos diferentes que precisamos

uns dos outros, pois a diferença dá sentido, faz unir, agrega

valores. O meu diferente pode ser bom, mas porque me

conformar com o bom se posso avançar ainda mais?

Temos tanto para compartilhar, pessoas para cuidar, e

mesmo assim sempre acabamos centralizando tudo em nós

mesmos. O egoísmo é o nosso inimigo, mas lidamos como se

fosse nosso melhor amigo. Valorizamos o “eu”, priorizamos

aquilo que nos traz benefício; e, em troca de status, acabamos

vivendo o que não somos. Uma geração sem identidade tem

surgido, e ela é incapaz de enxergar as necessidades que há

em sua volta.

Portanto, nisso dá para perceber o quanto precisamos

mudar, e bom seria se começássemos a ouvir mais do que

falar, a amar mais do que julgar e a abraçar mais do que

brigar. Vamos nos erguer, precisamos abrir os nossos olhos e

atentar para o nosso próximo, pois o problema não é só dele,

é nosso. “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os

que choram”. – Romanos 12:15

#

Jovens com

sonhos na

mente,

REJUDES

em frente

Roseane Vitória Santos

. 86 . . 87 .


Sem medo de tentar,

Sem medo de errar, posso não mudar o mundo, a REJUDES

vai mudar.

Está cansado de sofrer, cansado de chorar? A REJUDES te

ajuda tua vida melhorar.

Somos estouro, somos fogo, REJUDES em ação, mostrando

que o jovem é o futuro da nação.

Os jovens estão lutando pelos direitos sociais, pela paz, pela

cultura e o fim da guerra mundial, lutando pela justiça. Não

podemos fraquejar, buscamos igualdade, dignidade e saúde de

qualidade!

Somos a minoria ajudando a maioria, lutando com a nação

pelo pão de cada dia.

Jovens sem medo, é hora de impor respeito, viver dessa

maneira é algo que não aceito, chega de miséria, chega de

escuridão. Vamos, REJUDES, somos a luz desta nação.

Para finalizar: chega de notícias de jovens morrendo em

capitais; e mais notícias: “esses jovens têm ideias geniais”.

#

Juventude

na luta

Natália Pinheiro Bezerra

. 88 . . 89 .


Vamos lá, juventude

Está na hora de acordar

Mostrar que não nos falta atitude

E garra para transformar

Essa tal realidade

Que nos desperta e envolve

E que a nossa liberdade

Problemática nenhuma dissolve

No Fórum, a juventude unida

Vem pensando e debatendo

Sem se dar por vencida

E assim se fortalecendo

Conhecendo os nossos direitos

Sem esquecer os deveres ditos

Lutando do nosso jeito

Para assim sermos ouvidos

Temos tantos anseios e palavras

Que são tão somente nossos

E para que possam escutá-las

Não mediremos os nossos esforços

Dizem que toda a vida

Teremos pela frente

Pois que ela seja uma batalha ávida

Em que façamos diferente

Proteção integral e diversificada

E enfrentamento das violências

É o que propõe essa jornada

De debates e vivências

Jovens em interação

Querendo ser escutados

Lutando contra qualquer violação

Daqueles por lei assegurados

Tantas são as violências ainda no nosso percurso

Apesar do nosso direito à proteção

Queremos que ultrapasse o nível do discurso

O dito sobre sermos “o futuro da nação”

Somos força, somos vida

Juventude que luta em união

Somos diversidade, voz que grita

Somos, acima de tudo, revolução!

. 90 . . 91 .


#

Visão de mundo

Rafaella Fernanda Rocha (Cacheada-da-Quebrada)

É nossa vida, nossas quedas, que nos permitem crescer

e todo dia nossa luta pra ter o que comer, e o desespero do

pai ao ver o seu filho morrer, e o caminho sem volta onde e

impossível viver. A verdade nós já sabemos, que o essencial

é invisível aos olhos, a máquina do desemprego que fabrica

criminosos, em que a escolha é certa falta de oportunidade;

quem muito julga os outros não sabe a sua realidade. Tem

muitos mendigando o pão por não ter condição, e a crueldade

do ser os afirma ladrão, se preto na sua casa só entrava com

coca cola, hoje o respeito onde eles pisam na real, diferente de

outrora. O Brasil não vai pra frente, tá faltando respeito, e é da

boca de malditos que tá o preconceito. Muitos olham aparência

sem saber da essência, e quando o mundo girar que vêm as

consequências. Muitos andam sem rumo em meio às calçadas

e carregam no peito o sonho da morada. Quantos no meio da

noite, em meio à madrugada, acordaram com barulho de bala

na quebrada. É choro sincero, muito sangue no chão, vítimas

de bala perdida em meio à operação. Onde o menor descalço

acredita na reação. É deixar de mãos vazias os políticos ladrão.

Um lugar que muitos julgam sem saber, onde preto, pobre

da quebrada, criminoso acusam ser, onde todos apontam o

dedo; cadê a União; a República tomada pela corrupção? No

coração uma esperança, na mente uma meta vai que daqui

uns anos um justo futuro nos espera? Hoje venho falar o que

sinto em meio à contrariação, é através desta letra que eu digo:

liberdade de expressão.

. 92 . . 93 .


#

Rebeldia

Rafaella Fernanda Rocha

(Cacheada-da-Quebrada)

É que essa rebeldia me fez crescer, acreditando nos meus

sonhos que vieram a prevalecer, eu escolhi viver do meu jeitinho

de ser, e as opiniões desse mundo apaguei com a borracha,

não me interessa saber. Muitos têm no limite o céu, não vejo

limites, eles ultrapassei, sou réu, nunca saí gritando pela

liberdade e é na agitação do meu dia que vem a intensidade.

Ser livre não é fazer tudo que quer, é ter direito de escolha, é a

coisa certa fazer.

. 94 . . 95 .


#

O diferente

Rafaella Fernanda Rochaaella Fernanda Rocha

(Cacheada-da-Quebrada)

Qual foi, sociedade? Não entendi! Isso é moda, tá na

tendência, tem que vestir? Eu não sou obrigada a ser igual a todo

mundo; minha essência não é ego, vai mais além que isso tudo.

Pois muitos não conheceram a verdadeira felicidade, brigam

por bens que se atracam na maldade, num país capitalista

que a real realidade, que, passado carnaval, as máscaras

permanecem na sociedade. Terno e gravata, maletinha na mão;

se pra muitos tu és chefe, pra mim não passa de vacilão, onde

os da alta te extorquem com celular de última geração, você

sem conhecimento sofre de alienação, até onde você permite

ser enganado? Enquanto não correr atrás, do capitalismo você

será explorado.

. 96 . . 97 .


#

Fotografia

Francisco Ítalo

J. de Alencar

A fotografia, para mim, é muito mais que um simples clique,

vai muito mais além disso, é saber transmitir o sentimento

de cada pessoa, de cada lugar, e se jogar de corpo e alma. A

fotografia me proporcionou tudo de mais belo e enriquecedor

que se pode imaginar.

Ao pegar na câmera, é o momento meu e dela, é uma

relação de pai para filho e uma sintonia incrível que é difícil

explicar. Ao pegar na câmera, consigo viajar bem fundo para

poder registrar o melhor momento de fotografar, mas não

basta só isso: é necessário ter o conhecimento, explorar outros

mundos, sair de sua zona de conforto, querer sempre ir em

busca do novo, estar sempre em busca de inovar, para obter

sucesso não só na sua vida financeira, mas no seu espírito.

Minha alma é totalmente dedicada àquilo que mais gosto de

fazer, que é a fotografia.

Fotografar é transmitir o que o outro está sentindo, saber

o que o próximo está sentido para, através da câmera, poder

transmitir a emoção daquele momento, não apenas registrar,

é mergulhar de fato naquilo gosta.

Fotografia para mim? A fotografia é o meu modo de ver

a vida! É seguir em frente por mais que seja difícil, pois nem

tudo é glória, as críticas e os elogios virão, cabe somente a

você saber como lidar com eles. Hoje em dia eu sou um

vitorioso por tudo que estou conquistando, mas sei que não é

o suficiente, sei que tenho que aprender mais, mas nunca deixe

sua essência agreste, você e não o próximo, pense em você, se

ame, faça tudo com amor, que consequentemente você estará

ajudando o próximo. Se for fazer algo faça sem pedir nada em

troca, pense sempre na frente com os pés firmes no chão. A

fotografia é tudo isso, e você se entrega de corpo e alma para

saber reconhecer quando o outro for melhor que você e ter a

humildade de ir atrás de pessoas que possam te ajudar, pois

toda forma de conhecimento vale a pena para sua construção

não só profissional, mas como pessoa também. Seja amor,

faça por amor, o resto vem naturalmente.

. 98 . . 99 .


Você é tudo na minha vida

Tudo que eu tenho é você

Mesmo fraco, em pedaços,

eu preciso te dizer

Obrigado por estar aqui

Comigo sempre

Oh querida e maravilhosa

Câmera fotográfica

Com você descobri

A ser quem eu sou

A ir mais além do que eu

posso imaginar

E saber dar valor não

somente a mim

Mas saber reconhecer o

valor do próximo

E ser amor, e fazer com que

esse amor

Seja transmitido através de

minha fotografia

Não importa o que tenha

que passar, quantas

tempestades, quantos

muros eu vou ter que passar

para atingir meu objetivo

Se eu estiver com você, sei

que posso ir muito mais

além

Tua luz

Me faz ver que

Alguém pode me escutar

Eu pude entender que é a

luz

da fotografia que irradia

minha alma

Trouxe paz onde não

Havia a luz

Minha vida

Minha história

Só fez sentido

Quando te conheci

Seu diafragma

Sua lente

Me levam além do que

pensei

Se às vezes me escondo,

em você me acho

Nem dá pra disfarçar

Esse é o sentimento que

temos de ter sobre a

fotografia, a tratar como

alguém da família, é

simples: AMAR.

. 100 .

. 101 .


#

Vontade

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Vontade de escrever todas as cartas de amor que ainda

não escrevi;

Vontade de deixar um bilhetinho embaixo do travesseiro da

minha mãe;

Vontade de tirar um dia para assistir meus desenhos

favoritos ou até mesmo a Lagoa Azul e me lembrar das tardes

livres que eu tinha;

Vontade de passar o dia brincando na rua e ver pessoas se

olhando, se tocando, brigando e fazendo as pazes;

Vontade de chorar e gritar assim como na minha infância

e depois de alguns minutos me sentir livre para deixar a

primavera ficar não apenas nos meus lábios, mas nos meus

olhos. Muitas vezes estamos com a primavera no sorriso e o

inverno no olhar;

Vontade de ter tempo para ir à igreja sem me importar com

horários, não por religiosidade, mas porque Deus é meu amigo

e sempre gostei de passar bastante tempo com meus amigos;

Vontade de passar uma tarde com meus avós, ouvindo

aquelas mesmas histórias de sempre;

Vontade de assistir um filme bem clichê;

Vontade de tomar banho de chuva;

Vontade de fazer tantas coisas...

Oh Deus, não permita que eu fique só na vontade!

. 102 . . 103 .


Músicas

. 104 . . 105 .


Esse rap aqui vai para o sistema que manipula a gente, mas

pra eles sem problemas, e preferem nos atacar, dizendo que

“preto de havaianas aqui não pode entrar”, mas aqui eu tô

falando, meu parceiro, a rua me criou e meu pensamento é

ligeiro, aqui também mando um alô.

Como é ser jovem

na minha comunidade

Yuri Aldo Pereira

Raiara Mariane Carvalho

Me perguntaram como é ser jovem na comunidade e aqui tô

mostrando a nossa realidade, a gente não tem voz por causa

da idade, nunca me deram nada – nem sinceridade. Quantas

vezes escapei de tanta maldade, mas não adianta, é muita

crueldade.

Ser jovem aqui é muito difícil, a vida é corrida e perigosa igual

a um míssil, é muito difícil, mas sigo em frente, a vida é sofrida,

mas a gente ainda é gente; no pouco que eu rimo, eu já vou

falando: a culpa é do governo, ou da gente que não tá cobrando?

“Aí, governo, vou te falar: interligados está no ar” (2x)

Agora no sapatinho eu chego de fininho, me esquivando da

maldade, pra não ficar no caminho, sei que não tô sozinho e

assim eu vou chegando... aê população, vamo cobrar, que tá

faltando....

“Interligados, a chapa é quente não tem governo que bata de

frente” (2x)

Ser duas vezes melhor? Não, cansei dessa parada. Não roubei

o celular, chega de tapa na cara, e nem vem de caô dizendo não

é preconceito, cê acha que pobre é ladrão desde que mama

no peito, e o x da questão? Ninguém explica direito, pô minha

descrição sempre bate com a do suspeito, aí, governo, presta

atenção no que o pobre fala, o cheiro da revolta aqui não bola,

aqui exala, o que eu faço aqui é por mim e por ti, a minha meta

é rimar, até ver o jovem sorrir, é claro que eu quero mel, não

quero ser mais um réu, a lei do Brasil é bonita, mas só está no

papel.

Um sonho de criança, eu quero um Brasil melhor, ainda tenho

esperança, progresso para meu povo, dinheiro no meu bolso,

traz um filé para os que ficaram no osso.

E sou só mais um no ensino médio, provando aqui que nos

dão doenças e nos vendem remédios, e não importa sua idade,

enquanto alguns dormem outros sonham com a liberdade, o

que vai ser da gente, meu irmão? Querem nos prender e ainda

falam que somos o futuro da nação? Sem essa, por favor... Eu

acho que o Brasil precisa mesmo é de paz e amor.

“Interligados e com respeito, eu vou atrás dos meus direitos

(6x)

Link para a música: https://youtu.be/3X1N6lNa3B4

. 106 . . 107 .


Juventude

viva

Luiz Antônio Reis da Silva

A história não vai mais se repetir

Sempre taxado como mais um sobrevivente

Mas levanto minha voz, hoje sei, posso gritar

Não aceito morrer

Estou disposto a lutar

A juventude vai viver

Não importa, eu vou correr

Buscando uma vida melhor

Empoderado – e sei que não estou só

Juntos

um coral

Karen Antônia Ferreira

Juntos somos pássaros a assobiar

No céu, somos estrelas a brilhar

Em Ribeirão de Areia, um coral

Alegre a cantar, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Festivos a dançar, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Juntos pelo mundo a viajar, a cantar, a cantar

No mundo viajar, a bailar, a bailar

Agradecemos a Deus por nos agraciar

Graciar, graciar.

A juventude vai viver

Não importa, eu vou correr

Buscando uma vida melhor

Empoderado – e sei que não estou só

Sei que há muito pra fazer, mas vou lutar

E vou VENCER!!!

Link para a música: https//youtu.be/l_QGOYoTGcg

. 108 . . 109 .


Somos jovens

Lauriane Vieira Soares

Eu sei que você tem regras

Pra seguir

Eu sei que você tem objetivos

Pra cumprir

Mas se precisar de ajuda

É só chamar

Eu estarei lá

Muitos objetivos você quer alcançar

E se você sonhar

E se você lutar

Tudo pode alcançar

Refrão:

Eu e você somos jovens

Vamos viver diferente

Vamos mudar tudo

Eu e você somos jovens

Vamos viver diferente

Pra que o mundo seja bem melhor

Vida nova

Lauriane Vieira Soares

Como vai ser o dia de amanhã

Eu não posso fazer

Viva o hoje como se não houvesse o amanhã

Sonhe, sorria

Viva a vida, aproveite

Cada segundo

Sonhe, sorria

Pois sei que um dia

Não estaremos mais aqui

Refrão:

Viver, sonhar

Longe de acabar

Não desista dos seus sonhos

Viva cada segundo

Viver, sonhar longe

De acabar

Não desista dos seus sonhos

Viva cada segundo

Viva, adore a ele

Viva, exalte a ele (2x)

. 110 . . 111 .


#

‘’NÓS’’ prendem

melhor, mas o laço

deixa a vida mais

bonita...

Sâmia Ellen Amaro dos Santos

Que a chuva não atrapalhe a praia de domingo.

Que a depressão do fim de domingo não atrapalhe o início

da segunda.

Que o despertador não atrapalhe o sono, os sonhos.

Que o dinheiro não atrapalhe a vida, muito menos a falta

dele.

Que a gente não se atrapalhe nem se perca nessa ilha

chamada quarta-feira.

Que a gente não se atrapalhe com etimologia, deixando

nossa quinta ser um dia de quinta. Que a empolgação que a

sexta nos traz não atrapalhe, tirando a graça dos outros dias.

Que os nós (NÓS) não atrapalhem em nada, porque nós

prendem melhor, mas o laço deixa a vida mais bonita.

Depende de nós...

. 112 .

. 113 .


CONHEÇA A REJUDES

Fontes utilizadas: Exo (corpo de texto),

Fauna One e Boris Black Bloxx Dirty (títulos),

Alternate Gothic 2 BT (capitulares)

Impresso em papel Polen Soft LD 80g

www.facebook.com/REJUDES

YouTube: REJUDES Comunica

. 114 . . 115 .


#

À medida que lia estes poemas e contos sobre o desafio

da sobrevivência das classes populares no Brasil urbano,

vinha-me à mente o poeta João Cabral de Mello Neto e o

seu clássico Morte e vida Severina. De fato, tal como na

primeira metade do século XX, era comum aos nordestinos

pobres a vida de retirante. As histórias, dores e dúvidas de

que este livro é composto também parecem comuns aos

jovens que hoje dependem das políticas públicas do Estado

brasileiro. Porém, ao contrário da maioria desses jovens,

as vidas daqueles que aqui se expressam também contêm

sonhos e esperanças.

Começo por dizer que, se uma das intenções da REJUDES

é desenvolver nas juventudes a consciência sobre o seu

lugar social, direitos e deveres, esta coletânea é uma prova

vivíssima de que esse objetivo está sendo alcançado, pois a

maioria do material literário aqui apresentado trata disto,

do direito à vida e das estratégias cotidianas para a fuga da

morte.

Bernadete Beserra

. 116 .

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