primeira mao julho 2019

ruth.reis

Revista laboratório do Curso de comunicação da Ufes

EDIÇÃO 156 | JULHO 2019 | ANO XXX

EPIDEMIA

SILENCIOSA

AUMENTO DO NÚMERO DE CASOS DE ISTS ENTRE

JOVENS É REFLEXO DE PRECONCEITO, DESINFORMAÇÃO,

POLÍTICAS PÚBLICAS FALHAS E DESCUIDO.

Elas nos filmes

de terror 8

Os prazeres da

vida casta 28

Toda criança tem direito

ao não trabalho 34

julho 2019

1


CENTRO

DE VITÓRIA

ensaio fotográfico:

Carla Nigro e

Suzane Caldeira

(continua na página 45)

2 julho 2019


julho 2019

3


::

PRIMEIRAMÃO

REVISTA LABORATORIAL PRODUZIDA

PELOS ALUNOS DO 6º PERÍODO DO

CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

- JORNALISMO DA UNIVERSIDADE

FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

(UFES).

Equipe:

Álvaro Guaresqui

Ana Julia Chan

Carla Nigro

Daniel Jacobsen

Felipe Khoury

Giovanni Werneck

Giulia Reis

Heitor MAttedi

Kelly Lacerda

Lavynia Lorenção

Lydia Lourenço

Marcela Delatorre

Maria Clara Stecca

Maria Fernanda Conti

Marina Coutinho

Matheus Souza

Nicolas Nunes

Richele Ribeiro

Robson Silva

Suzane Caldeira

Vitor Pinheiro

edição

Marcela Delatorre

Daniel Jacobsen

professora orientadora

Ruth Reis

Primeiramão nas redes

Instagram: @revistaprimeiramao

Twitter: revista1mao

EM

PRIMEIRA MÃO

6 POESIA EM REDE

A profundidade da vida traduzida em

rimas e versos dentro do Instagram

8 ELAS NOS FILMES

DE TERROR

O lugar dela é aonde ela quiser,

inclusive no filme de horror.

10 LIVRO, FILME, MÚSICA

Três sugestões para você

11 crônica:

PRECISAMOS FALAR SOBRE

A SAÚDE DO JOVEM

12 COPO MEIO CHEIO,

COPA MEIO VAZIA

Após receber o Mundial da FIFA em

2014, mais uma vez uma competição

internacional desembarca em solo

brasileiro, porém com fracasso de público.

Issuu: jornal1mao

Medium: @primeiramao

Facebook: primeiramao

2019

JULHO 2019

4 junho 2019

16 AMADORISMO DO

FUTEBOL CAPIXABA

Qualidade da estrutura, e da

técnica impedem o futebol capixaba

de sair do nível artesanal


18 EPIDEMIA SILENCIOSA

Crescimento no número de casos de ISTs entre

jovens é reflexo de preconceito, desinformação,

políticas públicas falhas e descuido.

22 DADOS, A PREOCUPAÇÃO

DA ERA DIGITAL

Novos mecanismos são aprovados em nome

da defesa da privacidade do cidadão

28 OS PRAZERES

DA VIDA CASTA

30 MULHER

NO VOLANTE

EM PERIGO

CONSTANTE

24 CIDADÃOS INVISÍVEIS

Suas histórias poucas vezes são conhecidas,

Quase não há registros oficiais, Mas

eles estão aí nas ruas e calçadas

32 ALÔ, ALÔ,

ALÔ...

TU TU TU

empresas de marketing

atacam direitos do

consumidor por

34 TODA CRIANÇA

TEM DIREITO AO

NÃO TRABALHO

38 NOVO

DESTINO PARA

AS BANCAS

40 VIOLÊNCIA

COMO HERANÇA

A violência no

Espírito Santo é

histórica. Embora os

dados governamentais

mostrem uma

redução drástica

nos homicídios,

o medo e o crime

organizado avançam.


POESIA EM REDE

A PROFUNDIDADE DA VIDA TRADUZIDA EM RIMAS E VERSOS

DENTRO DO INSTAGRAM

lavynia lorenção e maria fernanda conti

Navegar

pelas redes

sociais

em busca de

conteúdos

singulares

sempre foi

uma constante

para mim;

páginas e perfis

me prendem

por horas enquanto

viajo por suas postagens.

Em uma “navegação” recente,

na qual buscava inspirações e motivações,

me encontrei passeando por

perfis de poesias no Instagram. Era

um lugar em que não esperava encontrar

esse gênero. Para os mais antenados

nas redes, os versos de Rupi

Kaur (@rupikaur_), João Doederlein

(@akapoeta), Lucão (@lucaoescritor)

e Zack Magiezi (@zackmagiezi)

não desaparecem do feed. Conhecidos

como “instapoetas”, esses jovens

conquistam cada vez mais leitores no

Instagram. Juntos, acumulam quase

6 milhões de seguidores, com versos

que falam sobre amor, feminismo e

assuntos do cotidiano.

Aquilo me surpreendeu e me

prendeu, pois em meio aos corpos e

vidas perfeitas, havia um lugar onde

encontrar um frescor de realidade

através da escrita. Dentro da enxurrada

de informações da internet, esses

escritores viralizam com textos

curtos, linguagem simples, gírias

e, em sua maioria, temas afetivos e

motivacionais. Embora tenham suas

particularidades, também apostam

no quesito visual, com o apoio de

desenhos, projetos gráficos e caligrafias

estilizadas. As novas fronteiras

traçadas pelos poetas me intrigou,

mas como disse Sérgio Sampaio nos

anos 70, “um livro de poesia na gaveta

não adianta nada/lugar de poesia

é na calçada”, e aquela era a calçada

deles, o espaço onde atraiam todos

os tipos de pessoa e davam voz aos

seus pensamentos.

Os guardanapos de Pedro Gabriel

Anhorn, ou Antônio (@eumechamoantonio),

seu pseudônimo, repercutem

desde 2012. Além de fãs por todo o

país, Pedro conquistou o mercado editorial

e, após estourar na rede, lançou

três livros. Segundo ele, o Instagram

é um dos responsáveis pelo alcance

de seu trabalho. “Por ser um território

sem fronteiras, possibilitou diálogos

que seriam inviáveis há algum tempo.

Hoje, eu converso em tempo real

com minha leitora de Manaus ou com

meu leitor de Porto Alegre”, afirma o

escritor. Já os desenhos em nanquim

e as frases de autoconhecimento da

pernambucana Clarice Freire (@podeluaoficial)

mostram que esse terreno

é ocupado por todas as vozes. “Não

imaginei que a internet seria um lugar

tão propício e fértil, sobretudo para

a poesia nacional. Ainda mais para

mim, uma mulher nordestina. Antigamente,

só quem estivesse no eixo RJ-

-SP conquistava relevância, mas hoje

todo mundo está sendo escutado”,

relata a jovem.

Contudo, nem tudo são flores:

tornar-se refém do medo de ficar

para trás é fácil quando o “sucesso”

na plataforma vem acompanhado de

números explícitos, que refletem curtidas,

comentários e compartilhamentos

instantâneos do seu trabalho. “É

preciso entender que o alcance orgânico

é uma consequência que não depende

exclusivamente do seu esforço.

Há algoritmos que mudam frequentemente,

há o tempo do leitor no mundo

offline, há a concorrência cada vez

maior de novos perfis com um conteúdo

muito parecido com o seu…”, reflete

Pedro Gabriel. O segredo, portanto,

é não se iludir, seguir sua essência e

ouvir aquela voz interna que nos diz

muito em silêncio: a intuição. Mais do

que isso, Clarice defende, por sua vez,

que “o importante é fazer um trabalho

que seja pessoalmente relevante, o

qual você poste e compartilhe porque

acredita naquilo, independentemente

de qualquer like ou stories”, aconselha.

INTERLÚDIO PARA

OS CAPIXABAS

Mais próximo do que eu imaginava,

vários representantes capixabas

navegam pelas águas da poesia no

Instagram. Sem pretensão, Isabella

Mariano, 27, começou a escrever

seus verbos em cadernos antigos

que achava pela casa. Os amigos e

os professores, ao verem a qualidade

do que produzia, a estimularam

na divulgação do trabalho. Depois

disso, não parou mais, e hoje se destaca

como uma das poetas de maior

alcance da Grande Vitória.

Isabella acredita que a internet

pode ter democratizado a literatura.

“Penso que o processo artístico só

se completa quando alcança o leitor.

Dentro da internet a gente conquistou

isso”, defende. Ela também vê que

o Instagram possibilitou o diálogo

não só com os seguidores, mas com

outros poetas, criando parcerias e

inspirações. “Converso com gente

do Rio de Janeiro, Salvador, do interior

do Espírito Santo… São pessoas como

eu, que estão tentando produzir sua

6 julho 2019


FOTO: LEO AVERSA

arte e apoiam umas às outras”, diz a

escritora.

“Acho que a internet potencializa

essa produção em larga escala da arte.

Para algumas pessoas, essa popularização

é negativa - alguns acham que

arte deve ser para um grupo seleto.

Não acredito nisso. Pra mim, o processo

artístico só se completa quando

alcança o leitor Essa massificação é

muito potente pra quem produz literatura

hoje”, afirma.

Também foram lives, declamações,

fotos e vídeos de competições que abriram

as portas para o Coletivo Nísia, na

Grande Vitória, coordenado pela professora

Daniela Andolphi. Ao conhecer

as histórias de suas alunas, ela resolveu

fazer da poesia um gancho para estimular

a autonomia das jovens. Hoje,

quase 60 adolescentes escrevem e

transmitem para os espectadores suas

experiências de resistência. “As mídias

sociais já faziam parte da vida delas, e

ao ganharem visibilidade, aprenderam

a reafirmar suas opiniões. Inclusive,

muitos convites para apresentações e

palestras só foram possíveis pelo Instagram”,

afirma Daniela. “Hoje, virou algo

muito natural: cada seguidor é como se

fosse um leitor”, ressalva.

ESPECIALISTA

Muito estudado por pesquisadores,

o movimento é fenômeno

dentro e fora do país. De acordo com

a doutora em Teoria da Literatura e

professora do Instituto Federal do

Espírito Santo (Ifes), Ana Klauck, o

aspecto técnico dos poemas permite

a integração com o Instagram. Primeiramente,

pois “nas redes sociais,

condensamos informações em poucas

palavras. O mesmo acontece na

poesia: são vários sentimentos expressos

em poucas linhas”, explica a

professora. Por último, devido a sua

capacidade de assumir formatos diferentes,

adequando-se a qualquer

espaço que lhe for dado. “Por isso,

os poemas são bem recebidos no

Instagram”, Ana afirma.

Ainda segundo ela, os “instapoetas”

dão visibilidade a autores e obras antes não

acessíveis, assim como viabilizam o acesso

à todos os públicos. “Com esses escritores,

é possível entender que a poesia cabe em

todos os espaços, não só em bibliotecas e

centros culturais. Eles querem mostrar que

a poesia ainda existe, está se reinventando

e pode ser interessante em outras plataformas”,

diz. “Mais do que nunca, ela

está viva e pulsante”, ressalva.

julho 2019

7


É noite. Em uma floresta deserta,

uma menina loira e com roupas

apertadas corre em ziguezague,

sem nenhuma direção aparente.

Apenas corre para fugir de quem a

persegue. Um homem, usando uma

máscara, corre em um passo menos

acelerado enquanto a menina

ofegante procura desviar de todos

os obstáculos e, para a surpresa de

poucos, tropeça em qualquer coisa

fazendo com que o assassino consiga

alcançá-la.

Esse é um dos clichês que

encontramos nos filmes de terror.

É muito comum também, no final,

uma mulher sobreviver. Portanto

pensamos, poxa, que bom uma mulher

sobrevivendo no final, maravilha.

Em um grupo de adolescentes

com várias personalidades diferentes,

homens, mulheres, minorias

como negros e membros LGBTQ+, a

jovem que sobrevive no final, é sempre

uma mulher virgem, angelical,

que representa a pureza, tudo indica

que vai derrotar o mal, como um sinal

de recompensa por não ser “corrompida”.

Agora o clichê nem parece

tão positivo assim, não é mesmo?

A estudante de Cinema e Audiovisual

da Ufes Rafaela Germano

conta porquê que decidiu estudar

mulheres em filmes de horror. “Pensando

em centralizar meus estudos,

me surgiu a ideia das vampiras, por

serem personagens constantemente

hiperssexualizadas e estereotipadas”.

Um dos filmes utilizados como

objeto de estudo foram “Garota sombria

caminha pela noite”, um longa

iraniano, que conta a história de

uma garota vampira que perambula

nas ruas de noite e um homem, que

luta pela sobrevivência e para afastar

seu pai do mundo das drogas.

O outro estudado por Rafaela é o

“Deixa ela entrar”, que narra a vida

de um menino chamado Oskar, de 12

anos, que se sente solitário, porém

se torna amigo de Eli, uma menina

um pouco peculiar. Uma série de assassinatos

acontecem e sua amiga

está envolvida neles, de uma forma

que Oskar nunca poderia imaginar.

“Assistindo a muitos filmes

de horror foi fácil perceber o quanto

era necessário falar sobre esse

assunto, pois as mulheres são sempre

retratadas de modo a satisfazer

ELAS NOS F

DE TERROR

O LUGAR DELA É AONDE ELA QUISER, INCLUSIVE N

Marina

Marina Moscon

Fotografia:

Direção Criativa: Lays de Sá e Caio Corrêa

Fotografia: Nuno Pignaton e PH Martins

Assistência de Arte: Claudiana Braga,

Carlos Magno e Jaqueline Andrade

Modelos: Issa e Phil Ribeiro Pixain

8 julho 2019


ILMES

O FILME DE HORROR.

os desejos visuais do homem, muito

fetichizadas e como personagens

rasas. Então fui atrás de uma filmografia

que fosse contra isso, e decidi

mostrar como é possível uma outra

representação das mulheres no cinema

de horror.” Explica a estudante

de Cinema e Audiovisual sobre sua

pesquisa.

A revista PrimeiraMão perguntou

a algumas mulheres o que elas

achavam dos filmes de terror em

geral. Aline Costa, 19, estudante de

Psicologia disse que não se identifica

com as personagens femininas,

porque “elas, geralmente, são as que

mais fazem besteira”.

Bárbara Baptisti, 21, estudante

de Moda gosta do clichê do grupo

de amigos que acaba parando em

algum lugar assombrado ou perto

de um assassino. “Não gosto muito

quando eles usam estereótipos,

como por exemplo o negro atleta, a

loira burra, o nerd virgem, e assim

por diante”.

Brenda Coutinho, 26, estilista,

não se identifica com nenhuma

personagem feminina. “Geralmente

nem a covardia e nem a coragem

retratada são relacionáveis à vida

real.”

Daniela Morais, 24, estudante

de Psicologia, gosta dos filmes de

espírito, porque eles realmente me

assustam. “Detesto aqueles de matança,

que falam que é de terror”.

Melina Furlan, 23, assistente

de direção publicitária não se identificava

com os filmes mais antigos e

até os de alguns anos atrás. “A maioria

das mulheres são vítimas de um

assassino e muitas vezes não tem

personalidade nenhuma definida e

quando tem, a personalidade delas

é serem burras. Ou então são personagens

secundários sem muita relevância

além de servir de apoio para

ligar pontos da história. Poucos são os

filmes em que a mulher é o elemento

principal, tem personalidade forte e

não é tratada como louca ou burra”.

julho 2019

9


Daniel Jacobsen

livro.

VAN GOGH - THE COMPLETE PANTINGS

RAINER METZQER E INGO F. WALTHER

No mês da morte do pintor Vincent Gogh, a coluna recomenda o livro Van Gogh - The Complete Pantings, organizado

por Rainer Metzqer e Ingo F. Walther e publicado pela editora Taschen, especializada em arte. É um catálogo

das 871 pinturas de van Gogh e traz textos detalhados sobre a vida do artista. O livro possui capa dura para acomodar

as 744 páginas de pura arte, que prenderão os admiradores da obra de van Gogh e estudiosos da história e estéticas

da arte. As imagens das pinturas são acompanhadas de uma ficha técnica com dados de cada obra e a localização do

original. O talento pós-impressionista de van Gogh não foi reconhecido e valorizado em sua época, sendo póstumo

todo o reconhecimento que fez do artista um dos grandes nomes da arte ocidental. Van Gogh - The Complete Pantings

não é apenas um livro sobre arte, mas é ele próprio uma obra de arte. A publicação da Taschen pode ser encontrada

em diversos idiomas, inclusive em português, e a editora publicou livros com a mesma proposta sobre Leonardo da

Vinci, Salvador Dalí, Monet, Frida Kahlo e outros artistas, originando uma verdadeira biblioteca de história da arte.

filme.

COM AMOR, VAN GOGH

DOROTA KOBIELA E HUGH WELCHMAN

O filme polonês e britânico lançado em 2017, Loving Vincent (br: Com Amor, Van Gogh) é um longa de animação

inteiramente composto por pinturas feitas a mão por uma equipe de 125 artistas. Foram pintados 65 mil quadros no

estilo tradicional da arte de van Gogh, com inspiração nas obras originais do pintor holandês. O filme idealizado por

Dorota Kobiela e dirigido por ela e Hugh Welchman se passa em 1891, um ano após a morte do pintor, e apresenta a

tentativa do personagem Armand Roulin de entregar uma carta que Vincent havia enviado para o irmão Theo, mas

que não chegou ao seu destino. Junto às pessoas que conheceram van Gogh, Armand tenta decifrar se o pintor realmente

teria cometido suicídio. Com Amor, Van Gogh é uma viagem pela vida e pela estética do artista e promete fortes

emoções aos fãs do artista e entusiastas do cinema experimental. Em Vitória, o filme será exibido no CineSesc Glória

como parte da mostra A arte e seu enleio, que compõe as Mostras Cine Sesc 2019. Filme em cartaz durante o mês de

julho conforme programação do Sesc Glória.

música.

VINCENT

DON MCLEAN

Vincent é um tributo de Don McLean ao pintor Vincent van Gogh. Escrita em 1971, a música compõe o segundo

álbum de estúdio do cantor, American Pie. O folk-rock de McLean viaja pelo processo criativo do pintor e se inspira na

famosa obra A noite estrelada, de 1889. A música também aparece com o título alternativo Starry, Starry Night, e pode

ser encontrada no YouTube. “Estrelada, noite estrelada / Pinte sua paleta de azul e cinza / Olhe os dias de verão lá

fora / Com olhos que conhecem a escuridão da minha alma / Sombras nas colinas / Desenhe as árvores e os narcisos

/ Sinta a brisa e os arrepios do inverno / Nas cores da terra coberta pela neve”. A música é uma carta de amor à arte e

às pessoas, mas é triste ao retratar a profundidade da angústia de van Gogh, que se suicidou em fins de julho de 1890.

10 julho 2019


PRECISAMOS

FALAR

SOBRE A

SAÚDE DO

JOVEM

Daniel Jacobsen

“Amiga terminando aqui vai cmg na secretaria

pra eu tranca o curso”. Todo dia, o

mesmo meme sendo compartilhado. Mas

o tom de brincadeira de Rafaela esconde

uma exaustão real com a rotina acadêmica

e a insatisfação com o curso escolhido. “Eu nem quero trabalhar

com isso, vo tranca o curso”. O Twitter cheio de posts

iguais. “Minha mochila ta suja vo ter que tranca o curso”.

Rafaela acorda cedo e passa mais de 3 horas por dia

no transporte coletivo para ir e voltar da faculdade que

fica do outro lado da cidade. Aulas cansativas para quem

descobriu que o curso escolhido não era exatamente o

que ela esperava. “Rafa, por que você não troca de curso?”

“Pra escolher errado uma segunda vez? Nada, vou

terminar esse mesmo, já estou na reta final. Depois vejo

o que resolvo da vida”.

A saúde mental dos estudantes não é uma questão

apenas para Rafaela. 30% dos estudantes de graduação

das instituições federais do Brasil procuraram atendimento

psicológico em 2014, e 10% fizeram uso de algum

medicamento psiquiátrico, de acordo com dados do Andifes

(Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições

Federais de Ensino Superior no Brasil). O aumento

da depressão entre os jovens não passa despercebido, e

para a OMS (Organização Mundial de Saúde) o número de

jovens depressivos no mundo alcança a marca dos 20%.

Para a Associação Brasileira de Psicanálise, 10% dos jovens

brasileiros sofrem com a doença.

A campanha #nãoénormal, inciada em 2017 na Federal

de Viçosa, se espalhou para outras universidades. O

intuito é conscientizar sobre a saúde mental dos estudantes,

colocar em pauta o assunto visto como frescura.

E Rafaela vê numa parede do prédio onde estuda um

cartaz onde lê “Não é normal que a faculdade se torne

um gatilho para ansiedade”. É isto. Rafaela precisa fazer

algo. Viu que não estava sozinha, tampouco era a única

insatisfeita. Procurou atendimento psicológico na própria

universidade. Conseguiu. Entrou para a estatística

dos 30%, mas conseguiu colocar a cabeça no lugar e lidar

com as questões que a deixavam ansiosa. Não trancou o

curso. Buscou se sobrecarregar menos com as disciplinas

e complementou seu tratamento psicológico participando

de um grupo de arteterapia. E mesmo se tivesse

trancado o curso, mudado de área, ido vender arte na

praia, tanto faz, Rafaela não permitiria mais que sua saúde

mental fosse abalada. As inseguranças da vida adulta

e o descontentamento com decisões tomadas não são

eternas, não são insuperáveis.

Mas é preciso falar sobre. Rafaela trocou os tweets

“vo tranca o curso” por tweets “#nãoénormal vc querer

trancar o curso. até onde é meme e onde começa o sintoma

de exaustão total com o ambiente acadêmico? chama

no pv, podemos cvs sobre isso”. E você, já pensou sobre

como anda sua saúde mental hoje?

11

julho 2019

11


12 julho 2019


COPO MEIO CHEIO,

COPA MEIO VAZIA

APÓS RECEBER O MUNDIAL DA FIFA EM 2014, MAIS UMA VEZ

UMA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL DESEMBARCA EM SOLO

BRASILEIRO, PORÉM COM FRACASSO DE PÚBLICO.

Robson Silva

Futebol, festa e seleção brasileira.

Os elementos perfeitos para atrair

o torcedor canarinho que enche o

peito para ostentar o título de único

pentacampeão mundial. E mais

uma vez o território verde e amarelo

recebe um campeonato internacional

de seleções, a Copa América. Em

2014 o país, que já sediou a Copa do

Mundo de 1950 e as edições de 1919,

1922, 1949 e 1989 da Copa América,

recebeu o principal torneio entre seleções

mundiais, a Copa do Mundo

da FIFA, sendo considerada uma das

maiores de todos os tempos.

Estima-se que mais três milhões

de turistas estiveram no Brasil para

o Mundial. Além disso, o torneio significou

mais seis bilhões de reais na

economia, ainda com três bilhões de

espectadores. Todos esses números

de sucesso, além das reformas das

arenas, foram motivos que tornaram

o Brasil forte candidato a sede

da Copa América de 2019, obtendo a

confirmação em 7 de junho de 2016.

O cenário parecia ideal: paixão

nacional pelo esporte, evolução das

seleções continentais, o fato do país

ter sido sede de um mundial recentemente,

além, é claro, do rodízio existente

entre sedes. Segundo organizadores,

como disse o ex- presidente

da Conmebol Alejandro Dominguez,

esta seria a maior Copa América de

todos os tempos.

É notória a expectativa diante de

todos os fatores. Quem não criaria

uma euforia sabendo do sucesso recente

de competições no país. Enxergar

o copo meio cheio era um caminho

lógico. Entretanto, uma série de

fatores tornaram a Copa meio vazia

e, o que seria a maior Copa América

de todos os tempos, tem públicos inferiores

a partidas nacionais válidas

pelo Campeonato Venezuelano - vale

ressaltar a crise existente no país- e,

até mesmo, de divisões de acesso do

Campeonato Brasileiro.

julho 2019

13


PREÇO DOS INGRESSOS

O principal fator ligado ao fraco

público nos estádios é o valor, muitas

vezes exorbitantes, dos ingressos.

Levando-se em conta a renda

dos países sul-americanos presentes

na competição e estabelecendo

um comparativo com os valores

revendidos de ingressos, é possível

notar a incompatibilidade da competição

com a complicada realidade de

renda da população.

O ingresso mais barato para a

competição custava R$ 120,00, valor

que representa uma parcela significativa

no salário mínimo da população.

Para o torcedor argentino, esse

valor significa 13% do salário mínimo

vigente hoje no país (inserir valor

em pesos - valor em real). Já para o

brasileiro o valor significa cerca de

12,5%. O caso mais agravante, quando

se levado em conta o salário mínimo

estipulado pelo Estado de cada

país, é para os colombianos, em que

o valor do ingresso significa aproximados

20%.

A situação se faz mais agravante

quando analisamos a renda per capita,

uma vez que o salário mínimo

em muitos países - como a Bolívia,

por exemplo- não é obrigatório, mas

sim uma indicação por parte do governo

federal. O valor do ingresso

representa cerca de 26,5% da renda

per capita mensal de um cidadão boliviano

que tenha intenção de assistir

aos jogos.

Para o torcedor argentino Juan

Miguel, fiel fã de Lionel Messi que

veio ao Brasil, com as constantes

crises econômicas que assombram

os países latinos, a vinda ao Brasil

foi complicada. “É um valor bem

considerável. A gente tem os bilhetes

aéreos caros, então queremos

ir em mais de uma partida, mas os

preços quase não permitem”, destaca

o argentino de 31 anos, que veio

acompanhado da família, o que elevou

seus custos, além de destacar os

altos preços das passagens aéreas

dentro do país.

BUROCRACIA PARA

RETIRADA DE INGRESSOS

O torcedor que efetuou a compra

do bilhete para uma das partidas

enfrenta um segundo desafio,

além do preço dos ingressos: a

retirada. No momento de finalizar

a compra são apresentadas duas

opções para a conquista do ingresso:

entrega via correios, com

uma taxa exorbitante para quem

vive em estados distantes do Rio

de Janeiro - onde está localizada

a central de distribuição-, ou retirada

em um dos CDI’s (Central de

Distribuição de Ingresso), localizada

em determinados pontos das

cidades sedes. A problemática da

primeira questão, além das taxas

de entrega anteriormente citada

vai além disso. Para torcedores

não residentes no Brasil não há

possibilidade de entrega do bilhete,

o que exige uma itinerário

de viagem que contemple espaço

para deslocamento até uma das

unidades da segunda opção apresentada.

Para este caso, o problema

envolve uma quantidade de fatores

ainda maior. Longas filas, burocracia

com exigências de vários

documentos - como apresentação

de identidade e cartão de crédito

utilizado na compra quando efetuado

por terceiros-, além de apenas

uma unidade de retirada por cidade

sede - em Belo Horizonte, por

exemplo, a unidade encontra-se

no Shopping Boulevard, de difícil

acesso, em uma região de pouco

alcance para o público.

Rafael Incerte tem 22 anos e é

morador da capital mineira. Comprou

bilhetes para a partida entre Argentina

e Paraguai no estádio Mineirão.

Ele conta que encontrou dificuldades

para retirar os bilhetes, uma vez

que não podia solicitar a entrega via

correios por se tratar de uma meia

entrada. “Os ingressos já são caros,

aí temos mais uma complicação que

é ter que ir buscar o ingresso, apresentar

uma série de documentações

e, como se não bastasse, um atendimento

demorado, no meu caso de 30

minutos”, afirmou o mineiro.

CUSTOS EXTRAS

Para quem vem ao torneio o

gasto não se limita apenas aos

ingressos. Os custos extras, ligados

à alimentação, hospedagem

e transporte, também são fatores

que pesam para o fracasso de público.

Quando se trata do torcedor

brasileiro, mesmo com a isenção

em partes dos gastos listados anteriormente,

existe, assim como para

visitantes, os gastos dentro (e aos

arredores) do estádio.

Uma passagem aérea da capital

colombiana, Bogotá, até Salvador,

onde a seleção de James Rodriguez

fez sua estreia, custa, em média,

R$ 2.500,00, um valor quatro vezes

maior que o salário mínimo do país

e quase três vezes maior que a renda

per capita. A hospedagem, levando-

-se em conta a quantidade mínima

de três dias (chegada para retirada,

partida e, logo após, retorno) o valor

médio que se encontra em hotéis

convencionais e hostels é de, pelo

ou menos, R$ 117,50 a diária, o que

totaliza aproximados 17% do salário

mínimo colombiano. Por fim, o custo

mínimo com alimentação, segundo

dados fornecidos pelo website quantocustaviajar.com,

é de R$ 72,00 diários.

Dentro das arenas os preços se

mostram ainda mais exorbitantes.

Os estacionamentos, para quem

se desloca aos estádio com carro

próprio tem seu menor valor de R$

45,00 no estádio do Mineirão, em

Belo Horizonte. O preço é ainda

maior em outras arenas. Um copo de

cerveja Brahma, de 350ml, tem seu

preço fixado em R$ 12,00 em todos

os estádios. No Maracanã, um Hot

Dog (somente pão e uma salsicha)

custa R$ 15,00, enquanto o X-Burger

Duplo (Pão, duas carnes e queijo

cheddar) custa R$ 20,00. Esses valores

se mostram impensáveis para as

realidades das economias sul americanas.

COMPARAÇÃO COM

EUROCOPA

O campeonato entre seleções

continentais do futebol europeu é a

Eurocopa, organizada pela UEFA. O

evento, que sempre apresenta um

estrondoso sucesso de público, teve

sua última edição em junho de 2016

na França. As taxas de ocupação dos

estádios durante o torneio foram superiores

à 84%, com público médio

de 49.790 pagantes. O menor público

durante o torneio foi na vitória da

seleção da Bélgica por 1 a 0 sobre a

seleção da Suécia, para um público

de pouco mais de 33.000 pagantes.

Os fatores que tornam o sucesso

do torneio não se limitam à apenas

a forte economia europeia compara-

14 julho 2019


da aos países sul americanos ou, até

mesmo, a maior facilidade de deslocamento

entre os países europeus,

mas sim às políticas adotadas pela

organização e, principalmente, ao

preço dos ingresso. O bilhete mais

barato para as partidas da fase de

grupos custava £ 25,00 (aproximadamente

R$ 110,00), entretanto o salário

mínimo francês, à época, era de £

1.521,00 (cerca de R$ 6.700,00 reais).

O valor representa 1,3% do salário

mínimo francês, além de ser menor

que 0,3% da renda per capita de um

cidadão. A aproximação também se

deu com políticas de incentivo para a

compra de mais de um bilhete, com

descontos recorrentes e pacotes de

transporte (tendo o metrô como principal)

para incentivo à participação

do torcedor.

FRACASSO INEVITÁVEL

Os públicos da fase de grupos

nada mais foram que um reflexo de

todos os entraves apresentados até

então. A média de público foi de

pouco mais de 28.000 torcedores

por partida, o que tem uma média de

ocupação pouco inferior a 47% das

capacidades das arenas presentes

do torneio.

Algumas partidas chegaram a apresentar

público inferior a de divisões de

acesso do futebol nacional, como as

partidas entre Venezuela e Peru, válida

pelo grupo A, em Porto Alegre, que recebeu

pouco mais de 13.000 torcedores,

Bolívia e Venezuela, em Belo Horizonte,

com pouco mais de 11.000 e, principalmente,

Equador e Japão, também na

capital mineira, que recebeu menos de

10.000 torcedores.

A partida entre Remo e Volta Redonda,

válida pela Série C do Campeonato

Brasileiro, apresentou um

número de torcedores superior às

partidas citadas anteriormente, tendo

16.339 torcedores no Mangueirão

(Estádio em que o Remo manda seus

jogos). A partida entre América de Natal

e Bahia de Feira de Santana, válida

pela Série D, teve público similar ao

de Equador e Japão, com um público

de pouco mais de 7.000 torcedores.

Em contrapartida, a arrecadação

da primeira fase foi a maior da história

das Copas América, disputadas em

solo sul americano, totalizando R$

110.823.928,00 nas 18 partidas. Tal fato

só evidencia o contínuo processo de

elitização que a Conmebol vem impondo

nos últimos anos.

CUSTA

QUANTO?

julho 2019

15


O AMADORISMO

CAPIXABA VENC

Qualidade da estrutura, e da técnica impedem o fute

Vitor Pinheiro e Heitor Mattedi

Já dizia o Skank: “Quem não sonhou em ser um

jogador de futebol?”. É verdade que vários jovens

sonham com o estrelato, e que se tornar

jogador de futebol é algo almejado por muitos,

além de toda fama, também está no imaginário

dos jovens brasileiros dar um futuro melhor

para suas famílias, porém ter os salários milionários

de jogadores como Neymar, Messi e Cristiano

Ronaldo é a realidade que uma minoria consegue alcançar.

O Brasil, de fato, é considerado o país do futebol, porém o jogo

dinâmico e o toque de bola de alto nível, encontrados em Rio, São

Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, principais polos da bola no país,

é bem diferente das condições apresentadas para os profissionais de

outros diversos cantos do território nacional, onde a qualidade tanto

de estrutura, quanto de técnica deixam muito a desejar. No primeiro

semestre deste ano o centroavante Loco Abreu, ídolo do Botafogo e

semifinalista da copa do mundo da África do Sul, em 2010, com a seleção

uruguaia, encerrou seu ciclo pelo Rio Branco, e não deixou pra trás

a fama de figura polêmica e questionou o profissionalismo do futebol

capixaba.

"Quando eu cheguei, pensei que fosse ajudar a construir algo para

ajudar o futebol daqui, mas ninguém quer. Por isso tudo que seguramente

a televisão vai continuar passando os campeonatos Paulista,

Carioca, Mineiro e o futebol capixaba vai continuar lá no fundo da

merda, como está hoje", disse o atacante de 42 anos ao portal Globo

Esporte, ao ser eliminado do capixabão na derrota por 2x0 para o Real

Noroeste.

Em abril, o Atlético Itapemirim, foi obrigado a dispensar todo o

elenco por um desentendimento envolvendo as contas do clube. O

atacante Flávio Caça Rato, famoso no nordeste, estava no clube do sul

do estado, veio a público chamando o clube de amador.

“Se arrependimento matasse, eu já estava morto. Não sei porque

coloquei o pé neste clube. Esperaram por um dinheiro que não tinham.

Eles são muito amadores, despreparados. Futebol é coisa séria e eles

estão brincando com pais de família que contam com este dinheiro.

Os jogadores não têm culpa de tanto despreparo", desabafou o jogador

em uma entrevista ao uol esporte.

O futebol que configurou a elite no país, participando da primeira

divisão já não vive nem um resquício de seus dias de glória. Os gra-

16 julho 2019


DO FUTEBOL

E SEMPRE

bol capixaba de sair do nível artesanal

mados que revelaram jogadores como Geovani e Sávio para o grande cenário

nacional, há um bom tempo não aproveita o futebol de suas jóias,

somente as vendo brilhar em outras terras, como é o caso de Richarlisson,

atacante do Everton (ING) e atual campeão da Copa América pela

seleção brasileira. O avançado foi revelado pelo Real Noroeste, porém

nunca atuou em um jogo sequer pelo clube profissional, devido à venda

precoce para o América Mineiro, onde começou a atuar e mais tarde pelo

Fluminense, onde ganhou destaque nacional.

A bola da vez no estado é o Vitória F.C. Atual campeão do campeonato

capixaba, a equipe apresentou para o ano de 2019 um investimento que

destoou do resto dos clubes no cenário. A contratação de Valdir Bigode,

ídolo do Vasco da Gama, para comandar o time à beira do campo causou

grande impacto e gerou o melhor resultado dentre as equipes capixabas.

O alvianil da capital foi até as oitavas de final

“Se você não é

você não é visto

não é lembrado”

Ferrugem,

capitão e melhor

zagueiro do

campeonato

capixaba 2019

do Campeonato Brasileiro série D, passando inclusive

pelo brasiliense, do pentacampeão do

mundo, Lúcio.

Às vésperas do jogo contra o Ituano, pelas

oitavas do brasileirão, o até então técnico do

Vitória, Valdir bigode, em entrevista para a PrimeiraMão,

comentou a respeito do nível do profissionalismo

no Espírito santo. “Sobre o caso

do Loco Abreu, é complicado eu falar porque

não estava no clube e não vi o que de fato aconteceu

com ele, mas a realidade é que realmente

o futebol capixaba precisa melhorar, precisa de

uma estrutura com um nível mais alto. Sem citar

outros clubes mas sim o que eu estou que é onde estou vendo, o Vitória

está no caminho certo, reformando o clube aos poucos, quitando dívidas

e resolvendo os atuais problemas. A reformulação está sendo feita, não

no ritmo ideal mas indo bem, trabalhando para em três ou quatro anos

ter uma estrutura completamente diferente e de um bom nível”

Sobre qual caminho deve ser tomado para que essa melhoria geral

aconteça, o técnico foi preciso, apontando o principal problema como o investimento:

“o ponto principal que alavancaria o futebol é o investimento. A

construção de melhores estádios, trazer profissionais de grandes centros, a

vinda de jogadores pelo menos da série B, que possuem qualidade e salários

mais acessíveis, esses são fatores que contribuíram para o futebol ficar

cada vez mais competitivo.

julho 2019

17


EPIDEMIA

SILENCIOSA

Giovanni Werneck e Matheus P. de Souza

Fotografia: Gabriel Fernandes

CRESCIMENTO NO NÚMERO DE CASOS DE ISTS ENTRE

JOVENS É REFLEXO DE PRECONCEITO, DESINFORMAÇÃO,

POLÍTICAS PÚBLICAS FALHAS E DESCUIDO.

Sabe aquelas conversas

de barzinho?

Em que todo

mundo já está

“alto”, e o papo

vai para os cantos

mais inusitados

possíveis? Às vezes,

caminha para

o descontentamento geral com a política,

às vezes a conversa vai para

um lado mais filosófico da vida…

Naquela noite, Pedro Caio, Paula

e Marcos estavam bebendo e conversando

sobre típicas banalidades do

dia a dia. O barzinho estava lotado e a

calçada já não tinha espaço para mais

nem uma mesa. Na tentativa de serem

ouvidos, eles disputavam com o barulho

dos carros, das pessoas nas outras

mesas e com as caixas de som do boteco.

Todos estavam praticamente gritando.

Mas, em determinado ponto da

conversa, as vozes foram ficando mais

18 julho 2019

silenciosas, até virarem sussurros.

Com tom de pesar, Paula contou

que tinha uma novidade nada boa. Ela

descobrira há pouco tempo que havia

contraído HPV. Falava baixo, porque

era algo delicado para ela, na verdade,

para todos naquela mesa. De alguma

forma, todos haviam se infectado com

alguma IST (infecção sexualmente

transmissível) em 2018.

Paula descobriu que estava com

HPV em agosto. No mês seguinte, Pedro

recebeu o diagnóstico de que estava

com gonorreia. Na mesma época,

Caio e Marcos tomaram conhecimento

de que estavam com sífilis. Marcos

chegou a ter de passar por um procedimento

cirúrgico para tratar uma

complicação da mesma doença.

“Eu fui durante a semana ao ginecologista,

as verrugas voltaram a aparecer

“lá”. O ácido havia resolvido o problema

de Paula, uns dois meses atrás, mas já

não fazia mais efeito. A médica recomendou

que cauterizar”, confidenciou.

Paula não está sozinha. Mais da

metade da população brasileira jovem,

entre 16 e 25 anos, está infectada

pelo HPV, diz o Ministério da Saúde,

em pesquisas. Sim, mais da metade.

Talvez todos lá naquela roda de conversa

ainda estivessem infectados

sem saber. Nos homens, o vírus não

traz muitas complicações. Para as mulheres,

contudo, existe uma forte ligação

entre o HPV e o câncer de colo de

útero. O risco afeta cerca de 52% das

brasileiras, porque é essa a porcentagem

de mulheres na faixa de risco que

não se submeteu ao papanicolau (exame

que pode detectar o HPV e com

taxa de sucesso de mais de 80%!). Os

homens, que são os vetores, fazem

menos exames de prevenção a ISTs

ainda.

O medo do julgamento alheio, dos

olhares, do rótulo, da exposição e do

silêncio ensurdecedor que o assunto


tem no meio familiar contribuem para

que a geração da informação desconheça

os problemas seríssimos e a

mácula das ISTs para a sociedade. HIV,

sífilis, gonorreia, hepatites e o HPV estão

entre as infecções mais comuns

no Brasil. No Espírito Santo, a situação

é um pouco pior.

VELHAS CONHECIDAS

O estado é vice-líder no número

de pessoas infectadas por sífilis no

Brasil. O último boletim epidemiológico

da Secretaria de Saúde do

Espírito Santo (Sesa) mostrou que o

aumento não é pequeno. A cada 100

mil habitantes, existe a possibilidade

de 88 pessoas estarem com uma

dessas doenças. A média brasileira

é de 43 pessoas. Na Grande Vitória,

fica ainda mais preocupante: 190

casos a cada 100 mil. Essa situação

não é nova. Já em 2016 os índices

apresentados pelas pesquisas eram

altíssimos, o que gerou alerta e levou

o estado a trabalhar com mais

ênfase contra essa proliferação.

Dentro da Secretaria, a sífilis ganhou

prioridade, o que levou à criação

de um Plano de Enfrentamento da

Sífilis e um comitê que investiga a

transmissão vertical (congênita) do

HIV, sífilis e hepatite B.

Para Ary Célio de Oliveira, especialista

em saúde da mulher da Sesa,

o lugar que o Espírito Santo ocupa

no ranking está diretamente ligado à

melhora e rapidez no diagnóstico e

na notificação da doença congênita.

“A gente melhorou muito a detecção.

Existem muitos casos subnotificados

no Brasil. O Espírito Santo notifica

muito bem. Há uma constatação

nesse sentido”, aponta. Em conversa

com a CBN Vitória, Ary destacou que

o estado está colocando em ação um

programa de combate à sífilis congênita.

O ponto central é a melhoria

dos exames de diagnóstico pré-natais,

que são de responsabilidade

dos municípios. “Se diagnosticada

durante a gravidez, a gestante pode

ser tratada adequadamente, o que

evita a transmissão para o bebê”.

A criança infectada com a bactéria

pode ter microcefalia, distúrbios

visuais e auditivos, dentre outras

complicações. Esse plano atua nas

cidades que concentram mais de

80% dos casos no estado: Cariacica,

Vila Velha, Serra, Cachoeiro de Itapemirim,

Vitória, Linhares, Viana, Guarapari

e São Mateus.

Marcos e Caio foram infectados

pela sífilis no mesmo período, em

2018. Eles conseguiram identificar

somente após os primeiros sintomas

aparecerem. Em ambos os casos, a

confirmação veio através de vários

exames. Embora seja uma condição

de fácil detecção, através de um

teste que dura 30 minutos, Caio já

estava com medo do resultado antes

mesmo da conclusão. “Não tem

como fugir. Quando você sabe que

fez algo de errado, uma hora a verdade…,

enfim. Passou um filme na

cabeça, quando o médico virou pra

mim e falou que eu tenho a sífilis. Eu

pensei em como isso ia reverberar

fora dali. Como a família, os amigos

iam reagir. Uma coisa é você falar

que é gay, metade te aceita e metade

não te aceita, outra coisa é você falar

que é gay e contraiu uma DST. É bem

pior”, contou.

Na ocasião, Caio disse que ficou

muito preocupado com o tratamento,

achando que seria “pesado”, mas

ele se surpreendeu por ter sido ao

contrário. “Eu fui vendo que o número

[de anticorpos que combatem

a sífilis] estava caindo e acabei me

ocupando com faculdade, com curso

técnico. É uma coisa engraçada, porque

eu falo pras pessoas priorizarem

a saúde sempre. Não adianta trabalhar,

ter educação, ter estudo e não

ter saúde. Deixei os afazeres tomarem

conta e a saúde foi pro ralo”.

Após a descoberta, a relação de

Caio com os pais ficou pior. Já o parceiro

que ele acredita que tenha sido

o vetor, nunca foi informado. “Não

entrei em contato com essa pessoa.

Por dois motivos: pela dúvida e pelo

fato de não saber quais palavras escolher.

Eu não ia chegar na porta da

pessoa, com resultado na mão e falar

‘ei, então, tá vendo isso aqui? É o

resultado de um exame que eu fiz, e

foi com você, com certeza’. Não sei

se fiz errado ou se fiz certo, mas eu

sei que eu não consigo [falar]”.

Marcos chegou ao diagnóstico de

sífilis no quarto exame. Na primeira

vez, com sintomas mais leves, a

médica nem chegou a examiná-lo. A

partir do relato que deu na consulta,

o tratamento por antimicóticos indicado

pela profissional não resolveu.

Na segunda vez, o médico analisou

visualmente e prescreveu corticoides,

também sem efeito. Neste momento,

ainda não havia o diagnóstico

de sífilis. Insistindo, ao procurar

um professor da Ufes que é médico,

Marcos fez o “testinho”. Apesar do

resultado negativo, já sabia que era

uma IST. Nesse período, apareceram

manchas pelo corpo. Por fim, ao retomar

os exames mais direcionados,

a resposta positiva veio. Para curar,

foi submetido a injeções de penicilina

benzatina (benzetacil).

Duas semanas após o tratamento,

não havia mais sinais da sífilis.

O caso de Marcos não difere dos demais.

Ele não contou ao parceiro,

que acredita ter sido o transmissor.

A diferença se mostrou no sexo

oral sem preservativo. Assim como

Paula, Marcos também acredita que

tenha contraído a IST através de sexo

oral. “É aí [no sexo oral] que se abre a

porta para a entrada de um monte de

coisa. Até mesmo para o HIV. Se eu

tiver uma lesão na boca, e a pessoa

tiver HIV, tenho chances de pegar”,

ressaltou.

SÍFILIS NO ES

Fonte: SAGE/MinS

O Espírito Santo tem a segunda maior ata de sífilis do Brasil. São mais de 85 casos a cada 100

mil habitantes. Essa IST só pode ser prevenida com o uso de preservativos nas relações sexuais.

Nos casos congênitos, quando a mãe passa para o filho ainda no útero, o ES também não

fica atrás, sua incidência é a terceira maior do país.

O NÚMERO DE INFECTADOS POR

SÍFILIS EM 2017 AUMENTOU

2,5% SE COMPARADO A 2012

EM 2017, AS OCORRÊNCIAS DE

SÍFILIS CONGÊNITA AUMENTARAM

24% SE COMPARADO A 2016

maio 2019 julho 2019 19


SOLUÇÃO INDESEJADA

O HPV, ou papilomavírus, é outra

IST que está no radar de atenção da

Secretaria. Desta vez, não pelo fato

de estar aumentando ou sendo notificados

mais casos. A baixa adesão à

vacinação é o que preocupa. A existência

da vacina contribui para diminuir

as estatísticas. Mas, devido às

fake news e aos mitos divulgados na

internet e em redes sociais, os estoques

do soro estão inutilizados nas

unidades de saúde.

Paula faz parte dessa parcela da

população que não se vacinou. Depois

de ser infectada e passar pelo

tratamento, ela admite que a intervenção

não foi nada agradável. “Em

setembro do ano passado, fui diagnosticada

com HPV. Começou com

um carocinho, mas depois eu percebi

que não era um carocinho, era uma

verruga. Mas não era só uma, eram

várias. Eu sempre me cuidei, sempre

usei camisinha. Fiquei preocupada,

fui ao ginecologista e descobri que

adquiri o HPV durante uma relação,

mas isso nunca me veio à cabeça

de forma concreta. Comecei o tratamento

e ali eu soube que teria duas

opções: um ácido para cauterizar as

verrugas ou um mini procedimento

cirúrgico para tirar as verrugas.

Ela aplicou o ácido

na região e sempre

foi muito doloroso.

Me senti muito

mal, sentia

nojo de mim

mesma, sentia

nojo de tocar

nas coisas, nas

pessoas. Fui

fazendo o tratamento

no final

de setembro e pareceu

ficar tudo limpo.

Três meses depois,

algumas verrugas reapareceram

e voltou aquele sentimento de

novo”.

Paula retomou o procedimento

por duas vezes, que levou cinco semanas

na última vez, e os exames

indicaram, por fim, bons resultados.

Ela não avisou ao parceiro que

teve essa infecção, porque não tinha

certeza como ocorrera. Seu comportamento

nas relações sexuais ficou

mais atencioso depois disso. Fatores

que contribuíram positivamente

foram o apoio de sua mãe e de seus

dois melhores amigos, que acompanharam

o processo e a motivaram,

destacou.

HIV NO ESPÍRITO SANTO - FONTE: MINS

No ES, mais de 1 mil e cem casos de HIV foram identificados em 2018. A taxa de

detecção da infecção foi de 29 a cada 100 mil habitantes. A Região Metropolitana

do estado apresentou o nível mais alarmante, 41 casos por grupo. Dos 3.972.388

habitantes do estado, 11.980 estão tratando o HIV.

NOVO NOME, NOVAS

POSSIBILIDADES

A nomenclatura oficial para a designação

dessas infecções mudou. Em

novembro de 2016, o Ministério da Saúde

atualizou sua estrutura regimental

e alterou o termo que antes era DSTs.

Com o aprofundamento dos estudos e

da discussão social, o termo ISTs, Infecções

Sexualmente Transmissíveis, foi

cunhado.

O Brasil compartilha da

adequação da OMS e de

organizações internacionais

que lidam

com essa temática.

A denominação

‘D’, vem de doença,

que, tecnicamente,

implica

sintomas e sinais

visíveis no organismo

do indivíduo.

Já o ‘I’, de infecções,

se refere às condições

que possuem períodos

assintomáticos (como a herpes

genital e sífilis) ou que são assintomáticos

durante toda a vida do portador

(HPV, e vírus da herpes), sendo detectadas

somente por exames médicos.

Essa nova nomenclatura classifica e

destaca de forma mais precisa a possibilidade

de uma pessoa ter e transmitir,

ou não, uma infecção e ajuda

também na escolha de tratamentos

mais eficientes.

O HIV é a contaminação que

teve o maior aumento no estado. Ela

também é a mais perigosa, porque se

trata de um vírus com alta capacidade

de mutação, tornando a cura improvável.

Só no ano passado, a Secretaria de

Saúde do estado registrou mais de 1,1

mil novos casos de HIV. Esse número

acompanha os níveis de aumento que

vêm sendo registrados desde 2014.

Para se ter uma ideia, há cinco anos, os

casos registrados chegavam a 500, ou

seja, em 2018, mais que dobrou. Isso

se deve a três questões: a nova forma

de contabilizar os infectados, a falta

de uso de preservativos ou maiores

cuidados na hora do sexo e a intensificação

dos testes de HIV, realizados

gratuitamente em qualquer unidade

de saúde do país.

A partir de uma determinação do

Ministério da Saúde, todo novo caso de

HIV+ (positivo) deve ser reportado ao

Sistema Nacional de Agravo de Notificação

(Sinan), que, desde 2017, possui

uma lista de condições que têm seu

registro compulsoriamente feito no

sistema. Esse cadastro contribui para

a democratização da informação, permitindo

que todos os profissionais da

saúde tenham acesso a dados reais e

as disponibilizem ao público. É um dos

mais completos bancos de informações

para construir um planejamento

de saúde, para definir estratégias de

intervenção, avaliar o trabalho do governo

e criar políticas públicas efetivas.

Entretanto, a mudança do nome

não altera instantaneamente o estigma

que alguns ainda carregam por serem

ou terem sido infectados com alguma

IST. Assim como Caio e sua família, que

esconderam o problema de todos que

estavam fora de casa, Paula também

só contou para a mãe e para os dois

melhores amigos. Ela acredita que a

falta de políticas públicas e educacionais,

jogam o tema para a obscuridade

e isso alimenta uma série de

preconceitos.

“Eu me sentia mal comigo mesma,

20 julho 2019


me sentia insegura. Eu me julgava pelos

olhos dos outros. Hoje eu entendo que

a desinformação é o maior problema

das pessoas. Se você diz que teve alguma

DST, por mais que ressalte que

está limpo, ainda assim haverá um

receio dos outros. Existe um estigma

muito grande de acharem que você é

promíscuo, é como se você fosse estar

infectado pelo resto da vida. Há uma

generalização entre todas as doenças”,

desabafou Paula.

Contudo, a ginecologista da

Ufes, Denise Lyrio, mestre em Políticas

Públicas, conta que o aumento

se deve a um conjunto de fatores.

Além da justificativa da Sesa, o descaso

do poder público e a falta de

orientação da população são as razões

que fundamentam o aumento

tão contundente. A médica chama

a atenção para o fato de que há

muito preconceito nas famílias, levando

à normalidade os problemas

da saúde sexual.

Muitos pacientes alegam questões

religiosas ao conversar sobre

sexo e acabam por não conhecerem

ou se afastarem desse tema,

contribuindo para o ciclo de desinformação,

mas o processo é mais

sócio-estrutural do que apenas o

descuido das pessoas. “Não se pode

culpar somente elas. É muito fácil,

se for assim. O problema também

é do governante que não se preocupa

com a educação e só quer se

reeleger. Não há investimento em

mais campanhas, não há conscientização.

Isso abre espaço pra muita

imaginação. É comum ouvir que não

há médicos. Na verdade, médico

tem. Muitas vezes não se tem material,

recursos ou equipamentos para

prestar atendimento”, explica.

A ginecologista, que também é

especialista em Planejamento Familiar

e Atenção Primária a Saúde,

alerta que é necessário e importante

avisar ao parceiro caso alguma

IST seja detectada. “É importante

compartilhar. Infelizmente, o contato

sexual imediato, sem nenhuma

conversa prévia, sem melhor

conhecimento do outro, acaba dificultando.

Muitas vezes, eu vejo,

principalmente nas meninas que eu

atendo, uma vergonha de conversar

sobre isso. Aqui, por exemplo,

fizemos campanhas durante o ano

para testes rápidos como o VDRL,

hepatite B, hepatite C. A pessoa

pode ir lá, marcar, pegar o resultado

e ter um aconselhamento sobre

isso”. Ela ainda reitera que os testes

para IST com resultado negativo não

autorizam o sexo sem preservativo.

“Algumas pessoas acham que ficam

imunes. Ela pode ter adquirido a

doença e estar num período de janela

que ainda não apareceu nos

exames. Não pode deixar de levar

isso em conta, tem que se prevenir”,

recomenda.

ATIVISMO, AÇÕES

GOVERNAMENTAIS

E PARCERIAS

Nos meses de maio e junho, a Associação

Gold - Grupo Orgulho, Liberdade

e Dignidade, realizou o projeto “Jovem,

é massa ficar sabendo”, nas cidades de

Cariacica e Vitória. O projeto, em parceria

com a Sesa, incluiu uma van do

Centro de Testagem e Aconselhamento,

que fornece exames de verificação para

o HIV e a sífilis gratuitamente. Na Ufes,

em Goiabeiras, a testagem ocorreu em

frente ao Cine Metrópolis, próximo ao

Departamento de Atendimento à Saúde.

Essa parceria também aconteceu

em 2018.

O projeto visa auxiliar na informação

sobre as ISTs e também no suporte

material, porque são distribuídos

preservativos masculinos, femininos e

gel lubrificante. Além da testagem, a

associação LGBT idealiza muitos outros

eventos durante o ano com esse tema.

Reuniões e palestras como “Meu/minha

parceirx tem HIV. E agora?” convidam

especialistas e profissionais da

saúde para expor o assunto sem tabus.

Esses são alguns dos trabalhos que a

ONG oferece no estado.

No âmbito federal, no Departamento

de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente

Transmissíveis do Ministério

da Saúde (DCCI/MinS), a situação não

parece estar tão tranquila. Em maio, a

SÍFILIS É UM PROBLEMÃO

A sífilis é uma infecção causada por

uma bactéria e que tem cura. O seu diagnóstico

pode ser feito por um teste conhecido

com VDRL, que identifica a taxa

de anticorpos que o corpo produz quando

ele entra em contato com a bactéria. A sífilis

possui três estágios e uma fase sem

sintomas, o que pode levar a contaminar

mais pessoas. Nos estágios primário e secundário

da infecção, a possibilidade de

transmissão é maior.

Sífilis latente: Não aparecem sinais

ou sintomas. A duração é variável, sendo

interrompida pelo surgimento de sinais e

sintomas da forma secundária ou terciária.

Sífilis primária: Ferida, geralmente

única, que some mesmo sem tratamento e

pode aparecer em qualquer região onde a

empresa responsável por fornecer kits

rápidos de autotestes para o HIV ao governo,

OrangeLife, foi impedida temporariamente

pela Anvisa de fabricá-los. O

motivo apontado por uma investigação

do Instituto Nacional de Controle de

Qualidade em Saúde (INCQS) é que os

testes não vinham com a linha de controle

(uma barra colorida, visível ao final

da reação), o que invalida o exame, obrigando

o SUS a realizar o teste pelo método

mais lento e caro. A suspensão de

alguns lotes devido a essa falha tornou

impossível afirmar que os resultados

obtidos pela testagem eram corretos.

Falando de políticas públicas e

abordagens para a prevenção, o uso

simultâneo de diferentes estratégias

parece ter mais resultados. A Prevenção

Combinada é um conjunto de intervenções

que atacam os três lados

do problema: a doença, a responsabilidade

individual e a responsabilidade

coletiva. Na intervenção biomédica,

são empregadas as barreiras físico-químicas

aos agentes infecciosos, como

preservativos e profilaxias pré e pós

exposição (PrEP e PEP). Nesse campo,

combate-se através do uso de remédios

antirretrovirais.

Na intervenção comportamental,

temos as ações para o aumento

da informação e percepção de risco,

como incentivo à testagem, adesão

aos cuidados médicos, estratégias de

comunicação e educação entre pares.

No último cuidado, na intervenção estrutural

ou social, forma-se o conjunto

de atividades voltadas às condições socioculturais

que atinge diretamente a

vulnerabilidade de indivíduos com HIV.

São cuidados para com o preconceito,

estigma e discriminação, através de

campanhas educativas e de conscientização.

bactéria pode penetrar (pênis, vulva, colo

uterino, ânus, boca, dedos). Pode aparecer

entre 10 a 90 dias após o contágio.

Sífilis secundária: Pode acontecer alguns

meses após o aparecimento e cicatrização

da ferida inicial. Normalmente é caracterizada

pelo surgimento de manchas

pelo corpo, incluindo palmas das mãos e

plantas dos pés, que podem ser facilmente

confundidas com uma reação alérgica.

Pode ocorrer febre, mal-estar, dor de cabeça,

ínguas (inflamações) pelo corpo.

Sífilis terciária: Pode surgir de dois

a 40 anos depois do início da infecção.

Costuma apresentar sinais e sintomas,

que podem atingir principalmente a pele,

ossos, órgãos e as funções neurológicas,

podendo até levar à morte.

Fonte: MinS

julho 2019

21


AMBIENTE

DADOS: A

PREOCUPAÇÃO

DA ERA DIGITAL

NOVOS MECANISMOS SÃO APROVADOS EM NOME DA DEFESA

DA PRIVACIDADE DO CIDADÃO

GIULIA REIS E LYDIA LOURENÇO

Em tempos

em que os limites

entre

o público

e privado

se perdem

e a era digital

transforma os

dados em uma forma

de gerar capital,

o cuidado com a proteção

de informações pessoais

de consumidores de serviços de

empresas privadas e públicas se torna

fator de grande importância.

A fim de criar mecanismos mais

seguros para a proteção dos dados

dos cidadãos, foi sancionada, em

agosto de 2018, a Lei Geral de Proteção

de Dados (LGPD), que alterou resoluções

do Marco Civil da internet,

de 2014.

Desde dezembro tramitavam na

Câmara propostas de emenda à Medida

Provisória de nº 869 que altera

a LGPD e cria um órgão autônomo de

fiscalização, a Autoridade Nacional

de Proteção de Dados (ANPD). No

último dia 29 de maio a MP foi aprovada

pelo Senado e agora aguarda

sanção da Presidência da República,

ainda sem previsão.

Uma das mudanças na lei, que

entra em vigor em agosto de 2020, é

a obrigatoriedade do consentimento

dos cidadãos para que empresas

públicas possam compartilhar seus

dados. Uma vez recebido, a empresa

fornecedora dos dados deve comunicar

a operação à ANPD. Outra

previsão é a participação de confederações

representativas de trabalhadores

no conselho deste órgão.

O texto com as novas resoluções

representa um novo rumo à luta pelo

direito à privacidade. Estas medidas

visam impedir que os brasileiros tenham

seus dados pessoais utilizados

indevidamente. “Acabou o cheque

em branco que os cidadãos passavam

para empresas e órgãos públicos”,

afirma o advogado e especialista em

segurança digital Eduardo Pinheiro.

A falta de uma regulamentação

22 julho maio 2019


específica cria uma vulnerabilidade

para o indivíduo que fornece seus

dados a empresas e instituições públicas

sem saber a quais fins se destinam.

Para Eduardo, com a criação

de um órgão fiscalizador o Governo

e a iniciativa privada precisarão desenvolver

mecanismos que proporcionem

maior transparência quanto

ao uso das informações cedidas. “É

preciso que se informe quais tratamentos

estão sendo dispensados

a esse dados e conceder a quem os

fornece a opção de modificá-los ou

excluí-los”, ressalta.

A criação de uma legislação própria

para tratar do compartilhamento

de dados pessoais entre a esfera

pública e privada é considerada por

várias entidades como um avanço

para o país em termos de segurança

digital. Apesar disso, o Brasil não foi

o primeiro dos países latino-americanos

a criar mecanismos referentes ao

uso seguro de informações trocadas

entre os cidadãos e empresas e órgãos

públicos.

A Argentina aparece como pioneira

na América Latina com a presença de

regulamentação de dados desde 1994,

e ao lado do Uruguai são considerados

pela Comissão Europeia de Proteção

de dados como os únicos desta região

com níveis adequados de proteção. A

legislação argentina garante a proteção

do processamento de informações

pessoais em plataformas públicas ou

privadas, além de dar acesso aos cida-

dãos a bancos de dados públicos.

Embora seja consenso entre os

parlamentares, a novidade de uma

lei específica sobre proteção de dados

ainda causa algumas dúvidas e

ressalvas. Um exemplo é o aluno de

Publicidade e Propaganda Igor José

Silva, que compreende a importância

de uma regulamentação, porém

desconfia de sua eficácia “Essa transparência

dos dados é interessante

para a sociedade, entretanto é um

mecanismo facilmente corruptível”,

pondera.

Em contrapartida, o estudante

secundarista Antônio Henrique Reis

entende que apesar das possibilidades

de burlar a transparência, tornar

o cidadão ciente quanto ao uso de

seus dados garante seu direito à privacidade.

“Ter noção do que é feito

com nossas informações possibilita

um respaldo quanto ao uso indevido

por grandes empresas”, disse, referindo-se

à venda de dados.

Não é incomum que em nosso

cotidiano sejamos bombardeados a

todo tempo com algum anúncio de

promoção, ou oferta de um serviço

que não solicitamos ou temos interesse.

A estudante de Gestão Pública

Thaisa Azevedo se sente muito

incomodada com ligações e e-mails

indevidos de empresas que muitas

das vezes têm informações que a

assustam. “Sempre me pergunto:

como vocês conseguiram meu CPF?

Como têm o meu número?”, relata.

Para ela, a lei é importante para garantir

a confidencialidade dos dados

fornecidos. “Quando informamos

determinadas coisas em um cadastro,

por exemplo, queremos que isso

se mantenha em sigilo, por nossa segurança”,

enfatiza.

As noções de transparência e privacidade

são faces de uma mesma

moeda, quando o assunto é proteção

de dados, e, por mais que haja desafios

para viabilizar o funcionamento

da lei, uma legislação que propicie

o controle do usuário sobre suas informações

é uma forma de tirá-los

de uma situação de vulnerabilidade

ante o Governo e a iniciativa privada.

A intenção da implementação de

normas regulamentadoras e de um

órgão fiscalizador sobre o processamento

de dados pessoais é evitar, por

exemplo, o compartilhamento indevido

de informações procedentes de

bancos públicos, ou então a troca de

dados entre o SUS e planos particulares

de saúde.

No próximo dia 26 de agosto, o

Supremo Tribunal de Justiça (STJ)

sediará o seminário “Comunicação

e Novas Tecnologias – Proteção de

Dados e Simetria Regulatória”. Organizado

pelo ministro do STJ Luis Felipe

Salomão e o presidente da Associação

Brasileira de Rádio e Televisão

(Abratel), Márcio Novaes, o evento

discutirá os impactos da Lei Geral

de Proteção de Dados na economia

digital e os desafios na regulação do

setor.

ENTENDA AS PRINCIPAIS MUDANÇAS DA MP 869

CRIAÇÃO DA AUTORIDADE NACIONAL

DE PROTEÇÃO DE DADOS

O órgão definido como integrante da administração

pública federal direta deve atuar com autonomia técnica no

zelo pela proteção; na edição de normas; deliberação sobre

interpretações e competências; na fiscalização e aplicação

de sanções, entre outras incumbências. Como proposto pela

MP deve conter Conselho Diretor, Conselho Nacional de

Proteção de Dados Pessoais e da Privacidade,Corregedoria,

Ouvidoria, órgão de assessoramento jurídico próprio e

unidades administrativas e especializadas.

CONSELHO NACIONAL DE

PROTEÇÃO DE DADOS

O Conselho será formado por 23 representantes, sendo seis

do Poder Executivo, um do Senado Federal, um da Câmara

dos Deputados, um do Conselho Nacional de Justiça, um

do Conselho Nacional do Ministério Público, um do Comitê

Gestor da Internet no Brasil; quatro de entidades da

sociedade civil, quatro de instituições científicas, quatro de

entidades empresariais. Esta composição reflete na íntegra

o que tinha sido previsto nos dispositivos vetados na Lei.

Com o recente acréscimo de 4 entidades do setor laboral.

maio 2019 julho 2019 23


CIDADÃOS

INVISÍVEIS

SUAS HISTÓRIAS POUCAS VEZES SÃO CONHECIDAS, QUASE NÃO HÁ

REGISTROS OFICIAIS, MAS ELES ESTÃO AÍ NAS RUAS E CALÇADAS

Nicolas Nunes

Ilustrações Kennia Alves

Desde bem novos aprendemos

uma palavra que ninguém esquece

o que quer dizer: mendigo. Assim

chamamos os moradores de

rua. Mendigo vem do latim: mendicus

– muito pobre, pedinte.

Pelo visto, nossos ancestrais

romanos já haviam encontrado

um jeito de se referir àqueles que são invisíveis,

pelo menos para uma parte da sociedade.

De lá para cá, o sentido da palavra não mudou.

Ela já vem carregada de desprezo, medo, pena.

Todo mundo sabe como é um mendigo.

Hoje mesmo vi um, no caminho da faculdade.

Ele jogado lá num cantinho, sujo, encolhidinho.

Parecia até natural... Natural!

Céus! A Declaração Universal dos Direitos

Humanos existe há mais de 70 anos, e testemunhar

semelhantes dividindo comida

com ratos e baratas nos parece natural.

Bem, é assim que é. Isso porque eles

são considerados por muitos um “caso

perdido”, marginais da vida social. Ignorados,

tornam-se quase invisíveis.

Mas será que aquele que é invisível,

vê? Será que sempre esteve ali, como se

fizesse parte das ruas e das vielas? Abordar

a questão social que este assunto

traz consigo parece, também, natural. O

que não é natural é enxergar, em quem

foge da humanidade, outro humano.

Aqui trazemos algumas histórias daqueles

que são invisíveis: Os moradores de rua - famosos

mendigos – para mostrar que, assim como

nós, possuem virtudes, famílias e histórias.

As entrevistas e/ou registro visual foram realizados com o consentimento

dos entrevistados, respeitando sua privacidade e sua vontade.

24 julho 2019


MARCÃO POETA

ETERNO CALOURO

Ninguém sabe ao certo seu

nome. Habita as imediações da

Ufes e o perímetro do bairro Jardim

da Penha, em Vitória. Aparenta

no máximo 30 anos. Encontra-se

sempre com os cabelos e

barba bem aparados e traz correntes

amarradas em seus pulsos

e cintura. Está sempre todo pintado,

como se tivesse caído num

balde de tinta e, devido a isso,

ficou conhecido como “O Eterno

Calouro”.

“Sou lá dos Estados Unidos,

gosto de comer buceta” - apesar

de ter conversado conosco, não

interage muito com os outros e é

frequentemente avistado falando

sozinho. De acordo com relatos de

conhecidos da família, ele é natural

do bairro Santo Antônio (Vitória)

e sua mãe vai lhe visitar toda

semana.

Marcão Poeta é um transeunte

do bairro de Itapoã, em Vila Velha.

Aparenta mais de 50 anos, beirando

a terceira idade. Com o rosto

marcado por rugas, porta sempre

uma barba cheia e totalmente

branca, que faz jus às várias histórias

que ele tem para contar.

Simpático, puxa assunto com

quem passa, sempre pedindo contribuições

e recitando poemas.

Possui uma flauta e uma escaleta,

e com elas, toca melodias todos

os dias. Apresenta-se como artista

plástico, natural do Rio de Janeiro:

“Não existe morador de rua. A rua é

a morada! O cara mora num apartamento

de duzentos andar, e gosta

da rua! Eu sou um mero atuante da

rua”.

Enquanto conversávamos,

um senhor parou para o cumprimentar.

Ele afirmou que, além

de conhecer Marcão há anos, já

estudou com ele no Colégio Marista

de Vila Velha. “Fiz parte do

PCdoB, nos anos 80. Meu pai ficou

muito triste comigo” lamenta

o poeta. Afirma ter perdido um

apartamento para o governo de

Victor Buaiz. Carrega suas roupas

e pertences numa grande sacola

plástica.

julho 2019

25


INVISÍVEIS AOS

OLHOS DO GOVERNO?

Apesar da instituição no Brasil,

em 2009, da Política Nacional para

População em Situação de Rua, a

impressão que se tem é que esse

contingente populacional só vem

aumentando.

O IBGE não tem um programa

de contagem e classificação dos

popularmente chamados moradores

de rua. Os levantamentos

estatísticos são esporádicos, têm

metodologias distintas e pouco

consolidadas. Invisíveis nas estatísticas,

geram medo no poder público,

que temem que essas pessoas

caiam no mundo do tráfico.

No Espírito Santo, o aparato do

poder público que lida com essa

questão é a Secretaria de Estado de

Direitos Humanos (SEDH). Nela, a

Coordenação da Política de População

em Situação de Rua fica ligada à

Gerência de Política de Promoção de

Direitos Humanos.

Questionada a respeito das dificuldades

enfrentadas pela Secretaria

em lidar com a questão das

pessoas em situação de rua, Neiriele

Marques, atual Gerente de Políticas

de Promoção da Igualdade Racial

da SEDH, disse que a maior dificuldade

é sensibilizar a gestão pública

sobre a necessidade da proposição

de medidas que conscientizem a

sociedade de que eles (as pessoas

em situação de rua) possuem direitos:

“Somente tirar essas pessoas do

campo de visão da sociedade, ‘higienizando

a cidade’, não irá resolver a

questão”.

No Facebook, o perfil Moradores

de Rua: Invisíveis aos olhos da sociedade

(@moradores.rua.invisiveis) estimula

o amparo às pessoas em situação

de rua, sem distinção de gênero,

cor, nacionalidade ou religião. A iniciativa

recebe elogios nos comentários.

Entre abril e julho do ano passado,

a Prefeitura de Vila Velha fez uma

ação interessante. Por meio da Secretaria

de Assistência Social (Semas), o

órgão criou condições para o que 10

pessoas em situação de rua retornassem

às suas cidade de origem, acertando

a documentação deles e lhes

emitindo passagens de ônibus.

A adesão a esses serviços é voluntária.

Um exemplo de órgão do

poder público que lida com essas

pessoas é o Centro Pop (Centro Especializado

Para a População em Situação

de Rua). Localizado em Vila

Velha, ele oferece abrigo, alimentação,

atendimento psicológico, socioassistencial

e até jurídico.

“A execução de uma política

para essa questão muitas vezes

é realizada pelos municípios, e a

quantidade de habitantes determina

os serviços para as pessoas

em situação de rua daquela cidade”,

afirma Neirieli. “As pessoas

devem conhecer as formas de

acionar esses serviços para ajudar

o poder público a alcançar as

pessoas que estão em situação de

rua e, assim, auxiliar aqueles que

desejam sair dessa condição”.

26 julho 2019


PI

João Batista era o nome do morador

de rua mais conhecido como

“Pi”. Ele também foi um transeunte

do bairro de Itapoã, em Vila Velha.

Faleceu entre 2015 e 2016, não se

sabe a data. Até o dia de sua morte,

fazia daquela região sua morada

desde 1992, ou seja, viveu ali por

mais de 20 anos.

Sempre de cara fechada, Pi parecia

viver zangado. Negro, magro,

possuía muitas rugas e andava

sempre encurvado. Não conversava

com ninguém, a única coisa que

proferia era “Pi!” em alto e bom

som, o que originou seu apelido.

“De duas a três vezes por semana,

ia andando pra Terra Vermelha

(Vila Velha) e voltava”, nos conta um

dono de bar da região. “Ele não era

louco, mas se não desse uma dose,

perturbava”.

Aparentava já estar na terceira

idade em seus últimos dias. Por ser

muito conhecido pela comunidade

local, sua morte gerou comoção. Na

época, usuários do Facebook criaram

até um perfil para homenageá-

-lo. Não se sabe se recebeu um funeral.

Era alcoólatra e trocava tudo que

lhe era dado por cachaça.

julho 2019

27


OS PRAZERES

DA VIDA CASTA

NÃO FAZER SEXO É APENAS UM DOS

ASPECTOS DA CASTIDADE

Ana Julia Chan

Do latim castus, a palavra castidade

significa “puro”. Entre

os dez mandamentos, esta é

citada no sexto: “Não pecar

contra a castidade”. Contudo,

aqueles que a praticam não

estão preocupados apenas

com o ‘não fazer sexo’. A escolha

vai muito além disso. Para a jornalista e empresária

Marcelle Desteffani, 29 anos, uma das maiores mudanças

que ela notou com a decisão da castidade foi quanto ao

controle do seu próprio temperamento e às suas relações

interpessoais. “Sempre fui muito impaciente, nervosa,

impulsiva no falar... Vivendo a castidade, que é o domínio

de si, aprendi que é possível controlar as reações ao

que sentimos. Então, quando fico nervosa, com raiva, me

lembro do compromisso que fiz em viver a castidade e

consigo me controlar mais”, comenta a jornalista.

De acordo com os ensinamentos bíblicos, o sexo foi

criado por Deus para ser vivido

após o matrimônio, e

Marcelle - indo de encontro

ao que muitos jovens da

sua idade acreditam - não

enxerga isso como negativo,

muito pelo contrário: “isso

não é para o mal do homem,

mas gera um bem grandioso

para a nossa vida, uma grande

paz, que só conseguimos

perceber quando optamos

por viver a virtude da castidade”,

afirma.

A estudante de Psicologia

Amanda Aguiar, 23 anos,

Marcelle: “Eu vivo a

castidade mesmo sendo que cresceu em uma família

casada e não quer dizer muito religiosa, conta que o

que não fazemos sexo.” assunto sempre esteve pre-

sente em suas discussões dentro de casa e na Igreja:

“Isso é bastante discutido em algumas igrejas, inclusive

na minha. Em casa também é algo muito conversado. Eu

sempre tive acompanhamento bíblico em casa, até porque

meu avô é pastor. Eu fui ensinada que o sexo foi criado

para ser desfrutado dentro do casamento, de acordo

com a bíblia”.

Quanto às mudanças nos relacionamentos antes e

depois da decisão, Marcelle frisa que a proximidade com

Deus fez com que suas relações se tornassem bem mais

amorosas e pacientes. Já para Amanda Aguiar, a escolha

não mudou a forma de ela se relacionar com aqueles à

sua volta, porque o assunto sobre a castidade sempre

esteve presente em seu círculo social. “A minha escolha

não interferiu nos meus relacionamentos, porque

eu sempre tive amigos cristãos que também tomaram a

mesma decisão. Meu meio social é formado por pessoas

cristãs. Tenho poucos amigos que não são cristãos.

Também só namorei caras cristãos... Então isso não teve

interferência nenhuma”,

afirma Amanda.

A servidora pública

Andressa Barboza Félix,

27 anos, percebeu que

seus amigos mais próximos

passaram a ser

aqueles que frequentam

a Igreja, assim como ela,

e que entendem e apoiam

sua decisão. “Claro que

tenho muitas outras pessoas

próximas, que não

compartilham disso, mas

acaba que nossos relacionamentos

são mais superficiais,

se restringem a

datas comemorativas, encontros

ao acaso, eventos

Andressa: “Apesar de eu

não saber, eu já vivia a

castidade de certa forma

ao optar por não ficar com

rapazes e não fazer sexo.”

28 julho 2019


sociais. Naturalmente a proximidade diminui à medida

que os interesses, crenças e valores compartilhados se

distanciam”, observa. Além disso, Andressa ainda conta

que a experiência da castidade está presente em sua

vida mesmo antes de ela ter ‘escolhido’. “Apesar de eu

não saber, eu já vivia a castidade de certa forma ao optar

por não ficar com rapazes e não fazer sexo, por exemplo.

Dei meu primeiro beijo aos 21 anos (sendo que estava na

Igreja de fato apenas nos últimos 2 anos) e permaneço

virgem (sim, e vou fazer 28 anos mês que vem!). Eu já

vivia em parte a castidade mesmo sem perceber”, reflete

a servidora.

Mais uma prova de que a castidade não está associada

somente ao sexo, é o casamento da Marcelle. Mesmo

após o matrimônio, a empresária e jornalista afirma viver

a castidade no seu dia a dia. “Eu vivo a castidade mesmo

sendo casada e não quer dizer que não fazemos sexo. A

castidade no casamento é a fidelidade dos cônjuges em

todos os aspectos da vida. Com a nossa vida e atitudes,

transmitimos às pessoas como somos felizes e realizados

vivendo essa virtude”, explica.

PRECONCEITO

Grande parte das pessoas ainda tratam sobre o assunto

com tom de ironia, como se viver a castidade,

principalmente entre os jovens no mundo de hoje, fosse

algo impossível ou bobo, mas a estudante de Psicologia

afirma lidar bem com as opiniões diferentes. “Respeito

quem é contra e quem não concorda. Mas é uma decisão

que eu tomei. Piadas e ironias, eu não vejo como ofensas,

principalmente porque eu sei que não vai interferir

no meu relacionamento com Deus e na forma como eu

penso. Eu sou bem resolvida com essa questão”, fala

Amanda.

Já para Andressa, o que existe é um preconceito que

vem da falta de informação. Apesar de ter escutado muitas

piadas desnecessárias, ela afirma que a maior batalha

é contra ela mesma. “Como a própria palavra diz, é

um pré-conceito. Se dentro da própria Igreja a maioria

não sabe nem compreende

ou aceita o que é a

castidade, que dirá fora

dela. Mas na minha vida

particularmente eu não

enfrento grandes problemas

quanto a isso.

Existem piadinhas,

comentários e brincadeiras

claro, mas nada que

chegue ao ponto de me

afligir ou atrapalhar. Na

verdade, a maior batalha

que um jovem cristão católico

enfrenta ao decidir

pela castidade é consigo

mesmo”, expõe a servidora.

Amanda: “Piadas e ironias, eu

não vejo como ofensas porque eu

sei que não vai interferir no meu

relacionamento com Deus.”

EU ESCOLHI ESPERAR

Fundado em Vila

Velha, no Espírito

Santo, pelos pastores

Nelson Júnior

e Angela Cristina,

casados há 20 anos, o movimento Eu

escolhi esperar começou em março

de 2011. Hoje, a página do Facebook

conta com mais de 3 milhões de

curtidas. A campanha foi criada para

encorajar e dar suporte àqueles que

decidiram ter relações sexuais apenas

após o casamento. Voltado não

somente aos jovens, mas também

aos adultos, o pastor afirma que a

preservação sexual e a integridade

emocional são os principais temas

trabalhados dentro do movimento. “A

sociedade prega uma falsa liberdade

sexual, diz que devemos usá-la sem

limites. E é aí que a liberdade acaba

e tem graves consequências. Criamos

a campanha para fortalecer jovens

que querem uma vida emocional e

sexual responsável”, explica Nelson.

A título de curiosidade: castidade

não é sinônimo de virgindade. Tem

gente que opta por seguir o sexto

mandamento, mesmo após já ter

tido experiências sexuais. Inclusive,

estes também são bem-vindos ao

movimento. “Encorajamos quem

nunca teve uma experiência sexual

a se guardar. E, àqueles que já

fizeram, mas escolheram esperar,

queremos mostrar que nunca é tarde

para fazer o que é certo, recomeçar.

O fato da pessoa já ter experiências

antes não tira o valor de sua

decisão. Dizemos que sexo é bom,

é de Deus, só que no contexto do

casamento”, esclarece o pastor.

julho 2019

29


MULHER

AO VOLANTE

EM

PERIGO CONSTANTE

elas optam por profissões tradicionalmente masculinas,

mas sofrem com preconceito e assédio

Maria Clara Stecca

Os carros de aplicativo

chegaram

há poucos anos, e

vieram tomando

gradativamente

o lugar dos táxis.

Os dois serviços

de transporte

oferecem basicamente o mesmo serviço, a diferença

é que os primeiros têm um preço bem mais

baixo.

A semelhança não é apenas no tipo de serviço

oferecido. Como nos táxis, os motoristas dos carros

de aplicativo também são majoritariamente do sexo

masculino. Por muitos anos, a profissão de motorista

foi considerada uma atividade apenas para homens,

e qualquer mulher que decidisse se aventurar nesta

área acabava sofrendo muito preconceito.

De fato, não vemos com frequência mulheres

exercendo essa profissão, mas essa realidade

vem sendo mudada aos poucos. Com a chegada

dos carros de aplicativo, se tornou mais comum

vermos mulheres motoristas. O preconceito também

vem diminuindo, mas ainda está bem longe

de acabar. Além disso, existe também um outro

fantasma que cerca a mulher em quase todas as

esferas da sua vida: o assédio sexual.

Por mais que a profissão de motorista ofereça

uma certa liberdade e flexibilidade, além de reforçar o

empoderamento feminino, a mulher é obrigada a lidar

com essa triste realidade de preconceito, assédio e violência.

A motorista de aplicativo Andressa Borges

conta que já sofreu com comentários preconceituosos

e de cunho sexual: “Já me perguntaram

se o meu marido permite que eu seja motorista.

Uma vez um cara que chamou pelo aplicativo me

chamou de gostosa, ele disse que quando eu viu

a foto no aplicativo nao imaginou que seria uma

mulher tão gostosa. Fiquei muito assustada, sem

reação, mas terminei a corrida”.

Andressa conta que nunca foi assaltada, ao

contrário de “Janaina”, nome pelo qual a motorista

de aplicativo prefere ser chamada. Ela já foi

rendida por dois homens que solicitaram o serviço

pelo aplicativo, e teve seu carro roubado. “Eles

foram muito agressivos, pensei que eu fosse morrer,

mas graças a deus ficou tudo bem, eles levaram o

meu celular e o pouco dinheiro que estava comigo”.

Como alternativa para driblar estes problemas,

foram desenvolvidos aplicativos de

transporte, similares ao Uber e 99 Pop, em que

todas as motoristas e usuárias são mulheres,

mas esses serviços não funcionam em algumas

cidades do país, que é o caso da região da Grande

Vitória. Apesar da disponibilidade, os aplicativos

de transporte apenas para mulheres não

ganharam muita força em solo capixaba. Pela

demanda dos aplicativos de transporte mais

usados (Uber e 99 POP), as motoristas acabam

optando por dirigir para estas empresas.

30 julho 2019


julho 2019

31


ALÔ, ALÔ, ALÔ...

TU TU TU

EMPRESAS DE TELEMARKETING ATACAM

DIREITOS DO CONSUMIDOR POR

Kelly Lacerda e Suzane Caldeira

O

telefone toca uma, duas,

três, várias vezes por dia.

Você interrompe o que

está fazendo para atender.

- Alô!

- Bom dia, gostaria de

falar com a senhora Rita

de Cássia?

- Pois não, é ela.

- Sou João Carlos e falo da empresa “Cartão Feliz”,

tudo bem senhora? O motivo do meu contato

é para informá-la que a senhora foi selecionada e

aprovada para receber um de nossos cartões, informo

também que para sua segurança essa ligação

está sendo gravada.

Assim como a funcionária pública Rita de Cássia,

quem nunca recebeu esse tipo de ligação? A

maioria dos consumidores concorda que essas

chamadas incomodam e muito. O telefone toca no

início da manhã ao acordar, enquanto almoça, durante

aquela reunião importante ou no horário de

descanso.

Geralmente são ligações de telemarketing destinadas

a oferecer produtos e serviços dos mais

variados tipos, mas os serviços de telefonia, TV

por assinatura, internet, e cartão de crédito são os

mais oferecidos.

Rita está farta de ser importunada diariamente

por esse tipo de chamada. “Ligam o dia inteiro,

para meu telefone fixo, celular, trabalho e até mesmo

para casa de parentes. Só em um domingo recebi

quatorze ligações”, conta.

A contadora Marilia Sangali também sofre com

os incômodos do telemarketing. “Não tem dia certo,

ligam até finais de semana e feriados. Eles ligam

insistentemente, não têm horário, muitas vezes

começam antes das 08h00 e vão até mais de

21h, às vezes atendo, mas é raro”, relata.

Outro tipo de reclamação constante por parte

dos consumidores são ligações que ao serem atendidas

ficam mudas e após um tempo caem, essa

situação é causada pelo uso de robôs, os chamados

robocalls.

Um discador automático recebe uma lista de

telefones que poderão ser passadas para um atendente

físico quando o consumidor atende, ou ainda,

uma gravação pode ser ouvida pelo consumidor,

todavia quando ocorrem falhas no sistema, essa

situação acontece. Outro incômodo gerado pelos robocalls

é o fato de que esse sistema também faz com

que as ligações sejam repetidas várias vezes para o

mesmo número no decorrer do dia.

Os consumidores estão cada vez mais revoltados

com a quantidade de chamadas indesejadas

que recebem. Na melhor das hipóteses, essas chamadas

são um incômodo. Na pior das hipóteses,

elas são uma ameaça às informações pessoais e

financeiras que os consumidores trabalham arduamente

para proteger.

A funcionária pública Luciana Corrêa cansou

de ser importunada pelas ligações automatizadas

e tomou uma atitude radical. “Desliguei o telefone

da minha casa, não aguentava mais receber essas

ligações era o dia inteiro. Tinha gravação com a

voz de gente famosa oferecendo até

remédio, mas o pior eram as ligações

que ficavam mudas, essas

eram em maior número. Agora

só ligo o telefone quando

preciso fazer uma

ligação”, desabafa.

A insistência por

parte dos operadores

de telemarketing também

é motivo de insatisfação.

O publicitário

Arthur Menezes

diz já se sentiu coagido

Rita de Cássia: “Só em um

domingo recebi 14 ligações”

32 julho 2019


com algumas ligações que recebeu. “Me ligaram oferecendo

um plano de internet, falei que eu não tinha interesse,

foi então que a pessoa começou a me questionar,

dizendo que eu iria perder uma excelente oportunidade,

que eu deveria ouvi-la, não me deixava dizer não. Foi uma

total falta de respeito”, relembra.

Para tentar reduzir o desconforto causado por essas

empresas, a Agência Nacional de Telecomunicações

(ANATEL) exigiu que as empresas do setor de telecomunicações

criassem uma lista nacional única de consumidores

que não desejam receber esse tipo de ligação, programa

denominado “Não perturbe”. Porém, a lista que deve

entrar em vigor ainda no mês de julho deste ano, não contempla

todo tipo de serviço, apenas os de internet, TV por

assinatura e telefonia.

À frente do cadastro nacional proposto, o Procon Estadual

do Espírito Santo, criou, desde 2009, através da

Lei Estadual nº 9.176/2009, o cadastro conhecido como

“Bloqueio de telemarketing – Não importune”. Diferentemente

do cadastro nacional, o cadastro local abrange

todo tipo de ligação de telemarketing. Segundo a diretora

do Procon Estadual, Lana Lages, o cadastro beneficia

usuários de telefonia fixa e celular, com os DDDs do Estado

do Espírito Santo, independente se a empresa que

presta este tipo de serviço seja de outro Estado.

A microempresária Shirley Araújo cadastrou o número

do telefone fixo de sua casa desde 2010 no serviço e

garante que funciona. “Nunca mais recebi essas ligações

que tanto me incomodavam, foi um alívio! Agora preciso

cadastrar o meu celular”, relata.

Desde a implantação do serviço no Estado, cerca

de 34 mil pessoas já cadastraram 61 mil números de

telefone desejando não mais receber ligações de telemarketing.

A Diretora do Procon alerta que caso haja o

descumprimento da Lei, as empresas poderão sofrer as

sanções administrativas previstas no Código de Proteção

e Defesa do Consumidor. Em 2018, foram aplicados

R$326.874,39 em multas.

COMO SE CADASTRAR NO

SERVIÇO DO PROCON-ES?

Acesse o site www.procon.es.

gov.br e clique no link “Bloqueio

de Telemarketing”.

Preencha o formulário para o

cadastro de pessoas físicas e jurídicas

(o titular da linha é quem

deve fazer a inscrição do número).

Após 30 dias do ingresso do

consumidor no cadastro, as empresas

prestadoras de serviço de

telemarketing não poderão fazer

ligações para as pessoas inscritas.

Se isso acontecer, o consumidor

poderá formular uma reclamação

junto ao Procon Estadual,

por meio do site - na página do

bloqueio de telemarketing - ou do

Atendimento Eletrônico, disponível

no site www.procon.es.gov.br

ou do App Procon-ES, disponível

para Android, devendo informar

a data e hora da ligação, o nome

da empresa, e se possível, o nome

do operador e número do telefone

que originou a ligação.

Não estão incluídas na lei estadual

entidades filantrópicas e empresas

de cobrança.

CADASTRO NACIONAL

O Cadastro Nacional não anula

a Lei estadual. As empresas devem

verificar ambos os cadastros

antes de colocar o número do usuário

em sua lista.

julho 2019

33


TODA CRIANÇA

TEM DIREITO AO

NÃO TRABALHO

MAS ESTA NÃO É A REALIDADE

DE MAIS DE 47 MIL CRIANÇAS E

ADOLESCENTES NO ESPÍRITO SANTO

Richele Ribeiro

34 julho 2019


8

crianças, uma casa pequena e uma mãe sobrecarregada. Esse

é o panorama que Selma Cardoso tem de sua infância. A mais

velha dos filhos, ao completar 14 anos soube que uma amiga

da família precisava de uma “pessoa para ajudar em casa”. Foi

assim que começou sua história de exploração infantil.

"Minha mãe achou que lá eu poderia estudar, teria uma

vida melhor". Saindo de Linhares, norte do estado, onde morava

a família, a garota foi para São Paulo. Longe de casa, a situação

foi diferente do combinado. Não pôde estudar, e trabalhava o

dia todo. "Eram raros os momentos em que eu podia parar um

pouco o serviço", relata. Do dinheiro que ganhava, enviava grande

parte para a família.

Selma tem uma trajetória parecida com a de sua mãe. A

aposentada Lúcia Cardoso também foi uma vítima do trabalho

infantil. Após perder a matriarca da família aos sete anos, a menina

ficou aos cuidados dos irmãos. Desde então, passou a trabalhar

nos afazeres domésticos e na lavoura de café.

Semianalfabeta, Lúcia estudou apenas até o segundo ano

do ensino fundamental. "Meus irmãos não viam necessidade em

se estudar. Tinha que ajudar em casa e ficava muito cansada",

afirma.

Mãe de oito filhos, todos eles trabalharam na infância. "A

gente passava necessidades em casa. Eles viam aquilo e queriam

ajudar de alguma forma", conta. Atualmente, apenas uma

tem ensino superior e hoje atua como pedagoga.

REALIDADE

Toda criança tem direito ao não trabalho. Essa é uma das

resoluções de órgãos e convenções de proteção à criança e ao

adolescente. Porém, segundo dados do Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE), esta não é uma realidade para

cerca de 2,7 milhões de crianças e adolescentes (5 a 17 anos) no

Brasil.

“O que mais me preocupa é que a sociedade fica indiferente

ao cenário. Quando veem a criança limpando o vidro do

carro, ou quando vendem balas as pessoas não se incomodam.

Não têm compaixão, não ligam. Muitas vezes são impotentes

também. É necessário uma mudança de postura”, afirmou o psicoterapeuta

Ivan Capelatto durante o seminário “Não cale”.

O evento foi realizado na Universidade Federal do Espírito

Santo, em maio deste ano, pelo Programa de Pós-Graduação em

Direito Processual junto com o Ministério Público do Trabalho,

o Tribunal Regional do Trabalho da 17ª região e o Fórum de Erradicação

ao Trabalho Infantil (Feapeti), com o intuito de debater

medidas para combater o trabalho infantil.

No Brasil, a partir dos 14 anos, o adolescente pode exercer

atividade remunerada na condição de aprendiz, em horário que

não conflite com a escola. Caso seja trabalho noturno, perigoso,

insalubre ou atividades da lista TIP (piores formas de trabalho

infantil), a proibição se estende aos 18 anos incompletos.

"A sociedade propaga mitos em relação à exploração infantil”.

É o que diz a magistrada do Tribunal Regional do Trabalho

17ª região e gestora regional de combate ao trabalho infantil,

Suzane Schulz. "O trabalho de exploração e trabalho precoce trazem

um sentimento de não pertencimento, de marginalidade e

exclusão social”, analisa.

Muitas vezes, considera-se o trabalho como uma meio

de formar caráter. “Melhor trabalhar do que roubar” é uma das

julho 2019

35


frases utilizadas para normalizar o trabalho precoce. "A naturalização invisibiliza

o problema. O trabalho dignifica desde que seja realizado em idade

adequada. O que forma caráter é a escola e o lar. Temos que desconstruir

esses mitos”, ressalta a magistrada.

ESPÍRITO SANTO

Segundo dados da Rede Peteca - Chega de trabalho infantil (projeto

que busca a promoção dos direitos da criança e do adolescente e a erradicação

do trabalho infantil no país), 47.378 crianças e adolescentes trabalham

no Estado. Desses, a maioria (29,4%) no setor de agricultura e pecuária. O

levantamento usa como base Pesquisa nacional por amostra de domicílios

(Pnad) e O trabalho infantil nos principais grupamentos de atividades econômicas

do Brasil, elaborada pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação

do Trabalho Infantil (FNPETI).

“O trabalho infantil tira a

criança da escola e causa

um déficit de aprendizagem.

Isso impacta no futuro

deste indivíduo e reforça

um ciclo de pobreza”,

afirma Suzane Schulz

VOCÊ SABIA?

O governo do Estado do Espírito Santo sancionou, em 2017, a lei 10.755

instituindo o “Junho Vermelho”. O intuito é dedicar o mês ao debate sobre

trabalho infantil, para prevenção e eliminação desta prática. Junho foi escolhido

por celebrar, no dia 12, o Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil.

AS PIORES

O trabalho nas ruas, as carvoarias

e lixões, a agricultura com exposição

a agrotóxicos, e o trabalho

doméstico estão na Lista das Piores

Formas de Trabalho Infantil, mais

conhecida como Lista TIP definida

pela Organização Internacional do

Trabalho (OIT). A lista estabelece

quais são as atividades que mais

oferecem riscos à saúde, ao desenvolvimento

e à moral das crianças e

adolescentes.

A Convenção 182 (Convenção

sobre Proibição das Piores Formas

de Trabalho Infantil e Ação Imediata

para sua Eliminação) foi instituída

em 1999 durante uma reunião

em Genebra, na Suíça. Promovida

pela Organização Internacional do

Trabalho (OIT), a intenção era debater

questões visando à proibição e

eliminação do trabalho infantil. Foram

desenvolvidos alguns tópicos,

que mais tarde deram origem à lista

TIP. Em 2008, utilizando como base

a Convenção, a lista foi ratificada no

Brasil, definindo 93 piores formas de

trabalho infantil. Ela é também utilizada

como meio de combate à exploração

em países como Argentina e

Bolívia, com 14 e 20 formas listadas,

respectivamente.

Um levantamento feito pelo

Sistema de Informação de Agravos

de Notificação (Sinan) do Ministério

da Saúde mostrou que entre 2007 e

2017, 40.849 crianças e adolescentes

sofreram acidentes de trabalho,

24.654 de forma grave. Os dados

ainda apontam que 236 morreram

MARCOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS

1948 1966 1969 1973 1989 1969

Declaração

Pacto

Universal Internacional

dos Direitos

sobre os

Humanos.

Direitos

Econômicos,

Sociais e

Culturais

36 julho 2019

Convenção

Americana

sobre Direitos

Humanos

Convenção

sobre a Idade

Mínima para

Admissão ao

Emprego (n.

138), adotada

pela OIT

Convenção

Sobre os

Direitos da

Criança

Convenção

sobre as

Piores Formas

de Trabalho

Infantil (n. 182)

adotada pela

OIT


FORMAS DE TRABALHO INFANTIL

em acidentes de trabalho no mesmo

período.

O Fórum Nacional de Prevenção

e Erradicação do Trabalho Infantil

é uma dessas estratégias de

combate. Criado 1994, o Fórum tem

como membros outros 27 fóruns estaduais

de prevenção e erradicação

do trabalho infantil, representantes

do governo federal, dos trabalhadores,

empregadores, entidades da

sociedade civil, do sistema de Justiça

e organismos internacionais (OIT

e UNICEF). O Fórum, assim como

outras iniciativas do setor público

e privado, faz parte de uma rede de

esforços nacionais para eliminar o

trabalho precoce no Brasil.

No estado, o projeto tem

como membro o Feapeti - Fórum Estadual

de Prevenção e Erradicação

do Trabalho Infantil e Proteção do

Trabalhador Adolescente do Espírito

Santo. O fórum estadual realiza

ações como a exposição itinerante,

que passou pela Universidade Federal

do Espírito Santo e pelo TRT-ES.

A intenção é estabelecer uma proximidade

com a população, provocando

uma sensibilização para o tema.

Outra ação que visa conscientizar

a população é a série de HQs

MPT em quadrinhos, desenvolvida

pelo Ministério Público do Trabalho

(MPT-ES), e inserida no Feapeti. A

revista é distribuída nas escolas durante

as ações contra a exploração

infantil. Os direitos das crianças é

tema recorrente na série, e o trabalho

infantil está entre os assuntos

mais tratados nas publicações. As

piores formas de trabalho infantil,

O Estatuto da Criança e do Adolescente,

trabalho infantil doméstico e

trabalho infantil: mitos e verdades,

já foram temáticas abordadas.

PROGRAMA NACIONAL

Na busca pelo fim da exploração

do trabalho infantil, o Tribunal

Superior do Trabalho (TST) e o Conselho

Superior da Justiça do Trabalho

(CSJT) criaram, em 2013, o Programa

Nacional de Erradicação do

Trabalho Infantil. O projeto está inserido

em todos os estados do país,

onde são indicados pelos Tribunais

Regionais do Trabalho (TRTs) gestores

regionais do trabalho infantil

para promoverem ações de combate

à exploração. Estas ações são realizadas

em escolas e com os profissionais

que atuam diretamente com

as vítimas, como conselheiros tutelares.

"Tentamos mostrar para a sociedade

os aspectos prejudiciais do

trabalho precoce por meio da conscientização.

Ela precisa entender

que a exploração do trabalho infantil

é uma violência", afirma a gestora regional,

Suzane Schulz.

EXPLORAÇÃO SEXUAL

Em combate à exploração sexual

e relação de trabalho ilícito, a

Polícia Rodoviária Federal (PRF), em

parceria com Organização Internacional

do Trabalho, Childhood Brasil,

Ministério dos Direitos Humanos,

Ministério do Trabalho e o Ministério

Público do Trabalho, criaram o Projeto

Mapear. A exploração sexual,

que entra na lista das piores formas

de trabalho infantil como "trabalho

com exposição a abusos físicos, psicológicos

ou sexuais”, é combatida

através de um mapeamento de pontos

vulneráveis realizado nas rodovias

federais brasileiras.

Segundo relatório de

2017/2018 divulgado pela PRF foram

identificados 2.487 pontos de exploração

sexual nas rodovias federais.

A intenção é que a partir dos dados

das ações, sejam realizados políticas

públicas de combate a essa prática.

As ações visam à prevenção e erradicação

do trabalho infantil com foco

especial na educação e estímulo à sociedade

na luta em defesa dos direitos

das crianças e dos adolescentes.

DENÚNCIAS

De acordo com o Ministério

Público do Trabalho (MPT-ES), nos

últimos cinco anos, foram realizadas

cerca de 560 denúncias de trabalho

infantil. Elas podem ser realizadas

de forma anônima, pessoalmente,

por telefone, pelo site ou através do

Disque 100.

Segundo o órgão, "trabalhos

informais" como em feiras livres, engraxate,

vendedor de amendoim ou

balas, a exploração sexual comercial

e o trabalho doméstico infantil (podendo

ser na própria cada da criança

ou em casas de terceiros) são mais

difíceis de receberem denúncias ou

serem fiscalizadas.

Acesso às revistas em quadrinhos do MPT-ES: http://www.mptemquadrinhos.com.br/edicoes/piores-formas-de-trabalho-infantil/

HUMANOS SOBRE TRABALHO INFANTIL

1988 1990 1996 2000 2002 2008

Constituição

Federal, Artigos

227, 208

Estatuto da

Criança e

Adolescente

(ECRIAD)

Lei de Diretrizes

e Bases da

Educação (LDB)

Fonte: Nações Unidas no Brasil (ONUBR)

Lei da

Aprendizagem

Decreto 4.134,

Convenção 138 e

Recomendação

146 da OIT sobre

Idade Mínima

de Admissão ao

Emprego.

Decreto 6481 -

Regulamenta

artigos da Conv. 182

da OIT, que trata da

proibição das piores

formas de trabalho

infantil

julho 2019 37


Elas sempre estiveram

ali, no meio

da praça, paradinhas,

esperando

seus velhos e fiéis

clientes. E ainda

estão por ali, só

não se sabe muito

bem até quando.

As famosas bancas de jornais, que recebiam

os primeiros clientes às 6 da manhã

para comprar o jornal do dia antes de irem

trabalhar.

Um costume tão comum a uns anos

atrás vem desaparecendo com o passar do

tempo. As bancas são uma parte cultural

da sociedade que ultrapassam sua função

econômica, sendo também um ponto

de encontro da vizinhança. Lá, os poucos

que ainda as procuram chegam com um

“bom dia” e saem sabendo de tudo que se

passa na vida do vizinho, debatem sobre

o jogo de ontem e o “tchau” é só um “até

amanhã”.

É tão forte essa impressão comunicativa

das bancas, que se você estiver perdido

em um bairro desconhecido, basta

pedir uma informação ao jornaleiro da

praça, tornando até um serviço de utilidade

pública. O status desse local tão querido

na sociedade era enorme. A força da

comunicação digital vem destruindo “sem

dó” uma camada cultural que não consegue

mais se reerguer. O fato é: não dá para

competir com a tecnologia. Então, que

medidas tomar?

Para Marcelo Geara, dono de uma

banca de jornais em Itaparica, Vila Velha,

“está cada dia mais difícil, estamos vendo

muitas revistas que eram semanais se

tornando mensais, e até outras que estão

saindo de circulação”.

Em meio a tanta inovação, Marcelo

acrescenta que “com a tecnologia cada

vez mais acessível e as informações em

tempo real, a concorrência fica, de certa

forma, desleal. Afetou completamente”.

Muitas bancas espalhadas pela cidade

estão tendo que se readaptar ao mercado,

trazendo itens inovadores, antes

nunca comercializados, como por exemplo:

carregador de celular e pen drives. É

até estranho perceber que as bancas, aos

poucos, se tornam lojas.

Mesmo respirando por aparelho, as

bancas ainda buscam um meio de estar

presente na vida das comunidades que,

por muitos anos, foram sua família.

Para o estudante de Arquitetura e Urbanismo

da Universidade de Belas Artes

de São Paulo, João Felipe Falqueto, as

bancas são uma segurança visual, “elas

são os olhos da rua, que acompanham

todo o movimento, se acontece alguma

coisa, elas viram”, afirma. Além disso, o

estudante enfatiza que sem as bancas a

vivacidade das ruas será perdida, “as bancas

são uma garantia de circulação de informação

e de pessoas”, conclui.

Assim, elas estão em constante mudança,

buscando inovação, investindo

em conveniência. O estabelecimento de

Geara já está adquirindo outras funções

como máquina de xerox, souvenirs, refrigerantes,

cartões de visitas, panfletos e

funcionando também como uma tabacaria

que, segundo o jornaleiro é a área que

mais vende.

Abrir o leque dos itens que uma banca

comercializa é fundamental para continuar

seguindo nesse caminho cheio

de incertezas. Hoje, há tantas perguntas

em relação ao futuro que nem mesmo a

tecnologia é capaz de responder. Tudo

é rápido, imprevisível e atual. Saber que

competir com a tecnologia é a escolha

mais errada devido a tantas mudanças,

mas entendê-la e introduzi-la na rotina é

a decisão mais adequada seja qual for seu

negócio.

Não são só as bancas que estão tendo

que reestruturar seu trabalho. Os próprios

jornais se viram num mundo onde as pessoas

já não procuram mais os classificados

para anunciar, indo agora para a internet

por causa de sua celeridade. Marcelo

acredita que os jornais impressos terão

um fim no futuro. “Com a notícia na palma

da mão, os jornais viverão de publicidade

e irão circular de forma gratuita”, afirma.

38 julho 2019


NOVO DESTINO

PARA AS BANCAS

BANCAS DE JORNAIS TENTAM SOBREVIVER

NA ERA DA TECNOLOGIA.

Felipe Khoury

julho 2019

39


violência com

Carla Nigro e

Marcela Delatorre


A violência não é uma coisa que

surge a partir de um momento mágico.

Uma narrativa muito presente

é a de que o Espírito Santo sempre

foi pacífico e que a violência

só apareceu quando se instalaram

os grandes projetos - Vale e a CST,

por exemplo. Mas a história do nosso

Estado sempre foi marcada por

uma relação entre o legal e o ilegal.

No século XX, teve época em que o

Espírito Santo tinha 300 policiais.

Havia realmente um poder paralelo,

onde os coronéis é que cuidavam

da segurança”. É com a análise

do professor e doutor em Direito e

Sociologia Humberto Júnior que

entregamos o início dessa matéria

que lidará com assuntos mantidos

sob o tapete ou trabalhados com

muito cuidado para não se “falar

demais”.

Organizações criminosas, milícias,

corrupção no controle do Estado,

massacre de etnias indígenas,

grupos de extermínio e, mais recentemente,

quadrilhas do tráfico. Na

nossa história, a violência não é

novidade, porém falar publicamente

sobre ela nunca foi muito fácil.

Entre histórias e estórias, volta e

meia surgem suspeitas e ameaças

em terras capixabas dominadas por

“poderes paralelos”.

Tirando petiscos aqui e ali, há

poucas informações disponibilizadas

e não há pesquisas aprofundadas

acerca da atuação de milícias

ou dados públicos abrangentes

sobre o tráfico. Mesmo casos tidos

como resolvidos ainda são questionados

em cantos obscuros, como

é o caso da “extinta” Scuderie Le

Cocq. “Ainda há muita coisa nebulosa

no Espírito Santo”, confirma

Júnior.

Segundo uma fonte anônima,

acredita-se que ela sobreviveu

de alguma forma. “Havia uma investigação

de que a Scuderie Le

Cocq sobreviveu com outro nome

e formato. Durante a greve da PM,

alguns assassinatos da Grande Vitória

tinham toda a aparência de

execução sumária. E como é a própria

polícia que investiga, complica

bastante”.

BONS TEMPOS?

Nos dados oficiais, a situação

do capixaba está cada vez melhor.

A edição especial de 2018 do Anuário

Brasileiro de Segurança Pública,

desenvolvido pelo Fórum Brasileiro

de Segurança Pública, aponta uma

redução de 44% nos homicídios

desde 2009. Na análise do Anuário

isso significa que mais de 700

vidas foram “poupadas”. Segundo

a Secretaria de Estado de Segurança

Pública e Defesa Social (SESP),

em 2009 eram 58,3 homicídios por

100 mil habitantes. O número decresceu

ano após ano e, em 2018,

alcançou 28 por 100 mil habitantes.

Para o nestre em Segurança

Pública Pablo Lira, a mudança é

fruto das ações governamentais.

“No Espírito Santo o programa ‘Estado

Presente’ traçou estratégias

de prevenção e repressão que culminaram

na diminuição das taxas

de homicídios, as quais estão diminuindo

desde 2009, o que é um

recorde histórico. Além disso, as

Polícias Civil e Militar são muito

bem organizadas e estruturadas.

Aqui, a Polícia Militar tem formação

continuada no segmento dos direitos

humanos com foco nos ensinamentos

de tiro defensivo”, avalia.

Outras causas são a reestruturação

dos presídios e programas focados

em territórios com vulnerabilidades

socioeconômicas.

Entretanto os números não refletem

a insegurança com a qual

a população convive. “O que mensura

a violência no estado? Homicídios?

Então vou contar só homicídios?

Mas diminuir os homicídios

quer dizer que meu estado está

mais seguro? Pode ser que não. O

que te dá medo? Ser assaltado. Isso

reflete a sua sensação de insegurança,

mesmo que os índices de

homicídios estejam diminuindo”,

analisa o tenente da Polícia Militar

Anthony Moraes. Ele ressalta que

essas pesquisas abordam alguns

valores e desprezam outros.

VIOLÊNCIA SETORIZADA

“Na média diminuiu. Mas a

média é complicada. Se você tem

um grupo em que cai muito, é claro

que a média vai ser menor. Nós

temos uma violência muito setorizada.

Sempre uma elite comandando

quem vai morrer. Isso faz

parte da nossa história. Essa redução

toda que ocorreu foi muito

mais entre adultos brancos do que

entre jovens negros, teve até época

em que o homicídio de jovens

negros aumentou”, reflete Júnior,

40 julho 2019


o herança

GRUPOS DO

TRÁFICO NO ES

“Eu já vi um homem caído no

chão. E nessa primeira vez que eu

vi, o rapaz pediu desculpa para o

meu pai porque lançou várias balas

no carro. O carro ficou todo furado.

Eu tinha 12 anos na época e tive pesadelo

a noite inteira. Mas eu me

acostumei. Porque eu comecei a

ver frequentemente, coisa que eu

não via antes quando morava em

Cariacica. Tanto que se eu ver hoje

em dia, eu não ligo. Mas melhorou

bastante e eu não faço ideia do motivo”,

conta Cinderela (nome fictício),

moradora de Vila Velha.

Vizinha de uma boca de fumo,

Cinderela convive diariamente

com cenas de traficantes batendo

e espancando pessoas e animais,

às vezes jogando em valões, correndo

para se esconder da polícia

em qualquer casa aberta e com

barulho de tiros, constantemente

invadindo a rotina da comunidade.

“Uma vez rolou tanto tiro que a gente

só viu as luzes da bala do quarto.

E meu pai começou a correr desesperado.

A gente ficou preocupado

que vazasse no quarto. Em outras

vezes, escondiam drogas no ar condicionado”,

lembra.

O bairro de Cinderela é apenas

um dos inúmeros território domia

violência no espírito santo é histórica.

embora os dados governamentais mostrem

uma redução drástica nos homicídios, o

medo e o crime organizado avançam.

determinando que vários fatores e

desigualdades devem ser levados

em consideração para medir a segurança

pública.

No entanto, mesmo que os dados

mostrem que a violência está

diminuindo, a guerra do tráfico continua

em ascensão. Segundo Lira,

cinco anos atrás não havia facções

atuando no estado. Atualmente, o

Mapa das Facções Prisionais 2018,

editado pelo Fórum Brasileiro de

Segurança Pública, indica que o

PCC (Primeiro Comando da Capital)

já tem uma “filial” no Espírito

Santo, o PCV (Primeiro Comando de

Vitória). Já a reportagem especial

do Jornal A Tribuna, publicada em

24 de junho de 2019, indica que há

130 pequenos grupos traficando no

estado.

“No ES temos a resistência dos

grupos de jovens locais contra as

facções de outros estados. É daí

que vem as disputas que vemos

nos jornais. O problema é que esses

grupos atuam à margem da

lei, aumentando a sensação de

insegurança. Há casos de comunidades

que ainda estão dominadas

por esses grupos de jovens e que

sofrem com toque de recolher, por

exemplo”.

O mestre em Segurança Pública

destaca que os grupos se formam

em razão do crescimento das comunidades

sem um planejamento

adequado, convivendo com vários

déficits na educação, na segurança,

em locais de vulnerabilidade sociais,

econômicas e urbanas.

Durante o ano de 2018, vários

casos que saíram na mídia apontavam

para uma disputa territorial

entre quadrilhas rivais. Um dos

casos mais emblemáticos aconteceu

em agosto desse mesmo ano,

quando, a disputa por pontos de

tráfico entre o PCV e quadrilhas locais,

nos morros de Vitória, atingiu

moradores do Morro Alagoano e de

Caratoíra. Por trás da guerra estava

o interesse em uma área estratégica,

com boa visibilidade, acessos

complicados e onde a polícia só

sobe em momentos de conflito.

Mas essa expansão não se restringe

apenas aos bairros da Grande Vitória.

Há grupos que atuam por todo

o Espírito Santo.

Em reportagem produzida pelo

Gazeta Online, o promotor do Ministério

Público do Estado, Sérgio

Alves, contou que os traficantes

estão expandindo cada vez mais

seus negócios. “Hoje eles estão

espalhados em todo o estado do

Espírito Santo. Tem representante,

tem atuação em todos os locais.

Hoje é muito comum você ver grandes

apreensões de drogas em Guarapari,

em Linhares. Exatamente

porque esses traficantes estão com

dificuldade de guardar essas armas

e drogas com segurança em decorrência

das inúmeras operações policiais

que vêm sendo feitas. Então

buscam espaços além da Grande

Vitória, no interior do Estado, para

abrigar essas armas; e ali passam

também a influenciar da mesma

forma como influenciam comunidades

na Grande Vitória”.

Nas próximas páginas o leitor

poderá conhecer e entender um

pouco melhor esse “submundo”.

Entendendo do que se trata e como

funcionam as organizações ou facções

criminosas, as quadrilhas e a

“extinta” Scuderie Detetive Le Cocq.

julho 2019

41


nados por gangues e traficantes no

Espírito Santo. E mesmo talvez nem

estando listado entre os 130 mencionados

pelo jornal A Tribuna, são

esses pequenos grupos que fazem

milhares de pessoas carentes considerarem

a guerra parte da rotina. “O

pequeno grupo que ‘sabe de tudo’.

Contam, sabem o que sai e o que

entra, e vivem brigando entre eles”,

revela.

“Se você escutar fogo de artifício

no morro, pode ter certeza que

é para esconder som de bala”, avisa

Pocahontas (nome fictício), moradora

de Itararé, um dos bairros

que integram o Complexo da Penha

(composto pelos bairros do Bonfim,

Consolação, Gurigica, Bairro da

Penha, São Benedito e Itararé). Ela

mora há 45 anos no bairro, é apaixonada

por ele e está decidida a nunca

se mudar de lá.

Olhando para os lados e desconfiada

das pessoas em volta, Pocahontas

sussurra que os grupos de

traficantes de Itararé são muito bem

equipados com drones a fuzis. “Tem

guerra porque eles protegem seus

territórios. É igual uma empresa. Os

líderes são os gerentes. Se fizer algo

errado, eles mandam para casa sem

pagamento”, conta.

Ela acredita que a falta de trabalho

e lazer é uma das principais razões

para que os grupos surjam. Por

isso, culpa o governo que não fornece

oportunidades o suficiente. “São jovens

que estão começando agora. Esses

jovens não têm trabalho, não têm

emprego. O que eles vão fazer da vida

deles? Uns vão para usar (drogas), mas

a maioria vai para trabalhar. E eles

acham que é um trabalho como outro

qualquer. Olha a crise que o país está

passando, o número de desempregados.

Esses jovens precisam de trabalhar

o social e eu nunca vi o poder público

realizar ações aqui”.

O maior problema não é o tráfico,

avalia Pocahontas, mas sim o preconceito

que a sociedade tem com as

pessoas que vivem nos morros. Cita,

por exemplo, o programa de Amaro

Neto, no qual Itararé só aparece se

a notícia for ruim ou situações com

o Uber, que ao ver o nome do bairro

quase sempre cancela a viagem.

Pocahontas comenta que além

do medo, uma das razões para os

moradores não denunciarem são as

ações assistenciais que os grupos realizam

nas comunidades. “Eles ajudam,

dão cesta básica. No natal dão

presentes. Na páscoa, chovem ovos.

É por esses motivos que ninguém

chama a polícia”, afirma.

Os grupos responsáveis pelo

tráfico aqui no Estado ainda estão

no seu início, comenta Humberto

Júnior, não sendo tão organizados

quanto os do Rio de Janeiro. “São

pessoas novas, de vinte e poucos

anos, que estão entrando agora. Não

há muitas lideranças antigas”.

Mas as fronteiras já foram cruzadas:

o descaso com a questão

penitenciária – que culminou com

a denúncia da ONU em 2010 do sistema

carcerário sob a alegação de

esquartejamentos e torturas (entre

os internos e/ou dos policiais)

recorrentes – abriu as portas para

organizações nacionais. “Em qualquer

lugar do país se você tem uma

violência muito grande na prisão, os

grupos se organizam. É até uma forma

de autodefesa. Como eu, como

indivíduo, vou me defender em um

lugar em que posso ser esquartejado

a qualquer momento? Eu preciso de

um grupo que me suporte”, afirma

Júnior. “Por muito tempo há uma

gestão carcerária muito violenta que

consegue manter o controle. Mas é

claro que isso gera revolta e um necessidade

de contraposição. E hoje,

em 2019, as pessoas já falam em Primeiro

Comando de Vitória”, complementa.

Nos últimos anos não houve escândalos

nos presídios capixabas.

Mas ainda há casos que demonstram

como a situação está longe do ideal.

Em fevereiro deste ano, ex-presidiários

atacaram uma empresa que fazia

comida para um presídio, deram

tiros no local e atearam fogo, mas

não levaram nada. Apenas deixaram

um bilhete ameaçando os donos de

que se a comida não melhorasse,

eles iam perder a vida.

“Todos os grupos fortes do Brasil

nascem das prisões”, reflete Júnior.

O aumento no número de presos e a

falta de estrutura para o volume de

pessoas colocadas dentro das celas

culminou na criação e no fortalecimento

de facções criminosas no

país. Mas como elas funcionam? De

acordo com a edição 2.498 de outubro

de 2016 da Revista Veja, se o PCC

fosse uma empresa, seria uma das

maiores do país. Isso porque eles

funcionam de forma organizada e seguem

a risca seus direitos e deveres.

“Se fosse uma empresa, o PCC

seria hoje a décima sexta maior do

país, à frente de gigantes como a

montadora Volkswagen. Trata-se de

um império corporativo em que os

produtos são as drogas ilícitas. Os

clientes são dependentes químicos.

Os fornecedores são criminosos paraguaios,

bolivianos e colombianos.

Os métodos são o assassinato, a

extorsão, a propina e a lavagem de

dinheiro. As áreas de diversificação

são os assaltos a bancos, o roubo de

carga e o tráfico de armas. Apenas

com a venda de drogas para o consumo

no território nacional, a organização

alcança um faturamento anual

da ordem de 20,3 bilhões de reais,

sem incluir as receitas com roubo de

cargas e assalto a banco”.

42 julho 2019


AS FACÇÕES CRIMINOSAS

Divisão de tarefa, obediência

ao superior, desenvolvimento de

projetos de longo prazo, busca por

lucro e poder econômico, uso de

tecnologia avançada, filantropia,

poder de intimidação e corrupção

de agentes públicos. A partir

dessa lista parece que estamos

falando da maioria das grande

empresas nacionais e internacionais,

mas não, essas são características

do crime organizado. A lei

12.850/13 define o crime e suas

condutas:

ART.1º (...)

§ 1º Considera-se organização

criminosa a associação de 4 (quatro)

ou mais pessoas estruturalmente

ordenada e caracterizada

pela divisão de tarefas, ainda que

informalmente, com objetivo de

obter, direta ou indiretamente,

vantagem de qualquer natureza,

mediante a prática de infrações

penais cujas penas máximas sejam

superiores a 4 (quatro) anos,

ou que sejam de caráter transnacional.

ART. 2º

Promover, constituir, financiar

ou integrar, pessoalmente ou por

interposta pessoa, organização

criminosa:

Pena – reclusão, de 3 (três) a 8

(oito) anos, e multa, sem prejuízo

das penas correspondentes às demais

infrações penais praticadas.

Mas qual a diferença entre as

organizações criminosas e as associações

criminosas, popularmente

conhecidas como quadrilhas? As

quadrilhas não possuem divisão de

tarefas e qualquer crime cometido

pode ser enquadrado. Elas se enquadram

no artigo 288 do Código Penal:

ser estáveis, permanentes e ter a intenção

de cometer crimes indeterminados,

como roubos, furtos, receptações,

entre outros. A pena é de 1 a

3 anos. Normalmente os traficantes

são acusados por formação de quadrilha

e de organização criminosa ao

mesmo tempo.

PCC

O Primeiro Comando da Capital,

popularmente conhecido como PCC,

é uma facção criminosa paulista que

deu início à sua trajetória na tarde do

dia 31 de agosto de 1993, durante um

jogo de futebol na casa de Custódia

“Pinheirão”. É o que nos conta o livro-reportagem

“O sindicato do crime”,

de Percival de Souza.

“Eram oito presos, transferidos

da capital por problemas disciplinares,

para ficar em Taubaté – até então,

temido pela classe carcerária’.

Os detentos permaneciam 23 horas

ininterruptas dentro da cela. Os oito

estavam sendo punidos pela má conduta

no antigo presídio e pelo fato de

ter vindo de São Paulo o time foi chamado

de Comando da Capital”.

O objetivo principal desde o

momento de sua criação foi evitar

que se repetissem eventos como o

‘massacre do Carandiru’, como ficou

conhecida a rebelião no pavilhão 9

da extinta Casa de Detenção do Carandiru,

no dia 2 de outubro de 1992,

um dos episódios mais sangrentos

da história penitenciária mundial. A

lógica do grupo era de que, criando

uma hierarquia entre os presos, seria

possível evitar conflitos internos,

como o que serviu de estopim para a

rebelião no Carandiru, e ainda combater

os maus tratos e exigir melhores

condições aos presos do Estado.

Com o passar dos anos e com

um número crescente de presos filiados

à facção, pertencer ao PCC

deu um novo ‘patamar’ ao mundo

do crime. Nos primeiros anos, o PCC

contava com oito mil integrantes.

Em 2006, contabilizando apenas nos

presídios, o grupo registrava 120 mil

integrantes. Hoje, comandada por

presos e foragidos, em especial no

estado de São Paulo, estima-se que

a facção conte com mais de 130 mil

membros. A facção é considerada

por muitos como a mais perigosa do

país.

A EXTINTA SCUDERIE

LE COCQ?

“Aqueles que cometeram crimes

eram da Scuderie Detetive Le Cocq e

quem apurava também pertencia a

Le Cocq, sendo fato que em alguns

casos, os autos eram encaminhados

para Promotores e Juízes da própria

organização, acarretando assim, na

completa impunidade dos criminosos”,

contou o delegado Francisco

Badenes, em depoimento realizado

para a CPI do Narcotráfico, em 2000.

Ele era responsável por investigar

a atuação da Scuderie Detetive Le

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Cocq ou Esquadrão Le Cocq, no Espírito

Santo. Treze anos depois que

a Le Cocq foi considerada extinta, o

delegado ainda não coloca os pés no

estado.

“A Le Cocq era quase uma maçonaria

do crime aqui no estado. Era

uma coisa doida. Era uma organização

criminosa que tinha registro.

Tinha CNPJ. E atuava em vários estados.

Acabou em tudo quanto é lugar,

mas não acabou aqui. Uma coisa

que só acontece no ES”, conta uma

fonte que não quis se identificar, assim

como os poucos que se dispõem

a falar sobre a organização. Ainda,

bons samaritanos avisam: “Não se

envolva com isso. É muito arriscado”,

“Sua vida vale mais do que isso”.

Silêncio e chamadas desligadas são

as respostas dos restantes.

A Le Cocq foi uma organização

extra-oficial criada por policiais no

Rio de Janeiro em 1965 e que atuou

principalmente nas décadas de 1960,

1970 e 1980. Surgiu quando um grupo

de policiais decidiu vingar a morte

do detetive Milton Le Cocq, ex-integrante

da guarda pessoal de Getúlio

Vargas. Cara de Cavalo, o bandido

que matou Le Cocq, foi alvejado com

mais de 100 tiros e seu corpo coberto

com o cartaz de uma caveira. A

organização chegou a se expandir e

atrair seguidores em outros estados,

tendo 7 mil afiliados e admiradores.

No Espírito Santo, a organização

criou raízes profundas. Foi oficialmente

fundada em 24 de outubro

de 1984 e sua sede capixaba era em

Vitória. Na época foi registrada como

uma entidade sem fins lucrativos,

pautada para “aperfeiçoar a moral

e servir à coletividade”. Entre a sua

criação e até o início de 2002, a Scuderie

chegou a ser formada por mais

de mil associados, entre jornalistas,

policiais civis, militares, advogados,

delegados de Polícia, magistrados,

coronéis, políticos, médicos, engenheiros,

bicheiros, dentre outros.

“Era status ser da Lecoq. Eles se

chamavam lecoqueanos”, relembra

Humberto Júnior.

A Scuderie teve sua extinção

confirmada pelo Tribunal Regional

Federal da 2ª Região (Rio/ES) no final

de 2005, onde foi considerada

uma entidade paramilitar. Para a

Justiça, abrigou e protegeu, por vários

anos, pessoas acusadas de pistolagem,

tráfico de drogas e roubos

a bancos. A Procuradoria Regional

da República apontou que a entidade

teria sido responsável por pelo

menos 30 assassinatos de políticos

capixabas cometidos em 18 anos e

quase 1.500 homicídios anuais que

transformavam o Espírito Santo no

segundo Estado mais violento do

Brasil entre os anos 1980 e 2000.

Na época foi apontada como o

braço armado do crime organizado

capixaba. Mas o Ministério Público

Federal considerou que grande parte

dos membros não tinha ligações

com o crime, não sendo, portanto,

denunciados. A extinção da Le Cocq

proibiu também a utilização dos

símbolos da entidade em bonés, camisas,

chaveiros, adesivos e outros

objetos.

A Le Cocq já foi considerada um

Esquadrão da Morte. Atualmente

reconfigurada, promove obras-sociais.

Em 2015, matéria de “O Globo”

carioca, registrou a volta à ativa da

Scuderie. Nomeada como “Associação

Filantrópica Scuderie Detetive

Le Cocq”, o grupo foi visto entregando

panfletos incentivando pessoas

a recorrerem ao disque-denúncia

para combater assaltos a ciclistas.

A associação é formada por policiais

aposentados e pessoas de outras

áreas. Além disso, nas redes sociais,

é fácil encontrar grupos que se denominam

parte da nova era da Le cocq

com os mesmos símbolos, onde integrantes

falam com seus “irmãos”

acerca de reintegração, novas sedes

e solicitações de entrada. Também

reforçam que a Scuderie não é o que

foi contado, distanciando-se do estigma

de Esquadrão da Morte.

Os 1º S

Há divergência sobre quais

foram as primeiras organizações

criminosas no Brasil. Alguns juristas

apontam o Cangaço, tendo

como maior representante

Lampião. Dizem que o grupo era

hierarquizado, permanente, praticava

extorsões, ameaças, sequestros

e mantinham relações

com os “coiteiros” - chefes políticos

que concediam proteção e

refúgio. Outros dizem que foi no

século XX, com a criação do jogo

do bicho pelo Barão de Drumond.

A corrente mais aceita é a de que

surgiu entre a década de 70 e 80,

na ditadura militar, fruto da experiência

que os presos comuns adquiriram

com os presos políticos.

É a partir desse contexto e de condições

desumanas dos presídios

que surgem as mais famosas facções

brasileiras: o Comando Vermelho

em 1979 e o PCC em 1993.

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