primeira mao julho 2019

ruth.reis

Revista laboratório do Curso de comunicação da Ufes

EPIDEMIA

SILENCIOSA

Giovanni Werneck e Matheus P. de Souza

Fotografia: Gabriel Fernandes

CRESCIMENTO NO NÚMERO DE CASOS DE ISTS ENTRE

JOVENS É REFLEXO DE PRECONCEITO, DESINFORMAÇÃO,

POLÍTICAS PÚBLICAS FALHAS E DESCUIDO.

Sabe aquelas conversas

de barzinho?

Em que todo

mundo já está

“alto”, e o papo

vai para os cantos

mais inusitados

possíveis? Às vezes,

caminha para

o descontentamento geral com a política,

às vezes a conversa vai para

um lado mais filosófico da vida…

Naquela noite, Pedro Caio, Paula

e Marcos estavam bebendo e conversando

sobre típicas banalidades do

dia a dia. O barzinho estava lotado e a

calçada já não tinha espaço para mais

nem uma mesa. Na tentativa de serem

ouvidos, eles disputavam com o barulho

dos carros, das pessoas nas outras

mesas e com as caixas de som do boteco.

Todos estavam praticamente gritando.

Mas, em determinado ponto da

conversa, as vozes foram ficando mais

18 julho 2019

silenciosas, até virarem sussurros.

Com tom de pesar, Paula contou

que tinha uma novidade nada boa. Ela

descobrira há pouco tempo que havia

contraído HPV. Falava baixo, porque

era algo delicado para ela, na verdade,

para todos naquela mesa. De alguma

forma, todos haviam se infectado com

alguma IST (infecção sexualmente

transmissível) em 2018.

Paula descobriu que estava com

HPV em agosto. No mês seguinte, Pedro

recebeu o diagnóstico de que estava

com gonorreia. Na mesma época,

Caio e Marcos tomaram conhecimento

de que estavam com sífilis. Marcos

chegou a ter de passar por um procedimento

cirúrgico para tratar uma

complicação da mesma doença.

“Eu fui durante a semana ao ginecologista,

as verrugas voltaram a aparecer

“lá”. O ácido havia resolvido o problema

de Paula, uns dois meses atrás, mas já

não fazia mais efeito. A médica recomendou

que cauterizar”, confidenciou.

Paula não está sozinha. Mais da

metade da população brasileira jovem,

entre 16 e 25 anos, está infectada

pelo HPV, diz o Ministério da Saúde,

em pesquisas. Sim, mais da metade.

Talvez todos lá naquela roda de conversa

ainda estivessem infectados

sem saber. Nos homens, o vírus não

traz muitas complicações. Para as mulheres,

contudo, existe uma forte ligação

entre o HPV e o câncer de colo de

útero. O risco afeta cerca de 52% das

brasileiras, porque é essa a porcentagem

de mulheres na faixa de risco que

não se submeteu ao papanicolau (exame

que pode detectar o HPV e com

taxa de sucesso de mais de 80%!). Os

homens, que são os vetores, fazem

menos exames de prevenção a ISTs

ainda.

O medo do julgamento alheio, dos

olhares, do rótulo, da exposição e do

silêncio ensurdecedor que o assunto

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