Revista Dr Plinio 258

revistadp

Setembro de 2019

Contemplando a ordem

hierárquica do universo


O Santo da combatividade

Gabriel K.

e da caridade

São Vicente de Paulo

Basílica de São Pedro, Vaticano

São Vicente de Paulo era, ao mesmo

tempo, o Santo da combatividade

e da caridade.

Da combatividade em dois terrenos: o

doutrinário, no qual ele combateu meticulosamente

os jansenistas, de maneira

política e estratégica, em Roma, na corte

do rei, na nobreza, no clero, no povo,

com sua imensa influência pessoal. Além

dessa forma de combatividade intelectual,

ele também quis armar uma Cruzada

contra Túnis, e com este intuito dirigiu-

-se ao Rei de França.

Ao mesmo tempo, ele era o Santo da

caridade, da compaixão. Encontramos

nesta conjunção uma rara manifestação

de bom espírito. Segundo a opinião corrente,

quem é muito combativo é pouco

compassivo, e quem é muito caridoso não

é pugnaz.

Ora, se a combatividade e a compaixão

são virtudes, não pode haver entre

elas uma incompatibilidade. Pelo contrário,

todas as virtudes são irmãs. Por isso,

quem é santamente compassivo é combativo;

e quem é santamente combativo é

compassivo.

Nessa junção entendemos o que é o

bom espírito envolvendo virtudes aparentemente

antitéticas. Isso nos explica a

alma do grande São Vicente de Paulo, ao

mesmo tempo tão combativa e compassiva,

bem como a de todos os outros Bem-

-aventurados, inclusive dos Santos cruzados,

inquisidores e os que fundaram ou

se santificaram em Ordens de Cavalaria.

(Extraído de conferência de 20/7/1965)


Sumário

Vol. XXII - Nº 258 Setembro de 2019

Contemplando a ordem

hierárquica do universo

Na capa, Dr. Plinio

no ano de 1983.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423

02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Editorial

4 Contemplação amorosa das

hierarquias do universo

Piedade pliniana

5 Pedindo a união com Nossa Senhora e

seus Anjos durante a luta

Dona Lucilia

6 Transições temperamentais de Dona Lucilia

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

8 Instintos, Revolução e Contra-Revolução

Reflexões teológicas

16 Para cada pessoa Deus envia o

sofrimento adequado

A sociedade analisada por Dr. Plinio

21 A Revolução e a degradação do homem

Calendário dos Santos

24 Santos de Setembro

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 200,00

Colaborador........... R$ 300,00

Propulsor.............. R$ 500,00

Grande Propulsor....... R$ 700,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Hagiografia

26 As realidades terrenas devem

ser parecidas com o Céu

Apóstolo do pulchrum

30 Perfeição do universo: unidade e variedade

Última página

36 Misericórdia que chega aos extremos de nossa fraqueza

3


Editorial

Contemplação amorosa das

hierarquias do universo

Segundo São Tomás de Aquino 1 , é desígnio da Providência que os seres estejam distribuídos

hierarquicamente, numa hierarquia dinâmica segundo a qual, habitualmente, os dons divinos

vêm do Céu para os seres superiores e destes vão sendo distribuídos sucessivamente até atingir

os mais baixos. É, portanto, o contrário da visão revolucionária de luta de classes que apresenta a

hierarquia como coisa odiosa em que cada grau superior é uma espécie de sanguessuga do inferior.

Vemos, assim, como a concepção verdadeiramente católica da desigualdade diverge profundamente

da concepção revolucionária, pois o primeiro movimento de nossas almas em relação aos nossos superiores

deve ser de confiança e gratidão, não de hostilidade, como de quem se sente objeto de uma rapina.

Uma das excelências da hierarquia está em que as várias escalas intermediárias se façam o mais possível

com continuidade, de maneira a cada grau ter uma semelhança pronunciada com o superior e com o

inferior, havendo uma quantidade considerável de matizes que conduzam do menor ao maior.

Assim, uma ordem hierárquica perfeita seria constituída à maneira de uma escada com muitos degraus,

cada um dos quais, por sua vez, construído de modo a representar uma escadinha dentro da escada

maior, multiplicando-se por essa forma os matizes. Quanto mais uma parte se junta à outra sem explosão,

ruptura ou solução de continuidade, tanto mais a hierarquia é perfeita.

Nesta perspectiva, a hierarquia nos aparece como um ponto especialmente luminoso da ordem do universo.

Sempre que meditamos a respeito de qualquer realidade terrena embevecidos na ordem hierárquica

por ela apresentada, gostando de ver como seus diversos graus participam uns dos outros, e nos deleitando

com a vinculação existente entre o maior e o menor através desses vários níveis, recebemos uma impressão

da ordenação posta por Deus e da presença d’Ele no universo, particularmente rica e capaz de

modelar nossas almas.

Se quisermos ter uma vida espiritual que conduza nossas almas a Deus, além de outros exercícios, meditações,

reflexões já consagrados pela piedade católica – tesouros preciosíssimos dos quais não podemos

abrir mão em nenhum sentido e por nenhum preço –, devemos contemplar amorosamente todas as hierarquias

que se põem diante de nós na observação do universo ordenado por Deus, considerando que

quando fizermos esse exercício da escala inteira, algo em nossas almas estará preparado para conceber o

absoluto e nos extasiarmos diante dele. É uma verdadeira preparação moral para estarmos inteiramente

abertos para a consideração de Deus no Céu, e de tudo o que mais excelentemente O representa e nos dá

a impressão do absoluto, eterno e imutável na Terra.

Devemos sentir o bem-estar e a alegria de sermos intermediários, sem termos inveja de quem é mais

do que nós. Pelo contrário, dizendo a Deus, por meio de Maria Santíssima:

“Meu Pai e meu Senhor, dou-Vos graças por aqueles que são mais do que eu, pois me aproximam de

Vós, e pelos que são menos, porque para esses sou um conduto vosso, pois Vos dignais chegar até eles por

meu intermédio. Eu amo essa hierarquia e o lugar onde me pusestes, no qual sirvo de elo que une dois extremos

para assegurar a perfeição de vossa própria imagem. É com essa coesão entre o muito pequeno e

o muito grande que especialmente brilha a vossa glória. Aqui estou para Vos prestar esse serviço. Louvado

sejais!” 2

1) Cf. Aula inaugural na Universidade de Paris em 1256.

2) Cf. Conferência de 3/10/1975.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Arquivo Revista

Augusto P.

Assunção de Nossa

Senhora - Catedral

de Milão, Itália

Pedindo a união com

Nossa Senhora e seus Anjos

durante a luta

ÓMãe Santíssima, são tão poucos os que perseveram na luta por Vós, pela Santa Igreja,

pela Cristandade! Bem compreendemos que, sem o especialíssimo auxílio vosso,

seria impossível alcançarmos qualquer vitória para vossa Causa.

Mandai vossos Santos Anjos para que lutem contra os vossos inimigos. Que cada um de nós

seja tão receptivo à ação dos Anjos e à vossa, gloriosíssima Rainha, que nossos golpes contra

vossos adversários tenham a força que teriam se fossem de vossos Anjos, ou até mesmo vossos.

Assim, vendo-nos humildes, desapegados, infatigáveis, intrépidos, arrojados na luta, os

vossos inimigos humanos e infernais compreendam que pertencemos à raça da Virgem, à

grei santa que sob vossas ordens exterminará a Revolução, levará à vitória a Contra-Revolução

e implantará o vosso Reino. Não por força nossa, mas porque tudo podem aqueles a

quem dais intrépido vigor.

(Composta em 1977)

5


Dona Lucilia

Transições

temperamentais de

Dona Lucilia

Nas harmoniosas transições temperamentais de Dona Lucilia

era visível um fundo de sacralidade, de Fé, de desapego

inteiro de si, que convidava os outros a entrarem no estado

de alma em que ela se encontrava para serem um com ela.

Havia qualquer coisa da relação

de alma entre mamãe e

mim, que só percebi com inteira

clareza quando comecei a ver

as pessoas voltarem os olhos para ela

no final de sua vida.

Na devoção a Nossa

Senhora, proximidade com

o Sagrado Coração de Jesus

Eu quase não fazia comparação

entre ela e as outras mães, e por

Arquivo Revista

Arquivo Revista

Dr. Plinio em sua residência, em 8/2/1993

causa disso tinha uma noção implícita

e confusa de que as outras mães

não eram como ela. Porém, analisando

a atitude de alma de certas

pessoas com suas respectivas

mães, não podia deixar de perceber

o quanto era diferente. Estando

com um homem muito alto ou muito

mais baixo diante de mim, não

posso deixar de notar a diferença de

6


altura, ainda que eu não faça comparação.

Assim também comecei a

perceber que as relações entre nós

continham algo de outro elemento

que não era, de nenhum modo, um

elemento comum, corrente, e que

eu noto ter certa relação com Nossa

Senhora.

Dona Lucilia possuía um grau de

equilíbrio mental e temperamental

que, tanto quanto eu possa ver, não

era passível de ser aumentado. Nele

se conjugavam sem nenhum choque

os estados de alma mais diversos,

sucedendo-se com muita harmonia,

coerência, dignidade, lógica,

com uma espécie de lentidão, ao

mesmo tempo natural e solene, como

que em torno de um “flash” secretíssimo

a respeito da Igreja Católica

e, sobretudo, da grande devoção

dela, que era o Sagrado Coração de

Jesus.

Mamãe foi sempre muito devota

de Nossa Senhora, mas com o correr

do tempo essa devoção foi aumentando

pelo que eu explicava a ela. Eu

via que tudo quanto lhe dizia a esse

respeito penetrava profundamente

nela, e ainda a aproximava mais do

Sagrado Coração de Jesus.

Helio G.K.

Nosso Senhor era o modelo

divino daquilo que havia

nela de maneira criada

No centro de tudo isso, eu tinha

a impressão de que o próprio Cristo

Nosso Senhor era o modelo divino

daquilo que havia nela de maneira

criada. De tal modo que, lendo

no Evangelho a sucessão dos estados

temperamentais d’Ele – ora

grandioso, ora increpante, ora plácido,

sereno, ora curvando-Se para

tratar de uma criança, participando

de uma festa, embrenhando-Se sozinho

no deserto para ter a batalha

trágica com satanás –, em tudo isso,

o que mais me impressionava sempre

não era apenas a santidade perfeita

de cada um desses estados de

Jesus tentado pelo demônio - Antiga Catedral de Salamanca, Espanha

alma, mas também a harmonia com

que Ele passava de um estado para

outro, sem ranger, sem estranheza,

nem nada. Era uma harmonia, uma

transição perfeita que só tem comparação

com a harmonia com a qual,

em um dia muito bonito, passa-se da

aurora ao meio-dia, depois para o

crepúsculo e deste para a noite. São

transições perfeitíssimas em que não

há um hiato.

Assim também eram as transições

temperamentais dela. Com um fundo

nunca dito, mas sempre visível e

transparente de sacralidade, de Fé,

de desapego inteiro de si, que convidava

os outros a entrarem nesse

estado de alma para serem um com

ela. Isso mamãe semeava em torno

de si de tal maneira que até hoje essa

atmosfera impregna o apartamento

dela; quem entra lá encontra isso.

Algo disso suspeito que há também

junto à sepultura dela, no Cemitério

da Consolação.

v

(Extraído de conferência de

15/2/1979)

7


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Pedro K.

Instintos, Revolução

e Contra-Revolução

Só se tem a perfeição do equilíbrio mental quando os instintos são

regidos pela Moral Católica e a inteligência recebe como norma

a Doutrina da Igreja. Faz-se, então, o amplexo ordenado entre

o instinto e a inteligência. A Revolução vai fazendo com que os

homens se tornem cada vez mais joguetes dos instintos, levandoos

até o delírio e depois insuflando neles a acomodação.

Arquivo Revista

Dr. Plinio em 1983

Ameu ver, o processo intelectual

mais fecundo de

elaborar um tema não é ir

ao livro diretamente, mas tentar explicitar

e colocar por escrito tudo o

que se tem na cabeça a respeito do

assunto. Depois disso é que se está

com critérios seletivos adequados

para ler analiticamente sem se

deixar devorar pelo livro. Qualquer

leitura que não seja feita assim é a

deglutição do leitor. Não que ele vá

se convencer das opiniões do autor,

mas acabará por engolir os pressupostos

da obra. Começar analiticamente

a leitura de um livro é o jeito

de barrá-lo inteiro na alfândega;

não fazer assim me parece que

é capitular diante do livro, de algum

modo.

8


Na leitura de

São Tomás, uma

complementação

necessária

Eu só não sigo essa regra

com relação à Igreja. Tudo

aquilo que vejo proveniente

de fonte séria, idônea, de

pensamento católico não

espero ter pensado antes

para depois ler. Porque há

em mim, que sou batizado,

por efeito da graça – e creio

que em todo católico quando

cogita com senso católico

a respeito das coisas

–, algo por onde minha alma

já propende para o fundo

da Doutrina Católica

em determinada matéria.

A Doutrina Católica, portanto,

ensina em parte explicitando

o que, pela própria

graça, a pessoa já possuía

pendor de saber.

De maneira que entre o

ensino católico e a alma do

batizado há uma relação

que não é a mesma existente

entre o livro seco e o católico.

Por esta razão, nas coisas

da Igreja, sem sequer eu me

dar conta – por exemplo, na

leitura de encíclicas papais,

etc. – fui embarcando assim:

“É verdade, não tem análise

prévia…” Isso me dá um

bem-estar de alma fenomenal!

Porque me sinto encontrado,

realizado ao longo da

leitura daquilo.

Entretanto, no que diz respeito a

São Tomás – que é Doutrina Católica

pura, e todos conhecem a minha devoção

a ele – é preciso levar em consideração

que o modo do Doutor Angélico

apresentar os temas é, não inteiramente,

mas quase, desligado da

realidade concreta. De maneira a termos

muitas vezes dificuldades em nos

Glorificação de São Tomás de Aquino

Museu do Louvre, Paris, França

dar conta de qual é a realidade concreta

à qual ele está se reportando.

Então, debaixo deste ponto de

vista, estudar São Tomás é de grande

ajuda na medida em que se faça um

trabalho de conversio ad phantasmata,

de voltar à situação concreta depois

ou antes de o ter lido, e entender

bem de que coisas concretas ele

está tratando.

Assim, na leitura de São

Tomás não é necessário um

cuidado prévio, mas uma

complementação que, conforme

o feitio de espírito,

será anterior, ou mais ou

menos concomitante, ou

posterior, mas parece-me

necessária sob pena de darem

muitos tomistas subindo

no ar eternamente, que

não se entusiasmam nem

entusiasmam ninguém.

Como construir o sistema

dentro do qual se deseja

expor um tema? Em geral,

pelo senso católico se dá

o seguinte: quando um tema

passa diante de nós, ele causa

em nosso espírito a sensação

que a caça produz em

um bom caçador. Ele pensa:

“Ah, é uma perdiz!” Lá vai

o tiro! Mas se passar diante

dele outra ave que ele não

costuma caçar, o caçador se

mantém inerte.

Assim também conosco,

habitualmente, passa determinada

coisa que, ou é uma

verdade que desejamos

muito demonstrar, ou um

erro que queremos muito

refutar. Mas este “queremos

muito”, em geral, é em

função da elaboração genérica

dos nossos espíritos em

face da Revolução, ou por

uma necessidade de alma,

ou ainda por exigência da

Causa Católica. Nasce então

em nós a ideia: “Isto é

preciso pegar!” Daí surge naturalmente

o método, em função da meta

e da natureza da “flecha” que tenho

a jogar. O que é a “flecha”? São

os recursos de produção intelectual

que eu possua, ou seja, o que está na

minha cabeça, a minha aptidão para

aquilo, os meios de informação e a

leitura que tenha para completar os

dados sobre aquele tema.

Flavio Lourenço

9


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

Flávio Lourenço

Apresentados estes pressupostos,

passo a tratar da temática sobre os

instintos no ser humano.

Perfeição do equilíbrio

mental do homem

Baile em uma “caseta de la feria” - Museu de Belas Artes, Sevilha, Espanha

Não afirmo que os instintos mandam

de tal maneira que a razão não

tem influência e o homem não é senão

um joguete dos seus instintos. Penso

o contrário. Infelizmente, a Revolução

vai tornando o ser humano cada

vez mais um joguete dos instintos;

porém, na realidade, ele não é um mero

joguete deles. O equilíbrio mental

do homem provém de um feliz consórcio

entre os instintos, no seu estado de

equilíbrio, e a inteligência. Portanto,

do racional com o razoável. Aí entra a

perfeição do equilíbrio mental.

A pessoa só tem essa perfeição

quando os instintos são regidos pela

Moral Católica e quando a inteligência

recebe como norma a Doutrina

Católica. Porque então se faz esse

amplexo ordenado entre o instinto e a

inteligência, e o homem chega, enfim,

à perfeição, ao equilíbrio de si mesmo.

Embora a prevalência deva ser

da Fé sobre a razão – uma prevalência

normativa, amiga, não despótica

e persecutória, com uma submissão

enlevada da razão em relação à

Fé –, não obstante, continua verdade

que mesmo os movimentos realizados

pela inteligência e pela vontade

para conhecer a verdade e querer

o bem não são feitos sem os instintos,

mas sim com o auxílio, a colaboração

deles para captar a realidade, dentro

de um alegre convívio, uma coexistência

mais do que pacífica, colaboradora

dos instintos com a inteligência.

Por exemplo, quando leio São Tomás

e tenho noção da lucidez do pensamento

dele, isto produz na minha

inteligência o efeito de se sujeitar:

São Tomás tem razão. Mas produz

também outro resultado: eu me

encanto com essa diáfana transparência

do pensamento e da demonstração

dele. E nisto encontro uma alegria

do meu instinto que me leva a

querer a verdade. Esse deleite, essa

degustação da verdade enquanto tal

tem qualquer coisa de instintivo. De

maneira que o instinto é, no sentido

bom da expressão, companheiro de

viagem da razão. Não há um determinado

momento do processo mental

em que a razão diz ao instinto: “Cala-te,

escravo miserável! Agora vou te

matar e andar sem ti.”

Flávio Lourenço

Caçadores - Museu de Belas Artes, Badajoz, Espanha

Uma maravilhosa harmonia

das inteligências, das

vontades e dos instintos

Ontem, ao ouvir o órgão tocar,

pouco antes da Missa, e vendo o teclado

dedilhado pelo organista, veio-

-me ao espírito a seguinte reflexão a

respeito dos instintos.

A instintividade humana é tal que

ela possui uma multidão de movi-

10


mentos. E assim como a conservação

do órgão supõe que, de vez em quando,

cada tecla seja tocada – imagino

que se algumas teclas não fossem tocadas

nunca e outras o fossem muito,

esse órgão ficaria meio cambaio

–, assim também todos os instintos

têm, ora com mais frequência, ora

com menos, necessidade de serem

satisfeitos, ou seja, de serem postos

em movimento para aceitarem ou

rejeitarem algo. Por causa disso, a vida

é um contínuo tocar de teclado da

Providencia através dos Anjos e dos

acontecimentos. Mais ainda: através

dos demônios, que Deus também

permite que toquem o teclado

de modo errado, de maneira a, de

vez em quando, vibrarem em nossas

almas teclas que, conforme o gênero

de tentação, emitem notas aloucadas

no meio da mais delicada harmonia,

ou um ruído que falseia todo o som.

Mas tudo em nós tem que tocar.

Cada um de nós é um “órgão”, quer

dizer, um jogo de instintos que de

modo irrepetível, isto é, nunca houve

nem haverá em ninguém daquele jeito,

tem uma espécie de equilíbrio, de

harmonia que o indivíduo precisa realizar

durante a vida, e que ele efetuará

por meio da sua santificação, dando-lhe

um certo tipo de perfeição como

nunca ninguém teve ou terá.

Então, não se trata só de elaborar,

in genere, o conceito teórico de equilíbrio

– o que é muito válido e bom

–, mas em concreto o equilíbrio que

cada homem individualmente considerado

realiza, o qual é uma obra-

-prima de Deus dentro da grande

harmonia dos incontáveis teclados

que são os homens criados ao longo

da História. De maneira que, no

fim do mundo, quando todos os justos

estiverem salvos, se tocará uma

harmonia não só das inteligências e

das vontades, vendo e querendo de

modo complementar e maravilhoso,

mas também dos instintos, fazendo

uma harmonia de cuja beleza nós

nem sequer temos uma ideia.

Por outro lado, do fato de o homem

ser sociável, os seus instintos

não são isolados – há uma interação

de uns sobre os outros que, quando

todos os indivíduos são virtuosos, ou

os virtuosos sabem recusar as instintividades

más que outros lhes sopram

– provém uma harmonia de instintos

que forma propriamente o deleite

da sociabilidade e constitui um outro

modo de interferir no jogo dos instintos,

dentro do plano da Providência;

de tal maneira que os instintos

das outras pessoas com quem estou

em contato, os quais percebo mais

ou menos confusamente, repercutem

em mim. E se eu reagir adequadamente

diante deles, como o órgão,

estarei executando aos “ouvidos” de

Deus a sinfonia que Ele quer ouvir, o

canticum novum 1 que devo cantar para

Ele, e que ninguém entoou em nenhum

século, pois é o meu canto, o

Tales T.

11


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

qual estarei cantando até mesmo sem

perceber.

Instinto genérico do

brasileiro: afeto e bondade

Aqui caberia uma consideração a

respeito dos povos e nações.

Os homens individualmente têm

instintos, mas não se pode dizer que

um povo possua instintos, nem que

ele forme uma família de instintos ou

que há famílias de instintos dentro

dos povos, com uma interação parecida

com a dos indivíduos de uma família.

Entretanto, dentro do Brasil, por

exemplo, o modo de fazer política de

um gaúcho, um paulista, um mineiro,

um carioca ou de um baiano são, no

fundo, meio complementares.

É curioso que todos esses instintos

dão origem, em cada nação, província,

Estado, município, como em

cada família, a uma espécie de axiologia

própria dependente do instinto.

O brasileiro tem o instinto genérico

de que, por fim, o afeto e a bondade

acabam tendo a melhor palavra,

com vantagem para todo mundo. De

maneira que se houve uma briga ou

guerra entre duas nações ou indivíduos,

foi um desastre ou uma inabilidade.

Mas o verdadeiro equilíbrio se

encontrará num jeito pelo qual aquilo

se recompõe. E, portanto, não vale

a pena estar gastando demais a atenção

em tratados. Caso não se chegue

a uma composição afetiva, nada é nada

na terra de ninguém. Embora esse

afeto recíproco possa ser muito decepcionado,

de qualquer forma é preciso

apelar para ele como a carta suprema,

fora da qual a vida não vale a

pena ser vivida.

Esta seria a ideia primeira a respeito

dos instintos. Só depois de estar

ela bem posta se pode, então, tratar

a respeito dos instintos em relação à

Revolução e à Contra-Revolução.

Equilíbrio sacral existente

na Idade Média

Consideremos a Idade Média. A

atmosfera das catedrais, dos castelos,

das aldeias medievais criava uma

espécie de equilíbrio instintivo ocasionado,

em larga medida, pelo sacral.

Porque fora de uma perspectiva

sacral não pensem em equilíbrio dos

instintos, porque seria como cogitar

em voar sem asas, andar sem pernas,

ver sem olhos; não se consegue, simplesmente.

Na Idade Média esse equilíbrio

sacral tinha chegado a modelar a sociedade

temporal do modo mais alto

possível, depois de ter exercido na

própria Igreja o influxo mais salutar,

pois, nascido da própria sociedade

espiritual, lhe faz bem como uma

fonte que surge do chão e começa

por regar o solo de onde nasceu.

Há uma espécie de equilíbrio medieval,

um ponto de repouso dos instintos

na presença do sacral por onde

eles perdem sua condição de impulsos

perpetuamente famintos ou

sedentos, que marca todas as outras

situações de instintos fora dessa alta

cúpula medieval. Ninguém conhece

um conjunto de povos tão altamente

equilibrado nos seus instintos como a

Europa daquele tempo. Não porque

não houvesse também desequilíbrios,

mas o ponto-chave era equilibrado.

Explosão dos instintos

e acomodação

Insisto então nesta ideia: os instintos

se movimentam em nós, mas

geralmente prestamos atenção ne-

Flávio Lourenço

Castelo de Coca, Espanha

12


les quando estão uivando

de sede ou de fome.

Mas fora disso não os

percebemos. Habitualmente

todos os nossos

instintos são assim: alguns

estão inertes e outros

querendo criar caso.

E toda a capacidade

vital se concentra

desordenadamente sobre

alguns instintos que,

uma vez ausente o sacral,

tornam-se insaciáveis.

A partir disso, se

colocamos numa alma o

tonel das Danaides 2 , onde

quanto mais se põe

água mais o tonel se esvazia,

então não há solução

para nada.

Para jogar o povo no

mare magnum de uma revolução

é preciso, antes,

fazê-lo rejeitar o equilíbrio

instintivo do sagrado para que

se ponha a fazer papel de louco: assobiar,

silvar, uivar... Por onde se

chega à conclusão profunda, mais

ou menos inadvertida, de que não

pode haver ordem. Sucede, então,

um caos das tendências, dos projetos,

das doutrinas, tudo a serviço de

certas metas que o indivíduo reputa

que vão proporcionar para ele uma

determinada felicidade nesta Terra.

Mas todos têm, ao mesmo tempo,

uma certa noção confusa de que essa

situação é insolúvel.

Há muita gente que nunca pensou

nesses assuntos; entretanto, têm

mais ou menos isso no fundo da cabeça

e vivem assim, sempre com a

ideia de que no próximo gole satisfazem

o instinto. E cada vez que bebem

mais um gole ficam com mais

sede. Não podem parar de beber,

porque se não beberem é um tormento;

bebem, o tormento aumenta.

Então, o sujeito compra um automóvel

e pensa: “Afinal tenho um

automóvel…” Logo em seguida ele

Flávio Lourenço

Catedral de Santo Estêvão, Metz, França

precisa de um automóvel melhor e,

pouco depois, se ele não tiver o automóvel-ápice,

aquele que ele possui

não vale nada. Mas quando obtiver o

automóvel-ápice, ele reflete: “O que

é esse automóvel? Imagine viver só

com um automóvel, coisa ridícula!

Eu preciso ter mais tal outro…” E lá

vai! Não tem limites. São os instintos

desatarraxados.

Acontece que, depois da primeira

explosão revolucionária dos instintos,

há uma certa acomodação. Porque

está no jogo dos instintos não

gastar demais a vitalidade. Aquilo

que a pessoa queria demais, quando

ela sente ter sacado demais de si para

obter, ela já não tem vontade de

dar. Então, há períodos de revolução

e períodos de acomodação.

As revoluções na História se fazem,

em geral, de eras nas quais está

sobrando o instinto vital para o combate,

e eras em que aquilo cessa e a

pessoa quer se entregar de qualquer

jeito, ter uma vida sossegada. É um

instinto que dá lugar a outro.

Desprovida do sacral, a

ambição por coisas belas e

nobres transformou-se em

instrumento da Revolução

E como faz a Revolução para desencadear

uma revolução? Na Idade Média

o que ela fez? Começou por tomar

instintos nobres e, por falta de sacralidade,

levou as pessoas a ambicionarem

aquelas coisas nobres e belas desordenadamente,

a quererem umas e rejeitarem

outras; e as desejadas o eram numa

perspectiva forçada, errada.

Dou um exemplo. A coragem é uma

nobre posição da alma que corresponde

à ideia de que o homem se encontra

em estado de prova – já estava antes

mesmo do pecado original –, e que precisa,

portanto, combater. Para isso ele

tem o instinto que o leva à luta. Mais

ainda, a culpa original tornou sua pugna

mais urgente, mais cogente. Mas ele

tem proporção com isso e há uma beleza

que talvez não existisse nem no Paraíso

terrestre, que é a luta do homem sobre

os efeitos do pecado original.

Flávio Lourenço

13


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

GCI (CC3.0)

Batalha de Grunwald - Museu Nacional de Varsóvia, Polônia

Master of the Codex Manesse (CC3.0)

Henrique IV - Biblioteca

da Universidade de

Heidelberg, Alemanha

Então, uma certa ideia da beleza

que há na aventura, no risco, no enfrentar

o incógnito, sem o que a alma

não tem equilíbrio. A isso se alia

a noção de como é razoável e intrinsecamente

belo expor nobremente a

vida por um ideal superior.

Entretanto, como o homem que

pratica esse heroísmo se torna digno

de aplauso, começa então um elogio

debandado do herói e de suas qualidades,

mas abstração feita da perspectiva

sacral. O herói, por ser herói,

é um colosso. E o heroísmo é tão belo

se praticado do lado de Maomé

quanto de Nosso Senhor Jesus Cristo;

ou feito simplesmente para ganhar

glória e brilhar aos olhos dos

homens.

Temos, então, a Cavalaria que

passa de religiosa para puramente

metafísica e natural, e de idealista

para faceira. Ela baixou o teto. Ela

continua a ser heroica, mas um heroísmo

que, por ter perdido o caráter

religioso, se degenera nas mais diversas

formas, inclusive a do duelo.

O respeito do cavaleiro andante

pela viúva, pelo órfão, por todos

aqueles que são presas dos fortes se

faz muito sentir e, enquanto tal, é

uma coisa sublime, não há dúvida nenhuma.

Mas, se formos analisar bem,

isso foi levado ao respeito, ao culto à

dama, porque ela, como mais fraca,

merece reverência. Acabou resultando

daí uma espécie de sublimação da

debilidade feminina e, em função do

que a mulher tem de mais delicado

que o homem, a afirmação da superioridade

dela sobre ele, sendo transformada

num ideal do homem.

Vêm, então, aquelas descrições –

a fisionomia é assim, com olhos de

tal cor, nariz e pele de tal jeito, mãos

e pés pequenos, etc. – que fazem

pensar na dama como uma criatura

ideal, produzindo uma afetividade

por uma pessoa cuja alma se deduz

do rosto e da linha geral do corpo.

Essa afetividade já é meio divinizante,

dessacralizada e pagã, e leva o

indivíduo à adoração de uma determinada

mulher. Mas, depois, à adoração

a várias mulheres de um tipo

feminino ideal que ele não encontra

em nenhuma. Daí surge o romantismo

com todos os seus desvios, sua

sensualidade e tudo o mais. O respeito

religioso à dama séria, à mulher

forte da Escritura desaparece

para dar origem ao culto à mulher-

-bibelot, ao mesmo tempo, à mulher-

-sonho, à mulher pseudomística: a

Isolda do Tristão ou a Julieta do Romeu,

daí para fora... Uma avalanche

de sentimentalismo e de sensualidade

derramou-se sobre o mundo.

A Revolução aciona

os instintos para toda

forma de excesso

Com a tendência para desequilibrar

a afetividade e a coragem, surgiu

também a propensão ao desequi-

14


líbrio de outro instinto legítimo, que

leva ao gosto da prudência. O burguês

que deseja levar uma vida trabalhosa,

mas sossegada e, por causa

disso, quer amealhar dinheiro, ter

uma garantia contra o infortúnio,

contra o ladrão, pondo cinco trancas

na porta de sua casa e grades em

todas as janelas. Tem ele um instinto

razoável que se compraz na segurança.

Mas, destemperado, esse instinto

delira: o homem quer ficar riquíssimo;

começam a aparecer em

todas as nações os “Cresos” 3 desarrazoadamente

ricos que acionam as

alavancas monetárias dos acontecimentos.

Assim, tudo tende a extremos

desordenados.

A Revolução vê que todos os instintos

são manuseáveis para tudo,

exceto o equilíbrio, e que ela pode

facilmente acioná-los para qualquer

forma de excesso. Então, ela estuda

um pouco e percebe quais instintos

prevalecem livremente no momento

e quais passaram para o segundo

plano. Com base nisso, ela apresenta

uma meta cultural, ideológica, afetiva,

consuetudinária que encaminha

para levar até o delírio aquilo para o

que há uma tendência. Trata-se, então,

de conduzir os indivíduos fazendo-os

galopar com ênfases e na euforia

de uma suposta juventude – pois

todos os desregrados se pretendem

eternamente jovens – até esse ponto

do exagero e do delírio.

Quando o instinto delirou, ele

passa por uma “quarta-feira de cinzas”;

é o palhaço que durante os três

dias de Carnaval bebeu e comeu demais,

se “empalhaçou” demais, e

deita jururu no chão do seu quarto,

ainda fantasiado, e cozinha sua bebedeira,

farto de tudo. Depois, quando

acorda, lava-se mais ou menos e

vai para a repartição onde ele é datilógrafo.

Sonhou exageros, delírios

de fantasia durante três dias; quando

chegou à saturação e à explosão do

instinto, ele tende ao oposto.

A Revolução já sabe e vem com

sua proposta: “Olha, tal coisa assim

é boa...” De fato, ele está precisando

pôr dentro de si algo do que rejeitou,

sob pena de não readquirir o equilíbrio,

e o instinto de conservação não

permite. Então ele vai voltando atrás

em alguma medida do caminho percorrido.

Em certo momento o pouco

que voltou atrás já o sacia, e ele

dá um pulo bem mais para a frente,

procurando refúgio em outro exagero

ainda maior. Assim, balançando,

a Revolução o vai jogando até delírios

que são uma explosão. Ou, então,

ele apostata daquele caminho e

entra num outro instinto que começa

a tocar nele.

No Ocidente, por razões históricas,

nós ainda estamos no jogo dos

instintos correspondente a um horror

ao sacral, ao equilibrado, ao sensato,

àquilo que se mantém seriamente,

com o desejo de algo que nos

liberte disso, custe o que custar, aceitando

qualquer forma de delírio. Os

vários recuos da Revolução e os posteriores

avanços para excessos maiores

se explicam assim. v

(Extraído de conferência de

9/3/1986)

1) Do latim: cântico novo (Sl 96, 1).

2) Lenda da mitologia grega, segundo

a qual as Danaides tinham sido condenadas

a encher perpetuamente de

água um tonel furado.

3) Creso, último Rei da Lídia, da dinastia

Mermnadas. Famoso por sua riqueza,

reinou de 560 a 546 a. C.

Caroline Martens (CC3.0)

Creso mostrando seus tesouros a Solon - Museu Calvet, Avignon, França

15


Reflexões teológicas

Para cada

pessoa Deus

envia o

Gabriel K.

sofrimento

adequado

O espírito pagão leva as pessoas a considerarem a dor como

um azar. Entretanto, cada sofrimento pelo qual passamos

pode ser comparado a um golpe de cinzel dado por Deus

que, à maneira de um escultor habilíssimo, nos modela

para o nosso bem, segundo sua infinita sabedoria.

Sois membros de Jesus Cristo.

Que honra! Mas quanta necessidade

de sofrer por causa disto!

A cabeça está coroada de espinhos

e os membros estariam coroados de

rosas? A cabeça está escarnecida e coberta

de lama no caminho do Calvário,

e os membros estariam no trono,

cobertos de perfumes? A cabeça não

tem um travesseiro para repousar e os

membros estariam delicadamente deitados

entre plumas e arminho? Seria

monstruosidade inaudita.

O homem que não se mortifica

tem ódio do crucificado

Nós poderíamos aplicar esse trecho

da Carta Circular aos Amigos da

Cruz 1 – escrita por São Luís Maria

Grignion de Montfort – à situação

atual da Igreja, Corpo Místico de

Nosso Senhor Jesus Cristo do qual

somos membros, e que, estando ela

coroada de espinhos, poderíamos estar

coroados de rosas? Em nossos

dias, a Igreja Católica está escarnecida

e coberta de lama, no caminho do

Calvário; podem seus membros ocupar

um trono coberto de perfumes?

16


GO69 (CC3.0)

Não, não vos enganeis; estes cristãos

que vedes de todos os lados, enfeitados

na moda, maravilhosamente

delicados, excessivamente educados

e circunspectos, não são verdadeiros

discípulos nem verdadeiros membros

de Jesus Cristo crucificado; faríamos

injúria a essa cabeça coroada de

espinhos e à verdade do Evangelho se

acreditássemos o contrário.

Ao se referir aos cristãos excessivamente

educados e circunspectos,

São Luís Grignion põe o dedo na

chaga de um dos aspectos do Ancien

Régime. A escola de educação e de

circunspecção daquela época é uma

verdadeira maravilha, mas chegou a

um exagero, evidentemente. Porque

reduzir todo o convívio social a um

perpétuo sorrir e a um mútuo lisonjear

contínuo é uma coisa contrária à

São Luís Maria Grignion

de Montfort - Igreja de São

Pedro, Domagné, França

Comitê revolucionário durante a Revolução Francesa

Biblioteca Nacional da França, Paris

verdade, à seriedade e à compostura

que a vida deve ter, e preparava o rugido

da Revolução Francesa, exatamente

por esse excesso.

Ah, meu Deus, quantos fantasmas

de cristãos se consideram membros do

Salvador e são seus mais traiçoeiros

perseguidores, porque, enquanto fazem

com a mão o sinal da cruz, são,

de coração, seus inimigos!

Como nós poderíamos dizer isso

hoje! Quantos indivíduos são inimigos

da Cruz! Quando alguém está

nessas condições, não é só inimigo

da Cruz porque não se deixa crucificar,

mas há uma coisa sutil: é que

o homem imortificado tem ódio do

crucificado e da mortificação. Vendo

outro que se crucifica, ele se indigna,

e quando lhe falam de cruz fica extremamente

irritado.

Deus faz com as almas como

o pedreiro com suas pedras

Se sois conduzidos pelo mesmo espírito,

se viveis da mesma vida que Jesus

Cristo, vosso Chefe coberto de espinhos,

não espereis senão espinhos,

chicotadas, pregos – numa palavra,

cruz –, porque é necessário que o discípulo

seja tratado como o Mestre e o

membro como a cabeça. E se o Chefe

vos apresentar, como a Santa Catarina

de Sena, uma cora de espinhos e

outra de rosas, escolhei com ela a de

espinhos, sem hesitar, e ponde-a na

cabeça para vos assemelhar a Jesus

Cristo.

Não ignorais que sois os templos vivos

do Espírito Santo e que deveis, como

outras tantas pedras vivas, ser colocados

pelo Deus de Amor no edifício

da Jerusalém celeste.

A Jerusalém celeste tem aqui na

Terra a sua prefiguração na Igreja

Católica que, considerada no seu

conjunto, pode ser vista como um

Templo do qual cada um de nós é

uma pedra viva.

Disponde-vos, pois, a ser trabalhados,

cortados e cinzelados pelo martelo

da Cruz; de outra maneira permaneceríeis

como pedras brutas que em

nada são empregadas, que são desprezadas

e repelidas para longe.

A ideia dele é muito bonita:

Deus faz com as almas como o pedreiro

com suas pedras: as que

deseja aproveitar ele talha, corta,

martela, fere de mil modos para

adequá-las às finalidades que

tem em vista. Enquanto na pedra

que o pedreiro rejeita, ele não me-

Alexandre-Évariste Fragonard / Claude-Nicolas Malapeau (CC3.0)

17


Reflexões teológicas

Divulgação (CC3.0)

xe, não toca. Assim também os homens

que sofrem são os que serão

aproveitados para a Igreja. Portanto,

quando vemos um homem sofrer

muito, devemos dizer: “Este

é uma pedra que o construtor

vai aproveitar.” E o instrumento

para talhar as pedras, o modo

pelo qual se faz o martírio

do homem, é a Cruz. São os sofrimentos

sucessivos que sobre

a pessoa devem cair.

Tende cuidado para não opor

resistência ao martelo que vos bate;

prestai atenção ao cinzel que vos talha

e à mão que vos molda! Talvez o

hábil e amoroso arquiteto queira fazer

de vós uma das primeiras pedras

de seu edifício eterno e um dos mais

belos retratos de seu Reino celeste.

Exatamente as pedras mais lavradas

são as que na arquitetura têm

mais importância. Também as almas

mais sofredoras são as mais aproveitadas

para o edifício de Deus.

Devemos aceitar, com

amor, a dor inexplicável

Emeltet (CC3.0)

Deixai-o fazê-lo, pois. Ele vos ama,

sabe o que faz, tem experiência; todos

os seus golpes são hábeis e amorosos,

nenhum é falso, a menos que o inutilizeis

pela vossa impaciência.

Cadinho na forja

Santa Catarina de Sena

Igreja de São João,

Lamballe, França

Esse é um ponto que muito especialmente

nos deve consolar na hora

do sofrimento. Muitas pessoas com

espírito pagão em face da dor têm

uma mentalidade pela qual consideram

o sofrimento um azar que desabou

em cima delas. Uma coisa que

podia não ter caído, mas caiu, e não

deve fazer para eles bem nenhum. É

um puro horror que aconteceu, está

acabado. Nós, pelo contrário, sabemos

que Deus nos faz sofrer para

o nosso bem. Mas, sobretudo, o que

devemos ter em mente é que cada

sofrimento pelo qual passamos corresponde

a um golpe de cinzel dado

por um escultor, um pedreiro habilíssimo

que nos toca no ponto que

vai nos fazer bem naquela hora. Assim,

o sofrimento mais estúpido,

mais imprevisto é, entretanto, o

melhor para a nossa alma, naquela

hora e daquele jeito. Nesse

sentido, não é nenhuma forma

de azar, mas, pelo contrário,

é por excelência a aplicação daquilo

que Nosso Senhor diz no

Evangelho: a Providência toma

conta de cada homem a ponto de

até os fios de cabelo de nossa cabeça

não caírem sem o seu consentimento

(Lc 21,18).

Às vezes vemos acontecerem coisas

das quais se diria: “Mas, meu

Deus, o menos arquitetônico, o mais

maluco é isso! Tudo podia me acontecer,

mas isso eu não compreendo.”

Ora, na aparência antiarquitetônica

do que aconteceu talvez esteja

o mais arquitetônico. Precisamente

aquilo que Deus nos pede, daquele

jeito que não quereríamos imaginar,

é o que nos deve fazer bem. Neste

sentido, Deus é como um cirurgião

exímio que nunca corta a não

ser onde é preciso. Ademais, ainda

que o cirurgião faça um talho enorme,

sabemos que foi o menor possível.

Conosco também, às vezes, não

entendemos bem tanta coisa. Ainda

aí foi a mão de Deus que abriu o

menos possível, mas nossa alma precisava

daquilo e daquele tamanho.

Entretanto, tudo foi feito com muito

amor, muita consideração e muito

propósito.

Portanto, devemos aceitar, ainda

que não entendamos, porque o

melhor está em não entender a dor

inexplicável, o sofrimento que vem

sem eira nem beira e cai em cima de

nós, mais ou menos como se entrasse

de repente aqui um cachorro bravo

e mordesse alguém. É esse o melhor

sofrimento, com o qual Deus

fere aqueles a quem Ele mais quer

salvar.

18


Gabriel K.

Quem suporta o

sofrimento é um elemento

escolhido da Igreja

O Espírito Santo compara às vezes

a cruz a uma peneira, que purifica

o grão da palha e das escórias: sem

resistir, deixai-vos, pois, sacudir e agitar

como o grão na peneira; estais na

peneira do Pai de família e dentro em

pouco estareis em seu celeiro.

Aqui também, a expressão é muito

bonita. Porque a única seleção verdadeira

é a que se pode fazer na dor.

Aquele que suporta o sofrimento é

o elemento selecionado da Igreja de

Cristo. Aquele que não tem padecimento

nenhum, afinal de contas, o

que vale diante de Deus? Nada, pois

não passou por provação nenhuma.

Outras vezes Ele a compara ao fogo

que tira a ferrugem do ferro pela vivacidade

de suas chamas. Nosso Deus

é um fogo que, pela cruz, permanece

numa alma a fim de purificá-la, sem

a consumir, como outrora na sarça ardente.

Outras vezes a cruz é comparada

ao cadinho de uma forja, onde o

ouro bom se afirma e o falso desaparece

na fumaça: o bom sofrendo pacientemente

a provação do fogo, o falso

erguendo-se como fumaça contra

as chamas. É no cadinho da tribulação

e da tentação que os verdadeiros

amigos da Cruz se purificam pela

paciência, enquanto que seus inimigos

desaparecem na fumaça por cau-

sa de suas impaciências e murmurações.

O papel da tentação aí é muito

grande. Tenho encontrado

muitas dificuldades em fazer

aceitar isso pelas gerações mais

novas, que sempre tomam a tentação

como sinal de decadência

na vida espiritual. É automático:

“Fui tentado; logo, estou apetecendo

coisas ruins. Se estou

apetecendo coisas ruins é porque

piorei.” Não é verdade. A

tentação pode atingir um santo.

Ademais, ela é uma das modalidades

mais duras de sofrimento

e, por isso mesmo, uma forma

de cruz que devemos amar.

Nós devemos pedir para a tentação

passar, mas nos alegrar

por termos sido tentados, e até

mesmo pelo fato de a Providência

não tirar a tentação de nossa

alma, desde que seja desígnio

d’Ela. Até lá precisamos chegar.

Embora esses conceitos sejam

conhecidos, é sempre bom

lembrá-los. Quem de nós não

tem algo que o faça sofrer? Oxalá

seja uma só coisa... Como receberíamos

melhor esse sofrimento

se nos lembrássemos do

que acabo de dizer, da mão de

Deus que deu aquele sofrimento

para ser recebido daquele jeito,

naquela hora. É evidente.

Inclusive no apostolado o sofrimento

é necessário, inteiramente

indispensável. Que o

apostolado nos traga aborrecimentos,

amarguras, é normal.

O apostolado que não acarrete

aborrecimentos e amarguras

não é abençoado por Deus.

Por vezes, as dificuldades no

apostolado são tais que nos

dão a impressão de abandono

de Nossa Senhora.

Se nos dedicamos inteiramente

a uma obra de

apostolado, basta dar início

que começam a se

Flávio Lourenço

Gabriel K.

Gabriel K.

Gabriel K.

Flávio Lourenço

Caim matando Abel - Museu da

Santa Cruz, Toledo, Espanha

Viagem de Abraão com sua família

Museu Palazzo Rosso, Gênova, Itália

Fuga de Sodoma - Museu da

Catedral, Pisa, Itália

Tobias cura a cegueira do pai - Museu

Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA

Sarça ardente - Museu Metropolitano

de Arte, Nova Iorque, EUA

Jó em seu monturo - Museu Frederic 19

Marès, Barcelona, Espanha


Reflexões teológicas

multiplicar em torno de nós as dificuldades,

às vezes completamente inesperadas,

imprevistas.

Pedir o espírito de cruz

Olhai, meus queridos Amigos da

Cruz, olhai diante de vós uma grande

nuvem de testemunhas que provam,

sem nada dizer, o que vos digo. Vede, de

passagem, o justo Abel assassinado por

seu irmão; o justo Abraão estrangeiro

na terra, o justo Ló expulso de seu país;

o justo Tobias atingido pela cegueira; o

justo Jó empobrecido, humilhado e coberto,

dos pés à cabeça, por uma chaga.

Olhai tantos Apóstolos e Mártires

cobertos com a púrpura de seu sangue;

Flávio Lourenço

Flávio Lourenço

Nossa Senhora das Dores - Igreja de

São Nicolau, Múrcia, Espanha

Martírio de Santo Inácio de Antioquia

Catedral de Palência, Espanha

tantas Virgens e Confessores

empobrecidos,

humilhados, expulsos,

desprezados, que com

São Paulo exclamam:

“Olhai nosso bom Jesus,

autor e consumador

da fé que temos

n’Ele e na sua Cruz; foi

preciso que Ele sofresse

a fim de, pela Cruz, entrar

em sua glória.”

Vede ao lado de Jesus

Cristo um agudo

gládio que penetra, até

o fundo, no coração

terno e inocente de Maria,

que nunca tivera

qualquer pecado, original

ou atual. Como me

pesa não poder estender-me

falando sobre a

Paixão de um e de outro,

para mostrar que

o que sofremos nada é

em comparação do que

sofreram!

Depois disto, qual

de vós poderá eximir-

-se de levar sua cruz?

Qual de vós não voará

depressa para os lugares onde sabe

que a cruz o espera? Quem não exclamará,

com Santo Inácio mártir: “Que

o fogo, o patíbulo, as feras e todos

os tormentos do demônio desabem

sobre mim, para que eu possa gozar

de Jesus Cristo!”?

Essas são considerações muito sabidas,

mas que convém sempre relembrar.

O que mais me empolga é

precisamente a ideia de que o sofrimento

foi medido, adequado para

mim, embora eu não perceba e, portanto,

daquilo nada se perderá.

Para cada pessoa haverá outras dificuldades

e soluções a considerar em

face do problema da dor. Mas pelo

menos quando sabemos que aquilo

tem uma utilidade superior, sentimo-nos

bem.

Que Nossa Senhora nos dê esse

espírito de cruz para nos consagrarmos

adequadamente ao Coração

Imaculado d’Ela.

v

(Extraído de conferência de

30/9/1967)

1) Os trechos comentados por Dr. Plinio

nesta conferência correspondem aos

números 27 a 32.

20


A sociedade analisada por Dr. Plinio

A Revolução e

a degradação

Flávio Lourenço

do homem

A Civilização Cristã que é, ao

mesmo tempo, a civilização do

sacrifício e do prazer, formou

no espírito do homem a

consciência de sua dignidade,

mesmo depois do pecado

original. Ora, em nossos dias,

um dos aspectos da Revolução

é degradar o ser humano,

o quanto possível, através

da moda e dos costumes.

A pregação de Jesus - Igreja de

Santa Ségolène, Metz, França

Segundo a boa educação, quando

recebemos uma visita em

nossa casa, tratamo-la com

particular deferência, fazendo todo o

possível para que o visitante se sinta

agradado; por exemplo, destinamos

o lugar melhor, servimos alimentos

e bebidas que presumivelmente lhe

apetecem, discorremos sobre temas

de que ele gosta de falar.

Afabilidade própria à

Civilização Cristã

Todo homem tem a fraqueza de

gostar de falar sobre si mesmo e não

a respeito dos outros. Logo, se quisermos

ser amáveis com alguém, perguntemos

sobre sua vida, suas opiniões,

sua pessoa, enfim. Sem dúvida,

nosso convidado terá uma porção de

coisas para contar. E, por mais banais

e insípidas que sejam suas narrações,

precisamos demonstrar interesse,

fazendo-lhe comentários agradáveis,

sem mentir, pois não se deve

mentir nunca.

Alguém dirá: “Então, é uma caceteação

receber uma visita!”

Eu respondo: Muitas coisas são

uma caceteação; entretanto, elas

21


A sociedade analisada por Dr. Plinio

constituem a civilização.

Quem procura fazer apenas

o que lhe é agradável

é um índio botocudo, não

uma pessoa civilizada.

Não só ao receber uma

visita, mas também quando

estamos na rua, conversamos

com um colega

no colégio, na universidade,

no lugar de trabalho,

sentados ao lado de

uma pessoa no metrô ou

no ônibus, é preciso fazer

o possível para que nossa

presença seja agradável.

Essa preocupação em

ser afável para com os outros

corresponde a um

preceito de Nosso Senhor

Jesus Cristo, que sintetizou

os Dez Mandamentos

em dois: amar a Deus

sobre todas as coisas, e ao

próximo como a si mesmo.

Se amamos o próximo, devemos

querer ser agradáveis a ele. A

civilização que nos leva a ser aprazíveis

aos outros, pensando mais neles

do que em nós mesmos, chama-

-se Civilização Cristã, que é, ao mesmo

tempo, a civilização do sacrifício

e do prazer.

Houve tempo em que o homem

era um ser perfeito, formoso, agradável

de trato e só dava prazer a si

próprio e aos outros, vivendo num

lugar de uma beleza perfeita, onde

toda a natureza lhe obedecia. Esse

lugar de delícias e maravilhas era o

Paraíso terrestre, antes do ser humano

pecar.

Adão e Eva pecaram, incorrendo

no desagrado de Deus e perdendo

todos os dons que Ele lhes havia

concedido, a começar pelo dom em

função do qual eles não morreriam.

O homem passou, assim, a ser condenado

à morte, além de estar sujeito

a doenças, ter o corpo desfigurado,

exalando matérias pútridas e

malcheirosas.

Arquivo Revista

Uma das últimas fotografias de Dr. João Paulo

Dignidade do corpo

humano expressa em seu

membro mais nobre

Se nós analisamos a natureza humana,

constatamos isto: o que o homem

tem de mais digno é a alma.

A alma tem muito mais dignidade

do que o corpo. Mas, por causa disso,

quanto mais um membro ou uma

parte do corpo é capaz de exprimir a

alma, tanto mais é digna.

Por exemplo, a dignidade dos

olhos é grande porque exprimem intensamente

a alma e apresentam o

que o homem tem de melhor: o espírito.

O jogo da inteligência, da vontade

e da sensibilidade se revela por inteiro

nos olhos e, de algum modo, em

todo o rosto. Quanto exprime a boca

do homem! Enquanto ele fala, o movimento

de sua boca manifesta muito

de seu espírito. O próprio nariz tem

uma expressão particular.

Um elemento que constitui uma

moldura normal do rosto humano é

o cabelo. Por isso, deve estar

sempre limpo e bem ordenado.

Quando algum jovem

de minha família aparecia

em casa com o cabelo

desordenado, meu pai, que

era pernambucano, usava

um termo que não sei se

se usa ainda hoje em Pernambuco.

Ele olhava com

desdém para aquele cabelo

e dizia: “Que gaforinha

é essa?” Nunca lhe perguntei

o significado de “gaforinha”.

Mas ficava tão claro

o que há de ridículo no

cabelo desordenado que

a pessoa ia imediatamente

se pentear. Ao ver o jovem

retornar com o cabelo

penteado, ele dizia: “Agora,

rapaz, está direito. Gaforinha,

não! Cabelo limpo

e bem alisado.”

A Providência destinou

que na cabeça ficasse o principal centro

nervoso do homem, a tal ponto que se

tem a ilusão de ali residir a alma. Quando,

ainda menino, eu soube que a alma

não se localiza no crânio, mas encontra-se

difusa no corpo inteiro, fiquei

muito surpreso e desapontado. Não

obstante, tomei conhecimento também

de que é a partir da caixa craniana que

todo o organismo é governado. Isso faz

com que a cabeça seja a parte mais digna

do corpo humano. O tronco e os

membros exprimem muito menos a natureza

espiritual do homem.

Em nossos dias, a moda

procura rebaixar o homem

Tenho a impressão – não é Doutrina

Católica, mas também não a contradiz

– de que uma das razões pelas quais

a pessoa deve ocultar o seu corpo é exatamente

porque, depois do pecado original,

ele se tornou tão inexpressivo e

carnal que fica abaixo da dignidade do

homem. Por isso a pessoa tende a mostrar

o rosto e a esconder o restante do

22


corpo, por exemplo, o abdômen. Qual

é o homem que pode dizer: “Meu abdômen

exprime inteligência”? É ridículo,

causaria gargalhada. Assim, quando

um membro não é susceptível de uma

expressão intelectual, causa vergonha,

porque parece uma parte mais baixa do

homem, mais afetada pelo pecado original.

Então, não é só a tentação da impureza,

mas a expressão da animalidade

que se mostra nisso.

Um dos aspectos da Revolução em

nossos dias é uma tendência, uma moda

que leva a deprimir, a rebaixar o homem

quanto possível, fazendo-o tratar-

-se e se apresentar como não deve. Por

exemplo, com os pés aparentes, por vezes

sujos, suados, maculados, deformados

pelo contato com o chão. Daí a decadência

dos calçados, por onde, do sapato

de couro envernizado passou-se

para o tênis, do qual se passará para a

sandália, com os pés à mostra, e da sandália

para a abolição do calçado, para o

homem ser como um bicho.

Também a tendência ao nudismo.

Antes de tudo tem o inconveniente

gravíssimo de despertar a concupiscência,

constituindo uma imoralida-

de por causa disso. Mas também há

o fato de que, com isso, a parte mais

animal do homem aparece por inteiro,

ferindo sua dignidade. Em consequência,

a moda que conduz ao nudismo

é a moda da degradação.

Eu ainda conheci pessoas de minha

família que usavam camisa de

linho, engomada e dura na frente,

obrigando o homem a estar retesado.

Assim, a dignidade do homem

era favorecida pelo traje.

Maneiras de comer e de se

vestir, no início do século XX

Quando eu era bem pequeno,

portanto dos anos de 1910 a 1918,

mais ou menos, se uma pessoa estava

à mesa comendo tinha uma obrigação

rigorosa de não se encostar no

espaldar da cadeira. O sumo da falta

de educação era colocar o cotovelo

na mesa, porque o homem deveria

esconder a sua preguiça e mostrar o

domínio sobre si.

Outra coisa: nunca se inclinar para

pôr a comida na boca. Manter-se

teso, e o alimento tinha que subir até

os lábios. Também o modo de segurar

os talheres, tudo visava a fazer

resplandecer a dignidade.

A decadência foi tão rápida que,

quando terminei minha infância,

certos costumes já tinham sido abolidos.

Hoje em dia só falta comer diretamente

com as mãos, tal é a vergonha

no modo de se alimentar.

Quanto à vestimenta, nos inícios do

século XX o paletó vinha até o joelho,

e era sempre de uma casimira de cor

séria, porque todo varão deve ser sério.

Nunca um homem saía sem chapéu

à rua. Outro dia vi uma fotografia

antiga de uma assembleia de operários

fazendo greve. Todos estavam de

paletó, de gravata e chapéu. E eram

simples operários. Hoje em dia, um

patrão, dono de dezenas de fábricas,

está vestido como um operário de cinquenta

anos atrás não se vestia. Eram

horizontes completamente diferentes.

Vemos em tudo isso uma amostra

de um dos aspectos da Revolução na

sociedade em nossos dias. v

(Extraído de conferência de

18/1/1986)

Deseronto Archives (CC3.0)

Adományozó/Donor: Schoch Frigyes (CC3.0)

Trajes do início do século XX

23


C

alendário

1. XXII Domingo do Tempo Comum.

2. Santo Antonino, mártir (†s. IV).

Segundo a tradição era talhador de

pedra e foi morto pelos pagãos aos

vinte anos de idade por ter destruído

seus ídolos, em Apameia, Síria.

3. São Gregório Magno, Papa e

Doutor da Igreja (†604).

Santos João Pak Hu-jae e cinco companheiras,

mártires (†1839). Degolados

em Seul, Coreia, após suportarem

cruéis suplícios, por serem cristãos.

4. Beata Catarina Mattei, virgem

(†1547). Terciária das Irmãs da Penitência

de São Domingos, que suportou

com admirável caridade uma longa

enfermidade, calúnias e tentações

em Caramagna, Itália.

dos Santos – ––––––

5. Beato João o Bom de Siponto,

abade (†s. XII). Edificou o mosteiro

de São Miguel no litoral da Dalmácia,

atual Croácia.

6. São Canoaldo, bispo (†c. 632).

Discípulo de São Columbano, falecido

em Laon, França. Foi seu único

auxiliar no Ermo de Bregenz, junto

ao lago Constança.

7. Beato Inácio Klopotowski, presbítero

(†1931). Sacerdote da diocese

de Lublin, Polônia, e fundador

da Congregação das Irmãs da Bem-

-aventurada Virgem Maria de Loreto.

8. XXIII Domingo do Tempo Comum.

Natividade de Nossa Senhora.

São Sérgio I, Papa (†701). De origem

síria, dedicou-se intensamente

à evangelização dos saxões e frísios.

Resolveu sabiamente muitas controvérsias

e conflitos, preferindo morrer

a consentir os erros.

9. São Pedro Claver, presbítero

(†1654).

Beata Maria Eutímia, virgem

(†1955). Religiosa da Congregação

das Irmãs da Misericórdia, serviu a

Deus na pessoa dos enfermos durante

a II Guerra Mundial. Faleceu

em Münster, Alemanha.

10. Santa Pulquéria, imperatriz

(†453).

13. São João Crisóstomo, bispo e

Doutor da Igreja (†407).

São Maurílio, bispo (†453). Nascido

em Milão, foi discípulo de São

Martinho de Tours, por quem foi ordenado

presbítero. Eleito Bispo de

Angers, França, erradicou as superstições

pagãs dos povos rurais.

14. Exaltação da Santa Cruz.

São Materno, bispo (†d. 314). Conduziu

à Fé de Cristo os habitantes de

Tongres, Colônia e Tréveris, Alemanha.

15. XXIV Domingo do Tempo Comum.

Nossa Senhora das Dores.

Flávio Lourenço

Flávio Lourenço

11. São João Gabriel Perboyre,

presbítero e mártir (†1840). Sacerdote

Lazarista sofreu penoso cárcere

e morreu estrangulado, suspenso de

uma cruz, em Wuchang, China.

12. Santíssimo Nome de Maria.

Beata Maria Luísa Prósperi, abadessa

(†1847). Religiosa beneditina

de Trevi, Itália, à qual Nosso Senhor

concedeu dons místicos extraordinários,

mas sem poupar-lhe longas e dolorosas

provações.

São Francisco de Borja

Beato Antônio Maria Schwartz,

presbítero (†1929). Fundou em Viena

a Congregação dos Operários Cristãos

de São José de Calasanz.

16. São Cornélio, Papa (†253), e

São Cipriano, bispo (†258), mártires.

São João Macias, religioso (†1645).

Irmão leigo dominicano, que duran-

24

São João Gabriel

Perboyre


––––––––––––––– * Setembro * ––––

Flávio Lourenço

te muito tempo exerceu ofícios humildes

no convento de Lima, dedicando-

-se aos pobres e enfermos.

17. São Roberto Belarmino, bispo e

Doutor da Igreja (†1621).

São Pedro de Arbués, presbítero

e mártir (†1485). Cônego regular

da Congregação das Irmãs da Sagrada

Família em Villefranche, França.

20. Santos André Kim Taegon, presbítero,

Paulo Chong Hasang e companheiros,

mártires (†1839-1867).

Beata Maria Teresa de São José,

virgem (†1938). Fundadora da Congregação

das Irmãs Carmelitas do Divino

Coração de Jesus. Faleceu em

Sittard, Holanda.

21. São Mateus, Apóstolo e Evangelista.

Flávio Lourenço

Beato Carlos de Blois

da Ordem de Santo Agostinho que,

combateu as superstições e heresias

no reino de Aragão e foi morto por sicários,

aos pés do altar da catedral de

Zaragoza, Espanha.

18. São Domingos Trach, presbítero

e mártir (†1840). Sacerdote dominicano

que, no tempo do imperador

Minh Mang, preferiu morrer a ter que

pisar a cruz. Foi degolado em Nam

Dinh, Vietnã.

19. São Januário, bispo e mártir

(†s. IV).

Santa Maria Guilhermina Emília

de Rodat, virgem (†1852). Fundadora

22. XXV Domingo do Tempo Comum.

Santo Emeramo, bispo e mártir

(†c. 690). Pregou o Evangelho nos arredores

de Poitiers, França, e depois

na Baviera, Alemanha. Morto por sua

Fé em Ratisbona, Alemanha.

23. São Pio de Pietrelcina, presbítero

(†1968).

Beata Bernardina Jablonska, virgem

(†1940). Fundadora da Congregação

das Irmãs Servas dos Pobres em

Cracóvia, Polônia. Foi filha espiritual

de Santo Alberto Chmielowski.

24. Nossa Senhora das Mercês. Em

1218, São Pedro Nolasco tem uma visão

da Virgem Maria, pedindo-lhe para

fundar a ordem que leva seu nome.

25. São Sérgio de Radonez, abade

(†1392). Após levar uma vida eremítica,

fundou nas proximidades de Moscou

o Mosteiro da Santíssima Trindade

e propagou a vida cenobítica na

Rússia Setentrional.

26. Santos Cosme e Damião, mártires

(†c. séc. III).

Beata Lúcia de Caltagirone, virgem

(†1400). Terciária franciscana falecida

em Salerno, Itália. Destacou-se

por sua fidelidade à Regra e sua devoção

às Cinco Chagas de Cristo.

27. São Vicente de Paulo, presbítero

(†1660). Ver página 2.

São Materno

Beato João Batista Laborier du Vivier,

diácono e mártir (†1794). Durante

a Revolução Francesa foi condenado

a cruel cativeiro, em Rochefort, onde

morreu de grave enfermidade.

28. São Venceslau, mártir (†929-935).

São Lourenço Ruiz e companheiros,

mártires (†1633-1637).

29. XXVI Domingo do Tempo Comum.

São Miguel, São Gabriel e São Rafael

Arcanjos. Ver página 26.

Beato Carlos de Blois, leigo (†1364).

Sendo Duque da Bretanha, desejou entrar

na Ordem Franciscana, mas constrangido

a reivindicar o principado, suportou

com firmeza de ânimo as tribulações

da prisão e foi morto em combate

junto de Auray, França.

30. São Jerônimo, presbítero e

Doutor da Igreja (†420).

São Francisco de Borja, presbítero

(†1572). Após a morte da esposa, ingressou

na Companhia de Jesus, abdicando

as honras do mundo. Foi eleito

o terceiro Superior Geral da Ordem,

em Roma.

25


Hagiografia

As realidades terrenas

devem ser parecidas

com o Céu

Na consideração da festa de

São Rafael Arcanjo devemos

impetrar-lhe a graça de ver em

todas as realidades terrestres

a semelhança com as celestes.

Somente na medida em

que amarmos as realidades

terrenas parecidas com o

Céu é que prepararemos as

nossas almas para o Reinado

de Maria Santíssima e

para a eterna beatitude.

Oculto aos Santos Anjos está

muito relacionado com

a nossa espiritualidade, razão

pela qual o estudo dos espíritos

angélicos ocupa um papel muito importante

em nossas cogitações.

26

Didier Descouens (CC3.0)

São Rafael Arcanjo

Igreja dos Jesuítas,

Veneza, Itália

Pedir graças espirituais

e temporais

São Rafael, como um dos mais

eminentes dos Anjos, naturalmente

tem um lugar privilegiado em nossa

devoção. Por outro lado, o fato de ele


encaminhar as orações dos homens

para Deus e, naturalmente, para

Nossa Senhora, que é intercessora

também para os Anjos, é um

motivo especial para cultuarmos

São Rafael.

O Arcanjo São Rafael é

padroeiro dos que viajam e

também dos enfermos. Há

tanta gente entre nós que, a

um ou outro título, é doente.

Considero uma boa coisa

a pessoa, em face de suas

próprias enfermidades, situar-se

assim: “Meu Deus,

eu Vos peço que me liberteis

desta doença, mas se

não me libertardes, porque

é de vosso desígnio, fazei-

-me, pelo menos, tirar todo

o fruto espiritual dela.”

Alguém poderia pensar

que pedir a saúde não

corresponde a uma atitude

perfeita, porque é uma graça

temporal e não espiritual.

Deus me livre de uma

religiosidade que só peça as

graças temporais, mas que

Ele me livre igualmente de

outra que julga haver uma

imperfeição espiritual em

pedir as graças temporais.

Deve-se pedir também “o

pão nosso de cada dia nos

dai hoje”.

Protocolo monárquico

dos bons tempos

A Santíssima Trindade, Nossa Senhora

e os Bem-aventurados no Céu - Igreja

de São Pedro, Bordeaux, França

Uma das noções que se apagaram

muito a respeito do culto aos Anjos,

e que me parece interessante relembrar,

é a de que o Céu constitui uma

verdadeira corte. Antigamente falava-se

muito em Corte Celeste, o que

encontra seu fundamento na ideia

de que Deus está perante os Anjos

e Santos, na Igreja gloriosa, como o

rei perante sua corte.

Mas o curioso é que algumas peculiaridades

próprias às cortes existentes

na Terra, pelas similitudes entre

as coisas da Terra e as do Céu,

acabam existindo na Corte Celeste

também, constituindo-se uma corte

no sentido muito mais literal da palavra

do que se poderia imaginar.

Se considerarmos um protocolo

monárquico dos bons tempos, veremos

que não era, como imaginam

alguns, uma coisa formal, completamente

vazia. Mas era a maneira

de reger a existência das várias pessoas

a serviço do rei, de maneira a

tudo se passar de um modo prático,

simples e decoroso, facilitando de

todas as formas a vida do monarca.

Assim, por exemplo,

quando o rei se colocava à

disposição para receber os

pedidos de seus súditos, ele

os atendia tendo em torno

de si, nas grandes ocasiões,

os príncipes da Casa real,

pessoas de alta nobreza. As

demandas eram entregues

por escrito. Porém, o interessado

comparecia diante

do monarca e podia dirigir-lhe

a palavra para dizer

o que quisesse. Algum

príncipe, uma pessoa de alta

categoria ou alguém que

fosse chegado ao interessado

também podia dizer algo.

Então o solicitante entregava

a um dignatário um

rolo de papel com seu pedido,

que o rei examinaria

depois. Havia uma mesa

sobre a qual iam se acumulando

os pedidos que depois

eram despachados por

um Conselho especial.

Vê-se como há uma espécie

de hierarquia de funções,

de dignidades, de intercessões

que conduz ao

rei e, depois, procede dele

e chega aos particulares.

Esse é o mecanismo de

uma corte.

Flávio Lourenço

Padrão para todas

as cortes terrestres

Na Corte Celeste o mesmo protocolo

existe, em última análise, pelas

mesmas razões. Deus Nosso Senhor,

que evidentemente não precisa de

ninguém, entretanto, tendo criado seres

diversificados, era natural que entregasse

a eles missões junto a Si, segundo

uma disposição hierárquica. E

também que esses seres possuíssem

27


Hagiografia

Arquivo

ferenciação, essa hierarquia que é a

própria imagem do Céu, e compreendemos

melhor aquela afirmação

de Pio XII de que, até mesmo nas

democracias verdadeiramente cristãs,

é indispensável que as instituições

sejam de um alto tonus aristocrático.

Condição psíquica de

sobrevivência na Terra

Praça de São Pedro durante a proclamação do dogma da Assunção

de Maria, pelo Papa Pio XII, em 1 de Novembro de 1950

um brilho, um esplendor, uma dignidade

na mansão celeste correspondente

às tarefas das quais são incumbidos,

tarefas essas que, por sua vez, correspondem

à própria natureza deles.

Assim, é de acordo com a ordem

do universo que os seres humanos

sejam regidos pelos Anjos, e estes

sejam intercessores dos homens junto

a Deus. De maneira que é verdadeiramente

uma vida de corte, com

um protocolo, uma dignidade, que

serve de padrão para todas as cortes

terrestres, e indica a necessidade

de existir um protocolo, uma hierarquia,

uma diversificação de funções.

Temos o exemplo contrário disso

nos discursos de chefes de Estado

e de sindicalistas modernos, onde

há uma pilha de gente atrás, dezenas

de microfones, gente em volta

conversando; o indivíduo interrompe

a arenga, dá uma ordem para este

e aquele, conta uma piada, depois

continua a falar para a massa. Uma

bagunça em que não há compostura

nem dignidade. E essa carência de

ordem, compostura e dignidade vão

constituindo a igualdade e a democracia.

Ao contrário, no estilo aristocrático-monárquico

nós temos essa di-

A festa de São Rafael nos conduz

exatamente a essa ideia. É um intercessor

celeste de alta categoria que

leva nossas preces a Deus, porque é

um dos espíritos angélicos mais elevados

que assistem junto a Ele e,

portanto, estão mais próximos d’Ele

para pedir por nós, constituindo os

canais naturais das graças que desejamos.

Essa consideração nos conduz à

ideia de reforçarmos cada vez mais

em nós o desejo de que as realidades

terrestres sejam semelhantes às celestes.

Porque apenas na medida em

que amarmos as realidades terrenas

parecidas com o Céu é que preparamos

as nossas almas para a beatitude

celeste. Se, ao morrermos, não tivermos

apetência das realidades terrestres

parecidas com as celestes, não

teremos apetência do Céu.

Há, portanto, algo nesse espírito

de hierarquia, de distinção, de nobreza,

de elevação que corresponde

a uma verdadeira preparação para o

Céu; preparação esta tanto mais desejável

quanto mais vamos afundando

num mundo de horror, no qual

todas as exterioridades com as quais

tomamos contato são monstruosas,

caóticas, desorganizadas.

É uma necessidade do espírito

humano, para não afundar no desespero,

que a pessoa possa pousar

as suas vistas extenuadas e doloridas

em algo digno e bem ordenado. Não

é próprio ao homem viver no mare

magnum de coisas que caem, afundam,

se deterioram. Em algum lugar

28


Père Igor (CC3.0)

ele necessita pôr a sua alegria, a sua

esperança.

Mas de tal maneira tudo quanto

é digno está desaparecendo deste

mundo que, ou temos cada vez mais

o nosso desejo, a nossa esperança

postos no Céu, ou não teremos mais

condição psíquica de sobrevivência

na Terra.

Houve uma Santa que teve uma

revelação na qual ela viu o seu próprio

Anjo da Guarda. Era um ente

de uma natureza tão elevada,

tão nobre e excelsa, que ela se ajoelhou

diante dele para adorá-lo,

pensando ser o próprio Deus. O espírito

celeste precisou explicar-lhe

que ele era apenas o seu Anjo da

Guarda. Ora, sabemos que os Anjos

da Guarda pertencem à hierarquia

menos alta que existe no Céu.

Em comparação com isso, o que

podemos imaginar de um Anjo como

São Rafael, das mais elevadas

hierarquias?

São Luís IX e sua mãe, Blanca de Castela - Igreja

de Saint-Louis em Saint-Louis-en-l’Isle, França

São Luís, Rei de França, e

São Rafael, Príncipe celeste

Mas para não ficarmos na concepção

de um puro espírito, podemos

nos servir de uma comparação antropomórfica

que nos faça degustar melhor

essa realidade, imaginando, por

exemplo, São Rafael tratando com

Nossa Senhora no Céu, à maneira de

São Luís, Rei de França, falando com

sua mãe, Branca de Castela.

É sabido que São Luís era um homem

de alto porte, grande beleza,

muito imponente, de maneira que,

ao mesmo tempo atraía, incutia um

respeito profundo e suscitava um

imenso amor. Possuía o feitio de um

guerreiro terrível na hora do combate,

e era o rei mais pomposo e decoroso

do seu tempo.

Esse rei, no qual transluziam todas

as glórias da santidade e que era um

filho muito amoroso, podemos imaginá-lo

nos esplendores da corte da

São Rafael - Museu Palazzo

Abatellis, Palermo, Itália

França, conversando

com Branca de Castela.

Quanta distinção,

quanto respeito, quanta

elevação, quanta sublimidade

nessa cena!

Ela nos dá um pouco

a ideia do que seria

São Rafael se dirigindo

a Nossa Senhora. Um

rei como São Luís era

uma espécie de Anjo

na Terra; São Rafael

vagamente pode ser

considerado como uma

espécie de São Luís celeste.

Ele é um Príncipe

celeste, apenas com

a diferença de que São

Luís era rei e São Rafael

não; e Nossa Senhora

é Rainha a um título

muito mais alto do que

Branca Castela.

Por esta transposição

podemos ter um

pouco a noção, à maneira

de homens, da alegria de que

nós vamos estar inundados no Céu

quando pudermos contemplar um

Arcanjo como São Rafael, e tudo

quanto veremos de Deus admirando

esse Príncipe celeste.

Peçamos a ele que tenhamos essa

contemplação, mas também que algo

dessas ideias penetrem em nós nesta

vida, e que a consideração dessa ordem

ideal e realmente existente nos

conforte para uma esperança do Céu

e do Reinado de Maria, dissipando

toda a tristeza crescente destes dias

em que os castigos previstos por Nossa

Senhora em Fátima vão se aproximando

tão rapidamente de nós. v

(Extraído de conferências de

23/10/1963 e 23/10/1964)

Flávio Lourenço

29


Apóstolo do pulchrum

Flávio Lourenço

Deus Pai

Basílica de Santa Joana d’Arc,

Domrémy-la-Pucelle, França

Perfeição do universo:

unidade e variedade

Rodrigo C. B.

Apresentando diversos e

significativos exemplos,

Dr. Plinio mostra que há

duas formas de beleza: uma

proveniente da unidade e outra

da variedade. Deus, tendo feito

a Criação, quis que alguns seres

representassem sua unidade,

e outros, pela variedade,

exprimissem sua beleza. Por

isto, a unidade e a variedade

são muito bonitas, sobretudo

quando se harmonizam entre si.

Obelisco da Praça de São Pedro, Vaticano

Ahierarquia angélica não é formada apenas de

uma série de seres distintos, mas esses seres

constituem uma escala de poderes, mantendo

uma relação de mando entre si. Portanto, tendo criado

tantos seres desiguais, Deus os relacionou entre si em

uma escala admiravelmente organizada.

Contudo, surgem as seguintes perguntas: Não seria

mais perfeito se Deus criasse um único ser? Uma vez que

Ele criou vários, não seria melhor tê-los feito iguais?

30


AliMehaoudi (CC3.0)

Klim Levene (CC3.0)

Deserto do Saara

Tschubby (CC3.0)

Nos seres existentes podem-se considerar duas formas

de excelência, de beleza ou de perfeição. Há alguns

dotados de um pulchrum inerente a eles e que reside propriamente

na unidade. Existem outros nos quais a beleza

não está na unidade, mas na variedade.

Unidade e simplicidade, uma forma

característica e inconfundível de pulchrum

Por exemplo, um monólito como aquele obelisco localizado

no centro da Praça de São Pedro. Ele possui uma forma

elegante, mas sua beleza não está apenas na elegância.

Imaginem que aquilo fosse constituído de quatro ou cinco

pedras cortadas e colocadas uma sobre a outra de maneira

a dar aquela configuração. Não perderia o mérito? A excelência

do obelisco está em ser uma só pedra daquele tamanho.

Logo, o elemento principal de sua beleza é a unidade.

Em Campos dos Goytacazes fui visitar um velho solar, hoje

transformado em asilo. O assoalho da sala de jantar, de

grandes dimensões, era constituído de tábuas enormes que

percorriam a sala quase de ponta a ponta. Cada tábua media

cerca de meio metro de largura por quase dez de comprimento.

Sem dúvida, isso conferia uma beleza peculiar àquele

chão. Se aquelas tábuas inteiriças fossem substituídas por

tacos, a majestade daquela unidade ficaria destruída.

Outro exemplo do pulchrum inerente à unidade é o Lago

Léman, na Suíça. São águas muito paradas, tranquilas,

que nunca sofrem agitação, de um azul delicado e

permanente, uma placidez absoluta. Aquela uniformidade

e invariável serenidade da superfície constitui a beleza

específica daquela paisagem.

Maude Rion (CC3.0)

Lago Léman, Suíça

31


Apóstolo do pulchrum

Zairon (CC3.0)

Lionel Allorge (CC3.0)

Capela do palácio de Versailles, França

tanakawho (CC3.0)

Nota-se também esse tipo de beleza em panoramas

como o de Copacabana ou da Praia Grande – próxima a

Santos –, onde a linha do horizonte apresenta uma unidade

muito grande. Não se vê o espigão de uma ilha quebrando

aquilo. Em certos pontos nem mesmo se divisa a

ponta de uma montanha que avance no mar e rompa o

paralelismo daquelas linhas. Aliás, o pulchrum do Saara

está nisto: um areal que não acaba mais.

Na pérola, a formosura está exatamente em sua uniformidade.

Se ela tiver algum caroço ou mancha, não será

bonita. Ela deve ser de uma esfericidade e brancura

invariáveis e perfeitas em todos os seus pontos.

A unidade tem uma beleza característica que pode até

ser superada, mas que qualquer enfeite ou modificação

prejudica ou elimina.

Imaginemos que alguém quisesse fazer do já referido

obelisco da Praça de São Pedro uma coisa feérica

e recamasse todo ele com pedras preciosas.

Ficaria coruscante de

cores, talvez como uma árvore

de Natal sem galhos

e com bonitos efeitos de luz; mas a majestade própria

ao monumento desapareceria. A seu modo, também no

Asilo do Carmo, de Campos, se resolvessem serrar aquelas

tábuas e substituí-las por um parquet lindo, formando

desenhos, quiçá ficasse mais bonito e ornamental; porém,

perder-se-ia o belo característico da unicidade.

Não estou comparando estilos de beleza, mas mostrando

haver na unidade e simplicidade uma forma característica

e inconfundível de pulchrum. Assim, encontramos

certos seres que precisam de uma apresentação muito

cuidadosa e simples.

Suponhamos que um joalheiro tenha um lindo brilhante

para expor na vitrine. Como deveria apresentá-

-lo? Ficaria bem colocá-lo numa caixa de brocado todo

trabalhado, ou em meio a uma multidão feérica de

joias? Para fazer sobressair a simplicidade do brilhante

seria melhor arranjar um bonito veludo de fundo sobre o

qual se pusesse uma caixa muito simples, e expô-lo sozinho

na vitrine. Esta apresentação realçaria a beleza desse

diamante único, toda feita de simplicidade. A unidade

acentua muito a grandeza, põe em evidência a homo-

Hannes Grobe (CC3.0)

32

Pérolas

Xth-Floor (CC3.0)

Opalas

Dpulitzer (CC3.0)


geneidade da substância, regularidade da forma

e formosura do aspecto.

Beleza específica da variedade

Outra forma de beleza é a inerente à variedade.

Por exemplo, o chão da capela de Versailles para

mim é um dos mais bonitos que existem no mundo.

É um mosaico de várias cores e formas que dá

uma impressão maravilhosa. Alguém poderia sugerir

que aquilo fosse substituído por uma imensa

uniformidade de mármore branco. Ali não serviria

porque a beleza específica do lugar é a da variedade.

No tocante a paisagens, opondo-se à uniformidade

de Copacabana, poder-se-ia citar o Flamengo,

com sua variedade de montanhas, ilhas, etc.

Já no mundo das pedras, a ágata é avermelhada,

cheia de veios, estrias, e o bonito está na diversidade

de cores que se confundem e interpenetram. Muito

característica também é a diferença entre a opala e

a pérola. Esta é toda branca, enquanto aquela é multicolor.

A beleza da opala encontra-se na variedade.

Estamos, assim, colocados diante de duas formas

de beleza: uma proveniente da unidade e outra

da variedade. Alguém poderia levantar o problema

sobre qual delas é a mais excelente, e chegar a

uma das seguintes conclusões. Se a beleza derivada

da variedade é superior, a arte deve tender a extinguir

as manifestações provindas da unidade e estabelecer,

por toda parte, a variedade. Mas se é verdade que

a unidade é a forma de beleza mais perfeita, então se deve

perseguir a variedade e estabelecer a unidade.

Encontramos essa dicotomia na arte contemporânea,

com a tendência cada vez mais frequente de impor a unidade

como a beleza suprema. Não quero dizer que seja esta a

tendência de todos os artistas modernos, porque há também

algumas variedades desordenadas em certas manifestações

da arte moderna. Mas quero afirmar que muito frequentemente

esta posição se demonstra. Podemos dizer, portanto,

que certos artistas e certo espírito moderno aceitaram esse

problema tomando posição frente a ele e afirmando ser a

unidade intrinsecamente superior à variedade.

A Criação precisa ter unidade e variedade

Isso se liga à primeira questão posta inicialmente,

pois se a unidade é o supremo bem e na variedade

existe algum mal, então Deus deveria ter feito uma só

criatura ao invés de várias.

São Tomás de Aquino analisa três argumentos

a favor da unidade. Parece que Deus deveria ter

feito um só ser na Criação:

1) Todo efeito tem as qualidades inerentes à

causa. Ora, Deus é uno; logo, o efeito de Deus,

Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil

Praia do Flamengo, Rio de Janeiro, Brasil

que é a Criação, deveria ser uno também. A Criação ser

variada enquanto Deus é uno corresponde a fazer com

que a ela não seja um reflexo do Criador. Logo, a variedade

de seres é um mal.

2) Deus é uno; ora, se o mundo é a imagem de Deus, o

mundo deveria ser uno também; se o mundo não é uno, é

diferente de Deus. Tudo que é diferente de Deus é ruim;

logo, o mundo é ruim.

3) O fim de todas as coisas que existem é Deus. Ora, Deus

é uno; logo, todas as coisas deveriam tender para a unidade;

se não tendem, elas são más e, portanto, a diversidade não

deveria existir porque afasta de Deus.

A estes argumentos São Tomás responde: Deus, de fato,

criou o universo para comunicar às criaturas sua bondade

e representar-Se nelas. Mas nenhuma criatura, por

mais excelente que seja, pode representar em si todas as

bondades de Deus. Portanto, por mais que Ele fizesse perfeita

uma criatura, criando mais outra além dessa primeira,

haveria a possibilidade de a Criação ser mais perfeita,

porque teria uma semelhança ainda maior com o Criador.

Digamos que Deus houvesse criado só Nossa Senhora,

que é o mais alto de todos os seres na ordem moral;

ou então um único Anjo, o qual na ordem ontológica é

a mais elevada criatura. Por mais perfeita que fosse a

Vanessa Andrilino (CC3.0)

Jorge Láscar (CC3.0)

33


Apóstolo do pulchrum

representação de Deus contida nesse ser, ele seria uma

mera criatura; assim, caberia sempre uma representação

de Deus em outro ser. Portanto, dois seres representam

melhor o Criador do que um; três O representam

melhor do que dois; quatro, melhor do que três e mil representam

melhor do que novecentos e noventa e nove.

A variedade, portanto, tem uma representação de Deus

melhor do que a unidade; a variedade é um bem.

É certo, diz ele, que a bondade em Deus é simples e

uniforme. Mas acontece que Deus é um Ser supremo,

perfeitíssimo, n’Ele a bondade pode ser simples e uniforme.

Não é o que acontece nas criaturas, que não têm

a mesma perfeição de Deus. Por isto, elas não podem ter

uma bondade simples e uniforme. Nelas a bondade tem

que ser variada. De maneira que, embora a unidade, em

si, seja mais perfeita, para as criaturas ela não é assim.

É preciso que elas, de fato, tenham a variedade.

Chegamos, então, à conclusão de que a alternativa

unidade-variedade é mal posta. Deve haver seres que

por sua esplêndida unidade sejam um reflexo da unidade

divina; mas também seres que por sua variedade reflitam

melhor a Deus do que pela unidade. E propriamente

o que a Criação precisa ter é unidade e variedade.

Cores, música e a fachada

de Notre-Dame

Todos os modernos que procuram a

unidade em tudo andam mal, como

andariam mal os que só buscassem

a variedade. É preciso que ambas

existam, seres excelentes por sua

unidade e por sua variedade. É por

esta forma que podemos compreender

a perfeição do universo.

Isto se torna mais claro quando

tomamos certas formas de arte, por

exemplo, a pintura. Ticiano 1 pintava

quadros de cores maravilhosas. Eu vejo

uma beleza dos quadros de Ticiano, se

Erik Cornelius (CC3.0)

Autorretrato de

Ticiano

tomar cada cor e analisar. É claro que cada cor é muito

bonita. Mas ao lado da beleza de cada cor eu noto que é

mais bonito ter várias cores do que uma só. E há uma terceira

forma de beleza que não consiste na variedade das

cores, mas no contraste e na harmonia entre elas.

Então, temos três formas de beleza: a de uma cor, a

pulcritude especial que vem da existência várias cores,

e outra proveniente da combinação das cores entre si.

Ora, essas formas de beleza vêm da variedade.

A música, por exemplo. O universo musical tem uma

particular beleza que corresponde a cada nota. Contudo,

é mais bonito que haja sete notas do que uma só; e é

mais belo ainda que se possa fazer uma música e um jogo

entre essas sete notas. Temos assim três gamas de beleza,

que fazem a pulcritude do universo musical.

Deus, tendo feito a Criação, quis que alguns seres representassem

sua unidade, e que a variedade de outros

significasse sua beleza. Por isto, a unidade e a variedade

são muito bonitas, sobretudo quando se harmonizam

entre si. Temos assim seres com grande variedade e, ao

mesmo tempo, com grande unidade.

É característica disso, por exemplo, a fachada de Notre-Dame:

formigando de pequenos desenhos, mas com

uma linda unidade nas linhas essenciais. Prova-se por

aí que Deus, para fazer o universo com o grau

de perfeição que Ele quis, teria que fazer

um universo variegado. Não teria atingido

esse grau de perfeição se houvesse

feito um só ser.

A questão seguinte seria: tendo

Deus estabelecido a variedade, deveria

estabelecer, necessariamente,

a desigualdade? Mas esta é matéria

para uma próxima conferência. v

(Extraído de conferência de 1957)

1) Ticiano Vecelli (*1488 - †1576). Pintor

renascentista veneziano.

Didier Descouens (CC3.0)

Museo del Prado (CC3.0)

WGA (CC3.0)

www.zeno.org (CC3.0)

Algumas das pinturas de Ticiano

34


Pezi (CC3.0)

Catedral Notre-Dame de Paris, França

35


Flávio Lourenço

“A Virgem no jardim” - Museu de l’Œvre Notre-Dame, Estrasburgo, França

Misericórdia que chega aos extremos de nossa fraqueza

Asensualidade é, com o orgulho, uma das molas propulsoras da Revolução. Em sentido oposto, Nossa

Senhora, Rainha e arquétipo dos contrarrevolucionários, praticou as virtudes da humildade e da

castidade em grau inimaginável.

O que dizer da pureza d’Aquela que foi imaculada desde o primeiro instante de seu ser? D’Ela brota para

toda a humanidade, como de uma fonte inexaurível, a virtude da castidade. E porque incomparavelmente pura,

Maria é, mais do que ninguém, a protetora dos fracos, o socorro dos que se debatem nas tentações da carne.

Engano seria pensar que, por ser castíssima, Nossa Senhora tem invencível horror aos impuros. Ela possui,

sem dúvida, aversão ao pecado de impureza, mas Se compadece daquele que o comete, e deseja a emenda

e a salvação desse infeliz.

A Santíssima Virgem está pronta a Se inclinar sobre o mais miserável dos homens e lhe dizer: “Meu filho,

em que pântano caíste?! Entretanto, continuo sendo tua Mãe, e por isso Me curvo até ti, por mais baixo que

tenhas caído. Até aos extremos de tua fraqueza chega minha misericórdia, disposta a te salvar.”

(Extraído de conferências de 26/5/1972, 25/9/1990 e 12/7/1991)

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