Chicos 58 - 22.09.2019

Chicos

Chicos é uma publicação de literatura e ideias de Cataguases - MG - Brasil.
Fale conosco em cataletras.chicos@gmail.com

58

22 de setembro de 2019

e-zine de literatura e ideias de

Cataguases – MG

Um dedo de prosa

Esta é a nossa edição 58

Chicos é uma e-zine que circula apenas pelos meios digitais.

Envie-nos seu e-mail e teremos prazer de te enviar

nossas edições ou visite-nos nos links listados nesta

página.

A linha editorial é fundamentalmente voltada para a

literatura dos cataguasenses, mas aberta ao seu entorno

e ao mundo. Procura manter, em cada um dos seus números,

uma diversidade temática.

Neste número, a poeta da primeira página é Lecy Delfim

Vieira. Mais uma de nossas poetas ainda inédita em

livros. Quem nos dá um pouco de sua dimensão é Joaquim

Branco.

No último dia 17.09.2019 faleceu o artista plástico e

professor Ady Resende, quem fala dele em sua poesia é

o estreante nestas páginas Marcos Venícios de Melo.

Esta edição é dedicada ao Cairu Teles, agitador da cena

cultural de Cataguases por décadas, falecido recentemente.

Uma agradável leitura para todos! E até o início do verão.

Os Chicos

Capa: Foto Vicente Costa

Editores:

Emerson Teixeira Cardoso

José Antonio Pereira

Colaboradores:

Projeto gráfico - Gabriel Franco

Fotografia - Vicente Costa

Fale conosco: cataletras.chicos@gmail.com

Visite-nos em:

https://independent.academia.edu/ChicosCataletras

https://www.yumpu.com/pt/chicos_cataletras

http://chicoscataletras.blogspot.com/

05.05.1939 — 26.06.2019

01


Chicos

03 LECY DELFIM

Menina nº 4 + 2 poemas

VIEIRA

08 JOAQUIM BRANCO

Lecy Delfim Vieira (1942-2008)

10 INEZ ANDRADE

PAES

Amazónia

11 HELEN MASSOTE

O bobo da corte / Não é o bobo

do povo

13 FERNANDO ABRITTA

Feito Corpo

23 ALBERTO BRESCIANI

Pedras ao mar + 4 poemas

27 GISELA GRACIAS

RAMOS ROSA

2 poemas de O livro das mãos

29 MAURICIO VIEIRA

Floema

34 MARCOS VENÍCIOS

Paraíso + 2 poemas

DE MELO

37 FLAUSINA MÁRCIA

Pedipereipetos Pehumapenos

39 ALBERTO PEREIRA

Um poema

42 RONALDO CAGIANO

Variação sobre um poema de

Marçal Aquino

47 RONALDO WERNECK

Uma noite na Galart

50 JOSÉ VECCHI DE

Dentim

CARVALHO

52 JOSÉ ANTONIO

Ô Glória!

PEREIRA

55 ANDRESSA

Loucura

BARICHELLO

59 ANTÔNIO JAIME

SOARES

Presença espírita e lembrança de

índios

61 MAURICIO VIEIRA

De Bucéfalo ao Acéfalo

63 LUIZ RUFFATO

Lendo os clássicos: Short cuts -

Cenas da vida

65 CLARA ARREGUY

Mecanismos do mal descortinados

66 EMERSON TEIXEIRA

CARDOSO

Gaiola de vidro, de Gleison

Dornellas

68 RONALDO CAGIANO

Uma escritura demiúrgica

71 JOSÉ ANTONIO

Em agosto de 2007

PEREIRA

32 PASCHOAL MOTTA

Saudação da primavera

57 VANDERLEI PEQUENO

A Fina Flor do Noel

75 CLIPS

02


Chicos

Lecy Delfim

Vieira

Lecy Delfim Vieira, nascida em Cataguases

em 12 de outubro de 1942, falecida em

08 de agosto de 2008. É, infelizmente, mais

uma de nossas ótimas escritoras ainda inédita

em livro.

Graças ao poeta Joaquim Branco, a totalidade

de sua obra não se perdeu; já que vários inéditos

dela encontram-se em seu acervo.

Além da participação no jornal O Muro, de

Joaquim Branco e equipe, apareceu também

nas antologias:

Poetas novos do Brasil, organizada por Walmir

Ayala em 1967.

Marginais do Pomba, organizada por Joaquim

Branco, Fernando Cesário e Ronaldo Werneck.

La Nueva poesia Latinoamericana, organizada

por Jorge A. Boccanera publicada no México

em 1999.

03


Chicos

Menina nº 4

Não me importa que sonhes as coisas sem sabê-las.

importa-me que saibas

e sonhes as coisas.

Já te dissera que fosses materialista soberba e cínica

não

que fosses fingida.

E quem sonha finge se não sabe com que sonha

e os que sonham não sabem nada

senão

não sonhariam.

04


Chicos

Menina nº 8

Agora me responderias

num único verso

talvez

como é composto o poeta.

É quando se protesta.

Poeta protesta profundo

tão profundo

quanto o sangue sem cores

e sem lugar

cujo alvo dileto

é a plataforma do poeta.

Poeta alvado

distante

ou

amado

poeta incrédulo,

impossível

ou compacto

meu poeta é um monstro suavíssimo.

05


Chicos

Menina nº 11

Menina

ninguém pode dizer que eu não procurei.

Até sob os troncos

nas folhas

na raiz

– o que é raiz? –

até nos lagos profundíssimos

eu que não sei nadar

porque eu não sei.

Se eu soubesse teria visto que era inútil

e me afogaria.

mas ninguém pode dizer que eu não procurei.

Até nos olhos profundíssimos

imaculados

em todas as cores

de todos os olhos

eu procurei.

E se eu fosse cega

eu teria visto

e eu não vi

e teria achado.

06


Chicos

Menina

que grande é o mundo

o mundo é sempre grande

quando se procura.

as escavações, as esperanças, a volta

tudo é tão grande

que é insuportável

e se eu fosse fraca

eu teria achado

pois menina

só os fracos acham.

e eu nunca acho.

[...]

07


Chicos

Joaquim Branco

Nasceu em Cataguases (MG), em 1940, poeta, Joaquim

Branco herdou de seus conterrâneos da revista

Verde, do final dos anos 20, o gosto pela experimentação

e pela literatura de vanguarda. É autor de

Concreções da fala (poesia 1969); Consumito ( poesia

1975); Laser para lazer (Poesia 1984) Marginais do

Pomba (Contos org. 1985) O caça-palavras (Poesia

1997) Do pré ao pós-moderno Manual de literatura

(1998); Ascânio, o poeta da Verde (org. 1998) , além

de livros de crítica, literatura infantil.

LECY DELFIM VIEIRA (1942-2008)

“Fundarei o céu e a terra

só para ter aonde ir.”

Espanto e susto. Foi o que me acometeu.

Também fiquei muito triste. Alguém me dissera:

– Lecy morreu. Dito assim, seco, funcionou

como um baque.

Não importa quando, como, onde. Parecia que

isso jamais iria acontecer. Sua presença, seus

livros voltaram-me à mente. Em suas invenções

de paródias ou ensaios de meninas, não era

prevista a orfandade do rio e das meninas ao

mesmo tempo.

Imagino sua vida ao escrever ainda muito jovem

o romance Paródias de um gigante líquido.

Um título e tanto. Na época, peguei os manuscritos,

li-os numa sentada. Um texto incrível.

Naqueles idos de 1961, já senti ali a literatura

pulsando célere, madura, imagens bem construídas,

novas, o pensamento de uma autora no

limite de sua pouca leitura e de sua muita densidade.

Como me assustei.

Nem tive tempo de olhar pro lado. Apresentoume,

logo depois, os originais de Ensaios-

Menina, não sem muita insistência de minha

parte. Poemas de reflexão. Novo impacto. Ela

não estava ali para brincar. As meninas, numeradas

de 1 ao infinito, não terminariam nunca,

e a narradora se dirigia a elas, uma a uma, como

se fossem filhas ou espelhos de si mesma

ou ambas as coisas. O diálogo textual com as

meninas funcionava como num ringue de alteregos.

Daria outro excelente livro.

Tentei incorporá-la ao nosso grupo de rapazes

que, na época, fazia o jornalzinho O Muro; publiquei

alguns de seus textos, mas ela era impermeável

à equipe. Tinha seu próprio mundo e

mostrava-se arredia ao assédio.

Mesmo assim, busquei editores, críticos no Rio,

em Belo Horizonte e São Paulo, pois Lecy era a

única do grupo que tinha livros prontos e eu

sabia o que estava diante de mim. Nada. A sorte

não estava a seu favor.

O máximo que consegui foi o interesse do crítico

Assis Brasil e depois de Walmir Ayala, que

selecionou vários de seus poemas para a antologia

Poetas novos do Brasil, em 1967. Ali foram

editadas, pela primeira vez em livro, as

‘meninas’, com apresentação de Francisco Inácio

Peixoto, que dizia: ‘Herdeira do nada, senão

dos caminhos de Cataguases, e de sua infância,

explode em diálogos que, na verdade, são monólogo

de obsedante desamparo: ‘Será que não

há no mundo/ quem queira comigo ir,/ mesmo

que não olhe meus olhos/ inda que vá por partir?’.

Falamos ‘explode’ e não há de fato, outro

verbo para exprimir o jeito que Lecy tem de

dizer as coisas.”

08


Chicos

“Volto a Lecy. Procuro um fragmento de Paródias...

, ele dá o tom do belo discurso do rio:

“Nasci nas frontes de Minas Gerais como um

mineiro qualquer. Depois de ser nascido fui

amado e batizado como um rio qualquer. Minha

infância foi sem tréguas. Sempre corri demais.

Talvez por isso começaram as ofertas que não

vinham por amar-me sim por acalmar-me. E

mais vingança eu sonhava quando uma rosa sem

história sumia na minha cara perdida. Sempre fui

assim muito quieto e muito rápido, muito forte e

bem amado. Era assim o meu trecho, sempre

cresci sem vontade e cheio de mágoas. Como

lágrimas sentidas de uma guerra interminável de

um texto prevendo misérias.

Fora isso, sempre fui muito sóbrio, contra o

Amazonas.”

Outros fragmentos de sua obra, e não é difícil

encontrá-los da melhor qualidade:

“Precisarei de alimento, água, bússola, companheira./

– será que não há no mundo quem queira

comigo ir? –/ inda que não olhe meus olhos/

inda que vá por partir./ – Fundarei o céu e a terra

só pra ter aonde ir.” (Menina nº 70)

“O que devemos Menina é fazer a vida/ não assisti-la.”

(Menina nº 62)

“E o grande aguaceiro, e as grandes orgias, e o

aguaceiro e as orgias. Meu sonhar terrível me

desperta de tantas mágoas que nem sei se verei

o fim do mundo. [...] Todos os que caíram nas

minhas águas aumentaram meus pesadelos. Então

que lhes devo?” (Paródias do gigante líquido,

p. 5)

“Além de mim o que mais quererão os deuses

de mim?” (Menina nº 54)

“O mundo?/ O mundo é aquilo que era redondo

e que mudou de forma como eu./ Será que o

mundo me imita?” (Menina nº 31)

“Do jeito que vais Menina/ em pouco o mundo

estará velho demais./ – e são 365 dias às vezes

66 além dos nossos –/ tantos/ que tu me perguntas/

como/ a humanidade pode viver com tão

poucos dias/ incrível não Menina?” (Menina nº

24)

“...até que o mar que nunca fica louco de sede/

– que só a sede enlouquece –/ até que o mar

normal, arrebente este litoral/ que nunca sei se

termina/ cá/ ou acolá/ da mangueira.” (Menina

nº 22)

“Eu me importaria que te suicidasses/ que então

eu não teria armas contra o mundo./ Tu és o

meu projétil.” (Menina nº 20)

“Serei eu provável pedreira?/ Eu te darei todas

as pedras./ Que são as estrelas que não buracos

no céu/ feitos por pedradas?/ Uma pedra bem

atirada revela tudo ao homem Menina./ Um pássaro

apedrejado – por Deus não chores –/ o pássaro

é um embuste./ Um homem apedrejado –

por Deus não te escondas atrás de mim –/ já te

ensinei a enfrentar os dragões Menina./ Além do

mais/ tu tens todas as pedras./ No entanto, recorda-te,/

que o que importa é o alvo/ não é a pedra.”

(Menina nº 18)

“A felicidade é como o segundo andar de um

clube/ três garrafas/ dois copos/ uma mesa./ A

paisagem atrás da vidraça/ eu/ e catorze cadeiras./

Mas não é felicidade que eu busquei/ ninguém

pode dizer isto./ Eu não quero buscar mais

nada/ se tu nunca estás em nada/ nem em mim/

tu tão independente./ Não quero felicidade/ de

cadeiras/ de copos/ de mesa./ Menina/ eu te quero

apenas.” (Menina nº 11)

“O que vale na vida é comer ou não comer./

Mas jamais deixes de devorar os extremos/ pois

para além deles/ não há mais nada para se comer./

E é no ato de se devorar os extremos que

está a fórmula iminente da vida.” (Menina nº 6)

No dia 8 de agosto morreu a cataguasense escritora

Lecy Delfim Vieira, ela que nascera no dia

12 de outubro de 1942. Um talento tão grande

que acabou prejudicando a sua edição em livro

solo.

Além da antologia de Walmir Ayala, participou

apenas da coletânea Marginais do Pomba, organizada

por mim, Fernando Cesário e Ronaldo

Werneck. Deixou inéditos títulos como Rua sem

elevadores, 8.511.965 km2 de omissão, PAN-

Pressão atmosférica normal, Mulher setentrional,

Ensaios-Menina e Paródias do gigante líquido.

Espero editá-los brevemente, e levar ao público

palmo a palmo o seu caminho literário.

09


Chicos

Inez Andrade Paes

Nasceu em Pemba (Moçambique), é autora de

O Mar que Toca em Ti (Crônica de viagem -

2002); Paredes Abertas ao Céu (Poesia - 2011);

Libreto em três atos, constituindo a Cantoriana

Marítima - Acto I Mar falante, Acto II

Transparente Luva de Água, Acto III Flores de

Acanto em Marfileno Lençol ; D Estrada Vermelha

(Poesia 2015); Da Eterna vontade (Poesia

2015) : À Margem de Todos os Rostos (2017).

Coordena desde 2012 o Prêmio Literário Glória

de Sant”Anna.

Amazónia

os homens trazem cornos em fogo

duma cegueira luminosa

com restos

de cinzas

alimentam

a morte

no chão deitado

10


Chicos

Helen Massote

Nasceu em Belo Horizonte (MG) e mora no

Rio de Janeiro (RJ). Redatora, poeta e cronista

trabalha no Portal Fiocruz.

O bobo da corte

Não é o bobo do povo

Quando criança

Toda cidade

Tinha o seu

Bobo de estimação

Chamado pelo nome

Pelas invenções

Nomeado por lugares

Por procedência ou

Desconhecimento

11


Chicos

Ou por acontecimentos

Que não só os seus

Por procedimentos diversos

De conhecimento público ou

Suposto porém aceito

E ele era digamos

entendido

Por certo que cada

Um conforme a

Sua medida também

O tinha como seu.

12


Chicos

Fernando Abritta

Nasceu na Serra da Onça, Cataguarino,

distrito de Cataguases-MG. Mora em Juiz de

Fora (MG) Tem publicados umÁrvore, O Caso

da Menina Que Perdeu a Voz, e, em parceria

com Joaquim branco, Uma Verde História,

além de um ebook, Relâmpago.

Feito corpo

Um corpo

feito boto

abrindo caminho na água

feito onça

teimando existir sem matas

feito seriema

feito serafim

sobreviver sem deixar de ser

raiz tronco folha

flor e fruto

exu abrindo caminhos

costurando vida

feito nós enlaçados

——————···0

13


Minha pele parte

Chicos

O mundo em um

dentro e outro

fora

Fronteira falsa

Não consigo viver

sem o fora

nem sem o dentro

Meu corpo se

se estende pra

dentro em

células e

átomos até

onde não enxergo

nem meu sonho vai

Meu corpo se

espraia pelo mundo

chão montanha

árvore capim

floresta rio

lago e mar

oceano até

onde não enxergo

nem imagens faço

——————···0

14


Chicos

Corpo,

o meu

tromba com o

corpo seu

o envolve e

o penetra no

ar que respiro

ar que respiras

ar que respiramos

um peixe tem

em si a água

mesma água

que circula

dentro de outro

peixe. Todos

compartilham

do mesmo corpo

feito de todas

águas num

único corpo

comum

——————···0

15


Chicos

Meu corpo só

tem uma medida

limite beirada

fronteira

onde para

Eu sou vontade

desejo

Sou o mundo

Meu corpo

só se queda

quieto no seu

desejo quando

tromba com

tua vontade

Eu sou vontade

desejo

Sou o mundo

Meu corpo

só se queda

quieto no seu

desejo quando

16


tromba com

Chicos

tua vontade

Eu sou vontade

desejo

Sou o mundo

e se

a mim permite

penetro vc

como água num

vaso e te

possuo e me

aproprio de ti

A menos que

sua vontade me

contenha e

estabeleça a

fronteira entre

eu e tu

——————···0

17


Chicos

Seria guerra

se não fosse

guerra, ela mesmo, o fim dos corpos

Ou

uma fronteira

fundada na

caridade

(quando faço algo a vc

e nada espero de retorno)

Seria guerra

se guerra não

fosse fim dos corpos

Ou

solidariedade

(quando faço algo a vc e

espero ter algo de volta)

Seria guerra

se guerra não

fosse fim dos corpos

Ou

respeito

(quando espero tempo

necessário a vc para

que me reconheça

como igual)

18


Seria guerra

Chicos

se guerra não

fosse fim dos corpos

Ou

respeito

(quando espero tempo

necessário a vc para

que me reconheça

como igual)

——————···0

19


Chicos

tu

uma divisão

fundada no ato

que faço

sem espera de retorno

E

(esperando ter de volta o mesmo)

respeito

(na esperança

de o tempo nos fazer

iguais)

——————···0

20


Chicos

Vc?

uma divisão que

não termine em

exclusão ou

silêncio ou

silenciamento

Ou morte

vez que

sua morte

seu silêncio

sua exclusão

diminui meu

Corpo

este (corpo)

já anda

tão ferido tão

em chagas

Tantas árvores cortadas

ervas queimadas

Tanta terra pelada

tostada

revirada e lavada

sem pele de húmus

Resultante do

conflito entre

minha versus

sua vontade

——————···0

21


Chicos

Bom lembrar

quanto de eu

quanto de mim

possa ser vc

sem esquecer

quanto de vc

passa a ser eu

Lembrar o link

ligação estrada

relação entre eus

caminhos entre nós

resumindo o encontro

de vontades iguais

movimento de ir

e vir

caminho de ida

e volta

Feito broto

abrindo caminho na casca

Feito verme

teimando existir no asfalto

Feito seriema

Feito serafim

sobreviver sem deixar de ser

——————···0

22


Chicos

Alberto Bresciani

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), mora em Brasília

(DF). É autor de Incompleto movimento (2011), Sem

passagem para Barcelona (2015), finalista do prêmio

APCA de Literatura - Poesia de 2015). Integra, entre

outras, as antologias Outras ruminações (Dobra

editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá,

2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa

– Littérature brésilienne contemporaine

(Revista Pessoa, edition spéciale – Salon du Livre

de Paris, 2015) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016).

Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da

internet e em revistas e jornais impressos.

Pedras ao mar

E se estávamos ali,

fixos no movimento

uniforme das ondas,

era que dividíamos

ventos, os poucos,

as tempestades,

as aves marinhas

e seus peixes, as aves

marinhas já mortas

Todos os ciclos

nos pertenciam

– ainda que distantes

nos parecessem

as nossas ilhas

Não tínhamos olhos

E assim era melhor

Sem ossos,

somos aquelas pedras

para sempre.

23


Chicos

Habitat I

Bisões

Guardei sob a pele

todos os peixes, as conchas,

anêmonas, veleiros antigos

e recuperados aos sargaços

Ninguém conheceu

os oceanos que devoravam

as moças e os rapazes

de olhos castanhos

O silêncio da maré baixa

sabe o doce

de frutas selvagens,

um mundo híbrido,

primeiro, anfíbio

À custa de nomes marinhos,

sobrevivo

Aprendi a respirar na água.

E seguimos como bisões,

olhando para a frente,

em disparada, fugindo

de absolutamente nada

e de quase tudo

No caminho, outros bisões

se juntam ao grupo

e continuamos todos,

aos atropelos, na mesma rota

Corremos, nós os bisões,

para onde não sabemos

em uma pradaria fictícia

que, a exemplo dos rios,

é outra a cada migração

Olhamos para a frente

e nos perguntamos,

os olhos bovinos,

se este é mesmo

o nosso lugar.

24


Chicos

Golfinho

O dorso sobre a areia grossa,

a pele rasgada ao sol

e pelo atrito das conchas,

preso à terra que não quis,

enquanto as gaivotas

gritam o fim

Ainda o poderiam salvar

a maré mais alta

ou uma onda que encontrasse

o céu cinzento

Mas ao país chegaram

os bárbaros e seu rei

e à invasão cederam

todos os mortais

Vêm agora com suas facas,

suas cimitarras

Logo, o primeiro corte.

Souvenir

Todo o tempo, vamos embora

e, no entanto, não nos perdemos

de vista em instante algum

Tentamos um novo enredo,

mas a memória é outro corpo

que arrastamos e decai

com os nossos, permanece,

cicatriz, nome que nunca cessa

E se nos víssemos entre os vivos,

outra vez na multidão? A imagem

fixa de susto e nos perguntaríamos:

e agora, quem some? Nenhum

de nós: somos a provação,

o cravo nas costas, as vértebras

e suas cracas para sempre,

um aleijão, a fisgada em cada gesto

25


Chicos

Não nos esquecemos, sim,

nos esconderíamos com a mentira,

não nos lembramos, não

nos lembraremos de esquecer,

tornaremos os rostos à parede

mais vendo assim, transe,

mais sabendo que somos nada,

aprisionados nos nossos estômagos

Sim, a memória é uma unha

e ainda que cortemos o dedo

que a leva, e mesmo amputados,

leríamos a mutilação, a dor

fantasma, o concreto, toxina,

o plástico nas narinas,

o afogamento, a despeito

das transparências

E nos olharíamos, os mesmos,

quase os mesmos, despojos

de dias gastos.

26


Chicos

Gisela Gracias

Ramos Rosa

Nasceu em Maputo (Moçambique). O seu primeiro

livro foi um diálogo de poesia com António Ramos

Rosa, Vasos Comunicantes (publicado em 2006).

Colaborou em várias Antologias e Revistas de poesia.

Publicou também entre outros As palavras

mais simples (2014) , O livro das mãos (2017) e A

pedra e o corpo (2018)

Estas mãos sonâmbulas transcrevem

tudo o que sonhei em vigília

Estendo os dedos e toco a página de um lugar

fado dialógico, extremo de minhas mãos.

Sou textura polifónica, luz sonâmbula

de um breve segredo em que me inscrevo.

27


Chicos

A Inez Andrade Paes

Está no corpo o centro do que ainda não tem nome

a dança contínua em projecção esculpida contra o vento

elevamo‐nos na promessa de encontrar essa linha ao meio

que em diagonais se configura e em movimentos se cumpre

por isso amamos toda a dança que no tempo esboça

o que ainda não tem nome

De: O livro das mãos (2017)

28


Chicos

Floema

...Solo natura subest... (Georgicon Liber II 49)

à Patrícia Portela

o anelamento na casca da árvore,

o floema —ou líber—segmentado,

impede o fluir da seiva elaborada.

poção concebida da luz do dia,

por varinhas de condão de verde ornadas,

quem olha de fora não sabe subindo

29


Chicos

da terra os sais e a água

de conjuração embebidos,

palavras de breu sem céu estrelado.

o anel à volta do tronco

futuros anéis faz cessar.

não orna, mas grava

em trincheira, expõe o xilema,

na lida de ázimo aquoso levar

à queima nas verdes fornalhas.

mas vala agora a doce seiva barra

no êxodo cujo pacto não permite muralha.

que inanes labores agora se travam?

sem luz adocicada que som se propaga,

senão o grunhir do martelo de lâmina,

o silente instrumento que é o cinzel?

logo uma cica se entoca no oco

das línguas, que de lamento e fel

no solo nodoso criam bruta saliva.

30


Chicos

línguas dantes conversantes não se suportam

sobe do breu maldição que os galhos soletram

cuspindo folhas decrépitas às costas da terra

a dita do escuro despida das falas do claro

ruído de mó cobrindo de pó um livro fechado

31


Chicos

Paschoal Motta

Nasceu em São Pedro dos Ferros (MG), mora em

Belo Horizonte (MG). Jornalista, Crítico de Literatura,

Professor universitário de Literatura Brasileira e

Linguística, Teoria da Literatura, Didática de Literatura

Portuguesa. Editor do Suplemento Literário do

Minas Gerais.

Saudação da primavera

Viaja no pólen do desejo

nas asas de abelhas operosas,

luz inteira, garça em azul;

volta do sempre, desde o gesto

inicial, desde a pedra e o musgo,

desde a fonte, desde a sede;

e chega: suas mãos destas vazias

velejam num remanso de lágrima,

por ausência e apelos repetidos;

luar na tarde, calma na estrada,

sonho de um sabiá protegido

na sombra de verde cantiga;

32


Chicos

nem sabia mais o gosto da polpa

da manga de vez das meninices,

cheiro roxo do capim-de-mel;

agora, encanto: a festa nas espigas,

e novo encontro, encantada manhã,

flor de primavera, seiva e raiz.

33


Chicos

Marcos Venícios de

Melo

Nasceu em Cataguases (MG), mora em Juiz de

Fora (MG). Poeta é autor de Chuvas e luas (2018)

Paraíso

Macondo não é minha Pasárgada.

Nem meu Shangri-la fica nos grandes sertões.

Meu Éden é banhado pelo Rio Pomba

E a árvore da vida floresceu

Onde hoje fica a concha acústica.

34


Chicos

Cato,

No chão das estradas

Onde trafego

Pedregulhos;

Tocos de pau,

Restos de animais

E

Alguma poesia perdida.

Tem dias que encontro:

Diamantes;

Madeiras nobres,

Fosseis pré-históricos

E

Ainda vou achar uma obra prima.

35


Chicos

Ao Sr. Ady

Um óleo sobre tela;

Uma tapeçaria;

Uma escultura em cerâmica;

Aço.

Uma fotografia

Um oratório em madeira

Uma peça de selaria.

Ando por exposições,

Museus e galerias

Paro diante de cada obra

E me pergunto:

Como Seu Adyr as faria?

36


Chicos

Flausina Márcia

Nasceu em Cataguases (MG) e mora em Belo

Horizonte (MG) onde trabalhou na Secretaria

de Cultura de Minas Gerais.

Publicou entre outros: Vagalume (2002), Sua

Casa Minha Cruz (2003) e Poemas Declives

(2014).

Pedipereipetos Pehupemapenos

POVO OVO VOO

NAVE AVE EVA

VIDA UVA VIU

VOVÔ IVO VIR

Ver a banda passar

Ir para Pasárgada

Rimar com Raimundo

Vasto Mundo

37


Chicos

Ambientalizado

Racializado

Mulherizado

Elegebetado

Raiz com profundeza

Própria para a superfície.

Agonia/19

38


Chicos

Alberto Pereira

Nasceu em Lisboa. É membro do PEN Clube

Português. Publicou: O áspero hálito do amanhã

(2008), Amanhecem nas rugas precipícios

(2011), Poemas com Alzheimer (2013), O

Deus que matava poemas (2015), Biografia das

primeiras coisas (2016), Viagem à demência dos

pássaros (2017). Em 2017, foi editado no Brasil

Bairro de Lata, na coleção Dulcineia Catadora.

Entre vários prêmios em 2018 Menção

Honrosa no Prémio Internacional de Poesia

Glória de Sant´Anna.

IV

Para Victor Oliveira Mateus

Caminho como uma fogueira no tempo.

Estão longe os dias

que pronunciavam o Louvre.

Tudo respira entre dois hemisférios:

um repleto de harpas e cotovias,

o outro,

hirto de mandíbulas e agónicas ficções.

O corpo,

antigo prado vigiado pela neve.

39


Chicos

Cultivámos o aroma da máscara

e a sensualidade está agora

ligada ao ventilador.

A minha mãe

que orava a Cesariny,

repetia a

Pena Capital.

Dorme meu filho

o amor

será

uma arma esquecida

um pano qualquer como um lenço

sobre o gelo das ruas

Abolimos a leveza

de encostar os lábios

e a nebulosa taquicardia

não deixa que a vertigem recite:

o teu corpo é o Guggenheim.

De súbito,

Agosto inala tumulto.

40


Chicos

Não entendemos

porque a Aurora Boreal

não continua a girar

à volta do nosso ego.

Como traduzir o Outono

onde a queda é definitiva?

O homem será sempre a partitura de um pântano.

41


Chicos

Ronaldo Cagiano

Nasceu em Cataguases, autor, dentre outros,

de Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília

de Produção Literária 2001), O sol nas feridas

(Poesia, Finalista do Prêmio Portugal Telecom

2012) e Eles não moram mais aqui

(Contos, Prêmio Jabuti 2016), vive atualmente

em Portugal.

Variação sobre um poema de Marçal Aquino

para Adeilton Lima

Outro dia

faleceu a puta mais antiga

da cidade.

Devorada por um câncer,

a quimioterapia rareou seus cabelos,

impingiu-lhe uma face esquálida

e a boca semiaberta e murcha

realçava a minúscula

povoação de dentes.

Seu tempo, um rol de incertezas.

Sua vagina, um cemitério de espermatozoides.

Jamais reclamou da sorte,

não teve patrão nem FGTS,

42


não falava mal dos políticos,

Chicos

respeitava as religiões,

pagava as contas em dia,

mas desconhecia o que foi

o maio de 68.

Em certa manhã de primavera

viram-na contemplando

os flamboyants da Avenida

como uma dama num quadro de Van Gogh.

Em um Natal distante

levou presentes às crianças do Orfanato

e assistiu à Missa do Galo

indiferente ao aço dos olhares,

à labareda dos comentários.

Gostava de jogar na loteria

na esperança de mudar de vida.

Enquanto seu enterro atravessava a cidade

o comércio não baixou as portas,

um taxista palitava os dentes,

um mendigo inventariava uma lixeira,

o engraxate sentado na barbearia

observava o comboio ferroviário

que invadia a cidade feito uma língua metálica

como tantas foram as que lhe roçaram a buceta.

Falavam que ela era amante

de um mandachuva da política,

mas nunca frequentou os clubes,

43


não saiu na coluna social,

Chicos

nem recebia convites

para as solenidades da prefeitura.

Restaram-lhe tantas rugas,

crateras de celulites,

feixes de pelancas pelo corpo,

corolário das entregas,

mas se importava mesmo

é com as cicatrizes na alma.

Votou sempre na Arena, mas amava JK,

não sabia o que era estadista,

mas chorou no suicídio de Vargas,

tinha medo de comunista,

ajudava ao asilo de idosos,

não passava debaixo de escada,

mas se confessava aos domingos.

Dizem que emprestava dinheiro,

detestava a servidão de gigolôs,

acompanhava a novela das oito,

era viciada em cibalena

e guardava um serrote,

lembrança do pai marceneiro.

Se amores teve, nunca disse seus nomes,

mas a foto de um galego de chapéu

dividindo espaço na penteadeira

com batons, esmaltes e brincos,

falava dos caminhos de um coração

44


tão distantes como a esperança

Chicos

que sempre a desacompanhou.

Morreu sem nenhuma presença,

sem vela nem orações,

a puta mais antiga da cidade.

Mas a enfermidade

da qual nunca se livrou

foi uma tristeza

escondida em suas vísceras,

a jornada na náusea da noite.

Um dia alguém quis saber

por que não teve marido nem filhos.

Outro, a razão de sorrir com tanta facilidade

apesar de seus desertos.

Mas de si não escondia

que a rotina e a maternidade

e uma vida feliz na COHAB

trariam o desgosto e o inferno.

Preferiu a rotatividade das camisinhas

e os gemidos clandestinos

a trocar fraldas e ouvir choros.

E sua coleção de Sétimo Céu

empanturrando as gavetas

tinha mais vida que a realidade.

Findou junto com o século a puta mais velha da cidade,

sem conhecer o novo milênio,

sem testemunhar o 11 de setembro,

45


nem os terremotos do Japão

Chicos

e também não sabia

que na Abbey Road, em Londres,

há a faixa de pedestres mais famosa do mundo,

mas dentro dela outras

tragédias se passaram.

Morreu num dia sem jogo

com botequins vazios

e as unhas por fazer,

sem meninos brincando na rua,

sem foguetes estourando nas vilas

e os porcos de dona Alzira

cevando no chiqueiro.

Numa tarde comum

com a solidão de nuvens carregadas,

roupas mergulhadas no anil,

a felicidade apequenada nos becos

que impunham aquele mesmo vazio

com que as árvores

sabotam as ruas no outono

e desfolham a alegria das meretrizes.

46


Uma noite na GalArt

Chicos

Ronaldo Werneck

Nasceu em Cataguases. Poeta e jornalista, colaborou

em vários jornais e revistas cariocas. Publicou

entre outros os livros: Poesia - Selva Selvaggia

(1976), Pomba Poema (1977), Minas em mim e o

mar este trem azul (1999) Minerar o Branco (2008),

Cataminas Pomba e outros Rios (2012) e O Mar de

Outrora e Poemas de Agora (2014). Prosa - Há Controvérsias

1 (2009) , Há Controvérsias 2 (2011), Rosário

Fusco por Ronaldo Werneck/ Sob o signo do

imprevisto (2017) e o ensaio biográfico “Kiryrí Rendáua

Toribóca Opé” Humberto Mauro Revisto por

Ronaldo Werneck

Cataguases, 29 de outubro de 1983:

o marchand Cairu Teles organiza uma grande

noite de lançamentos de livros com escritores

da terra na GalArt: Lina Tâmega Peixoto

(“Entretempo”); Francisco Inácio Peixoto

(“Chamada Geral”);

Francisco Marcelo Cabral

(“Inexílio”); P.J.

Ribeiro (“Muralhas

Humanas, os Dragões

e Visuais”; Ronaldo

Werneck (“Selva Selvaggia”

e “Pomba Poema”);

Joaquim Branco

(“Concreções da Fala”);

Plínio Filho

(“Leções de Vida”); e

M á r c i a C a r r a n o

(“Zeroversus”).

Do Rio de Janeiro viriam Luiz Linhares

(“Desencontros de Harvey”); Victor Giudice

(“Os Banheiros”); Jair Ferreira dos Santos (“A

Faca Serena”); Fausto Wolff (“O Acrobata Pede

Desculpas e Cai”). Esses acrobatas

“estrangeiros” – a exemplo de Francisco Marcelo

Cabral, P. J. Ribeiro, Plínio Filho e Francisco

Inácio Peixoto (que já havia “saído de cena”)

– pediram as devidas desculpas e caíram,

quer dizer, não vieram.

Em outubro de 2002, Cairu Teles organizou

um número todo do jornal GalArt sobre este

prestidigitador aqui, este que vos prestidigita –

e me fez uma surpresa: colocou uma foto que

eu desconhecia com algumas das presenças

daquele lançamento

de 1983. Estavam lá e

estão aqui agora, impávidos,

perfilados da

esquerda para a direita:

Márcia Carrano,

Lina Tâmega Peixoto,

Ronaldo Werneck, o

cineasta Sylvio Lanna,

Joaquim Branco, o

professor José Silva

Gradim e o próprio

Cairu.

Assim que vi a foto “cometi de imediato” um

poema-legenda para ela, (in)devidamente inédito

até hoje. E que agora publico em homenagem

ao meu amigo Cairu Teles, falecido recentemente.

Cairu, como Francisco Marcelo Cabral,

Luiz Linhares, José Silva Gradim, Victor

Giudice e Fausto Wolff, queridos comparsas de

vida e literatura que também já caíram do trapézio.

E sem rede. Vejam o poema a seguir.

47


Chicos

Legenda

em sépia e sempre

tanto tempo

e essa ausência

na curva cataguáis

chico peixoto

não mais

nem linhares

nem giudice

enfim

indesculpáveis acrobatas

fausto wolff

trapézio que não veio

nem chico cabral

nem jair ferreira

nem plínio filho

nem

nem p.j.ribeiro

mas nós

esses sós desatados

que, sus!, saltam do pomba

e da foto e da ponte

onde

márcia

lina

mais eu

48


Chicos

e sylvio lanna

e quincas

e um branco

sorriso

e gradim

e cairu

– sus!

sós no rio

indesculpáveis acrobatas

caímos

e sobre as águas da mata

andamos

sol que cega e arrebata.

Cataguases, dez/2002

49


José Vecchi de

Carvalho

Chicos

Nasceu em Cataguases, após morar por muito

tempo em Viçosa vive hoje em Paula Candido

todas cidades mineiras. Coautor de A casa da

Rua Alferes e outras crônicas (2006), e autor de

Duas Cruzes (contos 2018).

Dentim

Não tive escapa. Ele veio direto em cima

de mim, véio, balançando o corpo, já tava

daquele jeito. Tive que enfrentar a zoeira no

meu ouvido, a lengalenga de sempre, porra,

a receita médica na mão, o bafo da birita e o

pedido de uns trocados. É foda, Dentim tinha

aquela mania de chegar bem perto, falar

e pôr a mão no ombro da gente. Não deu

outra, pra fugir do bafo e da chuva de cuspe

abri a carteira e dei logo uma nota de dez.

Fez um “tinindo” e saiu todo todo.

Fiquei olhando ele cambaleando pela calçada.

Eu já sabia aonde ia se meter. Ainda

tentou parar o próximo que vinha na correria.

O cara desviou, nem deu confiança. Dentim

tava acostumado com isso, seguiu em

frente mostrando a receita pra todo mundo

que passava. Era umas sete e meia. Ele contou

a grana, atravessou a rua e sumiu. Foi

pras quebradas atrás de uma brita, sacou?

Zanzava por aqui há um ano, mais ou menos.

Antes andava por outras bandas, onde

rolava mais grana, mas puseram ele pra correr

de lá. De vez em quando eu pago um

rango, de dia, quando ele tá legal ainda. Aí

ele é caladão. Come e vai sem encher o saco.

Mas gosta mesmo de ganhar um money

pra pedra e pra cachaça.

Eu lembro dele de muito tempo, jogava

fácil, mas fudeu o joelho, véio, já era. Isso

aqui era uma vila, umas casinhas simples, ele

morava depois do final da rua, num barraco

no meio do pasto. O dono vendeu as terras e

agora é shopping, padaria, escola, banco,

prédio e mais prédio. Aquelas casinhas, já

era. Os lotes vagos, também. Bicho andando

na rua de noite, não tem mais isso, cara.

50


Chicos

Agora é gente pra lá e pra cá, correria, ronco

de carro, moto, sirene, e o caralho a

quatro. Olha só a calçada, porta de banco,

de loja, tudo lotado de gente pedindo, uma

doideira. Fico pensando, mas não entendo

essa porra. E ainda por cima tem a turma

do Dentim. Tá foda. Eles tão dando mole

porque tem uma galera aí barra pesada que

tá de bronca, já viu, né, cê sabe como é.

Eu não ligo, saio do banco no fim do dia,

ajudo um ou outro. Fico em paz com Deus

e com eles. Minha política, sacou?

Mas olha só, não falei dos barra pesada?

na mosca, naquele dia mesmo, cheguei

em casa, tomei um banho, dei um tapa

num beck e fiquei de boa na TV. Aí horrorizei,

cara, o jornal mostrou que um carro

passou lá na boca, cuspiu bala e saiu cantando

pneu, dois no hospital, seis no chão.

Foda, Dentim tava lá, cara, se fudeu, já era.

Agora nem receita, nem birita, nem porra

nenhuma. E eu dei dez reais pra ele no dia,

cara, tô mal, é foda. Não é porque morreu,

véio, mas o cara era gente boa, né não?

51


José Antonio

Pereira

Chicos

Nasceu em Cataguases MG, é coautor de A

casa da Rua Alferes e outras crônicas (2006) e

autor de Fantasias de Meia Pataca (2013).

Ô Glória!

Naquelas trilhas abertas, chão batido

pelo ir e vir dos moradores, via-se o avermelhado

da bauxita. Seguiam em tortuosas

paralelas a estrada de ferro, cruzando aqui e

ali seus trilhos. Caminhos que enveredavam

para além da ferrovia. Subia até a pitangueira

do alto do pasto do Zé de Barros; zanzava

pela margem do fedorento rio Meia Pataca

até a represa da fábrica de papel. Aqueles

moleques conheciam tão bem aqueles estreitos

e variados caminhos que mesmo no breu

da noite e com o mato já na altura do peito

andavam e, correriam se necessário fosse,

com a desenvoltura de quem os percorria várias

vezes ao dia. Os três amigos de estripulias,

Japonês, Pedrão e o moleque Ivo, irmão

de Pedrão, atravessavam o pontilhão sobre o

rio. Ivo é quem interrompe as risadas dos

dois mais velhos sobre o último dos malfeitos.

– A luz da Glorinha está acesa. Pedrão

retruca, – Tem visita! Ao que Japonês emenda.

– Dou a bunda se não for o coroa lá da

praça. – E alguém vai querer esta tua bunda

magra, ô Japa! Retruca Pedrão. Japonês reage,

metem-se numa discussão recheada de

ofensas recíprocas, entremeada de empurrões

e peitadas, parecem dois galinhos ensaiando

uma briga pelo terreiro. Ivo é que os chama

às falas. – Ô panacas! Estão se esfregando

por quê? O que emputecera Japonês, era Pedrão,

de forma chula, o lembra-lo que a mãe

era amante de um goleiro afamado na cidade.

Depois de trocarem desculpas, dão tudo

por esquecido. Seguem em linha reta pelo

meio dos trilhos na direção da estação, passam

pela chave do desvio que faz a curva

para a direita, onde fica a casa de luz acesa.

Param, olham, o Chevrolet preto reluz por

traz das amoreiras, – É, o veio taí. E Ivo rindo

muito. – Então não vai ter que dar a bunda.

Que alívio em Japô. E outro bate-boca

segue pelos trilhos.

– A filha da falecida dona Clementina é linda.

Diziam todos os homens. Seu nome de

pia era Maria da Glória. Mas na vizinhança

só se ouvia, Glorinha é uma sem juízo... Glorinha

é uma pecadora... um péssimo exemplo

para as meninas mais novas. Muitas vezes de

forma rude alguma velha carola e recalcada

soltava o verbo, – A amante do velho endinheirado?

Aquilo é uma puta, vagabunda,

tinha que tá enfiada em alguma zona, não

aqui perto de nós, gente de bem e temente

52


Chicos

a Deus. Na casa de Ivo e Pedrão, eles eram

os vizinhos mais próximos de Glorinha, não

era diferente. A mãe, como as mães de seus

amigos em suas catequeses, construía a fé

no medo. E aí a moça era sempre citada ora

como a maior pecadora do beira-linha, ora

como a materialização do chifrudo encarnado.

Apesar do medo, a molecada insistia na

festiva cata de amoras para chupá-las trepados

no muro da amante do doutor.

Ivo, pirralho em que já surgia uma penugem

pelo corpo, ainda conserva uma certa inocência,

adorava catar amoras no quintal da

vizinha, além do quintal ele estava, sempre

que podia, enfiado na casa. Glorinha sempre

atenciosa e sorridente. Generosa, oferecia

uma farta mesa de biscoitos e alguns pedaços

de bolo, coisa rara na casa de todos. Ela

não tinha filhos e dava a atenção que nenhum

deles tinha de seus pais. Delicada, ensinava-os

a se portar na mesa, lavar as amoras

e as mãos antes de comê-las. Até que,

por volta das duas horas da tarde, educadamente

convidava todos a sair. – Meninos,

agora é hora de voltarem para casa, suas

mães devem estar preocupadas com vocês e

eu tenho que receber uma visita. Ivo estranhava

aquilo tudo. Como uma pessoa tão

chique, boa e bonita podia ser a encarnação

do diabo. Aquilo roía a cabeça do moleque.

Numa tarde de domingo, sol quente, ruas

vazias, só se escutava os rádios ligados

transmitindo algum jogo de futebol lá do Rio

de Janeiro. Quem não estava interessado no

jogo, tirava uma soneca depois de um pesado

almoço de domingo. Outros, provavelmente

estariam lá no campo do Flamenguinho

ou no Manu assistindo ao estiloso goleiro

da mãe do Japonês em ação. Solitário,

Ivo catava amoras trepado no muro da casa

de Glorinha. De lá vinha uma música, ... por

isso esta força... estranha no ar... Ao puxar

um galho, vê Glorinha completamente nua,

através da janela aberta, secando seus longos

cabelos. Nunca vira uma mulher nua, a excitação

é imediata, sente algo até ali inimaginável,

as reações do corpo estão fora de

controle. Nervoso, sem entender aquela força

estranha que sacudia seu corpo, não desgruda

os olhos da mulher, nem consegue

mais ouvir a voz do Roberto Carlos. De repente,

explode o gozo.

Recomposto, faz a volta ao redor do muro

até chegar à cerca de arame farpado por onde

sempre entrava no quintal da casa. A porta

da cozinha, como sempre, encontra-se

aberta, isto, só, quando o visitante não está.

– Glória? Ô Glória, é o Ivo. E a voz vem lá

de dentro, – Um instantinho, tô indo. É só

acabar de me aprontar. Ivo senta no degrau

da porta, ainda não tomou tino do que aconteceu

com ele. Tenta entender aquele terremoto

que lhe sacudiu, lembra da primeira

vez que o peruzinho ficou retesado, outra

ocasião um tantinho, quase uma gota, de um

liquido feito óleo, mas agora veio tudo junto,

muito doido. – Mas foi gostoso. – Uê

Ivo, o que foi gostoso? Ele se assusta, – Ô

Glória! Fica de pé e explode pela cara uma

vermelhidão que arde como o sol do meio

dia. Glorinha sorri, . – Te assustei né? Ela o

abraça, a cabeça fervilhante entre os peitos

sente a alfazema queimar as narinas. Ele

pressente que a mesma força estranha vai

incendiá-lo novamente. Ele se desvencilha

dos braços dela, sai a galope, passa pela cerca

e só para de correr no pontilhão. Entra no

vão da estrutura metálica e vai até o pilar de

pedras rejuntadas por cimento, onde em sua

base correm as águas do Meia Pataca. Lá de

cima fica olhando as águas em redemoinhos

onde as margens se alargam, e em seguida

se estreitam fazendo uma curva à esquerda

para não trombar com o morro da pitangueira.

Aquele movimento tranquilo das águas o

acalma. Lembra das conversas do Pedrão

com a molecada sobre sexo e mulheres, recheadas

de machismos e um contarvantagem

sem fim. Um tempão por ali, deulhe

uma certeza. – Agora sou homem.

53


Chicos

Durante alguns dias, atormentou-lhe um

misto de euforia pelas possibilidades de prazeres,

que tanto ouvia o Pedrão e o Japonês

falarem e o medo das punições divinas apregoados

pelos pais moralistas. Tentando pôr

ordem naquela confusão em sua cabeça, começa

a refutar o moralismo dos mais velhos.

– Mais que merda! Tudo é pecado. Glorinha,

nua, começa a tomar conta dos seus

pensamentos. Por onde ele vai ela está presente,

sempre nua com os dedos das duas

mãos delicadamente percorrendo os cabelos

e a imaginação criando outros movimentos.

Uma noite sonha com ela entre as amoras,

esfregando amoras pelo corpo e ele louco

para abraçá-la e beijá-la. Bruscamente é

acordado pelo irmão. – Vamo cara! Tá

na hora, vai perder a aula. Levanta às pressas.

O irmão caçoa. – Tesão de mijo? Se dá

conta da ereção e sem graça atira o travesseiro

no irmão, que está as gargalhadas. Por

onde anda, não consegue se concentrar em

nada. Na escola e até na igreja a mulher nua

vai ocupando todos os cantos de sua mente.

Com quem falar sobre aquilo? O pai, a mãe,

um amigo, o irmão? Sabe que qualquer um

deles vai tripudiar em cima dele. Os pais

são conservadores, o pai então, seria capaz

de uma surra se soubesse que ele insinuara

uma conversa destas com a mãe. Os amigos

e o irmão iriam gozá-los por um bom tempo.

Acha que a solução é se abrir com alguém

mais distante e respeitável.

Com a inocência dos puros resolve se confessar.

Impaciente, não dá nenhum tempo e

dispara, – Tô apaixonado por uma mulher.

– Você é uma criança. Está gostando de alguma

menina, né? – Não! Já disse. É uma

mulher. – Um moleque de calças curtas como

você, não sabe nem o que está falando.

– Ela não sai da minha cabeça. – Como não

sai? O que aconteceu? Todo o ensaio para

conseguir falar, desanda. A segurança das

primeiras palavras desaparece. Não sabe

mais o que falar. A pergunta insiste, – O que

aconteceu? O medo o paralisa. Já sabe de

cor e salteado qual será o conselho do padre

velho e conservador. Não tem solução. Aquilo

será seu segredo. Levanta do confessionário

e sai correndo igreja afora. Atravessa a

porta. Vira à esquerda e com o pé na rua escuta

trovejar a voz do padre. – Ô menino,

volta aqui!

54


Chicos

Andressa Barichello

Nasceu em São Paulo - SP, atualmente mora

em Portugal. É autora do livro Crônicas do Cotidiano

e outras mais (Scortecci, 2014). É cofundadora

do projeto fotoverbe-se.com.

Loucura

Quebrei uma taça. Ou a taça foi

quebrada por um saco de pão de forma.

Não sei. O armário, alto, vive cheio de comida.

E a preguiça, grande, faz da bancada

o lugar das taças sujas. As xícaras e copos

vão para a pia ou para a máquina de

lavar. As taças ficam, como se o vinho, ao

contrário do café, do leite e do refrigerante,

pudesse esperar uns dias, fosse água.

As coisas pesadas, como latas, nunca

causam problemas - ao menos não esses,

de queda. Alguns pacotes de bolacha, retângulos

em quatro apoios, também não:

ficam firmes. O perigo, mesmo, está no

mais cotidiano: sacos de arroz, feijão e

pão de forma estão sempre prontos a tombar.

A instabilidade tem afinidade com o

básico em qualquer circunstância.

Prova disso é que se estivermos tristes

ou aflitos a primeira coisa que acontece é:

a gente não dorme, não come, não caga e

não trepa direito. Dentro do meu armário

tudo trepa: nozes em cima de sucrilhos,

sucrilhos em cima de molho bechamel,

chocolate em cima de macarrão. Às vezes

é preciso empurrar, como as pessoas que

ainda desejam entrar no vagão fazem

quando o trem já está lotado. Como eu,

hoje, tentando entrar numa calça P. Embora

haja diferença entre a precariedade que

nasce das pilhas e a unidade que nasce

nos apertos de corpo contra corpo.

Foi essa precariedade que já fez com

que o arroz tombasse. Faz tempo. Nada

grave. Não alçou vôo livre, tombou dentro

dos limites seguros da prateleira mesmo,

os grãos percurtindo ao tocar o chão. Era

como se noivos tivessem passado. Varri

um fim de festa.

O feijão, se caísse, eu imaginei naquele

dia, seria a sensação de um fio quando escapam

contas, bolas de gude. Se pisados,

nos pés uma cócega, estimulados pontos

de acupuntura. A acupuntura, aliás, é ótima

para evitar problemas com dormir, comer,

cagar e trepar, porque é, como dizem,

um tratamento holístico. Eu acredito

muito no holístico mas nunca pude ter sobre

o meu armário uma visão, digamos,

integral. Senão talvez tivesse sabido que

não bastava preencher a soma dos espaços

vazios. Mas enquanto a gente fantasia que

seria o feijão, quem tomba é o pão.

Durante toda a minha adolescência vivi

preocupada com a saúde da minha mãe,

com medo que ela tivesse uma doença

55


grave como a mãe de uma amiga teve.

Mas quem ficou doente foi o meu pai,

que não pegava nem gripe. O destino é

sempre a viagem nunca feita pela fantasia.

Um armário de cozinha é, aliás, como

uma mala de viagem. E eu sempre soquei

tudo nas malas de viagem, fiz do zíper

um cabo de guerra, sentei em cima, forçando

caber, como as pessoas atrasadas

no vagão, como as minhas coxas nas pernas

P da calça.

Minha amiga, a da mãe que teve uma

doença grave, sugeriu cortar o pão pra

caber na calça. É tão estranho que o caber

seja quase sempre alguma coisa que

exige subtração e não soma. Cortei o pão

e o saco ficou dentro do armário. O pão,

se caísse, vinha abaixo fechado. Tombava

e eu reerguia. Tombava e eu reerguia, assim,

com a displicência de um abaixa e

levanta. Se o saco de pão pensasse, talvez

caísse de propósito em cima da taça, caísse

hoje, bem hoje que eu não o quis. Mas

não pensando, caiu do mesmo jeito. A

maioria das coisas que acontecem é fruto

de intenção nenhuma. A gente acha que

as pessoas estão fazendo as coisas pensando

na gente só porque elas nos acertam.em

cheio e elas só estão caindo como

um saco de pão cai sobre a única taça

que havia, vingativo como quem ameaça:

se eu cair levo alguém junto.

Não ouvi a ameaça. Mas recebi uma

ameaça.

Chicos

É que desde que eu soube da história

de uma mulher que enlouqueceu depois

de quebrar sem querer alguma coisa de

vidro dentro de casa, tomo cuidado redobrado,

principalmente com o espelhinho

de aumento que deixo no criado mudo

com uma pinça em cima. Meu espelho

fica sempre no centro, longe das pontas,

mais à esquerda do pendente de teto que,

se cair, não acerta o objeto onde vejo

meus bigodes. Tenho a mania de me preocupar

com coisas improváveis como um

pendente de teto ou a possibilidade de

enlouquecer com a quebra de objetos de

vidro. Por isso deixo o pão a perigo, deixo

a taça a perigo. E coisas caem e quebram

debaixo dos meus bigodes. E o medo

continua a ser horror e fascínio.

O som da taça no chão é como o de

uma janela atingida por uma pedra. Mas

nada de novo invade a minha cozinha.

Esses cacos são fruto do que já estava. E

o mocinho dorme no quarto. Varro, recolho,

ajoelho. No silêncio confesso baixinho

os meus pecados, os meus descasos,

a minha displicência. Mas ele desperta,

surge na porta coçando os olhos e

diz: Isso acontece, não adianta se crucificar.

Pão e vinho. Não tem coisa mais profana

que transubstanciar a loucura no

corpo e no sangue das palavras.

56


Chicos

Vanderlei Pequeno

Nascido em Cataguases MG, músico, compositor,

escritor e ativista cultural Autor da Lei Ascânio

Lopes (Lei de incentivo a cultura de Cataguases)

Escreveu entre outros: 50 Casos do nosso

futebol, Casos e acasos e coautor de A Casa

da Rua Alferes

A Fina Flor de Noel

“Mas você é mesmo artigo que não se imita

Quando a fábrica apita faz reclame de você”.

Tenho comigo a edição do Jornal Cataguases

de 14 de novembro de 2004. A página

3 traz uma matéria dando conta do falecimento

da senhora Josefina Teles Nunes, a

Fina, 90 anos. O texto, embora não esteja

assinado, sei, é de autoria da jornalista Vera

Maciel e faz o registro desse acontecimento

ímpar em nossa cidade. Fina era mãe do

Marchand Cairu Teles que, já há algum tempo,

aportou em Cataguases e por aqui ficou.

É nosso velho conhecido. Josefina foi –

Ave! – musa inspiradora de Noel Rosa, o genial

compositor brasileiro dos anos trinta do

século passado.

Rememoro agora o dia primeiro do

mesmo mês quando Cairu, atabalhoado, parou

seu carro no meio da rua e me informou

da morte de sua mãe. Estava visivelmente

abatido e em pranto. Situação constrangedora

e comovente. Fiquei de repassar a notícia

e o horário do sepultamento aos escritores

Emerson Cardoso e José Antonio Pereira.

Nada mais a dizer naquele momento.

Fui depois à capela contígua ao cemitério

e encontrei Fina pela primeira vez. Estava

composta, tez maquiada e de batom, como

se preparada para algum momento especial:

uma viagem, um encontro, um aniversário,

um casamento. Parecia resistir à submissão

da morte. Havia poesia no ar, mais sugestão

de vida do que expectativa de partida, tristeza,

despedida. Aquela viagem sugeria realização,

acabamento fino, brilho. Ali estava a

inspiradora de pelo menos uma composição

do Poeta da Vila: “Três Apitos”, uma pérola

do nosso cancioneiro popular. Questioneime:

Por que pesar, lágrimas, compressões

emocionais?

57


Chicos

Num volteio pelo centro da cidade,

convenci-me de que ninguém ainda havia se

apercebido da importância desse fato histórico,

poético, quase idílico. Nossa atenção para

as questões culturais precisa sair do limbo;

a flor de que necessitamos para compor melhor

o nosso jardim ainda não brotou. Por

outro lado, purgamos o nosso ócio nas esquinas,

praças e cafés, dando conta do comportamento

alheio, mascando infortúnios,

indignando-nos com a mesmice pública,

num flagrante e bestial processo de transferência

psicológica coletiva que só mesmo

Freud explica. Fico imaginando quão longe

está a cidade que almejamos construir. Recorro

a Guimarães Rosa: “Mais que momentos,

precisamos de eternidades”.

Retornei à capela ainda antes do sepultamento.

Risquei num papel alguns versos da

canção de Noel (Sou do sereno, poeta muito

soturno / vou virar guarda noturno e você

sabe por que / Mas você não sabe que enquanto

você faz pano / faço junto do piano

esses versos pra você.) e pedi a Cairu que os

depositasse no ataúde, ao lado do corpo da

mãe. Dei-me por realizado. Fina que levasse

consigo aqueles versos que, em verdade,

eram seus.

Uma chuva, traspassada pelos raios de

sol daquele primeiro de novembro de dois

mil e quatro, parecia jorrar minúsculos cristais

sobre a tarde. Breve estio, grave caminhada

entre sepulturas. Dois trabalhadores

municipais, abstraídos, deitaram na campa o

esquife da “Beatriz” de Noel, numa cena patética,

mas cheia de dignidade aos nossos

olhos. Chorando feito uma criança, Cairu,

“O Menino da sua Mãe”, agradeceu a nossa

presença e acolhida em Cataguases.

-Imagine!

58


Antônio Jaime

Chicos

Soares

Nasceu em Cataguases - MG, lá na Chave.

Participou de um dos movimentos culturais

mais ativos dos anos 60 em Cataguases, o CAC.

Depois de morar um longo tempo no Rio de Janeiro,

onde entre outras foi redator de publicidade.

Retornou a Cataguases direto para a Vila.

Poeta e cronista publicou Pedra que não quebra

(crônicas - 2011)

Presença espírita e lembrança de índios

Como parte das comemorações pelos

110 anos do Centro Espírita Paz, Luz

e Amor foi lançado o livro Movi­mento

Espírita de Cataguases, autoria conjunta

de Alcides Gomes Oliveira e Marlene Rodrigues

de Lima, com prefácio de Luciano

Alencar, de Barbacena.

Obra que resume a história do espiritismo,

com maior destaque para sua

atuação em Cataguases e arredores. Valiosa

documentação, mesmo para quem

não professa a crença espírita. Um exemplo:

não há como não ficar indignado ao

tomar conhecimento da intolerância à prática

do espiritismo, nas primeiras décadas

do século vinte, em nossa cidade. A polícia

invadia as casas onde realizavam as

reuniões, o que levou os espíritas a adotarem

uma estratégia: alguém ficava do lado

de fora e dava o sinal, caso os policiais

se aproximassem. Então, a reunião era

interrompida e os participantes punhamse

a jogar baralho.

Algumas pessoas se benziam ao

cruzar com um espírita, até ensinavam as

crianças a cuspir, ao passar pelo Centro.

Bem mais tarde, em 1941, ainda havia

perseguição, a ponto de o ditador Getúlio

Vargas ter proibido o espiritismo no Rio

de Janeiro, então capital federal. Depois,

voltou atrás e permitiu as reuniões, desde

que na presença de um agente da polícia.

Entre outros contratempos, um grande

desafio, em Cataguases, foi a criação do

albergue noturno, por uma única razão: a

ideia partiu dos espíritas, e isso era inconcebível.

Por fim, houve entendimento, a

Indústria Irmãos Peixoto doou o terreno,

os ânimos arrefeceram e hoje o albergue

continua a cumprir seu papel humanitário,

mantido pela prefeitura.

Entre muitas histórias, o livro lembra

os desmandos dos primeiros desbravadores

da região, que incluíam a perseguição

implacável aos índios, e muitos deles,

os que escaparam, refugiavam-se nas redondezas.

Informação que me levou a entender,

finalmente, o trecho do Hino Cataguasense,

que diz: “Vai longe o tempo

nefário...”. Tempo das febres, castigos

para escravos e matança de índios. Não

por acaso, há no livro um caso narrado

59


Chicos

por Eva Vital Ruzze, de Guidoval, que co

­nheceu índios, por volta de 1950, ontem

mesmo, do ponto de vista da História:

“Havia índios puris que moravam na

serra e, nos fins de semana, passavam

em nossa casa, trazendo café, em lombos

de burros, pra trocar por outros mantimentos.

Andavam descalços, com roupas

mal feitas, muito malvestidos, era de dar

pena. Morenos de olhos claros e cabelos

escuros e lisos, envergonhados, nem sequer

olhavam pra nós. Se lhes oferecia

algo, aceitavam, e ficavam longe, de tanta

timidez. Suas terras só produziam café.

Em frente à nossa casa tinha uma

cruz. Conta-se que um índio morreu de

febre preta e o padre não deixou que fosse

enterrado no cemitério, foi então enterrado

ali na beira da estrada. Também

conheci Maria Mirna, índia puri. Meu pai

dizia que tinha várias mangueiras e vendia

mangas ainda verdes e ela mesma as

colhia. Andava sempre a cavalo e diziase

que morreu com 104 anos”.

Sobre a timidez de que fala Eva,

pode-se interpretar como um ato instintivo

de defesa, levando em conta o massacre,

quase extinção, da raça, pela ganância

do homem branco. Quanto a mim, só

conheci dois, tendo sido apresentado, no

Rio, ao cacique Raoni. E no Mato Grosso

do Sul, morei próximo à rodoviária de

Campo Grande, onde vez ou outra tomava

uma cerveja. Numa delas, um índio

sentou perto. Pediu laranjada e um pedaço

de bolo, comida de branco que, para

ele, deveria ter um sabor todo especial.

Perguntei se a tribo ficava perto. Sim. Se

era possível visitá-la. Sim. Para onde estava

indo? Brasília. Chegou seu ônibus,

pagou a conta e me deu as costas.

Achei divertido, lembrando que

algumas crianças, na sua pureza de espírito,

também agem dessa maneira.

60


Chicos

De Bucéfalo ao Acéfalo

Bucéfalo, o cavalo de Alexandre, suportava

seu destemido dono nas frenéticas

investidas de conquistador mundo afora.

Não reclamava. Tinha curiosidade sobre os

diferentes tipos de pasto que ia conhecendo

ao longo das planícies e estepes helenizadas.

As éguas persas eram interessantes. Já as

hindus eram matreiras: ao perceberem o interesse

do macho, aguardavam ele se posicionar

para então darem coice. Mas Bucéfalo

entendia, pois ele mesmo havia dado certo

trabalho. Não queria ser montado ou domado

de jeito maneira. Aquele cavalo das estepes

dos Urais, presente de Filipe II da Macedônia

ao filho, era presente de grego. Reza

a lenda que tinha medo de sua própria sombra.

Quem viu o filme do Oliver Stone sabe

como Alexandre fez para o domar. Quem

não viu pode ler no verbete da Wikipedia.

Depois de morrer em batalha, Bucéfalo foi

imortalizado por Alexandre na cidade de Bucéfala,

no atual Paquistão.

De tantas andanças, a montaria de Alexandre

disseminou seu material genético de

garanhão reprodutor. Sempre foi raça difícil

de domar e adestrar, mas com um pendor

por chefes de estado. Os generais que repartiram

o império após a morte de Alexandre

também se encarregaram de manter os quadrúpedes

ativos nas diversas guerras intestinas

e nas fronteiras de cada domínio. Herdeiros

da estirpe imperial chegaram a colônias

helênicas na Itália, e de lá para regiões

do império agora romano, como a Hispânia.

Genitor, cavalo de César na conquista da Gália,

era descendente daquele que temia sua

própria sombra. Incitatus, nomeado senador

por Calígula, havia sido trazido da Hispânia.

O impetuoso quadrúpede chegou a ser considerado

para o cargo de cônsul pelo não menos

impetuoso imperador.

61


Chicos

A raça perdurou, apreciada por conquistadores,

como Carlos Magno e Carlos V.

Uma das vertentes foi levada à América por

Cortez, e a prole se espalhou pelas pradarias.

O general Custer os adorava, pois eram fortes

e velozes. Os Cheyenne também, pelas

mesmas razões. Quando as tribos lideradas

por Crazy Horse trucidaram Custer e seu regimento

em Little Bighorn, o único sobrevivente

da cavalaria foi um equino chamado

Comanche. O exército o aposentou com todas

as honrarias. Nunca mais foi montado, e

adorava beber cerveja. Seu funeral foi repleto

de pompa e hoje Comanche está empalhado

num museu.

Destino menos feliz teve Hans, o cavalo

esperto. Seu professor, o alemão Von Osten,

dedicara-se a ensiná-lo a realizar operações

aritméticas. Hans na verdade aprendera a ler

a linguagem corporal do dono para saber

quando tinha de parar de bater a pata ou inclinar

a cabeça e assim dar a resposta esperada.

Apesar do sucesso, o exército do império

alemão, talvez por não prezar tanta esperteza

num equino, acaba por alistar Hans para

a I Guerra Mundial, e este morre em combate

em 1916. Seu fim foi um pouco diferente

do de Comanche, sua carne tendo sido consumida

pela tropa faminta nas trincheiras.

Hans talvez tenha sido o último descendente

direto da linhagem de Bucéfalo, que chegou

muito alterada a nossas paragens verdejantes.

O alazão tupiniquim suspeita-se seja um

cruzamento do cavalo imperial com a linhagem

de Rocinante, o cavalo de Don Quixote,

trazido por camponeses espanhóis para a Plata

e depois cruzado com raças aculturadas

pelos portugueses. Ainda assim, o pangaré

traz o mesmo traço genético do seu nobre

ancestral, de ter medo da própria sombra, e

detestar ser montado, exceto por gente bélica.

É muito apreciado pelos militares brasileiros,

que apaziguam a fobia do quadrúpede

instalando viseiras. Dado o terreno vastamente

irregular do ambiente local, o cavalo

exacerbou alguns dos traços do ancestral.

Chucro, duro para galopar, não trota, relincha

à bel prazer, dá coice à torto e a direito,

morde, e adora empinar para derrubar seu

cavaleiro. A fobia de sombra fez de sua

mente um matagal de conspirações e paranoias.

Parece até que viu a mula sem cabeça.

Atesta-se que um expoente atual da raça,

Roçonalbo, possui três rebentos que não

fogem às características do progenitor. Juntos,

se cooptados pelos quatro cavaleiros do

apocalipse, não fariam feio: cumpririam a

missão com louvor. Eles eram muitos cavalos,

mas esta cavalgadura é nossa.

62


Luiz Ruffato

Chicos

Nasceu em Cataguases MG, mora em São Paulo

SP. Entre tantas obras de sua autoria destacam-se:

Eles eram muitos cavalos, de 2001,

ganhou o Troféu APCA oferecido pela Associação

Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio

Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.

Esse livro o tornou um escritor reconhecido

no país. Em 2011 concluiu o projeto Inferno

Provisório, com a publicação do romance

Domingos Sem Deus, iniciado com Mamma,

son tanto Felice em 2005, composto por cinco

livros sobre o operariado brasileiro.

Lendo os Clássicos

Short cuts - Cenas da vida

Raymond Carver (1938-1988) - Estados Unidos

Tradução: : Rubens Figueiredo

Rio de Janeiro: Rocco, 1994, 179 páginas

63


Chicos

Este volume, que reúne 10 contos, escolhidos

pelo cineasta Robert Altman, retrata excelentemente

bem o universo típico do Autor e

sua visão de mundo. As histórias contemplam,

na maioria das vezes, famílias de classe média,

preocupadas com questões bastante concretas,

ligadas à sobrevivência mais comezinha. As

narrativas flagram momentos singulares de

suas vidas cinzentas, ou seja, situações em

que a precária estabilidade - financeira, emocional

- parece desmoronar. O curioso é que,

para o Autor, esses instantes - que James

Joyce (1882-1941) chamava de epifanias, termo

tomado do vocabulário religioso - não são

iluminações que transformam o sujeito, como

compreendido pelo Autor irlandês, mas, ao

contrário, apenas evidenciam a terrível armadilha

ontológica na qual o ser humano está preso.

Ou, como afirma Claire, protagonista de

"Tanta água tão perto de casa": "(...) certas

coisas à nossa volta vão modificar-se, ficar

mais fáceis ou mais difíceis (...), mas nada vai

ser realmente diferente, nunca mais. (...) Tomamos

nossas decisões, pusemos nossas vidas

em movimento, e elas vão seguir e seguir adiante

até parar. (...) até que um dia acontece

uma coisa que deveria modificar alguma coisa,

mas aí a gente vê que no final nada vai mudar"

(p. 88). Essa verdade, talvez, seja ainda

mais terrível, porque, vista desta maneira - e

todos os contos projetam esse ponto de vista -

é como se estivéssemos vivendo uma vida

inautêntica, como se fôssemos meros atores

representando papéis previamente escritos

por outro - Deus? O Destino? Assim, o que

resta de felicidade é a idealização de um passado,

como no conto "Jerry, Molly e Sam":

"Al gostaria de poder ir em frente, dirigindo o

carro sem parar, a noite inteira, até que fosse

sair nos paralelepípedos da velha rua principal

de Toppenish, virar à esquerda no primeiro

sinal, depois virar à esquerda de novo, parar

quando chegasse ao lugar onde sua mãe vivia,

e nunca, nunca mais, por nenhuma razão no

mundo, sair de lá outra vez" (p. 144). As soluções

dadas para essas vidas apagadas podem

parecer, numa primeira visada, positivas, pois

à exceção de um conto - "Diga às mulheres

que a gente já vai" - ocorre, após a crise, uma

rearrumação das coisas, portanto, não há rupturas.

Mas trata-se de uma falsa premissa - é

como numa tempestade: depois que passa,

constatamos que a paisagem permanece a

mesma, mas no fundo sabemos que não é verdade.

Houve mudanças substantivas na essência,

embora a aparência continue a mesma. E,

neste caso, nem mesmo a morte é solução, já

que, como afirma Howard Sears, de

"Limonada": "(...) morrer é para os puros

(...)" (p. 177).

Avaliação: OBRA-PRIMA

64


Chicos

Clara Arreguy

Nasceu em Belo Horizonte MG, mora em Brasília

DF. Escritora e jornalista Entre outros publicou:

Segunda divisão (2005), Fafich (2005)

Tempo Seco (2009) Rádio Beatles (2012) Dia de

sol em tempo de chuva (2015).

Mecanismos do mal descortinados

Depois da obra-prima que foi "O indizível

sentido do amor", o novo trabalho de Rosângela

Vieira Rocha vinha revestido de responsabilidade.

E "Nenhum espelho reflete seu rosto"

(Editora Arribaçã) deu conta do recado à

altura da autora e de seus antecessores. Romance

calcado num tipo de personagem doentio,

requereu da escritora pesquisa, mergulho profundo

no tema, ao mesmo tempo espinhoso e

necessário.

O grande barato da melhor literatura contemporânea,

de Rosângela Vieira Rocha, inclusive, é

justamente a mescla de memória, pesquisa e ficção.

A autora já havia feito isso brilhantemente

em "O indizível". Agora, com "Nenhum espelho",

isso se reforça no distanciamento entre

protagonista e autora. A joalheira Helen, ou melhor,

designer de joias, pode não ter nada a ver

com a escritora, jornalista, professora e advogada,

mas é inevitável comparar, por exemplo, o

lançamento da coleção de peças que a protagonista

prepara ao longo da narrativa ao do livro

"O indizível sentido do amor", obra mais preciosa,

no meu entender, da coleção de joias da escritora.

Quanto à urgência do tema, é impressionante

como Rosângela consegue, ao contar a história

de Helen e sua relação tóxica com o "príncipe

encantado" que encontrou na internet, falar de

uma realidade vivida por milhares de mulheres

(e inclusive homens) que até então não se davam

conta do grau doentio dessas relações. Não

está nas redes sociais o problema, mas na teia

tão bem urdida por personalidades identificadas,

freudianamente, pelo narcisismo perverso. Sua

capacidade de envolvimento, sedução, dominação.

Sua inteligência brilhante casada à ausência

de empatia. Sua incapacidade de perceber o outro

senão como objeto a ser usado, controlado e

descartado de acordo com seus interesses.

A narrativa de Rosângela desvenda os mecanismos

por meio dos quais isso se dá. A partir da

experiência relatada por Helen ao médico de

uma paciente que se saiu pior que ela, os fatos,

casos, diálogos, "detalhes tão pequenos", mas

tão significativos, descortinam o que, à vítima,

muitas vezes parece um delírio persecutório,

uma paranoia injustificada. Não é. Esse tipo de

figura circula por aí, no dia a dia de qualquer

pessoa, e é preciso estar alerta para entender

que é possível não se deixar cativo da própria

carência.

"Nenhum espelho reflete seu rosto" contribui

para jogar luz sobre tema tão delicado, e Rosângela

Vieira Rocha o faz com a maestria de sua

escrita direta, seca, sem arroubos de adjetivação.

A aula de joalheria serve de contraponto ao universo

do mal visitado pela protagonista e alivia

o leitor do mal-estar. Há saída.

65


Chicos

Emerson Teixeira

Cardoso

Nasceu em Cataguases MG, é autor de Símiles

(2001) poesia, coautor de A casa da Rua Alferes

e outras crônicas (2006). Traduziu O retorno

do nativo de Thomas Herdy. Sempre ativo

em publicações literárias. Iniciou-se em Estilete

(1967), mimeografado, editor/fundador do Delirium

Tremens (1983) e Trem Azul (1997).

Gaiola de vidro, de Gleison Dornellas

[...] só no coração sempre

ferido do poeta é que não

vão depressa os que se vão...

Para começar peço que reparem na

epígrafe; foi o autor que a escolheu para

abrir o seu livro. O autor do livro é Gleison

Dornelas, da epígrafe não me lembra quem

é o autor. É o Carpe Diem horaciano, preceito

sempre presente na obra deste artista

que fez sua estreia na literatura com o volume,

Um minuto na eternidade. Gleison acaba

de diplomar-se em letras, mas é professor

de história da Secretaria de Estado da Educação,

o que constitui apenas um detalhe,

vou falar só do homem de letras.

No seu discurso poético, o autor de Gaiola

de vidro deixa transparecer o predomínio

das questões da vida e da morte sem nunca

perder as marcas que a meu ver lhe são próprias:

a da poesia amorosa que tantas vezes

visitou. O posicionamento do poeta é antes

de tudo o do sonhador.

“Eu tenho um sonho que excede o tempo

Não jogaremos fora a aurora, nem tomaremos

ventos comprimidos. Vamos ser o que

sempre fomos, eternos sonhadores”.

E aqui e ali, brotam sempre estas questões

que são, afinal, as indagações de todo

ser diante da vida e de seus mistérios e entre

os mistérios, o maior deles: a morte. Para o

poeta, “estranha luz, hieróglifo irregular que

paira no céu”.

Eu disse poesia amorosa como poderia dizer,

ideal romântico. As duas afirmações são

equivalentes. Mas sem esquecer de dizer que

nos versos deste Gaiola de vidro mais que

no primeiro livro seus versos vêm carregados

de um lirismo, meio que - só para empregar

expressão em voga - clássico nos moldes de

um Camões, como neste “Idolatria à Musa”

do qual destaco estes versos: “É outono, ó

musa bela! / E os teus pomos de Cinderela /

Intensificam esta estação. ”

Ou estes: “No inverno a neve buscastes / E

como se não a encontrastes / Mentira com

grande persuasão”.

66


Chicos

Também em “Ontem, hoje, amanhã e sempre”:

“Ontem, hoje, amanhã e sempre / Verei

com o olhar jamais obtuso / Um louco

amando um pensador confuso”.

Ou noutro belo soneto; “Renúncia à Ninfa”:

“O ímpeto ardente que em mim velas / Tanto

quanto vos sois bonita / em trêmulo estampo

na face. / A indubitável perene e certa

denúncia / Sereis a gênese de nosso enlace /

Não fosse minha breve renúncia”.

Uma leitura apressada desse volume sintomaticamente

intitulado Gaiola de vidro poderia

levar a uma impressão errada, precipitada

de que seu autor faz uso de linguagem

derramada e nos levaria a crer que se trata

de estilo de exagerado descabelamento lírico,

enfim de uma excessiva retórica romântica,

o que definitivamente não acontece. É o

tipo de trabalho que exige de nós leitores

uma observação mais cuidada, uma atenção

mais demorada.

No poema que abre o livro: Gaiola de vidro,

pela boca do peixe, o poeta aborda a

questão da liberdade humana – confinado

em seu aquário (a gaiola de vidro) que o limita,

o eu lírico conclui filosoficamente que

a nossa vontade é ilusão. Mais do que nunca

o poeta em Gleison Dornellas se afirma do

que no poema o morceguinho que voa de

mansinho, bicho mais feinho pretinho como

carvão; ave mamífera que voa e ama (é claro)

e que “dorme não na cama”. Novamente

para usar uma palavra da moda: Show!

Nem faltará neste singelo volume o olhar

do autor para sua Princesinha da Mata, noutro

belo e expressivo soneto “O Soneto à

Cataguases”, sua ternura é expressa pela terrinha

que evoca como na sextina: “Uma fábrica

velha, fábricas belas / poesias que desaguam

tudo / próxima à ponte nova do verso

/ Tudo isso, céus, é Cataguases / De Santa

Rita, à Santa Maria, ó noite! / Como explicam

numa só vida. ”

Não seria despropositado afirmar que Gleison

seja por precipitação, seja por indiferença

a essas convenções – quem já publicou

sabe o que é sentir a dor do parto – desincumbiu-se

de um prefaciador à guisa de explicação

para o seu voo no Pégaso – talvez

reclamando para si, o criador, a responsabilidade

que enfim, em princípio é dele.

A única restrição que faria a este curioso

livro que nos dá Gleison Dornellas é quanto

à quantidade de poemas contidos nele que

pela profusão poderiam estar numa outra

edição e ocasião e com outro título.

Mas isso é lá com ele, que acredito sabe

bem o que está fazendo. Eu por minha vez

sou-lhe imensamente grato por nos prover

de novo com o sabor peculiar de sua forte e

essencial arte poética.

O poeta cataguasense Francisco Marcelo

Cabral ao autografar lhe um livro seu disse:

“Espero que você vá mais longe na arte que

me apresso”.

A mim só compete dizer que com este

livro confirma-se a intenção do autor de dar

continuidade a seu projeto literário que começou

em 2016 com Um minuto na eternidade,

e que segundo ele, eu mesmo confirmo,

mostra sua evolução.

Para o alto, poeta, que o tempo passa

quer o queiramos, quer não.

67


Chicos

Ronaldo Cagiano

Nasceu em Cataguases, autor, dentre outros,

de Dezembro indigesto (Contos, Prêmio Brasília

de Produção Literária 2001), O sol nas feridas

(Poesia, Finalista do Prêmio Portugal Telecom

2012) e Eles não moram mais aqui

(Contos, Prêmio Jabuti 2016), mora atualmente

em Portugal.

Uma escritura demiúrgica

Desde seu primeiro romance “Mentiras” (Ed.

Nós, SP, 2016), lançado aos vinte e seis anos,

Felipe Franco Munhoz, paranaense radicado em

São Paulo, chamou a atenção por apresentar

uma narrativa em que originalidade e ousadia

pontuaram seu début literário. Com a segurança,

maturidade e domínio raros num estreante,

o autor realizou um sofisticado diálogo com a

obra de Philip Roth, na expressão de um personagem

que flertava com as histórias do escritor

americano em interlocução primorosa em que a

experiência do duplo em literatura foi levada,

com habilidade, ao extremo

Essa via intertextual e metalinguística encontra

novas ressonâncias e atualização em seu

segundo livro, “Identidades” (Ed. Nós, SP,

2018), obra recepcionada com entusiasmo pela

crítica. Se naquela primeira tentativa de exploração

de universos temáticos e semânticos de um

autor que é sua referência e inspiração, Munhoz

conseguiu projetar sua própria voz e autenticidade,

sem derrapar para o pastiche ou no paralelismo,

construindo uma esmerada dicção, em

“Identidades” esse processo se aperfeiçoa e

agudiza, realçando a peculiaridade e sofisticação

de um estilo narrativo que não encontra

similar na literatura contemporânea brasileira.

Nessa nova incursão ficcional sua prosa

incorpora a inegável herança de suas leituras,

influências e gurus literários , pois que bebe em

muitas fontes e percorre outros territórios linguísticos.

Felipe recorre a muitas vertentes literárias

e processos de construção, sofisticadas

associações e alusões, da palavra à imagem, do

verso lírico aos domínios do drama teatral, da

inflexão filosófica e do acento crítico às experimentações,

da pauta musical às rupturas formais.

Um sólido pout pourri ficcional de confecção

híbrida, explorando com desenvoltura todas

as possibilidades de comunicação e metamorfoses

da palavra, fugindo à costumeira e tradicional

estilística. A luz dessa linguagem deriva-se

de uma percepção clara das suas tênues fronteiras,

espectro da sociedade multissensorial, num

mundo em permanente disfunção, com suas dicotomias

e ausência de linearidade, tão bem

representados nessa assinatura artística.

68


Chicos

O leitor depara-se com uma escrita versátil e

vertiginosa, nada ortodoxa, em que os diversos

gêneros se alternam nos planos do romance,

criando uma obra de inusitada arquitetura e

plasticidade verbal e visual dadas as inserções

gráficas, partituras musicais, grafismos e evocações

imagéticas e outras sutilezas estilísticas

de sua oficina.

Se não é fácil definir a matriz dominante

nesse trabalho com essa pluralidade de enfoques,

por conta da ampliação do espectro estrutural

do romance (aqui pontuado em clave

poética na sua configuração espacial), no fundo

há um chacoalhar ou uma desconstrução do

próprio gênero - vai da prosa à música; da pintura

ao teatro - também não é difícil perceber

que tais elementos nascem de uma íntima relação

do autor com o universo dos signos. Evidentes

a sua articulação e manejo de uma sintaxe

variada e sua familiaridade com a cultura

clássica, principalmente com as mitologias greco-romanas,

pois autor e obra parecem viver

em plena conexão epifânica, numa linguagem

que culmina no êxtase da palavra, esta se cosangrando

como personagem intrínseca.

“Identidades” lê-se como uma sequência

de palimpsestos, percebe-se que o autor vai

retirando de suas camadas criativas a pátina do

tempo e isso traduz-se num mosaico de sensações

e experimentações ao longo do texto, como

numa procura obsessiva por essa(s) identidades(s)

submersas, escondidas nos múltiplos

eus dos protagonistas, Camila/Margarida, ou

próprio Mefistófeles nelas redivivo. Essa linha

de argumentação de que se utiliza o autor para

fazer a transcriação desses mitos é fruto de um

estreito convívio com uma miríade de personagens

e nelas é que se inquire no palco de seu

íntimo teatro de representações: “Suposto Mefistófeles

pergunta-se Quem eu sou? Quem eu

sou? Quem eu sou? O carro sai. Apagam-se as

luzes – mas desta vez o palco não desaparece

na escuridão porque fulgura o globo luminoso.

Com a função de sugerir que a cena (a memória)

desenrola-se fora de São Paulo. Na metade

do poema Passados 3. Paris, Camila deixará

seu esconderijo para juntar-se magoada?, enciumada?,

a Suposto Mefistófeles; observando

o jovem casal.”

A passagem estética (ou também ética)

por essas vivências de um passado cultural e

ancestral da História da literatura e da humanidade

vai construindo um caleidoscópio de registros

e referencialidades, sobretudo funcionando

como metáfora da vida e da sociedade

contemporâneas, quando as crises identitárias

estão na ordem do dia.

Em “Identidades” o mito de Fausto e Mefistófeles

ganha dimensão numa releitura atulizada

diante dessas questões emergentes de gênero e

num protagonismo associado aos nossos dilemas,

instabilidades e distopias tão acentuados

e prenhes na vida social, política, econômica e

afetiva, seja nas instâncias pessoais, seja no

paradoxal universo coletivo.

Em cada página temos simbolizado um

mundo abrupto, com suas assimetrias e descontinuidades,

com seus fenômenos de dissonância

e caos; e isso é preferencialmente uma

tática da própria linguagem de Munhoz, ao

ricochetear o desconforto da civilização e os

atalhos da modernidade. Isso pode ser aferido

no embalo de sua escrita, nos movimentos e

sinuosidades que o texto sugere, levando o leitor

a uma espécie de transe, tanto que de uma

linha para outra pode mudar de idioma, de

voz, de ritmo, de encadeamento frasal (por

exemplo versos escritos ao contrário, notas de

rodapé que se insinuam como o próprio capítulo),

numa alternância de palcos, notas, cenas,

cenários, fotografias e miragens.

Os totens culturais, intelectuais e literários

do autor vão emergindo numa intensa

simbiose artística: Borges, Goethe, Antonioni,

Van Gogh, Boticelli, Dostoiévski, Blake, Miles

Davis, Hermeto Pascoal, Pollock, Faulkner,

Milton Nascimento etc). Autoprojeções que se

escalonam para reverberar a inquietação que

marca a essência do livro, construído como se

fosse um puzzle temático, dado o caráter multifacético,

polifônico e polissêmico que projeta,

transitando entre São Paulo, Macau, Berlim,

Paris e outros recortes geográficos e psicológi-

69


Chicos

cos, reais ou imaginários, oferecendo ao leitor

o verdadeiro prazer de uma obra impactante.

“Identidades” converte-se numa escritura

visceral que vem, em boa hora, profanar o lugar

bem comportado da literatura brasileira,

sempre povoada pelo mais do mesmo, arejando

esse cenário editorial e literário tão contaminado

pelos fetiches do deus mercado, permeado

de indulgências e camuflagens. O radicalismo

formal e a riqueza de seu conteúdo

deflagram um mergulho escrutinador nos dilemas

existenciais, vem decodificar nossas perplexidades

por meio de uma linguagem acentuadamente

desmanteladora, mas profética em

sua carga crítica que desafia e provoca nossas

zonas de conforto, para expor a instabilidade

geradora da arte, alcançando uma estatura demiúrgica

com o sopro de seu tenso e denso

repertório criativo.

Trecho:

AutoAuschwitz

Outrora uma perna, a direita; um trem, outrora

veloz – e foi tão repentino, o trem Cargueiro:

meus passos arrastam caixões de ratos, chumbo.

A perna direita, uma âncora, concreto:

farpados arames em árvore neural

(os ramos internos são galhos putrefatos,

são fartos de ganchos com frutos venenosos),

sem folhas, acácia de outono, a qual transcrevo

no ritmo das sílabas tônicas: agulhas,

faca!das em ca!da cruel! exclamação!

A perna direita, um poleiro de aves mortas:

o gato de Poe, confinado, que respira

agônicos últimos sorvos rarefeitos –

o bicho aproveita ridículos suspiros.

Por dentro, penumbra, constante funeral;

por dentro, esta perna pendura estearina

(os nervos da perna são velas derretidas) –

ao fim, condenada, cavando a própria vala,

incônscia: o meu corpo, o meu campo de

extermínio.

70


José Antonio

Pereira

Chicos

Nasceu em Cataguases MG, é coautor de A

casa da Rua Alferes e outras crônicas (2006) e

autor de Fantasias de Meia Pataca (2013).

Em agosto de 2007

Revirando alguns papéis na gaveta,

achei o esboço do texto que foi a ancoragem

de ideias e conversas quando a Chicos era

um punhado de folhas soltas que circulavam

entre nós e amigos. Desengavetei e trago a

vocês, em estado bruto. Desculpem as incorreções

e imperfeiçoes. Acrescento apenas o

poema de Sadako que fez parte dos poemas

daquelas folhas.

Sinto que o agosto de 2019 foi muito mais

desalentador do que o de 2007.

Apesar de inútil, a poesia

é nossa arma de combate

Neste agosto, em que se faz vinte anos

da morte de Carlos Drummond, decidimos

fazer na Chicos uma homenagem à poesia.

Pedimos a licença e a benção ao maior poeta

de Cataguases: Francisco Marcelo Cabral.

Mas agosto é também o mês onde ocorreu o

uso da mais pura e genuína burrice humana:

A bomba de Hiroshima. Por isso vos oferecemos

a poesia de Sadako. Mestre João Cabral

nos disse em seu poema Anti-char:

“Poesia intransitiva, /sem mira e pontaria: /

sua luta com a língua acaba / dizendo que a

língua diz nada. / É uma luta fantasma, / vazia,

contra nada; / não diz a coisa, diz vazio;

/ nem diz coisas, é balbucio. ” Mesmo

sem mira, disparamos a poesia contra a estupidez

atômica. Sabemos ser apenas o

“balbuciar” das palavras, fruto da sensibilidade

e emoção de nossos poetas. Por isso a

poesia de Sadako.

Durante o primeiro semestre deste ano,

Emerson Teixeira Cardoso, Ronaldo Cagiano

quando em Cataguases estava, Vanderlei

Teixeira Cardoso, Altamir Soares, Vicente

Costa, eu e outros amigos passamos trocando

ideias entre cafés e cervejas nas esquinas

da cidade. Tudo começou com a estúpida

morte, lá no Rio, do menino João. Que João?

Aquele que arrastaram pelas ruas do

Rio de Janeiro como um boneco de Judas.

Caminhou pela poesia do Paul Celan, nos

chocamos com um kamikaze coreano em

mais uma matança escolar norte-americana,

até chegarmos a poesia de Kurihara Sadako.

71


Chicos

O poeta romeno Paul Celan (1920-1970),

judeu de expressão alemã e sobrevivente do

Holocausto, ao falar do motivo de sua escrita:

“No meio de tantas perdas, uma coisa

permaneceu acessível, próxima e salva – a

língua. Sim, apesar de tudo, ela, a língua,

permaneceu a salvo. (...) nesses anos e nos

seguintes tentei escrever poemas nesta língua:

para falar, para me orientar, para saber

onde me encontrava e aonde isso me iria levar,

para fazer o meu projeto de realidade. ”

Celan é um dos poetas mais importantes do

pós-guerra alemão.

“A rosa de Hiroshima” de Vinícius de Moraes

é, para nós, das poucas se não única expressão

poética feita sobre a bomba atômica.

Fala-se muito no Brasil da literatura de Auschwitz.

Mas e a produção japonesa pós

Hiroshima?

Kurihara Sadako (1913-2005), poetisa

hibakusha (vítima da bomba atômica) nascida

em Hiroshima e sobrevivente da bomba,

produziu sua poesia a partir da traumática

morte instantânea de milhares de seres humanos

e sobreviventes com sequelas hereditárias

provocadas pela exposição à radioatividade.

Nas palavras de Kurihara Sadako, em

artigo de 1985, “A poesia e a prosa da bomba

atômica começaram a ser escritas por

anônimos que experimentaram, em primeiro

lugar, a impossibilidade da fala, e só podiam

permanecer emudecidos em meio àquela

morte em massa; foram escritas porque eles,

seres humanos, não poderiam não falar disso”

No Japão, Kurihara Sadako surge como uma

das vozes poéticas mais expressivas da literatura

pós-bomba. Dedicou sua vida à memória

do dia 6 de agosto. Sua poesia não é somente

literatura da bomba atômica, é também

poesia do pacifismo. Sadako foi não

somente escritora como também incentivadora

da literatura de Hiroshima, o que o fazia

por meio de edições de antologias poéticas

relativas ao tema, como por exemplo O

Rio da Corrente em Chamas no Japão

(1960).

Além de poetisa, Sadako foi ensaísta, ativista

e líder do movimento antinuclear. Tinha fortes

convicções políticas, o que a levou a protestar

contra ações do governo japonês durante

a Segunda Guerra, contra o tratado de

segurança entre Japão e Estados Unidos

(1960), além de fazer parte de um grupo de

mulheres que se manifestavam publicamente

contra os testes nucleares em todo o mundo.

– Ela escreveu cerca de 400 poemas e 100

ensaios sobre a experiência de Hiroshima

Seu livro de poemas de maior repercussão,

Ovos Negros (em japonês, Kuroi tamago, de

1946), lançado imediatamente após a bomba

de Hiroshima, teve poemas censurados, pelo

órgão censor da Ocupação Americana no Japão.

O poema “Respeito pela humanidade” clarifica

a imagem dos “ovos negros” do título,

quando a poetisa protesta contra a política

demográfica estipulada em 1941 pelo Ministério

do Bem-Estar Social para o período da

guerra, que proibia o aborto e a contracepção:

No pós-guerra, com a escassez de moradias

e de alimentos, o ministério suspendeu a

proibição do aborto. Esse controle populacional,

baseado nas ideias nazistas de eugenia, é

alvo de ataque no poema. A sistematização

da vida e da morte – os que são enviados

para a morte nos campos de batalha, e os

que são convocados a procriar – é denunciada

como desrespeito à humanidade.

As mulheres são convocadas a não terem filhos

até que se extinga o militarismo, pois a

maternidade não deve estar vinculada à política,

pois, afinal de contas, ter filhos não deve

ser comparável às galinhas que precisam

botar mais ovos.

A metáfora “ovos negros” se assemelha à

imagem de “leite negro” do poema “Fuga da

morte” de Paul Celan: “Leite negro da

madrugada / bebemo-lo ao entardecer / be-

72


Chicos

bebemos ao meio-dia e / pela manhã bebemo-lo

de / noite / bebemos e bebemos /(...) a

morte é um mestre / que veio da Alemanha/

azuis são os seus olhos /(...) os teus cabelos

de oiro Margarete...”

A própria postura de Sadako sinaliza seu

amor à vida. Diversos escritores sobreviventes

da bomba atômica e do Holocausto europeu

se suicidaram, entre eles Celan, aos 50

anos de idade. Até pouco antes de sua morte

natural, aos 92 anos, Sadako se empenhava

em agir a favor da paz, da conscientização

antinuclear, do não esquecimento de Hiroshima,

pois, conforme afirma, “Hiroshima não

é, de modo algum, algo que ocorreu no passado.

(...) Hiroshima é um lugar no futuro

onde podemos ver até onde pode nos levar o

militarismo, a corrida armamentista, sua destinação;

é o maior ponto cego da espécie humana,

que serve como referência para o

mundo”. Vocês verão, muitos outros poetas

tratando com indignação da violência humana.

Pensem nesta poesia como nestes versos

do Drummond: “É feia. Mas é uma flor.

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. ”

Eu vi Hiroshima

Nada se vê em Hiroshima.

Hiroshima: cidade de prédios e carros.

Casais de blue jeans cochilam

em bancos situados nos parques

uma criancinha corre atrás dos pombos sobre a relva.

O cogumelo atômico,

o cenotáfio -

São apenas gotas para instantâneos.

Não, isto é o que eu vi.

Pessoas sentadas em grupos como ascetas

sobre o meio-fio defronte ao cenotáfio.

Movendo-se lenta

e silenciosamente,

ligados em testes nucleares subterrâneos

no deserto de longínquos países

e no silencioso ruído das cinzas mortíferas

que explodem no ar,

gente que já viram o inferno atômico.

73


Chicos

Pessoas sentadas no meio-fio

que conversam com mortos,

reúnem-se aos mortos

para clamar pela paz.

Isto foi o que vi.

Gente em Hiroshima

sentados nos meios-fios

clamando pela paz.

Tradução: Emerson Teixeira Cardoso

Altamir Soares

74


Chicos

Clips

cronicabrasileira.org.br

Graças ao Instituto Moreira Salles em associação

com a Casa de Rui Barbosa, criou-se um site da

crônica brasileira. Um formidável acervo à disposição

do grande público. Estão lá as crônicas de Rubem

Braga, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector,

e tantos outros grandes nomes publicadas

pelos jornais.

Rubem Braga 1913 — 1990

Nenhum espelho reflete seu rosto

Rosângela Vieira Rocha

Editora Arribaçã

ano de edição: 2019

www.arribacaeditora.com.br

Clarice Lispector 1920 — 1977

Helen é dona de uma joalheria. Um psiquiatra de

uma cidade distante, que atende uma mulher internada

em estado grave, vê na joalheira sua última

possibilidade de ajuda à paciente. Convida-a

para dividir, com ele, sua história vivida com

Ivan, na expectativa de que, através dos detalhes,

possa acessar sua paciente e retirá-la de seu torpor.

75


Chicos

momento vivo – 71 poemas favoritos &

21 novos

Ronaldo Werneck

Editora Tipografia Musical

ano de edição: 2019

Ronaldo Werneck é poeta de décadas e livros. Suas

obras amalgamam cidades, rios, amores, mares,

sóis e poetas com a tipografia da letra, o branco da

página, o estilhaçamento do verso. Tudo levado à

plasticidade máxima do encontro do eu-lírico com

o signo-significante-significado. Neste momento

vivo é com este encontro que nos (re)

encontramos. De selva selvaggia (1976), seu primeiro

livro de poesia, a o mar de outrora & poemas

de agora, de 2014, Werneck, num processo

cabralino de catar seus feijões, revisita aqui toda

sua obra poética, com um plus de 21 novos poemas.

Brasileiro vence o mais importante prêmio

literário da Lusofonia

Itamar Vieira Junior, baiano

de Salvador, é o vencedor

do Prémio Leya 2018

com o romance inédito Torto

Arado. O juri composto por

Manuel Alegre (presidente),

Isabel Lucas, José Carlos Seabra e Nuno Júdice

(Portugal), Ana Paula Tavares (Angola), Lourenço

do Rosário (Moçambique) e Paulo Werneck

(Brasil), premiou pela segunda vez, depois de

dez anos, um autor brasileiro. O mesmo prêmio

havia sido concedido em 2008 ao mineiro Murilo

Carvalho, pelo romance "O rastro do jaguar".

O prêmio de 100 mil euros foi atribuído, por

unanimidade, à obra "pela solidez da construção,

o equilíbrio da narrativa e a forma como

aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase

nas figuras femininas, na sua liberdade e na

violência exercida sobre o corpo num contexto

dominado pela sociedade patriarcal”. O vencedor

concorreu com outros 347 candidatos, tendo

sido escolhido entre os 7 finalistas.

Itamar é autor de dois livros de contos:

"Dias” (vencedor do XI Projeto de Arte e Cultura)

e “A oração do carrasco” (que conquistou o

Prêmio Humberto de Campos da UBE/RJ em

2016, obteve o 2º lugar no Prêmio Bunkyo de

Literatura 2018, sendo ainda finalista do Prêmio

Jabuti 2018).

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