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15 ed Revista Completa

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aquaculturebrasil.com<br />

REVISTA<br />

AQUACULTURE<br />

BRASIL<br />

EDIÇÃO<br />

<strong>15</strong><br />

NOVEMBRO/DEZEMBRO<br />

2018<br />

ISSN 2525-3379<br />

PROJETO<br />

REEFBANK:<br />

Artigo: Captura,<br />

maturação e larvicultura<br />

do camarão nativo para<br />

repovoamento no RJ<br />

Coluna: Produção da<br />

própria ração - solução<br />

ou problema?<br />

Usando biotecnologias a<br />

favor da conservação dos<br />

recifes de coral<br />

Entrevista: Rodrigo<br />

Zanolo, MSD Saúde<br />

Animal<br />

Eles fazem a diferença:<br />

Geraldo Kipper Fóes<br />

MAR/ABR 2018<br />

1


Soluções para quem procura<br />

resultados consistentes.<br />

Conheça os produtos da Phibro para aquacultura.<br />

A formulação exclusiva para tilápias e camarão do<br />

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melhorando o ganho de peso e eficácia alimentar.<br />

Distribuidor exclusivo:


AQUACULTURE BRASIL<br />

O MAIOR PORTAL DA AQUICULTURA<br />

BRASILEIRA!<br />

EDITOR-CHEFE:<br />

Giovanni Lemos de Mello<br />

r<strong>ed</strong>acao@aquaculturebrasil.com<br />

DIRETORES ASSISTENTES:<br />

Alex Augusto Gonçalves<br />

Artur Nishioka Rombenso<br />

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano<br />

Roberto Bianchini Derner<br />

Rodolfo Luís Petersen<br />

DIREÇÃO DE ARTE:<br />

Syllas Mariz<br />

Jéssica Brol<br />

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO:<br />

Alessandro Cardozo, Carlos Eduardo Zacarkim, Daiane<br />

Mompean Romera, Dariano Krummenauer,<br />

Denis William Johansem de Campos, Fabiana Garcia,<br />

Geraldo Fóes, Jéssica Brol, Leandro Godoy, Leone de<br />

Souza M<strong>ed</strong>ina, Luis Poersch, Luiz Henrique Castro<br />

David, Raimundo Lima da Silva Junior, Roberta Almeida<br />

Rodrigues, Rodrigo Zanolo e Wilson Wasielesky Jr.<br />

Os artigos assinados e imagens são de<br />

responsabilidade dos autores.<br />

COLUNISTAS:<br />

Alex Augusto Gonçalves<br />

Andre Muniz Afonso<br />

André Camargo<br />

Artur Nishioka Rombenso<br />

Eduardo Gomes Sanches<br />

Fábio Rosa Sussel<br />

Giovanni Lemos de Mello<br />

Marcelo Roberto Shei<br />

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano<br />

Roberto Bianchini Derner<br />

Rodolfo Luís Petersen<br />

As colunas assinadas e imagens são de<br />

responsabilidade dos autores.<br />

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NOSSA REVISTA É IMPRESSA NA:<br />

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Av. Tancr<strong>ed</strong>o Neves, 300, Tubarão/SC, 88704-700<br />

A revista AQUACULTURE BRASIL é uma publicação<br />

bimestral da EDITORA<br />

AQUACULTURE BRASIL LTDA ME.<br />

(ISSN 2525-3379).<br />

www.aquaculturebrasil.com<br />

Av. Senador Galotti, 329/503, Mar Grosso, Laguna/SC,<br />

88790-000.<br />

A AQUACULTURE BRASIL não se<br />

responsabiliza pelo conteúdo dos anúncios de<br />

terceiros.<br />

<strong>15</strong> <strong>ed</strong>ições! Tempo voa...<br />

Lançada em agosto de 2016, nossa revista impressa<br />

atraca em 2019... ainda que após a sua “estreia”<br />

o time de futebol do <strong>ed</strong>itor-chefe sofr<strong>ed</strong>or<br />

(flamenguista) não tenha conquistado nenhum título<br />

de expressão, ao menos foram inúmeras conquistas<br />

aquícolas nos últimos três anos.<br />

Cada <strong>ed</strong>ição que preparamos é sempre um<br />

desafio a questão da seleção dos artigos e demais<br />

seções, além do tema de capa. Prioritariamente, “a<br />

capa” tem que estar ligada à inovação.<br />

Neste contexto, como não emplacar uma capa<br />

com o trabalho desenvolvido pelo Prof. Dr. Leandro<br />

Godoy, da Universidade F<strong>ed</strong>eral do Rio Grande do Sul (UFRGS): aquicultura<br />

de corais! Que temática incrível, relevante e atual!<br />

O fundo do mar sempre despertou em mim algo mágico... cresci com grande<br />

influência da pesca artesanal em minha cidade natal. Durante alguns anos<br />

nossa “brincadeira” de adolescente era capturar camarões marinhos de tarrafa<br />

em um pequeno barco de alumínio, na Lagoa de Itaipu, Niterói (RJ), durante as<br />

férias escolares de julho. Partíamos de SC rumo ao Rio de Janeiro para fugir do<br />

frio e passar algumas semanas na companhia de saudosos tios, grandes referências<br />

de minha infância... Acordávamos c<strong>ed</strong>o todas as manhãs para pescar camarões<br />

com o Tio Hilton, que tanto nos ensinou. As pescarias sempre rendiam<br />

deliciosos almoços e jantares.<br />

Lembro como se fosse hoje quando decidi que a água seria o meu trabalho<br />

para toda a vida. Era 1996, tinha <strong>15</strong> anos e estávamos passeando de barco na<br />

Praia de Itaipu, em Niterói. De fato, na lagoa, na piscina ou na praia, eram férias<br />

sempre aquáticas! Neste dia, nos deparamos com uma água incrivelmente<br />

transparente. No costão da Praia de Itaipu, muitas pessoas praticando snorkeling.<br />

Ao passar pela Ilha da Menina, chegar na Ilha da Mãe, e aproximar o barco do<br />

costão, jamais esqueço da cena de ver aquele fundo do mar... um par<strong>ed</strong>ão de<br />

p<strong>ed</strong>ra descendo ladeira a baixo, alguns peixes coloridos, uma água caribenha....<br />

esse foi meu Day one (bem ao estilo Endeavor)! Esta cena nunca saiu de minha<br />

mente. Ali eu decidi que iria transformar o mar ou a água salgada, de alguma forma,<br />

em trabalho. Só que ainda não sabia como... A aquicultura acabou surgindo<br />

somente três anos depois desse dia.<br />

A capa desta <strong>ed</strong>ição, de certa forma, me fez relembrar das férias em Niterói.<br />

Imagine a importância de utilizar o meio aquático de forma sustentável<br />

para produzir proteína animal e vegetal da mais alta qualidade? Ou então usar a<br />

aquicultura para preservar o meio ambiente? Alie isso à oportunidade única de<br />

transformar paixão em profissão!<br />

Bem-vindo a aquicultura!<br />

E uma ótima leitura!<br />

Giovanni Lemos de Mello,<br />

Editor-chefe.


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AQUACULTURE BRASIL<br />

Sua marca merece estar em destaque<br />

no maior portal da aquicultura brasileira<br />

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SUMÁRIO<br />

AQUACULTURE BRASIL - <strong>ed</strong>ição <strong>15</strong> nov/dez 2018<br />

08 FOTO DO LEITOR<br />

»»<br />

p.10<br />

10 PERIFÍTON: UMA OPÇÃO DE ALIMENTO<br />

COMPLEMENTAR NA AQUICULTURA - PARTE III<br />

16 CAPTURA, MATURAÇÃO E LARVICULTURA DO<br />

CAMARÃO NATIVO PARA REPOVOAMENTO NO<br />

LITORAL DO RIO DE JANEIRO<br />

24 PROJETO REEFBANK – USANDO BIOTECNOLOGIAS A<br />

FAVOR DA CONSERVAÇÃO DOS RECIFES DE CORAL<br />

30 CONSTRUÇÃO DE VIVEIROS PARA PISCICULTURA<br />

COMERCIAL – PARTE V<br />

»»<br />

p.16<br />

38 COOPERATIVA DE PESCA E AQUICULTURA DE GOIÁS<br />

(COOPAQ) – PARTE V: NITROSOMONAS<br />

46 SITASS: SIMPÓSIO TÉCNICO DA AQUICULTURA<br />

SUPERINTENSIVA SUSTENTÁVEL<br />

50 ARTIGOS PARA CURTIR E COMPARTILHAR<br />

51 CHARGES<br />

»»<br />

p.24<br />

6


»»<br />

p.70<br />

»»<br />

p.72<br />

52 BIOTECNOLOGIA DE ALGAS<br />

54 EMPREENDEDORISMO AQUÍCOLA<br />

55 NUTRIÇÃO AQUÍCOLA<br />

56 GENÉTICA<br />

»»<br />

p.30<br />

58 GREEN TECHNOLOGIES<br />

»»<br />

p.38<br />

»»<br />

p.46<br />

60 VISÃO AQUÍCOLA<br />

62 RANICULTURA<br />

63 RECIRCULATING AQUACULTURE SYSTEMS<br />

64 ATUALIDADES E TENDÊNCIAS NA AQUICULTURA<br />

66 AQUICULTURA DE PRECISÃO<br />

68 TECNOLOGIA DO PESCADO<br />

70 DEFENDEU<br />

72 ENTREVISTA - RODRIGO ZANOLO<br />

79 ELES FAZEM A DIFERENÇA<br />

82 DESPESCOU<br />

»»<br />

p.79<br />

7


Entardecer observado a partir do viveiro<br />

(Jaguaribe, CE)<br />

Jessyca Alexandre<br />

Um olhar aproximado - Litopenaeus vannamei<br />

(Paraipaba, CE)<br />

Augusto Cesar<br />

Produção de microalgas para uso como alimento<br />

na larvicultura de camarão marinho - EMA, FURG<br />

(Rio Grande, RS)<br />

Lucélia Borges<br />

NOV/DEZ 2018<br />

8


Georgia Aquarium<br />

(Atlanta, EUA)<br />

Raimundo Lima da Silva Júnior<br />

Juvenil de Litopenaeus vannamei -<br />

LabEcotox-UFMA<br />

(São Luís, MA)<br />

Jacyara Corrêa<br />

NOV/DEZ 2018<br />

>><br />

Envie suas fotos mostrando a aquicultura no seu dia a dia<br />

e participe desta seção.<br />

r<strong>ed</strong>acao@aquaculturebrasil.com<br />

9


© usf-reclaim.org<br />

NOV/DEZ 2018<br />

10


Perifíton:<br />

uma opção de alimento<br />

complementar na<br />

aquicultura - Parte III<br />

Denis William Johansem de Campos*<br />

Luiz Henrique Castro David<br />

Roberta Almeida Rodrigues<br />

Centro de Aquicultura da UNESP - CAUNESP<br />

Universidade Estadual Paulista (UNESP)<br />

Jaboticabal, SP<br />

*campos.dwj@gmail.com<br />

Daiane Mompean Romera<br />

Instituto Agronômico de Campinas - APTA<br />

Fabiana Garcia<br />

Centro de Aquicultura da UNESP - CAUNESP<br />

Universidade Estadual Paulista (UNESP)<br />

Instituto de Pesca<br />

Centro do Pescado Continental - APTA<br />

Como visto nas <strong>ed</strong>ições anteriores, o<br />

perifíton é um importante componente<br />

de ambientes aquáticos, formado por grupos<br />

de microrganismos taxonomicamente diversos<br />

e de alto valor nutricional. Mas será que o<br />

perifíton possui aplicabilidade na produção<br />

aquícola? Existe algum benefício na qualidade<br />

da água? Alguma espécie aproveita o perifíton?<br />

Existem espécies nativas que podemos utilizar<br />

na produção com perifíton? Quais os benefícios<br />

econômicos o perifíton pode proporcionar<br />

ao produtor? Estas são perguntas que<br />

tentaremos responder no decorrer deste texto.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

11


NOV/DEZ 2018<br />

Potencial produtivo do uso de substratos<br />

na aquicultura<br />

Pesquisas práticas têm mostrado que a inclusão<br />

de perifíton em sistemas de produção<br />

aquícola representa potencial técnico<br />

a ser explorado. Isto pode ser evidenciado<br />

tanto em monocultivos<br />

quanto em policultivos usando<br />

perifíton como alimento<br />

complementar. Este recurso<br />

proporciona maior<br />

produtividade e menor<br />

conversão alimentar,<br />

principalmente no cultivo<br />

de tilápias, carpas<br />

e camarões de água<br />

doce (Figura 1).<br />

A comunidade<br />

perifítica pode<br />

ser considerada um<br />

bioindicador sobre<br />

o estado trófico dos<br />

ambientes aquáticos,<br />

respondendo rapidamente<br />

às alterações<br />

abióticas ocorridas no<br />

ambiente de cultivo,<br />

tornando-a ideal no monitoramento<br />

da qualidade<br />

da água. Em relação aos parâmetros<br />

de água, o perifíton<br />

pode influenciar nos níveis de<br />

oxigênio, isto porque a presença de<br />

organismos autotróficos e heterotróficos<br />

podem, respectivamente, produzir e<br />

consumir oxigênio dentro do sistema. Por outro<br />

lado, o perifíton pode diminuir as quantidades<br />

de amônia, nitrito, nitrato e fósforo, atuando na ciclagem<br />

de nutrientes inorgânicos. É importante ressaltar<br />

que níveis elevados de amônia e nitrito são tóxicos aos<br />

organismos cultiváveis, podem provocar altas mortalidades<br />

e consequentemente prejuízos econômicos.<br />

De maneira geral, grande parte das espécies de<br />

organismos que ocupam as posições iniciais da cadeia<br />

alimentar aquática, como peixes herbívoros, onívoros<br />

e crustáceos são aptas ao aproveitamento do perifíton<br />

como recurso alimentar. Partindo deste princípio, existem<br />

espécies nativas de peixes que podemos utilizar?<br />

Ainda são necessárias pesquisas referentes a utilização<br />

do perifíton na alimentação dos peixes nativos em escala<br />

comercial, contudo na Figura 2 apresentamos alguns<br />

peixes nativos com potencialidades quanto ao uso do<br />

perifíton, devido a seus hábitos alimentares e estruturas<br />

morfofisiológicas que auxiliam na captura e digestão<br />

12<br />

Figura 1. Benefícios da<br />

inclusão do perifíton em<br />

sistemas aquícolas.<br />

Fonte:<br />

Asaduzzaman<br />

et al. (2008 e 2009),<br />

Azim et al. (2004), Garcia et<br />

al. (2016), Jana et al. (2004), Keshavanath et al. (2004), Sakr et al.<br />

(20<strong>15</strong>) e Uddin et al. (2007).<br />

deste alimento natural.<br />

Muitos trabalhos referentes a comunidade perifítica<br />

têm sido realizados para conhecer sua taxonomia e<br />

composição nutricional. No entanto, existe a necessidade<br />

de estudos sobre o desempenho dos organismos<br />

aquáticos com fins econômicos em escala comercial de<br />

cultivo, pois são escassas pesquisas que determinam a<br />

viabilidade técnica e econômica deste tipo de manejo.<br />

Os trabalhos disponíveis na literatura (Figura 1) utilizam<br />

substratos para produção de perifíton em sistemas de<br />

produção extensivos e em localidades onde não há<br />

grande disponibilidade de ração comercial. Nosso gru-


po de pesquisa tem se d<strong>ed</strong>icado<br />

a testar o uso de substratos em<br />

sistemas de produção super-intensivos<br />

(tanques-r<strong>ed</strong>e) e intensivos<br />

(viveiros escavados) (Figura<br />

3), mais comuns no Brasil. Os<br />

resultados são promissores em<br />

ambos os sistemas de produção<br />

para monocultivos de tilápia do<br />

Nilo, desde as fases iniciais até<br />

as finais, proporcionando, principalmente,<br />

economia no uso de<br />

ração e consequente r<strong>ed</strong>ução<br />

no custo de produção.<br />

Figura 2. Peixes nativos com potencial de utilização do perifíton como<br />

complemento alimentar.<br />

Benefícios econômicos<br />

promovidos pelo<br />

perifíton<br />

Análises econômicas têm<br />

mostrado melhor rentabilidade<br />

no uso de perifíton em viveiros<br />

para produção de alevinos de<br />

Carpa (Labeo rohita), em que<br />

houve incremento em mais de<br />

35% na relação custo benefício<br />

quando se utilizou o perifíton em<br />

comparação a mesma em modelo<br />

convencional (sem perifíton)<br />

(Huda et al., 2002). Melhorar a<br />

relação custo benefício significa<br />

aumentar a produção com menor<br />

uso de insumos, sendo a ração<br />

o insumo de maior custo na<br />

POTENCIAL DE<br />

UTILIZAÇÃO<br />

DO PERIFÍTON<br />

© Ryan photographic<br />

produção aquícola. Na produção de tilápias em tanques-r<strong>ed</strong>e<br />

(peso de abate de 800 g), a utilização de<br />

substratos de bambu associada à restrição alimentar<br />

garante maior lucro operacional e lucratividade, devido<br />

ao menor aporte da ração (Garcia et al., 2017).<br />

Isto porque, peixes confinados sob restrição alimentar<br />

com substratos de perifíton buscam alimentação natural<br />

para suprir a exigência nutricional ocasionada pela<br />

falta da ração. Desta maneira, a inserção de substrato<br />

é uma opção interessante para pequenos piscicultores,<br />

pois lhes permite r<strong>ed</strong>uzir a dependência de alimentação<br />

comercial, diminuir os custos e aumentar os lucros<br />

com m<strong>ed</strong>idas simples de serem implantadas.<br />

© Fabiana Garcia<br />

NOV/DEZ 2018<br />

13


Podemos concluir que o uso de<br />

substratos artificiais para produção de<br />

perifíton proporciona muitos benefícios na<br />

aquicultura. Por r<strong>ed</strong>uzir o custo de produção<br />

e aumentar a rentabilidade, esta técnica<br />

é muito recomendada para produtores<br />

familiares ou com pequena lâmina d’agua,<br />

por permitir que obtenham renda mesmo<br />

em pequenos módulos de produção. Assim<br />

terminamos a terceira e última parte da série<br />

de artigos: “Perifíton: uma opção de alimento<br />

complementar na aquicultura”. Esperamos<br />

ter contribuído com a propagação do<br />

conhecimento e estamos à disposição para<br />

esclarecimentos. Até a próxima.<br />

A inserção de substrato é uma<br />

opção interessante para pequenos<br />

piscicultores, pois lhes permite r<strong>ed</strong>uzir a<br />

dependência de alimentação comercial,<br />

diminuir os custos e aumentar os<br />

lucros com m<strong>ed</strong>idas simples de serem<br />

implantadas.<br />

Consulte as referências bibliográficas em<br />

www.aquaculturebrasil.com/artigos<br />

Figura 3 . Substrato em tanque-r<strong>ed</strong>e (A) e em viveiro escavado (B). © Fabiana Garcia<br />

A.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

B.<br />

14


© Henrique Jun K. Santana


Captura, maturação e<br />

larvicultura do camarão<br />

nativo para repovoamento<br />

no litoral do Rio de<br />

Janeiro<br />

Jéssica Brol, Luis Poersch*, Kim Catalani, Rodrigo González Zúñiga, Gabriela<br />

Hollmann, Missileny Xavier, Ana Paula Morais, Julio Cesar Zemor, Stefani Mendes,<br />

Henrique Jun K. Santana, Andrea Idelette Hernández, Hellyjúnior Brandão, Inácio<br />

Alves Neto, Lucélia Borges, Flávia Banderó, Lucas Genésio P. da Silveira, Gabriel Keiti<br />

K. Santana, Victor Torres, Léa Carolina de O. Costa, Mariana Holanda P Barboza,<br />

Wellica Gomes Reis, Plácido Soares de Moura, Ana Carolina Pereira, Geraldo Fóes,<br />

Dariano Krummenauer, Alessandro Cardozo e Wilson Wasielesky Jr.<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral de Rio Grande - FURG<br />

Programa de Pós Graduação em Aquicultura<br />

Rio Grande, RS<br />

*lpoersch@mikrus.com.br<br />

A aquicultura, além de fornecer proteína de qualidade<br />

ao mundo, diminuindo a pressão aos estoques<br />

pesqueiros, pode contribuir para o repovoamento de<br />

espécies nativas. Esse inclusive, foi o objetivo inicial<br />

da então construída, em 1989, Estação Marinha de<br />

Aquacultura (EMA), da Universidade F<strong>ed</strong>eral do Rio<br />

Grande (FURG), localizada no bairro Cassino, cidade<br />

de Rio Grande, RS.<br />

Ali se intensificaram as pesquisas sobre o camarão<br />

nativo Farfantepenaeus paulensis, que ocorre desde<br />

o litoral da Bahia até o litoral nordeste da Argentina.<br />

Esta espécie, popularmente conhecida como camarão-rosa,<br />

foi alvo de estudos para repovoamento do<br />

estuário da Lagoa dos Patos. Graças a esses esforços<br />

o pacote tecnológico de reprodução, maturação, desova,<br />

larvicultura e engorda da espécie foi elaborado<br />

com sucesso.<br />

Já faz alguns anos que o foco das pesquisas do grupo<br />

migrou para a produção de Litopenaeus vannamei<br />

em sistemas intensivos (bioflocos), contudo, o pacote<br />

tecnológico gerado acerca do F. paulensis ainda é<br />

colocado em prática. Quase que anualmente, desde<br />

1998, a equipe do Projeto Camarão da EMA realiza<br />

a captura de reprodutores de camarão-rosa no ambiente<br />

natural e traz para o laboratório. O objetivo é<br />

fazer a larvicultura do camarão nativo e destinar estas<br />

larvas para o projeto de repovoamento no litoral do<br />

Rio de Janeiro.<br />

Esse artigo irá abordar todas as etapas, desde a<br />

captura em ambiente natural até a larvicultura e liberação<br />

desses animais na ilha Guaiba, junto à baía de<br />

Sepetiba, no estado do Rio de Janeiro. Neste último<br />

ano a liberação foi realizada no mês de novembro de<br />

2018. O presente manuscrito leva o nome de vários<br />

autores, já que exige o esforço e d<strong>ed</strong>icação de diversos<br />

alunos do Programa de Pós Graduação em Aquicultura<br />

da FURG, professores e técnicos para realização<br />

da captura de matrizes, transporte, aclimatação,<br />

maturação, desova, larvicultura e novo transporte<br />

para o Rio de Janeiro.<br />

17<br />

NOV/DEZ 2018


Captura e aclimatação dos<br />

reprodutores<br />

A captura dos reprodutores foi realizada no litoral<br />

de Santa Catarina, partindo da cidade de Itajaí. A<br />

equipe contou com o auxílio de pescadores da região<br />

com embarcação de pesca de arrasto tipo tangone,<br />

sendo necessário apenas uma saída ao mar de 24 h<br />

para a captura. Após cada arrasto eram selecionados<br />

os camarões adultos em função da espécie, sexo, tamanho,<br />

estágio de maturação e condição geral do animal.<br />

Neste embarque um total de 500 animais foram<br />

capturados e acondicionados em caixas de transporte<br />

para serem levados de Armação de Itapocorói (Penha<br />

– SC) até a EMA, Rio Grande RS. O percurso durou<br />

12 horas, sendo monitorado periodicamente o oxigênio<br />

dissolvido e temperatura.<br />

Figura 1. Captura dos reprodutores em alto mar. © Kim Catalani<br />

Maturação<br />

Após a aclimatação as fêmeas foram selecionadas<br />

e induzidas à maturação gonadal através da ablação<br />

unilateral do p<strong>ed</strong>únculo ocular. Posteriormente foram<br />

distribuídas em quatro tanques de concreto iguais aos<br />

da aclimatação. Os machos também foram distribuídos<br />

nestes mesmos quatro tanques, na proporção de<br />

um macho para cada duas fêmeas. O fotoperíodo invertido<br />

foi controlado em 14h claro e 10h escuro, a<br />

temperatura média mantida em 27°C e a salinidade<br />

em 30. A taxa de alimentação manteve-se duas vezes<br />

ao dia, com 10-30% de alimento fresco fornecido de<br />

acordo com a biomassa estocada. A qualidade de água<br />

foi mantida através de renovações parciais de 50% ao<br />

dia.<br />

Figura 3. Sala de maturação. © Henrique Jun K. Santana<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Ao chegar no laboratório de Carcinocultura da<br />

EMA os camarões foram aclimatados em dois tanques<br />

circulares de concreto, com capacidade de 12.000 L e<br />

volume útil de 4.000 L. Ali permaneceram por um período<br />

de cinco dias, com sobrevivência final de 90%,<br />

desde a captura até o final da aclimatação. Duas vezes<br />

ao dia era fornecida uma dieta que contemplava um<br />

mix de lula, peixe e marisco branco.<br />

Figura 2. Aclimatação das matrizes na EMA. © Dariano<br />

Krumennauer<br />

Diariamente as fêmeas maturas eram selecionadas<br />

e transferidas para o setor de desova, de acordo com<br />

o estágio de desenvolvimento das gônadas, que compreende<br />

a visualização da cor e forma da mesma. Tal<br />

visualização classifica a gônada em um dos seis estágios:<br />

1. Sem desenvolvimento: gônada fina e translúcida,<br />

quase imperceptível;<br />

2. Em desenvolvimento: é possível a visualização<br />

da gônada que tem uma forma muito fina, sem<br />

contornos claros;<br />

3. Branco: a gônada aumenta de tamanho, facilmente<br />

visível no dorso do animal, a cor apresenta-se<br />

branco leitosa, principalmente no primeiro somito abdominal;<br />

4. Amarelo: a gônada apresenta aspecto maciço<br />

e coloração variando de amarelo claro a amarelo escuro;<br />

5. Verde (maturo): gônada facilmente visível,<br />

com uma coloração variando de verde claro a verde-oliva,<br />

apresenta-se em uma larga faixa de aspecto<br />

maciço e irregular. Ideal para seleção à desova;<br />

6. Desovado: gônada com aspecto vazio, semelhante<br />

ao estágio em desenvolvimento. Pode ocorrer<br />

uma re-maturação.<br />

18


Figura 4. Fêmea de F. paulensis com gônada em<br />

coloração verde-oliva, ideal para seleção à desova.<br />

© Henrique Jun K. Santana<br />

NOV/DEZ 2018<br />

19


Desova<br />

Somente as fêmeas no estágio 5, fase em que a coloração<br />

das gônadas está verde-oliva, eram selecionadas<br />

e transferidas para a sala de desova. A sala contém<br />

25 caixas de desova com volume de <strong>15</strong>0 L cada e a<br />

temperatura foi controlada entre 28 e 30°C. As fêmeas<br />

permaneceram nas caixas de desova de 12 a 14 horas,<br />

período suficiente para ocorrer a desova. Logo após, as<br />

mesmas eram recolhidas e devolvidas aos respectivos<br />

tanques de maturação.<br />

Figura 5. Sala de desova. © Henrique Jun K. Santana<br />

Nas incubadoras a eclosão para náuplio ocorre entre<br />

<strong>15</strong> a 16 horas após a desova e completa o desenvolvimento<br />

dos seis subestágios desta fase cerca de 48<br />

depois. Estes sofrem uma metamorfose para a fase de<br />

protozoea, onde já exigem alimentação exógena. Assim,<br />

24 horas após a incubação os náuplios eram coletados<br />

(em estágio III e IV) e transferidos para o setor de<br />

larvicultura.<br />

Larvicultura<br />

Os tanques de larvicultura (10.000 L de volume útil)<br />

estavam preparados com água do mar filtrada (clorada<br />

e declorada), aeração constante e temperatura média<br />

de 28°C. Antes da chegada dos náuplio, e diariamente<br />

até o final da larvicultura, foi adicionado na água probiótico<br />

(Pro-W Inve®) para minimizar a ação de bactérias,<br />

principalmente do gênero Víbrio.<br />

Figura 7. Tanques para larvicultura. © Henrique Jun K. Santana<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Diariamente uma amostra de 100 ml de água era<br />

coletada de cada caixa de desova para análise em microscópio<br />

óptico a fim de verificar se os ovos estavam<br />

fertilizados e estimar a taxa de eclosão. Nas caixas onde<br />

se apresentava taxa de fertilização maior que 70%, os<br />

ovos eram recolhidos, lavados com água do mar filtrada,<br />

iodo (10 mg/L) e formol (20 mg/L) e passados para<br />

as incubadoras (50 L) na densidade máxima de 2.000<br />

ovos/L. No total foram cerca de 10 milhões de ovos<br />

coletados em um período de cinco dias.<br />

Figura 6. Visualização dos ovos em microscópio óptico.© Wellica<br />

Reis<br />

Os náuplios foram estocados em uma densidade<br />

de <strong>15</strong>0 animais/L e algumas horas depois, quando<br />

passavam para o estágio de protozoea, eram alimentados<br />

com microalgas Chaetoceros muelleri e Conticribra<br />

weissflogii na densidade de 5x10 4 cél/L até o estágio<br />

de protozoea III. Posterior a essa fase os animais sofrem<br />

metamorfose para misis, quando então passou a<br />

ser ofertado náuplios de Artemia sp. (Inve®) congelada<br />

e dieta específica para cada fase de desenvolvimento<br />

(Inve®). Após os três estágios de misis a última metamorfose<br />

é para pós-larva, quando os camarões passaram<br />

a receber náuplios de Artemia sp. recém eclodidos,<br />

intercalado com dieta comercial.<br />

Diariamente era monitorado os compostos nitrogenados<br />

do sistema, fazendo renovações de 40% do<br />

volume do tanque dia sim e dia não, além de análise do<br />

estágio de desenvolvimento das larvas.<br />

Para envio ao Rio de Janeiro, as pós-larvas foram<br />

cultivadas até no mínimo PL 8, tendo até PL 12 em virtude<br />

das estocagens diárias ao longo dos 5 dias em que<br />

foi realizada a desova.<br />

20


Figura 8. Fases de desenvolvimento do camarão nativo Farfantepenaues paulensis.<br />

Náuplio<br />

Ovo<br />

Protozoea<br />

Pós-larva<br />

Misis<br />

© Lucélia Borges<br />

© Lucélia Borges<br />

NOV/DEZ 2018<br />

© Wellica Reis<br />

© Wellica Reis<br />

© Wellica Reis<br />

21


Preparação e transporte dos<br />

camarões<br />

Cerca de 24 horas antes de embalar as pós larvas<br />

para o transporte, o aquec<strong>ed</strong>or de cada tanque foi desligado<br />

para baixar a temperatura. Após esse período,<br />

os tanques foram abertos para baixar o volume e com<br />

auxílio de um coletor com malha de 300 µm as pós larvas<br />

ficavam retidas, sendo transferidas para 3 caixas cilindro<br />

cônicas com <strong>15</strong>0 L de água do mar filtrada. Após<br />

todas as pós larvas estarem concentradas nestas caixas,<br />

um forte sistema de aeração homogeneizou as mesmas<br />

na coluna d’água. Na sequência, amostras de 100<br />

ml de água foram retiradas para estimar o número de<br />

pós larvas em cada caixa. Posteriormente, o volume foi<br />

dividido para sacos de transporte, que continham cerca<br />

de 20 mil pós larvas. Os sacos foram preenchidos com<br />

água do mar filtrada até um volume de <strong>15</strong> L e preenchidos<br />

com oxigênio puro em uma proporção de um<br />

terço de água e dois terços de oxigênio. Os sacos foram<br />

acondicionados em caixas de isopor de forma individual,<br />

lacrados e enviados via rodoviária para o aeroporto de<br />

Porto Alegre, de onde a carga foi despachada por transporte<br />

aéreo até o Rio de Janeiro. Todo esse processo<br />

foi dividido em dois dias, enviando 50 caixas por vez.<br />

Figura 9. Momento final: equipe reunida para embalar as pós<br />

larvas. a) Primeiro dia; b) Segundo dia.<br />

Recepção e liberação no ambiente<br />

natural<br />

Ao chegarem no aeroporto do Rio de Janeiro as caixas<br />

de isopor foram transportadas via rodoviária para<br />

Mangaratiba – RJ. Deste local as caixas seguiram de<br />

lancha até a Ilha Guaíba na Baía de Sepetiba, RJ. Na<br />

chegada as pós larvas foram aclimatadas de sete a dez<br />

dias, junto à estruturas de aclimatação da VALE S.A. e<br />

liberadas para o ambiente na região da Baía de Sepetiba,<br />

RJ.<br />

Figura 10. Aclimatação das pós larvas após chegarem na Ilha<br />

Guaíba, RJ.<br />

Figura 11. Ilha Guaíba, RJ.<br />

A.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Ilha Guaíba<br />

B.<br />

Consulte as referências bibliográficas em<br />

www.aquaculturebrasil.com/artigos<br />

22


23<br />

NOV/DEZ 2018


NOV/DEZ 2018<br />

24


Projeto ReefBank –<br />

Usando biotecnologias a<br />

favor da conservação dos<br />

recifes de coral<br />

Leandro Godoy<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral do Rio Grande do Sul, UFRGS<br />

Porto Alegre, RS<br />

projetoreefbank@gmail.com<br />

A importância dos<br />

recifes de coral<br />

É muito comum as pessoas<br />

se confundirem ao pensar<br />

que corais são plantas, ou<br />

até mesmo rochas. Os corais<br />

são na verdade animais<br />

invertebrados pertencentes<br />

ao filo Cnidaria, o mesmo<br />

das águas-vivas e anêmonas.<br />

Os corais pétreos, aqueles<br />

que apresentam esqueleto<br />

calcário, são os principais<br />

responsáveis pela construção<br />

dos recifes, e por isso<br />

são chamados de corais<br />

construtores. Cada indivíduo<br />

é chamado de pólipo, e<br />

a maioria vive em grupos<br />

de centenas a milhares de<br />

pólipos que formam colônias.<br />

Os recifes de coral estão<br />

Estimativas<br />

colocam a diversidade<br />

de vida associada aos<br />

recifes de coral em até<br />

2 milhões de espécies,<br />

perto de 25% de toda a<br />

vida marinha.<br />

entre os ecossistemas de maior<br />

diversidade do planeta. Sua área<br />

total é muito inferior a 1% de<br />

todo o ambiente marinho, no<br />

entanto, estimativas colocam a<br />

diversidade de vida associada<br />

aos recifes de coral em até 2<br />

milhões de espécies, perto de<br />

25% de toda a vida marinha<br />

(Mulhall, 2007). Portanto, os<br />

recifes de coral desempenham<br />

um papel fundamental na<br />

renovação dos estoques<br />

pesqueiros que sustentam<br />

milhares de comunidades<br />

humanas ao r<strong>ed</strong>or do mundo.<br />

Além disso, facilitam a fixação<br />

de nitrogênio, a regulação<br />

do carbono e funcionam<br />

como barreiras naturais que<br />

protegem as áreas costeiras<br />

de ressacas e tempestades.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

25


NOV/DEZ 2018<br />

© Leandro Santos | Projeto Coral Vivo<br />

© Áthila Bertoncini | Projeto Coral Vivo<br />

Um planeta em mudança<br />

Nos últimos 20 anos, os impactos antropogênicos<br />

globais têm se tornado cada vez mais preocupantes, e<br />

já não resta dúvidas que o clima do planeta está mudando<br />

(NOAA, 2016). A exacerbada emissão de gás<br />

carbônico (CO 2<br />

) por meio da queima de combustíveis<br />

fósseis e desmatamento aumentou a temperatura em<br />

todo o planeta. Como resultado, eventos climáticos<br />

extremos como tempestades e inundações estão acontecendo<br />

com maior frequência.<br />

No entanto, as mudanças não param por aí. A temperatura<br />

média da superfície do oceano aumentou<br />

cerca de 1 °C no último século, e a absorção de CO 2<br />

pelo oceano está tornando suas águas mais ácidas. Esse<br />

aumento de apenas 1 °C pode não parecer tão significativo<br />

na atmosfera terrestre, mas para a sensível vida<br />

marinha, é como viver em febre constante.<br />

Um ecossistema ameaçado<br />

O estresse térmico, causado pelo aumento da temperatura<br />

do mar, rompe a simbiose entre as microalgas<br />

(zooxantelas) que vivem dentro do tecido dos corais, e<br />

que são responsáveis pela coloração e fornecimento de<br />

alimento aos mesmos. Nessa condição, os corais tornam-se<br />

brancos – o chamado branqueamento (bleaching).<br />

Dependendo da intensidade do estresse, os<br />

corais não se recuperam e morrem. Em 2016, a temperatura<br />

recorde dos oceanos levou a um branquea-<br />

26


© Áthila Bertoncini | Projeto Coral Vivo<br />

mento generalizado<br />

nos<br />

recifes australianos.<br />

Pesquisas<br />

de monitoramento<br />

aéreo apontaram<br />

mortalidade<br />

média<br />

de 22% para<br />

toda a Grande<br />

Barreira de<br />

Corais (AIMS,<br />

2016; Hughes<br />

et al., 2016),<br />

chegando em<br />

83% na sua<br />

porção norte.<br />

Na costa brasileira, eventos de branqueamentos<br />

já têm sido observados há pelo menos duas décadas<br />

(Leão et al., 2016; Castro e Pires, 1999). As previsões<br />

indicam que esses eventos se tornarão ainda<br />

mais frequentes (Heron et al., 2016), diminuindo a<br />

resiliência dos corais e ameaçando os ecossistemas de<br />

recifes de coral em todo o mundo. Grandes eventos<br />

de mortalidade sem recuperação levam a uma diminuição<br />

na diversidade genética das populações de corais<br />

e a possibilidade de extinção de espécies é alta.<br />

O nascimento do ReefBank<br />

Os anos de experiência na área de aquicultura,<br />

especificamente na reprodução artificial de peixes,<br />

avaliação da qualidade de gametas e criopreservação<br />

(manutenção em baixa temperatura) de células reprodutivas,<br />

nos levaram a questionar: Essas biotecnologias<br />

poderiam ser utilizadas como ferramentas para ajudar<br />

na conservação dos corais?<br />

Esse questionamento foi então apresentado ao<br />

Projeto Coral Vivo. Fundado em 2003 pelos professores<br />

do Museu Nacional/UFRJ - Clovis Castro e Débora<br />

Pires - o Projeto Coral Vivo é patrocinado pela<br />

Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental<br />

e atua na conservação e uso sustentável dos<br />

recifes de coral por meio de ações de pesquisa, ensino<br />

e extensão. A R<strong>ed</strong>e de Pesquisas Coral Vivo é formada<br />

por pesquisadores associados oriundos de doze universidades<br />

e institutos de pesquisa. O apoio do Coral<br />

Vivo foi fundamental para a criação do ReefBank.<br />

Nosso projeto traz uma proposta inédita de<br />

pesquisa no Brasil. A partir do conhecimento gerado<br />

pelo Coral Vivo acerca da biologia reprodutiva, nós<br />

estamos utilizando ferramentas tecnológicas como a<br />

reprodução in vitro e a criopreservação de gametas.<br />

Nosso objetivo é formar o primeiro banco de gametas<br />

de corais do Atlântico Sul. Os gametas poderão<br />

permanecer congelados por tempo indeterminando,<br />

e quando desejado, serão descongelados e darão<br />

origem a novos corais. Esses corais poderão então<br />

ser utilizados para repovoar e recuperar recifes<br />

degradados.<br />

A equipe ReefBank é formada por pesquisadores,<br />

alunos de pós-graduação e graduação de instituições<br />

públicas e privadas. As espécies-alvo são aquelas conhecidas<br />

popularmente como corais-cérebro, dentre<br />

elas Mussismilia braziliensis, Mussismilia hispida e Mussismilia<br />

harttii. Esses corais estão entre os principais<br />

construtores dos recifes brasileiros. Nossa área de<br />

estudo é o Parque Marinho do Recife de Fora, localizado<br />

em Porto Seguro (BA), e parte das atividades<br />

são conduzidas na Base de Pesquisa do Coral Vivo em<br />

Arraial d’Ajuda.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

27


O nosso<br />

objetivo é formar o<br />

primeiro banco de<br />

gametas de corais do<br />

Atlântico Sul.<br />

© Leandro Santos | Projeto Coral Vivo<br />

Conscientização ambiental<br />

Se para muitas pessoas a degradação no<br />

ambiente terrestre passa despercebida, já<br />

imaginou no ambiente marinho?<br />

Pensando nisso nós decidimos que, além<br />

da pesquisa científica, teríamos que achar<br />

uma maneira de fazer a população perceber<br />

o que está acontecendo embaixo d´água. Só<br />

é possível preservar aquilo que se conhece.<br />

Foi com esse objetivo que criamos o perfil do<br />

ReefBank nas r<strong>ed</strong>es sociais, para falar de ciência<br />

ambiental e recifes de coral de uma forma<br />

simples e interativa, informando e <strong>ed</strong>ucando<br />

de modo consciente, a soci<strong>ed</strong>ade em geral.<br />

© Áthila Bertoncini | Projeto Coral Vivo<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Apoiadores<br />

Além do apoio constante do Projeto Coral<br />

Vivo, ao final de 2018 tivemos duas propostas<br />

aprovadas em <strong>ed</strong>itais de instituições privadas<br />

voltadas à conservação da natureza, são elas: a<br />

Fundação Grupo Boticário e o Fundo Brasileiro<br />

para a Biodiversidade (FUNBIO). Esse apoios<br />

serão fundamentais para que consigamos<br />

desenvolver nossas atividades em prol da<br />

conservação dos recifes de coral brasileiros.<br />

Nas próximas <strong>ed</strong>ições, traremos<br />

informações sobre a biologia reprodutiva,<br />

a formação dos recifes e como a aquicultura<br />

poderá contribuir com a recuperação e<br />

conservação deste importante ecossistema.<br />

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NOV/DEZ 2018<br />

30


Construção de viveiros<br />

para piscicultura<br />

comercial – Parte V<br />

Carlos Eduardo Zacarkim<br />

Coordenador do Curso de Engenharia de Aquicultura<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral do Paraná – UFPR/Setor Palotina<br />

Palotina, PR<br />

zacarkim1@gmail.com<br />

Conforme abordado nos artigos anteriores,<br />

entre os aspectos considerados relevantes<br />

e que merecem atenção na construção de<br />

viveiros para piscicultura comercial, estão a demanda<br />

hídrica de projetos e os aspectos construtivos dos<br />

viveiros, tais como tipo de solo, porte, layout, manejo<br />

e os dispositivos hidráulicos inerentes a cada projeto.<br />

Neste último artigo da série, iremos<br />

abortar os aspectos hidráulicos na construção<br />

de empreendimentos, considerando que os<br />

componentes hidráulicos devem, obrigatoriamente,<br />

permitir o abastecimento e o controle simples e<br />

eficiente da entrada e saída, bem como do nível de<br />

água em cada viveiro e a sua respectiva drenagem<br />

de modo eficaz. Fazem parte dos componentes<br />

hidráulicos de empreendimentos os sistemas de<br />

abastecimento e de drenagem, como canais, tubos<br />

e conexões, comportas, caixas de distribuição, filtros,<br />

bombas, poço de visitas, ressaltos hidráulicos e<br />

divisores de vazão.


NOV/DEZ 2018<br />

Componentes hidráulicos<br />

Por teoria, dispositivos hidráulicos são estruturas<br />

que usam princípios hidráulicos para controlar o fluxo<br />

de água. A determinação dos componentes hidráulicos<br />

em empreendimentos aquícolas depende de alguns<br />

fatores a citar:<br />

• Das características da propri<strong>ed</strong>ade:<br />

Conforme visto no primeiro artigo desta série, a<br />

demanda hídrica de um empreendimento aquícola<br />

será dada pela quantidade de água necessária para<br />

o funcionamento pleno da unidade produtiva,<br />

independente do porte ou finalidade. Uma vez<br />

atendida a demanda hídrica em um projeto, no<br />

planejamento das estruturas hidráulicas o profissional<br />

deve estar atento para que no mínimo, os dispositivos<br />

hidráulicos como canais de abastecimento por<br />

exemplo, levem a quantidade de água requerida para<br />

atender todo o empreendimento, independe qual seja<br />

o porte dele. De nada adianta o profissional ter como<br />

disponibilidade de água um imenso rio ou manancial,<br />

se o canal construído não leva a água necessária para<br />

atender a demanda hídrica do empreendimento.<br />

• Captação de água:<br />

Suprida a quantidade de água, a captação influenciará<br />

nos dispositivos adotados no empreendimento,<br />

considerando que, usualmente, são adotados em<br />

projetos de piscicultura o abastecimento por derivação<br />

(gravidade), abastecimento por bombeamento ou<br />

misto (derivação e bombeamento).<br />

Na tomada de água por derivação, o sentido de<br />

captação deve ser observado. Como a água deriva<br />

direto do rio para as estruturas hidráulicas, o sentido<br />

do canal de abastecimento deve ser contrário ao fluxo<br />

do manancial. Isto evita com que ocorra assoreamento<br />

acelerado do canal pela r<strong>ed</strong>ução da velocidade de<br />

entrada da água e previne resíduos oriundos da<br />

correnteza. Além da captação, se faz necessária a<br />

construção de obras acessórias como filtros ou caixas<br />

de passagem, pois permitem o controle da entrada<br />

de água, possibilitando a interrupção da captação em<br />

caso de chuvas torrenciais, resíduos oriundos de ações<br />

antrópicas, entrada de peixes indesejáveis ou rejeitos<br />

como folhas, galhos etc.<br />

Na tomada de água por bombeamento ou mista,<br />

o profissional deve estar atento a perda de carga da<br />

tubulação devido à altura manométrica, o comprimento<br />

da linha e o número de conexões, pois r<strong>ed</strong>uzirá a<br />

vazão da bomba a ser utilizada. De maneira geral, em<br />

sistemas de bombeamento quando necessitam ser<br />

distribuídos a vários viveiros ao mesmo tempo, são<br />

utilizados canais ou tanques reservatórios em uma<br />

cota (altura) mais elevada e a distribuição de água aos<br />

viveiros se dá por gravidade.<br />

• Porte da piscicultura e manejo:<br />

Algumas cooperativas e entrepostos de pescado<br />

por planejamento, padronização de manejo ou por<br />

controle da qualidade de água, usualmente adotam<br />

renovação de água nos viveiros entre 2-<strong>15</strong>% ao<br />

dia, dependendo da empresa ou do porte do<br />

empreendimento. Viveiros destinados ao cultivo<br />

intensivo de peixes devem atender as demandas<br />

específicas com tamanho, manejo e padronização<br />

demandados pelas unidades de processamento de<br />

pescado, que por sua vez, não sendo atendidas,<br />

podem inviabilizar a comercialização ou o sistema de<br />

integração comumente proposto pelas cooperativas.<br />

Neste sentido, a renovação de água como observância<br />

aos critérios requeridos afeta primeiramente a<br />

Demanda Hídrica em um projeto, visto a alteração<br />

na renovação de água nos viveiros e, posteriormente,<br />

no planejamento dos canais de abastecimento e de<br />

drenagem pelo aumento do volume de água circulante.<br />

• Layout:<br />

Conforme abordado no artigo anterior, no processo<br />

de construção de viveiros primeiramente se avaliam os<br />

projetos pela topografia e de forma secundária, mas<br />

não menos importante, pelas rotinas de alimentação<br />

e operacionalização para se confeccionar o layout,<br />

tamanho e formato dos viveiros, estradas, estruturas<br />

de abastecimento e de drenagem.<br />

Na hipótese de um empreendimento com lâmina<br />

de água definida, topografia plana ou suavemente<br />

ondulada, onde o profissional necessita projetar as<br />

estruturas de drenagem e de abastecimento, a lógica<br />

pela movimentação e volume de terra a ser trabalhado<br />

é de centralizar a linha de despesca e aumentar o<br />

número ou quantidade de canais de abastecimento<br />

conforme expresso na Figura 1.<br />

Figura 1. Modelo de implantação da linha de drenagem .<br />

Canal de abastecimento<br />

Canal de drenagem<br />

Captação de água<br />

por derivação.<br />

32


Isto se deve, porque é mais “econômico” implantar<br />

maior quantidade de canais de abastecimento que,<br />

em geral, possuem 50cm a 1m de profundidade,<br />

do que canais de drenagem que possuem de 2,5m<br />

a 4,5m de profundidade dependendo do projeto.<br />

Estruturas de drenagem devem respeitar a topografia<br />

do empreendimento, onde a cota (altura) de despesca<br />

deve ser menor que o fundo do viveiro em pelo<br />

menos 50cm.<br />

Desta forma, na hipótese de um terreno plano em<br />

que seria indiferente o lado em que se implantaria a<br />

drenagem, quanto menor a quantidade de drenagem,<br />

teoricamente, menor será o custo de implantação.<br />

Evidentemente que o profissional deverá avaliar os<br />

custos de movimentação de terra, aquisição e mão de<br />

obra para implantação das linhas de abastecimento e<br />

drenagem para aferir qual será a melhor proposta de<br />

layout antes da implantação do projeto.<br />

da velocidade média da água em um canal, entretanto,<br />

as de Chezy (1775), Manning (1891) e Strickler<br />

(1923), são as comumente adotadas, sendo Manning<br />

usualmente utilizado no Brasil.<br />

De forma sucinta, estes pesquisadores avaliaram<br />

que a velocidade média da água em um canal<br />

dependerá da declividade do fundo, do raio hidráulico<br />

(razão da área molhada e o perímetro molhado) e do<br />

coeficiente de rugosidade das par<strong>ed</strong>es (Tabelas 1). O<br />

coeficiente de rugosidade resulta do material em que o<br />

canal é <strong>ed</strong>ificado, que para este exemplo, utilizaremos<br />

o coeficiente estimado por Manning (n).<br />

Tabela 1. Coeficientes de Rugosidade de Manning (n).<br />

Noções de Hidráulica<br />

Por definição, Vazão (Q) ou descarga, é o volume<br />

de determinado fluido, neste caso a água, que passa<br />

por uma determinada seção de um conduto livre<br />

ou forçado, por uma unidade de tempo. Em outras<br />

palavras, vazão é a quantidade de água que passa<br />

através de uma tubulação em um determinado tempo.<br />

A vazão necessária de um empreendimento<br />

aquícola é defina pela Demanda Hídrica estimada para<br />

ele, e definirá as estruturas de abastecimento a serem<br />

utilizadas para seu correto escoamento até os viveiros<br />

e, posteriormente, o porte das estruturas de drenagem<br />

a serem utilizadas. A vazão é dada pela Equação da<br />

Continuidade (Equação 1):<br />

Q=AV<br />

Q: vazão (m³/s).<br />

A: seção molhada (m²).<br />

V: velocidade média (m/s).<br />

Componentes do abastecimento<br />

São estruturas componentes do abastecimento<br />

canais, tubos, conexões, divisores de vazão e filtros<br />

ou caixas de passagem. Na piscicultura comercial,<br />

usualmente o abastecimento é realizado por<br />

canais abertos ou por tubulações soterradas em<br />

virtude do baixo custo de implantação e da fácil<br />

manutenção. Independente da escolha utilizada<br />

para o abastecimento, canais ou tubulações, existem<br />

dois elementos que devem ser observados, a<br />

vazão requerida e a perda de carga ao longo do<br />

abastecimento.<br />

Pela equação da continuidade, a vazão de um<br />

dispositivo hidráulico é dada pela área multiplicada<br />

pela velocidade média. A área pode ser obtida por<br />

geometria e a velocidade média determinada através<br />

de equações. Existem várias equações para o cálculo<br />

Fonte: Adaptado de Gribbin, J. E., 2014.<br />

Desta forma, para o cálculo da velocidade (equação<br />

2) temos que:<br />

n: Coeficiente de rugosidade de<br />

V=<br />

__ __ 2<br />

1<br />

Manning (adimensional).<br />

R 3 J 0,5<br />

n<br />

V: velocidade escoamento (m/s).<br />

R: raio hidráulico (m).<br />

J: Declividade do fundo (m/m).<br />

Substituindo a velocidade na equação da<br />

continuidade (Equação 1), temos a vazão em função<br />

da perda de carga em canais (Equação 3):<br />

Q=A<br />

__ __ 2<br />

R 3 J 0,5<br />

1<br />

n<br />

A: Seção molhada (m²).<br />

Supondo uma piscicultura comercial onde a<br />

demanda hídrica fosse estimada em 300m 3 /h ou<br />

0,083m 3 /s, já considerando as perdas de água por<br />

evaporação, infiltração e a renovação de água, se<br />

no canal de abastecimento ou tubulação não passar<br />

essa quantidade de água, os viveiros planejados<br />

simplesmente não encherão. Podemos dimensionar<br />

NOV/DEZ 2018<br />

33


um canal de abastecimento ou tubulação de duas<br />

formas: isolando-se a área e o raio hidráulico em<br />

função da vazão requerida ou por tentativa, estimando<br />

o tamanho de um canal e avaliando se a vazão<br />

encontrada é compatível com a necessidade do<br />

projeto.<br />

No planejamento da unidade se optou em construir<br />

um canal de terra, sem vegetação (Figura 2, Tabela 1),<br />

no formato retangular, com as seguintes m<strong>ed</strong>idas: base<br />

de 50cm, altura da seção molhada de 25cm e com<br />

declividade de 1% (1m de desnível para cada 100m<br />

de comprimento). Neste caso, a pergunta que deve<br />

ser feita é, se a vazão da água que passará por esse<br />

canal planejado, atenderá de forma plena a demanda<br />

hídrica da piscicultura.<br />

A Tabela 2, expressa a geometria das seções de<br />

canais comumente utilizados em piscicultura comercial<br />

em função dos componentes requeridos para o<br />

cálculo da vazão (Equação 3). As formas retangulares<br />

e trapezoidal geralmente são as mais utilizadas em<br />

virtude do formato da concha das escavadeiras<br />

hidráulicas ou retroescavadeiras.<br />

Tabela 2. Geometria das seções em função dos componentes requeridos para o cálculo da vazão.<br />

Figura 2. Canal de terra sem vegetação feito por escavadeira (n=0,033).<br />

© Carlos Eduardo Zacarkim<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Fonte: Adaptado de Gribbin, J. E., 2014; Azev<strong>ed</strong>o Neto, 20<strong>15</strong>.<br />

34


A vazão do canal planejado pode ser calculada pela<br />

Equação 3, logo:<br />

Q=0,125x30,303x0,125x0,1=0,0947m³/s<br />

Figura 3. Monge instalado. © Carlos Eduardo Zacarkim<br />

Portanto, a vazão que passa pelo canal planejado<br />

é de 0,0947m 3 /s ou 340,9m 3 /h e comporta de forma<br />

satisfatória a Demanda Hídrica requerida de 0,083m 3 /s<br />

ou 300,0m 3 /h no projeto. Caso o abastecimento seja<br />

optado por tubulações enterradas, o raciocínio será o<br />

mesmo, alternando apenas a forma geométrica e o<br />

coeficiente de rugosidade adotado.<br />

Cabe ressaltar, que linhas de abastecimento<br />

soterradas e sujeitas ao tráfego de caminhões de<br />

despesca ou maquinários pesados, devem ser<br />

enterradas em pelo menos, 50cm de profundidade.<br />

Sugere-se para linhas que sejam soterradas, em se<br />

trabalhar com tubulação própria para irrigação (PN 60-<br />

125) ou com tubos em polietileno de alta densidade<br />

(PEAD), pois possuem maior resistência ao desgaste e<br />

a carga pontual.<br />

Componentes da drenagem<br />

Entre as estruturas componentes da drenagem<br />

estão monges, caixas de ligação, vert<strong>ed</strong>ouros, poços<br />

de visita, canais ou tubulações de escoamento. De<br />

maneira geral, são dispositivos hidráulicos que tem<br />

a finalidade de controlar o nível da lâmina de água<br />

do viveiro, a renovação da massa líquida, auxiliar<br />

na despesca, garantir a manutenção das estruturas<br />

componentes e evitar fuga da biomassa.<br />

Da mesma forma que o abastecimento, a drenagem<br />

deve atender a capacidade de escoamento de água que<br />

entra na unidade produtiva e, que permita a despesca<br />

dos viveiros de forma satisfatória independente do<br />

porte do empreendimento. Neste sentido, o monge<br />

é o principal dispositivo hidráulico de drenagem em<br />

uma unidade produtiva, juntamente com a tubulação<br />

de escoamento ligada a ele.<br />

Os monges são largamente utilizados na piscicultura<br />

comercial, em sua maioria construídos de pré-moldado<br />

ou concreto armado e instalados a jusante do viveiro.<br />

Possuem duas câmaras (uma seca e outra molhada),<br />

separadas no centro por tampões móveis para o<br />

controle do nível da água no viveiro (Figura 3).<br />

O dimensionamento do monge deve ser planejado<br />

de modo que consiga esvaziar o viveiro entre 4 a 6<br />

horas, independentemente do seu tamanho. Para isso,<br />

a vazão Q da tubulação de drenagem ligada ao monge,<br />

pode ser calculada por meio do princípio de Bernoulli,<br />

tratando a saída do monge como bocal em um sistema<br />

hidráulico sujeito a carga.<br />

Podemos utilizar a chamada equação do bocal/<br />

orifício (Equação 4), para dimensionar a drenagem<br />

em viveiros, onde o coeficiente de descarga C é uma<br />

constante adimensional para orifícios que variam de<br />

acordo com o tamanho, a forma e a quantidade de<br />

carga que o bocal está sujeito. Assim temos que:<br />

Q=CS√ 2gH<br />

C: Coeficiente de descarga (Tabela 3).<br />

S: Área da tubulação.<br />

H: Altura da coluna de água.<br />

G: Gravidade (9,81m/s).<br />

NOV/DEZ 2018<br />

35


NOV/DEZ 2018<br />

Pesquisas realizadas pela Universidade de Tabela 3. Coeficiente de descarga para bueiros de concreto.<br />

Iowa, EUA indicaram que o coeficiente de<br />

descarga pode ser dado em função da relação<br />

comprimento/diâmetro. Desta forma, podemos<br />

adotar de maneira geral para o escoamento<br />

dos monges na piscicultura os coeficientes de<br />

descarga para bueiros de concreto estipulados<br />

na Tabela 3, considerando o comprimento da<br />

tubulação e o diâmetro.<br />

Conforme comentado, na “teoria”,<br />

quanto menor a linha de drenagem, menor<br />

também será o custo do empreendimento,<br />

observadas as devidas relações de corte e<br />

aterro, custo de tubulações, mão de obra etc.<br />

Projetos que optem em trabalhar com linhas<br />

de drenagem tubuladas, as mesmas devem<br />

ser dimensionadas de modo que consigam<br />

drenar simultaneamente dois ou mais viveiros,<br />

independente do porte de cada viveiro. Além<br />

disso, devem possuir declividade mínima de<br />

1%, implantação de caixas de ligação e poço<br />

de visitas.<br />

Caixas de ligação são construídas na junção<br />

ou união da linha de drenagem de dois monges, sendo Figura 3. Construção de uma caixa de ligação. © Carlos Eduardo Zacarkim<br />

<strong>ed</strong>ificadas em concreto, fazendo uso de sapatas/<br />

brocas para fixação. Devem ser instaladas cerca de<br />

50cm abaixo da linha de drenagem para r<strong>ed</strong>ução da<br />

velocidade da água na despesca, de 1,0 a 1,5m de<br />

altura, sendo fechadas por tampa de concreto armado<br />

e soterradas posteriormente (Figura 3).<br />

Poços de visita são estruturas semelhantes as caixas<br />

de ligação, com a diferença de terem ligação ao talude,<br />

instaladas para manutenção da r<strong>ed</strong>e de drenagem<br />

soterrada, podendo ser alternadas entre uma caixa e<br />

outra de ligação (Figura 4).<br />

Para as linhas de drenagem abertas, o<br />

dimensionamento deverá seguir o mesmo princípio<br />

adotado pelo abastecimento por canais, com a ressalva<br />

de comportar a despesca de dois ou mais viveiros<br />

simultaneamente. Os demais dispositivos hidráulicos<br />

como ressaltos, vert<strong>ed</strong>ouros e divisores de vazão Figura 4. Poço de visita (indicado pelas setas). © Carlos Eduardo Zacarkim<br />

poderão ser mencionados em um eventual artigo<br />

específico se houver demanda.<br />

Cosiderações finais<br />

A proposta desta série de artigos foi nortear a<br />

construção de novos empreendimentos aquícolas<br />

na observância de critérios técnicos e observações<br />

realizadas em campo. A ideia foi de esclarecer possíveis<br />

dúvidas e ampliar o debate para a proposta de futuras<br />

pisciculturas comerciais com o foco na r<strong>ed</strong>ução de<br />

custos de implantação e facilidades no manejo.<br />

36


NOV/DEZ 2018<br />

38


Cooperativa de Pesca<br />

e Aquicultura de Goiás<br />

(COOPAQ) – Parte V:<br />

nitrosomonas<br />

Raimundo Lima da Silva Junior<br />

Biomédico, Mestre em Biologia<br />

Núcleo de Pesquisas Replicon, Escola de Ciências Agrárias e Biológicas<br />

Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC,GO)<br />

Presidente e Sócio Fundador da Cooperativa de Pesca e Aquicultura de Goiás (COOPAQ)<br />

railim.jr@gmail.com<br />

No quarto artigo (<strong>ed</strong>ição nº 14, set/out<br />

2018), foi demonstrado como as bactérias<br />

heterotróficas atuam na remoção de amônia<br />

em cultivos aquícolas, via síntese do biopolímeros<br />

PHA (polihidroxialcanoato) e como é possível cultivar<br />

o bioflocos usando produtos básicos seja da agricultura,<br />

ou mesmo de uma simples farmácia. O presente<br />

artigo buscará demonstrar como controlamos o nitrito<br />

de forma direta e eficiente no sistema BRASYS (Biofloc,<br />

RAS and Aquaponics System), trabalhando em simbiose<br />

com as bactérias heterotróficas do meio.<br />

Nitrificação: um breve histórico<br />

O lançamento de águas residuárias contendo compostos<br />

nitrogenados tem um importante impacto sobre<br />

a saúde e o meio ambiente. O nitrogênio é um dos<br />

contaminantes mais importantes presentes nas águas<br />

residuais. Historicamente, o processo de nitrificação é<br />

um tema muito estudado, pela sua fundamental importância<br />

no processo de produção agrícola e tratamento<br />

de água para o consumo humano. O botânico Emil<br />

Godlewski (Cracóvia, Polônia), no final do século XIX,<br />

se d<strong>ed</strong>icou ao estudo da nitrificação aplicado no crescimento<br />

das plantas (Godlewski, 1892) e na nitrificação<br />

da amônia e fontes de carbono utilizadas (Godlewski,<br />

1895). Howard Lees (University of Aberdeen, Escócia),<br />

em duas publicações na Nature, em 1948 e 1952,<br />

demonstrou, cultivando as bactérias Nitrosomonas,<br />

como a hidroxilamina é o composto interm<strong>ed</strong>iário na<br />

oxidação da amônia. Tais trabalhos deram suporte para<br />

Knowles e colaboradores (1965), em Stevenage (Reino<br />

Unido), determinassem as cinéticas de crescimento<br />

das bactérias nitrificantes: Nitrosomonas e Nitrobacters.<br />

Com isso, diversos autores estudaram o mecanismo<br />

de nitrificação aplicado no tratamento de águas residuais<br />

em sistemas de lodo ativo e biorreatores aeróbicos<br />

e anaeróbicos (Molina & Rovira, 1964; Hoopey &<br />

Nason, 1965; Wallace & Nicholas, 1968; Hulth et al.,<br />

2005; Antileo et al., 2006).<br />

Entendendo a rota metabólica da<br />

nitrificação<br />

Estudos biogeoquímicos permitiram aplicar alternativas<br />

tecnológicas mais práticas para o tratamento biológico<br />

do nitrogênio. Basicamente, este tratamento se<br />

dá em dois processos, a nitrificação e a desnitrificação<br />

(Philips, 2008). Na fase da nitrificação, em condições<br />

aeróbicas, o amônio é oxidado em duas etapas: na primeira,<br />

é levado até nitrito pelas bactérias oxidadoras<br />

de amônio (BOA), lideradas pelas Nitrosomonas sp., e<br />

numa etapa subsequente o nitrito é consumido pelas<br />

bactérias oxidadoras de nitrito (BON), como as Nitrobacter<br />

sp., tendo como principal produto o nitrato.<br />

Sob condições de baixa saturação de oxigênio ou mesmo<br />

anóxicas, o amônio oxidado é então convertido<br />

por bactérias heterotróficas em nitrogênio gasoso e<br />

NOV/DEZ 2018<br />

39


NOV/DEZ 2018<br />

síntese de PHA (polihidroxialcanoatos) (Chang et al.,<br />

2011; Munoz et al., 2009), como relatamos no artigo<br />

anterior desta série.<br />

A demanda de oxigênio para a nitrificação é aproximadamente<br />

a metade da demanda para oxidação<br />

do material orgânico. O consumo de alcalinidade que<br />

acompanha a nitrificação pode r<strong>ed</strong>uzir o pH a valores<br />

tais que inviabilizem processos biológicos e aumentando<br />

a acidez no sistema de tratamento. Downing et<br />

al. (1964) estabeleceram que os dois passos da nitrificação<br />

podem ser descritos pela cinética de Monod,<br />

típico para processos biológicos.<br />

Mostraram que a cinética<br />

da nitrificação depende de uma<br />

variável operacional (tempo de<br />

O consumo de<br />

alcalinidade que<br />

acompanha a nitrificação<br />

pode r<strong>ed</strong>uzir o pH<br />

a valores tais que<br />

inviabilizem processos<br />

biológicos e aumentando<br />

a acidez no sistema de<br />

tratamento.<br />

maturação biológica do corpo<br />

d’água) e de três constantes: a)<br />

taxa de crescimento máximo de<br />

Nitrosomonas e Nitrobacter, b)<br />

constante de decaimento destas<br />

bactérias e c) a constante de<br />

meia saturação. Van Haandel e<br />

Marais (1999) mostraram que<br />

na cinética de Monod a constante<br />

mais importante é a taxa<br />

máxima de crescimento de Nitrosomonas<br />

ou Nitrobacter, não<br />

somente porque esta constante<br />

tem muito mais influência sobre<br />

a taxa de nitrificação que as outras<br />

constantes, mas também<br />

porque se mostra muito mais<br />

influenciada pela composição e<br />

origem da água residuária.<br />

A oxidação de amônio pelas BOA e a oxidação de<br />

nitrito pelas BON são processos independentes, porém,<br />

competem entre si quanto a disponibilidade de<br />

oxigênio e carbono inorgânico. Esse grupo de bactérias<br />

se caracteriza por obter sua energia para crescer<br />

da oxidação de compostos inorgânicos (NH 4+<br />

)<br />

e (NO 2-<br />

), utilizar o carbono inorgânico (CO 2<br />

) como<br />

fonte de carbono e o oxigênio (O 2<br />

) como aceptor<br />

de elétrons. Adicionalmente, a velocidade de crescimento<br />

bacteriano (μ) e constante de saturação por<br />

oxigênio (K), entre estes dois grupos de bactérias são<br />

diferentes, indicando um intervalo na sequência de<br />

reações bioquímicas. As BOA possuem μ de 0,77d -1<br />

e K de 0,3mg O 2<br />

.L -1 , e as NOBs com 1,08d -1 e K de<br />

1,1mg O 2<br />

.L -1 .<br />

As BOA e BON são autotróficas, o que as caracterizam<br />

por ter velocidades de crescimento (μ) muito<br />

baixas em comparação com as bactérias heterotróficas,<br />

(0,77 e 7,20d -1 , respectivamente) (Cox, 2009).<br />

O processo de nitrificação é limitado pela concentração<br />

de oxigênio e temperatura, bem como inibido<br />

pela concentração de amônia e carbono orgânico.<br />

Por conta destes inúmeros relatos, há o acúmulo de<br />

nitrito no tanque de cultivo. A intoxicação pelo nitrito<br />

inibe de forma irreversível a absorção de oxigênio pelas<br />

proteínas transportadoras de oxigênio nos animais<br />

cultivados. Nos peixes, este evento é denominado<br />

metaglobinemia, no qual, a hemoglobina é convertida<br />

em metaglobina. Tal situação é muito mais severa<br />

em animais cultivados em baixa salinidade,<br />

pois a presença de íons de<br />

cloro (Cl - ) na água salgada, inibe a<br />

ligação de nitrito as proteínas transportadoras<br />

de oxigênio (hemoglobina<br />

em peixes e hemocianina em<br />

camarões).<br />

A equação estequiométrica do<br />

processo de nitrificação, segundo<br />

(Ebeling et al., 2006), consiste<br />

em: NH 4<br />

+<br />

+ 1,83O 2<br />

+<br />

1,97 HCO 3<br />

-<br />

----> 0,024C 5<br />

H 7<br />

O 2<br />

N<br />

+ 0,976 NO 3<br />

-<br />

+ 2,9 H 2<br />

O +<br />

1,86CO 2<br />

. Convertendo mols para<br />

massa em gramas, para cada 1g de<br />

nitrogênio-amoniacal oxidado, são<br />

necessários 7,05g de alcalinidade<br />

(bi/carbonatos) e 4,18g de oxigênio.<br />

Assim, são produzidos 0,2g<br />

de biomassa bacteriana, 5,85g de<br />

gás carbônico e 0,98g de nitrogênio-NO<br />

3<br />

(Tabela I). Porém, como<br />

produto interm<strong>ed</strong>iário temos o Nitrito (NO 2<br />

). Desta<br />

forma, é possível observar que não há produção de<br />

matéria orgânica significante no processo de nitrificação,<br />

e que a oferta de carbono orgânico, juntamente<br />

com o oxigênio são os fatores limitantes do processo.<br />

Nitrosomonas: a vilã da nitrificação<br />

O acúmulo de substâncias tóxicas inorgânicas,<br />

como amônia e nitrito, é um dos principais problemas<br />

de qualidade da água em sistemas aquícolas intensivos.<br />

O nitrito é um importante produto interm<strong>ed</strong>iário<br />

no processo de nitrificação. Dependendo<br />

das concentrações e do estágio de desenvolvimento<br />

do organismo aquático cultivado, pode vir a ser bastante<br />

tóxico, causando mortalidade em larviculturas<br />

e sistemas de cultivo (Barbieri et al., 2014). O mecanismo<br />

tóxico do nitrito atua sobre o transporte<br />

de oxigênio, no qual o nitrito se liga à hemocianina<br />

40


(proteína de transporte de oxigênio em crustáceos),<br />

ocupando o lugar do oxigênio, transformando-a<br />

em metahemocianina, a qual é incapaz de transferir<br />

oxigênio para os tecidos. Dessa forma, ocorre uma<br />

r<strong>ed</strong>ução na quantidade de oxigênio disponível para<br />

o metabolismo e um aumento da pressão parcial do<br />

oxigênio (pO 2<br />

), podendo ocorrer hipóxia e, consequentemente,<br />

morte dos camarões por ausência total<br />

de oxigênio (anóxia). Nas tilápias, a resistência a toxicidade<br />

do nitrito é um pouco maior, porém, quando<br />

presente em altas concentrações também pode<br />

levar a mortalidade em massa no tanque de cultivo.<br />

A presença de nitrito no cultivo estava diretamente<br />

relacionada a presença de bactérias do grupo<br />

das Nitrosomonas e a de amônia. Com estes<br />

dois componentes, a síntese de nitrito é inevitável.<br />

A concentração letal média (CL 50<br />

) é a concentração<br />

estimada que produz mortalidade em 50% da população-alvo,<br />

em um período de tempo específico,<br />

geralmente de 24 a 96 horas. Campos et al. (2012)<br />

relataram, utilizando juvenis de Farfantepenaus brasiliensis<br />

(camarão-rosa), em salinidade de 28ppt, 25ºC<br />

e pH de 8,29, obtiveram as CL 50<br />

(96h) de amônia e<br />

nitrito de 20 e 40mg.L -1 , respectivamente. Frías-Espericueta<br />

et al. (1999), testando L. vannamei (camarão-<br />

-cinza), obteve CL 50<br />

(96h) para amônia de 70,9mg.L -1 .<br />

Como praticamente todas as bactérias nitrificantes<br />

comercialmente disponíveis contém os<br />

dois grupos de bactérias, BOA e BON, usar estas<br />

bactérias em um tanque de cultivo intensivo com<br />

amônia elevada era inevitável a perda de animais,<br />

pela proliferação de Nitrosomonas e o acúmulo de<br />

nitrito na água. Por três vezes, perdemos toda a<br />

nossa produção de camarões, seguindo a orientação<br />

da assessoria contratada, de inocular diretamente<br />

estas bactérias comerciais e adicionando carbono<br />

orgânico para auxiliar na proliferação das bactérias<br />

heterotróficas. Tudo ao mesmo tempo! Em poucos<br />

dias não restavam animais no tanque de cultivo,<br />

pois o nitrito acumulou-se por um longo período.<br />

As Nitrosomonas tornaram-se a nossa principal vilã.<br />

O Biorreator de Nitrobacters: a solução<br />

A perda de produção em tanques intensivos fez<br />

com que buscássemos outras estratégias, mais precisas<br />

e rápidas, para combater as altas concentrações<br />

de nitrogenados na água do cultivo, tanto para o tratamento<br />

da amônia, quanto para o nitrito. A amônia<br />

quando dissolvida na água encontra-se em equilíbrio<br />

entre as formas ionizada e não ionizada (tóxica),<br />

sendo este equilíbrio influenciado pelo pH, temperatura<br />

e salinidade. Alterações destes parâmetros<br />

resultam na variação da concentração das diversas<br />

formas de nitrogênio, que podem atingir concentrações<br />

tóxicas para os peixes e camarões. A forma<br />

não ionizada da amônia, difunde-se facilmente através<br />

das membranas respiratórias, causando danos ao<br />

epitélio branquial e, como consequência, dificulta as<br />

trocas gasosas entre o animal e a água, desestabilizando<br />

o sistema de osmorregulação. O nitrito em<br />

altas concentrações provoca um quadro de cianose,<br />

tornando-se letal aos animais em pouco tempo.<br />

Desta forma, para que pudéssemos antecipar os<br />

picos de amônia e nitrito, criamos um biorreator simples<br />

(Figura 1), de duas fases, específico para cada<br />

problema a ser enfrentado: amônia e nitrito. A primeira<br />

fase consiste em r<strong>ed</strong>uzir as altas concentrações<br />

de amônia na água do cultivo, ativando as bactérias<br />

heterotróficas dos probióticos comerciais a base de<br />

Bacillus cereus e B. subtilis utilizando fontes de carbono<br />

orgânico, com uma maior concentração de carboidratos,<br />

como açúcar mascavo, acompanhando com o<br />

m<strong>ed</strong>idor de ORP (do inglês: Oxidation R<strong>ed</strong>uction Potencial).<br />

Valores de ORP acima de +110mV indicam<br />

Tabela 1. Parâmetros cinéticos reportados para bactérias que oxidam amônio e nitrito e bactérias heterotróficas, segundo Beltran (2008).<br />

NOV/DEZ 2018<br />

DQO: demanda química de oxigênio; μmax: velocidade de crescimento bacteriano específico; YB: coeficiente de crescimento das bactérias; Ki:<br />

constante de inibição; Ks: constante de saturação pelo substrato ou constante de Monod; K’: constante de saturação por oxigênio.<br />

41


um processo químico de oxidação ocorrendo na<br />

água do biorreator, o que caracteriza a ativação das<br />

bactérias que normalmente são vendidas no estágio<br />

de quiescência. Esta ativação foi fundamental para<br />

controlarmos o nível de amônia na água do cultivo.<br />

Com o crescimento exponencial bacteriano após a<br />

ativação pelo biorreator, conseguimos zerar os níveis<br />

de amônia em menos de 48h, partindo de 13,5ppm.<br />

Com isso, eliminamos o substrato para a ação<br />

das BOA presentes no cultivo. Neste cenário, estávamos<br />

inibindo a ação das Nitrosomonas por<br />

competição pelas bactérias heterotróficas, que<br />

convertiam toda a amônia em PHA, não restando<br />

amônia para as Nitrosomonas oxidarem amônia<br />

em nitrito. Isso graças a velocidade de crescimento<br />

bacteriano específico (μmax) das bactérias heterotróficas<br />

serem 9,3x maior do que o μmax das BOA.<br />

Altas concentrações de amônia inibem a ação<br />

das BON, com isso, iniciamos a segunda fase do<br />

processo, que consistia em tratar o nitrito da água,<br />

inoculando mais bactérias comerciais que continham<br />

Nitrobacters, porém, em condições físico-químicas<br />

favoráveis, como o oxigênio, apenas para as<br />

BON que oxidaram o nitrito residual em nitrato.<br />

Nossos dados indicaram que a velocidade de oxidação<br />

de nitrito a nitrato (descida da concentração<br />

do nitrito: A=-3,5d+18,7, r²=0,97) foi maior do<br />

que a velocidade da oxidação da amônia em nitrito<br />

(subida da concentração de nitrito: N=2,9d-3,7,<br />

r²=0,93), pelas BON do tanque de cultivo (Figura<br />

2), demonstrando a eficiência catalítica das BON<br />

após a retirada da amônia da água do cultivo pelas<br />

bactérias heterotróficas cultivadas no biorreator.<br />

Figura 1. Biorreator de bactérias nitrificantes para crescimento exclusivo de bactérias BON.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

42


Figura 2. Parâmetros de análise do tanque de cultivo (35m³) de pós larvas de camarão Litopenaeus vannamei<br />

(3.000PLs/m³), MH/COOPAQ (2017).<br />

35<br />

30<br />

Concentração (ppm)<br />

25<br />

20<br />

<strong>15</strong><br />

10<br />

5<br />

0<br />

0 2 4 6 8 10 12<br />

Dias<br />

Amônia Nitrito Nitrato<br />

Conclusão<br />

Concluímos que, como a amônia é tóxica e inibe a<br />

atividade das bactérias nitrificantes, esta inibição ocorre<br />

de forma desigual para os dois grupos de microrganismos<br />

(BOA e BON) envolvidos no processo, com tempos<br />

de oxidação da amônia e do nitrito diferentes. As<br />

BOA são mais resistentes à amônia livre que as BON<br />

por possuírem a própria amônia como substrato metabólico.<br />

A amônia não ionizada é inibidora das BON<br />

a uma concentração de 0,1 a 1,0mg.L -1 , enquanto a<br />

inibição das BOA ocorre a uma concentração de 10 a<br />

<strong>15</strong>0mg.L -1 . Carboidratos em excesso na água do cultivo<br />

podem inibir a ação de ambas. Os bi/carbonatos<br />

precisam estar sempre elevados (>120 mg.L -1 ) para<br />

fornecer energia para as BOA e BON. As heterotróficas<br />

são mais eficazes e mais ágeis na r<strong>ed</strong>ução de<br />

amônia nos tanques de cultivo, quando comparadas<br />

as BOA. Esta estratégia, quando realizada via biorreator,<br />

faz com que não haja mais substrato (amônia)<br />

para as BOA sintetizarem nitrito, criando um ambiente<br />

favorável para a ação das BON. Ao eliminar a amônia,<br />

pela síntese de PHA pelas bactérias heterotróficas, e<br />

oxidando o nitrito residual com bactérias Nitrobacters,<br />

cultivadas em biorreator específico, pode-se controlar<br />

os níveis de nitrogenados em cultivos superintensivos,<br />

diminuindo a mortalidade e aumentando a produtividade.<br />

Consulte as referências bibliográficas em<br />

www.aquaculturebrasil.com/artigos<br />

NOV/DEZ 2018<br />

43


NOV/DEZ 2018<br />

44


45<br />

NOV/DEZ 2018


NOV/DEZ 2018<br />

46


SiTASS: Simpósio<br />

Técnico da Aquicultura<br />

Superintensiva Sustentável<br />

Rodrigo C. A. Baldin<br />

Camarão São Luiz<br />

Itu, SP<br />

camaraosaoluiz@camaraosp.com.br<br />

Nos dias 28, 29 e 30 de setembro<br />

de 2018 em Taubaté/SP ocorreu<br />

algo inédito para a aquicultura<br />

do Sudeste brasileiro. Um evento técnico<br />

(teórico e prático) foi realizado, visando<br />

trazer informações técnicas, profissionalismo<br />

e dinamismo à aquicultura superintensiva em<br />

águas interiores.<br />

Com o objetivo de estimular a aquicultura<br />

superintensiva, nascia o SiTASS - Simpósio<br />

Técnico da Aquicultura Superintensiva<br />

Sustentável, evento criado pelo Médico<br />

Veterinário Rodrigo C. A. Baldin e ministrado<br />

pelo Eng. de Aquicultura Bruno R. Scopel,<br />

incluindo também outras palestras com<br />

diversos profissionais do setor aquícola<br />

brasileiro. O evento reuniu mais de 50<br />

pessoas para discutir o assunto e apresentar as<br />

atualidades e desafios do segmento.<br />

O evento reuniu<br />

mais de 50 pessoas<br />

para discutir o assunto<br />

e apresentar as<br />

atualidades e desafios do<br />

segmento.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

47


Simpósio envolveu também<br />

empresas do setor<br />

As empresas Aquadrop, Aquatec, Guabi, Inve,<br />

Kera, Konkreta, Nano Biologic, Nutriad, VazFlux,<br />

Veromar e Zanatta estiveram presentes, divulgando<br />

seus produtos e tirando dúvidas dos participantes,<br />

sendo este um dos principais motivos do evento:<br />

viabilizar o fornecimento de insumos e tecnologia<br />

para uma região carente por informações e produtos<br />

voltados ao sistema superintensivo de produção.<br />

Local do evento<br />

O evento foi realizado na Aquicultura Aqualuz,<br />

uma das pioneiras em São Paulo a produzir, despescar<br />

e comercializar o camarão marinho (Litopenaeus<br />

vannamei) em sistema totalmente fechado, usando a<br />

tecnologia BFT (Biofloc Technology System) no interior<br />

de São Paulo.<br />

Figura 1. Vista aérea dos galpões da Aquicultura Aqualuz, SP.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

SiTASS<br />

Os participantes puderam observar como a<br />

produção funciona, visualizando camarões juvenis e as<br />

pós-larvas dentro do sistema. A aula prática demonstrou<br />

várias técnicas utilizadas no monitoramento do sistema,<br />

desde análises diárias a análises feitas em microscopia<br />

óptica.<br />

Com o título, “Tecnologias avançadas na produção<br />

de camarões e peixes em sistemas intensivos com<br />

mínimo uso de água: atualizações e perspectivas<br />

para o estado de SP”, o curso apresentou nestes três<br />

dias um conteúdo focado no sistema de produção<br />

superintensivo e novas tecnologias que estão se<br />

desenvolvendo em paralelo ao sistema de bioflocos.<br />

Figura 2. Aula prática sendo ministrada pelo engenheiro<br />

Bruno Scopel.<br />

48


As empresas patrocinadoras acima citadas e os<br />

apoiadores (ABCC, Aquaculture Brasil, Camarão São<br />

Luiz, Ecomarine, Peixe BR e Piscicultura Aqualuz),<br />

foram de fundamental importância para o sucesso do<br />

evento.<br />

Que venha o Segundo SiTASS em 2019, para<br />

incentivar cada vez mais este sistema de produção<br />

totalmente sustentável e ecologicamente correto,<br />

capaz de trabalhar de forma eficiente os nutrientes e<br />

resíduos do sistema, utilizando área e quantidade de<br />

água significativamente menores, resultando desta<br />

forma em uma atividade de pequeno ou nulo impacto<br />

ambiental.<br />

Figura 3. Vista interna dos tanques de produção em sistema de Bioflocos.<br />

Figura 4. Da esquerda para a direita: Débora Baldin (Sócia Camarão São Luiz), Giancarlo Tognato (Sócio-proprietário Aqualuz),<br />

Maria Claudia (Sócia-diretora Aquatec), Rodrigo Baldin (Proprietário Camarão São Luiz / Gerente Comercial Nutriad), Ana Carolina<br />

(Sócia-diretora Aquatec), Dalton Nielsen (Sócio-proprietário Aqualuz).<br />

NOV/DEZ 2018<br />

49


The role of dietary methionine concentrations on growth,<br />

metabolism and N-retention in cobia (Rachycentron<br />

canadum) at elevat<strong>ed</strong> water temperatures<br />

Autores: Minh Van Nguyen, Marit Espe, Louis E. C. Conceição, Hoang Minh Le, Manuel Yúfera,<br />

Sofia A. D. Engrola, Ann‐Elise Olderbakk Jordal e Ivar Rønnestad<br />

De autoria de Nguyen e colaboradores, o artigo foi capa da revista Aquaculture<br />

Nutrition (<strong>ed</strong>. 2, vol. 25).<br />

O trabalho determinou os impactos de diferentes níveis de metionina na dieta e<br />

temperaturas (30 e 34°C) no crescimento, na eficiência alimentar e nos metabólitos<br />

nitrogenados, em juvenis de bijupirá.<br />

Principais pontos do artigo:<br />

Diferentes níveis de metionina na dieta e temperaturas da água de<br />

cultivo afetaram significativamente o crescimento e a eficiência<br />

alimentar;<br />

O plasma sanguíneo, músculo, aminoácidos livres do fígado<br />

e metabólitos nitrogenados também sofreram alteração, de<br />

acordo com os tratamentos avaliados;<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Além disso, a temperatura afetou a composição das<br />

classes de lipídios, resultando no aumento dos fosfolipídios<br />

e no colesterol, na temperatura de 34°C.<br />

Saiba mais em:<br />

DOI: 10.1111/anu.12875.<br />

50


VAI QUE A “MODA” PEGA<br />

UM OLHAR CURIOSO<br />

NOV/DEZ 2018<br />

51


NOV/DEZ 2018<br />

Roberto Bianchini Derner<br />

Laboratório de Cultivo de Algas<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral de Santa Catarina - UFSC<br />

Florianópolis, SC<br />

roberto.derner@ufsc.br<br />

Produção de microalgas no Laboratório de<br />

Moluscos Marinhos (LMM/UFSC)<br />

fato que em aquicultura as microalgas continuam<br />

É sendo essenciais na alimentação de diversas espécies<br />

de peixes, camarões e moluscos, principalmente<br />

na etapa de larvicultura. Para suprir esta demanda, nos<br />

laboratórios de larvicultura são desenvolvidas culturas<br />

em recipientes com volumes de até alguns milhares de<br />

litros (< 10.000 L). Em geral estes sistemas de cultivo<br />

foram esquematizados há décadas e, replicados mundo<br />

a fora, poucos têm sido aprimorados buscando melhorias<br />

na produtividade, na qualidade das culturas e na<br />

segurança (estabilidade) da produção das microalgas.<br />

Em relação aos moluscos bivalves, as microalgas<br />

são ainda mais importantes, uma vez que constituem<br />

exclusivamente a dieta nas larviculturas e são o alimento<br />

principal durante todo o ciclo de vida destes animais,<br />

sendo assim, maior atenção deve ser dirigida à produção<br />

das microalgas nestes empreendimentos comerciais.<br />

Apesar da lenta evolução nos sistemas de produção<br />

aquícola (“em time que está ganhando não se mexe”!?),<br />

um significante exemplo da busca pelo aprimoramento<br />

vem ocorrendo há anos no Laboratório de Moluscos<br />

Marinhos (LMM – http://www.lmm.ufsc.br) da Universidade<br />

F<strong>ed</strong>eral de Santa Catarina, onde as atualizações<br />

também incluem a modernização do seu Laboratório<br />

de Microalgas. Neste Setor, com uma equipe qualificada<br />

sob o comando da Bióloga Jaqueline de Araújo, M.<br />

Sc., são produzidas diariamente 25 t de culturas com<br />

elevada qualidade, e a produção somente é interrompida<br />

nos momentos de paradas sanitárias.<br />

Para a alimentação das diversas espécies de moluscos<br />

(Ostra-do-Pacífico Crassostrea gigas; ostras nativas<br />

C. rhizophorae e C. brasiliana; ostra perlífera Pteria hirundo;<br />

Vieira Nodipecten nodosus; mexilhão Perna perna;<br />

e o berbigão Anomalocardia brasiliana) são cultivadas<br />

algumas cepas de microalgas, cada qual apropriada<br />

para alguma(s) espécie(s) de molusco(s) e/ou para um<br />

estágio específico do ciclo de vida (fase larval, semente,<br />

reprodutor etc.).<br />

Como ocorre em praticamente todos os laboratórios<br />

brasileiros, as cepas das microalgas (Chaetoceros<br />

calcitrans, C. muelleri, Thalassiosira pseudonana - clone<br />

3H, Skeletonema sp., Isochrysis sp. - TISO, Pavlova<br />

sp., Nannochloropsis oculata, Tetraselmis suecica, Thalassiosira<br />

fluviatilis, Rhodomonas salina e Pha<strong>ed</strong>octylum<br />

tricornutum) também foram importadas, neste caso,<br />

do Provasoli-Guillard National Center for Marine Algae<br />

and Microbiota (NCMA, antigo CCMP) e são cultivadas<br />

com Meio f/2.<br />

As culturas com maior volume (empregadas principalmente<br />

na alimentação dos reprodutores) são desenvolvidas<br />

a céu aberto, sob condições ambientais<br />

naturais, entretanto, muita tecnologia é empregada nas<br />

culturas desenvolvidas em ambiente fechado, onde<br />

são aplicadas rigorosas condições ambientais (assepsia,<br />

qualidade da água, temperatura, iluminação etc.) permitindo<br />

que, além dos cultivos estacionários, também<br />

sejam desenvolvidas culturas aplicando os métodos semicontínuo<br />

e contínuo (ver Coluna Biotecnologia de<br />

Algas da 10ª <strong>ed</strong>ição da Aquaculture Brasil).<br />

As culturas em cultivo semicontínuo são desenvolvidas<br />

em bolsas plásticas de 100 L (Figura 1) e de 300<br />

L (Figura 2), sendo que alguns dias após a inoculação,<br />

quando as culturas alcançam elevada densidade celular,<br />

são iniciadas as diluições periódicas. Geralmente,<br />

a cada 4 dias são retirados 40% do volume de cada<br />

cultura e é adicionado o mesmo volume de meio<br />

de cultura (água e as soluções de nutrientes). Neste<br />

método de cultivo, o LMM tem conseguido manter<br />

as culturas por até 60 dias, com ótima qualidade das<br />

células e apropriado valor nutricional da biomassa para<br />

a alimentação dos moluscos.<br />

Em relação ao cultivo contínuo, este exige ainda um<br />

maior conhecimento técnico (cinética de crescimento,<br />

assimilação dos nutrientes etc.), uma vez que os<br />

ajustes devem ser mais precisos. As culturas em cultivo<br />

contínuo são desenvolvidas em bolsas plásticas de 100<br />

52


BIOTECNOLOGIA DE<br />

ALGAS<br />

L, numa estrutura onde um complexo sistema de adição<br />

de meio de cultura (Figura 3) foi programado para controlar<br />

a diluição permanente (todo o tempo). Assim que<br />

as culturas alcançam elevada densidade celular é iniciada<br />

a diluição constante (por até 60 dias), correspondente a<br />

30% do volume a cada ciclo de 24 horas, e a entrada permanente<br />

de meio de cultura é compensada pela saída da<br />

cultura por extravasamento, assim, é mantido um volume<br />

constante.<br />

Reconhecidamente, a aplicação dos métodos semicontínuo<br />

e contínuo em cultivos de microalgas desenvolvidos<br />

em escala comercial é uma evolução a ser considerada,<br />

particularmente no Brasil, onde pr<strong>ed</strong>ominam os<br />

cultivos estacionários. Estes métodos de cultivo, além de<br />

levarem ao aumento da produtividade também permitem<br />

o controle da qualidade das culturas e das células, elevando<br />

e mantendo o valor nutricional da biomassa produzida<br />

nestas condições de cultivo. Pelo excelente trabalho, parabenizamos<br />

a Equipe do LMM/UFSC por sempre buscar<br />

a excelência!<br />

Figura 2. Bolsas plásticas 300 L - cultivo semicontínuo.<br />

© Jaqueline de Araújo<br />

Figura 1. Bolsas plásticas 100 L - cultivo semicontínuo.<br />

© Roberto Derner<br />

Figura 3. Sistema de adição de meio de cultura dos cultivos<br />

contínuos. © Roberto Derner<br />

NOV/DEZ 2018<br />

53


André Camargo<br />

Sócio Fundador da Escama Forte<br />

Botucatu, SP<br />

andre@escamaforte.com.br<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Eficiência e produtividade<br />

Nos dias atuais a busca por índices zootécnicos<br />

eficientes é fundamental para a sustentabilidade<br />

dos negócios na aquicultura. Com o crescimento<br />

da atividade, passamos a estar sujeitos a oscilações<br />

de mercado que antes não pareciam alcançar os<br />

produtores aquícolas.<br />

Com a crise vivida pelos produtores de tilápias, conforme<br />

falamos na <strong>ed</strong>ição anterior, a segunda casa depois<br />

da vírgula passou a ganhar importância no que diz<br />

respeito a índices como taxa de conversão alimentar<br />

e ganho de peso diário, o mesmo acontecendo com<br />

camarões, tambaquis e outras espécies aquícolas produzidas<br />

no Brasil neste momento de crise.<br />

Com isso, os produtores e as empresas fornec<strong>ed</strong>oras<br />

de insumos iniciam um trabalho mais intenso no uso<br />

de ferramentas que possam auxiliar na maior eficiência e<br />

produtividade dos sistemas de produção aquícola. Nas<br />

próximas <strong>ed</strong>ições exploraremos a estrutura dos sistemas<br />

de produção e seus controles, a biossegurança dos<br />

processos de produção, a manutenção da qualidade de<br />

água e nesta <strong>ed</strong>ição abordaremos o uso de ferramentas<br />

nutricionais não convencionais que fazem a diferença<br />

nas criações, os chamados “aditivos nutricionais”.<br />

Os aditivos nutricionais são compostos que não<br />

atuam diretamente na nutrição dos animais e sim colaboram<br />

com os processos vinculados a processos<br />

digestivos, absorção de nutrientes, fortalecimento de<br />

flora intestinal benéfica, além de estímulos em relação<br />

a saúde e imunidade dos animais de produção. Desta<br />

forma, podemos dividir estes aditivos em quatro principais<br />

grupos:<br />

1<br />

1II<br />

Probióticos;<br />

1I<br />

IV<br />

Pré-bióticos;<br />

Estimulantes de imunidade;<br />

Acidificantes e preparadores do<br />

ambiente.<br />

Probióticos são produtos à base de organismos benéficos<br />

vivos, que por meio da colonização do trato<br />

intestinal dos animais promovem benefícios à saúde do<br />

mesmo. Por meio da colonização de sítios ainda não<br />

ocupados ou pelo equilíbrio das comunidades existentes,<br />

os probióticos promovem a estabilização dos processos<br />

biológicos do intestino e desta forma melhoram<br />

absorção de nutrientes por parte dos animais, além de<br />

minimizar desarranjos que atrapalham o tempo ideal de<br />

passagem dos alimentos.<br />

Pré-bióticos são componentes alimentares não digeríveis<br />

que estimulam seletivamente a proliferação<br />

ou atividade de populações de bactérias desejáveis no<br />

intestino (cólon), beneficiando o indivíduo hosp<strong>ed</strong>eiro<br />

dessas bactérias, ou seja, os animais de produção.<br />

Normalmente em forma de fibras, potencializam o tão<br />

necessário equilíbrio intestinal.<br />

Já os imunoestimulantes são moléculas que de alguma<br />

forma estimulam a resposta imunológica do organismo<br />

a algum processo infeccioso, inflamatório ou<br />

alérgico e desta forma, estes compostos quando usados<br />

preventivamente em momentos conhecidos acabam<br />

funcionando como inibidores de processos de<br />

quebra de resistência dos animais.<br />

Os acidificantes agem de forma a proporcionar o<br />

ambiente ideal para a microbiota desejável e assim diminuir<br />

os gastos energéticos para correção de desequilíbrios<br />

e a potencialização daqueles microrganismos benéficos<br />

à saúde do animal e dos processos de digestão<br />

e absorção de nutrientes.<br />

Com isso tudo, podemos perceber que as ferramentas<br />

hoje disponíveis no mercado para melhorar a<br />

eficiência no processo de transformação de proteínas<br />

vegetais e animais em proteína de pescado são muito<br />

variadas e assim a nutrição passa a evoluir não só em<br />

função dos nutrientes propriamente ditos, e sim em<br />

função do seu melhor aproveitamento também. Com<br />

a necessidade de produtividades cada vez maiores, não<br />

temos opção, a não ser a busca de processos mais eficientes.<br />

54


NUTRIÇÃO AQUÍCOLA<br />

Artur Nishioka Rombenso<br />

CSIRO – Austrália<br />

IPEMAR – Brasil<br />

Ingr<strong>ed</strong>ientes complementares<br />

vs ingr<strong>ed</strong>ientes alternativos?<br />

No mundo da nutrição aquícola existem alguns<br />

conceitos em relação às formulações. Geralmente,<br />

as formulações buscam identificar diferentes<br />

maneiras de combinar uma vari<strong>ed</strong>ade de ingr<strong>ed</strong>ientes<br />

com o intuito de atender as demandas e exigências nutricionais<br />

das espécies e assim promover crescimento,<br />

saúde e bem-estar das mesmas. Muitas vezes, no setor<br />

acadêmico, as formulações são desenvolvidas em função<br />

de um objetivo científico em que um ingr<strong>ed</strong>iente,<br />

geralmente classificado como alternativo, é adicionado<br />

em níveis crescentes na dieta substituindo um ingr<strong>ed</strong>iente<br />

chave como, por exemplo, a farinha e/ou o óleo<br />

de peixe. Já na indústria, as dietas são formuladas a partir<br />

de uma série de ingr<strong>ed</strong>ientes complementares que<br />

irão atender as<br />

demandas e exigências<br />

nutricionais da espécie<br />

em questão<br />

e também<br />

assegurarão<br />

artur.rombenso@csiro.au<br />

*As opiniões citadas abaixo são exclusivamente pessoais do autor e não necessariamente remetem as opiniões das instituições<br />

vinculadas ao mesmo.<br />

a viabilidade<br />

econômica das<br />

dietas.<br />

O intuito<br />

dessa última<br />

coluna é ressaltar<br />

essa diferença existente entre o setor acadêmico e a<br />

indústria e ao mesmo tempo promover o uso do conceito<br />

de formulação em relação a ingr<strong>ed</strong>ientes complementares<br />

ao invés de ingr<strong>ed</strong>ientes alternativos.<br />

Um dos maiores objetivos da pesquisa científica é<br />

produzir conhecimento e propri<strong>ed</strong>ade intelectual que<br />

sejam aplicados na indústria, promovendo um desenvolvimento<br />

sustentado por bases precisas. Infelizmente,<br />

essa não é a realidade de muitas frentes de pesquisas.<br />

O fato da maioria das pesquisas em nutrição aquícola<br />

estar baseada na identificação e/ou desenvolvimento de<br />

ingr<strong>ed</strong>ientes alternativos não necessariamente assegura<br />

que os resultados serão aplicados dessa maneira na indústria.<br />

Isso se deve ao fato mencionado anteriormente<br />

de que a indústria de alimentos aquícolas não utiliza<br />

apenas um ingr<strong>ed</strong>iente alternativo e sim uma vari<strong>ed</strong>ade<br />

de ingr<strong>ed</strong>ientes complementares. Dessa forma, o foco<br />

em ingr<strong>ed</strong>ientes alternativos não é ideal para a realidade<br />

da indústria de alimentos aquícolas, sendo que<br />

muitos trabalhos publicados não são diretamente aplicados<br />

pelo setor produtivo. Essa falta de sintonia entre<br />

os setores científico e produtivo não é ideal. Não estou<br />

dizendo que pesquisas buscando identificar ingr<strong>ed</strong>ientes<br />

alternativos sejam irrelevantes, estou sugerindo que<br />

essa maneira não é ideal frente à realidade da indústria.<br />

Toda pesquisa tem sua importância, porém nem toda<br />

pesquisa tem sua aplicação. Na indústria do salmão,<br />

bastante madura, temos um exemplo de uma maior<br />

e aplicação de re-<br />

sintonia entre pesquisas<br />

sultados. É natural<br />

notar a transição<br />

do conceito de<br />

ingr<strong>ed</strong>ientes alternativos<br />

para<br />

ingr<strong>ed</strong>ientes<br />

complementares<br />

e atualmente<br />

essa é uma<br />

forte tendência<br />

nas espécies chaves criadas mundialmente. Um artigo<br />

bastante interessante sobre esse tópico foi publicado<br />

recentemente por grandes amigos e mundialmente<br />

reconhecidos nutricionistas aquícolas, Turchini et al.,<br />

2018 * , cuja leitura recomendo. Por fim, cada vez mais<br />

veremos pesquisas e trabalhos publicados envolvendo<br />

o conceito de ingr<strong>ed</strong>ientes complementares.<br />

Espero que essa última nota de 2018 seja útil para<br />

abrir nossos olhos para as novas tendências no mundo<br />

da nutrição aquícola e que motive toda a nova geração<br />

a considerar essa linha de pensamento.<br />

Um bom 2019 a todos!<br />

*<br />

Turchini, GM et al. 2018. Thoughts for the future of aquaculture nutrition:<br />

realigning perspectives to reflect contemporary issues relat<strong>ed</strong> to judicious use<br />

of marine resources in aquafe<strong>ed</strong>s. North American Journal of Aquaculture.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

55


Genética<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Rodolfo Luis Petersen<br />

Laboratório de Melhoramento Genético de Organismos Aquáticos - GECEMar<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral do Paraná - UFPR<br />

Pontal do Paraná, PR<br />

rodolfopetersen@hotmail.com<br />

Melhoramento Genético<br />

Lembrando a coluna inicial, um programa de<br />

melhoramento genético clássico envolve:<br />

Seleção das populações base para a<br />

formação de uma população sintética;<br />

Definição da estratégia de melhoramento:<br />

seleção ou cruzamento;<br />

Estimar a resposta à seleção ou a heteroses;<br />

Controlar a endogamia e a variabilidade<br />

genética;<br />

Estudar correlações genéticas e fenotípicas<br />

entre as características zootécnicas de<br />

maior interesse;<br />

Verificar a possível existência de interação<br />

genótipo ambiente entre diferentes regiões<br />

de onde as larvas serão utilizadas;<br />

Estabelecer um programa de controle<br />

sanitário.<br />

Formação da população base<br />

A primeira iniciativa de qualquer tipo de programa<br />

de melhoramento genético é identificar com precisão<br />

o que é que se quer melhorar e para qual sistema de<br />

cultivo. Tem que estar muito claro, não só a caraterística<br />

desejada, como também sua forma de MEDIÇÃO.<br />

A eficiência e a forma de m<strong>ed</strong>ição serão essenciais para<br />

o cálculo preciso do valor genético de um animal ou<br />

família.<br />

A segunda iniciativa é selecionar as populações que<br />

formarão a população base, o seja, aquelas populações<br />

que serão inicialmente cruzadas para a formação de linhas<br />

ou famílias dependendo da estratégia do programa.<br />

A ideia é TENTAR obter um grupo de populações<br />

mais distantes geneticamente possível, para maximizar<br />

a variabilidade genética inicial do programa. Quanto<br />

maior for a variabilidade genética inicial, maior será a<br />

probabilidade de obter respostas significativas a seleção<br />

em cada geração. Uma ampla variabilidade genética inicial<br />

possibilita uma maior longevidade do uso da população<br />

baixo seleção sem a necessidade de incorporar<br />

novas populações. Optando por uma única população<br />

de baixa variabilidade genética ou por um grupo de<br />

populações semelhantes, a variância genética da população<br />

será rapidamente desgastada pelo efeito da seleção,<br />

impossibilitando a obtenção de ganhos genéticos.<br />

Na obtenção da população base podemos ter os<br />

seguintes cenários:<br />

1) Iniciar um programa com uma espécie nativa<br />

que não existam linhagens domesticadas e melhoradas:<br />

neste caso devemos obter animais da natureza de todo<br />

o range de distribuição da espécie. De preferência, que<br />

existam estudos prévios de variabilidade genética que<br />

confirmem que as populações estão estruturadas, ou<br />

seja, que existem diferenças entre elas dentro de sua<br />

distribuição geográfica. Podem também ser incluídas<br />

populações de cultivo.<br />

2) Iniciar um programa com uma espécie exótica.<br />

Aqui precisaremos realizar um estudo de distância genética<br />

entre as populações candidatas. As populações<br />

podem ser de diferentes regiões de cultivo dentro de<br />

um país ou mesmo do exterior. Marcadores microssatélites<br />

são os mais apropriados para este tipo de análise<br />

pelo seu elevado polimorfismo. Alternativamente ou<br />

concomitantemente, realizar uma análise criteriosa dos<br />

sistemas de cultivo que as populações candidatas estão<br />

sendo cultivadas e seus resultados zootécnicos.<br />

O respeito aos mecanismos legais e de biossegurança<br />

no transporte de material biológico entre estados<br />

e entre países é de vital importância com quarentenas e<br />

certificação de reprodutores eficientes e profissionais.<br />

Parece r<strong>ed</strong>undante, porém, já houve boatos no Brasil<br />

de introdução de larvas de camarão do Equador em<br />

garrafas de uísque, uma fantasia que foi amplamente<br />

fofocada no ambiente da indústria.<br />

Entre os maiores exemplos internacionais é a<br />

formação da população base da linhagem GIFT no<br />

WorldFish Center na Malásia, a qual foi formada por oito<br />

populações, quatro populações da África (Egito, Kenya,<br />

56


Gana e Senegal) e 4 populações de cultivo já utilizadas<br />

por produtores da Ásia (Israel, Singapura, Taiwan,<br />

e Tailândia). A UEM (Universidade Estadual de<br />

Maringá, PR) para a formação da população base<br />

de GIFT no Brasil introduziu 30 famílias elites<br />

do programa asiático. A partir desse material<br />

genético foi iniciado um novo programa de<br />

seleção para as condições brasileiras de cultivo.<br />

Já na área de carcinicultura houve várias<br />

introduções de populações realizadas no Brasil<br />

com o intuito de formar novas linhagens locais.<br />

Entre as mais divulgadas podemos destacar a realizada<br />

pela empresa Aquatec e a Genearch em dezembro<br />

de 2016, importando animais de quatro linhagens comprovadamente<br />

livre de patógenos (SPF). As populações<br />

foram importadas dos EUA com méritos genéticos variados,<br />

como alta taxa de crescimento e resistência ao vírus<br />

de Taura. Estas linhagens formaram parte da população<br />

base da Linhagem SPF da empresa.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

57


NOV/DEZ 2018<br />

CSIRO - Austrália<br />

Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC<br />

mauricioemerenciano@hotmail.com<br />

Um pouco da história e uma breve reflexão sobre<br />

os rumos da aquaponia comercial no nosso país<br />

é o tema da coluna Green Technologies desta <strong>ed</strong>ição.<br />

Afinal, quando o assunto é aquaponia comercial, ou seja,<br />

uma atividade encarada como negócio e geradora de divisas,<br />

infelizmente são poucas as páginas desse livro no<br />

Brasil. Vale frisar que a história da aquaponia no mundo<br />

já foi narrada nesta coluna na <strong>ed</strong>ição n°11. Continuando<br />

com essa analogia, um “capítulo 1” desse livro seria<br />

quando as primeiras informações começaram a circular<br />

no nosso país. Os primeiros informes técnicos foram lançados<br />

no final dos anos 90 e início dos anos 2000, mas<br />

ainda com grande foco na aquaponia de pequena escala,<br />

ou seja, aquela praticada nos jardins das casas, na varanda<br />

dos apartamentos, entre outros. Com o aumento<br />

do interesse geral do público e com os bons resultados<br />

produtivos obtidos em fazendas aquapônicas no exterior,<br />

despertou o interesse pela academia brasileira na última<br />

década com destaque para a Universidade F<strong>ed</strong>eral de<br />

Santa Catarina (UFSC), Universidade F<strong>ed</strong>eral do Alagoas<br />

(UFAL), Universidade do Estado de Santa Catarina<br />

(UDESC), Universidade Estadual Paulista (UNESP), além<br />

da APTA-SP e a pioneira Embrapa Tabuleiros Costeiros,<br />

ambas com lançamento de manuais e diversos materiais<br />

técnicos sobre o assunto.<br />

Um capítulo 2 dessa história seria sobre a instalação<br />

das primeiras fazendas comerciais na última década.<br />

Atualmente o Brasil já conta com pelo menos dez bons<br />

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano<br />

*As opiniões citadas abaixo são exclusivamente pessoais do autor e não necessariamente remetem as opiniões das<br />

instituições vinculadas ao mesmo.<br />

Aquaponia no Brasil: passado, presente e futuro!<br />

exemplos espalhados pelo nordeste e estados como<br />

SP, PR, MG e MS. E esses números, na minha humilde<br />

opinião, tendem a aumentar. Com o advento da crise<br />

econômica que abalou o nosso país nos últimos anos,<br />

muitos profissionais perderam ou abandonaram seus<br />

empregos e decidiram abrir seu próprio negócio. Nessa<br />

fatia, muitos partiram (e vão partir) para o agronegócio<br />

com pequenas fazendas e d<strong>ed</strong>icando seus produtos para<br />

mercados nicho.<br />

Aí entra a aquaponia e o nosso “capítulo 3”, com as<br />

necessidades atuais e perspectivas futuras. Observando<br />

estas tendências e com olhar nos belos exemplos que<br />

estão ocorrendo em países europeus como Alemanha,<br />

Inglaterra, Holanda, Suíça, Noruega, além dos EUA e<br />

diversos países latino-americanos como México, Chile<br />

e Colômbia, a tendência que a aquaponia comercial no<br />

Brasil cresça e se profissionalize cada vez mais. A disponibilidade<br />

de informações técnicas (reais) e mais exemplos<br />

comerciais bem-suc<strong>ed</strong>idos (não somente demonstrativos)<br />

serão fundamentais. Na internet, existe uma verdadeira<br />

enxurrada de vídeos e posts sobre aquaponia no<br />

Brasil, mas infelizmente a grande maioria com sistemas<br />

“enjambrados”, desenvolvidos sem nenhum ou pouco<br />

fundamento teórico. Como diz meu nobre colega e<br />

amigo Fábio Sussel, não podemos criar peixes em caixas<br />

d’água e ficar achando que isso é um modelo de negócio.<br />

Nada contra a criatividade de cada um, mas uma atividade<br />

séria precisa de pesquisas, conhecimento biológico<br />

Figura 1. Aquaponia comercial no Chile e sua receita de sucesso: embasamento e assessoramento técnico, engenharia aplicada,<br />

uso de equipamentos específicos e simulações financeiras de acordo com a realidade local.© Maurício G. C. Emerenciano<br />

58


Green<br />

TECHNOLOGIES<br />

(neste caso peixes e plantas), de engenharia especializada<br />

e de cálculos financeiros. Para um agronegócio dar certo,<br />

menos “achismos” e mais teoria fundamentada são pré-requisitos.<br />

Felizmente, hoje estão sendo formados graduandos,<br />

mestres e doutores especialistas na área e trazendo<br />

uma boa bagagem teórica para resolver os problemas da<br />

aquaponia comercial, o que no passado era inimaginável.<br />

Assim, com a implantação de fazendas comerciais que tenham<br />

suporte técnico, e que priorizem por produtos e<br />

equipamentos mais específicos com maior controle, previsibilidade<br />

e biossegurança na produção, este vai ser um<br />

marco para mais um novo capítulo da aquaponia no Brasil.<br />

É ver para crer!<br />

Figura 2. Pesquisas de Aquaponia da UDESC e de muitas<br />

instituições de ensino e pesquisa do Brasil: formação de recursos<br />

humanos visando compreender e enfrentar os desafios da<br />

aquaponia comercial no Brasil.© Maurício G. C. Emerenciano


Visão<br />

aquícola<br />

Giovanni Lemos de Mello<br />

Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC<br />

Editor-chefe da <strong>Revista</strong> Aquaculture Brasil<br />

Laguna, SC<br />

giovanni@aquaculturebrasil.com<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Prêmio Inovação Aquícola<br />

Sozinho, você não chega a lugar nenhum. Outubro<br />

de 2017 e eu escrevia o <strong>ed</strong>itorial para a<br />

<strong>ed</strong>ição número 9, que circulou durante a Fenacam’17.<br />

Para ajudá-lo a relembrar desta <strong>ed</strong>ição, a capa foi uma<br />

foto do sistema AquaScience, da Camanor Produtos<br />

Marinhos.<br />

Nós da Aquaculture Brasil, em sintonia com alguns<br />

dos pr<strong>ed</strong>icados da Camanor, estamos sempre buscando<br />

inovar. Sabe a seção “Defendeu”? Agora teremos<br />

também o “Defendeu Online” em nosso canal<br />

no YouTube. Você poderá acompanhar as defesas de<br />

TCC, Mestrado e Doutorado na área de aquicultura,<br />

no Canal da Aquaculture Brasil! Aliás, confere lá<br />

o primeiro defendeu de um orientado meu! (Só vou<br />

“puxar a sardinha” desta vez, prometo!! rsss...).<br />

Mas voltando ao <strong>ed</strong>itorial de 2017 (embora ainda<br />

falando sobre novidades e inovação...), enquanto escrevia<br />

aquele texto, surgiu a ideia... “Por que não criar<br />

um prêmio para a aquicultura brasileira?” Rapidamente,<br />

o batizei de Personalidades da Aquicultura. Ainda durante<br />

a elaboração do texto, resolvi escolher o amigo<br />

Fábio Sussel como o premiado de 2017! Somente algo<br />

simbólico, em tom de brincadeira, mas uma escolha<br />

séria, com todo mérito, evidenciando um profissional<br />

que elevou a aquicultura brasileira em alguns patamares<br />

em 2017, do ponto de vista da divulgação de nossa<br />

atividade em r<strong>ed</strong>e nacional. Muito obrigado Fábio!<br />

O ano de 2018 passou e compartilhei a ideia<br />

com três pessoas que tenho grande admiração.<br />

Marilsa Patrício e Émerson Esteves, organizadores<br />

da Aquishow Brasil e Ricardo Torres, <strong>ed</strong>itor-chefe<br />

da Seafood Brasil. Ideia inicial compartilhada, a várias<br />

mãos demos uma nova “roupagem” a ela, e<br />

assim surgiu o “Prêmio Inovação Aquícola”, com<br />

suas categorias, objetivos e regulamento.<br />

É uma baita satisfação desenvolver uma inovação<br />

desta magnitude ao lado desses grandes<br />

amigos e parceiros. E além de tudo, sem dúvidas,<br />

criamos algo que marcará a aquicultura brasileira<br />

daqui em diante!<br />

A cada ano, o Prêmio Inovação Aquícola reconhecerá<br />

as melhores iniciativas da aquicultura brasileira<br />

em cinco categorias: I) Academia; II) Produção;<br />

III) Beneficiamento; IV) Produto Final; e V) Políticas<br />

Institucionais. Após a seleção dos cases finalistas de<br />

cada categoria por um grupo de notáveis do setor,<br />

será aberta uma votação online, onde os internautas<br />

de todo o País escolherão as pessoas mais inovadoras<br />

da aquicultura brasileira em 2019.<br />

O resultado do Prêmio Inovação Aquícola será divulgado<br />

em uma cerimônia super especial, na noite do<br />

dia <strong>15</strong> de maio, durante o Aquishow Brasil 2019, em<br />

Santa Fé do Sul (SP).<br />

Novidades ainda surgirão com relação às premiações,<br />

empresas parceiras desta iniciativa, etc. Ainda<br />

não sabemos se conseguiremos para esta primeira<br />

<strong>ed</strong>ição, mas para as próximas, a ideia é premiar os<br />

venc<strong>ed</strong>ores com viagens internacionais para conhecer<br />

a aquicultura em outros países. Dizem que viajar<br />

faz bem e inspira, então faremos com que os nossos<br />

inovadores continuem se inspirando. Quem arregaça<br />

as mangas e contribui de verdadeira para o fortalecimento<br />

e consolidação da aquicultura brasileira merece<br />

esse reconhecimento.<br />

Quem sabe você não tem um case bacana para<br />

nos enviar?<br />

Acesse o site do prêmio e confira o regulamento!<br />

premioinovacaoaquicola.com.br<br />

60


Soluções para quem procura<br />

resultados consistentes.<br />

Conheça os produtos da Phibro para aquacultura.<br />

TM<br />

A formulação exclusiva para peixes e camarões do<br />

PAQ-Gro<br />

auxilia no desempenho e status de saúde dos animais.<br />

O BioPlus ® PS auxilia no equilíbrio da microbiota intestinal,<br />

melhorando o ganho de peso e a eficácia alimentar.<br />

Distribuidor exclusivo:


Ranicultura<br />

Andre Muniz Afonso<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral do Paraná - UFPR<br />

Palotina, PR<br />

andremunizafonso@gmail.com<br />

NOV/DEZ 2018<br />

O que se produz da rã? - Parte II<br />

(Produtos não comestíveis)<br />

Dando continuidade à coluna “O que se produz da<br />

rã? (Parte I)”, publicada na <strong>ed</strong>ição anterior, quando<br />

foram descritos os principais produtos comestíveis da rã,<br />

passaremos, neste momento, a tratar daqueles que não<br />

são utilizados na alimentação (principalmente humana),<br />

sendo comercializados de outras formas.<br />

Talvez um dos produtos não comestíveis da rã mais<br />

conhecidos seja a sua pele, que dá origem ao couro. Este<br />

produto é descrito como sendo extremamente macio,<br />

maleável e propício aos mesmos usos relacionados aos<br />

couros de outros animais de abate, sendo mais indicado<br />

aos climas tropicais, quando aplicado ao vestuário. De<br />

maneira geral, por ser pequeno, quando se pensa numa<br />

única pele animal, sempre foi muito utilizado em artesanato<br />

ou em detalhes de roupas, colares, brincos, entre<br />

outros (Figura 1). No início dos anos 2000, surgiu no<br />

mercado nacional um produto denominado de “manta<br />

de pele de rã”, que caracterizava-se por ser uma manta<br />

composta por vários couros soldados, possuindo 1 m de<br />

comprimento por 0,70 m de largura, possibilitando, assim,<br />

a confecção de peças inteiras, como casacos, calças,<br />

bolsas, botas e afins.<br />

A carne da rã, conforme descrição da coluna anterior,<br />

possui baixo índice de lipídeos, pois sua gordura fica armazenada<br />

num órgão específico denominado de “corpo<br />

adiposo”. Esse órgão, ao ser removido integralmente no<br />

abate, pode ser transformado num óleo, comumente<br />

utilizado na formulação de cremes, condicionadores e<br />

“shampoos”.<br />

O fígado pode dar origem a um patê, encontrado em<br />

alguns restaurantes especializados. No entanto, sua produção<br />

é totalmente artesanal, uma vez que não existem<br />

normas e padrões estabelecidos em legislação para a sua<br />

produção em escala comercial. É importante frisar que<br />

incluímos o fígado na categoria de não comestíveis, uma<br />

vez que não existem regulamentos que confiram segurança<br />

para o seu consumo. Juntamente com outras vísceras,<br />

como ovários, ovidutos, rins, baço, pulmões, coração<br />

e demais órgãos, podem ser triturados e utilizados na<br />

fabricação da farinha de vísceras de rã, nutricionalmente<br />

interessante para fábricas de rações para animais.<br />

62<br />

Há um conceito, historicamente disseminado em publicações<br />

nacionais, que diz que da rã se aproveita até o<br />

coaxar, entretanto, na prática, não é o que se vê. Vários<br />

autores já descreveram que boa parte da lucratividade<br />

advinda do abate da rã é desperdiçada pela escassez ou<br />

pela não utilização dos produtos não comestíveis da rã,<br />

que representam cerca de 50% do peso de um animal<br />

pronto para o abate, hoje entre 250 e 300g. Na maioria<br />

dos casos, isso não ocorre devido à escala, que é muito<br />

pequena para que um desses produtos seja interessante<br />

para uma fábrica transformadora, como a de rações, por<br />

exemplo.<br />

Saudações ranícolas!<br />

Figura 1. Produtos produzidos por produtor mexicano, a partir do<br />

couro da rã. © Andre Muniz Afonso


Marcelo Shei<br />

Fundador da Altamar Sistemas Aquáticos<br />

Santos, SP<br />

shei@altamar.com.br<br />

Notas práticas sobre formatos de<br />

tanques em Sistemas de Recirculação<br />

Atualmente é possível encontrar diversas opções<br />

de materiais, formatos e tamanhos de<br />

tanques para cultivo de organismos aquáticos. Em um<br />

RAS a dimensão e o formato definirão diretamente o<br />

custo de instalação e operação. O objetivo é otimizar<br />

a área produtiva e ter o sistema que demande a menor<br />

manutenção possível.<br />

No geral, tanques circulares são excelentes, melhoram<br />

a uniformidade do ambiente de cultivo, permitem<br />

diversas possibilidades de velocidades estacionais<br />

para melhorar o estado de saúde e condição, rápida<br />

concentração e remoção de sólidos precipitáveis.<br />

Para sistemas de engorda, de forma geral, o melhor<br />

é utilizar menor quantidade de tanques maiores.<br />

Isso r<strong>ed</strong>uzirá o tamanho da área requerida, o custo<br />

de instalações hidráulicas, a quantidade de sensores de<br />

qualidade de água, alimentadores e mão de obra. Tanques<br />

menores são recomendados para larviculturas,<br />

sistemas de pesquisa e outras necessidades específicas.<br />

A relação entre o diâmetro e a profundidade em<br />

sistemas comerciais pode variar bastante, de 3:1 até<br />

10:1, isso vai depender da área disponível, especificações<br />

do terreno, espécie, estrutura disponível, entre<br />

outras coisas.<br />

Quanto a entrada de água nesses sistemas maiores,<br />

o uso de injetores horizontais e verticais ao<br />

longo de toda a coluna de água permitem uma mistura<br />

e velocidades de água mais uniformes e boa<br />

eficiência na remoção de sólidos. Manter um fluxo<br />

rotativo facilita a s<strong>ed</strong>imentação das partículas sólidas<br />

e também a homogeneização do ambiente.<br />

Quanto a saída de água, em densidades de estocagem<br />

elevadas o ideal é a utilização de sistema de dreno<br />

duplo nos tanques. Trata-se de uma pré-etapa de<br />

filtragem, utilizando uma saída no centro e outra posicionada<br />

na coluna de água, por onde passa a maior<br />

parte do fluxo de saída. Esse método é comum em<br />

sistemas comerciais e facilita a remoção dos sólidos<br />

s<strong>ed</strong>imentáveis do sistema diretamente do fundo do<br />

tanque. A passagem dessas partículas por sistemas de<br />

bombeamento iria quebrá-las em unidades menores,<br />

ainda mais difíceis de remover do sistema.<br />

Figura 1. Fluxo de tanque circular com dreno duplo, adaptado de M.B. Timmons.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

63


Fábio Rosa Sussel<br />

NOV/DEZ 2018<br />

O<br />

Pesquisador Instituto de Pesca de SP - UPD Pirassununga<br />

Pirassununga, SP<br />

fabio@pesca.sp.gov.br<br />

Produção da própria ração:<br />

solução ou problema?<br />

propósito inicial desta coluna é alertar aqueles<br />

que crescem os olhos em relação a grande<br />

oferta de equipamentos (extrusoras e peletizadoras)<br />

atualmente disponíveis no mercado. Com novas tecnologias<br />

e novas empresas atuando neste segmento é<br />

fato que estes equipamentos tornaram-se muito mais<br />

acessíveis. Claro que isto é bom e abre novas perspectivas...<br />

mas... “muita hora nesta calma”. Aproveitando<br />

o trocadilho, muitas horas fazendo conta e analisando<br />

muito bem tudo que encontra-se envolvido a nova ideia.<br />

Primeiro de tudo: quantos pequenos/médios aquicultores<br />

estão produzindo sua própria ração, com resultados<br />

satisfatórios, há mais de 1 ano? Este tipo de<br />

levantamento ajudará bastante na tomada de decisão.<br />

Feito tal análise, levar em consideração que ter<br />

condições financeiras para adquirir o equipamento não<br />

significa nem meio caminho percorrido. Diria que a<br />

aquisição do equipamento representa somente 20%<br />

de todo o contexto. Ter um amigo nutricionista ou<br />

contratar um consultor para fornecer uma fórmula,<br />

também não representa muita coisa. Ter fácil acesso a<br />

2 ou 3 ingr<strong>ed</strong>ientes, também não é tão vantajoso assim.<br />

Também não se devem iludir-se com a eficiência<br />

dos equipamentos, do tipo: “Uau, faz 5 toneladas por<br />

dia!!! Em 2 dias faço toda a ração do mês!!!”.<br />

É preciso pensar em logística de vários ingr<strong>ed</strong>ientes,<br />

é preciso ter condições de mexer nas fórmulas a<br />

cada nova batida, alguém bem treinado para operar<br />

o equipamento e, principalmente, volumes que justifiquem<br />

investir na nova ideia.<br />

Há mais de 10 anos que costumo responder as<br />

investidas de alguns produtores com o seguinte valor<br />

referencial: tem que ter um consumo mensal de 200<br />

toneladas, porém, tem que produzir 1.000 toneladas<br />

mês. Com a venda da diferença de 800 toneladas se<br />

consegue produzir uma ração de boa qualidade e com<br />

um custo bem r<strong>ed</strong>uzido para o uso próprio.<br />

Nos dias atuais, por uma séria de fatores, pode-se<br />

afirmar que estes valores referenciais caíram bastante.<br />

Talvez uma produção doméstica entre 80 a 100 toneladas<br />

já seja viável. Quanto maior a produção, melhor<br />

poder de compra das matérias-primas e melhor<br />

otimização do equipamento. E ainda ter muito claro<br />

em mente que além de todos os “porém” de uma<br />

piscicultura/carcinicultura, ainda terá que gerenciar<br />

um novo negócio. Diria que envolve tanta d<strong>ed</strong>icação<br />

quanto a criação do peixe ou do camarão.<br />

Atendido a todos os quesitos listados, o produto final<br />

precisa ser melhor e custar menos que<br />

as rações comerciais disponíveis. O que<br />

não é nada fácil!<br />

Devo registrar que já começo a ter um<br />

olhar diferente sobre produzir a própria<br />

ração. Sempre fui um grande defensor das<br />

fábricas. Sempre acr<strong>ed</strong>itei muito na qualidade<br />

de nossas rações. Tenho até episódio<br />

gravado que ainda não foi ao ar onde<br />

minha explanação técnica sugere que<br />

melhores resultados podem ser obtidos a<br />

partir de melhorias no manejo alimentar.<br />

O que é fato, continuo com esta opinião<br />

(é impressionante o desperdício de ração<br />

e erros de manejo que observo nas propri<strong>ed</strong>ades<br />

por onde passo!).<br />

Contudo, ao mesmo tempo, também<br />

por constatação prática, seja na minha<br />

unidade de pesquisa ou nas propri<strong>ed</strong>ades<br />

que visito, tenho a sensação que a genética<br />

está à frente da nutrição. Seja pra peixe<br />

ou camarão marinho. Não tenho constatação<br />

científica disso e nem tem sido foco<br />

das minhas pesquisas, mas tenho observado<br />

melhores resultados com formulações<br />

próprias.<br />

Quando digo que a genética está na<br />

frente da nutrição, não é porque faltam<br />

pesquisas no segundo item. Sabemos fazer<br />

boas dietas, temos ótimas matérias-<br />

-primas, ótimos formuladores, equipamentos<br />

de ponta..., mas..., a concorrência<br />

64


por preços tem levado a melhor contra a concorrência<br />

por qualidade. E ficaria imensamente feliz e agradecido<br />

se alguém apresentasse opinião contrária a respeito.<br />

Uma alternativa bastante interessante que surgiu<br />

recentemente no Nordeste é a customização da própria<br />

ração. Ou seja, surge a opção de comprar ração<br />

por fórmula e não por nível de proteína bruta. Além<br />

de ser uma alternativa ao invés de investir em extrusora<br />

ou peletizadora, certamente dará uma sacudida no<br />

mercado de rações para organismos aquáticos. Claro,<br />

desde que os aquicultores façam a conta certa.<br />

Em tempos de crise a lógica é r<strong>ed</strong>uzir custos.<br />

Mas... nem sempre é o melhor caminho. Aumentar o<br />

custo de produção pagando maior valor por uma ração<br />

a qual implicará em maior produtividade, pode ser<br />

uma boa opção. Só que pra isto tem que ter registrado<br />

como era antes e como está sendo a partir da nova<br />

estratégia. Vale tanto para quem pensa em fazer a própria<br />

ração ou comprar uma customizada. Surpreendentemente,<br />

o que mais vejo é produtor não saber<br />

nem quanto custou o quilo do seu peixe ou camarão<br />

produzido, pensando em produzir a própria ração.<br />

Como vai saber se a nova estratégia é melhor ou pior?<br />

Em resumo, antes de mudar a estratégia alimentar<br />

da produção, primeiro é necessário corrigir os manejos<br />

e depois fazer conta e bem-feita. Se não tiver condições<br />

de comparar como era antes, deixe do jeito<br />

que está.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

65


Eduardo Gomes Sanches<br />

Instituto de Pesca / APTA<br />

Ubatuba, SP<br />

esanches@pesca.sp.gov.br<br />

NOV/DEZ 2018<br />

A precisão da aquicultura<br />

em ajudar a natureza<br />

Nesta coluna venho sempre abordando a expansão<br />

do conceito de precisão. Tenho procurado<br />

trazer aos leitores a possibilidade de “pensar”<br />

diferentes conceitos e assuntos, muitas vezes<br />

convidando a todos a uma reflexão. Em tempos de<br />

elevada intensidade de comunicação, acelerada pela<br />

disponibilidade da internet, acr<strong>ed</strong>ito que um pouco<br />

de “pensar” poderia ajudar nossos leitores a observar<br />

as coisas por outros ângulos.<br />

Desta vez vou abordar uma visão totalmente<br />

oposta a tudo que vem sendo falado da aquicultura.<br />

Não vou abordar a questão dos impactos ambientais e<br />

muito menos os benefícios incontestáveis de nossa atividade<br />

de cultivo de organismos aquáticos e produção<br />

de alimento de alto valor nutricional. Vamos conversar<br />

sobre como a aquicultura pode ajudar a natureza.<br />

Estive lendo diversos artigos que avaliaram a aquicultura<br />

como instrumento para a conservação de<br />

espécies. Imaginem o cenário: um ambiente natural<br />

sofre um expressivo impacto e diversas espécies são<br />

extintas, ou o ambiente vem sendo sistematicamente<br />

destruído ao longo dos anos, ou a espécie em questão<br />

vem sofrendo uma forte pressão da pesca. Convenhamos<br />

que estes cenários não são improváveis.<br />

Pelo contrário, são ilustrados diariamente pelos meios<br />

de comunicação. Como a aquicultura poderia ajudar?<br />

Estudos tem demonstrado que, desde que apoiado<br />

por ferramentas científicas adequadas, a reintrodução<br />

de espécies produzidas em cativeiro pode<br />

contribuir para ajudar a natureza a se recuperar dos<br />

impactos causados por ações naturais ou pelo homem.<br />

Querem um exemplo? Olhem o título sugestivo<br />

deste artigo: “Farming the reef: is aquaculture a<br />

solution for r<strong>ed</strong>ucing fishing pressure on coral reefs?”.<br />

Tradução literal: Cultivando os recifes: é a aquicultura<br />

a solução para a r<strong>ed</strong>ução da pressão de pesca nos<br />

recifes de coral? Os autores (Pomeroy et al., 2006)<br />

comprovaram que o cultivo de corais pode ser uma<br />

alternativa ao extrativismo, r<strong>ed</strong>uzindo o risco de destruição<br />

dos ecossistemas e a extinção de diversas espécies<br />

associadas aos ambientes de recifes de coral.<br />

Projetos mais recentes têm abordado a possibilidade<br />

de reintrodução na natureza de corais produzidos em<br />

cativeiro. E não são somente os invertebrados que<br />

vêm sendo pesquisados. Algumas instituições de pesquisa,<br />

é o caso da Universidade F<strong>ed</strong>eral de Santa Catarina,<br />

desenvolvem tecnologia e produzem espécies<br />

de peixes marinhos ornamentais ameaçados de extinção,<br />

contribuindo para a preservação tanto das espécies<br />

como do ecossistema a que estão associadas.<br />

O Laboratório de Piscicultura Marinha do Instituto de<br />

Pesca, em Ubatuba-SP, vem a mais de dez anos pesquisando<br />

espécies de peixes marinhos ameaçadas de<br />

extinção. A espécie atual que recebe nossos esforços<br />

é o mero Epinephelus itajara. Em breve escreverei um<br />

artigo sobre este trabalho. Mas sempre defendemos<br />

que o cultivo de espécies ameaçadas poderia vir a se<br />

tornar em uma importante ferramenta de conservação.<br />

E estas idéias já chegaram na iniciativa privada.<br />

A R<strong>ed</strong>emar Alevinos em Ilhabela/SP vem produzindo<br />

a garoupa-verdadeira Epinephelus marginatus e trazendo<br />

propostas inovadoras em propor programas<br />

de repovoamento da espécie. Outro estudo interessante<br />

que recomendo a leitura por apontar os riscos<br />

e prover soluções relacionadas ao repovoamento é<br />

“A utilização de baixo número de matrizes em piscicultura:<br />

perda de recursos genéticos para programas<br />

de repovoamento” (Souza et al., 2006). Estes autores<br />

abordaram a complexidade do repovoamento, os<br />

riscos associados e afirmaram que os mais recentes<br />

avanços genéticos, tais como a utilização dos marcadores<br />

moleculares, oferecem novas possibilidades no<br />

monitoramento do impacto genético de peixes cultivados<br />

em estoques naturais. Existem diversos outros<br />

estudos que poderíamos citar, mas acho que o objetivo<br />

de fazer todos refletirem sobre como a aquicultura<br />

de espécies ameaçadas pode contribuir para a preservação<br />

da natureza já ficou registrado.<br />

66


Não acr<strong>ed</strong>ito que nenhuma ação isolada, por<br />

melhor que seja, resolva toda a complexidade que<br />

a expansão humana causa no planeta. A ciência tem<br />

demonstrado, para cada solução apresentada, a complexidade<br />

e os riscos envolvidos. Entretanto, é muito<br />

bom saber que o esforço de inúmeras pessoas, em<br />

trabalhar com espécies ameaçadas, pode contribuir<br />

com a preservação da natureza e ilustrar mais uma faceta<br />

da aquicultura que poucos conhecem. A precisão<br />

da aquicultura em ajudar a natureza. Afinal, nem só de<br />

tilápias e camarões vive a aquicultura no Brasil.<br />

Até a próxima coluna.<br />

Mero Epinephelus itajara.<br />

Corais sendo comercializados.<br />

Lutjanideo mantido em cativeiro.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

67


Alex Augusto Gonçalves<br />

Chefe do Laboratório de Tecnologia e Qualidade do Pescado - LAPESC<br />

Universidade F<strong>ed</strong>eral Rural do Semi Árido - UFERSA<br />

Mossoró - RN<br />

alaugo@gmail.com<br />

Embutido de pescado curado:<br />

inovação, agregação de valor, e nova<br />

oportunidade para o setor<br />

Com as recentes festividades gastronômicas<br />

de Natal e Ano Novo, nada melhor do que<br />

encerrar esse ano com mais uma novidade no que<br />

se refere a produtos inovadores. Talvez para alguns<br />

leitores o produto em questão não seja inovador, pois<br />

são produtos tradicionalmente conhecidos na área de<br />

produtos cárneos de animais terrestres, mas ao mesmo<br />

tempo, são pouco conhecidos na área de produtos à<br />

base de pescado - os produtos curados embutidos<br />

(salames, presuntos e copas).<br />

Os produtos cárneos curados tradicionais são aqueles<br />

conservados por tempo mais prolongado, adicionados<br />

de sal, nitratos e/ou nitritos, açúcar e condimentos,<br />

resultando na melhora das propri<strong>ed</strong>ades sensoriais,<br />

como sabor e aroma mais agradáveis e coloração vermelha<br />

ou rósea atraente.<br />

Ao navegar pela internet em busca desses produtos<br />

inovadores, encontro a “Offishina”, cujo nome originário<br />

é de um verdadeiro jogo de palavras entre o italiano<br />

“officina” e o inglês “fish”. A “Offishina” está localizada<br />

em Matino (província de Lecce, sul de Puglia, Itália), a 10<br />

km da costa do mar Jônico (M<strong>ed</strong>iterrâneo). Ao entrar<br />

em contato com essa empresa, fui recebido de portas<br />

abertas pelos sócios proprietários Danilo Romano, Pamela<br />

Romano, e Valerio Romano, bem como pela Silvana<br />

Santos, uma brasileira que está colaborando com<br />

o excelente trabalho da “Offishina” (www.offishina.it).<br />

Pode-se dizer que a “Offishina” é um laboratório<br />

que produz embutidos a partir do filé (lombo) de<br />

peixe. O melhor peixe é transformado do estado cru<br />

(fresco) ao maturado através de fermentação, secagem<br />

e maturação prolongada que permite o aumento da<br />

vida de prateleira para mais de 18 meses, conservados<br />

apenas com sal de mina e outros conservantes naturais<br />

(especiarias m<strong>ed</strong>iterrâneas). São livres de corantes,<br />

conservantes químicos, glúten e lactose; fonte de ácidos<br />

graxos ômega 3 e 6, cálcio, selênio, iodo, fósforo,<br />

potássio, zinco, vitaminas A e B, e baixo valor calórico;<br />

e indicados para vários tipos de dieta (nutrição esportiva,<br />

crianças e idosos).<br />

NOV/DEZ 2018<br />

© Offishina<br />

68


As espécies utilizadas são atum<br />

e espadarte (meca), e os produtos<br />

obtidos são: peixes temperados<br />

(lembra o tradicional presunto ou<br />

copa) e salames obtidos por fermentação,<br />

maturação e secagem. O<br />

produto final tem valores de pH~5<br />

e atividade de água entre 0,8 e 0,83<br />

que contribui positivamente para estabilidade<br />

do produto (sob ponto de<br />

vista microbiológico), principalmente<br />

no que diz respeito à multiplicação<br />

dos microrganismos anaeróbicos,<br />

como o Clostridium botulinum.<br />

No teste de vida de prateleira (18<br />

meses), análises microbiológicas<br />

(Clostridium botulinum, Listeria monocytogenes<br />

e Salmonella sp.) são<br />

monitoradas a cada 3 meses e comprovaram<br />

a qualidade microbiológica<br />

e estabilidade do produto.<br />

Os embutidos de peixe assumem<br />

uma cor vermelha e as poucas<br />

gorduras são suficientemente protegidas<br />

da oxidação. Paralelamente<br />

ocorre a hidrólise de proteínas e<br />

gorduras, a partir das próprias enzimas<br />

do peixe, em parte, por enzimas<br />

microbianas. O produto fermentado<br />

utiliza o crescimento controlado de<br />

microrganismos selecionados, resultando<br />

na modificação da textura, do<br />

sabor e do aroma. O produto assume<br />

assim as características sensoriais<br />

elevadas devido a ação de mofos e<br />

lev<strong>ed</strong>uras, os quais estão presentes<br />

no invólucro durante a maturação<br />

que confere aromas ao produto,<br />

estabiliza a produção de histamina e<br />

preserva os atributos nutricionais e<br />

sensoriais, todos, demonstrados nas<br />

análises laboratoriais. Esses processos<br />

ocorrem muito lentamente e ao<br />

final do ciclo de maturação, o excesso<br />

de mofo é retirado, embalado à<br />

vácuo, e armazenados.<br />

O processo tecnológico é<br />

semelhante aos tradicionais salames,<br />

copas e presuntos curados, o que<br />

exige controle de temperatura<br />

e umidade relativa ao longo do<br />

processo de cura, e principalmente,<br />

na fermentação e posterior<br />

maturação, para que o produto final<br />

seja perfeito em sua característica<br />

sensorial. As boas práticas de higiene<br />

e fabricação, bem como a escolha<br />

de matéria prima em excelente grau<br />

de frescor, a segurança e qualidade<br />

dos ingr<strong>ed</strong>ientes e o controle de<br />

qualidade ao longo do processo são<br />

indispensáveis para a obtenção de<br />

um produto de excelência.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

69


Defendeu!<br />

Em algum lugar do Brasil, um acadêmico de graduação ou pós contribui com novas<br />

informações para nossa aquicultura.<br />

Nome do acadêmico: Leone de Souza M<strong>ed</strong>ina<br />

Orientador: Prof. Dr. Giovanni Lemos de Mello<br />

Instituição: Universidade do Estado de Santa Catarina –<br />

UDESC<br />

Título do trabalho de conclusão de curso:<br />

Influência da temperatura e do manejo alimentar na préengorda<br />

de Geophagus brasiliensis (Quoy & Gaimard, 1824)<br />

em sistemas de recirculação de água.<br />

© RS Discus Aquários<br />

Introdução: o cará (Geophagus brasiliensis) é um ciclídeo<br />

bastante similar à tilápia (Oreochromis sp.) quanto<br />

a aspectos morfométricos e reprodutivos, entretanto,<br />

não há registros de sua produção comercial no Brasil.<br />

Sua principal utilização é no mercado de ornamentais.<br />

tanques circulares (volume útil de 200 L/cada), além<br />

de um filtro mecânico e biológico. O peso médio<br />

inicial foi de 6,8±1,1 g e o comprimento inicial foi de<br />

7,5±0,5 cm. Os peixes foram alimentados três vezes<br />

ao dia, utilizando-se ração comercial para peixes<br />

onívoros (32% de proteína bruta e 6% extrato etéreo).<br />

Diariamente foram monitorados os principais<br />

parâmetros de qualidade de água (oxigênio dissolvido,<br />

temperatura e pH).<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Objetivo: O objetivo deste trabalho foi avaliar o desempenho<br />

zootécnico da espécie em três diferentes<br />

temperaturas (24,3±0,8, 28,1±1,0 e 31,7±0,9 °C) e<br />

dois manejos alimentares (saci<strong>ed</strong>ade e 4% da biomassa)<br />

durante 72 dias, além de descrever os índices organossomáticos<br />

e principais aspectos do comportamento<br />

reprodutivo da espécie quando cultivada em sistema<br />

fechado.<br />

Materiais e métodos: o delineamento constituiu-<br />

-se de um experimento bifatorial (3 x 2), tendo seis<br />

tratamentos, com três repetições cada. Utilizou-se um<br />

conjunto de seis sistemas de recirculação de água idênticos<br />

(um para cada tratamento), compostos por três<br />

70


Resultados e Discussão: a taxa média<br />

de sobrevivência foi de 97% sem diferenças<br />

estatísticas entre os tratamentos. O ganho de<br />

peso foi superior nas temperaturas de 24,3 °C<br />

e 28,1 °C respectivamente. Da mesma forma,<br />

a taxa de crescimento específico (TCE)<br />

apresentou piores resultados na temperatura<br />

31,7 °C. A melhor TCE, em números absolutos,<br />

foi de 1,3%.dia -1 , para o tratamento de<br />

24,3 °C, arraçoados até a saci<strong>ed</strong>ade. Observou-se<br />

uma tendência de melhores resultados<br />

nos tratamentos até a saci<strong>ed</strong>ade aparente. A<br />

melhor conversão alimentar (CA) foi em 24,3<br />

°C alimentados sob taxa de 4% da biomassa<br />

com valor de 2,3:1. Em 31,7 °C, peixes alimentados<br />

com 4% da biomassa a CA foi de<br />

3,1:1, sendo a mais alta. Os principais aspectos<br />

reprodutivos observados dizem respeito<br />

ao diferencial de tamanho entre machos e<br />

fêmeas, observando-se uma forte tendência<br />

de que os machos cresçam mais. Avaliou-se<br />

também a fecundidade relativa e influência<br />

da temperatura sob o desenvolvimento ovariano,<br />

obtendo melhores resultados quando<br />

cultivados em temperaturas mais baixas.<br />

Figura 1. Desempenho zootécnico de Geophagus brasiliensis cultivados em diferentes temperaturas de água durante 72 dias.<br />

(S) = saci<strong>ed</strong>ade e (B) = 4% da biomassa.<br />

Conclusão: em princípio, pode-se concluir que a espécie apresenta melhor desempenho zootécnico<br />

em temperaturas mais baixas (comparando-se à temperatura de 31,7 °C), nas condições testadas, o que<br />

pode sugerir bons desempenhos em temperaturas típicas<br />

de regiões subtropicais, a exemplo da região<br />

Sul do Brasil.<br />

O trabalho foi defendido em:<br />

22/11/2018<br />

NOV/DEZ 2018<br />

*Este “Defendeu” irá inaugurar outra novidade para os leitores e seguidores da Aquaculture Brasil: o “Defendeu<br />

Online”. Acesse o nosso canal do YouTube e confira a apresentação completa do acadêmico Leone!<br />

Fique de olho que outras defesas de TCC, mestrado e doutorado também serão divulgadas em nosso canal.<br />

71


NOV/DEZ 2018<br />

72


Rodrigo<br />

Zanolo<br />

Um dos médicos veterinários mais competentes<br />

da aquicultura brasileira e, em particular,<br />

um amigo de longa data. Entrevistamos o<br />

paranaense Rodrigo Zanolo, gerente de mercado<br />

da MSD Saúde Animal.<br />

O médico veterinário, Rodrigo<br />

Zanolo, assim como muitos dos<br />

que já foram entrevistados aqui,<br />

não tinha ideia de que fosse entrar<br />

profissionalmente para a área da<br />

aquicultura. Porém, assim como<br />

os demais, Zanolo, junto com a<br />

empresa para qual trabalha, é um<br />

dos grandes nomes da aquicultura<br />

nacional, revolucionando a produção<br />

de tilápia com a introdução da<br />

primeira vacina para peixes, contra<br />

estreptococoses.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Como a Aquicultura entrou na<br />

vida do Médico Veterinário Rodrigo Zanolo?<br />

Rodrigo Zanolo: Entrei na M<strong>ed</strong>icina Veterinária em função<br />

do contato com os animais, tanto animais de companhia<br />

como cachorros e gatos, que sempre tive em<br />

minha residência, assim como equinos e bovinos do pequeno<br />

sítio de meu pai. Naturalmente, quando ingressei<br />

na M<strong>ed</strong>icina Veterinária na Universidade Estadual de<br />

Londrina (UEL) a aquicultura nunca passou pela minha<br />

cabeça como uma possibilidade de trabalho. Quando<br />

eu estava no quarto ano do curso, confesso, um pouco<br />

perdido, porque realmente não havia me encontrado<br />

em nenhuma das áreas, embora<br />

gostasse de tudo, mas não havia nenhuma<br />

área que eu realmente tivesse<br />

me apaixonado, um professor de<br />

fisiologia, Dr. Julio Hermann, o qual<br />

foi um dos primeiros professores a<br />

realizar um doutorado com a reversão<br />

sexual de tilápia na UNESP/Jaboticabal,<br />

me despertou a curiosidade<br />

para a aquicultura. Nós conversamos<br />

sobre pescarias, uma coisa que<br />

ele gostava bastante e eu também,<br />

e até marcamos uma pescaria juntos.<br />

E nisso ele falou “Rodrigo, por<br />

que você não trabalha com aquicultura,<br />

que pode ser uma atividade<br />

bastante interessante futuramente?”.<br />

Eu achei interessante e a partir daquele<br />

momento comecei a entrar<br />

no mundo da aquicultura. Fiz o meu trabalho de conclusão<br />

de curso na Universidade Estadual de Maringá,<br />

Vivenciar<br />

a produção realmente é<br />

uma experiência única.<br />

É uma oportunidade que<br />

nós temos para<br />

entender a rotina do dia a<br />

dia de um produtor.<br />

uma universidade que já tinha uma área de aquicultura<br />

bem desenvolvida e assim foi dado o pontapé inicial.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Quais foram as vantagens de<br />

você ter atuado na produção, antes de assumir na MSD?<br />

Rodrigo Zanolo: Vivenciar a produção realmente é uma<br />

experiência única. É uma oportunidade que nós temos<br />

para entender a rotina do dia a dia de um piscicultor ou<br />

carcinicultor. Os desafios produtivos ali presentes, sejam<br />

eles associados a questões zootécnicas ou sanitárias. A<br />

oportunidade e a quantidade de informações que adquirimos<br />

na produção, nos possibilita<br />

ter uma visão muito mais macro e<br />

360° de “approach” e de entrega<br />

de soluções a esse produtor rural<br />

quando estamos na indústria. Seja<br />

indústria de insumos veterinários,<br />

que é, por exemplo, o meu caso,<br />

mas que pode ser na indústria de<br />

insumos de nutrição, equipamentos<br />

entre outros. Ter vivenciado<br />

efetivamente e ter a oportunidade<br />

de enxergar com uma visão<br />

mais macro, resultou na entrega<br />

de soluções que nós acr<strong>ed</strong>itamos<br />

que melhor vão se encaixar ao<br />

produtor: essa é a grande vantagem!<br />

AQUACULTURE BRASIL: Como foi<br />

sua contratação na MSD Saúde<br />

Animal?<br />

NOV/DEZ 2018<br />

73


A pescaria aproximou Zanolo do professor que lhe incentivou a entrar na área da aquicultura.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Rodrigo Zanolo: A minha contratação se deu de uma<br />

forma bem interessante, porque na época, isso há 13<br />

anos atrás, uma indústria farmacêutica veterinária desejava<br />

adentrar no mercado brasileiro, lançando uma<br />

linha inédita de produtos veterinários, cujo portfólio<br />

estaria orientado para a carcinicultura e piscicultura. Eu<br />

já tinha o mestrado na área de peixes, mas para me<br />

encaixar, faltava algo com camarões. Na época, essa<br />

empresa veterinária, que no caso era a MSD Saúde<br />

Animal, faria a contratação dentro de um ou dois anos.<br />

Dessa forma, me preparei estrategicamente para essa<br />

oportunidade e fui para Santa Catarina fazer estágio<br />

na fazenda Yakult, pertencente à Universidade F<strong>ed</strong>eral<br />

de Santa Catarina (UFSC), que era referência na área.<br />

Ali eu tive a oportunidade de me aprofundar na carcinicultura,<br />

vivenciar e trabalhar como um técnico na<br />

área, aprendendo muito com meus colegas de Santa<br />

Catarina, dentre eles o meu colega Giovanni Mello e<br />

outros colegas, como o médico Veterinário Albertino<br />

Zamparetti, da EPAGRI. Com isso, uma vez que eu<br />

tinha tanto a visão de piscicultura quanto da carcinicultura,<br />

além de ter estudado inglês, isso me proporcionou<br />

um diferencial competitivo para abraçar essa<br />

vaga. E para minha felicidade, fui contratado e atualmente<br />

sou gerente de mercado da MSD Saúde Animal.<br />

primeira espetada, literalmente, em um peixe no Brasil”.<br />

O posicionamento das vacinas foi uma contribuição<br />

tecnológica que agregou muito ao nosso setor.<br />

Contribuiu de forma expressiva para a diminuição do<br />

uso de antibióticos, para incremento de produtividade e<br />

eficiência produtiva, bem estar animal e sustentabilidade<br />

dos projetos, fazendo o gerenciamento preventivo<br />

através de vacinação. Sem dúvidas a Aquavac Strep Sa,<br />

foi realmente um marco para a aquicultura brasileira,<br />

especificamente para produção intensiva de tilápias. O<br />

destaque principal é dos programas de vacinação, porém,<br />

não posso deixar de citar o posicionamento do primeiro<br />

antimicrobiano especificamente desenvolvido e focado<br />

em piscicultura, especificamente em tilápias, que trouxe<br />

informações técnicas relevantes, do ponto de vista<br />

de dosagens, do período de carência. Isso contribuiu<br />

muito para o gerenciamento das enfermidades e junto<br />

com esses dois produtos, a entrega de informações,<br />

de agregação de valor, de plataforma de sanidade, ou<br />

seja, serviços técnicos, plataformas de diagnóstico,<br />

capacitação técnica de produtores, palestras técnicas.<br />

Tudo isso contribuiu significativamente e são também<br />

pontos muito relevantes. Mas a vacinação de fato, foi<br />

o grande avanço, e hoje temos praticamente 50% do<br />

plantel brasileiro de tilápias imunizado.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Quais as principais inovações e<br />

soluções para a aquicultura brasileira que você ajudou a<br />

desenvolver no Brasil junto a MSD?<br />

Rodrigo Zanolo: Sem dúvida nenhuma a inovação<br />

de maior relevância foi a primeira vacinação injetável<br />

comercial de peixes no Brasil. Eu brinco que “foi a<br />

74<br />

AQUACULTURE BRASIL: O quanto o Brasil ainda<br />

está distante da piscicultura do Chile, em termos de<br />

tecnologias voltadas à sanidade? Onde estão nossas<br />

principais carências e dificuldades?<br />

Rodrigo Zanolo: Do ponto de vista sanitário, acr<strong>ed</strong>ito<br />

que existam três pilares principais. O primeiro é a bios-


seguridade. Estamos começando a dar uma importância<br />

maior a biosseguridade como um todo. O segundo<br />

ponto é a compartimentalização ou a setorização, ou<br />

seja, muitas vezes você chega nas fazendas e encontra<br />

a alevinagem, a engorda e a recria todos em uma mesma<br />

área. Do ponto de vista epidemiológico isso é péssimo,<br />

porque a doença vai sendo transferida de tanque<br />

para tanque e vai passando de uma fase do animal para<br />

outras fases. Temos evoluído bastante e rapidamente<br />

nesse sentido, já temos quem é especializado em produzir<br />

alevinos, outros que fazem a produção de juvenis<br />

e outros que tem o papel de engorda e terminação<br />

da tilápia. Talvez estejamos quatro ou cinco anos atrás<br />

nesse quesito quando comparado a salmonicultura do<br />

Chile. Por último, o terceiro pilar consiste nos programas<br />

de prevenção, que são os portfólios de vacinas. Estamos<br />

também distantes da salmonicultura, mas acr<strong>ed</strong>ito<br />

que dentro de quatro ou cinco anos nós teremos vacinas<br />

combinadas e multivalentes. Dentro de dois a três<br />

anos, teremos o lançamento de vacinas bi e tetravalentes<br />

para tilápias, vacinas combinadas de diferentes enfermidades<br />

dentro de uma mesma vacina. Para o salmão já<br />

existem vacinas heptavalentes. A MSD por exemplo,<br />

possui uma vacina na Noruega, que é a Aquavac PD7,<br />

com sete diferentes enfermidades, que fez este país produzir<br />

aproximadamente 1,2 milhões de toneladas com<br />

uma quantidade mínima de antibióticos. Esse fato trouxe<br />

uma sustentabilidade e um posicionamento incrível para<br />

o país. No Chile não é diferente, são mais de 50 diferentes<br />

vacinas e combinações de vacinas disponíveis para<br />

atender as necessidades diversas dessa indústria. Esses<br />

são os três pilares principais. No quesito biosseguridade<br />

estamos bem distantes desses países, enquanto que<br />

a setorização/compartimentalização e o portfólio preventivo<br />

de vacinas, estamos um pouco mais próximos.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Há <strong>15</strong> anos atrás se produzia<br />

mais camarões marinhos do que peixes de água doce no<br />

Brasil. Hoje, o volume da piscicultura é 10 vezes maior<br />

do que o da carcinicultura. Onde a cadeia produtiva da<br />

piscicultura acertou e qual foi o principal entrave do cultivo<br />

de camarões marinhos?<br />

Rodrigo Zanolo: Em relação a esse fato, eu destaco dois<br />

pontos. Certamente existem vários outros a serem ponderados,<br />

mas na produção de peixes o primeiro ponto<br />

que eu destaco o crescimento da produção, sem dúvida<br />

nenhuma, foi pela produção de tilápia em tanques-r<strong>ed</strong>e.<br />

Esse foi um marco muito importante da expansão<br />

da piscicultura, um crescimento altamente agressivo pela<br />

liberação de áreas em águas da União, aliada a possibilidade<br />

de implementação rápida de projetos, instalação<br />

de gaiolas na água. Este modelo de piscicultura consiste<br />

em um sistema superintensivo que qualquer médio ou<br />

até mesmo pequeno produtor, produz em tanques-r<strong>ed</strong>e<br />

um volume bem significativo com poucas gaiolas na<br />

água. Acr<strong>ed</strong>ito que esse foi o marco principal da piscicultura<br />

no Brasil. Associado a isso, um pacote tecnológico<br />

bastante claro. Hoje conhecemos muito sobre nutrição,<br />

genética, manejo e sanidade. Esses pacotes conferem<br />

muita segurança para esse crescimento sustentável da<br />

produção de peixes, em especial da tilápia. No caso<br />

dos peixes nativos, o tambaqui é um peixe fantástico<br />

também, que a tecnologia foi dominada e proporcionou<br />

um crescimento bastante interessante em termos<br />

de produção. Por ser um animal bastante rústico, com<br />

certa facilidade de produção em águas verdes e que<br />

acabou aproveitando uma oportunidade de mercado,<br />

onde o tambaqui de extrativismo já não era suficiente<br />

para abastecer a população, a aquicultura aproveitou<br />

essa oportunidade de mercado interno, favorecendo<br />

também a produção de tambaqui em fazendas. Quanto<br />

ao camarão, não porque sou médico veterinário, mas<br />

sabemos que as questões sanitárias tiveram impacto extremamente<br />

forte para o setor. Posso citar Santa Catarina,<br />

que vivenciei como técnico, na própria pele, as<br />

doenças virais impactando fortemente o setor. Acabou<br />

sendo uma atividade de maior risco, com oscilações de<br />

produtividade, que traz uma certa insegurança ao produtor.<br />

Acr<strong>ed</strong>ito que a questão sanitária foi uma barreira<br />

muito grande para um crescimento sustentável cada vez<br />

maior do camarão. Claro que existem questões mercadológicas,<br />

algumas questões ambientais envolvidas, mas<br />

particularmente eu destacaria esses itens na minha visão.<br />

AQUACULTURE BRASIL: O Brasil será o país da tilápia,<br />

assim como o Equador é o País do camarão?<br />

Rodrigo Zanolo: Com certeza. Dentro das devidas proporções,<br />

não temos como comparar o Brasil com a<br />

China, Indonésia e Egito, por exemplo, que são hoje os<br />

maiores produtores globais. Porém, o Brasil será sim o<br />

país da tilápia. Isso porque, a entrada para esse mercado<br />

das duas cooperativas de referência ao país, do oeste do<br />

Paraná, que já trabalhavam com avicultura e suinocultura<br />

em sistema de integração, tem sido um marco substancial<br />

para a produção nacional. Empresas de capital multinacional,<br />

tendo o Brasil como radar, tanto em áreas de<br />

genética, como empresas de engorda e processamento<br />

de tilápia, e empresas de capital nacional também com<br />

crescimento bastante agressivo. Assim como somos<br />

um país tradicionalmente produtor de aves e suínos, o<br />

peixe, com destaque para a tilápia, caminha na mesma<br />

direção. Os pacotes tecnológicos que estão chegando<br />

proporcionarão aos investidores mais segurança para<br />

se investir cada vez mais nesse segmento. E sim, temos<br />

NOV/DEZ 2018<br />

75


NOV/DEZ 2018<br />

condições ambientais e temos muita água, fronteiras<br />

aquícolas, uma vez que a matriz energética brasileira é<br />

formada por hidroelétricas. Temos mais de 5 milhões<br />

de hectares de lâmina d´água, a expansão e legalização<br />

da tilápia em áreas emergentes, como Tocantins e<br />

Mato Grosso, tudo isso irá contribuir. É verdade que<br />

já somos reconhecidamente o país da tilápia, como o<br />

quarto maior produtor, mas com certeza iremos nos<br />

tornar ainda maiores e referências no mercado da tilápia<br />

mundial.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Quais soluções a MSD poderia<br />

elucidar para o tratamento ou convivência com o vírus<br />

da síndrome da mancha branca?<br />

Rodrigo Zanolo: A MSD é uma empresa com soluções<br />

e tecnologias principalmente para a piscicultura.<br />

Tínhamos projetos de pesquisa focados em peixes<br />

marinhos, como barramundi, seriolas, atuns, pargos,<br />

entre outros. Entretanto, chegou num momento que<br />

tivemos que tomar uma decisão, porque são muitas<br />

as espécies que são produzidas mundialmente. Como<br />

posicionamento estratégico da empresa, atualmente<br />

somos uma companhia orientada no desenvolvimento<br />

de tecnologia para duas espécies: salmão e tilápia.<br />

Nesse momento, o foco da companhia é ser líder<br />

e referência na entrega de tecnologia para essas<br />

duas espécies. E somos líderes mundiais nesses dois<br />

segmentos. São duas espécies de produção global,<br />

de exportação e importação entre diferentes países,<br />

portanto não temos um foco em P&D sobre camarões<br />

marinhos, mas acr<strong>ed</strong>itamos bastante no potencial desse<br />

mercado. Sabemos também da complexidade que é<br />

o desenvolvimento de soluções para crustáceos, um<br />

animal que tem particularidades em relação ao sistema<br />

imunológico, em relação às questões fisiológicas, que<br />

acabam dificultando o desenvolvimento de novas<br />

tecnologias. Contudo, o camarão marinho está no radar<br />

da MSD e acr<strong>ed</strong>ito que em breve teremos novidades e<br />

alguma notícia mais relevante na área de gestão sanitária<br />

para Litopenaeus vannamei.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Você acr<strong>ed</strong>ita mais na<br />

diversificação da aquicultura brasileira do ponto de vista<br />

da utilização de várias espécies, ou o foco em poucas<br />

espécies, bem desenvolvidas e com pacote tecnológico<br />

de ponta?<br />

Rodrigo Zanolo: Particularmente acr<strong>ed</strong>ito que não<br />

devemos diversificar a quantidade de animais. Acr<strong>ed</strong>ito<br />

em uma aquicultura de poucas espécies, com pacote<br />

tecnológico muito bem definido e de ponta. Ou seja,<br />

temos que colocar na mesa da família brasileira um produto<br />

de baixo custo e competitivo frente a outras proteínas.<br />

Acr<strong>ed</strong>ito muito nesse posicionamento para que nossa<br />

aquicultura realmente chegue<br />

a patamar de grandes volumes,<br />

para que sejamos grandes<br />

exportadores, assim como é<br />

a indústria de aves e suínos, e<br />

mais do que isso, que tenhamos<br />

capacidade de produzir em<br />

larga escala, com r<strong>ed</strong>ução de<br />

custo e ao mesmo tempo<br />

produzindo peixes de forma<br />

sustentável, proporcionando o<br />

bem estar animal, r<strong>ed</strong>uzindo os<br />

antimicrobianos etc. E isso se faz<br />

com pacotes tecnológicos em<br />

genética, em nutrição, em saúde<br />

animal, e essa combinação traz<br />

uma produção, mesmo em<br />

grandes volumes, de forma<br />

responsável. A diversificação da<br />

piscicultura será para pequenos<br />

produtores ou para nichos de<br />

mercado específicos, como<br />

por exemplo os produtores<br />

de trutas em regiões serranas,<br />

76


de carpas, produtores de peixes para comercialização<br />

em feiras, para pesca esportiva entre outros. Porém,<br />

a aquicultura com a missão de colocar proteína no<br />

mercado, com uma população que cresce a cada dia,<br />

sem dúvida que o foco está em poucas espécies com<br />

pacote tecnológico bem definido.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Em suas viagens internacionais<br />

a trabalho, o que mais lhe chamou a atenção da<br />

aquicultura de outros países, e que poderia servir de<br />

modelo para o Brasil?<br />

Rodrigo Zanolo: Todas as minhas viagens internacionais<br />

se deram exclusivamente com foco em visitação de<br />

produção de peixes, particularmente em tilápias. Tudo<br />

o que eu vi de produção de tilápia, nada me chamou<br />

muito a atenção. Por isso mesmo acho<br />

que o Brasil é referência em manejo,<br />

apesar de ter muito que evoluir,<br />

conforme comentei sobre aqueles<br />

três pilares. O Brasil é hoje referência<br />

em produção de tilápia. Nossos<br />

produtores absorvem a tecnologia.<br />

Nós temos tecnologia de produção<br />

de tilápia em tanques escavados com<br />

alta eficiência, muito bem organizado,<br />

temos ótimos profissionais, ótima<br />

qualidade em relação a genética,<br />

bom estado sanitário e de forma<br />

geral, o Brasil hoje é referência em<br />

produção de tilápia. Não vejo um<br />

modelo produtivo que realmente<br />

me chamasse a atenção na América<br />

Central por exemplo, ou em países<br />

da Ásia, como Tailândia, Indonésia…<br />

na tilápia, hoje nós estamos muito<br />

bem! A não ser, as gaiolas de grande volume, que<br />

sempre me chamaram muita atenção. Projetos que<br />

fazem 30 mil toneladas e tenham despesca de 80<br />

toneladas/dia de tilápia. As gaiolas de grande volume<br />

nos trazem uma possibilidade muito interessante de<br />

produção em grandes volumes e isso poderia ser cada<br />

vez mais utilizado aqui no Brasil. Seria esta, portanto, a<br />

única consideração.<br />

AQUACULTURE BRASIL: Um recado para os estudantes<br />

da área de aquicultura no Brasil...<br />

Rodrigo Zanolo: Vou deixar um recado da área<br />

comercial. Quando se é técnico ou estudante, muitas<br />

vezes se está sempre olhando para a possibilidade de<br />

trabalhar como técnicos, como gerentes de produção,<br />

como consultores e ter a possibilidade de trabalhar<br />

efetivamente com os animais, gerenciando fazendas<br />

e colaborando com a produção propriamente dita.<br />

Mas meu recado aqui é para que os estudantes<br />

abrissem os olhos para as oportunidades de trabalho<br />

na área da aquicultura, relacionadas ao setor comercial,<br />

como vendas de insumos por exemplo, ração,<br />

m<strong>ed</strong>icamentos, equipamentos, entre outros. O nosso<br />

trabalho comercial em aquicultura é um trabalho<br />

bastante técnico, em que existe a possibilidade de<br />

entrega de soluções para o piscicultor ou carcinicultor<br />

e contribuir significativamente para que esse consiga<br />

atingir níveis de produtividade maiores. E essa é uma<br />

área que emprega muito bem. É importante que esses<br />

profissionais se preparem com gestão de pessoas, com<br />

cursos de oratória, na área de comunicação, a fim de<br />

se preparar e ver o mercado<br />

comercial como uma ótima<br />

oportunidade de trabalho<br />

também.<br />

Meu recado<br />

aqui é para que os<br />

estudantes abram<br />

os olhos para as<br />

oportunidades de trabalho<br />

na área da aquicultura,<br />

relacionadas ao setor<br />

comercial...<br />

AQUACULTURE BRASIL: Para<br />

finalizar, o que você diria para<br />

um grupo de empresários<br />

que pretende investir na<br />

aquicultura no Brasil?<br />

Rodrigo Zanolo: Para os<br />

empresários que pretendem<br />

entrar no mercado de<br />

aquicultura, eu diria que<br />

nós estamos no momento<br />

certo e no local ideal para<br />

investir. Esse é o momento<br />

de se investir na aquicultura<br />

brasileira! O mercado está<br />

cada vez mais organizado, nossas associações estão<br />

cada vez mais preparadas para romper alguns marcos<br />

regulatórios, de legalização ambiental. Temos pacote<br />

tecnológico definido para algumas espécies, em<br />

particular para tilápia. E temos um mercado muito<br />

interessante para explorar, tanto interno quanto externo<br />

com a tilápia. Além, obviamente, do camarão marinho,<br />

um produto de altíssimo valor agregado, que se um<br />

grupo tiver poder de investimento, com as tecnologias<br />

hoje de modelos fechados e mais biosseguros, de<br />

altíssima produtividade, existem ótimas oportunidades e<br />

possibilidades de retorno sobre o investimento. Como<br />

exemplo, vemos os diferentes grupos e cooperativas,<br />

que quando fazem um trabalho profissional tem<br />

se destacado e crescido financeiramente, com<br />

rentabilidades muito interessantes.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

77


Geraldo Kipper Fóes<br />

Demorou para o Prof. Dr. Geraldo Fóes ser o homenageado desta seção,<br />

afinal, trata-se de uma das figuras mais queridas, simpáticas e comprometidas da<br />

aquicultura brasileira!<br />

Bem-vindo Geraldão! Sem dúvida, nossos leitores agradecem imensamente a<br />

sua participação!<br />

Mais de 2 décadas de aquicultura...<br />

“Desde o período da minha graduação no Curso<br />

de Oceanologia da Universidade F<strong>ed</strong>eral do Rio<br />

Grande (FURG), na cidade do Rio Grande, RS, tinha<br />

interesse na área aquícola e estagiei no Laboratório<br />

de Carcinocultura, no qual era responsável o Professor<br />

Marcos Marchiori, que hoje não se encontra mais<br />

entre nós.<br />

Após me formar, retornei à minha cidade natal, Paranaguá,<br />

PR, com o objetivo de lá permanecer. Paranaguá<br />

é uma cidade localizada na Baía de Paranaguá, a<br />

segunda maior do Brasil e com uma riqueza biológica<br />

incalculável. No início de 1996, através de uma indicação<br />

do Professor Antônio Ostrensky, da Universidade<br />

F<strong>ed</strong>eral do Paraná, comecei a trabalhar na Fazenda<br />

Borges, a qual operava na época com as espécies<br />

nativas Farfantepenaeus paulensis e Litopenaeus schmitti.<br />

Nesse período casei com minha esposa Verônica<br />

e em seguida nasceu nossa filha Verena. No momento<br />

a Verena estuda Biologia e é estagiária no Laboratório<br />

de Piscicultura Marinha e Estuarina da FURG. “Por<br />

enquanto, a fruta está caindo próxima a árvore”.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Experiência na Fazenda YAKULT/UFSC<br />

“Quando eu saí da Fazenda Borges, em 1999, fui<br />

convidado para trabalhar na Fazenda Experimental<br />

Yakult pelos Professores Edemar Andreatta e pelo<br />

saudoso Elpídio Beltrame, fazenda esta pertencente<br />

à Universidade F<strong>ed</strong>eral de Santa Catarina (UFSC).<br />

Nessa época, a espécie cultivada já era o Litopenaeus<br />

vannamei. Como essa é uma “Fazenda Escola”, tive<br />

oportunidade de auxiliar em vários trabalhos científicos<br />

e também em treinamento de alunos e estagiários<br />

da iniciativa privada. Com isso, além da necessidade<br />

de aumentar o conhecimento, aprendi a didática para<br />

conviver e repassar conhecimentos para os alunos<br />

daquela Instituição e de outras”.<br />

Família Fóes: esposa Verônica, a filha<br />

Verena e Geraldo<br />

78


Do setor produtivo para a academia<br />

“No ano de 2004 fui trabalhar em uma fazenda<br />

no litoral norte de Santa Catarina. No final daquele<br />

ano, houve o aparecimento do vírus da mancha<br />

branca no sul do Estado. A doença se manifestou<br />

no local em que eu trabalhava em meados de<br />

2005. Tentamos por vários meses operar a fazenda<br />

mudando técnicas de preparo de solo e água<br />

e r<strong>ed</strong>uzindo as densidades. Tudo em vão... Então,<br />

casado e pai de família, fiquei desempregado, como<br />

também muitos outros colegas e trabalhadores.<br />

Eu digo que somos os “órfãos da mancha branca”,<br />

pois a atividade simplesmente foi varrida do mapa<br />

naquele Estado.<br />

Fui então convidado pelo Professor Wilson Wasielesky<br />

Jr. (Mano), que tinha sido meu colega na<br />

graduação a auxiliá-lo, através de uma bolsa de trabalho<br />

no Laboratório de Carcinocultura do Instituto<br />

de Oceanografia da FURG. Assim recomeçou minha<br />

vida acadêmica.<br />

Minha entrada tardia na Pós Graduação me<br />

trouxe dificuldades e vantagens. Dificuldades, pois<br />

tive que trabalhar ao mesmo tempo em que estava<br />

estudando. Porém, a idade nos dá uma visão mais<br />

nítida dos problemas. A forma de tentar resolver<br />

uma dúvida, que acaba sendo o questionamento<br />

principal da pesquisa e a maneira de solucioná-lo<br />

ficam mais simples de serem entendidos, para assim<br />

responder da melhor maneira possível.<br />

Para o ingresso como professor na FURG, depois<br />

de um longo período me preparando e fazendo<br />

outros concursos, houve uma luta feroz, pois estava<br />

rodeado de colegas extremamente inteligentes e tão<br />

ou mais preparados que eu”.<br />

A pós-graduação<br />

“Em 2006 entrei no Mestrado em Aquicultura,<br />

na FURG. O Professor Mano foi meu orientador<br />

e meu experimento foi a utilização de berçário<br />

e engorda de L. vannamei. Além do mestrado,<br />

eu o auxiliei em outros serviços, tais como<br />

manutenção das instalações, projetos construtivos<br />

e licenciamentos ambientais de empreendimentos<br />

aquícolas, pesquisas por demanda, produção de<br />

pós-larvas de espécies nativas, entre várias outras<br />

atividades. Em 2008 entrei para o Doutorado em<br />

Oceanografia Biológica, também na FURG, também<br />

orientado pelo Professor Mano, com o tema desta<br />

vez sendo a utilização do Sistema de Bioflocos para<br />

o camarão-rosa F. paulensis. Concluí o Doutorado no<br />

final do ano de 2011. De 2011 até o momento do<br />

concurso, em 2017, fui bolsista de Pós-Doutorado”.<br />

Prof. Mano e Geraldo<br />

Experiências nacionais e internacionais<br />

“A vida acadêmica me deu oportunidade<br />

de fazer viagens às quais não imaginaria<br />

ocorrerem em minha vida. Por exemplo, já<br />

fiz três viagens para os EUA, participando de<br />

Congressos e visitas a Centros de Pesquisa. Tive<br />

a oportunidade de participar de um Congresso<br />

sobre Sistema de Bioflocos no Vietnã, com os<br />

maiores especialistas mundiais do assunto.<br />

Participei de congressos no Equador, Colômbia,<br />

viagens para Uruguai e Argentina. Além de<br />

conhecer vários estados brasileiros. Devo isso<br />

ao Programa de Pós Graduação em Aquicultura<br />

e ao Projeto Camarão da FURG, no qual faço<br />

parte e contribuo com meus serviços”.<br />

Dia a dia<br />

“Desde o ano de 2017, sou professor do Instituto<br />

de Oceanografia da Universidade F<strong>ed</strong>eral<br />

do Rio Grande. Faço parte do Programa de Pós<br />

Graduação em Aquicultura, como professor<br />

e pesquisador e dou aula para os Cursos de<br />

Graduação em Oceanologia e Biologia. Trabalho<br />

junto ao Laboratório de Carcinocultura em<br />

pesquisas relacionadas a cultivos semi-intensivos,<br />

intensivos e superintensivos tanto de espécies<br />

nativas (F. paulensis e F. brasiliensis) e principalmente<br />

com o L. vannamei. Além disso, trabalhamos<br />

com projetos de implantação de empreendimentos,<br />

licenciamento ambiental e pesquisas<br />

sob demanda para a iniciativa privada e órgãos<br />

públicos. O nosso Laboratório possui várias salas<br />

experimentais, três estufas de produção e mais<br />

nove viveiros escavados revestidos. Conta também<br />

com sala de maturação de camarões, sala<br />

de desova, setor de larvicultura, sala de produção<br />

de fitoplâncton, de Artemia e laboratórios<br />

anexos”.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

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Geraldo Kipper Fóes<br />

Próximos passos...<br />

“Minha tarefa principal será disseminar os<br />

conhecimentos adquiridos, através do Ensino,<br />

Pesquisa e principalmente pela Extensão, que<br />

será reverter este conhecimento adquirido para<br />

a soci<strong>ed</strong>ade, honrando o que ela nos repassa em<br />

recursos através dos impostos pagos e que são<br />

utilizados em nossas pesquisas. Espero também<br />

conseguir repassar essa mistura de conhecimento<br />

teórico com a minha experiência profissional que<br />

obtive trabalhando em empreendimentos aquícolas<br />

por mais de 10 anos”.<br />

Como você vê a aquicultura brasileira daqui<br />

há 30 anos?<br />

“Eu a vejo muito mais intensificada, principalmente<br />

em pequenos empreendimentos, próximos<br />

a centros urbanos. Imagino também bastante<br />

tecnificada, com várias espécies sendo cultivadas<br />

ao mesmo tempo, aproveitando o chamado<br />

“efluente” como uma fonte alimentar para esses<br />

organismos.<br />

Acr<strong>ed</strong>ito também que seremos grandes<br />

exportadores de tilápia e grandes exportadores<br />

dos peixes amazônicos. Nós possuímos 10 % da<br />

água doce da Terra e uma costa marítima com<br />

8.000 km de extensão. Nosso destino é sermos<br />

um dos maiores produtores mundiais de produtos<br />

aquícolas, disso não tenho a menor dúvida!”.<br />

NOV/DEZ 2018<br />

E onde encontraremos o Geraldão daqui há<br />

30 anos?<br />

“Se Deus quiser, vivo!!!<br />

Provavelmente, me encontrarão em um cantinho<br />

à beira mar, preparando meu material de<br />

pesca para o dia seguinte! É isso que para mim<br />

seria o ideal para o final de carreira!”<br />

Saudações Aquícolas a todos!!!<br />

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NOV/DEZ 2018


Ano passado publicamos um “despescou” digamos “caseiro”, a partir dos resultados da Fazenda<br />

Rollin, uma de nossas propri<strong>ed</strong>ades de produção de camarões marinhos, localizada em Laguna (SC).<br />

Algumas <strong>ed</strong>ições depois, chegou a vez de mostrar uma parte dos resultados da Fazenda Lampião,<br />

vizinha à Rollin, nossa mais nova aposta.<br />

Importante destacar que os números abaixo são resultado da d<strong>ed</strong>icação e comprometimento do<br />

time de sócios e colaboradores, uma verdadeira equipe de ouro!<br />

Fazenda:<br />

Lampião<br />

Sorriso, Giovanni e Diego, sócios<br />

da Fazenda Lampião<br />

NOV/DEZ 2018<br />

Data do povoamento: 10/10/2018<br />

Quantidade de PL estocadas: 510.900<br />

Área: 3,72 ha<br />

Densidade: 13,73 cam/m²<br />

Data da despesca: 16/01/2019<br />

Dias de cultivo: 98<br />

Peso final : 16,74 g<br />

Biomassa final: 6.937,3 Kg<br />

Produtividade: 1.864,86 Kg/ha<br />

Sobrevivência: 81,11%<br />

Total de ração: 5.758,69 Kg<br />

Conversão alimentar: 0,83:1<br />

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NOV/DEZ 2018

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