Negócios Novembro 2019

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EDIÇÃO 307 | NOVEMBRO DE 2019 | 3

Entrevista do mês

‘Mercado não permite amador’

Sócio da 1900 Pizzeria, Erik Momo fala sobre inovação, tecnologia e o que faz uma pizzaria ter sucesso

Rogério Lagos

Tudo começou há 36 anos, quando

o maestro Giovanni Paolo

Momo e a esposa Katia Cesar

resolveram seguir o conselho de amigos

e abrir uma pizzaria em vez de

um estúdio de gravação. O local, um

antigo casarão do século 20, ainda

sustenta nos dias de hoje a matriz da

1900 Pizzeria, na Vila Mariana, comandada

hoje por um dos filhos do

casal, o sócio-proprietário e também

pizzaiolo Erik Momo. O negócio deu

tão certo que hoje Momo é o responsável

por oito unidades na Capital,

incluindo um espaço dedicado ao público

infantil no Shopping Eldorado.

O sucesso reflete o potencial do

mercado de pizzas no Brasil. Segundo

a Neoway, empresa brasileira de big

data, o universo das pizzarias formais

e ativas soma hoje cerca de 40 mil estabelecimentos.

As projeções da Food

Consulting apontam para um faturamento

total do segmento no País na

casa dos R$ 22 bilhões por ano, o que

significa que cada pizzaria fatura em

média por mês R$ 45 mil. De acordo

com o Instituto ConPizza, são comercializadas

aproximadamente 1,5 milhão

de pizzas por dia no Brasil.

Erik Momo, que começou a respirar

a 1900 aos 14 anos, conta que no

começo ia trabalhar “carregado”, sem

vontade. Passou a adolescência trabalhando

sem compromisso, tendo a

pizzaria como um simples negócio de

família. Aos poucos foi se envolvendo

mais, concluiu a faculdade de marketing

na mesma época em que a unidade

de Moema abria as portas e passou

a tocar o negócio que hoje comercializa

cerca de 30 mil pizzas por mês –

ou seja, média de mil pizzas por dia

– com muito mais vigor.

Qual é o maior desafio para

a 1900 ao trabalhar com pizzas

em São Paulo?

Observar o que está acontecendo

no mercado e se manter

aberto, vivo, faturando é o grande

Erik Momo, da 1900 Pizzeria:

pizzarias precisam ter uma

identidade

desafio. Precisamos sempre atrair

os clientes e nos mantermos interessantes

para eles. E cada época

possui particularidades diferentes,

desafios diferentes para continuarmos

funcionando.

A pizza da 1900 não é das

mais baratas. Com o País em

crise, como é possível manter

o público e o tíquete médio?

No pico da crise houve uma queda

natural do movimento, mas não

do consumo de pizzas. O cliente migrou

da 1900, mas não deixou de

comprar pizza. Passou a pedir uma

ou duas vezes por mês, procurou

alternativas mais baratas, mas sem

tanto valor agregado como na 1900.

Mas aquele cliente acostumado com

a nossa velocidade, atendimento e,

claro, o nosso produto, se manteve

fiel, mesmo que consumindo menos

do que o habitual.

O que seria um diferencial

da pizza da 1900?

Existe muita pizzaria boa em

São Paulo. A nossa intenção é fazer

uma pizza oferecendo variações

de ingredientes que outras não

têm. Temos pizzas de até três sabores,

três tamanhos, possibilidades

que agregam valor em nosso

cardápio. Começamos com 15,

mas hoje são quase 50 opções. A

qualidade da pizza em si é muito

subjetiva, mas ajustamos o ponto

da massa com cuidado, a crocância,

textura e maciez que acreditamos

ser o ponto ideal. Então não é

só questão de ser melhor ou pior,

mas nós temos uma característica

específica de pizza. Cada pizzaria

tem o seu DNA diferente.

Como aliar tecnologia a um

mercado tão tradicional?

A tecnologia tem de ajudar e

aproximar a pizzaria do cliente.

Se afastar vai ser um grande problema.

Não podemos ser inovadores

estando 100% online, mas sim

focar em nosso público, que é bem

variado. O cliente de idade sente-

-se mais à vontade por telefone,

longe do aplicativo. Mas a tecnologia

móvel se torna um diferencial

para o público mais jovem. Temos

alguns produtos específicos para

quem utiliza o telefone e bônus

para quem faz o pedido pelo aplicativo.

Quem define é o próprio

cliente de acordo com a plataforma

que mais valoriza. Hoje nossos

pedidos estão quase iguais,

sendo 40% pelo aplicativo e 60%

por telefone.

Como inovar?

Inovação é muito arriscado,

pois toda vez que há inovação

partimos da ideia de ser algo que

ninguém ou você nunca fez. Se

inova o tempo todo, não gera a

reação de expectativa e atendimento.

É preciso ter referência,

tomar cuidado e fazer algo consistente

e que ajude a pizzaria

perante a concorrência. Muitas

pizzarias atiram para todos os

lados, não inovam, mas sim copiam.

Qual a possibilidade de

liderar dessa forma? É preciso

ter referência, uma certa constância,

estabilidade da marca e

confiar em sua própria inovação.

Para quem está começando

agora no mercado de pizzarias,

ou até mesmo já está há

algum tempo sem muito sucesso,

qual a sua dica?

Hoje o mercado não permite

ser amador como foi meu pai

no começo, que deu as caras,

abriu a pizzaria e começou a fazer

pizza do jeito que dava, sem

gestão alguma, há 36 anos. Mas

era outra época. Hoje qualquer

empreendedor precisa estudar o

mercado, entender do produto,

da legislação ou ter alguém que

o auxilie nessas questões dentro

do negócio. O investimento para

uma pizzaria não é pequeno e

a possibilidade de dar errado é

muito grande. Se não tiver uma

boa identidade, um bom produto

e os mecanismos corretos para

atrair o público, será apenas fracasso

e frustração.