RCIA - ED. 172 - NOVEMBRO 19

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Heróis

Não sei se já contei para vocês

sobre o serviço militar que deveria

ter feito, mas que não o fiz, não por

nada, mas é que quando tive de me

apresentar no Tiro de Guerra, já havia

ingressado num curso superior.

Por isso é que fui dispensado. Pela

lei. Tão simples, não?

Nem tanto, porque tive de enfrentar

o enérgico capitão, que teria

sido combatente na FEB, pois queria,

de todo jeito, que eu cumprisse

minha obrigação para com a Pátria.

Embora ele estivesse cumprindo seu

dever, não pude me conformar, porque

fiz ver a ele meu direito. Ele não

gostou nadinha de minha reação,

ficou bravo, mas titubeou indeciso.

E não teve como. Então, para me

castigar, obrigou-me a apresentarme

noutra cidade bem distante, em

lugar incerto e não sabido… (Lins).

E lá fui eu, jovem inexperiente,

ainda indignado, saindo de casa

pela primeira vez. E no quartel, sentado

num canto, encostado numa

parede, enquanto faminto devorava

um sanduiche de mortadela no

aguardo da convocação, fiquei vendo

os soldados a marchar de um

lugar para outro, a parecer que sem

sentido e sem finalidade alguma.

O que não entendi. Mas depois de

haver prestado o juramento à Pátria,

fui dispensado e recebi algum tempo

depois o certificado de reservista

de terceira categoria.

Não que eu tivesse sido um cara

indisciplinado, mas hoje penso que

talvez deveria ter cumprido o serviço

militar obrigatório, para que

minha vida pudesse ter sido ainda

mais cívica, seguindo o exemplo de

meu pai que serviu o Exército em

Luís Carlos

BEDRAN

Sociólogo e cronista da Revista Comércio,

Indústria e Agronegócio de Araraquara

Campo Grande. E sempre que se

tocava nesse assunto em casa, ele

se recordava com saudade do tempo

em que lá passou, pelo companheirismo,

pelo esprit de corps, pela

amizade que desfrutou com seus

colegas de todas as classes sociais,

pelo espírito cívico e patriótico que

possuiu e que sempre transmitiu a

seus filhos.

Durante toda minha vida tive

contato com alguns militares, tanto

os do Exército, como os da Polícia

Militar devido à minha antiga profissão.

Respeitava-os como respeito-os

até hoje, porque neles percebia um

profundo amor e dedicação à Nação,

não apenas pela participação

que a antiga Força Pública de São

Paulo teve na Revolução Constitucionalista

de 1932, como também

a que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica

tiveram na luta contra o

nazismo e o fascismo na Segunda

Guerra Mundial, quando desembarcaram

com os aliados na Itália,

formando a Força Expedicionária

Brasileira. E isso em plena ditadura

de Getúlio Vargas, no Estado Novo.

E li muito sobre guerras e militares.

Sobre a expedição do Marechal

Rondon na pacificação dos índios,

na viagem que fez com o ex-presidente

dos EUA, Theodore Roosevelt

no interior do Mato Grosso; sobre

a Segunda Guerra, na revista Em

Guarda; as Memórias de Churchill;

de Max Hastings, no O mundo em

guerra 1939-1945; a Marcha da insensatez,

da jornalista e historiadora

Barbara W. Tuchman e, mais recentemente,

as Crônicas da Guerra na

Itália, de Rubem Braga, jornalista,

escritor, considerado o mestre da

crônica, quando correspondente da

guerra do Diário Carioca, um jornal

do Rio de Janeiro.

Onde diz que a FEB somava

25.334 homens e onde na Itália

morreram centenas de pracinhas,

milhares ficaram feridos, até voluntários,

soldados de todos os Estados

e de todas as classes sociais e níveis

de cultura, tudo em defesa da Democracia.

Heróis.

Por isso, quando hoje percebe-se

um preocupante e interesseiro movimento

político ideológico radical,

exacerbado pelas redes sociais,

que tenta se aproveitar do profundo

amor à Pátria que possuem os

militares, para que estes se desviem

de suas nobres e tradicionais funções,

de respeito à Constituição e às

instituições, é preciso que eles não

se deixem levar pelos melodiosos e

malévolos cantos de sereia e que os

homens de bem se unam em favor

do Estado Democrático de Direito.

Sempre.

Termino esta crônica com as sábias

e proféticas palavras de Rubem

Braga: “É preciso que o nazista não

volte. Porque ele pode voltar com

outro nome, na Alemanha ou fora

da Alemanha. Ele pode brotar outra

vez do chão — na Europa, ou na

Ásia, ou em nossa América”.

“O fascismo é uma praga difícil

de exterminar. É o preço que os

povos pagam pela própria desídia.

É a defesa frenética dos privilegiados.

E contra ele só há um remédio

verdadeiro: conquistar e manter a

todo custo a liberdade do homem,

e só há liberdade entre os homens

quando cada um vale pelo seu trabalho

— e não pelo seu nascimento

nem pelos seus privilégios. Ninguém

se iluda: acabar com as injustiças

nacionais e sociais, que são o caldo

de cultura do fascismo e das guerras,

será uma luta muito dura, uma

grande luta do povo”.

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