Revista Dr Plinio 261

revistadp

Dezembro de 2019

Publicação Mensal

Vol. XXII - Nº 261 Dezembro de 2019

Sinal de contradição


O ódio

sacral

da Igreja

Oleografia Panigati e Meneghini Milano (CC3.0)

militante

São Silvério, Papa

Danilo I.

Está na índole da heresia ser brutal, falsa, visar o extermínio.

Os hereges empreenderam tudo contra São Silvério, entretanto

nada conseguiram porque ele se manteve firme e fiel.

A má-fé do herege deve ser vencida por meio de atitudes que o desmoralizem

aos olhos de terceiros, para que ele não possa ser nocivo. A

Igreja é militante, e é com espírito de luta que se deve combater as heresias.

Nós estamos numa guerra declarada e a mais terrível de todas, porque

é a guerra entre os filhos da serpente e os filhos da Virgem.

São Luís Grignion de Montfort disse muito bem que essa inimizade

sempre existirá, pois tudo quanto Deus faz é perfeito, e essa é a única

estabelecida por Ele: “Inimicitias ponam” (Gn 3, 15). É uma inimizade

perfeita que ressalva o desejo de salvar as almas dos hereges, mas

vai até o extremo do ódio sobrenatural. Desse ódio sacral as nossas almas

devem estar cheias, fazendo de nós os apóstolos dos últimos tempos,

combativos, zelosos, intransigentes; e nunca apóstolos abobados

e traidores da causa que deveriam defender. Eis a grande lição que se

desprende da bela vida de São Silvério.

(Extraído de conferência de 19/6/1967)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXII - Nº 261 Dezembro de 2019

Vol. XXII - Nº 261 Dezembro de 2019

Sinal de contradição

Na capa, Dr. Plinio

venera a imagem do

Menino Jesus, em 1989

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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INSC. - 115.227.674.110

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02404-060 S. Paulo - SP

E-mail: editoraretornarei@gmail.com

Impressão e acabamento:

Pigma Gráfica e Editora Ltda.

Av. Henry Ford, 2320

São Paulo – SP, CEP: 03109-001

Editorial

4 Gloriosa noite coroada de

contradições

Piedade pliniana

5 Pedindo a plenitude do

espírito de Maria

Dona Lucilia

6 Justiça e bondade

Dr. Plinio comenta...

10 Músicas natalinas francesas

De Maria nunquam satis

14 Os ódios sapienciais do Imaculado

Coração de Maria - I

Reflexões teológicas

18 Natal dos guerreiros de Maria

Calendário dos Santos

24 Santos de Dezembro

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 200,00

Colaborador........... R$ 300,00

Propulsor.............. R$ 500,00

Grande Propulsor....... R$ 700,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Hagiografia

26 Mirante altíssimo e grandioso

Apóstolo do pulchrum

32 Desejo do paradisíaco

Última página

36 A antítese mais completa do mal

3


Editorial

Gloriosa noite coroada

de contradições

Senhor Jesus, com quantas contradições quisestes coroar a noite mil vezes gloriosa de vosso Santo

Natal!

“Coroa” sim, é bem este o vocábulo que convém a esse conjunto de circunstâncias com que

quisestes cercar a hora tão rica em símbolos de glória e de dor, na qual, nascendo do seio da Virgem

Mãe, iniciastes a caminhada esplendorosa que, conduzindo-Vos da gruta de Belém até o alto do Tabor,

e deste último ao Calvário, haveria de ter seu termo final no momento glorioso e terrível em que

destruireis o Anticristo, encerrareis por um terrível decreto de extermínio a História da humanidade

e baixareis à Terra para iniciar o julgamento de todos os homens!

Contemplando essas cenas de dor e de vitória, de glorificação suprema como de condenação inexorável

e extrema, situamos a Festa de vosso Santo Natal em sua plena perspectiva histórica. Sim,

uma perspectiva na qual Deus e o demônio, o Céu e o Inferno, num contraste implacável, em uma luta

suprema, haveriam de desfechar os seus golpes até o momento em que, cessada a História, só restariam

em confronto os bons e os maus, uns votados pela Justiça eterna para a felicidade inteira, perfeita,

gloriosa e sem fim, e outros para o abismo perpétuo e insondável de dores, de opróbrios e de

vergonha, onde tudo não é senão derrota, insucesso, gemido e revolta perfeitamente inútil.

Na Noite Feliz os Anjos cantaram “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e na Terra paz aos homens

de boa vontade” (Lc 2, 14). Sim, aos homens de boa vontade. Porém, já havia também sob a

abóbada celeste, constelada de estrelas, homens de má vontade. Certamente não era para eles – os

malditos, os precitos – o precônio da paz, mas o da inexorável e total desgraça.

Vós quisestes que rodeassem vosso Presépio não só as glórias de aturdir, que Vos tocam na infinitude

de vossa Santidade, mas as doçuras insondáveis do perfeito Coração de Mãe que Vos adorou

desde o primeiro instante de vossa concepção.

É no ápice de todas essas perfeições que nossos olhos Vos contemplam hoje, na noite de Natal. De

tantas contradições ao mesmo tempo magníficas e supremas, deslumbrantes e terríveis decorre um

ensinamento que, súplices, Vos pedimos marqueis em nossos corações.

Também o mundo contemporâneo está imerso na contradição entre a verdade e o erro, o bem e o

mal, a beleza e a hediondez. De um lado, contemplamos-Vos, Senhor Jesus, e vossa Santa Mãe, junto

a quem refulge a santidade de José; e de outro, vemos o oceano das ignomínias, dos crimes, das abjeções

nas quais vai se precipitando o mundo “totus in maligno positus est” (1Jo 5, 19).

Para onde quer que nos voltemos, algo vemos ou ouvimos que Vos ofende, ultraja e conspira contra

Vós. Não há o que não se volte para Vos escarnecer, golpear, fazer sangrar e arrastar à Cruz. Em torno de

Vós tudo é contradição, no sentido de que quase não há senão mal, e este é essencialmente contraditório.

Senhora das Dores, fazei que compreendamos esta hora de contradição, mantendo-nos genuflexos aos

pés da Cruz, mas ao mesmo tempo eretos e destemidos como guerreiros, como Anjos em pleno campo de

batalha. Combatentes implacáveis, de coração abrasado de amor a Vós e a vosso Divino Filho, para esmagarmos

o mal, destroçarmos as contradições, elevar-Vos ao fastígio da glória de vosso Reino, ó Maria! *

* Conferência de 23/12/1993.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

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Piedade pliniana

Flávio Lourenço

A Virgem

adorando o

Menino Jesus

Convento de Santa

Clara, Medina de

Pomar, Espanha

Pedindo a plenitude

do espírito de Maria

Mãe nossa, Senhora do universo, obtende para nós do Menino-Deus, Vós que

sois sua Mãe extremosa e sem mácula, uma contrição verdadeira e profunda

por tantos pecados cometidos ao longo deste ano que se encerra, e que constituem

sinais inequívocos de um transbordante egoísmo e de uma inquietante falta de

amor de Deus.

Vós quisestes dobrar uma página de nossa história, tomando Vós mesma a iniciativa

da reconquista de nossas almas. Acabai, pois, Senhora, a obra que começastes! Não

se detenha vosso braço no início da tarefa, nem descansem vossos pés antes de atingir a

meta. Comunicai-nos a plenitude de vosso espírito, preparai-nos para os grandes lances

que se apresentam diante de nós.

Fazei com que o vosso espírito sagrado transponha os abismos de nossas misérias e

infidelidades, como outrora o Verbo de Deus transpôs os abismos que O separavam da

Criação para Se unir a Vós.

Sobretudo, Senhora, fazei com que a grande batalha profética se trave, que São Miguel

venha e Vós vençais. Amém.

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Dona Lucilia

Justiça e bondade

Muitas mães não sabem castigar nem premiar seus filhos

nos momentos adequados. Dona Lucilia foi um modelo no

sentido contrário. Em todas as ocasiões de punir, ela punia

mesmo; em todas as horas de premiar, premiava mesmo.

Levava as coisas até os últimos pormenores. Nunca elogiava

seu filho, mas sempre o tratava com imensa bondade.

Fotos: Arquivo Revista

Pode dar-se o caso – e desconfio

que hoje seja bem

mais frequente do que outrora

– de uma mãe perder a paciência

com o filho sem ser justa, porque

está nervosa, irritada, os negó-

Dona Lucilia em 4/2/1956

cios não vão bem, ou simplesmente

porque ela não controla os nervos,

se zanga fora de hora, depois agrada

fora de hora, etc. Ela não é justa

na hora que pune nem na hora que

premia.

Boletim com

notas do

aproveitamento e

do comportamento

Dona Lucilia foi um

modelo no sentido contrário.

Em todas as ocasiões

de punir, ela punia

mesmo; em todas

as horas de premiar,

premiava mesmo. Ela

levava as coisas até os

últimos pormenores.

Por exemplo, ela

prestava muita atenção

nas notas que eu

tinha no colégio. Naquele

tempo, o Colégio

São Luís dos padres

jesuítas era o

melhor de São Paulo.

Todos os meses, entregavam

um boletim para cada aluno

com as notas do aproveitamento

do estudo e do comportamento em

cada matéria.

Eu mostrava o boletim a mamãe,

ela o abria e, às vezes, para evitar

que me esquecesse, dizia: “Olha, vou

ver antes a nota do comportamento.

Porque na nota do comportamento

você é o responsável. Se for bom

o comportamento, você merece um

prêmio; se for mau, você é culpado

porque depende de você.”

Depois ela acrescentava para me

estimular: “A nota do aproveitamento

já não é tanto assim, porque eu

não sei se tive um filho burro ou inteligente.

Ainda não está demonstrado.

E se você é burro, não tem

culpa. Aparece aí a nota baixa, fico

vendo que o Plinio é burro. Mas não

vou punir um filho porque é burro,

pois não puniria um filho porque é

doente, por exemplo. Simplesmente

constato: meu filho é um burro.”

Mamãe olhava a nota do comportamento

e, em geral, sempre foi bem

boa: nove ou dez. Ela tolerava nove

em uma matéria ou duas, não mais

do que isso. Porque receber nove em

algumas matérias queria dizer que

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Fachada e sala de aula do Colégio

São Luís em São Paulo, Brasil

estava decaindo no comportamento,

portanto no caráter, e era preciso

ver qual a razão dessa decadência.

Os melhores alunos eram

premiados com medalhas

de ouro ou de prata

No fim do ano, os padres distribuíam

um prêmio destinado a poucos

alunos. Então, para cada matéria havia

uma medalha de ouro e outra de

prata, correspondentes ao primeiro

e segundo lugar em cada disciplina.

E uma vez eu recebi quatro medalhas.

Era reputado um belo total no

Colégio São Luís. E eles prendiam

as medalhas no peito do aluno. Mamãe

ia sempre às festas de distribuição

de prêmios a fim de prestigiá-las,

e para eu compreender que precisava

dar duro mesmo.

Mas nesse ano ela não foi. Quando

cheguei em casa, mamãe estava me esperando.

Toquei a campainha, ela foi

correndo à porta e me vendo com as

quatro medalhas me abraçou e beijou

muito. Mas eram quatro medalhas de

prata, não de ouro; não sei se ela percebeu

bem isso. Eu não disse nada e vi

que ela estava muito contente.

Também no ano seguinte ela não

pôde ir à festa, pois sofria muito do

fígado.

Quando cheguei em casa, toquei a

campainha, ela logo atendeu a porta

e perguntou:

— Então, filhão, como foi?

Eu estava com três medalhas.

Ela olhou e disse:

— Três medalhas só?!

— Mãezinha, uma é de ouro...

Então ela me abraçou e beijou

muito.

Conto isso para notarem como ela

olhava para as menores coisas.

Dona Lucilia nunca

elogiava seu filho

Dona Lucilia teve este cuidado até

o fim de sua vida: nunca me elogiava

na minha presença. Às vezes, uma ou

outra pessoa me fazia um elogio na

minha presença, mas ela fingia que

não ouvia e continuava a conversar.

Havia uma senhora que frequentava

a nossa casa e que tinha um genro

o qual era meu colega, advogado

como eu. Essa pessoa ia para nossa

residência e contava as proezas do

genro, como advogado. Mas levava

Plinio com aproximadamente 11 anos

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Dona Lucilia

Boletim de notas e alguns

prêmios recebidos por Plinio

no Colégio São Luís

Estampas dadas pelos padres

jesuítas a Plinio, como prêmio por seu

bom aproveitamento nos estudos

um tempão narrando. Mamãe gostava

dessa pessoa, ouvia tudo com

muita atenção e ficava admirativa.

Nunca contava nada do que eu havia

feito. E eu também não contava.

Um dia, perguntei a ela:

— Mamãe, a senhora está vendo

que ela conta essas coisas para dar

a entender que ele é um advogado

muito mais capaz do que eu. Por que

a senhora não diz alguma coisa sobre

o que eu faço?

Ela me disse, com um tom de voz

muito normal:

— Meu filho, a coitada fica tão alegre,

por que vou tirar a alegria dela?

Isso entrava, em alguma medida,

na atitude dela. Mas eu via bem que

não era só por esse motivo. Mamãe

tinha medo que eu, ouvindo um elogio

contado por ela, ficasse vaidoso.

Então, em nenhum momento ela fazia

qualquer elogio a meu respeito.

Mas dava provas de confiança sem

limites em mim, a respeito de tudo.

Se eu chegasse com um papel em

branco e pedisse para ela assinar, ela

assinava e não perguntava depois o

que era. Este é o melhor dos elogios.

Certa vez, um sujeito que era mau

filho me disse:

— Como Dona Lucilia confia em

você! Meus pais não confiam tanto

assim em mim.

Eu quase que disse a ele: “Cada um

tem o que lhe é justo!” Era a justiça.

O menino Plinio é

atingido pelo crupe

Agora, vejamos a bondade de mamãe.

Eu tive, quando estava com uns

dez anos de idade, uma doença gravíssima

e contagiosíssima, chamada

angina diftérica, também denominada

crupe. Não é caxumba, que é

uma doencinha comum. Vários dos

que estão neste auditório devem ter

tido caxumba. Mas crupe é uma doença

infecciosa medonha e muitas

vezes mortal. Porque é uma infecção

que dá na garganta, e a pessoa

fica prostrada com uma febre elevadíssima.

Atinge sobretudo crianças,

mas, às vezes, também gente adulta,

se não me engano. A garganta vai inchando,

inchando, se fecha e impede

a respiração; a pessoa morre por falta

de ar.

Eu me lembro que acordei uma

manhã com a voz embargada, e falei

ao empregado: “Chame Dona Lucilia!”

Ela veio, e eu disse:

— Meu bem, eu não me levanto

agora porque estou muito doente.

— O que é, meu filho?

Expliquei o que eu sentia. Ela pegou

uma caixa com brinquedos – dos

melhores, que me interessavam mais

–, pôs na cama e disse: “Vá brincando

aqui, enquanto eu consulto o médico.”

Lembro-me bem que eu me sentei

para brincar, porque era um brinquedo

que não dava para utilizar

deitado. Senti meu corpo amolecer e

afundei na cama de novo.

O médico que mamãe consultara

pelo telefone indicou alguns remédios.

Mas a doença era contagiosíssima.

Ela podia perfeitamente contratar

uma enfermeira para tratar de

mim, porque era muito doente do fígado

e, se ela tomasse esse crupe,

morria na certa. Ela não quis saber

de enfermeira, do começo até o fim.

Havia, sobretudo, um momento

decisivo no crupe, que era especialmente

contagioso, a respeito do qual

o médico, homeopata, preveniu mamãe.

Eu tomava o remédio periodi-

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camente e minha febre ia subindo.

Ela telefonava para o médico – que

era amigo da família e recebia os telefonemas

de muito bom grado – e ele

dizia para ela: “A senhora não se assuste,

a febre do Plinio ainda vai subir

mais. Mas em certo momento, se

o remédio fizer bem, a membrana infeccionada

que ele tem na garganta

será expelida. No momento em que

ele lançar fora essa membrana, a senhora

tenha um pano qualquer sobre

o colo e faça-o expelir nesse pano. E

mande imediatamente uma das criadas

levá-lo no jardim, onde já deve

haver um buraco pronto, e enterrá-lo

bem fundo, porque essa membrana é

ultracontagiosa. E se a senhora puser

em qualquer outro lugar da casa, pega

em alguém.”

Ela podia contratar uma enfermeira,

pelo menos para essa hora,

mas não o fez.

Lembro-me dela sentadinha junto

a mim. Em certo momento, fiz sinal

de que ia acontecer qualquer coisa.

Mas eu estava julgando, com minha

mentalidade de menino, que ia morrer.

Mamãe me ajudou e expeli a tal

membrana na toalha colocada sobre

o seu colo. Ela imediatamente a dobrou

para evitar um pouco a expansão

dos micróbios. Depois me agradou

um pouquinho, chamou uma

empregada da casa e lhe disse: “Madalena,

pegue isto com a ponta dos

dedos e enterre no buraco que foi

feito lá no fundo do quintal.”

A Madalena foi correndo e fez como

Dona Lucilia mandara. Graças a

Deus, nem mamãe nem a Madalena

foram contagiadas. Dentro de alguns

dias, eu já estava restabelecido.

Quando expeli a membrana e minha

mãe viu que, portanto, o perigo

tinha passado, ela telefonou ao médico

para contar-lhe o ocorrido, dizendo:

— Doutor Fulano!

Ele respondeu:

— A senhora não precisa contar o

resto. Sua voz alegre já me diz tudo...

Desejo de sempre ter a

presença de seu filho

Quando meus pais eram vivos, todos

os dias eu almoçava com eles e,

terminada a refeição, saía correndo

para o trabalho. Eles estavam tão habituados

a isso que nem prestavam

atenção se eu tinha saído ou não, pois

tinham como certo que, tendo acabado

de almoçar, já estava fora de casa.

Mas um dia, talvez por ter esquecido

algo em casa, voltei e encontrei

esta cena: os dois numa sala de estar;

meu pai sentado e minha mãe, de pé,

dizia para ele:

— Mas você acha mesmo que esse

menu está bom? O Plinio gostará de

comer esses pratos? Ou será melhor

fazer outra coisa?

Meu pai, que estava com sono e

com vontade de fazer a sesta, respondeu:

— Oh, senhora! Faça com ele o

que eu faria. Se eu tivesse que organizar

o menu, diria: “Rapaz, para o

jantar tem isto. Se você quiser, coma;

se não quiser, vá comer fora!”

Dr. Plinio em 1991

Ora, era precisamente o que mamãe

não queria. Seu desejo era que

eu jantasse com ela. Ela não disse

nada, mas notei que ficou desapontada

porque queria uma ajuda que

ele não deu. De fato, ele não podia

ajudar, pois essas são coisas que uma

dona de casa pensa e um homem

não. Ela ficou assim quietinha e depois

saiu da sala. Retirei-me de maneira

a não perceberem que eu tinha

presenciado a cena. Mas saí pensando:

“Bem se vê que pai é pai, mas

mãe é mãe!”

Por esse pequeno episódio compreendemos

a vantagem inapreciável

de termos uma Mãe no Céu,

como Nossa Senhora, que tem para

com os filhos aquelas acessibilidades,

bondades, que as mães possuem.

Ainda mais sendo Ela, ao

mesmo tempo, Mãe de Deus! Por

causa disso devemos rezar com confiança

porque Ela atende sempre os

nossos pedidos.

v

(Extraído de conferência de

15/12/1991)

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Dr. Plinio comenta...

Músicas

Marius Kallhardt / Koller Auktionen (CC3.0)

natalinas

francesas

Analisando duas músicas natalinas francesas, Dr. Plinio mostra

como cada uma delas deveria refletir mais profundamente

a grandeza sobrenatural do Natal. Em meio a muita

delicadeza, há uma espécie de carência de sacralidade.

Uma das principais características

da música francesa,

ao menos na medida em

que a conheço, é que ela exprime de

preferência um certo tipo de sentimento

humano, ao qual corresponde

o adjetivo francês salonnier, de salão.

Cortesia francesa

O clássico salão francês é habitualmente

de pé direito alto, teto com

estuque, tendo algumas muito ligeiras

pinturas de dourado realçando

algum movimento do estuque. Os

móveis são de um estilo que pode

ir de Luís XIII até Luís XVI, feitos

de madeiras preciosas, com incrustações

em bronze finamente traba-

lhadas, às vezes com tampo de mármore,

alabastro ou outra pedra também

de grande valor, tendo em cima

bibelôs, figurinhas de porcelana, de

prata, de ouro, de cristal, postas ali

para entreter os homens, e jarras de

flores muito bonitas. As cadeiras no

mesmo gênero, com tecidos de uma

delicadeza magnífica, com cores leves:

cor-de-rosa muito pálido, azul

de aurora, verde-água. Tudo dentro

de uma atmosfera de sorriso, criando

o clima da cortesia francesa.

A língua francesa está para essa

cortesia como a partitura está para

a música. Há uma polidez francesa

que é o modo de ser amável, de

se tornar agradável por aquilo que se

diz, de modo ultrapensado, mas muito

leve. De maneira que a coisa pesadona,

muito raciocinada que vem

como um carretão não cabe no estilo

francês, o qual é leve, distinto, e procura

dar a impressão de que o pensamento

nasceu naquele momento,

não como um produto de uma elaboração

cerebral árdua, porque tudo

quanto é árduo se procura esquecer

no salão francês, onde as flores

e os cristais dão o tom; mas causando

a impressão de que a ideia surgiu

com toda a facilidade de um espírito

genial, e fez todo mundo sorrir.

O sorriso de admiração, de aplauso,

de simpatia, de proteção, todas as

gamas do sorriso florescem no salão

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Flávio Lourenço

Salão dos Príncipes de Condé - Castelo de Chantilly, França

francês. As reverências são profundas,

calculadas segundo a categoria

da pessoa que faz e da que recebe a

reverência. Há toda uma aritmética

social colocada nisso, mas que se disfarça

com ditos ligeiros. Isso faz com

que se tenha a impressão de que tudo

isso é suave, espontâneo, e se vive

uma vida quase irreal.

Essa suavidade, produto quintessenciado

de uma civilização ao qual

me refiro com simpatia, mais ainda,

com uma admiração, é, entretanto,

um requinte unilateral. Porque não é

justo, não é bom, não é real que toda

a vida social de um povo como o

francês reproduza apenas o leve e o

elegante como se a vida fosse só isso.

O salão tem que ser uma imagem da

vida, mas o salão francês é a imagem

de uma fantasia.

Enlevo pela vida campestre

Dada essa introdução, podemos

nos perguntar como é o Natal francês,

que é um Natal de salão. É uma

sociedade de salão que procura colocar-se

em presença da gruta de Belém,

com o Menino-Deus, Nossa Senhora

e São José, pessoas de estirpe

principesca, mas ao mesmo tempo

simples, e até muito simples, de um

lado; e de outro lado o que há de menos

próprio a um salão: bois e vacas

que com o seu bafo vão esquentando

um Menino que sente frio, deitado

na palha, dentro de uma manjedoura!

Não era assim que se representavam

o rei e a rainha, olhando

para o delfim que tinha nascido. Então,

como o francês imagina os sentimentos

do homem de salão diante

desse Presepe?

Dessa vida de salão floresceu o que

em francês se chama la bergerie. Berger

é o pastor. A bergerie é um conjunto de

comentários, apresentações, toda uma

concepção do mundo pastoril. Então,

o pastorzinho, árvores lindas com frutinhas

vermelhas, um cordeirinho no

qual se poderia amarrar uma fitinha

cor-de-rosa ou azul-claro, a pastorinha

que caminha ao lado dele usando

um bastão grande, o sininho que toca

quando o cordeirinho anda... Enfim,

uma representação mimosa baseada

na vida de campo, mas como esta vida

não é na realidade. Porque o campo

tem besouros, buracos no chão, bichos

mortos, coisas fétidas. O campo é

o campo, ainda que seja francês.

Esse enlevo pela vida campestre

era um modo de os franceses se desafogarem

do excessivamente quintessenciado,

civilizado, procurando

recorrer à simplicidade extrema e

até exagerada para mostrar os lados

encantadores da candura pastoril.

Dentro dessa concepção, a Rainha

Maria Antonieta chegou a construir

um hameau, um casario, menor

até que uma aldeia, no Petit Trianon,

que era uma espécie de ambiente

campestre organizado por ela

nas dependências do parque de Versailles.

Ali ela, as duquesas e as princesas

apareciam vestidas de pastorinhas,

mas com tecidos de seda. Então,

pastoras de conto de fadas, com

uns carneirinhos que antes tinham

sido lavados, perfumados, arranjados

do modo mais perfeito, e que

podiam pôr uma pata fora da etiqueta.

Canções pastoris tocadas por

grandes orquestras, etc.

Eu imagino que é nessa delicadeza

lírica da canção pastoril que é

concebido o Natal francês.

Agora, vamos analisar algumas

músicas natalinas francesas.

Petit Trianon (ao fundo) e seus jardins - Versailles, França

ToucanWings (CC3.0)

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Dr. Plinio comenta...

Gabriel K.

Natividade - Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque, EUA

Nasceu o Divino Menino

Il est né le Divin Enfant

Jouez hautbois, résonez musettes

Il est né le Divin Enfant

Chantons tous son avènement

Nasceu o Divino Menino

Tocai oboés, ressoai gaitas

Nasceu o Divino Menino

Cantemos todos o seu advento.

O termo “avènement” tem aqui

uma particularidade: é que se diz

também de um rei que sobe ao trono,

o avènement du roi.

Depuis plus de quatre mille ans

Nous le promettaient les prophètes

Depuis plus de quatre mille ans

Nous attendions cet heureux temps

Desde há quatro mil anos

Os profetas nos prometiam

Desde há quatro mil anos

Nós esperávamos esse tempo feliz

É o Messias que devia vir.

Ah! Qu’il est beau, qu’il est charmant!

Ah! Que ses grâces sont parfaites!

Ah! Qu’il est beau, qu’il est charmant!

Qu’il est doux ce Divin Enfant!

Ah, como é belo, como é encantador!

O termo “encantador” não traduz

inteiramente o que a palavra “charmant”

significa em francês. É preciso

Notem como a procura do gracioso

está presente nessa música que,

tocada de um modo um pouco mais

saltitante, serviria para acompanhar

um desfile de nobres vestidos à moda

daquele tempo, cada um estendia

a mão a uma dama da nobreza

e ela tocava-a apenas com as pontas

dos dedos, mantendo distância entre

ambos, andando com leveza, usando

sapatos de verniz com saltos vermeter

visto o encanto da coisa francesa

para compreender o que é charme.

Ah, como suas graças são perfeitas!

Graça, o que é aqui? Não é a graça

sobrenatural, mas como é perfeito

aquilo que Ele tem de gracioso. A

sua graciosidade é perfeita. Vejam,

portanto, que é o Menino de salão.

Ah, como é belo, como é encantador!

Como é doce esse Menino Divino!

Está descrito o Menino: Ele é belo,

encantador, doce. É o Menino-

-Deus. Realmente convém ao Menino-Deus

isso, mas é uma focalização

toda especial.

Une étable est son logement

Un peu de paille est sa couchette

Une étable est son logement

Pour un Dieu quel abaissement!

Um estábulo é seu alojamento

Um pouco de palha é seu leito

Um estábulo é seu alojamento

Para um Deus, que rebaixamento!

Partez grands rois de l’Orient

Venez vous unir à nos fêtes

Partez grands rois de l’Orient

Venez adorez cet Enfant

Parti, ó grandes reis do Oriente

Vinde unir-vos à nossa festa!

Parti, ó grandes reis do Oriente

Vinde adorar essa Criança!

A ideia subjacente é que, apesar

da palha, etc., os grandes reis virão

adorá-Lo, introduzindo uma certa

atmosfera de salão no estábulo.

O Jésus, o Roi tout puissant

Tout petit enfant que vous êtes

O Jésus, o Roi tout puissant

Régnez sur nous entièrement

Ó Jesus, ó Rei todo-poderoso

Tão pequenino que sois

O contraste é intencional: apesar

de ser uma criança tão pequenininha,

é o Rei onipotente.

Ó Jesus, ó Rei todo-poderoso

Reinai sobre nós inteiramente!

Então, é o ato de submissão do salão

ao Rei que pode tudo, apesar de

ser uma Criança tão pequena deitada

na palha.

Carência de sacralidade

12


lhos. Os nobres usavam saltos vermelhos,

era o distintivo da nobreza,

culotte e coletes de seda com botões

de matéria preciosa, paletós com veludos

inestimáveis e brocados.

Toda a música transcorre num tom

que conviria mais para um festejo de

distração da nobreza do que uma festa

propriamente de piedade. Quer dizer,

no meio de toda essa delicadeza

há uma espécie de carência de sacralidade.

E eu me recriminaria se não

acentuasse isso com toda a força necessária.

Por mais que tudo isso seja

charmant – e realmente o é – vê-se a

serpente da Revolução Francesa enroscada

aí. Uma apreciação inexorável

dessa canção levaria a isso.

A certa altura a canção toma ares

de algo que é cantado por meninos

na presença do Deus-Menino, ou

por adultos para falar com o Divino

Infante. Mas há uma nota de infância,

de inocência, mais uma vez charmante,

na qual, porém, a verdadeira

piedade católica do cantochão não

está presente.

Esse charme todo não teria podido

nascer senão de uma civilização

cristã. Mas o charme

não basta para a sacralidade.

Esse é o grande erro

presente nessa canção. Porque

o Natal é uma festa suma,

essencial e culminantemente

religiosa. O recolhimento,

a ternura, a delicadeza

e tudo quanto encontramos

no cantochão – e

mesmo no polifônico mais

próximo do cantochão – não

está presente nessa música.

Está presente o salão.

Poderia apertar mais a crítica,

mas não o faço porque

essa delicadeza toda é aristocrática

e, como tal, odiada

pelos revolucionários. Portanto,

não quero pô-la pura e

simplesmente no pelourinho

sem lhe ter manifestado muita

admiração.

Os Anjos em nossos campos

Consideremos outro cântico cuja

letra diz:

Les anges dans nos campagnes

Ont entonné l’hymne des cieux

Et l’écho de nos montagnes

Redit ce chant mélodieux

Gloria in excelsis Deo

Bergers, pour qui cette fête?

Quel est l’objet de tous ces chants?

Quel vainqueur, quelle conquête

Mérite ces chœurs triomphants?

Gloria in excelsis Deo

Ils annoncent la naissance

Du Saint Rédempteur d’Israël

Et pleins de reconnaissance

Chantants ce jour solennel

Gloria in excelsis Deo

Os Anjos em nossos campos

Entoaram um hino dos Céus

O eco de nossas montanhas

Repercute esse canto melódico

Glória a Deus nas alturas

Pastores, para quem é essa festa?

Qual é o objeto de todos esses

cantos?

Que vencedor, que conquista

Catedral Notre-Dame de Paris, França

Merecem esses coros triunfantes?

Glória a Deus nas alturas

Eles anunciam o nascimento

Do Santo Redentor de Israel

E cheios de reconhecimento

Cantam nesse dia solene

Glória a Deus nas alturas

O Natal é uma festa

sobrenatural

Essa canção é sensivelmente menos

frívola que a anterior. Ela procura,

como aquela, ressaltar a alegria e o

esplendor da noite de Natal. Em qualquer

cântico natalino esse é um elemento

indispensável. Mas essa música

busca essa alegria e esse esplendor na

participação dos Anjos. Quem compôs

a canção desviou a atenção do público,

que está ajoelhado diante do Presepe e

que deve aplaudir a canção, para o coro

dos Anjos no Céu. O esplendor é, sobretudo,

o dos Anjos, como algo feito

para glorificar o Menino.

Entretanto, essa glorificação é dada

menos pelos homens do que pelos

Anjos. Os homens procuram interpretar

e reproduzir o que os espíritos

celestes cantaram em

honra ao Menino. De maneira

que tem mais força e sacralidade

do que a canção anterior,

na qual são homens de

salão que dizem: “Ah, que

criança engraçadinha...”

Assim mesmo, a meu ver,

não tem todo aquele grau de

sacralidade e sobrenaturalidade

indispensável à música

sacra, ou mesmo à música

religiosa popular, que tem

o seu papel, mas precisa ser

mais sacral, fazer sentir mais

o sobrenatural. Aqui se sente

ainda a natureza cantada

no que ela tem de mais belo,

porém isso não esgota a

beleza do Natal. O Natal é

uma festa sobrenatural. v

(Extraído de conferência

de 4/1/1989)

Flávio Lourenço

13


De Maria nunquam satis

Os ódios

Samuel Holanda

sapienciais

do Imaculado

Coração de

Apresentação da Virgem Maria no

Templo - Museu de Dijon, França

Maria - I

Maria Santíssima é toda cristalina, feita de suavidade e de

pureza, dir-se-ia ser uma alma incapaz de odiar. Entretanto,

pelo próprio amor insondável que Ela tem a Deus, é

impossível que não odeie o que é contrário a Ele.

Nossa Senhora é a Medianeira

de todas as graças e o ponto

de referência de todos os

elogios feitos a Deus. Não podemos

conceber um louvor de Deus perfeito

que não tenha a Ela como ponto de

referência.

O caminhar do

espírito humano

O espírito humano caminha para a

cognição de proche en proche – de próximo

em próximo, mas nesse caminhar,

qual é o próximo d’Aquele que

é eterno, absoluto, perfeito, infinito,

transcendente em relação a qualquer

criatura? Deus mora, a um título muito

especial, no interior das criaturas

por Ele amadas. Então, como Ele habita

em Nossa Senhora, que é tão especialmente

objeto de seu amor?

N’Ela temos o modo de nos tornarmos

mais próximos de Deus. Embora

Ele seja inacessível, fica ao alcance

de nossa mão, porque habita em nossa

Medianeira. Sendo Ela o Palácio da

Trindade, o Paraíso do Homem-Deus,

por meio d’Ela podemos ter com Ele

aquele contato sem o qual nada somos.

Por essa razão, para exaltar qualquer

perfeição divina, até mesmo a

sagrada cólera d’Ele, não podemos

tratar disso sem falar a respeito d’Ela.

Quando um indivíduo peca

e se fixa irreversivelmente

no pecado, torna-se odioso

Como medir a cólera do Sapiencial

e Imaculado Coração de Maria? Como

podemos sequer conceber o Sapiencial

e Imaculado Coração de Maria

em cólera? Parece que as expressões

são contraditórias, antitéticas.

N’Ela não pode haver cólera, Ela é toda

cristalina, toda feita de suavidade,

de pureza. A cólera parece uma vibração

de indignação, do amor de si mesmo

contrariado, do egoísmo vilipendiado.

Como se pode conceber dis-

14


posições de alma tão baixas n’Aquela

criatura que é toda Ela elevação?

A quem e como Nossa Senhora

odiou? Costuma-se dizer que Ela

odiou o pecado. É verdade. Mas o pecado

só existe na pessoa do pecador.

Não há um pecado tomado em abstrato.

Antes de Adão e Eva pecarem, não

havia pecado, pois não havia pecadores.

Existia uma possibilidade de alguém

pecar. Então, poder-se-ia odiar

essa possibilidade, mas o ódio não teria

como objeto um ser existente. Se

Adão e Eva tivessem esse ódio ao pecado,

enquanto sendo uma eventualidade,

teriam encontrado mais recursos

de alma para não pecarem.

Maria Santíssima odeia em todos

os pecadores aquilo que é pecado e

ama os pecadores, pois ama neles a

possibilidade que, por disposição divina,

têm de se arrepender. Mas a situação

atual do pecador, enquanto

permanecendo no estado de pecado,

Ela odeia.

Como Ela odeia? Como nós podemos

imaginar os ódios do Sapiencial

e Imaculado Coração de Maria?

Tenho a impressão de que com o

pecado e com a virtude há quintessências.

Alguns pecadores, por assim

dizer, levaram tão longe o pecado

quanto uma criatura humana pode

levar a virtude. E, ao pé da letra,

pecaram tanto quanto podiam, isto

é, quanto estava na condição deles

pecarem. Sendo criaturas muito elevadas,

tiveram a possibilidade de pecar

de modo muito abominável. Diz

o ditado popular: quanto maior é a

altura, tanto maior é a queda.

Assim, houve criaturas de uma natureza

muito elevada chamadas por

Deus a emitir um reflexo magnífico

das três Pessoas Divinas. No momento

em que pecaram e se fixaram irreversivelmente

no pecado, essas criaturas

tornaram-se odiosas. Ao ser criada, e

tendo tomado conhecimento dessas

criaturas e da hediondez do pecado

por elas cometido, Nossa Senhora não

foi em relação a elas senão ódio.

Maria Santíssima toma em consideração

que o pecador forma um

todo só com o pecado, assim como

a pessoa virtuosa forma um todo

só com a virtude. É mais ou menos

como a pessoa feia e a feiura; como

também a beleza constitui um todo

com a pessoa bela. Tanto a beleza

quanto a feiura são inerentes ao ser

da pessoa.

Assim também o pecado, com a

diferença de que este é livremente

escolhido pelo pecador; e nisso a

pessoa tem exatamente a nota mais

humilhante, pois ela viu e aderiu

àquilo por sua própria vontade.

O ódio se mede pelo amor

Então, pelo próprio amor insondável

que Nossa Senhora tem

a Deus, é impossível que Ela não

odeie completamente aquele ser

ao vê-lo como sendo o contrário do

Criador. Para cada pecador a quem

a Divina Justiça selou o destino e

condenou ao Inferno, Maria Santíssima

pode dizer as palavras da Escritura:

“Eu te odiei com ódio perfeito!”

(cf. Sl 138, 22). É

um ódio ao qual não falta

nada.

Esse ódio é feito de

uma concepção retíssima

e nobilíssima de como

aquele ente deveria ser,

pois Nossa Senhora conhece

o modo único pelo

qual aquela criatura deveria

ser a imagem e semelhança

de Deus, e ama

muito aquilo. Ao ver que

aquele ser rejeitou essa

perfeição, transformando-se

voluntariamente

no contrário, Ela percebe

que ele atingiu o requinte

de sua própria maldade e

o odeia completamente,

por amor àquela mesma

perfeição que Ela contempla

em Deus.

É forçoso que, amando-se algo

muito, se odeie igualmente o contrário.

O ódio e o amor se acompanham

como a figura e a sombra.

Os pés puríssimos de

Nossa Senhora calcam

os precitos com ódio

Poderíamos imaginar Nossa Senhora

na presença de Deus e, diante

d’Ela, uma alma que será julgada. Se

for uma pessoa virtuosa, Ela a considera

com amor e diz: “Filho meu, como

te pareces comigo e com os dons

que Deus pôs em Mim! Quero oscular-te,

meu filho, dá-me tua fronte!”

De repente, aparece a alma de um

pecador empedernido, trazendo o sinal

do demônio na testa. Evidentemente,

toda aquela força de atração

se transforma em repulsa, e as palavras

de carinho tornam-se increpação:

“Eu desvio de ti minha face, tenho

horror ao semblante que apresentas,

ele causa-Me asco e indignação.

Quero calcar aos pés a deformidade

que por teu pecado assumiste,

como calco a serpente eternamente!”

Nossa Senhora cobre os dominicanos

com seu manto - Convento de

São Domingos, Lima, Peru

Gabriel K.

15


De Maria nunquam satis

Poder-se-ia pintar um quadro representando

a Santíssima Virgem

calcando aos pés cada um dos réprobos

que estão no Inferno porque, de

fato, sobre eles pesa eternamente o

ódio total e implacável d’Ela. E tendo

Ela como uma de suas glórias pisar

sobre os precitos, poderia dizer a

Deus: “Faço-Vos este ato de reparação,

meu Criador, que sois meu Pai,

meu Filho e meu Esposo! Esses miseráveis

quiseram ser o contrário

de Vós, por isso meu pé puríssimo,

elemento integrante e executivo da

mais alta criatura que vossa Sabedoria

e vosso Poder engendraram, calca-os

com ódio, e Eu entoo o cântico

de cólera e de triunfo de todos os

justos no Céu e na Terra!”

Ela teve vontade de punir

Salomão, que levou à

perdição o povo eleito

Dos múltiplos exemplos que se poderiam

apresentar, não há nenhum

que me cause tanto arrepio quanto

Salomão, o filho bem-amado, o

rei que recebeu de Davi a coroa e a

missão. Davi deixou prontos os materiais

e os planos para a construção do

Templo, mas foi Salomão quem teve

a glória de construí-lo. Salomão, que

é o autor do Livro da Sabedoria, entretanto

prostituiu-se a ponto de adorar

ídolos, transformar-se num devasso

e morrer na libertinagem e na

apostasia. Como era possível que

uma alma de tal maneira decaísse daquele

pináculo? Esse homem, que escreveu

as palavras ditadas pelo Espírito

Santo para serem comunicadas à

humanidade, de repente transforma-

-se nesse vaso de abominação!

Ao ler no Livro da Sabedoria a narração

da construção e inauguração do

Templo, de que amor a alma santíssima

de Maria deveria se sentir cheia! Era

um perfeito reflexo do amor de Deus e

quanta glória deveria dar a Ele!

Contudo, ao considerar a narrativa

da queda de Salomão, como poderia

não sentir um ódio tão grande

quanto o amor por Salomão na sua

justiça? Como não sentir náusea, asco,

repulsa, vontade de rejeitar e de

punir aquele que de tal maneira se

tornou inimigo de Deus, levando à

perdição o próprio povo eleito?!

Horror implacável a

toda forma de pecado

Sabe-se que houve Santos que,

ouvindo os penitentes em Confissão,

sentiam o mau odor dos pecados cometidos

por aquelas almas.

Quando o mau odor resulta simplesmente

da negligência da pessoa

no trato do próprio corpo, causa uma

particular repulsa. Ninguém tem culpa

pelo mau cheiro do corpo provocado

por alguma doença, mas ser negligente

e não ter horror ao mau odor

de si mesmo já é uma forma de conivência

que contagia de algum modo a

alma com aquele mau odor físico.

Por exemplo, uma pessoa que por

negligência nunca escove os dentes e

tenha, por isso, um hálito abjeto. Ela

sabe que, se escovasse os dentes, o

mau hálito cessaria, mas não os escova

porque não tem horror ao mau

gosto e ao mau odor de sua boca. Somos

levados a pensar que essa alma

tem conaturalidade com certos defeitos

morais, e ficamos com horror

ao corpo que leva a um horror à alma,

enquanto esta não tem aversão

àquilo que para o corpo é horrível.

Ora, o pecador que poderia e deveria

eliminar o seu pecado, mas se

deixa ficar nesse estado, tem incomparavelmente

mais culpa e é mais

aderente ao mau cheiro de sua alma

do que ao mau hálito de sua boca.

Imaginem Nossa Senhora sentindo

o mau odor da alma de Salomão,

por exemplo, que Ela, a posteriori,

terá conhecido por completo. Salomão,

cujas palavras deveriam ter o

perfume do incenso ao ser queimado,

o aroma dos frutos quando chegam

à maturidade, após sua prevaricação

ficou com o cheiro abjeto de

todas as putrefações.

Se isso é assim, podemos compreender,

então, o implacável horror de

Nossa Senhora a toda forma de pecado.

Maria Santíssima conhece

até mesmo o que é oculto

Assim também a Santíssima Virgem,

a Quem nada era oculto, conhecia

perfeitamente a abjeção a

que tinha caído sua nação no tempo

em que Ela nasceu. Ela sabia que

o Messias estava por nascer naquela

ocasião, mas via a que auge de

degradação chegara o povo judeu.

Nossa Senhora não podia deixar de

ter, com muito mais lucidez do que

o profeta, aquela visão de Ezequiel

quando foi conduzido para dentro

do Templo e viu em seus recintos

ocultos os sacerdotes praticando

idolatria, porém diante do povo fingiam

adorar o Deus verdadeiro.

Ora, Maria Santíssima sabia que

a classe sacerdotal se preparava para

cair no abismo do deicídio, e seria a

promotora mais ativa de todas as calúnias

contra Nosso Senhor. O Sinédrio

era propriamente a força deicida

dentro de Israel.

Devemos imaginar a Virgem Maria

menina entrando para o serviço

do Templo, aos três anos de idade,

e presenciando esta realidade bivalente:

a casa de Deus, onde a glória

d’Ele habita, os justos vão rezar, seu

Divino Filho iria ensinar, ou seja, todo

o Templo era uma espera ansiosa

do Messias que deveria vir; e, ao

mesmo tempo, Ela via, ao lado do

culto verdadeiro, o culto secreto, disfarçado,

abominável, e a prevaricação

de toda a classe sacerdotal.

Alguém objetará:

— Mas Ela só tinha três anos!

Eu respondo:

— Ela era Nossa Senhora...

Não tem outra resposta a dar. Ela

já conhecia tudo.

16


Flávio Lourenço

Com que enlevo Ela penetrou na

casa de Deus! Qual não terá sido o

cântico dos Anjos ao verem se aproximar

Aquela de Quem nasceria o

Salvador e que era a nova Arca da

Aliança, da qual a arca guardada no

Templo, com tanto respeito, era apenas

uma prefiguração!

Reação das almas diante

de Nossa Senhora menina

Podemos imaginar uma ou outra

alma boa que havia por ali, quiçá

a Profetisa Ana, o Profeta Simeão,

e que, por premunições misteriosas,

observando aquela criança diriam:

“Que grande chamado tem essa menina!”

Vendo-A passar no cortejo das

outras meninas educadas para o serviço

do Templo, talvez percebessem

ser uma intercessora incomparável

São Joaquim e Santa Ana - Museu

de Arte Sacra, Évora, Portugal

junto a Deus, e a Ela se dirigiam implorando

os favores celestes. E a futura

Mãe de Deus, por uma dessas correspondências

internas da alma, dava

a entender: “Eu tenho consonância

contigo, tu és um comigo.” E aquela

alma se banhava de alegria!

Provavelmente alguns faziam sua

vida girar em torno d’Ela. Sabendo

nas várias ocasiões do dia onde Nossa

Senhora estava, olhavam para um

quarto, por exemplo, para ver se Ela

apareceria na janela; ou verificavam

de que recinto a Menina saíra para

poderem entrar lá logo depois, e por

esta forma viver em Maria, com Maria

e por Maria, que era uma forma

antecipada de viver em Cristo, com

Cristo e por Cristo.

Assim, deveria haver em torno

da Santíssima Virgem almas fervorosas

às quais Ela impulsionava ainda

mais para o bem, elevando-as

a um píncaro de santidade

para elas inimaginável.

Outras que eram boas,

mas postas na mediocridade,

a quem Ela convidava

a um voo possante rumo

à perfeição que deveriam ter

atingido, mas não atingiram.

A cada uma dessas a presença

d’Ela dizia: “Ou tu Me

amas, ou te atolas. Tua hora

chegou! Vem, minha filha!”

Por fim, havia também os

filhos de satanás, abominando

qualquer forma de verdade,

de bem ou de beleza,

e que, ao sentir a presença

d’Ela, dentro deles o demônio

grunhia, encobria-se,

efervescia, tinha medo, sentia

a necessidade de abandonar

a presa e sair fugindo,

mas armava a alma daqueles

malditos contra Ela.

Teve ódio e foi odiada

Se um bom católico no

mundo de hoje divide, como

não supor que Nossa Senhora

não dividisse? Não podia deixar de

haver no Templo, além dos amigos da

Virgem, os inimigos que desviassem

d’Ela o olhar, sentissem mal-estar perto

d’Ela, A odiassem, tentassem eventualmente

caluniá-La ou difamá-La,

procurassem de todos os modos ser-

-Lhe nocivos, invocassem demônios para

tentá-La, prová-La, recusassem-Lhe

alimentos, enfim, A sabotassem de todos

os modos. Salvo por uma disposição

especial da Providência, isso deve

ter sido assim. E tanto as almas que

eram a favor d’Ela quanto as contrárias

acabavam se articulando. Portanto,

Nossa Senhora, no Templo, fez a Contra-Revolução

oposta à Revolução que

se preparava contra o Filho d’Ela.

Estas são hipóteses que se constelam

em torno da Santíssima Virgem

Maria e nos fazem entender o que

foi a vida d’Ela, o papel que o ódio

representou em sua vida desde a primeira

infância.

Levo minha suposição mais longe:

creio que Nossa Senhora, quando

estava no claustro maternal de

Santa Ana, já causava mal-estar nos

que eram de satanás. O demônio, a

partir do momento em que Maria

Santíssima foi concebida, começou

a perseguir Santa Ana de um modo

especial, surgiram antipatias, ódios,

como também venerações e simpatias,

antes mesmo de se perceber

que ela concebera uma criança. De

tal maneira Nossa Senhora é o contrário

do demônio, que ele tinha que

sentir a irradiação da pessoa d’Ela,

instigando contra Ela o ódio daqueles

em quem ele habitava. Não é possível

que não fosse assim.

Vemos, portanto, que, desde o

primeiro instante de seu ser, Ela teve

ódio e foi odiada. Essa compressão

e descompressão do ódio e do amor

representaram a própria trama da

existência d’Ela.

v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de

5/7/1980)

17


Reflexões teológicas

Arquivo Revista / Marius Kallhardt (CC3.0)

Natal dos guerreiros

de Maria

Diante do presepe, devemos

contemplar o Menino Jesus como

um guerreiro que entra na liça para

começar a guerra. Neste momento em

que o combate se anuncia mais trágico

e, portanto, mais admirável do que

nunca, precisamos dar toda forma de

devotamento de nossas almas, desde

as mais extremas prudências, as

esperas mais terríveis, até os avanços

mais inopinados e fulminantes. Nossa

combatividade está a serviço da Santa

Igreja Católica Apostólica Romana.

mos perto da festa de Natal e eu tinha

a cômoda possibilidade de dar

um telefonema a ela, explicando que

passaria o Natal ali. Tenho certeza

de que ela me aconselharia ficar lá,

que seria muito agradável, interessante,

eu poderia me distrair bastante,

ver coisas muito bonitas.

Mas, a ideia de ela passando o Natal

sozinha em São Paulo era uma

coisa que me produzia uma tristeza a

que nenhuma alegria de Paris se podia

comparar. E quanto mais ela insistisse

para eu ficar lá, tanto mais

quereria voltar, e depois da última insistência

eu desligaria o telefone, iria

para a Air France e compraria a pas-

Hoje de manhã fui ao Cemitério

da Consolação. Por

certo, a festa de Natal não

seria para mim completa sem algo

que me lembrasse, o mais possível, a

presença de mamãe. Por isso, visitei

o lugar que para mim se tornou “sagrado”,

onde os seus restos repousam

à espera do dia da ressurreição.

Fragrância do perfume

de Dona Lucilia quando

estava na Terra

Eu nunca conceberia um Natal

sem ela. Lembro-me de um ano em

que me encontrava em Paris. Estáva-

sagem. Evidentemente, era natural,

já antes mesmo de falar com ela me

aprestei, comprei a passagem e estava

em São Paulo na véspera de Natal.

O que poderia ser o Natal passado

em Paris: Missa em Notre-Dame, uma

visita à Sainte-Chapelle, Rue du Bac,

Notre-Dame-des-Victoires, e depois

ver Paris que naquele tempo ainda era

uma cidade de elegância, de distinção

e de gala; contemplar algo disso que

ainda reluzia sobre esse grande foco

de toda espécie de luzes – algumas boas

– que foi a cidade de Paris.

Entretanto, eu pensava: é uma

coisa incrível, mas ela para mim vale

incomparavelmente mais do que is-

18


so, de maneira que, no íntimo de minha

alma, não tive a mínima vacilação,

a mínima hesitação. Eu estava

determinado a vir e vim mesmo!

Hoje em dia, com a evolução que

as coisas tomaram, mamãe já está no

Céu. Mas ela foi recrutando lentamente,

em torno de mim, aqueles que

haveriam de trazer-me o odor da presença

dela, que o desvelo dela reuniu

em torno de mim, e que, assim reunidos,

constituem a fragrância do perfume

dela quando estava aqui na Terra.

Ela deixou-me numa aparente solidão,

mas fez um tecido de afetos em

torno dela e de mim com que nunca

contei na minha vida. E ela constituiu

em torno de mim aquilo que melhor

poderia ser como que uma luz lunar,

depois de esplêndido dia que foi a presença

dela. Esse longo, argênteo e querido

luar eu espero que me acompanhe

até os últimos dias de minha existência.

O maior combate

travado por meras

criaturas na História

De um modo ou de outro isso tem

estado contido nas palavras de afeto

que vós me tributais com uma fre -

quên cia toda “luciliana”, mas hoje

isso foi vincado de um modo especial

1 : é o caráter combativo de minha

alma, como sendo o traço dominante

da forma de perfeição para a

qual Nossa Senhora – misericordiosa,

mas insistentemente – me chama.

Levar o combate ao extremo limite

onde deve ser levado. Não só combater

com toda a força, mas ter a força para

combater de todos os modos necessários,

de maneira que não haja uma forma

de combatividade, ainda que seja

a grande, soturna e terrível combatividade

das retiradas estratégicas, em que

não me tenha sido dado combater até o

último hausto de minha alma!

Isto, vincado nesta ocasião, vem

num momento em que o combate se

anuncia mais trágico e, portanto, mais

admirável do que nunca. Um combate

tal que, se ele fosse afastado de nossos

passos, poderíamos nos sentir frustrados,

de tal maneira precisamos crescer

até as dimensões dele, e ele, por sua

vez, de tal modo deve crescer que seja o

maior combate travado por meras criaturas

na História, desde que há mundo.

Um combate em que os combatentes

se lembram da luta dos Anjos contra

os demônios e pensam, reverentes,

no combate que Elias e Henoc vão travar

no fim do mundo contra o Anticristo.

É alguma coisa desse porte.

Nós temos a impressão de que as

nuvens estão se acumulando, se adensando;

ouvem-se o rugir de feras e o

silvar de serpentes em um quadro aparentemente

ainda intacto e pacífico,

deste pacífico discutível de uma fortaleza

que pode ser atacada a qualquer

momento e, por isso, tem combatentes

postados em todas as ameias, em toda

a muralha e no alto de todas as torres.

Estes são os dias pacíficos que temos

diante de nós. Se isto é paz, vós bem

podeis medir o que será o combate!

Um varão luminoso,

cheio de reverência e de

patriarcal dignidade

Neste combate nós devemos dar

toda forma de devotamento de nossas

almas, desde as mais extremas

prudências, as esperas mais terríveis,

até os avanços mais inopinados

e fulminantes, em que ora tenhamos

as prudências que mesmo os nossos

considerem as mais desconcertantes,

ora as ousadias que os deixem boquiabertos.

Assim é a combatividade

a serviço da Sabedoria; assim é a Sabedoria

a serviço da Santa Fé Católica

Apostólica Romana.

Isto se diz num dia tão inadequado,

o Natal, em que a Cristandade

olha para o que lhe apresenta a Santa

Igreja, ou seja, o Menino Jesus,

tão pacífico, o Príncipe da Paz que

veio trazer a paz a esta Terra e que,

de braços abertos, sorri para a humanidade

que começa a chegar junto a

Ele. E que, nesse momento, recebe

o sorriso do que a humanidade tem

de mais magnífico: o sorriso cheio de

uma pureza e de uma luminosidade

indizíveis de Nossa Senhora. E, logo

depois, junto a Ela, um varão que de

algum modo teve proporção para ser

esposo d’Ela, para ser o pai legal do

Menino Jesus.

Uma vez que entre esposo e esposa

precisa haver uma certa proporção,

qual deve ser a estatura de

um homem para ter certa proporção

com Aquela que causa surpresa aos

Dr. Plinio visita a sepultura de Dona Lucilia em 1984

Arquivo Revista

19


Reflexões teológicas

Gabriel K.

próprios Anjos pela sua perfeição,

de quem espíritos celestiais, olhando-A,

perguntam cantando: “Quem

é esta que avança?!”?

Também nós, olhando para um

varão luminoso, cheio de reverência

e de patriarcal dignidade, que A toma

pela mão e A acompanha, perguntamos:

Quem é este que avança

junto Àquela a quem os próprios

Anjos cantam?!

Acentua-se tanto, e com razão,

tudo quanto há de belo e de poético

nos bois que chegam junto ao Menino

Jesus, e o contraste enorme entre

Deus-Menino e aquelas criaturas irracionais

que, com seu bafo, enchem

o ambiente e aquecem seu Criador.

A luz, o perfume, o calor

da presença de Maria

Porém, antes disso houve o perfume

de todos os perfumes, a beleza

de todas as belezas: a luz dos olhos,

o perfume do hálito, o calor da presença

de Maria. E junto a Ela houve

Sagrada Família - Lima, Peru

a discreta, varonil e patriarcal presença

de São José. Que mais dizer?

Dir-se-ia que essas recordações

de guerra junto a essa cena que evoca

a paz mostram uma contradição

fenomenal. Mas é só porque esse

quadro tem sido contemplado, com

certa insistência, pelos homens que

não admiram a guerra e não sabem

ver dentro do próprio passo que o

Menino Jesus inicia, vindo ao mundo,

a grande guerra d’Ele.

Em geral, o Menino Jesus é apresentado

no presepe sorrindo e de

braços abertos, os quais não significam

só a abertura do amor d’Ele para

os homens, em todos os tempos e

todos os lugares. Sem dúvida, exprimem

isto e com toda a propriedade,

mas significam também a Cruz. Ele

está com os braços abertos em cruz.

E um dos aspectos que torna bonita

a devoção de rezar com os braços

abertos em cruz é pensar que o

Menino Jesus, na manjedoura, provavelmente

abriu os seus braços em

cruz. Logo depois de concebido, Ele

começou a rezar imediatamente para

o Padre Eterno. Saído do claustro

augusto de Maria e vindo à luz

do dia, Ele entrou na Terra e imediatamente

ofereceu ao Padre Eterno a

grande luta que ia iniciar.

Batalhador divino, mas pequenino,

um Deus infinito, porém encarnado

numa Criança que quis ficar

na dependência de tudo e de todos,

sendo o Criador onipotente do Céu

e da Terra e de todas as coisas visíveis

e invisíveis!

Jesus vem à Terra para salvar a nação

eleita e, com ela, também a humanidade

inteira. A nação eleita deveria

ser um instrumento para Ele salvar a

humanidade. Mas Ele sabe que sobre

essa nação conseguirá o resultado o

qual conhecemos, e que a humanidade

O seguirá incompletamente.

Entretanto, Ele vem à Terra e, contrariando

as forças opostas do demônio,

do mundo e da carne, diz: “Esse

resultado apenas parcial de uma

obra que seria natural que tivesse o

seu resultado completo Eu arranco

do demônio e imponho. Realizo minha

glória com aquilo que resolvi arrancar.

Sei que não conseguirei tudo,

embora poderia conseguir desde que

Eu quisesse. Sei que santa e sapiencialmente

não o devo querer e, por

razões arcanas, não quero. Permitirei

que o demônio Me arranque uma

parte daquilo que Eu comprar por

um preço infinitamente precioso. Porém,

em revide, triunfarei com a parte

que Eu não lhe permitirei tomar.”

Assim, como um guerreiro que

entra na liça para começar a guerra,

ali está o Menino Jesus no presepe!

Reis dos reis, Senhor

dos senhores

Mais ainda. Haveria algo de mais

normal do que Ele, como Menino,

pelos lugares onde passasse já começasse

a deslumbrar todo mundo,

a operar milagres, pregar, ensinar o

gênero humano?

Luis Samuel

20


Entretanto, houve esta primeira

coisa desconcertante: trinta anos de

mutismo! Trinta anos de vida privada,

de uma existência oculta com Nossa

Senhora e São José, em Nazaré.

Imaginem se vivêssemos naquele tempo

e soubéssemos que o Menino Jesus

veio. Ficaríamos alegríssimos e já faríamos

planos para o dia seguinte! Contudo,

quiçá Nossa Senhora nos olhasse

com pena, mas enigmaticamente,

e nos dissesse com aquela suavidade

e majestade d’Ela: “Não! Vós tereis,

meus filhos, que esperar trinta anos!”

Houve almas que tiveram luzes

proféticas sobre a vinda do Messias

esperado. Essas almas, pelo próprio

zelo da salvação, por amor a Ele, deveriam

esperar que, tendo chegado o

Salvador, começasse imediatamente

a obra de conquista d’Ele. Não! Trinta

anos de silêncio. É desconcertante!

Será que Simeão e a Profetisa Ana

souberam disso? O que terão pensado

sobre isso as almas cujos corações

palpitavam à espera do Salvador e

que, naquela noite bendita, sentiram

que a salvação tinha chegado? Muitas

dessas pessoas talvez esperassem ver

a glória e a vitória d’Ele, e foram convidadas

a morrer em paz, sem compreender

o que tinha se passado. É

terrível, mas Ele começava por levar

ao último ponto da santidade, pelos

mistérios da espera e da confiança

n’Ele, aqueles que O tinham esperado.

Assim, a luta se iniciava dentro de

casa com aqueles que eram d’Ele, para

que fossem mais d’Ele.

São José morreu sem ter visto a

glória do Filho de Deus irradiar-se

sobre Israel! Entretanto, morreu em

paz. Ele é o padroeiro da boa morte.

Com toda a certeza, faleceu assistido

pelo Menino Jesus e por Nossa Senhora.

Não se pode morrer melhor, é

o arquétipo da boa morte! Será que

São José não se perguntava, às vezes:

“Mas o Rex regum, Dominus dominantium

é esse Menino, entretanto

divino, que vejo brincar com outras

crianças, não atrai ninguém? Passou

mais um dia e o milagre não se deu.

Ou, pior ainda, Ele fez milagres e não

se importaram. O que vai acontecer?

Não sei. Eu sei que o Verbo Se fez

carne e habitou entre nós! Mais um

mistério na minha vida. Adoro o mistério

e caminho para as sombras da

morte, e depois para o Limbo, feliz

porque meus olhos, antes de se fecharem,

viram o Esperado das nações! E

porque as orações d’Aquela que o Divino

Espírito Santo quis me dar por

Esposa não me deixarão um só momento,

vou avançar confiante!”

E assim como o Menino Jesus

causou uma angústia a Nossa Senhora

e a São José por ocasião de uma

peregrinação a Jerusalém, onde Ele

se separou da Sagrada Família, que

depois O encontraram no Templo,

será que Ele não terá querido causar

a São José santas perplexidades por

todos aqueles que haveriam de custar

a compreender as santas demoras

daquilo que é verdadeiramente

grande? Pode-se compreender.

E São José não terá travado ali o

último combate de sua vida? São hipóteses,

mas quão possíveis, verossímeis;

portanto, quanto devemos contar

com elas para ilustrar um pouco

a nossa inteligência a respeito de aspectos

da vida da Sagrada Família!

Nosso Senhor acrisola os

que são d’Ele, travando um

combate dentro de cada um

Nosso Senhor Jesus Cristo entra

na vida pública. Afinal, glória!

O povo aflui para junto d’Ele, alegria!

As almas que queriam presenciar

o triunfo do Rei dos reis e Senhor

dos senhores dizem: “Chegou!”

Os Apóstolos disseram: “Chegou!”

Fato mais extraordinário ainda: a parentela

começa a aderir.

Entretanto, no momento em que,

contemplando o primeiro ano da vida

pública e esfregando as mãos, se

diria: “Como será o segundo ano?

Como será o terceiro? Eu já vou

me preparar para participar desses

triunfos! Oh, coisa magnífica!”, tenebræ

factæ sunt – fazem-se trevas. A

luz do Sol começa a deixar aparecer

lacunas, um véu se põe diante dos

olhos, perplexidades...

Jesus tomou uma beleza de ocaso

a se somar à de meio-dia. Na rejeição,

no isolamento, no desafio,

na ameaça, Ele vai mudando de colorido,

de esplendor. Porém, dir-se-

-ia que Nosso Senhor abandonou a

própria causa pela qual Ele tanto luta.

Está fazendo tudo para que essa

causa ganhe, mas por um ato de sua

vontade onipotente poderia mandar

que as coisas corressem de outra

maneira. Não. Ele se esforça, faz

milagres, mas não impõe aos ímpios

que se curvem diante do Milagre que

eles não reconhecem.

Então, Ele terá abandonado a Si

próprio? Alguém poderia pôr-se o

problema: “Eu, que estava com meu

entusiasmo levado ao último ponto

por Ele, passarei por esse último

desconcerto de ter a impressão de

que Ele não defende a Si mesmo?

Profeta Simeão e Profetisa Ana - Igreja Nossa

Senhora da Glória, Juiz de Fora, Brasil

21


Reflexões teológicas

Gabriel K.

los estavam torcendo

e dizendo: “Ele mata

Judas a qualquer

momento. Por um ato

da vontade d’Ele, um

Anjo elimina o traidor.

Desce fogo do

céu e o liquida. Daqui

a pouco chega alguém

nos contando que Judas

foi estraçalhado

por um raio, e nós nos

levantamos alegres,

fazemos uma procissão

e uma festa.”

Mas concluem:

“Não... não tem a

menor esperança. O

Mestre não vai fazer

isso. Ele previu a entrega

e está suando

sangue de medo disso.

Cambaleia e nos

pede que vamos para

junto d’Ele a fim de O

consolar! Se é de nós que Ele depende,

oh! está tudo perdido.”

Evidentemente, são hipóteses.

Mas, quando pensamos nelas, parecem

estar presentes num drama moral

que se entrevê.

Nosso Senhor não cede e leva a

conduta d’Ele até o fim. Deixa-Se

entregar. E quando São Pedro corta

a orelha de Malco, Ele ainda cura a

orelha do soldado e manda São Pedro

pôr a espada na bainha!

Não se percebe que Jesus está

acrisolando os d’Ele e travando um

combate dentro de cada um. Esse

era um dos muitos aspectos da batalha

que não acabaria mais.

Vencendo nossa batalha

interna, Nossa Senhora

nos dará a vitória externa

Ele redime o gênero humano,

ressuscita dos mortos, sobe aos

Céus e a Igreja começa uma guerra

onde passa por dramas tão pungentes

que, em determinados mo-

São Luís socorre vítimas da peste em

Túnis, durante sua última Cruzada

Catedral de La Rochelle, França

E a minha esperança na vitória, onde

ficou?”

Nosso Senhor Jesus Cristo estava

travando o tempo inteiro, dentro

do coração de cada Apóstolo, de

cada justo, essa batalha de acrisolar

os bons para que passassem por essas

provações e fossem fiéis ao longo

delas.

Podemos imaginar, a título de hipótese,

quais eram as reflexões dos

Apóstolos no Horto das Oliveiras.

Suponhamos que, em função do

que Nosso Senhor dissera na Santa

Ceia, alguns dentre eles tivessem

chegado a deduzir que Judas era o

traidor. Ora, eles tinham visto o Divino

Mestre dar provas de afeto a

Judas e, quiçá, algum deles pensou:

“Quando Judas roubava, o Mestre

deveria tê-lo expulsado. Deixou aqui

esse homem, deu no que eu previa!

Mas Ele agora podia atalhar. Por

que não manda um Anjo matar Judas?

Ele que tem o poder tão divino

de ressuscitar, não poderia matar?”

Quem sabe se, no primeiro período

em que Jesus suava sangue

no Horto das Oliveiras, os Apóstomentos,

ela mesma nos dá uma impressão

parecida com essa. E é pedida

de nós uma prova semelhante

àquela. É o Divino Mestre que,

mais uma vez, nos diz: “Estejais

prontos e vigiai! Vigiai e orai para

não cairdes em tentação, porque todas

as formas de heroísmo – desde

presenciar os últimos desconsolos

e permanecer de pé, até participar

dos maiores triunfos e ficar desapegado

–, tudo isso vos será exigido no

vosso campo de batalha interno, para

que, por vosso intermédio, a Providência

vença a humanidade.”

Muita gente considera como um

dos elementos dos castigos previstos

por Nossa Senhora em Fátima o desencadear

de uma guerra conforme

as leis humanas e divinas. E é verdade.

Mas não se toma em consideração

que, simultaneamente, há uma

guerra interna, e não é a hora de tirarmos

férias dessa luta interior da

nossa fricção com o mundo, mas é o

momento de levar esse combate até

o último ponto.

Flávio Lourenço

22

Traição de Judas - Capela dos

Scrovegni, Pádua, Itália


Portanto, desde já, devemos rezar

para pedir a fortaleza necessária

para sermos combativos o tempo inteiro,

pois isso é necessário a fim de

que todo o resto da gesta e da epopeia

se realize.

Por que as Cruzadas não venceram?

As armaduras eram muito boas,

os transportes marítimos, segundo

as condições do tempo, também

eram bons, a capacidade de combater

era grande, o espírito cavalheiresco

era admirável. Faltou interiormente

o que era necessário para ganhar.

A Cruzada da Reconquista espanhola

e portuguesa levou novecentos

anos – quando poderia ter durado

muito menos –, por causa de desfalecimentos

entre momentos de integridade

e de moleza. Se esses momentos

não tivessem existido, quanta

coisa teria acontecido diferente,

mais magnífica e conforme a glória

de Nossa Senhora! Para dizer tudo

numa palavra só, se a Cruzada hispano-lusa

tivesse sido feita num só lance,

não pararia nas orlas do Atlântico,

mas o teria transposto e entrado

com vitória na África. Assim, a

presença maometana no Mediterrâneo

teria sido diferente e, com isso,

a História da Europa seria outra.

Quando a América fosse descoberta,

o Mediterrâneo seria um mar inteiramente

cristão.

Devemos procurar fazer para Nossa

Senhora nessa Cruzada que vem o

que busquei realizar com mamãe. Eu

pensei: “Como são poucos os filhos

que amam inteiramente suas mães!

Eu vou realizar essa obra-prima interior

de querê-la e de ser tão bom com

ela quanto ela é comigo.”

Com Nossa Senhora não se pode

fazer propriamente assim. Quem pode

ser bom para Ela como Ela é para

nós?! Mas se formos os guerreiros

em favor d’Ela como Ela Se desvela

e luta por nós; se travarmos nossa

batalha dentro de nós para amá-

-La com um amor que tenha a proporção

adequada para o amor desproporcionado

que Ela nos tem, aí

nós teremos a mais gloriosa das Cruzadas,

em linha reta, atravessando

os pantanais das demoras, dos inesperados,

das ciladas, das defecções e

caindo, em linha reta, no chão firme

do campo de batalha, sobre o adversário,

e prostrando-o por terra.

Vençamos nossa batalha interna

e a Santíssima Virgem nos dará a vitória

externa. Essa é a meditação de

Natal dos guerreiros de Maria! Peçamos

ao Divino Menino Jesus, por

meio d’Ela e de São José, as graças

necessárias para correspondermos a

esse ideal.

v

(Extraído de conferência de

25/12/1982)

1) Dr. Plinio se refere às palavras de

saudação a ele dirigidas por jovens

discípulos, nas quais propunham o tema

a ser tratado.

Virgem do Rosário de Lepanto - Igreja de São

Domingos, Granada, Espanha

Flávio Lourenço

23


Gabriel K.

C

alendário

São Dionísio

1. I Domingo do Advento.

Beata Maria Clara do Menino Jesus,

virgem (†1899). Desejosa de

evangelizar, fundou a Congregação

das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada

Conceição, em Lisboa, Portugal.

2. São Silvério, Papa e mártir

(†537). Por não querer restabelecer

o bispo herético Antimo na sede

de Constantinopla, foi enviado pela

Imperatriz Teodora para a ilha de Palmarola,

Itália, onde veio a falecer. Ver

página 2.

3. São Francisco Xavier, presbítero

(†1552).

4. São João Damasceno, presbítero

e Doutor da Igreja (†c. 749).

São Bernardo de Parma, bispo

(†1133). Como monge, procurou a

perfeição de vida; como Cardeal, o

bem da Igreja; e como Bispo, a salvação

das almas de sua diocese de Parma,

Itália.

dos Santos – ––––––

5. Beato Nicolau Steensen, bispo

(†1683). Polímata, médico e anatomista

dinamarquês de origem luterana,

converteu-se ao catolicismo. Morreu

em Schwerin, Alemanha, sendo Vigário

Apostólico para o norte da Europa.

6. São Nicolau, bispo (†s. IV).

São José Nguyen Duy Khang, mártir

(†1861). Catequista capturado na

perseguição do imperador Tu Duc.

Foi flagelado, encarcerado e degolado

em Hai Duong, Vietnã.

7. Santo Ambrósio, bispo e Doutor

da Igreja (†397).

Santa Maria Josefa Rosello, virgem

(†1880). Fundadora do Instituto

das Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia,

em Savona, Itália.

8. Imaculada Conceição da Bem-

-Aventurada Virgem Maria.

São Teobaldo de Marliaco, abade

(†1247). Abade do Mosteiro Cisterciense

de Vaux-de-Cernay, França, alcançou

a fama de santidade ainda em

vida.

9. São João Diego Cuauhtlatoatzin

(†1548).

São Pedro Fourier, presbítero

(†1640). Escolheu para exercer seu

ministério, a paupérrima paróquia de

Mattaincourt, França, e fundou o Instituto

das Cônegas Regulares de Nossa

Senhora.

10. Beato Marco Antônio Durando,

presbítero (†1880). Religioso da Congregação

das Missões e fundador da

Congregação das Irmãs de Jesus Nazareno,

em Turim, Itália.

11. São Dâmaso I, Papa (†384).

São Daniel Estilita, presbítero

(†493). Após viver em um mosteiro,

seguiu o exemplo de São Simeão

e permaneceu durante 33 anos no alto

de uma coluna até sua morte, em

Constantinopla, Turquia.

Gabriel K.

12. Nossa Senhora de Guadalupe,

padroeira da América Latina.

Beato Bartolo Buonpedoni, presbítero

(†1300). Atingido pelo mal de

Hansen aos 60 anos, retirou-se a um

leprosário em Cellole, Itália, onde deu

assistência aos doentes ali encerrados.

13. Santa Luzia, virgem e mártir

(†c. 304/305).

Beata Maria Madalena da Paixão,

virgem (†1921). Fundadora da Congregação

das Irmãs Compassionistas

Servas de Maria, em Castellammare

di Stabia, Itália.

14. São João da Cruz, presbítero e

Doutor da Igreja (†1591).

15. III Domingo do Advento.

Santa Virgínia Centurione Bracelli,

viúva (†1651). Dedicando-se ao serviço

de Deus, socorreu os pobres, ajudou as

igrejas rurais e fundou e dirigiu a Obra

das Irmãs de Nossa Senhora do Refúgio

do Monte Calvário, em Gênova, Itália.

São Pedro Fourier

24


–––––––––––––– * Dezembro * ––––

Divulgação (CC3.0)

16. Santo Everardo, confessor

(†867). Duque de Friuli e importante

figura do Sacro Império, fundou

o mosteiro de Cônegos Regulares de

São Calixto em Cysoing, França, onde

foi sepultado após sua morte.

17. Beata Matilde do Sagrado Coração

de Jesus, virgem (†1902). Vendo

a imagem de Cristo no próximo,

fundou a Congregação das Filhas de

Maria, Mãe da Igreja em Don Benito,

Espanha.

restabelecendo nele a observância e

prática do louvor divino.

21. São Pedro Canísio, presbítero

e Doutor da Igreja (†1597).

22. IV Domingo do Advento.

Santo Isquirião, mártir (†c. 250).

Apesar dos opróbrios e injúrias, recusou

sacrificar aos ídolos e morreu no

Egito, atravessado com uma estaca

pontiaguda.

23. São João Câncio, presbítero

(†1473).

Santo Ivo, bispo (†1116). Restabeleceu

a ordem entre os cônegos, e

muito agiu e escreveu a fim de promover

a concórdia entre o clero e os

poderes civis, para bem da Igreja, em

Chartres, França.

Francesco Bartolozzi (CC3.0)

Beato Gregório Khomysyn

18. São Graciano de Tours, bispo

(†s. III). Primeiro Bispo de Tours,

França, que segundo a tradição, foi

enviado de Roma a esta cidade, onde

se encontra sepultado.

19. Beatas Maria Eva da Providência

e Maria Marta de Jesus, virgens

e mártires (†1942). Religiosas da

Congregação das Irmãs da Imaculada

Conceição, que durante a guerra na

Polônia, foram fuziladas em Slonim.

20. São Domingos de Silos, abade

(†1073). Após ter sido eremita, restaurou

o mosteiro de Silos, Espanha,

que se encontrava quase em ruínas,

24. Santa Irmina, abadessa

(†c. 710). Após ficar viúva, consagrou-se

a Deus e tornou-se benfeitora

de São Wilibrordo. Fundou e dirigiu o

mosteiro de Öhren, Alemanha.

25. Natal de Nosso Senhor Jesus

Cristo.

Beato Miguel Nakashima, religioso

e mártir (†1628). Catequista jesuíta,

que por sua fé em Cristo, foi mergulhado

em água fervente, em Unzen,

Japão.

26. Santo Estêvão, diácono e protomártir.

São Dionísio, Papa (†268). Depois

da perseguição do imperador Valeriano,

consolou com suas cartas e sua

presença os irmãos aflitos, resgatou

os cativos dos suplícios e ensinou aos

ignorantes os fundamentos da Fé.

27. São João, Apóstolo e Evangelista.

Ver página 26.

Beato Francisco Spoto, presbítero

(†1964). Sacerdote da Congregação

dos Missionários Servos dos Pobres,

assassinado por guerrilheiros

São João Damasceno

Simba quando era missionário em Biringi,

Congo.

28. Santos Inocentes, mártires.

Beato Gregório Khomysyn, bispo

e mártir (†1945). Bispo de Ivano-

-Frankivsk, que no tempo de perseguição

foi martirizado em Kiev, Ucrânia.

29. Sagrada Família.

São Tomás Becket, bispo e mártir

(†1170).

São Gerardo Cagnoli, religioso

(†1342). Franciscano dotado de dons

taumatúrgicos, que manifestou curando

os enfermos, em Palermo, Itália.

30. São Lourenço de Frazzanò,

monge (†c. 1162). Monge segundo a

observância dos Padres orientais, insigne

pela austeridade de vida e incansável

pregação, em Frazzanò, na

ilha da Sicília.

31. São Silvestre, Papa (†335).

25


Hagiografia

Arquivo Revista Aq.nicolas (CC3.0)

Mirante altíssimo

e grandioso

A meditação feita por São Vicente Ferrer

sobre o Apóstolo virgem nos situa num

mirante altíssimo e grandioso a partir do

qual percebemos as civilizações que ruíram

devido à imoralidade e à revolta; vemos o

castigo que cai sobre o mundo de um modo

tão trágico, porque abandonou a Deus

No dia 27 de dezembro a

Igreja comemora a festa

de São João Evangelista.

Temos para comentar alguns trechos

sobre ele, tirados dos sermões

de São Vicente Ferrer 1 .

Coroa real com quatro florões

No Livro de Ester, capítulo VI, há

uma bela leitura.

O grande Rei, Imperador, Assuero

perguntou uma vez a um

seu conselheiro, homem

muito sutil: “Que se há

de fazer com alguém

que o rei quer honrar?”

Depois que refletiu um pouco, respondeu

o conselheiro: “Para honrar

a quem o rei deseja honrar deve-

-se lhe vestir com as vestes reais, montá-lo

sobre um cavalo da cavalariça

real e cingir a sua fronte com uma coroa

régia, e que o primeiro dos príncipes

do rei leve a rédea de seu cavalo

e, passeando pela praça da cidade,

vá apregoando diante de todos. Assim

se faz com aquele a quem o rei quiser

honrar.”

O Senhor Jesus Cristo, Rei poderosíssimo,

fez essas coisas com magnificência

na pessoa de São João Evangelista.

A coroa que cingiu Jesus Cristo Homem,

no momento de sua concepção,

26

Dr. Plinio junto às muralhas de

Ávila, Espanha, em 23/10/1981


foi a Sabedoria perfeita. Porque a Sabedoria

reside na cabeça como uma

coroa.

A coroa de Cristo teve quatro florões

como as coroas reais costumam

ter. Na frente, a ciência da Trindade;

atrás, a ciência de todas as criaturas,

de todas as coisas pretéritas e futuras,

e de todos os pensamentos dos corações;

à direita, teve o conhecimento

da glória do Paraíso e dos predestinados;

à esquerda, teve conhecimento

das penas infernais e dos que estão

condenados ao Inferno com as causas

de suas condenações.

São João Evangelista foi coroado

com esta mesma coroa da Sabedoria.

Foi assim coroado na noite da

Paixão mais do que todos os outros

Apóstolos. Reclinado sobre

o Coração do Mestre, recebeu

isto como dádiva esplêndida.

Por isso diz dele a Igreja

em seu ofício: “Bebeu

a água pura do Evangelho

da fonte sagrada do

peito do Senhor.”

Naquele instante foi-

-lhe imposta a coroa real

com seus quatro florões: o

conhecimento de Deus pelo

qual João compôs o Evangelho;

o conhecimento de todas

as criaturas da glória e dos predestinados,

com o qual escreveu

a sua primeira Epístola Canônica;

o conhecimento dos condenados,

e por ele compôs o seu segundo

e terceiro epistolário. Portanto, dele

podemos dizer: “Coroa de ouro sobre

sua cabeça, gravada com o signo

da santidade.”

A coroa de ouro é, segundo a

Teologia da Bíblia, o escrito dos

doutores gravado com sinal da santidade.

Porque a coroa da Sabedoria

que é a Teologia não tem a força

se não está assinalada com o sinal

da santidade que é a vida digna.

São João Evangelista a manifestou

em altíssimo grau.

O conhecimento de Deus e

de todas as coisas criadas

É realmente um lindíssimo comentário,

à altura de São Vicente

Ferrer. Ele toma como ponto

de partida um trecho tipicamente

oriental do Livro de Ester.

O rei pergunta ao conselheiro

como se deve fazer

com alguém que o monarca

quer honrar. Então o conselheiro,

depois de pensar,

diz:

“O melhor é revestir

esse homem de trajes

reais, cingi-lo com uma

coroa régia. Depois, montá-

-lo num cavalo da cavalariça re-

São Vicente Ferrer

Flávio Lourenço

São João Evangelista

São Vicente

Ferrer extrai

das Escrituras

um sentido

profético sobre

São João

Evangelista

Vista do Mirante da

Rampa do Pati - Chapada

Diamantina, Bahia

27

Gabriel K.


Flávio Lourenço

Hagiografia

A Santa Ceia - Museu Unterlinden, Colmar, França

al. Fazer com que uma das principais

figuras da corte do rei tome o cavalo

pela rédea e vá pelo meio da rua,

dizendo para todo o povo: ‘Eis o homem

a quem Deus quis honrar!’”

Então, como todos os trechos da

Sagrada Escritura têm um sentido teológico,

místico, aqui São Vicente Ferrer

extrai um sentido profético no que

diz respeito a São João Evangelista.

Ou seja, ele foi um dos prediletos

de Nosso Senhor Jesus Cristo, e

como tal um homem que o Redentor

quis honrar aos olhos de todos,

cingindo-o com a coroa do próprio

Cristo. Qual?

Fixemos a atenção nisto porque é

um ensinamento lindo para nós.

É a coroa da Sabedoria. Nosso Senhor

recebeu essa coroa, diz São Vicente

Ferrer, no próprio momento em

que nasceu porque Ele gozava das formas

mais profundas da Sabedoria.

No fundo, essa Sabedoria é o conhecimento

de todas as coisas criadas e, sobretudo,

o conhecimento de Deus. Então,

a coroa possuía na frente um florão

que era o do conhecimento de Deus.

Outro que era do conhecimento de to-

dos os corações dos homens, de maneira

tal que ele conhecia toda a humanidade

presente. Tinha depois um terceiro

florão que lhe fazia conhecer toda a

humanidade no Céu, toda a Igreja gloriosa

e todos os espíritos bem-aventurados.

E um quarto florão, quer dizer

outro atributo, outra força de Sabedoria

pela qual ele conhecia todas as almas

que estão no Inferno, e as causas

de suas condenações.

Visão sapiencial

da Revolução e da

Contra-Revolução

Vamos reunir esses conhecimentos,

trabalhar um pouco sobre esse

lindo pensamento de São Vicente

Ferrer, e ver até onde ele conduz.

Conhecer todas as almas que estão

na Terra não é só conhecê-las individualmente,

alma por alma, mas também

a sociedade humana, essas almas

enquanto influenciando-se umas

às outras. Portanto, a opinião pública,

o ondular das grandes correntes

de pensamento a propósito de todas

as coisas importantes e, sobretudo,

a respeito de Deus Nosso Senhor. É

o conhecimento mais profundo que

se possa imaginar da Igreja Católica,

constituída de homens e, portanto, no

seu estado presente, pode e deve ser

conhecida exatamente como ela é nos

homens que nela existem, nos efeitos

da graça e do pecado nesses homens

enquanto constituindo uma grande

sociedade de almas.

São João Evangelista tinha o conhecimento

do passado, do presente

e do futuro, não como três pedaços

isolados, sem nexo um com o outro.

É evidente que ele conhecia o passado

enquanto a fonte onde definir

o presente; e o presente enquanto a

Horace Vernet (CC3.0)

28

Napoleão Bonaparte liderando suas

tropas sobre a ponte de Arcole


fonte onde definir o futuro, o mais

remoto, até o fim dos séculos.

Ele conhecia todo o processo histórico,

toda a concatenação dos

acontecimentos, das correntes ideológicas,

religiosas, filosóficas, políticas,

artísticas, culturais, da interpenetração

dessas correntes, do modo pelo

qual elas governam os homens, do

processo pelo qual elas nascem umas

das outras em virtude do jogo das circunstâncias,

das graças e das tentações;

tudo em função do livre-arbítrio

humano. Tudo isso ele conhecia

numa visão sapiencial e grandiosa.

Ele conhecia, entre outras coisas,

o processo em nossos dias da Revolução

e da Contra-Revolução. Ele

via no futuro as figuras malditas do

Renascimento, do Protestantismo,

da Revolução Francesa e do Comunismo.

Descortinava também as almas

benditas preparadas por São Luís

Grignion de Montfort cuja pregação

foi uma espécie de luta ideológica

ancestral da Chouannerie 2 ; via

as almas da Contra-Reforma, como

também as almas dos movimentos

contrarrevolucionários

posteriores; contemplou

nossas almas e as almas que

vão nos suceder numa luta

até o fim do mundo; viu

Elias, Henoc e tudo o mais.

Contato com o verdadeiro

universo de belezas espirituais:

Maria Santíssima

Portanto, o conhecimento que ele

teve da História foi completo, não só

enquanto ela se realiza sobre a face

da Terra, mas também em seus pontos

terminais. Ele viu a Igreja gloriosa,

onde se encontram todos os que

já foram julgados e gozam da visão

beatífica. Ele viu depois todos os que

estão no Inferno.

São Vicente Ferrer diz que São

João viu no Inferno não só os que lá

se encontram, mas por que ali estão.

Significa que quando contemplou

os do Céu, ele viu também por que

lá estão. Logo, ele viu a Sabedoria,

a Justiça e a Misericórdia de Deus

exercendo-se no julgamento dos homens.

Ele pôde ver, assim, como os

grandes movimentos da História levam

os homens para o Céu ou para

o Inferno. Ele teve, portanto, um conhecimento

completo da História da

humanidade.

Pergunto: do que adianta conhecer

a História da humanidade? O que

nos importa saber isso ou qualquer

outra coisa, a não ser em função de

Deus Nosso Senhor? Todo esse conhecimento

sapiencial lhe foi dado

como um meio para, na consideração

da História do que sucede aos homens,

que são a obra-prima da Criação

visível, elevar-se a Nosso Senhor.

Então, o florão primeiro é o conhecimento

de Deus. Os outros são

Breul, H. (CC3.0)

Lutero queimando a bula

papal de excomunhão

Divulgação (CC3.0)

Julien Le Blant (CC3.0)

Manifestação durante a

revolução russa em 1917

Cena de uma batalha dos Chouans

29


Hagiografia

florões colaterais; quão

vastos, imensos, ricos,

não há palavra humana

que saiba dizer, mas

meramente colaterais.

Nesse conhecimento

dos homens São João

Evangelista conheceu

Nossa Senhora, e podemos

imaginar com

que encantos, enlevos,

venerações ele passou

por esse verdadeiro

universo de belezas

espirituais que é Maria

Santíssima.

Suprassumo

da Sabedoria

Francisco Barros

Qual é a aplicação

de tudo isto para nós?

Devemos compreender

bem o que é a verdadeira

Sabedoria. Existe

tanta gente por aí

que, quando se fala que

as criaturas refletem a

Deus, pensa na florzinha,

na graminha ou

então na montanha, na

águia, mas não cogita

no homem. É bom pensar

nessas coisas porque

também espelham

a Deus. Mas o por onde

mais conhecemos o

Criador através de suas criaturas é no

homem, que sendo racional e tendo

alma é feito à imagem e semelhança

de Deus.

Conhecer o homem é conhecer

não esta ou aquela alma individual,

mas a contextura geral das relações

entre as almas. Assim como quando

Deus criou o universo e depois

repousou, o Gênesis diz que Ele

considerou que cada coisa era boa,

mas o conjunto era ótimo, também

quando olhamos os homens podemos

nos extasiar diante da beleza

de uma alma, mas o conjunto delas

Nossa Senhora com São João aos pés da Cruz

Notre-Dame-de-Bon-Secours, Montreal, Canadá

é mais bonito. Um santo é um sol de

beleza, mas a Igreja Católica Apostólica

Romana, que é o conjunto de

todos os santos, é mais bela do que

a pura soma aritmética de todos os

seus santos.

O conjunto das almas humanas,

os seus movimentos, as suas inter-relações,

a sociedade de almas, as leis

da História que nestas se verificam,

cuja perfeição é decorrência das próprias

perfeições de Deus, enquanto

servindo para julgar os homens, tudo

isto é o suprassumo da Sabedoria e,

portanto, do conhecimento de Deus.

Lírio que floresce

na noite, do lodo e

sob a tempestade

Percebemos assim

quanto fundamento

há em insistir em que

a vida espiritual se faça

com esta riqueza,

quando se procura utilizar,

por exemplo, a

temática “Revolução

e Contra-Revolução”

como um alimento para

a vida espiritual.

As nossas reuniões

são a aplicação de

princípios da História,

com um fundamento

metafísico e teológico,

aos acontecimentos

presentes para nos situarmos

numa espécie

de mirante, de onde

vemos esses acontecimentos

e a nossa própria

vida individual.

Mirante altíssimo onde

percebemos todos

os séculos de civilizações

anteriores que

ruem numa espécie de

catástrofe majestosa e

grandiosa, e se espatifam

em pedaços imundos

de imoralidade e

revolta. Castigo espetacular

de um mundo grandioso

que cai de tão alto e de um modo

tão trágico porque abandonou a

Deus. Vemos a grandeza desse castigo

de nações inteiras que se liquefazem,

se fundem e perdem seu espírito,

que vivem dentro das ruínas

de seu próprio passado, sem compreendê-lo.

Nessa liquefação de toda a humanidade

para formar uma só massa

animalizada e tendente para a barbárie,

vemos algo de muito mais alto:

a realização de um superior desígnio

de Deus. Nas imensidades do

30


castigo se nota a imensidade do pecado;

mas pela imensidade do pecado

percebe-se a imensidade e o poder

d’Aquele que foi ofendido. Essa

é uma visão que teria empolgado

qualquer profeta.

De outro lado, notamos que

quando tudo isso cai e se arrebenta

no meio de toda a sujeira, de cá e

de lá salta uma pérola, um brilhante,

um rubi... São as graças da Contra-Revolução

dadas para este e para

aquele. É um laivo adamantino

que se forma e revela a presença

das melhores qualidades da humanidade

nos seus melhores tempos.

É o Reino de Maria que começou

a sua força de regeneração dentro

desse horror, como um sol que vai

nascendo no meio das trevas mais

trágicas de uma madrugada suja, ou

à maneira de um lírio que floresce

na noite, do lodo e sob a tempestade.

Esse lírio é o conjunto das almas

contrarrevolucionárias existentes

pelo mundo, que agradam a Nossa

Senhora e prognosticam o dia de

amanhã.

Momento trágico e sublime

em que Nossa

Senhora quis que

nascêssemos

Esta não é uma meditação

nova, que escapa

aos padrões clássicos

da Igreja. Estamos

vendo aqui uma

meditação de São Vicente

Ferrer feita exatamente

segundo esses

padrões. Ora, ele

foi um grande profeta

que previu uma porção

de coisas do futuro,

imenso missionário,

uma das maiores

figuras que a Igreja

Católica tenha produzido.

Por vezes, quando temos dificuldades

na vida espiritual, e não nos

levantamos do fundo de nossos próprios

defeitos, é porque não nos aplicamos

às meditações próprias a alimentar

o nosso amor de Deus, segundo

a nossa vocação. Nossa Senhora

preparou para nós não só os tesouros

que estão ao alcance de todos os católicos,

mas também outros que são

gemas das melhores de dentro dos

cofres inexauríveis da Doutrina Católica.

Esses tesouros são essas meditações

feitas a partir desse mirante

magnífico e grandioso. É a consideração

de nossa época, de nossas atividades

pessoais, de nossa luta externa e

interna, em função do momento trágico

e sublime em que Nossa Senhora

quis que nascêssemos.

Então, aqui está uma sugestão

que sirva de alento e pórtico de esperança

para as almas eventualmente

aflitas, desconcertadas. E para

as almas esperançadas que querem

progredir ainda mais, eis um

meio para maiores voos: colocarmo-

-nos nesse mirante que é o mais próprio

para as meditações de homens

na época contemporânea. Ver como

Deus fala com a voz do trovão, mas

tendo um sorriso, não direi paterno,

mas materno para com esse lírio que

Ele vai fazendo nascer do lodo. Deus

em toda a sua grandeza, em toda a

sua meiguice, falando em nossa época

para nos santificar.

Que Nossa Senhora dê vida e força

a essas palavras para que, realmente

integrados nos pontos de vista

de onde nossa vocação é compreensível,

e dotados de energias espirituais

que decorrem desta forma de fidelidade,

possamos subir até as alturas

às quais a Santíssima Virgem nos

quer levar.

v

(Extraído de conferência de

27/12/1969)

1) Não dispomos dos dados bibliográficos

da obra citada.

2) Movimento contrarrevolucionário

originado na Bretanha a partir do

descontentamento da população rural

diante das medidas religiosas e políticas

da Revolução Francesa, principalmente

a criação de uma “igreja”

constitucional e a venda dos bens

da Igreja.

Dr. Plinio visita o castelo de Chambord, França, em 14/10/1981

Arquivo Revista

31


Apóstolo do pulchrum

USCapitol (CC3.0)

Desejo do

paradisíaco

Na alma de uma criança inocente dorme

um desejo do paradisíaco que acorda

quando ela vê algo de maravilhoso, como

uma árvore de Natal. É uma espécie de

senso virginal de uma realidade existente

para além desta que se vê. Numa educação

verdadeiramente católica, os pais deveriam

ensinar aos filhos a realidade inteira,

mostrando como são belas as criaturas postas

por Deus nesta Terra, mas incentivando-os

a imaginar como elas seriam no Paraíso.

Por que uma criança fica maravilhada ao ver uma

árvore de Natal?

Na inocência primeva os modelos ideais brotam

na alma inteiramente inocente, que tem a noção fácil

e imediata das coisas como elas devem ser e, portanto,

do modelo ideal de tudo. Por isso, vendo uma árvore

de Natal a criança fica encantada, pois ela possui no

fundo de sua inocência a ideia – não inata, mas facilmente

adquirida – do modelo ideal de como seria uma

árvore paradisíaca. Pela mesma razão, a criança é facilmente

sensível ao belo, encanta-se com ele.

Senso do metafísico, do

maravilhoso, do sobrenatural

O espírito da criança não é fanado por certas coisas

que fanam o espírito do adulto. Em geral, pelo efeito do

32


Batismo – que é o mais importante

– e por ainda não se ter corrompido

com a vida, a criança

tem uma propensão a crer,

uma tendência a conceber

as coisas sob a égide

do maravilhoso e

uma facilidade para

admiti-lo, qualidades

estas que o adulto vai

perdendo até chegar

ao tipo de velho desabusado,

completamente

cético, materialista, que

representa o ocaso do espírito

humano.

Assim, a alma da criança pede

a árvore de Natal. Ora, a árvore de Natal

é algo que imerge para o mundo do maravilhoso.

A criança tem uma apetência para contos de fada.

O que é o conto da fada? É o mundo do maravilhoso.

A criança tem também uma grande aptidão para a

Fé, acredita e não pergunta sobre as razões de crer, ela

vai logo crendo.

Isso é uma espécie de senso virginal que tem a criança

de uma realidade existente para além desta que nós

vemos, a qual é mais bela e sacia anseios do espírito humano

que o homem adulto já não possui, pois à medida

que a pessoa vive ela vai se apegando às coisas terrenas

e perdendo o senso do extraterreno, do metafísico,

quer dizer, de uma realidade existente além do físico,

e o senso do maravilhoso, do sublime, do sobrenatural.

Tudo isso vai minguando na pessoa à medida que ela

se torna adulta.

Essas primeiras posições de alma implicam não numa

profissão explícita de Fé em Deus, mas na existência

do Criador, ou porque a pressupõem, ou porque conduzem

a ela, mas são corolários necessários da existência

de Deus.

Aspiração por uma ordem

ontologicamente mais perfeita

Por exemplo, às vezes a árvore de Natal é acusada de

ser uma coisa laica, e realmente esta impostação tem algo

de verdade. Mas, no fundo, ela não é laica, pois traduz

a aspiração da criança para uma ordem ontologicamente

mais perfeita do que a nossa, em que tudo seja de maravilhas

constituídas não somente de bens para o corpo,

mas de bens para a alma. Não é a árvore de Natal onde

se penduram balas para comer ou brinquedos para divertir.

Não é isto. Aquelas bolas coloridas, estrelas e outras

coisas desse gênero são adornos inúteis

para brincar. São feitos para

contemplar. Contemplar o

quê? No fundo, a hipótese

de uma ordem de coisas

maravilhosa existente

fora da realidade palpável.

A criança sabe

que aquela árvore não

é assim, que aqueles

não são frutos daquela

árvore. Mas por detrás

está um desejo confuso,

mas ardente, do extraterreno

que se exprime naquilo.

Ali há, portanto, a nutrição

de um anseio da alma de uma coisa

metafísica e, portanto, um impulso que

é um ponto de partida para anelar a Deus.

Considerem uma criança na primeiríssima infância

que entra numa sala onde está preparada uma árvore

de Natal. Ali, naturalmente, há os objetos comuns próprios

a uma sala de qualquer casa, como mesa, cadeiras,

livros, quadros. Entretanto, ao entrar, a criança tem sua

atenção atraída imediatamente pelos adornos natalinos

maravilhosos ali colocados, e não pelos objetos comuns

da vida cotidiana.

Alguém dirá que é natural porque os objetos maravilhosos

não são habituais, e aquilo que é novo chama a

atenção. Mas não é isso. Uma criança que vai pela primeira

vez a uma casa para ver uma árvore de Natal não

conhece os objetos ali presentes. Portanto, a árvore de

Gabriel K.

J.P. ramos

33


Apóstolo do pulchrum

Luis Samuel

Natal é tão nova para ela quanto os outros objetos que

estão na sala. Porém, é a arvore que chama a atenção.

Na primeiríssima infância, as luzes, as bolas prateadas,

douradas, vermelhas, verdes, azuis, que pendem da árvore,

atraem mais a atenção do que tudo.

Por que a atenção da criança fica mais atraída pelos

enfeites, pelas luzes do que pela própria árvore de onde

tudo isso pende? E mais atraída pela árvore no conjunto

do que pelos outros objetos na sala? No fundo, é porque

a criança tem uma ideia, correlata ao senso do absoluto,

de que se algo fosse absolutamente como deve ser, seria

muito mais maravilhoso do que é.

Uma educação verdadeiramente católica

Com efeito, sem a criança jamais ter ouvido falar de

Paraíso, nem ter ainda inteligência para se representar

o que seja um Paraíso, dorme dentro dela um desejo do

paradisíaco que acorda quando vê aquelas coisas.

Os esmagadores, os incendiários de paraísos dizem

que esse élan de alma de uma criança é um movimento

tolo da primeira infância; quando ela ficar adulta vai se

incomodar muito mais com a agência bancária das proximidades

do que com a árvore de Natal armada em casa.

Não se dão conta de que esse paraíso que dorme na

criança é o melhor do talento e da inteligência dela.

Por estar nesta Terra de exílio, o homem não tem as

coisas como as do Paraíso, onde tudo é muito mais bonito;

então, ele imagina a árvore de Natal. E a criança se

encanta porque sua alma é desejosa de uma perfeição

não existente nas coisas desta Terra. Ela quereria uma

ordem, uma natureza, outras pessoas, enfim tudo como

não existe, porque a sua alma foi

feita para coisas maiores.

Precisamente por desejar

essas coisas maiores ela

possui uma forma de talento

por onde como que

advinha a perfeição

que tudo deve ter.

Por causa disso também a criança tem uma imaginação

muito criativa e o senso do maravilhoso levado a um alto

grau.

Numa educação verdadeiramente católica, os pais

deveriam ensinar às crianças a realidade inteira, mostrando

como são belas as criaturas postas por Deus nesta

Terra, mas incentivando-as a imaginar como seriam

no Paraíso. Então, o esquilo é muito bonito, mas se pode

conjecturar como seriam os esquilos se movimentando

no Paraíso.

Por vezes, ao ver passar uma bela borboleta, um beija-flor,

ou algum outro bicho bonito, a criança tem a tendência

de ir atrás, pois é algo de maravilhoso que ela

quer pegar, como se essas criaturas tivessem se extraviado

do Paraíso e vindo parar aqui na Terra.

Diante dessa tendência os pais da criança deveriam

dizer: “Olhe, Deus fez assim o Paraíso. Isso está aqui para

você ter ideia de como as coisas poderiam ser. Observe

o que Deus fez de maravilhoso, procure prestar atenção

e imaginar como seria o Paraíso. Em tudo quanto você

faça procure exprimir essa sua tendência para o Paraíso.

Rume para a perfeição. Mas, pobre Paraíso terrestre

em comparação com o celeste… Neste não há flores,

existem Anjos. E por cima deles e de tudo está Nossa

Senhora, mais sua Mãe do que sua própria mãe. Porque

Ela a ama mais do que todas as mães juntas amariam

o filho único que tivessem. E se você se sente um ratinho

para ser amado assim por Maria Santíssima, acredite

porque é de Fé, a cada “ratinho” humano Ela ama

assim. Creia e confie, alegre-se e reze. Cuide de servi-La,

de batalhar por Ela!

“Mas contemple os olhos de Nossa Senhora e você verá

que no fundo há uma luz que vai muito além. Ela está

olhando para você, mas ao mesmo tempo para o Divino

Filho d’Ela! Há uma luz de Cristo n’Ela que vai além

do humano. É humano, mas divino. Mais ainda, Ela está

vendo Deus face a face. Fitando os olhos d’Ela é como se

você olhasse num espelho para ver o Sol: o maravilhoso

por excelência, a perfeição de todas as perfeições!”

Daniel A.

Daniel A.

34

Daniel A.

Gabriel K.


John Harrison (CC3.0)

Voltar a compreender e a amar o

maravilhoso é uma verdadeira conversão

Se todos os homens tivessem isso presente, o mundo

seria outro. É incalculável o bem que os sacerdotes fariam

se nas igrejas pronunciassem sermões sobre isso.

Ademais, realçado por algo que a palavra do padre tem

e a do leigo não, isto é, a graça do sacerdócio, salientado

pelo púlpito, pela dignidade e pelas bênçãos especiais

que Deus põe no edifício sagrado.

Entretanto, já na remota época de minha infância a

formação não era dada assim, mas se dizia: “Essas coisas

são bobagens de infância, não pense nisso. Tudo

quanto é maravilha é sonho. Você perde a partida da vida

se pensar em coisas dessas. Seja prático! Para isso

você precisa de duas coisas: ter saúde e ganhar dinheiro.

Preocupe-se em ser saudável e fazer fortuna. Corra

atrás do ouro! Não sonhe essas maravilhas. Que dinheiro

ou que saúde elas lhe dão? Feche seu horizonte ao maravilhoso!

Assim você terá o prazer e a riqueza.”

Ora, esta não é a perfeita formação.

Alguém objetará:

“Está bem, Dr. Plinio, mas se não nos empenharmos

cem por cento em ganhar dinheiro, morremos mendigos.”

Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou: “Olhai como crescem

os lírios do campo. Não trabalham nem fiam, No entanto,

Eu vos digo, nem Salomão em toda a sua glória jamais

se vestiu como um só dentre eles” (Mt 6, 28-29). Portanto,

confiai, porque isso se arranja. É possível recuperar

a saúde ou a fortuna perdida. Entretanto, não se recupera

o tempo perdido. É necessária uma graça muito

grande para que uma alma, que se tenha deixado trancar

nesses horizontes mais baixos, volte a compreender e

a querer o maravilhoso. É uma verdadeira conversão.

Tais considerações nos levam à ideia de que devemos

pedir a Nossa Senhora essa inocência, para nós e para

todas as pessoas, porque Deus é infinito no seu desejo de

bem e quer abarcar com sua grandeza e bondade a Criação

inteira.

v

(Extraído de conferências de 28/6/1969, 7/6/1974,

29/5/1981, 12/10/1985)

Kgbo (CC3.0)

35


Flávio Lourenço

Imaculada Conceição

Museu Nacional de Villa

Guinigi, Lucca, Itália

A antítese mais completa do mal

Exceção feita da humanidade santíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, nenhuma criatura de Deus

ressalta tão bem a antítese entre o bem e o mal do que Nossa Senhora. Porque n’Ela não há nenhum

mal, essa oposição é muito mais forte.

Por outro lado, a virtude que Lhe conferem a Imaculada Conceição, a confirmação em graça, enfim,

tudo o mais é de tal maneira excelente que faz d’Ela a antítese mais completa do demônio. Não é dizer

que Maria é tão santa quanto o demônio é ruim. A santidade d’Ela excede a perder de vista a maldade do

demônio, nem é possível a comparação.

Aliás, até mesmo nesta impossibilidade de comparação, o contraste se afirma grandiosamente. Ela é

muito mais do que a “antidemônio”, porque é a Mãe Virgem do Salvador! Isto explica o inimicitias ponam,

o calcanhar que esmaga a cabeça da serpente.

(Extraído de conferência de 18/9/1992)

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