Revista Dr Plinio 261

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Dezembro de 2019

Editorial

Gloriosa noite coroada

de contradições

Senhor Jesus, com quantas contradições quisestes coroar a noite mil vezes gloriosa de vosso Santo

Natal!

“Coroa” sim, é bem este o vocábulo que convém a esse conjunto de circunstâncias com que

quisestes cercar a hora tão rica em símbolos de glória e de dor, na qual, nascendo do seio da Virgem

Mãe, iniciastes a caminhada esplendorosa que, conduzindo-Vos da gruta de Belém até o alto do Tabor,

e deste último ao Calvário, haveria de ter seu termo final no momento glorioso e terrível em que

destruireis o Anticristo, encerrareis por um terrível decreto de extermínio a História da humanidade

e baixareis à Terra para iniciar o julgamento de todos os homens!

Contemplando essas cenas de dor e de vitória, de glorificação suprema como de condenação inexorável

e extrema, situamos a Festa de vosso Santo Natal em sua plena perspectiva histórica. Sim,

uma perspectiva na qual Deus e o demônio, o Céu e o Inferno, num contraste implacável, em uma luta

suprema, haveriam de desfechar os seus golpes até o momento em que, cessada a História, só restariam

em confronto os bons e os maus, uns votados pela Justiça eterna para a felicidade inteira, perfeita,

gloriosa e sem fim, e outros para o abismo perpétuo e insondável de dores, de opróbrios e de

vergonha, onde tudo não é senão derrota, insucesso, gemido e revolta perfeitamente inútil.

Na Noite Feliz os Anjos cantaram “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e na Terra paz aos homens

de boa vontade” (Lc 2, 14). Sim, aos homens de boa vontade. Porém, já havia também sob a

abóbada celeste, constelada de estrelas, homens de má vontade. Certamente não era para eles – os

malditos, os precitos – o precônio da paz, mas o da inexorável e total desgraça.

Vós quisestes que rodeassem vosso Presépio não só as glórias de aturdir, que Vos tocam na infinitude

de vossa Santidade, mas as doçuras insondáveis do perfeito Coração de Mãe que Vos adorou

desde o primeiro instante de vossa concepção.

É no ápice de todas essas perfeições que nossos olhos Vos contemplam hoje, na noite de Natal. De

tantas contradições ao mesmo tempo magníficas e supremas, deslumbrantes e terríveis decorre um

ensinamento que, súplices, Vos pedimos marqueis em nossos corações.

Também o mundo contemporâneo está imerso na contradição entre a verdade e o erro, o bem e o

mal, a beleza e a hediondez. De um lado, contemplamos-Vos, Senhor Jesus, e vossa Santa Mãe, junto

a quem refulge a santidade de José; e de outro, vemos o oceano das ignomínias, dos crimes, das abjeções

nas quais vai se precipitando o mundo “totus in maligno positus est” (1Jo 5, 19).

Para onde quer que nos voltemos, algo vemos ou ouvimos que Vos ofende, ultraja e conspira contra

Vós. Não há o que não se volte para Vos escarnecer, golpear, fazer sangrar e arrastar à Cruz. Em torno de

Vós tudo é contradição, no sentido de que quase não há senão mal, e este é essencialmente contraditório.

Senhora das Dores, fazei que compreendamos esta hora de contradição, mantendo-nos genuflexos aos

pés da Cruz, mas ao mesmo tempo eretos e destemidos como guerreiros, como Anjos em pleno campo de

batalha. Combatentes implacáveis, de coração abrasado de amor a Vós e a vosso Divino Filho, para esmagarmos

o mal, destroçarmos as contradições, elevar-Vos ao fastígio da glória de vosso Reino, ó Maria! *

* Conferência de 23/12/1993.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

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