Benedito Bacurau - O pássaro que não nasceu de um ovo

pluralcultura

pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 1

Flávio Paiva

Benedito Bacurau

O pássaro que

não nasceu de um ovo

Aquarelas de Estrigas

Narração e ilustrações musicais de Antônio Nóbrega


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 2

Nesta edição, manteve-se a redação original,

porquanto a conformação das características da linguagem falada

à norma culta da língua constituiria prejuízo

à configuração geral da obra.

© 2005 texto Flávio Paiva

ilustrações Estrigas

© Direitos de publicação

CORTEZ EDITORA

Rua Bartira, 317 – Perdizes

05009-000 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290

cortez@cortezeditora.com.br

www.cortezeditora.com.br

Direção

José Xavier Cortez

Editor

Amir Piedade

Revisão

Oneide M. M. Espinosa

Roksyvan Paiva

Dulce S. Seabra

Edição de Arte

Mauricio Rindeika Seolin

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Paiva, Flávio

Benedito Bacurau: o pássaro que não nasceu de um ovo/

Flávio Paiva; aquarelas de Estrigas. — São Paulo: Cortez, 2005.

ISBN 85-249-1182-4

1. Ficção – Literatura infanto-juvenil I. Estrigas. II.

Título.

05-8349 CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção: Literatura infanto-juvenil 028.5

Impresso no Brasil — novembro de 2005


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 3

Para Cleide, Socorro, Edivanir, Lena e Samara, pelo jeito afetivo com que sempre

acompanharam os nossos filhos Lucas e Artur. Mas, especialmente,

para a Maria dos Remédios que, movida pelas imagens trazidas da sua infância

em Piripiri, no Piauí, inventou em nossa casa a bem-humorada cantiga do

“bacurauzinho, rinho, rinho, rinho...”


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 4


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 5

Sumário

Apresentação (Rubem Alves) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

1 – A corujinha do oco do pau . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

2 – A brincadeira sem pé nem cabeça . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

3 – Para despertar a alegria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

4 – O coreto encantado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

5 – No berenguendém da meninada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

6 – O lado claro da Terra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

7 – Um certo Senhor Escaravelho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

8 – O segredo da casa gigante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

9 – Onde mora o arco-íris . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

10 – Disfarçado na charanga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47

11 – Semeadores de árvore de Natal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51

Sobre o autor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 6


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 7

Apresentação

Rubem Alves

O pensamento é um brincalhão.

As palavras são os brinquedos com que ele brinca.

Às vezes ele brinca de sério e põe as palavras a marchar, uma atrás da outra,

obedientes às suas ordens.

Às vezes ele brinca de palhaço, embriaga as palavras e as põe a dançar, fazendo

o que lhes dá na cabeça.

Das palavras que marcham nasce a ciência e a filosofia.

Das palavras que dançam nasce a poesia.

A ciência e a filosofia “são de uma palavra só”. O que dizem está dito. Se falam

olho, é olho. Se falam pedra, é pedra. Se falam cebola, é cebola.

Mas a poesia diz muitas coisas diferentes com uma palavra só. Por exemplo:

Cecília Meireles diz: “... meus olhos, dois baços peixes...”. Olho é peixe? Peixe é

olho? A Adélia Prado reclama. Diz que Deus lhe tira a poesia. Quando é que

Deus lhe tira a poesia? Quando ela olha para uma pedra e só vê uma pedra.

Então poesia é olhar para uma pedra e ver outra coisa? Já Neruda olha para

uma cebola e vê uma rosa de água com escamas de cristal... A poesia não vê

só as coisas.Vê as coisas e vê também através delas. A poesia torna as coisas

transparentes. Bem disse Nietzsche que a linguagem é uma divina loucura que

constrói pontes multicoloridas sobre coisas eternamente separadas...

Essas palavras que são outras se chamam metáforas.

As metáforas nascem da fraternidade que existe entre todas as coisas. Porque

as coisas são irmãs eu posso saltar de uma para outra. Isso sempre acontece

comigo. Haverá coisa mais boba e mais sem poesia que uma pipoca? Pipoca

pode ser metáfora? Eu nunca imaginei. Mas um dia, sem que eu esperasse, ela

7


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 8

deu um pulo e virou metáfora. Aconteceu nos tempos em que eu ainda

exercia a arte da psicanálise. Eu estava ouvindo uma paciente. Ela disse que

havia feito pipocas para uns amigos. Aí a pipoca deu um pulo dentro da minha

cabeça, pulo esse que me levou até a Mãe Stella, que me havia dito que a

pipoca era a comida sagrada do Candomblé porque simbolizava transformações

repentinas e impensáveis. Do Candomblé pipoquei de volta para mim mesmo

e me dei conta de que eu também sou uma pipoca e que já arrebentei muitas

vezes na minha vida. É sempre assim: a metáfora aparece de repente, sem que

a gente esteja esperando. Dessas pipocações nasceu o texto “A Pipoca”, sem

nenhum interesse científico mas que tem feito muitas pessoas pipocar.

A linguagem da ciência e da filosofia é muito necessária. Ela nos dá conhecimento

do mundo e poder sobre o mundo.

A linguagem da poesia não faz nada disso. Por isso, por vezes, os cientistas e

filósofos acham que poesia é bobagem, perda de tempo. Eles ignoram que a

poesia é magia, tem o poder de mexer com o corpo e a alma. A poetisa Emily

Dickinson disse que se ela lia um texto e esse texto a fazia tão fria que nenhum

fogo era capaz de aquecê-la, ela sabia que aquilo não era poesia. Se ela lia um

texto e era como se o topo de sua cabeça tivesse sido arrancado, ela sabia que

aquilo era poesia. Não mencionou nem rima nem ritmo, propriedades formais

de um texto. Mencionou o seu poder mágico de mexer com o corpo.A poesia

me faz tremer, chorar, brincar, saltar, sorrir, amar...

As palavras do pensamento sério moram na razão, que não ri, não chora, não ama.

As palavras do pensamento brincalhão moram no coração.

E aí está esse livrinho... Livrinho? É preciso explicar que a gente usa os diminutivos

para tornar as coisas macias e delicadas, para que possamos colocá-las

no colo... Esse é o caso do Benedito Bacurau, escrito pelo Flávio Paiva. Se

fosse ciência ele começaria dizendo que um bacurau é um bacurau, ave da

família dos caprimulgídeos, dos quais existem no Brasil 25 espécies. Pelo menos

é isso que diz o dicionário. Mas o “Benedito Bacurau” nada tem a ver com os

caprimulgídeos. Porque esse bacurau não é bacurau. É uma outra coisa. Metáfora.

Ave onírica que mora no mundo dos sonhos do Flávio. Diferente das outras

aves, o “Benedito Bacurau” não nasceu de um ovo. Ele nasceu de uma cantiga

8


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 9

de ninar que a mãe do Flávio cantava para ele: “Benedito Bacurau tá no oco do

pau...” Por causa do canto, o “Benedito Bacurau” mudou de casa. Saiu do oco

do pau e entrou no oco do Flávio que se chama coração.Virou metáfora. E é

por causa disso, porque ele não existe, que ele faz coisas que nenhum outro

bacurau faz. As coisas que não existem são mais poderosas. Pois o bacurau tem

o poder de se transformar em instrumento musical, sax, trombone, tuba,

clarinete, zabumba, prato, além de gostar das crianças, acreditar na alegria,

sendo também excelente contador de histórias; prova disso é a história que ele

espalhou entre a meninada, inspirado num rola-bosta que rolava bosta... Até

rola-bosta pode ser metáfora poética...

Agora é a sua vez, hora do “Benedito Bacurau” se aninhar no seu oco. E de

noite você dormirá melhor ouvindo as músicas que ele vai cantar. Quem sabe

você até se transformará num poeta...

Rubem Alves é psicanalista, professor emérito da Unicamp, cronista dos jornais

Correio Popular e Folha de S. Paulo, autor, dentre outros livros, de Concerto para Corpo

e Alma, Conversas com quem gosta de Ensinar e A Escola que Sempre Sonhei sem

Imaginar que Pudesse Existir.

www.rubemalves.com.br

9


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 10


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 11

A corujinha do oco do pau

gente às vezes nem imagina como muitas das coisas mais simples

têm importância para toda a nossa vida.Tenho um motivo muito especial para

acreditar nisso. Aconteceu comigo. Minha mãe tinha o hábito de me colocar

para dormir cantarolando uns versos que falavam de um prodigioso Benedito

Bacurau. Era como se para dormir eu precisasse vagar pelo mato, pelas praças

e pelo pátio da escola, onde durante o dia eu gostava de brincar com outras

crianças. A voz da minha mãe repetia um acalanto mais ou menos assim:

“Benedito Bacurau tá no oco do pau”. Era um cantarolar suave, saído de

dentro do peito, como uma respiração feita de música.

Benedito Bacurau

Tá no oco do pau

E eu ficava imaginando o Benedito Bacurau com a mãe dele se recolhendo

para dormir no tronco de alguma árvore sob o céu estrelado do sertão.

Quando eu fechava os olhos para dormir, mas ainda não estava dormindo, eu

me via procurando tronco de árvore para ver se encontrava o Benedito Bacurau

cochilando no oco do pau. O ninho dele às vezes era meio pelo chão, pelos

lajeiros, pelas mais indistintas locas, difícil de achar. Só dava para ver bem

direitinho quando eu começava a sonhar. Sonhando eu tinha a noite toda para

brincar com o bacurau em aventuras radicais pelas clareiras.

Benedito quer caçar

Tem inseto pra danar

Benedito tá cantando

Bacurau quer namorar

Confesso que os bacuraus me metiam um pouco de medo quando

brincavam de esconde-esconde sem avisar. Eles se camuflavam tão bem, mas

11


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 12


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 13


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 14

tão bem, que se misturavam com as folhas pelos caminhos e assustavam a

gente em vôos inesperados.Achava meio esquisito também quando nas estradas

os olhinhos deles se acendiam como duas pequenas tochas de fogo ao serem

tocados pela luz dos carros. Eu era menino e ficava encantado com as acrobacias

daquelas aves abrindo um bocão sem tamanho quando caçavam insetos para

comer. Achava curioso elas terem a cara de coruja, mas não caçarem com as

garras nem pousarem em pé. Imagine você uma corujinha pousando com a

barriga no chão como se fosse um aviãozinho misterioso da natureza.

É isso mesmo, os bacuraus são chamados de corujinhas, no lugar onde eu

nasci. Diferente dos corujões, dos caborés e das mães-da-lua, eles sempre me

pareceram um bando de espíritos de crianças que se encontram para brincar

quando todos os meninos e meninas estão sonhando. Se as corujas viraram o

símbolo da sabedoria, porque são cheias de paciência e conseguem enxergar

no escuro, acho que o bacurau deveria ser a corujinha símbolo da infância, já

que a maior sabedoria das crianças é crescer com imaginação pelo mundo da

brincadeira.

Sei disso porque, na hora de dormir, a cantiga da minha mãe me embalava

como as asas brincalhonas dos bacuraus.

Benedito Bacurau

Tá no oco do pau

Nunca descobri qual daquelas aves era de fato o Benedito Bacurau. Nem

sei se realmente existe uma delas que se chame Benedito. O que posso assegurar

é que jamais deixei de ter a impressão de que, onde quer que esteja, ele parece

me proteger como um anjo da guarda a me dizer eternamente que antes de

entender é preciso imaginar.

14


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 15

A brincadeira sem pé nem cabeça

enti que aquele seria um dia muito especial. Logo que acordei tive a

sensação de que o Benedito Bacurau havia entrado em meu quarto acompanhando

os primeiros raios de sol. Dava para escutar a agitação das crianças

brincando na sala. Levantei, segui pelo corredor e sentei para brincar. O meu

filho mais velho, que se chama Lucas, brincava com um robô que vira carro

e o irmãozinho dele, o Artur, ainda era bebê e se divertia mordendo a asa bem

molinha de um aviãozinho de borracha, boa mesmo de morder. Entrei calado

na brincadeira montando as peças de um estacionamento cheio de rampas

para pequenos carros que se encontrava largado no chão.

Todos estávamos em silêncio quando, sem mais nem menos, o Lucas vira

para mim e diz:“Papai, a gente nunca mais brincou de brincadeira”. Imagine

você o que pode ser brincar de brincadeira. Naquele momento não consegui

ter a menor idéia, mas me esforcei para rapidamente entender o que ele

queria dizer com brincar de brincadeira. Seria esconde-esconde? Não. Seria

pega-pega? Não! Seria isso, seria aquilo? Não, não! Não consegui pensar em

nada que pudesse ser brincar de brincadeira. Nessas horas não tem jeito, o

jeito é perguntar, ser sincero. Mas quando me virei para o moleque, disposto

a saber dele o que ele estava chamando de brincar de brincadeira, pressenti a

presença do Benedito Bacurau fazendo malabarismos na sala. Ufa! Ainda bem

que pude vê-lo e, assim, expandir minha compreensão do desejo do meu

filho. Se pelas palavras eu não estava sabendo muito bem o que ele queria me

dizer, consegui ver claramente em seus olhos.

Brinca o vento

Brinca o céu

Brinca o tempo

O condão da fada

15


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 16


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 17


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 18

O que o Lucas estava chamando de brincar de brincadeira era um jogo

sem pé nem cabeça que a gente tinha inventado. Na verdade não foi bem a

gente quem inventou, pois existem muitos animaizinhos que gostam de ficar

rolando uns sobre os outros numa farra sem tempo nem espaço. Os gatinhos

fazem isso com certeza. Já vi muitas vezes pais e filhos gatos nessa animação.

Mas quando começamos a brincar de brincadeira não tínhamos pensado

nisso. Nem era uma vez nem nada. Ficávamos empurrando um ao outro com

o corpo, sentindo os sentidos e nada mais. Parecia que tínhamos o mesmo

peso e tamanho. Vez por outra parávamos um pouquinho fingindo um

cansaço dramatizado.

Essa brincadeira era feita em cima da cama, que virava uma estação de

naves espaciais durante o tempo do nosso relaxamento. Algo entre perguntar

por perguntar e responder por responder:“Da minha nave estou vendo uma

estrela de lâmpada vestida de fada, câmbio”;“Da minha vejo um som gigante

tocando música nas nuvens, câmbio”. Câmbio. Se “o planeta Terra é uma ilha

no céu” como diz o Lucas, aquela cama virava uma ilha na Terra quando

brincávamos de brincadeira. Era como se estivéssemos em um teatro sem

atores, sem personagens, sem história, sem platéia, sem palco nem nada ou

num parque de diversões sem ingresso, sem brinquedos, sem filas nem nada.

Apenas estávamos com o espírito do bacurau a brincar de brincadeira. Rindo

à toa, sorrindo pra nada. Com a chegada do Artur descobrimos a brincadeira

de três. A Andréa, mãe deles, se animou e até comprou uma cama maior

para a brincadeira de quatro. Descobrimos, principalmente, que sem pé nem

cabeça essa é a mesma brincadeira de cinco, de dez, de cem e de tantos mil, a

bater como bate o pequenino e fabuloso coração infantil.

18


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 19

Para despertar a alegria

enedito já viajou por muitos lugares.Tem muitas lembranças guardadas.

Gosta de entrar no sonho das crianças e de espalhar um pouco de tudo o que

viu. Benedito faz isso como se semeasse cacos de vidas coloridas na combinação

dos espelhos de sono da meninada. Por isso, sempre achei que os bacuraus

eram dois olhos de caleidoscópio a quem a natureza tinha dado asas e o dom

de voar. Ainda hoje continuo pensando assim. Também tenho viajado por

muitos lugares e tenho muitas lembranças guardadas. Às vezes penso que

somos feitos de lembranças, de sonhos e, digamos assim, de uma certa porção

bacurau. O resto não passa da intensidade com que cada pessoa valoriza essas

lembranças, realiza os seus sonhos e usufrui da sabedoria traquinas dos bacuraus.

Se existe alguma coisa que muda além disso é a maneira como nos percebemos

em cada lugar. Na cidade grande, por exemplo, aprendi que o ritmo é outro,

que o tempo das coisas parece mais acelerado, mas a agitação do olhar não

precisa ser diferente.

A cidade é cheia de graça

A cidade e suas luzes

A cidade é cheia de graça

A cidade e suas sombras

Foi assim que certa vez, quando deu por si, o Benedito Bacurau estava em

um velho passeio público procurando algum tipo de rastro das crianças que um

dia tinham brincado por ali. Crianças que vagueavam ao sabor do vento peralta

dos finais de tarde. O mesmo vento teimoso que ainda insistia em correr pelas

frescas sombras daquelas árvores abandonadas. Quanto mais o bacurau contemplava,

mais ficava confuso. Ele não conseguia entender a razão de muitas

pessoas deixarem de lado o convívio nesses lugares tão agradáveis e maravilhosos.

Ficava pensando o tanto que passear pelos bulevares faz parte da sabedoria de

viver. Estava para gritar que quem mora na cidade precisa de lugares arborizados.

19


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 20


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 21


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 22

Achava a justificativa da insegurança uma violência em si. E, pensando bem, o

bacurau tinha e tem razão. As praças, os parques e as ruas tornam-se mais

temerosas quando são baldias, desérticas e deixam de ser freqüentadas.

Lembro de ter visto o Benedito Bacurau fazendo malabarismo sobre uns

edifícios bem altos. Naquele dia eu estava quase dormindo, mas ainda não

tinha caído em sono profundo.Talvez por isso não tenha dado para identificar

o nome do lugar, nem saber a região e o país por onde andou o meu sonho,

a fim de tentar localizá-lo no mapa. Mas isso não vem ao caso! Sei que o

bacurau olhava para baixo e descia em vôos rasantes atravessando o desânimo

das pessoas que andavam tristes e com medo. Desesperado, ele fazia mungangos,

caras e bocas, gritava, assobiava, dançava e cantava, tocando campainhas e batendo

de porta em porta.

Bate que bate chamando alegria

Vem desejar boa noite

Vem desejar bom dia

É da natureza dos bacuraus acreditar na alegria. Eles ficam subitamente

invisíveis e intocáveis quando não conseguem alegrar crianças entristecidas.

Ao se deparar com meninas e meninos com os quais os pais alegam não ter

tempo para brincar, o Benedito vira uma fera. Aliás, vira tudo quanto é fera

que se possa imaginar. Mas não pode fazer muito mais que isso. Seu espírito

provocante precisa da curiosidade ingênua das crianças como os nossos pulmões

precisam de ar. Pelo que sei, e foi o Benedito que um dia me contou, os

bacuraus, diferentemente das fadas, não têm poderes para transformações em

passes de mágica, embora sempre estejam prontos para despertar alegrias nos

mistérios da infância com o inseparável condão da brincadeira.

22


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 23

O coreto encantado

centro de muitas cidades nem sempre é exatamente no centro. Às

vezes, o centro pode estar em um dos lados da cidade. É que se costuma

chamar de centro o ponto que deu origem à vida urbana de um lugar, onde

se dá também a maior concentração de pessoas indo e vindo, vindo e indo

sem parar. Pois bem, no centro de Fortaleza, que não é no meio da cidade, fica

a Praça do Ferreira. E no centro da Praça do Ferreira, bem no centro mesmo,

fica a Coluna da Hora.

Há quem diga que do alto do relógio é possível contemplar toda a história

de Fortaleza. Não explico a razão dessa afirmativa simplesmente porque não sei,

mas tenho lá meus motivos para pensar que por cima da Coluna da Hora o

tempo e o vento se perpetuam como se não tivessem o que fazer.

O coração da cidade

É cheio de nove horas

Vento passa a toda hora

Não tem hora pra parar

Era uma agradável noite morna de domingo. Sentado em um banco da

praça percebi a presença do Benedito na parte mais elevada da torre, logo

acima do relógio. Não sei se as outras pessoas também observavam aquela

inquietação do bacurau. Ele queria demonstrar alguma coisa, mas acho que só

queria fazer a suposta revelação para quem estivesse disposto a fazer daquele

momento um momento especial. Entendi assim e assim me pus a olhar, olhar,

olhar, até ir-me distraindo, distraindo, distraindo...

No começo daquela experiência fantasiosa, pelo brilho dos seus olhos,

que, com certeza, brilhava nos meus, fui formando vagas idéias da memória

da praça perdida no tempo.Tinha burburinho de pessoas tomando banho no

velho cacimbão, na época em que tudo por ali era um grande areal, com pés

23


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 24


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 25


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 26

de monguba e oitizeiros. Consegui alcançar uma imagem do Cajueiro Botador,

carregado de saborosos cajus ofertados pela natureza aos freqüentadores da praça.

Escutei a campainha dos bondes, as conversas no Abrigo Central, modinhas,

poemas, discursos, sons de comícios, passeatas, vaias, anedotas e um berro

escrachado do Bode Ioiô. O Bode Ioiô, para quem não sabe, era um bode de

verdade que parecia gente. Ficou tão conhecido e amado em Fortaleza a ponto

de ser o mais votado em uma eleição para vereador.De tantas molecagens acabou

com o corpo empalhado no Museu do Ceará.

Lembrei isso, lembrei aquilo, fui lembrando sem parar. Lembrei até o que

eu não sabia que poderia lembrar. O Benedito Bacurau tem esse poder de

provocar devaneios quando nos concentramos para admirar as suas travessuras.

Nessas horas, tenho a impressão de que ele, na condição de espírito da sabedoria

infantil, libera cenas do passado e até do futuro para ajudar na formação e no

discernimento das crianças para a vida. É uma das variedades da intuição.

Certamente já deve ter acontecido com você. São instantes de transe, quando o

olho da gente parece que quer enxergar mais do que pode e, para isso, aumenta

a pupila, embaçando tudo para que possamos ver através do olho da imaginação.

Isso é muito comum quando o bacurau está perto da gente.

Já era tarde da noite. Resolvi ir para casa dormir. A última sessão do Cine

São Luiz tinha acabado e as pessoas se dispersavam pelos quatro cantos da

praça. Ao notar que eu me preparava para ir embora, o Benedito Bacurau

passou a fazer gestos arrebatadores para chamar minha atenção. Seus olhos

faiscavam e mesmo de pé ainda consegui vê-lo como um canhão de luz

projetando no céu uma alegórica imagem de banda de música tocando alegres

dobrados. Juntamente com o som da metaleira, acompanhando a vibração da

percussão, vi surgir um lindo coreto que no passado havia sido soterrado para

dar lugar à construção da Coluna da Hora. Olhei para todos os lados e não

encontrei com quem compartilhar a beleza daquela visão maravilhosa. O

relógio deu doze badaladas e num piscar de olhos tudo voltou ao normal.

Tentei encontrar o bacurau, mas ele havia sumido enquanto sumia o coreto

encantado e o som da bandinha no meio do silêncio da noite.

26


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:53 PM Page 27

No berenguendém da meninada

ma das coisas de que o Benedito mais gosta, por ser um bacurau, é que

as noites de festa no interior acontecem naturalmente pertinho da casa dele.

Gosta de olhar, de sentir, de estar no meio do xenhenhém. No dia de festa no

interior tem muita música, dança, comidas típicas, leilões e brincadeira que

não acaba mais. Só quem já participou de uma movimentação dessas sabe do

que estou falando. As noites ficam cheias de bacuraus nas quadrilhas, nas

adivinhações e no balanço das bandeirolas coloridas penduradas em longos e

entrecruzados barbantes.

Faz até gosto ver tanta fogueira

Milho verde em noite de São João

Menino atrás da brincadeira

Enquanto o sol está pras bandas do Japão

Pessoas de todos os lugares se encontram, se falam, se abraçam, se beijam

e, claro, se divertem juntas.Tem jogo de argola, de pescaria, de pontaria, disso,

daquilo e de tudo o que a gente imaginar. O bacurau fica sem saber em que

se transformar e acaba se espalhando na festa toda. Para onde se olha tem um

pouquinho dele se danando, saltando por cima das fogueiras, soprando balões,

fazendo fita na corrida de sacos e ajudando os enamorados a descobrir suas

amadas escrevendo os nomes delas nas facas enfiadas em pé de bananeira. Ele

acha a melhor festa do mundo. É uma festa de desejos, de fé, de amizade, de

convivência, de acolhimento e de animado sentido comunitário.

Todo mundo cai na dança

Cai na farra, sai da toca

Todo mundo se balança

O Benedito Bacurau não se cansa de atiçar a criançada. Ele adora ver

alegria, brincadeira sem eira nem beira. Cabra-cega, berlinda, corrida de ovo

27


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 28


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 29


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 30

na colher, imitações de animais, cabo-de-guerra, carimba, passa-o-anel, pulasaci,

telefone-sem-fio, tampa de garrafa, palitinho, paus-de-sebo, paus-de-fita,

par-ou-ímpar, zerinho-ou-um, bolhas de sabão, a palavra é..., enfim, jogos,

trava-línguas, parlendas e a garotada pagando prendas.Adora também quando

tempos depois passa nas casas e encontra nas paredes os retratos da meninada

ao lado de painéis de santos populares, em cavalinhos de madeira ou com os

rostinhos de olhos arregalados postos em buracos reservados aos que querem

brincar de ser algum famoso personagem de folheto da literatura de cordel.

Contação de histórias, então, nem se fala, é a cara do bacurau. Pode ser

história de assombração, de labirintos, de príncipes e princesas, de duendes, de

seres fantásticos, de monstros do mar, de heróis anônimos, de anti-heróis, de

bichinhos de estimação, de animais selvagens, de mágicos, de florestas, de

desertos, de planetas distantes, de mistérios, fábulas e lendas. Onde quer que

se esteja contando uma história, o Benedito Bacurau está ao lado escutando

tudo, sem deixar escapar uma só pausa ou uma respiração mais profunda.

Contar histórias, ler livros de historinhas infantis e falar da aventura de viver

é, portanto, uma forma de os pais, avós, babás, tios, tias e amigos segurarem o

bacurau pertinho das crianças.

Pelas veredas, caminhos e estradas que cruzam o interior existem muitos

bacuraus em saltitantes voaduras. Não são vôos parecidos com os dos outros

pássaros, nem mesmo com os das outras corujas. Dão ares de pulos enviesados e

somem. Posso até estar enganado, mas quando é época de folguedos populares

aumenta a aparição de bacuraus por onde quer que se ande. Uma boa festa no

interior pode ser medida pela quantidade de olhos acesos de bacuraus que se

encontram ao longo do percurso. Mesmo na mais intensa escuridão eles podem

ser localizados pelo barulhinho do berenguendém da meninada, percutido na

animação, na língua-do-pê e nas graças da gente de A a Z.

30


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 31

O lado claro da Terra

stava próxima a data de aniversário da escolinha onde os nossos filhos

Lucas e Artur foram estudar pela primeira vez. A diretora me procurou para

saber se seria possível eu compor a música do evento. Fiquei feliz com a idéia,

mas não prometi nada. Isso foi pela manhã. À noite o Benedito Bacurau me

trouxe um sonho espetacular que jamais esqueci. No sonho, eu estava na Lua

sentado em um pequeno cais entre montanhas e crateras. Nada poderia ser

mais calmo naquela noite. De repente comecei a ser atraído por uma claridade

lírica que chegava com o nascer da Terra no horizonte da Lua. Eu não

conseguia acreditar no que estava vendo.

Comparando com as fases da Lua que vemos a partir da Terra posso dizer

que era uma noite de Terra Crescente ou uma Terra Minguante. Não era Terra

Nova porque na Lua Nova o disco lunar fica bem escuro; nem era Terra Cheia

porque na Lua Cheia a gente vê aquela bolona amarelada nascendo encantadora.

A aparição da Terra também era encantadora, mas como nas fases de Lua

Crescente e de Lua Minguante só dava para ver uma parte clara da superfície da

Terra. Uma linda parte em forma de bola achatada; uma elipse de maravilhas em

movimentações de cores e fios gasosos. No meio de tudo, no meio do azul do

que seria o mar, dava para enxergar as asas dos bacuraus como se fossem as velas

de jangadas brincando de navegar ao sabor travesso dos ventos.

Sonha, sonha, sonha

Sonha sonhador

Sonha todo mundo

Sonha meu amor

No dia seguinte fui à praia com o pequeno Lucas. Sempre tivemos o

hábito de, após brincar na areia e nos divertir nas ondas do mar, sentar na

sombra de uma barraca para tomar água de coco e comer pastel de arraia.

Naquele momento o vento jogou um guardanapo em cima de mim, numa

acrobacia que me lembrou o vôo do Bacurau. Imediatamente me lembrei do

31


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 32


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 33


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 34

sonho que tive na noite anterior. Heureca! Assim como eu havia tido o

privilégio de ver a Terra nascendo a partir de um cais na Lua, eu precisava mais

era aproveitar aquela iluminação bacuralesca para estimular o Lucas, na

fantasia dos seus três e poucos anos, a participar diretamente da composição

da música de aniversário da escolinha.

Canta, canta, canta

Canta, cantador

Canta todo mundo

Canta meu amor

Perguntei: “Filho, se a gente fosse fazer uma música bem legal para o

aniversário da sua escola, o que você gostaria de colocar na letra?”. Ele disse:

“Casa de bebê...”. E comentou em seguida que se referia à parte de creche na

qual era acolhido o seu irmão Artur.Anotei no guardanapo e pronunciei um

“Ah, que bom. Essa música vai ficar linda!”. Ele foi falando, falando e eu

anotando, anotando... Alguns motivos eu captei na hora, como o que falava de

um sino suspenso na parte externa do restaurante situado nas proximidades da

escola e que ele costumava bater escondido para, em seguida, cheio de bemhumorada

inocência, ter o prazer de informar ao segurança que tinha sido

o vento. Teve outras imagens cuja origem demorei a encontrar, como a do

beija-flor de plástico que vive a dançar permanentemente pendurado pelo bico

em um nicho de jardim, localizado na entrada da escola. O certo é que tudo

o que o Lucas disse saiu, para virar música, como um entendimento espontâneo

da sua principiante vida escolar.

É difícil pensar como seria esse desfecho caso eu tivesse seguido por um

caminho diferente. Foi certamente a serenata de silêncio profundo, com a qual

através do sonho do bacurau venerei a Terra a partir de um pequeno cais

lunar, que me levou a perceber o tanto que cabe a uma criança a preferência

de compor a música da sua própria escola. Sinto-me feliz por ter descoberto

o prazer de participar da aventura galante de compor uma música assim, tão

largada, tão simples e poética na expressão dos sentimentos infantis. Digo isso,

porque no dia da festa, ao observar as crianças cantando o nosso xote

romanesco, tive a sensação de estar revendo o mesmo bando de bacuraus que

lá da Lua pude ver rondando a Terra. E certamente estava.

34


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 35

Um certo Senhor Escaravelho

De todas as aventuras que o Benedito Bacurau tem vivido na sua

viagem de transcendência pelo mundo infantil, a que talvez mais se pareça

com uma fábula tradicional seja a do rola-bosta misterioso da escola dos Meninos

Tristes. Ali, mesmo na hora do intervalo, as crianças saíam para o pátio sem

muita vontade de brincar. Era impressionante. Quer dizer, vontade elas tinham,

o que faltava era motivo para serem alegres. Para matar o tempo, trocavam

socos, empurrões e insultos desmedidos. Matavam o tempo e só faltavam

matar umas às outras.Afora o período do recreio, não se sabe o que acontecia

com elas na sala de aula, em casa e por onde quer que circulassem. Nem

mesmo o bacurau conseguia chegar perto delas.

Numa ocasião em que elas se entretinham exclusivamente com novos golpes

e pancadas, devidamente ensinados pelos monstros digitais da tevê, a natureza

humana não suportou aquela protuberância da bobeira e as transformou em

esterco. Ficariam ali até que aparecesse pelo menos um pai ou uma mãe capaz

de dar atenção afetiva e demonstrar disposição de brincar um pouquinho com

elas. E por esse feito, para quebrar o encanto, a atitude teria que ser retribuída

com um beijo de puro carinho. Parecia um feitiço sem jeito. A sorte delas

é que a transformação foi em fezes de animal herbívoro, portanto tornandoas

dignas da atenção do inseto rola-bosta. Herbívoro é o bicho que se alimenta

de vegetais e rola-bosta é um inseto que vive do cocô dos herbívoros.Vendo

tudo aquilo, o bacurau não se conteve e saiu espalhando a notícia das crianças

que tinham virado excremento, na tentativa de despertar o instinto dos rolabostas.

Com você quero brincar

Bater bola, rola-rola

Pique-cola, pede (pé de) mola

Bem na hora de saltar

35


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 36


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 37


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 38

Não demora muito e chega o primeiro rola-bosta. Reconhece o apelo

do Benedito Bacurau, mas exige ser chamado de Senhor Escaravelho. Arregaça

as mangas da camisa, faz a bolinha de cocô, coloca as patinhas dianteiras no

chão e com as traseiras sai empurrando, empurrando, empurrando e empurrando

a bolinha até o portão da escola, quando despedaça o esterco e descobre que

o ovo que está lá dentro não é o seu. Faz isso repetidas vezes.Várias e várias

vezes, sem se cansar, sem desanimar. Mostra que está decidido a encontrar a

cria nos excrementos. E encontra. Dá pulos de satisfação, chama para brincar

e recebe um beijo de puro carinho. O encanto é desfeito instantaneamente e

todas as crianças voltam ao normal, mas ainda meio tontas e sem saber o que

fazer. O rola-bosta, quer dizer, o Senhor Escaravelho, ou melhor, o pai que

teve a coragem de quebrar o feitiço, sugere que todas retornem ao canto do

pátio em que se vê uma bola bem colorida.

E eu que nem sei jogar

Por você eu jogarei

E se você me abraçar

Com você eu brincarei

A bola colorida exibe um desenho bem diferente e não é ninguém mais

ninguém menos do que o Benedito Bacurau em forma arredondada e pululante

para cumprir o seu esforço de estimular a força vital da infância. Quando os

outros rola-bostas começam a chegar apressados para pegar a filharada nem

acreditam na felicidade que presenciam. Conferem o endereço da escola para

ter certeza de estar no lugar certo. Alguns sentem uma pontinha de vontade

de cair na folia e, a exemplo do Senhor Escaravelho, conseguem desencantar.

Infelizmente muitos perdem os filhos por entenderem que têm coisa mais

importante a fazer na condição de ilustres rola-bostas. Com todo o respeito

ao inseto.

38


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 39

O segredo da casa gigante

xistem bacuraus por todo o planeta. O Benedito sabe muito bem

disso. Essa consciência lhe dá a sensação de fazer a vida acontecer. É isso mesmo,

minhas amigas e meus amigos: fazer a vida acontecer; porque viver é uma

construção ininterrupta. E ininterrupto quer dizer o tempo todo, sempre, sem

parar. Assim como as crianças, os bacuraus de uns lugares são diferentes dos

bacuraus de outros lugares,mas são bacuraus.Por isso essas corujinhas maravilhosas

podem cumprir tão bem o seu papel de espírito da infância em todas as brincadeiras

em qualquer país ou região. Brincar também é um verbo que pode ser

traduzido e escrito nas mais diferentes línguas, mas em todas elas consegue

manifestar alegria, distração, diversão, enfim, devaneios em movimentos livres.

De tanto andar por todo canto, o Benedito acabou descobrindo quanto é

importante se reconhecer como de um determinado lugar. Um lugar onde não

somos visita, um lugar para voltar, um lugar onde as semelhanças nos aproximam

sem precisarmos viajar. Ele me contou o quanto fica contente quando alguém

quer saber de detalhes da sua terra natal.Gosta também de perguntar sobre como

é a vida em outros lugares. Acha muito engraçado como o que tem valor para

uns povos às vezes parece insignificante para outros. Quando olhamos a todos

com o coração, isso pouco importa. No fundo, no fundo, não há melhores

ou piores, apenas diferentes nas mais diversas situações. Conversando com o

bacurau, ele me disse, e eu acreditei, que na verdade um país é feito dos desejos

de felicidade que associamos ao lugar que nos acolhe no mundo.E, claro,do jeito

que encontramos para fazer a vida acontecer.

Negro, nativo, branco

Mestiço brio

Pau-brasil

Sinto muito prazer por ser brasileiro. Desde menino que não paro de ter

curiosidades sobre a mistura de raças e de naturezas desse pedaço de terra que

é parte de um planeta que se chama Terra. Às vezes achava tudo isso muito

confuso. Recordo que um dia conversei sobre o assunto com o bacurau. Ele

me disse que o nosso país é como uma casa gigante, cheia de muita gente,

39


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 40


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 41


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 42

com muitos compartimentos, janelas, portas, jardins, quintais e muita, muita

coisa para a gente fazer. Fiquei pensando e me perguntando ao mesmo tempo:

“mas eu sou tão pequenininho, o que posso fazer de interessante dentro de

um país tão grandão?”. Enquanto eu tentava pensar em uma resposta, o

Benedito entrou nos meus pensamentos e disse que eu, assim como toda

criança, só teria que desvendar o segredo da casa gigante para poder crescer de

verdade. Soprou essa provocação e desapareceu.

Desvendar o segredo da casa gigante. É isso. O mundo é um só e os países

são as casas gigantes do mundo, com vizinhos que moram longe e outros que

moram perto, mas todos são vizinhos. Será isso? Acho que sim. Cada lugar tem

cheiros especiais para a gente cheirar, belas paisagens para a gente contemplar,

sons e climas encantadores, sabores e o jeito de ser e sonhar dos seus habitantes.

Tem um pouquinho de tudo o que todas as pessoas fizeram em todo o tempo

do mundo. Essas coisas todas são as culturas. Todas as culturas. Mesmo as que

foram destruídas continuam em algum lugar do que somos nas brincadeiras de

roda do planeta. Se os países são as casas gigantes do mundo, precisamos cuidar

deles como cuidamos das nossas casas.Acredito que cuidar de uma casa e tornála

agradável, boa de morar, com um jardim bem bonito, é uma aventura sem fim.

E quanto mais cuidamos do nosso País, mais nos vemos nele e mais nos damos

valor.Só amando com profundidade o lugar que cuidamos poderemos realmente

cuidar do mundo e fazer da vida um prazer de viver.

Tenho a impressão de que o segredo da casa gigante, que o Benedito

Bacurau me desafiou a descobrir, passa por essa aventura que não acaba nunca.

Tem sempre o que fazer: varrer, pintar, lustrar, mudar de cor, rearrumar os móveis,

sacudir poeira, trocar os quadros da parede, limpar as janelas, regar as plantas,

receber amigos, conversar uns com os outros, enfim, fazer muitas coisas ao

mesmo tempo para viver mais e aprender mais a amar mais e mais. Estive

pensando, pensando e pensando sobre essa história.Acho que descobri o segredo

de tudo isso.Talvez não seja a única resposta. Sempre existem muitas respostas

para uma mesma pergunta. Mas depois de pensar e pensar e pensar, encontrei

uma solução que me parece bem razoável.Tanto que, na primeira oportunidade

em que eu me deparar com o bacurau, vou dizer para ele o seguinte: o segredo

da casa gigante é que nela nunca paramos de ter o que fazer e que só se cansa

dessa aventura quem fica parado. Acho que ele vai adorar.

42


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 43

Onde mora o arco-íris

a aula dos porquês a professora fala que mesmo em período de seca

a terra é molhada toda noite com a umidade suave do orvalho, como se a

natureza resistisse ao avanço dos desertos. Nesses momentos de curiosidade é

comum a presença desperta do Benedito Bacurau nas perguntas das crianças:

“E por que a gente não consegue ver o sereno da noite? É uma chuvinha

invisível?”. E a turma toda fica interessada no assunto. A professora propõe que

seja feita uma expedição em busca da resposta.

O grupo se prepara. Dentro de uma mochila o binóculo é colocado ao

lado do microscópio, mas não gosta muito de viajar ao lado daquele instrumento

de observar coisas miúdas. Eles seguem para um bosque bem distante da

cidade, escolhem uma área aberta e fazem o acampamento.A noite está calma.

Nada parece se mexer. No céu não há nuvens, só estrelas, muitas e muitas

estrelas cintilantes.As barracas são armadas e todos se preparam para esperar a

chegada da chuva invisível.As lanternas ficam desligadas.A experiência exige

negrume total. Como o céu está completamente limpo, eles recorrem ao

binóculo para olhar as estrelas e observar com mais atenção a brilhante Estrela

Dalva, que na verdade é o planeta Vênus.

Pelas lunetas

Viram planetas

Viram estrelas

Na ciranda da visão

A professora explica que o pontinho de luz que não está piscando no céu

é um planeta. Diz que, assim como Vênus, o planeta vermelho, como é chamado

Marte, naquele dia também pode ser visto a olho nu. O tempo passa. Uma

criança observa que “pode ser que, com tanta gente olhando, a chuva fique sem

jeito de chegar”. Surge uma idéia: “Pois vamos fingir que estamos dormindo,

43


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 44


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 45


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 46

daí quando começar a cair água a gente sai de uma vez e surpreende o jardineiro

misterioso”.Todos concordam e entram nas barracas.

Embalados pelo silêncio e pela escuridão eles dormem de verdade. De

madrugada, bem perto do amanhecer, ouve-se um grito:“Descobri, descobri!

Choveu em cima de mim! Eu vi! Eu senti!”.Todos acordam para examinar o

que está acontecendo. Não é nada demais. Quando meninos e meninas sonham

com bacuraus, o sono pode ser tão profundo que muitas vezes não conseguem

acordar e fazem xixi na cama. Ou no saco de dormir, como é o caso. Mas as

barracas também estavam molhadas por fora, as pedras umedecidas e frias, e as

folhas da relva pareciam ter acabado de sair do banho.

Quando o sol começa a nascer, as crianças notam pingos e mais pingos

de água pendurados nas folhas da vegetação. Nem conseguem acreditar no

esplendor do orvalho. Pegam o microscópio para ampliar e analisar as gotas

cristalinas e contemplam um mundo colorido do tamanho do mundo, um

universo de galáxias em corrupio. Todos se abraçam emocionados. Tinham

feito uma grande descoberta e nunca mais seriam os mesmos.

Por entre as lupas

Deram com a paz

No fundo do coração

De volta para a cidade, dentro da mesma mochila, o binóculo e o microscópio

também não eram mais os mesmos:“Gostei de ver. Embora acostumado a

aproximar tudo que está longe e a ver surgir e desaparecer os arco-íris, eu não

sabia onde era a casa deles”,disse o binóculo comovido com a imensidão contida

numa simples gota de água e que só o microscópio pôde revelar.

46


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 47

Disfarçado na charanga

a noite em que descobri que o Benedito Bacurau tinha o poder de

se transformar em qualquer coisa que fosse necessária para promover uma boa

brincadeira, ele estava metido em uma bandinha de música na maior animação.

Fiquei olhando, assim meio como quem não quer nada, para ele não desconfiar.

Por alguns instantes ele aparecia na forma de um imponente e majestoso

saxofone. De repente eu sentia que ele estava na alegria dedilhada do trompete

ajudando a dar vida à bagunçada. Num piscar de olhos ele escapava e podia

ser visto no estica-e-puxa do esbelto trombone de vara. Sei que era ele porque

quando o trombonista soprava o braço bem para longe eu via as perninhas do

bacurau esticando como liga de baladeira.

Vamos brincar

Brincar agora

Subindo e descendo a rua

Terreiro da lua

Onde a fantasia mora

Benedito Bacurau voava entre os instrumentos saltitando na vibração da

música pela rua. Para qualquer lugar, em todos os sentidos. Para cima, para

baixo, para um lado, para o outro. Um ziguezague danado. Ele deslizava em

rodopio no reluzente cone circular da tuba, dando muitas e muitas voltas e

parecia não ficar tonto nem nada. E olhe que a tuba é um instrumento musical

bem grandão. Mesmo assim, naquela diversão toda, o bacurau ainda conseguia

se transformar em tuba. Eu vi, por isso não há por que não acreditar. Era uma

tuba engraçada, uma tuba com um bico bem pequenininho lá em cima e uma

boca enorme escancarada. Só que em vez de estar aberta para pegar insetos,

aquela boca do tamanho não-sei-de-quê se unia aos bonecos cabeçudos para

fazer a festa.

47


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 48


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 49


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 50

Passa o gato da Alice

Passa a boneca sapeca

Passa a comadre florzinha

O clarinete, que também é um instrumento de sopro, mas de madeira,

nunca tinha imaginado que poderia ser um bacurau encantado. Naquela noite

tocou como nunca se ouviu. Parecia um irmãozão mais velho harmonizando

as sonoridades de comunhão da meninada. Quando o Benedito Bacurau

passou pelo zabumba, marcando o ritmo da brincadeira, notei que muita

gente, que ainda estava com preguiça de se mexer, acertou logo o passo do

divertimento. Depois do disfarce de zabumba, tive a impressão de que o bacurau

ficou aliviado que só, ao se metamorfosear em um vibrante tarol. Eu já ia

imaginando como é que ele conseguia passar de um tambor tão grande para

um outro bem menor, mudar de timbre, de bordão, de macetas para baquetas,

garantindo a cadência da brincadeira, quando ouvi um brilho todo especial

na percussão metálica dos pratos em choque varando o ar. Era eu que não

parava de dançar, de cantar, de pular, de descobrir que, como todas as crianças,

todos os adultos e todos os instrumentos daquela diversão, eu tinha um bacurau

solto dentro de mim.

50


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 51

Semeadores de árvore de Natal

ois alunos chegaram antes da hora da aula e começaram a fazer um

teatrinho para dar vida ao tempo. Eles eram apenas dois e decidiram que

seriam duas as personagens. Como estavam dentro da sala de aula, decidiram

que o palco seria a própria sala de aula. Era época de Natal, então decidiram

que o tema seria natalino.

ENTREATO PARA DUAS CRIANÇAS E QUEM MAIS CHEGAR

CENA I (O vento sopra e uma semente entra pela janela e cai no piso da sala)

MENININHO – Olha só, temos mais um personagem para a nossa peça. Bem-vinda,

sementinha!

MENININHA (Apanhando a semente com as mãos) – Arrá! E ela parece até que está

quase pronta para virar uma plantinha.

CENA II (Chega a moça da limpeza para arrumar a sala)

FAXINEIRA (Entrando com ar de curiosa e ao mesmo tempo antecipando deduções)

– O que vocês estão fazendo? Brincando de quê?

MENININHA – De teatro, ora mais. Temos nós dois, essa sementinha e agora você.

Quatro personagens.

MENININHO (Confirma positivamente com a cabeça) – Acho que a sementinha

pode fazer o papel de bebê de árvore de Natal. E você?

FAXINEIRA (Com deslumbre) – Eu? Eu vou cuidar dela como se fosse minha filha.

CENA III (Cantando e dançando, a faxineira esquece da vassoura e do pano de chão)

FAXINEIRA (Embalando a sementinha) – Vem cá, pequenininha, vem crescer nessa

brincadeira, vem ser uma bela, brilhante e querida árvore de Natal.

51


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 52


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 53


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 54

Será a sementinha da flor mais perfumada?

Será a sementinha de rosa maltratada?

Será a sementinha de chá medicinal?

Será a sementinha de árvore de Natal?

CENA IV (A professora chega, percebe o clima da brincadeira e resolve não

atrapalhar. Fica observando pela brecha da porta sem ser notada)

MENININHO (Um tanto imaginativo) – Como vamos saber se ela é mesmo a sementinha

de uma árvore de Natal? Na minha casa a árvore de Natal é um pinheiro e tem

neve de algodão.

MENININHA – Na minha também. E não é uma plantinha viva; parece assim meio

de plástico. Bem verdinha, mas de plástico.

FAXINEIRA (Fingindo incompreensão) – Ih! É mesmo. Aqui por perto não tem

nenhuma árvore de Natal que possa ser a mãe dessa sementinha. Neve, então, nem

pensar.Tem é um sol bonito que só.

CENA V (Todos se viram para a sementinha)

TODOS – Seja você da árvore que for, você será a nossa árvore de Natal.

MENININHO – Mas onde ela deve ser plantada?

FAXINEIRA – Pois é, na casa de quem?

MENININHA – Talvez num lugar onde todos possam admirar a sua beleza.

CENA VI (A professora entra como se não estivesse sabendo de nada)

PROFESSORA (Apontando para a sementinha) – Mas que bonita sementinha de árvore

de Natal. Onde vocês a encontraram?

MENININHO (Faz sinais ondulados com o braço em direção à janela) – Foi o vento

que trouxe para cá.

PROFESSORA – Vocês sabiam que Jesus foi a primeira sementinha de árvore de Natal?

MENININHA (Surpresa) – Como assim?

PROFESSORA – É que a festa de Natal simboliza o nascimento do filho de Deus.

FAXINEIRA – E Jesus nasceu como essa sementinha, assim meio jogado pelo mundo.

Se fosse hoje poderia até ser uma dessas crianças que moram nas ruas...

54


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 55

MENININHO (Manifestando uma descoberta) – Então é melhor a gente levar a

sementinha para plantar na praça!

MENININHA – Boa idéia.Acho que o Papai do Céu vai gostar.Assim Ele pode ficar

olhando para ela quando quiser.

CENA VII (Chegam outras crianças para a aula)

FAXINEIRA (Empolgada) – Ei, meninada, vamos com a gente plantar essa sementinha

lá na praça?

CRIANÇAS (Em coro) – Uma semente de quê?

MENININHA – Não sabemos ainda.

MENININHO – Mas seja do que for, será a nossa árvore de Natal.

CRIANÇAS (Dispostas) – Vamos lá, gente!

CENA VIII (Ainda com as mochilas nas costas, elas passam pela coordenadora

pedagógica e a convidam para a aventura)

MENININHO – Vamos com a gente também.

MENININHA (Querendo convencer) – É bem rapidinho.

FAXINEIRA (Esboçando uma desculpa) – A sala já está bem limpinha.

COORDENADORA (Dirige-se à professora tentando entender o que se passa) – Tem

alguma atividade externa para hoje?

PROFESSORA – Não havia não, mas estou indo até a praça com esses semeadores de

árvore de Natal...

COORDENADORA – Semeadores de árvore de Natal? Não estou entendendo nada,

mas pela cara de vocês deve ser uma coisa muito boa.

PROFESSORA – Vamos também, no caminho você vai saber.

TODOS (Convidando) – É, vamos!

(Cai o pano.)

55


pg_bacurau.qxd 11/10/05 5:54 PM Page 56

Sobre o autor

O ônibus ainda estava com as luzes acesas, mas já dava para ver o caminho

refletindo os primeiros raios de sol nascente. Da janela observei meus pais acenando

para mim com o espírito sobranceiro da esperança. Sorri para eles com o sorriso

contente de quem conquista a chance de continuar estudando, mesmo longe de casa.

Eu tinha completado 17 anos.Todos vividos intensamente no Sertão dos Inhamuns,

interior do Ceará. Desde 1959.

Antes da partida, rumo a Fortaleza, meu pai, Toinzinho, tinha-me dito que eu

procurasse ser flexível, mas que não deixasse de lutar para ser o que eu quisesse ser. E

me deu a segurança de que acontecesse o que acontecesse ele e a minha mãe sempre

estariam lá em casa para me acolher. Passaram-se os anos e fui reforçando em mim a

sensação de que “ter uma existência” é a grande chave da vida. Somos o que vamos

contando do que sentimos e fazemos.

Guardei comigo a magia daquela luz crepuscular. Ela tem a cor do mundo das

corujinhas de estrada. Lembra seus cantos misteriosos e a história de que os papais

bacuraus mudam os ovos de lugar quando pressentem qualquer ameaça. Em Fortaleza,

me tornei jornalista, casei com a Andréa e temos dois filhos, o Lucas e o Artur.

Atualmente escrevo para o Diário do Nordeste, tenho publicado livros, gravado discos e

participado de ações culturais e de cidadania.

Por muitas vezes me peguei pensando em encontrar uma maneira de dizer aos

meus filhos o que significa “ter uma existência”. Até que um dia desses estávamos na

casa dos avós deles, em Independência, e eles me viram bebendo água em um copo

de plástico com a borda toda marcada por dentes infantis. Quiseram saber de quem

era aquele copo. Expliquei que era meu quando menino. Disse que a Dona Socorro,

minha mãe, o lavava dia após dia como se eu nunca tivesse saído de casa nem

tampouco tivesse largado a mania de guardar o copo dentro da geladeira.

Eles olharam para mim com olhos desejantes e perguntaram se poderiam beber

água no mesmo copo. Sorri para eles com o sorriso contente de quem diz sim.

www.flaviopaiva.com.br

flaviopaiva@fortalnet.com.br

56

More magazines by this user
Similar magazines