alemmar-fev-2020

youongroup

Revista mensal | Nº 699 | Ano LXIV | Preço 1,50 € (IVA incluído)

além-mar

Fevereiro 2020 | www.alem-mar.org

Perspectiva Missionária

dia do doente

IGREJA SAMARITANA


MISSIONÁRIOS COMBONIANOS

ao serviço do evangelho no mundo

INSTALE NO SEU DISPOSITIVO

MÓVEL A APLICAÇÃO

DOS MISSIONÁRIOS

COMBONIANOS

O missionário comboniano

P. e Marcelo Oliveira na R. D. do Congo

CASAS EM PORTUGAL


Perspectiva Missionária

além-mar

Ano LXIV | Nº 699

sumário

Propriedade:

Missionários Combonianos

do Coração de Jesus

Pessoa Colectiva nº 500139989

Redacção

Director: Bernardino Frutuoso (CP 6411 A)

Redacção: Carlos Reis (CP 2790 A);

Fernando Félix (CP 1902 A)

Correspondentes: Arlindo Pinto (Roma);

Feliz Martins (Sudão); Jairo García

(Colômbia); António Carlos Ferreira

(Filipinas)

Colaboradores: Ana Glória Lucas;

António Marujo; Fernando Domingues;

Fernando Sousa; Filipe Messeder;

Francisco Sarsfield Cabral; José Vieira;

Manuel Augusto Ferreira; Marco Bello;

Margarida Santos Lopes; Paolo Moiola;

Susana Vilas Boas

Revisão: Helder Guégués

Paginação: Luís Ferreira

Arquivo: Amélia Maria Neves

Redacção:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286

E-mail: alem-mar@netcabo.pt

Estatuto Editorial: www.alem-mar.org

ADMINISTRAÇÃO

Administrador: Jorge Brites

Sede do editor e Administração:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286 | Fax 213 900 246

E-mail: editalemmar@netcabo.pt

Assinaturas

Edição em papel: € 15,00

Edição digital: € 10,00

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Pagamento por multibanco:

Entidade: 20105

Referência: o número de assinante

(por cima do nome na folha com a sua

direcção)

Produção gráfica e impressão:

Jorge Fernandes, Lda.

Quinta Conde Mascarenhas, L 9

2825-259 CHARNECA DA CAPARICA

16

28

SAÚDE

O terceiro Objectivo de Desenvolvimento

Sustentável pretende assegurar

uma vida saudável e promover o bem-

-estar para todos, em todas as idades,

até 2030.

IRÃO

As previsões são sombrias: uma vitória

dos “duros” nas eleições deste

mês, uma guerra por procuração e a

morte do agonizante acordo nuclear.

04 Fórum

05 Editorial

06 Actualidades

11 África minha

12 Igreja em missão

13 Contraponto

14 Do alto dos Andes

26 Casamento infantil

36 Sudão

44 Vida missionária

50 Livros

51 Discos

52 Povos e Culturas

55 Apontamentos

56 Vocação & Vida

Registo na ERC com o n. o 100668

Depósito legal: 7934/85

ISSN 0871 – 5661

Tiragem do número anterior:

16 769 exemplares

além-mar tem o exclusivo para Portugal dos

serviços das seguintes revistas estrangeiras:

Nigrizia (Verona) | Mundo Negro (Madrid)

| Esquila Misional (México) | Misión sin

Fronteras (Lima) | Iglesia Sinfronteras

(Bogotá) | World Mission (Manila) | New

People (Nairobi) | Worldwide (Pretória)|

| Afriquespoir (Kinshasa).

A nossa página

na Internet:

www.alem-mar.org

40

46

CHILE

Os protestos sociais estão a questionar

a desigualdade e o modelo de desenvolvimento

socieconómico adoptado.

GENTE SOLIDÁRIA

A Casa da Alegria é uma instituição católica

situada em Lusaca (Zâmbia), que

acolhe meninas órfãs de pai e mãe.

Foto de capa: © Friedrich Stark / Alamy Stock Photo

além-mar | Fevereiro 2020


fórum

Estatuto editorial da

revista «Além-Mar»

RETRATOS

A Além-Mar, revista missionária

mensal, é uma publicação de inspiração

missionária. Pretende promover

os valores da paz, da justiça,

da solidariedade e do respeito pelo

ambiente e os direitos humanos.

Aos leitores residentes no País quer

dar a conhecer os problemas mundiais

(sociais, eclesiais, económicos

e políticos), especialmente os dos

países menos desenvolvidos, informar

sobre o trabalho dos missionários

portugueses espalhados pelo

mundo e alimentar a vocação histórica

universalista e solidária; para

os leitores residentes além-fronteiras,

é um veículo de notícias e

iniciativas desenvolvidas aqui, fomentando

a preservação e o desenvolvimento

da língua e da cultura

portuguesas no seu encontro com

outras culturas. Deste modo, a revista

é um elo com todos os missionários,

emigrantes e comunidades

portuguesas e um instrumento de

cooperação e aproximação entre

Portugal, os países lusófonos e o

resto do mundo.

A Além-Mar é associada da Missão

Press e da Associação de Imprensa

de Inspiração Cristã (AIC).

Não tem fins lucrativos. É distribuída

por assinatura (não se vende

nas bancas) nacional e internacionalmente

a partir de Lisboa. Chega

aos países de expressão oficial portuguesa,

aos missionários e às comunidades

portuguesas dispersas

pelos cinco continentes.

Como revista que se pretende de

referência, respeita os princípios

deontológicos e a ética profissional

dos jornalistas, assim como a boa-

-fé dos leitores.

02 Dia Mundial das Zonas

Húmidas

04 Dia Mundial do Cancro

06 Dia Internacional da

Tolerância Zero à

Mutilação Genital

Feminina

Dia Europeu da Internet

Segura

© Lusa/David Guzman

Fevereiro

Informação e diálogo

agenda de fevereiro

intenção do papa

11 Dia Mundial do Doente

Dia Internacional das

Mulheres e Meninas

na Ciência

13 Dia Mundial da Rádio

20 Dia Mundial da Justiça

Social

21 Dia Internacional

da Língua Materna

Rezemos para que o clamor dos irmãos migrantes vítimas do tráfico criminoso seja

escutado e considerado.

Veja o comentário do Papa Francisco em: www.apostoladodaoracao.pt/o-video-do-papa

2020 Fevereiro | além-mar


editorial

perseguidos e invisíveis

© 123RF

Bernardino Frutuoso

Director

As comunidades

cristãs

perseguidas

são sementes

vivas do

Reino de

Deus e sinais

de perdão,

reconciliação,

paz e

fraternidade.

Em Novembro passado, o Papa

Francisco celebrou a Eucaristia

na Catacumba de Priscila,

em Roma. É um cemitério dos

primeiros séculos do Cristianismo, que

abrange treze quilómetros de galerias

subterrâneas. Nessa ocasião, o Santo

Padre lamentou que haja «tantas catacumbas

noutros países, onde os cristãos

devem fingir comemorar um aniversário

para celebrar a Eucaristia, que é proibida

para eles». E sublinhou que nos dias de

hoje «há cristãos perseguidos, mais do

que nos primeiros séculos», indicando

que, em muitos países, «ser cristão é um

crime, é proibido, não é um direito».

Efectivamente, parece que a globalização

da violência e a perseguição religiosa

estão a ser uma constante no novo

milénio. Hoje em dia, segundo os dados

do último relatório da Portas Abertas,

estima-se que mais de 245 milhões de

pessoas no mundo são vítimas de graves

perseguições por professarem a fé em

Jesus Cristo. Nos 150 países analisados

pela organização no último ano, foram

assassinados

2983 cristãos,

3711 foram

detidos e 9488

igrejas foram

atacadas.

São números

dramáticos,

em constante

aumento. Além

disso, milhões

de fiéis cristãos

são oprimidos,

humilhados,

torturados,

discriminados,

condicionados

na vida privada

e pública por

causa da sua

crença religiosa.

São múltiplos

os motivos

para oprimir

e perseguir as comunidades cristãs.

Relacionam-se com o ressurgimento do

fundamentalismo islâmico, mas também

com as questões do nacionalismo

religioso de algumas nações, nomeadamente

a China e a Índia, enfrentamentos

de tipo étnico ou tribal, acções de

controlo social de governos autoritários

ou ditatoriais.

A perseguição aos cristãos é um

escândalo e um retrocesso civilizacional.

À discriminação, incerteza, impotência,

medo e dor que sofrem esses crentes,

junta-se a pouca relevância que lhes é

dada no cenário internacional. E essa indiferença

social deve ter alguma explicação.

Regis Debray (n. 1940), um filósofo

e cientista social francês, menciona a

metáfora do «ângulo morto», aquele

que as câmaras de cinema e fotografia

ignoram. Usando essa representação simbólica

como chave para interpretar este

fenómeno social, pode-se compreender

que, para o mundo ocidental, os cristãos

perseguidos não são visíveis, não

inquietam, não interessam, não são uma

prioridade.

Hoje, os cristãos são um dos maiores

colectivos sociais vítimas de hostilidades,

apesar dos muitos tratados internacionais

que consagram o direito fundamental

da liberdade religiosa. Apesar disso,

nos mais variados contextos sociais de

sofrimento, intolerância e acosso em

que vivem, esses discípulos de Jesus não

sucumbem, mantêm-se fiéis no seguimento

do Mestre de Nazaré. Em muitos

países, os missionários acompanham-

-nos nessa peregrinação marcada pelo

sofrimento e a morte – no ano passado

foram assassinados 29 católicos, homens

e mulheres, testemunhas do Evangelho

sem fronteiras e do amor universal. Essas

comunidades cristãs perseguidas são

sementes vivas do Reino de Deus e sinais

de perdão, reconciliação, paz e fraternidade.

São um apelo constante para a

construção de um mundo melhor, onde

se consolide o respeito pela dignidade e

os direitos de todos. am

além-mar | Fevereiro 2020


foto do mês

Foto: © Lusa/Esteban Biba

u Caravana deportada

Governo mexicano avisa que vai deportar todos os

O elementos de uma nova caravana de migrantes da

América Central que atravessou de forma ilegal o rio

Suchiate, fronteira natural entre a Guatemala e o México,

fugindo da fome e da violência. Três mil migrantes

foram detidos na cidade guatemalteca de Tecun Uman,

onde exigiam passagem livre pelo México para chegar

aos Estados Unidos, país que ameaça o México com

sanções caso permita que os migrantes cheguem ao

seu destino desejado.

2020 Fevereiro | além-mar


&

pessoas factos

u

u

u

u

O relatório The Global Risks Report

2020, promovido pelo Fórum

Económico Mundial, aponta

para o incremento da «turbulência

geopolítica tendente a

produzir um mundo unilateral

instável». No topo da lista de

riscos estão as ameaças ao clima

e a turbulência geopolítica,

no longo prazo, e as confrontações

económicas e a polarização

política, no curto prazo.

O ideólogo das independências

da Guiné-Bissau e Cabo Verde,

Amílcar Cabral (1924-1973), integra

a lista ‘Who was the greatest

leader in history?’, dos 20

maiores líderes mundiais de todos

os tempos, elaborada para

a revista BBC World Histories

por um grupo de historiadores.

A partir da lista, os leitores elegem

este mês o grande líder

histórico mundial.

A União Europeia, Estados Unidos

e Japão chegaram a acordo

para reforçar as regras de subsídios

industriais e condenam

as práticas de transferência

forçada de tecnologia no âmbito

da Organização Mundial de

Comércio. Sem referir a China,

o comissário para o Comércio

europeu, Phil Hogan, diz tratar-

-se de «um passo importante»

nas questões que distorcem o

comércio mundial.

O Governo do Sudão anuncia

ter neutralizado uma revolta

no Serviço Nacional de Informações

e Segurança (NISS).

«A vida retomou a normalidade»,

assegura o general Abdel-

-Fattah Burhan, chefe do Conselho

de Transição do Sudão

(SCS), que já tinha decidido

restringir competências do NISS

às funções de informação, desmantelando

a área de operações

de segurança.

além-mar | Fevereiro 2020


actualidades

© 123RF/Igor Yu. Groshev

© Lusa/Dan Himbrechts

MALÁSIA

Devolução de lixo

As autoridades da Malásia devolveram 150 contentores ilegais de lixo aos

países de origem, entre os quais a França e o Reino Unido, com cerca

de 3,7 mil toneladas de resíduos e prepara o envio de mais 110 contentores.

As autoridades «tomarão as medidas necessárias para garantir que a Malásia

não se torne o depósito de lixo do mundo», garante o ministro do Meio

Ambiente, Yeo Yin. Os países exportadores e as companhias de navegação

suportaram o custo da devolução.

Os países do Sudeste Asiático têm lutado para lidar com a crescente chegada

de desperdícios desde a decisão da China, em 2018, de parar de importar

resíduos plásticos para a sua indústria de reciclagem, forçando os

países desenvolvidos a encontrar novos destinos para os seus desperdícios.

AUSTRÁLIA

Aborígenes temerosos

Aborígenes da costa sul de Nova Gales do Sul temem que os fogos que

assolaram esta região da Austrália possam ter destruído ou danificado

vários locais de grande importância cultural. «São os piores fogos da

nossa História. A nossa gente nunca viu fogos assim. Está na altura de nos

ouvirem para cuidar do país», reage Warren Forster, da comunidade Yuin

Djiringanj, referindo-se à importância das práticas ancestrais aborígenes

na definição de políticas de gestão de florestas e ecossistemas na Austrália.

© Lusa/Christian Escobar Mora © Lusa/Leonardo Munoz

VENEZUELA

Regime ilegal

Parlamento Europeu reitera

O o apoio ao opositor e autoproclamado

presidente interino

da Venezuela, Juan Guaidó, e

condena a «eleição ilegal» de Luís

Parra como presidente da Assembleia

Nacional. Os eurodeputados

pedem ao alto-representante da

UE para os Negócios Estrangeiros

para alargar as sanções aos

responsáveis pelas violações

dos direitos humanos e actos de

repressão na Venezuela.

COLÔMBIA

Guerrilheiros a proteger

emissário das Nações Unidas

O para a Colômbia, Carlos Ruiz,

apela ao governo do presidente

Iván Duque que proteja os ex-

-combatentes da antiga guerrilha

revolucionária FARC. «A paz na

Colômbia não poderá ser plenamente

alcançada se continuarem

a morrer combatentes que abandonaram

as armas», alerta Carlos

Ruiz. Só em 2019 ocorreram 77

assassínios de ex-combatentes da

antiga guerrilha marxista.

2020 Fevereiro | além-mar


© Lusa/Simela Pantzartzi

GRÉCIA

Campos sobrelotados

Os campos de processamento e de

acolhimento de refugiados nas ilhas

gregas no mar Egeu (próximas da Turquia)

estão sobrelotados. As pessoas ali acolhidas

vivem em condições muito precárias, segundo

as denúncias frequentes de organizações

internacionais de defesa dos direitos humanos.

No total, os cinco campos acolhem mais de

40 mil pessoas em instalações com uma

capacidade máxima para 6300 pessoas.

CHINA

Surto viral

Organização Mundial de

A Saúde (OMS) informa que

todos os hospitais do mundo

estão a ser preparados para um

surto de coronavírus com origem

na cidade de Wuhan, na China.

«Estamos a preparar-nos para a

hipótese de contágios em massa.

Todos os sistemas estão prontos

para serem activados», assegura

Maria Van Kerkhove, directora do

departamento de doenças emergentes

da agência das Nações Unidas.

© Lusa/Paulo Cunha

© Lusa/Wu Hong

TOGO

Presidente sem limites

As eleições presidenciais de

Fevereiro no Togo são disputadas

por sete candidatos, incluindo o

actual presidente, Faure Gnassingbé

(na foto), que se candidata a um

quarto mandato, e o líder histórico

da oposição, Jean-Pierre Fabre. A

revisão da Constituição em 2019,

para permitir a reeleição e garantir

imunidade ao actual chefe de Estado,

originou manifestações fortemente

reprimidas.

GUINÉ-BISSAU

Recontagem

de votos

Supremo Tribunal de

O Justiça da Guiné-Bissau

manda recontar os votos da

segunda volta das eleições

presidenciais, «para garantir

a liberdade e sinceridade

eleitoral». Em Janeiro, a

Comissão Nacional de

Eleições declarou a vitória de

Umaro Embaló, do partido

Madem-G15, e as missões

de observação eleitoral

reportaram as eleições

como «justas, livres e

transparentes».

além-mar | Fevereiro 2020


actualidades

© Nuno Coimbra

ANGOLA

Engenharias

dos Santos

Uma investigação levada a cabo

pelo ICIJ, consórcio internacional

de jornalistas de investigação,

sugere que a empresária angolana

Isabel dos Santos beneficiou

de numerosas oportunidades ilícitas

de investimento dadas pelo pai,

Eduardo dos Santos, ex-presidente

da República. Os 715 mil documentos

«Luanda Leaks» a que o

ICIJ teve acesso desvendam as origens

da fortuna e como o universo

empresarial de Isabel dos Santos

tirou partido das ligações privilegiadas

ao Estado angolano. A mulher

mais rica de África defende-se

dizendo tratar-se de «documentos

falsos e de um ataque político».

COSTA DO MARFIM

Medo e terror

s bispos católicos da Costa do

O Marfim manifestam-se preocupados

com a situação sociopolítica

e o clima de medo instalado no

país da África Ocidental, quando se

aproximam as eleições presidências

de Outubro. «Um clima de medo e

terror está gradualmente a instalar-

-se no país», alertam os representantes

da Igreja Católica. O actual

chefe de Estado, Alassane Ouattara,

mantém em aberto concorrer a

um terceiro mandato, depois de ter

alterado a Constituição para legitimar

a candidatura. A crise eleitoral

de 2010-2011 na Costa do Marfim

causou três mil mortos.

LÍBIA

Fim da interferência

Os dirigentes dos principais países afectados pelo conflito na Líbia assumem

respeitar o embargo de armas decidido pelas Nações Unidas em

2011. «Todos se comprometem a renunciar a interferências no conflito armado

ou em questões internas da Líbia», anunciam as Nações Unidas, apesar

de a Turquia apoiar militarmente o governo de Fayez al-Sarraj, em Trípoli,

e de a Rússia apoiar o marechal Khalifa Haftar, líder do Exército Nacional

Líbio (ENL), o que Moscovo nega.

Os dezasseis Estados e organizações participantes na Berlin Conference on

Lybia, promovida pelas Nações Unidas na Alemanha, concordam que não há

uma solução militar para a guerra civil que atinge o país do Magrebe desde

2014 e recomendam a formação de uma comissão militar comum.

SAHEL

Acções militares

ministra da Defesa francesa anuncia mais operações militares no Mali,

A Burquina Faso e Níger, onde a França e os aliados defrontam insurgências

jiadistas. «Vamos desenvolver novas operações», afirma Florence Parly,

na sequência da «Sommet de Pau», reunião do grupo de segurança G5 Sahel

onde o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou o envio de mais 220

soldados para a força militar francesa Barkhane. Entretanto, o general Mark

Milley, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos,

admite que «os recursos dedicados a África podem ser reduzidos».

© ONU © Lusa/Omer Messinger

2020 Fevereiro | além-mar


áfrica minha

novo sudão

© Lusa/Amel Pain

P. e José Vieira

Missionário comboniano

A Primavera

sudanesa

parece

consolidar-se.

Os cristãos do Sudão voltaram

a celebrar em público o Natal

depois de oito anos de pausa.

O Governo repôs o feriado

natalício que Omar al-Bashir suspendeu

em 2011 por causa da independência

do Sudão do Sul. O primeiro-ministro,

Abdallah Hamdok, tuitou: «Este é o

Sudão com que sonhamos. Que respeita

a diversidade e permite que todos os

cidadãos sudaneses pratiquem a sua fé

num ambiente seguro e dignificante.»

A Primavera sudanesa está a consolidar-se

depois da ameaça de um Inverno

de violência quando os soldados da RSF,

a Força de Apoio Rápido, tomaram conta

das ruas da capital, apoiados pela Arábia

Saudita e Emirados Árabes Unidos. As

milícias baggara atacaram os civis que

bloqueavam as ruas de Cartum em Junho

passado e mataram cerca de 130 pessoas.

O Conselho Militar de Transição e o

movimento civil Forças para a Liberdade

e Mudança fizeram um acordo de partilha

do poder apadrinhado pelos países

vizinhos a 17 de Agosto de 2019, abrindo

caminho para um governo

civil de transição

de 39 meses chefiado

pelo economista Abdallah

Hamdok. O Governo,

que tomou posse

no início de Setembro,

está empenhado em

criar as bases para um

Sudão novo, multiétnico

e democrático.

O comboniano espanhol

Jorge P. Naranjo

vive no Sudão há doze

anos e dirige a Faculdade

Comboni de Ciência

e Tecnologia em Cartum.

Diz que o Governo

arregaçou as mangas

e luta para levantar o

país, que parecia cair a

pique, sem solução.

«O director-geral

do Currículo Educativo

anunciou no início de Dezembro as

reformas sobre as quais a sua direcção-

-geral está a trabalhar e que devem estar

prontas para o próximo ano lectivo, que

começa em Junho de 2020. O Alcorão,

que estava presente em múltiplas horas

semanais de religião e em todas as outras

disciplinas, vê-se limitado a duas horas

nas aulas de religião e à disciplina de

língua árabe», escreve.

Em Outubro, o Governo retirou

10 mil soldados que combatiam no

Iémen na coligação saudita e mantém negociações

com os movimentos rebeldes

mediadas pelo Sudão do Sul. As agências

humanitárias podem finalmente assistir

as gentes dos Montes Nubas e o Estado

do Nilo Azul, áreas fustigadas pela aviação

militar desde meados de 2011.

O Darfur, contudo, continua tenso e com

mais de dois milhões de deslocados.

O NCP, o partido de Al-Bashir, foi

desmantelado e o ex-presidente julgado

por ter 90 milhões de dólares em casa.

Foi condenado a dez anos de prisão, mas

tem mais de 70 anos e vai passar apenas

dois numa instituição correccional.

Contudo, continua à mercê dos juízes,

porque foi acusado de crimes no Darfur

juntamente com mais 52 figuras do seu

regime. Aliás, um grupo de darfurianos

quer que o Governo o entregue ao Tribunal

Penal Internacional para ser julgado

por genocídio, crimes de guerra e contra

a humanidade.

A crise económica que provocou a

queda do regime de quase trinta anos

de al-Bashir continua por resolver e o

Governo promete mudanças no sistema

bancário coordenadas pelo Banco Mundial.

Mas o comboniano português

P. e Feliz Martins, que está no Sudão

desde 2006, é optimista: «Isto vai muito,

muito devagar. Passamos muitas horas

por semana nas filas do pão e do combustível.

Mas ouvem-se palavras bonitas

e vê-se muito bom esforço nos grandes

do Governo. A democracia é uma educação,

uma cultura que leva muito tempo e

paciência.» Que assim seja! am

além-mar | Fevereiro 2020


igreja em missão

© Marcin Mazur

PORTUGAL

Símbolos da JMJ

No próximo Domingo de Ramos,

5 de Abril, os símbolos

da Jornada Mundial da Juventude

(JMJ) vão ser entregues a uma representação

portuguesa com 200 a

300 jovens de todas as dioceses de

Portugal pelo Papa Francisco, no

Vaticano.

Esses dois símbolos da JMJ, a

cruz de madeira e o ícone de Maria,

vão peregrinar não só em território

português, mas também em África,

segundo informaram os bispos

dos países lusófonos, entre final de

Abril e Novembro deste ano.

A próxima JMJ vai decorrer em

Portugal, no Verão de 2022, e tem

por tema “Maria levantou-se e partiu

apressadamente”.

MUNDO

Ataques a cristãos

presidente internacional da

O Fundação Ajuda à Igreja que

Sofre (AIS) afirmou que 2019 foi

«um ano de mártires» e «um dos

anos mais sangrentos da história

dos cristãos», com muitos exemplos

de ataques a igrejas e organizações

religiosas.

Para Thomas Heine-Geldern, «é

difícil acreditar que num país como

a França se tenham registado mais

de 230 ataques contra organizações

cristãs durante o ano passado» ou

que 40 igrejas tenham sido profanadas

e danificadas no Chile.

O presidente da AIS pede à União

Europeia e à ONU que defendam a

liberdade religiosa como um direito

fundamental.

HAITI

País «está a morrer»

Désinord Jean, bispo de Hinche (Haiti), afirma que o país «está a morrer».

Dez anos depois do sismo que devastou o país, registam-se manifestações

e protestos que paralisaram o país e o combustível esgotou. Neste país, um

dos mais pobres do mundo, o desemprego atinge 80 % da população activa,

afectando de modo especial os jovens, que são 65 % da população.

O bispo sublinha, em declarações à fundação AIS, que «a pobreza extrema

tira a esperança das pessoas» e que o regime corrupto do presidente Jovenal

Moïse está no centro da crise e continua surdo aos apelos da sociedade e da

Igreja. «Apesar dos nossos pedidos repetidos ao longo de quase dois anos,

os políticos do Haiti continuam surdos. Em Julho de 2018, já tínhamos uma

grande crise e o Governo não fez nada», disse D. Désinord.

Numa carta aberta publicada em Setembro passado, a Conferência Episcopal

acusou o Governo e a oposição de serem incapazes de dialogar. «Se o

país está em chamas, é por causa da vossa irresponsabilidade», denunciaram

os bispos.

UGANDA

Beatificação do P. e José Ambrosoli

A beatificação do missionário comboniano P.e José Ambrosoli realizar-se-á

no próximo dia 22 de Novembro, em Kalongo, no Uganda.

José Ambrosoli nasceu em Renago, Itália, e entrou para os Combonianos em

1951 depois de terminar o curso de Medicina Tropical em Londres. Foi ordenado

em Dezembro de 1955.

O P. e José partiu para o

Uganda em 1956 com 32

anos. Em Kalongo, fundou

o hospital que serviu

© 123RF

como médico-cirurgião

por mais de trinta anos.

«Deus é amor, há um próximo

que sofre e eu sou o

seu servo», dizia Ambrosoli.

Faleceu a 27 de Março

de 1987, em Lira, depois

de os soldados o terem

forçado a evacuar o hospital

devido à guerra civil.

2020 Fevereiro | além-mar


contraponto

«vinde a mim»

© 123RF

P. e J. M. Pereira de Almeida

coordenador nacional

da Pastoral da Saúde

Como

discípulos

de Jesus

aprendemos

a fazer-nos

próximos,

dando a vida

para fazer

viver.

Na sua mensagem para o

Dia Mundial do Doente

deste ano, o Papa Francisco

afirma: «Queridos profissionais

da saúde: qualquer intervenção

de diagnóstico, de prevenção, de terapêutica,

de investigação, de tratamento

e de reabilitação há-de ter por objectivo

a pessoa doente, onde o substantivo

“pessoa” venha sempre antes do adjectivo

“doente”» (n.º 4).

Em 2020, no contexto do Ano Internacional

do Enfermeiro e da Parteira,

gostaria de sublinhar a importância da

relação dos diversos profissionais de

saúde e dos voluntários que agem neste

âmbito com as pessoas que estão doentes,

apoiando-me na já referida mensagem

do Papa Francisco.

Centro-me na reflexão apresentada

que conclui o n.º 3: «Nesta obra de

restabelecimento dos irmãos enfermos

insere-se o serviço dos profissionais de

saúde – médicos, enfermeiros, colaboradores

administrativos e auxiliares,

voluntários – que, com competência,

fazem sentir, nas suas acções, a presença

de Cristo que proporciona consolação e

cuida da pessoa doente tratando das suas

feridas. Mas, também eles são homens e

mulheres com as suas fragilidades e até

com as suas doenças. Neles se cumpre de

modo particular esta verdade: “Quando

recebemos o alívio e a consolação de

Cristo, somos chamados a tornarmo-nos,

por nossa vez, alívio e consolação para os

irmãos, com atitude mansa e humilde, à

imitação do Mestre” (Angelus, 6 de Julho

de 2014)».

Como discípulos de Jesus, os profissionais

de saúde – médicos, enfermeiros,

colaboradores administrativos e auxiliares,

voluntários – cristãos, aprendemos

com o Mestre, sabemos reconhecer o

seu olhar e fazê-lo nosso, trazemos no

coração o seu sonho, procuramos viver

com Ele. Como discípulos aprendemos

a fazer-nos próximos, dando a vida para

fazer viver. Porque reconhecemos na

nossa experiência existencial um amor

que se inclinou sobre nós e nos mudou a

vida, que nos abriu um caminho de humanidade

impensada. Sabemos que não

o merecíamos; não esquecemos termos

sido acolhidos, perdoados, amparados,

curados. Como que “vimos” o amor

gratuito de Deus em Jesus.

O amor de Deus tornou-se história

humana em Jesus e continua a fazer-se

história humana no amor dos discípulos:

«Nisto reconhecerão que sois meus discípulos:

se vos amardes uns aos outros»

(Jo 13,35).

No dia 11 de Fevereiro, festa de

Nossa Senhora de Lourdes e, por isso,

Dia Mundial do Doente, confiemo-nos,

uma vez mais, a Maria, e confiemos-lhe

as pessoas doentes de quem cuidamos

para, como ela, sabermos todos acolher a

Palavra de misericórdia que nos vem de

Deus e podermos viver da sua força em

cada dia deste novo ano. Vivamos com

Jesus, que nos diz: «Vinde a Mim, todos

os que andais cansados e oprimidos, e Eu

vos aliviarei» (Mt 11,28). am

além-mar | Fevereiro 2020


do alto dos andes

Fernando Sousa | Jornalista

méxico

um país cheio de mortos

e promessas

Não há dia no México sem algum tipo de violência extrema ou de

descobertas macabras, isto a par de promessas de justiça. A morte anda

por ali descontrolada. E parece que assim vai continuar em 2020.

Mais de um ano depois de López

Obrador chegar à presidência,

ele, que foi um dos

maiores críticos da política dos antecessores

contra o crime, o México

não está melhor: não há dia sem crimes

violentos nem vítimas. Em muitas

regiões ir para o trabalho e voltar

vivo a casa é um acto de fé.

Fidel Gómez, 46 anos, locutor da

emissora local La Ke Buena, deixou

a família, em Huetano, para assistir

a um evento no Estado de Guerrero.

Isso foi no dia 2 de Dezembro. Não

voltou. Desapareceu. Foi depois encontrado

numa zona rural crivado

de balas. Este foi um dos casos das

últimas semanas.

O jornalismo é de todas as profissões

a que mais riscos comporta no

México, um matadouro de mensageiros.

Desde 2000 foram ali assassinados

154 profissionais. Noutro

registo, 24 repórteres estão desaparecidos

desde 2003, de acordo com a

organização Artigo 19.

Aparentemente, a boa mesa também

passou a ser uma área perigosa.

Outro dos mortos do mês foi o chef

espanhol Felipe Zamora, 43 anos.

Cozinhava caro e para banquetes

privados em Tijuana. Na véspera de

Reis foi encontrado com ferimentos

de bala na coluna e na cabeça num

caminho de terra de uma urbanização.

Tijuana, junto à fronteira com os

Estados Unidos, onde o cozinheiro

q A Polícia Militar da Marinha do

México em Coatzacoalcos, no Estado de

Veracruz, durante um confronto armado

© Lusa/Angel Hernandez

2020 Fevereiro | além-mar


© Lusa/Francisco Guasco

vivia há nove anos, é uma das cidades

mais convulsas do país. Ali, a

média de assassínios por dia, no ano

passado, foi de seis. E desde o princípio

de Janeiro o número de mortes

violentas ultrapassou as três dezenas.

Cumplicidades

Em qualquer dos casos as autoridades

anunciaram que iriam investigar.

Mas no México estas coisas costumam

ficar pelo caminho. Lembre-

-se só o caso, pois há muitos, dos 43

estudantes de Ayotzinapa que desapareceram

há cinco anos. Poderosas

forças vêm travando a verdade. E o

dos nove membros, seis crianças e

três mulheres, de uma família mórmon

assassinados em Novembro, em

Sonora; Julián LeBarón reparte há

dois meses os seus dias por três cidades

e departamentos oficiais para

saber o que aconteceu à família. Sem

resultados.

É espantoso o nível de violência

que o México atingiu. Os números

falam por si. Em treze anos, mais

de 200 mil pessoas foram mortas no

país, a maior parte durante a presidência

de Enrique Peña Nieto (2012-

-2018). Num discurso recente, o

novo presidente mexicano, Obrador,

disse que o (seu) governo não

repetirá o que chamou «tresloucada

guerra» iniciada por Felipe Calderón

(2006-2012) contra o narcotráfico,

sugerindo outra política. Mas dados

oficiais apontam já para 28 741 ho-

p Especialistas forenses trabalham

num local onde foi encontrada uma vala

clandestina, no município de Tlajomulco,

Estado de Jalisco, México

micídios violentos nos primeiros dez

meses de 2019.

Uma sangria

Dezembro, então, foi uma carnificina,

com 2440 homicídios, o mês

mais violento de todos, um derramamento

de sangue que entrou pelo

Ano Novo, em particular no Estado

de Guanajato, onde só nos primeiros

sete dias foram mortas 103 pessoas,

o dobro de igual período do ano anterior.

Ao quadro desta espécie de guerra

civil acrescente-se a descoberta, entre

o dia 1 de Dezembro de 2018 e 31

de Dezembro de 2019, de 874 novas

valas comuns com os restos mortais

de 1124 indivíduos, tendo sido identificados

apenas 395. O número de

valas clandestinas descobertas desde

2006 ascende a 3631.

Enfim, teme-se que a violência tenha

contagiado as novas gerações e

seja para continuar. Na capital, cinco

adolescentes entre os 14 e os 17

anos foram detidos por suspeita do

sequestro de uma mulher, e, no Estado

de Coahuila, um estudante de

11 anos matou a tiro, com a arma do

avô, uma professora e feriu cinco colegas

e um professor antes de se suicidar.

am

novo presidente

na guatemala

conservador Alejandro Giammattei

(na foto) tomou pos-

O

se da presidência da Guatemala

numa cerimónia que usou para

garantir que vai curar o país de

endemias como a malnutrição infantil

e a corrupção – o que faria

certamente do seu mandato um

sucesso.

Eleito em Agosto, numa segunda

volta, contra a social-democrata

Sandra Torres, o novo líder

guatemalteco, com quase 54 anos,

médico de profissão, declarou que

curará os mais jovens da fome,

mal que afecta metade deles, e a

sociedade da corrupção. E ainda

que definirá os gangues como terroristas

e assim os tratará.

Os analistas não estão muito

convencidos que o venha a fazer.

Tentou ganhar o lugar seis vezes,

por partidos diferentes, obteve-o

depois de uma campanha cheia de

problemas e fez todos estes anúncios

sem um plano de base nem

equipa bastante, conforme relata

o analista independente Hector

Rosada ao diário El País.

O jornalista Juan Luis Font vai

mais longe: «A votação deste domingo

é a última expressão de um

sistema político esgotado e dominado

pelas elites e pelas máfias

que agonizam, e que mobilizou

todas as suas fontes para manter

o poder e conquistar mais quatro

anos.»

Giammattei sucede a Jimmy

Morales, que em quatro anos de

gestão destruiu o pouco que antes

fora feito contra a corrupção e

abriu as portas à impunidade para

militares referenciados por crimes

de lesa-humanidade.

© Lusa/Esteban Biba

além-mar | Fevereiro 2020


me saúde

vida saudável e

bem-estar para todos

O terceiro Objectivo de Desenvolvimento Sustentável pretende

assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para

todos, em todas as idades, até 2030. A Igreja Católica, com

as suas instituições sanitárias, colabora para o cumprimento

destas metas, que ainda estão longe de ser alcançadas.

© UNICEF/Maitem

u Vacinação de criança

em Lumbatan, Filipinas

2020 Fevereiro | além-mar


além-mar | Fevereiro 2020


saúde

cobertura universal

Metade da população mundial ainda não tem acesso a

serviços essenciais de saúde e, a agravar a situação, todos

os anos 100 milhões de pessoas são levadas à pobreza

devido aos custos com serviços de saúde. Só a cobertura

universal poderá impulsionar o progresso nesta década.

Texto: Carlos Reis, jornalista

Os sistemas de saúde fracos

representam um risco que

vai muito além das fronteiras

nacionais, quando

metade da população mundial não

tem acesso a serviços de qualidade

e, com as actuais taxas de progresso,

até cinco mil milhões de pessoas perderão

os cuidados de saúde até 2030.

Todos os anos cerca de 100 milhões

de pessoas em todo o mundo são

empurradas para uma situação de

pobreza devido a despesas catastróficas

com saúde.

Em Setembro de 2019, os líderes

mundiais adoptaram a Political Declaration

on Universal Health Coverage,

uma resolução das Nações Unidas

sobre a cobertura universal de saúde.

Na declaração, os Estados-membros

assumem o compromisso de avançar

em direcção à saúde para todos investindo

em quatro áreas principais.

Isso inclui mecanismos para evitar

dificuldades financeiras causadas por

problemas de saúde, intervenções de

alto impacto para combater doenças

e um maior esforço para proteger a

saúde de mulheres e crianças. Além

disso, os países devem fortalecer os

profissionais na área da saúde, investir

em infra-estruturas e melhorar a

capacidade de governança.

«A cobertura universal de saúde

provou ser um catalisador do crescimento

económico que beneficia

indivíduos, famílias, comunidades,

© 123RF

2020 Fevereiro | além-mar


© UNICEF/Stephen

p Uma enfermeira administra a vacina

contra o sarampo a uma criança na vila

de Leauvaa (Samoa), como parte de

uma campanha de vacinação apoiada

pela UNICEF

empresas e economias», assegura o

secretário-geral das Nações Unidas.

Para António Guterres, é «uma conquista

significativa que impulsionará

o progresso nesta década», uma vez

que investir no sector gera um dividendo

triplo como saúde, crescimento

económico e igualdade de género.

Mais profissionais

Para esta nova década, são necessários

mais 18 milhões de profissionais

da saúde, pelo que se torna urgente o

apoio da comunidade internacional

para formar os trabalhadores do sector

que deverão actuar, na maior parte,

em países de baixo e médio rendimento,

de acordo com estimativas

da Organização Mundial de Saúde.

Para esta nova

década, são

necessários mais

18 milhões de

profissionais

da saúde, pelo

que se torna

urgente o apoio

da comunidade

internacional

para formar os

trabalhadores do

sector.

«O mundo tem uma dívida de gratidão

para com os agentes de saúde

que cuidam dos seus pacientes

durante 24 horas por dia ao redor

do globo. Temos de fazer mais para

apoiar os profissionais que precisam

de melhor formação, melhores salários

e mais protecção», observa Tedro

Ghebreyesus, director-geral da

agência das Nações Unidas. Cerca de

70 % da força de trabalho global na

área da saúde são mulheres.

A OMS declara 2020 o Ano Internacional

de Enfermeiros e Parteiras,

pedindo aos governos que invistam

em mais postos de trabalho e formação

destes especialistas.

A agência das Nações Unidas estima

em nove milhões os enfermeiros

e parteiras necessários para conseguir

atingir a cobertura universal

de saúde nesta década, já que estes

especialistas constituem metade

dos profissionais de saúde em todo

o mundo. As suas funções incluem

cuidar de idosos e crianças, ministrar

u

além-mar | Fevereiro 2020


saúde

© 123RF

Custos

Os custos com saúde já representam

10 % do produto interno bruto global

(bens e serviços produzidos), com os

governos a suportarem, em média,

51 % dos gastos, revela o relatório

Public Spending on Health, promovido

pela Organização Mundial de

Saúde. Nos países em desenvolvip

Médico atende um paciente na China.

Os custos com saúde já representam

10% do produto interno bruto global

(bens e serviços produzidos)

vacinas, oferecer serviços de saúde e

satisfazer necessidades diárias, além

da assistência antes, durante e após a

gravidez. Os locais onde estes profissionais

actuam são considerados «o

primeiro e o único lugar de atenção

disponível nas suas comunidades»,

aponta a OMS.

Todos, em todos os lugares, têm

direito a cuidados de saúde de alta

qualidade e acessíveis.

© UNICEF

10 ameaças à saúde global

combates da década

1. Poluição do ar e mudanças

climáticas

2. Doenças crónicas não

transmissíveis

3. Pandemia de vírus

influenza

4. Fragilidade e

vulnerabilidade de

populações

5. Resistência antimicrobiana

6. Infecções por vírus ébola

7. Cuidados primários de

saúde inadequados

8. Relutância para vacinação

9. Infecções por vírus dengue

10. Infecções por vírus VIH

Fonte ‘WHO Ten Threats to Global Health 2019’

2020 Fevereiro | além-mar


celebração e desafio

© 123RF

envelhecimento saudável

população envelhece em todo o mundo mais rapidamente do que no

A passado, e essa transição demográfica afectará quase todos os aspectos

da sociedade. No mundo, já há mais de mil milhões de pessoas com 60 anos

ou mais, a maioria delas em países de baixo ou médio rendimento. Muitas

dessas pessoas nem sequer têm acesso aos recursos básicos necessários

para uma vida plena e digna. Muitos outros enfrentam inúmeros obstáculos

que os impedem de participar plenamente na sociedade.

A Organização Mundial de Saúde alerta para o amadurecimento da população

mundial. Em 2020, o número de idosos será maior que o de crianças

com menos de cinco anos. A menos que os sistemas de saúde encontrem estratégias

eficazes para lidar com os problemas da idade avançada, o impacto

causado pelas doenças crónicas vai afectar a qualidade de vida dos idosos.

«As pessoas estão a viver mais tempo, no mundo inteiro. O aumento do

nível de doenças e a redução do bem-estar da população estão prestes a

tornar-se um grande desafio à saúde pública global», alerta a agência das

Nações Unidas. Apesar de as pessoas estarem a viver mais, não significa que

elas estejam mais saudáveis do que no passado.

Até 2050, a população global acima dos 60 anos deve passar dos dois mil

milhões e 80% dela vai estar em países de médio e baixo rendimento. Na

Década do Envelhecimento Saudável 2020-2030, a OMS apela a que «colectivamente,

as autoridades devem olhar além dos custos associados ao envelhecimento

para pensar nos benefícios que uma população mais idosa, mais

saudável e mais produtiva pode trazer para a sociedade como um todo».

O envelhecimento populacional está prestes a tornar-se uma das transformações

sociais mais significativas do século xxi.

mento, mais de metade dos gastos

em saúde é dedicada aos cuidados

primários.

A ajuda externa continua a ter um

papel essencial para os países de baixo

rendimento, onde menos de 40 %

dos gastos com cuidados de saúde

primários são custeados pelos governos.

Quase metade dos fundos

externos são dedicados a três doenças

(VIH, tuberculose e malária).

Nestes países, a cobertura de saúde

é geralmente mais baixa em áreas

rurais que urbanas. A falta de infra-

-estruturas e de profissionais de saúde,

sistemas débeis de fornecimento

e baixa qualidade de cuidados levam

a vários obstáculos para o alcance da

cobertura universal.

Apenas 55 % dos estabelecimentos

de saúde nos países menos desenvolvidos

têm serviços básicos de água,

cruciais para prevenir infecções, reduzir

a disseminação da resistência

antimicrobiana e fornecer cuidados

de qualidade.

Desde o ano 2000, o gasto público

em saúde por pessoa duplicou nos

países de rendimento médio. Em

média, os Estados gastam o equivalente

a 54 euros por pessoa em saúde

nos países em desenvolvimento

e perto de 242 euros por pessoa nos

países desenvolvidos.

Nos países desenvolvidos e com

serviço nacional de saúde, as estruturas

públicas sofrem crescentes

pressões do sector privado (grupos

hospitalares e seguradores), com interesse

no negócio complementar e

suplementar na prestação de cuidados

e na escolha e captação de doentes,

profissionais de saúde e orçamento

dos Estados, gerando maiores

debilidades e desigualdades. «A cobertura

de saúde de uma pessoa nunca

deve depender da sua riqueza ou

de onde ela more, pelo que é preciso

dar prioridade às necessidades dos

mais vulneráveis», no entendimento

das Nações Unidas, que incluiu a cobertura

universal da saúde como um

dos Objectivos de Desenvolvimento

Sustentável 2015-2030. am

além-mar | Fevereiro 2020


saúde

favorecer

a formação integral

O processo de evangelização aponta a que as pessoas tenham

vida em abundância e promove a promoção integral das

pessoas, nomeadamente na área da saúde. O Irmão António,

missionário e enfermeiro, partilha o seu trabalho neste campo

no continente africano.

Texto: Ir. António Nunes Ferreira, missionário comboniano

Quando concluí o meu curso

de Enfermagem, os sonhos

e os receios eram muitos.

Como irmão missionário

comboniano, fui enviado para o

Sudão, e mais concretamente para a

região Sul.

O Hospital de Mapuordit foi a

minha primeira destinação. As enfermarias

eram edifícios feitos com

canas e lama seca com telhados de

palha. Não havia água ou luz, mas as

pessoas eram atendidas com dedicação

pelos auxiliares de enfermagem,

profissionais formados na prática

quotidiana. Para atender, cada dia,

os cerca de trezentos doentes só existiam

um médico e quatro enfermeiros.

A falta de recursos, humanos e

económicos, era gritante. Era preciso

investir na formação dos agentes sanitários.

Ser criativo

No país, a mortalidade infantil continua

a ser das mais altas de África

e as mulheres que morrem sem a

devida assistência durante o parto

continua a ser uma calamidade.

Muitas pessoas morrem com doenças

que actualmente podem ser tratadas,

mas a falta de pessoal médico

e de medicamentos acabam por ser

© Paul Jeffrey

© Além-Mar

2020 Fevereiro | além-mar


© Além-Mar

p O Ir. António ensinou na escola de

parteiras e enfermeiros, o CHTI (Catholic

Health Trainning Institute). Nesta instituição

católica, homens e mulheres de

todo o Sudão do Sul recebem formação

académica, mas também humana e

cristã. Ao lado, o Ir. António atende uma

paciente no Hospital de Mapuordit e, em

baixo, com uma jovem mãe sudanesa

barreiras demasiado grandes para a

população. Cheguei a assistir mulheres

que tinham viajado em trabalho

de parto durante horas em cima de

uma motorizada por estradas de terra

batida, percorrendo distâncias de

cem quilómetros para poderem encontrar

ajuda.

Perante os desafios tive de ser criativo,

inventar pequenas máquinas

que pudessem fazer o mesmo que

aquelas modernas que usara nos estágios

do meu curso. Como Florence

Nightingale [1820-1910, enfermeira,

reformadora social e escritora britânica

que ficou famosa por ser pioneira

no tratamento a feridos de guerra,

durante a Guerra da Crimeia], senti

que tinha de me centrar na pessoa e

na sua dignidade, colocar toda a paixão

no serviço que desempenhava e

assim poder “contaminar” outros a

fazer o mesmo.

Partilhar aprendizagens

Depois de vários anos a aprender

com as situações que surgiam e em

especial com as pessoas que fui encontrando

e da realização de um

mestrado na área da Enfermagem,

veio o momento de ensinar. Fui enviado

para uma escola de parteiras

e enfermeiros, o CHTI (Catholic

Health Trainning Institute). A escola

contava com alunos provenientes

de todo o Sudão do Sul e das Montanhas

Nubas, homens e mulheres que

constituíam um grupo com grande

diversidade de culturas e origens étnicas.

Ser missionário e enfermeiro neste

contexto foi o de ser um irmão mais

velho que tenta trazer para o rigor da

enfermagem a luz de um Deus que

quer que todos sejam felizes e vivam

em Paz.

No último ano que lá estive, foram

vinte e quatro os enfermeiros e quinze

as parteiras a terminar o curso de

três anos. Estes novos profissionais

foram enviados para as suas comunidades

de origem para serem, eles

mesmos, fonte de esperança, cuidado

e amor no meio de tantas carências.

Eles receberam formação académica,

mas também humana e cristã.

Foram parte da missão que me foi

dada e agora são eles enviados a ajudar

os mais pobres e abandonados.

O irmão que eu sou tem-se manifestado,

para os outros, pelos cuidados

de enfermagem que como um

serviço de doação lhes proporciono.

Estou convencido de que a minha

maneira de ser enfermeiro tem de

manifestar o toque de Deus, tem de

ser um “medicamento” que não necessita

de uma prescrição particular,

mas precisa somente do meu tempo,

da minha doação, dedicação e muito

amor. am

além-mar | Fevereiro 2020


saúde

ser missão hospitaleira

Em Timor-Leste, os Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus

têm um centro que acolhe as pessoas com doença mental

grave. Profissionais e voluntários colaboram para conseguir

a estabilização, recuperação e reintegração familiar

e social destes doentes.

Texto e fotos: Mário Breda, leigo missionário comboniano

Estou a colaborar como voluntário

no Centro de Apoio à

Saúde em Laclubar, distrito

de Manatuto, uma obra dos

Irmãos Hospitaleiros de S. João de

Deus. O objectivo principal desta estrutura

é o internamento temporário

de pessoas com doença mental grave,

com vista à sua estabilização, recuperação

e reintegração familiar e social.

Também se faz o acompanhamento,

a nível nacional e em articulação

com os serviços de saúde distritais,

de outros pacientes que permanecem

em suas casas medicados.

Para levar a cabo estes objectivos,

o centro conta actualmente com o

trabalho de uma enfermeira espe-

2020 Fevereiro | além-mar


cialista em Saúde Mental e Psiquiatria

(portuguesa), dois enfermeiros

generalistas, um médico de clínica

geral, bem como de auxiliares de internamento,

educadoras, responsável

administrativo e técnicos de manutenção

e apoio geral. Além disso,

é também aqui o local de formação

para os jovens aspirantes a futuros

irmãos religiosos de S. João de Deus,

no seu primeiro ano, junto dos doentes

e necessitados como é o carisma

hospitaleiro.

Testemunhar o amor

Trabalho no centro como voluntário,

procurando dar o meu tempo e

afecto e sendo testemunho de amor e

hospitalidade. Em colaboração com

a equipa de monitoras-educadoras,

que desenvolvem várias actividades

ocupacionais com os pacientes ao

longo da semana, fui procurando

observar, conhecer e acomodar-me

de forma construtiva, no respeito

pela realidade existente. Participo e

intervenho em actividades lúdicas,

para estimulação de capacidades

pessoais e promoção do bem-estar

q No Centro de Apoio à Saúde em Laclubar,

distrito de Manatuto, em Timor-

-Leste acolhem-se doentes mentais.

Visa-se a sua recuperação e integração

na sociedade. Mário Breda (à direita),

psicólogo, colabora como voluntário

(jogos diversos, desenho e pintura,

exercício físico, caminhada, canto

e dança). Também colaboro nos

momentos de formação, abordando

distintos temas: promoção da saúde

mental, importância da medicação,

higiene pessoal e ambiental, civismo,

geografia dos distritos, preparação

para a alta. Apoio ainda nas tarefas

que exercitam os pacientes para a

vida do dia-a-dia na reinserção familiar:

limpeza dos jardins e recolha

desses lixos, ida ao mercado, ajuda

na limpeza do internamento; são os

pacientes que põem a mesa e lavam a

loiça (rotativamente) e são ajudados

a lavar a sua roupa.

As principais limitações e dificuldades

na acção voluntária, seja com

os pacientes seja com os colaboradores,

têm que ver com a comunicação.

O conhecimento dos hábitos, tradições

e valores é importante para a

compreensão de atitudes e comportamentos

e para não sentir estranheza

perante o que é diferente.

Além disso, poder compreender

e falar tétum, a língua oficial em

Timor-Leste (e que permite o diálogo

entre a quase vintena de línguas

locais), é uma necessidade fundamental

para a integração e relação

com as pessoas. Embora o português

seja também língua oficial, é

conhecido e utilizado sobretudo na

Administração Pública e em contextos

profissionais diferenciados. Aqui

no interior, apenas algumas pessoas

falam um pouco em português; não

esqueçamos que, durante os vinte e

quatro anos da ocupação indonésia,

a língua portuguesa foi banida

das escolas e a retoma demorará o

seu tempo. O português será sempre

uma segunda língua, aprendida

como língua estrangeira. Por isso,

também os missionários, voluntários

e profissionais estrangeiros devem

aprender tétum se querem uma integração

plena.

Neste sentido, além do estudo

inicial que realizei antes de vir (e

que acho indispensável), procuro ir

aprendendo no dia-a-dia, mas é sempre

insuficiente para estabelecer uma

conversação para lá do trivial. Ter

atenção que aquilo que se tenta dizer

nem sempre corresponde ao que a

outra pessoa entendeu.

Como voluntário psicólogo, isto

limita a comunicação com os doentes,

embora na sua generalidade não

tenham indicação para psicoterapia,

como acontece neste grau de doença.

Ainda assim, a intervenção e o olhar

na perspectiva psicológica da compreensão

das limitações e necessidades

de cada doente, das atitudes que

servem e que não servem a sua recuperação

e bem-estar pode ser um

contributo importante. am

além-mar | Fevereiro 2020


apo casamento infantil

núpcias forçadas

O casamento infantil é o produto tóxico da pobreza e desigualdade de

género. Os casamentos de meninas violam os direitos das menores,

expõem-nas à violência e riscos de saúde e criam um futuro sombrio.

Texto: Carlos Reis, jornalista

© Paula Bronstein

O casamento infantil leva a uma vida de sofrimento. As meninas perdem

possibilidades de estudar e ficam mais expostas à violência doméstica.

As noivas adolescentes são mais susceptíveis à mutilação genital

feminina e a complicações na gravidez e parto.

«Para muitos, o Dia dos Namorados é associado a romance, flores e propostas

de casamento. Para milhares de meninas ao redor do mundo o casamento não é

uma escolha, mas um fim indesejado das suas infâncias e futuros.»

Henrietta Fore, directora executiva da UNICEF

«O casamento infantil dá início a um ciclo de desvantagens que nega às meninas

os direitos mais básicos de aprender, se desenvolver e ser criança. Meninas

que se casam cedo demais frequentemente não podem ir à escola e estão mais

propensas a sofrer violência doméstica, abuso e estupro.»

Helle Thorning-Schmidt, presidente da Save the Children International

2020 Fevereiro | além-mar


ENLACES

650

milhões

Meninas e mulheres

vivas no mundo que

se casaram antes

de completarem 18

anos.

12

milhões

Meninas com menos

de 18 anos que se

casam todos os

anos.

150

milhões

Noivas infantis até

2030 se não houver

acções decisivas no

mundo.

21%

Percentagem de

jovens mulheres

no mundo que se

casam antes dos 18

anos.

Na última década,

a proporção de

mulheres que se

casaram quando

crianças diminuiu

em 15%. O aumento

dos índices de

educação e as

campanhas sobre a

ilegalidade explicam

a mudança. Os

casos de casamento

infantil estão agora

a migrar do Sul da

Ásia para a África

Subsariana.

IDADE MÍNIMA

Casamento de meninas com consentimento dos pais

Sem idade mínima

Dos 9 aos 13 anos

Dos 14 aos 15 anos

Dos 16 aos 17 anos

18 ou mais anos

Países com

maiores taxas de

casamento infantil

Níger (76%)

RD Congo (68%)

Chade (67%)

Bangladesh (59%)

Fontes: UNICEF, UNFPA, Girls Not Brides e Plan International.

além-mar | Fevereiro 2020


ap irão

o pior estará

para vir

Os EUA assassinaram o segundo

homem mais poderoso da República

Islâmica quando esta enfrentava a

maior revolta política desde a queda

da monarquia em 1979. Foi uma

«agressão externa» que chocou muitos

iranianos, incluindo os que protestam

contra «as mentiras e a incompetência»

do regime. As previsões são sombrias:

uma vitória dos “duros” nas eleições

deste mês de Fevereiro, uma

guerra por procuração e a morte do

agonizante acordo nuclear.

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

© 123RF

2020 Fevereiro | além-mar


© Lusa/Iran’s Supreme Leader Office

Nader Hashemi não ficou

surpreendido ao ver os

compatriotas protestar em

massa contra a teocracia

que os governa, dias depois de chorarem

o “martírio” de Qassem Soleimani,

o general cuja força os reprime

nas ruas. «O Irão, um Estado de 80

milhões de habitantes, não é monolítico»,

esclarece o director do Center

for Middle East Studies da Universidade

de Denver (Colorado, Estados

Unidos), quando o inquirimos sobre

estes sinais de divisão e unidade.

Soleimani, 62 anos, comandante

do batalhão Quds, corpo de elite dos

Guardas da Revolução, foi assassinado

por um drone americano, em 3 de

Janeiro, no Aeroporto Internacional

de Bagdade. Os EUA alegaram, sem

provas, que ele representava uma

«ameaça iminente». Especula-se que

a decisão de o eliminar terá sido um

capricho de Donald Trump, embora

ninguém negue que o segundo homem

mais poderoso da República

Islâmica tivesse as mãos manchadas

de sangue.

Soleimani era o arquitecto da política

externa de Teerão e o estratego

«O Irão, um

Estado de 80

milhões de

habitantes,

não é monolítico».

Nader Hashemi,

director do Center for Middle East

Studies da Universidade de Denver

(Colorado, Estados Unidos)

militar da expansão regional iraniana

– no Iraque, na Síria, no Líbano,

no Iémen, no Afeganistão. Foi ele

que, em 2005, conspirou para matar

um protegido dos Sauditas no Líbano,

o primeiro-ministro Rafic Hariri,

e assim consolidar o poder do

Hezbollah. Foi ele quem aproveitou

o vazio criado por George W. Bush,

após a queda de Saddam Hussein,

p O retrato de Qassem Soleimani

(esq.), comandante do batalhão Quds

assassinado em Bagdade, foi colocado

durante o sermão do guia supremo iraniano

aiatola Ali Khamenei em Teerão,

no dia 17 de Janeiro de 2020

para impor uma hegemonia xiita no

Iraque. Foi ele que ajudou soldados

americanos a derrotar o Daesh e

criou milícias para matar soldados

americanos e os forçar a uma retirada.

Foi ele quem convidou os Russos

a intervir na guerra síria, em 2015,

oferecendo a vitória ao homicida

Bashar al-Assad. Foi ele que armou

e financiou os Huthis para combaterem

as tropas de Riade no Iémen.

Em Novembro-Dezembro de

2019, quando dezenas de milhares de

iranianos, a maioria jovens pobres e/

/ou desempregados, saíram à rua

para contestar uma subida de 50 %

do preço dos combustíveis, coube

aos Guardas da Revolução e à sua

milícia Basiji a brutal repressão da

maior contestação política ao regime

desde a Revolução Islâmica de 1979.

Inicialmente pacíficos, os protestos

acabaram por se tornar violentos

u

além-mar | Fevereiro 2020


irão

e alastrar a 29 das 31 províncias do

país perante a resposta implacável

das forças de Soleimani. Manifestantes

enfurecidos atacaram «50 bases

militares» – sugerindo um nível de

coordenação sem precedentes – e incendiaram

«731 bancos, 140 espaços

públicos, nove centros religiosos, 70

postos de gasolina, 183 veículos da

polícia, 1076 motociclos e 34 ambulâncias»,

segundo um balanço do

Ministério do Interior.

A Amnistia Internacional calcula

que mais de 300 pessoas foram

mortas, muitas delas indiscriminadamente.

A agência Reuters admite

que terão sido cerca de 1500. Estima-

-se em pelo menos 2000 o número de

feridos e em aproximadamente 7000

o de detidos.

Estas manifestações no Irão inspiraram

as do Líbano e do Iraque,

mobilizando xiitas, sunitas, cristãos

e outros contra o domínio de Teerão

e o sectarismo alimentado pelas

milícias fiéis ao «mais importante

soldado do Médio Oriente». Em 3 de

Janeiro, porém, o assassínio de Soleimani

gerou uma onda de indignação

geral, com milhões de iranianos integrando

um cortejo fúnebre supostamente

maior do que o do fundador

da república, o aiatola Khomeini, em

1989. Alguns opositores acusaram o

regime de forçar a população a um

luto patriótico fingido. Outros anotaram

que o «modesto e incorruptível»

Soleimani era uma figura popular

e que a sua morte foi vista como

«um acto de guerra».

Nacionalismo e democracia

Em 8 de Janeiro, o Irão vingou-se da

«execução extrajudicial» de Soleimani

disparando 16 mísseis contra duas

bases militares dos Estados Unidos

no Iraque. O Pentágono absteve-se

de retaliar, porque «não houve baixas

entre soldados americanos» (a CNN

revelaria posteriormente que 11 foram

feridos), tentando evitar uma

escalada de tensões. Mas as tensões

estavam ao rubro e o Irão cometeu,

no mesmo dia, um erro fatal.

© Lusa/SPC. Derek Mustard/US Army

© Lusa/Abedin Taherkenareh

p Militares na base militar Al Asad, no Iraque, depois do ataque feito pelo Irão.

Em baixo, iranianos protestam em Teerão depois que os Guardas da Revolução reconheceram

que abateram «por engano» um avião da Ukraine International Airlines

Pouco depois de um ataque à base

de Ain al-Assad, os Guardas da Revolução

abateram «por engano» um

avião da Ukraine International Airlines,

com destino a Kiev. Morreram

todas as 176 pessoas a bordo.

Durante três dias, as autoridades

em Teerão negaram responsabilidades,

justificando a queda da aeronave

com «problemas técnicos».

Só intensas pressões internacionais

obrigaram o regime a uma admissão

de culpa. «O avião foi confundido

com um míssil – foi um erro indesculpável»,

explicaram tardiamente as

autoridades, nenhuma das quais se

demitiu.

O New York Times verificou imagens

de câmaras de segurança mostrando

que foram dois mísseis, lançados

de uma base militar a cerca

de 12 quilómetros de distância do

Aeroporto de Teerão, que atingiram

o voo PS752. O primeiro desactivou

o equipamento de comunicação do

avião e o outro foi disparado cerca de

23 segundos depois. Nenhum deles

causou imediatamente a queda do

aparelho. Em chamas, o avião ainda

faz inversão de marcha, mas, minutos

depois, explodiu e despenhou-se.

Falhou por um triz uma aldeia.

A tentativa de ocultar o crime escandalizou

os Iranianos, que, em

ruidosos protestos, inundaram ruas,

estações de metro e universidades,

na capital e noutras cidades, exigindo

a demissão e condenação do

2020 Fevereiro | além-mar


© LusaAbedin Taherkenareh

crimes de guerra na Síria são pouco

falados no Irão). O seu funeral, organizado

pelo Estado, atraiu muitos

apoiantes, mas também cidadãos que

detestam o regime.»

«Depois da queda do avião ucraniano,

muitos dos que foram ao fup

Funeral de Soleimani em Teerão, no

dia 6 de Janeiro de 2020

guia supremo. Outros queixavam-se:

«Matam os nossos génios e deixam

os mulás no poder» (algumas das vítimas

eram cientistas de dupla cidadania

iraniano-canadiana).

No Twitter, comentadores registaram

que alguns dos que haviam

participado nas manifestações em

memória de Soleimani juntaram-se

aos que, dias depois, vituperavam o

regime. Como entender esta aparente

contradição?

«A cultura política iraniana está

profundamente moldada pelos temas

de anti-imperialismo, nacionalismo

e democracia», explica o académico

Nader Hashemi, em entrevista à

Além-Mar por correio electrónico.

«Após a morte de Soleimani, vimos a

demonstração de um sentimento nacionalista

e anti-imperialista. Ele era

um herói nacional que lutou na guerra

Irão-Iraque [1980-1988] e protegeu

o Irão do Daesh (os seus imensos

«A cultura política

iraniana está

profundamente

moldada pelos

temas de anti-

-imperialismo,

nacionalismo e

democracia».

Nader Hashemi,

director do Center for Middle East

Studies da Universidade de Denver

(Colorado, Estados Unidos)

neral saíram igualmente à rua para

protestar contra as mentiras do Governo,

e contra quarenta anos de autoritarismo,

corrupção e repressão»,

adianta Hashemi. «Em resumo, os

Iranianos são capazes de protestar,

simultaneamente, contra a política

externa dos EUA e contra a ditadura

clerical. Se virmos as coisas desta

perspectiva, não há nenhuma contradição.»

Um regime resiliente

A cientista política iraniano-americana

Farideh Farhi, professora na

Universidade do Havai, em Manoa,

partilha a opinião do colega na Joseph

Korbel School of International

Studies em Denver. «A população

do Irão é diversa em relação ao que

pensa, mal ou bem, sobre o actual

sistema», diz ela à Além-Mar, também

por correio electrónico. «Quando

um dos seus generais, que muitos

admiravam, é assassinado por um

país que tem travado uma cruel guerra

económica com impacto severo u

(Continua na pág. 34)

além-mar | Fevereiro 2020


testemunho

irão

«este país é uma prisão e todos somos

reféns – mas deixámos de ter medo»

© Lusa/Abedin Taherkenareh

Não se misturem com os guerreiros

se tudo o que sabem fazer

É fugir quando o perigo vos ameaça

Shahnameh – O Livro dos Reis [a epopeia com que o grande poeta nacional

iraniano Abolqassem Ferdowsi (?-1020) salvou a língua, a História e a mitologia

dos Persas depois de várias invasões estrangeiras]

No dia em que a contactámos,

Tarane*, jornalista em Teerão,

enviou-nos um vídeo perturbador.

As imagens mostram um longo

rasto de sangue num passeio da Rua

Imã Khomeini, junto à estação de metro

de Ostad Moein. Em passo apressado,

transeuntes esforçam-se por não pisar

este trilho que termina numa mancha

densa, onde tombou um corpo ferido

por balas.

Era sábado, 11 de Janeiro. Depois de

três dias de negação, as autoridades

iranianas admitiram finalmente ter abatido,

«por engano», um avião comercial

ucraniano, num pico de tensão com os

EUA, que haviam assassinado o general

Qassem Soleimani, o segundo homem

mais poderoso do regime.

Perderam a vida todas as 176 pessoas

a bordo. Nas ruas rebentou «uma

explosão de fúria», relata Tarane, numa

troca de mensagens. «Sentimo-nos

mortos por dentro. Mentiram-nos. Que

estúpidos são os nossos líderes! Como

é que este governo nos pode proteger

numa guerra?»

Os guardas terão começado a atacar

por volta das 19 horas. Para dispersar

os manifestantes, usaram gás lacrimogéneo,

bastões, projécteis de borracha

e até munições reais. Várias pessoas

ficaram feridas e outras foram detidas,

segundo testemunhos citados pelo Centro

de Direitos Humanos do Irão.

Tarane, de 28 anos, participou nos

protestos que atraíram dezenas de milhares

de iranianos, e alastraram da

capital a outras cidades. Connosco ela

partilhou várias fotografias e um outro

pequeno filme. Aqui vemos inúmeras

pessoas, olhos melancólicos e rostos

taciturnos, alguns protegidos por máscaras

brancas, «para não serem identificados

e perseguidos pelos [milicianos]

basijis», que, do cimo de um viaduto,

filmavam esta ordeira amálgama humana,

erguendo cartolinas brancas onde

inscreveram palavras de ordem contra

as autoridades.

Tal como em 1999, quando milhares

de estudantes saíram à rua para tentar

salvar a presidência do reformista

Mohammad Khatami, e em 2009, para

contestar a fraude eleitoral que deu um

segundo mandato ao presidente ultraconservador

Mahmoud Ahmadinejad,

também agora ruas e universidades se

2020 Fevereiro | além-mar


encheram de jovens entoando um velho

hino revolucionário, Yare Dabestani

(Meu colega de escola), cuja letra simboliza

a luta pela liberdade,

Meu colega de escola,

Estás aqui a meu lado

Um ditador paira sobre as nossas

cabeças –

Tu choras e suspiras comigo

Gravado neste quadro negro

Estão o meu e o teu nome

A tirania que nos oprime

Não desapareceu com o tempo

Os campos da nossa cultura

Tornaram-se baldios esquecidos

Para o bem ou para o mal –

Os corações das pessoas estão agora

mortos

Com as minhas e as tuas mãos

Teremos de derrubar este muro

Quem senão nós

Tem o poder de curar a nossa dor?**

«Veio gente de todas as idades e

classes sociais», exulta Tarane, descrevendo

os protestos. «Pais e mães trouxeram

os filhos. Já ninguém se assusta

q No passado 11 de Janeiro, nas ruas

de Teerão rebentou «uma explosão de

fúria», depois de as autoridades iranianas

terem admitido o abate, «por engano»,

de um avião comercial ucraniano

e foge como outrora. Lutam e gritam

palavras de ordem [como “Abaixo Khamenei!”,

o guia supremo] consideradas

ofensas de pena capital. Vi pessoas a

serem espancadas pelos basijis. Deixámos

de ter medo deles.»

Um asfixiante embargo

«É de uma guerra que temos medo.

Odiamos Donald Trump, porque ele é

racista e mandou matar Soleimani, que

era muito popular no Irão. Odiamos

também o nosso governo religioso.

Odiamos o hijabe [que as mulheres são

obrigadas a usar]. Odiamos os Pahlavis

[a última dinastia imperial].»

«Os meios de comunicação do Irão

e na diáspora, como a estação Manoto

[ligada a figuras que promovem a reinstauração

da monarquia] só desinformam.

Para eles, ora somos heróis, ora

somos vilões. A realidade é que este é

um país complexo, amado por todos. Só

ambicionamos viver em segurança e ter

boas relações com o resto do mundo.»

«A vida é tão dura», sobretudo desde

que Trump abandonou o acordo nuclear

assinado por Barack Obama em 2015 e

impôs sanções mais penosas apesar de

o Irão estar a cumprir o que prometera,

lamenta Tarane. «É tão difícil trabalhar,

ter um sustento. Não podemos comprar

medicamentos, porque os preços duplicaram.»

O Fundo Monetário Internacional

(FMI) admite que o embargo está a dizi-

mar a economia iraniana, que se contrai

«a uma alarmante taxa anual de 9,5%».

Em Dezembro, as exportações de petróleo,

principal fonte de receitas, ficaram

reduzidas a zero. A inflação aproxima-se

dos 40%, dificultando o acesso a produtos

básicos. Empresas correm o risco

de fechar. Mais de um em cada quatro

jovens iranianos não tem emprego, a

maioria deles recém-licenciados, segundo

o Banco Mundial.

«As pessoas estão desesperadas»,

vinca Tarane. «Muitas refugiam-se

na droga e no álcool. A geração mais

nova pouco ou nada tem, excepto Instagram

e narcóticos. Com o dinheiro

que ganham [como “influenciadores”],

os jovens drogam-se e embebedam-se

mais.»

O número de toxicómanos no Irão, um

Estado com 921 quilómetros de fronteira

porosa com o Afeganistão, produtor

de 90% do ópio que exporta para vários

países, totalizava em 2018 entre 2,8

milhões e três milhões de pessoas, com

idades entre os 15 e os 65 anos, segundo

dados oficiais do Governo.

Os números reais serão mais elevados,

alerta a ONU. O consumo está a

aumentar entre mulheres e crianças

(algumas com 11 anos). Grávidas dão à

luz bebés já viciados, que morrem prematuros

ou dificilmente se livram desta

dependência ao longo da vida.

«Os iranianos no exílio acham que

uma mudança de regime é a solução

para os nossos problemas, mas eu não

acredito nisso», sublinha Tarane. «Tenho

medo de uma guerra que resulte

na desintegração da pátria, cada pedaço

cobiçado por outros. Vou para a rua

protestar porque detesto tudo o que me

obrigam a fazer neste país, que é uma

prisão e onde todos vivemos como reféns.»

As eleições legislativas marcadas

para 21 deste mês de Fevereiro não lhe

oferecem esperança, admite Tarane. Dezenas

de deputados reformistas foram

impedidos de se recandidatar pelo Conselho

dos Guardiões – o organismo que

veta os políticos críticos.

«Palpita-me que, desta vez, ganharão

os “falcões”, porque eles estão revoltados

e porque o povo está desmotivado.

Mesmo os que votaram nos reformistas

tencionam abster-se. Prevejo o regresso

aos tempos de Ahmadinejad. Se os “falcões”

desafiarem Trump, teremos uma

guerra. E nós só queremos sobreviver.»

(M.S.L.)

© 123RF

* Este nome é fictício, escolhido pela entrevistada,

para salvaguardar a sua segurança.

** Tradução livre da versão inglesa

além-mar | Fevereiro 2020


irão

© Lusa/Iran Supreme Leader’s Offce

© Lusa/Iran Supreme Leader’s Offce

sobre a população, não surpreende a

demonstração de unidade na fúria e

no pesar.»

«Por outro lado, também eram

inevitáveis os protestos após a queda

trágica do avião ucraniano e subsequentes

mentiras, porque muitos

iranianos imaginam-se facilmente

como passageiros daquele aparelho e

como vítimas da inépcia e impiedade

dos seus líderes», comentou Farideh,

membro do National Iranian-American

Council (NIAC).

Para muitos iranianos na diáspora

– sobretudo os que vêem Reza Pahlavi,

o filho e herdeiro do último imperador,

como alternativa de poder –,

«o colapso do regime está próximo».

Alguns acreditam que o desaparecimento

de Soleimani enfraqueceu a

teocracia.

Nadem Hashemi discorda: «O regime

sairá reforçado. Até ao assassínio

de Soleimani, o foco estava no legado

das mortes de Novembro – quase

600 em 72 horas. Foram mortes que

chocaram profundamente a sociedade

iraniana, e o regime foi obrigado a

pedir desculpa e a prometer indemnizações.

Agora, a República Islâmica

tem um pretexto para mobilizar

as pessoas à volta do nacionalismo e

do anti-imperialismo, negligenciando

questões como a repressão interna

e as exigências de democracia.»

«Não hesito em dizer que Trump

ofereceu à República Islâmica uma

bóia de salvação. Os líderes iranianos

conseguiram mudar completamente

a narrativa dominante, para a centrar

na política externa dos EUA – que já

causava enorme miséria económica

devido às debilitantes sanções impostas

por Trump.»

Farideh Farhi alerta que «nenhum

observador honesto da política iraniana

pode falar com confiança sobre

o futuro de um regime que se tem

revelado resiliente, mesmo face a numerosos

protestos. Não sei responder

[se o colapso está iminente], mas

adianto duas coisas. A primeira é a de

que, tendo em conta a falta de uma

oposição organizada e uma alternativa,

é muito prematuro falar de mudança

de regime. Neste contexto, um

colapso assemelhar-se-á mais a um

caos do que a uma suave transição.

A segunda é a de que o modo como

os recentes acontecimentos evoluíram

expuseram os sérios desafios

que se colocam ao Governo e às várias

instituições paralelas que gerem

o país. Não sabemos como estas instituições

irão reagir. Poderão enveredar

numa direcção mais autoritária

ou tentar amolecer os sentimentos

populares, adoptando uma posição

mais conciliatória e transparente.»

rideh Farhi deplora que, «depois de

uma tragédia, instituições não eleitas

não vejam necessidade de mudança

ou estejam com muito medo de quebrar

velhos hábitos, mesmo que estes

velhos hábitos sejam a causa de repetidos

protestos».

«Esta é uma prática corrente na

República Islâmica que remonta aos

anos 1990, quando o regime começou

a afastar candidatos que considera

excessivamente independentes

ou com falta de lealdade ideológica»,

recorda, por seu turno, Nadem Hashemi.

«O crime destes candidatos é

o de fazer perguntas sobre corrupção

ou direitos humanos. As eleições no

Irão nunca foram livres. Seria melhor

designá-las por “selecções”. O resulp

Aiatola Ali Khamenei, o guia supremo

da República Islâmica do Irão, preside

à cerimónia de oração de sexta-feira na

mesquita Mosallah em Teerão

Um parlamento de «duros»

Ali Khamenei, o guia supremo, parece

ter escolhido a primeira opção.

Em 21 deste mês, o Irão terá eleições

legislativas, e o Conselho dos Guardiões

já vetou a recandidatura de 90

deputados reformistas, num sinal de

que o regime endurece posições. Fa-

2020 Fevereiro | além-mar


p O Parlamento iraniano manifesta-se

contra os EUA e o assassínio de Soleimani.

Em cima, mural anti-EUA numa rua

de Teerão

tado será provavelmente um parlamento

cheio de ultraconservadores.

À luz dos últimos acontecimentos,

prevejo que a afluência às urnas será

muito baixa.»

Os Guardas da Revolução insistem

em que «o conflito com os EUA

ainda não acabou» e que não completaram

a vingança pela morte de

Soleimani. Estará uma nova guerra

no horizonte?

«A haver uma guerra, será por

procuração», crê Hashemi. «O Irão

sabe que não pode confrontar directamente

os Estados Unidos. No ataque

às bases americanas no Iraque,

fez todos os esforços para não causar

vítimas entre os soldados americanos.

O método preferido de desafiar

a posição dos EUA no Médio

Oriente é usar os seus agentes [como

as milícias] e travar uma guerra assimétrica.

Há muito tempo que o Irão

vem fazendo isto. Podemos esperar

mais ataques a navios no golfo Pérsico,

mais ataques a bases/soldados

americanos através dos seus agentes,

mais ataques a aliados dos EUA,

como vimos em Setembro quando o

Irão destruiu instalações petrolíferas

da companhia Aramco na Arábia

Saudita [e se safou].»

Acordo nuclear moribundo

«Os Estados Unidos e o Irão já estão,

efectivamente, em guerra, porque

as sanções económicas que a América

impôs aos Iranianos também

são uma guerra», enfatizou Farideh

Farhi. «Mas estamos a falar de dois

países incomparáveis. Um é uma

hiperpotência global, cujo poder

© Lusa/Icana News Agency © 123RF

militar e económico pode fácil e impunemente

causar danos, mesmo

quando se desvia de normas e leis internacionais.

O outro é uma potência

regional de média dimensão que não

pode causar danos directos aos EUA,

economicamente ou de qualquer

outra forma. Por isso, para convencer

a América de que a sua campanha

contra o Irão não está isenta de

custos, este tem de recorrer a meios

não convencionais. Não há qualquer

hipótese de Teerão se envolver num

confronto directo com os Estados

Unidos.»

O que parece uma certeza é a agonia

do acordo nuclear de 2015, conhecido

pela sigla inglesa JCPOA.

«Está ligado ao ventilador», comprova

Nadem Hashemi. «Embora

o Irão e a Europa o tentem manter

vivo, ele só existe em teoria. A culpa

é de Donald Trump, que revogou

o acordo, em Maio de 2018, e está a

encorajar o Reino Unido, a França e

a Alemanha [o chamado grupo E3] a

juntarem-se a ele. Com a eleição de

Boris Johnson, o acordo sofreu outro

golpe, porque Johnson, agindo como

agente de Trump, está a encorajar a

negociação de um novo pacto. Mesmo

que os europeus abandonem o

acordo [original] e venham a impor

novas sanções, não sabemos quais

serão os efeitos práticos, porque o

Irão já está sujeito às pesadas sanções

de Trump.»

Por enquanto, apesar de Teerão ter

retomado o enriquecimento de urânio,

o E3 «parece interessado em salvar

o JCPOA», elogia Farideh Farhi,

esperançosa de que haja ainda espaço

para um «intenso processo diplomático».

A questão que importa é

saber «até que ponto os europeus estão

confiantes de que poderão evitar

uma escalada e não pedir novas sanções

às Nações Unidas. O Irão ameaçou

rever a sua doutrina nuclear

– o que o poderá levar a abandonar

o Tratado de Não Proliferação –

se o E-3 levar o caso à ONU. Este é

um resultado que a ninguém convém,

nem ao Irão». am

além-mar | Fevereiro 2020


ap sudão

sobreviver à mudança

Três Estados sudaneses acolhem projectos de resiliência

contra os efeitos das alterações climáticas.

Texto: Enrique Bayo em Shendi (Sudão) – Fotos: Carla Fibla García-Sala

A

concentração média diária

de dióxido de carbono na

Terra alcançou em Abril do

ano passado 414 partes por

milhão [ppm], um valor a que não se

chegava há três milhões de anos. Não

obstante, segundo o relatório de 2019

do Programa das Nações Unidas

para o Meio Ambiente (PNUMA), se

não se tomarem medidas drásticas,

tudo indica que as emissões de gases

com efeito de estufa continuarão

a aumentar nos próximos anos, incrementando

o aquecimento global

e os efeitos perversos das alterações

climáticas: insegurança alimentar,

diminuição da disponibilidade de

água, contaminação do ar, refugiados

climáticos, degradação dos ecossistemas,

etc. É curioso, para não

dizer injusto, que as populações do

Sul global que mais estão a sofrer as

consequências das alterações climáticas

sejam as menos contaminantes

e as que menos responsabilidade têm

no mesmo.

O Sudão, como tantos outros países

africanos, não escapa a este paradoxo.

O país sofreu em 2019 as

maiores inundações desde que há

medições – anos 80 –, consequência,

sem dúvida, das alterações climáticas.

Sofremo-las na própria pele

durante a nossa viagem a El Obeid: a

estrada que liga esta cidade do Sul a

Cartum ficou inundada e tivemos de

fazer um desvio de onze horas para

regressar à capital.

Para conhecer mais sobre os efeitos

das alterações climáticas no Sudão

fomos até Shendi, localidade situada

a três horas e meia de carro de Cartum.

Fomos ali encontrar-nos com

Diego Manzana, um espanhol que

está há dois anos no Sudão como delegado

da Cruz Vermelha numa iniciativa

de fortalecimento de comunidades

para uma maior resiliência

às alterações climáticas. O projecto

está a ser levado a cabo em 51 pequenas

comunidades de três localidades

do Norte do Sudão, cada uma num

Estado diferente: Golid (Northern);

Telkouk (Kassala) e Shendi (River

2020 Fevereiro | além-mar


p Campo na comunidade de Temaid Haj

Eltahir. No Norte do Sudão a agricultura

é afectada pela subida da temperatura

causada pelas alterações climáticas

A pegada

carbónica

do Sudão é

pequeníssima,

mas é bom que

saibam que há um

problema global e

um esforço global

para o combater.

Nile). São lugares tranquilos, livres

de conflitos bélicos e, como assegura

Diego, «onde as pessoas são receptivas

às ONG internacionais porque

sabem que obtêm benefícios».

O projecto é fruto de um consórcio

da Cruz Vermelha de várias nacionalidades,

coordenadas pela delegação

holandesa, que centra as suas

actividades em Kassala, enquanto o

Crescente Vermelho sudanês é o implementador.

A sócia dinamarquesa

trabalha em River Nile e a sueca em

Northern. A União Europeia (UE)

financia quase na sua totalidade os

6,2 milhões de euros deste projecto

de quatro anos, que tem previsto

concluir em Junho de 2021. Além

da Cruz Vermelha, intervêm a ONG

italiana Coopi, que põe em prática o

projecto em North Darfur, e a consultora

britânica Landell-Mills, especializada

em desenvolvimento e alterações

climáticas, que presta apoio

técnico e coordena os diferentes

actores. Outro aspecto interessante

do projecto é a interacção com instituições

sudanesas para se alinharem

com as suas estratégias e favorecer o

seguimento futuro das acções postas

em marcha.

Visita às comunidades

Em Shendi, deixamos a estrada asfaltada

para adentrarmos no interior.

Apesar da proximidade do Nilo, as

paisagens são arenosas e com escassa

vegetação; a população tem como

principais meios de subsistência a

agricultura e a criação de gado, em

especial caprino e ovino. Encontramos

também alguns rebanhos de

camelos, que pertencem aos povos

nómadas que se movimentam em

busca de pastos. Avançamos por caminhos

de terra e areia cada vez com

mais dificuldade atravessando pequenas

povoações, bastante isoladas

e com muitas carências.

O projecto que nos trouxe aqui pretende

fortalecer as comunidades perante

os novos desafios climáticos.

Com esse objectivo, trabalha-se em

desenvolver capacidades que permitam

uma melhor gestão comunitária

dos recursos naturais disponíveis,

em gizar estratégias de meios de vida

mais adaptadas às alterações climáticas,

revitalizar actividades geradoras

de rendimentos e, por fim, convidar

a um esforço para mitigar as causas

u

além-mar | Fevereiro 2020


sudão

das alterações. Este último aspecto é

mais limitado, mas – segundo Manzana

– «é importante que tomem

consciência da carga contaminante

que as suas actividades envolvem.

Por exemplo, em Kassala muitas comunidades

dependem do fabrico de

carvão, pelo que nós os ajudamos a

utilizar carvoarias mais eficientes,

que reduzam as emissões de gases

com efeito de estufa e que, ao mesmo

tempo, produzam mais carvão

com menos lenha. A curto prazo

não podemos substituir este meio

de vida, que é fundamental para

eles, mas tornamo-lo mais eficiente

para mitigar as alterações climáticas.

A pegada carbónica do Sudão é pequeníssima,

mas é bom que saibam

que há um problema global e um

esforço global para o combater, e

que eles também podem fazer parte

deste esforço». Isso explica-se porque,

«além do enfoque de género,

comummente aceite em qualquer

projecto de desenvolvimento, nós

também temos um enfoque ambiental.

Por exemplo, se abro um poço e

preciso de tirar água, em vez de um

motor alimentado a gasóleo, opto

por instalar um painel solar. O investimento

inicial faço-o eu, e para

assegurar a manutenção traço um

plano de sustentabilidade no qual

haja quotas para o uso da água que

administrem um fundo económico».

Problemas e adaptações

Na comunidade de Temaid Haj Eltahir,

esperam-nos vários membros da

pequena comissão que concretiza as

acções do projecto na aldeia. Eles resumem

os principais problemas que

enfrentam: a diminuição da água

tanto nos aquíferos como nas cisternas

a céu aberto, que se evaporam

mais depressa; ou a perda de biomassa,

seja lenha ou pasto, que cada vez

têm de ir buscar mais longe da sua localidade.

Omar, um dos agricultores,

mostra um dos campos: «Antes, as

plantas nesta época já estavam maiores.

É como se as sementes tivessem

perdido a sua fertilidade.» O certo é

p Diego Manzana, delegado da Cruz Vermelha, cumprimenta membros da comunidade

de Temaid Haj Eltahir. Em baixo, dunas de areia na aldeia de Umm Hatab

O avanço das dunas

A vários quilómetros encontra-se a

localidade de Umm Hatab. Aqui, o

principal problema é o movimento

das dunas de areia, que ameaça as

culturas e até as habitações. O proque

todos estes fenómenos são consequência

da subida da temperatura

causada pelas alterações climáticas.

Por isso, diz Diego, «procuramos

fazer-lhes compreender a ligação entre

os seus problemas e as alterações

climáticas, mas fundamentalmente

abrimos-lhes vias de adaptação dos

seus meios de vida. Tentamos partir

de práticas tradicionais e melhorá-

-las, sem pretender introduzir alterações

enormes que não poderiam

assimilar». Uma das soluções do

projecto são novas técnicas na construção

de barreiras para a captação

da água da chuva; também se lhes

propõe intercalar árvores de fruto

entre as hortaliças para gerar um mi-

croclima que proteja estas do impacto

do sol; além disso, perante a rega

por inundação típica destas zonas

próximas do Nilo, está a equacionar-

-se introduzir a técnica da rega gota

a gota, proporcionando-lhes acesso à

tecnologia. Outra linha de trabalho

consiste em assessorá-los na selecção

de sementes mais resistentes, ou de

raças de cabras e ovelhas mais adaptadas

à nova situação.

2020 Fevereiro | além-mar


s As comunidades do Norte do Sudão

enfrentam o problema da diminuição

da água tanto nos aquíferos como nas

cisternas a céu aberto

jecto está a obrigar a população a

tomar consciência da necessidade

de plantar barreiras naturais de vegetação...

mas não está a ser tarefa

fácil. Dada a escassez de água, alguns

julgam que regar as árvores significa

«desperdiçá-la». Em vez disso, preferiam

usá-la nas colheitas. Contudo,

os benefícios desta prática a longo

prazo são inquestionáveis.

Um problema cultural com que

se debate o projecto é a dificuldade

de envolver as mulheres. Por isso, o

Crescente Vermelho sudanês traz

sempre mulheres que integram as

equipas de campo. Em Shendi esta

mulher é Amal Abdallah: «O meu

principal trabalho é movimentar-

-me continuamente para sensibilizar

as mulheres, e a minha satisfação é

comprovar como se vão juntando

gradualmente ao projecto. Agora

também estamos a introduzir as mulheres

no processamento de alguns

alimentos como compotas, bolachas

e produtos panificados para facilitar

a sua conservação e venda.»

Como gerar renda

Garantir a sustentabilidade passa

também por promover actividades

que gerem renda, e uma sondagem

realizada nas 51 comunidades que

abarcam o projecto oferece indicações

claras. Em River Nile, pensa-se

mais na criação de cabras e em hortas

familiares. Em Northern, apontam-se

como actividades principais

o cultivo de favas e o processamento

de tâmaras. As famílias devem endividar-se

para comprar as sementes

e no momento da colheita das favas

vendem-nas de seguida para poderem

reembolsar o empréstimo. No

projecto são ajudados a interpretar

melhor o mercado. «A ideia – explica

Diego Manzana – é proporcionar-

-lhes um capital de sementes que

lhes permita regular melhor o ciclo

de venda, e vender quando obtenham

melhores lucros.»

Quanto às tâmaras, as melhores do

Sudão produzem-se em Northern,

mas costumam ser vendidas em Cartum

como matéria-prima antes de

serem processadas. «Sugerimos-lhes

que sejam eles mesmos a processar

as tâmaras, porque se trata de uma

simples maturação que não precisa

de tecnologia, para depois as poderem

vender a um preço muito mais

interessante.» «Em Kassala», continua

Diego, «o problema que estamos

a encontrar é que ao não poderem

comerciar directamente com o distribuidor,

este aproveita-se e diminui

os preços, de maneira que estas mulheres

mal podem pagar os custos de

produção.»

A tarde surpreende-nos nas comunidades

rurais e obriga-nos a

empreender o caminho de volta sem

poder visitar as famosas pirâmides

de Meroé, situadas a uns escassos

quilómetros mais a norte. Despedimo-nos

de Diego Manzana; é alguém

que acredita no que faz e que – como

ele mesmo nos confessou – considera

que o seu trabalho contribui para

saldar, pelo menos em parte, uma dívida

histórica. «O que se está a passar

aqui não é consequência directa do

que se faz aqui, mas do que fazemos

nas sociedades industrializadas do

Ocidente.» am

além-mar | Fevereiro 2020


ap chile

foi verdadeiro

milagre?

O Chile era considerado o país mais estável da América Latina

devido ao crescimento económico, à redução da pobreza,

à baixa dívida pública e à alternância governativa. No entanto,

os protestos sociais estão a questionar a desigualdade e o

modelo de desenvolvimento socieconómico adoptado.

Texto: Paolo Moiola, jornalista

© 123RF

2020 Fevereiro | além-mar


De 800 para 830 pesos (851

pesos equivalem a um

euro). Este aumento do preço

do bilhete do metro de

Santiago transformou-se no rastilho

que fez desencadear o incêndio. Iniciado

em Outubro, o protesto social

produziu mortos, feridos e destruição.

E atraiu os holofotes sobre o

Chile, até àquele momento considerado

o país mais estável da América

Latina. E com alguma razão: alternância

no governo, crescimento económico,

redução da pobreza, baixa

dívida pública.

As bases socioeconómicas do Chile

actual – veremos se certas ou erradas

– foram lançadas durante os

anos da ditadura do general Augusto

Pinochet (1973-1990).

Primeiramente, foi a escolha ideológica:

individualismo, livre mercado

e papel secundário (subsidiário)

do Estado de acordo com o prescrito

pela Escola de Chicago do Professor

Milton Friedman [1912-2006],

economista e Prémio Nobel, um dos

fundadores do neoliberalismo. Depois,

passou-se à acção. No curso dos

anos, a junta militar no poder privatizou

centenas de empresas públicas

actuantes nos mais diversos campos:

electricidade, telecomunicações, minas

e florestas, química, informática,

cimento, pescas, transporte aéreo e

– quase caso único em todo o mundo

– água. Entretanto, em 1980, Pinochet

formalizou o modelo de uma

nova Constituição. De notar que ela

não prevê o direito à saúde, mas o direito

a escolher entre um sistema de

saúde público e um privado (Capítulo

III, artigo 19, alínea 9).

Com o regresso à democracia (em

1990), pouco ou nada foi mudado,

mesmo com governos de diferente

cor política. Em 2018, o conservador

Sebastián Piñera – um dos homens

mais ricos do país (antigo accionista

de maioria da companhia aérea

Lan Chile e do canal televisivo Chilevisión)

– foi eleito presidente (pela

segunda vez), sucedendo à socialista

Michelle Bachelet.

© 123RF

Com salários

entre os 400 e

os 600 euros

por mês, muitos

cidadãos têm

dificuldade em

satisfazer todas

as necessidades

básicas no Chile.

p Estação de metro em Santiago. Foi o

aumento do preço do bilhete do metro

de Santiago que fez desencadear a onda

de protestos sociais no Chile. Página

anterior, centro financeiro de Santiago

do Chile, a capital do país

Milagre económico

Crescimento e estabilidade do Chile

levaram a falar de milagre económico.

Todavia, se de milagre se

tratou, seguramente foi um milagre

estrábico visto o número de cidadãos

que ficaram dele excluídos. Vejamos

alguns números (oficiais) para evidenciar

algumas deformações do

modelo.

Segundo a Comissão Económica

para a América Latina e as Caraíbas

(CEPAL), no Chile a riqueza está al-

u

além-mar | Fevereiro 2020


chile

© 123RF

p Mercado no centro de Santiago do

Chile

tamente concentrada: os 10 % mais

ricos detêm dois terços (66,5 %) da

riqueza do país. Com salários entre

os 400 e os 600 euros por mês, muitos

chilenos têm dificuldade em satisfazer

todas as necessidades básicas.

Além disso, segundo os vários organismos

da ONU, as faltas em matéria

de direitos económicos e sociais

são evidentes. Por exemplo, as graves

carências na educação pública foram

as causas desencadeantes dos protestos

estudantis de 2006 (reproduzidos

em 2008, 2011 e em 2013) e conhecidos

como a Revolução dos Pinguins

(por causa do uniforme escolar usado

pelos manifestantes).

No Chile, a educação, a saúde e

o sistema de pensões são os campos

em que se evidenciam mais as

ineficiências do chamado «Estado

subsidiário» (ou seja, do Estado que

intervém de maneira minimalista ou

somente quando o privado não está

presente).

Em suma, no Chile do falado milagre

económico os motivos para sair à

rua não faltavam. O aumento dos bilhetes

de metro – devastado durante

os protestos e ainda hoje com linhas

e estações encerradas – fez saltar a

tampa. O Governo respondeu decretando

o estado de emergência e o recolher

obrigatório em Santiago, Valparaíso

e Concepción. No confronto

com os manifestantes, a polícia chilena

(carabineros) usou da força de

forma desatinada, abusando do seu

poder. Os excessos – brutalidades,

torturas, violências sexuais, uso inadequado

das armas – foram denunciados

até pela delegação enviada

para o país pelo Alto Comissariado

das Nações Unidas para os Direitos

Humanos (ACNUDH).

Revoltas sociais

Chegado a um índice de aprovação

baixíssimo (10 % em Novembro de

2019, segundo Plaza Pública Cadem),

o presidente Piñera primeiro

pediu desculpa aos cidadãos e depois

© Lusa/Elvis Gonzalez

2020 Fevereiro | além-mar


© Lusa/Elvis Gonzalez

p Milhares de chilenos marcharam em

silêncio contra a repressão policial e

pedindo a renúncia do presidente Sebastián

Piñera no centro de Santiago, no

passado 18 de Janeiro. Ao lado, a polícia

dispersa os manifestantes durante um

protesto numa rua de Santiago

prometeu uma «Nova agenda social»

sobre uma série de assuntos (tabela

de preços, salário mínimo, pensões,

saúde, justiça, pequenas empresas).

Ainda é cedo para dizer se se trata de

uma verdadeira viragem ou de uma

mera maquilhagem. Mais relevante

foi a decisão, oficializada no fim de

Dezembro, de estabelecer uma consulta

popular para o próximo dia 26

de Abril, quando o país irá (finalmente)

votar um referendo sobre a

Constituição: reformar aquela em

vigor herdada de Pinochet ou eleger

uma assembleia constituinte que escreverá

uma nova?

Os nostálgicos – declarados ou

ocultos – do ditador não faltam, mas

os chilenos contrários parecem estar

em larga maioria, contra as esperan-

ças de El Mercurio, o mais importante

(e bisbilhotado, precisamente por

causa do seu apoio a Pinochet) diário

chileno. Para nos compreendermos,

no passado 11 de Setembro, aniversário

do golpe contra o presidente

socialista Salvador Allende, o jornal

de Santiago publicou um suplemento

intitulado «No dia 11 de Setembro

de 1973 o Chile livrou-se de se tornar

como a Venezuela de hoje».

Interpelada sobre as revoltas destes

meses, Isabel Allende, escritora chilena

de fama internacional, afirmou:

«Diz-se que o Chile é o paraíso, mas

os números não mostram a distribuição

da riqueza e das oportunidades.

A desigualdade está entre as mais

elevadas do mundo. O capital teve

toda a liberdade possível sem ter um

contrapeso» (CNN Chile). Na mesma

linha também Luis Sepúlveda,

outro conhecido escritor chileno: no

Le Monde Diplomatique escreveu que

nenhuma outra nação da América

Latina se alinhou tão fielmente a favor

do «bem-estar de uma minoria, a

despeito do resto da população». am

além-mar | Fevereiro 2020


aps vida missionária

© Além-Mar

© Além-Mar

a cadeira de rodas como púlpito

A nossa vida é missão em todo o tempo e circunstâncias,

mesmo quando a doença se manifesta. «Encontro-me totalmente

imobilizado, mas sinto uma plenitude de mente e de coração, sonho

uma realização que antes não conhecia. Esta cadeira de rodas

tornou-se para mim o melhor dos púlpitos», afirma o padre Manuel

João, missionário camboniano afectado há dez anos pela esclerose

lateral amiotrófica (ELA).

O

P. e Manuel João Correia

nasceu em Penajóia, Lamego.

Ordenado sacerdote

a 15 de Agosto de 1978,

vive os primeiros anos de sacerdócio

missionário na comunidade comboniana

de Coimbra, dedicando-se à

animação missionária e vocacional

dos jovens.

Em 1985, é destinado ao Togo, na

África Ocidental. Em 1993, o P. e Manuel

João é chamado a Roma como

coordenador do sector da formação

no Instituto Comboniano.

Regressa ao Togo em 2002 e é eleito

superior provincial dos Missionários

Combonianos do Togo, Gana e

Benim.

No fim de 2010, chega a notícia

inesperada, como relata aos seus

amigos: «Deixarei o Togo e voltarei à

Europa, sem saber o que me espera.

A doença que me foi diagnosticada

(ELA) segue o seu curso. Também eu

me pergunto: porque é que isto me

aconteceu? Mas respondo sempre

a mim mesmo: e porque é que não

havia de te acontecer? Porque é que

acontece aos outros e a ti não devia

acontecer? Revisitando lugares e pessoas,

a mente corre para o passado,

recordando a primeira vez, a minha

chegada à missão, jovem missioná-

2020 Fevereiro | além-mar


rio pleno de sonhos e entusiasmo.

Então, tudo era novo para mim, e

lancei-me, de corpo e alma, nesta

aventura. As dificuldades do início,

a adaptação ao clima, o esforço por

aprender a língua e os costumes, o

empenho e o desafio de uma nova

cultura... não diminuíram o meu entusiasmo.

Hoje, muitas coisas mudaram;

mudou a África e a sua gente, o

rosto da Igreja e dos missionários... e

também eu mudei, como é natural!»

gre de Jesus nas bodas de Caná! Termino

a minha missão louvando o Senhor

e acolhendo o seu convite para

retomar o caminho.»

O novo serviço missionário do

P. e Manuel João é determinado pela

natureza da ELA, doença do foro

neurológico que, gradualmente, priva

a pessoa dos movimentos musculares.

Em Roma integra-se na equipa

que coordena a formação permanente

do Instituto Comboniano. Resiste

ao decurso da doença movendo-se

primeiro com as muletas e depois

em cadeira de rodas, superando os

prognósticos dos médicos. No início,

explica, «a doença é como um muro

que corta completamente todas as

perspectivas de vida, os sonhos que

Sempre em missão

A doença afasta o P. e Manuel João

de África, mas, para ele, este retorno

forçado à Europa é uma nova oportunidade

e um recomeço: «Regresso

sereno, convicto de que o Senhor

continuará fiel à promessa que me

fez: estarei sempre contigo, para dar

sentido à tua vida! Regresso, por isso,

convicto de que o melhor ainda está

por chegar! Como o vinho do milaq

O P. e Manuel João, diagnosticado com

ELA há dez anos, considera que este é o

lugar onde vive a vocação missionária

e onde a sua vida é mais fecunda

se tinham, as realizações que se queriam

fazer». No entanto, pouco a

pouco, o P. e Manuel João deu-se conta

que, «em qualquer circunstância,

a vida oferece novas oportunidades,

que, no final, se revelam muito mais

fecundas».

Em 2016 deixa Roma para ser

transferido para a comunidade de

Castel D’Azzano, em Verona, onde,

como afirma «possa ser melhor assistido,

porque a minha inseparável

companheira, a ELA, não me deixa».

Parte, afirma, «para responder a um

outro chamamento de Deus, para

deixar as minhas seguranças e partir,

mais uma vez, em missão. Trata-se

da penúltima missão, porque a última

será aquela que nos será confiada

no Paraíso. Disponho-me a vivê-la

com o empenho e a generosidade

dos trabalhadores da última hora da

parábola evangélica.»

O P. e Manuel João, agora com 68

anos, já ultrapassou a esperança média

de vida desde que a enfermidade

lhe foi diagnosticada. Encontra-se

limitado fisicamente, mas o seu coração

mantém-se livre e missionário.

«Por vezes penso naquilo que poderia

ter feito se não tivesse esta doença

que me conduziu à imobilidade total...

Mas penso que esta é a condição,

este é o lugar onde vivo a minha

vocação missionária e onde a minha

vida é mais fecunda. Com esta

doença encontro-me num espaço

reduzido, mas aqui posso viver com

fecundidade apostólica. Deus pode

fazer, e faz, grandes coisas mesmo

neste pequeno espaço em que vivo.

Experimento que pequenas coisas,

a que antes dava pouco valor, como

a palavra, o sorriso, a serenidade, a

capacidade de escuta e de empatia...

surpreendem-me como instrumentos

de graça que Deus usa para tornar

fecunda a minha vida. Esta cadeira

de rodas tornou-se para mim o

melhor dos púlpitos.» am

© Além-Mar

Texto elaborado com base na entrevista feita

pelo P. e Manuel Augusto Lopes Ferreira,

missionário comboniano

além-mar | Fevereiro 2020


ap gente solidária

2020 Fevereiro | além-mar


casa da alegria

A Casa da Alegria é uma instituição católica

situada em Lusaca (Zâmbia). Este projecto,

dirigido pelas Irmãs da Imaculada Conceição,

acolhe meninas órfãs de pai e mãe e procura

ajudá-las a sentir-se em família

e a desenvolverem-se humana e cristãmente.

Texto e fotos: P. e Carlos Nunes, missionário comboniano

No Centro Marian Shrine,

em Lusaca (Zâmbia), os

católicos reúnem-se para

celebrar a fé e pedir a intercessão

de Nossa Senhora de Fátima e

dos três pastorinhos, a quem está dedicado

o santuário. Desde 1994, estão

presentes neste centro pastoral as

Irmãs da Congregação da Imaculada

Conceição (CIC), que vivem e trabalham

no lugar. O instituto foi fundado

na Índia, em 1899, pelos padres

Augustine Pereira e Justin Lamey

(SJ) e tem como carisma «Proclamar

a Boa Nova aos pobres com simplicidade

e amor». As primeiras irmãs

chegaram a Lusaca a 13 de Outubro

de 1994, festa de Nossa Senhora de

Fátima.

Foi por iniciativa destas religiosas

e o apoio dos arcebispos de Lusaca

que nasceu nos terrenos do santuário

o projecto Casa da Alegria: um orfanato

destinado a meninas órfãs de

pai e mãe. Elas sentiam que Maria,

mãe de Jesus, é a mãe de todos e quer

acolher no seu regaço de amor estas

meninas, que sem família estão entre

as pessoas mais pobres e necessitadas

desta sociedade zambiana.

t Meninas brincam nas instalações da

Casa da Alegria em Lusaca, Zâmbia

A Irmã Saleth é a actual directora

do orfanato. Ela conta-nos sobre os

inícios desta obra, os seus objectivos

e o que têm feito e fazem pelas meninas

órfãs.

Como surgiu e porquê este tão belo

nome A Casa da Alegria?

Desde o início a nossa visão é ajudar

e desenvolver as capacidades

destas meninas órfãs a tornarem-se

dignas cidadãs da Zâmbia seguindo

os valores cristãos. A nossa missão

é promover o sentido de dignidade

pessoal e a própria futura independência

de cada uma. Para isso as

meninas vivem numa casa, com uma

«mãe» e todas as estruturas de uma

família cristã. Destes princípios nasceu

o nome A Casa da Alegria, porque

alegria é o sinal de vida cristã.

Desde que o projecto começou,

quantas meninas já passaram

por aqui? Quem foram as irmãs e

«mães» encarregadas até agora?

As primeiras meninas entraram nas

casas a 8 de Julho de 2000, depois

de as Embaixadas da Noruega e do

Canadá ajudarem a finalizar as casas

e prover as camas. A abertura oficial

foi a 7 de Agosto de 2000. Desde

então, cerca de 180 meninas já passaram

pela Casa da Alegria e várias u

além-mar | Fevereiro 2020


Têm exemplos de meninas que já

singraram na vida?

Sim, sim! Graças a Deus! Todos os

anos no dia da Independência da

Zâmbia (24 de Outubro) fazemos um

encontro com as jovens que já passaram

por aqui e as meninas que cá

estão. É bonito ver a alegria daquelas

que agora são mães e têm a sua família;

têm uma profissão e querem ajudar

as que agora estão aqui na casa!

Algumas vêm cá regularmente para

apoiar, ajudar e ensinar as meninas.

O objectivo da Casa da Alegria é

conseguir a autonomia futura das

meninas. Todas elas são órfãs de pai

e mãe. Procuramos educá-las através

da vida em família, da escola e dos

valores e virtudes cristãos. Queregente

solidária

irmãs, «mães» e outras pessoas voluntárias

de vários países ajudaram

e trabalharam no orfanato. Oficialmente

foram quatro as irmãs responsáveis

pelo projecto. Eu sou directora

desde 2017. É uma grande responsabilidade

e alegria estar aqui.

Porquê este estilo de «Minha Casa»

em que as crianças vivem em comum

como família, numa casa,

com a «mãe» a coordenar a vida

delas?

Acreditamos que as meninas devem

crescer numa casa ao estilo da família.

Temos cinco casas, cada uma

para dez crianças e uma «mãe», que

normalmente é uma mulher viúva

e assim pode dedicar-se completamente

a esta sua nova e grande família.

As «mães» vivem e fazem o seu

serviço em estilo de voluntariado e

ajudamo-las com uma pequena recompensa

mensal. As crianças são

educadas a assumir as responsabili-

O objectivo da

Casa da Alegria

é conseguir a

autonomia futura

das meninas. Todas

elas são órfãs de pai

e mãe.

dades de casa – fazer a cama, lavar a

louça, preparar as refeições, arrumar

a casa, ir para a escola – conforme a

idade de cada uma. Neste ano temos

30 meninas, com idades que vão dos

quatro aos quinze anos.

p O padre Carlos Nunes com algumas

meninas na Casa da Alegria. Neste orfanato

as meninas crescem numa casa ao

estilo da família

2020 Fevereiro | além-mar


mos que formem famílias boas e que

tenham um trabalho digno. Das meninas

que passaram por aqui, agora

há algumas que são professoras, uma

tem um trabalho óptimo na Segurança

Social, outra está a fazer um curso

em Londres. Há também as que trabalham

em hotéis ou em casas de família.

A nossa grande alegria é vê-las

com futuro e sempre em comunhão

com as que estão agora no orfanato.

p Na Casa da Alegria as religiosas da Imaculada Conceição procuram educar as

meninas órfãs de pai e mãe através da vida em família, da escola e dos valores e

virtudes cristãos

Como têm encontrado meios para

manter a Casa da Alegria durante

estes anos?

Essencialmente através do apoio e

ajuda de famílias locais. Há muita

gente generosa na Zâmbia que nos

ajuda fazendo-nos doação de dinheiro

ou géneros alimentares, roupas,

livros. O Estado paga a escola. Mas

precisamos de muito mais. Como

pode imaginar, é muito difícil manter

diariamente 30 crianças.

Que perspectivas tem para o futuro

da Casa da Alegria?

Consideramos esta obra muito relevante,

pois sem o nosso apoio estas

meninas teriam menos possibilidades

de desenvolver-se integralmente,

conseguir um trabalho e ser felizes.

No entanto, não temos nenhum

apoio institucional fixo. Para mantermos

esta Casa de Alegria, necessitamos

da ajuda de benfeitores que

possam ajudar as meninas órfãs.

Graças a Deus, já contamos com

algum apoio vindo de Portugal.

A senhora Florinda Lopes e outras

colaboradoras, de Quintas, distrito

de Aveiro, conheceram a Casa da

Alegria e estão a fazer maravilhas

para apoiar-nos a nós e a outras

iniciativas da missão aqui na Zâmbia.

Sei que, para recolher fundos,

se juntam em actividades variadas

e vão partilhando a missão, seja em

encontros de oração, celebrações familiares,

festas ou em outras iniciativas.

Muito obrigada pela vossa ajuda

e entusiasmo missionário. Como nos

recorda o nosso querido Papa Francisco,

todos somos missão. am

além-mar | Fevereiro 2020


livros

Foco da evangelização

Não poucas vezes é expressa a preocupação com a perda

de valores tradicionalmente cristãos na sociedade,

um facto potenciado pelas actuais facilidades de comunicação

que fornecem palcos para que qualquer valor se

faça ouvir perante enormes audiências.

O autor deste Periferias, fundador da Comunidade de

Santo Egídio, organização católica dedicada aos pobres,

caridade, evangelização e promoção da paz, mostra-se, no

entanto, mais preocupado com a vertente menos teórica

da questão e com a aplicação na prática desses valores.

Na defesa destes, mais do que discursos ou encadeado

de lógicas e ideias falará sempre mais alto o testemunho

vivido dos mesmos e a forma como essa mesma prática

tocará aqueles que com ela conviverem.

Andrea Riccardi recorda a este propósito a posição do

Papa Francisco, que «não acredita na realização de uma

hegemonia da Igreja sobre a sociedade, mas no fascínio

convincente da bondade e do amor que habitam a Igreja»;

ou, por outras palavras, «o Papa está longe de ser insensível

aos valores éticos» (à sua aceitação e incorporação

na sociedade) «mas declara o primado da ida para as

periferias e da comunicação do Evangelho».

Historiador, o autor analisa a sociedade nos últimos

séculos e rapidamente conclui que «a condição humana

transformou-se rapidamente no séc. xx: em 2030 prevê-se

que quase 60% da população será urbana; no entanto

grande parte da população vive hoje nas periferias». Salientando

que «a periferia não é apenas uma realidade

urbanística ou geográfica mas também social e humana»,

Andrea Riccardi identifica «o periférico como o excluído

do centro da sociedade, que é feito de poder, riqueza,

bem-estar».

Este livro deixa, desta forma, o apelo a que a evangelização,

a difusão dos valores cristãos, tenha o centro,

ironicamente, nas periferias. O leitor é ainda contemplado

no último capítulo com uma série de relatos de vidas que

decidiram juntar-se aos mais carenciados e com eles partilhar

condições de vida, levando a opção pela periferia

Título: «Periferias»

Autor: Andrea Riccardi

Editor: Lucerna | www.lucernaonline.pt | Tel. 214 678 710

a extremos que os levaram a serem tantas vezes incompreendidos

até por elementos da Igreja que lhes poderiam

ter percebido o sentido dessa radical opção de vida cristã.

Neste apelo a pôr em prática os valores cristãos, Andrea

Riccardi recorda as palavras da irmã Magdeleine, fundadora

das Irmãzinhas de Jesus: «Não temos senão um objectivo:

tornarmo-nos um deles, isto é, um dos mais pobres,

da classe dos humildes, daqueles que o mundo despreza

[...] nunca a um nível superior a eles para os conduzir, educar

ou instruir, mas a um nível de igualdade, para os amar,

ajudar como se ajudariam os nossos amigos, os nossos

irmãos, os nossos iguais. É a nossa única via».

Filipe Messeder

Título: «Dietrich Bonhoeffer»

Autor: Giorgio Cavalleri

Editora: Paulinas

www.paulinas.pt | Tel. 219 405 640

O testemunho humano e a

reflexão filosófica do teólogo

polaco Dietrich Bonhoeffer

(1906-1945), que se opôs à

barbárie nazi até ao martírio.

O seu pensamento, que

influenciou a Teologia após

a Segunda Guerra Mundial,

pelo escritor e historiador italiano

Giorgio Cavalleri.

Título: «Teologia Como Resistência»

Autores: António Marujo e António Pedro Ferreira

Editora: Universidade Católica Editora

www.uceditora.ucp.pt | Tel. 217 214 020

Alunos e professores da Faculdade

de Teologia da UCP

em entrevistas que se cruzam

e falam dos caminhos actuais

e das encruzilhadas em que

a Teologia se encontra. Texto

do jornalista António Marujo,

colaborador da Além-Mar e

director do 7Margens e fotos

de António Pedro Ferreira, fotojornalista

do Expresso.

2020 Fevereiro | além-mar


discos

António Marujo

gesto solidário

Título: On Behalf of Nature

Intérpretes: Meredith Monk & Vocal Ensemble e

vários músicos

Edição: ECM New Series | discos@dargil.pt

voz da Natureza, através

A da voz humana. Este On

Behalf of Nature (“Em nome da

Natureza”), escreve Meredith

Monk, teve como mais remota

inspiração um ensaio do poeta,

activista ambiental e praticante

do budismo Gary Snyder

[n. 1930],, acerca dos escritores e

a guerra contra a Natureza. Nele,

o poeta escreve sobre o papel do

artista como o de um porta-voz

de entidades não humanas que comunicam

com o mundo humano por meio da música

ou da dança. «Esse acto de compaixão», defende

Snyder citado por Meredith, «encarna

e dá voz àquelas forças que geralmente não

são reconhecidas ou não são valorizadas».

É disso que se trata neste disco, quando estamos

cada vez mais confrontados com a

urgência de escolhas individuais e colectivas

que tornem possível a continuação da vida

no planeta. A voz humana (por vezes com

o apoio de poucos instrumentos) dá corpo,

nestas músicas, ao mais profundo da Natureza:

aves e rios, florestas e desertos, vento

e sol, mistérios e claridades, dia e noite.

E, por meio da sua poderosa capacidade musical,

entramos numa profunda comunhão

cósmica.

Título: Sufi – Music from Turkey

Intérpretes: Vários

Edição: ARC Music

vgm@plurimega.com

Ouça os podcasts Além-Mar

Acompanhe a missão da Igreja no mundo e a informação

dos países do Sul com os nossos podcasts.

Pode ouvi-los no computador (https://www.combonianos.pt/alem-mar/podcast/)

ou na nossa aplicação

para dispositivos móveis que pode baixar usando o

código QR ao lado.

biblioteca do Trinity College,

universidade de Dublin A

fundada em 1591, é de uma beleza

invulgar: uma sala longa e

comprida, de abóboda, estantes

ordenadas alfabeticamente e,

sobretudo, uma riqueza imensa

de manuscritos. Ali se encontra

o famoso Livro de Kells, ou

Evangeliário de São Columba,

manuscrito iluminado do século vii-

-viii. Mas a tradição celta-irlandesa inclui

também um catálogo de santos invulgares,

na sua acção missionária e nas propostas

de espiritualidade que fizeram: Patrício é o

mais conhecido, mas há pelo menos duas

dezenas de nomes de vulto, entre os quais

Santa Brígida, ou os santos Malaquias, Galo,

Columbano ou Ciarão de Clonmacnoise.

Na biblioteca do Trinity, guarda-se também

a maior colecção de manuscritos litúrgicos

medievais irlandeses dos séculos xiii-xvi.

É daí que são coligidos os cânticos deste disco,

em boa parte dedicados aos santos patronos

irlandeses e que reflectem a valorização

da espiritualidade dessas figuras do cristianismo

celta, iniciada no século xii.

Casa de acolhimento

São Daniel Comboni,

RD do Congo

As Missionárias Combonianas da

República Democrática do Congo

querem fortalecer um projecto

que já desenvolvem na periferia

de Kinshasa, a capital deste país

africano. A iniciativa tem como

beneficiárias as jovens mães que

vivem na rua ou em situação de

pobreza extrema e as mulheres

que saem da prisão e necessitam

de apoio para a reinserção social.

Assim, as missionárias propõem-

-se construir uma casa de acolhimento

temporário para essas

mulheres. Irão também ministrar

cursos de formação técnico-profissional

e proporcionarão a essas

mulheres acesso a programas de

microcrédito para que possam

começar os próprios negócios.

Para que esta iniciativa se possa

realizar, a revista Além-Mar, com

o Projecto 2/2020, contando com

a generosidade dos seus leitores,

quer participar com 5000 euros.

Se deseja participar, pode mandar a

sua contribuição por cheque bancário,

vale postal, transferência bancária

para o IBAN PT50 0007 0059 0000

0030 0070 9 (neste caso deve indicar-nos

– editalemmar@netcabo.pt ou

213 955 286 – que a transferência se

destina ao Gesto Solidário), ou online

(https://www.combonianos.pt/doar)

seleccionando a opção “projecto solidariedade

Além-Mar”.

além-mar | Fevereiro 2020


aps povos e culturas

© Kzaral - Flickr

PORTUGAL-JAPÃO

partilha de culturas

e afectos

Os Portugueses foram os primeiros ocidentais

a estabelecer contacto com o povo japonês,

em 1543. Mas as boas relações entre os

dois países romperam-se em menos de um

século. Seguiram-se mais de duzentos anos

de relações cortadas. Em 1860, assinou-se o

Tratado de Paz, que ainda perdura.

A celebração desta efeméride é ocasião para

assinalar as marcas que cada um destes

povos deixou no outro.

Texto: Fernando Félix, jornalista

O

Cristianismo chegou ao

Japão com os navegadores

portugueses, no século

xvi. O mesmo Cristianismo

foi um argumento determinante

para o corte de relações diplomáticas

luso-nipónicas no século

xvii. A proibição da fé remeteu as

comunidades cristãs nipónicas para

a clandestinidade durante dois séculos.

Todavia, a marca destas comunidades

é tão peculiar que doze dos

lugares associados a elas, sobretudo

no Sul do Japão, foram incluídas no

Património Mundial da Unesco, em

2018.

2020 Fevereiro | além-mar


© Ajari - Flickr

O legado do Cristianismo que sobreviveu

escondido na cidade de Nagasáqui,

entre outras maravilhas naturais,

religiosas e culturais do Japão,

está em exposição fotográfica, até 1

de Março, no MU.SA, Museu das Artes

de Sintra. Esta iniciativa é o ponto

de partida para as celebrações de 160

anos do restabelecimento das relações

diplomáticas luso-nipónicas.

Foi a 3 de Agosto de 1860, no reinado

de D. Luís, que Portugal e Japão

assinaram o Tratado de Paz, Amizade

e Comércio.

Encontro acidental

A cidade de Nagasáqui, no Japão, é

obra de Portugal. Edificada em 1571,

foi revolucionária na altura. Embora

o Japão seja montanhoso, o povo japonês

estava habituado a edificar as

q Locais sagrados e vilas de Hirado,

património da humanidade, ao cimo a

Igreja Memorial São Francisco Xavier,

que introduziu o Cristianismo no Japão.

Ao lado, estátua da Virgem Maria dos

cristãos japoneses na clandestinidade

Página anterior, Basílica dos Vinte e

Seis Santos Mártires do Japão, em Oura,

Nagasáqui

© Kzaral - Flickr

povoações em planícies. Nagasáqui

é a excepção. É uma cidade situada

numa baía profunda rodeada de

montanhas, para servir como porto

o comércio marítimo português.

Haviam passado vinte e oito anos

desde que marinheiros portugueses,

em 1543, tinham pisado pela primeira

vez a costa sul do arquipélago japonês,

e puderam dizer ao Ocidente

que existia mesmo o país chamado

Cipango ou Ji-pangu, em chinês, e

que significa «local onde o Sol nasce»,

a que aludira o mercador italiano

Marco Polo, na sua viagem pela

China, em 1291.

Foi nas pequenas ilhas de Liampó

(Ning-po), na costa chinesa, que, em

1540, os marinheiros portugueses se

encontraram com barcos japoneses

ali ancorados. E, segundo a História,

será de modo acidental que os

navegadores António Mota, António

Peixoto e Francisco Zeimoto se tornam

os primeiros ocidentais a chegar

ao Japão. A Liampó chegavam e dali

saíam barcos chineses de junco para

diversas rotas comerciais. Um destes

barcos chineses que se dirigia para

Liampó sofreu uma violenta tempestade

e foi parar à ilha de Tanegashima,

no Sul do Japão. Nesse barco

iam os três portugueses. A data desse

acontecimento é 23 de Setembro

de 1543, de acordo com a Teppo-ki

(«Crónica da espingarda»), escrita

no Japão em 1606.

A marca dos Portugueses

no Japão

O primeiro contacto dos Portugueses

com o Japão impressionou de

imediato em dois aspectos: vestuário

e tecnologia.

Os Japoneses são curiosos e ávidos

de conhecimento por natureza.

A roupa que os portugueses vestiam

seduziu-os de imediato. E certos aspectos

da indumentária lusa foram

rapidamente adoptados, tais como o

botão – e a palavra butan –, a capa

e o uso do gibão, um tipo de roupa

interior, geralmente de cor branca,

que ainda hoje é usado debaixo do

quimono – juntamente com a palavra

juban.

Na tecnologia, a primeira dádiva

– que havia de alterar o rumo da

História do Japão – foram as armas.

Os mosquetes que os Portugueses

levavam quando chegaram à ilha de

Tanegashima foram logo adoptados

e receberam o nome daquela cidade.

Com o tempo foram melhorados e,

graças a estas armas, as forças militares

imperiais puseram fim aos con-

u

além-mar | Fevereiro 2020


povos e culturas

flitos tribais e conseguiram a unificação

política do país.

Com as disciplinas de matemática,

geografia e engenharia, os Portugueses

ajudaram o Japão a adquirir a

noção correcta da configuração do

planeta, dos continentes, oceanos,

povos, espécies da fauna e da botânica;

e a evoluir nas técnicas metalúrgicas

e, em particular, na construção

naval e nos instrumentos de navegação.

O navio mercante japonês de

influência ocidental Shuinsen (literalmente

«navio de selo vermelho»),

construído em 1634, que está no

Museu de Ciência Naval de Tóquio,

é um bom exemplo.

Com os navegadores e comerciantes

portugueses, chegaram também

ao Japão missionários católicos, sobretudo

da Companhia de Jesus (Jesuítas)

e franciscanos. Desde logo, o

Apóstolo do Oriente, São Francisco

Xavier, que chegou ao País do Sol

Nascente em 1549.

As escolas e os seminários foram

meios de divulgação da cultura ocidental.

Japoneses convertidos, jovens

e adultos, aprenderam diversas matérias,

desde os temas religiosos, ao

português e ao latim, passando pela

música, pintura, culinária, agronomia

e agro-pecuária. Os missionários

deram a conhecer e ajudaram os

Japoneses a usar o relógio, o vidro, os

espelhos e os óculos.

O jesuíta português padre Diogo

de Mesquita introduziu no Japão

novas espécies de animais e vegetais:

figueira, pereira, pessegueiro, marmeleiro,

oliveira e videira, e a criação

e consumo de animais domésticos:

galinha, pato e coelho.

O missionário Luís de Almeida

levou a medicina ocidental para o

Japão. Instalou em Funai o primeiro

hospital e ali realizou-se a primeira

operação cirúrgica. É também a ele

que se deve o primeiro orfanato.

Foram igualmente os missionários

que apresentaram a tipografia aos

Japoneses. O primeiro livro em japonês

a ser impresso foi A Doutrina

Cristã, em 1591. E o dicionário de jap

Shuinsen (literalmente «navio de

selo vermelho»), construido em 1634,

que está no Museu de Ciência Naval

de Tóquio. Em baixo, Virgem Maria dos

Kakure Kirisutan, do século xvi

ponês-português, compilado pelo jesuíta

João Rodrigues e publicado em

Nagasáqui em 1603, foi o primeiro

dicionário de japonês numa língua

ocidental.

Neste dicionário constam 68 palavras

adoptadas pelo idioma nipónico

com influência portuguesa, entre

as quais alguns termos religiosos,

como, por exemplo: Adan (Adão);

bauchizumo (baptismo); Esu (Jesus);

bateren (padre); iruman (irmão);

katorikku (católico); kirishitan (cristão).

Por sua vez, a língua portuguesa

herdou palavras japonesas, tais como

«biombo» e «catana», objectos característicos

da cultura e artes de guerra

japonesas.

Os cristãos ocultos no Japão

A hostilidade do governo nacional

japonês para com o Cristianismo expressou-se

com perseguições, com a

crucificação dos 26 mártires cristãos,

em 1597, e a morte de todos os cristãos

encontrados, até à proibição do

ingresso de estrangeiros, em 1639,

política que só terminou em 1854.

Quando, em 17 de Março de 1865,

o padre francês Bernard Thaddée

Petitjean recebeu na igreja recém-

-inaugurada um grupo de cristãos japoneses,

que lhe falaram dos cristãos

que mantiveram a fé às escondidas,

os kakure kirisutan, ele assinalou essa

data como a «Ressurreição do Cristianismo

no Japão». Não se sabia, até

então, da existência desses cristãos,

depois de mais de duzentos anos de

proibição.

O Cristianismo sobreviveu porque

os católicos se dividiram por 22 localidades,

reuniam-se secretamente em

casas comuns, não usavam textos escritos,

mas serviam-se da transmissão

oral, e tiveram de criar imagens

de Jesus Cristo e da Virgem Maria

parecidas com imagens budistas. am

© Hoku-sou-san - Wikipedia

2020 Fevereiro | além-mar


apontamentos

na conversa...

© 123RF/1971yes

P. e Fernando Domingues

Missionário comboniano

Há conversas

que valem

pouco ou

nada, mas há

maneiras de

conversar que

abrem o coração

à presença

de Jesus que

quer caminhar

connosco.

é conversa!», exclamamos

nós às vezes, para

desqualificar alguma coisa

«Isso

que alguém nos está a dizer.

Ora aqueles dois discípulos que ainda

não sabiam da ressurreição de Jesus e

caminhavam desiludidos e tristes em

direcção a Emaús nunca imaginaram

que a conversa que iam fazendo iria ter

tanto valor. Hoje, cerca de dois mil anos

mais tarde, o que eles lá disseram e o que

descobriram durante aquela conversa

continua a ser motivo de reflexão e de

alegria para muitos milhões de pessoas,

todos os cristãos!

De facto, foi durante aquela conversa

que um certo forasteiro desconhecido se

aproximou deles e, entrando na conversa

que faziam, começou a «aquecer-lhes o

coração». Não conseguiam ainda reconhecer

que era Jesus ressuscitado quem

caminhava com eles, mas já sentiam o

primeiro efeito da sua presença: o «coração

aquecido».

Vale então a pena olhar mais de perto

para essa conversa que se tornou ocasião

para Jesus se dar a conhecer,

caminhando com aqueles

dois que tinham sido seus

discípulos.

Caminhavam juntos.

Juntos por conveniência para

se defenderem mutuamente

se aparecessem salteadores

pelo caminho? Juntos por

acaso? Talvez se tivessem

encontrado a sair de Jerusalém

à mesma hora da

manhã... Juntos talvez pela

dor comum: a morte do Mestre

Jesus ainda doía muito, o

melhor era partilhar a dor.

Ou talvez juntos porque no

segredo do coração de cada

um deles ainda havia uma

brasita de esperança que

teimava em ficar acesa: quem

sabe se Deus não podia ainda

arranjar maneira de transformar

aquela triste morte de

Jesus em alguma coisa de positivo. Afinal

ele tinha dito que «quem perde a sua vida

pelo reino de Deus há-de encontrá-la»!

Seja como for, caminhavam juntos

e puseram-se a falar. Contavam um

ao outro como tinham vivido aqueles

últimos dias: o momento extraordinário

da Última Ceia com Jesus e o que lhes

tinha dito, como lhes tinha lavado os pés,

e depois a cadeia incrível de coisas que

aconteceram, desde o jardim das oliveiras

até ao calvário.

Partilhando o que tinham vivido,

foram-se escutando um ao outro, e no

diálogo feito com o coração aberto há

sempre lugar para mais um. A conversa

dos dois tornou-se conversa a três. Jesus

entrou na conversa. Não o reconheciam,

mas já sentiam algo de novo naquela

conversa: «Não nos ardia cá dentro o

coração, quando ele falava connosco?»

Quantas vezes experimentei o mesmo

nas reuniões das pequenas comunidades

cristãs no Quénia! Muitas pequenas

comunidades – entre 15 e 30 pessoas –

não tinham um espaço próprio onde se

encontrar. Fazíamos a reunião na rua,

à frente da casa de uma das famílias,

enquanto as pessoas iam passando com

ar cansado, regressando a casa depois de

um dia de trabalho. Às vezes surpreendia

em quem passava um olhar curioso,

quase invejoso: «Ao menos estes, ao fim

do dia, têm com quem falar, sabem escutar...»

E naquela hora de partilha, nós

líamos um texto do Evangelho, partilha,

diálogo, orações, organização da vida da

comunidade. E o mesmo «forasteiro do

caminho de Emaús» fazia-nos sentir a

sua presença. Partíamos do encontro da

comunidade com «o coração quente»,

certos de que Ele tinha estado connosco

e nós tínhamos escutado a sua voz.

A reunião terminava sempre com um

«regressemos a casa em paz e que Ele nos

acompanhe!».

Há conversas que valem pouco ou

nada, mas há maneiras de conversar que

abrem o coração à presença de Jesus que

quer caminhar connosco. am

além-mar | Fevereiro 2020


vocação e vida

Susana Vilas Boas | Investigadora e leiga comboniana

2020 Fevereiro | além-mar


Susana Vilas Boas | Investigadora e leiga comboniana

as linguagens

do discernimento

A vocação é uma prenda de Deus que nos revela a nossa autenticidade.

Nesse caminho de autodescoberta e discernimento, a escuta, o diálogo e

o acompanhamento são elementos fundamentais.

Por estes dias, alguém

me perguntava

sobre a pertinência

de escrever sobre

a vocação. «Não é sempre

a mesma coisa?» «Não se

sabe já que cada pessoa

tem uma vocação específica

e que só a realizando

se alcança a verdadeira

felicidade?» Estas eram as

perguntas fundamentais

que iam sendo repetidas

ao longo do diálogo. Estas

são também as perguntas

que, muitas vezes, levam

a fugir da questão fundamental

sobre a vocação

– a questão que é dirigida

a cada um de nós. Isto é,

a interpelação vocacional

que devemos discernir

e à qual temos de dar

resposta no concreto (não

apenas por meio de teorizações).

Existe um aspecto

comum a toda a vocação.

Como afirma o Papa

Francisco, ela é «uma

prenda de Deus». Ora,

quando oferecemos uma

prenda a um verdadeiro

amigo, não procuramos

dar-lhe algo de que nós

gostamos, mas algo que

realmente fará o nosso

amigo feliz. Esta é a

forma como Deus nos

presenteia. Afirma o papa

que Deus te oferece «um

carisma que te fará viver

plenamente a tua vida

transformando-te numa

pessoa útil aos outros,

em alguém que deixa

uma marca na História,

será certamente algo que

te deixará feliz no mais

íntimo de ti mesmo e te

entusiasmará mais do que

qualquer outra coisa neste

mundo» (Cristo Vive, n.º

288). Contudo, embora

esta seja a essência de

toda a vocação, não podemos

afirmar que ela «é

sempre a mesma coisa».

Porquê? Porque nós também

não somos sempre a

mesma coisa!

A vocação não é um

superpoder recebido

que nos transforma em

algo diferente daquilo

que somos. A vocação é

antes reveladora da nossa

autenticidade, daquilo que

verdadeiramente somos.

Por isso, desde o início do

chamamento – desde

a entrega do dom –

Deus vai procurando

diferentes modos de nos

fazer chegar a ele e de o

recebermos. Por exemplo,

pensemos no momento

de dar uma prenda a

alguém. Para algumas

pessoas, o surpreendente

será mesmo entregar-

-lhe o presente em mãos.

Mas, tratando-se de um

presente valioso que pensamos

que o nosso amigo

se sentirá plenamente feliz

ao recebê-lo (e quase “sem

jeito” perante tão grandiosa

dádiva), para maior

surpresa e para evitar

constrangimentos, podemos

deixar o presente em

algum sítio, de modo que

o nosso amigo o vá descobrir

sozinho. Podemos,

ainda, fazer uma espécie

de caça ao tesouro para

um crescente de expectativa

e maior satisfação no

encontro. Muitas são as

formas de dar um presente

e Deus, porque nos

conhece bem, sabe qual

nos tornará mais felizes e

mais capazes de acolher/

/receber o dom oferecido.

Escuta

e acompanhamento

São muitas as linguagens

de Deus e, consequentemente,

as linguagens do

discernimento vocacional.

Deus encontrou um

modo de se comunicar

connosco – um modo

único que, por vezes, nos

incomoda – Ele comunica

através das outras pessoas!

Pois é... mas, como saber

quem nos poderá ajudar a

discernir? Estará alguém

à altura de nos compreender

verdadeiramente?

Estas são perguntas que

vamos fazendo e que vão

adiando a nossa vida. De

facto, se queremos alcançar

esse presente de Deus,

temos de fazer alguma

coisa no tempo presente.

Sabemos, no nosso íntimo,

o que “gostaríamos

de ser” e conhecemos

pessoas que trilharam um

caminho algo similar ao

nosso e que estão hoje

plenamente realizadas e

a viver a sua vocação. No

entanto, custa-nos arriscar

um diálogo e um caminho

de acompanhamento.

Não porque duvidamos

que Deus possa falar-

-nos através dessa pessoa,

mas porque temos

medo de ouvir o que não

queremos! Enquanto for

o medo a comandar a

nossa vida, nem o que

somos verdadeiramente

se realizará nem Deus terá

hipótese de agir.

Deixai-me dar-vos

um exemplo pessoal

muito prático. Quando

estou a realizar as minhas

investigações académicas

para algum trabalho, uma

das primeiras coisas que

u

além-mar | Fevereiro 2020


vocação e vida

faço é procurar falar com

alguém sobre o tema que

estou a trabalhar. Primeiro,

escolho falar com alguém

credível, com mais

conhecimentos do que

eu sobre o assunto e que,

mais ou menos, sei que

tem uma linha de pensamento

similar à minha.

Porém, depois lanço-me

no diálogo com alguém

que pensa de um modo

bem diferente do meu.

Neste diálogo sou confrontada

com as fraquezas

dos meus argumentos

e, ao tentar responder

às questões formuladas,

vou descobrindo o meu

próprio caminho, o meu

modo de abordar e pensar

determinado assunto.

No final, sou capaz de

produzir algo que não é o

pensamento de nenhuma

das pessoas com quem falei,

mas algo meu, algo que

resulta de um caminho/

/discernimento pessoal.

De modo similar, com

a escuta e o acompanhamento

vocacional,

vivemos acompanhados

por alguém credível

que, no seu exercício de

acompanhamento, nos

vai confrontando e pondo

à prova. Não porque nos

quer tramar, mas porque

nos quer levar a um

caminho autêntico – um

caminho onde a vocação

não é um capricho, mas é

o resultado deste encontro

entre nós e Deus.

Discernir o ponto de

encontro entre o meu

sonho e o sonho de

Deus

Às vezes estamos tão

autocentrados e tão obcecados

por uma ideia, que

ficamos cegos perante nós

mesmos e a realidade que

nos envolve! Às vezes, o

que sonhamos para nós

não é assim tão distante

do nosso caminho vocacional,

mas o facto de caminharmos

sozinhos leva-

-nos a olhar esse caminho

de modo enviesado e,

pouco a pouco, de modo

egoísta e caprichoso. Deus

surpreende sempre! Não

devemos, por isso mesmo,

negar-nos a viver e a descobrir

a surpresa de Deus.

Nós olhamos o presente,

muitas vezes, cinzento, e o

futuro torna-se algo difícil

marcado apenas pelo

preto e branco ou, então,

apesar do cinzento de

hoje, vivemos a ilusão de

um futuro cor-de-rosa...

Deus deu-nos o arco-íris.

N’Ele, o presente ganha

novas cores e o futuro em

Deus nunca tem apenas

uma tonalidade!

Deus não rejeita os nossos

sonhos, antes, eleva-os

a uma plenitude que não

podemos sequer pensar

ou imaginar (Ef 3,20).

O sonho de Deus para nós

não vai ao encontro dos

nossos caprichos, mas está

sempre de acordo com a

autenticidade do nosso

ser. Ele não responde ao

que queremos, mas ao que

somos e queremos ser. Ele

não está à altura do que

desejamos, antes, leva-nos

sempre mais longe.

“Sair da rotunda”

O medo bloqueia-nos,

deixa-nos à deriva,

impede-nos de avançar.

O medo esconde-se na

ilusão do não ter medo,

arranjando desculpas

para a nossa inacção.

Facilmente, apesar de

jovens, tornamo-nos

velhos resignados perante

as circunstâncias da vida.

O nosso discurso sobre a

vocação fica reduzido a

um eterno lamuriar: «Eu

queria... mas...» Em Deus

tudo é possível (Fil 4,13)!

N’Ele não há “mas”!

A realidade é aquela que

é, com as suas dificuldades

e desafios. Mas, como

já vimos, não temos de

vencer os obstáculos sozinhos!

Estamos acompanhados

também na procura

de soluções para as

quais não temos respostas

por nós mesmos. Não será

o nosso medo egoísta que

nos impede de avançar?

Não será o nosso medo

de arriscar a felicidade

que nos impede de sair da

rotunda do “eu queria...,

mas...”? Não será o nosso

medo de não sermos

super-heróis que nos leva

a não pedir ajuda?

Fica o apelo de Francisco:

«Amigos, não espereis

pelo dia de amanhã para

colaborar na transformação

do mundo com

a vossa energia, audácia

e criatividade. A vossa

vida não é “entretanto”;

vós sois o agora de Deus»

(Cristo Vive, n.º 178). am

Centro Vocacional Juvenil (CVJ)

Estão disponíveis para acompanhamento espiritual e vocacional:

O P. e Dário Chaves, na Maia | Tlm: 916 656 857

Correio electrónico: jovemissio@gmail.com; www.jim.pt

O P. e Jorge Brites, em Lisboa | Tel: 213 955 286

Correio electrónico: jovemissiosul@gmail.com

2020 Fevereiro | além-mar


nos passos de são daniel comboni

15 a 22 de julho de 2020

peregrinação à terra santa

com os missionários combonianos

-

informações

e inscrições

217 817 700 917 687 936

editalemmar@netcabo.pt

(2.ª a 6.ª-feira, das 9 às 18 horas)

Av. de Roma, n.º44 – 1.º E/F

1700-438 Lisboa-Portugal

Tel +351 217 817 700

mail@pteam.pt


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