Negócios Fevereiro 2020

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EDIÇÃO 310 | FEVEREIRO DE 2020 | 3

Entrevista do mês

Afroempreendedorismo em alta

A criadora da Feira Preta e da plataforma PretaHub, Adriana Barbosa, fala sobre os negros nos negócios

É

o empreendedorismo que faz a

população negra emergir 132

anos após a abolição da escravidão

no Brasil. A afirmação é de

Adriana Moreira, criadora da Feira

Preta, iniciativa que começou há

18 anos como uma alternativa para

ela e uma amiga “se virarem” e hoje

reúne empreendedores e consumidores

negros em um ambiente de produção

cultural, artística e circulação

de ideias. A edição mais recente, no

final de 2019, foi visitada por mais de

35 mil pessoas e contou com 170 expositores

– majoritariamente negros.

Adriana celebra agora a criação da

PretaHub, plataforma de aceleração

e incubadora de negócios que passa

a concentrar todas essas iniciativas.

A empreendedora social, eleita em

2017 uma das 51 pessoas negras mais

influentes do mundo pela Mipad

(Most Influential People of African

Descendent, ou pessoas afrodescendentes

mais influentes do mundo),

conta sobre sua trajetória e como é

empreender sendo negro no Brasil.

Como surgiu a Feira Preta?

Em 2002, eu estava fora do mercado

de trabalho formal. Eu e uma

amiga na mesma situação resolvemos

empreender para sobreviver.

Formamos uma dupla do que chamamos

de “sevirologia”, que é a arte

de “se virar”. Começamos a circular

por feiras. Minha amiga vendia pastel

e eu vendia as minhas roupas,

em um brechó de troca. Na época,

a Vila Madalena fervia de casas de

black music e éramos frequentadoras.

Observamos o deslocamento de

jovens negros de regiões periféricas

para lá para o consumo e também

para a produção, como DJs, bandas

e técnicos de som. Era uma cadeia

de produção e consumo negros. O

que me deixava incomodada era

que, no fim da noite, quem colocava

a mão no dinheiro eram os homens

brancos. Foi assim que decidimos

criar a Feira Preta. A primeira edição

foi em 2002 na praça Benedito

Calixto, em Pinheiros. A ideia era

justamente fazer o mapeamento do

afroempreendedorismo. Depois de

todo o nosso percurso em feiras, decidimos

fazer a nossa própria. Conseguimos

um patrocínio e uma parceria

com a prefeitura. No primeiro

ano, atraímos 5 mil pessoas. A feira

começou a peregrinar por vários

espaços até chegar ao Anhembi,

em 2006. Em 2016, quebramos, e

no ano seguinte nos remodelamos

em formato de festival, atraindo diversas

expressões culturais. Treze

décadas após a abolição da escravidão,

o que fez a população negra

emergir foi o empreendedorismo.

Estudo do Sebrae mostra

que os pequenos negócios de

donos brancos têm o dobro

de formalização do que os de

donos negros. A que a senhora

atribui isso?

Adriana Barbosa,

da Feira Preta:

black money para

desconcentrar renda

Divulgação

Atribuo ao contexto histórico do

Brasil. Temos mais de 400 anos de

período escravocrata no Brasil e esse

ano completamos 132 anos da abolição.

Esse ponto de partida da

população negra define o que temos

hoje. Se tem algo que fez com que a

população negra sobrevivesse ao colonialismo

e ao racismo estruturado

e muitas vezes institucionalizado

foi o ato de empreender. Em função

desse processo histórico, a população

negra teve menos acesso à

educação e renda, ocasionando um

grande número de ocupação em subemprego

e também de desemprego,

fazendo com que essas pessoas

empreendam por necessidade.

Quais são os desafios do empreendedorismo

negro no Brasil?

Em 2019 realizamos o terceiro

estudo sobre as dores e amores do

empreendedorismo negro no Brasil.

Destaco alguns dados: há um

número expressivo de empreendedores

por vocação, que vislumbram

oportunidades. E o empreendedor

engajado, que se autodeclara negro

e empreende em produtos e serviços

voltados à questão racial. O desafio

é o empreendedor por vocação

se transformar em um empreendedor

engajado, porque assim consegue

fazer o black money trazer

desconcentração de renda. Teremos

mais empreendedores negros

para atender à demanda de consumo

da população negra. O segundo

destaque é sobre acesso ao crédito.

A grande maioria tem dificuldade

de acessar investimentos de bancos.

Há relatos de casos de racismo

institucionalizado. O terceiro destaque

são as questões da subjetividade.

O empreendedor muitas

vezes não se reconhece nesse lugar

de empreendedorismo e de potência.

É preciso falar de autoestima.

E, por fim, destaco a ausência de um

número maior de empreendedores

negros nas áreas da tecnologia e da

indústria, que têm a maior possibilidade

de crescimento e escala.

Qual a relação entre cultura

negra e empreendedorismo?

Isso influencia o consumo?

A cultura negra influencia na

demanda e no consumo. A população

negra só chega como maioria

populacional por um processo de

autodeclaração. Na medida em que

a população negra se autodeclara,

passamos a ter uma crescente demanda

por produtos e serviços que

atendam às especificidades dos negros.

E o empreendedor negro, por

viver as mesmas dores, consegue

sair na frente e ofertar produtos e

serviços de maneira mais efetiva.

Há uma ideia de que negócio e combate

ao racismo e valorização da

identidade negra estão ligados.

Como funciona a PretaHub?

PretaHub é o resultado de 18 anos

de atividades do Instituto Feira Preta

no trabalho de mapeamento, capacitação

técnica e criativa, aceleradora

e incubadora do empreendedorismo

negro no Brasil. Com atividades em

todo o país, PretaHub é um hub de

inventividade, criatividade e tendência

pretas, com uma série de produtos

sob o mesmo guarda-chuva.

Qual a sua recomendação

para um negro que está começando

a empreender?

Vale muito a pena procurar por

oportunidades de mercado de produtos

e serviços direcionados à população

negra. Há muitas possibilidades,

mas a dica principal é saber

quem são esses clientes, onde estão,

qual o comportamento e estilo de

vida. Por fim, venda para todos, não

foque apenas no consumidor negro.

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