Desvairadas: histórias de pessoas LGBT em Florianópolis, capital de Santa Catarina (2014)
Este livro-reportagem foi produzido de maneira independente e apresentado como TCC do curso de Jornalismo da UFSC em 2014, com o intuito de oferecer narrativas jornalísticas sobre pessoas LGBT que fujam do olhar de exotificação e patologização habitualmente encontrado em reportagens dos meios de comunicação hegemônicos. Por esse motivo, a reprodução deste material é livre e fortemente estimulada.
Este livro-reportagem foi produzido de maneira independente e apresentado como TCC do curso de Jornalismo da UFSC em 2014, com o intuito de oferecer narrativas jornalísticas sobre pessoas LGBT que fujam do olhar de exotificação e patologização habitualmente encontrado em reportagens dos meios de comunicação hegemônicos. Por esse motivo, a reprodução deste material é livre e fortemente estimulada.
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signação sexual e alteração no nome dos documentos de identidade,
Lana ainda é uma pessoa trans. Essa condição desperta
algumas dúvidas nos curiosos. “Qual é o banheiro que você
usa?” é uma das primeiras. Quando nasceu, Lana foi designada
como homem, por isso identifica-se como uma pessoa
trans não-binária AMAB (do inglês Assigned Male At Birth, ou
seja, assignada como homem ao nascer). Dessa forma, Lana
entende que a maioria das pessoas costuma enxergá-la como
pertencente ao gênero masculino. Para não causar muito rebuliço,
utiliza o banheiro deles. Mas vez ou outra acontecem
mal-entendidos: num desses dias, um homem se espantou ao
vê-la no banheiro. Pensou que estivesse no lugar errado.
A reação mais frequente ao ver Lana é tentar colocá-la
em alguma categoria. O problema seguinte é como se referir
a ela: com quais pronomes deve-se tratar uma pessoa que não
se enquadra exclusivamente em nenhum gênero? Nesse caso,
antes de tudo, o mais importante é perguntar. A Língua Portuguesa,
ao contrário do Alemão, não possui gênero neutro.
Para contornar essa situação, vem sendo utilizado um tipo de
linguagem neutra, que evita ao máximo o uso de pronomes de
tratamento e flexão de gênero. Por escrito, tem quem use a arroba
(@) no lugar do “o” ou “a” – assim, ela passa a ser escrito
como el@. Isso é possível sobretudo em razão da internet e
das redes sociais, onde este símbolo é mais utilizado. Outras
formas incluem o “x” e a letra “e”, nas mesmas situações. Para
Lana, quando o tratamento neutro for impossível, a preferência
é pelo uso de pronomes de tratamento femininos.
Tem gente que não entende. “A maior parte das pessoas
me trata pelo gênero que foi certificado pelo Estado. No fundo,
elas acham que se não fizerem isso, estarão me desrespeitando.
Não acho que seja por mal. Muitas não entendem,
não conhecem mesmo”, Lana conta. E a questão do nome é
polêmica: foi mais difícil explicar que queria ser chamada por
outro nome do que se fazer entender sobre seu uso de saias
e maquiagem. É como se tivesse se tornado outra pessoa só
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