Elas por elas 2020

sinpro

A revista sobre gênero Elas por Elas foi criada, em 2007, com o objetivo de dar voz às mulheres e incentivar a luta pela emancipação feminina. A revista enfatiza as questões de gênero e todos os temas que perpassam por esse viés. Elas por Elas traz reportagens sobre mulheres que vivenciam histórias de superação e incentivam outras a serem protagonistas das mudanças, num processo de transformação da sociedade. A revista aborda temas políticos, comportamentais, históricos, culturais, ambientais, literatura, educação, entre outros, para reflexão sobre a história de luta de mulheres que vivem realidades diversas.

f y t i K

Mulheres indígenas

organizadas em defesa

da floresta e da vida

Homofobia:

Combater preconceitos

é uma expressão da luta

pela liberdade

A lama que

inunda emoções

Impacto dos crimes de mineração

reflete desigualdade histórica de

gênero e faz com que as mulheres

sintam mais as consequências



É sempre muito prazeroso

quando a gente faz mais um editorial

da revista Elas por Elas. Temos

a felicidade de constatar que mais

uma vez foi possível! Mas, neste

ano de 2020, o sentimento é bem

mais forte. Mais do que alegria e

prazer, vem a sensação de vitória.

Esta revista é um símbolo da nossa

resistência, principalmente aos

ataques que o sindicalismo vem

sofrendo. Da mesma forma, são

violentos os ataques às mulheres,

às pessoas LGBTQI+, aos quilombolas,

aos negros e negras, aos indígenas

e, claro, aos trabalhadores e

trabalhadoras. Elas por Elas busca

compartilhar as vozes de todas essas

pessoas que, de alguma forma,

são discriminadas ou desrespeitadas

em alguns dos seus direitos

fundamentais. O atual governo tem

como tônica o ataque às minorias,

o desmonte do Estado Nacional, a

entrega de todo patrimônio público

e a inviabilização da organização

da classe trabalhadora. Esse último

ponto se dá no ataque direto às entidades

representativas laborais:

os sindicatos. E faz isso alterando

a representatividade da entidade

nas negociações e também na fonte

e forma de custeio. Contrapondo-se

a esse cenário, por meio da categoria

de professores e professoras

do setor privado, o Sinpro Minas

resiste bravamente e não abre mão

de produzir e imprimir mais uma

edição desta revista.

Com ela, reafirmamos nosso

lugar de fala e abrimos espaço

para que outras vozes se unam à

nossa, a do/a trabalhador/a, do/a

professor/a, do/a sindicalista, para

denunciar as injustiças e projetos

que visam nos escravizar, nos

submeter aos interesses do capital

estrangeiro. Nossa luta é por uma

educação pública, gratuita e de

qualidade, sem censura e sem tentativas

de mordaça, como tentam

fazer com a proposta Escola Sem

Partido. Nossa luta é pela igualdade

de gênero, com a mulher, principalmente

as que mais sofrem

com as opressões sociais, como as

mulheres negras, indígenas e trans,

tendo acesso ao mercado de trabalho,

com os mesmos salários que

os homens, vivendo sem violência

doméstica, assédios ou qualquer

outro tipo de violência. Nossa luta

é ampla – é pelos direitos humanos,

pela liberdade de expressão,

Editorial

pela defesa do meio ambiente e do

planeta, pela demarcação das terras

indígenas e quilombolas, pelo

fim do modelo de sistema prisional

racista e seletivo. Nossa luta é

pela soberania nacional, pelo fim

das privatizações, pela democratização

da comunicação, por mais

mulheres na política, nas universidades

e em todos os espaços de

decisão; pelo fim da homofobia,

do machismo e do racismo. Nossa

luta é em defesa da vida e da

democracia. Queremos um país

soberano e que seus governantes

respeitem a Constituição Federal.

Queremos mais mulheres ocupando

todos os espaços e sendo o

que elas querem ser – trabalhando

no que desejam, criando, compondo,

jogando futebol, governando...

A revista Elas por Elas é um

pouco de tudo isso. Nesta edição,

veremos a luta de mulheres em

várias áreas – na ciência, no mercado

de trabalho, na família, na

política, na defesa da floresta e

da vida, na política. Cada mulher,

em sua luta diária, nos ensina o

poder da resistência e da esperança.

Acreditamos em um país

melhor! Sigamos firmes na luta!

Revista Elas por Elas - março 2020

3


Fotografia

A potência do olhar

Luta de classes

Marcha das Margaridas

Mulheres na luta por um Brasil melhor

07

13

Diversidade

Homofobia

Combater preconceitos é uma expressão

da luta pela liberdade

Educação

Corrida de obstáculos

na ciência

Pesquisadoras relatam as dificuldades com

os cortes no setor e falam sobre os desafios

de gênero no ambiente acadêmico

Cultura

Capoeira

A resistência desde as matas rasteiras

57

17

45

Educação

O debate de gênero nas

escolas e o papel

emancipador da educação

Setores conservadores da sociedade

tentam impor propostas que negam a

diversidade do povo brasileiro.

69

Cultura

Pretas protagonistas

Mulheres constroem um novo tempo de

liberdade por meio da arte

Cultura

Mulheres demarcam espaço

também no mundo da música

27

33

Capa

Mulheres indígenas

organizadas em defesa

da floresta e da vida

Mais de 500 anos de colonização

e o problema do povo indígena

segue o mesmo – a invasão de

suas terras e as consequências

disso, como a destruição do meio

ambiente e a agressão aos

direitos humanos

Cultura

Lutas que

atravessam fronteiras

Coletivo de comunicação do México

lança série audiovisual que retrata o

protagonismo das mulheres em distintas

lutas pelo mundo.

37

77

4 Revista Elas por Elas - março 2020


Sociedade

A lama que

inunda emoções

O impacto dos crimes de

mineração reflete desigualdade

histórica de gênero e faz com

que as mulheres sintam mais

as consequências.

91

Trabalho

Sem direito algum

Crise econômica e discriminações de gênero

empurram mulheres para a informalidade

Violência

Por trás das estatísticas de

feminicídios

Desmanche do Estado gera aumento

da violência contra a mulher

Realidade

Ventos de liberdade

no cárcere

101

Em meio à privação de liberdade, algumas

experiências buscam criar espaços de

acolhimento, partilha e alegria, ajudando

a minimizar a dor e a solidão diárias.

125

Artigo

A subversão como estratégia

de enfrentamento da violência

contra as mulheres

135

Esporte

Com a bola toda

No campo ou na arquibancada, mulheres

contra a discriminação no futebol

109

Artigo

O encarceramento de

mulheres acusadas por

tráfico de drogas: desafios

para as lutas feministas

e antirracistas

117

Perfil

Leci Brandão

139

A voz que nos encanta e nos representa

147

Artigo

A PENA DO ABORTO

vale a pena?

121

Poucas e boas, internet

Livros e filmes

Retrato

152

153

154

Revista Elas por Elas - março 2020

5


Departamento de Comunicação do Sinpro Minas: comunicacao@sinprominas.org.br

Diretores responsáveis: Aerton Silva, Clarice Barreto e Gilson Reis

Editora de texto: Nanci Alves (MG3152JP)

Editora de fotografia: Carina Aparecida (MG13115JP)

Redação: Aloísio Morais (MG2447JP), Carina Aparecida (MG13115JP),

Débora Junqueira (MG5150JP), Denilson Cajazeiro (MG9943JP),

Mariana Viel (MTB-10808/MG) e Nanci Alves (MG3152JP)

Projeto gráfico e Diagramação: Mark Florest

Revisão: Aerton Silva

Foto capa: Katie Mähler

(O-É Kayapó em destaque, na 1ª Marcha das Mulheres Indígenas | setembro de 2019)

Conselho Editorial: Antonieta Mateus, Clarice Barreto, Lavínia Rodrigues, Maria Izabel Bebela Ramos,

Marilda Silva, Liliani Salum Moreira, Luliana Linhares, Soraya Abuid, Terezinha Avelar e Valéria Morato.

Impressão: EGL-Editores Gráficos Ltda - Tiragem: 2.000:

Distribuição gratuita: Circulação dirigida

REVISTA ELAS POR ELAS

PUBLICAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE

COMUNICAÇÃO DO SINPRO MINAS

ANO XII - Nº 12 - MARÇO DE 2020

ACESSE AS EDIÇÕES ANTERIORES EM

www.sinprominas.org.br

/ Elas por elas nº 11

Diretoria Gestão 2020/2024

Adelmo Rodrigues de Oliveira; Aerton de Paulo Silva; Alessandra Cristina Rosa; Alexandre Durann Matos; Altamir

Fernandes de Sousa; Andrez Wescley Machado; Ângela Maria da Silva Gomes; Ângelo Filomeno Palhares Leite;

Antonieta Shirlene Mateus; Aparecida Gregório Evangelista da Paixão; Arnaldo Oliveira Júnior; Beatriz Claret

Torres; Bráulio Pereira dos Santos; Bruno Burgarelli Albergaria Kneipp; Camillo Rodrigues Júnior; Carlos Magno

Machado; Carolina Azevedo Moreira; Cássio Francisco de Lima; Celina Alves Padilha Arêas; Clarice Barreto Linhares;

Cláudio Lima Ribeiro Júnior; Cristiane Pardini Ferreira Valério; Daniel William Araújo Coelho; Décio Braga

de Souza; Edson de Oliveira Lima; Edson de Paula Lima; Eduardo Arreguy Campos; Fábio dos Santos Pereira;

Fábio Marinho dos Santos; Fernando Lúcio Correia; Filipe Luis dos Santos; Franz Lima Petrucelli; Gilson Luiz

Reis; Grace Marisa Miranda de Paula; Haida Viviane Palhano Arantes; Handerson Correa Gomes; Heber Paulino

Pena; Helcia Amélia de Menezes Quintão Simplício; Idelmino Ronivon da Silva; Isabela Maria Oliveira Catrinck;

Jaqueline Rodrigues Gouveia Gomes; João Francisco dos Santos; Jones Righi de Campos; Jose Carlos Padilha

Arêas; Josiana Pacheco da Silva Martins; Josiane Soares Amaral Garcia; Juvenal Lima Gomes; Liliani Salum Alves

Moreira; Luciano Martins de Faria; Luiz Antonio da Silva; Luliana de Castro Linhares; Marcos Gennari Mariano;

Marcos Paulo da Silva; Marcos Vinícius Araújo; Maria Cristina Teixeira do Vale; Maria da Conceição Miranda;

Maria da Gloria Moyle Dias; Marilda Silva; Mário Roberto Martins de Souza Silva Braga; Mateus Julio de Freitas;

Miguel José de Souza; Miriam Fátima Dos Santos; Moisés Arimatéia Matos; Mônica Junqueira Cardoso Lacerda;

Nalbar Alves Rocha; Newton Pereira de Souza; Orlando Pereira Coelho Filho; Paola Notari Pasqualini; Petrus

Ferreira Ricetto; Pitágoras Santana Fernandes; Renilde de Fátima dos Santos; Ricardo de Albuquerque Guimarães;

Rodrigo Rodrigues Ferreira; Rodrigo Souza de Brito; Rogério Helvídio Lopes Rosa; Rozana Maris Silva Faro;

Sandra Lúcia Magri; Sandra Maria Nogueira Vieira; Sebastião Geraldo de Araújo; Simone Esterlina de Almeida

Miranda; Siomara Barbosa Candian Iatarola; Sirlane Zebral Oliveira; Telma Patrícia de Moraes Santos; Teodoro

José Eustáquio de Oliveira; Terezinha Lúcia de Avelar; Thais Claudia D’ Afonseca da Silva; Thiago Gomes Soares;

Umbelina Angélica Fernandes; Valéria Peres Morato Gonçalves; Vera Lúcia Alfredo e Wellington Teixeira Gomes.

FILIADO À

SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

SEDE: Rua Jaime Gomes, 198 - Floresta - CEP: 31015.240 - Fone: (31) 3115 3000

Belo Horizonte - www.sinprominas.org.br

SINPRO CERP - Centro de Referência dos Professores da Rede Privada

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REGIONAIS:

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3331-0635; Coronel Fabriciano: Rua Moacir D’Ávila, 45 - Bairro dos Professores - CEP: 35170-

014 - Fone: (31) 3841-2098; Divinópolis: Av: Amazonas, 1.060 - Sidil - CEP: 35500-028 - Fone: (37)

3221-8488; Governador Valadares: Av. Tomaz Antônio Gonzaga, 161 - Vila Rica - CEP: 35045-450

- Fone: (33) 3271-2458; Montes Claros: Rua Januária, 672 - Centro - CEP: 39400-077 - Fone: (38)

3221-3973; Patos de Minas: Rua Agenor Maciel, 100 - sala 201 - Centro - CEP: 38700-046 - Fone:

(34) 3823-8249; Poços de Caldas: Rua Mato Grosso, 275 - Centro, CEP: 37701-006 - Fone: (35)

3721-6204; Pouso Alegre: Rua Dom Assis, 241 - Centro - CEP: 37550-000 - Fone: (35) 3423-3289;

Sete Lagoas: Rua Vereador Pedro Maciel, 165 - Nossa Senhora das Graças - CEP: 35700-477

- Fone: (31) 3772-4591; Uberaba: Rua Alfen Paixão, 105 - Mercês - CEP: 38060-230 - Fone: (34)

3332-7494; Uberlândia: Av. Professor José Inácio de Souza, 1.744 - Brasil - CEP: 38400-732 - Fone:

(34) 3214-3566; Varginha: Rua Santos Anjos, 67 - Centro - CEP 37002-460 - Fone: (35) 3221-1831.

6 Revista Elas por Elas - março 2020


A potência do olhar

Carina Aparecida

Escrever com os olhares. Olhares diversos, construídos a partir

de distintas realidades. Olhares resistências, trincheira para

cultivar novas e necessárias narrativas de mundo.

Olhares poesias, brecha de respiro, fôlego para seguir as faíscas

de beleza muitas vezes invisibilizadas em meio ao caos.

A Revista Elas por Elas dedica algumas páginas da sua 12ª edição

aos olhares de duas fotógrafas, que assim como tantas,

ocupam um espaço essencial para construção de nossas memórias,

afetos e interpretação da vida e da sociedade.

A argentina Lucre Rasetto e a mexicana Margarita Martínez

compartilham o que alimenta esses olhares tão atentos e sensíveis

que atualmente observam o México ancestral, repleto de

uma força que atravessa séculos e que permanece florescendo

nesse país e em tantas partes da nossa América Latina.

Revista Elas por Elas - março 2020

7


8 Revista Elas por Elas - março 2020


Lucre Rasetto, Argentina

Projeto com um grupo de mulheres da Comunidade

de São Francisco de Tlalcilalcalpan

- México, em luta pela defesa do território

(...)Vitória se dedica a fazer tortilhas (espécie

de pão folha muito tradicional no México)

para vender. Amassa o milho entre a fumaça

que emana do comal (tipo de frigideira),

todos os dias prepara centenas de tortilhas e

depois leva para as famílias que encomendaram.

Enquanto eu a olhava através da minha

câmera, compartilhamos histórias, casos e,

com o passar das horas, cada uma soube um

pouco mais sobre a vida da outra, sobre nossas

histórias, sentires e reflexões.”

Instagram: @lucre_rasetto

Revista Elas por Elas - março 2020

9


Margarita Martínez Pérez, México

Metáforas do coração

“A série fotográfica “Metáforas do coração”aborda

distintas expressões do sentir-pensar que radica

e emana a partir da expressão o’ontonil “coração”,

da língua indígena mexicana tsotsil huixteco.

Nela é representada não apenas a interação

da linguagem e do corpo, mas também os objetos

materiais que dão vida às diversas emoções

e personalidades de cada ser humano.”

Instagram: @sasaknichim

Tradução: Snichimal O’ontonil - Florescimento do coração - felicidade

10

Revista Elas por Elas - março 2020


Tradução: Xpich’ich’et o’ontonil - Espremendo o coração - Tristeza

Revista Elas por Elas - março 2020

11


/ Ronaldo Souza

12

Revista Elas por Elas - março 2020


Luta de classes

Marcha das Margaridas

Mulheres na luta por um Brasil melhor

por Aloísio Morais

Alagoa Grande, na microrregião

do Brejo paraibano, tem pelos menos

dois grandes filhos da terra famosos

entre seus 30 mil habitantes:

Margarida Maria Alves e Jackson

do Pandeiro, cantor e compositor

dos mais importantes da música

genuinamente brasileira, que

neste ano completaria 101 anos, se

estivesse vivo.

Já Margarida ficou bastante conhecida

como mulher lutadora ao

presidir o Sindicato dos Trabalhadores

Rurais da cidade, durante 12

anos. Lutou e incomodou tanto o

latifúndio que acabou assassinada

covardemente na porta de sua

casa, em 12 de agosto de 1983.

Mas, se alguém queria que ela

fosse esquecida se enganou, e muito.

Depois de construir uma trajetória

sindical de luta pelo direito

à terra, pela reforma agrária, por

melhores condições de trabalho e

contra as injustiças sociais e o analfabetismo,

Margarida acabou deixando

sua semente, que brotou,

cresceu e se expandiu pelo país afora.

Acabou emprestando seu nome

para o principal evento das mulheres

brasileiras, a Marcha das Margaridas,

que acontece em Brasília,

sempre em agosto, em data vizinha

ao dia da morte de Margarida.

Em 2019, mesmo em situação

adversa diante do atual governo,

a Marcha manteve sua tradição e

reuniu mais de 30 mil pessoas em

Brasília, nos dias 13 e 14 de agosto,

sob a bandeira de ‘Margaridas na

luta por um Brasil com soberania

popular, democracia, justiça, igualdade

e livre de violência’.

“Foram dois anos de construção

dessa Marcha. Demos nosso recado

e conseguimos um processo que

deixou um grande legado para o

movimento sindical e fora dele. Por

isso, a gente não para de marchar,

sempre dialogando com outros

setores contra o desmonte que

temos assistido”, afirma a piauiense

Mazé Morais, secretária Nacional

de Mulheres da Confederação

Revista Elas por Elas - março 2020

13


Nacional dos Trabalhadores da

Agricultura (Contag), uma das

lutadoras que esteve à frente da

construção do evento em Brasília.

A próxima Marcha está marcada

para agosto de 2022.

Quem também fala com entusiasmo

sobre a Marcha é Alaíde Lúcia

Bogetto Moraes, coordenadora

estadual das Mulheres Trabalhadoras

Rurais da Federação dos Trabalhadores

Rurais de MG (Fetaemg) e

secretária de Mulheres da Central

dos Trabalhadores e Trabalhadoras

do Brasil (CTB) em Minas: “Foi

um sonho realizado. Mesmo numa

conjuntura adversa, conseguimos

realizar a maior Marcha desde

que foi criada. Foi a maior mobilização

de pessoas em Brasília desde

a posse do atual governo”. “Gente,

parece que brotam mulheres do

chão”, disse, com surpresa a deputada

federal Jandira Feghali (PCdoB-

-RJ), caminhando ao lado de Alaíde,

na Marcha. “Isso mostra que estamos

no caminho certo, dialogando

com a sociedade e fortalecendo

a mulher”, completa Alaíde. Segundo

ela, de Minas partiram 65 ônibus

com mulheres de mais de 500 municípios

de todos os cantos rumo a

Brasília. “Só de Montes Claros, partiram

20 ônibus com mulheres do

Norte de Minas. Essa Marcha foi desafiadora,

pois foi organizada sem

recursos e sem diálogo com o governo

federal. Por isso, nos fixamos no

debate em torno de uma plataforma

com dez eixos e nos limitamos a

uma audiência no Congresso Nacional,

na Assembleia Legislativa em

Minas e no diálogo com a sociedade

através das entidades parceiras.”

Ela ressalta que a cada ano a Marcha

cresce mais, principalmente com a

participação das mulheres nas oficinas

oferecidas pelo evento. Lembra

ainda que sua última edição contou,

pela primeira vez, com a participação

de 23 delegações estrangeiras,

trazendo o reconhecimento internacional

ao evento, já que em nenhum

outro país há algo semelhante.

“Mesmo sem apoio do governo

federal desta vez, a Marcha mostrou

a capacidade de organização

das trabalhadoras rurais para o enfrentamento

ao estado de exceção,

em defesa da classe trabalhadora e

contra os cortes efetivados nos direitos

das mulheres do campo, das

florestas e das águas”, afirmou Celina

Arêas, representante da CTB na

organização da Marcha. “O fato é

que a última Marcha, a maior delas

desde que foi criada em 2000, unificou

as mulheres indígenas e urbanas

com as do campo. Nesse momento

de ataque aos indígenas, ela

mostrou que as mulheres terão um

papel muito importante a desempenhar”,

acrescenta Celina.

Eixos políticos da Marcha

e suas proposições

1. Por terra, água e agroecologia;

2. Pela autodeterminação dos povos,

com soberania alimentar e

energética; 3. Pela proteção e conservação

da sociobiodiversidade

e acesso aos bens comuns; 4. Por

autonomia econômica, trabalho e

renda; 5. Por previdência e assistência

social, pública, universal e

solidária; 6. Por saúde pública e em

defesa do SUS; 7. Por uma educação

não sexista e antirracista e pelo direito

à educação do campo; 8. Pela

autonomia e liberdade das mulheres

sobre o seu corpo e a sua sexualidade;

9. Por uma vida livre de todas

as formas de violência, sem racismo

e sem sexismo; 10. Por democracia

com igualdade e fortalecimento da

participação política das mulheres.

/ Ronaldo Souza

14

Revista Elas por Elas - março 2020


O desafio do acesso à terra

A Marcha das Margaridas de

2019 foi composta por dez eixos

muito importantes para nós dialogarmos

com a sociedade e para a

vida das mulheres do campo. Entre

os mais importantes estão aqueles

interligados a outros para dar qualidade

de vida às mulheres do campo.

O eixo terra, água e ecologia, por

exemplo, é de fundamental importância

para as mulheres do campo,

pelo acesso à terra para poder produzir.

É como se as mulheres pudessem

ter a sua autoliberdade. A

gente poderia dizer que as mulheres

estariam tendo a sua terra para

poder produzir, para ter sua renda,

sua autonomia econômica, sua

liberdade, para poder tomar as decisões

que precisam ser tomadas.

A gente sabe que hoje o acesso à

terra no Brasil é um desafio muito

grande, porque temos um governo

totalmente contra a reforma agrária,

que expulsa as comunidades

tradicionais de suas terras, como

os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas,

que estão perdendo a

sua terra, onde estão há anos. Então,

o acesso à terra hoje é um desafio

muito grande, e as mulheres,

junto com a sociedade, têm de estar

muito unidas para poder avançar

nesta questão.

Outro ponto importante é a agroecologia.

A gente sabe que hoje o governo

vem liberando um número

muito grande de agroquímicos que

matam as pessoas, e esses produtos

estão sendo liberados para serem

usados na produção de alimentos.

E ter uma produção saudável hoje

é praticamente como enfrentar um

leão. A gente não sabe como as pessoas

que produzem esse tipo de alimento

vão conseguir sobreviver.

Mas estamos aí para fazer com que

a produção agroecológica, dos orgânicos,

fique cada vez mais acessível

à população. A gente tem comprovado

que assentamentos da reforma

agrária são os que mais produzem

arroz orgânico no país. Isso

prova que é possível, sim, produzir

sem precisar usar agrotóxico.

Então, lutamos com agroecologia,

com economia e renda, contra o fim

da violência, pela participação política

das mulheres, um eixo de fundamental

importância para as mulheres.

Neste ano terá eleições e lá,

nos municípios, a gente precisa cada

vez mais dialogar com as mulheres

para que elas não sejam laranjas.

Hoje, com a quota de 30% dos partidos,

a gente sabe que eles usam as

mulheres só para registrar a chapa

mas depois não deixam nem as mulheres

fazerem campanha pra elas.

A gente tem de conscientizar cada

vez mais nossas mulheres de que, se

colocaram o nome à disposição, elas

têm de fazer campanha, têm de pedir

voto, se elegerem e ocuparem os

espaços de poder.

Tudo começa lá na ponta, porque

é lá que temos votos para eleger

nossos governantes, nossos representantes,

e temos de fazer com

que as pessoas tenham consciência

mais rica para fazer a diferença

que a gente tanto almeja.

A questão da violência a gente

também não pode deixar de falar,

porque ela hoje aumenta assustadoramente.

Cada dia que passa, aumenta

mais o número de feminicídios.

São homens que não aceitam

o fim do relacionamento, por qualquer

coisinha estão batendo nas

mulheres, mas também nas suas

famílias, nos seus entes queridos,

nas pessoas mais próximas. Tivemos

recentemente um fato muito

triste em que um homem não aceitou

o fim do relacionamento, pôs o

filho dentro do carro e jogou o veículo

contra uma carreta só para fazer

a mulher sofrer aquilo que ele

estava sofrendo. Uma atitude dessa

mostra um retrocesso em nossa

sociedade. Em vez de caminharmos

pra frente com uma sociedade

mais justa, igualitária, mais respeitosa,

a gente está tendo uma sociedade

cada vez mais dominante.

Então, todos os dez eixos são de

muita importância para dialogarmos

com a sociedade, com o nosso

país, para podermos avançar com

autonomia, liberdade e participação

das mulheres na sociedade.

/

Alaíde Lúcia Bogetto Moraes, coordenadora

estadual das Mulheres Trabalhadoras Rurais, da

Fetaemg, e secretária de Mulheres da CTB

Revista Elas por Elas - março 2020

15


/ Cláudia Matos

16

Revista Elas por Elas - março 2020


Cultura

Capoeira:

resistência desde as matas rasteiras

por Nanci Alves

Dona Maria dos Santos Cantanhede

(foto), mais conhecida como

mestra Maria do Coco, de São Luiz

do Maranhão, 74 anos, é uma das

brasileiras que ajudou a fortalecer

a capoeira. Ela começou há pouco

mais de 30 anos, com o mestre Pastinha,

na Bahia, e o mestre Madeira,

no Maranhão, numa época em

que a mulher era presente apenas

nos cantos da capoeira, e muito

pouco no jogo. “Desde criança, eu

acompanhava o Bumba meu Boi,

cantando no coro, depois dediquei

minha vida ao Tambor de Crioula”,

conta a mestra Maria do Coco, que

recebeu este apelido por vender

coco há mais de três décadas no

centro histórico de São Luiz. Embora

o título de mestra seja em função

do Tambor de Crioula, ela teve uma

ligação forte com a capoeira também.

“Foi paixão à primeira vista.

Fui assistir ao meu filho na capoeira

e me colocaram para tocar agogô,

mas pedi para jogar e o mestre

deixou. Foi muito bom! Naquela

época, claro que enfrentei preconceito

por ser mulher. Muita gente

estranhava eu ser capoeirista, mas

meu filho disse: ‘mamãe, não vamos

sair por isso’. A capoeira ajuda

em tudo, você fica com a mente

forte. O corpo pede mais coisas, aí

você faz mais, porque o jogo é uma

inteligência! Eu joguei até os meus

60 anos. Foi muito bom, mas às vezes

ainda jogo! E aconselho todas

as mulheres a fazerem capoeira.

Dando vontade, faça!”

A capoeira nasceu, no início do

séc. 16, como forma de resistência

cultural e física dos africanos escravizados

no Brasil. Muitos deles vieram

da região de Angola, também

colônia portuguesa. Aqui, diante da

escravização, sentiram necessidade

de criar formas de proteção contra a

violência e a repressão dos senhores

de engenho. Como eram proibidos

de praticar qualquer tipo de luta,

Revista Elas por Elas - março 2020

17


usaram o ritmo e os movimentos

de suas danças africanas, criando a

capoeira – uma luta disfarçada de

dança, feita às escondidas em pequenos

arbustos, matas rasteiras

(na época, chamadas de capoeira).

Porém, a prática ficou proibida

no Brasil até o ano de 1930, ou

seja, 42 anos depois da abolição da

escravatura, capoeiristas podiam

ser presos, porque o jogo era visto

como uma prática violenta e subversiva.

Essa história começou a

mudar quando o baiano mestre

Bimba (Manuel dos Reis Machado)

apresentou a luta para o então presidente

Getúlio Vargas. O presidente

gostou muito e a transformou

em esporte nacional brasileiro.

E, assim, em 1932, mestre Bimba

(1899 - 1974) fundou, com o apoio

da Secretaria da Educação do Estado

da Bahia, a primeira escola de

capoeira do Brasil, em Salvador.

Antes do mestre Bimba, outro

capoeirista importante para a história

dessa arte no Brasil foi o mestre

Pastinha, Vicente Ferreira Pastinha

(1889 - 1981). De acordo com a mestra

Alcione Oliveira (foto), do Grupo

Candeia de Capoeira Angola, eles são

as duas referências mais populares e

serão sempre reverenciados por todo

capoeirista. “A capoeira não surgiu

organizada, foi sendo estruturada

aos poucos a partir de tudo que os

primeiros capoeiristas aprenderam

com os escravizados angolanos, de

todos os rituais – a dança , o canto, a

luta, o hábito cotidiano. Depois, com

o fim da sua criminalização, foi virando

instituição e surgindo grupos,

mestres diversos, aumentando as

referências culturais”, conta.

/ Carina Aparecida

18

Revista Elas por Elas - março 2020


Mestra Alcione explica que mestre

Pastinha pregava a tradição, o

jogo matreiro, de malícia, movimentos

mais lentos e mais no chão,

estilo que passou a ser conhecido

como Capoeira Angola. Ela é considerada

a mãe dos outros estilos e

mais próxima da capoeira jogada

pelos escravizados africanos. Já o

mestre Bimba desenvolveu, posteriormente,

novos golpes para a

capoeira, introduziu elementos

de outras lutas marciais, acrobacias,

criando um próprio estilo,

jogo mais curto, mais saltos, tirou

parte da ritualidade presente nas

rodas de Angola, no que diz respeito

à musicalidade, que predomina

hoje em dia como na Capoeira Angola

tradicional. Essa modalidade

ficou conhecida como Capoeira

Regional. Mestre Pastinha fundou

a primeira escola de Capoeira de

Angola, o Centro Esportivo de Capoeira

Angola, no Pelourinho, em

Salvador/BA, em 1941.

Foi a partir da dedicação e da

coragem dos mestres Pastinha e

Bimba que a capoeira deixou de

ser marginalizada e se espalhou da

Bahia para todo o país e o mundo.

O caminho das mulheres

Mais que se espalhar e encantar o

mundo inteiro, a capoeira permitiu

e permite que milhares de pessoas

se conectem com sua ancestralidade,

além de, claro, ser excelente

atividade para o físico, a mente e

a espiritualidade. E, embora historicamente

seja uma prática vinculada

ao universo masculino,

esse cenário vem mudando nas

últimas quatro décadas. Para a

mestra Alcione Oliveira, que começou

a treinar por estímulo de seu

irmão, aos 17 anos, a capoeira foi

um divisor de águas em sua vida.

“Fui escondida de meus pais, que

só ficaram sabendo muitos anos

depois. Gostei tanto que não parei

mais. Fui aprendendo, descobrindo

o que era a capoeira, me reconhecendo,

descobrindo minhas raízes.

Quando adolescente, estava cheia

de vícios da nossa sociedade, tinha

muitas dificuldades, era muito

tímida e a gente vai se embranquecendo

nesse sistema. A capoeira foi

um resgate, me trouxe autoconhecimento”,

lembra, ao destacar que

aprendeu a ver a vida como uma

riqueza no simples e a valorizar a

natureza ― “a capoeira me conecta

com essas forças, porque ela te leva

para um lugar mais feliz, um cuidado

físico, espiritual e mental”.

a capoeira me

conecta com

essas forças,

porque ela te leva

para um lugar

mais feliz, um

cuidado físico,

espiritural e

mental.”

Na avaliação da mestra Alcione,

as mulheres na Capoeira Angola estão

a cada dia mais presentes nesses

espaços que também pertencem a

elas. “Considero que ainda há muito

a se evoluir e estabelecer uma

harmonia entre os gêneros. Entre

nós, mulheres, precisamos sempre

nos reconhecer, honrar e valorizar

as mulheres que vieram e fizeram

antes de nós. Temos essa relação

com nossos mestres homens, mas

entre nós, mulheres, ainda temos

que curar essa relação da competição,

da inveja, disputa criada pela

cultura machista. Espero que esse

processo de agora amadureça no

positivo pelo feminino para fortalecer

nossas lutas”, acrescenta.

Na capoeira não havia, no início,

possibilidade para as mulheres

serem lideranças de grupo. Elas

participavam, mas, até a década de

1980, a referência da capoeira era

masculina, quase não tinha mestras

― todas eram alunas. “Elas faziam

tudo para o grupo, se desenvolviam,

organizavam as tarefas e

as produções do grupo, apoiando os

mestres, mas não chegavam lá por

falta de espaço, que era tomado pelos

homens, pelos alunos com mais

destreza física. Eu comecei na década

de 1990 e vi muitas mulheres

largarem a capoeira. Hoje somos 15

mestras no país e no mundo, pois a

Capoeira Angola também está fora

do Brasil. As mestras Paulinha e

Janja foram as primeiras reconhecidas

mestras de Capoeira Angola

no Brasil, formadas pelo mestre

Moraes, do Grupo de Capoeira

Angola Pelourinho em Salvador,

Bahia”, conta. Salve as mulheres

Revista Elas por Elas - março 2020

19


/ Carina Aparecida

da resistência maior que são capoeiristas,

são mães, são grandes

mulheres no dia a dia da vida e das

atividades diárias, elas estão a cada

dia mais presentes!”, diz.

Além de ser capoeirista, a

mestra Alcione aprendeu dança

afro e a tocar instrumentos de

percussão. “Meu primeiro mestre

foi o mestre Primo, logo depois

tive que ficar na região central da

cidade e fui treinar com mestre

João. Comecei a treinar em 1992

e conheci mestre Índio e mestre

Rogério, meus mestres. Começamos

um trabalho com a Associação

de Capoeira Angola Dobrada, que

foi fundada na Alemanha, em 1992.

Em BH, começou por volta de 1997.

As mulheres dessa geração criaram

as estruturas e assumiram as

responsabilidades para o trabalho

existir e estar vivo até hoje,” conta.

Dedicando sua vida à capoeira,

mestra Alcione fez dela a sua filosofia

de vida e seu trabalho. Deu

aulas e morou fora do país: na

Alemanha, Itália, França, Espanha

e EUA. Hoje em dia reside em Belo

Horizonte, onde, há quase dois anos,

fundou sua própria academia, com

apoio e ajuda de outros/as capoeiristas.

“O espaço veio dessa dedicação.

A Capoeira Angola é a base,

dou aula de capoeira e percussão,

mas temos também uma sala com

profissionais nas áreas de acupuntura,

yoga, massagem, ventosa e

quiropraxia. Me sinto feliz por

realizar esse trabalho, por ajudar

as pessoas a se encontrarem, se

autoconhecerem num contexto

social e coletivo baseado na nossa

cultura popular”, afirma.

Alcione ressalta que não tinha

objetivo de ser mestra, mas que

isso também foi resultado do seu

esforço, luta, resistência e, claro,

do amor pela Capoeira Angola:

“Tenho muito o que agradecer aos

mestres e mestras que ajudaram

na minha formação. A capoeira

me levou a conhecer a minha ancestralidade,

me trouxe consciência

da luta, resistência e certeza de

que sou guerreira e que sou uma

mulher que tem fé e amorosidade,

carinho e respeito ao ser humano e

a todas as formas de vida”.

Nossa essência feminina traz

pra capoeira outro olhar, atenção,

cuidado, inclusão. Muito bom ser,

como mestra, referência disso tudo,

até para eu reaprender e colocar o

meu jeito, combatendo a reprodução

desse machismo que a gente vivencia

no nosso cotidiano”, ressalta.

Essa referência de ter uma mestra

é forte para a capoeirista Akino

Takeda, de Belo Horizonte. “Iniciei

minha caminhada em 2015, quando

eu estava morando fora do Brasil,

mas tenho lembranças de fazer

alguns movimentos quando eu

ainda era criança, na casa do meu

avô, com meu tio mais novo. Nesses

últimos anos, tive o privilégio

de treinar com muitas mulheres

marcantes com vários pensamentos

e histórias dentro da capoeira,

e também com outros mestres a

quem sou grata e que moram no

meu coração. Mas a vida me colocou

junto à mestra Alcione e agradeço

por essa benção que é construir,

ouvir, aprender com uma

mestra e, claro, também com outras

mulheres dentro do grupo. Existe

muito zelo, entrega, seriedade e firmeza

no trabalho que ela conduz.

20

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Carina Aparecida

Admiro, respeito e acompanho sua

caminhada com amor e gratidão.

Considero de grande importância

política e transformação social a

história dessa mulher”, ressalta.

Resistência contra todo

tipo de opressão

Também para a pedagoga, mestra

de capoeira e professora de yoga

Cristina Nascimento Dias dos Santos

(foto), a capoeira Angola tem

sido um importante caminho para

aprofundar seus questionamentos

acerca do racismo e suas consequências,

e do valor da civilização

africana, com suas inúmeras e ricas

contribuições para a humanidade.

Carioca, ela iniciou a capoeira em

1993, com o mestre Neco, do Rio de

Janeiro. “Logo depois fui treinar

com o Emanuel, com quem fiquei

15 anos. Procurei a capoeira porque

queria fazer uma atividade

física, mas logo percebi que era

muito mais do que isso. Ninguém

na minha família tinha praticado

capoeira antes e foi através de

amigos que descobri um lugar para

treinar. Já iniciei na capoeira Angola

e me apaixonei. Foi algo intenso

na minha vida e, hoje, é também

minha profissão, mas antes de

tudo, ela me dá uma base espiritual

e emocional muito grande. Seu

sentido de luta se inscreve no ser

negro como um aliado na luta pela

libertação de tudo o que nos nega

a África em nós, nossa cor, nossos

valores, nossa religiosidade”, diz.

Para a mestra Cristina, cada

capoeirista deve se comprometer

com a luta antirracista e todas as

formas de discriminação, pois “esse

Revista Elas por Elas - março 2020

21


/ Carina Aparecida

é o legado da capoeira. Ela nasceu

nas senzalas e se desenvolveu nos

guetos. Sobreviveu a duras penas,

vista por muito tempo como algo

criminoso. Hoje está no mundo inteiro

e sinto que, em grande parte,

essa origem se perde, no sentido de

lembrar de onde a capoeira surge

e qual o sentido de sua existência.

Então, precisamos ser resistência

em reafirmar que a capoeira é preta

e isso significa entendê-la como

uma manifestação da cultura africana

em diáspora, com valores que

precisam ser preservados”.

Entretanto, a mestra reforça

que não podemos nos esquecer que

vivemos numa sociedade alicerçada

nas desigualdades, que têm seu

cerne no processo de escravização

negra e todas as suas nefastas consequências.

Por isso, não é tão fácil

mudar comportamentos, atitudes e

toda uma realidade machista e racista.

“Os praticantes de capoeira vivem

nesse contexto social e trazem

para dentro dos espaços o reflexo

de suas vivências no mundo. Ser

praticante de capoeira não dá a ninguém

a garantia de não ser racista,

machista, homofóbico, ainda que

ela traga elementos que possam

contribuir com o questionamento

de práticas discriminatórias. Parte

também de cada indivíduo se reeducar

e transformar suas relações.

Vejo que, nesse sentido, existem

pessoas e posicionamentos machistas

na capoeira, assim como existem

posicionamentos racistas também.

Mas temos que ressaltar, por exemplo,

que a mulher está galgando

espaços dentro da capoeira e tem

aumentado o número de mulheres

à frente de grupos. Isso, sem dúvida,

22

Revista Elas por Elas - março 2020


é um avanço. No entanto, esse avanço

não alcança muito as mulheres

negras, pois ainda somos minoria

dentro dos espaços de capoeira, reflexo

de uma sociedade racista que

nos invisibiliza”, acrescenta.

A realidade do machismo chama

a atenção também da contramestra

Índia Itatiaia (foto), paulista,

mas que vive em Belo Horizonte há

muitos anos. “Já tive problemas em

academias em que os alunos não

queriam treinar com mulher ou que

os donos de academia não queriam

mulheres dando aulas de luta. E vivi

relacionamento no qual meu parceiro

não gostava de me ver treinar

com homens. Dentro da capoeira, o

machismo é real. Na roda todos batem

palmas para a mulher, dizem

que temos os mesmos direitos e que

nos apoiam, mas na hora que o homem

tem a oportunidade de cortar

um jogo, de tirar alguém da roda, ou

simplesmente pegar um instrumento

pra tocar, muitas vezes, prefere

tirar a mulher, porque acha que ela

vai aceitar mais facilmente. Eu me

posiciono na hora. Claro que a gente

tem hierarquia na capoeira. Se é um

mestre que me tira com respeito, eu

tenho que aceitar a compra do jogo

dele, mas se o cara tem a mesma

graduação, ou inferior, e eu percebo

que é machismo, porque acha que

eu não tenho condição de estar ali,

aí me imponho e tenho certeza de

que será bom para as outras garotas

que vão chegar à minha graduação”,

afirma.

A contramestra Índia Itatiaia é

do grupo Capoeira Gerais - Mestre

Mão Branca e começou na capoeira

aos 14 anos, com a proposta apenas

de perder peso. Mesmo com o objetivo

alcançado, não parou mais. “A

capoeira para mim era uma luta coreografada

e eu ainda não entendia

muito bem, mas fui bem acolhida e

me identifiquei. Na medida em que

entrei em contato com a minha ancestralidade,

me apaixonei”, conta.

Ela começou a dar aulas aos 18

anos para crianças e adolescentes

e construiu sua vida na capoeira

da linha Regional, ao mesmo tempo

em que era atleta (vôlei, basquete e

artes marciais) e modelo. Casou-se

com o mestre Mão Branca e tiveram

um filho. Abraão (foto), hoje

com cinco anos, acompanha os pais

em todos os lugares onde vão com

a capoeira. “As coisas mudaram

e a maternidade não é vista mais

como empecilho. Pelo contrário, todos

os capoeiristas se ajudam nesse

cuidado com as crianças para que

a gente possa seguir no jogo e levando

nossos filhos. Abraão já foi

comigo para vários países. Ele ama

Na capoeira, tomamos

consciência de que

somos descendentes

de reis e que nossos

ancestrais foram

escravizados.

Resistimos no passado

e resistimos hoje!”

a capoeira, já entra no jogo e gosta

também de tocar atabaque”, conta.

A contramestra ressalta que,

quando começou em São Paulo, na

academia em que praticava, havia

60 homens e dois mulheres. “Hoje,

somos maioria nas academias. E

quando eu coloco uma menina

aqui para treinar, eu penso na defesa

pessoal dela, na ancestralidade,

na autoafirmação, na importância

dela saber que é competente e que

pode tanto quanto o homem. Hoje,

me sinto respeitada e não aceito

que seja diferente. Isso acende nas

garotas um olhar de resistência. A

capoeira te mostra a verdade ― que

a gente é bonita, inteligente, que negro

não pode ser apenas jogador de

futebol e pagodeiro. A gente aprende

isso culturalmente. Por exemplo,

quando vou buscar meu marido

no aeroporto e os taxistas me perguntam:

‘seu marido é gringo?’ Eu

pergunto com ironia: Por quê? Uma

negra bonita no aeroporto só pode

ser casada com gringo?”

Ela conta que foi por meio da capoeira

que aprendeu a importância

do negro na construção do país. “A

gente aprende na escola que o negro

é raça oprimida, escravizada e

só. Já na capoeira, tomamos consciência

de que somos descendentes

de reis e que nossos ancestrais foram

escravizados. Resistimos no

passado e resistimos hoje! E nós

temos o papel de ensinar isso a

outras pessoas. É necessário para

mudarmos essa realidade. Na atual

conjuntura do país, os ataques racistas

se acirraram principalmente

sobre as reservas indígenas e quilombolas.

Esse tipo de pensamento

Revista Elas por Elas - março 2020

23


/ Palestina Israel

capoeira é tão importante. A gente

não pode ser aceito. Se a gente não sobre a importância de não usar

24 Revista Elas por Elas - março 2020

tem esse papel de ensinar que os

negros construíram este país, como

uma criança negra ou com ancestralidade

negra ouvindo isso vai

se sentir, que orgulho vai ter de

sua história? O que vai almejar

na sua vida? Aqui, na nossa academia,

temos um projeto que o

mestre Mão Branca criou que se

chama Vivenciando a Capoeira, em

parcerias com escolas do bairro.

Recebemos cerca de 300 crianças,

gratuitamente, falamos sobre ancestralidade,

Zumbi dos Palmares

(muitas não sabem quem foi), da

resistência, da luta. Eles não vão

aprender isso na escola, pois a Lei

10639, que estabelece a obrigatoriedade

do ensino de história e

cultura afro-brasileira, ainda não

é cumprida pela maioria das escolas.

Além disso, falamos também

drogas, de respeitar pai e mãe, de

estudar, se formar, agregar conhecimentos

, pois conhecimento é

tudo”, ressalta.

Políticas públicas para

a capoeira

A capoeira foi liberada em 1930,

mas pouco mudou desde então, pois

tudo continua enquadrado dentro

de um pensamento que reproduz

o racismo. É o que afirma Edson

Moreira da Silva, o mestre Primo

(foto), do Grupo Iuna Capoeira

Angola de Belo Horizonte. “Quando

a pessoa entende isso, entende

que o povo negro africano foi escravizado

para os colonizadores se

aproveitarem de todo seu conhecimento

da agricultura, mineração,

culinária, arte etc. Essa informação

não está nos livros, por isso a

descobre no corpo, por meio de técnicas,

formas para se conectar com

a nossa ancestralidade. Isso é fundamental

para desconstruirmos a

filosofia do colonizador. Nosso dever

é construir outro processo em

que poderemos sempre acolher

a todos e todas, especialmente os

mais oprimidos e oprimidas. O modelo

de sociedade que buscamos

para nos identificar é o quilombo,

que foi destruído pelo sistema – era

acolhedor e com lugar e voz para

todos e todas”, destaca.

O mestre afirma que é urgente

a criação de políticas públicas para

que a capoeira não reproduza o

sistema, entrando na lógica do capital.

“Se ela for mercadoria, vamos

reproduzir o que querem que façamos.

Capoeira é filosofia, ciência,

história e traz todo o conhecimento


que nossos ancestrais deixaram.

Manter vivo o legado deixado pelo

povo escravizado é necessário. O sistema

quer massacrar todos que não

conseguem se proteger – indígenas,

mulheres, idosos, crianças, pessoas

com deficiência. O conhecimento

nos ajuda a criar estratégias para

desconstruir isso e transformar

verdadeiramente a realidade. As

políticas públicas são um caminho.

Todos pagamos impostos, o governo

precisa se preocupar com a cultura

do povo, pois é ela que vai nos fazer

caminhar”, afirma.

Assim, uma das demandas dos

grupos de capoeira em Belo Horizonte

tem sido a criação de um Centro

de Referência de Capoeira. “Lá

teremos livros, escola de capoeira

com diferentes grupos, espaço para

eventos, reuniões. Um processo de

acolhimento do nosso povo com

formação e informação na luta

pela transformação da sociedade.

Temos feito essa reivindicação,

mas até hoje não recebemos apoio

governamental”, diz.

O mestre destaca que, nos governos

Lula e Dilma Rousseff, a

valorização da capoeira começou

a avançar. Em 2008, foi registrada

pelo Instituto do Patrimônio Histórico

e Artístico Nacional (Iphan)

e em alguns estados começou a se

pensar em planos de salvaguarda

para manter, difundir e preservar

as tradições, as memórias e

a ancestralidade imbuídas nessa

manifestação. Em 2014, ela se

tornou a quinta manifestação cultural

brasileira reconhecida pela

Unesco como Patrimônio Cultural

Imaterial da Humanidade. “Mas

pouco avançou, porque nem todos

percebem a importância dessa

discussão política. Aqui, estamos

num bom diálogo com o Iphan

na tentativa de conquistarmos

políticas públicas”, afirma. De

acordo com a antropóloga Vanilza

Rodrigues, técnica da área de Patrimônio

Imaterial do Iphan/MG,

a partir do reconhecimento da capoeira

como Patrimônio Imaterial,

o Instituto vem trabalhando para

a salvaguarda, que visa garantir

a continuidade da tradição. “Esse

trabalho só é possível com a participação

e mobilização dos próprios

grupos de capoeira que apontam

as demandas. Juntos, traçamos um

planejamento das ações prioritárias”,

conta. Na sua avaliação, esse

processo tem sido uma rica troca,

pois “o Iphan vai conhecendo os

grupos, o valor dessa tradição, e os

grupos vão aprendendo como acessar

o pouco que existe de políticas

públicas e como se organizarem

para demandar”.

Hoje, cada Iphan estadual se responsabiliza

pelo seu trabalho. No

início do processo de salvaguarda

da capoeira, as ações eram centralizadas

na Fundação Palmares, Iphan

e Ministério da Cultura, em Brasília.

Foi quando o Ministério criou

o prêmio Viva meu Mestre que destinava

uma bolsa, um prêmio para

um mestre reconhecido pelo seu

trabalho desenvolvido até então.

“No Ceará e em Pernambuco, temos

exemplos dessas políticas de reconhecimento

dos mestres, uma ação

direcionada para uma pessoa física.

Mas, em geral, o que vem sendo feito

são ações programadas de forma

coletiva e descentralizadas em cada

estado”, diz Vanilza Rodrigues.

/ Palestina Israel

Revista Elas por Elas - março 2020

25


/ Mirela Persichini

26

Revista Elas por Elas - março 2020


Cultura

Pretas protagonistas

Mulheres constroem um novo tempo de liberdade por meio da arte

por Débora Junqueira

“O tempo dirá nossas vitórias.

O tempo é o senhor das vozes. O

tempo liberdade é agora”. Esse

é um trecho da canção Tempo

Liberdade, composição do Coletivo

Negras Autoras, grupo musical e

teatral de Belo Horizonte, formado

por Júlia Tizumba, Elisa de Sena,

Manu Ranilla, Nath Rodrigues e

Vi Coelho.

O Coletivo Negras Autoras faz

parte de uma transformação poderosa

na cena artística preta de

Belo Horizonte e de outras cidades

do país, onde grupos de música, teatro,

dança e artes visuais, principalmente

de mulheres negras com

consciência política, reacendem a

esperança para um mundo com menos

desigualdade de gênero e raça.

O coletivo existe há cinco anos,

com criações autorais a partir das

experiências pessoais das integrantes,

todas mulheres negras que carregam

em suas histórias pessoais a

dor e a beleza da herança cultural

afro-brasileira. “Produzimos uma

arte a partir da nossa visão de mundo.

A história das mulheres negras

sempre foi contata por outras pessoas

que não eram negras. A gente

mostra as mulheres reais, que

acordam cedo e têm que lutar”,

afirma a instrumentista, cantora e

compositora Nath Rodrigues, integrante

do Coletivo Negras Autoras.

Nath explica que os processos

de montagens dos espetáculos funcionam

como verdadeiras sessões

de terapia e que as apresentações

instigam a uma reflexão sobre racismo

e gênero. “Nossas discussões

no grupo geraram maior consciência

para todas nós do que é ser uma

mulher preta no Brasil hoje. Ou

seja, entendemos que a gente sofreu

um longo processo de subalternização

e silenciamento, viveu um

processo de servidão e que a objetificação

do nosso corpo, com uma

imagem associada à sexualidade,

Revista Elas por Elas - março 2020

27


/ Pablo Bernardo

Revolução em curso

permanece. Para mim, a arte é um

facilitador da tomada de consciência

sobre essa trajetória e um instrumento

para criar novas possibilidades”,

opina.

conduzidas por mulheres negras

que representam boa parte da cultura

brasileira. Ela acredita que

nos coletivos há uma forma mais

democrática e mais plural de organização

Soraya lembra que as mulheres

negras sempre produziram trabalhos

de altíssimo nível em todas as

áreas da sociedade e cita a conceituada

escritora mineira Conceição

Evaristo. “A escola é que não ensina

isso pra gente. O negro aparece

como escravizado e não como um

grande ator como Grande Otelo ou

um ótimo crítico como Muniz Sodré”,

evidencia.

Para ela, a sociedade está começando

a olhar para essa parcela da

população que sempre esteve presente,

mas de forma invisibilizada

e não reconhecida. “O problema é o

racismo. Os espaços sempre foram

ocupados. O racismo estruturante

reflete tanto na arte quanto na

educação. É só pensar em quantas

pessoas negras estão em posições

de gestão nas escolas”, exemplifica.

Outra mulher negra que acompanha

a cena artística em Belo Ho-

e destaca a importânrizonte

é a professora e realizadora

Formamos uma teia entre nós cia de pensar a arte como um lugar

político-estético e educativo. “A ta (foto). Como professora do cur-

audiovisual Tatiana Carvalho Cos-

“As pessoas querem se juntar

para produzir arte, principalmente

nesse momento político instágro.

Gosto de pensar que, além da sitário, em Belo Horizonte, coorde-

resistência é inerente ao povo neso

de cinema de um Centro Univervel.

Voltar na raiz para entender resistência, a gente tem que criar na o projeto de extensão Pretança

os problemas de hoje”, descreve uma educação que seja artística e - Afrobrasilidades e Direitos Humanos.

Para Tatiana, essa potência la-

Nath, lembrando que há uma onda uma arte reflexiva para compartilhar

o possível. Arte e política antente

na juventude negra brasilei-

de coletivos na capital mineira dialogando

a partir da arte. “Vejo os dam juntas. Portanto, tento engajar

tanto os meus alunos/as quanto conta do investimento feito na edura,

que reflete nas artes, ocorre por

coletivos como pequenos quilombos,

cada um tem a sua forma de o público do teatro para terem um cação nas duas últimas décadas. “O

se organizar, de pensar e dizer. E pensamento crítico e para promover

a mudança dos padrões impossidades

em áreas marginalizadas,

governo federal construiu univer-

quando a gente consegue conversar

é muito interessante. Um bebe tos pela sociedade, que é o padrão sobretudo no Nordeste e fora dos

na fonte do outro”, completa. da brancura. Precisamos sair da reprodução

do modo hegemônico de gramas que facilitaram o ingres-

eixos econômicos, além dos pro-

Para a atriz e pesquisadora de

teatro Soraya Martins, Belo Horizonte

é um polo de organizações na arte”, defende.

em escolas particulares, como

pensar, tanto na educação quanto so de pessoas negras, faveladas

o


Programa de Financiamento Estudantil

(Fies) e o Programa Universidade

para Todos (ProUni). O acesso

das pessoas à educação, sobretudo

no campo das artes, mostra que há

uma revolução em curso no Brasil

que não tem volta”, afirma.

Ela destaca a importância do papel

da arte não só para a construção

de narrativas como de ocupação

de espaços. “Na década de 40, a

ideia do movimento negro era ocupar

esse espaço. Nas artes cênicas

teve um movimento artístico, intelectual

e político muito forte, com

o jornalista Abdias do Nascimento,

quando se destacou a primeira

atriz negra Ruth de Souza. A partir

daí, houve um grande número de

pessoas negras ocupando espaços

nas artes”, conta Tatiana.

Cinema negro: poucas

mulheres no elenco

e na direção

Segundo a professora Tatiana

Carvalho, em termos de produções

artísticas, há uma multiplicidade

muito grande de artistas negros fazendo

cinema, mas, ainda, há muita

desigualdade de gênero e raça,

principalmente nos espaços de liderança.

Ela lembra que a primeira

mulher negra roteirista e diretora

de filme que rodou em circuito

comercial foi Adélia Sampaio, em

1984, com o filme Amor Maldito. “Se

considerar a época do nascimento

do cinema no Brasil, demorou mais

de 80 anos para isso acontecer. Somente

em 2017, surgiram mais mulheres

negras no circuito comercial,

entre elas as cineastas Camila de

Morais e Glenda Nicássio”, relata.

Um levantamento feito pelo Grupo

de Estudos Multidisciplinares da

Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade

Estadual do Rio de Janeiro

(UERJ), mostra que, de 2002 a 2014,

homens brancos dominaram o elenco

principal das 20 maiores bilheterias

de cada ano. Ao todo, eles representam

45% dos papéis mais relevantes.

Depois vêm mulheres brancas

(35%), homens negros (15%) e,

por último, mulheres negras (apenas

5%). Em 2002, 2008 e 2013, simplesmente

nenhum filme analisado

pelos pesquisadores foi protagonizado

por uma mulher negra.

A discrepância é mais gritante

quando se olha para os diretores

e roteiristas: 84% dos cineastas

são homens brancos; 14%, mulheres

brancas; e 2%, homens negros.

E nenhuma diretora negra

aparece no comando de uma produção

de grande bilheteria nos 13

anos analisados pelo estudo. Também

não assinou roteiro algum.

Nenhuma

diretora negra

aparece no

comando de

uma produção

de grande

bilheteria...”

Um levantamento da Agência Nacional

do Cinema (Ancine) apontou

que nenhum filme foi dirigido ou

roteirizado por uma mulher negra

no ano de 2016. Dados que representam

um marcador importante

de desigualdade.

Por sua vez, como consequência

das políticas sociais e culturais

e barateamento de equipamentos,

cresceu a produção de curtas-metragens

e festivais de cinema que

cada vez mais se preocupam com a

representatividade das pessoas negras

e com a temática étnico-racial

nas telas. Tatiana Carvalho, realizadora

do filme Minha África Imaginária,

a ser lançado em 2021, e jurada

em festivais de cinema, conta

que, na sua última edição, o Festival

de Cinema de Tiradentes passou

a pedir declaração de raça dos

participantes. O resultado foi que

menos de um terço eram filmes dirigidos

por pessoas que se autodeclararam

negras.

Segundo a professora, pode-se

afirmar que a ascensão de movimentos

artísticos contra-hegemônicos

no Brasil deve-se a quatro fatores:

maior acesso às universidades;

ascensão econômica da classe

C; crescimento dos festivais de cinema,

inclusive de cinema negro, e

o papel das redes sociais no debate

sobre feminismo negro que se dissemina

em lugares onde não se ouvia

falar antes.

Tatiana acredita que essa ascensão

socioeconômica que reflete

na arte gerou uma reação de setores

conservadores da sociedade.

“Há uma disputa narrativa, a pós-

-verdade instaurada que o atual

Revista Elas por Elas - março 2020

29


governo federal representa e que

tenta sobrepor no discurso uma realidade

que não tem volta, pois há

um movimento difuso em todas as

regiões do Brasil com jovens fazendo

arte, mostrando a cara para reivindicar

seus direitos”, opina.

Caminhos da arte

contemporânea

Para Tatiana Carvalho, muitos

dos filmes vão reproduzir, tanto no

conteúdo como no jeito de fazer discursos,

as pautas do movimento negro,

como o genocídio da juventude

negra, a violência contra a mulher

negra, a solidão da mulher negra,

a participação da mulher negra

na universidade, entre outras. “Mas

o que observei é que há filmes de

pessoas negras que querem falar de

outros temas. Porque há um estigma

com as pessoas negras que fazem

arte, que é um reflexo do racismo

na nossa sociedade, como se

pessoas negras artistas só pudessem

falar de negritude. Claro que

as pessoas brancas artistas falam

de branquitude sem se dar conta

disso, porque falam de seus privilégios,

seus lugares de poder, sem entender

que estão reproduzindo esse

lugar de poder, porque a branquitude

não se racializa”.

Em relação ao movimento de

arte engajada no Brasil, Tatiana

explica que não é cinema de super-herói

da Marvel ou teatro com

ator e atriz da Globo, mas há um

sentido revolucionário que, por

meio de movimentos organizados

ou não, promovem um importante

diálogo cultural em vários lugares

do país. “A grande importância

dessa produção artística negra é

dizer que branco não é sujeito universal

e que essa é uma posição

de privilégio que conta o sistema

todo para se manter nesse lugar.

Como disse a artista mineira Grace

Passô, a arte mais interessante

produzida no mundo hoje vem de

artistas pretas e pretos com consciência

racial e que conseguem

compreender esse contexto histórico

de construção de hierarquia,

da opressão e do simbólico, para

desarticular a máquina opressora.

Um movimento que produz obras

muito potentes e mostra o caminho

que a arte contemporânea

está tomando no teatro, na música,

nas artes visuais”, comemora.

/ Pablo Bernardo

/ Projeto Segunda Preta

30

Revista Elas por Elas - março 2020


Preta ou negra?

Na reportagem foram utilizadas

as duas nomeclaturas:

preta e negra, conforme a fala

das próprias entrevistadas.

O termo preto, que se refere

a cor da pele de seres humanos,

pode significar um xingamento

racista para alguns.

Portanto, a ideia de utilizá-lo

como um sinônimo para negro

é se apropriar do termo

como algo positivo e ressignificá-lo

dentro de uma disputa

no plano simbólico. Conforme

as fontes, uma demanda política

num país onde o racismo

ainda predomina.

Como explica a professora

Tatiana Carvalho, existe uma

discussão no movimento negro

em relação à autodeclaração

de raça definida na metodologia

do IBGE para o Censo

da população brasileira. “Negro

no Brasil é quem se autodeclara

preto ou pardo. Só que

a ideia de pardo é um pouco

confusa, porque diz da miscigenação

brasileira e, em certo

sentido histórico, tem a ver

com um projeto eugenista, que

prevê a ‘melhoria da raça’ no

Brasil, pretendendo a miscigenação

pelo branqueamento da

sociedade. A ideia de se referir

ao nome preto como algo positivo

é uma demanda política,

porque foi a pretidão alvo de

sucessivas políticas públicas

de estado de extermínio do

povo negro”, afirma Tatiana.

Quilombos culturais

Cinema

NOIRBLUE

Direção: Ana Pi

27min. Minas Gerais/França/2017

No continente africano, Ana Pi se reconecta

às suas origens através do gesto

coreográfico, engajando-se num experimento

espaço-temporal que une o

movimento tradicional ao contemporâneo.

Em uma dança de fertilidade e

de cura, a pele negra sob o véu azul se

integra ao espaço, reencenando formas

e cores que evocam a ancestralidade,

o pertencimento, a resistência e

o sentimento de liberdade.

Ana Pi nasceu em Belo Horizonte. É

uma artista coreográfica e da imagem,

pesquisadora das danças urbanas,

dançarina contemporânea e

pedagoga.

https://anazpi.com/

Produtora audiovisual

RENCA INTERAÇÕES E

PRODUÇÕES CULTURAIS

Produtora de audiovisual formada por

três jovens negras da periferia de Belo

Horizonte, com a proposta de envolver

a comunidade na construção das

produções.

@rencaproducoes

Teatro

SEGUNDA PRETA

Projeto idealizado por artistas negros

e negras de Belo Horizonte, que acontece

em temporadas no teatro Espanca,

com apresentações artísticas e

debates acerca da cena contemporânea

negra.

http://segundapreta.com/

Internet

ALMA PRETA

Agência de jornalismo especializado

na temática racial do Brasil.

www.almapreta.com

Música

COLETIVO NEGRAS AUTORAS

Tempo Liberdade

Meu olhar riscou o mundo

Avistei foi liberdade

Sou kilumba, sou rainha Nzinga

Me disseram que o sol vai

Me disseram que o sol vem

Me disseram que o sol vai curar

Toda essa história

Curar

Toda essa história

Queima a pele de Maria

Maria que foi menina

Menina que foi pra lá trabalhar

Menino de erê te guarda

Do lado um anjo da guarda

Sentinela guia o seu caminhar

O tempo lavou a alma enfim

O tempo dirá nossas vitórias

O tempo é o senhor das vozes

O tempo liberdade é agora

@negrasautoras

Revista Elas por Elas - março 2020

31


/ Mid[ia Ninja

/ Mídia Ninja

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Revista Elas por Elas - março 2020


Cultura

Mulheres demarcam

espaço também no

mundo da música

por Mariana Viel

A resistência das mulheres para

ocupar, em pé de igualdade com

os homens, os mais diversos espaços

sociais também é uma realidade

na música. Se no passado os estudos

para elas eram voltados para

instrumentos tidos como mais “femininos”

e “delicados”, como o piano,

o violino e até mesmo o canto,

hoje as mulheres encaram instrumentos

como o pandeiro, o surdo,

o tantan e o tamborim com desenvoltura

e propriedade peculiares.

Solange Caetano, percussionista

e mestra de bateria do Bloco do Bigode

e do Bloco Samba, Beth trocou

as bandejas que usava para servir

os clientes no Bar Opção pelas platinelas

do pandeiro. “Eu era garçonete

e sabia fazer o básico do pandeiro.

Eu servia as mesas e quando

voltava com a bandeja vazia ia treinando.

Um dia um dos pandeiristas

do grupo não pode ir e eles me

convidaram para tocar. Toquei a

noite toda com a mão doendo, mas

pensava: ‘tenho que tocar, porque

se não vou ter que ir lá servir’. A

partir desse dia, sempre que faltava

alguém eles me chamavam. Até

que surgiu o convite para que eu

participasse oficialmente do grupo.

E lá se vão 15 anos de percussão”.

Filha de um seresteiro e casada

com um sambista, Solange rapidamente

começou a cantar e estudar

outros instrumentos como o surdo,

o tamborim, o chique-chique e o

ganzá. “Meu pai tem um bar e nós

Revista Elas por Elas - março 2020

33


fazíamos um grito de carnaval com

alguns amigos. Só que a coisa foi

expandindo tanto que tivemos que

montar um bloco. Então me convidaram

para ser regente e tive que

aprender a tocar os instrumentos

de bloco de rua também: caixa, timbal,

repinique, rocar. Tudo pra mim

foi na base do ter que aprender”.

Com apenas 10 anos de idade,

a percussionista Fabíola de Paula

começou a acompanhar o pai,

pandeirista, em rodas de samba e

se apaixonou pela percussão. Através

do reco-reco, ela abriu caminho

para participar das rodas, majoritariamente

masculinas. “No começo,

eu percebia os olhares diferentes.

Ainda é difícil para muitos homens

admitir que uma mulher pode

sentar para tocar. Normalmente

eles pensam nas mulheres como

participações em duas ou três

músicas”.

Para Solange (foto), a identificação

da percussão com o mundo

dos homens é simplesmente uma

questão de espaço. “Não acho que

a percussão seja mais masculina.

Eles podem achar isso, mas eu

não acho. Os homens têm mais

oportunidades, mas conheço mais

mulheres percussionistas”, afirma

a mestra de bateria.

Os exemplos das mulheres percussionistas

são inspiração fora do

mundo da música. “Uma vez outra

mulher me chamou depois de um

show para falar que era chefe de

um departamento que só tinha

funcionários homens. Ela disse

que sempre se sentiu um pouco

inibida em comandar uma equipe

masculina, mas, que depois que me

viu participar de uma roda só de

homens, ficou mais confiante. Foi

muito importante ouvir isso. Nós

precisamos estar onde quisermos”,

relata Fabíola.

A percussão como forma

de resistência

Para mais de uma centena de

mulheres que integram o coletivo

percussivo As Panderista, a

percussão é forma de resistência.

“Além da vivência do instrumento,

os encontros do grupo são momentos

que proporcionamos, entre nós,

mulheres, de todas as idades, de vários

lugares, autoras da nossa própria

história, que se reúnem para

somar, tocar e trocar experiências

pelas praças da cidade. Cada uma

com sua singularidade”, explica a

musicista e percussionista Manu

Ramilla, idealizadora do coletivo.

A página oficial do grupo no Facebook

explica que o artigo definido

vem no plural ‘As’ e o substantivo

/ Paulo Guerra

34

Revista Elas por Elas - março 2020


no singular ‘Panderista’, pois “cada

mulher, tem sua história e sua

luta, que são únicas”. Manu conta

que a participação nas rodas de

pandeiro é cíclica. No carnaval passado

(2019) elas reuniram 138 mulheres

pandeiristas. O projeto nasceu

como forma de resistência à

dificuldade das mulheres terem

acesso ao movimento musical. “Em

2016, quando começamos o coletivo,

nós tínhamos muitas dificuldades

em entrar em rodas de choro,

por exemplo. Temos relatos inclusive

de mulheres que foram hostilizadas

em algumas rodas de choro”.

Além dos encontros periódicos,

o coletivo também participa de

atos públicos em defesa da democracia,

como as manifestações do

“Ele Não”, durante a campanha

presidencial de 2018 e o Dia Internacional

da Mulher. “Temos

uma vertente política de esquerda,

mas também temos experiências

com mulheres de outras posições.

Nossos encontros são momentos

de diálogo e reflexão e essa convivência

é muito importante e rica”,

enfatiza Manu.

Fundado há cerca de um ano e

meio por moradores dos bairros da

região Oeste da capital mineira, o

Bloco Sou Vermelh@ é um exemplo

da disposição das mulheres para a

luta. Para a psicóloga e idealizadora

do bloco, Neide Maria Pacheco,

as mulheres têm se colocado cada

vez mais como protagonistas dos

movimentos sociais. “Começamos

a ir pra rua com poucos componentes.

E, cada vez que íamos para

as manifestações, recebíamos mais

pessoas que queriam participar.

“No começo,

eu percebia os

olhares diferentes.

Ainda é difícil

para muitos

homens admitir

que uma mulher

pode tocar”

Queremos mostrar que batucada

não é só para homem. Fazemos

música e luta”.

Apesar de não ser um bloco de

participação exclusiva feminina,

as mulheres são maioria absoluta

no Sou Vermelh@. “Acho que as

mulheres têm tido mais disposição

para a luta e têm se colocado como

protagonistas dos movimentos.

Somos um grupo muito solidário

e, mesmo não possuindo uma

hegemonia de pensamento político,

nosso mote é de esquerda”, afirma

ao ressaltar que foi intensa a

atuação do grupo na campanha

Lula livre.

/ Mariana Viel

Revista Elas por Elas - março 2020

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/ Daniel Cima

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Revista Elas por Elas - março 2020


Cultura

Lutas que

atravessam fronteiras

Coletivo de comunicação do México lança série audiovisual que retrata o

protagonismo das mulheres em distintas lutas pelo mundo. Um convite à

reflexão sobre a pluralidade em torno da resistência feminista.

por Carina Aparecida

Comandanta Ramona: referência

na luta do Exército Zapatista

de Libertação Nacional no México,

que impulsionou a luta dos povos

indígenas na construção da autonomia.

Emma Goldman: de origem

judia e com pensamentos libertários,

ela desafiou a ordem

estabelecida e chegou a ser considerada

a mulher mais perigosa

dos Estados Unidos. Berta Cáceres:

hondurenha que lutou intensamente

contra megaprojetos em

seu país, assassinada por enfrentar

a lógica predatória do sistema

capitalista. Mulheres curdas: um

exército de corações e punhos erguidos

pela libertação do povo curdo,

em uma construção autônoma

anticapitalista e anti-patriarcal.

Marichuy: ativista e médica tradicional

do povo Nahua, primeira

mulher indígena a se candidatar

às eleições presidenciais do México.

Angela Davis: ativista estadunidense,

referência na luta antirracista,

antiprisional e na construção

do feminismo interseccional.

Essas mulheres vêm de distintos

lugares e realidades, mas se encontram

na série audiovisual “Mujeres

que luchan”, produzida pelo

Coletivo de Comunicação Koman

ilel, que atualmente tem sua sede

na cidade de San Cristóbal de las

Casas, Chiapas, México. Os/as integrantes

falaram sobre o processo

de realização, mas preferem não

se identificar de forma individual,

e sim coletiva, o que reflete a proposta

do próprio nome do coletivo.

Koman ilel, em uma das variações

da língua indígena tzotzil, significa

fazer com o olhar de todos e todas.

O coletivo conta que a inspiração

para realizar a série surgiu a

partir do I Encontro Internacional

das Mulheres que lutam, em 2018.

Revista Elas por Elas - fevereiro 2020

37


O Encontro foi convocado pelas mulheres

do Exército Zapatista de Libertação

Nacional (EZLN), movimento

em resistência à discriminação

e marginalização de comunidades

indígenas dos povos originários

no estado de Chiapas. O movimento

nasce publicamente com um levantamento

armado em 1994 e, desde

então, mantém a luta por educação,

saúde, independência, liberdade,

justiça e paz, a partir da construção

autônoma em várias comunidades

organizadas no estado.

Formado majoritariamente por

homens, os/as integrantes do Coletivo

dizem que o Encontro das Mulheres

Zapatistas provocou uma

reflexão sobre qual poderia ser a

contribuição deles na difusão das

resistências protagonizadas por

mulheres. “Por isso que quando

pensamos a ideia da série, vimos

que, como homens, necessitamos

aprender a ser mais sensíveis, buscando

essa construção junto às

companheiras”, afirmam. Os integrantes

contam que no início do

processo perceberam que sabiam

muito pouco da história de luta

das mulheres, o que se tornou um

desafio, já que primeiro foi preciso

aprofundar e conhecer essas trajetórias

para depois compartilhar.

E a realização também foi pensada

de forma coletiva, com a participação

inclusive de pessoas de

outras nacionalidades. “Não queremos

demarcar, colocar critérios,

queremos justamente que se veja

as distintas formas de luta dessas

mulheres, lutas muitas vezes cotidianas.

Então não queremos ter

controle sobre isso, reforçando que

/ Marichuy: primeira indígena a se candidatar às eleições presidenciais do México.

/ Eneas De Troya

38

Revista Elas por Elas - março 2020


só os homens podem contar a história

das mulheres. Queremos que

seja um processo aberto, que se vá

contando mais histórias de companheiras”,

defendem.

Eles contam que já traziam a

crítica de como sempre houve invisibilidades

históricas, sobretudo

vivendo no estado Chiapas, com

relação à discriminação dos povos

originários. “Dedicamos um tempo

para pensar isso, como nos toca?

Como refletimos e como nos posicionamos?

É importante contar

o que não se vê, desde um espaço

hegemônico, como o sistema patriarcal,

colonial, capitalista tem

mantido principalmente as mulheres

apartadas”.

A empatia no olhar

Uma das integrantes do Coletivo

é a jovem mexicana Gabi Avi, que

além de realizadora audiovisual é

fotógrafa e em seu trabalho traça

reflexões sobre as representações

das vidas e resistências femininas.

Gabi compartilha que uma de suas

inquietações é pensar que, somente

após a morte, algumas mulheres

sejam reconhecidas em suas trajetórias

e relembra o massacre no

município de Atenco, México, em

2006, quando dezenas de mulheres

foram violentadas e presas em

um processo forte de repressão policial.

A luta era contra a construção

de um aeroporto, que afetaria

diretamente a população. “Fui vendo

o quanto a vida delas foi mudando

depois de tudo isso. Uma delas,

que é arquiteta, já não podia pegar

em um lápis, de tanto que machucaram

sua mão. Então me interessa

também olhar para elas, falar também

de mulheres que não se dizem

feministas, mas que na prática

são, porque estão lutando pela

vida, pela resistência”, defende.

Gabi afirma que a realização de

uma obra que reflita a vida dessas

mulheres exige um cuidado e um

respeito profundo às suas histórias.

Para ela, é necessário um esforço

em construir junto o que está

sendo dito nessas narrativas. “E ver

também como elas querem ser representadas.

Nós as vemos como

mulheres que lutam, mas e elas?

Como se veem? Escolhemos essas

mulheres e entramos no processo

de escrever o roteiro, o que também

é muito complicado, porque é

um desafio falar delas sem vitimização”,

pontua.

Falar das dores, mas também

da força e dos aprendizados. Para

Gabi, a produção de vídeos que

Para mim é

importante passar

uma alegre rebeldia,

ver as coisas belas

que elas estão

fazendo. E não

para invisibilizar

a tristeza, mas

porque também é

importante ver o

lado da beleza”

relatam essas experiências precisa

questionar a representação que historicamente

sustenta a fragilidade

feminina. “Para mim é importante

passar uma alegre rebeldia, ver as

coisas belas que elas estão fazendo.

E não para invisibilizar a tristeza,

mas porque também é importante

ver o lado da beleza”, ressalta.

Ocupando espaço

Poder acessar a história de diversas

mulheres é uma conquista

frente ao histórico privilégio dado

aos homens. Vê-las do outro lado

das câmeras, podendo construir essas

narrativas, é um passo essencial

contra a desigualdade de gênero. A

partir da sua própria realidade e vivência,

também no campo da fotografia,

Gabi reflete sobre a importância

de ocupar o espaço da construção

simbólica. “Comecei a fotografar

com o ensinamento de que

retratamos o outro mas, ao mesmo

tempo, nós mesmos, quem somos.

Me lembro de uma marcha que fizemos

depois de um caso de feminicídio,

o assassinato de uma mulher

em situação de rua. Me senti

em um grande dilema, se guardava

minha câmera para acompanhar as

outras mulheres gritando, pintando

os muros, mostrando minha raiva

ou se eu ia tirando fotos, sentindo-me

um pouco distante. Mas há

um aviso do coração, de entender

os momentos que você deve registrar

e os momentos que deve estar

entre as pessoas. E as fotos também

têm me ajudado a mostrar que meu

corpo está ali presente”, relata.

Para ela, a realização de vídeos

e fotografias é uma forma também

Revista Elas por Elas - março 2020

39


de animar outras mulheres a tomarem

as ferramentas que são ditas

como sendo dos homens. “Não

é uma competição, mas sabemos

que podemos fazer sim e com nossa

sensibilidade, nosso olhar, nossa

forma de ver, assumindo nossos

diversos lugares, condições”,

completa. Sobre a série “Mujeres

que luchan”, Gabi conta que foi

um aprendizado constante acessar

essa pluralidade de resistências,

o que fez com que ela se sentisse

mais perto de cada realidade

vivida por essas lutadoras. “A

Emma Goldman vem de outra realidade,

mas criei uma identificação

com sua forma de luta. E sinto

que a série inspirou outras mulheres

também. A exibição do vídeo da

Comandanta Ramona nas comunidades

indígenas, por exemplo, por

mais que não tenham conhecimento

do Zapatismo ou de experiências

autônomas, gera um grande impacto.

Conhecer a história dessa mulher

indígena, que teve tanta força

de até seu último dia seguir lutando

por um mundo melhor, é inspirador”,

destaca.

/ Sonja Hamad

A coletividade na luta

das mulheres

O coletivo komal ilel afirma que

a ideia é seguir com a produção da

série, visibilizando a vida de outras

mulheres. Uma delas é Bety Cariño,

lutadora mexicana de origem mixteca,

defensora da soberania alimentar,

recursos naturais e da autonomia

dos povos indígenas. Em

2010, Bety foi assassinada por paramilitares

quando integrava uma

caravana de ajuda humanitária.

/ Ensaio com mulheres curdas, da fotógrafa Sonja Hamad

40

Revista Elas por Elas - março 2020


Sua irmã, socióloga e também defensora

de direitos humanos, Carmen

Cariño, atualmente vive no

México e compartilha reflexões sobre

o protagonismo das mulheres

em diferentes trincheiras. Sobre o

legado de Bety, Carmen afirma que

ela formou parte desses processos,

entre pessoas que constroem um

mundo onde caibam muitos mundos,

mulheres que cotidianamente

estão construindo o sonho de

transformar a realidade de opressão,

exclusão, racismo, de despejos

dos territórios, da vida, dos povos.

“Ela estava articulada em muitas

redes de ação, como por exemplo a

que luta contra os projetos de mineração

e outros megaprojetos em

toda a América Central, contribuindo

com as organizações comunitárias,

com os direitos das mulheres,

sempre vinculados com os direitos

coletivos dos povos, direito à autonomia,

direito de decidir. Ela segue

na luta pela água, contra a mineração,

contra os megaprojetos —

aí está ela! Sua memória está viva,

está vivo o seu pensamento e seu

trabalho. Um trabalho que os companheiros

e as companheiras reconhecem,

porque sempre foi comprometido,

buscando destruir a

raiz desse sistema capitalista, colonialista

que persiste em nossos territórios”,

relata.

Para Carmen, produções como a

série “Mujeres que luchan” são importantes

porque rompem com um

silenciamento histórico que serve

ao capitalismo, ao racismo, ao patriarcado

e que reproduz a ideia

de que as mulheres são incapazes

de falar, pensar, lutar. Carmen

também destaca que as lutas apresentadas

não podem ser entendidas

de forma individual, já que, em

todas essas trajetórias, trata-se de

resistências coletivas e, em alguns

casos, comunitárias. “Berta Cáceres

(lutadora hondurenha presente

na série) disse: ‘nossa luta é contra

o patriarcado, nossa luta é contra

o sistema capitalista e contra esse

sistema racista que quer exterminar

a gente, que está acabando com

a vida do planeta’. Não estamos falando

de um olhar individualista

ou de um tema exclusivo de mulheres.

Angela Davis também está

falando de uma luta muito importante

nos Estados Unidos, a do povo

afroamericano, com uma história

muito forte de escravização, mas

também de resistência. Está falando,

sim, da violência contra as mulheres,

mas está falando também

de muitos elementos que se compartilham

com os homens que dividem

essa realidade”, explica.

nossa luta é contra

o patriarcado, nossa

luta é contra o sistema

capitalista e contra

esse sistema racista

que quer exterminar

a gente, que está

acabando com a vida

do planeta”

Feminismo Descolonizado

A visibilização da vida de mulheres

indígenas e negras coloca em foco

a urgência de se debater a diversidade

que nasce do feminismo. Ou

melhor, dos feminismos. Carmen

Cariño, que também integra o Grupo

Latino Americano de Estudos e

Ações feministas (uma coletiva em

que participam mulheres afrodescendentes

e indígenas de vários países

da América Latina e Caribe) explica

sobre a contribuição do feminismo

denominado descolonizado.

“Não se trata de qualquer feminismo,

mas sim uma proposta de descolonizar

o feminismo. Existem várias

propostas e elas têm uma raíz muito

importante na América Latina e no

Caribe, com influência muito forte

do feminismo negro, do feminismo

indígena, camponês, popular”, destaca.

Segundo Carmen, existe uma

crítica a como o feminismo hegemônico

e universalista tem pensado

as relações de gênero, analisando

a opressão das mulheres somente

a partir do patriarcado. Para ela,

o feminismo que nasce a partir da

Revolução Francesa, no século XIX,

na Europa, responde a um contexto

específico, à demanda de mulheres

em um momento determinado. “Assim

parece que a luta das mulheres

começa com esse feminismo. E não.

A luta das mulheres tem uma história

muito mais ampla, de vários séculos

atrás e creio que aí é importante

apostar em processos de descolonização

que vão para além do

feminismo”, afirma.

Carmen destaca que “não podemos

pensar a luta das mulheres

fora do processo de colonização e

Revista Elas por Elas - março 2020

41


colonialismo que persiste nos dias

de hoje e que nos faz desiguais,

construindo uma hierarquia na

qual há mulheres que têm se colocado

não só acima de outras mulheres,

mas também de outros homens

dentro da hierarquia social.

E não se trata apenas de pensar as

opressões desde a questão de gênero,

mas também sexo, classe e

raça”, defende.

Para Carmen, o feminismo hegemônico

muitas vezes pode contribuir

no silenciamento de outras

mulheres, vindas de realidades,

lutas e vivências distintas. “Por

exemplo, essas mulheres que têm

suas histórias contadas na série

também têm sido silenciadas. Isso

é perigoso, porque limita nosso

olhar sobre a luta das mulheres e

faz com que muitas vezes a gente

negue que essas mulheres também

estão lutando desde uma perspectiva

muito mais ampla. Silenciar essas

mulheres é continuar invisibilizando

que a luta vai além do patriarcado

e que muitas mulheres

têm visto, denunciado e têm muita

noção do quanto essa luta é muito

maior, mais ampla. É abaixo, à esquerda,

contra o racismo, contra o

patriarcado e contra o sistema capitalista”,

afirma.

Continuidade

Com a proposta de seguir com

a produção da série, abordando a

vida de outras lutadoras, os/as integrantes

do Coletivo Koman Ilel

demonstram interesse em também

dar visibilidade à trajetória

/ Eneas De Troya

42

Revista Elas por Elas - março 2020


de Marielle Franco, em colaboração

com pessoas do Brasil. “A produção

audiovisual para nós não é

um fim em si mesma, é uma ferramenta

para algo, é uma construção”,

destacam.

A série já está disponível na plataforma

YouTube, com tradução

em português, francês e inglês. A

todos/as que agora se sentem convidados/as

a saber mais sobre a trajetória

dessas mulheres, é só acessar

o canal do Coletivo:

youtube.com/ColectivoKomanIlel

/ Sonja Hamad

Revista Elas por Elas - março 2020

43


/ Arquivo

44

Revista Elas por Elas - março 2020


Diversidade

Homofobia:

Combater preconceitos é uma expressão da luta pela liberdade

por Mariana Viel

A modelo e estudante Cristal

Martinno viu a internet se transformar

em uma ferramenta criminosa

de disseminação de ataques

homofóbicos e transfóbicos depois

que uma foto sua e de outras alunas

atendidas pela ONG TransVest foi

publicada em um portal de notícias.

A matéria simplesmente relatava a

atuação educacional e as dificuldades

financeiras que a organização

não governamental – que não recebe

nenhum tipo de recurso público

– atravessa. “Fiquei assustada com

os comentários da matéria. Eram

ofensas gratuitas, inacreditáveis e

era a minha foto que estava lá. Era

a minha imagem e todas aquelas

agressões. O Brasil é o país que mais

mata pessoas trans no mundo. Ler

todas aquelas coisas é assustador”,

relembra a estudante.

Fiquei assustada

com os comentários

da matéria...

...Ler todas aquelas

coisas é assustador”

Revista Elas por Elas - fevereiro 2020 45


/ Arquivo pessoal

Apesar do episódio, Cristal (foto)

afirma que é uma privilegiada dentro

do universo trans. “O preconceito

é inevitável, mas posso dizer

que algumas características minhas

como cor da pele, minha voz e até o

meu cabelo liso me fazem ser incluída

com mais facilidade na sociedade.

Tenho uma amiga negra que é

trans e que não consegue emprego.

Conheço a dor de ser uma mulher

trans, mas não sei a dor de ser uma

mulher trans e negra”, desabafa.

A edição deste ano do Atlas da

Violência corrobora o relato de

medo e dor de Cristal. Pela primeira

vez, o documento trouxe estatísticas

da violência contra a população

de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais,

travestis e intersexuais. Os

dados alarmantes divulgados pelo

Instituto de Pesquisa Econômica

Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro

de Segurança Pública (FBSP)

apontam que, em todo o país, o número

de homicídios contra a população

LGBTQI+ subiu de cinco casos

em 2011 para 193 em 2017. As lesões

corporais aumentaram de 318

em 2016 para 423 em 2017.

Em Minas Gerais, entre 2016 e

2017, as denúncias de homicídios

saltaram de seis para 19 casos. Em

números absolutos, houve um aumento

de 21,8% no registro de denúncias

no estado. Os relatos de

lesão corporal tiveram alta, nesse

período, de 65,3%, saindo de 26

para 43. O estudo foi elaborado a

partir dos dados registrados no Disque

100, do governo federal.

As violências contra a população

LGBTQI+ estão presentes nos diferentes

grupos de convivência social

46 Revista Elas por Elas - março 2020


e formação de identidades. As ramificações

se fazem notar no meio familiar,

nas escolas, na igreja, na rua,

no posto de saúde, na mídia, nos

ambientes de trabalho, nas forças

armadas, na justiça, na polícia, em

diversas esferas do poder público e

também nas ainda insuficientes políticas

públicas afirmativas que contemplem

a comunidade LGBTQ I+.

A Constituição de 1988 assegurou

um sistema de direitos e

garantias plurais e inclusivas que

estabelece a responsabilidade do

Estado Brasileiro no desenvolvimento

de ações que coíbam as

mais diversas formas de violência.

A luta contra os crimes de natureza

LGBTfóbica é a luta pelo reconhecimento

do direito à diversidade

relacionada às orientações sexuais

e identidades de gênero.

Apesar do aumento da violência,

o advogado Thiago Coacci (membro

da Comissão da Diversidade Sexual

da OAB-MG) explica que, recentemente,

houve avanços na criação

de instrumentos legais de criminalização

da homofobia. Em junho de

2019, o Supremo Tribunal Federal

(STF) reconheceu a omissão inconstitucional

do Congresso Nacional

por não editar lei que criminalize

atos que atentem contra os direitos

fundamentais da comunidade LGB-

TQI+. A maioria da Corte votou pelo

enquadramento da homofobia e da

transfobia como tipo penal definido

na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989),

até que o Congresso Nacional edite

lei específica sobre a matéria.

Coacci ressalta – como advogado

e ativista das causas LGBTs

– que, para além da criação de leis

que assegurem a punição em casos

de crimes, é necessária a criação de

uma rede de proteção. “O direito

penal só intervém quando o pior já

aconteceu. O que queremos é que

os crimes não aconteçam. Precisamos

de instrumentos e mecanismos

do Estado brasileiro que protejam

a população LGBTQI+, como

acontece, por exemplo, com a Lei

Maria da Penha, para as mulheres

vítimas de violência doméstica”.

Apenas um dia antes da análise

da ação no STF, a Comissão de Constituição

e Justiça (CCJ) do Senado

também aprovou a criminalização

das tentativas de se proibir manifestações

públicas de afeto. Para

o representante da Comissão da

Diversidade Sexual da OAB-MG,

o Senado antecipou a votação da

proposta na tentativa de criar uma

manobra jurídica antes que a Corte

do Supremo deliberasse sobre o

tema. “A decisão do Supremo não

impede que o Congresso Nacional

legisle sobre o tema. Mas partir do

momento que o STF se posicionou,

equiparando a homofobia ao crime

de racismo, nenhuma lei formulada

pelo Congresso pode oferecer uma

proteção menor do que a Lei do

Racismo”, explica Coacci.

O projeto aprovado no Senado

diz que comete crime de homofobia

a pessoa que, “por motivo

de intolerância, discriminação ou

preconceito, negar uma promoção

profissional à vítima; impedir

o acesso ou recusar atendimento

à vítima em estabelecimentos comerciais

e, ainda, restringir manifestação

razoável de afetividade

de qualquer pessoa, em locais de

acesso público – com exceção de

templos religiosos”.

/ Mídia Ninja

Revista Elas por Elas - março 2020

47


/ Mídia Ninja

Todos somos seres

humanos, temos

dignidade. Se uma

pessoa tem uma

tendência ou outra,

isso não lhe tira a

dignidade como

pessoa

Homofobia e liberdade

religiosa

Crítico da bancada evangélica

no Congresso, o pastor da Comunidade

Batista do Caminho, José Barbosa

Junior, diz que a exclusão dos

templos religiosos colabora para a

incitação da violência contra a população

LGBTQI+. “A bancada evangélica

protagonizou o lobby para a

aprovação dessa cláusula, com o

intuito de continuar a promover o

discurso de ódio dentro das igrejas.

Defender a inclusão dessa cláusula

é defender o direito de ser homofóbico.

Todos podem ter a sua opinião,

inclusive os líderes religiosos, sem

promover e incitar a violência”.

Em 2015, José Barbosa e outros

cristãos criaram em São Paulo um

movimento de luta contra a homofobia

chamado “Jesus cura a

homofobia”. O ato que, em princípio,

tinha a intenção de transmitir

uma mensagem de amor, tornou-se

um movimento com grande repercussão

na imprensa e nas redes

sociais. Ele explica que o objetivo

do movimento é pedir perdão pela

forma como as igrejas “ditas cristãs”

tratam os homossexuais e, ao

mesmo tempo, travar um debate

sobre a fé. Segundo o pastor, uma

das premissas do cristianismo é a

defesa dos oprimidos e marginalizados.

“Muitos homossexuais são

evangélicos ou vêm de famílias

cristãs. Buscamos conscientizar essas

famílias de que seus filhos e filhas

não ‘são pecadores’. E que não

há nenhuma condenação de Deus

em função da sexualidade deles. As

famílias têm esse preconceito muito

carregado pela religiosidade”.

Durante encontro com o comediante

britânico Stephen K. Amos,

em abril de 2019, o Papa Francisco

afirmou que as pessoas que

rejeitam os homossexuais “não

têm coração humano”. A conversa

aconteceu durante a gravação

de um programa do canal BBC. O

comediante disse ao Papa que não

é cristão e que viajou a Roma “em

buscas de respostas e fé”. Mas que,

como é gay, não se sentia aceito.

Ao ouvir isto, Francisco disse

que se importar mais com o adjetivo

(gay) do que ao substantivo

(homem) não é bom. “Todos somos

seres humanos, temos dignidade.

Se uma pessoa tem uma tendência

ou outra, isso não lhe tira a dignidade

como pessoa. As pessoas que decidem

rejeitar o outro por um adjetivo

não têm coração humano”,

48

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Noora Ladeira

Percebi que

estava apenas

seguindo regras,

acompanhando

a boiada. Era

uma espécie de

relacionamento

abusivo”

declarou Francisco. Desde o início

de seu pontificado, em 2013, o Papa

Francisco se destaca por visões menos

conservadoras sobre assuntos

polêmicos como aborto, racismo,

pedofilia e desigualdade. As declarações

do líder religioso são vistas

por muitos como as mais progressistas

da história da Igreja Católica

Apostólica Romana.

Rompendo laços familiares

A estudante de artes plásticas e

performer Dada Scáthach viveu na

própria pele a pior faceta do fundamentalismo

religioso. Autodeclarada

do gênero não-binário (pessoa

que não se identifica nem com o

sexo masculino, nem feminino) e

nascida em uma família praticante

da religião cristã Testemunhas de

Jeová, na cidade de Franca, interior

de São Paulo, Dada teve que se desligar

da igreja e romper qualquer

tipo de relação com todas as pessoas

com quem havia convivido durante

toda a sua vida, depois que

assumiu sua homossexualidade.

Em 2014, ela se envolveu com

um jovem do mesmo sexo, às

vésperas de ser batizada, pensando

que aquela seria a primeira e última

oportunidade que teria. “Fiquei com

a consciência muito pesada. Comecei

a achar que tudo que era falado

na igreja sobre homossexualidade

era pra mim. Então contei para a

minha mãe. Ela ficou chocada e

disse que nós teríamos que contar

para os anciãos. Meu medo era ser

desassociada. Minha vida, todos os

meus amigos eram da igreja”.

Durante cerca de dois anos,

Dada perdeu os “privilégios” na

igreja e não pôde mais participar

das atividades consideradas mais

importantes. “Nesse meio tempo,

conheci um amigo que também

havia sido Testemunha de Jeová.

Ele foi me abrindo os olhos sobre

um monte de coisas que eu também

não concordava, como a segregação

em relação às mulheres,

por exemplo. Percebi que estava

apenas seguindo regras, acompanhando

a boiada. Era uma espécie

de relacionamento abusivo”.

Quando finalmente começou a

usar roupas, assessórios e maquiagem

femininos, os anciãos foram até

a sua casa com uma espécie de ultimato.

“Nesse dia, pedi para sair oficialmente

e eles fizeram o anúncio

para toda a igreja de que eu não era

mais Testemunha de Jeová. Lembro

que, no dia do meu anúncio, muita

Revista Elas por Elas - março 2020

49


/ Mídia Ninja

Quando alguém te

fala que você não

pode ser aquilo

que você é, isso é

discurso de ódio. É

uma violência, uma

relação abusiva”

gente chorou. Eu cresci naquela comunidade

e, depois que você é desassociada,

as pessoas nunca mais

podem falar com você. Meu irmão

de 11 anos não fala comigo. Meu pai

já morreu e minha mãe é a única

pessoa da minha família que faz parte

da igreja que fala comigo”, conta.

Mesmo nunca tendo vivenciado

agressões explicitas na igreja, ela

afirma ter sido vítima do discurso

de ódio. “Quando alguém te fala que

você não pode ser aquilo que você

é, isso é discurso de ódio. É uma violência,

uma relação abusiva”.

Garantia de direitos

Entre os desafios primordiais

para a consolidação da democracia

plena no Brasil está o desenvolvimento

de uma sociedade que

assegure o respeito à liberdade e

à identidade de cada indivíduo.

Para tanto, é necessário operar em

múltiplas direções: medidas educacionais,

garantia de participação

política e acesso a serviços públicos

de saúde, além de segurança e justiça

preparados para compreender

a diversidade.

Autora do projeto de lei

3329/2006, que instituiu, em Minas

Gerais, o 17 de maio como o Dia Estadual

Contra a Homofobia, a ex-

-deputada Jô Moraes explica que

o principal objetivo do projeto é a

promoção do direito à livre orientação

sexual. A ex-parlamentar conta

que, em 2006, a Associação Internacional

de Direitos LGBTQI+ realizou

o primeiro estudo sobre homofobia

de Estado. Foi elaborado

um levantamento dos países que

tinham legislações coercitivas e

punitivas em relação à orientação

sexual das pessoas. Naquela época,

92 países em todo mundo tinham

legislações punitivas. O estudo

mais recente, feito em 2018, mostrou

que ainda existem 72 países

com leis contra orientação sexual

homoafetiva.

“Foi exatamente levando em

conta esses dados e, orientada por

ativistas e militantes do movimento

de diversidade sexual, que apresentei

este projeto de lei que deu

origem ao Dia Estadual Contra a

Homofobia. É evidente que, naquele

momento, o projeto representava

um enfrentamento a todas as

legislações punitivas que existiam

em vários países e que tinham suas

50

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Arquivo Câmara dos Deputados

Hoje, mais do que

nunca, defender os

direitos humanos,

defender as liberdades

em todas as suas

dimensões e combater

os preconceitos é uma

expressão da luta pela

liberdade”

sequelas no Brasil. Considero que

as iniciativas de Estado, em todas

as suas instâncias – nesse caso a AL-

MG –, para estimular a consciência

crítica e elevar a consciência de direitos

humanos, é uma atitude pedagógica.

É também um incentivo

para que as pessoas possam compreender

que o direito humano,

nas suas mais diferentes dimensões,

deve ser um compromisso do

Estado e da sociedade”, enfatiza Jô.

A ex-deputada ressalta que, além

da descriminalização, a luta contra

a homofobia de Estado é constituída

de outras duas – proteção e

reconhecimento. “É fundamental a

construção de leis de proteção que

assegurem direitos em diferentes

espaços, como, por exemplo, no

trabalho. Também é essencial a

criação de leis de reconhecimento,

como o do direito ao casamento e

do direito à adoção. Tivemos importantes

avanços nos períodos

dos governos do ex-presidente

Lula e da ex-presidenta Dilma, inclusive

relacionadas a decisões do

Supremo Tribunal Federal”.

Ela denuncia que recentes ações

do governo federal têm contribuído

para o aumento do preconceito.

“Estamos vivendo neste momento

um duro retrocesso em todas as

áreas e um estímulo, a partir da Presidência

da República e do governo

brasileiro, ao preconceito. Hoje,

mais do que nunca, defender os direitos

humanos, defender as liberdades

em todas as suas dimensões

e combater os preconceitos é uma

expressão da luta pela liberdade”.

Cristal Martinno afirma que o aumento

do preconceito incitado pelo

atual governo federal tem trazido

medo para a comunidade LGBTQI+.

“O preconceito e os casos de violência

aumentaram muito. As pessoas

se sentem respaldadas pelas opiniões

dele. Elas falam ‘meu presidente

não apoia vocês e eu apoio ele’ ou

‘meu presidente diz que a questão

da homossexualidade se resolve

na porrada, então é isso mesmo’. É

muito tenso para todos”.

Exercendo a cidadania

A Prefeitura Municipal de Belo

Horizonte tem desenvolvido importantes

projetos que garantem o exercício

da cidadania plena da população

LGBTQI+. A Secretaria Municipal

de Assistência Social, Segurança

Revista Elas por Elas - março 2020

51


/ Mídia Ninja

Alimentar e Cidadania inaugurou,

em dezembro de 2018, a nova sede

do Centro de Referência LGBTQI+ –

localizada na rua Curitiba, 481 – centro

da capital. De janeiro a dezembro

de 2019, o Centro realizou 1561

atendimentos.

O equipamento oferece serviços

como atendimentos psicossociais;

grupos de apoio; acolhimento

de denúncias em casos de violações

de direitos ou violência em virtude

de orientação sexual; discussões

de caso com serviços e parceiros

da rede de atendimento como

saúde integral, cultura, lazer; orientações

e encaminhamentos para outros

serviços municipais; rede de

garantia de direitos e espaço para

reuniões de articulação política dos

coletivos gays, lésbicas, bissexuais

e transsexuais.

Segundo a diretora de Políticas

para a População LGBTQI+, Dayara

Carvalho, além de ampliar os

atendimentos, a inauguração do

novo centro de referência é uma

iniciativa histórica sob a perspectiva

do desenvolvimento de um

“equipamento público de referência

para colaborar com a equidade

de direitos”, afirma.

Dados da Prefeitura de BH apontam

que as principais demandas

estão relacionadas a situações de

orientação geral por direitos, acesso

à saúde, acesso ao mercado de

trabalho, conflito familiar e acolhimento

institucional.

A PBH também realizou a adequação

de formulários, sistemas e

em todos os meios de identificação

da administração pública municipal

direta e indireta, com a inclusão do

campo para preenchimento do “nome

social”. Ele é o nome adotado por

travestis e transexuais em sua vida

cotidiana, diferente do nome no registro

de nascimento, por este não

refletir sua identidade de gênero.

O uso irrestrito do nome social

é determinante na garantia da

cidadania. “Essa é uma das principais

dificuldades da população

LGBTQI+, principalmente para

as mulheres trans. A ausência

do nome social dificulta o acesso

dessa população a serviços e direitos.

Elas se afastam com medo de

sofrer mais preconceito”, explica

Dayara. Segundo ela, é justamente

a população trans a que mais sofre

na questão da inserção ao mercado

de trabalho e muitas delas só

encontram na prostituição o único

meio de prover o seu sustento.

Outra ferramenta contra a

homofobia e que tem assegurado

proteção para mulheres transexuais

e transgêneras é a Lei

Maria da Penha (Lei 11.340, de

2006). O advogado Thiago Coacci

explica que, depois da retificação

do gênero nos documentos, não

há nenhuma disputa jurídica que

52

Revista Elas por Elas - março 2020


impeça a aplicação da lei. “Já retificou

juridicamente, é considerada

mulher e ponto. Então, aplica-se a

lei integralmente”.

No entanto, ele explica que existe

um debate jurídico sobre o uso da

mesma legislação para mulheres

trans que não fizeram a retificação.

Uma parte dos juízes acredita que

não é possível aplicar a Lei Maria

da Penha nesses casos e defendem

que por mais que a pessoa possa

ser identificada socialmente como

mulher, para o direito ela seria

homem. “Mas tem muitos juízes

que já estão aceitando a aplicação

[mesmo nos casos sem retificação].

O argumento forte nessa corrente é

que o gênero é autodeterminação.

Sendo autodeterminação, procedimentos

como a retificação no

cartório é uma possibilidade que

garantiria o respeito do gênero

pelo Estado, mas não seria o que

faz a pessoa mulher ou não”.

Inclusão social

Desde 2015, a ONG TransVest desenvolve

um projeto artístico-pedagógico

que objetiva o combate à transfobia

e à inclusão de travestis, transexuais

e transgêneros na sociedade. A ONG

oferta curso pré-vestibular; certificação

no nível de conclusão do ensino

fundamental e ensino médio por meio

do Exame Nacional para Certificação

de Competências de Jovens e Adultos

(Encceja); alfabetização e curso de

lutas para a defesa pessoal. Também

desenvolve trabalho de recolocação

no mercado de trabalho, promoção

de oficinas artísticas e encaminhamento

para área jurídica.

A co-fundadora e coordenadora da

TransVest, Carolina Salles de Araújo,

explica que cerca de 80% das mulheres

atendidas pela ONG não concluíram

o ensino fundamental. “A maioria

das alunas atendidas por nós hoje

está passando por um processo de

reabilitação social. Muitas não têm

onde morar, o que complica muito a

situação. São pessoas amabilíssimas,

interessantíssimas e que perderam

todas as oportunidades que tinham

na vida, no sentido de serem isoladas

pela sociedade”.

Ao longo de sua história, a TransVest

já atendeu mais de 100 mulheres.

Mesmo desenvolvendo um importante

trabalho, a ONG está sob a ameaça

de encerrar suas atividades por

falta de recursos. “Não temos nenhuma

ajuda governamental. Vivemos de

doações e temos um gasto mensal de

cerca de R$ 20 mil – que inclui passagem,

alimentação e ajudas de todos

os níveis. Temos alunas que precisam

de lugar para morar, algumas não

têm a mínima condição de sobrevivência

sem a ajuda da TransVest”.

Para Cristal, a ONG Transvest foi um

divisor de águas. “Cheguei na ONG

totalmente atordoada. Não conhecia

meus direitos. Através deles consegui

acompanhamento psicológico e

psiquiátrico e conclui o ensino médio.

A TransVest foi uma porta que se

abriu para mim e que mudou a minha

vida totalmente”.

As pessoas interessadas em realizar

doações e colaborar com os projetos

e oficinas da TransVest podem entrar

em contato através das páginas

oficiais da ONG no Instagram (@

ongtransvet) ou no Facebook (@

transvest). Também está no ar uma

campanha permanente de financiamento

através da plataforma Evoé

(evoe.cc/transvet).di

Revista Elas por Elas - março 2020

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Descascando

os abacaxis

da vida: a

resistência

LGBTQI+ no

carnaval

/ Paula Molina e Henrique Sander

Dos cerca de 400 blocos de carnaval

da capital mineira, o Alô Abacaxi

está entre os nove maiores. Com o

mote principal voltado para a diversidade

e a sexualidade de gênero, o

bloco nasceu da necessidade de se

descascar os abacaxis da vida. “Entendemos

que os abacaxis do gênero,

da sexualidade e do preconceito eram

os maiores que tínhamos para descascar.

Surgimos então com a proposta

de tocar Tropicália, que foi um

movimento artístico e cultural questionador,

descascando o abacaxi do

preconceito, para degustarmos do

abacaxi da diversidade”, explica o

produtor cultural e um dos idealizadores

do Alô Abacaxi, Bruno Perdigão.

O produtor cultural diz que levantar

a bandeira do respeito e da diversidade

também é questionar alguns

padrões sociais engessados. “Durante

o cortejo do bloco em 2018 fizemos

um casamento gay nas esquinas da

Igreja São Sebastião e do Fórum Lafayete

(no bairro Barro Preto). Foi um

momento de bastante orgulho para

nós e que, ao mesmo tempo, passou

uma mensagem para essas duas entidades

que não nos aceitam. Não é

no sentido de afrontar, mas de mostrar

àqueles dois espaços que não

somos aceitos ainda”.

Para o Alô Abacaxi, carnaval e ativismo

estão no mesmo compasso.

Como outros idealizadores do bloco

já vinham de um processo anterior

de luta pelos direitos da população

LGBTQI+, o Alô Abacaxi já nasceu

militante. Em 2018, eles participaram

de ações do “Vira Voto” na campanha

para a Presidência da República e do

ato do “#EleNão,” que levou milhões

de pessoas às ruas de todo o país.

“Tivemos a ideia de trazer essa história

de militância para o movimento

da festa também. Acreditamos que

reivindicar esses espaços que nos

são negados também é um momento

para festejarmos quem somos e

mostrar que temos os mesmos direitos

que qualquer outro cidadão”.

* LGBTQI+: é a sigla qe representa lésbicas, gays, bissexuais,

travestis, transsexuais, queer e outros grupos do

gênero e sexualidade. O termo foi aprovado no Brasil

em 2008 em uma conferência nacional para debater

os direitos humanos e políticas públicas para todos/as.

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Revista Elas por Elas - março 2020


Revista Elas por Elas - março 2020

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/ Carina Aparecida

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Revista Elas por Elas - março 2020


Educação

Corrida de obstáculos

na ciência

Pesquisadoras relatam as dificuldades com os

cortes no setor e falam sobre os desafios de

gênero no ambiente acadêmico

por Denilson Cajazeiro

No Instituto de Ciências Biológicas

da Universidade Federal de

Minas Gerais (UFMG), a professora

Glória Regina se desdobra cotidianamente

entre as atividades docente,

administrativa e de pesquisa no

laboratório de Genética e Bioquímica.

Seu mais recente estudo envolve

o tripanossoma cruzi, protozoário

causador da doença de Chagas,

cuja evolução no organismo

infectado pode levar à insuficiência

cardíaca. No momento, o que a

pesquisadora quer descobrir é como

agem no hospedeiro os diferentes

tipos de parasitas que circulam

nas áreas endêmicas do país. Para

isso, ela recorre a experimentos em

camundongos e a uma técnica de

sequenciamento do código genético

das cobaias infectadas.

“Existem muitas respostas diferentes

para cada tipo de organismo

infectado. Há pacientes que

passam anos sem apresentar qualquer

sintoma e, depois de décadas,

desenvolve alguma cardiopatia.

Outras pessoas são assintomáticas.

A gente quer entender essa diversidade

de genomas dos parasitas

e as respostas que eles causam no

hospedeiro, que somos nós. Então

a gente quer saber como o parasita

interage com o hospedeiro, como

o hospedeiro responde ao parasita,

e isso pode ser importante no futuro

para desenvolver um medicamento

que seja mais efetivo ou para

um diagnóstico precoce mais fácil”,

explica Glória Regina, que também

coordena o programa de pósgraduação

em Bioinformática da

universidade.

Na atualidade, o Ministério da

Saúde distribui um remédio para

a doença, chamado benznidazol,

que age na fase aguda, quando

o paciente é infectado e, logo

Revista Elas por Elas - março 2020

57


em seguida, começa a aumentar a

quantidade de protozoários na corrente

sanguínea. Com o tempo, caso

não seja tratada, a doença evolui

para um estado crônico, e o parasita

fica alojado nos tecidos, principalmente

no coração.

Ao lado da sala da pesquisadora,

sua colega de estudos, a professora

Andréa Macedo, trabalha na

parte de diagnóstico de transplantados

por conta de uma cardiopatia

chagásica, em parceria com profissionais

do Hospital das Clínicas da

UFMG. Em uma das linhas de pesquisa,

ela procura entender como

funciona o organismo dessas pessoas,

para prever uma possível reativação

da doença. O que se sabe

é que, em alguns casos, o tripanossoma

pode estar alojado em outros

órgãos do corpo e voltar a aparecer

no coração transplantado. “É um

estudo muito relevante também”,

aponta Glória Regina (foto).

As duas pesquisas conduzidas

pelas professoras da universidade

são de extrema importância para

a sociedade, pois estima-se que

entre um e quatro milhões de pessoas

sejam portadoras da doença

de Chagas no país, e a Organização

Mundial de Saúde (OMS) calcula

que cerca de 25 milhões de brasileiros

vivam em áreas consideradas

de risco. No entanto, muitos

desses estudos, gerados após longo

tempo de dedicação, correm o sério

risco de serem fortemente afetados

na atual conjuntura. Os cortes

de bolsas de pós-graduação e

a redução no orçamento da Ciência

e Tecnologia, anunciados pelo

governo Bolsonaro, preocupam a

/ Carina Aparecida

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Revista Elas por Elas - março 2020


comunidade científica, que receia

ver anos de esforços evaporarem-

-se, com resultados prejudiciais para

a população.

“A ciência está sofrendo um apagão.

Se a gente bloqueia o financiamento

da pesquisa agora, não é

daqui a um, dois anos, que a gente

vai sentir os resultados. É daqui

a cinco, dez anos que a gente vai

ter uma queda drástica na produção

científica, e vamos nos tornar

menos competitivos. Estamos indo

na contramão do mundo, que investe

mais em ciência, em geração

de patentes”, critica a pesquisadora

da UFMG. Para se ter uma ideia

do tamanho da crise, só na equipe

dela, os recentes cortes foram responsáveis

por reduzir de 15 para

8 o número de pesquisadores, entre

estudantes de iniciação científica

e pós-doutorandos. “Então o

que está acontecendo: eu reduzo o

número de alunos, diminuo a minha

pesquisa e consequentemente

a minha produtividade, e a gente

gera menos conhecimento que futuramente

poderia resultar em benefícios

para a sociedade”, afirma

a pesquisadora.

Em setembro de 2019, a Capes

anunciou o corte de milhares de

bolsas, que deixaram de ser renovadas.

O órgão e o CNPq são as duas

principais agências de incentivo

à pesquisa no país, e ambas têm

sofrido com restrições orçamentárias.

Vale lembrar que, em abril

do ano passado, a Sociedade Brasileira

para o Progresso da Ciência

(SBPC) e outras entidades divulgaram

uma nota por meio da qual ressaltavam

que a redução de 42,27%

nas despesas de investimento do

Ministério da Ciência e Tecnologia

atingiam a soberania e o desenvolvimento

do Brasil.

“A gente tinha que aumentar o

investimento em ciência, e não reduzir.

Por que a China hoje é potência

mundial? Porque investiu

em conhecimento, em pesquisa

básica”, afirma Glória Regina. Ela

teme precisar paralisar ou diminuir

ainda mais o ritmo dos estudos

sobre o tripanossoma, já que,

até o momento, o CNPq não lançou

nenhum edital universal, que

recebe esse nome porque é destinado

para pesquisadores de qualquer

área. “Então a gente não tem

nem como pedir financiamento para

nossa pesquisa. Precisamos das

verbas dessas agências e das bolsas

de pós-graduação, e as duas estão

comprometidas”.

A gente tinha

que aumentar o

investimento em

ciência, e não

reduzir. Por que

a China hoje é

potência mundial?

Porque investiu em

conhecimento, em

pesquisa básica”

Flávia Calé, mestranda em História

Econômica pela Universidade

de São Paulo (USP) e presidenta

da Associação Nacional de Pós-

-Graduandos (ANPG), acredita que

essa política de desinvestimento

no setor faz parte de um projeto

maior, de inserção subalterna do

país no cenário internacional. Segundo

ela, é um projeto que não está

sendo dito, mas implementado.

“Trata-se de uma nova colonização

do Brasil nesse cenário global, em

que o desenvolvimento tecnológico

é fundamental”, afirma a presidenta

da entidade, ao mencionar a

competição entre China e Estados

Unidos pelo domínio do 5G, a quinta

geração de internet móvel, que

promete impactar as próximas inovações.

“Quando a gente ouve falar

em guerra comercial, a gente está

falando na verdade é de disputas

em torno de um padrão tecnológico

que vai reger o mundo, que

vai subsidiar o padrão de acumulação.

Então, quando o Brasil perde

capacidade na ciência, ele perde

capacidade de inserção autônoma

e passa a ser dependente tecnologicamente.

Isso é muito grave”, opina

a pesquisadora.

Além dos cortes no setor, Flávia

Calé demonstra preocupação com

a restrição dos investimentos e a diminuição

de bolsas em áreas malvistas

pelo atual governo, como o

campo das Ciências Humanas e os

estudos de gênero. Em dezembro

do ano passado, o caso da professora

Débora Diniz, da Universidade

de Brasília (UNB), ganhou projeção.

Ameaçada por grupos de extrema-direita

em função de sua

Revista Elas por Elas - março 2020

59


Todas as

pesquisadoras

que conheço estão

preocupadas em

relação ao futuro, com

a possibilidade de

perderem pesquisas

em andamento ou de

não conseguirem mais

iniciar novas”

/ Istock Photos

defesa pela descriminalização do

aborto, a antropóloga teve de deixar

o país e foi incluída no programa

de proteção aos Direitos Humanos

do governo federal. “Chegaram

ao ponto de cogitar um massacre

na universidade caso eu continuasse

dando aulas. A estratégia desse

terror é a covardia da dúvida. Não

sabemos se são apenas bravateiros.

Há o risco do efeito de contágio, de

alguém de fora do circuito concretizar

a ameaça, já que os agressores

incitam violência e ódio contra

mim a todo o momento”, disse a antropóloga

à época, em entrevista ao

jornal El País. Para a presidenta da

ANPG, o episódio ilustra bem como

as questões de gênero que atravessam

a sociedade têm reverberado

na academia. “Isso é uma questão

muito grave, que retrata o contexto

em que vivemos atualmente e de

como a opressão de gênero é uma

questão muito candente, muito real,

e se expressa hoje de forma muito

violenta. Isso tem se refletido no

país e na academia, como uma perseguição

ao campo de conhecimento

também”, avalia Flávia Calé.

Para a professora Karla Torres,

coordenadora do Núcleo de Estudos

sobre Gênero e Diversidade do

Centro Federal de Educação Tecnológica

de Minas Gerais (CEFET/

MG), o quadro atual é o mais grave

que já enfrentou em sua trajetória

acadêmica e profissional. Graduada

em Ciência da Computação

pela Universidade Federal de Viçosa

(UFV), ela fez mestrado em Física

com ênfase em Astronomia,

na Universidade Estadual Paulista

(Unesp), e doutorado em Engenharia

e Tecnologia Espaciais, pelo

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais,

o conhecido Inpe – instituição

que foi alvo recente de ataques

do presidente Bolsonaro, por ter

divulgado estudos que comprovaram

o aumento do desmatamento

na Amazônia.

“Apesar de ter vivido situações

de maior ou menor incentivo à pesquisa

por parte do governo, cortes

de gastos e restrições econômicas,

em geral essas eram situações pontuais,

e nãos sistêmicas, como são

hoje. O cenário que vejo atualmente

é de ataques constantes ao desenvolvimento

científico e educacional.

Pessoas que dependem de

bolsas para entrar na faculdade

ou na pós-graduação vão deixar de

fazê-lo, e essas potencialidades podem

ser perdidas. Todas as pesquisadoras

que conheço estão preocupadas

em relação ao futuro, com

a possibilidade de perderem pesquisas

em andamento ou de não

conseguirem mais iniciar novas”,

relata Karla Torres, para quem a

60

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Gibran Mendes

O estrangulamento

orçamentário imposto

às instituições

públicas de ensino

superior e de

fomento à pesquisa

parece integrar uma

estratégia política que

afronta as instituições

e nega o valor da

ciência”

situação das mulheres na ciência

tende a piorar. “Todo incentivo

que começava a brotar no país nos

últimos anos, em forma de ações e

políticas públicas, poderá desaparecer

sob a justificativa de ‘cortes

de gastos’. Como Simone de Beauvoir

disse, ‘basta uma crise política,

econômica e religiosa para que os

direitos das mulheres sejam questionados’”,

critica.

Além do apagão na ciência, os

laboratórios correm o risco de ficar

literalmente no escuro. Reitores de

diversas universidades federais já

anunciaram que, caso a política de

cortes prevaleça, faltarão em breve

recursos para o custeio de serviços

básicos, como segurança, luz, gás,

água, conservação e limpeza. Na

UFMG, o Conselho Universitário e

o de Ensino, Pesquisa e Extensão

divulgaram uma moção, no final

de setembro do ano passado, com

a finalidade de chamar a atenção

da sociedade para o assunto. No

texto, a comunidade acadêmica

expressa “profunda preocupação”

com o orçamento de 2020.

“O estrangulamento orçamentário

imposto às instituições públicas

de ensino superior e de fomento

à pesquisa parece integrar uma

estratégia política que afronta

as instituições e nega o valor da

ciência. Os retrocessos decorrentes

dessas ações equivocadas e

sem justificativas, que vêm sendo

sistematicamente adotadas, são e

serão descomunais, representando

não apenas um grave prejuízo

à ciência brasileira, mas também

um forte impacto na formação de

professores e profissionais, comprometendo

o futuro da educação

brasileira”, diz o texto da moção,

assinado pela reitora da universidade,

Sandra Regina Almeida.

Em meio a esse caos que se desenha

no horizonte, Flávia Calé lembra

que o financiamento da ciência

em qualquer país vai além da destinação

de bolsas de estudo a pós-

-graduandos e verbas para núcleos

de pesquisa. É preciso garantir

um ambiente acadêmico saudável,

avalia a estudante, com infraestrutura

física e de material adequada.

“Precisamos de um espaço universitário

sadio, que acolha pesquisadores

do Brasil e de fora do país.

Então esse é um drama que a gente

vive”, afirma a mestranda.

Infelizmente, o governo Bolsonaro

não tem dado sinais de que

pretende ceder quanto à necessidade

de garantir mais investimentos

para financiar a pesquisa no país.

Embora tenha remanejado parte

dos recursos contingenciados, o

volume está longe de ser suficiente

para que a ciência possa abandonar

Revista Elas por Elas - março 2020

61


o atual cenário de restrições, fato

que preocupa as pesquisadoras

Brasil afora. “Não vejo perspectivas

em um futuro próximo para

a ciência e a educação no país, a

menos que haja uma mudança

significativa nos rumos que estão

sendo tomados pela gestão política

nacional. Ciência gera conhecimento,

inovação, tecnologia, produtos,

uma melhor educação, transforma

uma sociedade, gerando empregos

e mais saúde à população, gerando

crescimento da nação. Nenhum

país desenvolvido negligencia o

incentivo à pesquisa científica no

mundo. Isso porque um dos maiores

propósitos da ciência é justamente

buscar solucionar problemas que

afetam a sociedade, melhorando

assim a qualidade de vida de todas

as pessoas. Sem ciência, não há

solução”, afirma Karla Torres.

/ Carina Aparecida

Ciência patriarcal

Além das dificuldades da conjuntura

atual, as cientistas brasileiras

têm de enfrentar no dia a

dia outro problema, porém de ordem

estrutural: os desafios de gênero,

que transformam o percurso

delas na ciência em uma corrida

de obstáculos. Flávia Calé que o

diga. Mãe de Aurora, de quatro meses,

ela pôde constatar a dificuldade

que milhares de pesquisadoras

enfrentam ao conciliarem as jornadas

da maternidade e da academia.

“Eu diria que a ciência, assim

como todos os ambientes da sociedade,

não estão adaptados à participação

feminina. Esse período do

pré-parto, do nascimento e do bebê

demanda muita atenção, então

62

Revista Elas por Elas - março 2020


você acaba tendo uma defasagem

na produção acadêmica, que precisa

ser contabilizada, para que essas

mulheres não sejam preteridas

em seleções de docentes”, aponta a

estudante de mestrado.

De olho nessa questão, a Universidade

Federal Fluminense (UFF)

aprovou, em fevereiro de 2019,

uma medida pioneira no país: as

docentes que estiveram em licença-maternidade

nos últimos dois

anos ganharam um bônus de cinco

pontos na avaliação do currículo,

para concorrerem em um edital

interno de bolsas de iniciação científica.

A medida, adotada após consulta

a professoras que se sentiram

prejudicadas em editais anteriores,

era uma antiga demanda do grupo

de trabalho da universidade Mulheres

na Ciência, coordenado pela

pesquisadora Letícia Oliveira. Segundo

ela, há estudos que apontam

que a maternidade promove uma

queda na produtividade das cientistas

por, no mínimo, quatro anos.

“É um critério interessante, porque

é uma forma de você manter um

equilíbrio”, defende Flávia Calé.

Como esse mesmo objetivo, foi

sancionada no final de 2017 a lei

13.536. De autoria da deputada federal

Alice Portugal (PCdoB/BA), a

legislação garantiu às pós-graduandas

o direito de suspender as atividades

acadêmicas por até 120 dias,

no caso de maternidade ou adoção,

porém mantendo o auxílio da bolsa

de estudos. Recentemente, esse

debate sobre maternidade e trabalho

científico ganhou mais um capítulo.

Em agosto de 2019, o Observatório

Cajuína, grupo que reúne

pesquisadoras da área da Psicologia,

publicou uma carta aberta à comunidade

científica, por meio da

qual abordam a questão da participação

de mães em congressos. No

documento, elas reivindicam algumas

estruturas básicas para garantir

a presença delas nesses eventos,

como a aceitação de bebês e crianças

em sala de aula, a garantia de

livre amamentação em todos os locais,

e a criação de um espaço kids,

com monitores.

“Existem mães solo, existem

mães sem rede de apoio, existem

crianças que não conseguem ficar

com outras pessoas por muito

tempo pelos mais variados motivos.

Portanto, excluir crianças significa

excluir mulheres! Então,

do que precisamos para nos sentirmos

incluídas nos congressos da

área? A ação mais simples que um

Existem mães solo,

existem mães sem

rede de apoio, existem

crianças que não

conseguem ficar com

outras pessoas por

muito tempo pelos

mais variados motivos.

Portanto, excluir

crianças significa

excluir mulheres”

evento pode realizar é divulgar que

as crianças serão bem recebidas e

garantir que todo o suporte moral

será dado, protegendo institucionalmente

essas mulheres dos

olhares e ações, tão reforçadas

na nossa cultura, de exclusão. Por

exemplo, que seus monitores, palestrantes

e participantes estejam avisados

que crianças poderão estar

presentes e isso não será um problema.

Uma vez que isso aconteça,

precisamos também de tolerância

à imprevisibilidade que a presença

de uma criança gera. Precisamos

de tolerância para acolher

bebês que choram, para sairmos no

meio de uma palestra e podermos

voltar quando a criança se acalmar.

Precisamos de tolerância e acolhimento,

e não de mais julgamentos”,

diz o texto do manifesto, elaborado

após uma das integrantes do grupo,

a psicóloga Tauane Paula Genm,

ter a presença do seu pequeno

Emanuel recusada em um evento

de temática feminista.

Na avaliação da professora Karla

Torres, os desafios das mulheres

na ciência precisam ser enfrentados

desde a infância, por toda a sociedade.

“Precisamos começar a

eliminar preconceitos de gênero

desde a base. Na ciência não é diferente.

Deixemos nossas meninas

e mulheres serem curiosas, investigarem,

proporem soluções, errarem

sem serem julgadas por seu gênero,

e busquemos dar voz às suas

ideias. Precisamos, enquanto sociedade,

parar de tentar desmotivá-

-las a fazer qualquer coisa que não

seja ligada ao cuidado doméstico”,

afirma a pesquisadora.

Revista Elas por Elas - março 2020

63


Entrevista

“A sociedade científica tem uma

dívida histórica com as mulheres”

Embora as mulheres sejam maioria

na área da educação, levantamentos

apontam que a participação delas

diminui quando se trata de postos

mais altos na carreira acadêmica.

Na prática, elas ainda ocupam

poucos lugares no topo da carreira

e em posições de destaque na ciência.

A Academia Brasileira de Ciências,

por exemplo, expressa bem essa

desigualdade. Do total de membros

titulares da instituição, 477 são

homens, e apenas 86, mulheres –

menos de 20%. De acordo com a Organização

das Nações Unidas para a

Educação, Ciência e Cultura (Unesco),

menos de 30% dos investigadores

no mundo são mulheres.

“Apesar de muitas vezes não haver

nenhum tipo de obstáculo visível

ou declarado, uma mulher

vai sentir maiores resistências para

conseguir ocupar cargos de liderança

e de destaque em função

de preconceitos conscientes ou inconscientes

de gênero”, revela a

professora Karla Torres, coordenadora

do Núcleo de Estudos sobre

Gênero e Diversidade do Centro

Federal de Educação Tecnológica

de Minas Gerais (CEFET/MG), em

entrevista à revista Elas por Elas.

Confira abaixo.

As mulheres enfrentam mais desafios

na ciência em função do

preconceito de gênero?

Sim, as mulheres enfrentam mais

desafios na ciência em função de

seu gênero. Existem dois tipos

principais de desafios que elas enfrentam

nas áreas acadêmica e

profissional, inclusive na ciência.

Um deles se refere às dificuldades

que sofrem para entrar e permanecer

em áreas conhecidas como

“masculinas”, como a da Engenharia

e a da Tecnologia da Informação.

Preconceitos formados

e reforçados na sociedade desde a

infância vão afastando as mulheres

dessas áreas, fazendo-as acreditarem

que não são capazes de se

identificarem ou de serem bem-sucedidas

nelas. Esse tipo de dificuldade

horizontal é conhecido na literatura

como “labirinto de cristal”,

por se tratar de barreiras invisíveis

que as mulheres enfrentam

para fazer o que realmente querem.

Outro tipo de desafio é aquele

relativo ao crescimento profissional

de uma mulher dentro de uma

determinada área. Apesar de muitas

vezes não haver nenhum tipo

de obstáculo visível ou declarado,

/ Tânia Rêgo/Agência Brasil

64

Revista Elas por Elas - março 2020


uma mulher vai sentir maiores resistências

para conseguir ocupar

cargos de liderança e de destaque,

em função de preconceitos conscientes

ou inconscientes de gênero.

Esse tipo de dificuldade vertical é

conhecido na literatura como “teto

de vidro”. Ambos são obstáculos invisíveis,

porém reais, que uma mulher

vai ter de lidar ao longo de sua

vida acadêmica e profissional, inclusive

na ciência, principalmente

se escolher áreas predominantemente

masculinizadas.

Você diria que a ciência é um ambiente

patriarcal?

Sim, com certeza. O ambiente científico

é historicamente dominado por

homens e, ao longo da história, muitas

mulheres foram banidas desse

espaço ou o ocuparam de forma fragilizada.

Somente no último século

é que começamos a ter presença significativa

nas universidades, e hoje

já somos maioria nos cursos de graduação.

No entanto, isso não quer

dizer que já estamos em situação de

igualdade: a presença feminina pode

não atingir 20% em cursos de algumas

áreas, como os de Tecnologia

da Informação, por exemplo. No

mercado de trabalho isso também

não se reflete: apesar de serem mais

qualificadas, mulheres ainda são a

maior parte das pessoas desempregadas.

Quando se analisa cargos de

chefia, percebe-se que quanto mais

alto o cargo menor o percentual de

ocupação feminina.

Dentro do meio científico, mulheres

ainda hoje têm dificuldade

de ter seus trabalhos reconhecidos

e, ao longo da história, muitas

ainda tiveram seus resultados roubados

por colegas, que acabaram ficando

com todo o mérito das pesquisas

para si, fenômeno conhecido

como “efeito Matilda”. A sociedade

científica tem uma dívida histórica

com as mulheres: não só pela falta

de incentivo, mas também por muitas

vezes ativamente impedi-las de

ter sucesso em suas carreiras. Para

verificar isso, basta olhar a história

do prêmio Nobel, em que prêmios

foram erroneamente atribuídos a

homens, e há uma quantidade mínima

de mulheres premiadas, mesmo

em áreas em que hoje elas são maioria.

O assédio é outra das dificuldades

que estamos sujeitas a enfrentar

no meio científico. Praticamente

toda mulher cientista tem uma história

para contar de quando iniciava

na carreira e foi assediada por algum

superior. Nós, mulheres, precisamos

mais e mais ocupar esse espaço

da ciência. Não só ocupá-lo em

números, mas ocupá-lo também em

O ambiente científico

é historicamente

dominado por homens

e, ao longo da história,

muitas mulheres

foram banidas desse

espaço ou o ocuparam

de forma fragilizada”

força e sororidade: precisamos resistir,

persistir e ocupar espaços de

liderança, contribuindo para que o

acesso de outras mulheres seja mais

justo e igualitário.

Você já enfrentou alguma discriminação

de gênero no ambiente

da ciência?

Sim, várias vezes. Muitas das situações

passaram desapercebidas no

momento em que ocorreram, porque

nem sempre eu tive a consciência e

a força que tenho hoje para identificar

e me defender do preconceito

de gênero. Mesmo assim consigo

me lembrar de algumas situações.

Por exemplo, como em uma apresentação

do doutorado no exterior

em que, de todos os palestrantes (a

maioria estudantes), eu fui a única

a ser ferozmente sabatinada por

alguns pesquisadores presentes.

Eu era a única mulher apresentando

naquele momento. Ou mesmo

antes, quando sofri assédio de um

professor de uma das instituições

mais renomadas do Brasil, a quem

fui procurar para ser um possível

orientador de doutorado. Esse não

foi um evento isolado e teve consequências

drásticas na minha história

profissional: esse professor me

perseguiu durante anos, fazendo

com que eu até decidisse abandonar

o trabalho científico na Astronomia

por um longo período, por medo de

que a sua influência na área pudesse

me prejudicar. Só depois de me fortalecer

o suficiente e ter a certeza de

que ele não poderia mais me causar

danos profissionais, é que consegui

voltar a fazer pesquisa científica na

área em que escolhi.

Revista Elas por Elas - março 2020

65


Sua atuação em áreas majoritariamente

masculinas representou

um desafio maior para você?

Entrei na graduação em Ciência da

Computação e fui a única mulher

em uma turma de 30 pessoas. Esse

fato, por si só, já era um tanto desestimulador.

O tratamento em relação

às alunas do curso era diferenciado,

tanto vindo dos colegas, quanto

dos professores, que aliás eram todos

homens. Não sentia identificação

com as pessoas do curso, não me

sentia representada pelos professores.

Percebi desde o início que tinha

que me sobressair para ser minimamente

respeitada, e me mantive entre

os três melhores estudantes da

turma. Mas isso não foi o suficiente

para evitar piadinhas machistas,

atitudes condescendentes ou inferiorizadoras,

tanto de colegas quanto

de professores. Já houve situações

em que, mesmo sabendo que

eu era a melhor candidata, perdi

oportunidades de bolsas de iniciação

científica ou estágio para outros

colegas, escolhidos tão somente por

serem homens. Até hoje, essas questões

são pungentes. Quando me reúno

com profissionais da área de

computação, frequentemente sou a

única mulher e tenho dificuldades

de me identificar e de me relacionar

com os colegas da área.

Quais caminhos devem ser percorridos

pela sociedade para que

tenhamos uma maior participação

das mulheres na ciência, inclusive

em áreas majoritariamente

ocupadas pelos homens?

Acredito que o que precisamos é

de uma sociedade feminista, em

que mulheres tenham realmente

as mesmas oportunidades que

homens de escolherem e serem

bem-sucedidas em suas carreiras.

Precisamos começar a eliminar

preconceitos de gênero desde a

base, ou seja, desde a infância. O

primeiro passo seria acabar com

a distinção de brinquedos que estimulam

a criatividade, a inventividade

e a ação para os meninos,

e brinquedos que estimulam o

cuidado de crianças e da casa para

as meninas. Deixemos nossas

crianças brincarem com o que desejarem,

para que possam desenvolver

tanto o seu potencial produtivo,

acadêmico e profissional,

quanto o seu potencial para a empatia

e o cuidado com outros seres

humanos, independentemente do

gênero. Precisamos parar de tentar

restringir as pessoas em caixas de

comportamentos e atividades esperadas

segundo seu gênero, permitindo

que sejam felizes fazendo

aquilo que mais se identificam e

podem contribuir socialmente. Na

ciência não é diferente. Deixemos

nossas meninas e mulheres serem

curiosas, investigarem, proporem

soluções, errarem sem serem julgadas

por seu gênero, e busquemos

dar voz às suas ideias. Mulheres já

mostram todos os dias que podem

fazer tudo o que quiserem. Precisamos,

enquanto sociedade, parar de

tentar desmotivá-las a fazer qualquer

coisa que não seja ligada ao

cuidado doméstico.

/ Istock Photos

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Revista Elas por Elas - março 2020


Revista Elas por Elas - março 2020

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/ Istock Photo

68

Revista Elas por Elas - março 2020


Educação

O debate de gênero nas

escolas e o papel

emancipador da educação

Setores conservadores da sociedade tentam impor propostas que negam

a diversidade do povo brasileiro. Quando esse problema atinge a escola,

fica ainda mais grave, pois tira dela o importante papel de ajudar a formar

cidadãos livres, críticos e conscientes de seus direitos e deveres.

por Mariana Viel

As experiências vivenciadas

pela jovem Daniela Moura, na Escola

Estadual Laice Aguiar, bairro

Novo Glória, em Belo Horizonte,

despertaram na estudante um forte

sentimento de mudança em relação

ao tradicional modelo de educação.

Segundo Daniela, que atualmente

ocupa o cargo de presidenta

da União Colegial de Minas Gerais

(UCMG), a estrutura reduzida e

a falta de preparo do corpo docente

da instituição para tratar questões

como sexualidade e gênero geravam

uma série de problemas.

“Nós víamos os alunos sofrendo

homofobia, racismo e outras formas

de assédio. Eu percebia que

aquele era um espaço muito fechado

para mim. Por mais que tentássemos

chamar o debate, a escola

nunca estava aberta”, diz. Ela lembra

o caso de uma aluna que sofreu

um episódio de homofobia e que a

posição da escola foi simplesmente

indicar que a mãe dessa aluna

procurasse a orientação de um psicólogo.

“Era visível que esse modelo

de ensino estava errado. A gente

percebia que esse era um problema

estrutural, porque tanto os professores

como os pedagogos não haviam

sido orientados e treinados

para tratar desses temas”.

Quando foi transferida para a

Escola Estadual Governador Milton

Campos, mais conhecida como

Estadual Central, e eleita presidenta

do grêmio estudantil, Daniela

começou a desenvolver uma série

de ações junto aos alunos, professores

e funcionários. “Durante minha

gestão, criamos um grupo para

debater as questões de gênero. Nessas

rodas de conversas, fazíamos

Revista Elas por Elas - março 2020

69


desabafos e experiências sociais

para tentarmos nos colocar no lugar

uns dos outros. Havia denúncias

de assédio de alunos, professores

e violência doméstica. Começamos

a pensar: ‘por que a escola

não pode ajudar?’; ‘por que as escolas

públicas não possuem profissionais

para auxiliar nessas questões?’,

questiona a estudante.

Daniela (foto) explica que o

movimento estudantil tem tratado

com prioridade o debate de gênero

nas escolas. “Quando reunimos

os estudantes, temos a oportunidade

de debater essas questões para

fazer uma sociedade mais justa e

desconstruir preconceitos. Muito

se fala que a escola prepara os jovens

para ser cidadãos, mas muitas

vezes não temos a mínima ideia do

que se passa dentro da casa desses

alunos e como isso pode influenciar

seu desenvolvimento em sala

de aula. Tivemos casos de pais que

agrediam os filhos por serem homossexuais,

mães que sofriam violência

doméstica na frente dos filhos,

e alunos que sofriam racismo

de professores”, afirma.

Em todo o Brasil, pesquisadores,

professores, alunos e representantes

do movimento social e estudantil

unem força em torno da defesa

do debate de gênero nas instituições

públicas e privadas de ensino.

O principal desafio é romper

as distorções do direito à igualdade

e desmentir a falaciosa campanha

capitaneada por setores ultraconservadores,

que utilizam o termo

“ideologia de gênero” como uma

suposta “ameaça” aos valores tradicionais

da família.

Nos debates transcorridos desde

2014 em torno do Plano Nacional de

Educação, e subsequentemente em

torno dos Planos Municipais e Estaduais

de Educação, o termo “ideologia

de gênero” foi utilizado por

quem defende posições tradicionais,

reacionárias e até fundamentalistas

em relação aos papéis de

gênero do homem e da mulher. Os

resultados foram a propagação de

uma espécie de pânico social com

consequências práticas às questões

relacionadas aos chamados novos

direitos humanos, por exemplo,

no uso do nome social, no direito à

identidade e igualdade de gênero e

na livre orientação sexual.

A pesquisadora e doutora em Ciência

Política pela Universidade Federal

de Minas Gerais (UFMG) Ana

Carolina Ogando explica que o termo

“ideologia de gênero” foi cunhado

por setores conservadores, na

/ Mariana Viel

70

Revista Elas por Elas - março 2020


década de 1990, após a 4ª Conferência

Mundial “Mulher: Igualdade,

Desenvolvimento e Paz”, iniciativa

da Organização das Nações Unidas

(ONU), em Pequim, China.

“Principalmente na América

Latina, o termo ‘ideologia de gênero’

tem sido usado por lideranças

religiosas e políticas para deturpar

e frear qualquer possibilidade

de avanço do campo identitário.

Ele está ancorado em um papel

estereotipado de família, que

reforça o papel do patriarcado, e

não nos permite pensar, por exemplo,

nas diversas formas de violências

com as quais as crianças convivem

e suas origens”, explica a

pesquisadora.

“Existe muita desinformação

quando o assunto é o debate de gênero

nas escolas. Há um ataque

protagonizado pela bancada conservadora

no Congresso Nacional,

que insiste falar em “ideologia de

gênero” – o que não existe. O que

eles não falam é que nós estamos

debatendo igualdade e cidadania.

A escola é um espaço de aprendizagem,

mas também é um espaço plural

de convivência e de debate sobre

direitos”, completa a líder estudantil

Daniela.

As propostas que buscam a garantia

da igualdade nas escolas vão

muito além das paredes das salas de

aulas. Ao mesmo tempo em que elas

possibilitam que meninos e meninas

possam, igualmente, aprender

o que está previsto no currículo escolar,

também são fundamentais

no processo de aquisição de competências

socioemocionais fundamentais

para o convívio social.

“Não trazer certos debates para

o meio escolar nega a possibilidade

do diálogo e do desenvolvimento

de um pensamento crítico. A discussão

de assuntos como questões

de poder, direitos e dignidade possibilita

a capacidade crítica de analisar

e entender as relações de poder

na sociedade e não simplesmente

aceitá-las de forma rasa. Esses

diálogos quebram alguns padrões

criados e reproduzidos”, enfatiza

a cientista política.

Segundo Ana Carolina, também

é importante que essas desigualdades

enfrentadas na sociedade hoje

sejam discutidas, para que todos

possam compreendê-las e pensar

em meios para combatê-las fora do

ambiente escolar. “Temos perdido

a oportunidade de ouvir e respeitar

outras histórias e experiências.

A empatia nos ajuda a pensar o nosso

papel na sociedade e na coletividade;

nos ajuda a compreender o

lugar que ocupamos e as estruturas

que nos colocam nesses lugares”.

Não trazer certos

debates para o

meio escolar nega

a possibilidade

do diálogo e do

desenvolvimento

de um pensamento

crítico”

Uma escola para

todas as diferenças

Em Belo Horizonte, quando deram

início às discussões do Instituto

Casa Viva, em 2015, os educadores

pensaram no respeito às diferenças

como pedra fundamental. O professor

de filosofia e associado do colégio,

Christian Bravo, explica que o

compromisso da Casa Viva com a diferença

a caracteriza como um projeto

que se esforça e se desdobra ao

máximo para que as convivências

sejam múltiplas. “Entendemos que a

escola tem que estar aberta ao múltiplo.

Pensamos na diferença como

tudo aquilo que é posto. Entendemos

que a diferença é um valor. Não

se trata de ter espaço para meninos

ou meninas trans, não-binários ou

com Síndrome de Down, por exemplo.

Se trata de entender que toda a

diferença é potente. Quando pensamos

em um grupo de sala de aula,

vemos que um grupo homogêneo

tem pouco a contribuir para o seu

próprio crescimento. Enxergamos

que a escola tem que criar um ambiente

propício ao encontro”.

Entre as inúmeras experiências

de inclusão e respeito à diversidade

vivenciadas pela Casa Viva, desde

a sua fundação, estão o acompanhamento

de alguns processos de

transição de gênero de alguns alunos.

Em 2017, a direção foi procurada

por uma aluna que havia passado

pelo processo de mudança de

gênero e que solicitou que a instituição

passasse a identificá-la pelo

seu nome social. O pedido da aluna

foi levado para a assembleia e debatido

coletivamente pela comunidade

escolar.

Revista Elas por Elas - março 2020

71


/ Mídia Ninja

O discurso da

intolerância e

do ódio encobre

uma busca por

poder”

“As assembleias na Casa Viva

são lugares onde aquilo que cada

sujeito entende como sendo de

domínio público é posto. Essa aluna,

então, colocou o nome que ela

gostaria de ser chamada. E foi uma

experiência muito marcante. Esses

dispositivos de fala e de poder são

muito importantes. Uma coisa é o

coordenador falar que uma aluna

quer ser tratada pelo nome x. Outra

coisa é essa pessoa se colocar

diante de todos e dizer isso. Para

isso acontecer, é preciso criar um

ambiente amigável e propício a isso.

O lugar da escola nesse momento

foi apoiar e fazer valer a palavra e

isso é uma instituição democrática”,

afirma Christian Bravo.

“Somos muito austeros quanto

ao respeito. Já vivenciamos um

caso de um aluno que estava fazendo

piadas com outro por causa da

orientação sexual. Essas situações

são coletivizadas e explicamos que

se esse tipo de comportamento continuar,

não será aceito nesta comunidade.

Quando uma fala fere a

existência do outro, ela deixa de ser

benquista em um ambiente democrático

e passa ser uma fala opressiva

que não é bem-vinda”, afirma.

O educador alerta que todo o

projeto desenvolvido pela Casa Viva

faz parte de uma construção constante

e atenta. “Não se trata apenas

de nós falarmos que isso ou aquilo

precisa ser aceito e respeitado. Não

existe um programa pronto que

será aplicado em uma escola e irá

acabar com todos os tipos de preconceito.

Ou desenvolvemos dispositivos

constantes ou um programa

isolado não vai dar conta”, afirma.

Mães pela Diversidade

A coordenadora estadual da ONG

Mães Pela Diversidade, Miryan Salun,

afirma que o discurso da intolerância

e do ódio encobre uma busca

por poder. Para ela, a situação atual

caminha para o regresso à Idade

Média. “Se pensarmos que o Brasil

ocupa o quinto lugar em feminicídio

e o primeiro lugar em mortes de

pessoas LGBTQI+ do planeta, vemos

que passamos por um enorme problema

social no Brasil. A única maneira

que temos para reverter essa

situação é justamente através do

debate de gênero e diversidade nas

escolas. Temos que ter esse olhar e

esse foco na educação, porque é ela

que transforma as pessoas”.

O Mães pela Diversidade é um

grupo de familiares de pessoas

LGBTQI+ que se uniram para enfrentar

a discriminação com base

em orientação sexual, identidade

de gênero e condição sexual. Presente

em quase todos os estados

do país, oferece apoio e informação

para os pais e mães de lésbicas,

gays, bissexuais, pessoas trans, travestis

e intersexo.

72

Revista Elas por Elas - março 2020


Não existe escola

sem partido. Tem

partido sim, e é dos

fundamentalistas”

/ Leandro Taques

“O surgimento do Mães foi uma

surpresa para os fundamentalistas

e conservadores. Eles não achavam

que nós íamos nos posicionar diante

da sociedade, pensavam que iríamos

ficar dentro do armário. Se surpreenderam

com a força da família

que, em todos os discursos deles, era

invisibilizada. Vários segmentos da

sociedade começaram a nos procurar.

Surgiu uma curiosidade natural.

Quem são essas pessoas, essas

mães, que estão gritando aí ‘nosso

filho não é doente não’, ‘nosso filho

existe’, ‘eles trabalham’, ‘pagam

impostos’. Hoje somos convidadas

para falar de gênero e sexualidade

em vários espaços. Em todos esses

lugares, somos abordadas por pessoas

que têm familiares ou que são,

elas mesmas, LGBTQI+. Vemos que

também estamos fazendo um trabalho

social. Estamos ajudando muitas

pessoas não só a discutir e entender,

mas também a se entender”.

Câmara de Belo Horizonte

debate Escola Sem Partido

Após duas semanas de debates

acirrados e muitos protestos, a Câmara

Municipal de Belo Horizonte

aprovou, em primeiro turno, no dia

14 de outubro, o Projeto da Escola

Sem Partido (PL 274/17), que proíbe

as escolas de tratarem temas relacionados

à orientação sexual dos

alunos, além de determinarem que

os professores não poderão promover

concepções religiosas, morais,

políticas, partidárias e ideológicas

em sala de aula. Foram 25

votos favoráveis, sete contrários e

uma abstenção. Até o fechamento

desta edição, não havia data definida

para a votação do projeto em

segundo turno.

O grupo Mães Pela Diversidade

se posicionou contra os argumentos

utilizados pela chamada “bancada

cristã”, que liderou a defesa

do projeto. “Não existe escola sem

partido. Tem partido sim, e é o dos

fundamentalistas. O que eles querem

é instituir o partido da opressão,

por meio de um discurso religioso,

moralista e hipócrita. A educação

deve ser plural, inclusiva e

possibilitar que todas as pessoas

pensem, reflitam, argumentem e tenham

seus próprios posicionamentos

respeitando as diferenças”, ressalta

Miryan.

As sessões de debates acerca do

projeto de lei protagonizaram cenas

lamentáveis de truculência e

agressão a professores contrários

ao projeto nas dependências da

própria Câmara. Segundo informações

do Sindicato dos Trabalhadores

em Educação da Rede Municipal

de Belo Horizonte (Sind-Rede), três

professores membros do sindicato

foram violentamente agredidos.

Em protesto contra as agressões, o

Sind-Rede convocou uma paralisação

que alcançou cerca de 80% das

Revista Elas por Elas - março 2020

73


escolas da rede municipal, no último

dia 11 de outubro de 2019.

Através de nota de repúdio, o Sindicato

dos Professores do Estado de

Minas Gerais (Sinpro Minas) manifestou

publicamente sua indignação

à votação do projeto de lei. “A aprovação

foi realizada sem debate com

a sociedade civil e com violência policial

contra os manifestantes dentre

eles professores e estudantes,

durante as sessões na Câmara”, diz

o texto. A presidenta do Sinpro Minas,

Valéria Morato, denuncia que

o projeto “é uma desconsideração

à dedicação dos/as professores/as,

que constroem o projeto pedagógico

da escola e depois são impedidos

de mostrar para os estudantes como

é o mundo na realidade: plural e diverso.

Esse impedimento tenta encobrir

que a escola é um reflexo da

sociedade. Escola sem Partido, que

na verdade é uma lei da mordaça,

vem impedir que o professor atue

na formação de cidadãos verdadeiramente

comprometidos com as

transformações sociais. Ser professor

nos tempos do governo Bolsonaro

é lutar e resistir para ter o direito

de dizer que a terra não é plana”.

O coordenador-geral da Campanha

Nacional pelo Direito à

Educação, Daniel Cara, avaliou, em

entrevista à Revista Fórum, que, se

aprovada, a proposta representa o

controle do trabalho docente e uma

aula medíocre para os estudantes. “É

inaceitável lecionar criacionismo,

questionar a luta das mulheres pelo

direito ao voto e a serem votadas,

relativizar o absurdo da violência

do nazismo. São essas as pautas do

Escola sem Partido. Este movimento

representa a escola de um partido

único, o partido ultraconservador,

que não aceita a sociedade brasileira

como ela é: de diversas composições

familiares, diversas religiões. A

escola tem que ser um espaço de

conscientização sobre essa injustiça

e de mobilização de cidadãos para

que essa injustiça seja vencida”,

destaca Daniel.

Para a coordenadora do Mães

pela Diversidade, por trás do Projeto

Escola sem Partido existe um

projeto muito maior e mais perigoso

para o país. “A educação é a

única forma de assegurarmos uma

nação com respeito à diversidade

humana. Não podemos deixar que

a escola seja ocupada no sentido

de criar pessoas sem conteúdo

para se posicionar perante a vida.

Não podemos permitir manipulações

com vistas a estabelecer um

relacionamento hegemônico que

querem impor às nossas crianças

como verdade absoluta. A Escola

Sem Partido é um retrocesso enorme

e vai legitimar toda a violência

que vemos – tanto no feminicídio,

como na população LGBTQI+”.

/ Mídia Ninja

74

Revista Elas por Elas - março 2020


A presidenta do Sinpro Minas

reafirma que, infelizmente, a correlação

de forças na legislativo municipal

é desfavorável. “Os vereadores

fundamentalistas estão fazendo

uma cena, mas sabem que

este é um projeto inconstitucional.

Estamos juntos com o Sind-Rede

para realizar manifestações públicas

e chamar a população para

realmente debater o que significa

este projeto. O Sinpro e a CTB (Central

dos Trabalhadores e Trabalhadoras

do Brasil) estarão juntos à

frente deste processo tanto político,

quanto jurídico”.

Prova anulada

Paralelamente aos protestos contra

o projeto Escola sem Partido, a

anulação de uma prova de português,

a pedido de alguns pais de alunos

do Colégio Loyola, em Belo Horizonte,

ganhou repercussão e foi alvo

de duras críticas. O teste aplicado no

segundo ano do ensino médio utilizou

uma crônica escrita pelo ator

Gregório Duvivier com teor crítico

à atual situação política do país. Em

nota divulgada em seu site, o Sinpro

Minas afirma que “a escola é lugar do

saber plural e das diversas visões de

mundo”. O texto ressalta que o Brasil

passa por um período “polarizado,

em que qualquer alusão a pensamentos

críticos ou que produzam

reflexões são prontamente rechaçados

por alguns setores. E esse tipo

de atitude caminha na contramão do

processo educativo que necessita ser

crítico, reflexivo, amplo e democrático”.

O Sinpro salienta que repudia

“qualquer tipo de censura, retaliação

e mordaça aos trabalhadores da

educação em seu pleno exercício ético

e consciente da educação no papel

de educadores que são”.

O cancelamento também foi rechaçado

por um manifesto assinado

por cerca de 400 alunos/as e ex-

-alunos/as da instituição de ensino.

A nota enfatiza que “a diversidade

de ideias, tão cara ao Colégio, é característica

fundamental do Estado

Democrático de Direito, e, portanto,

deve ser defendida. Nós, enquanto

alunos e antigos alunos do

Colégio Loyola, ressaltamos o nosso

compromisso com a pluralidade

de ensino, com a autonomia dos

professores e com a defesa da liberdade

de expressão. Dessa forma,

repudiamos os ataques direcionados

ao corpo docente do Colégio,

assim como a propagação de

informações equivocadas a respeito

do ocorrido. Contestamos, também,

o posicionamento adotado

pelo Colégio ao anular a avaliação

e, assim, ameaçar a autonomia dos

professores em sala de aula”.

A escola é

lugar do

saber plural e

das diversas

visões de

mundo”

Diálogo e resistência

A líder estudantil Daniela Moura

analisa que o projeto proposto

pela bancada cristã da Câmara

Municipal (CMBH) está alinhado ao

discurso do presidente Jair Bolsonaro,

desde a campanha de 2018.

“Estamos vivendo um período muito

conservador, a bancada religiosa

no Congresso cresceu muito e

isso tudo acaba poluindo muito as

pessoas. Quando a gente começa a

trabalhar melhor esses assuntos e

mostra para a sociedade como eles

são importantes, isso contagia as

pessoas. Por mais que tenhamos

pais e mães conservadores, que

acreditam na falácia da ideologia

de gênero, também temos muitos

outros que estão na luta dentro das

escolas, ao lado dos seus filhos”.

Para ela, esse é um momento de

resistência e diálogo com a sociedade.

“Se formos pensar sob a perspectiva

de um pai e uma mãe que viveu

em uma escola diferente e em um

século diferente, é muito complicado.

Quando as pessoas veem um estudante

do século 21, que consegue

se empoderar e cobrar os seus direitos,

ficam surpresos. Defendemos

um futuro e uma sociedade melhor

e, para isso, precisamos saber conversar

com essas pessoas que não tiveram

acesso à informação que temos

hoje. Apesar de toda essa agenda

retrógrada, precisamos pensar

um pouco sobre perspectivas e futuro.

Mesmo com todos esses ataques,

estamos formando o nosso pequeno

exército. Existem muitos grêmios

e muitas entidades estudantis

que têm levado esses debates para

dentro das escolas”.

Revista Elas por Elas - março 2020

75


/ Natalia Gomes

76

Revista Elas por Elas - março 2020


Indígenas

Mulheres indígenas

organizadas em defesa

da floresta e da vida

Mais de 500 anos de colonização e o problema do povo indígena segue

o mesmo – a invasão de suas terras e as consequências disso, como a

destruição do meio ambiente e a agressão aos direitos humanos

por Nanci Alves

Lutar

pela

demarcação

de terras indígenas

nunca

foi

tão

urgente

como

nos

dias atuais,

no

Brasil.

Revista Elas por Elas - fevereiro 2020

77


O agronegócio, os madeireiros,

o garimpo e a mineração são uma

constante ameaça aos indígenas,

que, cada vez mais, se mobilizam

e se organizam para este enfrentamento.

Na avaliação da conselheira

do Conselho Indigenista Missionário

(CIMI), da Regional Leste

II (Minas Gerais e Espírito Santo),

Maria Alda Oliveira, bem mais

grave do que a prática de violência

é a constatação de que ela é acumulativa,

promovida e desencadeada

ao longo de décadas, de modo

sistêmico, por particulares e também

pelo próprio Estado brasileiro.

“Esta violência aumentou com

a gestão do atual governo, que utiliza

o ódio e o preconceito como estratégias

para ‘governar’. Podemos

afirmar que há, no Brasil, a institucionalização

da violência como

prática de governos. É nosso compromisso

e um desafio proteger a

vida dos povos, juntamente com

eles, e isso compreende proteger

as florestas, impedir invasões em

seus territórios, garantir os direitos

já conquistados, além de continuar

lutando por novas conquistas”,

afirma.

Neste contexto antigo de acúmulo

de violências, as mulheres

indígenas, cada vez mais, se fortalecem

enquanto resistência e ganham

espaço, formando associações

e movimentos para lutar em

prol da vida e dos direitos dos povos

indígenas. “Na maioria dos povos,

as mulheres têm desempenhado

bem seu papel junto às comunidades,

sem deixar de ser mãe, conselheira,

companheira, mesmo enfrentando

a quebra do machismo

/ Agência EBC

78

Revista Elas por Elas - março 2020


dentro e fora das comunidades. E

elas têm conquistado espaços significantes:

nas universidades, nos

movimentos de políticas públicas e

de controle social, nos partidos políticos,

nas ações e mobilizações de

incidências e lutas por conquistas

e defesa dos territórios”, destaca

Maria Alda.

De acordo com a presidenta da

Organização de Mulheres Indígenas

do Acre e da Amazônia na região

de Rondônia, Letícia Yawanawa

(foto), do povo Yawanawa,

da terra indígena Rio Gregório, aldeia

Mutum (AC), região de Tarauacá,

a luta na Amazônia e em todo o

Brasil é um desafio sem tamanho. “A

gente ultrapassa o que nos limita. Só

o fato da indígena ser uma liderança,

que está ao lado do seu líder, já

é desafio, pois no passado nossa cultura

nos limitava nesse aspecto. Ultrapassamos

isso e a luta hoje é, junto

com nossos líderes, para o trabalho,

pela floresta em pé – sem derrubada,

sem queimada, sem degradação,

destruição. Defendemos nosso

território para a gente continuar

sobrevivendo, livres, mantendo a

nossa cultura, os costumes”, afirma.

Letícia Yawanaw diz que o governo

atual do país provoca em todos

a necessidade da luta pelos direitos

humanos, pela vida, pela terra,

etc. Por isso, todos os territórios

indígenas organizaram a 1ª Marcha

de Mulheres Indígenas, em agosto

(2019). Cerca de 2.000 brasileiras estiveram

em Brasília para dar visibilidade

às ações que elas desenvolvem

por todo o país. A Marcha recebeu

como tema “Território: nosso

corpo, nosso espírito” e refletiu

sobre questões relativas à garantia

dos direitos humanos e cuidados

com o meio ambiente. “Foi muito

bom. Vamos fazer a Marcha de

dois em dois anos, pois não dá mais

para ficar só na aldeia. Temos que

sair, porque o governo Bolsonaro

nos obriga a ir para a luta, nos insulta

a sair com nossos cocares, nossa

cultura, nossas danças a protestar

contra a atuação dele”, desabafa

a liderança indígena, ao reforçar

que a terra dos Yawanaw já é demarcada,

mas a luta é única, para

todos que ainda não conseguiram

a demarcação da terra. “Mas mesmo

sendo demarcada, corremos

risco, pois a terra do meu povo faz

divisa com grandes latifundiários

que tiram madeira. Para isso, fazem

ramal (caminhos feito por tratores

para os caminhões levarem a

madeira) e estão bem perto da nossa

cerca. E isto nos coloca em risco,

facilitando a chegada de estranhos

Temos uma conexão

espiritual com a nossa

Floresta, nossa Mãe

Terra. Somos filhos

da Terra, precisamos

cuidar e não é só para

nós, povo indígena,

é para todos. Sem a

Floresta, seremos um

povo sem vida, uma

árvore sem raiz”

nas nossas aldeias. Em nossas terras,

somos 18 povos, 34 terras indígenas

e 458 comunidades. Somos

em torno de 25 mil pessoas entre homens,

mulheres e crianças”.

Sobre o fogo na Amazônia, Letícia

Yawanaw conta que é uma

constante ameaça. “Ele chegou em

nossas comunidades. A imprensa

não mostra porque é muito longe,

mas teve fogo com grande prejuízo

- queimou nossa medicina, nossa

biodiversidade. E o governo ainda

tem coragem de falar que são os indígenas

que queimam. Nós protestamos

contra estas palavras. A gente

junta tudo onde vai fazer plantio

e faz o roçado, sem derrubada

ou queimada. Elas levam à devastação,

e nós sempre preservamos,

porque, pra nós, indígenas, nosso

território é sagrado. Temos uma conexão

espiritual com a nossa floresta,

nossa Mãe Terra. Somos filhos

da terra, precisamos cuidar e

não é só para nós, povo indígena,

é para todos. Sem a floresta, seremos

um povo sem vida, uma árvore

sem raiz”, diz.

De acordo com a liderança, a Organização

das Mulheres Indígenas

do Acre e da Amazônia na região de

Rondônia faz um trabalho de fortalecimento

da cultura, do uso da

medicina tradicional, da segurança

alimentar, da comida tradicional

saudável, da preservação da

floresta em toda a região que atua

– o Acre, sul da Amazonas e noroeste

de Rondônia. “E, agora, estamos

lançando a Campanha das Guardiãs

da Floresta e da Mãe Terra. Vamos

viajar para toda esta região

levando informação, formação, e

Revista Elas por Elas - março 2020

79


conversar sobre nossos direitos, a

preservação da terra, da floresta e

da água. Para isso, precisamos da

colaboração de quem possa ajudar

com qualquer quantia, pois vamos

de barco a lugares que levam até 10

dias de viagem. Precisamos de recursos

para ajudar o trabalho das

parteiras voluntárias (que vão nas

comunidades ajudar no parto natural),

para o combustível e motor

para os barcos, etc. Infelizmente,

não temos apoio do governo, porque

ele não quer que lutemos pela

preservação, pela vida. Precisamos

cuidar do meio ambiente e ampliar

nossa medicina, nossa farmácia

viva. Como agradecimento, enviaremos

pelos Correios um presente

simbólico (colar, brinco, pulseira,

etc), feito com sementes da floresta

e abençoado pelo Pajé, para

cada pessoa que colaborar com

esta campanha”, conta. Para ajudar

na campanha, basta fazer o depósito

no Banco do Brasil, agência

5790-8, conta corrente nº 54901-0,

CNPJ 07.536.473/0001-57, em nome

de OMI do Acre Sul. O comprovante

do depósito deve ser enviado pelo

whatsApp (68) 99946-3035.

O eco da Primeira Marcha da

Mulher Indígena

“Em tempos de sociedade adoecida,

nós somos um movimento de

cura”. É o que defende Célia Xakriabá,

do Povo Xakriabá, do município

de São João das Missões (Minas

Gerais, divisa com a Bahia). Ela foi

uma das organizadoras da I Marcha

das Mulheres Indígenas e acredita

que a manifestação deu visibilidade

à mulher. “Muitas saíram de suas

aldeias pela primeira vez. Foram

representações das cinco regiões do

país e mais de 110 povos. Atingimos

nossa meta, que era de levarmos

duas mil mulheres indígenas. Foi

importante ver as mulheres dialogando,

se reconhecendo. O processo

de organização e mobilização do

evento demandou muito cuidado e

Em tempos

de sociedade

adoecida, nós

somos um

movimento

de cura”

negociação, pois não foi fácil ocupar

o espaço, em Brasília, como sempre

fazíamos no Acampamento Terra

Livre, realizado todos os anos lá.

O Ministro da Justiça, Sérgio Moro,

convocou as forças nacionais para

nos receber, como forma de nos

intimidar”, revela.

Célia Xakriabá (foto ao lado)

destaca que a partir da Marcha virá

o encorajamento para que, na próxima

eleição, mais indígenas possam

ser eleitas. “Se tivermos uma

prefeita ou vereadora, já será o impacto

da Marcha. Este foi um dos

temas - a necessidade de ocupar

outros espaços, para além do chão

do território. Estão todas preparadas,

pois a nossa escola é a luta. E

para concorrer a uma candidatura

indígena, não fazemos exatamente

campanha em período de eleição.

Uma parlamentar indígena se faz

com luta e trajetória”, afirma.

/ Douglas Freitas

80

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Douglas Freitas

Durante a Marcha, as participantes

deram visibilidade também às

demandas das comunidades indígenas.

“Além do território, temos muitas

lutas, como a garantia da saúde

e da educação gratuita e de qualidade

nas comunidades indígenas.

Este governo quer municipalizar a

saúde, tirando da responsabilidade

da Secretaria Especial de Saúde Indígena

(Sesai). A municipalização é

um perigo, vamos sempre depender

da vontade política da prefeitura.

A educação é estadualizada exatamente

para evitar a perseguição política.

E a política pública das questões

indígenas não pode ser compreendida

como política de governo

e sim de Estado. Essa é a nossa

garantia de que ela será sempre realizada,

independente de quem for

eleito. Mas, na realidade, já estamos

sofrendo com esta história de municipalização,

pois a verba não está

sendo repassada para as comunidades

indígenas. Enfrentamos sérios

problemas na saúde”, diz.

Em Minas, o governo segue a linha

do governo federal e, assim, a

população indígena nunca é prioridade.

“Existe uma política de privatização.

Em 2019, junto com outros

povos, tivemos que ocupar algumas

A política pública das

questões indígenas

não pode ser

compreendida como

política de governo e

sim de Estado”

superintendências regionais para

conseguir uma agenda com a secretária

de Educação [Júlia Sant’Anna],

que desconhece a história e a realidade

do povo indígena no estado,

pois veio do Rio de Janeiro. São 3.300

alunos Xakriabá. Com essa mobilização,

conseguimos impedir que juntassem

alunos de turmas diversas

em nossas comunidades, pois queriam

reduzir o número de professores.

Foi uma conquista, mas ainda

temos muitas lutas”, afirma.

Célia Xakriabá sempre estudou

na escola indígena até ir para a

UFMG, onde se graduou em Ciências

Sociais e Humanidades, com formação

intercultural para educadores

indígenas (2013). Foi professora de

Cultura até 2015, quando foi convidada

a ocupar o cargo de coordenadora

da educação escolar indígena em Minas

Gerais (nunca tinha existido um

espaço de governança neste setor),

pela então secretária de Educação,

Macaé Evaristo. Depois fez mestrado

na UNB, em Brasília, se formando

em 2018 em Desenvolvimento Sustentável.

“Em seguida, fui ajudar as

candidaturas indígenas nas últimas

eleições, pela comitiva nacional. Hoje,

faço doutorado na UFMG em Antropologia”.

Apesar de existir muitas

indígenas com doutorado no país,

ela é a primeira a fazer doutorado

na UFMG. “Mas mais importante

do que ser a primeira, é questionar

por que ser a primeira, por que até

hoje, séc. 21, ainda não tem professora

indígena na UFMG? Tem apenas

4 em outras universidades no Brasil.

E quantas pessoas estão dispostas

a votar em indígenas nas próximas

eleições?”, reflete.

Revista Elas por Elas - março 2020

81


/ Mídia Índia

Hoje, estamos

vivendo um

genocídio, ecocídio,

etnocídio e

epistemicídio. O

Estado autorizando

matar o corpo,

o pensamento, o

modo de vida e a

identidade”

Célia critica o governo por não

respeitar o modo de vida do povo

indígena e tentar recolonizar o seu

modo de fazer educação. “Temos

condições de formar na ciência do

território. Neste momento em que

também a ciência está em crise, temos

conhecimento de cura. O conhecimento

precisa dialogar com

a vida. As pessoas estudam mas

se adoecem, porque não dialogam

com a vida. A ciência só vai reconhecer

nosso lugar de conhecimento

o dia que não tiver nenhuma

árvore neste país”, afirma.

A liderança indígena ressalta

que a intelectualidade da mulher

indígena não está apenas na elaboração

do pensamento, mas também

nas mãos e nos pés que fazem

história. “Quando vou escrever, me

lembro da história e normalmente

são vivências coletivas – a gente

escreve a partir do que a gente

viveu. Hoje, estamos vivendo um

genocídio, ecocídio, etnocídio e

epistemicídio. O Estado autorizando

matar o corpo, o pensamento, o

modo de vida e a identidade. São

vários estágios da morte. Quando

executa um corpo, não mata só

uma liderança; quando arranca o

direito territorial, já matou várias

vezes”, diz Célia Xakriabá, que esteve

em setembro 2019, na França,

convidada pela Anistia Internacional

e pela ONG Autres Brésils,

onde participou de vários eventos

para falar sobre a realidade indígena

no país e apresentar um

documentário sobre as mulheres

indígenas em movimento. “Foi importante

nossa participação e isso

motivou mulheres parlamentares

internacionais a criarem uma rede

de amparo, que vai apadrinhar indígenas

que estão sob ameaça no

Brasil”, conta.

E em outubro e novembro de

2019, uma comitiva de lideranças

indígenas brasileiras realizou a

Jornada Sangue Indígena: Nenhuma

Gota Mais (foto), que percorreu

12 países da Europa, para denunciar

as graves violações que os povos,

florestas, biomas e toda a biodiversidade

estão sofrendo, principalmente

a partir da posse de Jair

Bolsonaro. “Compartilhamos vídeos

e cards sobre a Jornada pelas redes

sociais em quatro línguas: português,

inglês, espanhol e francês.

Para nós, informação também é

ferramenta de resistência e, para

contrapor essa onda de fake news,

temos as mídias independentes

como nossas aliadas”, explica Célia

Xakriabá, que faz parte da comitiva

que rodou o mundo para dialogar

e buscar apoio de autoridades

públicas, ativistas, artistas e lideranças

dos movimentos sociais.

82

Revista Elas por Elas - março 2020


Temos autonomia

para ter nossa

organização e

decidir sobre nosso

futuro, como o Não

indígena escreveu

na Constituição

Federal de 1988 e

na Convenção 169

da OIT”

/ Marquinho Mota

Ângela Kaxuyana, membro da

Coiab (Coordenação das Nações

Indígenas da Amazônia Brasileira)

também participou da Jornada

e destaca a importância da campanha:

“A Jornada foi no sentido de

alertar o parlamento europeu, a

bancada de políticos favoráveis à

questão indígena, a sociedade civil

e principalmente os grandes empresários

sobre o quão eles têm

responsabilidade sobre este processo

de violação dos nossos direitos

na medida em que são compradores,

consumidores dos produtos

do agronegócio brasileiro que é regado

com o sangue indígena”.

Formação profissional

como estratégia de luta

A entrada na universidade tem

sido o caminho de muitas indígenas

para o fortalecimento da luta em

defesa dos seus povos. Alessandra

Munduruku (foto), aldeia Praia do

Índio (Médio Tapajós) vive hoje em

Santarém, onde foi cursar Direito.

“Não foi fácil sair da aldeia, pois somos

muito apegados à terra. Vim

trazendo marido e filhos para não

viver sozinha aqui. Mas temos que

resistir. E ser advogada é importante

para mostrar que a forma de

luta está também no papel e que a

gente respeita isso. Temos autonomia

para ter nossa organização e

decidir sobre nosso futuro, como

o não indígena escreveu na Constituição

Federal de 1988 e na Convenção

169 da OIT. Mas não estão

respeitando nossos direitos e este

novo governo federal quer criar

outras leis contra os povos indígenas,

tirando direitos conquistados

por uma luta antiga. Os indígenas

estão tendo que parar de trabalhar,

de produzir, para ficar gritando, se

defendendo”, desabafa.

Alessandra Munduruku faz parte

da Associação Indígena Wakoborun,

do Alto Tapajós (PA), e ressalta

a importância da união das mulheres.

“Eu vendo artesanato, produzido

com coco e sementes, para ajudar

as outras mulheres, porque temos

que estar unidas. Tudo vem da

natureza. E este projeto de morte

do governo quer retirar a gente e os

ribeirinhos dos nossos territórios e

alagar tudo. Hoje, sofremos fortemente

com a entrada do garimpo

ilegal dentro das nossas terras. Nós

sempre denunciamos os invasores,

como os madeireiros, mas em 2019

isso aumentou muito”, destaca.

A liderança lembra que o atual

presidente do país falou que os

indígenas não são capazes e “nós

mostramos, o tempo todo, que somos

sim. Defendemos a floresta,

as águas e a vida. Eu e muitas indígenas

em todo o Brasil saímos

Revista Elas por Elas - março 2020

83


de nossas aldeias, enfrentamos

enormes desafios para fazer curso

de graduação, pós-graduação e

doutorado. Estudamos e nos organizamos

para impedir o que o governo

quer fazer dentro do território,

sem consultar o povo”, afirma.

Alessandra Munduruku chama a

atenção para a contaminação das

águas dos rios com a mineração e o

garimpo. “A gente sofre vendo o rio

e o peixe sendo contaminados pelo

mercúrio. Antes a gente tinha malária,

mas hoje temos muitas outras

doenças graves por causa desse metal

e dos venenos do agronegócio”,

afirma. Ela destaca a mudança na

Fundação Nacional do Índio (Funai),

que deveria defender os direitos

dos povos indígenas. “Hoje, não

acreditamos mais na Funai, principalmente

em Brasília, pois querem

dar a terra para o não índio, para

o grande negócio que só destrói.

Muitos falsificam documentos e

se apropriam das terras enquanto

que, para gente, é uma verdadeira

burocracia. Você tem que provar

que seus antepassados já estavam

ali. Até conseguir provar isso, a terra

já foi invadida”, diz, ao reforçar

que o povo indígena não vai aceitar

projetos de morte da mineração, hidrelétrica,

ferrovia, hidrovia, agronegócio,

portos, graneleiro, etc.

“Bolsonaro fala que os indígenas

precisam entrar na sociedade. Mas

que sociedade é essa? Essa em que

nós ficamos pobres, sem território,

sem rio, esmolando um território

que eles tomaram? O dever do governo

é criar e manter uma política

/ Deputada Federal Joênia Wapiurana

pública para os indígenas, para os

ribeirinhos, mas isso não existe. A

84 Revista Elas por Elas - março 2020

/ Luis Macedo - Câmara dos Deputados


nossa saúde e a educação estão sucateadas

e ainda não temos direito

ao território. É um crime. A gente

continuará gritando, mesmo sendo

ameaçado, pois as sementes vão

continuar”, finaliza.

Representatividade política

Resultado de muita luta e organização,

os povos indígenas no Brasil

conseguiram eleger sua primeira

deputada federal – Joênia Wapichana,

do povo Wapichana, filiada

à Rede de Sustentabilidade (REDE),

representando Roraima, nas eleições

de 2018. Antes dela, até hoje

apenas um indígena, cacique xavante

Mário Juruna, havia ocupado

uma cadeira na Câmara Federal

(1983-1987). Depois de 35 anos,

chega Joênia com muita garra e coragem.

Ela foi a primeira mulher

indígena a se formar em Direito no

país, em 1997, pela Universidade

Federal de Roraima (UFRR). Na Universidade

do Arizona (EUA), cursou

mestrado. A deputada nasceu

na comunidade indígena Truarú

da Cabeceira, na etnoregião Murupú,

de etnia Wapixana.

Como parlamentar, acredita que

seu desafio é fazer com que a causa

indígena tenha visibilidade e que

haja avanço nas consolidações das

garantias constitucionais para que

o direito seja de fato exercido. “Que

ele saia do papel e que os povos indígenas

possam usufruir o que a nossa

Constituição já determina – respeito

à demarcação das terras indígenas.

Exercer a cidadania, ocupando

os espaços que ainda não ocupam,

participar do processo de tomada

de decisão do país, ter respeitado

e exercido o seu direito de consulta

livre, prévia e informada, fazer

com que as terras indígenas sejam

vistas como estratégias de proteção

à cultura, ao meio ambiente, à coletividade”,

explica. A parlamentar

defende que os direitos dos povos

indígenas sejam considerados também

responsabilidade de cada brasileiro

e que as atividades, que já desempenham,

sejam vistas como investimento

no planejamento de desenvolvimento

do país. “Não simplesmente

que os recursos naturais

sejam vistos com olhares de cobiça,

mas que sejam colocados como estratégias

ou formas de colaboração

dos povos indígenas com a sociedade

brasileira”, afirma.

Quanto à mulher indígena, Joênia

Wapichana destaca as mudanças

na realidade. “Avançamos no

exercício, no destaque e no protagonismo

em várias áreas. Mas precisamos

de mais representação política,

para que outras indígenas

Temos visto uma

Funai cada vez mais

em decadência, com

falta de investimento

nas suas estruturas

e no quadro de

funcionários”

possam colaborar com os seus conhecimentos,

valores e trabalhos

que desenvolvem em suas comunidades.

Também precisamos de políticas

públicas específicas voltadas

às mulheres”, acrescenta.

Sobre a Funai, a deputada não

é otimista. Criada em 1967, com a

função de apoiar na consolidação

dos direitos dos povos indígenas,

principalmente na proteção dos

direitos territoriais, ela não tem

cumprido seu papel. “Temos visto

uma Funai cada vez mais em decadência,

com falta de investimento

nas suas estruturas e no quadro de

funcionários. Um verdadeiro sucateamento,

falta de seriedade dos

nossos governantes, que não incentivam,

não fortalecem esse órgão

que cuida de 13% do Brasil. Apesar

das terras indígenas serem consideradas

patrimônio da União, não

está sendo dada a devida importância

em termos de orçamento.

Cada vez mais têm sido realizados

cortes, contingenciamento. É uma

falta de investimento sistemático,

não só nesse governo, mas agora

piorou. O presidente Bolsonaro

anunciou que usaria do seu

mandato para ‘rever’ a demarcação

das terras. Com a MP 870/2019, ele

tentou retirar a Funai do Ministério

da Justiça e passar para o da

Agricultura, que cuida do agronegócio.

Felizmente, conseguimos

reverter isso na ação judicial que

a REDE Sustentabilidade propôs no

Supremo e manteve a Fundação no

Ministério da Justiça, com a função

institucional de demarcar as terras

indígenas. Isso foi uma ameaça. Por

outro lado, existe uma perseguição

Revista Elas por Elas - março 2020

85


sistemática, uma pressão em cima

da Funai para que reveja todos os

seus critérios constitucionais de

demarcação, e também na própria

administração de quem conduz o

processo, interferindo na gestão e

na própria visão que a Funai tem

feito na proteção dos direitos dos

povos indígenas”, denuncia.

Representação indígena

Nas eleições de 2018, o Brasil

teve sua primeira candidata indígena

a compor uma chapa para disputar

a presidência da República – Sônia

Guajajara saiu como vice de Guilherme

Boulos (PSOL). A liderança,

do povo Guajajara/Tentehar (Terra

Indígena Arariboia, no Maranhão),

tem graduação em Letras e em Enfermagem

e pós-graduação em Educação

Especial. Sua militância indígena

e ambiental começou na juventude,

nos movimentos de base

e, desde então, vem se posicionando

no Congresso Nacional contra uma

série de projetos que retiram direitos

e ameaçam o meio ambiente. Em

2010, entregou o prêmio Motosserra

de Ouro para Kátia Abreu, à época

ministra da Agricultura, em protesto

contra as alterações do Código

Florestal. Com voz no Conselho

de Direitos Humanos da ONU, levou

denúncias às Conferências Mundiais

do Clima (COP), de 2009 à 2017,

ao Parlamento Europeu e a outras

instâncias internacionais. No ano

passado, discursou contra o governo

Temer e pela demarcação de terras

indígenas durante o Rock in Rio,

convidada pela cantora Alicia Keys.

Tem recebido vários prêmios e homenagens

pelo seu trabalho em defesa

da floresta e dos povos indígenas.

Sônia também fez parte da comitiva

que foi para a Europa com a

Jornada Sangue Indígena: Nenhuma

Gota Mais.

Qual é o maior desafio da mulher

indígena hoje?

Ser mulher já não é naturalmente

muito fácil. A gente sempre enfrentou

e ainda enfrenta a herança

do colonialismo com uma sociedade

patriarcal, que tenta impor ou

86

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Liar Bianchini

delimitar o espaço que a mulher deve

ocupar. Para nós, indígenas, não é

diferente. Além desse machismo colonial,

a gente enfrenta uma velha

prática ou entendimento de que o

machismo, ou a não participação das

mulheres, faz parte da cultura e isso

tem dificultado muito a saída para

as indígenas ocuparem espaços diversos.

Tentamos romper essas barreiras

e, visivelmente, aos poucos, a

gente vem conseguindo superá-las.

Já temos muitas mulheres ocupando

espaços de decisão, de liderança,

para além das aldeias. E isso é

muito importante. Estar na luta da

mulher indígena é uma tarefa árdua

mas também muito compensatória,

porque a gente consegue colocar

todas as nossas forças de guerreira

em favor do movimento, dos direitos

e seguir firme na luta. Isso pra

mim é motivo de muita realização.

Como você começou a atuar na

defesa dos direitos dos povos

indígenas?

Eu sempre digo que eu comecei no

movimento desde quando eu nasci,

porque acho que quando a gente é

liderança a gente já nasce com esse

espírito inquieto, indignado, que

não consegue aceitar injustiças, a

subserviência. Sempre me coloquei

numa posição proativa, de ajudar

meu povo. Quando eu comecei na

estrutura organizacional, a partir

de 2001 – quando participei da I

Conferência Nacional Pós Marcha

dos 500 anos, em Porto Seguro – eu

tive a certeza de que não poderia

nunca mais ser a mesma. Até então,

nunca tinha ido a um movimento

indígena em nível de Brasil. Foi

neste momento que eu percebi e

descobri que há muitos indígenas

sem terra, sem o seu território.

Percebi isso fortemente na luta

dos povos indígenas do Nordeste.

Então, a gente organizou o movimento

indígena no estado do Maranhão

e daí nunca mais parei. Passei

pela coordenação da Coapima

(Coordenação das Organizações e

Articulações dos Povos Indígenas

do Maranhão), depois da Coiab

(Coordenação das Organizações

Revista Elas por Elas - março 2020

87


/ Mídia Ninja

/ Sônia Guajajara: primeira candidata indígena à vice-presidência no Brasil

Indígenas da Amazônia Brasileira)

e hoje já estou no segundo mandato

na Apibe (Articulação dos Povos

Indígenas do Brasil).

Você é coordenadora executiva da

Apibe. Qual é a abrangência e missão

desta articulação?

A Apibe tem essa missão de articular

as lutas, conectar os movimentos

e trazer as vozes dos povos

indígenas de todos os cantos do

país para o mundo. É a maior organização

indígena no Brasil e realiza,

todos os anos, o Acampamento

Terra Livre, que já é considerada a

maior assembleia dos povos indígenas

do Brasil e a maior mobilização

mundial dos povos indígenas.

Ela tem esse papel fundamental de

unir o movimento, de trazer essas

pautas que congregam todos os

povos. Temos essa missão de lutar

pelos direitos territoriais, sociais

e coletivos, e dialogar com outros

movimentos não indígenas, com

o Estado brasileiro e, também, em

nível internacional, no sentido de

garantir sempre o cumprimento

dos nossos direitos.

Quantas associações de mulheres

indígenas existem no Brasil?

Como esses grupos se articulam

e conversam entre si? Eles têm

ações comuns?

Existem muitos movimentos de

mulheres em nível local, regional,

estadual, mas cada um se organiza

de seu jeito, conforme a tradição e

cultura de seu povo. E, nacionalmente,

nós realizamos a I Marcha

Indígena neste ano, que também

foi fruto de uma iniciativa chamada

Voz das Mulheres, que a gente

organizou em parceria com a ONU

88

Revista Elas por Elas - março 2020


Mulheres. No Voz, trouxemos uma

mulher de cada estado e fizemos

um levantamento da pauta das

indígenas. A partir daí, a gente

começou a realizar nossas plenárias

no âmbito do acampamento

Terra Livre e, neste ano, a Marcha,

com este momento de fórum. A

gente pode fazer ali a discussão

e cada mulher levantar as suas

preocupações. Enfim, estamos nos

fortalecendo e fazendo agora este

chamado para o Acampamento

Terra Livre, em Brasília (DF), de 27

a 30 de abril deste ano (2020).

Nas últimas eleições (2018), você

foi candidata a vice-presidente do

país, na chapa do Boulos (PSOL).

Como foi essa experiência?

Estar numa chapa presidencial foi

muito significativo para nós, povos

indígenas, porque ali não era

apenas uma representação indígena,

era uma representação de mulher

indígena, que é muito mais difícil.

E, para nós, isso foi um grande

passo. Na oportunidade, não

hesitamos em compor essa chapa.

A gente nunca recuou de nada

e não seria agora que a gente iria

dar pra trás. Então, aceitamos com

o papel de trazer a pauta indígena

e ambiental para dentro do debate

político eleitoral. Com certeza,

nós conseguimos alcançar nosso

objetivo, porque até agora nós estamos

colhendo resultados, que é

a maior visibilidade da luta indígena

e maior adesão às pautas ambientais.

Nós não temos dúvida de

que a nossa candidatura contribuiu

muito fortemente para a adesão

da sociedade.

Hoje temos Joênia como deputada

federal, eleita nas últimas eleições.

Isso foi resultado das lutas

das indígenas de todo o país? A

atuação dela no Congresso já conseguiu

ser percebida, trouxe algum

resultado positivo ou ela não

está conseguindo espaço?

A vitória da Joênia também foi

uma grande conquista, a primeira

mulher indígena eleita deputada

federal. Com certeza, a presença

dela está fazendo muita diferença

no Congresso, onde já articulou

a Frente Parlamentar Mista em Defesa

dos Direitos Indígenas. A presença

faz toda diferença e a Joênia

é uma presença legítima dos povos

indígenas ali dentro. Tem também

a mestra em Educação Chirley

Pankará, que faz parte do mandato

coletivo, pelo PSOL, a chamada

Bancada Ativista, em São Paulo.

Como tornar possível a eleição

de mais mulheres indígenas no

Brasil?

A gente nunca

recuou de nada e

não seria agora

que a gente iria

dar para trás”

Nós seguimos ajudando e apoiando

muitas indígenas a lançarem

suas candidaturas. No ano que

vem, vamos percorrer o Brasil incentivando,

orientando e apoiando-as

para se candidatarem nos

seus municípios. Não é uma tarefa

fácil, porque a campanha é muito

desigual diante do poder econômico

que prevalece, elegendo

aqueles que têm mais poder. Mas

queremos fazer as pessoas acreditarem

na política como uma coisa

boa, que atenda os interesses do

povo, e não dos candidatos.

Como lidar com o governo atual,

que vem passando por cima dos direitos?

Além da resistência, vocês

buscaram apoio internacional em

termos de boicote aos produtos do

agronegócio que são produzidos

em áreas indígenas. Como está

esse acordo?

É aterrorizante lidar com um governo

como este, que todos os dias faz

um anúncio que provoca um verdadeiro

desastre, desmonta, viola direitos,

que autoriza a destruição do

meio ambiente, desmatamento, autoriza

a mineração em territórios

indígenas, e que todos os dias destila

preconceito e racismo contra os

indígenas e à população mais pobre.

Mas, por outro lado, a gente se fortalece

e se alimenta para fortalecer a

luta coletiva. Fizemos a Jornada pelos

12 países da Europa, denunciando

as empresas que violam direitos

no Brasil e o genocídio que este governo

está autorizando em favor do

interesse financeiro. Nossa estratégia

é estar sempre em movimento.

Seguiremos resistindo para existir.

Revista Elas por Elas - março 2020

89


Sociedade

A lama que

inunda emoções

por Carina Aparecida

O impacto dos crimes de mineração reflete desigualdade

histórica de gênero e faz com que as mulheres sintam

mais as consequências. E o abalo psicológico tem revelado

que a tragédia está longe de ter um fim.

90 Revista Elas por Elas - março 2020


/ Isis Medeiros

Este texto iria começar com o depoimento

de Ana (nome fictício), a

primeira mulher com quem tentei

conversar no início desta reportagem

– uma entre tantas das atingidas

pelo crime da Vale no município

de Brumadinho (MG). Foram algumas

outras tentativas até ela avisar

que não daria a entrevista por

ser difícil ter que revisitar e recordar

aquele 25 de janeiro de 2019.

A negação de Ana me disse muitas

coisas. Percebi que falar sobre o

impacto dos crimes da mineração na

vida das pessoas é também falar sobre

esta lama derramada nas emoções,

subjetividades e memórias. O

dia 25 de janeiro que Ana evita recordar,

segue sendo pesadelo. E não

é para menos. O rompimento de barragens

da Mina Córrego do Feijão é

mais um crime da mineradora Vale.

Centenas de milhares de pessoas

atingidas nos 18 municípios por onde

passa o Rio Paraopeba, sendo que

até início de fevereiro de 2020 são

confirmadas 272 mortes, segundo o

Movimento dos Atingidos por Barragens

(MAB), e os milhões de metros

cúbicos de rejeitos continuam,

um ano depois, soterrando corpos

ainda não encontrados. Pesquisas

apontam que este é o segundo maior

rompimento de barragens do mundo

com óbitos, o primeiro foi 1966,

na Bulgária, que vitimou 488 pessoas.

Por mais alarmantes que sejam

estes números, eles em si não traduzem

o que o crime gera na vida

de toda essa população. E, no caso

das mulheres, além de todo o sofrimento

causado por um crime dessa

dimensão, aprofunda o peso das

desigualdades históricas de gênero.

Revista Elas por Elas - fevereiro 2020

91


Percorrendo o caminho até o

Córrego do Feijão, pensava quantas

outras Anas preferem mesmo

não ter que recordar e elaborar sobre

toda a angústia deixada por esse

crime. Imagino também que, às vezes,

deve ser preciso tapar os ouvidos

e fechar os olhos, porque a cena

segue lá: tratores e pessoas se perdendo

na imensidão daquela lama,

seguindo as buscas e tentando limpar

o que a História já mostrou ser

impossível de ser esquecido. Neste

dia, nosso encontro era com Sara

de Souza, comerciante e moradora

da comunidade. Ela nos pediu para

esperar um pouco, porque precisava

buscar a filha na escola. Na

varanda, quando começamos nossa

conversa, fez um desabafo sobre o

que representa a Vale, denunciando

que a empresa nunca fez nada

pela comunidade e que há décadas

está ali para explorar. “Meus pais já

sofriam com a Vale, isso não começou

agora. Foram anos escutando a

empresa detonando a mina com explosivos,

bombas de dinamite. Estremeciam

as nossas casas, provocando

rachaduras que abalaram as

estruturas”, afirma. A mina Córrego

do Feijão iniciou as atividades

em 1956, por meio da Companhia

de Mineração Ferro e Carvão, em

1973 passou para a Ferteco Mineração

e desde 2003 é dirigida pela Vale.

“Eles nunca nos ajudaram em nada,

vieram para explorar e, agora,

matam as pessoas da nossa comunidade.

Isso dá uma angústia muito

grande. E eles usam nosso nome, o

nome da comunidade, como nome

da mina. Córrego do Feijão não é mina,

é nossa comunidade”, ressalta.

Sara perdeu amigos e vizinhos

na tragédia e sua fala, repleta de

emoção, revela que o impacto desse

crime segue atravessando todas

as barreiras e influencia a subjetividade

de cada uma dessas vidas.

“Meus familiares tinham prazer de

vir até à minha casa para passear.

Hoje, eles têm medo de virem aqui.

As verduras daqui da nossa horta

eu sempre levei para minha família,

mas hoje eles se sentem inseguros

para comer. Então, a Vale desestruturou

nossas vidas e nossas relações

e, a cada dia, tá ficando mais

sério”, destaca.

Os problemas de ordem emocional

e psicológica parecem que provocam

um efeito bola de neve. Sara

compartilha com tristeza que meses

/ Isis Medeiros

92

Revista Elas por Elas - março 2020


depois do crime da Vale duas senhoras

da comunidade do Córrego do

Feijão morreram, após um quadro

profundo de depressão. “Uma delas

perdeu o neto e a outra estava comigo

quando a barragem rompeu,

nós corremos juntas. Eram senhoras

ativas, alegres. Uma com mais

de 80 e a outra com 70. Mas o abalo

foi muito forte. Elas adoeceram

e não aguentaram”, conta.

A quase 30 quilômetros dali,

o coração de Dayana Márcia dos

Reis também sente todas essas dores.

Não pude conversar com Dayana

olhando seus olhos, mas sua voz

ao telefone era também um misto

de indignação e força. Moradora de

São Joaquim de Bicas, um dos municípios

afetados pelo crime, ela fala

do impacto emocional que toda essa

situação gerou. Sua tia e primo trabalhavam

na Vale como terceirizados

e foram vítimas fatais do crime.

“Eu ficava imaginando o que eles

deviam ter passado, os momentos

de desespero, isso me afetava muito.

Parecia um filme e eu ficava esperando

um super-herói chegar pra

mudar tudo, só que isso não era a

realidade”, confessa.

Saúde mental ameaçada

As consequências dos crimes da

mineração para a saúde mental das

atingidas têm sido tema de reflexão

em diversos espaços. A psicóloga Débora

Diana dedicou sua pesquisa de

doutorado na Universidade Federal

de Minas Gerais - UFMG ao debate

sobre os impactos do rompimento

da barragem da Samarco/Vale e BHP

Billiton, no ano de 2015, sobre a vida

das mulheres atingidas em Mariana.

Débora conta que, ao fazer a pesquisa,

acompanhou de perto o cenário

pós-crime e sentiu como os processos

eram arbitrários. “Eu cheguei

em Mariana e via as pessoas saírem

dos seus territórios, começar a viver

em um lugar totalmente diferente,

perderem o contato que elas tinham

umas com as outras, os laços

comunitários, afetivos, isso traz muitas

implicações”, relata.

“Nós todos estamos com a lama

no coração, a lama pode não chegar

nos pés, na casa, mas chegou no coração,

tem um punhal no peito da

gente, não dá nem pra tirar que sangra

mais”. Esse é um dos depoimentos

publicados na tese de Débora,

trecho da fala de uma das atingidas

do crime de Mariana, moradora

de Paracatu de Baixo.

A relação do crime com todas

as dimensões do emocional revela

um sofrimento ético-político, explica

Débora. Segundo a psicóloga

e pesquisadora, as questões políticas

constroem sofrimentos no nível

Nós todos estamos

com a lama no

coração, a lama

pode não chegar

nos pés, na casa,

mas chegou no

coração”

subjetivo. “É importante demarcar

bem que esse é um processo de sofrimento

que é produzido em determinadas

condições, neste caso, a

partir de um crime – isso não é uma

coisa só do sujeito. E eu tenho discutido

que esse tipo de sofrimento psicossocial

das mulheres é produzido

a partir da intensificação das práticas

patriarcais que são perpetuadas

pelas empresas”, afirma.

Em Brumadinho, Ivanete Silveira

é uma dessas mulheres que têm o

cotidiano atravessado por tudo que

deixou aquele 25 de janeiro. Moradora

e trabalhadora da área da saúde,

Ivanete combinou de nos receber

na igreja Matriz. Percebi que

Ivanete, assim como Ana, também

tem sua forma de buscar o silêncio,

mesmo quando aberta a dividir

todos os ruídos que ela carrega

consigo. Ivanete conta que o crime

da Vale impactou toda a população

que vive ao largo do Rio Paraopeba.

“Não tem como não se abalar,

todas/os perdemos alguém conhecido.

Eu perdi amigos/as e isso mexeu

muito com a cabeça da gente”,

destaca. Ivanete ressalta o peso de

tantos óbitos para a cidade e, consequentemente,

para as relações criadas,

já que quase 1% de Brumadinho

foi vítima fatal do crime. “A cidade

não comportava tantos velórios.

Imagina como isso marcou a

nossa mente?”.

Ivanete, além de técnica em patologia,

é uma das diretoras do Sind-Saúde/MG

(Sindicato Único dos

Trabalhadores da Saúde de Minas

Gerais), integrante do Articulação

“Somos Todos Atingidos” e acompanha

de perto os desdobramentos do

Revista Elas por Elas - março 2020

93


/ Isis Medeiros

No comércio,

o que mais

aumentou foi

o consumo nas

farmácias”

crime, sobretudo com relação à saúde.

“Eu trabalhando, atendo uma

mãe que perdeu o filho, outro dia

um filho que perdeu a mãe. Isso é

todos os dias e, todos os dias, a gente

vive e revive. Uma ruptura muito

brusca, ninguém imaginava, esperava”,

lamenta. Segundo ela, é notável

que muitas pessoas estão desenvolvendo

problemas psicológicos e

psiquiátricos, além do aumento da

demanda infantil e adulta no CAPS

(Centros de Atenção Psicossocial).

Compreender de que distintas

formas os crimes de mineração impactam

a vida das pessoas é aprofundar

ainda mais sobre as ameaças

trazidas por essa atividade. Para

a psicóloga e pesquisadora Débora

Diana é preciso definir esse tipo

de crime como uma violência, que

se estrutura de diferentes maneiras.

Em primeiro lugar, seria uma

violência econômica, já que historicamente

somos saqueados da nossa

própria riqueza em favor do capital

estrangeiro. Para ela, outra violência

presente é a institucional, na medida

em que temos legislações ambientais

que cada vez se flexibilizam. “A

gente tem que entender que esses

processos de adoecimento, de sofrimento

ético e político, são construídos

a partir de questões materiais.

Quando você individualiza, muitas

vezes você culpabiliza, isola o sujeito.

Não é apenas com medicação

psiquiátrica que tratamos. É preciso

atenção, suporte, escuta qualificada,

cuidado em saúde mental”, explica.

Dados da Secretaria Municipal de

Saúde de Brumadinho comprovam

essa realidade. Desde o rompimento

da barragem, o número de suicídios

e de tentativas contra a própria vida

aumentou. Só no ano de 2019 foram

47 tentativas, praticamente o dobro

em comparação ao ano de 2017, antes

do crime. Outro dado é referente

ao consumo de antidepressivos

e ansiolíticos: um crescimento de

56% e 79%, respectivamente, com

relação ao ano de 2018. “Eu mesma

tomo, minha filha já está na terceira

medicação. No comércio, o que

mais aumentou foi o consumo nas

farmácias. Trabalhando na área da

saúde, é visível que houve um aumento

de atendimentos”, comenta

Ivanete Silveira.

Para a diretora do Sind-Saúde/

MG, o impacto sobre as mulheres

é perceptível, justamente por esta

carga a mais de estar no lugar do

cuidado. “O ser mulher é muito importante

e justamente por isso é tão

pesado. Tem a mulher trabalhadora

que perdeu a vida, tem a mulher

mãe que morreu lá e deixou os filhos,

tem a mulher mãe que perdeu

o filho lá, tem a mulher esposa que

perdeu o marido. Ou seja, são várias

mulheres neste sofrimento. Aí

tem a mulher que ficou e que cuida

do filho sozinha, tem a mulher que

tem que consolar os filhos, o marido,

o neto, toda a família; a professora

que vai dar aula para o aluno

94

Revista Elas por Elas - março 2020


Antes disso tudo,

eu não sabia o

que era lutar, com

esse processo fui

aprendendo mais

sobre o feminismo

também”

/ Carina Aparecida

/ Ivanete e a filha Clara se fortalecem na luta por direitos e justiça

que perdeu o pai ou a mãe; a mulher,

como eu, da área da saúde que

vai atender a outra mulher que também

sofreu a perda”, explica. Justamente

no momento em que relatava

as dificuldades diárias enfrentadas

pelas mulheres, a filha de Ivanete,

Clara Stelly, de 17 anos, chega.

Elas trocam um olhar cúmplice

e Ivanete logo pergunta à Clara se

ela também gostaria de falar. Com

segurança na fala, mas uma visível

tristeza no olhar, a jovem conta

que perdeu a melhor amiga no

crime. “Nas primeiras semanas eu

não conseguia me concentrar, chorava

o tempo todo. Tive que buscar

acompanhando psicológico”, relata.

Mineração e a sombra

do patriarcado

As denúncias das atingidas relembram

que o impacto da mineração

não chega só quando acontecem

crimes, mas propõe uma reflexão

de como este tipo de atividade

em si já é uma ameaça à vida. Segundo

Sônia Maranhão, do Movimento

de Atingidos por Barragens

(MAB), o processo de construção

de barragens desestrutura toda a

comunidade e representa um peso

ainda maior para as mulheres.

“Hoje, por exemplo, nós não temos

uma política nacional de tratamento

de atingidos por barragens, não

temos um órgão como o INCRA que

é responsável pela questão agrária,

por exemplo. Então quem determina

‘quem é atingido ou não’ é a própria

empresa. Imagina a relação da

empresa com as mulheres, com as

crianças. É completamente violador”,

afirma. Sônia explica que já

foram realizados estudos que comprovam

que existe um padrão de

violação de direitos humanos em todo

processo de construção de barragens:

direito de ir e vir, de participação,

de conseguir ter as informações,

já que tudo é colocado de

maneira muitas vezes superficial.

Resistências

Se os crimes da mineração refletem

as desigualdades e opressões

históricas, especialmente com

relação às mulheres, também provocam

uma resistência capaz de se

reinventar. Sara de Souza, que hoje

integra a Comissão dos Atingidos

do Córrego do Feijão, é uma dessas

mulheres referências na luta. “Eu

não consigo ficar parada, eu quero

ajudar. Quero sempre fazer alguma

coisa e nisso eu fui me envolvendo

e entrei na comissão. Hoje uma das

nossas demandas principais é que

tenhamos para onde ir. Fizemos

uma pesquisa e 80% da comunidade

não consegue mais seguir aqui.

É urgente. Não dá mais pra esperar.

Uma forma de amenizar nosso

sofrimento e também por nossa

segurança, por tudo que pode ainda

acontecer”, afirma.

A moradora de Brumadinho,

Ivanete Silveira, também reconhece

que entre tantas mulheres que

Revista Elas por Elas - março 2020

95


sofrem os impactos do crime em

Brumadinho, há a mulher militante,

como ela. “Porque nós, mulheres,

temos ido pra rua, para a porta

do Tribunal de Justiça, da Vale,

pra gritar por nossos entes queridos

que a Vale matou – sem querer

pagar pelo crime que ela cometeu.

São essas mulheres que estão indo

pra luta, somos maioria”, ressalta.

Assim como Sara, ela também confessa

que há dias em que a tristeza

fala mais alto e ela procura respeitar

o sentimento, mas sem deixar

abalar sua disposição para a luta.

“Você pode estar sem força, mas

quando vê um crime deste tamanho

acontecendo e muitas pessoas precisando

de apoio, você praticamente

se anula pra se doar. Porque nós

somos leoas e não é só pra defender

nossas crias”, diz.

Sara e Ivanete têm em comum

também a força que buscam no encontro

com outras mulheres afetadas

por crimes da Vale. Ivanete relata

que às vezes são sentimentos

antagônicos, porque é difícil e revoltante

ver que, depois de anos,

elas seguem lutando por direitos

básicos. “Mas também tem o lado

da esperança, de estar juntas, de

não passar por um problema sozinha.

Quando a gente se encontra é

muito bom, a gente adquire experiência,

troca as vivências. Isso faz

a gente crescer. E é muito bom a

gente mulher se sentir grande, empoderada,

colocando em prática

aquelas trocas. A presença dos filhos,

ver eles se formando também

na luta”, ressalta. Neste momento,

a jovem Clara concorda com a mãe

e conta suas formas de se integrar

/ Sara integra a Comissão dos Atingidos do Córrego do Feijão

à luta. Nos dias seguintes ao crime,

ela ia com a mãe para a quadra

onde chegavam as doações e essa

forma de se envolver foi ficando

cada vez mais forte. Hoje, a estudante

do ensino médio já pensa

“Quando você

vê um crime

deste tamanho e

muitas pessoas

precisando de

apoio, você

praticamente se

anula para se

doar”

em cursar Direito para seguir em

defesa de causas sociais. “Eu adoro,

hoje, participar dos movimentos

e com a morte da minha amiga,

vou lutar não só por ela, mas por

todas as famílias que perderam alguém.

Eu não vou deixar de lutar,

me sinto maravilhosa participando!

Antes disso tudo eu não sabia o

que era lutar, com esse processo fui

acompanhando, aprendendo mais

sobre o feminismo também. Quero

que a gente continue sendo protagonistas”,

revela.

Dayana dos Reis, moradora de

Bicas, também reconhece que a

dor está presente e forte, mas que

é necessário seguir, sobretudo as

mulheres, que trazem este instinto

do cuidado, mas também da luta.

“Para cada pessoa funciona de

um jeito. Minha mãe está buscando

a cura pelas plantas, eu entrei

para o MAB e isso tem me ajudado,

/ Carina Aparecida

96

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Isis Medeiros

/ Simone e a filha Sofia em um dos atos de denúncia ao crime em Mariana

pra não deixar que aconteça de novo

crimes como esse. E, entrando

pro movimento, comecei a ver que

existem pessoas iguais a você, que

foram vítimas também e que estão

resistentes, na luta. Já estamos passando

um momento tão difícil no

país, uma fase de tantas censuras.

Vamos seguir em frente, usar nossa

força, estender a mão. Sejamos

resistentes, transformando dor em

luta”, afirma.

Para a psicóloga e pesquisadora

Débora, mesmo com as dificuldades

encontradas nessa jornada,

a mobilização é considerada produtora

de saúde. “Claro que não podemos

romantizar. Traz sobrecarga,

mas também se torna um espaço

em que ela consegue falar, ser

ouvida. As ações coletivas produzem

saúde, quando conseguimos

sair do sofrimento individual e agir

coletivamente”, destaca.

E é a luta contínua dessas mulheres

que semeia inspiração. Simone

Silva, moradora do município de

Barra Longa e umas das atingidas

do crime da Samarco/Vale e BHP

Billiton em 2015, foi uma das entrevistadas

da Revista Elas por Elas

em 2017, na reportagem “Da lama

à luta”. Simone também é um desses

exemplos de quem transformou

toda a indignação em ação. Quatro

anos depois do crime, continua lutando

pela saúde da filha Sofia, de

cinco anos, que começou a apresentar

problemas respiratórios sérios

com a presença do rejeito na cidade.

“A situação da minha filha tem

se agravado. É uma guerra de gigantes,

porque eu não desisto. Pela saúde

da minha filha eu não vou desistir

de maneira alguma”.

Mesmo diante de todas as dificuldades,

Simone afirma que tem muito

orgulho da mulher na qual se

transformou depois desse tempo. A

Simone de hoje é uma mulher negra

empoderada, que sabe quais são

os direitos dela, que não tem medo

de lutar, que luta pelos seus pares.

Eu tenho muito orgulho da mulher

que eu me tornei hoje. Eu não vim

para contar a história, eu vim para

ser a história”, afirma. A moradora

de Barra Longa, que há quatro

anos tem sua vida transformada pela

ganância das mineradoras, compartilha

toda sua caminhada de luta

com as mulheres atingidas pelo

crime em Brumadinho. “Quando você

é atingida por mineradora, você

passa a guerrear, você passa a viver

uma guerra no território. Então, eu

quero dizer às companheiras que é

preciso e importante lutar, resistir -

vencer o machismo, todo o preconceito,

todo o racismo que a mulher

enfrenta. A situação mudou, nós somos

mulheres empoderadas! Incentivo

minhas companheiras a fazerem

a luta!”, ressalta.

Se o crime deixou marcas e consequências

profundas, a força das mulheres

atingidas mostra o quanto defender

a saúde, seja física ou mental,

também é resistência. Todas aquelas

que falam sobre essas dores, as que

escutam, as que se indignam mesmo

em dias de tristeza e tentam dia a dia

construir uma nova história, estão

criando novas trincheiras de luta e

cura. Agora, o silêncio de Ana, aquela

mulher que não quis falar para não

reviver suas dores, já não é mais silêncio.

Sua voz já ecoa entre tantas

outras. É um coro. Indígenas, quilombolas,

mães da terra. Filhas, trabalhadoras,

sobreviventes! É a dor se

transformando em luta.

Revista Elas por Elas - março 2020

97


Do outro lado da lente:

O olhar feminista que retrata

a realidade das mulheres

atingidas

/ Victor Moriyama

A realidade, o cotidiano, a mineração.

Enfim, a sociedade. Não

há espaço em que não seja necessário

lutar contra as reproduções

do modelo patriarcal e contra as

violações que dia após dia encontram

como alvo a vida das mulheres.

Do institucional ao simbólico:

relembrando uma frase que a militante

do Movimento de Atingidos

por Barragens - MAB, Sônia Maranhão,

disse à reportagem: “Não há

espaço vazio. Se a mulher não ocupa,

o homem está lá.”

Desde o crime da Samarco/Vale

e BHP Billiton em 2015, que um

desses tantos espaços chamam a

atenção: a cobertura midiática e

imagética desses crimes e de todos

os seus desdobramentos. Se as

consequências da mineração para

a vida das mulheres reproduz

a opressão histórica de gênero, a

representação dessas realidades

também pode reproduzir as mesmas

opressões. Mas e quando o

olhar carrega em si a luta por uma

sociedade livre de tantas violências

e desigualdades? É o caso da

fotógrafa mineira Ísis Medeiros,

que há anos acompanha de perto

o Movimento Atingidos por Barragens

e outros movimentos sociais,

dedicando um olhar especial ao

empoderamento feminino.

Ísis tem sido uma das principais

referências na cobertura do crime

de Brumadinho. Naquele mesmo

25 de janeiro sentiu um chamado

forte para ir ao local e acompanhar

de perto as dores e os dramas provocados

por mais um crime da Vale.

Suas fotos estão rodando o mundo,

e junto com elas uma denúncia

cada vez mais presente com relação

à injustiça e à impunidade.

Além de suas imagens, nesta reportagem

também publicamos os pensamentos

desta fotógrafa que, ocupando

um meio majoritariamente

masculino, constrói um olhar cada

vez mais necessário e potente.

Você sempre destaca a importância

de mulheres ocupando o

fotojornalismo. Por que é importante

também estar neste espaço?

É importante a mulher ocupar

todos os espaços. E o fotojornalismo

é uma área que sempre foi dominada

por homens. Sempre foram

os homens que contaram a História

através das imagens, que escreveram

sobre as mulheres e que representaram

as mulheres. Então, o que

eu defendo no fotojornalismo é que

as mulheres também tenham vez,

tenham lugar, tenham espaço para

contar suas histórias. Falo através

da fotografia, mas fotografia também

é História. Que a gente tenha

oportunidades iguais. Em uma redação,

por exemplo, onde tem 20

fotógrafos, às vezes tem uma ou duas

mulheres. Uma conclusão que

eu tenho chegado recentemente

é que os homens se inspiram nos

98

Revista Elas por Elas - março 2020


homens e as mulheres se inspiram

nas mulheres. Eu vejo os fotógrafos

homens perto de mim, eles sempre

têm referências em outros fotógrafos

homens, e quase nunca em nós.

E acho que isso também tem acontecido

com as mulheres. Eu pelo

menos tenho buscado hoje muito

mais referências femininas. Porque

eu vejo que a forma de contar,

a forma de falar, a forma de sentir o

mesmo assunto é muito diferente.

Eu também cheguei à conclusão

que, primeiro, eu sou vista como

mulher para depois ser vista

como profissional. Pra mim, isso

é sempre um desafio – de mostrar

que além de ser mulher, sou

profissional. E tem o fato também

das mulheres se verem mais representadas

quando estão nesses veículos,

quando nos vêm publicando,

várias mulheres me procuram,

me chamam para conversar, me

pedem apoio. Vejo como uma forma

de estimular outras mulheres

a produzirem seus materiais, contarem

suas versões da história.

No universo do simbólico,

quais os desafios para não

se reproduzir as narrativas

patriarcais?

Eu acredito que é praticar a

escuta. Temos que evitar que continue

essa forma que foi consolidada

na comunicação, na História,

em que a leitura principal é

sempre feita pelos homens – por

um homem rico, intelectual, branco.

Se queremos contar histórias

das pessoas que estão sentindo na

pele algum sofrimento, o principal

cuidado é a escuta e não silenciar

nunca. Se a pessoa precisa dizer

aquilo, se ela tá questionando algo,

é porque de fato aquilo tá mexendo

com ela e precisa falar, falar…

o quanto for preciso. E isso é uma

coisa que eu tenho, uma preocupação

muito grande no meu trabalho

que é de não interromper a fala,

de não deixar a pessoa intimidada

com alguma questão. Quando

você se coloca de igual para igual,

quando você senta ali lado a lado,

olha no olho da pessoa, consegue

ter um pouco mais de sensibilidade

com o que ela tá te dizendo, com

o que ela pode te dizer. Acho que a

fotografia e o jornalismo, às vezes,

acabam oprimindo essas pessoas,

porque elas não conhecem

muito desse universo e isso pode

ser um pouco violento para muitas

delas que não estão acostumadas

ou que nunca estiveram de frente

a uma câmera, de frente para

essa produção de imagem, produção

textual. Eu tenho uma preocupação

com isso, de humanizar, ser

cuidadosa com as formas de fazer.

As pessoas sentem, têm dificuldades,

elas têm medo, insegurança,

assim como qualquer pessoa tem.

Nada como empatia para fazer

com que as coisas fluam melhor,

com que elas sejam mais sinceras,

para que esses meios sejam

simplesmente uma ferramenta de

diálogo, de denúncia, de fala; mas

que elas tenham esse protagonismo,

para que possam construir as

narrativas do que para elas é interessante,

importante dizer. Aí, já

evitamos muitos problemas dessa

forma engessada que foi construída

ao longo da história.

Qual seu sentimento a cada

vez que esteve e está com sua

câmera frente a uma mulher

atingida?

Meu sentimento em retratar cada

mulher é empatia, sororidade,

cuidado, amor. Porque eu sempre

me coloco no lugar delas, como alguém

que poderia também ter sido

atingida. E penso sobre como estaria

minha vida hoje, se eu fosse

uma dessas mulheres que perdeu

casa, familiares, um modo de vida,

de trabalho, as relações sociais, as

relações de afeto etc. Eu sempre me

coloco no lugar delas para entender

qual o ponto de vista, qual a questão

que elas trazem, o que vivem.

Eu me identifico com as palavras,

eu me identifico com a forma como

elas trazem essas questões. Eu me

acho uma ferramenta para trazer

essas histórias, porque não deve ser

nada fácil para elas ter que enfrentar

tantas questões, tantos desafios.

Então, eu acredito que vejo com sensibilidade,

com cuidado. E acredito

que, de alguma forma, isso é sentido

também por elas. Entendem que eu

não sou como elas, porque eu não

vivo as questões que elas estão vivendo,

mas que eu me coloco como

uma delas. E eu acredito que o trabalho

consiga ser um pouco mais sensível

porque tem esse olhar cuidadoso,

que se coloca, que se joga ali,

que se precisar deitar e dormir junto

ali, se precisar de dividir espaço,

alguma coisa, eu vou estar ali. É assim

que eu enxergo essas mulheres

e quero continuar compartilhando

com elas essas situações para conseguir

ser mais sensível quando faço

algum dos meus trabalhos.

Revista Elas por Elas - março 2020

99


100 Revista Elas por Elas - março 2020

/ Carina Aparecida


Trabalho

Sem direito algum

Crise econômica e discriminações de gênero empurram mulheres para a informalidade

por Denilson Cajazeiro

A poucos metros da Praça Sete, o

marco zero do hipercentro de Belo

Horizonte, Léia Crizólogo, de 20

anos, anuncia os serviços de uma

loja de assistência técnica de celulares

e tablets. Com um cartaz nas

mãos, a jovem percorre um trajeto

de poucos metros, tentando capturar

clientes com problemas em

seus aparelhos tecnológicos. Por

esse trabalho, feito de segunda a

sexta, das 9 da manhã às 6 da tarde,

ela ganha 30 reais por dia, sem carteira

assinada nem direito ao gasto

com a passagem – dois ônibus

intermunicipais, que fazem o trajeto

entre Santa Luzia, onde mora, e a

capital. Recebe pelo dia que comparece,

e a rotina tem sido desgastante,

conforme relata à reportagem.

“Aqui é muito estressante, ainda

mais que a gente é mulher. Trabalhar

na rua com muitos homens,

moleques, na verdade, é muito

complicado. É muito assédio! Mas,

pra gente não ficar em casa sem dinheiro,

prefiro vir e ganhar alguma

coisa”, conta a jovem, cuja meta

no momento é sair dali. “Já estou

procurando outro emprego. Mas é

tão complicado quando a gente não

tem experiência na carteira. O que

mais ouço é que não tenho o perfil

da loja”, diz, ao apontar para as

tatuagens desenhadas pelo corpo e

para os piercings que adornam seu

rosto, como um dos possíveis motivos

das malsucedidas entrevistas

de emprego.

Assim como milhões de brasileiras,

Léia faz parte de um contingente

de mulheres empurradas para a

informalidade, em ocupações por

conta própria ou sem carteira assinada.

Por conta disso, elas perdem

Revista Elas por Elas - março 2020

101


direitos previstos em um emprego

formal, como férias, 13º salário, seguro

desemprego, FGTS, contribuição

previdenciária, entre outros

benefícios como uma maior facilidade

para adquirir um crédito bancário.

“Em cenários de crise, as mulheres

são mais propensas a aceitarem

empregos precários. Elas

são forçadas a buscar alternativas,

construindo seus próprios arranjos,

frente a uma ausência de políticas

públicas. Questiona-se menos,

ou seja, a sociedade vai legitimando

essas formas de inserção.

No final de 2018 e início de 2019,

do total de mulheres ocupadas,

44% estavam na informalidade. É

um trabalho absolutamente marginal,

não tem direito algum, proteção

nenhuma”, afirma a economista

Marilane Teixeira, que também é

pesquisadora de gênero no Centro

de Estudos Sindicais e Economia do

Trabalho, na Universidade de Campinas

(Cesit/Unicamp).

Segundo a especialista, desde

2015, a população economicamente

ativa teve um aumento de

três milhões de mulheres, que passaram

a procurar emprego, muito

provavelmente impulsionadas

pela crise. O problema é que, desse

total, dois milhões foram direto

para o desemprego, e um milhão,

para o trabalho informal. “Por que

o mercado está absorvendo esse

perfil de ocupação? Porque a economia

não cresce. Os setores estão

travados, os investimentos não estão

acontecendo. O que está sustentando

esse ritmo lento da economia

é basicamente o consumo das famílias,

e mesmo assim em um grau de

/ Carina Aparecida

102 Revista Elas por Elas - março 2020


insegurança muito grande, pois as

pessoas gastam tudo que ganham

no dia a dia, com transporte, alimentos,

aluguel”, explica Marilane.

Para o governo, no entanto, os

milhões de trabalhadoras informais

representam apenas mais um número,

como aqueles que os órgãos

oficiais divulgam com frequência,

sobre o total de desempregados no

país. Um dos mais recentes, aliás,

revelou um quadro pouco promissor

para elas. Por meio dele, ficamos

sabendo que o desemprego só não

foi maior porque o trabalho informal

cresceu Brasil afora. De acordo

com a Pesquisa Nacional por Amostra

de Domicílios do IBGE, a Pnad

Contínua, o percentual de trabalhadores

informais na população

ocupada chegou a 41,2% em outubro

de 2019, patamar recorde da série

histórica da pesquisa, iniciada

em 2012. São 38,8 milhões de pessoas

nessa situação, enquanto outros

11,9 milhões estão desempregados.

“Esse ambiente econômico

não é de compaixão. É de jogo, de dinheiro,

de quem ganha mais”, afirma

a economista Hildete Pereira de

Melo, professora da Universidade

Federal Fluminense (UFF) e coordenadora

do Núcleo Transdisciplinar

de Estudos de Gênero na instituição

de ensino.

Para piorar esse quadro, outro

número que não para de crescer

na área econômica é o do custo

de vida. Em 2018, segundo pesquisa

do Departamento Intersindical

de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos

(Dieese), o aumento

foi de 3,89%, que representa 1,45

ponto percentual maior que 2017.

O estado de desânimo da população

também está em ascensão, infelizmente.

A taxa de desalentados,

que se refere aos que desistiram

de procurar emprego, alcançou 4,8

milhões de pessoas, no final do segundo

trimestre de 2019 – 203 mil

pessoas a mais em relação ao primeiro

trimestre.

E, a depender das projeções no

cenário internacional, a situação

permanecerá instável por um bom

tempo. Segundo previsões da Organização

para a Cooperação e Desenvolvimento

Econômico (OCDE),

a economia mundial deve crescer

menos em 2019 e em 2020, a uma

taxa de 2,9% em ambos os anos,

após uma expansão de 3,6% em

2018. Caso sejam confirmadas essas

previsões, serão as taxas mais

baixas de crescimento da economia

global desde a crise financeira

de 2008, cenário que impacta ainda

mais a já fragilizada economia

Em cenários

de crise, as

mulheres são

mais propensas

a aceitar

empregos

precários”

brasileira. Para o Brasil, a OCDE

reduziu a previsão de aumento

de 2019 do Produto Interno Bruto

(PIB) de 1,4% para 0,8%. Em 2020,

a expectativa do órgão internacional

também foi revisada para baixo,

de 2,3% para 1,7%.

“Desde 2015, assistimos a um

desemprego galopante, que é o

mais longo da história do Brasil. O

problema é que essa crise é muito

mais delicada e repressora para

as mulheres. E, no nosso caso, o governo

mantém o mantra de vender

tudo e deixar o investimento para

o setor privado, quando na verdade

a história mostra que, para

sair do buraco econômico, o Estado

precisa investir. Temos agora

um governo que mantém a ideologia

neoliberal a todo custo e quer

nos convencer de que privatizar é

a saída. O que está se desenhando

é uma política que não tem a menor

complacência com a população”,

critica Hildete, em referência

às decisões da atual equipe econômica,

capitaneada pelo neoliberal

Paulo Guedes.

Enquanto o governo não sai da

inércia nem a economia deslancha,

as mulheres vão se virando como

podem. Também no centro da capital

mineira, bem perto do trabalho

de Léa, por exemplo, está a pequena

banca da vendedora Célia Brandão,

de 39 anos. De segunda a sexta,

ela comercializa, há três anos,

correias de chinelo, palmilhas e cadarços,

em uma jornada de quase

10 horas ininterruptas. O lanche e o

almoço são feitos ali mesmo, interrompidos

a cada cliente que chega

para comprar ou pesquisar os

Revista Elas por Elas - março 2020 103


/ Edson Lopes

preços. “Um é três, dois é cinco”,

informa a vendedora. “Mas esse é

sem brilho, você não quer com brilho?”,

pergunta, e em seguida começa

a procurar debaixo de um

conjunto de cadarços de cor escura.

Célia conta que, desde os 15

anos, trabalhou com carteira assinada.

O último emprego dela com

registro foi em um restaurante, no

bairro Grajaú, região oeste de Belo

Horizonte, onde se revezava entre

as tarefas do balcão e do caixa,

atendendo os clientes. Depois

de quase dois anos, a antiga dona

do local vendeu o estabelecimento

e a demitiu, e Célia não se sentiu

motivada a pedir emprego para o

novo proprietário. Por cerca de seis

meses, trabalhou como diarista e,

em seguida, foi para o comércio na

rua. “É muito cansativo aguentar

esse centro. É muito barulho, briga,

gritaria, ônibus o tempo todo,

buzina. A gente sai daqui com a cabeça

explodindo, mas adoro o que

faço, vale a pena. Tem muita gente

boa para conversar, um monte de

amigos”, relata Célia.

Pesquisadora da temática de gênero

e trabalho, a socióloga Ludmila

Abílio lembra que as mulheres

são, historicamente, o elo mais fraco

do mercado de trabalho. Em outras

palavras, elas sempre foram

mais atingidas por formas mais

“flexíveis” (leia-se: precarizadas)

e menos protegidas. “Isso é histórico.

Se você for verificar, vai ver

que, desde sempre, elas estiveram

envolvidas de forma precária no

mercado de trabalho, muito mais

expostas a essas formas de injustiças

do sistema. No contexto de crise,

isso se aprofunda”, afirma Ludmila,

que também é pesquisadora

no Cesit, Centro de Estudos Sindicais

e de Economia do Trabalho,

da Unicamp.

Contribui para esse cenário de

desigualdade o fato de que, mesmo

com a entrada delas no mercado

formal, as diferenças permanecem.

Apesar de uma pequena melhoria

nos últimos anos, elas ainda

recebem menos que os homens

para exercer a mesma função e

têm condições muito mais instáveis,

em termos de permanência

no emprego e progressão na carreira.

Conforme dados extraídos

da PNAD contínua, o rendimento

médio das mulheres ocupadas em

104 Revista Elas por Elas - março 2020


2018, na faixa etária entre 25 e 49

anos de idade, equivalia a 79,5% do

recebido pelos homens. Nas ocupações

com maior nível de instrução,

o quadro se repete. Entre os professores

do ensino fundamental,

as mulheres recebiam 90,5% do

rendimento dos homens em 2018.

Já entre os docentes do ensino superior,

o salário delas equivalia a

82,6% da remuneração deles.

Além disso, a taxa de desemprego

entre as mulheres brasileiras

foi de 14,1% no segundo trimestre

de 2019, percentual bem acima

da taxa de desocupação masculina,

que ficou em 10,3%, no mesmo

período. As mulheres também

se mantiveram como maioria na

população fora da força de trabalho

(64,6%) no país. “A taxa feminina

de desemprego historicamente

sempre foi maior que a masculina.

É muito mais fácil o mercado desempregar

uma mulher do que um

homem. Isso mostra o viés patriarcal

do capital. Por causa da maternidade,

elas são o tempo todo punidas”,

afirma a economista Hildete

Pereira de Melo. E um estudo

da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

corrobora o que diz a pesquisadora.

De acordo com levantamento

feito por economistas da instituição

de ensino, metade das mães

que trabalham é demitida até dois

anos após o fim da licença maternidade.

Por trás disso está a mentalidade

patriarcal de que os cuidados

com os filhos seriam exclusidade

delas, o que poderia resultar

em ausências no trabalho – cultura

machista que as afasta ainda

mais do mercado formal.

“Outro problema é elas não

conseguirem voltar à formalidade,

em um momento de retomada

econômica. Dificilmente elas vão

conseguir sair desse círculo vicioso.

Além disso, elas não vão conseguir

contribuir para a Previdência

Social, porque não conseguem reunir

recursos suficientes para isso.

Ou seja, elas não terão proteção,

se ocorrer algum acidente, algum

tipo de doença, elas não terão

auxílio nenhum. E dificilmente a

perspectiva de aposentadoria vai

estar colocada para essas mulheres,

porque elas vão ter espaços tão

grandes de não contribuição, que

depois não conseguem preencher

essas lacunas. Então você tem um

universo de efeitos. Sua vida pessoal,

afetiva, de perspectiva profissional

desaparece, porque você não

É muito mais

fácil o mercado

desempregar

uma mulher do

que um homem.

Isso mostra o

viés patriarcal

do capital.

Por causa da

maternidade,

elas são o tempo

todo punidas”

tem segurança do trabalho, não

pode fazer planos, segurança de

assumir uma dívida. Isso também

vai impactando na sociabilidade

delas”, aponta Marilane Teixeira.

“Uberização”

Em expansão no mundo, a chamada

“economia dos aplicativos”

representa outro fator que tem

acelerado o aumento da informalidade

entre as mulheres. Na prática,

significa a oferta de serviços

por meio de plataformas digitais, ligada

a uma grande empresa, mas

sem qualquer vínculo empregatício.

Nesse tipo de atividade, elas se

tornam responsáveis por traçar as

próprias estratégias, em um mercado

cada vez mais competitivo, o

que em geral resulta em jornadas

exaustivas e desgaste laboral.

Muitos neoliberais e entusiastas

desse modelo de trabalho o classificam

como uma prática de empreendedorismo,

porém a socióloga

Ludmila Abílio prefere chamá-lo

de “gestão da sobrevivência”. “Os

aplicativos estão potencializando

o quadro atual de exploração do

trabalho. No início, pode até parecer

bom. Mas depois, conforme

a concorrência vai aumentando,

a vida começa a piorar, e já não

tem para onde ir. Você já se tornou

autônoma, sem a proteção

legal prevista na formalidade”,

opina a socióloga, que defende a

aprovação de projetos de lei para

assegurar direitos a quem trabalha

com essas plataformas digitais.

“No momento, a gente está vendo

no mundo todo um debate sobre

como regular o trabalho por meio

Revista Elas por Elas - março 2020 105


desses aplicativos. Isso está em disputa.

Há formas de regulamentar

esse trabalho e isso é uma decisão

política. Não sabemos para onde

vamos. No Brasil, tudo leva para a

desregulamentação do trabalho”,

diz Ludmila Abílio (foto).

De fato, a julgar pela vontade do

presidente Bolsonaro, o caminho

no país é o da desregulamentação,

com uma consequente precarização

das condições de trabalho. Em

reunião com deputados do DEM,

no final de 2018, ele chegou a dizer

que as leis trabalhistas precisam

se aproximar da informalidade. Já

em sua primeira entrevista como

eleito, afirmou que o Brasil é um

país com direitos em excesso e, por

isso mesmo, a ideia dele era aprofundar

o alcance da reforma trabalhista,

aprovada no governo Temer.

Quando entrou em vigor, em

2017, o então ministro da Fazenda,

Henrique Meirelles, disse que as

mudanças na legislação iriam gerar

mais de seis milhões de novos

empregos. Dois anos depois, o cenário

piorou muito. O que se viu

foi a criação de postos de trabalho tem intenção de alterar o atual cenário.

“Qual é a saída, se ele não

precários, com menores salários e

menos benefícios, o aumento da tem um programa de investimento?

Qual é o mantra do Posto Ipiran-

informalidade, uma alta taxa de

desemprego e uma economia que ga [Paulo Guedes, ministro da Economia]?

Vender tudo e acreditar

não demonstra qualquer capacidade

de reação.

que os empresários vão investir.

“A crise agrava a situação [das Não investiram nem quando foram

mulheres], e a reforma trabalhista desonerados, quanto mais agora”,

bagunçou completamente o quadro

de direitos do trabalho no Braquisadora

Marilane Teixeira, a so-

questiona a economista. Para a pessil.

O pacto de 1943 [aprovação da lução passa pela mudança do modelo

de desenvolvimento: “a eco-

CLT] e a Constituinte de 1988 foram

rasgados”, denuncia a economista nomia precisa voltar a crescer e gerar

postos de trabalho protegidos e

Hildete, para quem o governo não

106 Revista Elas por Elas - março 2020

qualificados. Isso significa política

econômica e um projeto de nação”.

À espera de que o país abandone

a crise, Célia Brandão segue com o

comércio de seus cadarços, palmilhas

e correias de chinelo no centro

de Belo Horizonte. Mantém-se

firme no trabalho, porém descrente

com o futuro do país, pelo menos

no momento. “Da forma que está,

não tenho muita expectativa não.

Se o povo não tem dinheiro, ele não

compra. Enquanto não mudar esse

governo, não vai melhorar”, afirma

a vendedora.

/ Marcos Oliveira - Agência Senado


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Revista Elas por Elas - março 2020

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108 Revista Elas por Elas - março 2020

/ Nanci Alves


Realidade

Ventos de liberdade

no cárcere

Em meio à privação de liberdade, algumas experiências buscam criar espaços de

acolhimento, partilha e alegria, ajudando a minimizar a dor e a solidão diárias.

por Nanci Alves

Viver sem depender de ninguém

e agir de acordo com a

própria vontade, desde que não

prejudique outra pessoa. Isso é

o que a gente comumente entende

por liberdade, mas sabemos

que conquistar isso é uma utopia,

exatamente porque vivemos em

sociedade. Viver é um constante

prestar contas, pedir autorização,

se responsabilizar, pagar impostos,

seguir regras e leis, além, é claro,

de ser vigiado pelas lentes que nos

captam o tempo todo em qualquer

lugar que estejamos. A falta de liberdade

é sentida também quando

a gente se vê escravizado em um

trabalho, em uma relação, quando

é desrespeitado em nossos direitos

ou cerceado em nossas atividades.

Na realidade, somos números (CPF,

CI, etc) e sem esses códigos que nos

identificam, perdemos o direito

de falar, reclamar e até de existir.

Talvez liberdade seja uma palavra

que deva vir sempre entre aspas.

Por tudo isso, muita gente considera

que ‘liberdade’ é uma forma de

se sentir, um estado de espírito ou

uma condição emocional. Vendo

assim, parece mais verdadeiro a

gente dizer que sente alguns raros

e curtos, mas verdadeiros, momentos

de liberdade no dia a dia.

Mas e quando essa falta de liberdade

vai ao extremo, ou seja, na

prisão de fato? O encarceramento

tira da pessoa um dos seus direitos

essenciais e necessários à natureza

humana - o de ir e vir. A ausência da

liberdade culmina em diversos sintomas

como ansiedade, angústia e

Revista Elas por Elas - março 2020 109


até transtornos psicológicos. É possível,

em situação de cárcere, alguém

sentir-se livre em algum momento?

E como esse sentimento

pode ser importante para ajudar

a pessoa a passar por esse tempo,

recluso, sem adoecer? Questionamentos

como esses motivaram um

grupo de atrizes da Zula Cia de Teatro

(Talita Braga, Gláucia Vandeveld,

Kelly Crifer e Mariana Maioline)

a desenvolver um trabalho com

detentas de um complexo penitenciário

feminino, em Belo Horizonte.

Intitulado “Arte como possibilidade

de liberdade”, o projeto das

artistas queria, a princípio, oferecer

às detentas uma experiência

artística com momentos de afeto,

partilha, escuta e interação entre

todas e, a partir disso, ver como essas

atividades reverberam no cotidiano

dessas mulheres. Foram oficinas

de teatro realizadas durante

um ano, a partir do segundo semestre

de 2016. O desejo era proporcionar

momentos de liberdade para

as mulheres em situação de cárcere,

mas a experiência reverberou

também nas atrizes e isso resultou

na criação de um espetáculo teatral

- Banho de Sol -, que estreou no primeiro

semestre de 2019. A peça recebeu

o nome do intervalo de tempo

em que as oficinas eram realizadas,

ou seja, no horário de banho de

sol das detentas. “A experiência de

um ano foi muito intensa e nos provocou

a criação dessa obra, para

que a vivência pudesse fazer ecoar

as vozes dessas mulheres em situação

de cárcere”, conta Talita Braga,

roteirista da peça e uma das fundadoras

da Zula Cia. de Teatro.

Para a atriz Kelly Crifer, o trabalho

dentro do presídio foi rico e

a transformação visível. “Só o fato

de fazermos uma roda já incitava

várias questões, por exemplo, sobre

como respirar, a forma de pisar,

olhar nos olhos das outras, a escuta.

As alunas estavam disponíveis,

É possível, em

situação de

cárcere, alguém

sentir-se livre

em algum

momento?”

abertas e conseguiram, aos poucos,

lidar com coisas difíceis, cada uma

com seu próprio problema. O teatro

trabalha aquecimento do corpo,

sensações, articulação, fala, emoção,

trabalha com o jeito da gente

se movimentar. Isso é libertador.

Então, elas começaram, aos poucos,

a falar de suas histórias, um resgate

da memória, das emoções, dos

sonhos. Estavam confinadas pelo

crime que cometeram. Isso é duro,

pois é como se deixassem de existir

como pessoa, que tem família, que

tem filhos, dores, amores. Cada

mulher tem uma história, mas em

geral elas vivem situações difíceis.

Aí, a gente entende porque ela está

no cárcere. É o que acontece, no

próprio espetáculo, as pessoas se

emocionam porque veem que a gente

tá falando de um ser humano, que

teve um caminho e tá ali. Isso não é

defesa, é mostrar questões sociais,

de desigualdade, de classe”, afirma.

/ André Veloso

110

Revista Elas por Elas - março 2020


/ Nanci Alves

As duas horas semanais da oficina

de teatro passaram a ser muito esperadas

por aquele grupo. “Elas vivem

24 horas, diariamente, sem fazer

quase nada ali dentro. De repente,

chegam outras pessoas interessadas

nelas. A gente se abraça, trata todas

da mesma forma, sem perguntar

a ninguém o motivo de estar ali.

Tudo muito intenso e retorno rápido.

Só o fato de respirar devagar, por

causa dos exercícios teatrais, possibilitou

falar melhor e até a escutar a

outra. Tivemos depoimentos de mulheres

que diminuíram o consumo

de antidepressivos, porque criaram

consciência corporal e conseguiram

se manter nesse estado de menos ansiedade.

Para outras, o teatro foi importante

para que pudessem enfrentar

a mesmice e a solidão do cárcere

e, para as que se preparavam para

sair, foi importante para se fortalecerem

para encarar a sociedade aqui

fora,” afirma Gláucia Vandeveld.

As atrizes disseram ter aprendido

muito com a experiência. “Você

se coloca de frente pra você mesmo

e seus privilégios, vê um Brasil

desumano. Essa desumanidade é

gritante na cadeia. Somos um país

que encarcera pessoas pobres e

principalmente negras”, diz Kelly

Crifer ao acrescentar que elas acreditam

na pequena revolução. “A

gente conseguiu entrar e fazer este

trabalho. Pontuar o sistema penitenciário

no Brasil é importante,

mas nossa proposta era falar da

transformação humana possível

por meio da arte. Vimos resultados

concretos por parte delas e da direção

do presídio. Eles perceberam

nas detentas um aumento no interesse

por leitura além do resgate

das subjetividades de cada uma

daquelas mulheres, seus interesses

e histórias, seus gostos e particularidades

numa reconstrução e reencontro

com elas mesmas,” ressalta.

Momentos de liberdade

Vilma (nome fictício), que já esteve

em situação de cárcere, diz que

considera importante ter diversas

atividades para as mulheres dentro

da prisão, mas que isso não muda a

dura realidade, pois “o que adianta

ter tudo isso lá dentro e quando sai

aqui fora não ter apoio nenhum,

de ninguém? Você é simplesmente

uma ex-presidiária, sempre. A

sociedade discrimina, julga e não

ajuda. Ninguém te oferece uma

vaga de trabalho”, desabafa. Para

a jovem Brenda, 23 anos, foi muito

bom ter participado de uma oficina

de dança no presídio onde estava

em regime semiaberto, em setembro

de 2019. “Dançar é a coisa que

mais amo fazer na vida. No presídio,

às vezes a gente dança ouvindo

rádio e uma ensina para a outra colega”,

conta. A oficina que Brenda

fez foi oferecida pelo FestiFrance ,

Mostra Francesa de Cinema.

Além da programação composta

pela exibição de vários curtas e

longas para o público em geral, o

FestiFrance realizou oficinas de

dança e de improvisação teatral

para mulheres em regime semiaberto

em uma unidade prisional,

em Belo Horizonte. De acordo com

o diretor do festival, o cineasta Roberto

de Matos, o evento tem também

um caráter social, de levar arte

para outros espaços como favelas e

prisões. “Arte tem que ser para todo

mundo, pois propõe reflexão não

só sobre o mundo, mas sobre o espírito

humano. E eu me emociono

com a alegria das mulheres em situação

de cárcere, quando a gente

oferece arte para elas. Eu sei que

Revista Elas por Elas - março 2020

111


elas fizeram algo fora da lei para

estarem ali, mas não cabe a mim

julgamentos. O que eu posso fazer

é levar um pouco do meu trabalho

para oferecer momentos de alegria

e descontração. Acho que arte pode

contribuir com as mudanças necessárias

em cada um, no espaço, nas

relações. E tudo isso vai refletir na

sociedade como um todo”, diz.

Brenda confirma essas palavras:

“Por alguns minutos em me esqueci

de onde me encontro. Me senti

livre de novo. Estando reclusa, a

gente se esquece um pouco de tudo,

até da gente mesmo. E atividades

assim lembram a gente da existência

da rua, da nossa liberdade. Deveríamos

ter mais momentos assim

e com cursos profissionalizantes”.

A oficina do FestiFrance foi ministrada

pelo dançarino africano

(República do Benin) Gérard Nouatin

(foto), que levou para as detentas

um pouco da cultura do seu

continente. “Ministrei uma oficina

de dança urbana africana, que é um

conjunto de passos originários de

diversos países da África. Foi uma

experiência única. Dançamos também

forró, funk e samba em cima

das mesmas músicas. Dançar com

elas, vê-las rindo, curtindo um momento

de felicidade para o qual eu

também contribuí, foi maravilhoso.

Era como se a gente já se conhecesse

há tempos”, conta Gérard.

Para Mônica, 37 anos, a oficina

mudou sua energia. “Dançando, a

gente se alegra, passa o tempo, faz

exercícios físicos e perde caloria. Tudo

importante, porque a gente fica

muito deitada e ansiosa, por falta do

que fazer. A dança acalma, trabalha

nosso emocional. Queria que aqui tivesse

atividades esportivas para todas

nós. Gosto também da visita das

pessoas que vem trazer a palavra de

Deus. Participo de tudo”, diz.

A espiritualidade também é para

muitas mulheres encarceradas o

caminho de cura, do autoperdão,

de paz e da melhora da autoestima.

É comum nos presídios a visita

/ Nanci Alves

112

Revista Elas por Elas - março 2020


de pessoas de religiões diferentes.

Ana Lúcia, da Pastoral Carcerária

da Arquidiocese de Belo Horizonte,

visita semanalmente as mulheres

em situação de cárcere na capital

mineira e, pontualmente, na região

metropolitana. “Não podemos

nem queremos julgar ninguém.

Nós fazemos a visita, priorizando

a escuta e o acolhimento, refletimos

sobre a palavra de Deus e, por

meio desta, muitas renovam suas

esperanças”, conta. A Pastoral trabalha

na dimensão de um mundo

sem cárcere, com as pessoas livres,

com autonomia, dignidade e com

garantia dos direitos. Não é pelo

fato de a mulher estar presa que ela

pode ser vista e tratada com desrespeito,

discriminação, perdendo

sua identidade, sua dignidade. O

agente pastoral recebe formação,

informação e vários materiais para

ajudar na sua atuação no cárcere e

também com a família da mulher

presa. Buscamos estar junto em

oração e também ajudando-as em

outras necessidades. É um momento

de reflexão sobre outras formas

de viver com mais respeito a elas

mesmas. Muitas vezes são levadas

por este mundo consumista, onde

o Deus da atualidade tem sido o dinheiro

e, assim, vão se enveredando

por caminhos não felizes”, conta.

Segundo Ana Lúcia, algumas

mulheres se sentem tão tocadas

com a visita que falam que, quando

sairem da prisão, vão fazer a

formação para voltar ao presídio

como agentes de pastoral carcerária,

ajudando outras mulheres. Ela

explica que muitas não têm visita de

familiares e, por isso, a ajuda passa

também pelo aspecto material. “A

mulher presa é vulnerável e invisível,

suas necessidades básicas não

são atendidas e as mais profundas

são ignoradas. O papel da Pastoral

Carcerária é dar visibilidade a essa

questão e, mais que isso, lutar pela

transformação dessa triste realidade,

pelo desencarceramento das

mulheres”, acrescenta.

A presidenta do Grupo de Amigos

e Familiares de Pessoas em

Privação de Liberdade (GAFPPL)

de Minas Gerais, Maria Teresa dos

Santos, ressalta que, no presídio,

as necessidades especiais das mulheres

não são levadas em conta.

“O Estado dá absorvente, mas não

o suficiente para quem tem fluxo

menstrual mais intenso e não dá

sabonete, shampoo, calcinhas nem

sutiãs. A família precisa completar

e poucas recebem visitas de familiares

ou de seus companheiros.

Muitas vezes são abandonadas

A mulher presa

é vulnerável e

invisível, suas

necessidades

básicas não são

atendidas e as

mais profundas

são ignoradas”

por todos e discriminadas também

dentro do sistema, porque para a

nossa sociedade lugar de mulher

é dentro de casa, cuidando da família.

É ‘inadmissível’ uma mulher

infringir a lei. Assim elas sofrem

dobrado”, afirma.

Por tudo isso, Maria Teresa

defende a oferta de várias atividades

no presídio. “Elas ajudam a

presa se sentir pessoa novamente,

porque lá dentro todo mundo é

um número de cadastro. O governo

precisa incentivar voluntários

a darem cursos profissionalizantes,

com todo esquema de segurança

e material necessário, sem a

burocracia que hoje existe e que

já fez muito voluntário desistir.

No caso das mulheres, precisam

de cursos na área da construção

civil, pois já vi fazerem curso de

cabeleireira e depois não conseguirem

emprego, porque muitos

donos de salão acreditam que

suas clientes não terão confiança

em deixar suas bolsas enquanto

lavam um cabelo. Elas sempre são

vistas com discriminação, independente

do crime que cometeram. A

maioria delas é presa por tráfico

de drogas e, muitas vezes, porque

o companheiro já foi preso e elas se

viram obrigadas a assumir o papel

deles. Ou foram presas por pequenos

furtos e, na maioria das vezes,

para garantir a própria sobrevivência.

Se tiverem curso de pedreira,

acabamento, eletricista, soldadora,

as chances de conseguirem emprego

na construção civil é bem maior,

como acontece com os homens. E

muitas empresas preferem contratar

mulheres para acabamento, por

Revista Elas por Elas - março 2020

113


exemplo, porque consideram que

elas são mais sensíveis e caprichosas”,

diz Tereza dos Santos (foto) .

“Nesta semana encontrei, casualmente

na rua, com uma mulher

que saiu da prisão há algum tempo.

Ela estava com roupas que mostravam

muito o corpo. Então, eu

questionei onde estava indo e ela

me contou, bem constrangida, que

estava indo ‘fazer ponto’. E disse:

‘Todo mundo me discrimina, não

consigo trabalho e estou passando

falta. Se vender droga, vou presa.

Então, vou vender a única coisa

que tenho’, me disse. Eu fiquei muito

triste, pois ela não estava fazendo

aquilo porque queria e sim pela

falta de opção. Isso é uma realidade

que a sociedade precisa ver”, diz.

A unidade prisional Estêvão

Pinto/SEAPMG, em Belo Horizonte,

tem empresas parceiras que atuam

lá dentro e contratam algumas

mulheres. “É bom, pois ocupam

seu tempo, evitando adoecer e com

isso ganham dinheiro, mesmo que

pouco. Não têm carteira assinada,

recolhimento de INSS nem FGTS,

enfim, sem direitos trabalhistas.

Mas ajuda a combater a depressão

e a cada 3 dias trabalhado, diminui

um dia na pena”, ressalta.

A diretora-geral dessa unidade,

Márcia Lopes Ferreira, concorda

que é essencial a manutenção de

parcerias com profissionais e projetos

sociais dentro de uma unidade

prisional (UP). Segundo ela, é

fundamental propiciar momentos

de reflexão e de autocrítica, a fim

de identificar e desenvolver as potencialidades

de cada uma dessas

mulheres, que muitas vezes não se

/ Carina Aparecida

114

Revista Elas por Elas - março 2020


descobriram até que se envolveram

com a criminalidade. “Cheguei recentemente

a esta UP, por isso não

sei precisar ainda quantas oficinas

já foram realizadas aqui. Nossa intenção

é ampliar a fim de promover

a reinserção social das mulheres

em privação de liberdade. Sempre

acreditei e foco nesta proposta, não

há de desejar somente as grades; temos

que propiciar atividades que

ajudem a prepará-las para retomar

suas vidas com novos objetivos, mudança

de hábitos e outra rede de

contatos”, afirma Márcia Ferreira,

ao ressaltar que as próprias mulheres,

para se ocuparem, solicitam inserção

em atividades e que essa experiência

tem trazido um ambiente

mais calmo. “As custodiadas do regime

fechado participam de todos

os eventos promovidos pelos parceiros

e/ou pelo SEJUS/Depen. Vamos

inserir atividades de remição

por leitura e artesanato intracelas.

Assim vamos investir nesse tempo

ocioso e propiciar remições de

pena. Digo sempre que temos que

fazer nossa parte - somos responsáveis

pela execução da legislação que

propõe a ressocialização e, assim,

atuamos neste complexo com todas

que aqui se encontram. A escolha

é individual e a satisfação é poder

fazer a diferença na vida de quem

escolheu mudar de vida”, afirma.

Hora de desencarcerar

Mais do que promover diversas

atividades dentro das unidades

prisionais, é preciso que se mude a

forma de penalizar as pessoas que

cometeram pequenos delitos. É o

que defende o Grupo de Amigos e

Familiares de Pessoas em Privação

de Liberdade de Minas Gerais. Segundo

sua presidenta, Maria Teresa

dos Santos, o sistema não ajuda

ninguém a mudar sua vida. Ao contrário,

uma situação precária, com

privação da liberdade e de muitos

de seus direitos, o detento sai pior

de lá. “O sistema não ressocializa

ninguém. Aliás, em geral, as pessoas

que estão encarceradas nunca

foram socializadas na vida, por isso

chegam até ali. Não tiveram acesso

à educação pública de qualidade,

não tiveram água tratada, energia

elétrica, médico, dentista. Só serão

socializadas de verdade quando tiverem

direitos básicos garantidos”,

destaca Teresa, que defende outras

formas de penalizar, sem ser o cárcere.

“Muitas mulheres que estão

nas unidades poderiam estar trabalhando,

cuidando de seus filhos,

pagando suas contas. A autorização

para mães com filhos menores

A polícia não

sabe distinguir

um traficante

de um usuário,

quando o

usuário é negro

e pobre”

de 12 anos cumprirem pena em

casa não é regra, depende da compreensão

do juiz. Mas sabemos que

a justiça é seletiva. Os crimes são

iguais, mas a punição vem pela

cor da pele, pelo CEP, ou seja, vai

variar de acordo com a origem do

réu. O negro e a negra periféricos,

de baixa escolaridade, têm mais

chance de irem parar na cadeia do

que alguém da zona sul. A polícia

não sabe distinguir um traficante

de um usuário, quando o usuário é

negro e pobre”.

Teresa Santos acredita que precisamos

de política pública nessa

área. “Assim como sistema de cotas

para pessoas com deficiência,

cada empresa deveria ter que

oferecer um percentual de vagas

para pessoas que saíram da prisão

e que precisam de uma oportunidade.

Principalmente as empresas

que prestam serviço para o Estado

ou prefeituras, seja na construção

de viadutos, asfaltamento, as que

vendem insumos pra hospitais. Se

a pessoa sai do cárcere com emprego,

é bem provável que não vá

reincidir no crime. São raras as que

fazem isso, a maioria é muito tempo

depois, quando já pelejou muito

e não conseguiu trabalho. A sociedade

precisa entender que o preso

está contido, mas amanhã ele estará

contigo, nas ruas. Se a sociedade

não começar a reescrever essa

história, não vamos mudar nunca

esse sistema violento. É preciso que

os direitos sejam reconhecidos,

que existam políticas públicas que

atendam às necessidades básicas

da população. Com desigualdade,

nada muda”, afirma.

Revista Elas por Elas - março 2020

115


/ Luiz Silveira

116

Revista Elas por Elas - março 2020


Artigo

O encarceramento de mulheres

acusadas por tráfico de drogas:

desafios para as lutas feministas

e antirracistas

por Daniela Tiffany

O crescimento do aprisionamento

de mulheres, sobretudo a

partir de legislações que buscavam

coibir o uso e a comercialização de

drogas, contribuiu para uma maior

regularidade nas características

das acusadas e condenadas por crimes

dessa natureza no Brasil e no

mundo. De acordo com os dados do

Departamento Penitenciário Nacional

(2014), em torno de 68% das

mulheres privadas de liberdade foram

acusadas por tráfico. Em geral,

elas são jovens, têm filhos, solteiras,

com baixa escolaridade e sem

vínculo formal de trabalho. Em

relação à raça, cor ou etnia, duas

em cada três presas são negras,

representando 67% da população

prisional feminina, enquanto que

na população brasileira, segundo

dados do IBGE, a proporção de negros

é de 51%.

A predominância de mulheres

negras no ambiente prisional é

algo perceptível para quem conhece

essa realidade de perto, apesar

de não ser algo explícito dentro de

um contexto que justifica o aprisionamento

pelos atos praticados

e não, declaradamente, pelas características

das presas. As narrativas

formuladas pelos operadores

do Sistema e introjetada por elas

mesmas validam a condenação

como uma consequência da atividade

criminalizada, sem maiores

críticas aos processos de criminalização

intrínsecos ao Sistema de

Justiça Criminal.

Muito antes de serem privadas

da liberdade sob acusação de prática

criminal, características e condições

de vidas já as tornavam vulneráveis

diante de mecanismos de

Revista Elas por Elas - março 2020

117


controle e seletividade penal. O risco

de ser abordada com drogas e

acusadas por tráfico não é igual para

todas as mulheres. Pesquisas demonstram

que pessoas negras tendem

a ser condenadas por tráfico,

mesmo portando menores quantidades,

com porções inferiores a 100

gramas de droga. Em 84% dos processos

com até 10 gramas estas pessoas

foram condenadas a partir do

testemunho exclusivo de policiais.

Essa realidade, que atinge um

número cada vez maior de mulheres,

parece ser um problema ainda

circunscrito a elas e aos mais

próximos. Não é uma questão que

mobiliza permanentemente as

mulheres organizadas, a não ser

em datas emblemáticas em que as

presas são lembradas nas campanhas

para doação de absorventes

e outros itens de higiene pessoal.

Essa situação gritante permanece

invisibilizada, inclusive, na agenda

dos movimentos sociais e das lutas

feministas. Mas a condenação delas

tem a ver com todas nós.

Concepções arraigadas, mas

nem sempre declaradas sobre mulheres,

deixam as presas passíveis

dos julgamentos de todos e de todas,

não apenas pelo(s) crime(s)

cometido(s), mas pela vida que levavam

e por tudo mais que foi ou

é presumido sobre elas. Enquanto

algumas pessoas violam as leis sem

jamais serem acusadas ou processadas,

para outras não há possibilidade

de defesa qualificada, nem

justo contraditório, sequer a presunção

de inocência. São condenadas

antes mesmo de que tenha sido

oficializada a sentença.

Fazendo um simples comparativo

com a média nacional, de acordo

com as informações do Ministério

da Justiça, o crescimento da população

prisional feminina foi de 567%,

de 2006 a 2014, enquanto da população

masculina foi de 220%, no

mesmo período (Borges, 2018). Atualmente

são mais de 43.000 mulheres

privadas da liberdade no Brasil,

2.943 em Minas Gerais, até maio de

2019. Apesar de representar menos

de 4% do total da população prisional

mineira, o crescimento proporcional

do número de presas foi

muito significativo. Em 2003, contávamos

238 presas, isso indica um

crescimento de mais de 1.200%, em

menos de duas décadas.

Mais da metade das mulheres

presas em Minas são provisórias.

Dentre as que já foram julgadas,

/ Site Mulheres em prisão

118

Revista Elas por Elas - março 2020


boa parte delas chegaram primárias

ao banco dos réus, e receberam

penas de 5 a 8 anos, por crimes relacionados

ao tráfico de drogas. Para

além dessas acusações, os crimes

contra o patrimônio, roubo (artigo

157 do Código Penal Brasileiro –

14,8%) e furto (artigo 155 – 9,2%),

respectivamente, são os que mais

conduzem as mulheres à prisão.

Em sua maioria, são mulheres com

até 30 anos de idade (43%), negras

(66,2%), solteiras (66,0%), procedentes

de áreas urbanas (95%),

com ensino fundamental incompleto

(56%). A maior parte delas

são mães (70%).

Poucas são homicidas, lideranças

do tráfico ou alcançaram posições

de destaque no crime. Certamente

existem mulheres com essas

características, mas não significa

que estejam presas. Pelo contrário,

talvez sejam elas mais difíceis de

serem identificadas e capturadas

do que as demais. As que comumente

“caem” são aquelas que desempenham

funções periféricas e

pouco rentáveis. São mulheres que

vivem em contextos caracterizados

pela pobreza, criminalização, violências

e uso precoce e abusivo de

drogas consideradas ilícitas.

Muitos desses crimes são cometidos

para obtenção de pequenos

rendimentos econômicos, para a

própria manutenção do consumo

de drogas e/ou por benefícios advindos

da vinculação com pessoas

ligadas ao tráfico. Esses fatos são

reconhecidos, inclusive, por magistrados

que defendem a descriminalização

do consumo para uso

pessoal como medida para reduzir

o encarceramento no Brasil, sobretudo,

de mulheres. Mas não conseguimos

enfrentar esse debate com

maior objetividade e, por negociações

e investidas conservadoras,

ele foi retirado de julgamentos pelo

Supremo Tribunal Federal.

Muitas mulheres acusadas como

traficantes são também usuárias de

drogas, tanto que foram encaminhadas

para tratamento durante o processo

e/ou após a condenação penal.

Em geral, foram presas em batidas

policiais e/ou em cenas de venda

e uso. Tantas outras foram presas

sob a condição de “mulas”, identificadas

tentando transportar drogas

no estômago ou nas genitálias, para

dentro de estabelecimentos prisionais.

Muitas delas eram primárias,

sem antecedente criminal. Mulheres

facilmente capturadas pelo sistema

punitivo e rapidamente substituídas

em suas funções.

Em tempos de recuo nas políticas

de proteção social, as políticas

públicas de segurança terão reforçadas

as funções de controle e seletividade

penal. Mais do que proteger

bens individuais ou coletivos

(inviolabilidade do direito à vida,

direito à propriedade, etc.), a segurança

pública regula, através dos

mecanismos do sistema de justiça

criminal, comportamentos e condutas

de minorias tidas como discrepantes.

Somadas aos milhares

de homens presos, mulheres que

tantas vezes foram classificadas

como mais “um zero à esquerda”

estão sendo cada vez mais capturadas

e presas.

O debate sobre seletividade penal

de mulheres negras acusadas

de tráfico de drogas é delicado

em um país que se nega racista. É

ainda mais delicado quando nos

propomos a realizá-lo numa esfera

de neutralidade racial como

se pretende a Justiça. Tentamos

estender o manto da Democracia

Racial para encobrir a atualização

e reprodução de desigualdades,

distinções e discriminações que

caracterizam a nossa sociedade e,

consequentemente, o sistema de

justiça criminal. Para amenizar a

responsabilidades de tantos, tratamos

a criminalidade como culpa

delas e seguimos condenando-as

mulheres negras, pobres e periféricas

à prisão. Mudam-se os crimes,

permanecem as penas. A liberdade

ainda é um horizonte distante para

muitas de nós. Essa é uma questão

urgente para as mulheres, feministas,

comprometidas com a luta

antirracista. E para todos que se

comprometem com uma sociedade

mais justa e menos desigual.

/

Daniela Tiffany Prado de Carvalho

Mulher negra, feminista, especialista em

Segurança Pública e Justiça Criminal pela Fundação

João Pinheiro e Mestre em Psicologia Social pela

UFMG. Militante e pesquisadora nas temáticas de

gênero e promoção da igualdade racial.

Atualmente assessora parlamentar.

Revista Elas por Elas - março 2020

119


120 Revista Elas por Elas - março 2020

/ Mídia Ninja


Artigo

A PENA DO ABORTO

vale a pena?

por Talita Maciel

Vivemos, claramente, um momento

ideologicamente binário pelo

mundo: ser de esquerda ou de direita;

ser contra ou a favor de determinadas

práticas; se posicionar: ser

SIM ou ser NÃO. Alguns assuntos se

tornaram, inclusive, pautas de “esquerda”

ou de “direita”, e, pra serem

coerentes com o seu “lado” escolhido,

muitas vezes passam a ser

contra uma pauta pelo simples fato

de ter que estar de um dos lados,

desconsiderando a importância de

discussões científicas sérias e embasadas

sobre o assunto. O aborto

é um desses assuntos polêmicos. Fato

é que, independentemente de ser

contra ou a favor, ele existe, apesar

de ser crime no Brasil.

A questão do aborto perpassa

várias épocas da história da humanidade.

Nos primórdios das civilizações

oriental e greco-romana, o

aborto não era proibido. No entanto,

o delito da mulher nessa época

era considerado quando da desobediência

ao marido, ou seja, a punição

vinha se a mulher recusasse a

ter o filho contra a vontade do cônjuge.

Com o crescimento do Cristianismo,

as ideias morais relativas ao

aborto se transformaram ao longo

do tempo, de modo a regular ainda

mais os corpos femininos e manter

a dominação patriarcal. Foi atribuída

alma ao embrião, e o aborto passou

a ser crime contra o feto.

As relações de poder e dominação

do patriarcado sobre as mulheres

integra o sistema simbólico do

feminino e das normas sociais já estruturadas

e instituídas às mulheres,

que muitas vezes, por si só, já

as definem por sua função biológica

reprodutora e por sua anatomia

que se materializa a partir do útero.

A filósofa Márcia Tiburi relaciona

o útero como a metonímia da mulher,

ou seja, o destino da mulher

vem definido por seu órgão fragmentado,

fadado à reprodução.

Revista Elas por Elas - março 2020

121


As discussões sobre poder no estado

patriarcal e os locais a que homens

e mulheres foram destinados

na sociedade são importantes para

o entendimento da penalização

da mulher diante do aborto, bem

como as características que cada

espaço estabelece nas ações e nas

relações de poder entre tais atores.

O espaço público, historicamente

ocupado por homens, é universo

de poder, proporcionando voz e

diálogo a seus ocupantes; já o doméstico,

local destinado às mulheres,

é recluso, solitário, submisso e,

frequentemente, violento.

Ainda que nos séculos XX e XXI

as lutas feministas tenham forçado

avanços e conquistas significativas

nos direitos da mulher, o espaço

público e os lugares de poder ainda

pertencem majoritariamente

aos homens. Atualmente, no ano

de 2019, dos 513 deputados(as) federais

do Congresso Nacional brasileiro,

apenas 77 são mulheres, e,

das 81 cadeiras do Senado, 12 são

ocupadas por senadoras, totalizando

cerca de 15% da casa legislativa.

Esse número diz muito sobre quem

majoritariamente ocupa e exerce o

universo do poder e da legislação, e

a quem resta o universo doméstico

marcado frequentemente pela violência.

O Congresso Nacional é o local

onde se criam as regras e as leis

que irão reger o sistema coletivo. As

regras estabelecidas perpassam pelo

corpo real e simbólico da mulher.

Leis, projetos de leis e decretos que

tratam de temas como o do aborto,

planejamento familiar, saúde sexual

e reprodutiva da mulher ou assuntos

relacionados ao corpo e ao

livre arbítrio da mulher são discutidos

majoritariamente por homens.

Um dos papéis sociais atribuídos

à mulher, até mesmo por sua fisiologia,

é a maternidade, e o aborto

é uma prática que rompe com o

que lhe foi imposto. O aborto pode

ser fruto de uma gravidez indesejada,

que geralmente decorre de

falhas no processo contraceptivo.

A maternidade, da forma como é

concebida, é uma instituição atribuída

às mulheres antes mesmo

delas nascerem, por meio de normas

que advêm duma ancestralidade

que perpassa por gerações, com

limitações impostas pela sociedade

e pouca influência da decisão individual.

É o que o precursor da sociologia

Émile Durkheim definiria

como “Fato Social”, que engloba as

relações objetivas impostas e externas

ao indivíduo, mas que exercem

coerção sobre ele, independentemente

da sua vontade subjetiva. As

instituições regulam a consciência

coletiva, que por sua vez não pertence

ao indivíduo, mas o molda,

influenciando a própria consciência

individual. Na tentativa de

romper com o instituído, o indivíduo

sofre uma punição, ou seja,

a mulher ao tentar romper com a

maternidade/instituição, por meio

do aborto, gera penalidades legais;

se for mediante adoção ou doação

da prole, recebe condenação moral;

se o rompimento passar pela

recusa de nem mesmo engravidar,

há também a pena do julgamento

social por meio da intromissão na

sexualidade individual da mulher,

/ Mídia Ninja

122

Revista Elas por Elas - março 2020


que se nega a cumprir o papel social

de mãe. É o caso de movimentos de

mulheres como os intitulados “No

Mothers”, que surgiram numa tentativa

de desconstruir a maternidade

compulsória, tendo se unido

com o objetivo de atenuar as sanções

que sofrem decorrentes da não

aceitação social pela decisão individual

de não gestar um filho. São

lutas que advêm das penas sofridas

por negar a maternidade instituída.

Salvo os poucos casos previstos

por lei, as demais razões para interrupção

da gravidez estão fadadas à

clandestinidade. A lei do código penal

brasileiro de 1940 prevê o abortamento

legal apenas em casos em

que não houver outros meios de

salvar a vida da gestante e em casos

de gravidez resultante de estupro.

Somente em 2012 houve um entendimento

do Supremo Tribunal

Federal (STF) que reconheceu o direito

à interrupção da gravidez em

casos de feto anencéfalo. No entanto,

a decisão ainda não se tornou

lei, pois carece de aprovação pelo

legislativo brasileiro. Os três casos

em que o aborto é previsto legalmente

se dão quando a mulher é

vítima – seja de uma violência, ou

do mero acaso. Conceber o aborto

enquanto escolha, enquanto decisão

e autonomia de um corpo que

gesta, ainda parece ser algo ainda

distante da realidade brasileira, em

que pese ser um fenômeno global.

Muitos países, em sua maioria de

alta renda, já legalizaram a prática

do aborto, tornando mais seguros os

procedimentos e promovendo suporte

psicológico às mulheres que contemplam

abortar ou que abortam.

Segundo dados do Instituto Guttmacher,

estima-se que ocorram

cerca de 55,9 milhões de abortos

por ano, sendo que cerca de 25 milhões

destes procedimentos ocorrem

de forma insegura. A maioria

dos abortos inseguros ocorrem nos

países de média e baixa renda, onde

93% deles possuem legislações

restritivas à prática do aborto. Países

com leis liberais pró-aborto

estão localizados em quase toda a

Europa, América do Norte e Ásia.

Quanto mais restritivas as leis que

tratam o aborto em um país, mais

inseguros eles se tornam.

A segunda edição da Pesquisa

Nacional de Aborto 2016 (PNA)

estimou que, no Brasil, 1 em cada

5 mulheres alfabetizadas moradoras

de áreas urbanas já realizou

pelo menos um aborto. A metade

delas precisou ficar internada para

finalizá-lo. Salvo as causas do

aborto induzido amparado por lei,

a interrupção da gravidez no Brasil

se dá de forma clandestina e insegura,

colocando em risco a vida

de milhares de mulheres. Além do

óbito, as mulheres que submetem

aos procedimentos inseguros podem

sofrer outras consequências,

como disfunções físicas e/ou mentais

decorrentes do abortamento.

A pesquisa também apontou que o

perfil das mulheres que abortam é

comum: a maioria tem filhos, religião,

são de todas as classes sociais

e níveis educacionais, no entanto,

há maior frequência entre as mulheres

pretas, pardas, índigenas e

de menor escolaridade que vivem

na região norte, nordeste e centro-

-oeste do país.

Criminalizar o aborto, ser

contra, reforça a manutenção de

um poder vigente, que, além de

impor a maternidade às mulheres,

expõe muitas delas à ilegalidade,

privando-as do poder de decisão

sobre gestar ou não um filho, sem

o devido suporte de uma equipe

psicossocial e médica, e, caso decida

sobre o abortamento, realizá-lo

em ambiente médico-hospitalar

adequado, de qualidade e seguro.

A sociedade já permite o aborto,

porém apenas quando a mulher é

vista como vítima, mas cerceando

assim seu direito a escolhas, sua

autonomia e colocando a mulher

em um lugar subjugado de culpabilização

e dependência. Seja qual for

a escolha da mulher diante de uma

gravidez indesejada, haverá uma

pena vivida por um corpo solitário,

silenciado e culpabilizado. Afinal,

por que a sociedade brasileira

aceita o aborto em apenas alguns

casos, mesmo diante de números

expressivos que corroboram práticas

seguras para o abortamento?

Vale a pena?

/

Talita Maciel é Assistente Social,

mestre em Promoção da Saúde e

Prevenção da Violência/FM/UFMG

Revista Elas por Elas - março 2020

123


/ Istock Photos

124

Revista Elas por Elas - março 2020


Violência

Por trás das

estatísticas de

feminicídios Desmanche do Estado gera aumento

da violência contra a mulher

por Débora Junqueira

Maria, Antônia, Mariele, Juracy,

Elisa, Ágata, Sônia, Carolina,

Leila, Beatriz, Tainara, Josefina...

Qualquer nome poderia representar

uma das 1206 vítimas de feminicídio

no Brasil, crime que teve

um aumento de 4% em 2018. Conforme

o Anuário Brasileiro de Segurança

Pública, divulgado em setembro

de 2019, o perfil médio das

mulheres assassinadas, vítimas de

violência de gênero, é de 30 anos,

negra (61%) e com, no máximo, o

ensino fundamental (70,7%), o que

revela também a vulnerabilidade

social. Apesar desse perfil, a violência

de gênero atinge mulheres

de todas as classes sociais, etnias e

idades, inclusive crianças.

O levantamento sobre violência

sexual, com dados de 2018, mostra

que quatro meninas de até 13 anos

são estupradas por hora no país.

Segundo o levantamento, foram

66.041 registros de violência sexual

em 2018, sendo 81,8% do sexo feminino,

53,8% tinham até 13 anos e

50,9% eramm negras. Os 180 estupros

por dia representam um crescimento

de 4,1%, em relação a 2017.

Por sua vez, a violência doméstica

gera um registro a cada dois minutos,

representando 263.067 casos

de lesão corporal dolosa. Um

crescimento de 0,8% em 2018. A

maior parte dos agressores é de

conhecidos das vítimas e, frequentemente,

tem acesso ao ambiente

doméstico ou nele habitam. Situação

que torna complexo o enfrentamento

da violência doméstica.

Quem desejar acompanhar as estatísticas

em tempo real pode acessar

https://www.relogiosdaviolencia.com.br/#

Revista Elas por Elas - fevereiro 2020

125


Violência atinge mais

mulheres negras

O Atlas da Violência 2018,

publicado pelo Instituto de

Pesquisa Econômica Aplicada

(Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de

Segurança Pública, aponta uma

possível relação entre machismo e

racismo: a taxa de assassinatos de

mulheres negras cresceu 15,4%, na

década encerrada em 2016. Ao todo,

a média nacional, no período, foi

de 4,5 assassinatos a cada 100 mil

mulheres, sendo que a de mulheres

negras foi de 5,3 e a de mulheres

não negras foi de 3,1.

Mais que fazer parte de estatísticas

chocantes, essas mulheres

têm sentimentos, dores e traumas

que vão acompanhá-las por toda

a vida e afetar a estrutura de toda

a família. A diarista Fátima (nome

fictício) tem vivido esse drama

na família. Moradora da região

metropolitana de Belo Horizonte,

ela acompanha com apreensão

o caso de duas enteadas vítimas

de abuso sexual por parte do

padrasto, que ameaçava matar

a mãe das crianças caso ela o

denunciasse. Após a denúncia, o

agressor está solto e a mãe corre

o risco de perder a guarda dos

filhos, que foram acolhidos em um

abrigo. Ao mesmo tempo, Fátima

descobriu que a sobrinha também

foi estuprada. “São meninas com

menos de 15 anos. Uma delas,

quando visitou a minha casa, disse

que sentia dor. Eu ainda não sabia

de nada. Perguntei a ela se queria

algum remédio e ela respondeu

que era uma dor que não ia passar

com nada”, relata.

Dados sobre violência

de gênero – 2018

Feminicídios

• Crescimento de 4%;

• 1206 vítimas;

• Ápice da mortalidade se

dá aos 30 anos;

• 61% são negras;

• 70,7% tinham no máximo

o ensino fundamental;

• Em 88,8% dos casos, o autor foi o companheiro

ou o ex-companheiro.

Em Minas Gerais, em 2017, houve 150 casos

de feminicídios. Em 2018, esse número

passou para 156 casos, aumento de 3,4%.

Violência doméstica

• Um registro a cada 2 min;

• Crescimento de 0,8%;

• 263.067 casos de lesão corporal dolosa;

Violência sexual

• crescimento de 4,1%;

• 4 meninas de até 13 anos são

estupradas por hora;

• 66.041 registros em 2018;

• 81,8% do sexo feminino;

• 53,8% tinham até 13 anos;

• 50,9% negras;

• 48,5% brancas;

• 180 estupros por dia.

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública (setembro/2019)

/ Istock Photos

126

Revista Elas por Elas - março 2020


Lei do Feminicídio

Desde que a Lei do Feminicídio

(lei nº 13.104/2015) entrou em

vigor, os homicídios por razão de

gênero subiram 62,7%. Discute-se

muito sobre as causas desse verdadeiro

genocídio de mulheres, ponderando

se houve um recrudescimento

da violência ou o aumento

da visibilidade desse tipo de crime.

De acordo com estudo da Comissão

Econômica para a América

Latina e o Caribe (Cepal), vinculada

à Organização das Nações Unidas

(ONU), a cada dez feminicídios

registrados em 23 países da região

em 2017, quatro ocorreram no Brasil.

Naquele ano, pelo menos 2.795

mulheres foram assassinadas, das

quais 1.133 no Brasil.

A rigor, o feminicídio é um agravante

do crime de homicídio, uma

circunstância específica que transforma

o ato em homicídio qualificado.

A pena para o crime vai de 12

a 30 anos de reclusão. Mas pode ser

elevada em até 50%, caso o crime

seja praticado na presença de filhos,

pais ou avós da vítima, durante

a gestação ou nos três meses imediatamente

pós-parto e ainda contra

vítima menor de 14 anos, maior

de 60 anos ou com deficiência.

Segundo revela o Ministério Público

de São Paulo, somente 4% das

vítimas de feminicídio no estado tinham

procurado a polícia para relatar

abusos. Uma pesquisa realizada

pela teóloga Valéria Vilhena, no

curso de doutorado da Universidade

Presbiteriana Mackenzie de São

Paulo, constatou que 40% das mulheres

vítimas de agressões físicas

e verbais de seus companheiros se

declaram evangélicas. “Quando essa

mulher vai procurar o pastor para

dizer que ela está sofrendo violência,

normalmente não recebe apoio,

o pastor aconselha mais submissão,

em nome de Deus: ‘seja sábia’, ‘fique

calada’, ‘não enfrente’, explica Valéria,

em entrevista ao Uol.

Além de crenças pessoais, não

se pode desconsiderar que há vínculo

emocional com os agressores,

e as mulheres ainda têm medo de

ficar desamparadas, caso o companheiro

seja preso ou sofra alguma

sanção que o leve a perder a fonte

de renda, uma vez que é a mulher

que normalmente se responsabiliza

pelos filhos.

Sem denúncia, supõe-se como

justificativa a impossibilidade de

acionar as medidas protetivas previstas

na Lei Maria da Penha nº

11.340/2006). Mas o que se vê é a falta

de resposta do Estado em garantir

Quando essa mulher

vai procurar o pastor

para dizer que ela está

sofrendo violência,

normalmente não

recebe apoio, o pastor

aconselha mais

submissão, em nome

de Deus: ‘seja sábia’,

‘fique calada’, ‘não

enfrente”

os direitos humanos das mulheres

por falta de investimento na implementação

de fato dos equipamentos

e medidas previstas na Lei Maria da

Penha, que completou 13 anos em

2019 e representa um grande avanço

no combate à violência doméstica

no Brasil. Segundo dados divulgados

pela Agência Senado, no Brasil,

menos de 10% dos municípios contam

com delegacias especializadas

de atendimento à mulher.

Banalização da violência

Para a professora Terezinha Avelar,

diretora do Sinpro Minas, secretária

adjunta de Mulheres da Central

dos Trabalhadores e Trabalhadoras

do Brasil (CTB-Minas) e presidenta

do Conselho Municipal dos

Direitos das Mulheres (CMDM), as

crescentes estatísticas de crimes

contra as mulheres refletem o momento

político atual. “Há uma naturalização

da violência e apoio a

comportamentos machistas. As mulheres

sofrem com o alto índice de

desemprego e não há investimentos

para ampliar e fortalecer os mecanismos

de proteção às mulheres em

situação de risco à violência, assim

como para o preparo de quem acolhe

essas mulheres no dia a dia nas

delegacias. Há casos em que a mulher

espera muito tempo para ser

atendida e acaba desistindo de fazer

a denúncia”, alerta.

Em Belo Horizonte, Terezinha

Avelar participou das discussões sobre

o primeiro Plano Municipal de

Equidade de Gênero, que faz parte

da plataforma “Cidade 50-50: todos e

todas pela igualdade”, da Organização

das Nações Unidas. O plano tem

Revista Elas por Elas - março 2020

127


/ Mídia Ninja

como um dos eixos o enfrentamento

da violência contra a mulher. Segundo

ela, a pactuação entre as secretarias

municipais é um passo importante

na execução de políticas com

o olhar diferenciado para a equidade

de gênero.

Ela acredita que o empoderamento

faz com que as mulheres

busquem romper os padrões de

dominação machistas. Por sua vez,

os homens que acreditam ser donos

dos corpos das mulheres respondem

com agressões. “A violência

contra a mulher precisa ser revertida

na educação, e é urgente

barrar projetos como o “Escola

sem Partido” e iniciativas que desqualificam

as lutas de gênero, pois

representam um grande retrocesso

para a sociedade”, afirma.

Diante de todos os motivos,

é preciso destacar o desmanche

das políticas públicas de enfrentamento

à violência, a falta de

investimentos para essas políticas,

a mentalidade conservadora dos

governantes e medidas como a

flexibilização da compra e do porte

de armas no Brasil, que anunciam

uma tragédia ainda pior para a

vida das mulheres em relação à

violência de gênero.

“Os governos não têm levado a

sério o combate à violência doméstica,

e grande parte dos operadores

desse sistema também não estão

preparados para lidar com a complexidade

do tema. O contexto de

desemprego e insegurança e até

mesmo um clima mundial tenso

trazem consequências, como o

aumento da violência”, ressalta a

antropóloga, pesquisadora e escritora

francesa Verónique Durand.

Ciclo perverso

Conforme aponta Lívia de Souza,

cientista política e pesquisadora do

Nepem/UFMG, “a Lei Maria da Penha

prevê, para além do afastamento do

agressor, políticas de prevenção,

centros de referência, casas abrigo,

delegacias e varas especializadas,

formando uma rede de proteção a

mulheres vítimas de violência. Isso

nunca ocorreu de maneira integral,

e o que temos visto na atualidade é

o desmanche das políticas conquistadas,

o que leva ao aumento da

violência”. Segundo a pesquisadora,

não há como combater a violência

contra as mulheres sem o comprometimento

por parte do Estado. [

Leia a entrevista na página ao lado]

Em audiência sobre o aumento

do feminicídio (em Minas, foram

registrados 156 casos em 2018),

realizada no dia 8 de março de

2019, na Assembleia Legislativa de

Minas, a professora Marlise Matos,

coordenadora do Núcleo de Estudos

e Pesquisas Sobre a Mulher (Nepem/

UFMG), enfatizou algumas questões

importantes que envolvem o

problema da violência de gênero. “A

violência vem de um ciclo perverso,

no qual os homens mantêm

privilégios, numa sociedade politicamente

hierárquica. O agressor

pode até ir preso, mas a origem

da violência é intocada. No Brasil,

40% dos lares são sustentados por

mulheres. Há 100 anos o feminismo

fala do privilégio masculino e nada

acontece”, desabafou.

128

Revista Elas por Elas - março 2020


Entrevista

Lívia de Souza

/ Carina Aparecida

“Quando o

Estado promove

discursos de

ódio, há um

impacto direto

na violência”

Para a cientista política Lívia de

Souza, doutoranda em Ciência Política

e pesquisadora no Núcleo de

estudos e pesquisa sobre a mulher

(NEPEM/ UFMG), o aumento da violência

de gênero tem relação direta

com o aumento da desigualdade social.

Ela chama atenção para o fato

de que, além do aumento do número

de casos de feminicídios, há uma

maior percepção da violência em

função de políticas como a Lei Maria

da Penha. Ao abordar o papel do

movimento feminista, da educação

e da mídia, ela defende que há uma

responsabilidade pública no combate

à violência.

Mesmo com todos os avanços legais

e institucionais, a violência contra

as mulheres continua ocorrendo

em grande escala. As estatísticas

mostram números alarmantes de

feminicídios. Qual a razão para o

aumento desses crimes e quais os

gargalos das políticas de enfrentamento

à violência contra a mulher?

Dois aspectos são importantes

quando falamos dos números de

feminicídios e de violências contra

as mulheres: o aumento real e uma

maior percepção da violência. Em

uma sociedade que voltou a aprofundar

desigualdades, não somente

entre homens e mulheres, mas

também de classe, raça e orientação

sexual, espera-se um aumento

da violência de uma maneira geral.

Quando o Estado, por meio de seus

representantes, autoriza – e promove

– discursos de ódio, há um impacto

direto na violência.

De outro lado, a construção de

políticas voltadas à proteção das

mulheres mudou a percepção da violência

de gênero em nossa sociedade.

Havia um discurso de que “em briga

de marido e mulher ninguém mete a

colher”, o que, felizmente, deixou de

ser aceito. A Lei Maria da Penha é a

lei mais conhecida do Brasil. Ainda

que a lei e outros mecanismos não

sejam suficientes para a proteção

das mulheres, o amparo legal e as

mudanças sociais levam a um maior

número de denúncias. Nesse mesmo

sentido, a lei nº 13.104/2015 passou

a incluir feminicídio como uma forma

de homicídio qualificado. Essa

mudança legal deu visibilidade aos

assassinatos de mulheres em razão

de gênero, o que antes se perdia no

universo de outras violências.

Revista Elas por Elas - março 2020

129


Não há como combater a violência

contra as mulheres sem

o comprometimento por parte

do Estado. A Lei Maria da Penha

prevê, para além do afastamento

do agressor, políticas de prevenção,

centros de referência, casas

abrigo, delegacias e varas especializadas,

formando uma rede de

proteção a mulheres vítimas de

violência. Isso nunca ocorreu de

maneira integral, e o que temos

visto na atualidade é o desmanche

das políticas conquistadas, o que

leva ao aumento da violência.

Como você analisa essa batalha

moral com “demonização do conceito

de gênero”, além da instalação

de um governo que tem como

ministra da área uma mulher que

banaliza a violência ?

O debate sobre gênero vai muito

além da questão sobre livre orientação

sexual, tão combatida pelo governo.

Quando falamos de educação

de gênero, falamos sobre o cuidado

de si, não somente no sentido

do respeito à orientação sexual

própria e dos demais, mas também

de prevenção de abusos. O debate

sobre sexualidade é necessário.

A maioria dos casos de abusos

sexuais na infância é cometida por

pessoas próximas às crianças, pais,

tios, padrastos e avós. Se a família

não debate o tema em casa e a escola

também não o faz, como a criança

perceberá o abuso? A quem ela

irá denunciar?

Declarações como as da ministra

fortalecem os estereótipos de

gênero. A mensagem é que as meninas

vestem rosa e são frágeis e

os meninos vestem azul e são viris.

Ideias assim endossam um universo

de violências, no qual as mulheres

se percebem dependentes

de homens, ainda que eles sejam

agressores.

Qual o papel do movimento feminista

e da sociedade, na conjuntura

política atual, em defesa

das políticas de enfrentamento à

violência, para que a Lei Maria da

Penha seja de fato efetivada e que

o Estado dê conta de proteger os

direitos humanos das mulheres?

O papel do movimento feminista é

de resistência. Ainda que o Bolsonaro

tenha sido eleito, as ruas mostraram

a força das mulheres com

o “ELE NÃO”. Campanhas, manifestações,

ações junto ao judiciário

e a organismos internacionais são

necessários para frear os retrocessos

que o governo vem implementando.

Os movimentos sociais precisam

se unir para combater o desmanche

da democracia.

Se na década de 70, os homens

justificavam os feminicídios como

/ Mídia Ninja

130 Revista Elas por Elas - março 2020


“legítima defesa da honra”, hoje

ouvimos o ministro da Justiça dizer

que os homens agridem as mulheres

porque se sentem intimidados

com o empoderamento feminino.

Como você avalia essa opinião

no contexto colocado pelo ministro?

Ainda há uma culpabilização

da mulher pela violência sofrida?

A fala do ministro Sérgio Moro segue

a do governo do qual ele faz

parte. A mensagem é de que as mulheres

devem ser dóceis e não provocar

os homens. No caso, a provocação

é exigir a divisão das tarefas

domésticas, igualdade salarial, viver

sem assédio e liberdade sexual.

Infelizmente, ainda há uma relativização

da violência sofrida pelas

mulheres, como se algo a justificasse.

Se a mulher é estuprada,

questiona-se a roupa e se ela havia

bebido. Quando recebe um salário

menor, fala-se sobre o tempo

despendido com gravidez e filhos.

Quando sofre violência doméstica,

pergunta-se sobre ciúme gerado no

parceiro. Há uma lógica cruel pela

qual as mulheres devem prevenir a

violência sofrida por elas.

Como você vê as iniciativas que

trabalham com os homens agressores?

É possível uma prevenção

a partir da educação e da mídia?

Acredito que seja importante

trabalhar com homens agressores,

isso é um importante instrumento

para que a violência não volte a

ser reproduzida. Mas isso deve ser

realizado de maneira paralela à responsabilização

dos agressores. Vejo

com muita preocupação iniciativas

que tentam restabelecer relações

violentas sem que o agressor seja

responsabilizado. Sou contrária à

aplicação de justiça restaurativa

em casos de violência doméstica,

eis que é uma relação desigual de

poder, na qual uma das partes se

sente intimidada pela outra.

A educação é o principal instrumento

de combate à violência

contra as mulheres. Educação

não apenas no sentido escolar, mas

por meio de campanhas e debates

públicos sobre o tema. A mídia

tem um papel importantíssimo

nisso. De pouco adianta um meio

de comunicação se dizer contrário

à violência contra as mulheres se

seus produtos passam uma mensagem

contrária. Novelas, músicas

e comunicadores influenciam o

público. Não é aceitável a romantização

de relacionamentos abusivos

e de violência sexual. Há uma

responsabilidade pública no combate

à violência.

A educação

é o principal

instrumento

de combate à

violência contra

as mulheres”

O desafio de

reeducar os

homens para

reduzir a

violência

Em 88,8% dos casos de feminicídio,

o autor foi o companheiro ou o

ex-companheiro, segundo o Anuário

Brasileiro de Segurança Pública.

O inconformismo com o fim do relacionamento

costuma ser apontado

como um dos principais motivos.

De acordo com as diretrizes

para investigar, processar e julgar

com perspectiva de gênero as mortes

violentas de mulheres, consideram-se

condições estruturais das

mortes violentas de mulheres por

razões de gênero: o sentimento de

posse, o controle sobre o corpo e

autonomia da mulher, a limitação

da emancipação profissional, econômica,

social e intelectual da mulher,

seu tratamento como objeto

sexual e a manifestação de desprezo

e ódio pela mulher.

A Lei Maria da Penha trabalha

toda a cadeia da violência, do princípio

ao fim. Isso significa prevenir,

trabalhando a educação, e prever

a assistência à pessoa agredida, à

família. Um aspecto da lei pouco

conhecido é a recomendação de

que o juiz deve determinar o comparecimento

obrigatório do agressor

a programas de recuperação

e reeducação.

Para estudiosos da área, é um

grande desafio construir uma cultura

de prevenção à violência

Revista Elas por Elas - março 2020

131


doméstica, principalmente quando

o foco são os homens. “O debate

sobre gênero, masculinidades e

violência doméstica e de gênero,

apesar da visibilidade nos últimos

anos, ainda é recente no Brasil, e

não está isento de tensões e contradições.

De igual maneira, o lugar do

homem na dinâmica conjugal e nas

relações de gênero também aponta

para um debate permeado por polêmicas,

sobretudo no que se refere

à perspectivas mais punitivistas ou

outras que advogam pela importância

da ressignificação das masculinidades

como aporte fundamental

para relações mais equitativas

e, consequentemente, com menos

violências”, descrevem os pesquisadores

Adriano Beiras, Marcos

Nascimento, Caio Incrocci, no artigo

Programas de atenção a homens

autores de violência contra as mulheres:

um panorama das intervenções

no Brasil, publicado pela Revista

Saúde e Sociedade (vol.28, no.1,

São Paulo, Jan./Mar, 2019).

O artigo também destaca o estranhamento

dos próprios homens

autores de violência quanto à discussão

sobre questões relacionadas

às relações de gênero trazidas

por essas iniciativas. Muitos se recusam

a trabalhar as temáticas

elencadas ou desistem de participar

dos programas.

/ Jurien Huggins

“O silêncio dos homens”

A cada 10 homens, diz a ONU,

sete lidam com um tipo de distúrbio

emocional em algum nível. O debate

sobre masculinidade é abordado

no Documentário O silêncio dos

homens. Um filme sobre as dores,

132

Revista Elas por Elas - março 2020


qualidades, omissões e processos

de mudança dos homens, fruto de

uma pesquisa com 40.000 homens,

coordenada por Guilherme Valadares,

do site Papo de Homem.

Conforme descreve Guilherme

em um post, “o hábito de ignorar

os sentimentos e o estado da saúde

mental como um todo faz com que

o sexo masculino se comporte como

uma bomba a ponto de explodir”.

O site faz um debate sobre o que

é ser homem. “Observamos como

esse silêncio está na raiz de vários

outros problemas. Silêncio aqui tem

sentido amplo. É emocional, verbal,

social, tanto individual como coletivo.

Estamos falando de uma rigidez

psicológica, que se torna um vulcão

quando associada aos ‘mandamentos

da masculinidade’: ser bem-sucedido

profissionalmente, não agir

de modos que pareçam femininos,

não levar desaforo pra casa, dar em

cima das mulheres sempre que possível,

não expressar emoções, entre

outros”, explica.

“Quem está em paz consigo

mesmo não agride ninguém”

A antropóloga Verónique Durand,

professora e coordenadora

do curso de pós-graduação Atendimento

a pessoas em situação de violência,

da Universidade Redentor,

no Rio de Janeiro, defende que os

autores de violência devem ser punidos

conforme as leis, mas também

que as iniciativas educativas

cheguem a esses homens para prevenir

os casos mais graves de violência.

Segundo ela, “a reprodução

social da violência só pode ser mudada

com educação”.

Verónique explica que o esforço

tem que ser desde a educação dos

meninos em casa com divisão das

tarefas domésticas, até a preparação

dos operadores da Justiça. “Os policiais

não estão preparados. Há muitos

casos em que as mulheres assassinadas

tinham ido à delegacia para

denunciar seus agressores, mas ouviu

que não era grave e, quando voltou

para casa, foi morta”, relata.

“O que ocorre é que, muitas vezes,

as mentalidades não acompanham

as leis. Os homens sabem das

punições, mas continuam achando

que a mulher é propriedade deles e

podem fazer o que querem. As mulheres

estão tendo cada vez mais

espaço, mais autonomia e isso causa

frustração para os homens machistas.

O desemprego que atinge o

país também faz com que a autoestima

deles fique baixa. Isso não justifica,

mas a reação deles, às vezes,

é a agressão”, acredita.

“Eu coordenei um trabalho com

homens na França. Eles tinham

três meses de atendimento psicológico

e uma orientação dentro de

várias temáticas para entender de

onde vinha a violência. Normalmente,

eles também haviam sido

vítimas de violência na infância.

Às vezes, eram até encaminhados

para o trabalho de constelação familiar,

para entender a sua história

e evitar a reincidência. Se não forem

tratados, chega uma hora em

que eles se transformam em bomba-relógio

e quem sofre as consequências

são as pessoas mais próximas,

como a companheira e os filhos,

cuja violência eles vão reproduzir”,

descreve a antropóloga.

Agressores

terão que

ressarcir

gastos da vítima

com o SUS

A Lei Maria da Penha ganhou

três novos parágrafos

com a Lei 13.871/19, publicada

em 17 de setembro de

2019, que obriga o autor de

violência doméstica ou familiar

a ressarcir todos os danos

causados por suas condutas,

como, por exemplo,

os gastos da vítima com médico

particular. E, ainda, o

ressarcimento dos gastos

com o SUS.

Segundo a nova lei, o agressor

terá a obrigação de ressarcir

os gastos relativos

aos equipamentos de monitoramento

e segurança, a

exemplo de botão de pânico,

usado para acionar a polícia,

em caso de perigo representado

pelo agente. Os

recursos para o ressarcimento

não podem atingir o

patrimônio da mulher e dos

seus dependentes, ou seja,

o dinheiro vai ter que sair do

bolso do agressor. Ademais,

a lei proíbe que os ressarcimentos

sejam usados como

atenuantes ou para fins de

substituição da pena.

Revista Elas por Elas - março 2020

133


/ IstockPhotos

134

Revista Elas por Elas - março 2020


Artigo

A subversão como estratégia

de enfrentamento da violência

contra as mulheres

por Jaqueline Morelo

Em 2018, ocorreram 1.206 feminicídios

no Brasil. Adriana Aparecida

de Siqueira, Camilla Peixoto

Bandeira, Débora Goulart Isabel,

Cristina Moraes, Mercedes Vargas,

Simone Lanzoni e outras 1.200 mulheres

foram assassinadas, em sua

maioria (88,8%) por companheiro

ou ex-companheiro, porque tentavam,

desesperadamente, dar um

basta à situação de violência que

enfrentavam no único lugar do

mundo que poderia lhes oferecer

segurança e aconchego.

O feminicídio é uma circunstância

qualificadora do crime de homicídio

e está tipificado na Lei 13.104,

promulgada pela presidenta Dilma

Rousseff, em 9 de março de 2015.

É feminicídio o crime que envolve

violência doméstica ou familiar

ou menosprezo ou discriminação à

condição de mulher. Por considerá-

-lo homicídio qualificado, a lei o colocou

na lista de crimes hediondos,

com penas mais altas.

Apesar da queda de 10,8% no

número total de homicídios em relação

a 2017, os feminicídios prosseguiram

em escala ascendente em

2018, com um crescimento de 4%.

Considerando-se também os casos

do ano anterior, ocorreram 2.357

feminicídios em dois anos. A cada

oito horas, uma mulher foi morta

por violência de gênero ou por violência

doméstica, índice que faz o

Brasil ocupar o quinto lugar entre

os países que registram as maiores

taxas de feminicídio do mundo.

Os dados, do 13º Anuário Brasileiro

de Segurança, mostram ou-

Revista Elas por Elas - março 2020

135


tros números aterradores. Meninas

menores de 13 anos representam

mais da metade (54%) das vítimas

dos 66 mil estupros registrados

no país no ano passado. Quatro

meninas de até 13 anos são estupradas

por hora no Brasil. A violência

sexual as atinge geralmente em

suas casas e é praticada por pais,

padrastos, tios, vizinhos ou primos.

Se considerarmos os dados do

Atlas da Violência 2019, que apresenta

dados gerais de homicídios

femininos no Brasil, foram cerca de

13 assassinatos por dia em 2017. Ao

todo, 4.936 mulheres foram mortas

naquele ano, maior número registrado

desde 2007. O estudo também

mostrou um crescimento expressivo,

de 30,7%, no número de homicídios

de mulheres durante a década

2007-2017.

No país que registra uma denúncia

por violência doméstica a cada

dois minutos, é imperativo combater

essa verdadeira epidemia. Ainda

que o Anuário do Fórum Brasileiro

de Segurança Pública afirme que as

origens e razões das oscilações da

violência letal intencional são ainda

desconhecidas, já existe um entendimento,

por parte de pesquisadores

da área, de que os vetores dessa

situação inaceitável são dois aspectos

correlacionados: a cultura patriarcal,

centrada na figura masculina,

que legitima a subordinação das

mulheres, e as desigualdades históricas

entre homens e mulheres.

Tal perspectiva feminista e

marxista do patriarcado, introduzida

no Brasil pela socióloga Heleieth

Saffioti, sustenta que, embora

o patriarcado seja anterior ao

capitalismo, os dois sistemas aparecem

articulados na modernidade

como formas de produzir e de

reproduzir a vida a partir de relações

de dominação e de expropriação,

em especial dos corpos e da autonomia

das mulheres.

Desse modo, o triunfo do capitalismo

revelaria uma das formas

do patriarcado, que tem mostrado

sua pior face na crescente “feminização”

da pobreza. Fato é que, ainda

que as mulheres brasileiras sejam

mais escolarizadas do que os

homens - 23,5% e 20,7%, respectivamente,

com ensino superior -, o

rendimento médio delas equivalia,

em 2016, a 76,5% dos rendimentos

dos homens, segundo o relatório

“Estatísticas de gênero: indicadores

sociais das mulheres no Brasil”

(IBGE, 2018).

Além disso, a desigualdade proveniente

da estrutura econômica

continua sendo a primeira razão da

pobreza no país. Com 50 milhões de

brasileiros vivendo nessa situação

(renda familiar de R$ 387,07 ou

US$ 5,5 por dia), segundo a Síntese

dos Indicadores Sociais – SIS 2017

136

Revista Elas por Elas - março 2020


(IBGE), a situação é mais presente

em domicílios com liderança feminina

(mulheres sem cônjuge), com

filhos até 14 anos (55,6%), e mais

expressiva nesse tipo de arranjo

formado por mulheres pretas ou

pardas (64%).

Se considerarmos, portanto, esses

dois aspectos (patriarcado e capitalismo)

como se apresentam, de

forma articulada, temos as frentes

de enfrentamento à violência contra

a mulher, ainda desconsideradas

pelas políticas públicas atualmente

existentes, como o Plano Nacional

de Política para as Mulheres,

que enfatiza a prevenção, o apoio

e o fortalecimento de serviços de

atendimento à mulher vítima de

violência e o cumprimento da Lei

Maria da Penha – certamente necessários

– , sem, contudo, alcançar

a raiz do problema.

Em relação ao primeiro, a organização

familiar patriarcal que alimenta

o imaginário social e normatiza

relações de poder masculino

no país, desde a invasão portuguesa,

é preciso dizer que, por tratar-

-se de invenção humana, é possível

/ Istock Photos

questioná-la e caminhar em outra

direção, uma vez que outras formas

de organização social foram

concebidas ao longo da história.

Nesse sentido, é importante ressaltar

conquistas femininas, como

os dispositivos constitucionais que

exigem igualdade de direitos entre

homens e mulheres e, também, a

existência de novas formas familiares,

como as famílias homoafetivas

e as famílias monoparentais femininas,

que estão inventando outros

papéis familiares e estabelecendo

novas experiências com potencial

explosivo sobre a hegemonia

do discurso patriarcal.

Contudo, se considerarmos que

o patriarcado não se resume a um

sistema de dominação modelado pela

ideologia machista situada essencialmente

nos campos político e ideológico,

sendo, também e essencialmente,

um sistema de exploração

cujo principal beneficiado é o homem

rico, branco e adulto, é imperativo

subverter a ordem capitalista,

em busca de um sistema econômico

socialmente mais justo e igualitário.

/

Jaqueline Morelo é jornalista, cientista

social e mestre em Ciência Política.

jaquelinemorelo@gmail.com

Revista Elas por Elas - março 2020

137


/ Carina Aparecida

/ Nathalia Lipovetsky (Coletivo Grupa)

138 Revista Elas por Elas - março 2020


Esporte

Com a bola toda

No campo ou na arquibancada, mulheres contra a discriminação no futebol

por Débora Junqueira

Entre as torcidas organizadas de

futebol é comum caravanas para

acompanhar o time em jogos fora

da cidade. Patrícia Muniz, 25 anos,

já passou pela aventura de participar

dessas caravanas num ônibus

de 43 lugares, repleto de homens

e somente três mulheres. “Eu tive

medo, mas até que foi tranquilo”,

conta a torcedora do Clube Atlético

Mineiro, que é apaixonada por

futebol desde criança e não perde

nenhum jogo do Galo no estádio

Independência, em Belo Horizonte.

Nada a impede de torcer, mesmo

se tiver sozinha e correr o risco de

ouvir um “fiu-fiu” ou ser assediada

pela rapaziada no estádio.

Segundo ela, o assédio às mulheres,

principalmente sozinhas, é comum.

“Já ouvi o cara falando ‘vou

nesse material aí’, referindo-se a

mim, fiquei chocada. Mas há homens

que falam: ‘respeitem a menina’”,

conta a estudante de engenharia

mecânica, que já foi acompanhar

jogo da seleção brasileira

feminina até fora do país.

Patrícia atualmente escreve

sobre futebol para o blogue Galo

Delas. Ela conta que seu interesse

pelo esporte surgiu aos onze anos

de idade, acompanhando os jogos

da Copa das Confederações. “Sofri

com a resistência da família, por

ser menina. Demorou uns quatro

anos para a minha mãe me deixar

ir ao Mineirão com o meu tio.

Dizia que era perigoso, mas o meu

irmão podia ir. Quem mais me

apoiou foi a minha avó, que até

fez um bolo com a marca do meu

time estampada, quando fiz 14

anos. Tanto a minha mãe como a

minha avó nunca foram ao estádio

de futebol, mas hoje a presença de

mulheres dentro e fora do campo

é crescente”.

Revista Elas por Elas - março 2020 139


/ Arquivo

A realidade

dentro do

estádio é um

retrato da

sociedade”

Desigualdade de gênero,

raça e classe

Houve uma ascensão das mulheres

na sociedade e do feminismo, portanto,

no futebol não poderia ser diferente.

Para Patrícia, as mulheres

sempre gostaram de futebol, mas

hoje, com as conquistas feministas

na sociedade, há melhores condições

para que elas possam viver

essa paixão. Por outro lado, esse

crescimento não acompanhou a diversidade

de classe, raça e orientação

sexual. “Os estádios estão mais

elitizados, por conta dos preços altos

dos ingressos, e o público se

modificou. Quando a gente fala da

presença da mulher nos estádios,

está se referindo, majoritariamente,

a mulheres brancas e de classe

média. Nas torcidas organizadas, a

presença feminina sempre existiu,

mas ainda segue apagada”, avalia.

“O futebol foi o lugar onde eu reconheci

a minha branquitude. A realidade

dentro do estádio é um retrato

da sociedade, há os setores elitizados

e os populares. O tratamento

que as pessoas recebem é muito

diferente. A forma como me tratam

é muito diferente da forma como

tratam um cara negro da periferia,

até na hora da revista para entrar.

O estádio é um local de aprendizado

para mim”, complementa.

A torcedora do Cruzeiro Esporte

Clube Rafaela Freitas, 34 anos,

também faz parte da crescente torcida

feminina assídua nos estádios

mineiros. Segundo ela, a crença de

que estádio de futebol é um lugar

violento ainda espanta algumas

mulheres. “Quando era criança,

perguntei ao meu pai porque ele

só levava o meu irmão ao estádio e

ele respondeu que eu nunca havia

pedido para ir. Depois disso passei

a ir aos jogos mais tranquilos e percebi

que as pessoas naturalizam a

ideia de que o futebol não é um espaço

feminino”, afirma.

Estudos acadêmicos confirmam

a percepção das torcedoras. “A inserção

da mulher no contexto tipicamente

masculino do futebol

é normalmente apresentada com

este viés: enquanto seres que embelezam

o espetáculo e que sua presença

se dá por concessão. É importante

chamar a atenção para o fato

de que o futebol não é apenas um

espaço esportivo, mas, também, revelador

de construções socioculturais”,

salienta a pesquisadora Bárbara

Gonçalves Mendes, em sua

dissertação de mestrado em Psicologia,

pela UFMG, intitulada “Flávias,

Fernandas e Marias, sem chuteiras:

a inserção de mulheres em

140 Revista Elas por Elas - março 2020


Torcedoras

usam redes

sociais para

debater sobre

o machismo no

futebol”

/ Marcos Túlio Barboza

torcidas organizadas de futebol em

Belo Horizonte”.

A autora discute a falta de visibilidade

da presença feminina

nos estádios de futebol, destacando

a importância de se falar sobre

gênero e sexualidade. “Os valores

que dão origem e derivam dele

mantêm uma lógica que nem sempre

é clara, mas que visa legitimar

uma série de questões sociais, sendo

a desigualdade de gênero uma

delas”, cita em um trecho sobre teorias

que explicam a identificação

nacional do futebol com lócus masculino,

que naturalizam a não participação

da mulher na categoria

‘torcedor de futebol’.

É importante lembrar que as

mulheres já foram até mesmo proibidas

por lei de praticar futebol

(além de outras modalidades). Entre

os anos de 1941 e 1979, vigorou

uma legislação proibitiva sob o argumento

de que tais atividades

eram “incompatíveis com sua natureza”

e, durante um longo período,

falar de futebol feminino era falar

de uma prática ilícita e ilegítima.

Ode às Marias

Em 2016, a jornalista Rafaela e

outras três amigas decidiram ter

um canal nas redes sociais para dialogar

com outras mulheres e sobre

o clube para o qual torcem, abordando

outros temas minimizados

no ambiente do futebol. Elas criaram

o Podcast das Marias (podcastdasmarias.com).

O nome Marias é

uma apropriação da tentativa de

xingamento de cunho machista e

homofóbico à torcida do Cruzeiro

por torcedores do time adversário.

“A gente quis resgatar e problematizar

o fato de se usar o nome Maria

com tom pejorativo. No início teve

o estranhamento dos próprios cruzeirenses,

achando que a gente estava

dando moral para o xingamento.

Mas, atualmente há, inclusive, a

orientação da CBF de punir as torcidas

quando há atos preconceituosos

nos estádios”, explica.

“O que mais me incomoda é

quando um cara, na hora do jogo,

ignora as mulheres próximas para

comentar o lance com outro homem

que mais está distante. Nós

não somos somente acompanhantes,

entendemos de futebol. A gente

vai sozinha ou com as amigas e temos

os nossos rituais também. Somos

torcedoras e gostamos de futebol

pelos mesmos motivos dos

homens. A ideia de debater futebol

nos podcasts é uma forma de

nos legitimarmos como torcedoras

e incentivarmos outras mulheres a

Revista Elas por Elas - março 2020

141


saberem que o lugar delas é onde

quiserem”, complementa Rafaela.

“Mulheres merecem viver e jogar

como qualquer atleta do planeta!

Passe o batom sangria! Amamos

e servimos a rainha Marta! E a todas

as outras rainhas que vestem a

camisa da seleção e jogam com força,

com raça e gana sempre — apesar

de todos os problemas enfrentados

por elas dentro e fora do campo.

O programa de hoje é uma ode

a essas Marias que misturam a dor

e alegria”. Assim começa a locução

do podcast das Marias, número

48, numa referência à artilheira

Marta. Na Copa do Mundo de futebol

feminino, a jogadora chamou a

atenção por ter entrado em campo

usando um batom escuro. Em outro

momento, após um gol, deu o recado

de que estava sem patrocinador

apontando para chuteira preta com

um símbolo azul e rosa, que faz parte

de uma campanha pela igualdade

de gênero chamada Go Equal, da

ONU Mulheres. A expectativa é que,

com mais investimentos, o futebol

feminino se popularize e as jogadoras

tenham os mesmos salários e

valorização dos jogadores.

/ Carina Aparecida

Arquibancada em 2017 e 2018. Iniciativa

Mulheres de arquibancadas

Ainda são grandes as limitações na arquibancada). Elas também reclamam

142 Revista Elas por Elas - março 2020

e demandas das torcedoras de futebol.

Em alguns jogos, as mulheres

são proibidas de assisti-los no estádio.

Isso acontece nos jogos considerados

de “guerra”, ou seja, com

maior rivalidade e brigas entre as

torcidas. Em alguns casos, elas não

podem pegar em certos instrumentos

musicais ou bandeirar (movimentar

a grande bandeira do time

de condições desfavorá-

veis nos banheiros públicos, da falta

de policiais mulheres e até mesmo

da falta de produtos destinados

ao público feminino como uniformes

nas lojas dos times.

Essas e outras questões foram

temas de discussão em encontros

nacionais e estaduais promovidos

pelo Movimento Mulheres de

que juntamente com ou-

tras dão o tom feminista ao esporte

mais popular do Brasil.

Machistômetro

Idealizada pela ex-deputada estadual

Manuela D’Avila, uma cartilha

informativa distribuída nos estádios

para ajudar a identificar os diferentes

tipos (e graus) de violência


contra a mulher ganhou o nome de

machistômetro. As situações descritas

são bem comuns e vão desde

questionar se a mulher entende

mesmo de futebol até aproveitar

o momento de comemorar um gol

para passar a mão nas minas.

Por todo o país, há grupos de torcedoras

que focam nas ações contra

o machismo e a homofobia nos

estádios. Grupo Vascaínas contra

o Assédio, Tricoloucas, Torcedoras

do Esporte Clube Bahia, Movimento

Toda Poderosa Corinthiana

(MTPC) são alguns dos diversos coletivos

femininos no Brasil.

Grupa: combate ao machismo

Em 2016, surgiu em Belo Horizonte

o coletivo Grupa, formado

por torcedoras do Atlético Mineiro

que se posicionam contra o

machismo, o racismo, a homofobia

e a elitização do futebol. O grupo

tem apresentado um crescente número

de seguidores nas redes sociais.

“Estávamos sendo ironizadas

no twitter, sendo chamadas de ‘panelinha’

e ‘grupinho’. Uma amiga,

então, respondeu que, na verdade,

éramos uma ‘grupinha’, explicam

as fundadoras, no site do coletivo,

a origem do nome.

A atleticana Letícia Vulcano,

servidora pública, 32 anos e mãe de

um bebê, é uma das mulheres que

participa do grupo desde o início.

Ela conta que no desfile de apresentação

de uniformes do Atlético

em 2016, com mulheres de biquíni

e salto alto, várias torcedoras

do time não se sentiram representadas

e enviaram uma nota de

repúdio para a diretoria do Clube,

que, segundo ela, nunca respondeu,

mas que no ano seguinte fez

um desfile bem diferente.

A partir daí o grupo tomou forma

e cresceu não só no ambiente

virtual, mesmo diante de críticas,

como ganhou encontros presenciais

mensais, principalmente em

dias de jogos do Galo, para um diálogo

que vai além do futebol. “A

gente incomoda e recebemos críticas

até de narradores. No início,

teve gente nos mandando lavar panelas

e até outras mulheres dizendo

que estávamos de frescura. Hoje

somos um grupo de amigas que

luta contra o machismo e pelo fim

da violência e do assédio contra as

mulheres”, explica Letícia.

A torcedora conta que, antes

da Grupa, nunca tinha ido a um

clássico, mesmo acompanhando o

time desde criança. “Assim como

eu, um monte de meninas passou

a ir. A gente marca encontro, vamos

juntas, compartilhamos a entrada,

tudo na tentativa de democratizar

o acesso e de criar mais segurança”,

conta.

“O diferencial da Grupa é que a

gente se considera 100% feminina

e feminista. A gente questiona os

comportamentos machistas e quer

incentivar a inserção da mulher no

futebol. Com a exigência da Confederação

Sul-Americana de Futebol

(Commembol), os clubes são obrigados

a ter um time feminino, mas

queremos investimentos para as

jogadoras e um futebol de qualidade.

Nós amamos o Atlético e é importante

que o clube tenha consciência

social. A gente só quer torcer

em paz”, afirma Letícia.

Entrevista

A participação

de mulheres na

gestão dos clubes

é praticamente

inexistente”

Bruna Monteiro, socióloga, é

professora e componente da Resistência

Azul Popular e da Maria

Tostão, coletivos da torcida do

Cruzeiro.

Torcedora e espectadora das

modalidades masculina, cujo time

foi rebaixado para a série B, e feminina

de futebol, a professora Bruna

Monteiro acompanha o clube

desde de 8 anos de idade, quando

foi ao Mineirão pela primeira vez.

Mas só aos 19 passou a frequentar

o estádio sem o pai, que a acompanhava

sempre.

Você já sofreu ou viu algum assédio

às mulheres no estádio de futebol?

Já vi e sofri. A torcida do Cruzeiro

tinha um cântico para quando uma

ou mais mulheres que “agradavam”

passavam. Era bastante invasivo

e constrangedor, para dizer o

mínimo. Apesar de achar que o assédio

contra mulheres possa ter diminuído,

ainda ocorre. Não só com

as torcedoras, mas também quando

tem uma bandeirinha mulher.

Revista Elas por Elas - março 2020

143


Ainda é difícil fazer com que os

homens entendam que a mulher

quer assistir futebol, acompanhar

o seu time. Muitos acham que ela

está ali só para ficar próxima a um

homem ou para conhecer alguém

com intuito de paquera.

Como você vê a participação feminina

nas torcidas organizadas de

futebol?

É uma demanda e conquista das

próprias mulheres, como parte

do processo de ocupação das arquibancadas

por elas. No entanto,

vejo que as torcidas organizadas

são muito resistentes a essa entrada.

Muitas têm uma ala feminina e

já existem movimentos de mulheres

de arquibancada. Mas quando

se fala em viagens para jogos fora

de casa, muitas vezes as mulheres

são impedidas de ir, com a alegação

de que seria inseguro.

As demandas das mulheres nas

decisões dos clubes também sofrem

retaliações com frequência

muito alta. A participação de mulheres

como gestoras e conselheiras

nos clubes brasileiros é praticamente

inexistente. E nas torcidas,

os movimentos femininos sofrem

ameaças constantes quando

se manifestam nas decisões internas,

como a contratação ou demissão

de jogadores.

Você participa de algum coletivo

que debate ações contra o machismo

ou homofobia, assim como as

outras demandas das torcidas nos

estádios?

Sou componente da Resistência

Azul Popular e da Maria Tostão,

coletivos da torcida do Cruzeiro.

Militamos pela democracia no futebol,

buscando um acesso mais popular

ao Mineirão. Buscamos que

os mais diversos grupos possam

frequentar e torcer sem opressões,

sem racismo, homofobia e machismo,

além de um preço acessível dos

jogos. Também temos a pauta de

democratização da gestão do Cruzeiro,

para que o sócio do futebol

possa participar das decisões internas

do Clube.

Acha que esses coletivos de torcedoras

têm influenciado uma

postura menos machista por parte

dos dirigentes dos clubes ou

ajudado a criar uma consciência

maior das torcidas?

Vejo que as torcidas e os coletivos

têm gerado alguma pressão.

Algumas pautas feministas, como

o fim do assédio nos estádios ou o

futebol feminino, têm aumentado

sua aceitação. Recentemente, um

comentarista de rádio foi demitido

Muitas

mulheres que

se manifestam

sobre futebol

sofrem com

desqualificação”

por dar declarações machistas, devido

à pressão das mulheres. Apesar

disso, vejo pouca repercussão

na gestão interna dos clubes e ainda

uma resistência muito grande

dentro das torcidas organizadas.

Nas redes sociais, muitas mulheres

que se manifestam em assuntos

relacionados ao futebol sofrem

desqualificação e ameaças de violência.

Mas acredito que a ocupação

feminina vai só aumentar, ainda

que exista um conservadorismo

que busque o contrário.

Nas demandas por mais igualdade

no futebol, o que você destacaria

como avanços?

Acho importante destacar o Observatório

Racial no Futebol, que

tem realizado ações efetivas em

partidas de grande visibilidade e

tem encorajado e respaldado nomes

como o do técnico Roger Machado

a se posicionar publicamente

acerca da condição do povo negro

no futebol e na sociedade. O observatório

conseguiu, junto ao Supremo

Tribunal de Justiça Desportiva

(STJD), o comprometimento de

ações efetivas de combate aos episódios

de racismo de uma forma

geral no Brasil, começando com capacitações

com vistas ao Campeonato

Estadual do Rio Grande do Sul

em 2020. Isso é especialmente relevante,

porque o estado é líder em

manifestações racistas e injúrias

raciais segundo o próprio observatório.

Essa conquista demonstra o

potencial e efetividade de coletivos

que lutam contra a discriminação

e enfatizam a condição da mulher

negra, que continua invisibilizada.

144

Revista Elas por Elas - março 2020


Revista Elas por Elas - março 2020

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/ Murilo Alvesso

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Revista Elas por Elas - março 2020


Perfil

Leci Brandão:

a voz que nos encanta e nos representa

por Nanci Alves

Maravilhosa! Sambista, cantora,

compositora e uma das mais

importantes intérpretes da música

popular brasileira. Leci Brandão

nasceu no Rio de Janeiro, em

12 de setembro de 1944, e começou

sua carreira musical ainda jovem,

no início da década de 70, tornando-se

a primeira mulher a participar

da ala de compositores da Estação

Primeira de Mangueira, do Rio

de Janeiro. Leci é também a segunda

negra a ser deputada estadual

em São Paulo. Ser mulher e negra –

duas condições que sempre, desde

criança, a impulsionaram para a

luta. “Na infância, eu não entendia

isso. Era aluna do Colégio Pedro II

e ouvia as pessoas gritando ‘tiziu’

na sala e não sabia que se tratava

de um passarinho preto. Era o que

hoje se chama bullying, o que faziam

comigo. Quanto à questão de

gênero, a gente via as coisas de uma

forma muito natural, né? Pai que

era o chefe de família, e mãe que

trabalhava muito, mas que não tinha

o protagonismo que tem hoje.

Essa consciência de luta pela igualdade

de gênero é bem recente na

minha vida. Eu via aquele comportamento

de forma natural, era assim

naquela época”, conta.

Falar de Leci é falar de muitas

mulheres – força, beleza, coragem,

voz, energia, criatividade, musicalidade,

luta, conquista e exemplo

de vida. Ao refletir sobre as influências

femininas e feministas que

teve em sua vida, ela afirma que, geralmente,

“para quem tem uma origem

pobre, a referência é sempre a

mãe, a avó, a tia, porque a gente não

tinha inserção na escola, na universidade,

nada de intelectuais. Assim,

Revista Elas por Elas - março 2020

147


a nossa referência é de casa, do trabalho,

da fábrica, de ver a mãe passando,

lavando roupa, fazendo comida

e dando pra gente todos os ensinamentos

naturais, normais. Essa

é a nossa referência de luta”.

A cantora é apaixonada por Carnaval

e, pelo menos nos últimos 20

anos, tem sido presença marcante

nos desfiles das escolas de samba

em São Paulo e no Rio de Janeiro. Já

foi também comentarista dos desfiles

das escolas de samba do Rio de

Janeiro em emissoras de TV por vários

anos. “O Carnaval é a maior festa

popular do mundo, cuja alegria é

contagiante. Tanto é que as pessoas

que vêm para o Brasil ficam enlouquecidas,

boquiabertas com a força

do Carnaval. Pena que a festa esteja

mudando, deixou de ser uma coisa

popular, da negritude. Se apoderaram

das escolas de samba e mudaram

totalmente o Carnaval. A presença

negra nos desfiles tem sido

em menor número e isso me preocupa

também, porque tudo aquilo

que é cultura da população negra

está sendo destruído, tendo seu

lugar ocupado por outras pessoas

em função da coisa comercial. Temos

uma série de pautas brasileiras,

principalmente do povo menos

favorecido, que poderia ser colocado

para um belo desfile. Haja vista

o que a Mangueira fez em 2019.

Ela contou a história real do Carnaval

e foi campeã dos desfiles do

Rio”, afirma Leci, que foi, inclusive,

homenageada pela Mangueira em

2019. Ela foi também, em 2019, um

dos destaques da Escola de Samba

Vai-Vai, esteve no Carnaval de Recife

(PE), onde cantou no Marco

/ José Antônio Teixeira

148 Revista Elas por Elas - março 2020


Zero, e recebeu diversas homenagens

dos blocos carnavalescos de

rua em São Paulo, como o Ilú Obá

De Min. Leci é madrinha do Grêmio

Recreativo Escola de Samba Acadêmicos

do Tatuapé, bicampeã do carnaval

de São Paulo, agremiação que

acompanha desde 2012, quando a

artista foi tema do enredo da escola.

Aos 75 anos de vida e ao longo

de sua carreira de quase 50 anos e

muitas premiações, gravou 25 álbuns,

dentre eles três compactos e 2

DVDs. Em suas composições, é marcante

o traço da luta contra o racismo,

a homofobia, o machismo e

as desigualdades sociais. Seu trabalho

sempre foi político e não só nas

suas músicas. Leci tem uma grande

contribuição para a história da mulher

na vida pública em nosso país.

Em 2004, tornou-se Conselheira da

Secretaria Nacional de Políticas de

Promoção da Igualdade Racial e

membro do Conselho Nacional dos

Direitos da Mulher, permanecendo

nesses postos por dois mandatos

(4 anos). Em 2010, filiou-se ao

PCdoB e candidatou-se ao cargo de

deputada estadual por São Paulo,

tendo sido eleita, reeleita em 2014 e

em 2018, estando, portanto, no seu

terceiro mandato. Como parlamentar,

Leci Brandão dedica-se à promoção

da igualdade racial, ao respeito

às religiões de matriz africana,

à educação e à cultura popular

brasileira. Levanta também as bandeiras

das populações indígenas e

quilombolas, da juventude, em especial

pobre e negra, das mulheres

e do segmento LGBTQI+. “O parlamento

é um lugar onde a gente

pode discutir tudo. Mas, em geral,

ele é formado por gente que tem família

tradicional, por empresários,

por gente que tem muito dinheiro.

Precisamos mudar esses assentos

nas câmaras municipais e assembleias

legislativas. O povo precisa

ser representado legitimamente

de fato e não está sendo não, por

isso estamos vivendo essa situação

atual no país”, diz a cantora, quando

enfatiza que sente muita tristeza

e decepção, porque jamais poderia

imaginar que “o povo brasileiro

fosse se deixar envolver por

discursos de ódio, de gente que se

diz filhos da pátria. A palavra ‘pátria’

está sendo dita a todo instante

e, no entanto, as pessoas se esquecem

de quem realmente vive

nessa pátria em situação de vulnerabilidade.

Foi dada aos pobres

uma oportunidade com dignidade

– o poder de compra para produtos

essenciais, um fogão, uma geladeira,

uma máquina de lavar.

Isso não é luxo, é uma necessidade

Jamais poderia

imaginar que o

povo brasileiro

fosse se deixar

envolver por

discursos de

ódio, de gente

que se diz filhos

da pátria”

que muitos não conhecem. Foi assim

que o povo brasileiro estava vivendo

antes deste governo – conseguiu

ter acesso à universidade,

conseguiu crédito e uma vida digna.

Esse retrocesso de agora é péssimo,

de muita maldade, perseguição,

retirada de liberdade e um desrespeito

à democracia”. Leci diz

que não reconhece o Brasil que está

aí. “Não entendo porque o/a brasileiro/a

deu oportunidade a esse

povo ruim. Foi de forma democrática,

votaram nessa gente. Inacreditável!

Mas a gente falou, quando

houve essa ‘vitória’ aí, que as pessoas

iam se arrepender e já estão se

arrependendo. Então, agora é dar

tempo ao tempo para que haja uma

junção de todo o povo que é progressista,

todos aqueles que são socialistas,

que possam recuperar as

suas forças para poder mudar essa

situação, porque não dá, no momento

está muito ruim”, desabafa.

O Brasil tem hoje um presidente

que incentiva o discurso machista,

de discriminação, homofóbico e

de violência. Combater isso é um

trabalho difícil e necessário. Para

Leci, esse combate tem de ser feito

de dentro pra fora. “Você tem que

atuar em pequenos grupos, comunidades,

junto com as pessoas que

moram nas favelas, nas quebradas,

na periferias e começar a conversar

de forma consciente politicamente

para que vejam o quanto

elas perderam, o quanto a vida

delas piorou, e de forma desumana.

Não está havendo respeito à liberdade,

à democracia, aos direitos

essenciais. A gente tem de mostrar

para essas pessoas como estava o

Revista Elas por Elas - março 2020

149


país e como elas estão, porque estão

querendo inclusive proibir o direito

de pensar. A censura está aí

viva, e isso é muito ruim. Está na

hora de nos unir, temos de pegar

as nossas armas, que são as palavras,

a nossa dança, o nosso canto

e enfrentar, porque se acabar a

democracia no país, sinceramente,

não tem mais sentido essa pátria.

Essa nação é miscigenada, ela tem

várias culturas, vários comportamentos,

é uma nação em que cada

um quer ser feliz a seu modo e a palavra

respeito ainda faz parte do dicionário,

da língua brasileira, portuguesa”,

afirma.

A parlamentar destaca os constantes

ataques contra as religiões de

matriz africana. “Isso está demonstrando

que há realmente uma intolerância

religiosa. As pessoas estão

desrespeitando uma coisa que

é constitucional, que é a questão da

laicidade do país. Me preocupa perceber

que estão pegando esse caminho

religioso para tentar impedir

que as pessoas tenham direito. Eu

vou dar um exemplo: tem pai que

não deixa o filho fazer capoeira dizendo

que capoeira é coisa do demônio.

Isso é o maior absurdo que

eu já ouvi na minha vida. Fora isso,

a ameaça às casas, aos terreiros, é

um crime, uma invasão da privacidade

religiosa. Eu entendo que

as pessoas estão manobrando com

a religião para conquistar seus interesses.

E, em geral, estas pessoas

gostam muito de dinheiro. Quanto

mais dinheiro tem na história, mais

importante fica esse caminho religioso.

Por isso, eu desconfio”, diz,

ao chamar também a atenção para

a tentativa de censura nas escolas

com a proposta Escola sem Partido.

“Os professores devem ignorar

todas as medidas desse ministro

da Educação, que para mim é

ignorante, oco, e tentar exercer a

sua função com dignidade, porque

o/a professor/a tem a sabedoria e o

dever de levar para os/as alunos/as

a consciência política, mostrar que

educação e cultura são dois pilares

essenciais para fortalecer o país.

Eles precisam fazer isso, porque

as grandes revoluções foram feitas

dessa forma”.

Nessa linha, Leci ressalta que os

pais, mães e/ou responsáveis precisam

entender que estamos em

/ Vanderlei Yuri

150 Revista Elas por Elas - março 2020


outros tempos. “Hoje as pessoas

têm mais condições de colocar

seus corações na mesa, falar

do que é importante para o

ser humano ser feliz. Eles precisam

ouvir os/as professores/as

e não só ficar ouvindo as coisas

retrógradas que estão sendo ditas,

ouvir discurso de ódio, ouvir

gente que não tem sabedoria,

ouvir fake news. Quem faz

isso só tem autoritarismo na cabeça,

não tem sabedoria. Então,

a gente precisa pedir aos pais

para que ouçam o que a educação

está propondo para fortalecer

a juventude brasileira”.

Atualmente, como parlamentar,

Leci é ouvidora adjunta

da Assembleia Legislativa

(ALESP), integrante das comissões

permanentes de Educação

e Cultura, Defesa dos Direitos

do Consumidor e Defesa dos

Direitos das Mulheres. É coordenadora

das frentes parlamentares

de Promoção da Igualdade

Étnico-Racial em Defesa dos Povos

Indígenas e Comunidades

Tradicionais; Contra Privatizações

e de Defesa do Patrimônio

e dos Serviços Públicos de Qualidade

e Defesa do Carnaval Paulista

e das Escolas de Samba. Já

apresentou mais de 100 projetos,

tendo 40 leis aprovadas até

maio de 2019.

Mesmo com a agenda cheia,

Leci consegue conciliar sua vida

política com a artística. No início

de 2019, lançou o single “Refazendo

a Cabeça”, disponível nas

principais plataformas digitais.

O samba, originalmente lançado

há pouco mais de 30 anos, é uma

parceria de Leci com Zé Maurício.

A música faz parte do álbum

“Um beijo no seu coração”, que

deu à cantora o primeiro Disco

de Ouro de sua carreira. E ela

acabou de lançar mais um single,

o “Pra Colorir Muito Mais”.

“Se eu não cantar, não consigo

fazer nada na vida. Estou sempre

nos palcos e levo meus recados

de maneira muito respeitosa,

mas absolutamente verdadeira

com a minha mente, o

meu pensamento, a minha forma

de fazer política”, ressalta

Leci, que considera a arte uma

importante forma de resistência.

“Muito antes de estar nesse

universo parlamentar, eu já

cantava defendendo minorias,

mulheres, nordestinos, negros/

as, lgbts. Sempre defendi pessoas.

Por isso eu estou tão indignada

com a situação que o nosso

país está atravessando”, afirma.

A esta mulher o nosso reconhecimento

e gratidão sempre!

São muitos ensinamentos, partilhas,

sambas, a força e a luta por

um país com justiça social. Abaixo,

a letra de um samba de sua

autoria, Zé do Caroço, com letra

visionária sobre a formação de

líderes populares em comunidade.

O samba foi registrado originalmente

por Leci em 1980, só

que o fonograma foi arquivado

na época pela gravadora Philips.

Por isso, Zé do Caroço somente

foi lançado em disco por Leci

em 1985, em outro registro feito

para o álbum editado pela gravadora

Copacabana.

Zé do Caroço

Leci Brandão

No serviço de auto-falante

Do morro do Pau da Bandeira

Quem avisa é o Zé do Caroço

Que amanhã vai fazer alvoroço

Alertando a favela inteira

Como eu queria que fosse em Mangueira

Que existisse outro Zé do Caroço

Pra dizer de uma vez pra esse moço

Carnaval não é esse colosso

Nossa escola é raiz, é madeira

Mas é o Morro do Pau da Bandeira

De uma Vila Isabel verdadeira

O Zé do Caroço trabalha

O Zé do Caroço batalha

E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira

Distrai toda gente com a sua novela

É que o Zé põe a boca no mundo

Ele faz um discurso profundo

Ele quer ver o bem da favela

Está nascendo um novo líder

No morro do Pau da Bandeira

/ Vanderlei Yuril

Revista Elas por Elas - março 2020

151


Poucas e boas

Internet

Plataforma auxilia empresas a Estupro e feminicídio:

promover igualdade de gênero imprescritíveis

A ONU Mulheres lançou uma plataforma O plenário do Senado aprovou, em

para empresas que querem mensurar a novembro deste ano, proposta de

igualdade de gênero em seus respectivos emenda à Constituição (PEC) que torna

ambientes de trabalho. Utilizada por mais imprescritíveis os crimes de estupro e

de 1,8 mil companhias em todo o mundo, feminicídio. A PEC 75/2019 seguiu para

a Ferramenta de Análise de Lacunas dos análise da Câmara dos Deputados.

Princípios de Empoderamento das Mulheres

(Weps) é online e gratuita (https:// entre 8 e 12 anos prescrevem em 16 anos.

Hoje, crimes punidos com prisão

weps-gapanalysis.org/).

Já aqueles com punição superior a 12

O patamar de igualdade de gênero anos prescrevem em 20 anos. No caso

na empresa é medido com base em um do estupro, a pena é de 6 a 10 anos de

questionário de 18 perguntas divididas em reclusão, mas pode chegar a 30 anos se

quatro temas: liderança, local de trabalho, a agressão resultar em morte. Quanto ao

mercado e comunidade.

feminicídio, a punição é de 12 a 30 anos.

Publicidade não pode mais

reforçar estereótipos de

gênero na Inglaterra

O Reino Unido aprovou neste ano uma

regra que proíbe a publicidade de veicular

imagens que reforcem estereótipos

de gênero.

De acordo com a Autoridade de

Padrões de Anúncios, entidade responsável

por regulamentar a publicidade,

há evidências de que as propagandas

com padrões limitados de como homens

CCJ do Senado endurece pena e mulheres devem se comportar podem

para ‘stalking’

restringir as escolhas, aspirações e

oportunidades de crianças, jovens e

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) adultos.

do Senado aprovou, em agosto deste ano, O site da entidade lista algumas

dois projetos que endurecem as penas para cenas que podem ser problemáticas,

o chamado “stalking”, prática caracterizada

pela perseguição a alguém de forma descansando enquanto a família se

entre elas a que mostre um homem

obsessiva.

diverte e a mulher é a única responsável

Os textos tipificam essa conduta como pela organização da casa.

crime e aumentam a pena. Na legislação em

vigor, a prática de “molestar alguém ou perturbar-lhe

a tranquilidade” é considerada

contravenção penal, e não crime.

Um dos projetos também prevê que, caso

a vítima seja mulher, o juiz pode aplicar as

medidas protetivas previstas na Lei Maria

da Penha. Se forem aprovadas na Câmara

dos Deputados, onde tramitam, as propostas

seguem para sanção presidencial.

152 Revista Elas por Elas - março 2020

AFROFLIX

http://www.afroflix.com.br

Plataforma colaborativa que oferece conteúdos

audiovisuais online com uma condição:

em todas produções há pelo menos

uma área de atuação técnica/artística assinada

por uma pessoa negra. São filmes, séries,

web séries, programas diversos, vlogs e

clipes produzidos, escritos, dirigidos ou protagonizados

por pessoas negras.

Fotógrafas Latam

www.fotografaslatam.com

instagram: @fotografaslatam

Plataforma de difusão que tem o objetivo

de promover e viabilizar o trabalho de fotógrafas

emergentes da América Latina. A disciplina,

criatividade, entrega e coragem de

abordar temas sensíveis, assim como o enorme

talento das fotógrafas de todo o continente,

foram algumas das razões que impulsionaram

a construção desta comunidade.

Mulheres que escrevem

instagram:@mulheresqueescrevem

www.facebook.com/mulheresqueescrevem

www. medium.com/mulheres-que-escrevem

Espaço que visibiliza o trabalho de diversas

escritoras do Brasil e do mundo. A cada dia

são destacados trechos de obras protagonizadas

por mulheres. A iniciativa criada e liderada,

há dois anos, por quatro mulheres,

conta hoje com dezenas de colaboradoras

convidadas. O principal trabalho é realizar

curadoria, divulgação e edição de conteúdos

produzidos por mulheres, além de promover

encontros que debatam a presença feminina

no universo da escrita.


Livros

Filmes

Mães do Cárcere

Autoria: Natália Martino e fotografias de Leo Drumond. Editora:

Arraes Editores

O livro mostra a rotina do único presídio exclusivo para grávidas e

lactantes do país (MG) e reacende a discussão sobre maternidade

na prisão.

O Olho mais Azul

Autoria: Toni Morrison. Editora: Companhia das Letras

Poderosa reflexão sobre raça, classe social e gênero. Conta a história

de Pecola Breedlove, uma menina negra, negligenciada pelos

adultos e maltratada por outras crianças por conta da pele escura

e do cabelo crespo. Sonha em ter olhos azuis e a paz que isso lhe

traria. Mas quando sua vida começa a desmoronar, ela precisa

aprender a encarar seu corpo de outra forma.

Inacreditável (Unbelievable)

Netflix

Jovem é acusada de falsa denúncia de estupro.

Ela perde emprego, amigos e é afastada

do projeto de apoio. Anos depois, outros

estupros acontecem com as mesmas características,

dando início à investigação

por duas policiais.

Pensamento Feminista Negro

Autora: Patricia Hill Collins. Editora: Boitempo

Conhecimento, consciência e política do empoderamento. A autora

mapeia os principais temas e ideias tratados por intelectuais e ativistas

negras estadunidenses como Angela Davis, Bell Hooks, Alice

Walker e Audre Lorde e constrói um panorama do feminismo negro

com referências de dentro e de fora da academia.

Monoculturas da mente

Autora: Vandana Shiva. Editora: Gaia

Reflete sobre o pensamento unilateral que se instalou no mundo

(“monoculturas da mente”) e discorre sobre as consequências desse

tipo de monocultura para o planeta. A cultura e o conhecimento

científico ocidental tornaram-se hegemônicos e são encarados

como únicas formas possíveis de se conceber a realidade e atuar

no mundo. Aquilo que o conhecimento científico não valida passa

a ser inexistente - um não saber.

A explosão feminista:

Organizadora: Heloísa Buarque de Holanda. Editora: Companhia

das Letras

Um panorama das principais manifestações feministas da atualidade

na literatura, cinema, arquitetura e outras áreas. Linguagem

despojada a partir de depoimentos de feministas contemporâneas.

Documentários Feministas:

O que elas estavam pensando?

Netflix

A partir de fotos de mulheres realizadas

nos anos 1970 e o depoimento das fotografadas

na atualidade, nasce uma exposição

e delineia-se um percurso das principais

ideias do feminismo e da atuação de mulheres

engajadas numa transformação.

Atitude, pensamento - tudo capturado pelas

fotos: corpos nus, roupas despojadas, o

jeito de encarar a câmera. Belo, comovente.

O Menino que descobriu o Vento

Conta a história real do menino africano,

de 14 anos, que conseguiu, depois de frequentar

clandestinamente a biblioteca da

escola que o expulsara por falta de pagamento

(US$ 80 anuais), fazer um moinho de

vento que acionou uma bomba para captar

água do solo ressequido da região onde

morava. Isso rompeu a violenta seca que

submetia os moradores de Malawi à fome e

à miséria sem nenhuma ajuda do governo.

Revista Elas por Elas - março 2020

153


Retrato

Petra Costa é uma cineasta

brasileira, que estreou na sétima

arte com o curta “Olhos de Ressaca”

(2009). Seu último longa, “Democracia

em Vertigem”, trabalho

que tem ganhado grande repercussão

dentro e fora do Brasil, foi

indicado ao Oscar 2020 na categoria

de melhor documentário.

154 Revista Elas por Elas - março 2020

/ Diego Bresani


DRUMUNDANA

(Alice Ruiz)

e agora maria?

o amor acabou

a filha casou

o filho mudou

teu homem foi pra vida

que tudo cria

a fantasia

que você sonhou

apagou

à luz do dia

e agora maria?

vai com as outras

vai viver

com a hipocondria

Revista Elas por Elas - março 2020

155


f y t i K sinprominas

Filiado à Fitee, Contee e CTB

www.sinprominas.org.br

MARÇO 2020

NÚMERO 12

156 Revista Elas por Elas - março 2020