FPF360 - Pensar o Futebol Nº37

tiagoqueirosomb

REVISTA OFICIAL DA FEDERAÇÃO

PORTUGUESA DE FUTEBOL

N.º 37 · OUTUBRO-DEZEMBRO 2019

€2 · TRIMESTRAL

NUM MUNDO ONDE TODA

INFORMAÇÃO CIRCULA A UMA

VELOCIDADE ESTONTEANTE,

É IMPORTANTE DISTINGUIR O

ESSENCIAL DO ACESSÓRIO. A FPF

PROCURA DAR O SEU CONTRIBUTO

PARA ESSE EXERCÍCIO COM

UMA PUBLICAÇÃO QUE REÚNE 9

INVESTIGAÇÕES SOBRE O JOGO

QUE CONQUISTOU O MUNDO.

TRABALHOS DE MICHEL RITSCHARD,

RUI GOMES, PEDRO RIBEIRO,

PEDRO FILIPE, WENDERSON SAÏD,

TIAGO SOUSA, PEDRO REBOCHO,

LUÍS PIMENTA E HUGO PEREIRA.



EDITORIAL

FERNANDO GOMES

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL

CONSTRUÇÃO DO SUCESSO

Os treinadores portugueses são um parceiro insubstituível no

desenvolvimento sustentável do futebol português.

Numa época em que quase diariamente os nossos técnicos

dão, pelo mundo fora, demonstrações de grande qualidade,

competência e procura dos mais elevados padrões éticos e

profissionais, cabe-me como Presidente da FPF, sublinhar e

louvar os patamares de excelência atingidos por tantos.

Num país com mais de 15 mil treinadores reconhecidos pela

UEFA, apesar da baixa densidade populacional e dos fracos

índices de prática desportiva, Portugal tornou-se, num círculo

virtuoso em que muitos participam, numa referência e num

exemplo mundial no capítulo da formação e dos sucessos

atingidos pelos seus melhores intérpretes.

Foi com grande entusiasmo que assistimos bem recentemente

às vitórias de Jorge Jesus no Brasileirão e na Taça Libertadores.

A imagem do técnico a levantar bem alto a bandeira de Portugal

fez-nos relembrar outros êxitos, mais antigos ou recentes,

protagonizados por grandes treinadores portugueses ao longo

da história.

Porque gostamos de procurar no passado a chave para os

sucessos do presente e do futuro analisamos nesta edição da

revista 360 as causas do sucesso de tantos treinadores nacionais

em Portugal ou no estrangeiro.

Sabemos que nomes como Ribeiro dos Reis, Cândido de

Oliveira, Manuel da Luz Afonso, Mário Wilson, José Maria

Pedroto, Artur Jorge, David Sequerra, Henrique Calisto,

Humberto Coelho, Manuel José ou Jesualdo Ferreira deixaram

a sua marca de água nos sucessos dos nossos treinadores atuais

dentro de portas ou no estrangeiro.

Técnicos com títulos conquistados como os consagrados

Fernando Santos, Carlos Queiroz, José Mourinho, Jorge Jesus,

Horácio Gonçalves, ou os mais jovens Hélio Sousa, Rui Vitória,

Vítor Pereira, Paulo Fonseca, Paulo Sousa, André Villas-Boas,

Leonardo Jardim, Pedro Martins, Paulo Bento, José Morais,

Marco Silva, Sérgio Conceição ou Bruno Lage atestam um

período de extraordinária vitalidade da profissão.

A FPF, cumpre dizê-lo, com o inigualável apoio da ANTF e das

associações distritais, não só voltou a cumprir em pleno o seu

papel no estabelecimento e na execução de políticas de formação,

como permitiu que fossem retomados, com grande vigor, os

programas de formação de treinadores de futebol e de futsal.

Realizámos, desde 2013, mais de 200 cursos e permitimos

que mais de três mil treinadores tivessem de novo acesso e

possibilidades de progressão na carreira. Mais importante ainda,

a FPF soube colher o fruto desta sementeira. Os mais de trinta

treinadores portugueses que orientam as seleções nacionais

lideraram o país para a melhor época de sempre das suas seleções.

Campeão europeu em título de futebol e de futsal, Portugal,

só em 2019, conquistou a edição inaugural da Liga das Nações

e os títulos de Campeão Europeu e Mundial de Futebol de

Praia. Fomos ainda vencedores da Medalha de Ouro dos Jogos

Europeus de Futebol de Praia e chegámos às finais do Euro sub-

19 e do Euro de Futsal feminino. As meninas sub-17 chegaram

brilhantemente às meias-finais do Euro da Bulgária, resultado

igualado pela representação sub-19 em Futsal masculino.

Porque a gratidão é a memória do coração, deixo para o fim uma

palavra especial de agradecimento aos novos Campeões do

Mundo de Futebol de Praia.

Numa modalidade acarinhada por milhões de portugueses, a equipa,

liderada pelo histórico e carismático Mário Narciso, conquistou, pela

segunda vez em três edições, o título perdido, em 2017, para o Brasil.

Graças a um extraordinário compromisso coletivo, ao espírito

indomável e ao talento individual dos nossos jogadores, Portugal

demonstrou, inequivocamente, ser a melhor equipa do Mundo.

Depois da brilhante vitória na final, frente à Itália, Madjer,

capitão da Seleção Nacional e referência inigualável desta

modalidade, verbalizou, ainda em lágrimas por uma despedida

marcante dos grandes palcos internacionais, mais do que a sua

própria glória desportiva, a sua alta estatura humana.

Obrigado, Rei das Areias. Obrigado Seleção Nacional.

Obrigado Portugal.


SEJA RESPONSÁVEL. BEBA COM MODERAÇÃO.


PENSAR O FUTEBOL

NUM MUNDO ONDE TODA INFORMAÇÃO CIRCULA A UMA VELOCIDADE ESTONTEANTE, É IMPORTANTE

DISTINGUIR O ESSENCIAL DO ACESSÓRIO. A FPF PROCURA DAR O SEU CONTRIBUTO PARA ESSE EXERCÍCIO COM

UMA PUBLICAÇÃO QUE REÚNE 9 INVESTIGAÇÕES SOBRE O JOGO QUE CONQUISTOU O MUNDO.

7 ARNALDO CUNHA

O COORDENADOR DA FORMAÇÃO DE TREINADORES DA FPF FAZ UM

ENQUADRAMENTO DO ITINERÁRIO DOS CURSOS EM PORTUGAL AO LONGO DO

TEMPO, EXPLICITANDO TAMBÉM A FORMA COMO ESSE ENQUADRAMENTO TEM

ORIENTADO O PASSADO RECENTE E PODE INFLUENCIAR O FUTURO PRÓXIMO.

15 MICHEL RITSCHARD

UM CAMPEONATO DO MUNDO É SEMPRE UMA OCASIÃO PRIVILEGIADA PARA

OBSERVAR AS TENDÊNCIAS DO JOGO E HÁ FACTOS MUITO INTERESSANTES

QUE RESULTARAM DO RÚSSIA-2018.

29 RUI GOMES

ANÁLISE DETALHADA À POLÍTICA DE LANÇAMENTO DE JOVENS DAS EQUIPAS

QUE PARTICIPARAM NA LIGA DOS CAMPEÕES 2018/2019.

43 PEDRO RIBEIRO

DOTAR UMA EQUIPA DE FUTEBOL DE IDENTIDADE É UM PROCESSO

COMPLEXO E CONTEMPLA DIVERSAS ETAPAS.

51 PEDRO FILIPE (PEPA)

O CONHECIMENTO DOS ADVERSÁRIOS É FUNDAMENTAL PARA MONTAR UMA

ESTRATÉGIA ADEQUADA A CADA JOGO E O SCOUTING TEM, NESSE SENTIDO,

UM TRABALHO FUNDAMENTAL PARA O SUCESSO DA EQUIPA TÉCNICA.

61 WENDERSON SAÏD (WENDER)

SAÍDA CURTA E SAÍDA LONGA NA PRIMEIRA ETAPA DE CONSTRUÇÃO

DO PROCESSO OFENSIVO.

69 TIAGO SOUSA

TREINOS DE CONJUNTO, MAS NÃO SÓ. OS JOGOS REDUZIDOS TAMBÉM

ANDAM AÍ.

83 PEDRO REBOCHO

A ELEVADÍSSIMA DENSIDADE COMPETITIVA DO FUTEBOL PROFISSIONAL

OBRIGA A RECORRER A TÉCNICAS CADA VEZ MAIS PROFISSIONAIS PARA

ACELERAR A RECUPERAÇÃO DOS JOGADORES.

97 LUÍS PIMENTA

A DIMENSÃO PSICOLÓGICA DE UM FUTEBOLISTA TEM GRANDE INFLUÊNCIA

NO SEU RENDIMENTO E NA FORMA COMO INTERAGE COM O GRUPO AO QUAL

PERTENCE.

111 HUGO PEREIRA

ABORDAGEM DETALHADA E SURPREENDENTE A UM DOS FUNDAMENTOS

DO FUTEBOL: O PASSE.

FPF360

Revista oficial da Federação

Portuguesa de Futebol

Propriedade/Edição/Redação

Avenida das Seleções

1495-433 Cruz Quebrada - Dafundo

NIF: 500 110 387

Diretor

Alexandre Pereira

Conceção e textos

Federação Portuguesa de Futebol

Fecho editorial

14 de dezembro de 2019

Impressão

Publirep - Publicidade e Representações Lda

Tiragem

2000 exemplares

Registo na ERC N.º

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6

FPF360


ARNALDO CUNHA // COORDENADOR DA FORMAÇÃO DA FPF

O Coordenador da Formação de Treinadores da FPF faz um enquadramento do itinerário dos cursos em

Portugal ao longo do tempo, explicitando também a forma como esse enquadramento tem orientado o

passado recente e pode influenciar o futuro próximo.

A FORMAÇÃO DE TREINADORES

DE FUTEBOL EM PORTUGAL

ANÁLISE BREVE EM 11 ATRIBUTOS

“NOS ÚLTIMOS ANOS,

ALIÁMOS AO TALENTO

NATURAL E MAIS

EMPÍRICO, DO CAMPO,

UM SÓLIDO SISTEMA DE

FORMAÇÃO DE TÉCNICOS.

DIRIA QUE É UM DOS

MELHORES SISTEMAS

DO MUNDO.”

Fernando Santos

(IN JORNAL “O GLOBO”, 23.MAIO.2017)

“Nos últimos anos, aliámos ao talento natural

e mais empírico, do campo, um sólido sistema

de formação de técnicos. Diria que é um dos

melhores sistemas do mundo.” Fernando

Santos (in jornal “O Globo”, 23.Maio.2017)

Cabe bem iniciar fazendo uma advertência:

a de que não se faz aqui história, tampouco a

História. Mas também não se contam estórias.

Apenas se trazem à colação um conjunto de

reflexões sobre a formação de treinadores em

Portugal, na perspetiva de que os contributos

que a ela têm sido aportados ao longo de

décadas tenham passado a ser atributos que

hoje a caracterizam.

Porque “importa não cair na ilusão de se identificar

a apreensão genérica de uma problemática com as

exigências que decorrem da investigação autêntica

da mesma” 1 , não se apresenta aqui qualquer

verdade imperativa ou revelação superior,

unicamente se religam informações obtidas,

conhecimentos adquiridos, ambos a par de

experiências vividas.

Falar da formação de treinadores portuguesa

é falar de um processo de desenvolvimento

sustentado em múltiplas influências

nacionais e estrangeiras. Estas, todavia, não

são resultado de invasões e integrações mais

ou menos forçadas – como as que durante

séculos a área geográfica correspondente a

Portugal sofreu e que contribuíram para a

constituição da base da nossa reconhecida

capacidade de integração nos meios mais

insólitos, inóspitos e desafiantes – mas

antes da abertura à novidade, ao diferente,

assimilados sem perda de identidade própria.

O objetivo desta análise decorre da

necessidade da inevitavelmente curta

experiência dos treinadores face ao decurso

1

JANEIRA, Ana Luísa (1972), Ruptura epistemológica, corte epistemológico e ciência, “Análise Social”, Lisboa, série 2, 9 (34) Abr.-Jun., p. 629

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do tempo ser complementada com a

experiência de outros – instituições ou

treinadores – que assumiram protagonismo

significativo e contextual de corte no saber

que fundamentava o saber-fazer que a função

de treinador exigia e que passou a exigir.

Naturalmente que a introdução de inovações

com impacto nos usos, nas práticas e nas

conveniências da classe de treinadores, tal como

noutras, sempre perturba. Todavia, podemos

dar como genericamente adquirido o impacto

positivo de algumas pessoas e instituições nas

alterações decorrentes do processo de formação

de treinadores no último quartel do século XX.

Que globalmente coincide com a estruturação e

institucionalização do Portugal democrático e que

claramente constitui o momento particular de

nascimento de uma nova era para os treinadores.

1. TRADIÇÃO FORMATIVA

Falar em tradição na formação de treinadores

de Futebol em Portugal é referir, antes do mais,

a herança de uma prática que vem dum tempo

antigo. Na verdade, essa herança tanto se

manifestou através da tradicional transmissão

interpares, realizada por treinadores mais

experientes com ligações a treinadores menos

experientes, como na realização, entre 1944 e 1982,

de um total de 10 cursos de treinadores de Futebol.

Numa análise apriorística poderíamos

afirmar que, em 38 anos de percurso, tal

corresponderia a um reduzido número de

cursos organizados (um curso em menos de

cada 4 anos). Todavia, para podermos olhar

para o significado dessa realização, devemos

considerar três realidades essenciais.

A primeira, verificarmos que na grande maioria

de países da Europa, mesmo naqueles em que

o Futebol, para além de ser um modo de vida,

tinha um enraizamento social significativo,

havia uma quase ausência de formação de

treinadores até perto dos finais do século XX.

A segunda, tomarmos conhecimento de que, até

18 de Fevereiro de 1961, data da publicação do

primeiro Regulamento da Carteira Profissional

dos Treinadores de Futebol 2 , ser detentor do

curso não era condição “sine qua non” para

poder orientar uma equipa, e de, depois dessa

data, tal apenas se aplicar às 1.ª e 2.ª Divisões.

A terceira, reconhecermos que a necessidade

de formação era decorrente do número

de treinadores então habilitados estar

naturalmente associado ao limitado número

de vagas existente em cada equipa, ao carisma

de muitos que lhes prolongava a carreira e ao

facto de a função, no início, ser normalmente

exercida a tempo parcial.

Em 1966, a FPF decidiu organizar o 6.º curso

de treinadores e propôs ao INEF (Instituto

Nacional de Educação Física) cooperar nessa

iniciativa. A adesão foi tremenda, de tal modo

que foi necessário realizar uma seleção de

candidatos, entre os quais se contavam muitos

cidadãos provindos das então Províncias

ultramarinas, designadamente Angola e

Moçambique.

O chileno Fernando Riera (sucessivamente

treinador de Belenenses, Benfica, Porto e

Sporting) foi convidado para formador, mas

não aceitou. Instituição profissional de então

ameaçou-o de que não treinaria mais em

Portugal se contribuísse para o sucesso desse

curso, porque para candidatura ao mesmo eram

exigidas habilitações académicas mínimas.

Todavia, o Regulamento da Carteira Profissional

dos Treinadores de Futebol citado já as exigia.

O 11º Curso ocorreu em 1982 e representou, na

sequência da realização nesse ano de um cursopiloto

na então Associação de Futebol de Faro, um

ensaio para uma formação de treinadores regular,

sistemática e articulada que, em velocidade de

cruzeiro, nos trouxe aos dias de hoje.

Cabe aqui referenciar o importante papel

de Arcelino Mirandela da Costa que, antes

de assumir funções de responsabilidade na

Administração Pública Desportiva, e com

o apoio da gestão operacional de Carlos

Godinho, foi simultaneamente, no seio da

FPF, o mentor e o primeiro ator deste novo

processo formativo – não o entendendo

apenas como a administração de cursos mas

como um processo mais vasto de intervenção

na construção da carreira de treinador –, o

qual também influenciou através de outras

iniciativas que adiante se mencionam.

Esse curso da AF Faro, como todos os demais

que a partir dele se realizaram, conduziu a

uma reflexão geral sobre a construção de um

processo formativo escorado em normas e

procedimentos conducentes à definição de uma

carreira de treinador. Momento privilegiado de

reflexão foi a realização no Algarve, nos finais

dos anos 80 do século XX, de um encontro

entre todos os interessados na construção

desse processo – nomeadamente a FPF, a

Associação Nacional de Treinadores de Futebol

(ANTF) e as Universidades –, o qual contribuiu

decisivamente para a criação formal do Regime

de Formação de Treinadores de Futebol.

É importante realçar que este modelo –

definindo 4 Níveis para o percurso formativo

dos treinadores – é anterior à primeira

versão da Convenção de Treinadores da

UEFA, estabelecida em 1998, e resulta de

uma iniciativa própria de autorregulação do

Futebol, de que os treinadores, através da

ANTF, foram catalisadores.

Se a encontrada necessidade de formação

regular de treinadores de Futebol visou

prioritariamente responder às exigências de

preparação para as competições superiores,

não é menos verdade que essa formação

ajustada conduziu também à procura

progressiva de uma resposta formativa

adequada aos diversos níveis de prática jovem.

É indubitável que as vitórias de Portugal nos

Mundiais de Sub-20 da FIFA de 1989 e de 1991

exerceram uma influência positiva sobre a

perceção da importância do desenvolvimento

de jovens jogadores, sustentada numa

formação de treinadores vocacionada para o

apoio a esse desenvolvimento.

2. TRADIÇÃO CULTURAL

Rompendo com a milenar expressão de

Júlio César de que “há nos confins da

Ibéria um povo que nem se governa nem se

deixa governar”, impôs-se na formação de

treinadores a tradição dos Descobrimentos de

que tudo é passível de questionamento e de

que há novos mundos a desbravar.

No início da afirmação social do Futebol,

e mesmo depois dele, muitos eram os

treinadores de prestígio que pensavam,

discorriam e escreviam sobre a modalidade,

tanto utilizando revistas e jornais desportivos

de grande divulgação – onde muitos eram

também figuras de relevo –, como também

publicando livros sobre matérias técnicas,

táticas e estratégicas do jogo.

Esse traço de questionamento, mas

simultaneamente de autonomia intelectual

na relação com o conhecimento do Futebol,

manifesta-se ainda nos dias de hoje e inibe a

afirmação de uma formação concretizada na

base da reprodução irrefletida, da repetição

carismática ou da afirmação improcedente.

3. MODELO FORMATIVO COM

COLABORAÇÃO DE MÚLTIPLOS

E VARIADOS AGENTES NACIONAIS

A formação de treinadores em Portugal sempre

beneficiou do contributo institucional e

pessoal de proveniências e influências diversas.

Durante o século XX, o acesso aos mais recentes

conhecimentos e informações na área do treino

em geral, e do treino do Futebol em particular,

apresentava-se difícil, pelo que todos os

contributos institucionais eram relevantes para

o desenvolvimento dos treinadores.

Nesta participação estiveram envolvidos

ao longo desses anos, como protagonistas

principais, a FPF e as Associações de Futebol

(com destaque para a AF Porto, organizadora

do 3º curso, em 1958) e ainda a ANTF (e os

extintos dois sindicatos do tempo democrático

que lhe deram origem, STF e SINBOL).

2

Boletim do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência do Ministério das Corporações e Previdência Social

8

FPF360


Como colaboradores de diferentes matizes

do processo de formação e influenciadores

do mesmo, encontramos as Instituições

de Ensino Superior na área do Desporto.

A Administração Pública Desportiva

(designadamente as sucessivas Direções

Gerais) concedeu apoios diversos para a

realização de iniciativas formativas.

Pode ser ainda relevada a dimensão funcional

do Sindicato Nacional de Treinadores de

Futebol que – no enquadramento corporativo

típico do Estado Novo – realizou durante

muitos anos os exames de acesso à profissão e

a emissão de carteiras profissionais.

Naturalmente que as colaborações

institucionais, e muitas pessoais, se traduziram

e traduzem sob diversas formas, desde apoio à

organização e à administração dos cursos, até

contributos de lecionação, de apoio tecnológico

e de investigação aplicada.

4. CONSTRUÇÃO E RECONSTRUÇÃO

PROGRESSIVA DE PROGRAMAS

DE ESTUDO

Ao longo do tempo foram sendo elaborados

diversos programas curriculares para os

diferentes níveis formativos. Esses programas

foram sendo sucessivamente reconstruídos

e ajustados, num contínuo processo de

desenvolvimento curricular associado às

necessidades de resposta aos novos desafios

colocados pela evolução do jogo – esta

sensivelmente dependente de novas práticas

por parte dos jogadores de nível superior, mas

estruturalmente subordinada às ideias de jogo

e às inovações adoptadas pelos treinadores

que os dirigem.

Para essas mudanças curriculares sucessivas

muito tem também contribuído a investigação

científica na área do Futebol, seja aquela

que responde às necessidades que o jogo

coloca, seja a que satisfaz as necessidades

de potenciação de desenvolvimento

dos jogadores, seja também a que se

dedica à criação e à melhoria dos meios

tecnológicos auxiliares de observação,

análise e interpretação do jogo, do treino, dos

jogadores e dos comportamentos destes.

5. PERSPETIVA HOLÍSTICA DO

CONHECIMENTO TRANSMITIDO

Tem sido justamente referido por muitos

o contributo histórico do ISEF (Instituto

Superior de Educação Física) de Lisboa e dos

seus docentes de Futebol – além de Mirandela

da Costa, também Jesualdo Ferreira, Carlos

Queiroz e Eduardo (Nelo) Vingada – no

processo de construção de conhecimento

no âmbito da modalidade e da formação dos

seus principais agentes no último quartel do

século XX. Mais que a construção operacional

de que foi um dos inspiradores, ressalta,

pelos percursos desses docentes enquanto

treinadores e vice-versa, o contributo filosóficometodológico

que lhe estava subjacente.

Porque esse contributo dos anos 80 e 90

do século XX resultou na explicitação e na

colocação da problemática do treino e do jogo

num novo ângulo de análise, fundamentado e

com princípios claros, através da estruturação

de uma matriz metodológica que, aliada a uma

experiência prática de décadas nela refletida – e

que atrás referimos –, impregnou o processo

formativo dos treinadores, dos jogadores e, por

consequência, do Futebol português, a qual

contribuiu estruturalmente para lhe conferir

hoje características específicas.

Essa referência primordial não apenas

possibilitou compreender a articulação entre

o conhecimento teórico que emana do estudo

das experiências práticas e o conhecimento

prático que espelha a evolução das especulações

teóricas, como se apresenta enquanto

instrumento principal utilizado em Portugal no

processo de formação de treinadores.

6. PESO SIGNIFICATIVO DA

AVALIAÇÃO FORMATIVA NOS CURSOS

Afirmava há pouco tempo um membro do

Painel Jira 3 , num relatório de avaliação para

a UEFA sobre a formação de treinadores em

Portugal, que as aulas em sala ou no campo

dos cursos em que tinha estado presente

para a poder realizar, demonstravam uma tal

interpenetração entre teoria e prática que lhe

não seria possível distingui-las, classificá-las e

abordá-las desse modo.

Essa simbiose entre teoria e prática tem

vindo a expressar-se não apenas no domínio

do ensino por parte dos formadores, mas

a manifestar-se também no decurso da

aprendizagem realizada pelos próprios

formandos. Como acrescentava o referido

avaliador, encontrou aulas de sala com clara

ligação à intervenção prática e aulas de campo

com evidente problematização teórica.

O processo ensino-aprendizagem nos cursos

de treinadores em Portugal, na linha da matriz

metodológica que o estrutura, há muitas

décadas que vem valorizando o formando

em ação, em colaboração com os demais,

em partilha reflexiva, em planeamento

e organização do treino e do jogo e em

desenvolvimento de conceitos.

Este desenvolvimento, por muito elementares

que possam os conceitos apresentar-se

nos primeiros anos de exercício da função

de treinador, constitui a demonstração da

O PROCESSO ENSINO-

APRENDIZAGEM NOS

CURSOS DE TREINADORES

EM PORTUGAL, NA

LINHA DA MATRIZ

METODOLÓGICA QUE

O ESTRUTURA, HÁ

MUITAS DÉCADAS QUE

VEM VALORIZANDO O

FORMANDO EM AÇÃO,

EM COLABORAÇÃO

COM OS DEMAIS, EM

PARTILHA REFLEXIVA,

EM PLANEAMENTO

E ORGANIZAÇÃO DO

TREINO E DO JOGO E EM

DESENVOLVIMENTO DE

CONCEITOS

superação da mera e simples aplicação de uma

decisão funcional fragmentada e da existência

de fundamentação para os procedimentos

técnicos a operacionalizar.

7. RELATIVA AUTONOMIA NA

GESTÃO DO PROCESSO FORMATIVO

A preparação da intervenção dos treinadores,

enquanto gestores de recursos nos diferentes

níveis de prática do Futebol, exige uma

orientação central que se pretende coerente

e que conduza progressivamente a uma

qualificação mais elevada.

Esta orientação central – nomeadamente

associada à filosofia formativa definida, ao

estabelecimento de matérias curriculares

adequadas a essas diferentes intervenções no

espectro de práticas, à definição de perfis dos

formadores, ao modelo avaliativo, etc. – não

impediu que o processo formativo venha

sempre possuindo alguma flexibilidade local

na sua gestão, especialmente no que diz

respeito à questões de organização operativa e

à relação pedagógico-didática dos formadores

com os formandos no quadro do processo

ensino-aprendizagem.

3

Painel de peritos da UEFA composto por especialistas em formação de treinadores que contribuem para a aplicação e cumprimento da Convenção de Treinadores da UEFA.

FPF360 9


8. EDIÇÃO DE LIVROS, REVISTAS

E OUTRAS PUBLICAÇÕES ESCRITAS

No início do processo regular de formação de

treinadores havia uma ânsia extrema na busca

de novo conhecimento e de nova informação,

não apenas para responder a necessidades

desse processo, mas também à necessidade de

formação permanente que pudesse contribuir

para a melhoria do processo de treino e a

melhoria do jogo.

Todavia, se para quem era minimamente

fluente em outras línguas o acesso a bibliografia

estrangeira era mais facilitado – apesar dos

problemas então vividos, designadamente os

associados ao valor do escudo face a outras

moedas europeias e às limitações de compra de

divisas para se poder fazer a encomenda dessas

publicações fora do País –, para os restantes

treinadores esse novo conhecimento e essa

nova informação tinham dificuldade em chegar

na nossa língua materna.

“Futebol em Revista” foi a designação da

publicação que existiu na FPF e que veio

suprir essa falta. Houve um conjunto de 5

edições – a primeira nos 60 do século passado

e a última da década de 90 do mesmo período.

Todavia, as mais importantes foram as que

mediaram entre esses dois períodos de

publicações – 3 ciclos de 52 revistas editadas

– e que permitiram uma abordagem dos

mais variados temas de interesse para a

modalidade. A uma média de 12 artigos por

revista, foram publicados entre 1980 e 1987

mais de 600 trabalhos de autores portugueses

e estrangeiros sobre os mais variados temas

relacionados com o Futebol: Metodologia

do Treino, Pedagogia, Psicologia, Sociologia,

Instalações, Organização e Administração,

Arbitragem, Medicina, Direito e Estatística.

Tal quantidade de números da revista

– associada a uma boa qualidade técnicocientífica

– adveio, seja da produção nacional,

seja da parceria de intercâmbio editorial

estabelecida pela revista da FPF com

revistas técnicas editadas e detidas tanto

por federações como por outras entidades

públicas ou privadas, ligadas ao Desporto em

geral e ao Futebol em particular.

A revista realizou ainda neste período duas

edições especiais de elevada qualidade

conceptual, metodológica e didática sob

a forma de livro: uma, publicando em 1982

“Métodos e Sessões de Treino no Futebol”

– escrita por János Pálfai na sequência de

investigações mútuas do Colégio Húngaro de

Educação Física e do Departamento Técnico da

Federação Húngara de Futebol –, outra, dando

ao prelo em 1986 uma tese académica de Carlos

Queiroz intitulada “Estrutura e Organização

dos Exercícios de Treino em Futebol”.

Numa nota à margem, assinalemos que

a edição do livro de János Pálfai, talvez o

primeiro doutorado em Futebol do mundo, não

foi isenta de peripécias. O custo dos direitos

de autor da mesma foi muito baixo para a FPF,

atendendo aos valores praticados na Europa

Ocidental. Tal montante foi pago, não ao autor,

mas ao organismo estatal que a autorizou. Para

János Pálfai, respondendo a um pedido de

apoio deste, foi possível enviar um exemplar

aconchegado da edição portuguesa.

O impacto desses livros junto dos treinadores

foi muito importante, mas também mereceu

bom acolhimento o facto de, ainda nessa

década, Rui Silva, membro da equipa técnica

do Benfica, ter tomado a iniciativa de publicar

diversos livros, nomeadamente o “Futebol é

para todos”, o mais significativo.

Igualmente a revista “Treino Desportivo”,

editada pela Administração Pública

Desportiva, a Revista “Horizonte”, publicada

pela editora Livros Horizonte ou a revista

“Ludens”, da responsabilidade do ISEF de

Lisboa, apresentavam artigos associados

ao Futebol e ao ensino do jogo, atraindo a

atenção de muitos treinadores.

O século XXI trouxe ao Futebol português,

europeu e mundial um acréscimo significativo

de contributos para o seu conhecimento

mais profundo e para a sua informação mais

detalhada. Para além da disponibilidade de

novas tecnologias, a produção científica e

técnica apresentou avanços significativos.

Neste âmbito, existe presentemente um

saber científico produzido por académicos

portugueses e um saber-fazer técnico

operacionalizado e refletido por treinadores

numa simbiose holística que apresenta

notoriedade e reconhecimento internacional.

É também neste âmbito que aqui

apresentamos alguns trabalhos de treinadores

que concluíram o Curso UEFA “Pro” nos anos

mais recentes. Pretendemos que não tenha

sido apenas uma tarefa cumprida entre as

muitas necessárias para a realização desse

curso, que não fiquem guardados na sombra

de um arquivo e que, assim, sejam partilhados

com outros treinadores.

É também neste âmbito que aqui

apresentamos alguns trabalhos de treinadores

que concluíram o Curso UEFA “Pro” nos anos

mais recentes. Pretendemos que não tenha

sido apenas uma tarefa cumprida entre as

muitas necessárias para a realização desse

curso, que não fiquem guardados na sombra

de um arquivo e que, assim, sejam partilhados

com outros treinadores.

9. REALIZAÇÃO DE EVENTOS

DE FORMAÇÃO CONTÍNUA,

DE COLÓQUIOS, DE DEBATES

E DE TERTÚLIAS

AQUI APRESENTAMOS

ALGUNS TRABALHOS

DE TREINADORES

QUE CONCLUÍRAM O

CURSO UEFA “PRO” NOS

ANOS MAIS RECENTES.

PRETENDEMOS QUE NÃO

TENHA SIDO APENAS UMA

TAREFA CUMPRIDA ENTRE

AS MUITAS NECESSÁRIAS

PARA A REALIZAÇÃO

DESSE CURSO, QUE NÃO

FIQUEM GUARDADOS NA

SOMBRA DE UM ARQUIVO

E QUE, ASSIM, SEJAM

PARTILHADOS COM

OUTROS TREINADORES

A participação em eventos diversos por

parte dos treinadores de Futebol jamais

esteve condicionada à atribuição de créditos

formativos. A ânsia de acesso à informação

e ao conhecimento, atrás referidos, era a

principal determinante da passagem da

imagem de um treinador de mérito para um

treinador competente.

Depois do 25 de Abril, assistiu-se à

proliferação de eventos formativos informais

– especialmente colóquios e debates –

organizados pelas mais variadas instituições

públicas e privadas, ligadas ou não ao fenómeno

desportivo. Câmaras Municipais, clubes

desportivos, sindicatos, jornais, associações de

diverso cariz e outras organizações promoviam

iniciativas sobre treino desportivo e sobre

treino no Futebol. Naturalmente que as mais

relevantes provinham do próprio movimento

associativo desportivo.

São desse tempo também as tertúlias em volta

de mais velhos treinadores carismáticos,

como as que reuniam à sua volta José Maria

Pedroto a norte e Fernando Vaz a sul, e cuja

experiência era comummente relevada pelos

treinadores mais novos.

Na sequência do início do processo regular,

10

FPF360


János Pálfai e Carlos Queiroz escreveram duas edições especiais da publicação “Futebol em Revista”

em 1982 e 1986, respetivamente

O primeiro Regulamento da Carteira Profissional

dos Treinadores de Futebol, criado em 1968

sistemático e articulado da formação de

treinadores, começaram a surgir novas

iniciativas formativas complementares,

conhecidas à época como ações de reciclagem.

Destacam-se várias realizadas pela ANTF

e pela FPF, com realce para as que tiveram

a presença de formadores estrangeiros,

como Sven-Goran Eriksson (aproveitando o

impacto da sua presença como treinador em

Portugal) e Michel Ritschard, o instrutor FIFA

que então percorreu o País de lés-a-lés e que

está de novo connosco, agora nestas páginas.

Essa apetência pela participação em

formações contínuas jamais esmoreceu,

muito embora o acesso facilitado à

informação e ao conhecimento possibilitado

pela Internet tenha vindo a permitir outro

tipo de atualização permanente, mais

pessoalizada. Contudo, para a generalidade

dos treinadores de Futebol, participar nestes

eventos – tanto partilhando como recebendo

– traduz o alcançar de um nível superior

de maturidade, seja enquanto agentes

responsáveis pela condução de jogadores e de

equipas, seja enquanto ativos fundamentais

do Futebol atual.

10. TENDÊNCIA PARA

A HARMONIZAÇÃO, MAS

SEM HOMOGENEIZAÇÃO

O reconhecimento do modelo português de

formação de treinadores no contexto europeu

ocorreu entre 2005 e 2006, com a adesão da

FPF à Convenção de Treinadores da UEFA.

Não fez mais que enquadrar a formação

nacional anteriormente existente num novo

âmbito, permitindo uma harmonização

formativa transeuropeia onde a livre circulação

de treinadores no espaço desportivo europeu é

a sua expressão mais prática.

Essa harmonização não conduziu, e tudo

faremos para que não conduza, a qualquer

homogeneização formativa, no sentido da

imposição de um modelo único que retire a

possibilidade de desenvolvimento de uma

formação de treinadores segundo a nossa

própria filosofia, a nossa matriz metodológica e

utilizando os nossos próprios recursos humanos.

A construção de um qualquer modelo unitário de

formação de treinadores, seja para a generalidade

dos países, seja num mesmo país para todas as

modalidades desportivas – independentemente

de quem são os seus mentores ou os seus

autores e ao arrepio das particularidades de

desenvolvimento de cada uma delas e do

contexto social, cultural e económico em

que inserem – resultará decerto de quimeras

fundamentalistas, de óticas totalitárias e de

perceções paternalistas sobre as federações e os

treinadores, que não se enquadram nos valores

de responsabilidade institucional e pessoal no

seio da sociedade contemporânea.

Porquanto a uniformização é inimiga da

diversidade e a diversidade é necessária

por nos obrigar ao debate de ideias e de

perspetivas, à elaboração de práticas

refletidas, a tomadas de decisão sustentadas

e à análise da sua aplicação, procedimentos

fundamentais para o enriquecimento dos

formadores, dos formandos e do processo

formativo global.

11. PREOCUPAÇÃO QUALITATIVA

- MODELO FORMATIVO NA

PERSPETIVA DE DESENVOLVIMENTO

DA CARREIRA

O processo formativo dos jogadores mais

jovens e a sua posterior evidência no contexto

nacional e internacional são consequência

da qualidade desse processo. A qualidade do

processo de desenvolvimento e de gestão

dos recursos humanos que são os jogadores

decorre, por sua vez, da influência de

múltiplos fatores mas, maioritariamente,

da qualidade dos recursos humanos que os

enquadram. E, neste âmbito, a intervenção

de treinadores qualificados nesse processo

é, esmagadoramente, o maior responsável

por essa qualidade. Como o presente nos

demonstra e o futuro nos exigirá.

Os contributos aqui enunciados e explicitados

são já hoje atributos do processo de formação

de treinadores, dissemos atrás. São a sua

matriz identitária, referimos. Temos hoje

a responsabilidade de permanentemente a

vivificarmos, de continuamente a mantermos

na frente da nossa responsabilidade, de a

todo o tempo lhes darmos congruência em

relação aos desafios presentes e futuros

com que os treinadores se defrontam.

Ao respondermos com qualidade a esses

desafios estaremos concomitantemente a

reforçar a sustentabilidade do processo de

formação e também a valorizar da carreira dos

treinadores.

A afirmação de um modelo de formação de

treinadores de qualidade apresenta dois

indicadores de medida fundamentais: a

sua capacidade para projetar no mercado

global quem foi sujeito a essa formação e a

perenidade dessa projeção, isto é, a aceitação

duradoura nesse mercado.

O primeiro indicador estará cumprido, mas o

segundo é tão conhecido como o futuro. Que

devemos antecipar.

FPF360 11


Quatro números da “Futebol em Revista”, publicada entre as décadas de 60 e 90 do séc. XX

12

FPF360


É a nossa fibra

que nos leva mais longe.

O MEO dá os parabéns à Seleção Nacional de Futebol

pelo apuramento para o Euro 2020. Boa sorte, continuem

a mostrar a fibra de campeões de que são feitos.

Força Portugal!

Patrocinador Oficial da Seleção Nacional

FPF360 13


14

FPF360


MICHEL RITSCHARD //

INSTRUTOR FIFA

EX-FORMADOR DA FEDERAÇÃO SUÍÇA

O próprio subtítulo coloca sobre a mesa a importância da análise dos dados estatísticos da competição

através de uma abordagem técnica, a única possível para lhe dar significado por transformá-la em

informação. Este significado está associado a múltiplas variáveis que são chamadas a contribuir para o

contexto de jogo, as quais são globalmente enquadradas no modelo de jogo de cada uma das equipas

em confronto e são particularmente ajustadas à dimensão tático-estratégica definida pelo treinador.

Continuando ligado à FIFA, Michel Ritschard vive agora em Portugal.

MUNDIAL “RÚSSIA 2018”

ANÁLISE TÉCNICA DOS DADOS

ESTATÍSTICOS DA FIFA

PREFÁCIO

Este Mundial 2018, considerado um grande

sucesso a nível da organização, permitiu-nos

assistir, em geral, a jogos equilibrados em

termos de resultados.

Se algumas das melhores equipas do ranking

da FIFA foram até às meias-finais, a França, a

Croácia, a Bélgica e até a surpreendente equipa

de Inglaterra - único país a apresentar jogadores

titulares só do seu próprio campeonato nacional

– vimos também grandes nações vencedoras de

títulos mundiais, como a Alemanha e a Espanha,

eliminadas logo na fase de grupos, e a Argentina,

o Brasil e o campeão europeu Portugal serem

eliminados nos oitavos de final.

Outras seleções mais “pequenas” mostraram

uma boa progressão do seu futebol e dos seus

jogadores como o Japão, o Senegal, e até a

Coreia do Sul.

Uma das maiores surpresas deste Mundial

foi o percurso da equipa da Croácia, finalista

deste torneio realizado na Rússia, que

mostrou um jogo de grande qualidade ao

longo da competição, com um conjunto de

grande maturidade, de um excelente espírito

coletivo e conduzido por um grande jogador,

Luka Modric, eleito como o melhor da prova.

Foi o caso também da Bélgica, com um futebol

alternando entre jogo pausado e jogo rápido,

com muito boas individualidades, que ficou à

porta da final após um excelente jogo contra a

França na meia-final.

A equipa de França, campeã do mundo após

uma fase menos conseguida, venceu graças à

sua regularidade, ao coletivo, a uma excelente

organização tática e aos contra-ataques,

aproveitando os excelentes passes para os

avançados Griezmann e, especialmente, o

jovem e rápido Mbappé.

No entanto, devemos reconhecer que a

diferença verificada entre as melhores

equipas deste Mundial e as mais “pequenas”

era muitas vezes por causa da qualidade e

da experiência dos jogadores em grandes

competições internacionais.

Este estudo é apresentado em três partes. A

primeira parte foi feita com base numa análise

comparativa entre catorze (14) equipas:

os semifinalistas do Mundial, as cinco (5)

melhores equipas eliminadas nos oitavos

e quartos de final e ainda cinco (5) equipas

eliminadas na fase de grupos.

As estatísticas apresentadas na primeira parte

são do relatório técnico oficial da FIFA.

Conhecendo a importância no futebol atual da

fase de transição, a segunda parte do estudo

permite uma comparação desta ação de jogo

entre todas as equipas do Mundial e conhecer

melhor os instrumentos que possibilitam a

sua eficácia.

FPF360 15


I. VISÃO GERAL

DAS AÇÕES DE JOGO

1. POSSE DE BOLA

Estatísticas de ações de posse de bola

(De acordo com o relatório técnico da FIFA)

Equipas em

3 grupos

Posse

média

de bola

Passes

e precisão

Passes e precisão

do guarda-redes

Média do número

de bolas jogadas

na zona 1

de defesa

Média do número

de bolas jogadas

na zona 3 de

finalização

França 48% 83% 68% 56% 29%

Croácia 56% 83% 75% 65% 40%

Bélgica 52% 87% 80% 54% 30%

Inglaterra 53% 86% 77% 67% 39%

Média das equipas

½ finalistas

53% 85% 75% 61% 35%

Argentina 74% 86% 75% 67% 35%

Brasil 56% 89% 89% 34% 37%

Espanha 69% 92% 83% 91% 37%

Portugal 54% 84% 72% 57% 32%

Suíça 64% 86% 75% 51% 38%

Média das

5 equipas

59% 87% 77% 59% 37%

Irão 64% 39% 47% 47% 23%

Nigéria 33% 63% 39% 56% 29%

Panamá 40% 80% 42% 46% 21%

Perú 52% 82% 55% 50% 27%

Tunísia 51% 83% 74% 46% 30%

Média das 5 equipas

eliminadas na

fase de grupos

44% 77% 53% 49% 26%

16

FPF360


A grande maioria destas equipas soube

alternar um jogo pausado com um jogo

rápido, ou mesmo em contra-ataque, através

de passes para a frente após recuperação

da bola. Percebemos que há pouca ou

nenhuma diferença entre as melhores

equipas do grupo 1 (verde) e as do grupo 2

(azul) ao nível da posse de bola (53%/59%)

e, em particular, na eficácia dos passes e na

precisão (85%/87%). Verificou-se o mesmo

com a média do número de bolas jogadas na

sua própria zona defensiva (60% / 59%) e a

média do número de bolas jogadas na zona

3 de conclusão dentro da zona defensiva do

adversário (35% / 37%).

Vemos também que as equipas que apoiam

o seu jogo principalmente na posse de bola

– como a Croácia, a Bélgica ou a Argentina e,

claro, a equipa espanhola, mestre neste tipo

de jogo pausado –, com uma média superior a

60%, iniciam de imediato as ações ofensivas

desde o seu meio-campo jogando a primeira

bola em profundidade, mas também nas

laterais para dar largura e espaço ao jogo.

Essas mesmas equipas, e também o Brasil,

podem colocar a bola (38%) na zona defensiva

adversária em função das opções do jogo,

mas acima de tudo graças aos deslocamentos

e à qualidade individual dos jogadores,

assim como à sua capacidade técnica,

designadamente a velocidade do jogo.

No entanto, a posse de bola nem sempre é

sinónimo de vitória: os dados estatísticos

das equipas mostram-no. O paradoxo reside

no facto de que equipas como a Espanha, a

Argentina e a Suíça terem sido eliminadas,

apesar de uma posse média de bola de 69%

ou de uma eficácia de passes de 88%.

Estas equipas estavam especialmente

empenhadas em defender com um

bloco compacto, posicionado muito

alto no campo e confiando em grandes

jogadores experientes que se precipitavam

rapidamente para a frente logo após a

recuperação da bola. A velocidade de

perceção e a qualidade técnica dos passes foi

a base da sua eficácia ofensiva.

No entanto, verificámos uma diferença

significativa entre as equipas dos grupos 1 e 2

e as do grupo 3 eliminadas na fase de grupos

com dados estatísticos abaixo do nível médio

de posse de bola, principalmente, com uma

média de 44% de posse, 77% de passes e

precisão, 49% de bolas jogadas na sua zona

defensiva e 26% na zona 3 ofensiva.

Estas equipas – como a iraniana e a

peruana, com apenas dois golos sofridos –

apresentaram um jogo defensivo compacto

bem organizado e sólido, com espaços

reduzidos em superioridade defensiva,

impedindo muitas vezes os adversários

de encontrar uma falha. A maioria dessas

equipas procurou, desde o momento de

recuperação da bola, jogar rapidamente em

profundidade, tirando vantagem do facto

de o adversário não estar reorganizado

defensivamente, mas muitas vezes só com

um ou dois avançados isolados.

No jogo atual, os guarda-redes estão sempre

mais predispostos a desempenhar funções

de jogadores de campo, especialmente

nas equipas que constroem a partir de

trás. Vimos uma grande participação dos

guardiões no jogo de pés, tanto o direito

como o esquerdo, com passes e precisão

com média de 75% nas equipas semifinalistas

do Mundial, de 77% nas equipas do grupo

2 e só de 53% nas equipas do grupo 3. Em

média, para todas as equipas do Mundial,

são jogados 27% passes por jogo. O maior

número de passes por jogo dos guardaredes

é de 39% (apenas 4% para o da

Tunísia). O comprimento desses passes

varia, em média, entre os 17 e os 34 metros.

A pequena diferença entre as melhores

equipas, especialmente na posse de bola e na

qualidade técnica dos passes, explica-se pelo

facto de haver nas equipas analisadas grandes

nações do Futebol, tais como a Argentina, o

Brasil, Portugal e, principalmente, a Espanha.

FPF360 17


2. COMO FORAM MARCADOS

OS GOLOS?

Estatísticas dos remates à baliza e golos

marcados

(De acordo com o relatório técnico da FIFA)

Equipas em

3 grupos

Número em

média de

remates à baliza

Número em média

de remates enquadrados

à baliza

Total dos

golos marcados

durante o Mundial

Média dos

golos marcados

na zona 3 de

conclusão

Média de

golos marcados

fora da área de

finalização

França 12 4 14 71% 29%

Croácia 17 4 14 93% 7%

Bélgica 15 6 16 94% 6%

Inglaterra 14 4 12 83% 17%

Média das equipas

½ finalistas

14 5 14 golos 82% 15%

Argentina 14 4 6 83% 17%

Brasil 21 8 8 88% 12%

Espanha 21 8 7 86% 14%

Portugal 14 4 6 67% 33%

Suíça 14 4 5 80% 20%

Média das

5 equipas

16 5 6 golos 80% 22%

Irão 8 2 2 100% 0%

Nigéria 12 3 3 100% 0%

Panamá 8 3 2 100% 0%

Perú 11 4 2 100% 0%

Tunísia 12 4 5 100% 0%

Média das 5 equipas

eliminadas na

fase de grupos

10 3 3 golos 100% 0%

18

FPF360


No total desta edição 2018 foram marcados 169

golos, contra 167 no Mundial do Brasil, em 2014.

Na fase de grupos foram apontados 47 golos,

contra 35 no anterior Campeonato do Mundo.

As equipas foram eficazes na finalização com

9,8 remates por jogo, mas três menos que no

Mundial da África do Sul, em 2010.

Verificámos nesta tabela 2 que a média

das equipas dos grupos 1 e 2 é de 5 remates

enquadrados a cada 15 tentativas. Para as 5

seleções do grupo 3, em 10 remates, 3 foram

enquadrados. Para as cinco equipas do grupo

3, em 10 remates, 3 foram enquadrados. Em

relação aos golos marcados, as equipas do

grupo 1 têm uma média total de 14. A Bélgica,

com 16 golos, a França e a Croácia, com 14,

mostraram mais eficácia nesta ação ofensiva.

Em relação às zonas de remate entre os três

grupos de equipas, 13% são fora da área e 87%

na grande área. No entanto, foi nas melhores

equipas que o remate fora da área foi mais

utilizado, com uma média de 19%. Portugal

(33%) e a França (29%) são as equipas desta

análise que mais remataram fora da área,

podendo contar com jogadores eficazes neste

movimento técnico como Ronaldo, Mbappé

ou Pogba.

A média de cruzamentos fora da área neste

Mundial foi é de 21 por jogo, como no Mundial

de 2014, e muito próximo dos 22 no Mundial

2010, comprovando a importância cada vez

maior do jogo pelos corredores laterais no

Futebol atual, com cada vez maior participação

dos defesas-laterais no jogo ofensivo.

› GOLOS DE BOLAS PARADAS

O resultado de vários jogos desta competição

foi decidido através de bolas paradas. Apesar

dos golos penálti, a maior mudança vem dos

cantos ou livres: em média, foi marcado um

golo em 29 cantos; este número foi de 36 em

2014 e 61 em 2010.”

Confirmando esta tendência, durante os jogos

da fase de eliminação direta – desde os oitavos

de final até à final – um golo foi marcado em 31

cantos.

Estas bolas paradas têm sido mais

importantes no futebol atual e as equipas

tornaram-se perigosas, como mostrou a

Inglaterra com 9 golos. A França também o

demonstrou na semifinal contra a Bélgica com

o único golo do jogo marcado de canto e, na

final, marcando os seus primeiros dois golos

através de bolas paradas.

Esta tendência prova que é cada vez mais

importante trabalhar as bolas paradas

logo com os jovens em formação e,

especificamente, o gesto técnico de remate

que é a base da sua eficácia. A formação de

jogadores especialistas torna-se portanto

importante desde a mais tenra idade.

É CADA VEZ MAIS

IMPORTANTE TRABALHAR

AS BOLAS PARADAS

LOGO COM OS JOVENS

EM FORMAÇÃO E,

ESPECIFICAMENTE,

O GESTO TÉCNICO

DE REMATE QUE

É A BASE DA SUA

EFICÁCIA. A FORMAÇÃO

DE JOGADORES

ESPECIALISTAS TORNA-SE

PORTANTO IMPORTANTE

DESDE A MAIS TENRA

IDADE

QUANDO EU ERA JOGADOR,

NÃO PREPARÁVAMOS

ESPECIALMENTE ESTAS

FASES DE JOGO [BOLAS

PARADAS]. DEDICÁVAMOS

A ELAS CINCO A DEZ

MINUTOS DE CADA TREINO.

HOJE, ELAS SÃO OBJETO DE

GRANDE ATENÇÃO.

MARCO VAN BASTEN

DIRETOR TÉCNICO DA FIFA

“Quando eu era jogador, não preparávamos

especialmente estas fases de jogo.

Dedicávamos a elas cinco a dez minutos em

cada treino.

Hoje, elas são objeto de grande atenção “

(Marco Van Basten, Diretor Técnico da FIFA)

3. TENDÊNCIAS TÁTICAS

IMPORTANTES NESTE

MUNDIAL DE 2018

3.1. AO NÍVEL DO CRIADOR

Raras foram as equipas que jogaram com este

tipo de jogador como o eram o italiano Pirlo

em 2006, e Xavi e Iniesta da equipa espanhola

em 2010, na África do Sul.

No futebol atual muitas vezes ouvimos

treinadores dizerem “O criador do jogo é o

coletivo da equipa” e as várias soluções tácticas

adotadas durante a competição foram prova disso.

No entanto, graças a uma maior perceção do

jogo e uma excelente técnica, o croata Modric

ditou ao longo da prova o ritmo de jogo da

surpreendente equipa da Croácia. Alternando

um estilo defensivo e ofensivo com grande

qualidade técnico-táctica e conseguindo

marcar 2 golos, ele foi a base para o inesperado

percurso da sua equipa.

3.2. O JOGO OFENSIVO

DOS DEFESAS-LATERAIS.

Se estes jogadores estão lá primeiro para

defender, mostrar solidariedade nos duelos e

reduzir significativamente os espaços, ao fim

de alguns anos podemos reconhecer-lhes uma

grande importância ofensiva.

Como os alas ou os jogadores de meio-campo

mais exteriores já não são realmente chamados

a manterem-se nos corredores junto às linhas,

é cada vez mais comum os laterais participarem

em fases ofensivas. Os sistemas de jogo e os

dispositivos táticos dos treinadores promovem

essa responsabilidade ofensiva dos defesas,

assumindo estes frequentemente o papel de

alas, para assegurar cruzamentos ou o último

passe para os avançados, ou até para rematar à

baliza – como fez o defesa francês Pavard, autor

de um remate imparável que permitiu o empate

da França a duas bolas no jogo importante e

difícil contra a Argentina, nos oitavos de finais.

3.3. A DEFESA COMPACTA

Com defesas muitas vezes compostas por

9 jogadores e espaços reduzidos entre as

linhas, é sempre mais difícil para os avançados

encontrarem soluções.

São uma prova desse facto os escassos

remates fora da área, o número reduzido de

bolas jogadas no interior da mesma – com

uma média de 36% para as melhores equipas

e de 26% entre as equipas do grupo 3 – e uma

diminuição de 30% desse tipo de remates

desde o Mundial de 2010. Em média, as

equipas deste Mundial apresentaram a largura

do bloco defensivo entre 23 e 30 metros e a

profundidade entre o último defesa e o último

avançado de 30 a 35.

Observámos que, para a França, a largura do

bloco defensivo sem bola é de 24 metros e com

bola é de 28; a distância entre as linhas sem bola

é de 34 metros e com bola de 40. Pode fazer-se

uma comparação interessante com a equipa

do Irão e o seu jogo defensivo, com a largura do

FPF360 19


bloco defensivo de 24 metros, com e sem bola,

e a distância entre as linhas de 37 metros sem

bola e 39 metros com bola, explicando-se dessa

forma a solidez defensiva da formação asiática.

Esta organização defensiva rígida e rigorosa

dos iranianos permitiu-lhes colocar em grande

dificuldade as equipas que enfrentou.

Este impacto com uma defesa em

superioridade numérica frequentemente

com 8 a 9 jogadores foi a estratégia de várias

equipas «pequenas» baseando o seu jogo no

contra-ataque como única arma ofensiva,

mas infelizmente, essas equipas não puderam

contar com jogadores do calibre dos da França,

por exemplo.

4. AS CARGAS FÍSICAS DURANTE

O MUNDIAL DE 2018

Estatísticas das cargas físicas

(De acordo com relatório técnico da FIFA)

Equipas em

3 grupos

Média da distância

total percorrida

(km)

Médiada distância

percorrida > 20

km/h (m)

Média da distância

percorrida > 25

km/h (m)

Média dos

golos marcados

na zona 3 de

conclusão

Média do número

de corridas a mais

de 25 km/h (n)

França 100,1 7.096 2.007 71% 316

Croácia 102,7 7.996 2.236 93% 350

Bélgica 105,0 7.567 2.144 94% 324

Inglaterra 107,0 7.801 2.229 83% 335

Média das equipas

½ finalistas

103,7 7,615 2.154 82% 331

Argentina 99,9 7.230 1.968 83% 368

Brasil 103,1 8,108 2.176 88% 347

Espanha 103,8 7.040 1.588 86% 320

Portugal 103,5 6.853 1.670 67% 304

Suíça 106,6 7.333 1795 80% 322

Média das

5 equipas

103,7 7,312 1.839 80% 321

Irão 103,8 8.200 2.250 100% 365

Nigéria 99,3 7.130 2.013 100% 313

Panamá 97,1 6.953 1.897 100% 303

Perú 102,3 7.517 1.947 100% 327

Tunísia 103,8 8,113 2307 100% 350

Média das 5 equipas

eliminadas na

fase de grupos

101.2 7.582 2.062 100% 331

20

FPF360


A dimensão física, e especialmente as

corridas, foram a base do desempenho

das quatro melhores equipas do mundo,

particularmente a distância total percorrida

em jogo (média de 103,7kms), a distância

percorrida a uma velocidade superior a 20

kms/h (média de 7615 metros) e a distância

percorrida a mais de 25kms/h (média de 2154

metros). Particularmente, alguns jogadores

percorreram 12 e 13 kms por jogo, apesar

das altas temperaturas que por vezes se

registaram. Durante o Colômbia-Inglaterra

(oitavos de final), que foi jogado com

prolongamento e penáltis, os colombianos

percorreram 138,20 kms de distância e os

ingleses 142,71 kms (média de 2,34kms/

minuto). Não há nenhuma diferença

significativa entre as equipas desta análise,

especialmente no número de corridas acima

dos 25 kms/h, que inclui sprints com e sem

bola. Alguns jogadores foram além de 30 km/h,

o que explica a importância cada vez maior da

velocidade-força (potência) no jogo de futebol

moderno e sobretudo, sem esquecer também

uma grande reserva aeróbia (VO2max) que

permite uma melhor recuperação desses

esforços intensivos.

No entanto, observa-se ainda uma grande

diferença física neste ponto entre as

equipas de topo, especialmente a Croácia

e a Inglaterra, e o Panamá, classificado nos

últimos lugares deste Mundial.

Mas foi a forte equipa do Irão, que falhou por

muito pouco a qualificação para os oitavos de

final, que apresentou os melhores desempenhos

físicos nas corridas das 14 equipas analisadas,

o que permite também compreender melhor o

desempenho geral desta equipa surpreendente

que contou com um coletivo combativo,

atlético e uma ideia muito boa do seu treinador

português, Carlos Queiroz.

Mesmo se estas estatísticas confirmam a

importância da condição física neste Mundial,

apesar de tudo, o futebol a este nível é sobretudo

um assunto técnico-tático coletivo apoiado em

qualidades individuais de jogadores que fazem

frequentemente a diferença.

A PRIMEIRA QUALIDADE

ESSENCIAL PARA O

SUCESSO NA AÇÃO DE

TRANSIÇÃO

É A FACULDADE

MENTAL(DO QUERER E DO

PODER) PARA PASSAR DO

JOGO OFENSIVO AO JOGO

DEFENSIVO E VICE-VERSA

O MAIS RAPIDAMENTE

POSSÍVEL

II. ANÁLISE DA AÇÃO DE TRANSIÇÃO

“A primeira qualidade essencial para o sucesso

na ação de transição é a faculdade mental(do

querer e do poder) para passar do jogo

ofensivo ao jogo defensivo e vice-versa o mais

rapidamente possível”

Esta análise da transição – a equipa não tem

a bola > a equipa recupera e guarda a bola –

apresenta aspetos do jogo característicos deste

Mundial. Esta transição, no futebol atual, possui

determinados aspetos técnicos e táticos que

influenciam o seu sucesso e a sua eficácia no

jogo.

Para esta análise, 48 jogos do Mundial foram

contemplados com tempos de observação

de 35 a 40 minutos, o que representa cerca

de 60% a 70% do tempo efetivo de um

jogo. Todas as ações observadas foram

exclusivamente realizadas a partir de uma

recuperação da bola após a sua perda pela

equipa adversária.

Não foram contabilizadas as ações do

jogo, como os remates à baliza ou os golos

marcados de bola parada – na sequência de

livres, de cantos, de lançamentos de linha

lateral – e ainda os pontapés do guarda-redes.

A TRANSIÇÃO

Para tentar ganhar um Mundial com grandes

equipas competitivas é essencial, em todos os

níveis de jogo, ter o domínio das transições

rápidas – da defesa (o adversário tem a bola)

a uma situação ofensiva (a equipa recupera a

bola) porque permite tirar proveito do facto

de o adversário ainda não estar reorganizado

para lançar um ataque rápido ou até mesmo

para garantir a posse de bola.

A transição de uma fase para outra é

denominada de “Ação de transição”, que dura 3

a 4 segundos.

Esta capacidade de saber gerir rapidamente

e com eficácia a passagem da defesa para

o ataque é fundamental no futebol atual,

mesmo nos jogos dos jogadores mais novos.

Ela depende da organização coletiva da

equipa, das áreas de ação no campo para

recuperar a bola, mas principalmente das

qualidades técnico-tácticas (TE-TA) dos

jogadores, das suas capacidades físicas,

incluindo a velocidade, que exigem uma

concentração permanente.

› AÇÕES DE JOGO ANALISADAS

DA AÇÃO DE TRANSIÇÃO DURANTE

O MUNDIAL DE 2018

› Número de recuperações (interceções) da

bola em situação de jogo (transição-defesaataque)

e número de recuperações por minuto

› Recuperações seguidas de um passe para

colega de equipa que pode ou não assegurar

um 2º passe de continuidade do jogo

› Recuperações por bola perdida na

intervenção de um adversário (duelo 1x1 / 2x1 /

pressão) e erro técnico e/ou má escolha tática

› Bola perdida num lance longo de recurso

para a frente ou para fora do campo e num

lance longo do guarda-redes ou defesa

› Recuperações e fintas: o jogador que recupera

e conduz a bola 5-10 metros antes do 1º passe

› Número de passes máximo: desde o 1º passe

após a recuperação com o maior número de

FPF360 21


passes entre os jogadores da equipa

› O lance é contatibilizado desde o momento da

recuperação da bola, seguida de uma jogada de

ataque com finalização enquadrada com a baliza.

1. ESTATÍSTICAS DA AÇÃO

DE TRANSIÇÃO DA FASE

DE GRUPOS À FINAL

(De acordo com o relatório técnico da FIFA)

Estatísticas (em número/

em %) Fase de grupos de

qualificação e final

Média de intervenção

na bola por equipa e por

minuto

Recuperação ganha no

1º passe

Bola perdida (duelo ou

não)

Recuperação ganha nos

1º e 2º passes

Recuperação bola em

Zona 1 (defensiva)

Recuperação bola em

Zona 2 (média)

Recuperação bola em

Zona 3 (de finalização)

1º passe para a frente

após recuperação da

bola

1º passe lateral após

recuperação da bola

1º passe para trás após

recuperação da bola

Recuperação da bola seguida

de ação individual

com bola + 1º passe

Bola perdida TE-TA (por

problemas técnicos ou

de tomada de decisão)

Bola perdida após duelo

com adversário

Bola perdida num pontapé

aéreo longo

Remates após jogada de

ataque de 5-8 passes

Remates após jogo rápido

ou contra-ataque de

1-4 passes

Equipas

eliminadas

nos grupos de

qualificação

Equipas

qualificadas

nos grupos de

qualificação

Jogos dos

1/8

de final

Jogos dos

1/4

de final

Jogo

da final

França-Croácia

0.83 0.86 0.86 0.88 1.0

62% 77% 80% 79% 77%

38% 23% 20% 21% 23%

45% 53% 62% 64% 68%

46% 43% 43% 32% 46%

47% 49% 49% 58% 46%

6% 8% 8% 11% 7%

55% 50% 48% 46% 49%

27% 31% 34% 30% 36%

11% 12% 13% 18% 10%

7% 9% 6% 6% 5%

48% 40% 26% 25% 23%

42% 50% 58% 59% 65%

9% 10% 12% 16% 12%

16% 21% 15% 22% 30%

84% 79% 85% 78% 70%

A tabela 4 mostra a taxa de sucesso de cada observação feita nesta análise. Permite também saber e compreender a influência dos diferentes aspetos

de jogo para o sucesso e a eficácia desta fase de transição.

22

FPF360


NÚMEROS DE AÇÃO DE TRANSIÇÃO

Depois de perderem a bola, foi comum ver equipas

a recuperá-la rapidamente.

O número de ações de transição defesa-ataque

por minuto mostra que, em relação aos quartos

de final, as melhores equipas do Mundial

apresentam uma média de intervenção da bola

por equipa e por minuto de 0,86, as equipas

eliminadas na fase de grupos de 0,83 e os finalistas

até cerca de uma vez por minuto (0,97).

A intensidade e o ritmo de jogo, a qualidade

das equipas, o estilo e a estratégia, bem como

o decorrer do encontro e a sua importância

para a eliminação direta em caso de derrota

desde os oitavos de final, podem explicar

essas diferenças significativas ao nível da

ação de transição, como se pôde verificar

especialmente durante a intensa e muto

emocionante final França-Croácia.

Estes dados confirmam que desde a perda de

bola, as equipas procuram o mais rapidamente

possível a sua recuperação com uma média

por jogo de uma ação de transição defesaataque

por minuto, o que permite perceber

a importância táctica defensiva desta fase

de transição – muitas vezes pressionando o

adversário –, a sua velocidade de execução, a

inteligência, a vontade e a agressividade

dos jogadores.

RECUPERAÇÃO DA BOLA

COM 1º E 2º PASSES

A taxa de eficácia desta ação, tanto ao nível de

recuperação de bola e do primeiro passe como

também da sequência primeiro-segundo

passes são verdadeiramente a base do

desempenho e dos resultados dos jogos.

Há diferenças significativas entre as equipas

eliminadas na fase de grupos, que ganham a

recuperação com o primeiro passe (62%) e

com a sequência do primeiro-segundo passes

(45%), e as equipas dos jogos dos oitavos de

final, com 80% de sucesso com o primeiro

passe e 62% no primeiro-segundo passes.

Na final a média de sucesso das duas equipas é de

77% no primeiro passe e ainda 68% no primeirosegundo

passes, o que demonstra a eficácia das

equipas na recuperação de bola durante esse jogo.

Outras equipas, como a Espanha, com uma

média de 83% e 81%, ou a Croácia (83% e 80%),

ou até mesmo a Alemanha (81% e 76%), realizam

esta ação de jogo com grande sucesso.

Ao contrário da equipa do Irão com uma média

nos seus jogos na fase de grupos de 66% no

primeiro passe e apenas 40% no primeirosegundo

passes ou ainda o Panamá com apenas

60% e 55%.

Estas diferenças no sucesso da transição

entre as equipas explicam-se com a filosofia

e o estilo de jogo, mas especialmente com a

qualidade coletiva da equipa e dos jogadores.

Nesta rápida ação de transição a equipa de

França foi, certamente, uma das mais eficazes

do mundial.

› AS ÁREAS DE RECUPERAÇÃO

DE BOLA

Uma média de 50% de recuperação de bola nos

jogos é realizada na zona 2, zona central do campo

mais procurada, e de 42% na zona 1 da defesa.

Estes dados confirmam claramente a tendência

atual do futebol para defender avançando com

um bloco compacto, muitas vezes já nessa zona

explicando um reposicionamento defensivo

rápido, reduzindo os espaços entre as linhas

com uma superioridade numérica que permite a

recuperação da bola para ter mais oportunidades

de reorganizar-se taticamente e oferecer mais

opções de jogo. A escolha de defender em zona 2

ou zona 3 também depende do modelo e estilo de

jogo das equipas e da estratégia do jogo.

As equipas com um estilo focado na posse de bola

recuperam-na com mais frequência na zona 2,

como foi confirmado com a Croácia, o Brasil e

a Espanha, entre outras, que recuperam a bola

entre 65 a 70% nessa zona.

Ao contrário de outras equipas que, visando

neutralizar o adversário e procurar o contraataque

– como a Rússia, o Perú, a Nigéria, a

Costa Rica, entre outras –, apresentam um estilo

diferente de jogo que promove a defesa baixa na

zona 1, com recuperações acima de 50% por jogo.

Esta escolha de zona de defesa depende, claro,

também das equipas que se defrontem e do

decorrer do jogo. No Bélgica-Inglaterra, jogo

de atribuição dos 3.º e 4.º lugares (2-0), os

belgas recuperaram a bola 66% na zona 2 e

34% na zona 1, enquanto os ingleses o fizeram

38% na zona 2 e 62% na zona 1. As melhores

equipas, que atuam em jogo pausado e ataque

organizado, como o Brasil, a Bélgica, a Croácia,

a Alemanha (apesar de ter sido eliminada na

primeira fase) e, especialmente, a Espanha,

estiveram particularmente à vontade neste jogo

de transição alta.

Esta ação de transição defesa-ataque também é

jogada em zona de defesa do adversário (zona

3) ou a partir da recuperação de bola após o

uma pressão alta. Várias oportunidades de

remates à baliza após 1 a 3 passes. Nos quartos

de final (Uruguai-França e Suécia-Inglaterra),

vimos 5 remates à baliza após 1-2 passes depois

da recuperação de bola e um golo inglês após

recuperação com realização de 4 passes nessa

zona alta.

› O PASSE APÓS

RECUPERAÇÃO DE BOLA

Como é o caso no futebol rápido atual,

o primeiro passe para a frente é o passo

preferencialmente reconhecido e até mesmo

recomendado pelos treinadores para esta ação

EM RELAÇÃO ÀS ZONAS

DE REMATE ENTRE OS

TRÊS GRUPOS DE EQUIPAS,

13% SÃO FORA DA ÁREA

E 87% NA GRANDE ÁREA.

NO ENTANTO, FOI NAS

MELHORES EQUIPAS QUE

O REMATE FORA DA ÁREA

FOI MAIS UTILIZADO,

COM UMA MÉDIA DE

19%. PORTUGAL (33%) E

A FRANÇA (29%) SÃO AS

EQUIPAS DESTA ANÁLISE

QUE MAIS REMATARAM

FORA DA ÁREA, PODENDO

CONTAR COM JOGADORES

EFICAZES NESTE

MOVIMENTO TÉCNICO

COMO RONALDO, MBAPPÉ

OU POGBA

que dá velocidade ao jogo.

Foi observada entre as equipas do Mundial

uma média de 50% de primeiro passe para

a frente, independentemente da área de

recuperação e geralmente para provocar um

jogo rápido e até um contra-ataque. O passe

nos corredores laterais foi utilizado numa

média de 30% pelas equipas, na maioria das

vezes como primeiro passe.

Independente da trajetória dada a este gesto

técnico, foi a sua qualidade que o tornou

preponderante no último Mundial. Equipas como

Marrocos, Nigéria, Egito ou Costa Rica, com a sua

defesa baixa, utilizaram estes passes para a frente

(55%) e para os laterais (27%). Ao contrário dos

jogos dos quartos de final até à final até a final,

este passe foi utilizado 46% para a frente e 30%

para um dos lados, este permitindo jogar na

largura do campo para abrir mais espaço.

A França alcança médias de 53% no primeiro

passe para a frente (na final, 62%), para

procurar rapidamente o seu jogo de contra-

FPF360 23


ataque, e de 26% nos corredores laterais.

Ao contrário, a Croácia, com o seu jogo de

posse de bola e ataques colocados, realizou

apenas 36% de primeiros passes para a frente e

de 50% para os lados.

Uma grande flexibilidade entre estes tipos de

passes já foi observada principalmente entre

equipas que jogam um jogo pausado desde

a zona 2 e até mesmo desde a zona 1, como a

Espanha, a Argentina, o Brasil, a Croácia, o

México, e até mesmo a Suíça com uma média

de 42% de passes para a frente e 41% para

os lados – alternando regularmente esses

dois tipos de passes no seu estilo de jogo,

essencialmente a partir dos defesas.

O primeiro passe para trás, tal como o da

sequência do primeiro-segundo passes, também

faz parte do jogo atual com a participação,

como já foi mencionado, do guarda-redes.

Esta inclusão do jogo de pés dos guardiões

depende, principalmente, do decorrer do jogo

e do estilo da equipa. Neste aspeto, a diferença

entre as equipas eliminadas na fase de grupos

e as melhores equipas dos jogos dos quartos de

final, particularmente aquelas que ficaram mais

focadas na conservação de bola, é de 9% para 16%.

“Na recuperação, pedia que o primeiro toque

fosse jogado para à frente, e se possível

sem controlo, com um toque de bola.” (JC.

Suaudeau, ex-treinador do FC. Nantes)

› BOLAS PERDIDAS POR PROBLEMAS

TÉCNICOS OU DE TOMADA

DE DECISÃO (TE-TA) E DUELOS

O aspeto técnico-tático (TE-TA) é certamente a

chave mais importante para o sucesso da transição.

Diferenças significativas quanto às bolas

perdidas resultantes de um erro TE-TA (falta

técnica ou má escolha no jogo) podem ser

encontradas entre as equipas eliminadas na

fase de grupos (48%), a partir dos oitavos de

final (30%) e na final (23%).

Se a técnica gestual pode ser às vezes uma

causa de perda de bola, seja por falta de

controlo de bola seja por falta de orientação

do corpo sob pressão do adversário, essa

“NA RECUPERAÇÃO, PEDIA

QUE O PRIMEIRO TOQUE

FOSSE JOGADO PARA À

FRENTE, E SE POSSÍVEL

SEM CONTROLO, COM

UM TOQUE DE BOLA.”

JC. SUAUDEAU

EX-TREINADOR DO FC. NANTES

MESMO SE ESTAS

ESTATÍSTICAS CONFIRMAM

A IMPORTÂNCIA DA

CONDIÇÃO FÍSICA NESTE

MUNDIAL, APESAR DE

TUDO, O FUTEBOL A ESTE

NÍVEL É SOBRETUDO UM

ASSUNTO TÉCNICO-TÁTICO

COLETIVO, APOIADO EM

QUALIDADES INDIVIDUAIS

DE JOGADORES QUE

FAZEM FREQUENTEMENTE

A DIFERENÇA

perda é essencialmente ao nível tático, por

uma informação mal interpretada, uma

má escolha de jogo, uma falta de solução

e, sobretudo, pela falta de mobilidade dos

jogadores em redor do portador da bola ou

pela velocidade gestual.

As equipas que perdem menos bolas em TE-TA

são também aquelas que contam com excelentes

jogadores, os mais reconhecidos pela sua técnica

– Hazard, Pogba, Mbappé, De Bruyne, Modric,

Ratikic, Messi, Griezmann ou Harry Kane. A

experiência internacional e o grande talento

podem fazerem a diferença, como este Mundial

nos provou.

As bolas perdidas nos duelos físicos

são observadas em função da estratégia

coletiva das equipas, do decurso do jogo e,

principalmente, da sua intensidade. Quanto

mais a competição progredia, maior era o

aumento das perdas de bola nos duelos. Na

fase de qualificação houve 42% de bolas perdidas

nesta situação, 59% durante os jogos dos quartos

de final e também na final (68% para a França e

62% para a Croácia), o que confirma o grande

envolvimento físico das equipas que chegaram

mais longe no torneio

Em comparação, no primeiro jogo da fase

eliminatória (Suíça-Brasil), temos uma média de

(50%) de bolas perdidas em duelos entre estas

duas equipas, o que é significativo da importância

do jogo e, especialmente, da sua intensidade.

No contexto de perdas de bola, é nos duelos

que elas acontecem mais vezes, numa

média de 50% e 60%, conforme os jogos, e

especialmente durante os 1x1, 2x1, depois de

uma pressão agressiva sobre o jogador que

leva a bola e, muitas vezes, com superioridade

numérica defensiva.

› REMATES À BALIZA APÓS

UMA ACÇÃO DE JOGO DESDE

A RECUPERAÇÃO DE BOLA

Uma média de 79% de remates ou

cabeceamentos enquadrados com a baliza que

foram observados durante as análises, são o

resultado de uma transição rápida de menos

24

FPF360


de 4 passes, confirmando a grande tendência

do jogo rápido atual, e 21% deles acontecem

após um ataque pausado com mais de 5 passes.

A grande maioria dessas ações são o resultado

de uma recuperação de bola na zona 2. É o caso

da final, onde a França marcou os terceiro e

quarto golos através de transições super-rápidas

e eficazes na zona 2, através de bolas rápidas

e de grande qualidade técnica para os seus

avançados. No total dos golos marcados, e sem

contar os golos marcados de bola parada, 70%

resultaram de uma transição rápida e eficaz.

2. ESTATÍSTICAS COMPARATIVAS

DA AÇÃO DE TRANSIÇÃO ENTRE

DIFERENTES EQUIPAS

(De acordo com o relatório técnico da FIFA)

Estatísticas (em número/

em %) Fase de grupos de

qualificação e final

Média de intervenção

na bola por equipa e por

minuto

Recuperação ganha no

1º passe

Bola perdida (duelo ou

não)

Recuperação ganha no

1º e 2º passes

Recuperação bola em

Zona 1 (defensiva)

Recuperação bola em

Zona 2 (média)

Recuperação bola em

Zona 3 (de finalização)

1º passe para a frente

após recuperação da

bola

1º passe lateral após

recuperação da bola

1º passe para trás após

recuperação da bola

Recuperação da bola seguida

de ação individual

com bola + 1º passe

Bola perdida TE-TA (por

problemas técnicos ou

de tomada de decisão)

Bola perdida após duelo

com adversário

Bola perdida num pontapé

aéreo longo

Média do número de

passes máximo durante

o jogo após recuperação

da bola

Remates após jogada de

ataque de 5-8 passes

Remates após jogo rápido

ou contra-ataque de

1-4 passes

França

Croácia

Manchester

City

Liverpool

Portugal

Final UEFA

Sub-19 2018

Italia

Final UEFA

Sub-19 2018

0.98 1.05 0.92 1.00 0.76 0.73

78% 81% 93% 87% 74% 71%

22% 19% 7% 13% 26% 29%

68% 70% 70% 72% 72% 69%

54% 39% 22% 41% 43% 41%

43% 50% 70% 56% 51% 56%

4% 11% 8% 3% 6% 3%

63% 35% 52% 50% 51% 44%

26% 50% 18% 31% 26% 41%

6% 8% 22% 12% 12% 8%

5% 7% 8% 7% 11% 6%

21% 35% 30% 34% 37% 52%

65% 62% 61% 56% 58% 44%

14% 3% 9% 10% 5% 4%

8 12 19 17 8 10

1 2 2 1 1 1

4 3 3 3 5 4

FPF360 25


Esta análise específica comparativa entre as

equipas finalistas do Mundial de 2018 (França

vs Croácia, 4-2), duas das melhores equipas

europeias atuais, ambas do campeonato inglês

(Manchester City vs Liverpool, 2-1 – jogo da

Premier League de 3 de Janeiro de 2019) e as da

final dos sub-19 UEFA 2018 (Portugal vs Itália,

4-3) reforça a importância desta transição em

praticamente todos os jogos, que é geralmente a

base para o sucesso das equipas no futebol atual.

Com esta tabela, os leitores podem tirar as

suas próprias conclusões deste último capítulo

da transição e fazerem a sua própria análise

comparativa entre as equipas de um alto nível de

jogo, tanto nos seniores como nos finalistas do

Europeu Sub-19 UEFA 2018.

Há pouca diferença ao nível de ações que

influenciam o sucesso da transição em equipas

de seniores e juniores, existindo uma ligeira

discrepância a nível tático mas, principalmente,

na qualidade técnica dos jogadores e no impacto

físico dos jogos, como podemos comprovar na

média de intervenção na bola por minuto, em

bolas perdidas TE-TA. A conclusão é a mesma

em recuperação ganha no primeiro passe.

O jogo de alto nível tático e técnico e de uma

grande intensidade física e mental Manchester

City vs Liverpool, demonstra estatísticas

equilibradas entre estas duas equipas.

A diferença entre o jogo da final do Mundial e o

jogo inglês entre duas equipas com a ambição de

vencer sempre pode explicar-se, particularmente,

ao nível da coesão tática e dos automatismos de

jogo e, claro, com as grandes individualidades

também. Este facto explica-se também por estas

equipas de clubes jogarem por temporada mais

de 70 jogos juntas, enquanto as equipas nacionais

jogam apenas 8 a 10 jogos por ano.

A final do Mundial e o Manchester City-

Liverpool jogaram-se a um ritmo elevado, com

pressão constante na zona 2 do meio-campo

(60%), recuperação de bola e recuperação ganha

de 80%, continuidade dos 1.º e 2.º passes de 63% -

com várias soluções de jogo deste a recuperação

-, e uma média de 18 passes, no máximo, após as

recuperações.

3. ESTATÍSTICAS COMPARATIVAS

DA AÇÃO DE TRANSIÇÃO ENTRE

ESPANHA-PORTUGAL

(De acordo com o relatório técnico da FIFA)

Estatísticas (em número/em %)

Fase de grupos de qualificação

Média de intervenção na bola por equipa

e por minuto

Espanha

Portugal

0.78 0.76

Recuperação ganha no 1º passe 80% 69%

Bola perdida (duelo ou não) 20% 31%

Recuperação ganha no 1º e 2º passes 88% 69%

Recuperação bola em Zona 1 (defensiva) 31% 38%

Recuperação bola em Zona 2 (média) 64% 54%

Recuperação bola em Zona 3 (de finalização) 10% 8%

1º passe para a frente após recuperação da bola 36% 57%

1º passe lateral após recuperação da bola 39% 27%

1º passe para trás após recuperação da bola 21% 14%

Recuperação da bola seguida de ação individual

com bola + 1º passe

Bola perdida TE-TA (por problemas técnicos ou de

tomada de decisão)

4% 2%

48% 47%

Bola perdida após duelo com adversário 44% 50%

Bola perdida num pontapé aéreo longo 8% 3%

Média do número de passes máximo durante o

jogo após recuperação da bola

36 20

Remates após jogada de ataque de 5-8 passes 2 0

Remates após jogo rápido ou contra- ataque de

1-4 passes

6 5

Distância total em jogo 98.95km 97.40km

26

FPF360


Esta observação do jogo equilibrado de

qualificação Espanha vs Portugal foi realizada

durante 40 minutos e os seus resultados podem

ser comparados com o quadro 5.

Para terminar esta ação de transição verificamos

que a diferença observada na final do Europeu

Sub-19 Portugal-Itália também é consequência

em grande parte dos poucos jogos disputados

juntos, mas, essencialmente, destes jogadores

ainda estarem em idade de formação. No

entanto, podemos reconhecer que esta ação de

transição já é eficaz nesta idade.

Estes últimos dados confirmam a necessidade

de trabalhar esta ação de jogo e especialmente

os aspetos técnicos e mentais já na formação dos

jovens.

“As equipas que têm sucesso são aquelas que

são mestres das fases de transição.” (G. Houiller,

FFF e Diretor Desportivo da Red Bull, 2018)

“AS EQUIPAS QUE TÊM

SUCESSO SÃO AQUELAS

QUE SÃO MESTRES DAS

FASES DE TRANSIÇÃO.”

G. HOUILLER

FFF E DIRETOR DESPORTIVO DA RED BULL, 2018

FPF360 27


28

FPF360


RUI GOMES //

TREINADOR-ADJUNTO AL TAAWOUN FC (1L – ARÁBIA S.) – 2019

TREINADOR FC PORTO “B”, S-19, S-17 E S-16 – 2005/13

Nota introdutória por Jorge Castelo - Formador FPF

O presente trabalho incide sobre a integração de jovens jogadores nas equipas que participaram

na fase de grupos da liga dos campeões 2018/19. Esta investigação representa uma das tendências

evolutivas do jogo de futebol. Ao longo dos anos e na atualidade, verifica-se um elevado nível de

sucesso dos jogadores mais jovens nas competições de alto rendimento, tendo-se a noção que esta

tendência se irá perpetuar no futuro. Tendo-se a noção que esta tendência se irá perpetuar no futuro.

Este facto deriva de uma melhor preparação futebolística dos jovens que começa mais cedo na vida,

ampliando o período de formação dos jogadores e preparando-os para os desafios que uma vida

profissional proporcionará.

INTEGRAÇÃO DE JOVENS

JOGADORES NA LIGA DOS

CAMPEÕES UEFA 2018/19

A IDENTIFICAÇÃO DE TALENTOS

EM 32 EQUIPAS DA FASE DE GRUPOS

1. INTRODUÇÃO

A procura de talentos no futebol é um fenómeno

transversal às diferentes realidades competitivas

e funciona tendencialmente em linha com a

política desportiva definida em cada clube.

Na atualidade,

› vemos os clubes de top mundial à procura

dos próximos Cristiano Ronaldo ou Messi,

mesmo batendo records sucessivos de

transferências;

› vemos clubes a intensificar a procura de jovens

jogadores por todo o mundo para que possam

ser eles a realizar essa transferência milionária

para os clubes com mais recursos financeiros;

› vemos clubes a qualificar o seu

departamento de formação de modo a

conseguirem fabricar dentro de portas

jogadores que sirvam as suas necessidades

desportivas e financeiras, atuais e de futuro;

› vemos clubes a identificar e definir jovens

jogadores do seu plantel como apostas de

venda futura e a articularem/imporem essas

linhas estratégicas aos seus treinadores;

› vemos equipas de nível intermédio a investir

na sua rede de prospeção e scouting nas divisões

inferiores de modo a reduzir orçamento e

qualificar o plantel com jovens jogadores;

› vemos lutas ferozes entre departamentos

de formação de diferentes clubes no afã de

recrutarem os melhores jogadores de clubes de

nível inferior, que por sua vez fazem o mesmo a

outros clubes de menor dimensão que a sua;

› vemos um número crescente de agentes a

digladiarem-se pela representação de jogadores

cada vez mais jovens, na expetativa de retorno

a médio/longo prazo, criando uma enorme

pressão sobre o seu processo formativo;

› e começamos a ver uma tendência de

distinção de perfil de treinador entre aqueles

que apostam nos jogadores jovens e aqueles

que preferem jogadores mais experientes,

parecendo haver uma ponderação cada vez

maior desse critério na escolha de treinador

para determinados clubes, em função da sua

visão estratégica de desenvolvimento.

O talento e a sua procura tornaram-se assim

um valioso recurso atrás do qual todos

parecem avidamente ir e muitos parecem

FPF360 29


depender (seleções, clubes, treinadores,

agentes, marcas comerciais, etc…).

Esta realidade reforça a importância da eficácia

do processo de deteção, seleção e identificação

de talentos no mundo do futebol.

Tendo por pano de fundo este grande tema,

procurámos neste trabalho verificar o grau de

implantação de jovens jogadores nas equipas

de futebol profissional.

A amostra que escolhemos para este efeito

foi a dos plantéis dos clubes que se apuraram

para a fase de grupos da Liga dos Campeões na

época 2018/2019.

Esta escolha amostral teve como suporte a

ideia de que os clubes que chegam a esta fase

da Liga dos Campeões são, de uma maneira

geral, aqueles com mais recursos (financeiros e

estruturais) do futebol europeu, representando

por isso o “estado da arte” do que o que um

plantel numérica e etariamente equilibrado

deve significar.

O trabalho incide, pois, na análise de cada um

desses 32 plantéis, e de forma mais detalhada

nos jovens jogadores que deles fazem parte.

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1 O ESTUDO DO TEMA

TALENTO DESPORTIVO

A reflexão em torno da temática do talento

desportivo é algo que tem merecido a atenção

de muitos autores, estando a sua origem

apontada para os anos 70, nomeadamente nos

países da Europa de Leste (Marques, 1993).

A literatura na área dos talentos desportivos

demonstra que, desde cedo, se procurou

estudar os mais dotados, as elites, de modo a

descobrir as características psicológicas que

eventualmente estariam na origem dos seus

resultados (Brito, 1996)

Williams & Reilly (2000) apontam esse

aumento de investigações na área da

identificação e desenvolvimento de jovens

talentos com o propósito de encontrar

indivíduos que em idade precoce manifestem

qualidades excecionais, de forma a acelerar o

seu processo de desenvolvimento através do

treino e de acompanhamento especializado.

Segundo Martins (2011), numa primeira fase a

deteção de talentos começou por ser empírica,

sendo feita por treinadores que a partir da

sua experiência, descobriam (durante treinos

ou jogos) jovens que lhes pareciam possuir

qualidades para bem suceder em contexto

competitivo (Costa & Alves, 1990; Williams &

Reilly, 2000).

Posteriormente, com maior cientificidade

e reconhecendo a importância deste

processo, foram desenvolvidas linhas de

investigação orientadas para a predição de

um desempenho de alto nível analisando a

influência de um fator apenas (fator genético)

ou em simultâneo com outros fatores

(fator genético, fator psicológico e o meio

envolvente) (Durand-Bush & Salmela, 2001).

Como refere Gaya et al. (s/d) e em jeito de

conclusão, identificar crianças, jovens e

adultos portadores de aptidões superiores em

diferentes domínios tem-se constituído um

objeto de estudo científico nos mais variados

campos disciplinares.

A seleção de talentos tornou-se um tema nobre,

passando a integrar temáticas de congressos e

de disciplinas lecionadas em vários cursos no

âmbito de ciências do desporto.

2.2 ACERCA DO CONCEITO

DE TALENTO

Desde do século passado têm existido

inúmeras tentativas para definir “talento”

(Durand-Bush & Salmela, 2001).

É de senso comum utilizar-se o termo talento

para designar habilidades inatas ou a capacidade

natural para realizar determinadas atividades.

Como aponta Durand-Bush & Salmela (2001), a

utilização deste termo é extremamente comum

noutras áreas para além do desporto como nas

artes, na música, nas ciências e na matemática.

Renzulli (1979) definiu-o como a capacidade

de uma pessoa demonstrar todo o seu

potencial humano numa determinada área,

num momento específico, sendo apoiado por

uma rede ampla de oportunidades e meios

educativos.

Segundo Gaya (2007), os talentos

apresentam determinadas características que

facultam capacidades para a realização de

determinados gestos ou para a resolução de

determinados problemas, realçando-se numa

determinada população relativamente a uma

determinada atividade. Segundo o mesmo

autor, estas são as características próprias de

um indivíduo talentoso:

› Apresenta em idade precoce uma tendência

incomum de realizar certas tarefas;

› Realiza as tarefas com uma certa facilidade

e felicidade, e demonstra interesse especial

e motivação para o esforço de alcançar

desempenhos maiores;

› À vocação, que pode ser percebida em

idades precoces, impõem-se à posteriori

procedimentos adequados de educação,

formação e promoção de um ambiente

propício à emergência e desenvolvimento

dessa capacidade excecional.

2.3 ACERCA DO CONCEITO

DE TALENTO DESPORTIVO

Já no âmbito das práticas desportivas, refere

Borms (1997) que um talento pode ser definido

como um indivíduo que, num determinado

estágio de desenvolvimento, dispõe de

certas características somáticas, funcionais,

psicológicas e de envolvimento social que o

capacita, com grande probabilidade de acerto,

para altas performances em determinadas

disciplinas desportivas.

E este propósito, Sobral (1994) distingue

o conceito de talento e de sobredotado,

considerando que o talento se manifesta

por uma elevada aptidão específica numa

particular atividade (modalidade desportiva),

enquanto o sobredotado demonstra aptidões

gerais associadas ao que se designa por

disponibilidade motora ou por uma habilidade

geral para realizar tarefas de carácter físico–

motor, sendo que um talento pode não ser

genericamente sobredotado e vice-versa.

Howe et al. (1998) consideram que o talento

emerge na interação entre as habilidades

inatas e a capacidade de demonstrar uma

habilidade excecional em situações muito

específicas do desporto.

Sintetizando, pode-se identificar um talento

COMO REFERE VIEIRA

(2017), NA LITERATURA

CIENTÍFICA EXISTEM

VÁRIOS TIPOS DE BATERIA

DE AVALIAÇÕES DAS

QUALIDADES FÍSICAS,

TÉCNICAS, TÁTICAS

OU PSICOLÓGICAS

PARA DIFERENTES

MODALIDADES.

A TÍTULO DE EXEMPLO,

SUGERE O AUTOR QUE

EM MODALIDADES

COLETIVAS SERÁ TÃO

IMPORTANTE AVALIAR A

CAPACIDADE DE DECISÃO

EM JOGOS REDUZIDOS

COMO AVALIAR AS

CARACTERÍSTICAS

BIOLÓGICAS E

MATURACIONAIS, NÃO

EXCLUINDO JOVENS

QUE TENHAM UM

DESENVOLVIMENTO

TARDIO A ESTE NÍVEL

30

FPF360


desportivo como um indivíduo: (a) capaz

de apresentar desempenho superior num

conjunto de habilidades e capacidades; (b)

capaz de manter uma elevada estabilidade

nestas habilidades e capacidades excecionais.

2.4 A ESTABILIDADE

E A REVERSIBILIDADE

DA PERFORMANCE

A Estabilidade da Performance é um conceito

intrínsecamente associado ao do Talento

Desportivo (Morouço 2011).

Estando perante um indivíduo com talento

num dado desporto e num dado momento,

nada nos garante que ele continuará a ser

um talento no futuro. Um alto rendimento

desportivo precoce é passível de garantir o

sucesso desportivo futuro? Ser forte, veloz,

virtuoso ou resistente aos 10 anos de idade

em relação à média populacional pressupõe

manter essas mesmas condições aos 16 ou 18

anos? Qual a probabilidade do campeão de

hoje se tornar o campeão de amanhã?

Como refere Maia (1993), afirmar que um jovem

que hoje apresenta níveis superiores numa

capacidade ou habilidade motora face aos seus

colegas manterá esta superioridade ao longo

do tempo, é um risco excessivo. É necessário

considerar que todo o processo de crescimento

e desenvolvimento de um pré-adolescente, por

exemplo, é regulado por fatores biológicos, de

envolvimento e de intervenção.

A Estabilidade da Performance, sinónimo de

permanência ou firmeza, nesta área remetenos

para a capacidade que o indivíduo jovem

possui de manter no tempo um nível de

performance “acima da média”.

Estabilidade Morouço (2011) considera a

manutenção absoluta ou relativa de um ou de

um conjunto de indicadores de desempenho

no interior de uma distribuição de valores,

podendo ela ser absoluta (em relação a valores já

padronizados) ou relativa/normativa (em relação

a uma população ou até a si mesmo no tempo).

Em síntese, e como refere Gaya et al.

(s/d), devido à complexidade de que está

dependente a performance de um atleta, não

podemos garantir que o campeão de hoje será

o campeão de amanhã. Poderemos apenas

inferir que ele terá elevadas possibilidades,

com o devido empenho e dedicação, de ser um

futuro campeão.

2.5 DE ONDE VEM O TALENTO?

NASCE CONNOSCO

OU É CONSTRUÍDO?

Um dos problemas associados ao estudo do

processo de desenvolvimento dos talentos diz

respeito à importância dada quer aos fatores

genéticos quer aos fatores ambientais.

Se por um lado, alguns investigadores defendem

que o talento tem por base uma forte componente

genética, existem outros que consideram que a

natureza do talento resulta essencialmente de

fatores do envolvimento, como o contexto e a

prática (Morgan & Giacobbi, 2006).

Howe e colaboradores (1998) apontam que o

talento pode ser categorizado tendo por base

fatores genéticos e uma base inata. O talento pode

não ser evidente numa fase inicial, mas existem

alguns indicadores capazes de serem observados

por pessoas com experiência, explicando-se

assim que os mesmos podem ajudar a prever os

indivíduos que alcançam o sucesso mais tarde.

A título de exemplo, falam de crianças que

demonstraram habilidades excecionais em

idades precoces, sem que aparentemente

tivessem tido a oportunidade de as

aprenderem, assim como determinadas

competências e habilidades encontradas em

sujeitos autistas e com deficiência mental.

Bouchard e colaboradores (1997, cit. por

Durand – Bush & Salmela, 2001) afirmam

que a composição corporal e morfológica,

influenciada pela genética, beneficia

alguns atletas a ter um perfil que favorece

as tarefas exigidas num determinado

desporto, sugerindo que a predisposição

genética poderá, em determinados

desportos, contribuir decisivamente para um

desempenho de alto nível.

Como reforça Gaya et al. (s/d), há

determinantes genéticas que possivelmente

definem potencialidades e designam

capacidades máximas de desempenho.

Morouço (2011) considera que muito do

que nós valorizamos para ser “talento” é

na realidade o grau a que cada atleta possui

certos atributos físicos, fisiológicos, ou

mentais e que podem contribuir a um

maior desempenho. Como refere o mesmo

autor, muitas das características físicas

do desportista são controladas pelo seu

perfil genético, ou seja, estão além do que

o treinador pode fazer no seu programa de

treino para mudar essas características.

Para além desta perspetiva, que defende a

influência da genética no desenvolvimento do

talento, existem investigadores que defendem a

preponderância do meio envolvente enquanto

catalisador do desenvolvimento do talento.

Ericsson e colaboradores (1993) referem

a importância da prática estruturada e do

tempo que nela é despendido enquanto

elemento facilitador para alcançar um

desempenho de alto nível e potenciar o

desenvolvimento do talento.

Bloom (1985) e Côté (1999) incidiram os seus

estudos na importância do contexto social como

forma de potenciar e desenvolver o talento,

através da importância que figuras significativas,

como os pais e os treinadores, possuem na

EM SÍNTESE, E COMO

REFERE GAYA ET AL. (S/D),

DEVIDO À COMPLEXIDADE

DE QUE ESTÁ DEPENDENTE

A PERFORMANCE

DE UM ATLETA, NÃO

PODEMOS GARANTIR

QUE O CAMPEÃO DE HOJE

SERÁ O CAMPEÃO DE

AMANHÃ. PODEREMOS

APENAS INFERIR QUE

ELE TERÁ ELEVADAS

POSSIBILIDADES,

COM O DEVIDO EMPENHO

E DEDICAÇÃO, DE SER

UM FUTURO CAMPEÃO

influência do processo, ao longo das diferentes

fases, desde o envolvimento inicial até à sua

especialização na prática desportiva.

Csikszentmihalyi e colaboradores (1993)

defendem uma perspetiva dinâmica do

desenvolvimento do talento, destacando o

contexto e a cultura onde se está inserido e o

tempo de prática como catalisador, onde mais

importante que as habilidades inatas é a forma

como o indivíduo as desenvolve, aproveitando

os recursos do meio envolvente.

Os mesmos autores apontam como elementos

essenciais definidores do talento, os traços

individuais (em parte inatos, em parte

adquiridos ao longo do desenvolvimento

pessoal), o domínio cultural (sistema de regras

que define os desempenhos como significativos

e valiosos) e o aspeto social (sujeitos e

instituições que supervisionam o desempenho).

Como refere Martins (2011), não existe uma

definição consensual quanto ao conceito

de talento, o que parece demonstrar a

complexidade deste mesmo constructo. Assim,

uma abordagem multidimensional que englobe

os fatores genéticos, os fatores do meio, a prática

e as figuras de referência (pais e treinadores)

poderá auxiliar de forma significativa a

compreensão sobre a interação destes fatores

e a influência dos mesmos no talento, de modo

a potenciar e maximizar, de forma sustentável,

todo o potencial do atleta.

FPF360 31


2.6 FORMAS DE ACEDER

AO TALENTO DESPORTIVO

Os procedimentos para identificar um talento

desportivo, em última análise, resumem-se a

selecionar sujeitos por algum critério no interior

de um grupo. Assim, selecionar um talento

desportivo implica escolher alguém ou alguns

entre vários sujeitos a partir de um critério

de qualidade superior. Desta ideia emerge o

conceito de Modelação da Performance.

Por Modelação da Performance, de acordo

com Gaya et al. (s/d), entende-se um

conjunto de procedimentos capazes de

prognosticar, com alguma probabilidade

de acerto, o jovem atleta de sucesso. Esses

procedimentos redundam na constituição

de um quadro complexo e hierárquico de

exigências somáticas, motoras e psicológicas

em diferentes modalidades desportivas e em

diferentes fases de desenvolvimento motor.

Ou seja, e segundo o mesmo autor, fazendo

uma avaliação dos atletas em formação em

diferentes faixas etárias e em diferentes

modalidades desportivas, vai permitir criar um

perfil de atleta por modalidade e por idade.

Concretizando, para cada modalidade desportiva,

cada componente avaliada não deverá ter o mesmo

peso, ou seja, a mesma “cotação” (quantitativa ou

qualitativa), dado que os pré-requisitos do sucesso

são diferentes. Cada modalidade desportiva deverá

ter, assim, a sua grelha de análise com base naquilo

que quem observa considera mais relevante e

indutor de talento desportivo, independentemente

de ela ser registada em papel, suporte tecnológico

ou pura e simplesmente, passe a expressão, feita a

“olhómetro”.

Como refere Vieira (2017), na literatura

científica existem vários tipos de bateria de

avaliações das qualidades físicas, técnicas,

táticas ou psicológicas para diferentes

modalidades. A título de exemplo, sugere

o autor que em modalidades coletivas será

tão importante avaliar a capacidade de

decisão em jogos reduzidos como avaliar as

características biológicas e maturacionais,

não excluindo jovens que tenham um

desenvolvimento tardio a este nível.

A esse propósito, Gaya et al. (s/d) acrescentam

que devemos considerar no processo de

deteção do talento desportivo a presença de

duas componentes de avaliação e decisão.

A primeira envolve uma dimensão ambiental

representada por exemplo, pelos programas de

treino, componentes sociais e psicológicas, etc.

A segunda envolve uma dimensão

pessoal mais ou menos condicionada

pelas características inatas do sujeito

(características genéticas), dando como

exemplo a sua treinabilidade e sua estrutura

morfológica e funcional, sendo que, segundo

o autor, os programas de deteção do talento

desportivo só são viáveis se assumirem a

hipótese de que a intervenção das habilidades

pessoais (características genéticas) é a

principal determinante da performance.

A título de exemplo, Vieira (2017) indica o

Instituto de Desporto Australiano como um

exemplo mundial na identificação de talento

desportivo, tendo criado um sistema online de

recrutamento com base na escola. Para além dos

atributos físicos e fisiológicos, muitos outros

fatores são considerados, como a motivação,

determinação, atitude positiva e a treinabilidade.

O sucesso de um programa de identificação

de talentos, de acordo com a experiência

Australiana, é o de proporcionar a esses

atletas, o melhor programa de treino e sistema

de apoio possíveis, concomitantemente

com um plano de carreira adequado. Na

elaboração deste percurso desportivo

colaboram especialistas de diversas áreas

complementares: preparação física, fisiologia,

aquisição motora, nutrição, psicologia,

fisioterapia, recuperação física e coordenação

de carreira atlética e académica.

2.7 FATORES DECISIVOS PARA

A IDENTIFICAÇÃO E SELEÇÃO

DE TALENTOS NO FUTEBOL

A identificação de talentos, num desporto de

equipa como o Futebol, é muito complexa e é

adequado realizar uma abordagem multivariada

(Reilly, Williams, Nevill & Franks, 2000).

Em idades precoces é difícil definir quais são

os fatores mais significativos na predição do

desempenho de alto nível, uma vez que nesta

fase os atletas são ainda física, psicológica e

emocionalmente imaturos (Durand-Bush &

Salmela, 2001).

Do mesmo modo, Régnier (1987, cit. por

Durand-Bush & Salmela, 2001) afirma que

na fase adulta, com o passar do tempo, a

população de atletas talentosos diminui e

torna-se mais homogénea no que respeita aos

aspetos físicos e psicológicos dificultando a

determinação dos fatores mais importantes

na predição do desempenho.

Especificando, Martins (2011) indica que

a investigação em alguns desportos, como

por exemplo o futebol, considera o nível de

maturação como uma forma de distinguir

os atletas com maior habilidade quando

comparados com outros da mesma faixa etária

(Williams & Reilly, 2000).

Sabendo que o nível de maturação tem

impacto sobre as características físicas

desenvolvidas durante todo o processo de

crescimento do jovem (Vaeyens, Lenoir,

Williams & Philippaerts, 2008), é irrealista

considerar uma detecção precoce dos

talentos em futebol a partir do ponto de vista

antropométrico (Sobral, 1982).

Por outro lado, futebolistas com menor grau

de maturação podem compensar qualquer

aparente desvantagem na composição

corporal com outros fatores técnicos e táticos,

demonstrando todo o seu potencial (e.g:

Abbott & Collins, 2004; Williams & Reilly,

2000) e evidenciando assim o fenómeno

da compensação que sugere que uma

limitação num determinado atributo possa

ser compensada com uma maior habilidade

noutro (Régnier et al., 1993).

Verifica-se, então, que diferentes fatores

estão associados a um desempenho de

alto nível e que, perante as dificuldades

subjacentes, é necessário compreender todo

o processo de detecção e seleção de talento,

de forma a otimizar o rendimento e sua

evolução enquanto atleta, sem negligenciar

o crescimento e desenvolvimento físico e

emocional do jovem (Williams & Reilly, 2000).

2.7.1 QUESTIONÁRIO

Com vista a delimitar os fatores mais

importantes na identificação e seleção de

talentos no futebol e a dar mais um contributo

neste tema, criámos e passámos um

questionário muito simples (ver anexos).

A nossa amostra foi o corpo de treinadores

VERIFICA-SE, ENTÃO, QUE

DIFERENTES FATORES

ESTÃO ASSOCIADOS A UM

DESEMPENHO DE ALTO

NÍVEL E QUE, PERANTE

AS DIFICULDADES

SUBJACENTES,

É NECESSÁRIO

COMPREENDER TODO O

PROCESSO DE DETEÇÃO

E SELEÇÃO DE TALENTO,

DE FORMA A OTIMIZAR

O RENDIMENTO

E SUA EVOLUÇÃO

ENQUANTO ATLETA,

SEM NEGLIGENCIAR

O CRESCIMENTO E

DESENVOLVIMENTO FÍSICO

E EMOCIONAL DO JOVEM

(WILLIAMS & REILLY,

2000)

32

FPF360


a realizar o Curso Uefa Pro 2018, a grande

maioria dos quais com experiência atual ou

passada no trabalho com jovens jogadores de

futebol.

O questionário continha uma pergunta inicial:

“Achas que os fatores mais relevantes no

processo de identificação de talentos em

futebol dependem do escalão etário? Ou

consideras que os fatores mais importantes

na identificação de talentos são sempre os

mesmos, independentemente da idade dos

jogadores?”

Os resultados foram os seguintes:

70+30

Sim

Não

Ou seja, 70% dos treinadores da amostra

consideram que os fatores mais relevantes na

identificação e seleção de talentos depende da

idade dos jovens jogadores.

De seguida, criámos 3 intervalos etários e

perguntámos, para cada um deles, quais os

fatores considerados como mais importantes

na identificação e seleção de talentos.

› Intervalo A - dos 8 aos 14 anos

› Intervalo B - dos 14 aos 18 anos

› Intervalo C - dos 18 aos 21 anos

Apresentamos em seguida os fatores

apontados pelos treinadores para cada um

destes intervalos, ordenados em função da

frequência com que foram sugeridos:

FPF360 33


Intervalo A - dos 8 aos 14 anos

Qualidade Técnica 22

Leitura de Jogo/ Inteligência/

Perceção/

Decisão

Competitividade/Ousadia/Personalidade/Iniciativa

15

Coordenação Motora 3

Prazer/Alegria/Paixão 3

Velocidade/Agilidade 3

Maturação/Idade Relativa/

Previsão Atlética

Criatividade/Talento 2

Respeito 1

Adaptabilidade 1

Caraterísticas Genéticas 1

8

3

Intervalo B - dos 14 aos 18 anos

Qualidade Técnica 23

Leitura de Jogo/ Inteligência/

Perceção/

Decisão

21

Capacidade Física 6

Compromisso/Dedicação/

Prazer/Alegria/Paixão

Velocidade/Agilidade 2

Competitividade/Ousadia/Personalidade/Iniciativa

Respeito pelos outros e

regras

Resiliência 1

Perceção Coletiva 1

3

2

1

Intervalo C - dos 18 aos 21 anos

Leitura de Jogo/ Inteligência/

Perceção/

Decisão

24

Qualidade Técnica 19

Capacidade Física/

Morfologia

12

Velocidade/Agilidade 3

Competitividade/

Ousadia/Personalidade/Maturidade

Resiliência/Adversidade

Compromisso/Dedicação/

Prazer/Alegria/

Paixão

Perceção Coletiva 1

6

2

1

Perceção Coletiva 1

Potencial 1

Potencial 1

Potencial 1

Idade Relativa 1

Idade Relativa 1

Capacidade Física 1

Adaptabilidade 1

Adaptabilidade 1

34

FPF360


Considerando agora os fatores mais frequentemente indicados pela amostra em função

dos diferentes intervalos etários definidos, obtemos o seguinte gráfico:

FATORES DE IDENTIFICAÇÃO/SELEÇÃO

22

23

21

24

19

15

8

6

12

6

3 3

1

2

8-14 ANOS 14-18 ANOS 18-21 ANOS

2.7.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS

Analisando os resultados obtidos, constata-se

que há 2 fatores que são sempre considerados

os mais importantes, independentemente da

idade: fatores de ordem técnica (relação com a

bola, velocidade de execução, adequação técnica

ao contexto) e fatores de ordem tática (leitura de

jogo/ inteligência/perceção/decisão), sendo que

estes vão ganhando importância à medida que

aumenta a idade dos jovens jogadores.

Os fatores de ordem física começam por não

ser considerados relevantes no intervalo A (8-

14 anos) mas assumem importância crescente

com o aumento da idade.

O fator “Competitividade/Ousadia/Personalidade/Maturidade”

é o que apresenta resultados

mais desiguais, dado que é o 3º fator mais

considerado no intervalo A (8/14 anos), quase

não é referido no intervalo B (14/18 anos) e

volta a ser novamente valorizado no intervalo

C (18-21 anos).

O fator “Velocidade/Agilidade”, tendo sido

referido poucas vezes, teve uma valorização

semelhante nos 3 intervalos.

3. ANÁLISE DA PRESENÇA DE JOVENS

TALENTOS EM EQUIPAS DE ALTO

NÍVEL NA ÉPOCA 2018/19

3.1 METODOLOGIA

3.1.1 DESENHO/AMOSTRA/OBSERVA-

ÇÃO E REGISTO DO ESTUDO

Utilizámos como amostra para este estudo as

32 equipas apuradas para a Fase de Grupos da

Liga dos Campeões – época 2018/19.

Identificámos em cada plantel dessas 32

equipas todos os jogadores que, à data deste

estudo (setembro de 2018), têm no máximo 21

anos de idade.

Procurámos por último levantar informação

acerca de cada um desses jogadores: idade

atual, posição, nacionalidade, proveniência

(formação ou transferência) e no caso de

transferência, idade em que ela se deu e origem

(clube e campeonato).

Para este efeito socorremo-nos dos sites zerozero.pt

e transfermarkt.pt

3.2 APRESENTAÇÃO

E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

3.2.1 ANÁLISE DESCRITIVA

Espanha (4): Atlético de Madrid, Real Madrid,

Barcelona, Valência

Alemanha (4): Borussia Dortmund, Bayern

Munique, Shalke 04, Hoffenheim

Inglaterra (4): Liverpool, Tottenham, Manchester

City, Manchester United

Itália (4): Nápoles, Roma, Inter, Juventus

França (3): Mónaco, Paris SG, Lyon

Portugal (2): Benfica, FC Porto

Holanda (2): Ajax, PSV

Rússia (2): CSKA, Lokomotiv

Bélgica (1): Club Brugge

Sérvia (1): Estrela Vermelha

Grécia (1): AEK

República Checa (1): Plzen

Turquia (1): Galatasaray

Ucrânia (1): Shakhtar Donetsz

Suíça (1): Young Boys

Foram identificados 158 jogadores com idade

máxima de 21 anos inscritos nos plánteis destas

32 equipas, num total de 810 jogadores (20%).

80+20

JOGADORES

<21 anos >21 anos

A distribuição dos jovens jogadores (<21 anos)

pelas respetivas equipas vem plasmado no

quadro seguinte (ordenado em ordem decrescente):

FPF360 35


Clube

Nº de

Jovens

Total de

Jogadores

(%)

Clube

Nº de

Jovens

Total de

Jogadores

(%)

1º Ajax 13 25 52.0%

24º Barcelona 2 22 9.0%

2º CSKA Moscovo 14 27 51.8%

25º Galatasaray 2 22 9.0%

3º PSV 6 19 31.5%

26º Juventus 2 24 8.3%

4º Young Boys 7 24 29.1%

27º Liverpool 2 24 8.3%

5º FC Porto 8 29 27.5%

28º Plzen 2 25 8.0%

6º Mónaco 8 29 27.5%

29º

Atlético Madrid

1 22 4.5%

7º Roma 7 26 26.9%

30º Inter Milão 1 23 4.3%

TSG

Hoffenheim

8 30 26.6%

31º Tottenham 1 25 4.0%

9º Valência 6 23 26.0%

32º

Estrela

Vermelha

0 28 0%

10º Shalke 04 7 27 25.9%

11º Club Brugge 6 25 24.0%

12º Paris SG 6 25 24.0%

13º

14º

Bayern

Munique

Borussia

Dortmund

6 26 23.0%

6 27 22.2%

15º Lyon 5 23 21.7%

16º Benfica 6 28 21.4%

17º

Manchester

City

4 24 16.6%

18º Real Madrid 4 24 16.6%

Se considerarmos a proveniência hierárquica

das equipas (“potes” a que pertencem), eis a

sua distribuição:

19º

Shakhtar Donetsk

4 27 14.8%

39+24+24+18+18+19

POTES

Pote 1 Pote 2 Pote 3 Pote 4

20º AEK 4 28 14.2%

21º Lokomotiv 4 28 14.2%

22º Napoli 3 25 12.0%

Analisaremos agora mais detalhadamente os

158 jogadores jovens jogadores constantes dos

plánteis das 32 equipas analisadas.

Começando pela idade, eis a distribuição

encontrada:

23º

Manchester

United

3 26 11.5%

36

FPF360


FATORES DE IDENTIFICAÇÃO/SELEÇÃO

67

51

24

11

3

2

21 ANOS

20 ANOS

19 ANOS

18 ANOS

17 ANOS

16 ANOS

N.º de Jogadores

Considerando a sua posição específica:

DISTRIBUIÇÃO POR POSIÇÕES

GUARDA-REDES 13

DEFESAS LATERAIS

22

DEFESAS CENTRAIS

20

MÉDIOS DEFENSIVOS

18

MÉDIOS CENTRO

28

MÉDIOS OFENSIVOS

12

AVANÇADOS

32

PONTAS DE LANÇA

13

N.º de Jogadores

FPF360 37


Considerando a sua nacionalidade:

1º França 16

23 Ucrânia 2

2º Holanda 16

24 Uruguai 2

3º Rússia 13

25 …… 1

4º Brasil 11

5º Alemanha 9

6º Espanha 9

Outra questão que procurámos saber foi a

origem dos jovens jogadores nos seus clubes:

formação ou transferência. Considerámos a

via da formação para os jogadores que entraram

nos clubes no máximo até ao escalão de

sub-16 inclusive.

7º Portugal 9

8º Suiça 8

9º Inglaterra 7

10º Bélgica 5

11º Itália 5

12º Croácia 4

66+34

ORIGEM

13º Marrocos 4

Formação

Tranferência

14º Nigéria 4

15º USA 4

16º Argentina 3

Considerando apenas os 54 jovens jogadores

que provêm da formação dos seus clubes,

procurámos saber mais acerca da sua nacionalidade

(se é coincidente ou não com o clube

que representa).

Estes foram os resultados obtidos:

17º Áustria 3

18º Grécia 3

19º Dinamarca 2

20º

Guiné Conacri

21 Rep. Checa 2

2

93+7

NACIONALIDADE/FORMAÇÃO

22 Turquia 2

Estrangeiro

Do mesmo pais

38

FPF360


Relativamente aos clubes que têm mais

jogadores provenientes da sua formação, estes

foram os resultados obtidos:

Clube

Nº de

Jovens da

Formação/

Total Jovens

Clube

Nº de

Jovens da

Formação/

Total Jovens

1º CSKA Moskva 7/14

13º Young Boys 2/7

2º Ajax 6/13

14º Atlético Madrid 1/1

3º Benfica 4/6

15º Galatasaray 1/2

4º Paris SG 4/6

16º Juventus 1/2

5º Lokomotiv 3/4

17º Liverpool 1/2

6º PSV 3/6

18º Plzen 1/2

7º Valencia 3/6

19º Manchester City 1/4

8º FC Porto 3/8

20º Real Madrid 1/4

9º Monaco 3/8

21º Shakhtar Donetsk 1/4

10º TSG Hoffenheim 3/8

22º Lyon 1/5

11º

Manchester

United

2/3

23º Club Brugge 1/6

12º AEK 2/4

24º Bayern München 1/6

25º Borussia Dortmund 1/6

26º Roma 1/7

27º Internazionale 0/1

28º Tottenham 0/1

29º Barcelona 0/2

30º Napoli 0/3

31º Schalke 04 0/7

32º Crvena Zvezda 0/0

FPF360 39


Considerando agora os 104 jogadores que chegaram

aos seus clubes atuais via transferência,

fomos verificar quantos foram transferidos

dentro do próprio país e quantos chegaram

após transferência internacional.

TRANSFERÊNCIAS

70+

Internacionais Intranacionais

70+30

Considerando a proveniência no caso de transferência

internacional, eis as mais frequentes:

1º Brasil 9

2º França 7

3º Inglaterra 6

4º Holanda 5

5º Bélgica 4

6º Espanha 3

7º USA 3

8º Croácia 3

9º Alemanha 3

10º Argentina 3

11º Áustria 3

12º Portugal 2

13º Dinamarca 2

14º ……. 1

3.3 CONCLUSÕES

Não foi nossa intenção aquando da elaboração

deste trabalho ter a veleidade de achar

que dele iriam emanar conclusões marcantes

acerca da temática da integração de jovens

talentos nas equipas mais representativas do

futebol europeu; pretendemos humildemente

com este estudo “tirar uma fotografia” do

estado atual desta temática e com esses resultados

na mão, tentar encontrar dados que

possam ilustrar o presente e eventualmente

predizer o futuro.

Eis os factos que nos parecem mais relevantes

desta “fotografia”:

› 20% de jogadores com 21 anos ou menos inseridos

nas equipas da nossa amostra parece-nos

um número relevante e não negligenciável

› Há 2 equipas (Ajax e CSKA Moscovo) com mais

de 50% de jovens jogadores nos seus plánteis

› As 2 equipas portuguesas estão na 1ª metade da

tabela no que concerne à percentagem de jovens

jogadores nos seus plánteis; o FC Porto é 5º neste

ranking com 27.5% e o SL Benfica 16º com 21.4%

› As equipas do Pote 1 (tendencialmente com

mais recursos) são as que têm menos jovens

nos seus plánteis

› A distribuição etária dos 158 jovens jogadores

identificados está dentro do expectável

› A distribuição dos jovens por posição específica

revela não haver discriminação posicional

etária, sendo normal haver mais jogadores

identificados em posições em que as equipas

costumam apresentar 2 (laterais, médios

centro, avançados/alas)

› A França é o país com mais jovens jogadores

identificados (16), seguindo-se Holanda e Rússia

› O Brasil é o país não europeu com mais

jovens jogadores identificados

› Portugal é o 7º país com mais jovens jogadores

identificados (9 no total, 7 deles representando

as equipas portuguesas)

› Quanto à origem dos jovens jogadores, constata-se

que 2/3 deles chegaram aos atuais clubes

por transferência e apenas 1/3 vêm da formação

› Acresce que 70% desses jogadores que

chegaram aos clubes atuais por transferência

vieram através de transferência internacional

› Este facto revela quão universalizado está o

scouting das mais fortes equipas europeias,

tornando mais comum a compra de jogadores

fora do país que dentro

› Os países de origem dessas transferências

mais frequentes são o Brasil, a França e a

Inglaterra

› As equipas com mais jovens jogadores provenientes

da sua formação são, como seria de

esperar, o CSKA Moscovo e o Ajax

› Novamente as equipas portuguesas estão nos

primeiros lugares deste ranking: o SL Benfica

está em 3º lugar, com 4 jovens jogadores vindos

da formação (num universo de 6 jovens

no plantel) enquanto que o FC Porto está em

8º com 3 jovens jogadores vindos da formação

(num universo de 8 jovens no plantel)

3.4 RECOMENDAÇÕES

PARA TRABALHOS FUTUROS

As nossas recomendações para trabalhos futuros

nesta área vão no sentido de procurar perceber

qual tem sido a tendência de integração

dos jovens jogadores nos últimos 10/15 anos e

perceber se há uma linha de continuidade até

ao presente.

Outra linha de estudo seria passar do critério

“Integração no Plantel” para “Participação

Efetiva” na equipa.

E por último, pensamos ser interessante

conhecer mais acerca do investimento

financeiro destes clubes na compra de jovens

jogadores, e perceber o que estão a fazer os

clubes compradores para conseguir chegar

aos jovens talentos cada vez mais cedo e, por

conseguinte, por menos dinheiro.

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FPF360 41


42

FPF360


PEDRO RIBEIRO //

TREINADOR BELENENSES, SAD (1L) - 2019/20

TREINADOR-ADJUNTO/ANALISTA FC PORTO 2011/13

Nota introdutória por Jorge Castelo - Formador FPF

Este trabalho retrata a relação entre a conceção do modelo de jogo e a necessária operacionalização

do modelo de treino. O treinador terá de ter uma ideia (conceção) clara e concreta do que pretende

que os jogadores e a equipa concretizem (modelo do jogo), constituindo-se como um dos seus atributos

intrínsecos. Contudo, para que este modelo seja uma realidade, o treinador terá que estabelecer uma

forma metodológica para o proporcionar, concetualizando e operacionalizando métodos específicos

de preparação (modelo de treino). Reflete-se a importância dos níveis de identidade, congruência e

conformidade entre estes dois modelos, evitando-se os gastos desnecessários de tempo e de energia.

DA CONCEÇÃO DO MODELO DE JOGO

À OPERACIONALIZAÇÃO DE UM MODELO

DO PROCESSO DE TREINO

1. INTRODUÇÃO

Modelo de Jogo, ideia de jogo do treinador,

operacionalização dessa mesma ideia,

Processo de Treino, Modelo do Processo de

Treino são um conjunto de considerações

com as quais qualquer treinador, em qualquer

momento da sua atividade profissional,

reflete de forma sistemática e muitas vezes

inconsciente.

Pretendo tornar essa reflexão mais

aprofundada, reportando-me não só à

minha ideia acerca das temáticas, mas

fundamentalmente, considerando aquilo que

a literatura tem estudado acerca das mesmas.

Desta forma, tentarei percorrer um conjunto

de temáticas, procurando conferir-lhes uma

lógica interna de apresentação dos temas e da

sua interligação, completando as opiniões dos

autores com aquilo que são as minhas ideias,

consubstanciadas em cerca de 15 anos de

experiência no terreno.

No final procurarei tecer uma análise crítica

que sistematize e resuma o fundamental do

que será exposto.

2. CONCEÇÃO DO MODELO DE JOGO

2.1 MODELAÇÃO

É um facto que nas últimas décadas, no

âmbito das Ciências do Desporto, se começou

a recorrer com frequência a conceitos como

modelo e modelação (Lucas, Garganta &

Fonseca, 2002) e nesse sentido, não é de

estranhar que expressões como modelo

de jogo, modelo de jogador, modelo de

preparação, façam parte do vocabulário diário

de treinadores e investigadores (Garganta,

1997). Eu acrescentaria também, Modelo de

Treino, mas já lá iremos.

Começando por um grande tema que é o

Modelo de Jogo, antes de procurar perceber

o que o caracteriza, importa em primeiro

lugar entender o que o origina e determina.

A literatura remete-nos, numa primeira

instância, para o conceito de Modelação.

Vários autores têm-se debruçado sobre este

tema. De acordo com Perl (2004) a Modelação

assume um papel extremamente importante

para decifrar o presente de uma determinada

situação e poder, assim dessa forma, tentar

prever o futuro dessa mesma situação.

Gréhaigne (1989, cit. por Garganta, 1997:

120) diz-nos que “(…) a modelação do jogo

permite fazer emergir problemas, determinar

os objectivos de aprendizagem e de treino e

constatar os progressos dos praticantes, em

relação aos modelos de referência”.

Para Alves (2004, cit. por Santos, 2006) a

modelação é uma tendência evolutiva dos

processos de treino sendo que Bompa (1999)

acrescenta que esta vai, progressivamente,

constituir-se como um dos princípios

mais importantes no treino, existindo um

FPF360 43


movimento de há alguns anos para cá que tem

como objectivo ligar o processo de treino à

modelação.

Lucas e Garganta (2002) concordam

afirmando que, cada vez mais, o processo de

treino terá de ter como base um Modelo de

Jogo e um Modelo de Jogador.

Ora, considerando as opiniões referidas

anteriormente penso ser importante então

perceber o que é um Modelo.

2.2 CONCEITO DE MODELO

Analisando a literatura podemos verificar que

são inúmeras as definições de Modelo.

Le Moigne (1990) refere que modelos são

criações antecipativas fundamentadas numa

conceção da realidade, podendo segundo

Godinho, Melo, Mendes & Barreiros (2000)

ser considerado também uma representação

simplificada da mesma.

Já Castelo (1996: 379) entende que modelo

é “(…) um ensaio, uma aproximação,

uma maqueta mais ou menos abstrata

que representa os aspetos fundamentais,

apresentados de uma forma simplificada de

uma ou varias situações, permitindo assim,

uma melhor interpretação das variáveis que

esta em si encerra”.

Segundo Faria (1999) o modelo representa,

antes de mais, a conceção de jogo do

treinador, ou seja, a forma como quer a sua

equipa a jogar.

Considerando o exposto acima, com o qual

estou de acordo, parece ser evidente para os

autores que existirá uma relação direta entre

Modelo e Jogo – que basicamente parece

servir como orientador de tudo o que estará

englobado no modelo.

2.3 MODELO DE JOGO

VS CONCEÇÃO DE JOGO

Em primeiro lugar importa distinguir algo

que à partida parece ser o mesmo mas que,

segundo a literatura, são dois conceitos

distintos – Modelo de Jogo e Conceção de

Jogo. Podemos cair no erro de pensarmos

estar a falar da mesma coisa, contudo, e

apesar de terem influência um em relação ao

outro, são dois conceitos manifestamente

diferentes.

Começando pelas considerações acerca da

definição de Conceção de Jogo. De acordo

com Guilherme Oliveira (2004: 149) “(…) a

conceção está relacionada com o plano da

organização das ideias, enquanto o modelo

permite a operacionalização dessa mesma

conceção.”.

Van Gall (2008, cit. por Neto & Matos, 2008)

afirma que o mais importante para um

treinador é este ter uma filosofia de jogo e que

só depois considerará o facto de esta ter de

PARECE SER EVIDENTE

PARA OS AUTORES QUE

EXISTIRÁ UMA RELAÇÃO

DIRETA ENTRE MODELO E

JOGO – QUE BASICAMENTE

PARECE SERVIR COMO

ORIENTADOR DE TUDO O

QUE ESTARÁ ENGLOBADO

NO MODELO

ser alvo de entendimento por parte de todos

os jogadores. Segundo o autor, essa filosofia

de jogo poderá ser entendida como a sua

conceção de jogo.

Nesta ordem de ideias, Freitas (2005) sustenta

a mesma posição ao afirmar que, depois de

se compreender a lógica do jogo e de termos

consciência que existem tantos “jogares” quanto

o número de treinadores, importa então definir

claramente qual a nossa ideia de jogo.

De facto, este fenómeno, sendo tão

abrangente, leva o mesmo autor a referir que

é através da conceção de jogo do treinador,

em paralelo com as suas ideias de jogo, que se

consegue construir um modelo de jogo.

Ora, já se começa a interligar, conceção

de jogo e modelo de jogo e, nesse sentido,

torna-se pertinente perceber o que os autores

denominam como Modelo de Jogo.

Começando com uma opinião de Barbosa

(2003), Modelo de Jogo engloba em si um

conjunto de ideias sobre o modo de jogar de

uma equipa.

Para Garganta (1996), o Modelo de Jogo

é entendido como sendo um conjunto de

ideias, pontos de referência fundamentais,

em relação aos quais vamos aferir

comportamentos.

Castelo (1998) refere que o Modelo de Jogo

tem a ver com um conjunto de fatores: cultura

do clube; subsistema estrutural; sistema de

jogo; funções dos jogadores nesse sistema;

sistema metodológico; questão relacional,

que são os princípios de jogo ofensivos e

defensivos; subsistema técnico-tático no

plano ofensivo, defensivo, individual e

coletivo; subsistema tático-energético.

O mesmo autor, em 1996, acrescenta ainda

que o Modelo de Jogo permite, por um lado,

definir e reproduzir com rigor todo o sistema

de relações entre os diversos elementos que

constituem uma equipa, e por outro permite,

O MODELO DE JOGO

DEVERÁ TER UM CARÁTER

ABERTO, CRIATIVO E DEVE

REPRODUZIR TAMBÉM UM

SISTEMA DE RELAÇÕES OU

DE INTER-RELAÇÕES ENTRE

OS VÁRIOS ELEMENTOS

DE UMA EQUIPA

(CASTELO, 1996)

a partir das conclusões retiradas, tirar novas

ilações de forma a racionalizar e otimizar

novas ideias e conceções referentes às

situações de jogo.

Para Leal e Quinta (2001) o modelo de jogo

consiste na conceção de jogo idealizada

pelo treinador e diz respeito a um conjunto

de fatores necessários para a organização

da equipa no que concerne aos processos

ofensivos e defensivos.

Guilherme Oliveira (2004) acrescenta ainda

que, aquando da construção de um Modelo

de Jogo, terá de se ter em conta: a conceção

de jogo do treinador, as capacidades e

características dos jogadores, os princípios

de jogo, as organizações estruturais e

a organização funcional. Portanto, não

restringe a sua perspetiva apenas à Conceção

de Jogo do Treinador.

Todo um conjunto de considerações com as

quais me identifico e que nos levam a perceber

que o Modelo de Jogo deverá ter um caráter

aberto, criativo e deve reproduzir também um

sistema de relações ou de inter-relações entre os

vários elementos de uma equipa (Castelo, 1996).

Carvalhal (2001) vai mais longe e, na mesma

ordem de ideias, entende que este é como que

o guião de todo o processo de treino.

No fundo, e generalizando, o Modelo de

Jogo surge como o guia de todo o fenómeno

(Guilherme Oliveira, 1991). Assim sendo,

o Modelo de Jogo de todo este conjunto

de considerações com as quais, regra

geral concordo, terá com certeza muitas

implicações no processo de Treino. É isso

mesmo que pretendo caracterizar mais à

frente nesta tese.

2.4 O TREINADOR ENQUANTO

MENTOR DO MODELO

E CONCEÇÃO DE JOGO

44

FPF360


Considerando o referido anteriormente,

na base da conceção de um Modelo de Jogo

estará obrigatoriamente a conceção de jogo de

um treinador, ou mais sinteticamente as suas

ideias de jogo. Tudo nasce a partir daí e depois

parece-me evidente que todos os outros

aspetos, como a cultura do clube em questão,

as características dos jogadores, os objetivos

do clube, o envolvimento social e muitos

outros fatores terão extrema importância,

mas é na conceção de jogo que tudo se inicia.

Ora, a conceção de jogo é algo que cada

treinador tem de forma natural. É a sua visão

acerca do futebol. O treinador é o líder do

processo ou, pelo menos, é o líder visível.

E como líder terá de fazer com que as suas

ideias cheguem aos jogadores, ou seja, a sua

conceção de jogo.

Contudo, uma situação que importa referir

é o facto de o Modelo de Jogo poder ou não

ser construído por ele. Pode, por exemplo, já

existir no clube (como acontece com o grupo

Red Bull, onde existe um Modelo de Jogo ao

qual as equipas técnicas têm de se ajustar, ou

como acontece também de forma evidente

no Barcelona, sendo este último o expoente

máximo deste tipo de situação) – na parte da

análise crítica explorarei isto mais ao pormenor.

Considerando o que referi acima como

algo atual e premente, penso ser claro que,

mesmo que não seja o treinador a construir

(de base) o Modelo de Jogo, este terá sempre

uma “palavra a dizer” na sua constante

reconstrução diária. Vários autores têm-se

pronunciado acerca de quem (e como) se deve

(re)construir o Modelo de Jogo.

Silva (2008) refere que cada treinador

concebe e cria o seu modelo e Castelo (1996)

corrobora a opinião de Silva (2008) referindo

que a escolha e aplicação, no treino e na

competição, de todo um conjunto de ideias

é da responsabilidade do treinador e tendo

ele uma conceção de jogo, tem necessidade

de adaptá-la à especificidade dos jogadores

individualmente e à equipa no seu conjunto,

procurando ir ao encontro da concretização

das finalidades a que se propuseram.

Para o mesmo autor, Castelo em 1996, a

construção deste modelo de jogo, para

depois ser aplicado pelos jogadores, é

consubstanciada essencialmente na sua

conceção de jogo. Esta, por sua vez, tem

de considerar: um carácter progressista,

evoluindo em paralelo com a evolução do

jogo; um caráter adaptativo, uma vez que

deverá atender às características específicas

dos jogadores da equipa; a experiência e

capacidade intelectual do treinador, uma vez

que não se consegue implementar aquilo que

se desconhece.

Eu concordo e entendo que o treinador deverá

ser a pessoa a quem deverá ser imputada a

responsabilidade de liderar este processo.

Por isso, a riqueza da adoção de um modelo

está em quem comanda o processo (Frade,

2006). Daqui depreende-se que os autores

acima expostos se estejam a referir ao

Treinador enquanto mentor do Modelo

de Jogo a adotar, tendo por base as suas

convicções, que neste caso são expressas pela

sua conceção de jogo.

Eu concordo e entendo que o treinador deverá

ser a pessoa a quem deverá ser imputada a

responsabilidade de liderar este processo.

Contudo, entendo também que em casos

específicos como os que referi acima – Grupo

Red Bull e Barcelona –, nos quais existe de

forma clara um conjunto de características,

não só ao nível cultural mas também ao nível

da ideia de jogo a aplicar, o treinador tem

(obrigatoriamente) de se adaptar e considerar

isso como algo determinante no seu dia-a-dia.

No entanto, penso que deverá haver sempre

espaço para que o treinador acrescente o seu

“cunho pessoal” na construção do modelo de

jogo da equipa.

É nesse sentido que concordo totalmente

com Silva (2008) quando refere que o

Modelo “final” nunca existirá. Que este está

constantemente a ser recriado, funcionando o

treinador como líder na sua construção, tendo

como papel específico o de criar, interferir e

catalisar a concretização do seu processo de

construção - e aqui acrescento, considerando

tudo o que já foi referido anteriormente, como

sendo parte da construção do mesmo.

Criar um Modelo de Jogo é um caminho longo,

de difícil progressão e estou totalmente de

acordo com Castelo (1996) quando afirma

que este caminho de construção terá,

obrigatoriamente, que contemplar ruturas,

porque o modelo deve ser alvo sistemático de

interrogação de forma a ser progressivamente

construído, desconstruído e reconstruido.

Fazendo um ponto de situação, parece-me

evidente que este Modelo de Jogo tem então

como principal intenção levar a que uma

equipa vivencie uma identidade comum (quer

de jogo, quer de relações de afinidade pessoal,

social e de complementaridade).

Assim, e sendo uma equipa composta por

jogadores, serão estes a aplicar e potenciar

este Modelo de Jogo. Por isso, considerando

este aspeto, há que passar para outra esfera, os

jogadores.

Depois de definidos Modelo e Conceção de

Jogo, estes só se poderão tornar efetivos, se

os jogadores os entenderem e os conseguirem

pôr em prática.

2.5 O JOGADOR ENQUANTO

SUJEITO ATIVO NA ASSIMILAÇÃO,

INTERPRETAÇÃO E

OPERACIONALIZAÇÃO

DO MODELO DE JOGO

Segundo Abravanel (1986, cit. por Silva, 2008)

a maneira como um indivíduo apreende

e interpreta a informação depende de um

conjunto de fatores como a sua experiência,

valores, aptidões, necessidades, expectativas,

havendo a tendência para reter apenas os

dados que se constituem como compatíveis

com as suas convicções e ideologias.

De acordo com Lobo (2002, cit. por Freitas,

2005) a melhor forma do treinador tentar

potenciar e interiorizar no jogador a empatia

por determinada mensagem é tentar entrar

pelo aspeto emocional deste.

Um treinador, em primeira instância,

pretende que os seus jogadores joguem

de determinada forma e para isso tem

necessidade de fazer com que eles adquiram,

ENTENDO TAMBÉM QUE

EM CASOS ESPECÍFICOS

COMO OS QUE REFERI

ACIMA – GRUPO RED BULL

E BARCELONA –, NOS

QUAIS EXISTE DE FORMA

CLARA UM CONJUNTO DE

CARACTERÍSTICAS, NÃO

SÓ AO NÍVEL CULTURAL

MAS TAMBÉM AO NÍVEL

DA IDEIA DE JOGO A

APLICAR, O TREINADOR

TEM (OBRIGATORIAMENTE)

DE SE ADAPTAR E

CONSIDERAR ISSO COMO

ALGO DETERMINANTE

NO SEU DIA-A-DIA. NO

ENTANTO, PENSO QUE

DEVERÁ HAVER SEMPRE

ESPAÇO PARA QUE O

TREINADOR ACRESCENTE

O SEU “CUNHO PESSOAL”

NA CONSTRUÇÃO

DO MODELO DE JOGO

DA EQUIPA

FPF360 45


o mais rápido possível, os seus princípios de

jogo, como algo seu (Silva, 2008).

Para Freitas (2005) é importante que o

treinador crie uma cultura semelhante para

todos os seus jogadores, aproximando-os da

ideia de “jogo” que têm de desenvolver.

“Tudo passa por explicar aos jogadores aquilo

que eles têm de fazer, por lhes dar escolhas e

fazê-los sentir mais participativos numa coisa

que para muitos é competência única dos

treinadores e para nós não, é competência dos

jogadores também.” (Mourinho, 1999). Nesta

perspetiva de Mourinho está percetível a

importância quer do Modelo de Jogo, quer da

Conceção de Jogo do treinador, quer também

da importância que os jogadores vão ter na

implementação das duas primeiras.

O jogador, quando quer, tudo faz. Quando

não quer, não faz nada. A experiência diz-me

que é uma verdade inimputável, portanto

concordo com os autores quando referem que

ao treinador cabe ter o processo estruturado

e fazer com que o jogador o “ajude” a

implementá-lo.

Para isso nada melhor do que fazer sentir ao

jogador que este processo também é “dele”.

No fundo, é juntos chegarem a uma ideia

colectiva de jogo. Quando isso acontece o

desenvolvimento do processo é facilitado.

Assim, assumo o mesmo entendimento

de Faria (1999), para o qual o jogo é uma

construção ativa de escolhas e decisões dos

jogadores, tendo por base um ambiente de

constrangimentos e múltiplas possibilidades,

sendo que também partilho do ponto de vista

de Castelo (1996) quando defende que um

dos aspetos que determinam a eficácia de uma

equipa de futebol diz respeito à forma como

os jogadores desenvolvem a sua ação dentro

da organização da equipa.

Assim, e concluindo este conjunto de

considerações, a tomada de decisão de acordo

com Silva (2008), deverá ser condicionada

em função do projeto de jogo da equipa,

ou seja, do Modelo de Jogo que se quer

implementar, atuando este como um padrão

de escolhas para os jogadores, orientando

as suas decisões. Isto tudo com espaço para

a criatividade e para serem os jogadores a

decidir o que fazer em cada situação, mas

sempre tendo normas que os orientem.

Portanto, não é uma tomada de decisão

apenas em função daquilo que possam

entender ser o melhor, mas sim uma tomada

de decisão consciente, fundamentada pelo

Modelo de Jogo da equipa.

2.6 OPERACIONALIZAÇÃO

DE UM MODELO DO PROCESSO

DE TREINO

Todos os assuntos abordados atrás

TEODORESCU (1984)

REFERE QUE O ELEMENTO

PRIMÁRIO QUE DERIVA

DO FUTEBOL, ENQUANTO

JOGO DESPORTIVO

COLETIVO, É O JOGO,

SENDO QUE ESTE DEVE

CONSTITUIR EM TREINO

O NÚCLEO DE TODO O

PROCESSO (QUEIROZ,

1986). A PARTIR DESTAS

PALAVRAS NÃO É

DE ESTRANHAR QUE

GUILHERME OLIVEIRA

(1991) REFIRA QUE, SE

O JOGO É O ESPELHO

EXEQUÍVEL DO TREINO

ENTÃO, PARA O JOGO

SER JOGO, O TREINO NÃO

PODE SER MAIS NADA

QUE NÃO JOGO. PARECE-

ME EXTREMAMENTE

PERTINENTE

PORTANTO, A IDEIA

DE JOGO TERÁ UM PAPEL

IMPORTANTE NA FORMA

DE TREINAR E QUANTO

MAIS COERENTE FOR,

MAIS LÓGICA PODERÁ

TER O PROCESSO DE

TREINO (TAVARES,

2003), SENDO QUE O

NÍVEL DE PRESTAÇÃO DO

PRATICANTE OU DA EQUIPA

É O ESPELHO DO COMO SE

TREINA (CASTELO, 2002)

permitiram fundamentar este último ponto,

uma vez que em todos eles o único aspeto

comum foi a constante preocupação com

o Processo de Treino. Será que, no futebol

atual, poderemos dizer que existe um Modelo

do Processo de Treino? Ou que, partindo do

pressuposto que não existe, deveria existir?

Com que características?

Mais uma vez, a literatura tem uma palavra a

dizer acerca desta temática. De acordo com

Garganta (2004), para se ser um jogador de

alto nível, não basta nascer-se com talento, é

necessário muito treino.

Vingada (1989, cit. por Santos, 2006)

concorda, afirmando que o Futebol ensinase

mas sobretudo aprende-se, sustentando

então a opinião de Garganta (1997) para o

qual os comportamentos que os jogadores

exteriorizam durante o jogo resultam das

adaptações provocadas anteriormente

pelo processo de treino. De acordo com o

mesmo autor, apesar da imprevisibilidade e

aleatoriedade, a interação entre duas equipas

não se restringe somente a aspetos como a

sorte ou azar, sendo possível através do treino

tentar “combater” isso mesmo, preparando

melhor a equipa para esses momentos.

Têm sido vários os autores a debruçarem-se

acerca desta problemática e nesse sentido

concordo com Meinberg (2002) quando

refere que o treino é um fenómeno complexo

que é conotado como uma forma especial de

ensino, que pressupõe instrução e didáctica.

Marina (1995, cit. por Garganta, 1997:

113) refere que “treinar é modelar através

dum projecto (…)”, sendo que através do

processo de treino podemos intervir ao

nível da qualidade de jogo da equipa e, mais

concretamente, dos jogadores (Santos, 2006).

Portanto, Modelar e Treinar parecem ser

considerados como aspetos similares. Assim,

considerando a existência de uma relação

de dependência entre treino e competição,

Garganta (1997) refere que o como se quer

jogar é o como se deve treinar, daí o processo

de treino desportivo ter como objetivo

primário desenvolver a prestação de forma a

que esta seja aplicada na competição.

Teodorescu (1984) refere que o elemento

primário de que deriva o Futebol, enquanto

jogo desportivo coletivo, é o jogo, sendo que

este deve constituir em treino o núcleo de

todo o processo (Queiroz, 1986). A partir

destas palavras não é de estranhar que

Guilherme Oliveira (1991) refira que, se o jogo

é o espelho exequível do treino então, para

o jogo ser JOGO, o treino não pode ser mais

nada que não jogo. Parece-me extremamente

pertinente.

Portanto, a ideia de jogo terá um papel

importante na forma de treinar e quanto mais

46

FPF360


coerente for, mais lógica poderá ter o processo

de treino (Tavares, 2003), sendo que o nível

de prestação do praticante ou da equipa é o

espelho do como se treina (Castelo, 2002).

Assim, de acordo com Garganta (1997), com o

treino deverá procurar-se que as transferências

de aquisições sejam máximas, sendo que a

questão que se coloca é como perspetivar o

jogo em situação de treino (Santos, 2006).

Uma possível resposta é-nos dada por

Guilherme Oliveira (2004), que refere o

princípio da especificidade como solução para

este tipo de situação. Desta forma, sendo o

Futebol uma modalidade com características

muito especificas, também a preparação para

a competição – entenda-se, o treino – terá de

ter essa especificidade (Resende, 2002).

Assim, em função destas considerações, penso

poder referir que o “Jogo” tem influência

na Modelação, assim como, ao invés, a

Modelação também terá influências no “Jogo”

que se pretende criar.

Se a forma como queremos jogar é a forma

como devemos treinar então a Modelação terá

um papel preponderante nessa construção.

Assim, pela especificidade do treino em Futebol,

preconiza-se que se treinem os aspetos que

se reportam diretamente ao jogo para que, na

competição, estes apareçam como sendo algo

que caracterize a forma de jogar da equipa.

Se no jogo há necessidades físicas, técnicas,

táticas, psicológicas, elas são consequência

de uma determinada organização de jogo de

uma equipa (Faria, 1999) e será em situação

de treino que poderão ser exercitadas. Todas e

não apenas algumas.

Assim a modelação do jogo de Futebol de uma

equipa, irá condicionar e orientar o processo

de planeamento e de periodização (Santos,

2006) no caminho da construção de um

“Jogo” para essa equipa.

Bauer e Ueberle (1988), afirmam que numa

equipa de futebol a pertinência do estudo dos

problemas inerentes ao jogo deverá situar-se ao

nível da inter-relação dos fatores de rendimento,

sendo necessário perceber o jogo na sua

complexidade, tendo sempre em consideração

que as duas equipas têm o mesmo objetivo.

Le Moigne (1990), afirma que, se pretendemos

construir a inelegibilidade de um sistema

complexo, devemos modelá-lo. Mas modelálo

num contexto que o permita adequar à

especificidade do jogo de Futebol e nesse

sentido num contexto tático, de acordo com

Garganta (1997).

Eu concordo com o referido acima uma vez

que, não descurando os outros fatores de

rendimento – técnicos, físicos e psicológicos/

comportamentais – penso que o tático

tem a “obrigatoriedade” de ser o de maior

dominância.

Ora, isto reporta-nos para a organização de

jogo. Segundo Le Moigne (1990) a modelação

dos sistemas complexos é realizada a partir

da organização. Partindo desse pressuposto,

o Futebol, sendo um desses sistemas

complexos, carece de organização. Assim,

concordo com Santos (2006) quando refere

que a orientação do treino, em futebol, deverá

ser a organização de jogo da equipa.

No fundo, o que um treinador pretende, é criar o

seu “Jogo” de forma a que a sua equipa expresse

características condizentes com os princípios

orientadores que ele pretende ver revelados.

Assim, e antes de entrar nas conclusões,

parece-me evidente que, em primeiro lugar,

há efectivamente a necessidade da existência

de um Modelo do Processo de Treino, assim

como me parece que ficou clara a existência

de uma relação de total interdependência

entre Modelo de Jogo – Concepção de Jogo

– Treino – Modelação – Modelo do Processo

de Treino. Uns sem os outros não parecem

existir e se algum destes domínios não estiver

devidamente enquadrado e bem definido

implicará, com toda a certeza, que os outros

não funcionarão de forma ajustada também.

3. ANÁLISE CRÍTICA

Considerando toda esta “viagem”, que

começou com a definição dos conceitos

de Modelo e Modelação, procurando

posteriormente entender as diferenças /

convergências entre Conceção de Jogo e

Modelo de Jogo, assim como relacionar

e entender o papel do Treinador e dos

jogadores na criação / interpretação destes

mesmos conceitos e, por fim, interligar

tudo na forma como se poderá interferir na

Operacionalização de um Modelo do Processo

de Treino, nesta parte final do trabalho penso

estar em condições de sistematizar tudo num

conjunto de considerações tidas como uma

espécie de conclusões. Assim considerando

a revisão da literatura que realizei e

contrapondo / complementando com aquilo

que é a minha opinião posso concluir que:

- Parece existir uma relação entre Modelação,

Processo de Treino, Modelo de Jogo e Modelo

de Jogador;

- Conceção de Jogo e Modelo de Jogo têm

uma relação de interdependência, embora se

constituam como dois conceitos distintos;

- Conceção de Jogo remete-nos para o plano das

ideias de jogo do treinador, da sua filosofia de

jogo, enquanto o Modelo de Jogo vai mais longe

e permite operacionalizar essas mesmas ideias;

- Modelo de Jogo é algo que está sempre em

aberto, sendo constantemente alvo de recuos

e avanços e, para a maioria dos autores, é

consubstanciado pelas ideias de jogo de

treinador, embora não se esgotando nisso;

- Para se construir um Modelo de Jogo terá

de se ter em conta: a conceção de jogo do

treinador, as capacidades e características

dos jogadores, as organizações estruturais e a

organização funcional do clube em questão, a

cultura do clube, o sistema de jogo, o sistema

metodológico, os princípios de jogo ofensivos

e defensivos, o subsistema técnico-tático,

assim como o subsistema tático-energético;

- Modelo de Jogo deverá ter um caráter aberto,

criativo, progressista (considerando evolução

do jogo), adaptativo (considerando não só as

características dos jogadores mas também

as do clube) e é como que o guião de todo o

processo de treino. Poderá ter o treinador

enquanto mentor ou poderá ser característico

e “imposto” pelo clube, como é o caso por

exemplo do Grupo Red Bull;

- Ambas as situações anteriores são atuais e

prementes embora, de acordo com a minha

experiência, mesmo que o Modelo de Jogo

seja “imposto” pelo clube, será sempre o

treinador a operacionalizá-lo e, portanto,

existirá um grau de liberdade para atuar e para

acrescentar o seu cunho pessoal;

- Modelo de Jogo pressupõe algo com uma

identidade comum dentro da equipa e aqui

entram os jogadores como os intérpretes

do mesmo, assim como parte integrante.

Daí que, na minha opinião, os autores que se

referem aos jogadores como determinantes na

construção e operacionalização do Modelo de

Jogo estejam totalmente corretos;

- Para que isso aconteça (entenda-se, a

operacionalização do Modelo de Jogo) de forma

rápida e sustentada penso que entrar pelo lado

emocional, pelo plano de integrar os jogadores

e fazê-los entender que essa construção é algo

que não é só da esfera e responsabilidade do

treinador, mas também da sua responsabilidade,

penso ser o melhor caminho; quem se sente

integrado trabalha melhor e, neste caso, a

construção e operacionalização do Modelo de

Jogo deverá seguir esse caminho, se se quiser

uma maior eficiência;

- A melhor forma de combater a

imprevisibilidade que, de forma natural, um jogo

de futebol comporta em si mesmo é o Treino;

- Se aquilo que queremos que aconteça na

competição é que a nossa equipa jogue de

forma a estar melhor preparada para atingir os

objetivos que, em última instância, são ganhar

para todas as equipas, então o treino deverá

preparar essa equipa para a obtenção desses

mesmos objetivos;

- Alguns autores dizem que como se quer jogar

é como se deve treinar e estou totalmente de

acordo; isto considerando vários factores –

estratégicos, táticos, técnicos, emocionais ou

psicológicos e comportamentais;

- O processo de treino deverá ser o mais coerente

FPF360 47


possível, uma vez que funcionará como o

“espelho” daquilo que sucederá na competição;

- No treino dever-se-á procurar que as

transferências e aquisições sejam altas, de

forma que a equipa chegue à competição o

mais bem preparada possível;

- A Modelação parece ser um caminho na

estruturação do processo de treino e isso levanos

para um dos objetivos centrais desta tese,

que é relacionar a conceção de um Modelo de

Jogo com a operacionalização de um Processo

de Treino. Considerando os autores que se

têm debruçado em relação ao tema, assim

como a minha opinião, existe uma relação de

dependência entre ambos;

- A modelação tática, ou a organização de jogo,

parece ser determinante na orientação do

modelo do processo de treino;

- Parece-me evidente que existe uma relação

de total interdependência entre Modelo

de Jogo – Concepção de Jogo – Treino –

Modelação – Modelo do Processo de Treino.

Assim e de forma a concluir esta Tese, vou

aproveitar um caso específico que poderá

ajudar a espelhar tudo isto que foi alvo de

revisão bibliográfica, assim como de reflexão

de minha parte.

Concretizando, o caso a que me refiro e que

atualmente é um case study, é o que se passa

com o Grupo Red Bull. Com a evolução

registada no domínio do futebol, sendo esta

uma indústria de massas e de investimentos

gigantescos, aquilo que está a acontecer

com este grupo é de todo premente, atual e

importante de ser estudado e caracterizado.

Uma das perguntas que se coloca é como é que

uma marca de bebidas conseguiu, também

no futebol, tornar-se numa potência num tão

curto espaço de tempo?

Procurando partilhar aquilo que acabou por

ser uma “experiência própria”, uma vez que

num passado recente a equipa técnica onde

trabalhava como treinador adjunto esteve

muito próxima de trabalhar para uma das

equipas Red Bull, penso que este Grupo

está de facto a fazer um trabalho marcante e

inovador no Futebol actual. Concretizando,

e reportando-me a um dos temas fulcrais

desta Tese, este é um caso específico onde,

claramente, a conceção do Modelo de Jogo

do treinador pouco impacto tem para a

contratação do mesmo.

Aliás, uma das primeiras indicações que dão é

que o clube tem uma forma muito própria de

atuar, a todos os níveis, mas também ao nível

da forma de jogar e de treinar. Têm, portanto,

um Modelo de Jogo que é “imposto” e ao qual

o treinador se tem de “sujeitar”. E, mesmo

não sendo o mais habitual (uma vez que o que

normalmente impera na contratação de um

treinador é que se esteja como que a “comprar”

a sua forma de jogar e de treinar), vejamos o

sucesso que estão a ter, fundamentalmente

na Áustria e na Alemanha, quer em termos de

resultados desportivos, quer em termos de

rendimento e também da venda de jogadores.

Portanto, neste caso específico – conceção

do Modelo de Jogo e do Modelo de Treino -, é

algo que é imposto e depois a “liberdade” do

treinador, basicamente, entra no espetro de

interpretar e operacionalizar esses modelos,

havendo graus de liberdade para acrescentar

algo, mas considerando sempre que estamos

perante um processo bastante “fechado”.

No futebol tudo é possível, e mesmo nestes

casos mais “fora da norma” é possível atingirse

grande sucesso, desde que as coisas façam

sentido e estejam bem sistematizadas – o que

me parece, claramente, o caso.

Nós, treinadores, sentimos naturalmente muito

mais “controlo” quando somos contratados

e temos liberdade para aplicarmos as nossas

ideias de jogo, o nosso modelo de jogo e depois,

claro, considerando o clube, os seus objetivos, o

contexto, as características dos jogadores e tudo

o resto que referimos anteriormente, partimos

para a operacionalização de um Modelo do

processo de treino que é também “nosso”.

No entanto, podemos e devemos considerar

que o futebol não se esgota nisso e que nos

poderá surgir uma oportunidade como esta,

também muito de interessante e desafiadora

para nós enquanto profissionais.

Percebermos como nos podemos adaptar

a estas circunstâncias, atuando de acordo

com os nossos princípios (sempre), mas

considerando um contexto profissional

manifestamente diferente pode (e deve) ser

encarado como um desafio e acho que nós

(treinadores) temos de estar preparados e

disponíveis para todos os tipos de desafios.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FPF360 49


50

FPF360


PEDRO FILIPE (PEPA)//

TREINADOR FC PAÇOS DE FERREIRA (1L) - 2019/20

TREINADOR CD TONDELA - 2018/19

Nota introdutória por Jorge Castelo - Formador FPF

O presente trabalho reflete a importância da observação, análise e interpretação de jogo de uma

equipa, tendo como base implicações na orientação ou reorientação tanto do modelo de jogo, bem

como do modelo de treino adotado pelo treinador. É do conhecimento dos treinadores a importância

de uma dimensão tridimensional entre modelo de jogo, de treino e de análise. Por conseguinte, treinase

refletindo as condições, contextos e plausibilidades inerentes à competição, compete-se exprimindo

princípios e conteúdos de treino desenvolvidos, por fim a análise específica do treino e da competição

irá encerrar um ciclo que proporcionará a otimização de todo um processo que se pretende sistémico e

sistemático.

A TRÍADE OBSERVAÇÃO – TREINO – JOGO

CONCEÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE UM MODELO

DE OBSERVAÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO

DE JOGO DE UMA EQUIPA

1. INTRODUÇÃO

O futebol é um jogo desportivo coletivo cuja

dinâmica resulta da competição entre duas

equipas pela conquista da posse da bola,

com o objetivo de introduzir a bola o maior

número de vezes possível na baliza adversária

e evitar que esta entre na sua própria baliza,

respeitando as regras do jogo1.

Neste sentido, tem vindo a conceder-se cada

vez mais relevância à análise de jogo, de

forma a diminuir a incerteza e aumentar o

conhecimento acerca das equipas adversárias.

Neste desporto, reconhecido como o mais

popular em todo o mundo, a observação das

equipas adversárias tem tido um crescimento

progressivo ao longo dos tempos porque tem

permitido aos seus intervenientes preparar

melhor a sua equipa, quer para o jogo, como

também para os treinos ao longo da semana.

É um facto que a observação dos adversários tem

permitido dotar os treinadores de informações

extremamente importantes e que fundamentam

as diferentes estratégias de jogo 2 .

A análise de jogo é considerada pelos

especialistas como um momento

imprescindível e fundamental do processo

de preparação do jogo3. Para além desta

vantagem, também se apresenta como um

processo importante para o fornecimento de

feedback no decorrer do treino e também do

jogo/competição4, isto é, existe uma relação

de interdependência e reciprocidade entre a

preparação para o jogo (treino) e a competição

em si mesma5. Através desta relação entre jogo

e treino, o que foi observado e analisado no jogo

pode ser aplicado na organização, planificação

e estruturação da semana de trabalho seguinte,

de forma a que se possa potenciar o nosso jogo,

anulando ou diminuindo, ao mesmo tempo,

os pontos fortes dos adversários e tentando

explorar os seus pontos mais débeis. Portanto,

é seguro dizer que conhecendo o modelo de

jogo da equipa adversária, o treinador tem a

capacidade de preparar melhor a sua equipa

durante a semana, diminuindo o fator surpresa

e a imprevisibilidade que o próprio jogo tem em

sim mesmo.

2. A OBSERVAÇÃO E O OBSERVADOR

– A RELAÇÃO ÍNTIMA COM O TREINO

E O JOGO

O estudo dos jogadores e das equipas tem

vindo a constituir-se como um argumento

de crescente importância nos processos

de preparação desportiva 6 . A pesquisa

de informação sobre os adversários,

normalmente designada por scouting, tem

sido usada pelos treinadores para identificar

características de jogo do próximo adversário

e, deste modo, preparar a sua equipa para o

confronto 4,7 .

O scouting inclui a análise da performance

adversária, individual e coletiva, dotando o

FPF360 51


QUANTO MAIS DADOS

SOBRE UM ADVERSÁRIO

FOREM OBSERVADOS,

ARMAZENADOS,

PROCESSADOS E

RECUPERADOS, MAIOR

SERÁ A CAPACIDADE DE

PREVER AQUILO QUE ESTE

IRÁ FAZER EM TERMOS

ESTRATÉGICOS. PARA

ISTO OCORRER, SERÁ

NECESSÁRIO REALIZAR

MAIS DO QUE UMA

ANÁLISE AO ADVERSÁRIO.

HÁ QUEM CONSIDERE SER

NECESSÁRIO OBSERVAR O

ADVERSÁRIO ENTRE DUAS

A TRÊS VEZES PARA QUE

OS DADOS RECOLHIDOS

TENHAM VALIDADE

treinador de informações que o capacitem

para o desenvolvimento estratégico-tático de

um jogo 8 . Através deste meio, são estudados,

entre outros parâmetros, o sistema tático,

os métodos de jogo, os esquemas táticos e as

particularidades dos jogadores das equipas

adversárias 9 . De um modo geral, o scouting

permite traçar um perfil da equipa adversária

de forma a explorar os seus pontos fracos e a

contrariar os seus pontos fortes 2,10 .

Nos primeiros tempos, uma equipa técnica

era composta apenas pelo treinador principal,

mas com a evolução científica e a aquisição de

novos conhecimentos houve a necessidade

das equipas técnicas serem constituídas por

mais elementos e por diferentes profissionais,

tornando-se cada vez mais multidisciplinares.

Surgem, então, novas figuras como os

treinadores adjuntos, preparadores físicos,

treinadores de guarda-redes e, mais

recentemente, os scouters. Todos estes

novos cargos permitiram libertar o treinador

principal de outras funções, possibilitando

que este fique mais focado na sua função

principal de liderar e conduzir a equipa aos

objetivos traçados.

A análise de jogo tem-se assumido, cada vez

mais, como um complemento de informação

para a evolução do processo de treino. Esta

permite interpretar a organização das equipas,

interpretar as ações que concorrem para a

qualidade do jogo, planificar e organizar o

treino, estabelecer planos táticos adequados

em função do adversário, regular o treino,

tendo sempre como intuito caminhar no

sentido de melhor preparar a equipa para os

confrontos com os demais adversários 11 .

A informação retirada sobre as características

do jogo do próximo adversário,

frequentemente deduzida a partir da sua

observação contra um adversário diferente,

tem sido usada pelos treinadores para

preparar a sua equipa para o confronto 12 ,

portanto aspetos como a análise da própria

equipa e a análise da equipa adversária

parecem constituir-se fundamentais para a

regulação do processo de treino 13,14 .

Basicamente, o scouting permite traçar um

perfil da equipa adversária de forma a explorar

os seus pontos fracos e a contrariar os seus

pontos fortes10, 17 .

O scouting é realizado através da observação.

É, de facto, com este método que os

treinadores recolhem os mais variados tipos

de informação. A observação não é um dom

natural e enceta em si mesma um grande

conhecimento e a capacidade desenvolver

raciocínios originais e a habilidade para

identificar acontecimentos significativos18.

No fundo, um scouter tem que ser competente

para observar e analisar situações que possam

vir a ser vantajosas para a sua equipa, dignas

de serem registadas e ser capaz de filtrar

aquelas que vão ser prejudiciais ou que,

apenas, não valem a pena ser mencionadas.

Quanto mais dados sobre um adversário

forem observados, armazenados, processados

e recuperados, maior será a capacidade de

prever aquilo que este irá fazer em termos

estratégicos 17 . Para isto ocorrer, será necessário

realizar mais do que uma análise ao adversário.

Há quem considere ser necessário observar o

adversário entre duas a três vezes para que os

dados recolhidos tenham validade 19 .

Surge então um problema para o treinador

visto que este, geralmente, não consegue

realizar observações diretas dos adversários,

uma vez que não é capaz de estar em dois

lugares ao mesmo tempo. É incapaz de orientar

a sua equipa na competição e, ao mesmo

tempo, observar os futuros adversários, visto

que ambos costumam jogar em horários

semelhantes. Apesar de não conseguir uma

observação direta dos oponentes, o treinador

deverá enviar um observador de confiança que

observe e registe o jogo do adversário, de modo

a que a informação necessária fique guardada,

para que possa ser analisada mais tarde, de uma

forma detalhada.

Atualmente existe concordância

relativamente ao facto de cada equipa

apresentar um modelo de jogo próprio e

ter uma identidade e características que

são diferentes de todas as outras e que se

mantêm constantes ao longo da competição.

Esta é uma das razões pelas quais os

observadores observam os adversários e

procuram encontrar processos padronizados

característicos das equipas que possam

ajudar a prever a sua performance20. No

entanto, a variabilidade de comportamentos

que os jogadores e as equipas demonstram,

quando jogam contra diferentes adversários

em diferentes jogos, dificulta a tarefa de

identificar “assinaturas de desempenho”, ou

seja, traços comuns de comportamento que se

manifestem ao longo de vários jogos 21 .

A análise do adversário é uma das partes mais

importantes na vertente da observação e pode

ser interpretada e utilizada de diferentes

formas por parte dos treinadores. Alguns,

independentemente da equipa adversária,

do momento do período competitivo, da

classificação das equipas em confronto,

etc., não estabelecem qualquer modificação

na funcionalidade geral e específica da sua

equipa, nem procuram adaptar a expressão

tática da sua equipa à expressão tática

da equipa adversária, tendo por objetivo

manter os padrões de eficácia anteriormente

atingidos e evitar qualquer tipo de

modificações que poderiam, em sua opinião,

prejudicar essa eficácia. No entanto, outros

treinadores que dão importância à expressão

tática da equipa adversária, podem, a partir

do seu conhecimento, elaborar as melhores

soluções de adaptação da sua própria equipa

à funcionalidade geral e específica da equipa

adversária, por forma a que esta seja expressa

em condições o mais favoráveis possíveis 15 .

Devido às exigências do jogo de Futebol, os

treinadores e pesquisadores têm utilizado

vários recursos para obterem informações

fidedignas sobre o desempenho do(s)

jogador(es) e/ou da(s) equipa(s) durante as

partidas22. Pode afirmar-se que é cada vez

mais importante analisar todos os aspetos

do jogo visto que, tal como já referido, é

insuficiente a observação e análise direta

do treinador no dia da competição. Aliás,

alguns estudos têm evidenciado que mesmo

os treinadores mais experientes e de nível

internacional têm dificuldades em memorizar

e relembrar de forma precisa as sequências

de acontecimentos complexos que ocorrem

durante um longo período de tempo. Na

maioria das vezes eles centram as suas

52

FPF360


observações em pequenas partes da ação,

normalmente onde se encontra a bola ou em

situações críticas, o que implica a perda de

muitas informações que ocorrem ao seu redor.

Os resultados dessa pesquisa apontaram

um índice de retenção de apenas 30% dos

eventos de maior importância no jogo 4 . É por

esta razão que se tem dado maior atenção a

todo o tipo de informação, proveniente do

jogo, em que o treinador procura aumentar

os conhecimentos acerca do processo, do

conteúdo e da lógica do jogo, bem como

obter informações que o ajudem a modelar as

situações de treino para a aquisição da eficácia

competitiva desejada 5,10 .

As variáveis que têm sido mais utilizadas, para

descrever o desempenho no jogo são: os golos,

as finalizações, os cantos, os cruzamentos, os

dribles, os passes, a posse de bola, os roubos

de bola, a duração do ataque, os passes em

profundidade, a distribuição de bola em função

do espaço de jogo, etc. 22,23 . A análise destas

variáveis tem auxiliado na identificação de

problemas e na avaliação da qualidade de jogo,

contribuindo para sistematizar conteúdos,

definir objetivos, e construir e selecionar

exercícios para o ensino e treino em futebol24.

Estes instrumentos de identificação de

problemas e avaliação da qualidade de jogo

concentram-se, principalmente, na análise

e na quantificação de dados técnicos e

biomecânicos do movimento, bem como do

desempenho obtido na execução das habilidades

técnicas 25,26,27 , não se mostrando suficientemente

aplicáveis, em termos teóricos e

argumentativos, na avaliação das habilidades

táticas individuais ou coletivas em desportos

de equipa 28 .

A análise de jogo evoluiu e a importância

destes indicadores quantitativos de jogo tem

vindo a diminuir ao longo dos anos. Alguns

pesquisadores têm concentrado a sua atenção

na análise de variáveis relacionadas com os

aspetos táticos do jogo de futebol, com base

na caracterização dos comportamentos dos

jogadores, a partir da observação das equipas

em confronto 29 .

2.1. MÉTODOS DE OBSERVAÇÃO

Ao longo do tempo, os sistemas de observação

e análise tiveram uma evolução coincidente

com os avanços tecnológicos e com a

capacidade de registo e memorização dos

meios informáticos 29 . Para o mesmo autor,

estes sistemas são úteis durante os jogos,

assim como no processo de ensino e de treino.

Importa então perceber quais são os métodos

existentes de observação e de análise do jogo.

Existem três tipos de métodos de observação:

a direta, a indireta e a observação mista. A

observação direta, efetuada pelo scouter/

observador, é realizada in loco, isto é, no local

onde o jogo se realiza, e permite a recolha de

dados em direto e um conhecimento real do

adversário. A grande vantagem é permitir ter

conhecimento sobre as condições externas

ao jogo. A observação indireta baseia-se na

análise em vídeo, através da utilização de

meios tecnológicos, e permite a recolha de

dados sistematizados relativamente à equipa

adversária e aos jogadores. A grande vantagem

deste tipo de observação prende-se com o facto

de se poder ver e rever várias vezes o mesmo

evento, permitindo uma melhor análise do jogo.

Por fim, a observação mista faz uso dos dois

métodos, juntando aquilo que os outros dois

métodos têm de melhor. Desta forma, permite

uma recolha de informação mais eficaz, fiável e

rigorosa. É, portanto, aquela que me parece mais

indicada e que se deve usar.

Podemos também analisar o jogo

categorizando-o quanto à sua forma. De

facto, existem diferentes formas de analisar

o jogo: a análise visual, a análise notacional,

a análise em vídeo e a análise baseada em

tecnologia informática30. A análise visual é

a forma mais elementar de análise do jogo de

futebol. Baseia-se unicamente na habilidade,

na experiência observacional e na memória

fotográfica do analista. Representa um modo

de análise subjetivo, influenciado pelos

prejuízos e perceções pessoais do observador.

A fiabilidade das análises é reduzida, devido à

não utilização de meios e métodos específicos

para o registo dos acontecimentos do jogo. A

análise notacional baseia-se na anotação em

tempo real (o vulgar “papel e caneta”), dos

acontecimentos básicos que sucedem durante

os jogos para sua posterior revisão e análise

mais detalhada. Porém, tem as mesmas

limitações que a análise visual, pelo facto

de se analisar o jogo em tempo real, o que

pode comprometer a fiabilidade e precisão

da informação registada. A análise em vídeo

traduz-se na análise do jogo a partir de uma

gravação prévia do jogo, onde a possibilidade

de ver várias vezes os principais eventos do

jogo permite levar a cabo uma análise mais

objetiva, precisa e fiável por parte do treinador

e/ou investigador. A gravação de determinados

eventos do jogo, considerados chave pelo

observador, depois de categorizados e

avaliados, são uma excelente ferramenta

para dar feedbacks aos jogadores. A única

desvantagem deste método é não permitir

ver o ambiente externo ao jogo (aliás, muitas

vezes as gravações são em ângulo fechado não

permitindo, inclusive, ver o comportamento

de todos os jogadores). Por fim, a análise

baseada em programas informáticos é a forma

mais avançada, precisa e objetiva de analisar

o jogo, permitindo obter informação de

natureza qualitativa e quantitativa do mesmo.

Para além disso, permite o armazenamento

de grandes quantidades de informação,

assim como uma fácil e ágil organização e

recuperação da mesma, por parte do treinador

e/ou investigador. Este método consiste

em passar a gravação de um jogo para um

programa informático especificamente

configurado para analisar os principais fatores

que influenciam o rendimento manifestado

por uma equipa ou por um jogador. Sendo

um método muito interessante, requer um

processo de aprendizagem e familiarização

com o software por parte do analista.

3. MODELO DE OBSERVAÇÃO

E ANÁLISE DE UMA EQUIPA

– UMA IDEIA SOBRE OS

PERÍODOS DE INTERVENÇÃO

3.1. PRÉ-JOGO

O jogo começa-se a preparar com

antecedência de uma semana. De facto,

durante a fase pré-jogo, o observador vai

recolhendo informações, através de filmagens

e dados estatísticos, relativamente à equipa

adversária e, através da sua observação in

loco em jogos anteriores, começa a criar

O JOGO COMEÇA-SE

A PREPARAR COM

ANTECEDÊNCIA DE UMA

SEMANA. DE FACTO,

DURANTE A FASE PRÉ-

JOGO, O OBSERVADOR

VAI RECOLHENDO

INFORMAÇÕES, ATRAVÉS

DE FILMAGENS E

DADOS ESTATÍSTICOS,

RELATIVAMENTE À EQUIPA

ADVERSÁRIA E, ATRAVÉS

DA SUA OBSERVAÇÃO

“IN LOCO” EM JOGOS

ANTERIORES, COMEÇA A

CRIAR UMA EXPECTATIVA

SOBRE O POSSÍVEL

CENÁRIO RELATIVO À

ESTRATÉGIA QUE IRÁ SER

REALIZADA PELA EQUIPA

ADVERSÁRIA

FPF360 53


uma expectativa sobre o possível cenário

relativo à estratégia que irá ser realizada pela

equipa adversária, assim como uma análise

aos jogadores adversários, permitindo-lhe

estar mais e melhor informado quanto à

forma como se podem anular os pontos

fortes e potenciar os pontos fracos dessa

mesma equipa. Quer isto dizer que, no início

da semana, tenho toda a informação sobre o

adversário que vou defrontar na minha posse.

Para além disso, relativamente à própria

equipa, tenta-se melhorar determinados

processos previamente identificados.

Ainda relativamente à observação do

adversário, o observador tem, nesta fase, uma

série de parâmetros que procura saber, isto é,

tem determinadas normas a que se rege, como

por exemplo:

Dados do Jogo:

› Tipo competição/Jornada

› Data e hora do jogo

› Escalão

› Estádio/cidade

› Condições Climatéricas

› Piso

› Números de espectadores/ambiente externo

› Árbitro

› Relação com os jogadores

› Ação disciplinar

› Contexto/Enquadramento

› Contexto Emotivo

› Importância do Jogo

› Momento de forma das equipas

› Constituição da Equipa e Suplentes

› Organização Estrutural

› Sistema Tático

› Evolução Estrutural da Equipa Durante o

Jogo

Métodos de Jogo Ofensivo e Defensivo:

Identificação e Descrição

› Organização Ofensiva:

› Fase de Construção:

› Saída Pelo GR Ou Centrais:

› Longa?

› Corredores de Entrada da Bola

› Jogador Alvo? Que procura fazer?

Segura a Bola?

› Dinâmica de suporte à 2ª Bola – o

que é que os outros jogadores

fazem?

› Curta?

› Descrição das Dinâmicas/

Movimentações

› Ligação Setor Defensivo - Setor

Médio

› Por Fora (pelos corredores

laterais)?

› Pelo Corredor Central?

› Fase de Criação

› Jogo Interior?

› Por Movimentos Rutura?

› Descrição Dinâmica da ação

› Jogo Exterior

› Descrição das Dinâmicas (como

chegam ao cruzamento?)

› Quem Cruza?

› De onde cruza? (Zonas Intermédias?

linha de fundo?)

› Fase de Finalização

› Quantos Jogadores?

› Zonas Preenchidas?

› Equilíbrios?

› Quantos Jogadores?

› Zonas Vulneráveis?

› Transição Defensiva

› Reação à perda da bola forte?

› Que comportamento têm os jogadores

distantes da bola?

› Boa recuperação defensiva?

› Zonas vulneráveis?

› Que comportamentos potenciar?

› Organização Defensiva

› Como se organiza a equipa adversária?

› Que tipo de bloco utilizam?

› Que tipo de pressão realizam?

› Quais são os momentos de pressão

utilizados?

› Que jogadores iniciam a pressão?

› Para que zonas condicionam o

adversário?

› Distância entre linhas?

› Transição Ofensiva

› O que fazem quando recuperam a bola?

› Saída de pressão na profundidade?

› Saída de pressão à largura?

› Lateralizam o jogo para entrar no

processo de organização ofensiva?

› Procuram uma zona ou jogador

específico?

› Qual é o comportamento dos jogadores

da frente?

› Os jogadores não envolvidos

equilibram a equipa?

› Esquemas Táticos Ofensivos

› Cantos/Livres

› Quem bate os cantos/livres?

› Canto/livre aberto ou fechado?

› Para que zona?

› Utiliza sinal?

› Recorrem ao canto curto?

› Quantos jogadores colocam dentro

da área?

› Que tipo de movimentos fazem

estes jogadores?

› Para que zonas?

› Existem bloqueios?

› Há algum jogador-chave?

› Agressivos no ataque à bola?

› Quantos jogadores têm na entrada

da área?

› O que fazem estes jogadores?

Remate exterior?

› Quantos jogadores equilibram a

equipa?

› Preparam o momento da perda

da bola?

› Lançamentos

› Que jogadores procuram?

› Lançamentos rápidos?

› No último terço, recorrem ao

lançamento longo na área?

› Que jogadores estão envolvidos?

› Que movimentos fazem?

› Que zonas procuram atacar?

› Como equilibram a equipa?

› Esquemas Táticos Defensivos

› Cantos/Livres

› Que marcação fazem? Individual?

Zonal? Mista?

› Defendem com quantos jogadores?

› Deixam jogadores na frente?

› Que jogadores saem para canto/livre

curto?

› Que zonas são mais vulneráveis?

› Quais os jogadores mais baixos e/ou

pouco agressivos?

› O GR sai da baliza?

› Qual o comportamento da linha

zonal?

› Baixa? Mantêm-se na mesma

posição?

› Jogadores Chave

› Que zonas procuram?

› A que movimentos recorrem?

› Caracterização Individual

› Que tipo de movimentos fazem

(coletivos ou individuais)?

› Padrão de comportamento

Estes dados são todos retirados, primeiro,

através de uma observação em tempo real e,

depois, através do recurso às imagens em vídeo.

Portanto, todas as semanas, o observador,

normalmente em conjunto com outro elemento

da equipa técnica, vai fazendo observações in

loco dos jogos previamente definidos (figura 1).

54

FPF360


CALENDÁRIO DE OBSERVAÇÃO 2018-2019

DATA JORNADA JOGOS PRÓXIMO ADV

Vitória - Oliveirense | Vitória - Penafiel | Vitória - Aves | Vitória - Santa-Clara

Pré-Época

Mafra - Belenenses | Penafiel - Beleneneses | Belenenses -Paços de Ferreira

Académica - Belenenses | Caldas - Belenenses

Arouca - Aves | ADS - Aves | Vitória - Aves | Braga - Aves | Aves - Santa-Clara

Moreirense - Rio Ave | Chaves - Rio Ave | Feirense - Rio Ave

TL

Aves - Santa Clara | Belenenses - Oliveirense

12 ago 1ª Benfica - Vitória | Feirense - Rio Ave | Setúbal - Aves Aves

19 ago 2ª Belenenses - Porto | Vitória - Feirense | Rio Ave - Marítimo Rio Ave

26 ago 3ª Moreirense - Belenenses | Porto - Vitória | Setúbal - Nacioanl Vitória

2 set 4ª Belenenses - Setúbal | Sporting - Feirense | Porto - Moreirense | Rio Ave - Portimonense Moreirense

23 set 5ª Feirense - Nacional | Benfica - Aves | Setúbal - Porto Porto

30 set 6ª

Aves - Portimonense | Vitória - Setúbal | Chaves - Benfica

Moreirense - Feirense | Sporting - Marítimo

Nacional

7 out 7ª Benfica - Porto | Feirense - Belenenses | Setúbal - Moreirense Setúbal

30 out 8ª

Aves - Santa Clara | Belenenses - Benfica | Vitória - Braga

Porto - Feirense | Moreirense - Marírimo

Feirense

4 nov 9ª Benfica - Moreirense | Boavista - Vitória | Braga - Setúbal Benfica

11 nov 10ª Belenenses - Boavista | Moreirense - Portimonense | Porto - Braga | Vitória - Santa Clara Portimonense

2 dez 11ª Boavista - Porto | Braga - Moreirense | Chaves - Vitória | Rio Ave - Sporting Braga

9 dez 12ª Belenenses - Chaves | Feirense - Marítimo | Sporting - Aves | Moreirense - Santa Clara Boavista

16 dez 13ª Chaves - Moreirense | Rio Ave - Belenenses | Sporting - Nacional Marítimo

Figura 1 – Calendário de observação de jogos época 2018-2019.

É importante salientar que não existe um

número de observações definido para cada

adversário. A norma que normalmente se

segue é, de forma grosseira, “quantos mais

jogos vistos melhor”. Importa, sobretudo,

ver as equipas em diferentes contextos. No

entanto, a localização geográfica é um fator

limitador. De facto, numa breve análise ao

mapa de observações da época 2017/2018, as

7 equipas com mais observações localizam-se

todas no Norte do país, o que reforça a ideia

da crescente concentração do futebol nesta

zona geográfica e da facilidade de conjugação

de observação de vários jogos no mesmo dia,

pela facilidade de acessos e pelo pouco tempo

que envolve chegar a qualquer destes estádios.

Por outro lado, as equipas com menos jogos

observados correspondem às equipas mais

distantes da cidade de Tondela em termos

geográficos. Mesmo pela questão financeira

associada à política do clube, tornava-se

impossível ver o Marítimo e o Portimonense

jogar nos seus estádios, assim como ver o

Chaves e Belenenses, salvo se se tratassem de

jogos de elevada importância e que merecessem

particular atenção e observação direta.

Figura 2 – Distribuição no mapa das equipas da

Primeira Liga na época 2017/2018.

FPF360 55


25

20

15

20

18

15 14

› Os comportamentos analisados e treinados

são, depois, colocados em prática durante o

jogo. De facto, acreditamos que os jogadores

ficam muito mais confortáveis, mais

preparados e mais próximos do sucesso,

porque sabem exatamente aquilo que têm que

fazer dentro de campo.

10

11

9 9 8

7

5

5 4 4 4 4

3

0

Vit. Guimarães

Feirense

Porto

Desp. Aves

Boavista

Rio Ave

Moreirense

Vit. Setúbal

Braga

Sporting

Benfica

Marítimo

Belenenses

Portimonense

Chaves

Figura 3 – Número de observações das equipas da Primeira Liga na época 2017/2018.

Depois de analisados todos estes parâmetros,

o observador tem, em conjunto com a equipa

técnica e com base em toda a observação

anterior, que definir a estratégia a adotar para

o jogo, isto é, tendo em conta todo o nosso

historial passado (forma de jogar, estado de

forma dos jogadores, estado anímico, últimos

resultados, pontos conquistados fora/casa) e

a forma de jogar do nosso adversário, encetar

a melhor forma de chegar à vitória. Trata-se,

sobretudo, de procurar encontrar algumas

nuances estratégicas que possam potenciar

os nossos pontos fortes e tentar aproveitar

aquilo em que o adversário é menos bom.

Depois desta reunião de preparação estratégica,

existe uma reunião em que o observador me

apresenta o adversário (fases, momentos do

jogo, bolas paradas e outras situações que ache

pertinente), já com as eventuais alterações que

a equipa técnica achou por bem fazer, e se fala

sobre o onze titular que jogará frente a esse

mesmo adversário.

A partir daqui, começamos a fazer um transfer

para o treino daquilo que o adversário faz. De

facto, passamos a treinar em função daquilo

que identificamos e observamos. Vejamos

um exemplo do primeiro jogo oficial da

Taça da Liga, no que respeita ao momento

de organização defensiva (apesar de termos

trabalhado todos os momentos do jogo, decidi

expor apenas um):

› Sabíamos que o Vitória SC se apresentaria

em 1x4x3x3 com grande mobilidade por

fora, pelos corredores laterais, através da

sua estrutura móvel (lateral-médio-ala).

Passaríamos, portanto, perante a forma como

iríamos abordar o jogo, muito tempo sem bola.

O Feirense assemelha-se à nossa forma de

estar no momento de organização defensiva

e, por isso, poderíamos tirar algumas ilações

quanto à forma como o Vitória SC se poderia

apresentar no nosso jogo.

Figura 4 – Organização Ofensiva Vitória SC.

› A nossa equipa manter-se-ia no nosso 4x4x2

habitual com o Arango e o Tó a controlar os

2 centrais e o MC, mantendo os momentos

de pressão bem definidos. A preocupação era

empurrar a equipa para o corredor lateral e,

aí, aumentar o ritmo da pressão, mantendo o

nosso bloco unido e compacto. Assim, durante

a semana, fomos trabalhando esta forma de

estar no momento de organização defensiva. É

importante salientar o papel que os jogadores

que, à partida, não farão parte do jogo têm. De

facto, é pedido a estes jogadores que recriem

alguns comportamentos que o nosso adversário

apresenta, sabendo, no entanto, que é difícil

conseguirmos reproduzir estes comportamentos

por serem completamente diferentes daqueles

que os nossos jogadores estão habituados a

executar.

Figura 5 – Transfer dos comportamentos observados

para o treino.

Figura 6 – Transfer dos comportamentos observados/treinados

para o jogo.

O mesmo exemplo pode ser dado nas

situações de bola parada. De facto, segue um

exemplo prático do jogo com o Sporting de

Braga, para a Taça da Liga:

› Foi analisada a forma como o Braga se

posicionava nos cantos defensivos, só

deixando 1 homem para canto curto.

Figura 7 – Análise das bolas paradas do Braga.

› Tentamos, por isso, reproduzir em treino,

cantos curtos com situações de 2x1.

Figura 8 – Transfer dos comportamentos observados

para o treino.

› Em jogo, verificamos o mesmo

comportamento do nosso adversário e

podemos explorá-lo, porque os jogadores

estavam preparados para o fazer.

56

FPF360


Figura 9 – Transfer dos comportamentos observados/treinados

para o jogo.

3.2. JOGO

Em jogo, os primeiros minutos são, sobretudo,

de análise da forma como o adversário se

apresenta, tentando verificar se mantêm ou

alteram os comportamentos que observámos,

treinámos e trabalhámos durante a semana.

Para além disso, temos sempre comunicação

constante de dois elementos da equipa técnica,

que se encontram num patamar superior e,

por isso, tem uma maior perceção do jogo

coletivo de ambas as equipas, a darem algumas

informações que possam não ser possíveis

de se observar ao nível do relvado. Mesmo as

substituições do adversário são elementos

analisados, quer antes, quer durante o jogo, pois

podem traduzir determinados comportamentos

que o treinador adversário queira implementar.

3.3. PÓS-JOGO

O fim do jogo representa, de forma geral, o fim

da semana de trabalho e o início de outra. Tratase,

portanto, de um momento de reflexão sobre

tudo o que foi feito durante a semana e sobre

os comportamentos que foram evidenciados

durante o jogo. Quero com isto dizer que o

jogo serve, também, de ponto de partida para

a semana que se avizinha, isto é, a semana de

trabalho é estruturada com base nos problemas

que surgiram durante o jogo (e que conseguimos

ou não contornar).

Analisar o jogo é, neste sentido, uma tarefa

absolutamente indispensável. Assim, para além

da minha análise ao jogo, um dos meus adjuntos

analisa, corta e envia-me um relatório sobre a

forma como o adversário se apresentou em jogo,

de que forma é que resolvemos os problemas que

nos surgiram ou aspetos individuais que tenham

de ser melhorados. Depois disto, esta informação

poderá ser passada ao grupo de trabalho de forma

coletiva, intersetorial, grupal ou individual.

4. CONCLUSÃO

É esta a forma como observamos, analisamos e

interpretamos uma equipa.

Os processos de observação e análise de jogo

procuraram, essencialmente, a captura de

ligações, relações e estabelecimento de padrões

de atuação das equipas. A partir da observação,

o que fazemos é tentar utilizar os dados

recolhidos, quer da equipa adversária, quer da

nossa equipa, dar-lhes significado e planificar

o treino ou a abordagem ao jogo (estratégia),

de forma a obter o melhor rendimento dos

nossos jogadores e da nossa equipa face ao

adversário que vamos encontrar. É por isso que

entendemos que a tríade observação – treino

– jogo é fundamental e representa, para nós, a

melhor forma de ter sucesso.

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WENDERSON SAÏD (WENDER) //TREINADOR SC BRAGA “B” (2L) - 2018/19

Nota introdutória por Jorge Castelo - Formador FPF

Este trabalho contempla a 1ª etapa de construção do ataque sob duas dinâmicas: a saída curta e a

longa. Na atualidade os treinadores de equipas de top, têm demonstrado um maior interesse nesta

etapa do ponto de vista estratégico/tático. Muito se pode definir a partir desta etapa, preparando com

maior eficácia a 2ª etapa de construção, a criação e a finalização. Resumidamente, as saídas baixas

preparam com maior eficácia as etapas seguintes do ataque, bem como poderão “convidar” a equipa

adversária a subir no terreno de jogo, oferecendo mais espaço entre a sua linha defensiva e o guardaredes.

Enquanto que a saídas longas proporcionam quadros contextuais de jogo simples e altamente

padronizados (jogador de referência, ataque à 2ª bola, colegas em penetração no espaço “cego” da

defesa, entre outras).

A 1ª ETAPA DE CONSTRUÇÃO

DO PROCESSO OFENSIVO

SAÍDAS CURTA E LONGA

INTRODUÇÃO

Este trabalho surge no âmbito do curso de

treinador “UEFA PRO” organizado e lecionado

pela Federação Portuguesa de Futebol.

O tema a desenvolver será “a 1ª etapa de

construção do processo ofensivo”, acerca do

qual irei aprofundar o trabalho desenvolvido

aquando do curso UEFA A + ELITE JOVEM,

em virtude das vivências e desafios que tenho

encontrado na minha experiência enquanto

treinador de futebol profissional.

E partindo da ideia de Meinberg (1991) de que

só com intuição e inspiração não se obtêm

resultados, este momento do jogo tem-me

levado a um estudo e reflexão constantes.

A realização do trabalho levado a cabo

anteriormente, aliada à minha experiência de

treinador, tem-me mostrado quão importante

é o trabalho e o desenvolvimento desta

etapa do jogo. A minha vivência tem-me

vindo a demonstrar que a saída da 1ª etapa

de construção de forma “limpa” permite a

chegada a zonas mais adiantadas do terreno

em condições mais vantajosas para a criação

de situações de finalização.

Estando o futebol atualmente a passar por

aquela que é denominada por alguns como a

“era da estratégia”, e sendo no momento da

nossa 1ª etapa ofensiva que os adversários

mais nos procuram condicionar do ponto de

vista estratégico, é importante não formatar

os nossos princípios coletivos de jogo, mas

desenvolver esses mesmos princípios através

do trinómio estímulo-problema-decisão.

Com a elaboração deste trabalho vou procurar

aprofundar ainda mais esta etapa, de modo

a enriquecer cada vez mais o meu modelo

de jogo, onde a 1ª etapa de construção é o

fator primordial para as etapas seguintes e,

consequentemente, para o sucesso.

PRINCÍPIOS TÁTICOS DO JOGO

O rendimento coletivo e individual

numa partida de futebol está fortemente

relacionado com aquilo que é a capacidade

tática e o processo cognitivo da tomada de

decisão.

Os princípios táticos são descritos na

literatura (Garganta & Pinto, 1994) como

um conjunto de normas orientadoras

relativamente ao jogo que permitem aos

jogadores encontrar soluções táticas para

aquilo que são os problemas que surgem

de determinada situação. Ora, esses

princípios inerentes ao jogo surgem, segundo

Castelo (1994), através de uma lógica

construção teórica e são exibidos através

da operacionalização dos comportamentos

tático-técnicos dos atletas. De forma a

simplificar a transmissão, operacionalização

e execução destes conceitos, os atletas

FPF360 61


devem ter uma elevada familiarização com os

princípios suprarreferidos.

Tendo em consideração a literatura, os princípios

táticos podem ser divididos em cinco domínios:

princípios gerais, princípios operacionais,

princípios fundamentais, unidade ofensiva e

unidade defensiva (Costa, et al., 2009).

Em relação aos princípios gerais, eles

caracterizam-se pelo facto de serem comuns

às diferentes fases do jogo, baseando-se

em três ideias fundamentais com origem

nas relações espaciais e numéricas entre os

jogadores da equipa e adversários: (i) não

permitir a inferioridade numérica, (ii) evitar

a igualdade numérica e (iii) procurar criar a

superioridade numérica (Garganta & Pinto,

1994; Queiroz, 1983).

Por sua vez, os princípios operacionais são

definidos por Bayer (1994) como aquilo

que é necessário para resolver uma ou mais

categorias de situações. Ou seja, estão

relacionados com os conceitos para a fase

ofensiva e fase defensiva. Fase ofensiva:

(i) conservar a bola, (ii) construir ações

ofensivas, (iii) progredir pelo campo de jogo

adversário, (iv) criar situações de finalização

e (v) finalizar. Fase defensiva: (i) não permitir

situações de finalização, (ii) recuperar a bola e

(iii) impedir a progressão do adversário.

Já os princípios fundamentais são resultantes

de um conjunto de normas que orientam

as ações coletivas e individuais nas duas

fases do jogo – ofensiva e defensiva – e tem

como objetivos: desequilibrar a organização

adversária, manter uma organização coletiva

ajustada e permitir que os jogadores possam

intervir assertivamente na zona de ação.

São princípios fundamentais ofensivos: (i)

penetração, (ii) mobilidade, (iii) cobertura

ofensiva e (iv) espaço. E são princípios

fundamentais defensivos: (i) contenção,

(ii) cobertura defensiva, (iii) equilíbrio, (iv)

concentração (Castelo, 1996).

Por fim, os princípios da unidade defensiva e

da unidade ofensiva são baseados na coesão,

efetividade e no equilíbrio funcional entre as

linhas transversais e longitudinais da equipa,

com a funcionalidade de transmitir confiança

e segurança aos colegas de equipa e a criar

uma intervenção indireta na zona da bola dos

elementos que se encontram mais afastados

dessa mesma zona (Costa, et al., 2009).

PROCESSO OFENSIVO

Os jogos de futebol são caracterizados

por um duelo constante entre ataque e

defesa (Teodurescu, 1984), dois processos

totalmente antagónicos, que refletem

em si diferentes princípios, objetivos e

comportamentos técnico-táticos. Castelo

(1996) refere que é a irreversibilidade da

dialética solidariedade vs rivalidade que

expressa o estado de espírito dos jogadores

enquanto companheiros e oponentes. O

jogo de futebol é, na visão de Queiroz (1986),

caracterizado pela aplicação de determinados

procedimentos adversos – ataque e defesa –

que procuram o desequilíbrio da estrutura

adversária, em busca de um fim comum.

Assim sendo, e partindo da visão de

Castelo (1996), podemos referir que é esta

relação dualista que expressa as duas fases

fundamentais do jogo de futebol – o processo

ofensivo e o processo defensivo – criando um

quadro de luta constante pela posse de bola.

Focando-nos agora no processo ofensivo,

que é onde está inserido o tema central deste

trabalho, podemos citar (Teodurescu, 1984)

para definir o processo de jogo como sendo

a fase em que uma “equipa se encontra em

posse de bola, com vista à obtenção do golo,

sem cometer infrações às leis de jogo”.

Este processo é composto por todas as ações

realizadas individual e coletivamente, pelos

elementos ou equipa que possui a posse de

bola, que ocorrem em função de determinados

conceitos referentes à natureza inquebrantável

do jogo de futebol e hierarquizados em função

da finalidade do jogo – manter a posse de bola,

aproximação da baliza adversária e marcar golo

(Garganta, 1997).

A fase ofensiva é iniciada no momento da

recuperação da bola ao adversário, transição

ofensiva, que posteriormente passa para o

processo ofensivo e tem o seu término no

momento da perda da bola. O momento

ofensivo existe com a finalidade de chegar ao

golo, de modo a chegar à conclusão lógica do

jogo (Castelo, 1996). Todo este processo tem

como base a cooperação programada de todos

jogadores na coordenação dos elementos

dos diferentes setores e a nível conceptual é

dividido em três fases: construção das ações

ofensivas, criação das situações de finalização

e finalização. Estas estão sempre presentes,

independentemente daquilo que são as ideias

e a filosofia de determinada equipa que esteja

em posse de bola (Garganta & Pinto, 1995).

MODELO DE JOGO

Antes de mais, importa perceber que

o rendimento das equipas depende

primordialmente dos aspetos técnico-táticos

e que, no momento de observar o jogo de

futebol, chegamos à conclusão que há uma

elevada complexidade nos comportamentos

técnico-táticos vivenciados pelos jogadores

(Castelo, 1996). Continuando nesta ideia

de complexidade presente no jogo, Oliveira

(2004) refere que ela é o jogo por si só, ou

seja, é o todo onde acontecem as interações

entre companheiros de equipa, as relações

OS PRINCÍPIOS TÁTICOS

SÃO DESCRITOS NA

LITERATURA (GARGANTA

& PINTO, 1994) COMO

UM CONJUNTO DE

NORMAS ORIENTADORAS

RELATIVAMENTE AO

JOGO QUE PERMITEM AOS

JOGADORES ENCONTRAR

SOLUÇÕES TÁTICAS

PARA AQUILO QUE SÃO

OS PROBLEMAS QUE

SURGEM DE DETERMINADA

SITUAÇÃO. ORA, ESSES

PRINCÍPIOS INERENTES

AO JOGO SURGEM,

SEGUNDO CASTELO (1994),

ATRAVÉS DE UMA LÓGICA

CONSTRUÇÃO TEÓRICA E

SÃO EXIBIDOS ATRAVÉS

DA OPERACIONALIZAÇÃO

DOS COMPORTAMENTOS

TÁTICO-TÉCNICOS

DOS ATLETAS. DE

FORMA A SIMPLIFICAR

A TRANSMISSÃO,

OPERACIONALIZAÇÃO

E EXECUÇÃO DESTES

CONCEITOS, OS ATLETAS

DEVEM TER UMA ELEVADA

FAMILIARIZAÇÃO

COM OS PRINCÍPIOS

SUPRARREFERIDOS

interpessoais dos mesmos, a relação que é

mantida por estes com as previsibilidades e

imprevisibilidades do jogo, a aleatoriedade

dos acontecimentos, a capacidade de criação

coletiva e individual e ainda os problemas

criados, que proporcionam um meio

62

FPF360


complexo e caótico, apenas entendível se

analisado no contexto de envolvimento.

Ora, o jogar produzido por uma equipa não é

um fenómeno puramente causal e natural, mas

sim o resultado da construção e do trabalho

desenvolvido em função de uma ideia, advindo

daí diferentes formas de jogar (Azevedo, 2011).

O modelo de jogo de uma equipa de futebol

é reportado a “uma ideia/conjetura de jogo”

(Oliveira, 2006), e que segundo Garganta

(2006) é alicerçado num conjunto de

princípios, regras de ação e de gestão, ou seja,

são as ideias e diretrizes que determinam e

orientam a forma de jogar de uma equipa, que

será sempre específica.

Há também especialistas da área a

defenderem que a visão do modelo de jogo

de forma redutora é errada e que o termo

modelo de jogo é referente a algo muito mais

complexo do que apenas o sistema de jogo,

o posicionamento dos jogadores ou a sua

disposição. Segundo Frade (2006), o modelo

é o todo, é tudo. Este autor ainda esclarece

que o modelo se reporta maioritariamente à

forma como os jogadores se relacionam entre

si, como expressam a sua identidade coletiva

e de que forma se organizam coletivamente

em cada momento do jogo. Assim, podemos

definir como modelo de jogo aquilo que é a

identidade expressa coletivamente e de forma

regular na forma de jogar.

1ª ETAPA DE CONSTRUÇÃO

DO PROCESSO OFENSIVO

O processo ofensivo é formado por uma

panóplia de movimentos organizados, de modo

a desenvolver o ataque da equipa (Marziali &

Mora, 1997), procurando a criação de situações

de finalização para obter o golo (Queiroz, 1983).

Este processo é dividido em três etapas: (i)

primeira fase, que é caraterizada pelo passar

de uma atitude defensiva para uma postura

ofensiva; (ii) segunda fase, que tem como

objetivo criar situações de finalização; (iii)

terceira fase, que corresponde ao momento da

finalização (Queiroz, 1983).

Posto isto, a primeira etapa de construção

do processo ofensivo, segundo Castelo

(1996), tem como princípio garantir que a

bola seja deslocada da zona de recuperação

para as zonas vitais do espaço de jogo. Sendo

esse deslocamento realizado através de

circulações, combinações, ações táticas

individuais e ações táticas coletivas, sempre

com o intuito de evoluir no terreno para zonas

que propiciem a finalização.

Assim sendo, parece-me de todo pertinente

a importância do desenvolvimento desta

etapa do jogo para potenciar o sucesso da

equipa. Acredito que todas as etapas estão

ascendentemente ligadas e existem numa

relação de simbiose, levando a que, para a

bola chegar em condições de sucesso a zonas

de decisão e finalização, é fulcral sair pelos

melhores caminhos e de forma “limpa”.

Do meu ponto de vista, para uma equipa

conseguir ter uma primeira etapa de

construção segura e eficaz, é fundamental

ter um conjunto de atletas evoluídos

tecnicamente, com conhecimento do jogo

e mentalmente predispostos a assumir a

iniciativa desde trás.

Para que os jogadores consigam corresponder

à exigência técnica é importante uma correta

orientação corporal de modo a manter o

campo “aberto” - para que seja possível

identificar tudo aquilo que vai acontecendo ao

redor - e qualidade de passe e receção para que

o jogo possa fluir.

O desempenho inerente ao conhecimento

do jogo relaciona-se com a identificação de

zonas e/ou momentos de pressão, a perceção

dos colegas melhor posicionados para que a

construção possa ter seguimento para outras

etapas e a capacidade coletiva para atrair o

adversário a determinadas zonas, permitindo a

criação dos espaços por onde queremos entrar.

Todo este conhecimento e capacidade vai

permitir ao atleta e à equipa tomar melhores

decisões. A comunicação é outro fator que

deriva do conhecimento do jogo e que é

muito importante para o sucesso da etapa de

construção, uma vez que permite orientar os

companheiros em situações nas quais não

conseguem perceber o que se passa ao redor.

Quanto à predisposição mental necessária, é

importante que os atletas sejam capazes de

manter a concentração e decidir sob pressão,

de modo a construir de forma segura.

CONCEÇÃO DA 1ª ETAPA

DE CONSTRUÇÃO DO PROCESSO

OFENSIVO

Aquilo que é a conceção da primeira etapa de

construção deve, no meu ponto de vista, ser

congruente com a conceção para as etapas

seguintes, pois entendo existir uma relação

entre as mesmas.

Posto isto, importa referir que a minha ideia

de jogo passa pela utilização de uma forma

de jogar apoiada, com a participação de todos

os elementos, com constante criação de

linhas de passe ao portador da bola, fazendo

uma progressão no espaço de jogo com

envolvimento coletivo e tendo presentes

três princípios de base: apoio, largura e

profundidade. Todas estas ideias têm como

objetivo a criação de situações de finalização

em condições favoráveis para chegar ao golo.

Tenho como definido no meu modelo de jogo,

para a primeira etapa do processo ofensivo,

alguns princípios fundamentais naquilo que é

a minha conceção de jogo. É para mim muito

claro que sair a jogar de forma curta desde

trás vai favorecer a chegada a zonas mais

adiantadas do terreno de jogo. Assim sendo, a

primeira opção terá sempre que passar por sair

curto desde o guarda-redes (GR), procurando

posteriormente desorganizar o adversário,

de modo a penetrar no seu meio-campo e a

ligar com a segunda etapa de construção do

processo ofensivo. Contudo, somos muitas

vezes sujeitos a condicionalismos estratégicos

por parte dos adversários, que procuram

bloquear a nossa saída curta, fazendo com

que tenhamos que encontrar novas soluções

para desenvolver o nosso jogo. Daí advém

a importância de conceber alternativas na

saída de bola, que passam pela saída longa,

primeiramente com o objetivo de encontrar

um jogador livre para iniciar o processo

ofensivo e, em último recurso, definir uma

referência para a saída longa e aproximar a

equipa para ganhar a segunda bola.

1ª Etapa

Saída Curta

Saída Longa

Ligação

c/ 2ª Etapa

Figura 1. Esquema 1ª Etapa de Construção

SAÍDA CURTA

Na saída de bola pelo GR o posicionamento

base para a equipa sair de forma curta e ligada

deve passar por manter os defesas centrais

(DC’s) abertos, os médios (MC’s) a trabalhar

numa segunda linha, os laterais (LAT’s) bem

projetados e os extremos (EXT’s) por dentro.

A primeira opção na saída curta passará sempre

por sair a jogar pelos DC’s e a alternativa será

jogar pelos MC’s, partindo depois para o

desenvolvimento do processo de construção.

Para dar seguimento a este processo é

importante que a equipa seja capaz de criar

constantemente triângulos e losangos, de

modo a dar diferentes soluções ao portador da

bola. Por exemplo, quando a bola está na posse

do DC é fundamental a criação de losango: LAT

a dar linha de passe por fora, MC a dar linha de

passe interior e o EXT, 10 ou outro MC a dar

linha de passe frontal.

A construção a três é também um conceito que

tenho para as minhas equipas, nomeadamente

quando defrontamos adversários que

pressionem com dois elementos na primeira

linha. Nesta situação, um dos MC’s deverá

baixar para uma zona exterior deixando um

dos DC’s no meio, passando então a equipa a

construir a três. O outro MC deve trabalhar

para receber entre as primeira e segunda linhas

FPF360 63


de pressão do adversário. Nesta situação

será pedido aos LAT’s que se projetem ainda

mais, para que a largura e a profundidade

sejam garantidas. Por sua vez, os extremos e o

médio ofensivo (10) deverão procurar espaços

entrelinhas de modo a serem solução de passe

para a ligação de jogo.

SAÍDA LONGA

Quando o adversário não permitir sair curto,

devemos ser capazes de encontrar soluções

para ligar o jogo de forma longa. Para esta

alternativa na primeira etapa de construção

procuro manter o mesmo posicionamento da

saída curta, ou seja, mantendo a equipa aberta.

Este princípio tem como objetivo manter a

estrutura adversária longa, de modo a que

possam surgir espaços para ficarmos com a

posse de bola através da bola longa.

As opções para esta situação passam pela

saída direta pelos LAT’s, por um dos MC’s ou

pelo 10. Pelos LAT’s ou pelo MC deve haver

espaço para que o jogador possa dominar a

bola ou então deve haver aproximação de

apoios para jogar de primeira. Na saída pelo

10, este pode pentear a bola para os EXT’s e

para o ponta de lança (PL) ou então ficar com

a bola e jogar de frente num apoio que surja.

LIGAÇÃO COM A 2ª ETAPA

DE CONSTRUÇÃO DO PROCESSO

OFENSIVO

Para que a primeira etapa tenha sucesso tem

de haver ligação com a fase seguinte para que a

equipa continue a desenvolver as jogadas com

eficiência, procurando assentar sempre cada

tomada de decisão na possibilidade de sucesso.

Este é para mim um momento muito

importante no jogo, sendo que uma ligação

com a segunda etapa pode, em alguns casos,

deixar vários adversários fora da jogada e

a partir daí criar desequilíbrios fatais para

a equipa adversária. Como por exemplo,

após a atração das primeira e segunda linhas

de pressão adversária, uma bola entrar

num elemento da nossa equipa que esteja

no espaço entre o setor médio e o setor

defensivo. Ora, uma situação como a que foi

dada a exemplo pode colocar um jogador

com a bola de frente para o jogo e para a linha

defensiva adversária. Tudo isto vai criar a

possibilidade de o portador da bola decidir

em função do espaço, tempo, adversários e

colegas, mas em condições muito favoráveis

para a obtenção de sucesso.

Assim, temos logo por princípio que é

essencial ter jogadores em zonas mais

avançadas para efetivar essa mesma ligação.

Esses elementos devem ter conhecimento dos

espaços que devem ocupar, mas sempre tendo

a perceção de jogo necessária para perceber

os momentos em que devem aparecer em

determinados espaços para serem linha de

passe segura para o portador.

Em termos concetuais será importante um

bom ataque posicional com a criação de

linhas passe e coberturas ofensivas sempre a

prevenir uma eventual perda da bola.

Para efetivar a ligação entre estas duas etapas

tenho na minha conceção quatro opções. A

primeira é a ligação interior onde, através de

colocação de elementos entrelinhas pode

entrar um passe vertical dos DC’s ou dos

MC’s. A ligação exterior é outra opção, que

pode surgir através da atração interior para

libertação dos corredores laterais (CL’s) e

da largura dos LAT’s. A terceira opção passa

por levar o adversário para os CL’s de modo

a desorganizar a sua estrutura defensiva e

criar espaços no corredor central (CC) para

que possa entrar um passe num elemento

colocado entrelinhas. A última opção será

a de ligar à profundidade, que tanto pode

ser no CC como nos CL’s. Para esta última é

importante haver movimentos de ataque à

profundidade quando o adversário consente

espaços nas costas da sua linha defensiva.

PRÁTICA DA 1ª ETAPA

DE CONSTRUÇÃO DO PROCESSO

OFENSIVO

Após a conceção e idealização dos princípios

pretendidos para a 1ª etapa de construção da

equipa surge a necessidade de operacionalizar

todos esses fundamentos teóricos na prática.

Assim, irei explicar o modo como realizo

essa operacionalização para que aquilo que

é idealizado possa acontecer em jogo, uma

vez que, segundo Costa (2005) e Costa

(2007), é em competição que o desempenho

técnico-tático das equipas mais se evidencia

e, como tal, o estudo do jogo e das equipas

que o jogam deve ser realizado no momento

competitivo, procurando então retirar

informações rigorosas, objetivas e válidas.

Até chegar ao momento da competitivo,

existe um planeamento exaustivo das sessões

de trabalho em função dos conteúdos a

desenvolver, surgindo depois o momento

de conduzir cada exercício específico em

treino, de forma a moldar os diferentes

comportamentos técnico-táticos pretendidos

em jogo. Para isto, é essencial utilizar o

feedback de forma clara e precisa, de modo

a atingir os objetivos pretendidos para esta

primeira fase do jogo.

Planeamento Treino Jogo

Figura 2. Esquema de Operacionalização

PLANEAMENTO

Nesta fase de operacionalização procuro,

em conjunto com a minha equipa técnica, a

criação de exercícios de treino que nos façam

aproximar daquilo que será o jogo e que

proporcionem a aquisição de todos os nossos

conceitos por parte dos atletas.

Neste tópico irei dar alguns exemplos daquilo

que são os exercícios utilizados nas unidades

de treino onde trabalhamos a primeira etapa

de construção e a ligação com a segunda etapa

do processo ofensivo.

EXERCÍCIO 1

(1ª ETAPA):

Procurar que os DC’s ou os MC’s consigam

ligar com as mini-balizas (retrata o passe

entrelinhas / jogo interior), criando

mobilidade e dinâmicas entre os MC’s.

O GR é um elemento importante na circulação

e variação do centro de jogo.

Figura 3. Exercício 1ª etapa construção

EXERCÍCIO 2

(1ª ETAPA):

Criação de saída a três: procurar espaço

entrelinhas criado pelos elementos mais

adiantados e promover a largura pelos laterais.

Figura 4. Exercício construção a 3

EXERCÍCIO 3

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

EXT’s e 10 aparecem na zona restrita, no timing

exato, de modo a criar o comportamento

setorial de apoio e profundidade.

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FPF360


POSICIONAMENTO BASE

(1ª ETAPA):

DC’s abertos, MC’s numa segunda linha e

laterais projetados.

LOSANGO CORREDOR LATERAL

(1ª ETAPA):

Criação de losangos para permitir diferentes

linhas de passe.

Figura 5. Exercício ligação 1ª-2ª etapa

EXERCÍCIO 4

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

Situação de posse de bola intersectorial entre

linha defensiva e MC’s que procuram criar

espaços atrás da primeira linha de pressão.

Homens da frente criam movimentos de

apoio/profundidade para haver ligação entre

as primeira e segunda etapas de construção.

Figura 8. Posicionamento base em treino

Figura 12. Losango no corredor lateral em treino

Figura 6. Exercício ligação entrelinhas e profundidade

EXERCÍCIO 5

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

Saída pelo GR para DC, trabalhar primeira

etapa de modo a desorganizar oposição e ligar

entrelinhas no 10 (GR+6x5). Após ligar com o

10 atacar linha defensiva adversária (6x4+GR)

Figura 9. Posicionamento base em jogo

CONSTRUÇÃO A TRÊS

(1ª ETAPA):

MC a entrar fora e a criar linha de 3, LAT’s bem

projetados, MC trabalha atrás da 1ª linha de

pressão adversária e linhas de passe interiores.

Figura 13. Losango no corredor lateral em jogo

SAÍDA LONGA PELO LATERAL

(1ª ETAPA):

Com pressão alta e lateral com espaço, bola

longa no lateral.

Figura 10. Construção a 3 em treino

Figura 14. Saída longa pelo lateral em treino

Figura 7. Exercício ligação entrelinhas com o 10

TREINO VS JOGO

Após o planeamento é importante conduzir

o treino para os comportamentos que

pretendemos, de modo a que possamos

reproduzir no treino o que desejamos ver no jogo

e em função dos princípios concetuais. Assim

sendo, é importante analisar os comportamentos

coletivos no treino de modo a perceber se os

exercícios tiveram os efeitos idealizados.

Figura 11. Construção a 3 em jogo

Figura 15. Saída longa pelo lateral em jogo

FPF360 65


SAÍDA LONGA PELO 10

(1ª ETAPA):

MC baixa atraindo adversário e criando

espaço para a bola entrar longa no 10.

CRIAÇÃO DE JOGO

INTERIOR PELOS EXTREMOS E 10

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

EXT’s e 10 a procurar espaço entrelinhas para

ligar as etapas do processo ofensivo.

LIGAÇÃO FORA-DENTRO

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

Atração do adversário ao CL permitindo

que se criem espaços por dentro, EXT lado

contrário a receber.

Figura 16. Saída longa pelo 10 em treino

Figura 20. Ligação interior em treino

Figura 24. Ligação fora-dentro em treino

Figura 17. Saída longa pelo 10 em jogo

TRIÂNGULO NO CORREDOR LATERAL

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

Criação de triângulos para criar linhas

de passe ou, como neste caso, para o

aparecimento do terceiro homem.

Figura 21. Ligação interior em jogo

LIGAÇÃO EXTERIOR

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

Oposição atraída dentro, espaço para LAT

receber no CL sem oposição e progredir. Mais

uma vez é possível identificar o losango no CL.

Figura 25. Ligação fora-dentro em jogo

LIGAÇÃO À PROFUNDIDADE

(LIGAÇÃO 1ª-2ª ETAPA):

EXT a atacar profundidade.

Figura 18. Triângulo corredor lateral em treino

Figura 22. Ligação exterior em treino

Figura 26. Ligação à profundidade em treino

Figura 19. Triângulo corredor lateral em jogo

Figura 23. Ligação exterior em jogo

Figura 27. Ligação à profundidade em jogo

66

FPF360


CONCLUSÕES

Através da elaboração do presente trabalho

tive a possibilidade de realizar uma reflexão

e um estudo profundo acerca do processo

ofensivo e, mais especificamente, da primeira

etapa de construção desse mesmo processo.

Foi-me possível perceber que existe muita

bibliografia relacionada com o futebol e

referente ao modelo de jogo e ao processo

ofensivo. Contudo, a literatura acerca da

primeira etapa de construção é diminuta.

Na realização deste trabalho expus parte

das minhas ideias, princípios e modo de

operacionalizar toda a conceção teórica.

Procurei demonstrar o processo realizado no

desempenho da minha profissão, mostrando

a ligação entre o planeamento, o treino e o

rendimento competitivo, sempre tendo em

consideração que tudo o que é feito tem como

objetivo a competição. Foi extremamente

positivo identificar os comportamentos

coletivos idealizados em competição.

Por fim, resta salientar a importância

do estudo, da pesquisa e da reflexão no

desempenho desta atividade profissional.

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GARGANTA, J.; PINTO, J. O ensino do

futebol. In: A. Graça e J. Oliveira (Ed.). O

ensino dos jogos desportivos. Faculdade de

DO MEU PONTO DE VISTA,

PARA UMA EQUIPA

CONSEGUIR TER UMA

PRIMEIRA ETAPA DE

CONSTRUÇÃO SEGURA E

EFICAZ, É FUNDAMENTAL

TER UM CONJUNTO DE

ATLETAS EVOLUÍDOS

TECNICAMENTE, COM

CONHECIMENTO DO JOGO E

MENTALMENTE DISPOSTOS

A ASSUMIR A INICIATIVA

DESDE TRÁS

QUANDO O ADVERSÁRIO

NÃO PERMITIR SAIR

CURTO, DEVEMOS SER

CAPAZES DE ENCONTRAR

SOLUÇÕES PARA LIGAR O

JOGO DE FORMA LONGA.

PARA ESTA ALTERNATIVA

NA PRIMEIRA ETAPA DE

CONSTRUÇÃO PROCURO

MANTER O MESMO

POSICIONAMENTO DA

SAÍDA CURTA, OU SEJA,

MANTENDO A EQUIPA

ABERTA. ESTE PRINCÍPIO

TEM COMO OBJETIVO

MANTER A ESTRUTURA

ADVERSÁRIA LONGA, DE

MODO A QUE POSSAM

SURGIR ESPAÇOS PARA

FICARMOS COM A POSSE

DE BOLA ATRAVÉS DA

BOLA LONGA

Ciências do Desporto e de Educação Física da

Universidade do Porto: Rainho & Neves Lda,

v.1, 1994, p.95-136.

Garganta, J. (1997). Modelação táctica do

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FPF360 67


68

FPF360


TIAGO SOUSA //

TREINADOR-ADJUNTO AL TAAWOUN FC (1L – ARÁBIA S.) – 2019

TREINADOR-ADJUNTO GD CHAVES (1L) - 2018/19

Nota introdutória por António Natal Rebelo – Formador FPF

A utilização generalizada de jogos reduzidos enquanto exercício de treino de futebol não é recente. De

facto, face à adesão dos jogadores a este tipo de exercícios e à sua especificidade, os jogos reduzidos

são um meio de treino utilizado na preparação de futebolistas em todo o mundo, independentemente

dos níveis de formação e de rendimento. Neste trabalho, Tiago Sousa aponta as razões da relevância

deste meio de treino apresentando alguns exemplos ilustrativos dos exercícios que privilegia na sua

prática de treino.

OS JOGOS REDUZIDOS

NO TREINO DE FUTEBOL

1. INTRODUÇÃO

A relevância e pertinência dos jogos reduzidos

fica patente desde logo por constar das

diretrizes para o estudo e prática do futebol

na Europa. A FIFA, através do seu programa

FIFA GRASSROOTS 1 , publicou um guia dos

jogos reduzidos onde apresenta alguns dados

com bastante relevância, como por exemplo,

“...os jogadores encontram-se três vezes mais

em situações de 1 contra 1, no futebol de 4,

e duas vezes mais, no futebol de 7, quando

comparados com o futebol de 11...”.

Os jogos reduzidos (JR) são modificados

e jogados em áreas reduzidas, com regras

adaptadas e envolvendo um número

menor de jogadores do que se verifica no

jogo formal. Estes exercícios evoluíram

dos jogos informais não-estruturados do

Futebol de “rua” e são hoje uma base para a

aprendizagem e compreensão do Jogo.

Um dos grandes vetores positivos dos JR é

que eles estão potencialmente preparados

para replicar os movimentos, a intensidade

fisiológica, a exigência física e os requisitos

técnicos do jogo competitivo, exigindo ao

mesmo tempo que os atletas tomem decisões

sob pressão e fadiga (Gabbett & Mulvey, 2008).

A realização dos JR também tem sido

sugerida para facilitar o desenvolvimento

das habilidades técnicas e do conhecimento

tático, dentro do contexto apropriado de um

jogo (Little, 2009).

Segundo Hill-Haas et al., (2011), os JR são

cada vez mais usados como modo alternativo

e eficiente para a preparação física, tanto de

forma genérica como específica, de modo a

treinar padrões de movimentos coletivos,

intensidade fisiológica e execução técnica,

refletindo o jogo competitivo e reduzindo o

volume de treino. Todavia, as vantagens da

utilização de JR depende do modelo de jogo.

Além disso, exige-se uma boa compreensão

das variáveis que influenciam a intensidade do

treino nos JR.

2. O TREINO EM ESPAÇOS

REDUZIDOS: ENQUADRAMENTO

METODOLÓGICO

Os JR são implementados num ambiente

mais aberto e aleatório do que os métodos

tradicionais de treino das capacidades

motoras pelo facto de os movimentos durante

esses jogos serem resultado de um contexto

aleatório do jogo e de difícil controlo,

existindo a possibilidade de variabilidade

na intensidade do exercício entre jogadores

(variabilidade interindividual), questionando-

1

O programa de investigação e práticas FIFA GRASSROOTS pode ser consultado em: https://grassroots.fifa.com/en/for-coach-educators/technical-elements-for-grassrootseducation/small-sided-games/introduction.html

FPF360 69


ESTA ANÁLISE AOS JR,

ATRAVÉS DO QUE SE

TEM ENCONTRADO NA

INVESTIGAÇÃO, ASSUME

A DIMENSÃO FÍSICA COMO

EPICENTRO. CONTUDO,

A ANÁLISE PROFUNDA

AOS EXERCÍCIOS

REALIZADOS COM UM

NÚMERO E UM ESPAÇO

REDUZIDO DE JOGADORES

INDICAM-NOS QUE

PODEMOS INDUZIR COM

ELES (I) COMPORTAMENTOS

PARCELARES DA DINÂMICA

COLETIVA E MAIS

COMPLEXA DO JOGAR

DA EQUIPA;

(II) UM MELHOR

DESEMPENHO DE

PEQUENOS GRUPOS

QUE FREQUENTEMENTE

INTERAGEM ENTRE SI

NA DINÂMICA COLETIVA;

(III) UMA EXIGÊNCIA

NEUROMUSCULAR COM

POTENCIAL

PARA ALCANÇAR ELEVADA

TENSÃO MUSCULAR,

ELEVADA VELOCIDADE

DE CONTRAÇÃO MUSCULAR

E ELEVADA CAPACIDADE

DE DECISÃO QUE,

POR ESSE FACTO,

NÃO DEVERÁ INCLUIR

EXERCÍCIOS DE GRANDE

DURAÇÃO

se se o estímulo do treino de jogos reduzidos

é suficientemente confiável para oferecer

uma alternativa aos métodos tradicionais (e

analíticos) do treino físico (Pires, 2011).

Rampinini et al, (2007) demonstraram que

a variabilidade das medidas de intensidade

do exercício, como a Frequência Cardíaca

(FC), a concentração de lactato e a Perceção

Subjetiva do Esforço (PSE) era menor em JR

com formatos mais pequenos (por exemplo,

3x3), sendo os mesmos organizados em

séries. Adicionalmente, foi observado que a

variabilidade da FC entre sessões de treino

era mais baixa nos JR do que em exercícios

de outro formato. Além disso, a variabilidade

aumentava à medida que o número de

jogadores também crescia. A resposta

fisiológica mais variável foi encontrada nas

concentrações de lactato, com tendência para

apresentar uma maior variabilidade à medida

que o terreno de jogo era aumentado.

Esta análise aos JR, através do que se tem

encontrado na investigação, assume a

dimensão física como epicentro. Contudo, a

análise profunda aos exercícios realizados com

um número e um espaço reduzido de jogadores

indicam-nos que podemos induzir com eles

(i) comportamentos parcelares da dinâmica

coletiva e mais complexa do jogar da equipa;

(ii) um melhor desempenho de pequenos

grupos que frequentemente interagem entre

si na dinâmica coletiva; (iii) uma exigência

neuromuscular com potencial para alcançar

elevada tensão muscular, elevada velocidade

de contração muscular e elevada capacidade de

decisão que, por esse facto, não deverá incluir

exercícios de grande duração.

Neste sentido, Oliveira et al. (2006)

consideram que estes exercícios deverão fazer

parte da sessão de treino que temporalmente

se afasta mais de dois jogos consecutivos.

A justificação apresentada pelos autores

encontra suporte na quantidade elevada de

trabalho neuromuscular de alta intensidade,

com predominância de ações motoras curtas

e na elevada quantidade de trabalho com

muita exigência no que respeita a contrações

excêntricas. Configuram este tipo de

exigência as ações específicas de: mudar de

direção, acelerar/travar/acelerar, saltar, cair/

levantar, duelos corpo-corpo, deslocamentos

laterais (Williams & Owen, 2007).

De forma semelhante à corrida intervalada,

existem muitas outras variáveis prescritivas

dos JR que podem induzir a uma alteração da

intensidade de esforço dos mesmos. A duração

de cada jogo, alternada com os períodos de

descanso, é usada de forma a determinar os

períodos de trabalho: rácio de descanso.

Embora a maioria dos estudos acerca dos JR

sejam prescritos com intervalos de descanso

curtos, alguns estudos mais recentes têm

usado JR em que a duração desse mesmo

descanso é variável.

Num estudo realizado com jogadores jovens,

foram analisadas as respostas fisiológicas e

percetivas, bem como as características dos

deslocamentos em dois tipos de exercício

(contínuo e intermitente). O exercício

intermitente consistiu em 4 séries de 6 min

com 1,5 min de descanso ativo, e o exercício

contínuo em 24 min, sob a forma de JR do tipo

2x2; 4x4 e 6x6 (Hill-Haas, Rowsell, Coutts

& Dawson, 2008). Neste estudo verificouse

que o treino em regime intermitente foi

caracterizado por um aumento de distância

a velocidades superiores a 13km-h -1. No

entanto, paradoxalmente, a PSE geral e a

FC mostraram ser significativamente mais

altas no regime de treino contínuo. Segundo

os autores do estudo, ambos os regimes de

treino com JR poderiam ser usados durante

a época desportiva para treino de aeróbio,

embora não suscetíveis de proporcionar

sobrecarga no desenvolvimento do consumo

máximo de oxigénio. A pesquisa mostrou

ainda que nenhum dos regimes de treino

oferecia vantagem e que ambos os regimes

poderiam ser usados na temporada como

meio de treino para a manutenção da aptidão

aeróbia (Pires, 2011). Contudo, esta análise

centrou-se apenas nos aspetos bionergéticos

do treino e não nas suas exigências

neuromusculares. É, portanto, uma análise

muito pouco consciente da pluralidade que

este tipo de exercícios acarreta, porquanto

omite uma análise à dimensão força no

que às capacidades motoras diz respeito.

Assim, considerando pertinente conhecer

a resposta fisiológica que é desencadeada

pelas diferentes configurações dos JR,

existe a necessidade de se realizar uma

análise ainda mais profunda e abrangente,

considerando a dimensão relacional que

estes jogos promovem. Aspetos relacionados

com a interpretação coletiva do jogo e com a

execução técnica, em correspondência com a

adequabilidade às soluções do jogo e aspetos

relacionados com a gestão emocional do

mesmo, deveriam também ser equacionadas

na análise destes exercícios de treino.

3. JOGOS REDUZIDOS:

OBJETIVOS, CONDICIONANTES

E COMPONENTES ESTRUTURAIS

No que toca à organização dos JR, os

treinadores deverão ter em conta as suas

implicações, já que poderão ter potencial

para influenciar a motivação dos jogadores

e a intensidade de esforço associada. Por

exemplo, o número de jogadores, incluindo os

guarda-redes, a participar em qualquer sessão

70

FPF360


de treino, irá determinar o número de equipas

a constituir para os JR, bem como o tipo de

jogo a ser implementado, principalmente

se estiver em causa o equilíbrio de equipas

(Little, 2009). Na prática, os treinadores

gostam de criar “estruturas competitivas”

para todas as equipas na mesma sessão

jogarem entre si em número igual de vezes.

Os JR, ao dar ênfase ao resultado do jogo,

implicam o aumento dos níveis de motivação e

de competitividade. É bem possível que o uso

excessivo de formas competitivas possa resultar

num treino inadequado, logo, num estímulo de

treino de qualidade inferior. Caso aconteça com

frequência, poderá comprometer as adaptações

ao treino a longo prazo. Portanto, os treinadores

deverão selecionar e planear de forma cuidada

todos os treinos de JR e estarem conscientes

de que nem sempre fornecerão as adaptações

fisiológicas desejadas (Pires, 2011). Assim, os

JR devem ser planeados de forma a atender aos

requisitos físicos, técnicos e táticos da equipa,

ser acompanhados de feedback adequado e

realizados sobre dimensões do campo, número

de jogadores, função de jogadores, regras, e

relações trabalho-repouso criteriosamente

selecionadas.

3.1 OBJETIVOS

› Desenvolver ações tático-técnicas e táticoestratégicas

em função do modelo de jogo da

equipa.

› Desenvolver comportamentos grupais ou

de setores que configurem ações específicas

do modelo de jogo (exemplo: criação de

triângulos no corredor lateral entre o defesalateral,

o médio e o ala; criação de losango

entre o médio, os dois alas e o ponta de lança).

› Promover a realização de ações musculares

específicas do jogo: elevada potência muscular,

baixa duração e alta velocidade das ações.

› Fomentar a melhoria da força específica

através de movimentos característicos do

futebol, com elevada predominância desta

capacidade motora.

3.2 CONDICIONANTES ESTRUTURAIS

› Nº de jogadores: 1 a 7 com a presença ou

não de guarda-redes (GR). Podem ainda ser

contemplados jogadores-apoio (externos ou

internos).

› Espaço: desde 25m 2 (5x5m) até meio-campo

(definido pelas linhas laterais da grande área,

pela linha de baliza e pela linha de meiocampo).

› Balizas: Poderá não se utilizar nenhuma

baliza ou utilizarem-se balizas de

diferentes formatos no mesmo exercício

(regulamentares de futebol de 11 ou com

dimensões de 120x60 cm).

› Nº de equipas: de duelos individuais (1x1) a 2

equipas.

› Limite de toques: desde jogos a 1 toque,

passando por alternância de número de

toques em função de ações e de localizações

específicas, até jogos sem restrição do número

de toques.

3.3 COMPONENTES ESTRUTURAIS

› Duração do exercício: de 45 segundos a 5-6

minutos.

› Duração do repouso: desde 45 segundos; até

relações de 1:5/1:7 entre a duração do exercício

e do repouso (principalmente quando o

exercício passa por uma configurações do tipo

de 1x1 ou 2x2).

› Duração total do exercício: entre 10 a 15

minutos (mínimo) até 30 a 35 minutos

(máximo)

› Volume total do treino: podemos configurar

uma sessão completa com este tipo de

exercícios; de 45-50 a 75-80 minutos.

4. JOGOS REDUZIDOS

E MODELO DE JOGO

Os exercícios para os diferentes momentos

do jogo podem apresentar uma enorme

variedade, mas sempre incluídos nas

categorias exercícios específicos de preparação

geral e exercícios específicos de preparação.

Passarei a apresentar alguns JR que me

parecem contribuir para uma determinada

forma de jogar. Tentarei relacionar o exemplo

prático de JR com o objetivo pretendido.

4.1 ORGANIZAÇÃO OFENSIVA

Para este momento, poderemos conceber

inúmeros JR. Podemos recorrer a exercícios

de finalização, de manutenção da posse da

bola, de criação de dinâmica interior/exterior

no corredor lateral ou de jogo posicional com

e sem bola.

NO QUE TOCA

À ORGANIZAÇÃO

DOS JR, OS TREINADORES

DEVERÃO TER EM CONTA

AS SUAS IMPLICAÇÕES,

JÁ QUE PODERÃO

TER POTENCIAL PARA

INFLUENCIAR A MOTIVAÇÃO

DOS JOGADORES E A

INTENSIDADE DE ESFORÇO

ASSOCIADA. POR EXEMPLO,

O NÚMERO DE JOGADORES,

INCLUINDO OS GUARDA-

REDES, A PARTICIPAR

EM QUALQUER SESSÃO

DE TREINO, IRÁ

DETERMINAR O NÚMERO

DE EQUIPAS A CONSTITUIR

PARA OS JR, BEM COMO O

TIPO DE JOGO

A SER IMPLEMENTADO,

PRINCIPALMENTE SE

ESTIVER EM CAUSA O

EQUILÍBRIO DE EQUIPAS

(LITTLE, 2009). NA PRÁTICA,

OS TREINADORES GOSTAM

DE CRIAR “ESTRUTURAS

COMPETITIVAS” PARA

TODAS AS EQUIPAS NA

MESMA SESSÃO JOGAREM

ENTRE SI EM NÚMERO

IGUAL DE VEZES

FPF360 71


Exemplo 1

JR nos três corredores de jogo, com especificidades

nas laterais diferentes das do corredor

central. A equipa que ataca (3: lateral-médio-

-ala), depois de conseguir alcançar a linha vermelha

ataca a baliza grande, juntamente com

o ponta de lança e o ala contrário. No caso

de perda da bola, a equipa defende as duas

mini-balizas. Pretendemos que sejam criados

triângulos no corredor, preferencialmente

com o lateral por dentro e o ala na largura, podendo

o médio definir a profundidade interior

do triângulo. No corredor central, pretendemos

criar a dinâmica com bola através de

movimentos cruzados dos dois médios e do

movimento de aproximação do ponta de lança

para o lado do médio mais recuado. Aqui,

podem atacar de imediato a baliza, mas os dois

alas só podem entrar depois da bola passar

a linha vermelha; no caso de perda da bola,

defendem a baliza que está no meio-campo.

O exercício pode evoluir para uma junção dos

jogos parciais. Habitualmente, desenvolve-se

em 3 séries, com 3 repetições de 1 minuto em

cada corredor.

72

FPF360


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FPF360 73


Exemplo 2

Exercício de manutenção da posse de bola

com saída para finalização. Este exercício é

realizado em diferentes partes do meio-campo

(atrás e à frente da linha de meio-campo).

Os jogadores que fazem manutenção da

bola variam consoante a zona. O objetivo é

conseguir manter a posse da bola (entre 6 a 8

passes) com o objetivo de atrair o adversário

e, após o conseguirem, desenvolver o ataque

pelo lado contrário. No caso de ocorrer no

corredor central, o ataque deve desenvolver-

-se por um dos corredores laterais. Trata-se

de um exercício que é repetido 9 a 12 vezes em

duas séries.

A equipa adversária defende o espaço reduzido

e segue para a defesa da baliza fixa. Se esta

equipa conquistar a bola, deve procurar passar

a linha mais afastada da sua baliza no quadrado

onde a recuperou.

74

FPF360


4.2 TRANSIÇÃO ATAQUE-DEFESA

Exemplo 1

Exercício de reação forte à perda da bola com

iniciativa de pressão do trio que a perdeu.

Quatro equipas de 3 jogadores com um dos

trios no meio a defender. O objetivo consiste

em, após perda da bola, voltar a recuperá-la

ou provocar erro dos trios em posse até ao

sexto passe. Se até lá tal não for conseguido,

a equipa com bola conquista um ponto e o

treinador colocar uma nova bola. Se a equipa

que defende recuperar a bola, invertem-se os

papéis, com o trio que a recuperou a procurar

manter a bola. Jogo a 1 toque; 3 a 4 períodos de

2min e 30seg a 3 min. Intervalos de recuperação

de 45 seg até 1 min e 30 seg.

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4.3 ORGANIZAÇÃO DEFENSIVA

Exemplo 1

Situações de jogo gr+1x1+gr, gr+2x2+gr ou de

gr+3x3+gr. Estes exercícios são realizados sob

duas balizas formais, num espaço que pode ir

dos 20x15m até aos 30x20m. São realizadas 2-3

repetições em períodos de 45-90 segundos.

A densidade pode variar entre 1:9 até 1:4/1:3.

O foco deve incidir na parte defensiva, com

valorização do trabalho da equipa que sofre

menos golos. Por exemplo, a equipa/trio/

dupla que sofre mais golos contribui com

1€ para a “caixinha”. Pretendemos com isto

suscitar uma atitude defensiva agressiva,

com constante anulação de possibilidades de

remate e com definição e desenvolvimento

de coberturas, em caso de necessidade/oportunidade.

Pretende-se um posicionamento

individual que contribua para uma diminuição

da possibilidade de sucesso do atacante,

pela orientação do corpo, pela colocação dos

apoios, pelo posicionamento relativamente

à baliza, pela articulação com o guarda-redes

e pela perceção das trajetórias da bola em

função dos ângulos de remate.

76

FPF360


Exemplo 2

Também aqui é frequente realizarmos exercícios

que recorram a entendimentos entre

o setor defensivo, no que toca a tempos de

saídas na pressão e à definição da linha de

cobertura pelos outros elementos. Para isso,

é frequente realizarmos um exercício de (4+2)

x(4+2) para o setor defensivo, num espaço

de 30x30m. Realizamos 4 a 6 repetições de 1

minuto e 30 segundos a 2 minutos, com pausas

de 30 a 60 segundos, consoante o período

da época e o estado do jogadores. O objetivo

é que consigam impedir qualquer passe da

outra equipa pelo meio da linha defensiva. Na

impossibilidade de garantir esse objetivo, a

intenção é que consigam impedir o golo numa

das balizas pequenas através de um jogador da

cobertura.

FPF360 77


4.4 TRANSIÇÃO DEFESA-ATAQUE

Exemplo 1

Exercício de recuperação da posse de bola

com procura rápida de saída da zona de pressão.

Mais do que atacar rápido, pretendemos

assegurar que a bola fica na nossa posse. Para

isso, precisamos de procurar rapidamente o

jogador que está em melhores condições para

garantir esse desiderato. Trata-se de um jogo

reduzido de 6x3, com a equipa em inferioridade

numérica a tenta recuperar a bola; assim

que o consiga, esta equipa tenta fazer chegá-la

ao outro quadrado através dos dois apoios

externos que asseguram uma linha de passe

em largura sem pressão. São necessários dois

quadrados de 10 a 15m de largura. Realizam-se

3 a 5 repetições de 2min e 30seg a 3min e 30seg.

Se o trio que está a tentar recuperar a bola não

o fizer num período prolongado, o treinador

troca de trio. Ganha a equipa que mais vezes

tenha recuperado a bola, passando-a pelo

apoio e recebendo-a no outro quadrado.

78

FPF360


FPF360 79


5. A AVALIAÇÃO ATRAVÉS

DOS JOGOS REDUZIDOS

5.1 A DIMENSÃO FÍSICA

E FISIOLÓGICA

Os JR começaram por ser utilizados com o

intuito de avaliação de parâmetros físicos e fisiológicos

(Hill-Haas, Coutts, Rowsell, & Dawson,

2008; Rampinini et al., 2007). Parâmetros

como a frequência cardíaca e a concentração

de lactato são frequentemente estudados, bem

como a perceção subjetiva do esforço. Existem

também estudos que utilizaram o GPS como

forma de quantificar as carateristicas dos movimentos

dos jogadores (time-motion) (Carling,

Bloomfield, Nelsen & Reilly, 2008). Atualmente,

é muito frequente assistirmos à utilização

de JR como meio de avaliação da aptidão dos jogadores

noutras componentes do rendimento,

porquanto eles representam uma aproximação

ao contexto real de jogo.

Comparando com os testes físicos tradicionais,

os JR conquistam uma maior adesão e motivação

dos jogadores, pela sua proximidade formal

com o jogo de futebol (Gregson & Drust, 2000;

Little, 2009). Adicionalmente, os JR são considerados

muito eficazes para o aumento do

desempenho físico e tático-técnico.

De entre os diferentes protocolos que vão

surgindo na literatura, na nossa prática de

treino utilizámos com regularidade o jogo

4x4, com balizas de pequenas, sem a presença

do guarda-redes. Este exercício decorre

após um período de ativação inicial de 15min

e desenvolve-se depois em 4 repetições de

4min, com 3min de repouso entre repetições.

A sessão tem uma duração média de 45min. O

espaço de jogo utilizado é de 40m de comprimento

por 30me de largura, proporcionando

uma área total de 120m2 por cada jogador.

Habitualmente, dispomos dois campos paralelos

para que existam, em simultâneo, dois

locais de avaliação. Contudo, são necessários

vários treinadores e material suficiente (bolas

e balizas pequenas). Os técnicos posicionados

na periferia do campo são responsáveis por

dar informação a uma equipa e por assegurar

uma rápida reposição de bolas. Um elemento

do staff fica responsável por garantir que na

periferia dos campos existem sempre bolas

disponíveis. A ação do treinador deve contribuir

para uma participação intensa do jogador

durante o jogo. Segundo Rampinnini et al.,

(2007), a variabilidade da intensidade do

exercício em JR é reduzida quando o treinador

incentiva os jogadores durante os mesmos.

Podemos configurar estes 4 jogos em sistema

competitivo/torneio.

COMPARANDO COM

OS TESTES FÍSICOS

TRADICIONAIS, OS JR

CONQUISTAM UMA MAIOR

ADESÃO E MOTIVAÇÃO

DOS JOGADORES, PELA

SUA PROXIMIDADE

FORMAL COM O JOGO DE

FUTEBOL (GREGSON &

DRUST, 2000; LITTLE, 2009).

ADICIONALMENTE, OS JR

SÃO CONSIDERADOS MUITO

EFICAZES PARA O AUMENTO

DO DESEMPENHO FÍSICO E

TÁTICO-TÉCNICO

80

FPF360


Durante os JR, os jogadores utilizam cardiofrequencímetros

e os aparelhos de GPS. Mediante

os recursos humanos disponíveis, é possível

recolher in loco estes dados exigindo-se, para

isso, um elemento especialista da área da

avaliação, um computador e os instrumentos

associados à avaliação destes parâmetros.

Hill-Haas et al. (2008) examinaram a reprodutibilidade

(inter- e intra-sessões) dos perfis de

time-motion em dois formatos diferentes de

jogos reduzidos (2x2 e 4x4) e em dois regimes

de treino (intervalado e contínuo). Os autores

concluíram que a distância percorrida a velocidades

mais baixas (<18 Km/h) apresentava

um alto nível de reprodutibilidade e que as

distâncias percorridas a velocidades mais elevadas

(>18 Km/h) variavam substancialmente

entre as sessões de treino.

5.2 A DIMENSÃO TÁTICO-TÉCNICA

A possibilidade de avaliação de comportamentos

dos jogadores representa uma

mais-valia dos jogos reduzidos. De acordo

com o que pretendemos para a nossa equipa,

enquanto treinadores, podemos configurar

uma matriz de avaliação de comportamentos

e aferir sobre a tomada de decisão, a eficiência

da execução tático-técnica, entre outros

parâmetros. Neste sentido, a utilização do

instrumento Game Performance Assessment

Instrument (GPAI – Oslim et al., 1998)

poderá facultar-nos a sistematização dessa

observação e um maior conhecimento sobre

a nossa equipa. A operacionalização deste

instrumento requer a gravação completa em

vídeo da sessão de avaliação, que possibilitará

mais tarde a quantificação dos parâmetros de

avaliação e o cálculo dos índices de sucesso.

Este instrumento permite ainda a aferição da

performance global em jogo.

6. CONCLUSÕES

Segundo a FIFA, os JR constituem-se como

uma forma a utilizar no ensino de futebol.

Este exercício permite decompor a complexidade

do jogo em situações mais simplificadas,

facilitadoras da aprendizagem.

Do ponto de vista da operacionalização metodológica

do treino do Futebol, crê-se que em

determinadas sessões de trabalho a utilização

de JR pode contribuir de forma decisiva para

a construção de uma identidade coletiva da

equipa. Deste modo, surge como natural a

utilização massiva deste exercício no treino

de futebol, independentemente do nível de

desempenho.

Sabe-se, pela investigação, que a variação das

condicionantes dos JR implicam repercussões

musculares diferenciadas, tornando-os potencialmente

capazes de provocar adaptações

específicas para o jogo de futebol.

DO PONTO DE VISTA

DA OPERACIONALIZAÇÃO

METODOLÓGICA DO TREINO

DO FUTEBOL, CRÊ-SE

QUE EM DETERMINADAS

SESSÕES DE TRABALHO A

UTILIZAÇÃO DE JR PODE

CONTRIBUIR

DE FORMA DECISIVA

PARA A CONSTRUÇÃO DE

UMA IDENTIDADE COLETIVA

DA EQUIPA. DESTE MODO,

SURGE COMO NATURAL

A UTILIZAÇÃO MASSIVA

DESTE EXERCÍCIO NO

TREINO DE FUTEBOL,

INDEPENDENTEMENTE

DO NÍVEL DE DESEMPENHO

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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The role of motion analysis in elite soccer.

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FPF360 81


82

FPF360


PEDRO REBOCHO //

TREINADOR-ADJUNTO AL-SADD SC (1L – QATAR) - 2016/19

TREINADOR-ADJUNTO ZAMALEK SC (1L – EGIPTO) - 2014/16

Nota introdutória por António Natal Rebelo – Formador FPF

Ao longo das últimas décadas temos vindo a assistir a um aumento substancial do número de jogos

realizados pelo futebolista em cada época desportiva. Adicionalmente, foi cientificamente demonstrado

um aumento da intensidade do jogo de futebol nas últimas décadas. Deste modo, a recuperação do

futebolista após a carga que lhe é imposta pelos treinos e jogos assume-se como uma componente

central da sua preparação. É neste enquadramento que o autor do presente trabalho nos apresenta e

analisa diferentes meios e estratégias de recuperação muito utilizados hoje em dia, em particular no

contexto do futebol de alto nível.

RECUPERAÇÃO FISIOLÓGICA E PSÍQUICA

DOS JOGADORES DE FUTEBOL

MEIOS E ESTRATÉGIAS

INTRODUÇÃO

Os jogadores de futebol têm vindo a ser sujeitos

a um crescente número de jogos e a um aumento

da carga por eles imposta. Por exemplo, temos

vindo a assistir a um aumento das exigências

neuromusculares no jogo, quando avaliadas

pelo número de corridas de alta intensidade e

das ações de aceleração/desaceleração (Reilly &

Ekblom, 2005; Barnes, et al., 2014; Bush et al., 2014;

Cit., Silva, et al., 2017).

O futebol envolve muitas atividades

fisicamente exigentes, incluindo sprints,

mudanças de velocidade, mudanças de

direção, saltos e desarmes, bem como ações

técnicas de drible, remate e passe. Estas

atividades originam fadiga, sendo esta

agravada por fatores como a desidratação

e a depleção do glicogénio (Nédélec, et. al.,

2012). Alterações neuro-mecânicas (e.g.

diminuição da capacidade de produção de

força e potência), comprometimento do

desempenho físico (e.g. capacidade de sprint)

e perturbações bioquímicas (e.g. aumento

das concentrações de creatina quinase)

são frequentemente relatadas no período

pós-jogo (Russell, et al., 2016; Magalhães, et al.

2010; Cit., Silva, et al., 2017). À medida que o

trabalho muscular se repete, o recrutamento

de neurónios motores diminui abaixo do nível

necessário para se produzir força máxima.

Nestas circunstâncias, o córtex motor

desempenha também um papel importante no

processo de instalação de fadiga (Bishop et.

al, 2008).

No futebol de elite, os jogadores são

frequentemente obrigados a jogar partidas

intercaladas por 3 dias, período que se pode

revelar insuficiente para que a recuperação

completa da performance física seja alcançada.

No decorrer de períodos competitivos

congestionados, as estratégias de recuperação

assumem maior relevo, de forma a que

o jogador recupere a sua capacidade de

desempenho e o risco de lesões seja atenuado

(Nédélec, et. al., 2012). Neste contexto, o

Comité Olímpico Internacional defende que

os jogos de futebol devem ser intercalados

pelo menos por 96 horas, de forma a proteger

os jogadores de lesões (Soligard, et al., 2016;

Schwellnus, et al., 2016; Cit., Silva, et al., 2017).

Os subsistemas cardiovascular, endócrino

e muscular estão fortemente envolvidos no

período de recuperação após o exercício (Foster,

1998; Kuipers, 1998; Lehmann et al., 1997; Dickult

et al., 1998; Norris & Smith, 2000; Viru & Viru,

1999; cit. Kellmann, 2002). Estudos de revisão

nesta temática têm sugerido que estratégias de

recuperação, como a massagem, a imersão em

água fria, o uso de roupas de compressão, entre

outras, podem ajudar a diminuir as alterações

fisiológicas e/ou psicológicas que acompanham

a fadiga após o exercício (Marques-Jimenez, et al.,

2016; Leeder, et al., 2012; Cit., Silva, et al., 2017).

FPF360 83


MEIOS E ESTRATÉGIAS

DE RECUPERAÇÃO EM FUTEBOL

Tem sido afirmado que a recuperação do

organismo após exercício de grande magnitude

é um processo lento e que depende da carga

a que foi sujeito. A curva da recuperação, que

representa a capacidade do corpo em readquirir

o equilíbrio, não é linear (Bompa, 2001; Cit.,

Silva, 2007). Para Bompa (2001; Cit., Silva,

2007) 70% do processo de recuperação ocorre

no primeiro terço de tempo necessário para essa

mesma recuperação; 20% no segundo terço e

10% no terceiro terço (Fig.1). Segundo Platonov,

citado por Castelo (2002), estima-se que a curva

de recuperação é assegurada em 60%, 30% e

10%, no primeiro, segundo e terceiro terços,

respetivamente (Silva, 2007). Fica evidente

que, para ambos os autores, o primeiro terço do

período de recuperação é o mais importante.

100%

Nível de Força

0%

Fig.1: A Dinâmica da curva de recuperação, Bompa (2001); Cit., Silva, J., 2007

84

FPF360


Neste trabalho, serão abordados meios e estratégias

de recuperação fisiológica e psíquica

que podem ser adotados logo após o final de

uma partida de futebol, para que se possa dar

primazia então ao primeiro terço do período

de recuperação. A reidratação, a imersão em

água fria, a utilização de roupas de compressão,

a nutrição e o sono (Fig.2) serão temas

abordados.

Fim do

Jogo

Reidratação

Imersão em Água Fria

Sono Nutrição Roupas de Compressão

Fig.2: Sequência de Estratégias e Meios de Recuperação Pós-Jogo

FPF360 85


APÓS O JOGO,

OS JOGADORES

COSTUMAM SENTIR SEDE,

O QUE OS LEVA A CONSUMIR

A BEBIDA QUE ESTIVER

DISPONÍVEL NO BALNEÁRIO.

PORTANTO, OS ELEMENTOS

DO CLUBE RESPONSÁVEIS

PELA RECUPERAÇÃO

DOS JOGADORES DEVEM

TRABALHAR NO SENTIDO

DE FORNECER A BEBIDA

MAIS APROPRIADA

PARA CADA JOGADOR.

PARA ATINGIR ESTE

OBJETIVO, ALGUNS PASSOS

DEVEM SER SEGUIDOS.

PRIMEIRAMENTE, DEVE SER

FORNECIDA UMA BEBIDA

SABOROSA, POIS ESSE

FACTO PODE AJUDAR A

AUMENTAR A INGESTÃO DE

LÍQUIDOS (SAWKA, ET AL.,

2007; CIT., TOMAZOLI, 2018).

EM SEGUNDO LUGAR, DADA

A GRANDE VARIABILIDADE

INTERINDIVIDUAL NA

PERDA DE FLUIDOS, É

IMPORTANTE EXAMINAR

CADA JOGADOR E

MONITORIZAR A PERDA

DE ÁGUA E ELETRÓLITOS

ADEQUADAMENTE (NOSE,

GACK, SHI & NADEL, 1998;

CIT., TOMAZOLI, 2018).

SEGUINDO ESTES PASSOS,

AS CHANCES DE ACELERAR

A REIDRATAÇÃO

DO JOGADOR SÃO

AUMENTADAS

REIDRATAÇÃO

A reposição de líquidos é uma parte

importante da fase de recuperação,

particularmente quando o tempo entre as

partidas é curto. Após o jogo, os déficits

hídricos podem variar de 1,5 a 3,5 L (Bangsbo,

1993; et al., 1998; Cit., Tomazoli, 2018). A

alta variação observada é influenciada por

fatores como as condições ambientais e a

taxa individual de sudação do jogador, entre

outros. A literatura sugere que uma perda

de líquidos através da transpiração de 2%

do peso corporal exige cerca de 6 horas até

que seja totalmente restabelecida. Para

evitar a desidratação e a eventual perda de

desempenho associada, jogadores de futebol

precisam mais do que simplesmente beber

água.

De facto, quando os jogadores bebem apenas

água, a taxa de reidratação é muito menor

quando comparada com a ingestão de uma

bebida contendo sódio (Shirreffs, Sawka, &

Stone, 2006; Cit., Tomazoli, 2018) e hidratos

de carbono (Sawka, et al., 2007; Cit. Tomazoli,

2018). Alternativamente, os jogadores

podem optar por ingerir leite com chocolate.

Adicionar um leite com sabor durante a

fase de reidratação pode ser uma estratégia

eficiente para melhorar a retenção de líquidos

(Desbrow, et al., 2014; Cit., Tomazoli, 2018).

Após o jogo, os jogadores costumam sentir

sede, o que os leva a consumir a bebida que

estiver disponível no balneário. Portanto,

os elementos do clube responsáveis pela

recuperação dos jogadores devem trabalhar

no sentido de fornecer a bebida mais

apropriada para cada jogador. Para atingir este

objetivo, alguns passos devem ser seguidos.

Primeiramente, deve ser fornecida uma

bebida saborosa, pois esse facto pode ajudar a

aumentar a ingestão de líquidos (Sawka, et al.,

2007; Cit., Tomazoli, 2018). Em segundo lugar,

dada a grande variabilidade interindividual

na perda de fluidos, é importante examinar

cada jogador e monitorizar a perda de água

e eletrólitos adequadamente (Nose, Gack,

Shi & Nadel, 1998; Cit., Tomazoli, 2018).

Seguindo estes passos, as chances de acelerar

a reidratação do jogador são aumentadas.

Portanto, imediatamente após o final do jogo, é

conveniente repor os líquidos perdidos através

de bebidas que contenham sódio, hidratos de

carbono e proteínas. Esta estratégia pode ser

implementada com a ingestão de água, bebidas

desportivas e leite com sabor durante as fases

iniciais do processo de recuperação. Durante

esta fase, é importante respeitar as caraterísticas

individuais e agir adequadamente. Uma das

medidas a implementar é pesar os jogadores

antes e depois dos jogos, apesar de a literatura

sugerir que os jogadores de futebol podem

iniciar a partidas com déficit de líquidos (Da

Silva, et al., 2012; Cit., Tomazoli, 2018).

No futuro, importará perceber se existirá

a necessidade de variar a composição das

bebidas a ingerir pelos jogadores, de acordo

com as diferentes posições que estes ocupam

em campo e a carga a elas associada.

IMERSÃO EM ÁGUA FRIA (IAF)

O esforço típico do jogo de futebol mostra

que um jogador necessita de acelerar,

desacelerar e mudar de direção mais de 1.200

vezes numa partida (Stølen, et al., 2005; Cit.,

Tomazoli, 2018). Estes movimentos induzem

dano muscular e afetam o desempenho

dos jogadores durante os dias seguintes

(Clarkson, & Hubal, 2002; Cit., Tomazoli,

2018). Assim, a fim de atenuar esse mesmo

dano muscular após a partida, foi proposto

o uso da IAF (imersão em água fria). O

mecanismo fisiológico que preconiza o seu

uso baseia-se no facto de a imersão em água

fria reduzir a permeabilidade capilar por meio

da vasoconstrição, reduzindo o processo

inflamatório causado pelo dano muscular

(Wilcock, Cronin & Hing, 2006; Cit., Tomazoli,

2018).

É muito comum ver jogadores de futebol

submergidos num recipiente com água

fria após os jogos (Nédélec, et al., 2013;

Cit. Tomazoli, 2018). O objetivo principal

é acelerar a recuperação e estar pronto o

mais rápido possível para a próxima partida

ou sessão de treino. Embora as pesquisas

disponíveis sejam inconclusivas, os efeitos

potenciais do benefício da IAF incluem

melhorias em índices neuromusculares, no

dano muscular e na perceção subjetiva de

fadiga e de dor muscular (De Nardi, et al.,

2011; Ascensão, et al., 2008; Cit., Tomazoli,

2018).

O desempenho no futebol é multifatorial.

Deste modo, não existe uma única medida

capaz de prever o sucesso no jogo. Contudo, no

que aos níveis de força diz respeito, a utilização

da IAF após o jogo atenua os decréscimos

de força no dia seguinte (Ascensão, Leite, &

Rebelo, 2011; Cit., Tomazoli, 2018). Porém,

alguns estudos com jogadores de futebol não

conseguiram associar o uso da IAF pós-jogo

com melhorias no desempenho neuromuscular

(De Nardi, et al., 2011; Shona, 2011; Cit.,

Tomazoli, 2018). Portanto, novos estudos são

necessários para melhor identificar os reais

benefícios da IAF no desempenho de jogadores

de futebol.

Tem sido sugerido que a melhoria da perceção

subjetiva dos níveis de recuperação pode

informar sobre o estado de prontidão do

atleta, o que pode auxiliar no planeamento

dos exercícios subsequentes (De Nardi, et al.,

86

FPF360


2011; Cit., Tomazoli, 2018). Dado o facto de

a fadiga e a recuperação pós-jogo serem de

natureza multifatorial, a perceção subjetiva de

fadiga e de dor muscular têm sido consideradas

importantes medidas de avaliação pelo facto

de informarem de forma holística acerca

do estado de diferentes sistemas orgânicos

(Hooper, & Mackinnon, 1995; Cit., Tomazoli,

2018).

Investigação científica recente tem sugerido

que a perceção de dor muscular e de fadiga é

menor quando se utiliza a IAF em comparação

com a imersão em água termoneutral

(Tomazoli, 2018). Foi também observado que

a IAF supera a imersão em água termoneutral

na redução da perceção da dor muscular tardia

nos adutores do quadril 30 minutos após o jogo

e dos quadríceps às 24 horas (Ascensão, et al.,

2008; Cit., Tomazoli, 2018). Além disso, existe

um conjunto de evidências que demonstram

que o uso de IAF proporciona uma melhoria na

perceção de recuperação, utilizando diferentes

escalas subjetivas (De Nardi, et al., 2011; Cit.,

Tomazoli, 2018), apesar de os mecanismos

subjacentes ainda não estarem devidamente

esclarecidos. A teoria de que melhorias da

perceção subjetiva de recuperação se traduzem

num melhor desempenho na partida seguinte

é muito mais complexa, exigindo, portanto,

investigação científica adicional. Porém, foi

sugerido que os mecanismos subjacentes ao

efeito da IAF estão mais relacionados com a

temperatura da água do que com a pressão

hidrostática, embora o efeito placebo não

possa ser ignorado (Ingram, et al., 2009; Rupp,

Selkow & Parente, 2012; Cit., Tomazoli, 2018).

Deste modo, parece ser importante que os

treinadores eduquem e estimulem os seus

jogadores a acreditarem neste método de

recuperação. Apesar de não haver consenso na

literatura, o protocolo ideal para a utilização da

IAF em jogadores de futebol parece consistir

entre 5 a 15 minutos de imersão a temperaturas

que variem entre 10 e 15 graus centígrados

(Nédélec, et al., 2013; Cit., Tomazoli, 2018). Além

disso, para se beneficiar do tratamento, todo

o corpo deve estar emergido até ao pescoço e

os jogadores devem manter-se na posição de

pé (Higgins, Greene, & Baker, 2016; Ingram et al.,

2009; Cit., Tomazoli, 2018).

Em termos gerais, a IAF tem-se mostrado mais

eficaz do que a recuperação passiva (Leeder, et

al., 2012; Machado, et al., 2016; Cit., Tomazoli,

2018). Em termos de aplicação prática, a

IAF parece ser melhor como estratégia de

recuperação aguda, o que sugere o seu uso

durante os períodos agudos e os que são

congestionados de jogos (Nédélec, et al., 2013;

Cit., Tomazoli, 2018). Igualmente, a IAF

pós-jogo é mais indicada durante o período

competitivo, onde o objetivo é recuperar o

mais rapidamente para a próxima partida;

contudo, também pode ser usada durante o

período pré-competitivo. No entanto, existem

alguns cuidados a ter em conta, pois o uso

contínuo da IAF pode atenuar as adaptações

fisiológicas necessárias durante esta fase da

época (Roberts, et al., 2015; Shona, 2011; Yamane,

Teruya, & Nakano, 2006; Cit., Tomazoli,

2018). Outra consideração importante ao

usar a IAF é o respeito pela individualidade,

pois alguns jogadores podem não gostar de

água fria ou reagirem a esta estratégia de

recuperação de maneira diferente dos seus

colegas. É responsabilidade da equipa técnica

identificar as preferências dos jogadores e agir

de modo a evitar qualquer conflito. Quando

o jogo termina, os jogadores podem ter

sentimentos e emoções diferentes, por isso é

de vital importância estabelecer o protocolo

de recuperação logo no início da temporada

(Tomazoli, 2018).

Os estudos sobre o IAF com jogadores

de futebol são escassos. Além disso, são

escassas as pesquisas aplicadas que levem em

consideração as particularidades logísticas do

futebol (como o tempo disponível para realizar

o protocolo de recuperação).

ROUPAS DE COMPRESSÃO (RC)

Estabelecer um protocolo de recuperação

eficaz e de fácil aplicação é essencial para

promover a recuperação de um jogo e manter

o desempenho durante as partidas seguintes.

Uma pesquisa científica recente mostrou que

22% dos jogadores de futebol da liga francesa

utilizavam roupas de compressão durante a

fase de recuperação (Nédélec, et al., 2013; Cit.,

Tomazoli, 2018).

A principal vantagem das RC é que elas podem

ser facilmente usadas por longos períodos

de tempo, independentemente do local em

que o jogador se encontre. Embora a maioria

das pesquisas nesta área tenham analisado

os benefícios das RC no combate ao início

da dor muscular tardia, não existem na

literatura estudos com jogadores de futebol,

analisando as medidas de desempenho.

Portanto, o objetivo desta abordagem é fazer

uma revisão crítica à literatura sobre o uso das

RC, apresentando sugestões sobre como os

jogadores de futebol podem utilizar melhor

esta estratégia de recuperação.

O princípio do uso das RC assenta no aumento

da pressão nas extremidades dos membros

inferiores e na sua diminução na parte medial

da coxa, melhorando o retorno venoso e

reduzindo a estase venosa (Sigel, et al., 1975;

Cit., Tomazoli, 2018). Alguns autores sugerem

que o uso de RC durante a recuperação

pode também estimular o alinhamento das

fibras, melhorando assim a regeneração após

É MUITO COMUM VER

JOGADORES DE FUTEBOL

SUBMERGIDOS NUM

RECIPIENTE COM ÁGUA FRIA

APÓS OS JOGOS (NÉDÉLEC,

ET AL., 2013; CIT. TOMAZOLI,

2018). O OBJETIVO

PRINCIPAL É ACELERAR

A RECUPERAÇÃO E ESTAR

PRONTO O MAIS RÁPIDO

POSSÍVEL PARA A PRÓXIMA

PARTIDA OU SESSÃO DE

TREINO. EMBORA AS

PESQUISAS DISPONÍVEIS

SEJAM INCONCLUSIVAS,

OS EFEITOS POTENCIAIS DO

BENEFÍCIO DA IAF INCLUEM

MELHORIAS EM ÍNDICES

NEUROMUSCULARES, NO

DANO MUSCULAR E NA

PERCEPÃO SUBJETIVA

DE FADIGA E DE DOR

MUSCULAR (DE NARDI, ET

AL., 2011; ASCENSÃO, ET AL.,

2008; CIT., TOMAZOLI, 2018)

micro-traumas induzidos pelo exercício

(Marqués-Jiménez, et al., 2016; Cit., Tomazoli,

2018). Dado a existência de micro-traumas

após a realização de um jogo de futebol, o uso

das RC neste período pode ajudar o jogador a

recuperar mais rapidamente (Allen, 2001; Cit.,

Tomazoli, 2018).

Durante uma experiência científica,

foram utilizados três tipos de RC: meias

de compressão tipo A (20-25 mmHg no

tornozelo, 15-20 mmHg nos gémeos), meias

de compressão tipo B (25-30 mmHg nos

gémeos, 15-20 mmHg na coxa) e calções de

compressão (15 a 20 mmHg na coxa). Cada

participante jogou a partida usando um tipo

de roupa de compressão mantendo o seu uso

7h/dia nos 3 dias seguintes. Os resultados

FPF360 87


mostraram que todos jogadores que usaram

as RC, independentemente do tipo, tenderam

a mostrar uma atenuação das micro-lesões,

uma menor resposta inflamatória e valores

mais baixos de dor muscular 72h após a

partida. Deste modo a sua utilização parece

ser um fator coadjuvante da recuperação,

particularmente nos dias seguintes à partida

de futebol.

Relativamente ao uso das RC para

melhorar os níveis de desempenho, não

se conhecem estudos científicos com

jogadores de futebol. Estudos efetuados

noutros contextos desportivos sugerem

que as RC não apresentam benefícios na

recuperação dos níveis de desempenho em

vários testes neuromusculares realizados:

sprints repetidos, exercícios pliométricos

e desempenho em corrida intermitente

(Duffield, et al., 2008; Duffield, Cannon, & King,

2010; Cit., Tomazoli, 2018).

Porém, uma recente revisão sistemática da

literatura mostrou que as RC podem melhorar

a força 2 a 8 horas e 24 horas após o exercício

(Brown, et al., 2017; Cit., Tomazoli, 2018). Os

autores desta revisão também consideraram

que as RC podem ser mais eficazes para

melhorar a recuperação a longo prazo (>

24h) de exercícios que tenham induzido

dano muscular. De acordo com os resultados,

o uso das RC pode oferecer um benefício

adicional na recuperação de exercícios de

força e de pliometria normalmente usados em

programas de treino de futebol. Assim, uma

pressão óptima de 18 mmHg no tornozelo,

14 mmHg nos gémeos, 8 mmHg no joelho, 10

mmHg na parte inferior da coxa e 8 mmHg

na parte superior da coxa geraria um retorno

venoso mais rápido (Lawrence, & Kakkar, 1980;

Cit., Tomazoli, 2018).

Segundo Tomazoli (2018), em termos de

aplicação prática, as RC parecem ser uma

estratégia promissora para se recuperar das

micro-lesões originadas pela realização de

exercício. No entanto, face à inconsistência

dos resultados científicos, é ainda difícil tirar

conclusões definitivas. Considerando o facto

de que, na maioria das vezes, os jogadores

estão em processo de recuperação, as RC

devem ser uma alternativa prática a ser

implementada. Por exemplo, após partidas

realizadas fora de casa, quando os jogadores

terminam a IAF, podem regressar para o hotel

ou para o aeroporto usando as RC. Pesquisas

futuras devem abordar a combinação de RC

com outras estratégias de recuperação. Além

disso, urge investigar quais as pressões a

utilizar e as fases do período de recuperação

em que as RC devem ser privilegiadas.

SEGUNDO TOMAZOLI

(2018), EM TERMOS

DE APLICAÇÃO PRÁTICA,

AS RC PARECEM SER

UMA ESTRATÉGIA

PROMISSORA PARA SE

RECUPERAR DAS MICRO-

LESÕES ORIGINADAS PELA

REALIZAÇÃO DE EXERCÍCIO.

NO ENTANTO, FACE

À INCONSISTÊNCIA DOS

RESULTADOS CIENTÍFICOS,

É AINDA DIFÍCIL TIRAR

CONCLUSÕES DEFINITIVAS.

CONSIDERANDO O FACTO

DE QUE, NA MAIORIA DAS

VEZES, OS JOGADORES

ESTÃO EM PROCESSO

DE RECUPERAÇÃO, AS

RC DEVEM SER UMA

ALTERNATIVA PRÁTICA

A SER IMPLEMENTADA.

POR EXEMPLO, APÓS

PARTIDAS REALIZADAS

FORA DE CASA, QUANDO

OS JOGADORES TERMINAM

A IAF, PODEM REGRESSAR

PARA O HOTEL OU PARA O

AEROPORTO USANDO AS RC.

PESQUISAS FUTURAS

DEVEM ABORDAR

A COMBINAÇÃO DE RC

COM OUTRAS ESTRATÉGIAS

DE RECUPERAÇÃO. ALÉM

DISSO, URGE INVESTIGAR

QUAIS AS PRESSÕES A

UTILIZAR E AS FASES DO

PERÍODO DE RECUPERAÇÃO

EM QUE AS RC DEVEM SER

PRIVILEGIADAS

NUTRIÇÃO

A nutrição é um aspeto fundamental da fase

de recuperação. Entre outros efeitos, uma boa

nutrição ajudará os jogadores a restabelecer

as reservas de glicogénio e a regeneração

muscular. Enquanto a degradação

de glicogénio pode ser restabelecida

principalmente com o consumo de hidratos

de carbono, a reparação muscular exige um

bom aporte proteico. No entanto, a fim de

acelerar o processo de recuperação, algumas

recomendações devem ser levadas em

consideração. Deste modo, o objetivo deste

tópico é fornecer um conhecimento prático

sobre como usar essas fontes de nutrientes

de maneira simples e eficaz após a partida e

durante o período de recuperação.

› HIDRATOS DE CARBONO

O futebol envolve a realização de exercício

intermitente, em que a principal fonte de energia

são os hidratos de carbono, armazenados

na forma de glicogénio nos músculos e no

fígado. Diversos estudos analisaram os níveis

de glicogénio antes, durante e depois do jogo

(Jacobs, 1982, et al.; Saltin, 1973; Smaros, 1980;

Cit., Tomazoli, 2018). Em média, o glicogénio

muscular no final de um jogo de futebol

encontra-se reduzido em 50%. Outros estudos,

no entanto, mostraram que as reservas de

glicogénio nos músculos podem ser quase

totalmente esgotadas após o jogo (Krustrup, et

al., 2003a; Cit., Tomazoli, 2018). Desta forma, as

pesquisas sugerem que a fadiga no final do jogo

pode ser parcialmente causada pela depleção

de glicogénio nos músculos (Mohr, Krustrup, &

Bangsbo, 2005; Cit., Tomazoli, 2018).

A fim de reabastecer as reservas de

glicogénio, é crucial a ingestão de hidratos

de carbono antes, durante e depois do jogo.

Portanto, informações sobre como facilitar o

reabastecimento das reservas de glicogénio

podem ajudar os jogadores a recuperar mais

rapidamente para o jogo seguinte.

O processo de ressíntese de glicogénio pode

ser dividido em duas fases: fase rápida e fase

lenta (Blom, et al., 1984; Cit., Tomazoli, 2018).

A fase rápida ocorre durante a primeira hora

após o exercício (Jentjens, & Jeukendrup,

2003; Cit., Tomazoli, 2018). Dentro deste

período de tempo, uma ingestão média de

1,2 g/kg/h de hidratos de carbono de alto

valor glicémico pode acelerar a ressíntese

do glicogénio. De facto, a ingestão imediata

de hidratos de carbono nas 4h após um

jogo de futebol pode originar o aumento de

45% no armazenamento de glicogénio nos

músculos, comparativamente à estratégia

de não ingestão imediata (Ivy JL, et al., 1988;

Cit., Tomazoli, 2018). Assim, os jogadores

devem ser orientados para começar a repor

88

FPF360


os níveis de hidratos de carbono mal o jogo

termine. Isto pode ser feito através de bebidas

ricas em eletrólitos e hidratos de carbono

fornecidas ainda no relvado (após o terminus

da partida), durante as entrevistas pós-jogo

e nos vestiários. Com base na recomendação

mencionada anteriormente, um jogador

de 70 kg deve ingerir aproximadamente

84g de hidratos de carbono a cada 30

minutos, durante as primeiras 4 horas da

fase de recuperação (Van Loon, et al., 2000;

Cit., Tomazoli, 2018). A forma (líquida e

sólida) como os hidratos de carbono serão

consumidos durante esta fase parece não

afetar a taxa de armazenamento de glicogénio

(Keizer, Kuipers, & Van Kranenburg, 1987; Cit.,

Tomazoli, 2018).

A fase lenta inicia-se cerca de 4h após o jogo

e pode ser prolongada até às 48h. Portanto, a

fim de maximizar a ressíntese de glicogénio

durante esta fase, aconselha-se uma dieta de

hidratos de carbono com alto índice glicémico

(Bangsbo, Mohr, & Krustrup, 2006; Cit.,

Tomazoli, 2018). Isto pode ser alcançado com

3-4 refeições principais e lanches ricos em

hidratos de carbono.

Apesar da literatura relativa ao tempo

necessário para a recuperação das reservas de

glicogénio permanecer inconclusiva, a aposta

numa forte ingestão de hidratos de carbono

após e nos dias que se seguem ao jogo, parece

recolher opinião unanimemente favorável.

Em termos de indicações práticas, os

jogadores devem iniciar a ingestão de hidratos

de carbono imediatamente após o jogo,

ainda no campo, através de bebidas ricas em

eletrólitos e hidratos de carbono. Quando

os jogadores chegam ao balneário, devem

encontrar disponíveis alguns alimentos

como batidos, gel, pizzas e sanduíches. A

fim de melhorar a ingestão de hidratos de

carbono, é importante que o staff de apoio à

equipa conheça as preferências dos jogadores,

e tenha em consideração o ambiente e a

hora do dia em que a partida foi disputada.

Posteriormente, deve ser seguida uma dieta

de hidratos de carbono distribuída ao longo

do dia (3 vezes por dia). Durante este período,

o foco deve estar no consumo de alimentos

como arroz, massa, batata-doce e quinoa

(Ranchordas, Dawson, & Russell, 2017; Cit.,

Tomazoli, 2018).

Em pesquisas futuras deveria tentar

responder-se a questões relacionadas

com o tempo necessário para reabastecer

completamente as reservas de glicogénio

após a partida e com as doses diárias ideais

(Tomazoli, 2018).

› PROTEÍNAS

O futebol implica um grande número de

CONCLUINDO, O CONSUMO

DE PROTEÍNA MOSTRA-SE

IMPORTANTE DURANTE

O PERÍODO DE

RECUPERAÇÃO. APÓS

A PARTIDA, O CONSUMO

DE LEITE COM SABOR

TEM SIDO CONSIDERADO

UMA ESTRATÉGIA EFICAZ

PARA ESTIMULAR A

SÍNTESE PROTEICA;

PRINCIPALMENTE NAS

PRIMEIRAS 2H (COCKBURN,

ET AL., 2008; CIT.,

TOMAZOLI, 2018).

ALÉM DISSO, COMO APÓS

O EXERCÍCIO OS

JOGADORES PODEM

PREFERIR BEBER EM VEZ

DE COMER, OS BATIDOS

DE PROTEÍNA SÃO UMA

OPÇÃO ÚTIL (TANG, ET

AL., 2009; CIT., TOMAZOLI,

2018). DURANTE OS DIAS

SEGUINTES, FONTES

PROTEICAS DE BOA

QUALIDADE, COMO PEIXE

E CARNE, DEVEM SER

CONSUMIDAS A CADA

3H, O QUE PERMITIRÁ

MAXIMIZAR A SÍNTESE

PROTEICA E CONTRIBUIR

PARA A RECUPERAÇÃO

(BURKE, ET AL., 2013; CIT.,

TOMAZOLI, 2018)

contrações musculares excêntricas que

prejudicam a função muscular após a partida

(Silva JR, et al., 2013; Cit., Tomazoli, 2018).

Nesta fase regista-se um desequilíbrio proteico

que deve ser restabelecido assim que a partida

termine.

Tem sido sugerido que uma dieta rica

em proteína pode ajudar os jogadores a

recuperarem do dano muscular induzido pelo

exercício (Cockburn, et al., 2008; Cit., Tomazoli,

2018). Por esta razão, o consumo de proteína

desempenha um papel importante durante o

processo de recuperação. Assim, uma estratégia

nutricional eficaz deve visar a recuperação do

equilíbrio proteico, o que consequentemente

concorre para a recuperação da função muscular

(Beelen, et al., 2010; Cit., Tomazoli, 2018). No

entanto, devido à falta de apetite que muitos

jogadores apresentam após o exercício,

diferentes opções de ingestão de proteína

devem ser disponibilizadas.

Durante anos, tem havido um conflito relativo

à quantidade ideal de proteína que deve ser

consumida após o exercício. Estudos recentes

mostraram que o consumo de 40g de proteína

logo após o exercício parece ser mais efetivo

comparativamente com doses menores, como

as 20g previamente sugeridas (McNaughton, et

al., 2016; Cit., Tomazoli, 2018). Como discutido

anteriormente, nos períodos iniciais da fase

de recuperação, estas doses mais altas podem

ser parcialmente alcançadas consumindo leite

com sabor (Beelen, et al., 2010; Cit., Tomazoli,

2018). Este tipo de bebida tem demonstrado,

entre outros benefícios, estimular a síntese

proteica, auxiliando na redução de marcadores

de lesão muscular após os jogos de futebol

(Cockburn, et al., 2008; Gilson, et al., 2010; Cit.,

Tomazoli, 2018).

Após o período agudo, a ingestão de proteínas

deve ser contínua, a fim de melhor se recuperar.

Apesar da quantidade ideal de proteína a

ingerir não ser consensual na literatura, parece

que 1,5-2,0 g·kg−1·dia−1 é suficiente para lidar

com as exigências do futebol (Ranchordas,

Dawson, & Russell, 2017; Cit., Tomazoli, 2018).

No entanto, por vezes as exigências do jogo

são muito altas e alguns jogadores podem

precisar de aumentar a ingestão. Por exemplo,

após exercício intenso, jogadores de futebol

juvenil conseguiram manter melhor a massa

corporal magra com uma ingestão de 2,3

g·kg−1· dia em comparação com 1,0 g·kg−1·

dia, de proteína. Portanto, durante períodos

competitivos congestionados (menos dias

de intervalo entre jogos) e sessões intensas

de treino, a quantidade de proteína ingerida

pode mudar de acordo com a exposição e as

necessidades individuais de cada jogador. A

fim de maximizar o processo de recuperação,

a pesquisa também recomenda a ingestão

de proteína antes de deitar. Tem sido

demonstrado que o consumo de proteína neste

momento pode melhorar o balanço proteico

FPF360 89


durante o período prolongado de sono (Beelen,

et al., 2010; Cit., Tomazoli, 2018). É importante

notar que a ausência de ingestão antes de deitar

não melhora o equilíbrio proteico durante a

noite, comprometendo possivelmente as taxas

de síntese de proteína muscular ao longo do

período de 24 horas (Trommelen, & Van Loon,

2016; Cit. Tomazoli, 2018).

Concluindo, o consumo de proteína mostra-se

importante durante o período de recuperação.

Após a partida, o consumo de leite com

sabor tem sido considerado uma estratégia

eficaz para estimulara síntese proteica;

principalmente nas primeiras 2h (Cockburn, et

al., 2008; Cit., Tomazoli, 2018).

Além disso, como após o exercício os jogadores

podem preferir beber em vez de comer,

os batidos de proteína são uma opção útil

(Tang, et al., 2009; Cit., Tomazoli, 2018).

Durante os dias seguintes, fontes proteicas

de boa qualidade, como peixe e carne, devem

ser consumidas a cada 3h, o que permitirá

maximizar a síntese proteica e contribuir para a

recuperação (Burke, et al., 2013; Cit., Tomazoli,

2018).

› SONO

O sono é uma componente essencial

do processo de recuperação. Deste

modo, proporcionar aos atletas sono de

qualidade e em quantidade pode contribuir

significativamente para o seu desempenho

e recuperação (Halson, 2008; Cit., Tomazoli,

2018).

De acordo com alguns autores, após um jogo

de futebol os jogadores podem apresentar

dificuldades em dormir, particularmente

depois de jogos disputados no final da

noite (20-21h) (Reilly, e Edwards, 2007; Cit.,

Tomazoli, 2018). As pesquisas cientificas

sugerem que diferentes fatores podem

contribuir para o deitar tardio após o jogo de

futebol: o stress emocional, as estratégias de

recuperação inadequadas e o tempo gasto em

viagens.

O sono inadequado pode estar associado à

fragilização do sistema imunológico (Cohen,

et al., 2009; Cit., Tomazoli, 2018). Além disso,

a privação do sono pode afetar a ressíntese

de glicogénio muscular (Skein, et al., 2011; Cit.,

Tomazoli, 2018), aumentar o dano muscular

(Skein, et al., 2013; Cit., Tomazoli, 2018) e

a fadiga mental (Fullagar, et al., 2016; Cit.,

Tomazoli, 2018). Portanto, o objetivo desta

abordagem é fornecer algumas indicações

e estratégias para melhorar o sono após

uma partida de futebol e em consequência o

processo de recuperação.

As elevadas exigências psico-fisiológicas

do jogo, o horário tardio a que algumas

partidas se realizam, as viagens e planos

de recuperação inadequados podem afetar

negativamente o sono e a recuperação. Assim

sendo, torna-se importante que o jogador

possua um plano de recuperação adaptado a

diferentes contextos de realização dos jogos.

As estratégias de recuperação precisam de

considerar, entre outros fatores, a hora da

partida. Se esta for disputada à noite (das

19:00h às 21:00h), o plano de recuperação

deve ocorrer imediatamente após o jogo.

Portanto, à medida que os jogadores chegam

ao balneário, algumas estratégias podem ser

adotadas para induzir um sono adequado.

Por exemplo, tem sido sugerido que a IAF,

ao reduzir a temperatura corporal, pode

promover o início do sono (Kräuchi, 2007;

Cit., Tomazoli, 2018). Da mesma forma,

uma refeição de alto teor glicémico após o

jogo serve como facilitador do sono (Afaghi,

O’connor, & Chow, 2007; Cit., Tomazoli,

2018). Este facto parece ficar a dever-se a

um aumento das concentrações plasmáticas

de triptofano, estimulador da serotonina,

que é um agente indutor do sono. Assim,

como mencionado anteriormente, ainda

no balneário e após a IAF, os jogadores

devem ingerir pizzas, sanduíches e outras

alternativas ricas em hidratos de carbono.

Quando o jogo é disputado em casa, outra opção

passará por fornecer o jantar aos jogadores.

No caso do jogo ser disputado fora, a mesma

estratégia poderá ser adotada no hotel. É

importante realçar que, após o jogo, deve-se

evitar o consumo de álcool (Feige, et al., 2006;

Cit., Tomazoli, 2018) e de cafeína (Roehrs e

Roth, 2008; Cit., Tomazoli, 2018), bem como o

consumo exagerado de líquidos, uma vez que

estes podem potencialmente perturbar o sono

(Halson, 2008; Cit., Tomazoli, 2018).

As viagens constantes e o tempo passado nos

aeroportos podem criar um stress adicional

aos jogadores, podendo assim prejudicar

os seus padrões de sono. Portanto, estes

aspetos devem ser tidos em conta. Apesar

de pesquisas anteriores não observarem

qualquer impacto das viagens domésticas na

qualidade e quantidade do sono, mais pesquisas

serão necessárias para se observar o efeito da

exposição crónica a viagens, nos períodos de

maior densidade competitiva (Fowler, Duffield, &

Vaile, 2015; Cit., Tomazoli, 2018).

A fim de se evitar qualquer stress adicional,

algumas considerações devem ser tomadas

em conta durante as viagens. Durante o tempo

passado fora, devem-se fazer esforços para

manter os hábitos alimentares e de sono dos

jogadores. Ambientes silenciosos e escuros

proporcionam uma melhor qualidade do

sono (Postolache, et al., 2005; Cit., Tomazoli,

2018). No caso dos jogadores não cumprirem

as horas habituais de sono durante a noite,

a adoção de uma sesta curta após a hora do

almoço pode ser uma estratégia eficaz para

recuperar a perda do mesmo. Uma boa sesta

pode melhorar os aspectos cognitivos e

físicos, ajudando os jogadores a estarem mais

preparados para a competição (Waterhouse, et

al., 2007; Cit., Tomazoli, 2018). No regresso a

casa, viajar depois de partidas realizadas em

horário tardio, pode acarretar a alteração do

horário de sono dos jogadores (especialmente

se acompanhadas de viagens longas). Deste

medo, é importante ter em consideração

a elaboração de planos de logística que

considerem o tempo de transferência entre

hotéis, estádios e aeroportos, de forma a

perceber qual o plano mais aconselhável

a executar. Pretende-se, assim, minimizar

o stress causado pelas viagens entre

competições. Por fim, quando a viagem se

realiza de avião, os jogadores devem manter o

seu consumo normal de água, pois o ar seco da

cabine pode levar a estados de desidratação,

afetando assim o ciclo do sono (Reilly e

Edwards, 2007; Cit., Tomazoli, 2018).

Concluindo, dado os jogadores estarem

frequentemente expostos a uma diversidade

de situações que podem afetar negativamente

os seus padrões de sono, é imperativo que

as estratégias para melhorar o mesmo sejam

consideradas no plano de recuperação após o

jogo. Este cuidado torna-se particularmente

importante nas partidas jogadas fora de

casa e em horários mais tardios. Além das

considerações acima referidas, elementos

do staff de apoio aos jogadores devem,

durante o processo de recuperação, usar

ferramentas, como por exemplo questionários

de sono e relógios com acelerómetros, a fim de

monitorizar a qualidade e a quantidade do sono

dos jogadores. Este tipo de estratégias permitirá

entender melhor o padrão de sono de cada

jogador e programar sessões de recuperação

de acordo com as necessidades individuais

(Samuels, 2009; Cit., Tomazoli, 2018).

CONCLUSÕES

O ritmo de recuperação após o jogo é

altamente variável, dependendo de diferentes

fatores: magnitude da fadiga induzida,

fatores extrínsecos e fatores intrínsecos.

A recuperação no futebol constitui-se, por

isso, como um fenómeno complexo, que

reforça a necessidade de pesquisas futuras

para (i) melhor conhecer os mecanismos que

contribuem para a fadiga induzida pelo treino

e jogo de futebol e (ii) identificar as estratégias

de recuperação mais eficazes para cada

momento específico (Nédélec et. al, 2012).

As estratégias individualizadas podem ser

propostas tendo em conta que vários fatores

intrínsecos (e.g. idade, histórico de treino,

90

FPF360


posição específica no campo) e extrínsecos

(e.g. nível competitivo, padrão de oposição,

importância da partida, número de dias de

recuperação da partida anterior) podem

influenciar a carga interna e externa de cada

jogador de forma diferenciada, tendo assim

um impacto também diferente na recuperação

de cada atleta (Paul, Bradley, Nassis, 2015; Cit.,

Silva, et al., 2017).

A recuperação é específica para cada indivíduo

e depende de avaliações individuais. Se 10

pessoas fossem solicitadas para nomear

a sua “estratégia pessoal de recuperação

número um”, sete ou oito respostas

diferentes provavelmente seriam dadas. No

contexto desportivo, isto significa que os

atletas apresentam diferentes estratégias

e necessidades de recuperação, e que a

estratégia de recuperação preconizada pelo

treinador pode não conduzir necessariamente

ao resultado desejado.

Como a recuperação precisa de ser planeada

individualmente, cada jogador deve ter mais

de uma estratégia disponível. Por vezes, a

primeira escolha pode não ser possível de usar

devido a circunstâncias externas ou internas.

Por exemplo, a corrida pode funcionar

perfeitamente como uma estratégia de

recuperação num contexto de jogo disputado

em casa; no entanto, depois de atravessar

vários fusos horários em viagem (contexto

de jogo fora), a corrida pode constituir-se

com um factor de stress adicional para o

organismo, altura em que o indivíduo ainda

pode estar a sofrer as consequências do jet

lag (Kallus, 1995 & Kallus e Kellmann, 2000; Cit.

Kellmann, 2002).

Nas figuras 3, 4 e 5 pretende-se ilustrar que a

posição específica de cada jogador em campo

pode colocar diferentes exigências fisiológicas,

sendo mais um exemplo para demonstrar

a necessidade de atender ao princípio da

individualidade da carga na compreensão das

eventuais necessidades de recuperação do

jogador.

HIGH ACCELERATIONS/DECELERATIONS - AL SADD

AL SADD vs ESTEGHLAL

NUMBER OF HIGH ACCELERATIONS/DECELERATIONS

Meshaal

Barsham

Hamid Ismaeil

Hamid

Abdelkerem

Hassan

Pedro Miguel

Correia

Boualem

Khoukhi

Xavi

2

3

5

6

7

7

7

13

13

14

15

23

Woo Young

Jung

9

9

Akram Afif

23

24

Hasan Khalil

Haydos

Baghad

Boundjah

7

13

16

23

Gabi

Ali Assadalla

Thaimn

Salem

Al Hajri

3

8

Yasser Yaqoub

7

7

High accelerations

High decelerations

Fig.3: Altas Acelerações e Desacelerações Por Jogador (Al-Sadd) no Jogo Contra o Esteghlal.

FPF360 91


HIGH & VERY HIGH SPEED DISTANCES (M)

Meshaal Barsham

18.5

Hamid Ismaeil Hamid

791.6

439.7

Abdelkerem Hassan

609.5

243.1

Pedro Miguel Correia

364.4

210.0

Boualem Khoukhi

309.2

290.1

Xavi

513.1

64.2

Woo Young Jung

411.7

87.8

Akram Afif

846.4

525.7

Hasan Khalil Haydos

598.3

160.7

Baghad Boundjah

755.9

547.6

Gabi

414.3

102.3

Ali Assadalla Thaimn

Salem Al Hajri

Yasser Yaqoub

219.3

87.4

High speed distance (m)

Very high speed distance (m)

Fig.4: Distância Percorrida (metros) Em Alta e Muita Alta Intensidade Por Jogador (Al-Sadd) no Jogo Contra o Esteghlal.

92

FPF360


DISTANCE COVERED - AL SADD

AL SADD vs ESTEGHLAL

Meshaal Barsham

5,431

Hamid Ismaeil Hamid

11,132

Abdelkerem Hassan

9,900

Pedro Miguel Correia

Boualem Khoukhi

9,614

9,495

Xavi

11,755

Woo Young Jung

11,044

Akram Afif

10,522

Hasan Khalil Haydos

8,854

Baghad Boundjah

Gabi

11,531

Ali Assadalla Thaimn

153

Salem Al Hajri

128

Yasser Yaqoub

2,947

High speed distance (m)

Very high speed distance (m)

Fig.5: Distância Total Percorrida (Km) Por Jogador (Al-Sadd) no Jogo Contra o Esteghlal

FPF360 93


BIBLIOGRAFIA

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94

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FPF360 95


96

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LUÍS PIMENTA //

TREINADOR IF BROMMAPOJKARNA (1L – SUÉCIA) – 2018

TREINADOR KONGSVINGER IL (3L/2L - NORUEGA) - 2015, 2016

Nota introdutória por Rui Mâncio Caires – Formador FPF

A individualidade no contexto coletivo promove a afirmação do futebol enquanto atividade global,

interpretado por grupos cada vez mais de origem diversificada. A reflexão necessária de uma boa

gestão dos recursos humanos, desde a identidade pessoal à coletiva – onde o enquadramento do

contexto é relevante – passa a ser um desiderato premente. Influenciar os fatores manipuláveis

através do estabelecimento de metas institucionais que fortaleçam as ligações e contextualizem

compromissos ao nível psicológico, pessoal e coletivo. A inclusão de modelos da relação do conflito

normativo e a identificação coletiva na abordagem dos comportamentos é uma mais-valia, a par das

referências bibliográficas de outros olhares e contributos na metodologia do treino.

A INDIVIDUALIDADE NO CONTEXTO

COLETIVO: DA PSICOLOGIA

À METODOLOGIA DE TREINO

INTRODUÇÃO

Este trabalho terá como objetivo abordar

a temática da individualidade no contexto

coletivo. Sendo o autor da opinião que a

interligação entre ciências permite uma

melhor compreensão das diversas realidades

e, consequentemente, de novas dimensões nas

abordagens práticas, o intuito deste texto será o

de fazer uma ponte racional e operacional entre

a psicologia e a metodologia de treino.

Tendo isto em consideração, a primeira

parte procederá a uma revisão bibliográfica

dos conceitos principais e modelos teóricos

correspondentes. Especificando, será

dado um esclarecimento sobre conceitos

de identidade pessoal – o self, numa escala

contínua de individualismo-coletivismo – e

identidade social, assim como as dinâmicas

de influências adjacentes à formação das

mesmas. Estes processos, conscientes

e subconscientes, serão descritos numa

perspetiva dedutiva, como as teorias da

identidade social, da auto-categorização e a

teoria sociocognitiva interpessoal, na qual

o indivíduo é influenciado pelo contexto

circundante mais alargado ou mais próximo;

e, numa perspetiva indutiva, como a teoria

geral do self, onde um modelo de relações

sociais é tido em conta de forma a explicar

como o contexto também será influenciado

pelo indivíduo.

Em seguida será explicada a importância

desta temática para o contexto do gestor de

recursos humanos, que neste caso concreto

se centra nas tarefas de um treinador de

futebol. Isto será feito pela enumeração

de alguns perigos provenientes da má

gestão de identidades, tanto pessoais como

sociais, que já se encontram suportados

por estudos científicos. Dentro destes, será

dada especial relevância à discriminação

devido à manutenção da imagem pessoal e

do não-conformismo às normas grupais por

indivíduos fortemente ligados ao grupo.

A parte final do trabalho será constituída

pela vertente mais aplicável do mesmo,

onde estratégias práticas utilizadas

previamente pelo autor serão apresentadas.

Estes processos partilhados passarão pela

apresentação de uma estrutura hierárquica de

funções sociais dentro do grupo – perspetiva

macro com foco na intervenção coletiva,

a identidade social –, e pela descrição

do processo de definição dos planos de

desenvolvimento individual dos jogadores

– que vão de encontro a uma perspetiva de

intervenção micro: a evolução individual do

jogador e mecanismos adjuvantes como a

motivação e o compromisso.

Importante também assinalar que estas

estratégias visam estabelecer a ponte concetual

e metodológica acima descrita e, tendo em

conta a especificidade de cada contexto, as

FPF360 97


estratégias apresentadas não visam, nem

poderiam de forma alguma visar, a obtenção e

entrega de um modus-operandis que garanta

uma boa gestão de grupo em qualquer situação.

Em oposição, a apresentação das mesmas

propõe-se a criar situações de reflexão e debate

de possíveis estratégias que proporcionem

aos agentes e treinadores desportivos, uma

maior sistematização da liderança grupal.

Mais importante ainda, este trabalho pretende

incitar ao desenvolvimento de uma bibliografia

mais vasta que utilize os conceitos e modelos

teóricos de uma área científica – neste caso

a psicologia – para os operacionalizar na

metodologia de treino de futebol.

A IDENTIDADE

O ser humano necessita de ter tanto uma

identidade pessoal (sendo único, especial

e diferenciado), como coletiva (sentindo

pertença, conetivismo, união com outrem).

Para um desenvolvimento humano saudável,

o equilíbrio entre estas duas necessidades é

essencial (Adams & Marshall, 1996). O mesmo

autor prossegue referindo que, como todos

os construtos sociopsicológicos, a identidade

tem o seu propósito funcional. Este passa

pela compreensão de quem se é; de dar

sentido e direção através de compromissos,

valores e objetivos; de dar uma sensação

de controlo pessoal e livre arbítrio; de lutar

por consistência, coerência e harmonia

entre valores, crenças e compromissos;

e de permitir um reconhecimento de

potencial através de um sentido de futuro,

possibilidades e escolhas alternativas. Como

será explicado mais adiante, estas noções de

compromissos, objetivos, controlo pessoal e

sentido de futuro são indispensáveis às tarefas

dos treinadores de futebol num processo

interativo de desenvolvimento do jogador.

Este desenvolvimento pessoal passa por

minimizar a distância entre o “self real” e do

“self ideal”. Havendo incongruência entre

estas duas perceções, caberá ao treinador

definir, em conjunto com o jogador,

estratégias transformacionais que suprimam

essa lacuna.

É de referir que, neste trabalho, havendo

falta de uma tradução para português

comummente aceite do termo self na

literatura especializada em psicologia,

utilizar-se-á o termo em inglês. Contudo,

aquando da necessidade da sua utilização

enquanto prefixo, será utilizado o termo

“auto-”. Brewer (1991), explicou que o

conceito de self é dinâmico, sendo expansível

e contraível através de vários níveis de

identidade social e a base de autoavaliação.

Quando a definição de self muda, muda

também o significado de interesse pessoal e a

motivação para o proveito pessoal.

Dentro desta noção de self, um fator de relevo

consiste na diferenciação entre imperativos

individualistas e coletivistas, resultantes

em construtos de self independentes e

interdependentes (Kühnen et al., 2001).

Especificando, no primeiro caso, a pessoa

caracteriza-se por única e independente,

tendo foco nas suas características internas:

personalidade, habilidades e atitudes. Em

contrapartida, no construto interdependente,

a pessoa é um membro dependente de grupos

sociais, dando primazia às relações com

outros, ao associativismo, e às funções sociais.

Como o mesmo autor descreve, será o grau

de relação com o contexto (relatedness)

durante o processamento de informação,

que será a diferença chave entre a aquisição

de um conhecimento do seu self como

independente ou interdependente. De um

ponto de vista cultural, o individualismo

é pertencente a sociedades nas quais as

ligações entre indivíduos estão soltas – onde

de todos se espera que tratem de si e da

sua família próxima. Em contrapartida, o

coletivismo corresponde a sociedades nas

quais os indivíduos, da nascença em diante,

são integrados em fortes e coesos grupos

(Torrents & Balagué, 2006).

Estas diferenças culturais têm influência

direta nos motivos de bem-estar dos

indivíduos constituintes, como descrito

por Kitayama & Markus (2000), sendo

necessária, como veremos mais à frente,

uma correta avaliação destas por parte do

treinador de forma a manter níveis elevados

de compromisso coletivo.

O INDIVÍDUO NO SEU

CONTEXTO: A DEDUÇÃO

A teoria da auto-categorização – categorização

do self – descreve que o indivíduo, através

da sua perceção, passa por uma fase de

“despersonalização” com o intuito de adquirir

ou aproximar de uma identidade social

(Turner et al., 1994). Este processo varia com

o contexto social devido a ser por base um

comparativo social no qual o contexto é a

referência. O indivíduo, nesse processo de

redefinição, demonstra uma flexibilidade

comportamental e cognitiva, sendo as

relações sociais e os processos cognitivos que

irão mediar essa autorregulação – regulação

do self – modificando a sua relação consoante

a realidade social.

Seguindo a mesma linha de pensamento,

Adams & Marshall (1996) defendem que a

identidade, enquanto estrutura psicológica,

é um sistema autorregulatório que direciona

atenção, filtra informação, gere impressões e

escolhe comportamentos apropriados. Ou seja,

a identidade sociopsicológica é um construto

que reflete as influências sociais através de

processos de imitação e identificação, e de

autoconstrução ativa – operações cognitivas que

organizam, estruturam e (re)constroem o seu

autoconhecimento. Esta nova identidade social

é definida pelo “conhecimento do indivíduo

de que pertence a certos grupos sociais, com

significância emocional e de valores que advêm

dessa associação” (Hogg & Terry, 2000).

Tendo isto em conta, Andersen & Chen,

(2002), numa teoria sociocognitiva

interpessoal, avançam com o conceito

de self relacional. Este, é um produto da

importância profunda dos próximos, emerge

num contexto de transferência (ativação em

transferência, com influências transitórias e

crónicas), tem tanto elementos ideográficos

como partilhados socialmente, providencia

uma base para um modelo de personalidade

interacionista (“autorregulação para proteger

o self visa necessidades de segurança,

enquanto que autorregulação para proteger a

relação visa primariamente as necessidades de

conexão”), e é uma unidade cognitivo-afetiva

num modelo de personalidade “se-então” – se

o contexto for este, então eu serei assim.

Concordando com essa importância dada

às relações próximas, e tentando trazer

uma clarificação concetual da relação

individualismo-coletivismo (I-C), Brewer

& Chen (2007) apresentaram um modelo

no qual diferenciavam o coletivo em duas

categorias, sendo a variante relacional

acrescentada, correspondente às relações

mais próximas do indivíduo. Para além disso,

descreveram cada uma das três categorias

através da sua autorrepresentação, bases de

realização e valores (ver figura 1 em anexo).

Observando a tabela em questão, é fácil

de entender a necessidade e as vantagens

de um treinador em compreender estas

diferenciações, devido a promoverem nos

indivíduos, seus jogadores, comportamentos

distintos nas suas autoperceções, processos

cognitivos, motivação geral e relacionamentos

(Gorodnicenko & Roland, 2011).

É da opinião do autor deste trabalho que um

gestor de recursos humanos, tarefa crucial

de um treinador de futebol, deve saber

sistematizar um processo de avaliação, leia-se

categorização, dos traços de personalidade

dos seus jogadores. Apenas desta forma

poderá definir um plano de atuação que vise

influenciar pensamentos, comportamentos,

relacionamentos e emoções, com uma

estruturação metodológica, contrapondo ao

mais habitual procedimento por puro instinto.

98

FPF360


É DA OPINIÃO DO AUTOR

DESTE TRABALHO

QUE UM GESTOR

DE RECURSOS HUMANOS,

TAREFA CRUCIAL

DE UM TREINADOR

DE FUTEBOL, DEVE SABER

SISTEMATIZAR

UM PROCESSO DE

AVALIAÇÃO, LEIA-SE

CATEGORIZAÇÃO,

DOS TRAÇOS DE

PERSONALIDADE

DOS SEUS JOGADORES.

APENAS DESTA FORMA

PODERÁ DEFINIR UM

PLANO DE ATUAÇÃO

QUE VISE INFLUENCIAR

PENSAMENTOS,

COMPORTAMENTOS,

RELACIONAMENTOS

E EMOÇÕES, COM

UMA ESTRUTURAÇÃO

METODOLÓGICA,

CONTRAPONDO AO MAIS

HABITUAL PROCEDIMENTO

POR PURO INSTINTO

O INDIVÍDUO NO SEU

CONTEXTO: A INDUÇÃO

Para além da influência que o contexto exerce

no indivíduo, muitos autores têm também

defendido a existência de uma dialética nesse

processo, sublinhando que o oposto também

se verifica (Adams & Marshall, 1996). Sendo

assim, e com maior preponderância em grupos

pequenos, entre a individualidade e a influência

social em grupos, coexistem tanto caminhos

indutivos como dedutivos na formação da

identidade (Postmes et al., 2005). Dando como

exemplo o estado afetivo, a média dos colegas

de equipa está relacionada com a afetividade

individual. Isto dito, é de notar que certas

diferenças individuais, como a suscetibilidade

ao contágio emocional e às tendências coletivas,

moderam as ligações afetivas (Ilies et al., 2007).

Juntando as componentes da teoria da

identidade e da teoria da identidade social, a

Teoria Geral do Self de Stets & Burke (2000)

visou fornecer uma psicologia social mais forte.

Esta atenderia a processos sociais macro – onde

a participação atingiria o seu expoente máximo

quando os indivíduos se relacionassem com os

três níveis de abstração: grupo, função, pessoa;

meso, na qual seriam analisadas as relações

inter- e intra-grupais para entendimento do

nível de identificação; e micro – análise do grupo,

função e pessoa para melhor entendimento dos

processos motivacionais como a autoestima,

autoeficácia e autenticidade.

Para um treinador é vital a definição de

estratégias que visem a melhoria destes

processos motivacionais individuais devido

a aumentar a probabilidade de sucesso que,

por seu turno, irá ajudar a adaptação ao

contexto social, ao contrário de uma situação

de insucesso que incitará a uma saída do grupo

(Postmes & Jetten, 2006). Contudo, talvez mais

importante na gestão da equipa, estas estratégias

irão também ter impactos no fenómeno

organizacional, como a coesão, a liderança, os

subgrupos e a estrutura sociodemográfica (Stets

& Burke, 2000).

De forma mais detalhada, Gundlach et al.

(2006) explicaram que a identificação

coletiva, a precisão meta-percetiva – perceção

de como colegas de equipa os veem –, e a

identidade coletiva – alinhamentos cognitivos,

comportamentais e emocionais –, iriam mediar

a relação entre individualismo-coletivismo e

a prestação coletiva. Esta última seria visível

em variáveis como o output produtivo, a

sustentabilidade de processos coletivos e a

satisfação pessoal.

Os mesmos autores defendem que, para além

disso, a interdependência da tarefa (necessidade

de colaboração entre membros de equipa para

atingir objetivos de performance) mediará

a relação I-C com a identificação coletiva.

Assim, percebendo estas interferências

mais específicas, o treinador já terá forma de

definir e implementar estratégias que tenham

uma precisão mais acentuada. No final deste

texto, serão descritas algumas sugestões que

visam estabelecer uma relação próxima entre

identidade pessoal, funções sociais, identidade

coletiva, prestação individual e coletiva e

desenvolvimento pessoal.

O INDIVÍDUO NO SEU CONTEXTO:

PERIGOS ASSOCIADOS

O correto entendimento dos conceitos

enunciados nos capítulos acima e, sobretudo,

das dinâmicas que os interligam, trará imensos

TENDO POR EXEMPLO

OS PROCESSOS DE

MANUTENÇÃO DA IMAGEM

PESSOAL, FEIN & SPENCER

(1997) MOSTRARAM

QUE DESEMPENHAM

UM PAPEL IMPORTANTE

NA ESTEREOTIPAÇÃO E

DISCRIMINAÇÃO. ASSIM

SENDO, INDIVÍDUOS

COM UM SENTIMENTO

DE AFIRMAÇÃO PESSOAL

TENDEM A TER MENOS

COMPORTAMENTOS

DISCRIMINATÓRIOS EM

RELAÇÃO AOS RESTANTES

MEMBROS DO GRUPO.

CONTUDO, QUANDO

SENTEM UMA AMEAÇA

À AUTOESTIMA, ESTES

COMPORTAMENTOS

AUMENTAM, AFETANDO AS

RELAÇÕES SOCIAIS DENTRO

DO GRUPO. OS AUTORES

VÃO MAIS ALÉM, NOTANDO

PERIGOSAMENTE QUE ESSA

DISCRIMINAÇÃO TRAZ

SENSAÇÕES POSITIVAS NO

INDIVÍDUO, AUMENTANDO

A AUTOESTIMA, O QUE

POSSIVELMENTE FARÁ COM

QUE ESSE PROCESSO SE

TORNE MAIS FREQUENTE

benefícios ao treinador na gestão do grupo e

dos seus membros de forma individual. Isto

porque, entre outras vantagens, proporcionará

a capacidade de antecipar certos problemas

que a literatura já evidencia.

Tendo por exemplo os processos de

FPF360 99


manutenção da imagem pessoal, Fein &

Spencer (1997) mostraram que desempenham

um papel importante na estereotipação e

discriminação. Assim sendo, indivíduos com

um sentimento de afirmação pessoal tendem a

ter menos comportamentos discriminatórios

em relação aos restantes membros do grupo.

Contudo, quando sentem uma ameaça à

autoestima, estes comportamentos aumentam,

afetando as relações sociais dentro do

grupo. Os autores vão mais além, notando

perigosamente que essa discriminação traz

sensações positivas no indivíduo, aumentando

a autoestima, o que possivelmente fará com

que esse processo se torne mais frequente

Como é sabido, a gestão da imagem pessoal é

de enorme importância em micro-sociedades,

mas tem sobretudo relevo no contexto de um

plantel de uma equipa de futebol. Isto devido

à competitividade externa necessária para

a obtenção dos resultados desejados, mas

principalmente pela competitividade interna

que existe entre os jogadores que lutam

por um restrito número de vagas na ficha

de jogo e, mais ainda, no onze titular. Esta

competitividade faz com que os jogadores

vivam no dia-a-dia em situações de desgaste

emocional elevado, onde o controlo das

emoções e comportamentos nem sempre é

fácil, surgindo fricções interrelacionais de

maior ou menor relevância, que poderão

afetar a coesão social.

Para além dos problemas mais facilmente

antecipáveis dos indivíduos pouco

identificados com o grupo, onde uma

distinção vital do não-conformismo em

dissidência e descompromisso é apresentada

por Packer (2008), a literatura recente

tem também evocado certas dificuldades

originadas em membros fortemente

identificados. Como descrito, estes podem

desafiar as normas quando há um conflito

entre as mesmas, ou quando as entendem

como perigosas para o grupo. Em sintonia

com este autor, Täuber & Sassenberg (2012),

num contexto mais específico do futebol,

notaram que jogadores menos identificados

aderiam a objetivos coletivos potencialmente

perigosos (pouco ambiciosos), enquanto

jogadores mais identificados tinham

comportamentos desviantes. Para além disso,

esse desvio provocou descompromisso nos

jogadores menos identificados, apesar de não

o fazer nos membros que o originaram – os

fortemente identificados.

Dentro desta perspetiva, é de importância

vital que o treinador, na definição das

normas grupais, conheça bem o contexto

do clube e a sua cultura. Recomenda-se,

então. que os capitães de equipa (por norma,

indivíduos fortemente identificados com

a identidade organizacional) sejam parte

ativa na definição das mesmas. Contudo,

caso o treinador sinta que uma regra deve ser

imposta, mesmo não sendo popular entre os

capitães, ajudará ao processo um diálogo que

argumente categoricamente que essa norma

trará benefícios claros para a obtenção dos

objetivos estabelecidos.

O INDIVÍDUO NO SEU CONTEXTO:

ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO

MACRO

Após revisão da bibliografia para a

compreensão dos conceitos de identidade e

relacionamento entre eles, foram explicados

certos perigos que poderiam advir de uma

má gestão do indivíduo no seu contexto.

Com isto, tentou-se fortalecer a necessidade

dos treinadores definirem estratégias de

gestão, de forma a evitarem por antecipação

situações de dissidência ou descompromisso.

Consequentemente, neste próximo capítulo

serão enunciadas sugestões práticas que

visem a melhoria do sentimento de pertença,

abordando as ligações interpessoais, e

do sentimento de diferenciação, dando

enfoque ao desenvolvimento pessoal do

jogador.

Como enunciado por Baumeister & Leary

(1995), a ligação interpessoal é fundamental

para a motivação humana, sendo o ser

humano naturalmente conduzido na

direção do estabelecimento e manutenção

do sentimento de pertença. Neste estudo,

concluíram que os indivíduos têm facilidade

em criar laços, resistem à dissolução dos

mesmos, formam os pensamentos consoante

as preocupações de pertença, vivenciam as

emoções mais fortes (positivas e negativas)

resultantes dessa mesma pertença, têm

consequências aversivas e patológicas em

caso de privação, e têm um limite máximo,

sendo esta sujeita a saciação.

Assim sendo, uma das possíveis estratégias

para promover o sentimento de pertença

passa pela hierarquização das funções sociais

dos jogadores, e um correto diálogo sobre as

mesmas, de forma a responsabilizá-los sobre

as vantagens coletivas e individuais da sua

execução. Na figura 4 em anexo, encontra-se

esquematizado um modelo teórico utilizado

previamente pelo autor. Neste, facilmente se

identifica que o foco prioritário do clube tinha

uma perspetiva de futuro, desenvolvendo

jogadores locais e coadjuvando a ação dos

mesmos por jogadores mais experientes

que garantissem um nível de prestação mais

elevado no presente.

Para além desta distribuição de

responsabilidades sociais interligadas com

responsabilidades tático-técnicas, está

DENTRO DESTA

PERSPETIVA,

É DE IMPORTÂNCIA

VITAL QUE O TREINADOR,

NA DEFINIÇÃO DAS

NORMAS GRUPAIS,

CONHEÇA BEM

O CONTEXTO DO CLUBE

E A SUA CULTURA.

RECOMENDA-SE, ENTÃO.

QUE OS CAPITÃES DE

EQUIPA (POR NORMA,

INDIVÍDUOS FORTEMENTE

IDENTIFICADOS

COM A IDENTIDADE

ORGANIZACIONAL)

SEJAM PARTE ATIVA NA

DEFINIÇÃO DAS MESMAS.

CONTUDO, CASO O

TREINADOR SINTA QUE

UMA REGRA DEVE SER

IMPOSTA, MESMO NÃO

SENDO POPULAR ENTRE

OS CAPITÃES, AJUDARÁ

AO PROCESSO UM

DIÁLOGO QUE ARGUMENTE

CATEGORICAMENTE QUE

ESSA NORMA TRARÁ

BENEFÍCIOS CLAROS

PARA A OBTENÇÃO

DOS OBJETIVOS

ESTABELECIDOS

também evidenciado o molde geral nas quais

deve acontecer. Este contexto de normas

sociais objetiva a criação e propagação

de uma identidade social que, como visto

anteriormente, terá uma dialética fundamental

com o self dos jogadores, promovendo maior

ou menor identificação organizacional.

100

FPF360


Como descrito por Jetten et al. (2002), as

normas grupais irão influenciar a definição

do self enquanto individualista ou coletivista,

afetando assim o comportamento grupal.

Para além da identidade, outras variáveis irão

influenciar a ação coletiva. Dentro destas, a

perceção de justiça é um fator essencial, como

apresentado por van Zomeren et al. (2008)

no modelo “SIMCA” – Social Identity Model

of Collective Action. Dentro deste tema, é da

opinião do autor que todos os relatórios de

prestação sejam entregues ou apresentados de

forma coletiva, para que todos os envolvidos

possam conhecer a opinião do treinador e

aferir a justiça das decisões – tanto prévias

como futuras

Outros autores (De Backer et al., 2010)

deram força a esta ideia e relacionaram a

perceção de justiça não apenas à identificação

coletiva, mas também à coesão social e

coesão na tarefa. Como descrito na figura

6 anexada, que esquematiza as correlações

significativas dos dados deste estudo, a justiça

distributiva não teve impacto significativo na

identificação coletiva. Contudo, no que diz

respeito à justiça processual, esta tanto teve

direta influência na coesão na tarefa, como

na identificação coletiva que, por sua vez,

apresentou efeitos positivos na coesão social.

Este estudo é de relevante especificidade

para este trabalho, devido a ter sido efetuado

num contexto de desportos coletivos com

atletas de elite, mas sobretudo por também

evidenciar a importância do suporte das

necessidades, por parte do treinador, na

identificação coletiva. Outros autores já

tinham sublinhado o peso das necessidades

na formação da identidade, dando enfoque

ao equilíbrio entre a necessidade de pertença

e a necessidade de diferenciação (Adams &

Marshall 1996; Hornsey & Jetten, 2004).

Este equilíbrio vital das necessidades

encontra-se sumarizado na figura 7 em

anexo, onde estão expostos mecanismos

que possibilitem o treinador de proceder a

uma diferenciação individual, dentro de um

contexto de identificação coletiva, passando

assim a um nível de intervenção micro.

Dentro destes, é de salientar a diferenciação

de funções individuais, que visa suprir a

necessidade de distinção pessoal.

É a opinião do autor que, caso as funções

individuais atribuídas pelo treinador ao

jogador apontem à obtenção de benefícios

coletivos, se atingirá mais facilmente uma

diferenciação pessoal válida, dentro de uma

identidade coletiva que sai fortalecida. Para

além disso, quando se verifiquem situações

perfeitas em que se possa combinar os ganhos

individuais aos coletivos, o compromisso para

a tarefa será ainda mais acentuado, devido à

PARA ALÉM DA

IDENTIDADE, OUTRAS

VARIÁVEIS IRÃO

INFLUENCIAR A AÇÃO

COLETIVA. DENTRO

DESTAS, A PERCEÇÃO

DE JUSTIÇA É UM FATOR

ESSENCIAL, COMO

APRESENTADO POR VAN

ZOMEREN ET AL. (2008)

NO MODELO “SIMCA” –

SOCIAL IDENTITY MODEL

OF COLLECTIVE ACTION.

DENTRO DESTE TEMA, É DA

OPINIÃO DO AUTOR QUE

TODOS OS RELATÓRIOS

DE PRESTAÇÃO SEJAM

ENTREGUES OU

APRESENTADOS DE FORMA

COLETIVA, PARA QUE

TODOS OS ENVOLVIDOS

POSSAM CONHECER A

OPINIÃO DO TREINADOR

E AFERIR A JUSTIÇA DAS

DECISÕES – TANTO PRÉVIAS

COMO FUTURAS

sua concretização originar dupla gratificação.

No próximo capítulo, será sugerida uma

estratégia de intervenção micro que visa essa

dupla gratificação, nomeadamente o plano de

desenvolvimento individual (dentro de moldes

coletivos do ponto de vista tático-técnico).

O INDIVÍDUO NO SEU CONTEXTO:

ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO

MICRO

Como referido por Torrents & Balagué

(2006), na Teoria dos Sistemas Dinâmicos os

atletas são considerados sistemas dinâmicos

complexos – ao contrário de máquinas –,

auto-organizados e restringidos por fatores

morfológicos, psicológicos, fisiológicos,

biomecânicos, bem como pelas propriedades

da tarefa e do ambiente. Tendo em conta,

especialmente, os fatores psicológicos e as

propriedades da tarefa e do ambiente – da

forma como o jogador as perceciona –, é

de sublinhar a inequívoca importância

da inclusão do jogador nas tarefas de

decisão e planeamento do seu programa de

desenvolvimento pessoal.

Numa nota similar, os mesmos autores

prosseguem frisando que a individualidade

também deveria estar presente quando

propondo estímulos e quando avaliando as

respostas. Mais especificamente, afirmam que

“esta conceção sistemática e holística do jogador

irá dar pistas sobre as condições em que o atleta

deve desenvolver a sua atividade de treino,

com o intuito de obter a sua autoestruturarão

diferenciada” (Torrents & Balagué, 2006).

Assim, contextos em que a identidade

organizacional incorpore estratégias que

defendam as necessidades e preferências pessoais

facilitarão a interiorização da definição do self

(Asforth & Mael, 1996). Mais especificamente,

“quando a identidade pessoal é saliente

(contrapondo com identidade social), deverá

ser associada com a necessidade de atualização

do self, e de melhorar a sua autoestima através

do avanço pessoal e crescimento” (Haslam et al.,

2000). Esta atualização do self, consiste no desejo

auto-gerado de melhoria pessoal e vontade de

suprir o seu potencial.

As figura 8 e 9 em anexo representam uma

possível estratégia que visa suprir essa

necessidade de atualização do self, pela

criação de planos de desenvolvimento

individual. Estes são delineados pelo

treinador em parceria com cada jogador,

de forma a irem de encontro com as suas

necessidades individuais, mas dentro de

um contexto tático-técnico de identidade

coletiva. Neste exemplo, o processo consiste

em quatro fases: 1. Definição das tarefas

tático-técnicas individuais para cada posição;

2. Autoavaliação do jogador em cada tarefa;

3. Sintonização da avaliação do jogador

com a do treinador; 4. Definição conjunta

das prioridades de desenvolvimento do

jogador para um certo período de tempo.

Este processo permite à equipa técnica

a harmonização e operacionalização

da metodologia de treino consoante as

necessidades sentidas por cada jogador,

tanto através dos critérios de êxito para os

exercícios coletivos, como pela execução de

exercícios de treino complementares (mais

individualizados) na parte final da sessão,

aumentando assim os níveis de identificação

organizacional dos jogadores.

Epitropaki & Martin (2005) evidenciaram o

papel das diferenças individuais na relação

FPF360 101


ESTE TIPO DE LIDERANÇA,

QUE VISA UMA GESTÃO

DE RECURSOS HUMANOS

ONDE OS FUNCIONÁRIOS

SÃO CONSIDERADOS

PESSOAS E NÃO RECURSOS,

FOCA EM DAR PODER,

DESENVOLVER E CONFIAR

NOS FUNCIONÁRIOS,

GERINDO-OS COMO

HUMANOS. SUCINTAMENTE,

ENGLOBA PRÁTICAS QUE

VISAM A CRIAÇÃO DE

FUNCIONÁRIOS PROATIVOS,

PARTICIPATIVOS

E HABILIDOSOS

(MARESCAUX ET AL., 2013).

COMO DESCRITO PELOS

AUTORES, A FORMA COMO

AS PRÁTICAS DE GESTÃO

DE RECURSOS HUMANOS

SÃO IMPLEMENTADAS

PODE IMPORTAR MAIS DO

QUE A SIMPLES PRESENÇA,

DE FORMA A COLMATAR

AS NECESSIDADES BÁSICAS

DE AUTONOMIA, RELAÇÃO

E COMPETÊNCIA. INDO AO

ENCONTRO DA SATISFAÇÃO

DESTAS NECESSIDADES

BÁSICAS, O TREINADOR

IRÁ PROMOVER NO

JOGADOR SATISFAÇÃO

PESSOAL E COMPROMISSO

AFETIVO COM

A ORGANIZAÇÃO

entre perceção de liderança e identificação

organizacional. As diferenças individuais tidas

em conta neste estudo consistiam no esquema

de self (separação-conexão), afetividade

positiva e afetividade negativa. Dentro de

um processo conjunto treinador-jogador,

descrito acima nos planos de desenvolvimento

individual, pressupõem-se maiores

possibilidades de atingir conexão e afetividade

positiva. Para além disso, os planos em questão

têm por base uma liderança transformacional,

fortemente potenciadora de identificação

organizacional.

Dando suporte aos quatro passos

de operacionalização dos planos de

desenvolvimento individual, Reicher et

al. (2006) referiram que a “liderança é um

veículo para uma agência coletiva baseada na

identidade social, onde líderes e seguidores

são parceiros”. Neste estudo desenvolveram

um modelo de liderança segundo princípios da

teoria da auto-categorização, onde concluíram

que 1) a liderança depende de uma identidade

social partilhada; 2) os líderes são ativos na

criação/redefinição (transformação) dos

seguidores, que também desempenham

papel ativo; 3) a criatividade dos líderes na

iniciação de estruturas – atividades que visão a

realização dos objetivos coletivos – é essencial,

transformando a realidade.

Este tipo de liderança, que visa uma gestão

de recursos humanos onde os funcionários

são considerados pessoas e não recursos,

foca em dar poder, desenvolver e confiar nos

funcionários, gerindo-os como humanos.

Sucintamente, engloba práticas que

visam a criação de funcionários proativos,

participativos e habilidosos (Marescaux

et al., 2013). Como descrito pelos autores,

a forma como as práticas de gestão de

recursos humanos são implementadas pode

importar maisdo que a simples presença, de

forma a colmatar as necessidades básicas de

autonomia, relação e competência. Indo ao

encontro da satisfação destas necessidades

básicas, o treinador irá promover no jogador

satisfação pessoal e compromisso afetivo com

a organização.

Como descrito na figura 10, na criação

dos planos individuais, o treinador deve

preocupar-se com o desenvolvimento

da carreira do jogador, no treino das

características escolhidas, num processo de

avaliação evolutiva, na participação direta

do jogador e numa mentorização constante.

Como esquematizado, não só a presença

das estratégias mas também a qualidade da

implementação vai ser fundamental. Estas

preocupações terão influência direta na

satisfação das necessidades básicas que,

por sua vez, aumentarão o compromisso no

trabalho, o compromisso organizativo afetivo,

e numa intenção de “turnover”, ou seja, o

sucesso da equipa. Este esquema resume,

por isso, o objetivo essencial deste trabalho,

que se propunha a criar uma ponte concetual

entre a psicologia e a metodologia de treino.

DISCUSSÃO

Este trabalho teve como foco fundamental a

abordagem da temática da individualidade no

contexto coletivo, fazendo uma conjugação

racional e operacional entre a psicologia e

a metodologia de treino, e apresentando

possíveis estratégias de intervenção,

específicas no contexto futebolístico.

Começou-se por esclarecer os conceitos

evolutivos de identidade pessoal – self – e

identidade social, descrevendo as teorias e

modelos que foram apresentados ao longo

dos anos. Nestes, as relações dedutivas e

indutivas entre o indivíduo e o contexto social

foram explicadas com o intuito de explicar os

processos de influência na formação de um e

de outro. Durante os mesmos, vários perigos

podem surgir caso a gestão das diversas

identidades individuais seja desfasada das

características principais da identidade

social, tornando-se assim prejudicial à coesão

social e à tarefa. Estes processos foram

exemplificados dando especial atenção

à discriminação resultante de ameaça à

imagem pessoal e do não-conformismo às

normas grupais por indivíduos fortemente

identificados com o grupo, decorrente da

perceção de normas desfavoráveis para a

equipa ou do conflito entre normas internas.

Na parte final do trabalho foram sugeridas

estratégias práticas de intervenção macro e

micro, que correspondem a uma intervenção

coletiva, criando uma identidade social

ajustada, e individual, dando enfoque ao

desenvolvimento individual do jogador,

melhorando a sua motivação e compromisso.

Pretendeu-se, assim, criar uma base

de reflexão e debate sobre estratégias

metodológicas práticas no contexto

futebolístico, proveniente de um suporte

concetual da psicologia, sendo esta uma

carência clara na literatura.

102

FPF360


FPF360 103


ANEXOS

Alvo

Locus de identidade

(auto-representação

Locus de Agência

(crenças)

Locus de Obrigação

(valores)

Individual

Singularidade individual

Responsabilidade individual

é base de realização

Interessa pessoal

Relacional

Relações próximas definem self

Responsabilidade nas

funções

Interependência determina

realização

Necessidade dos outros

Hamonia nas relações

Coletivo

Identificação social

Grupo define self

Grupos são agentes

Bem-estar do grupo

Figura 1: Decomposição de individualismo e coletivismo (adapt. de Brewer & Chen, 2007)

Interdependência da Tarefa

Individualismo-Coletivismo

Identificação Coletiva

Precisão Meta-percetiva

Identificação Coletiva

› Alinhamento cognitivo

› Alinhamento comportamental

›Alinhamento emocional

Prestação Coletiva

› Output produtivo

› Sustentabilidade dos

processos coletivos

› Satisfação dos membros

da equipa

Figura 2: Modelo de relação entre identidade social e prestação coletiva (adapt. de Gundlach et. al, 2006)

104

FPF360


Conflito Normativo

Descompromisso

Não-conformismo

passivo

ou

Conformismo

estratégico

Dissidência

ou

Conformismo

desconfortável

Conformismo leal

Identificação Coletiva

Figura 3: Modelo da relação entre conflito normativo e identificação coletiva (adapt. de Packer, 2008)

identidade Social/Organizacional

NormasColetivas

Projeto do Clube

3 jogadores jovens locais - estabelecidos

› Foco na liderança e prestação coletiva

› Inclui 2 sub-capitães

4 jogadores jovens locais - promessas

› Foco coletivo

(cumprimento regulamento

interno e logística material)

3 jogadores jovens - promessas

› Foco individual

Projeto do Clube

5 jogadores experientes nim nível superior

› Foco na liderança e prestação grupal

› 1 GR - responsabilidade GK’s e bolas paradas

› 1 DC - responsabilidades linha defensiva

› 1 MC - responsabilidades ligação defesas-médios

› 1 MC - responsabilidades ligação médios-avançados

3 jogadores experientes num nível similar

› Foco individual

4 jogadores experientes num nível inferior

› Foco coletivo

(ligação com jogadores jovens)

Figura 4: Modelo teórico de hierarquização e gestão das funções sociais, em vigor no Kongsvinger IL Toppfotball, 2016

FPF360 105


FALTA

Figura 5: Feedback pós-jogo em vigor no Kongsvinger IL Toppfotball, 2016

Justiça Distributiva

Coesão na Tarefa

Justiça Processual

Identificação Coletiva

Coesão Social

Figura 6: Modelo estrutural de justiça distributiva e processual, identificação coletiva,

coesão social e coesão na tarefa (adapt. de De Backer et al., 2010)

106

FPF360


Mecanismos para Atingir Distinção

Nível de Distinção Realidade Estrutural Enquandramento Percetual

Distinção Grupal

Distinção Individual

Identificar com grupos númericos distintos

Identificar com grupos distintos

a nível convencional

Diferenciação de funções

Identificar com um grupo individualista

Aumentar percetualmente

a distinção do grupo

Identifcação sub-grupal

Ver-se leal mas não-conformista

Ver-se mais normativo que os outros

membros do grupo

Figura 7: Estratégias de equilíbrio entre necessidades de pertença e de diferenciação (adapt. de Hornsey & Jetten, 2004)

Figura 8: Plano de desenvolvimento individual - definição de funções tático-técnicas,

Kongsvinger IL Toppfotball, 2016

FPF360 107


Figura 9: Plano de desenvolvimento individual - sintonização das avaliações de jogador e treinador, Kongsvinger IL Toppfotball, 2016

Desenvolvimento de carreira

Treino

Necessidades Básicas

de Satisfação

Avaliação evolutiva

Participação direta

do funcionário

Autonomia

Relação

Competência

Compromisso

no trabalho

Compromisso

organizativo

afetivo

Intenção de

“turnover”

Mentorização

Presença

Qualidade da

Implementação

Figura 10: Modelo conceptual da relação entre a gestão de recursos humanos, as necessidades básicas de satisfação

e o compromisso coletivo (adapt. de Marescaux et al., 2013)

108

FPF360


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FPF360 109


110

FPF360


HUGO PEREIRA //

TREINADOR-ADJUNTO DA SELEÇÃO NACIONAL DA COLÔMBIA – 2019

TREINADOR-ADJUNTO ROSENBORG BK (1L – NORUEGA) - 2018

Nota introdutória por António Natal Rebelo – Formador FPF

Com base nos resultados de um trabalho de natureza académica realizado na primeira liga norueguesa

de futebol, Hugo Pereira aponta diferentes indicadores de qualidade do passe em futebol e analisa a

importância de diferentes condições e momentos do jogo sobre o seu sucesso. Servindo-se do exemplo

de um dos clubes noruegueses de maior projeção internacional, o autor termina a sua reflexão

apresentando opções metodológicas de treino delineadas a partir dos dados de observação.

MÉTODOS ANALÍTICOS

NA AVALIAÇÃO DO PASSE

NOTA INICIAL

O tema conceção e desenvolvimento de um

modelo de observação, análise e interpretação

do jogo de uma equipa é suficientemente

abrangente para se poderem considerar diversas

abordagens. Uma das possíveis consiste em

olhar com maior pormenor para os recursos que

estão disponíveis e rentabilizá-los na análise dos

jogadores e da equipa.

As equipas de futebol buscam constantemente

recursos que possam constituir uma vantagem

competitiva e, neste contexto, os métodos

analíticos baseados em dados estatísticos são

cada vez mais populares. De facto, existe hoje

informação extensa que possibilita análises

muito sofisticadas. Contudo, enumerar as

perspetivas de análise sob as quais é possível

dissecar um jogo de futebol pode ser um

exercício que nos afasta do pragmatismo.

Complicar em demasia a análise realizada a uma

equipa pode ser tentador porque legitima e, de

um certo modo, cultiva a sofisticação da análise

do jogo. Porém, é importante que não nos

esqueçamos que o futebol é um jogo tão popular

precisamente por ser simples.

Muito por culpa dos interesses económicos

associados, torna-se necessário lutar por todos

os centímetros que possam ser significativos

na maratona competitiva. O que se pretende no

final é traduzir para medidas de ação simples

o conhecimento gerado pelas ferramentas

de análise utilizadas, contribuindo para o

desenvolvimento da forma como o jogo é

jogado. Foi com este intuito que realizámos o

trabalho que a seguir apresentamos. Partimos

de um estudo de investigação, profundamente

detalhado e analítico, para chegar a medidas

de ação exequíveis na prática de treino. Este

exercício de reflexão proporciona, ao mesmo

tempo, a oportunidade de discorrer sobre uma

ferramenta de análise disponível no clube onde

trabalho.

O CONTEXTO

O investimento em recursos que podem

constituir uma vantagem competitiva tem

relevado a importância dos métodos de

análise do desempenho desportivo. Tais

métodos de análise podem ajudar a tomar

melhor decisões, não só com impacto direto

e imediato no desempenho da equipa, como

também no desenvolvimento e recrutamento

de jogadores.

Nos anos mais recentes, o Rosenborg tem

estreitado a sua colaboração com a NTNU

(Norges Teknsk-naturvitenskapelige universitet),

universidade sediada em Trondheim e com

reputação internacional, predominantemente

na área de investigação tecnológica e das

ciências naturais. Esta colaboração aparece

mais vincada na área das Ciências do

Desporto, em que foi já produzido um número

significativo de teses de mestrado, com

especial enfoque no futebol de formação.

FPF360 111


Nas últimas três épocas desportivas tem-se

cimentado a ligação com o Departamento

de Economia Industrial e de Gestão

Tecnológica da universidade, nomeadamente

na construção de um modelo de análise e

avaliação de jogadores de futebol. A seguir,

apresenta-se o estado atual de um modelo

de análise de futebolistas, construído pelos

alunos de mestrado do departamento

supracitado. Ao longo de três anos, em grupos

de dois e com dupla supervisão (clube e

universidade), os alunos foram criando e

recriando ângulos de análise e contribuindo

com maior ou menor significância para a

tomada de decisão relativamente a métodos

de treino individual ou, inclusivamente, a

recrutamento de jogadores.

A supervisão do clube traduz-se em sessões

de trabalho quinzenais nas quais se debate

o desenvolvimento dos projetos e das teses,

tentando sempre aproximar as descobertas

teóricas com a sua utilidade prática. A

principal motivação dos alunos tem sido a de

contribuir para a extensão dos trabalhos de

investigação em futebol com a construção de

modelos de análise (machine learning) que

consigam avaliar de um modo objectivo os

envolvimentos individuais dos jogadores no

jogo. O interesse primordial do Rosenborg

é o de caminhar para uma análise do jogo da

própria equipa que seja mais sofisticada e

melhor fundamentada.

O MODELO DE ANÁLISE

Wiig e Håland são as autoras da tese de

investigação intitulada Evaluating Passing

Behaviour in Association Football. Com

formação de base em Engenharia do Ambiente

e Energia e especialização em Métodos

Quantitativos em Finanças, Wiig e Håland

desenvolveram três modelos de análise para

avaliar a ação de passe dos jogadores de

futebol na liga norueguesa. Outros alunos

haviam já centrado o seu trabalho na avaliação

individual dos jogadores, mas a tese de Wiig

e Håland, utilizando técnicas estatísticas,

centrou-se exclusivamente na avaliação da

ação de passe.

Sendo o passe uma ação individual muito

importante, com influência significativa na

capacidade das equipas em manterem a bola

e progredirem no terreno de jogo para áreas

nas quais a probabilidade de golo é maior,

tem sido alvo de um número significativo de

estudos. Existem hoje modelos de análise que

estimam a probabilidade de sucesso do passe.

Tomando tais estudos como ponto de partida,

Wiig e Håland construíram três modelos de

análise do passe com o objetivo primordial

de identificar os fatores que influenciam o

sucesso deste gesto técnico na liga norueguesa

WIIG E HÅLAND SÃO

AS AUTORAS DA TESE

DE INVESTIGAÇÃO

INTITULADA “EVALUATING

PASSING BEHAVIOUR IN

ASSOCIATION FOOTBALL.”

COM FORMAÇÃO DE BASE

EM ENGENHARIA DO

AMBIENTE E ENERGIA

E ESPECIALIZAÇÃO EM

MÉTODOS QUANTITATIVOS

EM FINANÇAS, WIIG E

HÅLAND DESENVOLVERAM

TRÊS MODELOS DE

ANÁLISE PARA AVALIAR

A AÇÃO DE PASSE DOS

JOGADORES DE FUTEBOL

NA LIGA NORUEGUESA.

OUTROS ALUNOS

HAVIAM JÁ CENTRADO

O SEU TRABALHO NA

AVALIAÇÃO INDIVIDUAL

DOS JOGADORES, MAS A

TESE DE WIIG E HÅLAND,

UTILIZANDO TÉCNICAS

ESTATÍSTICAS, CENTROU-

SE EXCLUSIVAMENTE NA

AVALIAÇÃO DA AÇÃO DE

PASSE

de futebol e avaliar os jogadores quanto à sua

capacidade neste aspeto do jogo.

Dois dos modelos de análise construídos

estudaram a precisão do passe (Model 1 –

accuracy) – a que nos referiremos como passe

preciso – e a eficiência do passe (Model 3 –

effectiveness) – a que nos referiremos como

passe eficiente. A precisão de passe indica

se a bola atingiu com sucesso o recetor e a

eficiência de passe refere-se ao que integra

uma sequência de passes que antecedem

uma ação de finalização. Um dos aspetos

A PROBABILIDADE DE

SUCESSO DO PASSE É MAIS

ELEVADA QUANDO UM

JOGADOR JOGA ENTRE

QUINZE E OITENTA E CINCO

MINUTOS. OS JOGADORES

QUE JOGAM O TEMPO

TODO APRESENTAM

UM DECRÉSCIMO DE

RENDIMENTO NOS

ÚLTIMOS MINUTOS.

ESTE EFEITO DE FADIGA

É MAIS PREVALENTE

NO PASSE TÁTICO E NO

PASSE EFICIENTE. EM

TODOS OS MODELOS,

A PROBABILIDADE DE

SUCESSO DO PASSE NOS

ÚLTIMOS MINUTOS DO

JOGO É MAIOR PARA AS

EQUIPAS EM DESVANTAGEM

NO RESULTADO

mais inovadores desta dimensão de análise

foi a construção de um modelo para avaliar

o passe numa perspectiva tática (Model

2 – game overview), que evidencia o facto

de a ação consequente ao mesmo poder

garantir a continuidade da jogada – o que

denominaremos de passe tático.

Nestes modelos de análise foi proposto

um conjunto de fatores (ver tabela 5.2.)

que podem influenciar o sucesso do passe

e definidos sub-grupos consoante o tipo

de variável: efeitos fixos, constantes, e que

integram, entre outros, a direção e distância

do passe, eventos antecedentes ao passe,

período de jogo, dinâmica do resultado, clima,

tipo de superfície, etc.; e efeitos aleatórios

(random effects), variáveis nos quais

neste estudo se considera a competência

dos jogadores e das equipas em facilitar ou

dificultar os passes.

112

FPF360


Table 5.2: Summary of the explanatory variables initially used in the passing ability models. Fixed-effect variables are denoted by

X, random-effect variables by Z and smooth terms by f (·). Sections GLMM and GAMM give the notation used for a variable when

considered as a fixed effect and smooth term respectively. Empty entries in the GAMM section indicate that the same variable as in the

GLMM section is used or that the variable is not applicable for this case. Possible types of variables are continuous (C), categorical/factor

(F), binary (B) and interaction (I).

33

GLMM

Variable Description Type Variable Description Type

X 1.z Start zone z of a pass (z =1,...,21) F f 1 (x start , 4-D smooth handling the starting (x start , y start ) and C

X 2.z End zone z of a pass (z =1,...,21) F y start , ending coordinates (x end , y end ) of a pass ”

X 3.d Direction d of a pass (d =1, 2, 3, 4) F x end , ” ”

X 4 Length of a pass C y end ) ” ”

X 5 Difference in increased distance from the opponent’s goal C ” ” ”

X 6 Ball changes side of the field B ” ” ”

X 7.s Pass number category s in the current sequence (s =1, 2, 3, 4) F f 2 (X 7 ) 1-D smooth representing pass number in current sequence C

X 8 Time passed since the last occurred event C f 3 (X 8 ) 1-D smooth representing time passed since last occurred event C

X 9.p Game period p (p =1, 2, 3, 4) F f 4 (X 9 ) 1-D smooth representing game time in minutes C

X 10.gd Goal difference category gd (gd =1, 2, 3, 4, 5) F f 5 (X 10 ) 1-D smooth representing goal difference C

X 11 Tackle in the previous event B

X 12 Aerial duel in the previous event B

X 13 Interception in the previous event B

X 14.i The same player who took part in a tackle (i = 1)/aerial duel B

(i = 2)/interception (i = 3) also made the pass

X 15 Previous pass was a header B

X 16 Current pass is a header B

X 17 Player performing the pass plays for the home team B

X 18 Previous event was a free kick B

X 19 Previous event was a throw-in B

X 20 Corner taken within the past five events B

X 21 Elo rating of the opponent team C f 6 (X 21 ) 1-D smooth representing the Elo rating of the opponent team C

X 22 Ball recovery due to a loose ball in the previous event B

X 23 The match is played on artificial grass B

X 24.m Month m the match is played (m =3,...,11) F f 7 (X 24 ) 1-D smooth representing month of play C

X 25.i The same team executing a corner (i = 1)/ free kick (i = 2)/ B

throw-in (i = 3) attempted the pass

X 26.z The average position of the player by zone z (z =1,...,21) F f 8 (¯x, ȳ) 2-D smooth for a player’s average position with coordinates (¯x, ȳ) C

X 27 Time played by the player passing the ball C f 9 (X 27 ) 1-D smooth representing time played by player passing the ball C

X 1.z1 *X 2.z2 Interaction between the start zone z1 and end zone z2 I Incorporated in f 1

X 9.p *X 10.gd Game period p interacting with goal difference gd I f 10 (X 9 ,X 10 ) 2-D smooth for the interaction between game time and goal difference I

X 23 *X 24.m Type of ground surface interacting with month m of play I Included in f 7 (X 24 ) through a by argument

X 7.2 *X 18 Pass number 2 interacting with free kick in previous event I

X 7.2 *X 19 Pass number 2 interacting with throw-in in previous event I

Z 1.k Player k passing the ball (k =1,...,689) F

Z 2.t Team t the player is representing (t =1,...,19) F

Z 3.o Opponent team o of the player passing the ball (o =1,...,19) F

GAMM

5.1 Model Set-Up

Håland, E.M., Wiig, A. (2018). Evaluating Passing Behaviour in Association Football. Master Thesis, Norwegian University

of Science and Technology, Trondheim, Norway. Url: http://hdl.handle.net/11250/2576684

FPF360 113


O estudo dos efeitos aleatórios é um aspeto

muito importante do modelo de análise, precisamente

porque tenta neutralizar a influência

da competência individual ou coletiva nos

efeitos fixos em análise. Por exemplo, o efeito

que a superfície de jogo tem no sucesso do

passe realizado pelos jogadores A e B pode

depender da competência individual de A e de

B em realizar esse gesto; é esta variação que

se pretende neutralizar, de modo a poder-se

aferir com maior validade o efeito da superfície

de jogo. A aferição dos efeitos aleatórios é

igualmente importante porque nos garante,

à partida, uma avaliação inicial das equipas

e dos jogadores incluídos no estudo, dando-

-nos uma ideia relativamente à competência

dos jogadores e das equipas em facilitar ou

dificultar os passes.

Os dados utilizados para construir os modelos

de análise foram obtidos através da Opta

Sports – Opta24feed e são referentes aos jogos

entre os anos de 2014 e 2016. Para cada jogo da

liga norueguesa de futebol a Opta disponibiliza

um ficheiro XML que contém os eventos do

jogo que envolvam todas as ações com bola.

Os dados sobre os passes incluem os passes

open play, cabeceamentos, passes longos e

cruzamentos. Ainda que nem todos os dados

tenham sido contemplados na análise, no

seu conjunto estão incluídos 960 jogos, cerca

de 750 mil passes, realizados por 831 jogadores

e aproximadamente 203 mil sequências

de passe. Na figura 4.1. é apresentado um

exemplo de ficheiro XML disponibilizado pela

Opta24feed.

Chapter 4. Data

Figure 4.1: Opta F24 data structure.

114

FPF360

As illustrated in the example structure of an event from an Opta data file in

Håland, E.M., Wiig, A. (2018). Evaluating Passing Behaviour in Association Football. Master Thesis, Norwegian

Figure 4.1, University different of Science identifiers and Technology, are Trondheim, used to Norway. describe Url: http://hdl.handle.net/11250/2576684

the events happening during a

game. For each event, the identifiers provide information about the characteristics,

the whereabouts and the outcomes of the events. The coordinates used by Opta

to locate the happenings on the pitch are given relative to the team in possession

of the ball and range from 0 to 100 on both the x-axis (touchlines) and y-axis

(goal lines) as seen in Figure 5.1. The playing direction is thus always left to right.

Although the pitches in Eliteserien are differing in size, Opta uses the same size for

all pitches. The size is identified as being the standard dimensions, 105×68 meters,

set by the International Football Association Board, for which Haave and Høiland

(2016) provide evidence of coinciding well to the average pitch size in Eliteserien.

These dimensions are also utilised when doing calculations to correct errors.

Data processing was conducted in Java, and the XML-files were read using the

Java Document Model Interface. Further, the data was restructured and stored in a

database with tables containing information about all events, passes and four-sized

motifs identified in the data set. In total, 960 matches, 749,859 passes performed

by 831 different players and 203,313 motifs are included in the data set. Note that

this is the total number, and not necessarily also the number used in the analyses.

Passes include passes from open play, headed passes, long passes and crosses.


FPF360 115


Para cada evento do jogo, a Opta disponibiliza

informação sobre as características, a zona e

o resultado de cada evento (bem-sucedido ou

não). As coordenadas utilizadas para localizar

os eventos no jogo são relativas à equipa

em posse de bola e incluem os dois eixos do

campo (x – linhas de baliza e y – linhas laterais;

Figura 5.1.).

Chapter 5. Evaluating Passing Ability

Na leitura do jogo, de um modo mais intuitivo,

percebemos que a posição dos jogadores

que realizam e/ou recebem o passe influencia

o seu sucesso, além de nos poder dizer algo

sobre a proximidade dos adversários e da sua

assertividade defensiva.

Figure 5.1: The Opta pitch coordinate system divided into 21 zones. Direction of play

is left to right, always relative to the team in possession of the ball.

Håland, E.M., Wiig, A. (2018). Evaluating Passing Behaviour in Association Football. Master Thesis, Norwegian University

of Science and Technology, Trondheim, Norway. Url: http://hdl.handle.net/11250/2576684

116

FPF360


O sistema de coordenadas da OPTA divide

o campo em 21 zonas. Tais sistemas são

importantes para avaliar de um modo mais

preciso a capacidade dos jogadores em realizarem

ou receberem os passes. O sistema de

coordenadas é igualmente importante para se

poder calcular o posicionamento médio dos

jogadores que integra o conjunto de variáveis

a estudar.

Chapter 5. Evaluating Passing Ability

OS RESULTADOS

MAIS SIGNIFICATIVOS

Como nota inicial para a apresentação dos

resultados da tese de Wiig e Håland, interessa

recordar que o objectivo primordial era o

de identificar os fatores que influenciavam

o sucesso do passe na liga norueguesa de

futebol e de avaliar os jogadores quanto à sua

capacidade nesse capítulo. Os resultados são

apresentados de acordo com a forma como a

descrição do modelo de análise foi organizada.

EFEITOS ALEATÓRIOS

No que diz respeito aos efeitos aleatórios é de

salientar que as equipas com menor capacidade

para facilitar ou dificultar passes são as que

obtiveram uma posição na segunda metade

da tabela classificativa ou que foram despro-

movidas no decurso das épocas consideradas

(Sogndal, Mjøndalen e Trømso). Supreendentemente,

equipas como o Rosenborg,

Strømsgodset ou Molde, que tiveram um bom

desempenho nas épocas em estudo, obtiveram

coeficientes negativos em dificultar

os passes em todos os modelos de análise.

O Rosenborg e o Odd foram as equipas com

coeficientes mais elevados em facilitar o passe

preciso e o passe tático e o Rosenborg foi

igualmente a equipa com maior coeficiente no

passe eficiente. Em baixo reproduzimos a figura

apresentada pelas autoras para evidenciar a

análise dos efeitos aleatórios (Figura 5.5.).

Figure 5.5: Random-effect coefficients of teams in Eliteserien for all models. The coefficients

are based on data from the 2014-2016 seasons. The overall team skill of hampering

passes is given on the x-axis while the overall team skill of facilitation is given on the

y-axis, both skills with respect to the pass aspects considered. Team abbreviations are

explained in Appendix D.

Håland, E.M., Wiig, A. (2018). Evaluating Passing Behaviour in Association Football. Master Thesis, Norwegian University of Science

WhoScored.com and Technology, (2018) state Trondheim, thatNorway. the top Url: http://hdl.handle.net/11250/2576684

five teams in terms of pass accuracy in

Eliteserien 2016 were, listed in descending order, Rosenborg, Odd, Strømsgodset,

Vålerenga and Molde. Moreover, the teams with the highest number of shots

per game in the season were Rosenborg, Molde, Sarpsborg 08, Lillestrøm and

Strømsgodset. Although being valid only for the 2016 season, the statistics support

the observations in the figures in terms of the facilitation scores.

FPF360 117


EFEITOS FIXOS EM CADA MODELO

A seguir são apresentados os resultados de

cada modelo de análise e são apreciados os fatores

que tiveram efeito no sucesso do passe.

É importante salientar que os resultados são

expressos em índices de probabilidade e que

a variação entre a maior e a menor probabilidade

pode ser, por vezes, muito ténue. Os

resultados devem, portanto, ser interpretados

com cuidado, mas com curiosidade.

MODELO 1 – O PASSE PRECISO

› O passe preciso pode ter maior probabilidade

de sucesso, quando:

› a ação que o antecede for um desarme

(tackle);

› a ação que o antecede for uma bola

perdida (loose ball);

› a ação que o antecede for um lançamento

de linha lateral do adversário;

› precedido por um canto ofensivo;

› o jogo decorre em relvado artificial;

› as equipas jogam em casa;

› as equipas estão em desvantagem por

dois golos ou em vantagem por pelo me

nos quatro golos;

› O passe preciso de pode ter menor probabilidade

de sucesso quando:

› a ação que o antecede for um duelo

aéreo;

› a ação que o antecede for um passe de

cabeca;

› uma das equipas está com vantagem de

um golo (efeito pressing);

MODELO 2 – O PASSE TÁTICO

› O passe tático pode ter maior probabilidade

de sucesso quando:

› se realiza na primeira metade de cada

uma das partes do jogo;

› as equipas estão em desvantagem ou em

vantagem por quatro golos;

› O passe tático pode ter menor probabilidade

de sucesso quando:

› Se realiza após um canto defensivo;

MODELO 3 – O PASSE EFICIENTE

› O passe eficiente pode ter maior probabilidade

de sucesso quando:

› antecedido por contra-ataque;

› antecedido por canto defensivo (inicia

contra-ataque);

› se realiza na primeira metade de cada

uma das partes do jogo;

› as equipas estão em vantagem no

resultado;

› é realizado no sentido da baliza (para a

frente);

› O passe eficiente pode ter menor probabilidade

de sucesso quando:

› se realiza após um canto ofensivo;

› as equipas estão em desvantagem no

resultado.

EFEITOS FIXOS GENERALIZADOS

A superfície de jogo, as condicões climatéricas

sazonais e as fases da época desportiva foram

igualmente fatores em análise. De um modo

geral, para todos os modelos, os resultados sugerem

que o que influencia de um modo mais

acentuado o sucesso do passe são as condições

climatéricas e a superfície do jogo (relvado

natural ou relvado artificial). As condicões

do relvado natural estão mais deterioradas no

início e no final da época e não foram encontradas

evidências de maiores benefícios em

jogar neste tipo de superfície. Pelo contrário:

principalmente nos meses de março e abril,

existe uma vantagem significativa de jogar em

relvado artificial.

Os efeitos do tempo de jogo, medido em minutos,

são semelhantes em todos os modelos

de análise. A probabilidade de sucesso do

passe é mais elevada quando um jogador joga

entre quinze e oitenta e cinco minutos. Os

jogadores que jogam o tempo todo apresentam

um decréscimo no seu desempenho nos

últimos minutos. Este efeito da fadiga é mais

prevalente no passe tático e no passe eficiente.

Em todos os modelos, a probabilidade de

sucesso do passe nos últimos minutos do jogo

é maior para as equipas em desvantagem no

resultado.

O posicionamento dos jogadores também

contribuiu para diferenciar a dificuldade em

realizar o passe com sucesso. Todos os modelos

indicaram que a zona com maior índice

de probabilidade de sucesso do passe é aquela

onde habitualmente os defesas-laterais jogam.

Paralelamente, as zonas centrais próximas da

baliza são aquelas em que os índices de probabilidade

de sucesso do passe diminuem.

AVALIAÇÃO DOS JOGADORES

A partir da avaliação do índice de sucesso

no passe foram constituídas listas de classificação

de top 10 (ver Panel A: Model 1,

Panel B: Model 2 e Panel C: Model 3). Foram

apenas considerados na análise os jogadores

de campo que tinham realizado mais de 209

passes. Os defesas dominaram a lista top 10

do passe preciso enquanto que a proporção de

atacantes nas listas do passe tático e do passe

eficiente foi superior. Uma das explicações

adiantadas pelas autoras foi o facto de serem

os jogadores destas posições que efetuam

sequências de passe mais alargadas e que,

por outro lado, têm maior possibilidade de

iniciar fases de contra-ataque. A inclusão de

um maior número de atacantes nos coeficientes

do passe eficiente poderá ser explicada

pelo facto de o modelo de análise considerar

os passes que contribuíam para uma ação de

finalização.

118

FPF360


Table 5.9: The random-effect coefficients of the top ten passers during the 2014-2016

seasons of Eliteserien for all models. Player position and team abbreviations are 5.2explained

Results

in Appendix D. If a player has played for more than one team in the seasons considered,

the team for which the player has played more matches during these seasons is given.

Table 5.9: The random-effect coefficients of the top ten passers during the 2014-2016

seasons of Eliteserien for all models. Panel PlayerA: position Model and 1 team abbreviations are 5.2explained

Results

in Appendix D. If a player has played for more than one team in the seasons considered,

the team for which # thePlayer player has played more matches Teamduring Pos these Coef seasons is given.

Table 5.9: The 1random-effect Johan Lædre coefficients Bjørdalof the RBK top ten CD passers0.473

during the 2014-2016

seasons of Eliteserien 2 for Martin all models.

Panel

Ødegaard Player

A:

position

Model

SIF and

1

teamAMabbreviations 0.422 are explained

in Appendix D. If3 a player Christian has played Grindheim for more thanVIF one team CMin the 0.419 seasons considered,

# Player Team Pos Coef

the team for which

4

the

Daniel

player

Berg

has played

Hestad

more matches

MOL

during

CM

these

0.412

seasons is given.

5

1

Markus

Johan Lædre

Berger

Bjørdal RBK

STA CD

CD

0.401

0.473

6

2

Joona

Martin

Toivio

Ødegaard Panel A: Model

MOL

SIF 1 AM

CD 0.397

0.422

7

3

Tomasz

Christian

Sokolowski

Grindheim

STB

VIF

CM

CM

0.394

0.419

8

4

# Player

Johan

Daniel

Andersson

Berg Hestad

Team

MOL

LSK

CM

Pos

CM

0.412

Coef

0.391

9

51 Even

Markus JohanHovland Lædre Berger Bjørdal MOL RBK STA CD 0.341

0.401 0.473

10

62 Enoch

Joona MartinToivio Kofi Ødegaard Adu

MOL

STB SIF AM CM

CD 0.397

0.337 0.422

73 Tomasz ChristianSokolowski Grindheim STB VIF CM 0.394 0.419

84 Johan Daniel Andersson Berg Hestad MOL LSK CM 0.412 0.391

Os dois defesas laterias do 95 Rosenborg, Even Markus Hovland Birger

Berger

Meling Panel B: e Vegar Model Hedensad, MOL STA

2

CD

lideraram 0.341 0.401

a lista top 10 do passe preciso.

10 6 Enoch Joona Toivio Kofi Adu MOL STB CM CD 0.397 0.337

# Player Team Pos Coef

7 Tomasz Sokolowski STB CM 0.394

81 Johan Magnar Andersson Ødegaard TIL CD 0.278

Panel B: ModelLSK 2 CM 0.391

92 Even Anthony Hovland Annan MOL STB CM CD 0.275 0.341

10 3# Enoch Player Karol Mets Kofi Adu Team STB VIK CM Pos 0.264 0.337 Coef

4 Giorgi Gorozia STB CM 0.263

5

1

Johan

Magnar

Lædre

Ødegaard

Bjørdal RBK

TIL CD

CD

0.278

0.260

6

2

Indridi

Anthony

Sigurdsson

Annan Panel B: ModelSTB 2

VIK

CM

CD

0.275

0.252

7

3

Anthony

Karol Mets

Soares

VIK

VIK

CM

CD

0.264

0.251

4

# Player

8 Jukka

Giorgi

Raitala

Gorozia

Team

SOG

STB CM

Pos

FB

0.263

Coef

0.247

19 5

Fredrik

Johan Magnar Lædre

Michalsen Ødegaard Bjørdal RBK TIL CM CD 0.238 0.278 0.260

2

10

6

Hólmar

Indridi AnthonySigurdsson Örn

Annan

Eyjólfsson RBK

STB VIK CM

CD

CD

0.237

0.275 0.252

37 Anthony Karol Mets Soares VIK CM CD 0.264 0.251

48 Jukka Giorgi Raitala Gorozia SOG STB CM FB 0.263 0.247

95 Fredrik Johan Lædre Michalsen Panel

Bjørdal

C: Model

RBK TIL 3 CM CD 0.238 0.260

10 6 Hólmar Indridi Sigurdsson Örn Eyjólfsson RBK VIK CD 0.237 0.252

# Player Team Pos Coef

7 Anthony Soares VIK CD 0.251

A lista top 10 do passe tático 18 incluiu Joona Jukka de igual Toivio Raitala modo os dois defesas MOL laterais CD do Rosenborg, 0.148 aos quais se junta, curiosamente

um defesa-central 29 (Jacob Magnar Fredrik Rasmussen), Michalsen Ødegaard que apenas ocasionalmente TIL CM CD esteve 0.238 0.140 incluído no onze inicial.

Panel C: ModelSOG 3 FB 0.247

# 310 Player Kristian Hólmar Örn BrixEyjólfsson Team RBK B/G WB Pos CD 0.237 0.137 Coef

4 Mohamed Ofkir LSK WI 0.124

5

1

Giorgi

Joona Toivio

Gorozia

MOL

STB CM

CD 0.148

0.110

2

6

Magnar

Jone Samuelsen

Ødegaard Panel C: Model

ODD

TIL 3

CM

CD

0.104

0.140

3

7

Kristian

Maic Sema

Brix

FKH

B/G WB

AM 0.099

0.137

#

4

Player

8

Mohamed

Ernest Asante

Ofkir

Team

STB

LSK

Pos

WI

WI 0.124

Coef

0.099

19 5 Joona Eirik

Giorgi

Mæland Toivio Gorozia MOL FKH

STB

CM

CM CD 0.148 0.110

0.098

210 6 Magnar Erlend

Jone Samuelsen

Hanstveit Ødegaard ODD

BRA TIL CM CD FB

0.104

0.098 0.140

37 Kristian Maic Sema Brix FKH B/G WB AM 0.099 0.137

48 Mohamed Ernest Asante Ofkir STB LSK WI 0.124 0.099

59 Giorgi Eirik Mæland Gorozia FKH STB CM 0.110 0.098

610 Jone Erlend Samuelsen Hanstveit ODD BRA CM FB 0.104 0.098

51

7 Maic Sema FKH AM 0.099

8 Ernest Asante STB WI 0.099

9 Eirik Mæland FKH CM 0.098

51

10 Erlend Hanstveit BRA FB 0.098

Por fim, no que diz respeito ao passe eficiente, bastante interessante terá sido o facto de Daniel Braaten, avançado

veterano do Brann, apesar de não ser muito utilizado e de ter um número total de passes inferior aos outros 51 jogadores

da lista top 10, ter confirmado a ideia generalizada de que se tratava de um jogador com um índice muito elevado

de sucesso no passe.

Håland, E.M., Wiig, A. (2018). Evaluating Passing Behaviour in Association Football. Master Thesis, Norwegian

University of Science and Technology, Trondheim, Norway. Url: http://hdl.handle.net/11250/2576684

FPF360 119


QUE IMPLICAÇÕES PRÁTICAS?

A leitura dos resultados mais significativos deste

estudo pode fornecer substância para influenciar

a prática, uma vez que os métodos de treino

de aperfeiçoamento do passe, da manutenção

de posse de bola ou as formas jogadas são

suficientemente abertos para poderem integrar

condicionantes que permitam aumentar a

probabilidade de sucesso do passe nos jogos. Do

ponto de vista estratégico-tático de preparação

do jogo, a leitura dos resultados pode ser significativa

para elevar o nível de facilitação do passe

ou de perturbação dos passes do adversário. As

sugestões que se seguem provêm da leitura dos

resultados apresentados no ponto anterior e

estão organizadas segundo a estrutura utilizada

na apresentação dos resultados. Focaremos a

nossa análise no ponto de vista das implicações

práticas a retirar pela equipa do Rosenborg.

EM RELAÇÃO AOS

EFEITOS ALEATÓRIOS

A equipa do Rosenborg evidenciou usar todos

os tipos de passe, o que pode ser resultado não

só da qualidade individual dos seus jogadores,

mas também da frequência com que necessita

de fazê-lo. As equipas que jogam contra o

Rosenborg raramente têm iniciativa no jogo,

dando prioridade a uma abordagem assente

na defesa baixa e no contra-ataque. Um dos

aspetos a melhorar na equipa assenta no

desenvolvimento da capacidade em dificultar

os passes do adversário. Este aspecto pode

dar indicações sobre a proximidade em relação

ao portador da bola ou sobre o número de

jogadores entre o portador da bola e a própria

baliza. Por assumir a posse da bola na maioria

dos jogos, a equipa está mais exposta a contra-

-ataques, o que em certa medida pode explicar

o coeficiente negativo observado. Ao melhorar

a capacidade para defender o contra-ataque

através de uma reação mais rápida à perda

da bola (voltar a recuperar a bola ou recuperar

as posições), existe a forte possibilidade de

aprimorar também a capacidade da equipa em

dificultar os passes dos adversários.

EM RELAÇÃO AOS EFEITOS

FIXOS DE CADA MODELO

As equipas que jogam em casa e as equipas

que jogam em relvado artificial têm maior

probabilidade de ter sucesso no passe preciso.

O facto de o Rosenborg jogar habitualmente

em relvado natural, e essa condição ser menos

frequente para a maioria dos seus adversários,

pode indicar que uma estratégia defensiva

mais proativa nos jogos em casa (pressing

alto e assertivo no portador da bola), possa

induzir maior sucesso na conquista do esférico

pelo facto de contribuir para um maior

insucesso dos passes dos adversários.

Os passes subsequentes aos desarmes e às

bolas perdidas apresentaram uma maior taxa

de sucesso. Um posicionamento mais próximo

nos duelos individuais por parte dos

defesas em cobertura ou equilíbrio defensivo

pode garantir um pressing mais incisivo sobre

o jogador adversário que executa o passe,

aumentando a frequência e a rapidez na conquista

da bola nestas condições.

Os passes subsequentes aos lançamentos de

linha lateral e aos cantos defensivos apresentaram

uma maior taxa de sucesso (e.g. maior probabilidade

de sucesso do passe eficiente após

um canto defensivo). Em relação ao primeiro

momento, parece ser uma boa estratégia promover

a concentração defensiva na zona em

que o lançamento de linha lateral é efetuado,

de modo a que se potencie a probabilidade

de se recuperar a bola para de seguida se efetuar

um passe preciso. Uma opção estratégica mais

radical deste aspeto pode incluir o incentivo

de permitir lançamentos da bola para a equipa

adversária em zonas mais recuadas para depois

se recuperar a mesma e efetuar passes que

propiciem condições de finalização. Relativamente

ao segundo momento, foi verificado que

a probabilidade de existir um contra-ataque

após um canto ofensivo é maior (sucesso do

passe eficiente) do que esse mesmo canto

que precedeu o contra-ataque poder resultar

numa ação de finalização. Neste sentido,

torna-se muito importante ter a garantia de

que a equipa está equilibrada e preparada

defensivamente para lidar com o momento

de transição defensiva após um canto

ofensivo. Foi também observado que o passe

preciso subsequente a um duelo aéreo ou a um

passe de cabeça apresentava menor probabilidade

de sucesso. Tendo em conta estes aspetos

isoladamente, consideramos ser importante

que os métodos de treino de aperfeiçoamento

do passe e de manutenção de posse de bola

integrem elementos que induzam ao aumento

da taxa de realização do passe com bola no ar

e se melhore a sua precisão.

O facto de o passe preciso ter apresentado

uma maior probabilidade de sucesso quando

as equipas estavam com vantagem ou

desvantagem alargada no resultado pode

indicar um excessivo conforto dos jogadores

nestas circunstâncias, mesmo com alguma

desconcentração, o que poderá influenciar na

sua atenção e pré-ativação. Nestes momentos,

parece ser pertinente (para além de treinar

este tipo de cenários) a intervenção do

treinador, quer através da sua comunicação

para dentro do campo, quer através

das substituições que vai introduzindo

na equipa durante o jogo. Por outro lado,

verificou-se que o passe preciso apresentava

uma menor probabilidade de sucesso quando

uma das equipas estava em vantagem de um

golo. O treino deste tipo de cenário, em que

os níveis de stress serão mais acentuados,

parece ser fundamental.

O passe tático apresentou uma maior

probabilidade de sucesso quando as equipas

estavam em desvantagem ou em vantagem

por, no mínimo, quatro golos. Neste caso, a

proximidade dos adversários em redor da

zona da bola é provavelmente menos acentuada

e as equipas optam por um jogo de passe

mais curto.

A probabilidade de sucesso do passe tático

(e do passe eficiente) parece ser igualmente

maior quando realizados na primeira metade

de cada uma das partes do jogo, o que

pode significar um maior conservadorismo

defensivo das equipas nestas fases, nomeadamente

dando prioridade ao bloqueio de

espaços mais próximos da própria baliza. Um

plano estratégico-tático mais proativo, que

implique maior ação de pressing nestes

períodos do jogo, poderá condicionar o

sucesso do passe tático.

Por último, o passe eficiente apresentou maior

probabilidade de sucesso quando realizado no

sentido da baliza adversária (para a frente), o

que parece natural, uma vez que é realizado no

sentido da zona de finalização. As equipas devem

ser incentivadas a jogar no sentido da

baliza adversária e a executar o passe para

a frente de modo a potenciarem as ações de

finalização. Esta informação não é inovadora,

mas é realçada neste estudo. Curiosamente,

o passe eficiente apresenta menor

probabilidade de sucesso quando realizado

após um canto ofensivo, o que se constitui

como um dado de certa forma inesperado,

dada a proximidade da baliza adversária.

EM RELAÇÃO AOS EFEITOS

FIXOS GENERALIZADOS

Nos meses de março e abril, verificou-se uma

maior probabilidade de sucesso do passe quando

as equipas jogavam em relvado artificial. Neste

período da época futebolística na Noruega, as

condições climatéricas (neve e gelo) afetam

severamente o estado do relvado natural.

A Liga Norueguesa de Futebol Profissional

releva a importância deste facto quando autoriza

que a primeira jornada do campeonato seja

realizada fora, para as equipas que possuam

relvado natural no seu estádio. Uma das formas

de contrariar o efeito que o estado do relvado

exerce na probabilidade de sucesso do passe é

ajustar o plano estratégico-tático do jogo nestes

meses de competição, retirando importância de

manter a posse da bola em zonas mais próximas

da própria baliza por longos períodos e incentivando

um pressing mais assertivo sobre o

portador da bola.

120

FPF360


A probabilidade de sucesso do passe mostrou-se

mais elevada quando um jogador jogava mais de

quinze minutos. Além disso, os jogadores que

jogavam o tempo todo apresentavam um decréscimo

no seu desempenho nos últimos minutos

do jogo. Este efeito parece ficar a dever-se à fadiga

e revelou-se mais prevalente no passe tático e

no passe eficiente. A fadiga pareceu influenciar

não apenas a probabilidade de sucesso do passe,

mas todas as outras ações técnicas observadas.

Com base nestes resultados, poderão ser equacionadas

pelos menos duas recomendações: a

primeira, mais óbvia, aponta para a intervenção

do treinador nas substutições durante o jogo,

proporcionando um tempo de jogo superior

a quinze minutos aos jogadores substitutos; a

segunda, releva a importância da utilização de

métodos de treino de aperfeiçoamento do

passe e de manutenção da posse da bola em

fadiga (no final do treino) e com intensidade

moderada a elevada.

EM RELAÇÃO À AVALIAÇÃO

DOS JOGADORES

De acordo com o estudo realizado, a zona com

maior índice de sucesso do passe foi aquela em

que habitualmente os defesas-laterais jogam. A

importância dos defesas laterais para a fase de

ataque da equipa Rosenborg é inegável. Os resultados

deste estudo denunciam-no e os capítulos

seguintes da tese de Wiig e Håland (que não são

objeto desta reflexão) confirmam-no quando

abordam as temáticas da análise de redes (network

analysis) e os rankings de popularidade

dos jogadores na equipa. O que nos parece ser

mais importante salientar neste momento é que

o recrutamento dos jogadores para estas duas

posicões (defesa-lateral esquerdo e defesa-lateral

direito), do ponto de vista ofensivo (para o

qual a capacidade de passe contribui obviamente

de forma significativa), é decisivo.

NOTA FINAL

A realização desta reflexão teve como principal

intenção proporcionar a oportunidade

de analisar uma tese que foi realizada com o

intuito de ter impacto na prática de um clube

de futebol. As implicações práticas parecem,

neste momento, claras, ainda que seja

prudente ter reservas relativamente a algumas

considerações redigidas. A interpretação da

informação é pessoal e está, como em muitos

outros aspetos da perceção humana, sujeita

a preconceitos derivados da experiência.

Adicionalmente, estes tipos de teses são de

difícil leitura. Para nós, foi inclusivamente

difícil supervisionar as alunas autoras da tese

e acompanhar o ritmo com que as análises

iam sendo realizadas e os resultados apresentados.

Esta será uma enorme barreira entre

a produção académica e o treino de futebol

profissional. Obviamente, existem clubes que

têm evoluído e investido muito nas suas equipas

de análise do desempenho desportivo.

Porém, para clubes como o Rosenborg, com

um staff técnico reduzido, este tipo de colaboração

entre a academia e o clube fica algo

comprometido. Neste contexto, existe ainda

uma dificuldade relacionada com a comunicação.

Escrever e falar simples sobre informação

recolhida com metodologia científica

constitui-se como tarefa muito árdua. Porém,

a reflexão que apresentámos neste trabalho

constituiu-se para nós como um momento de

enorme aprendizagem.

NOS MESES DE MARÇO

E ABRIL, VERIFICOU-SE

UMA MAIOR

PROBABILIDADE

DE SUCESSO DO PASSE

QUANDO AS EQUIPAS

JOGAVAM EM RELVADO

ARTIFICIAL. NESTE

PERÍODO DA ÉPOCA

FUTEBOLÍSTICA NA

NORUEGA, AS CONDIÇÕES

CLIMATÉRICAS (NEVE

E GELO) AFETAM

SEVERAMENTE O ESTADO

DO RELVADO NATURAL.

A LIGA NORUEGUESA

DE FUTEBOL PROFISSIONAL

RELEVA A IMPORTÂNCIA

DESTE FACTO QUANDO

AUTORIZA QUE

A PRIMEIRA JORNADA

DO CAMPEONATO SEJA

REALIZADA FORA, PARA

AS EQUIPAS QUE POSSUAM

RELVADO NATURAL NO

SEU ESTÁDIO. UMA DAS

FORMAS DE CONTRARIAR

O EFEITO QUE O ESTADO

DO RELVADO EXERCE

NA PROBABILIDADE

DE SUCESSO DO PASSE

É AJUSTAR O PLANO

ESTRATÉGICO-TÁTICO

DO JOGO NESTES MESES

DE COMPETIÇÃO,

RETIRANDO IMPORTÂNCIA

DE MANTER A POSSE

DA BOLA EM ZONAS

MAIS PRÓXIMAS DA

PRÓPRIA BALIZA POR

LONGOS PERÍODOS E

INCENTIVANDO UM

PRESSING MAIS ASSERTIVO

SOBRE O PORTADOR

DA BOLA

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