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EXAME Abril 2020

Nesta edição analisamos o impacto da crise provocada pelo Covid 19 a nível global, no continente africano e em Moçambique, recorrendo à opinião de diversos especialistas. Mas não só. Procuramos também opiniões de como sair dela. A secção Inovação apresenta um conjunto de iniciativas que se estão a desenvolver para o ataque a este vírus. E a resposta só pode vir da inovação.

Nesta edição analisamos o impacto da crise provocada pelo Covid 19 a nível global, no continente africano e em Moçambique, recorrendo à opinião de diversos especialistas. Mas não só. Procuramos também opiniões de como sair dela.
A secção Inovação apresenta um conjunto de iniciativas que se estão a desenvolver para o ataque a este vírus. E a resposta só pode vir da inovação.

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CRISE ● Acentuou

a competição global

BAD ● Na vanguarda

da resposta à recessão

Nº 87 v Abril 2020 v 200Mt v 5

Edição Moçambique

PANDEMIA

ATAQUE

À ECONOMIA GLOBAL

O coronavírus infectou e parou as economias mais desenvolvidas, tornando a crise

de saúde pública inevitável uma terrível recessão global. Que impacto vão ter em

Moçambique o possível alastramento da pandemia em África e o rombo causado

pela COVID-19 na economia do planeta?

INOVAÇÃO

Corrida

contra

o vírus


REVISTA MENSAL — ANO 7 — N O 87 — ABRIL 2020

TIRAGEM: 10 000 EXEMPLARES — CAPA: GETTY

ECONOMIA

44 Desnutrição O país perde anualmente cerca de 1,6 mil

milhões de dólares devido à desnutrição crónica

NEGÓCIOS

50 Eventos Josefa Massinga aventurou-se em 2015 num

negócio de venda de flores e actualmente faz a decoração

de todo o tipo de eventos

MOÇAMBIQUE

54 Idai Um ano volvido sobre o ciclone, Myrta Kaulard,

representante da ONU em Moçambique, faz o balanço

da recuperação

44

DESNUTRIÇÃO:

A patologia afecta

o desenvolvimento

da economia

50

JOSEFA MASSINGA:

A ambição é crescer

na área dos eventos

D.R.

58 Recomeçar Os realojados dos ciclones de 2019 fazem

experiências com o apoio das Nações Unidas e ONG

para tentar fazer crescer algo que os sustente

GLOBAL

62 Comércio Donald Trump, Presidente dos EUA, ameaça

impor tarifas ao Brasil

66 Desporto O super Flamengo pode tornar-se o primeiro

bilionário do futebol brasileiro

TECNOLOGIA

7O Streaming Os serviços de streaming de música vão

alcançar mil milhões de ouvintes em todo o mundo

74 Saúde A tecnologia oferece soluções de qualidade

para os mais idosos, mas o vírus não os poupa

EDILSON TOMÁS

88

INOVAÇÃO:

O coronavírus é um

desafio para os

inovadores em todo

o mundo

MARKETING

78 Arte O calendário Pirelli de 2020 centra-se na visão

contemporânea da personagem de Shakespeare

GESTÃO

84 Entrevista O presidente mundial do grupo de logística

DHL, Frank Appel, explica como se comanda uma empresa

num cenário de instabilidade

86 Vendas A Embraco, o maior fabricante de compressores

do mundo, melhorou o atendimento ao cliente

GETTY

ESPECIAL

88 Inovação As soluções inovadoras surgem numa corrida

contra-relógio com a pandemia

SECÇÕES

Editorial 6

Primeiro Lugar 8

Grandes Números 14

Oil&Gas 48

Bazarketing 76

Mundo Plano 82

Exame Final 98

4 | Exame Moçambique


CAPA

16 Da pandemia à recessão

O novo coronavírus infectou brutalmente as

economias mais desenvolvidas da Ásia, Europa, África

e Estados Unidos, obrigando-as a quase parar, e alastra

em África. Os prejuízos são astronómicos, os governos

gastam milhares de milhões no combate à pandemia

e socorro à economia. A recessão global, inevitável,

causará um impacto devastador em todas as

economias. Moçambique terá de enfrentá-lo.

GETTY


CARTADODIRECTOR

IRIS DE BRITO

DIRECTORA

O REGRESSO

DA CONFIANÇA

O

mundo despertou este ano para uma pandemia

que não escolhe credos, raças ou

classes sociais, que a todos, do mais vulnerável

ao mais saudável, vai afectar. Para lidar

com ela, a vida vai ter que mudar. Em nome da

defesa da vida. Mais do que pensarmos no que

está para trás, temos de pensar no que podemos

fazer para minimizar os seus impactos e

TODOS TEREMOS

prepararmo-nos para uma nova realidade. Esta

crise passará por três fases: contenção, mitigação DE NOS

e recuperação.

REINVENTAR.

Com maior ou menor celeridade, os países UMA VEZ MAIS

tomaram medidas para conter uma ameaça para

a qual não há ainda uma solução. Mas o conceito de responsabilidade social é

agora cada vez mais importante, à medida que nos apercebemos que os estados

não têm capacidade para lidar com esta crise sozinhos. Os empresários vencedores

serão aqueles que, enfrentando um mar de desafios, como todos, se

irão comportar como comandantes em tempos de guerra, fazendo tudo para

defender as suas tropas, sem se esquecerem da importância de comunicar com

os seus clientes, e pensando em novas alternativas de negócio quando possível.

Uma destruição massiva dos postos de trabalho vai acontecer em muitos

sectores. Os esforços no sentido da protecção do trabalho deverão eventualmente

incidir nos sectores com maiores perspectivas de sobrevivência, havendo

apoios para reconversão nos outros. Esta é uma escolha difícil mas que deve

ser ponderada. Na guerra por vezes é necessário sacrificar um braço para salvar

uma vida. Só depois se podem pensar em próteses.

Os apoios económicos a nível global, de uma dimensão absolutamente inédita,

irão ajudar no longo prazo a mitigar os impactos económicos da crise.

Mas serão tanto mais eficientes quanto mais reduzida for a fase de contágio,

ou seja, quanto menor o peso da destruição económica.

Em épocas de incerteza, todas as previsões económicas são difíceis.

No entanto, exceptuando para alguns economistas mais conservadores, como

Nouriel Roubini, prevalece a ideia de que a recuperação irá trazer fases de crescimento

acelerado em 2021, ou ainda no último trimestre de 2020.

A China apresentou em Março indicadores de produção acima da expectativa

dos analistas, demonstrando o regresso a uma quase normalidade.

No entanto, o lockdown cada vez mais global e a própria redução do consumo

interno irão reflectir-se numa progressão lenta da actividade industrial que terá

consequências ao nível do emprego, não só na China mas em todo o mundo.

Numa economia global todos sofreremos os impactos da presente crise, mas

devemos perceber que o mundo tenderá para um novo equilíbrio. Para isso

todos teremos de nos reinventar. Uma vez mais.b

Edifício Rovuma, Rua da Sé, n.º 114,

Escritório 109

MAPUTO, MOÇAMBIQUE

geral@examemocambique.co.mz

Directora: Iris de Brito

Director Executivo: Luis Faria

(luis.faria@luisfaria.com)

Arte: Pedro Bénard

Colaboradores Regulares:

Valdo Mlhongo,

Thiago Fonseca (crónica),

Edilson Tomás (fotografia),

e Pedro Pinguinha (arte final)

Colaboraram nesta edição:

Filipe Serrano, Ivan Padilla, Lucas Amorim,

Lucas Agrela, Luís Fonseca, Paula Rocha, Rodrigo

Caetano..

Direitos Internacionais:

EXAME Brasil (texto e imagens),

AFP, Graphic News e IStockPhoto

Coordenação Geral: Marta Cordeiro (projecto),

Inês Reis (arte)

Multimédia e Internet: Plot.

www.examemocambique.co.mz

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Comercial: Gerson dos Santos

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Moçambique: Nádia Pene, +258 845 757 478

Portugal: Ana Rute Sousa, +351 213 804 010

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REDACÇÃO

+ 258 21 322 183

redaccao@examemocambique.co.mz

Produção: Ana Miranda

Número de registo: 09/GABINFO - DEC/2012

Tiragem: 10 mil exemplares

Distribuição:

Moçambique: Flotsan, Bairro Patrice Lumumba,

Rua “A” Casa 242, Matola

Tel.: +258 84 492 2014; +258 82 301 3211.

e-mail: mozadmin@africandistribution.net

Portugal: VASP, MLP Quinta do Grajal, Venda Seca

2739-511 Agualva Cacém Tel.: +351 214 337 000

Impressão: Minerva Print

Av. Mohamed Siad Barre, n.º 365

Maputo

A revista EXAME (Moçambique) é um

licenciamento internacional da revista EXAME

(Brasil), propriedade da Editora Abril.

Sociedade Moçambicana

de Edições, Lda.

Director-Geral

Miguel Lemos

Conselho de gerência

Luís Penha e Costa

Rui Borges

António Domingues

6 | Exame Moçambique


PRIMEIRO

LUGAR

MOÇAMBIQUE ESSENCIAL. PEQUENAS NOTÍCIAS SOBRE UM GRANDE PAÍS

BANCO DE MOÇAMBIQUE:

Lançou medidas para

mitigar o impacto da crise

do novo coronavírus

D.R.

AS MEDIDAS DO BANCO DE MOÇAMBIQUE

PARA MITIGAR EFEITOS DO VÍRUS

O Banco de Moçambique (BM) “deliberou introduzir uma linha de

financiamento de 500 milhões de dólares para instituições participantes

no mercado cambial interbancário por um período de

nove meses, a partir do mês de Março. Segundo um comunicado

enviado à nossa redacção, o BM decidiu também autorizar a não

constituição de previsões adicionais pelas instituições de crédito

e sociedades financeiras nos casos de renegociações dos termos

e condições de empréstimos antes do seu vencimento para os

clientes afectados pela pandemia COVID-19. As medidas visam

disponibilizar liquidez em moeda estrangeira e moeda nacional,

permitindo que os empresários e as famílias honrem os seus compromissos,

na sequência do agravamento dos riscos decorren-

COVID-19

tes dos impactos macroeconómicos do novo coronavírus. O BM

promete continuar a tomar medidas correctivas adicionais sempre

que for necessário.

O banco central decidiu na semana passada reduzir em 150

pontos base o coeficiente de reservas obrigatórias, de 13% para

11,5% na moeda local, e de 36% para 34,5% na moeda estrangeira,

com efeitos a partir do período de constituição que se inicia

a 7 de Abril próximo.

A decisão tomada pelo conselho de administração do Banco de

Moçambique visa, segundo o comunicado, libertar liquidez para o

sistema bancário enfrentar, com maior resistência, os riscos crescentes

que resultam dos impactos macroeconómicos do COVID-19.

8 | Exame Moçambique


A crise vai acelerar a decomposição e balcanização

da economia mundial.

Nouriel Roubini, economista.

GÁS

EXXONMOBIL ADIA A DECISÃO FINAL DE INVESTIMENTO

O grupo norte-americano ExxonMobil

deverá adiar a aprovação do projecto

de gás natural na bacia do Rovuma,

no Norte de Moçambique, devido ao

impacto do novo coronavírus e ao

ambiente que se vive nos mercados

internacionais, escreve a agência financeira

Reuters, citada pelo Macauhub.

O grupo anunciou no mês passado que

está a equacionar cortes “significativos

na despesa de capital e nos custos

operacionais, acompanhando outros

grupos e empresas que têm estado a

reduzir despesa devido à queda abrupta

dos preços do petróleo, bem como da

procura em resultado da contracção

da actividade económica. “A pandemia

está a afectar o investimento em

Moçambique, bem como os financiadores

chineses e coreanos”, disseram

fontes citadas pela agência Reuters.

Sabe-se que o investimento do projecto

da Área 4 é estimado em 30 mil

milhões de dólares. O bloco Área 4

tem como participantes a Mozambique

Rovuma Ventures, uma parceria detida

pelos grupos ExxonMobil, ENI e China

National Petroleum Corporation, que

em conjunto controlam 70%, estando

os restantes 30% divididos em partes

iguais entre o grupo português Galp

Energia, sul-coreano Kogas e a estatal

moçambicana Empresa Nacional

de Hidrocarbonetos.

A província de Cabo Delgado tem sido

alvo de ataques até aqui desconhecidos,

sendo que o último aconteceu já

no mês passado em Mocímboa da Praia,

a norte da província, o que tem contribuído

para o receio dos investidores.

Fevereiro

64,90

Fevereiro

1,91

Fevereiro

52,91

SALA DE

MERCADOS

MOEDA

(Meticais por USD)

GÁS NATURAL

(USD/MMBtu)*

CRUDE

(USD/barril)

CARVÃO DE COQUE

(USD/ton.)

Março

66,37

Março

1,60

Março

23,36

ÁREA 4: ExxonMobil adia decisão final de investimento

Fevereiro

141,63

Março

139,89

MILHO

(USD/Bushel)**

Fevereiro

382,00

D.R.

Março

343,50

Fevereiro

1645,00

OURO

(USD/t oz)***

Março

1572,00

COTAÇÕES A 22/02/2020 E A 23/03/2020

* MMBtu = milhões de British Thermal Unit

(medida da capacidade térmica)

** 1 bushel de milho = 25,4 Kg

*** t oz = onças troy = 31,21 g.

FONTES: BM, Bloomberg, CME Group.

D.R.

abril 2020 | 9


PRIMEIRO LUGAR

GRAFITE

SYRAH RESOURCES

SUSPENDE ACTIVIDADE

O grupo Syrah Resources suspendeu temporariamente

a actividade na mina de grafite de

Balama, na província de Cabo Delgado, no

Norte de Moçambique, devido à pandemia

de COVID-19. O grupo recorda, em comunicado,

que o governo de Moçambique impôs

um conjunto de medidas no sentido de impedir

a propagação do novo coronavírus, que

incluem a suspensão da concessão de vistos

e quarentena de 14 dias para todas as pessoas

que chegam ao país, “sendo que a combinação

destas medidas limita a mobilidade

de uma parte significativa do pessoal a laborar

em Balama. A suspensão das operações

teve lugar a 28 de Março, não tendo o grupo,

que em Moçambique opera através da subsidiária

Twigg Exploration and Mining, mencionado

uma data para o reinício da extracção

de grafite. O grupo informou igualmente que

as encomendas respeitantes a produto já em

armazém continuarão a ser processadas, mantendo

a subsidiária capacidade para exportar

grafite através do porto de Nacala, “se bem

que esta situação possa alterar-se a qualquer

momento”. A Syrah Resources anunciou recentemente

que a operação de extracção de grafite

em Moçambique, cujo produto abastece

a fábrica de Vidalia, onde suspendeu a operação,

se mantinha sem alteração. A empresa

australiana suspendeu a laboração na fábrica

de Vidalia, nos Estados Unidos, na sequência

da ordem de “permanecer em casa” anunciada

pelo governador do estado da Louisiana no

dia 22 de Março, a fim de evitar a propagação

do novo coronavírus.

SYRAH RESOURCES: A sua subsidiária

suspendeu a operação em Cabo Delgado

devido ao COVID-19

D.R.

EVENTO

FACIM 2020 ADIADA DEVIDO AO COVID-19

A edição de 2020 da Feira Internacional de Maputo foi adiada para data a anunciar,

informou em Maputo o porta-voz do Conselho de Ministros, Filimão Suazi. A 56ª

edição da feira conhecida pela sigla FACIM — Feira Agrícola, Comercial e Industrial

de Moçambique — deveria realizar-se de sábado, 1 de Agosto, a quarta-feira, 5 de

Agosto, nas instalações de Ricatla, no distrito de Marracuene, província meridional

de Maputo. Filimão Suazi, que anunciou igualmente o adiamento do 11.º Festival

Nacional da Cultura, disse que a decisão decorre da pandemia de COVID-19.

NUMERÁRIO

BM E BANCOS ASSINAM MEMORANDO

DE ENTENDIMENTO

FACIM:

Já não abrirá

no início de

Agosto

A responsabilidade na gestão do ciclo de numerário vai passar a ser partilhada

pelo Banco de Moçambique (BM) e as instituições de crédito, de acordo com um

memorando de entendimento assinado entre as partes. Esta partilha de responsabilidades

reveste-se de capital importância no processo de recirculação de

numerário do país. O governador do BM, Rogério Zandamela, disse que o acordo

ajudará a modernizar a gestão do ciclo de numerário, promovendo maior eficiência

ao garantir que a selecção, a contagem, o transporte e a distribuição de notas e

moedas de metical são realizadas correctamente e a baixo custo. Em breve, serão

emitidas normativas apropriadas para a operacionalização da partilha de responsabilidade.

Zandamela frisou ainda que o BM vai garantir a integridade das notas e

moedas em circulação. “Enquanto banco emissor, cabe ao Banco de Moçambique

assegurar a integridade das notas e moedas de metical em circulação e acompanhar

o nível da sua qualidade, bem como educar o público em matéria de manuseamento

e conservação de notas e moedas.” O acordo abrangeu 19 instituições

de crédito que operam em Moçambique, como o Standarbank, Absa Bank, BCI,

Socremo, Capital Bank, Banco Societé, Banco ABC, Eco Bank, FNB, Mozabanco,

Banco Mais, UBA, Banco Letsego, BNI, Banco Único, Banco Bic e Bayport.

D.R.

10 | Exame Moçambique


PRIMEIRO LUGAR

ABSA BANK:

Um bom desempenho obtido num

ano adverso

BANCA

ABSA BANK CRESCE ACIMA DO MERCADO

O Absa Bank Moçambique obteve um resultado líquido superior a um bilião e

quarenta e oito milhões de meticais, tendo os empréstimos a clientes aumentado

32,5%, materialmente acima da média de mercado e depósitos de clientes 14,7%,

também acima da média do mercado. “O rácio de liquidez é dos mais elevados

do mercado, em linha com a estratégia alicerçada em níveis robustos de capital

e liquidez e a abordagem prudente adoptada pela administração, mas com foco

contínuo no desempenho financeiro e na satisfação dos clientes”, refere o banco

em comunicado. O Absa assinala ainda que o crescimento do balanço acima do

mercado resulta “da melhoria dos níveis de serviço e de uma oferta de produtos

adequada às necessidades dos clientes, sendo que ambos potenciaram um

aumento do envolvimento bancário por cliente”. Para Rui Barros, administrador

delegado do banco, “o excelente desempenho do Absa Bank Moçambique, no

exercício económico de 2019 deveu-se, em grande medida, aos programas implementados

pela gestão para o aumento da eficiência e incremento do volume de

negócios, contribuindo, assim, para o crescimento da receita e para o resultado

líquido acima de um bilião de meticais.” O administrador delegado realçou o

facto de este desempenho da instituição ter sido conseguido num ano adverso

para o sector financeiro, marcado por desastres naturais, e em que Absa Bank

Moçambique executou a mudança de marca e um complexo processo de separação

tecnológica.

D.R.

FINANÇAS

FINTECH.MZ QUER SER

“VOZ ACTIVA”

Um conjunto de 12 membros fundadores apresentou

em Março, em Maputo, a Fintech.mz —

Associação das Fintechs de Moçambique, uma

entidade que agrega empresas tecnológicas ligadas

ao sector financeiro e que pretende ser “uma

voz activa, quer no processo de inclusão financeira,

quer no diálogo com reguladores para ajudar

a criar novas leis”, entre outras acções conjuntas,

anunciou João Gaspar, presidente da direcção.

A venda de seguros através de plataformas

móveis, a criação de sistemas de pagamento electrónico

(gateways) que podem ser usados, por

exemplo, no comércio on-line ou aplicações de

transferências de dinheiro internacionais, são

algumas das áreas que as fintechs moçambicanas

estão a desenvolver. O país conta com

16 empresas que estão a começar a trabalhar

na área, quatro numa plataforma de ensaios

(denominada no meio pelo termo inglês sandbox)

criada pelo Banco de Moçambique, outras

em nichos de mercado ou sob regime piloto, “em

busca de escala e impulso”, assinala João Gaspar.

Num país onde só uma percentagem muito

pequena da população tem conta bancária (entre

9% a 10% de um total de 28 milhões de habitantes),

estas empresas assumem especial importância,

refere. A associação FSD Moçambique

é uma organização de promoção de inclusão

financeira que tem impulsionado a criação de

fintechs no país. O Financial Sector Deepening

Moçambique (FSD Moçambique) é um programa

financiado pelo Departamento para o Desenvolvimento

Internacional (DFID) do Reino Unido

e pela Agência Sueca de Cooperação para o

Desenvolvimento Internacional.

TECNOLÓGICAS: Contribuir para a inclusão

na área financeira

D.R.

12 | Exame Moçambique


abril 2020 | 13


GRANDES

NÚMEROS

PARA SABER LER OS SINAIS DE UMA ECONOMIA EM MUDANÇA

GÉNERO

QUE PODER

É QUE ELAS TÊM?

Ainda no último mês comemorou-se o Dia Internacional da

Mulher. Como é que, actualmente, o mundo valoriza as mulheres,

quer no que respeita ao seu contributo para a economia,

quer quanto ao poder que efectivamente detêm?

Vários estudos provam que um maior equilíbrio de género

melhora o desempenho económico dos países e o bem-estar e

qualidade de vida em geral. Quem estudou o tema garante que

uma maior igualdade entre homens e mulheres trará maiores

benefícios à sociedade, mas quando se olha para o panorama

actual, e de acordo com o último relatório da Organização Internacional

do Trabalho (OIT), verifica-se que se 75% dos homens

encontram-se inseridos no mercado de trabalho, a participação

feminina é bem menor: 45%.

Outro estudo, realizado pelo Banco Mundial em 2018, calcula

que a riqueza total no mundo aumentaria 14% se fosse alcançada

a igualdade salarial entre homens e mulheres. O documento

avança um número avassalador quantos aos benefícios

económicos trazidos pela igualdade de género. Nos 141 países

analisados a desigualdade de género traduz-se numa perda de

160 triliões de dólares (milhões de milhões), valor que duplica

o PIB global devido à perda de riqueza em capital humano.

A organização norte-americana Council on Foreign Relations

desenvolve o programa Mulheres e Política Externa, que

criou o Índice do Poder das Mulheres, classificando 193 Estados-membros

da ONU quanto ao seu grau de paridade na participação

política, o que passa por saber quantas mulheres são

chefes de Estado, lideram governos ou deles participam, quantas

marcam presença nos parlamentos nacionais e nos órgãos

de poder local. O número de mulheres na chefia do Estado

aumentou. Moçambique recebe 40 pontos no que respeita à paridade

política actual. Em 1 de Janeiro de 2019, 29% dos cargos

ministeriais eram ocupados por mulheres. Entre os candidatos

à Assembleia Nacional, 41% foram moçambicanas.

As mulheres ocupam actualmente a presidência ou a chefia do

governo em 19 países do mundo. Apenas um deles é africano,

a Etiópia. A Costa Rica é o país que desde 1946 é liderado por

um maior número de mulheres (74). Seguem-se a Islândia (69)

e um país africano, o Ruanda (67), o único a figurar no top 10

da paridade política.

ACESSO AO MERCADO DE TRABALHO

A percentagem de homens inseridos

no mercado de trabalho em todo o mundo

é muito superior à de mulheres

Inseridos

Mulheres

Homens

Fonte: CFR.

Total

45%

100%

75% 100%

14 | Exame Moçambique


Nunca me considerei feminista, mas não acredito que se possa

ser mulher neste mundo sem o ser.

Oprah Winfrey, apresentadora de televisão dos EUA.

19

9

dos 193 países, têm uma

mulher como chefe de

Estado ou de Governo

dos 193 países têm, pelo

menos, 50% de mulheres

no governo

Fonte: CFR.

4

parlamentos

nacionais dos 193 países

são constituídos em 50%

por mulheres

DISCRIMINAÇÃO SALARIAL

Salários de médicos de cuidados primários

no mundo em 2019 por género

258

207

189

em milhares de USD

Homens

Mulheres

136

108

157

111

92

49

38

16 13

Fonte: Statista.

EUA

Reino

Unido

Alemanha França Brasil México

abril 2020 | 15


CAPA PANDEMIA

A ECONOMIA

GLOBAL DE

QUARENTENA

A ameaça do novo coronavírus parou a Europa e os Estados Unidos depois de impor

um cerco absoluto a 58 milhões de chineses. Afundou tudo: o preço das matérias-primas,

as bolsas, a procura e a oferta. Uma recessão global é inevitável. Se o vírus alastrar

em África e na Índia, o saldo ainda será pior. Depois de uma crise global de saúde pública

colapsar os serviços de saúde dos países “mais avançados” e deixar um rasto, por enquanto,

de dezenas de milhar de mortos, a economia vai retomar a normalidade, fazendo

a recessão económica outras dezenas de milhar de vítimas, ou isto será contrariado

por financiamentos internacionais e renascerá mudada? Uma pergunta cuja resposta vale

muito mais do que um milhão de dólares, mas os cépticos levam vantagem

LUÍS FARIA

16 | Exame Moçambique


PANDEMIA:

O novo coronavírus abateu-se sobre

as economias mais desenvolvidas

e gerou uma crise global

GETTY

A

epidemia do novo coronavírus, com

origem na China, onde deflagrou em

Dezembro na província de Hubei, de

58 milhões de habitantes, impedindo

que os cidadãos pudessem sair de

casa, alastrou-se aos outros continentes e converteu-se

numa pandemia sem precedentes. A 11 de

Março passado, a Organização Mundial de Saúde

(OMS) reconheceu o surto como uma pandemia,

com o número de infectados, de mortes e de países

onde a infecção se manifesta a aumentar dia após

dia. Se seguisse necessariamente a habitual rota

dos surtos de gripe, a ameaça migraria agora em

força para sul, em busca da época do tempo mais

fresco, contagiando grandes massas populacionais

em África, onde os serviços de saúde pública não

têm a capacidade de resposta de que dispõem os da

Ásia, Europa ou América do Norte. Seria uma catástrofe

se a epidemia que começou na China, alastrou

a outros países do Sudeste Asiático e atingiu severamente

a Europa, em especial Itália e Espanha, e o

Estados Unidos, engolisse África. As gripes têm um

ciclo migratório, procuram as temperaturas mais

baixas. Ora, acontece que o COVID-19 (assim foi

baptizada a nova doença epidémica e como SARS-

-CoV-2 o vírus que a causa) não é uma gripe. O seu

ácido nucleico é completamente uniforme, o que significa

que o seu núcleo é diferente do do vírus da

gripe. Tem outra natureza, outro ADN. Dele pode

esperar-se tudo, embora os seus antecessores, os

outros coronavírus, tenham mostrado dar-se mal

com temperaturas mais elevadas. Mas, ainda que,

por agora, a sua força e velocidade de contágio pareçam

muito menos virulentas a sul, nada garante

que não se dê bem com o calor. A UNICEF chegou

a admitir que não resistiria a uma temperatura de

26º/27º. Mas o surgimento de casos de contaminação

em quase todos os países do Hemisfério Sul, e

o conhecimento laboratorial do vírus, leva a OMS

a colocar muitas reservas a que a taxa de propagação

da pandemia possa desacelerar em temperaturas

mais quentes. No fundo, ainda resta a secreta

esperança de que tal aconteça, pelo menos o Hemisfério

Sul está muito menos infectado. Na África do

Sul, onde se registaram os primeiros casos de infecção,

quase em paralelo com os países da Europa

que empilham hoje milhares de mortos, o contágio

progrediu muito pouco, com pouco mais de um

milhar de casos confirmados no final de Março, e

a doença fez poucas vítimas mortais. Angola registou

sete casos e duas mortes. Moçambique tem

oito casos activos e nenhuma morte. Cabo Verde

regista cinco casos, um dos quais fatal, e a Guiné-

abril 2020 | 17


CAPA PANDEMIA

-Bissau oito casos. São Tomé e Príncipe ainda não

havia entrado, à data destes dados, último dia de

Março, no mapa global da epidemia. Quando este

texto chegar aos leitores os números serão mais

elevados. Quanto? Uma progressão lenta e contida

pode reforçar a esperança de que o vírus, que

se propagou como lume em palha seca no Hemisfério

Norte, não se dá bem nem com a humidade

nem com temperaturas mais elevadas. A questão é

que a África Austral vai entrar agora na estação do

cacimbo, mais fresca, e a OMS já demonstrou uma

grande preocupação com a disseminação da pandemia

em África.

A antecipação tem provado ser o melhor antídoto

para a velocidade com que se propaga a pandemia.

Moçambique, ainda antes de registar o primeiro

caso, colocou as pessoas provenientes de países

com mais de mil casos confirmados em quarentena

de 48 horas. Também a LAM cancelou alguns

voos internos, sobretudo os que têm ligação com o

estrangeiro. Uma antecipação que poderá ter frutos

na contenção da doença, pois este é um vírus

que não descarta as boleias da aviação comercial

para se espalhar pelo mundo. Poucos dias depois, a

meio de Março, as autoridades elevaram o estado de

alerta e reforçaram as medidas de prevenção, colocando

de quarentena obrigatória de 14 dias todos

os passageiros provenientes de países com transmissão

activa. E, no final do mês, foi declarado o

estado de emergência.

VÍRUS INESPERADO

Desde a década de 1980 duas endemias ceifaram

25 milhões de vidas. Desde 1980 morreram

3 milhões de pessoas anualmente de malária, a pior

doença tropical e parasitária, e, desde 1981, o HIV/

SIDA matou 22 milhões, mas nenhuma teve uma

dimensão global, ao ritmo frenético de circulação

de pessoas actual, paralisando, de infecção em

infecção, a economia e a sociedade global. É como

se se tratasse de uma infecção em rede com antivírus

desconhecido que vai paralisando a vida social

e, naturalmente, a actividade económica. Mas a

infecção não se deu na rede, como muitos pressagiavam,

não houve um vírus informático a neutralizar

infra-estruturas básicas, não se tratou de um

golpe demolidor das potências que mantêm uma

guerra surda em matéria de intrusão informática.

O vírus que contaminou o mundo não é digital, é

real, é biológico. Surgiu na China, num mercado que

transacciona animais vivos em Wuhan, a metrópole

da China Central, com mais de 11 milhões

de habitantes, implantada da província de Hubei,

IMPACTO BRUTAL

NOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO

As Nações Unidas alertam que a pandemia COVID-19 vai atingir

de forma desproporcionada os países em desenvolvimento,

quer na saúde, quer na economia, antecipando perdas de 220 mil

milhões de dólares. Em comunicado, a Conferência das Nações

Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD na sigla em

inglês) avisa que a crescente crise da COVID-19 ameaça atingir desproporcionadamente

os países em desenvolvimento, não apenas

como uma crise de saúde a curto prazo, mas também como uma

crise devastadora do ponto de vista económico e social nos próximos

meses e anos”. “As perdas de rendimento podem exceder

os 220 mil milhões de dólares”, acrescenta o comunicado divulgado

em Nova Iorque, no qual se aponta que “com cerca de 55%

da população global sem acesso a protecção social, estas perdas

vão reverberar nas sociedades, impactando a educação, os direitos

humanos e, nos casos mais severos, a segurança básica alimentar

e a nutrição”. O défice em financiamento poderá atingir

dois a três mil milhões de dólares durante os próximos dois anos.

As Nações Unidas pedem ainda a anulação da dívida dos países

em desenvolvimento este ano, o correspondente a um trilião de

dólares, estimando que as consequências desta pandemia juntamente

com uma recessão mundial serão catastróficas para numerosos

países em desenvolvimento. A UNCTAD pede que seja criado

um plano de apoio a esses países, que inclua a “injecção” de um

trilião de dólares em dinheiro e a concessão de 500 mil milhões

em subsídios para serviços de saúde de emergência e programas

de ajuda social.

D.R.

18 | Exame Moçambique


onde vivem 58 milhões de almas. Reza a história,

contada em directo na televisão enquanto o Ocidente

celebrava o Ano Novo, que, por negligência

das autoridades chinesas, o vírus foi deixado fora de

controlo. A China conteve a epidemia em Wuhan

pondo em prática uma espécie de “lei marcial” que

garantia o isolamento total da população da cidade,

vigiando-a porta a porta, não excluindo meios para

isolar os infectados e exibindo uma grande capacidade

de resposta, de que é exemplo a edificação

de um novíssimo e amplo hospital em poucos dias.

Os países próximos ou territórios autónomos infectados,

designadamente o Japão, Coreia do Sul (onde

o vírus ceifou muitas vidas), Singapura, Taiwan

e Macau, controlaram a epidemia à sua maneira.

Esta passou para a Europa, atingindo, com impiedosa

brutalidade, a Itália, onde, na rica região da

Lombardia, introduziu uma atmosfera de pavor.

Em Bergano, o epicentro da epidemia no país, nas

ruas desertas desfilam, numa procissão macabra,

camiões militares que transportam caixões que o

serviço local de cremação de corpos, lotado, já não

aceita. Nas principais cidades europeias, em Milão,

Paris, Londres, Madrid, o silêncio que envolve as

ruas, agora com um ar mais respirável, é apenas perturbado

pelo silvo das sirenes das ambulâncias e os

megafones das patrulhas que pedem que as pessoas

permaneçam em casa “pela sua saúde”. O Centro

de Congressos de Madrid foi convertido em hospital

de recurso, e o mítico Palácio do Gelo em morgue.

Todos os dias, habitantes refugiados nas suas

casas em cidades fantasmas acordam para o pavor

da actualização dos boletins do número de mortos

e infectados, que continua a aumentar. Os que

morrem não têm direito a funeral para evitar ajuntamentos

de pessoas. Os europeus estão proibidos

de se juntarem, na felicidade e no drama.

ECONOMIA DESABA

Na Europa, a progressão do vírus foi parando a economia.

Primeiro o turismo, o comércio e os serviços.

Depois as unidades fabris. Algumas recorrem

à imaginação e procuram conversões inovadoras

e repentinas para passar a assegurar equipamento

médico e de protecção pessoal para o mercado nacional,

num momento em que a oferta internacional,

sobretudo chinesa, é ferozmente disputada a preços

especulativos. Com a escalada e o reforço das

medidas de quarentena, as economias europeias vão,

dia após dia, anúncio após anúncio de mais mortos

e infectados, ficando cada vez mais confinadas

aos serviços vitais. Os escritórios fecham e, quando

é possível, as empresas recorrem ao teletrabalho.

O QUE O

OCIDENTE

ESTÁ A

FAZER

PROTEGER

O EMPREGO

assumindo os

governos, pelo menos

em parte, os salários

dos empregados

menos necessários

ou em isolamento

APOIAR

O RENDIMENTO

libertando os cidadãos

de obrigações fiscais

imediatas, podendo

estes ainda beneficiar

de moratórias nas

rendas de casa e

compromissos com a

banca. Os EUA apoiam

mesmo directamente

a população

GARANTIR

LIQUIDEZ

desonerando as

empresas das

obrigações fiscais

correntes e garantido

linhas de crédito

abertas pela banca

às tesourarias

REFORÇAR

A SAÚDE

comprando

equipamentos

e materiais de

protecção, sobretudo

à China, para

aumentar a

capacidade sanitária

e reduzir os óbitos

RESTRINGIR

A CIRCULAÇÃO

à medida que o

contágio avança,

tomando medidas

cada vez mais

restritivas, com

controlos policiais,

que colocam em casa

à quase totalidade da

população

As companhias aéreas deixam os seus aviões em

terra e acumulam prejuízos astronómicos. Milhões

de pessoas deixaram de circular diariamente por via

aérea e a vida passou a desenrolar-se na Internet.

Às fábricas que encerram os governos procuram

assegurar parte das remunerações e garantir que

não se percam os postos de trabalho. Aos consumidores,

que se retraem nas suas compras, limitando-

-se a adquirir produtos básicos em supermercados

e farmácias nas poucas vezes que quebram o isolamento,

as autoridades concedem moratórias em

alguns pagamentos. Como a distanciação social é a

única defesa disponível, a vida colectiva, as relações

sociais, alteram-se radicalmente, o que irá influenciar

a recuperação económica no pós-crise. Todos

os espectáculos estão suspensos, grandes eventos

são sucessivamente desmarcados, o Campeonato

Europeu de Futebol já foi adiado, na sequência da

paragem dos torneios da UEFA e dos campeonatos

nacionais, assim como a realização das próximas

Olimpíadas de Tóquio, no próximo ano. Milhões

de pessoas estão acantonadas em suas casas para

tentarem fugir a um inimigo invisível, desconhecido

e voraz. Ninguém já vai ao café, muito menos

viajar. Os grandes eventos profissionais, os espectáculos

musicais de Verão no Hemisfério Norte, um

culto para milhares de jovens, estão cancelados. São

obcessivamente vistos os canais de televisão entregues

à cobertura da epidemia. Os restantes enchem

as programações com reposições. Tudo o que existe,

para quem vive o isolamento, é a pandemia e o passado.

O presente está suspenso. Uma atmosfera que

torna real a narrativa de várias ficções cinematográficas

sobre o terror de pandemias que anteciparam.

É interessante rever filmes como o premonitório

Contágio, que Steven Soderbergh assinou em 2011,

e Pandemia, de 2016. O isolamento é a única arma

contra o contágio. Por todo o Hemisfério Norte,

a sociedade e a economia estão de quarentena.

EFEITOS IMEDIATOS

Os efeitos económicos imediatos do novo coronavírus

foram, com efeito, devastadores. No início de

Março as bolsas caíram para os mínimos da crise

de 2008 e o preço das matérias-primas energéticas

tombou, com o gás a cair de 2,2 dólares para

1,7 dólares por MMBtu (a unidade térmica utilizada

no mercado) entre Dezembro e o princípio

do mês de Março. O que aconteceu com o petróleo

foi muito pior. Primeiro desceu para o nível de

45 dólares por barril, o mesmo valor que sobressaltou

os países produtores em 2017 e conduziu ao

entendimento dos fornecedores da matéria-prima,

abril 2020 | 19


CAPA PANDEMIA

O VÍRUS QUE DEVOROU 2020

O coronavírus deve o nome ao seu aspecto. Ao microscópio

parece ser emoldurado por uma coroa. O novo vírus, que provoca

a doença COVID-19, espalha-se a uma velocidade digital. Para se

ter uma ideia, basta dizer que o vírus do SARS, o seu mais perigoso

antecessor, demorou 130 dias a infectar as primeiras mil pessoas.

O novo coronavírus só precisou de 48 dias para o fazer. Menos

letal que os seus antecessores mais imediatos, é muito mais veloz

e agressivo, contagiando muito mais pessoas e acabando por saldar-se

num elevado número de mortos. Os sintomas da doença

são idênticos aos da gripe comum, consistindo em febre elevada,

dificuldades respiratórias e tosse seca. E vão-se acrescentando

outros, como a perda de olfacto e paladar. Acontece que, até

os sintomas se revelarem, tanto quanto se sabe podem passar-

-se entre 2 a 14 dias. Ou seja, qualquer pessoa, ainda que “assintomática”

pode contagiar, até se saber que é portadora do vírus,

as outras com quem se cruza ao longo de…14 dias. A experiência

dos países que mais recorreram a testes da doença mostram que

70% dos infectados são contagiados por aqueles que não apresentam

sintomas, os assintomáticos.

Trata-se de uma infecção respiratória, em que o grau de mortalidade,

a taxa de letalidade, aumenta com a idade, matando mesmo

cerca de 15% dos infectados nas idades superiores a 70 anos. Pode

alojar-se só no nariz e na garganta nos casos mais benignos, ou

infiltrar-se também nos pulmões, gerando pneumonias, colapsos

cardíacos e falência renal. Transmite-se directamente através de

gotículas emitidas pela pessoa infectada e propaga-se também

através das superfícies, mas ainda há muitas interrogações sobre

a progressão do vírus. Dentro do corpo hospedeiro o vírus apodera-se

do sistema natural das células para replicar-se. Já existem

duas variantes do novo vírus e poderão vir a ocorrer novas mutações.

Uma possibilidade terrível, notando os especialistas que a

doença apresenta taxas de letalidade diferentes nas primeiras

regiões mais atingidas: China, Itália e Irão.

Sendo um vírus desconhecido, o organismo humano

não possui anticorpos que se lhe oponham,

ao contrário do que acontece com a

gripe. Numa corrida sem precedentes

a ciência já decifrou o genoma

do vírus, descobriu como este

invade o organismo (disfarçado

de proteína) e anuncia-se que

vai ser obtida uma vacina em

tempo recorde. O último anúncio

veio do potentado farmacêutico

Johnson & Johnson, que estará

em condições de disponibilizar uma

vacina no início de 2021.

sobretudo os dois maiores, Arábia Saudita e Rússia.

Esperava-se, entretanto, que mais uma vez os

dois grandes produtores da matéria-prima, a Arábia

Saudita e a Rússia (desde a última crise petrolífera,

esta e mais nove países passaram a conjugar esforços

com a Organização dos Países Exportadores de

Petróleo — OPEP), chegassem novamente a acordo.

Os sauditas propunham que se retirassem do mercado

mais 1,5 milhões de barris diariamente até ao

final do ano. Surpreendentemente, ou não, os russos

não estiveram pelos ajustes e a Arábia Saudita

tomou a iniciativa de jorrar petróleo no mercado

e fazer mesmo descontos nas vendas mais imediatas.

O objectivo da Rússia será “levar ao tapete” a

produção de petróleo extraído do xisto nos Estados

Unidos, que garante ao país a sua autonomia energética,

como Donald Trump não se cansa de repetir.

A ironia é que, no passado recente, foi a Arábia Saudita

a assumir a audácia de neutralizar a produção

norte-americana e tudo acabou, face à persistente

baixa do preço, na frente alargada constituída pela

OPEP e outros dez grandes produtores não alinhados

na organização. A 9 de Março, na abertura do

mercado asiático, o nervosismo provocou, em poucas

horas, uma queda de 30% na cotação da matéria-prima,

só equiparável à verificada aquando da

Guerra do Golfo. Dissiparam-se muitas nuvens de

poluição no céu da China e o maior cliente mundial

vai importar menos petróleo. No dia 9 de Março

o preço do barril de Brent desceu ao patamar dos

35 dólares, o que mostra como um vírus desconhecido

e veloz amedronta os mercados e faz vir

ao de cima as tensões nele existentes e mal resolvidas.

Mas o pior ainda estava para vir, a expressão

mais utilizada a propósito da progressão deste

vírus, com os futuros de Brent a descerem para a

casa dos 20 dólares por barril, o que constitui um

rombo nos países exportadores da matéria-prima

e que vivem das receitas que obtêm com esta para

equilibrarem os balanços fiscais, assim como imobiliza

a produção norte-americana de óleo e gás a

partir da fragmentação do xisto, já de si altamente

endividada, comprometendo a autonomia energética

de que os Estados Unidos tanto se orgulham

de ter alcançado.

As bolsas entraram em pânico, evoluindo erraticamente,

mas deixando sempre um lastro de

enorme descapitalização das empresas cotadas e

corrigindo, para muitos, numa visão que adopta o

optimismo possível, a espiral especulativa em que

se encontravam. A 9 de Março os principais índices

de Wall Street caíram 7% e o Dow Jones caiu

2 mil pontos, a que terá sido a sua maior quebra diá-


PIB A PIQUE

A recessão originada pela crise global de saúde pública é uma consequência incontornável para instituições e analistas

Antes da Pandemia

Com a Pandemia

6,6

3,6

2,9

1,9

4,8

2,9

2,3

1,2

5,8

3,3

2,0

1,3

6,5

3,4

1,7

1,4

6,6

3,6

2,9

1,9

4,8

2,9

2,3

1,2

5,8

3,3

2,0

1,3

-0,9

-1,3

-2,6

-3,2

2018 2019 2020

2021

2018

2019

inicial

2020

inicial

2020

pandemia

Zona Euro EUA Produção Mundial China

Fonte: FMI, previsões de Janeiro de 2020 excepto a previsão para 2020 pós-pandemia da Oxford Economics.

ria, após o colapso do preço do petróleo. O índice

S&P 500 perdeu 6,59%, e o tecnológico Nasdaq

6,19%. Wall Street viveu o pior dia desde a crise de

2008/2009, com as quebras a levarem à interrupção

da sessão, como acontecera então. Viveu-se o

mesmo ambiente do cataclismo financeiro do final

de 2008, com o novo coronavírus a garantir uma

recessão internacional. Na Europa, as bolsas também

foram ao fundo. “Foi um dos piores dias que

vivi em bolsa”, disse à AFP Oliver Roth, analista do

Oddo Seydler Bank, em Frankfurt, onde o índice

Dax registou a maior queda desde 2001 (7,94%).

As quebras sucederam-se a uma velocidade furiosa

no mercado à medida que a contaminação progrediu.

A Itália entrava em quarentena, uma situação

sem precedentes, e os Estados Unidos fechavam as

portas à Europa, interditando os voos provenientes

do Velho Continente.

O SURTO

EPIDÉMICO

PODERÁ

CUSTAR 130 MIL

MILHÕES DE

DÓLARES ÀS

COMPANHIAS

DE AVIAÇÃO

ESTE ANO,

DE ACORDO

COM

A IATA

AMEAÇA AOS EUA

Nos Estados Unidos, o novo coronavírus pôs Nova

Iorque em casa e os hospitais vivem o mesmo clima

de horror de Itália ou Espanha, transmitido pela

comunicação global a espectadores sedentos de

informação no isolamento das suas casas. O Presidente

norte-americano, Donald Trump, classificou

o o vírus como uma ameaça externa. A FED, a

reserva federal norte-americana, que funciona como

banco central com poderes alargados, decidiu, a 3 de

Março, baixar a taxa de juro de referência em meio

ponto percentual, o maior corte efectuado desde a

crise financeira de 2008, colocando a taxa de juro

de referência num intervalo entre 1% e 1,25%. Com

a progressão do vírus e os sucessivos anúncios das

autoridades europeias e norte-americanas, os mercados

de capitais passaram a viver numa montanha-

-russa, espelhando tempos de incerteza profunda.

As autoridades norte-americanas haviam começado

por aprovar um plano de emergência de 8,3

mil milhões de dólares destinado a combater a

disseminação da infecção e acelerar o desenvolvimento

de uma nova vacina, a que acrescentaram, a

12 de Março, 50 mil milhões de dólares destinados

a fornecer apoio ao capital e tesouraria das pequenas

empresas. O que ainda não era nada face ao

que estava para vir.

New Rochelle é uma pequena cidade do Estado de

Nova Iorque, um dos subúrbios do aglomerado mais

cosmopolita do mundo. Foi a primeira dos Estados

Unidos a ser atacada severamente pelo novo vírus.

O medo sentiu-se na cidade, o álcool em gel evaporou-se

rapidamente, os habitantes puseram más-

abril 2020 | 21


CAPA PANDEMIA

LONGEVIDADE VULNERÁVEL

D.R.

Quando a indústria da saúde ganhou lugar na primeira linha das

notícias graças aos prodígios tecnológicos alcançados no domínio

do bem-estar e dos cuidados dos mais velhos, irrompeu um vírus

que contaminou o mundo inteiro e abalou os sistemas de saúde

dos países mais desenvolvidos. Questionou a certeza quanto ao

advento do bem-estar na velhice que a ciência, a tecnologia e a

indústria pareciam prometer. As marcas vêm associando a tecnologia

de saúde aos objectos com que mais lidamos, o vestuário,

o calçado, o relógio. O desenvolvimento dos sistemas de saúde

aumentou a longevidade para níveis inimagináveis há um século e

cobriu-a de high-tech nos países mais ricos. Para que adianta viver

mais se não se viver bem, com qualidade? Contudo, a panóplia

de serviços e equipamentos dirigidos aos mais velhos só beneficia

uns quantos, mesmo nos países ricos, e um vírus que os escolhe

como o seu alvo mais letal trouxe ao de cima a invisibilidade para

que são atirados pela mesma civilização que lhes prolonga a vida.

O novo coronavírus instalou o pânico nos lares de idosos por toda

a Europa, mostrando a vulnerabilidade da vida que se alongou.

caras. O ambiente tenso estendeu-se a todo o país

através da comunicação social e das redes sociais.

Em New Rochelle foi convocada a Guarda Nacional

para distribuir alimentos e atender a outras urgências.

Uma imagem de estado de sítio semelhante à

que era dada por Itália, com os seus monumentos,

ruas e praças desertos. O alarme estava dado nos

Estados Unidos, a primeira potência mundial teria

de enfrentar a pandemia, que deslocara o seu epicentro

para a Europa, com a martirizada Itália, e a

seguir a Espanha, a superarem o número de mortes

infligidas pela COVID-19 na China.

Estão a ser gastas, nesta pandemia, pelos Estados

Unidos, somas inimagináveis. O país praticamente

fechou as fronteiras e endureceu a contenção interna

do surto. A pandemia atingiu ferozmente Nova Iorque,

cresce, de um modo muito preocupante, em

Washington e na Califórnia, e espalha-se pelos diferentes

estados, ameaçando desencadear uma situação

caótica no Louisiana. Face a isto, menos de duas

semanas depois de anunciar as primeiras medidas,

Trump subiu muito a parada e propôs à aprovação

do Congresso um pacote de medidas de emergência

para aguentar a economia no valor astronómico

de 2 triliões (milhões de milhões) de dólares.

A COMPETIÇÃO

GLOBAL

INTENSIFICOU-

-SE COM

A PANDEMIA,

COM A CHINA

E OS ESTADOS

A TROCAREM

ACUSAÇÕES

Os fundos anunciados pelos diferentes governos para

combater a crise de saúde totalizam quase 5 triliões

de dólares. O impacto na sociedade é demolidor.

A factura económica vai ser uma das mais elevadas

de sempre. Quando, e como, conseguirão os Estados

Unidos estancar uma crise que os está a subalternizar

face à China, onde nasceu o novo coronavírus

que, por negligência, não foi logo contido, mas

que exulta a rápida superação do surto e pratica

uma política activa de marketing na ajuda à Europa?

A Europa, por seu lado, anunciou um pacote

financeiro de 25 mil milhões de euros, afinal uma

mera reafectação de verbas já programadas em

fundos europeus e o mesmo valor disponibilizado

pelo governo de Itália, o país europeu mais atingido

pela pandemia e abandonado à sua sorte pelos seus

pares europeus. Se a Alemanha, na primeira reacção

aos impactos sobre a economia, se dispunha a

aplicar 12,4 mil milhões de euros na sua dinamização,

subiu a parada para 550 mil milhões de euros.

França liberta 345 mil milhões em garantias de crédito

e apoio a trabalhadores e empresas, e Espanha

200 mil milhões. Portugal, que começou por

anunciar um programa de apoio de 200 milhões

de euros, já se comprometeu com 9 mil milhões

22 | Exame Moçambique


de euros, muito dirigidos ao turismo, introduziu

o lay-off flexível, em que o governo se compromete

a pagar dois terços dos salários dos trabalhadores de

empresas que suspendam a actividade, moratórias

fiscais, manutenção dos arrendamentos e apoio aos

“isolados” (a esmagadora maioria da população) e

às tesourarias das empresas. Só o lay-off flexível irá

custar ao governo português mil milhões de euros

por mês, havendo ainda outros choques sobre as

contas públicas, como o aumento do desemprego

e dos respectivos subsídios.

Os apoios chovem por toda a Europa (serão,

mesmo assim, suficientes?), mas a coordenação

dos países do euro não tem sido a melhor nem a

mais atempada e disciplinada, face ao exemplo da

província chinesa de Hubei e aos avisos de cientistas

e médicos. Quando o novo coronavírus atacou

a União Europeia, esta estava a braços com uma

nova crise migratória e a ameaça da abertura de

fronteiras do líder turco Recep Erdogan. Antes de

anunciar as medidas que o Banco Central Europeu

(BCE) iria tomar, a sua presidente, Christine

Lagarde, avisara: “Iremos ver um cenário que irá

lembrar, a muitos de nós, a crise financeira de 2008.”

A tensão irá acentuar-se ao ritmo, muito rápido,

do crescimento da propagação da doença e obriga

a acrescentar vários zeros às medidas de emergência.

Lagarde, quando o BCE apresentou, a 12 de

Março, as suas medidas para apoiar a economia,

afirmou ser claro para todos “que a economia da

Zona Euro está perante um enorme choque”, defendendo

que tudo irá depender de quão prolongada

a pandemia será e, por outro lado, de quão rapidamente

a propagação irá ocorrer. Christine Lagarde

deu a sua aprovação aos esforços dos diferentes

governos europeus na área orçamental, sendo que,

ao contrário da FED norte-americana, o BCE não

tem qualquer influência na política fiscal. Embora,

contra as expectativas, o BCE não tenha mexido

nas suas taxas de juro de referência (com o actual

nível de taxas de juro na Europa tem muito pouca

margem de manobra), comprometeu-se a autorizar

rácios de capital mais baixos por parte dos bancos

e dar “descontos” nas taxas de juro cobradas

em operações de financiamento (à banca) a longo

prazo, numa tentativa de estimular a concessão

de crédito às pequenas e médias empresas. O BCE

procurou transmitir uma mensagem positiva aos

mercados financeiros ao aumentar as compras de

dívida em 120 mil milhões de euros até ao final do

ano. Não foi suficiente e as bolsas reagiram mal.

Uma semana depois, nas últimas horas de uma

quarta-feira, o BCE, entretanto muito criticado,

OS ESTADOS

UNIDOS E, EM

GERAL, OS

PAÍSES DE

TRADIÇÃO

SAXÓNICA

PARECEM

PREFERIR OS

ESTÍMULOS

DIRECTOS,

PONDO

DINHEIRO NO

BOLSO DAS

PESSOAS

rectificava, aumentando muito a “parada” e prevenindo

que iria utilizar uma verdadeira “bazuca”

financeira. O Banco Central Europeu aumentava

para 750 mil milhões de euros o montante destinado

à recompra de dívida emitida por governos

e empresas da Zona Euro. O dinheiro irá passar

pelos bancos e os empresários desconfiam que a

intermediação bancária irá significar juros elevados,

numa altura em que precisam de crédito para

ocorrer a dificuldades de tesouraria.

Após os sucessivos e enormes apoios anunciados

pelos países da UE mais atingidos pela pandemia, a

presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula

von der Leyden, através do Twitter, veio formalizar

o óbvio (uma vez que os orçamentos dos diferentes

países haviam sido pulverizados) e comunicar

aos governos europeus, alguns ainda sufocados em

dívida e, até agora, a tentar equilibrar orçamentos

com sacrifício de funções sociais, que estão suspensas

as regras do défice (que, segundo as normas

europeias, não pode superar 3% do produto)

e que os diferentes membros do euro podem injectar

o que for preciso nas suas economias para tentar

travar a vaga epidémica. É a primeira vez que

a Comissão Europeia acciona a chamada “cláusula

de salvaguarda” que suspende as regras do défice.

Um reconhecimento da dimensão da crise, para a

qual os países do bloco monetário não encontram

resposta conjunta, o que atira graves responsabilidades,

uma vez mais, para as costas da Alemanha,

estando em causa a defesa do euro. Em

termos monetários, é disso que se trata. Só que a

União Europeia está dividida e a pandemia poderá

vir a precipitar a queda da moeda única. A maior

parte dos países reclama que o dinheiro necessário

para aguentar o emprego e relançar a economia

provenha da emissão de dívida mutualizada entre

todos os Estados-membros, ou seja, de títulos cujo

risco é partilhado por todos, a que alguns já chamam

“coronabonds”. Mas a oposição por parte de

alguns estados do Norte da Europa, e sobretudo a

posição da hesitante Alemanha, apesar do desespero

da França, poderá fazer que o bloco monetário

se venha a desfazer. A Comissão Europeia não

tem margem orçamental para fazer mais do que

admitir a reafectação de verbas desviadas de outros

programas de apoio. A Europa tem de encontrar

rapidamente uma solução para o financiamento

dos défices impostos pela pandemia, mas mostra-

-se atarantada, lenta e desunida face à catástrofe

que enfrenta. Esta demonstrou que os laços de solidariedade

entre os países que constituem a União

Europeia são, como se suspeitava, muito frágeis.

abril 2020 | 23


CAPA PANDEMIA

CATADUPA DE APOIOS

O Fundo Monetário Internacional (FMI) põe à

disposição dos países mais atingidos pela pandemia

um financiamento de emergência de 50 mil

milhões de dólares. Os director e o vice-director

dos Assuntos Orçamentais do FMI, Vítor Gaspar

e Paolo Mauro, partilhando uma preocupação já

manifestada pela OCDE, consideram que os governos

devem “gastar dinheiro para prevenir, detectar,

controlar, tratar e conter o vírus”. Escrevem,

no blogue do FMI, que os governos devem “dar

subsídios salariais às pessoas e empresas para ajudar

a conter o contágio”. Em França, no Japão e na

Coreia do Sul foram apoiados os funcionários em

quarentena ou que precisem de dar apoio a crianças.

Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou

um pacote financeiro de 8,3 mil milhões de dólares

para o combate ao coronavírus no país. A mais

poderosa economia europeia, a Alemanha, anunciou,

no mesmo dia (9 de Março) em que o país

registou as suas primeiras duas mortes entre cerca

de mil infectados, medidas para tentar evitar uma

derrapagem económica descontrolada. A produção

industrial alemã está há seis meses deprimida,

tendo caído 5,7% no último trimestre, reflectindo

a maior recessão industrial desde a reunificação do

país, em 1990. Primeiro, a 9 de Março, as autoridades

alemãs anunciaram um plano de investimento

público envolvendo 12,4 mil milhões de euros a ser

implementado nos próximos quatro anos e ainda

um envelope de 8 mil milhões de euros destinado

a obras rodoviárias e ferroviárias e à construção

civil. Além disso, o governo dispunha-se a garantir

a tesouraria das empresas que registassem que-

PARA A

MAIORIA DOS

ECONOMISTAS,

A PRIORIDADE

É PARAR

RAPIDAMENTE

A PANDEMIA

E REABILITAR

A ECONOMIA,

COM POLÍTICAS

FISCAIS

EXCEPCIONAIS

MUNDO VAZIO:

Um homem passa pelos

famosos degraus

espanhóis de Roma

bras bruscas na receita e estender a mais empresas

o programa que permite às empresas reduzirem o

número de horas trabalhadas. A iniciativa alemã

foi de pronto considerada “unilateral” por muitos

analistas na União Europeia. A economia alemã

vem dando sinais de desaceleração e já ameaçava

mesmo uma recessão, dispondo, no entanto, de

uma confortável almofada orçamental. No último

ano, as contas públicas alemãs apresentaram um

excedente de 50 mil milhões de euros. A Alemanha

tem imposto aos seus parceiros do euro uma

convicção férrea nas virtudes da austeridade nas

contas públicas. Uma boa parte das economias

europeias continua muito endividada e os recursos

que terão de ser aplicados na contenção da

devastação provocada pelo surto epidémico irão

arrasar o equilíbrio fiscal e agravar a situação de

endividamento com que se debatem muitos países

europeus, como a Itália, Espanha, Grécia e

Portugal. Criticado no resto da Europa por avançar

sozinho, o governo alemão também não escapou

a críticas internas. A Deutsche Welle (DW), a

emissora internacional da Alemanha, publicava a

18 de Março um texto de opinião na sua página de

Internet no qual se fazem duras críticas à chanceler

Angela Merkel. A autora do texto, Cristina

Burack, é peremptória a dizer que “Merkel desperdiçou

uma oportunidade crucial e demonstrou

falta de liderança face à crise”. Ora, passados

dois dias, Merkel anunciava um fundo dotado de

500 mil milhões de euros para conceder linhas

de crédito e permitir injecções de capital nas empresas.

Berlim prevê ajudas de Estado no montante de

180 mil milhões de euros. Mas a Alemanha dis-

D.R.

24 | Exame Moçambique


põe-se a ir mais longe, contrariando todos os seus

sacrossantos princípios sobre a dívida europeia. Preferirá,

no entanto, não avalisar dívida em conjunto

com parceiros endividados na União Europeia.

A Itália, o país mais castigado pelo COVID-19, e

também o mais responsável pela sua propagação na

Europa, dado que as medidas de contenção andaram

a reboque do fulminante processo de contágio

e foram amplamente desrespeitadas pelos italianos,

anunciara, uma semana antes, a 4 de Março, um

pacote de estímulos de 7,5 mil milhões de euros

destinado a apoiar formas de trabalho flexíveis,

procurando garantir a preservação de empregos e a

produção. Uma vez mais, a velocidade do contágio

e a escalada de mortos tornou irrelevante a verba

anunciada. A 11 de Março, o pacote de ajuda italiana

disparou para 25 mil milhões de euros, um

problema agudo para um país cuja dívida pública

atinge 130% do produto interno (PIB). A Espanha,

o segundo país europeu mais atingido, anunciou,

seis dias depois, uma injecção de 200 mil milhões

de euros na economia para fazer face à destruição

operada pelo vírus. Na véspera, o governo francês

anunciara que irá disponibilizar 345 mil milhões

de euros, dos quais 300 mil milhões destinam-se

à garantia de empréstimos e 45 mil milhões ao

apoio de trabalhadores e empresas.

O IMPACTO DA ECONOMIA GLOBAL

É impossível prever os danos que serão causados

à sociedade global pois é impossível antecipar

a rota do vírus. O que se sabe é que se está

perante um novo tipo de crise, não uma crise

gerada no universo financeiro, mas uma crise de

saúde pública que suspende a economia real, a

oferta e a procura. Afundam-se tanto uma como

a outra. As previsões, cada vez mais catastróficas,

sucedem-se, procurando acompanhar a velocidade

com que a doença epidémica se espalha.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento

Económico (OCDE), que agrupa os países

mais desenvolvidos, afirmou, no início de Março,

que num cenário de pandemia causada pelo novo

coronavírus o crescimento mundial poderá descer

para metade (1,5%) em relação à sua previsão

de há quatro meses. A OCDE traçara um cenário

mais optimista, com o surto a ficar confinado

à China e Hong Kong, em que o PIB global cairia

apenas para 2,4%. Não foi, contudo, o que aconteceu,

e a epidemia espalhou-se rapidamente aos

outros continentes. Em qualquer dos cenários, a

procura interna na economia chinesa, que corresponde

a 17% do produto interno bruto (PIB)

A ESCALA

DOS GASTOS ESTATAIS

Os Estados Unidos e os países anglófonos apostam nos apoios

directos dos orçamentos nacionais como forma de proteger

rendimentos e consumo

Explosão Orçamental da COVID-19 (em milhões de dólares)

1100000

85000 79300 68000 50000 35300 27700 27500

Estados

Unidos

Austrália

Reino

Unido

Alemanha França Espanha Japão Itália

Fonte: Goldman Sachs com valores convertidos em dólares ao câmbio corrente.

mundial, cairá 4% no primeiro trimestre do ano e

2% no segundo. No cenário mais severo, registar-

-se-á uma diminuição de 2% na procura na maioria

dos países da região da Ásia-Pacífico e nas economias

mais desenvolvidas do Hemisfério Norte

no segundo trimestre deste ano, uma quebra de

20% no mercado de capitais e no preço das matérias-primas

não alimentares e “um aumento de

50 pontos base no prémio de risco no investimento

em todos os países”. A OCDE, poucos dias após

revelar as suas projecções, adiou, numa decisão

inédita, a divulgação dos seus indicadores avançados.

A formulação de previsões, um acto sempre

arriscado, tornou-se agora impossível, dado

o grau de incerteza que existe quanto à evolução

do vírus e o seu impacto na economia mundial.

A Organização Mundial do Turismo (OMT) prevê

que o coronavírus provoque perdas entre 30 e

50 mil milhões de dólares. O transporte aéreo é

fortemente atingido. O surto epidémico poderá

custar 130 mil milhões de dólares às companhias

de aviação só este ano, de acordo com a IATA,

a associação internacional de transporte aéreo.

O sector prepara-se para enfrentar a pior crise

desde 2008. As transportadoras vêem-se obrigadas

a estabelecer planos de contingência e a cancelar

rotas para os principais focos de propagação

do vírus. A queda de passageiros, com que já se

debatiam, tornou-se agora brutal. b

abril 2020 | 25


CAPA PANDEMIA

A RECESSÃO

E COMO SAIR

DELA

Sair de uma crise global

exige coordenação mundial

LUÍS FARIA

Até Junho, pelo menos, Europa e Estados

Unidos vão manter-se parados.

A China retoma, entretanto, a normalidade,

vendendo freneticamente

equipamento e material de protecção

contra o vírus. Em África e na América Latina,

a possibilidade de o vírus escalar a níveis insuportáveis

ainda é uma interrogação. Em todo o caso, ainda

SOLUÇÃO:

A governação mundial

tem de encontrar

respostas para uma das

maiores recessões

de sempre

JÁ NÃO

RESTAM

DÚVIDAS A

NINGUÉM QUE

A RECESSÃO

MUNDIAL É

INEVITÁVEL,

FALTA SABER

QUANTO CAIRÁ

O PRODUTO

GLOBAL

D.R.

que a um ritmo inicial mais lento (aliás, já observado

noutras latitudes), vai alastrando. A pandemia

escancara as portas à recessão da economia global,

que oscilava com a moderação do crescimento chinês,

e na Europa com os apuros da Itália e a desaceleração

alemã. O primeiro e segundo trimestres

do ano já estão marcados pela recessão. Poderá, na

melhor das hipóteses, assistir-se a alguma recuperação

já no terceiro trimestre.

Já não restam dúvidas a ninguém que a recessão

mundial é inevitável, falta saber com alguma aproximação

quanto decairá o produto global, o que

depende da duração da pandemia. A directora-geral

do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina

Georgieva, avisou, no final de Março, que a

economia global já se encontrava em recessão. Paul

Thomsen, encarregue da área europeia do FMI, num

artigo publicado no blogue da instituição, lembra

que os serviços fechados representam cerca de um

terço da produção, o que “significa que cada mês

de serviços fechados se traduz numa descida de 3%

do produto interno bruto (PIB) anual europeu”. E a

Europa estará fechada, pelo menos, por três meses.

A consultora Oxford Economics prevê, para os

Estados Unidos, uma recessão de apenas 0,2%, e para

a Zona Euro uma recessão de 2,2%. A China crescerá

apenas 1% (contra os 5,5% estimados na última

revisão da estimativa do crescimento da potência

asiática) e a economia mundial estagnará (a previsão

anterior à pandemia era de 2,5%). A consultora

é, no entanto, optimista para o período que se

seguirá ao termo da crise sanitária. “A perspectiva

de evolução a curto prazo é extremamente desafiante,

mas a actividade vai recuperar depois das

medidas de distanciamento social”, beneficiando

também com a combinação dos estímulos monetários

e orçamentais e da despesa discricionária”,

diz. Antecipa um crescimento de 5,3% da economia

mundial no último trimestre deste ano e uma

média de 4,4% em 2021. No entanto, estas estimativas

suaves da consultora são temperadas pelo pior

cenário que coloca e que se está a verificar, com o

agravamento da pandemia, que congela de todo os

mercados ocidentais. Neste caso, a economia mundial

poderá ter um crescimento negativo de 1,3%,

com os Estados Unidos a caírem 2,6%, a Zona Euro

3,2% e a China 0,9%.

Por seu lado, o Instituto de Finanças Internacionais

(IIF, na sigla em inglês) estima que o crescimento

da economia global deve desacelerar para

1% em 2020, ritmo mais fraco desde a crise financeira

de 2008, como efeito do choque causado pelo

coronavírus. O relatório divulgado pelo IIF redu-

26 | Exame Moçambique


ÁFRICA QUER PERDÃO DE DÍVIDA POR TRÊS ANOS

O impacto da recessão originada pela pandemia vai prolongar-se

em África por três anos, pelo que o continente pede

que, nesse período, os países que o integram sejam libertados

dos encargos da dívida. Esta a conclusão do segundo

encontro dos ministros das Finanças africanos, liderado pela

secretária-executiva da Comissão Económica das Nações

Unidas para África (UNECA), realizada por videoconferência,

com alguns dos ministros a usarem máscaras. Os governantes

defenderam que o continente “está a enfrentar um

profundo e sincronizado abrandamento económico e que

a recuperação pode demorar até três anos”. O pedido de

perdão de dívida, já formulado uma semana antes, mas só

por um ano, foi alargado no início deste mês a todo o tipo

de dívida e a todos os países do continente durante os próximos

três anos. “Os ministros pediram um alívio da dívida

por parte dos parceiros bilaterais, multilaterais e comerciais

com o apoio de instituições financeiras multilaterais e bilaterais,

como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial

e a União Europeia, para garantir que os países africanos

garantem a margem orçamental de que precisam para lidarem

com a crise da COVID-19”, lê-se no comunicado divulgado

no final da reunião. “Dado que a economia global entrou

num período sincronizado de abrandamento, com a recuperação

a só dever acontecer dentro de 24 a 36 meses, os parceiros

para o desenvolvimento devem considerar um alívio

financeiro e um perdão dos juros durante dois a três anos

para todos os países africanos, sejam de baixo ou de médio

rendimento”, escrevem os governantes. Os países africanos

continuam a focar a despesa nas necessidades de saúde exigidas

pela pandemia.

A ideia do perdão da dívida foi lançada pelo Fundo Monetário

Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM): “Com efeito

imediato, e consistente com as leis nacionais dos países credores,

o Grupo BM e o FMI apelam a todos os credores oficiais

bilaterais que suspendam os pagamentos de dívida

dos países [abrangidos pela] Associação para o Desenvolvimento

Internacional (IDA, na sigla em inglês) que assim

o solicitem”, lê-se num comunicado conjunto. “Isto vai ajudar

os países com necessidades imediatas de liquidez a lidarem

com os desafios colocados pela pandemia do novo coronavírus

e dar tempo para uma análise do impacto da crise e

sobre as necessidades de financiamento para cada país.”

A IDA é uma instituição que funciona no âmbito do Banco

Mundial com a missão de apoiar os 76 países mais pobres,

entre os quais estão todos os países lusófonos africanos,

à excepção de Angola e Guiné Equatorial.

“O FMI e o BM acreditam que neste momento é imperativo

fornecer um sentimento global de alívio aos países em

desenvolvimento, bem como um forte sinal aos mercados

financeiros”, conclui-se no comunicado, que incide apenas

sobre a dívida bilateral e não sobre a dívida emitida nos

mercados internacionais e detida por investidores privados

ou institucionais.

Tim Jones, economista-chefe da ONG Comité para o Jubileu

da Dívida, argumenta que a pandemia da COVID-19 “torna

ainda mais vital” que Moçambique não pague as dívidas

ocultas, defendendo uma moratória sobre as outras dívidas.

O dinheiro, vincou, “precisa de ficar em Moçambique para

ajudar a financiar os serviços de saúde e lidar com a crise

económica e a queda nos preços das matérias-primas”. Para

o economista-chefe desta organização que defende a emissão

de dívida de forma responsável, “também é preciso uma

moratória nos pagamentos de dívida a outros credores externos”.

Um estudo da ONG conclui que os juros de nova dívida

pública para mercados emergentes subiu para uma taxa de

10% desde o final de Fevereiro.

D.R.

abril 2020 | 27


CAPA PANDEMIA

A PANDEMIA E O GÁS NATURAL

Mesmo que o petróleo se mantenha em patamares muito baixos

(o preço do barril já rondou os 20 dólares), os preços do

gás natural liquefeito podem aumentar no final desta década.

No entanto, o “efeito cascata” da quebra dos preços do petróleo

pode contagiar o gás natural, pondo em causa as decisões

finais de investimento em relação a novos projectos de exploração

de gás, de acordo com a Bloomberg, que lembra que

há quase 20 megaprojectos em busca de financiamento pelos

investidores internacionais, depois de um número recorde ter

atingido o marco crítico da Decisão Final de Investimento (FID,

na sigla em inglês) no ano passado, e que já antes da queda dos

preços do petróleo e das perturbações mundiais decorrentes

da pandemia de COVID-19 “os promotores dos projectos estavam

sob pressão devido à queda dos preços do gás, temperaturas

quentes para o Inverno e restrições na procura”. “Com

uma pressão para a descida dos preços no gás natural e com os

preços do petróleo já baixos, alguns projectos podem começar

a parecer realmente pouco rentáveis”, disse Jeff Moore, analista

da consultora especializada em energia S&PGlobal Platts,

em declarações à Bloomberg.

O surto pandémico pode pressionar o preço do gás natural

liquefeito no imediato, no entanto as perspectivas para o mercado

do gás a longo prazo são bastante optimistas. Aliás, há,

desde logo, um facto muito curioso a registar. O aumento de

importações de commmodities energéticas subiu significativamente

nos primeiros dois meses do ano, um dado que foi ofuscado

pelo impacto do novo coronavírus. Informação alfandegária

divulgada a 7 de Março mostra que as importações chinesas de

petróleo bruto atingiram uma média de 10,48 milhões de barris

por dia (bpd) nos dois primeiros meses, um aumento de 5,2% em

relação ao mesmo período do ano passado. As importações de

gás natural através de oleodutos e gás natural liquefeito (GNL)

aumentaram 2,8%, para 17,8 milhões de toneladas — talvez o

desempenho mais surpreendente dado o diferimento relatado

de várias cargas de GNL em Fevereiro devido ao coronavírus,

bem como a fraca procura de um Inverno mais quente do que o

habitual. Durante uma reunião conjunta da Louisiana Mid-Continent

Oil and Gas Association e Louisiana Oil & Gas Association

que teve lugar na primeira semana de Março, altos executivos

de grandes empresas de energia reafirmaram a sua convicção

de que a procura por energia irá continuar a subir. A ExxonMobil

Fuels & Lubricants espera que a procura por petróleo e gás

aumente 8% e 6%, respectivamente, nos próximos 20 anos.

“Mesmo com as mudanças introduzidas pelo Acordo Climático

de Paris, haverá um enorme crescimento da procura por petróleo

e gás”, disse Bryan Milton, presidente da empresa, acrescentando

que esta espera investimentos da ordem de 21 triliões

de dólares até 2040. Uma boa parte deve beneficiar a costa do

Golfo. Frederic Phipps, presidente da Shell nos EUA, afirma que

a procura a longo prazo de gás natural liquefeito permanece

forte — apesar das perturbações decorrentes do coronavírus,

já que o gás continua a ser o combustível de escolha para soluções

de energia mais limpas. Para Phipps, “uma população crescente

e padrões de vida crescentes continuarão a impulsionar

a procura por energia com emissões mais baixas”.

Mas a verdade é que, no imediato, a pandemia significa um

duro golpe nos três maiores mercados de importação de gás

natural liquefeito — Japão, China e Coreia do Sul. Os três principais

importadores de LNG do mundo foram, inicialmente, os

três países mais atingidos pelo surto de coronavírus, mas também

aqueles que tiveram mais sucesso no combate à doença.

O alastramento da pandemia à Europa e aos Estados Unidos

teve muito menor impacto nos preços do gás do que no valor

do petróleo.

O presidente do Instituto Nacional de Petróleos (INP) de

Moçambique, Carlos Zacarias, disse esperar que a queda do

preço de petróleo no mercado internacional não tenha um

impacto negativo nos investimentos no sector de gás natural

no país. “Como regulador, espero que essa baixa de preço de

petróleo não seja por muito tempo e não tenha impacto negativo

no investimento”, declarou Carlos Zacarias. A queda de preços

e o impacto da pandemia de COVID-19 coloca as empresas

do sector energético em alerta, porque se trata de “situações

sensíveis”, acrescentou Zacarias, que lembrou que “há compromissos

[assumidos pelos investidores], mas há também desenvolvimentos

que fogem do controlo dos actores do mercado”.

Os investimentos da bacia do Rovuma poderão atingir 50 mil

milhões de dólares e representam o maior investimento privado

em curso em África.

(com Lusa)

D.R.

28 | Exame Moçambique


TURISMO: As perdas

deverão atingir 50 mil

milhões de dólares

D.R.

ziu as previsões para o avanço do produto interno

bruto (PIB) dos Estados Unidos (de 2% para 1,3%) e

da China (de 5,6% para “pouco menos” de 4%). Para

o IIF, “há claros abalos nas cadeias de fornecimento

industriais, mas as potenciais consequências do vírus

na economia incidem no sector dos serviços, no qual

o impacto depende da escala da transmissão e do

alcance das medidas de contenção”.

As previsões para o desastre económico avançadas

pelas entidades que ainda se arriscam a fazê-las

conduzem todas para a queda brutal das expectativas

anteriores ao tsunami sanitário, e quase todas apontam,

a começar no FMI, para uma recessão pior que

a de 2008. Os analistas do Morgan Stanley admitem

uma queda de 30% no PIB dos Estados Unidos no

segundo trimestre, o que abre as portas a uma recessão

técnica na principal potência mundial. Também

o Goldman Sachs, na sua última estimativa, projecta

uma queda de 1% da economia norte-americana no

final do ano. Mesmo assim, no meio do descalabro,

o banco J P Morgan aproveita para ir às compras, já

que a crise lhe oferece, confessa, a oportunidade de

adquirir startups no sector tecnológico e financeiro

para combater o avanço de concorrentes inesperados

e fortíssimos como a Amazon e o Google.

INCERTEZA ABSOLUTA

O problema é que não se consegue prever com satisfatório

rigor até onde irá a pandemia. Não há modelo

económico para um pós-crise quando não se sabe

ENFRENTAR

A GIGANTESCA

CRISE

ECONÓMICA

GLOBAL QUE

AÍ VEM EXIGE

COORDENAÇÃO

E COOPERAÇÃO

À ESCALA

MUNDIAL,

ALGO QUE

DIFICILMENTE

IRÁ

ACONTECER

quando esta acaba e qual a extensão do seu impacto

na economia. Tal como o vírus, a recessão já se contabiliza

ao trimestre e chegará à economia de todos os

países. Só não se sabe quando e com que intensidade.

À evidente crise da procura, com os consumidores

encafuados nas suas casas a reduzirem muito as

compras, junta-se, como referimos, a crise da oferta.

E é a componente da oferta que pode tornar a próxima

recessão global muito diferente das duas últimas

(2001 e 2008), alerta Kenneth Rogoff, antigo

economista-chefe do FMI e professor na Universidade

de Harvard. Num texto divulgado a 8 de

Março, Rogoff considera ser “demasiado cedo para

prever o impacto de longo prazo do surto de coronavírus.

Mas não é demasiado cedo para reconhecer

que a próxima recessão global pode estar a chegar

— e que pode ser muito diferente das que começaram

em 2001 e 2008”. Nouriel Roubini, que antecipou

a recessão de 2008, afirma que esta será muito

pior. Para o economista, esta recessão não terá nem

a configuração tradicional em “V”, a mais benigna,

em que a um choque inicial se sucede uma rápida

recuperação, nem em “U”, em que a recuperação se

faz mais lentamente, nem em “L”, em que à quebra

na economia se segue um período de “estagflação”.

A pandemia vai gerar, para Roubini, um mergulho

vertical da economia global, algo que se assemelha

a uma inédita curva de recessão, em “I”. O abismo.

Há quem aproveite para chamar a atenção para

o que o surto traz à superfície quanto ao mau fun-

abril 2020 | 29


CAPA PANDEMIA

cionamento das sociedades e da economia. É o que

faz Raghuram G. Rajan, ex-governador do Reserve

Bank da Índia e professor de Finanças na Universidade

de Chicago, ao assinalar que “o COVID-19 foi

rápido a expor o amadorismo e a incompetência”,

acrescentando que, “na arena política, um sistema

profissional mais acreditado terá a oportunidade de

promover políticas sensatas que abordem os problemas

que os pobres enfrentam sem dar início à

guerra de classes. Mas essas aberturas não durarão

eternamente. Se os profissionais falharem em capitalizá-las,

a pandemia não oferecerá oportunidades

— apenas mais pavor, mais divisão, mais caos e mais

miséria”. Para fazer face à pandemia, os países ou

se isolam completamente ou integram um esforço

global para erradicar o vírus. A questão é não haver

uma entidade nem ninguém capazes de assumir

essa convergência de esforços. Não se sabe do G7,

o G20 desapareceu (fóruns que agrupam os países

mais influentes), as Nações Unidas não têm poder

efectivo, a própria União Europeia tem muita dificuldade

em entender-se sobre fundos comuns que

possam financiar os milhares de milhões de euros

tirados dos orçamentos nacionais para cobrir as

situações de calamidade e que conduzirão, no caso

de países como Itália, Espanha e Portugal, se tiverem

que recorrer ao mercado para se financiarem,

à bancarrota. Parece, na esfera política, haver pouca

coordenação. A competição aumentou, mesmo com

a China e os Estados a trocarem acusações e a confirmar-se

que vivemos num mundo fragmentado

por diferentes poderes, como o dos Estados Unidos,

China, Rússia, Irão.

Como sair da inevitável e severa recessão que aí

vem? O risco que correm muitos analistas é não perceber,

como a maior parte dos actores, que uma crise

destas dimensões acarreta uma mudança que não

deixa “no dia seguinte” as coisas no mesmo sítio.

É uma ilusão imaginar que basta retomar o que por

ela foi interrompido. Os dirigentes políticos hesitaram

muito em tomar medidas drásticas, tentando conciliar

uma crise global de saúde pública com o menor

prejuízo económico. Uma pretensão que se arrisca a

permitir vários ciclos consecutivos da epidemia, o que

ficará muito mais caro do que pôr, de uma vez por

todas e no menor tempo possível, termo ao espectro

do contágio. Bill Gates, numa entrevista à CNN,

disse não acreditar que se consiga motivar alguém a

comprar casa nova ou comemorar com amigos num

restaurante, quando as pessoas estão preocupadas a

defender a sua vida e dos seus próximos. Por outro

lado, o colapso total dos sistemas de saúde poderia

traduzir-se no aumento da taxa de letalidade da

CONTAGEM:

Isoladas, as pessoas

vêem o vírus alastrar-

-se de dia após dia

doença pandémica. Na chamada Gripe Espanhola,

que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas, a taxa

de contaminação era inferior mas a taxa de letalidade

superior (agravada por outras condições). Caso

alastrasse descontroladamente, o COVID-19 causaria

o colapso total dos serviços de saúde ocidentais

e, dado o enorme número de infectados, atingiria

uma letalidade muito elevada, traduzindo-se numa

catástrofe social e económica de dimensões aterradoras.

Para Raghuram G. Rajan “dentro dos países,

a acção imediata — após a implementação de medidas

para conter o vírus — é apoiar os que operam na

economia informal e os trabalhadores independentes,

cujos meios de subsistência serão interrompidos

por quarentenas e distanciamento social”. Os Estados

Unidos e, em geral, os países de tradição saxónica,

parecem preferir os estímulos directos, pondo

dinheiro no bolso das pessoas, para impedir a quebra

brutal de rendimentos e da procura, mas os países

da União Europeia, fustigados pela epidemia, e

alguns, como Itália, Espanha e França, com os sistemas

de saúde implodidos, mostram grande vulnerabilidade

financeira e terão grande dificuldade

em financiar-se se não mudar o clima desavindo na

União Europeia.

Para Anatole Kaletsky, co-presidente da Gavekal

Dragonomics e autor de Capitalism 4.0: The Birth of

a New Economy in the Aftermath of Crisis (Capitalismo

4.0: O Nascimento de Uma Nova Economia

no Pós-Crise, numa tradução livre), caso se queira

evitar uma catástrofe económica pior do que a de

30 | Exame Moçambique


2008 “os governos das maiores economias devem

garantir a remuneração ilimitada de todos os rendimentos

e salários perdidos, em todas as empresas

e funcionários afectados por quarentena e contenção

— ou, se a compensação de 100% não for possível,

dever-se-ão compensar perdas de pelo menos

80-90%”. Kaletsky advoga também o crédito a longo

prazo a taxa de juro zero, concedido a grandes

empresas ou, então, a prestação de garantias. “Muito

claramente, na actual situação a política monetária

nada poderá fazer para estimular a actividade

económica.” Kaletsky considera muito mais eficaz

uma forte intervenção orçamental, equivalente a

25% do PIB, que várias medidas fiscais espaçadas,

que são menos eficazes e tornam-se mais caras, não

se comprometendo assim tanto o equilíbrio orçamental

a longo termo. Em segundo lugar, os bancos

centrais, através do reforço do quantitative easing

(compra de dívida), podem absorver a emissão de

dívida suplementar. Em suma, a base monetária de

cada uma das economias do G7 teria uma expansão

equivalente a 25% do PIB. Kaletsky coloca uma

outra opção para a saída da crise. É a do chamado

“dinheiro atirado do helicóptero”, uma ideia inédita

que o economista Milton Friedman lançou em 1969

e que põe o banco central a entregar directamente

dinheiro às pessoas. Contraria o receio da inflação,

pois a queixa actual é da falta dela, e lembra que os

agricultores já beneficiam do sistema de compensação

integral quando as suas culturas são atingidas

por catástrofes naturais. E sublinha que “desde

O RISCO É NÃO

PERCEBER

QUE UMA

CRISE DESTAS

DIMENSÕES

ACARRETA

UMA

MUDANÇA,

NÃO SE VOLTA

AO MESMO

UNSPLASH

2008, bancos, companhias de seguros e mercados

financeiros beneficiam de transferências orçamentais

efectivas em muitos países que totalizam bem

mais do que 25% do PIB. A diferença, neste caso, é

que o desastre afecta todos os seres humanos, o que

justifica uma compensação ainda maior. A única

razão pela qual os governos em todo o mundo ainda

raciocinam em termos de garantias de empréstimos

e créditos, e não em termos de compensação orçamental

directa, é porque nenhum lobby com interesses

especiais, como os lobbies agrícola e bancário,

pede, desta vez, assistência específica”. É inevitável

que a crise de saúde pública desencadeie uma profunda

recessão. Transmitiu-se com um impacto

brutal à economia real, com paralisação da maior

parte da actividade na Europa, primeiro, e Estados

Unidos, depois, e os bancos centrais têm de arranjar

forma de impedir que a crise também contagie

fortemente o sistema financeiro. Há políticas económicas

inéditas para sair da recessão. Para a maioria

dos economistas, a prioridade é parar rapidamente

a pandemia e reabilitar a economia, com políticas

fiscais excepcionais e intervenções dos bancos centrais

que garantam ao sistema financeiro liquidez

suficiente para ocorrer à tesouraria das empresas.

Muitos esperam que a pandemia termine para retomar

os negócios — business as usual — e que, mais

cedo ou mais tarde, a sociedade esquecerá os constrangimentos

e os dramas destapados pela crise.

Alguma coisa, porém, mudará. As cadeias de valor,

de produção, logística e serviços, disseminadas pelo

mundo, tenderão a encurtar, reforçando as tendências

mais proteccionistas, como as protagonizadas pelo

Presidente da principal potência mundial, Donald

Trump. Ironicamente, a saída económica desta crise

aconselha que os Estados Unidos e a China suspendam

a guerra comercial, flexibilizando mesmo

algumas das tarifas em vigor. Nos países em desenvolvimento,

se o vírus aí se propagar com a intensidade

com que o fez na China, Coreia do Sul, Japão e

outros países asiáticos, Europa e Estados Unidos, a

crise de saúde pública trará uma catástrofe humanitária

ainda maior e muito mais dificuldades em

tomar as medidas necessárias para reactivar as economias.

A limitada capacidade destes países para

emitir dívida em moeda nacional, tendo de concorrer

à emissão em divisas fortes, constituirá um obstáculo

ao endividamento necessário para responder

a uma crise de saúde pública de tamanha dimensão.

Sobreviver ao vírus e à gigantesca crise económica

global que aí vem exige coordenação e cooperação

sem precedentes à escala mundial, algo que dificilmente

irá acontecer.b

abril 2020 | 31


32 | Exame Moçambique


abril 2020 | 33


CAPA PANDEMIA

PIETRO TOIGO: Ainda

é cedo para os detalhes

do apoio à economia,

mas as coisas decorrem

com muita rapidez

BAD NA VANGUARDA

DO COMBATE

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) estará na vanguarda da resposta

a uma recessão cavada pelo vírus, que atingirá profundamente áreas vitais da economia

do continente, garante Pietro Toigo, que representa a instituição em Moçambique

LUÍS FARIA

34 | Exame Moçambique


P

ietro Toigo, representante residente do

Banco Africano de Desenvolvimento em

Moçambique, alerta que a infecção pode

espalhar-se de uma forma muito insidiosa,

tendo feito colapsar os sistemas

de saúde dos países avançados. A menor conectividade

de África e as lições aprendidas com os países

mais atingidos pelo surto podem, no entanto,

“abrandar o alastrar da doença”.

A doença COVID-19 está a entrar em cada vez

mais nos países africanos. Pode prever-se

um contágio em larga escala como na

Europa, China e Sudoeste Asiático?

É muito difícil de prever. A conectividade no continente

africano é menos densa que na Europa ou

na Ásia, o que pode abrandar o alastrar da doença.

Algumas das lições aprendidas na Europa e na

Ásia podem ser usadas no continente africano,

e um grande número de governos africanos agiu

rapidamente no sentido de implementar medidas

mais restritivas que as de outros países na

mesma fase da infecção. Em todo o caso, podemos

verificar que a infecção pode espalhar-se de

uma forma muito insidiosa e ultrapassar mesmo

os sistemas de saúde dos países mais avançados.

Quais os sistemas de saúde africanos com

mais capacidade para enfrentar um surto

do vírus?

Não estou em posição de fornecer esse tipo de

análise do sector da saúde.

Existe algum tipo de apoio previsto, do

Banco Africano de Desenvolvimento (BAD)

ou algum organismo internacional, para a

área da saúde, para fazer face a esta situação

em África?

É prematuro identificar qual seria a resposta mais

eficaz em cada país — depende da natureza do

impacto. Mas vários parceiros de desenvolvimento,

especialmente aqueles com um histórico

de trabalho em sistemas de saúde, já estão a trabalhar

com governos e outros actores nos países

afectados. É muito provável que, além de apoiarem

os sistemas de saúde, os governos e as instituições

financeiras de desenvolvimento tenham

de implementar medidas para apoiar a economia,

restaurar as cadeias de fornecimento e fornecer

liquidez. Ainda é cedo, no momento em

que falamos, para descrever os detalhes de um

pacote abrangente, mas as coisas acontecem muito

rapidamente.

Que consequências terá o avanço da

pandemia no continente nas economias

africanas? Compromete projectos, reduz o

investimento externo, conduz a uma recessão

em alguns países? Além do impacto directo

da doença, África vai sofrer o impacto da

crise mundial, já reflectida na queda do preço

das matérias-primas. É possível avaliar esse

impacto?

O impacto da pandemia nas economias industrializadas

já é evidente, com várias delas a entrarem

em recessão. É possível que algumas das economias

africanas sejam fortemente atingidas, principalmente

em consequência de uma ruptura nas

cadeias de valor globais e uma queda na procura de

mercadorias e serviços exportados do continente

(incluindo o turismo). É provável que o impacto da

segunda vaga na economia, mais do que o impacto

directo da doença, represente desafios maiores para

África. Os exportadores líquidos de matéria-prima

“É POSSÍVEL QUE ALGUMAS

DAS ECONOMIAS AFRICANAS

SEJAM FORTEMENTE

ATINGIDAS, PRINCIPALMENTE

EM CONSEQUÊNCIA DE

UMA RUPTURA NAS CADEIAS

DE VALOR GLOBAIS”

e, especialmente, os recursos minerais, verão reduzir-se

o espaço fiscal; as interrupções na cadeia de

fornecimento afectarão as empresas privadas e os

projectos que dependem de inputs dos países afectados

poderão sofrer atrasos na implementação.

O Banco Africano de Desenvolvimento

irá lançar acções específicas para apoiar

financeiramente os países do continente face

a uma recessão mundial?

O presidente do BAD, Akinwumi Adesina, deixou

claro que o BAD estará na vanguarda da resposta

em África e trabalharemos em estreita colaboração

com os países membros para criar o pacote mais

eficaz para apoiar o sector público e privado numa

rápida recuperação. Temos um histórico consistente

de resposta rápida e eficaz à recessão global

em 2008-2009, à crise do ébola na África Ocidental

em 2014 e a uma série de desastres naturais que

atingiram o continente, incluindo os ciclones Idai e

Kenneth em Moçambique, Zimbabwe e Malawi. b

abril 2020 | 35


CAPA PANDEMIA

QUAL O

IMPACTO

DA COVID-19

NA ECONOMIA?

O crescimento económico é revisto em baixa,

mas ainda ninguém prevê uma recessão

em Moçambique. Só que o pessimismo reina

entre os patrões, que já pedem um pacote

de apoio inicial de 355 milhões de dólares

para minimizar os danos, numa altura em que

o real impacto da crise ainda está por calcular

ADRIANO MALEIANE,

COM O PRIMEIRO-MINISTRO:

Para o ministro da Economia

e Finanças, a forma de manter

a economia a funcionar passa

pela concessão de linhas de crédito

LUÍS FONSECA *

H

á dois números que delimitam as

expectativas do governo, revistas em

baixa, para o crescimento económico

de Moçambique este ano. A previsão

de subida do produto interno bruto

(PIB) era de 4,8% para 2020, mas foi revista para

2,2% num cenário pessimista e 3,8% num cenário

optimista. O anúncio foi feito pelo ministro

da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, na

última semana de Março. Segundo o governante,

o impacto do abrandamento mundial será transversal

a todos os sectores, da indústria extractiva à

agricultura. “Alguns dos nossos importadores de

madeira, algodão e camarão vão reduzir” as encomendas

a Moçambique, exemplificou. Já para não

falar da indústria extractiva. O sector do turismo

também será dos sectores mais afectados: previa-

-se um crescimento de 3%, agora revisto para 0,5%

— para o primeiro trimestre de 2020 estava prevista

a entrada de 500 mil turistas em Moçambique,

mas o número fixou-se em 23 mil.

O que fazer perante esta situação para minimizar

os danos numa economia debilitada? A única

forma de manter a economia a funcionar será concedendo

linhas de crédito, disse Adriano Maleiane.

Em linha com essa ideia, a pandemia provocada

pelo novo coronavírus já tinha levado, dia antes, o

banco central moçambicano a tomar várias medidas.

36 | Exame Moçambique


TURISMO COM

IMPACTO PROFUNDO

O estudo da CTA refere que o turismo é o

sector que irá apresentar maior desaceleração

em 2020, perdendo até um terço do

volume de negócios, num cenário macroeconómico

de desaceleração em que o crescimento

económico deverá fixar-se entre

2% a 2,3% — em linha com as previsões do

governo. “É evidente que esta pandemia

irá afectar todos segmentos da economia

moçambicana, principalmente pelo facto de

a economia nacional ser consideravelmente

aberta ao resto do mundo e bastante vulnerável

a choques externos”, nota a CTA. Por

outro lado, “espera-se que o volume de investimento

venha a ser afectado pela redução do

fluxo de investimento directo estrangeiro ou

pelo adiamento de iniciativas empresariais”.

O governo moçambicano pediu aos parceiros

internacionais um total de 700 milhões

de dólares (653 milhões de euros) para fazer

face ao impacto causado pela pandemia

de COVID-19, anunciou o primeiro-ministro,

“para a componente de saúde, prevenção

e tratamento” — e ainda antes de ser

conhecido o estudo da CTA. O governante

especificou que, entre outros objectivos, o

valor foi calculado para construir hospitais

e cobrir o défice no Orçamento Geral do

Estado, que poderá resultar da baixa captação

de receitas.

LUSA

Foi anunciada a introdução de linhas de crédito em

moeda estrangeira para os bancos, o relaxamento

das condições de reestruturação dos créditos dos

clientes bancários e a redução das reservas obrigatórias

exigidas ao sistema bancário em moeda

nacional (metical) e estrangeira.

PATRÕES QUEREM SUSPENDER CONTRATOS

A Confederação das Associações Económicas de

Moçambique (CTA) sugere medidas mais musculadas.

Os patrões defendem a suspensão dos

contratos de trabalho durante seis meses, com

substituição dos salários por subsídios, como forma

de apoiar as empresas mais afectadas com a pandemia

de COVID-19. O turismo, a aviação civil

(à semelhança do que acontece em todo o mundo)

e a agricultura serão os sectores em maior perigo,

antecipa um estudo da principal associação patronal

moçambicana. “Propõe-se a suspensão dos contratos

de trabalho nestes sectores por um período

de seis meses, sujeito a prorrogação dependendo

da evolução da pandemia nos próximos meses.”

A medida de suspensão de contratos (lay-off ) está

prevista na lei, mas a novidade é que a Confederação

defende, desta vez, que as empresas deixem

de pagar os salários a 100%. “Para evitar os

impactos sociais que esta medida pode acarretar,

propõe-se a aprovação de um pacote de subsídio

abril 2020 | 37


CAPA PANDEMIA

aos trabalhadores” cobrindo toda a despesa salarial,

o que pode ascender a 49 milhões de dólares.

A CTA sugere “a mobilização de fundos, junto dos

parceiros de cooperação, para a cobertura deste

volume da massa salarial durante os seis meses

do lay-off, de modo a assegurar a sobrevivência

das empresas e a manutenção dos postos de trabalho

e das condições de vida dos trabalhadores”.

A instituição defende ainda medidas fiscais, aduaneiras

e financeiras “aplicáveis a todos sectores

económicos e que devem ser implementadas em

função dos alertas do nível de gravidade do risco

da pandemia da COVID-19”. No total, o “pacote de

medidas imediatas a serem implementadas para os

sectores prioritários”, proposto pela CTA, tem um

custo de 355 milhões de dólares. O valor encontra-

-se no meio da previsão de perdas totais do sector

empresarial moçambicano, que oscila entre 212

a 340 milhões de euros. As perspectivas traçadas

no estudo foram obtidas através de entrevistas a

118 empresas.

ANALISTAS ESTRANGEIROS OSCILAM

As revisões em baixa do PIB por parte do governo

surgiram vinte dias depois de o Conselho de

Ministros ter aprovado o Plano Quinquenal do

governo por forma a ser discutido pelo Parlamento.

No documento, antes de se prever o impacto da

pandemia de COVID-19, o Executivo previa que a

economia do país chegasse a 2024 com uma taxa de

crescimento médio de 5,5%, contra os 2,2% registados

em 2019, o valor mais baixo da última década.

Entre as consultoras também há perspectivas mais

pessimistas, outras mais optimistas.

A consultora Economist Intelligence Unit (EIU),

mais pessimista, alerta que o orçamento de Moçambique

para este ano terá de ter “alterações significativas”.

A pandemia surge numa altura em que se

esperava “que os esforços de reconstrução depois

dos dois ciclones de 2019 continuassem a dominar

as decisões de política este ano”. No entanto,

acrescenta, “apesar de esses esforços se manterem, a

reduzida colecta fiscal e o abrandamento da actividade

económica vai travar o ritmo da recuperação”.

Os analistas chamam ainda a atenção para os

atrasos na discussão e aprovação dos gastos para

este ano devido às eleições do ano passado, considerando

que “as deficiências operacionais das

entidades públicas em Moçambique são estruturais,

limitando a definição das políticas e o rumo

das decisões e a capacidade de implementar reformas

que fortaleçam a gestão financeira e melhorem

o ambiente operacional”.

CRESCIMENTO

EM 2020

4,8%

PREVISÃO INICIAL

2,2%

CENÁRIO PESSIMISTA

3,8%

CENÁRIO OPTIMISTA

Entre os efeitos da pandemia de COVID-19,

a EIU lembra que as restrições às exportações a

nível mundial “parecem cada vez mais prováveis”

e aponta que este abrandamento no fluxo de bens e

mercadorias “pode criar cortes nas cadeias de abastecimento

das empresas moçambicanas”. Isto, por

sua vez, “criaria restrições às importações de bens

intermédios e de bens de consumo”, o que prejudicaria

ainda mais as previsões de crescimento económico

e de receita fiscal.

Do lado mais optimista, a consultora espanhola

FocusEconomics cortou em 0,5 pontos percentuais

o crescimento económico previsto para Moçambique,

antevendo ainda assim uma expansão de

4,2% este ano — mais optimista que a melhor previsão

do governo —, considerando que os investimentos

no gás natural vão manter-se inalterados

de modo a compensar os efeitos da pandemia.

“A actividade económica deverá recuperar este ano,

com o país a recuperar dos estragos dos ciclones

do ano passado; as despesas de capital no sector

do gás natural liquefeito também devem suportar

o crescimento”, dizem os analistas. A FocusEconomics

prevê que a inflação em Moçambique suba

até 4,7% este ano, aumentando para 5,4% em 2021.

GESTÃO PRUDENTE DAS

FINANÇAS PÚBLICAS

Alguns analistas locais revelam sentimentos de

precaução e alerta: “A gestão prudente das finanças

públicas é fundamental neste momento. Temos

de gastar naquilo que é estritamente importante e

garantir transparência, um elemento que tem faltado

nos últimos tempos nas estratégias do governo”,

declarou Celeste Banze, economista da organização

não-governamental Centro de Integridade Pública

(CIP). Jorge Matine, do Fórum de Monitoria do

Orçamento (FMO), entende que todas as previsões

de crescimento estão sujeitas a revisão e que o foco

deve ser a contenção da pandemia. “Temos de reduzir

a propagação e, se há casos registados em Maputo,

temos de garantir que outras províncias não sejam

afectadas.” Para o académico moçambicano Calton

Cadeado, o impacto do encerramento de fronteiras

como medida de prevenção da COVID-19 será mais

acentuado em países menos desenvolvidos, como é o

caso de Moçambique. “Moçambique é mais importador

do que exportador e, obviamente, isso vai ter

um impacto penoso. É verdade que todos os países

vão sofrer, mas para nós será mais pesado porque

nós não somos um país altamente industrializado

e produtor do que consome”, afirmou. b

* Trabalho especial da agência Lusa para a EXAME Moçambique.

38 | Exame Moçambique


AS MEDIDAS DO GOVERNO

Paula Rocha*

Com a economia moçambicana “estagnada” nos últimos

cinco anos — com algum crescimento apenas em torno dos

megaprojectos —, o impacto da situação epidemiológica

provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, agente causador

da doença COVID-19, prevêm-se efeitos a longo prazo,

adiando, novamente, o crescimento económico do país.

O sector do turismo, sempre tão dependente do exterior,

é já o primeiro a ressentir-se. Com o lockdown de vinte e

um dias anunciado pelo Presidente da África do Sul, Cyril

Ramaphosa, no dia 23 de Março, prevê-se uma redução na

circulação de produtos e bens para o mercado nacional, com

impactos e efeitos em cascata na economia moçambicana.

A par do reforço das medidas para controlar o surto da

doença do COVID-19, por parte das autoridades governamentais,

destacam-se, também, algumas medidas visando

mitigar o impacto económico da “nova” crise, que se avizinha

(e se adivinha duradoura).

Neste contexto, o governo aprovou recentemente o

decreto que aprova o perdão total de multas e a redução

de juros de mora — para o caso do pagamento integral da

dívida e para o pagamento em prestações — resultantes

das dívidas e contribuições ao Instituto Nacional de Segurança

Social (INSS) por parte dos empregadores. Esta iniciativa

visa, essencialmente, permitir aos trabalhadores e

respectivos familiares poderem aceder aos benefícios da

Segurança Social sem privações resultantes do incumprimento

das respectivas obrigações por parte das entidades

empregadoras.

Quase que em paralelo, o conselho de administração do

Banco de Moçambique deliberou a “introdução de uma

linha de financiamento em moeda estrangeira para as instituições

participantes no Mercado Cambial Interbancário,

no montante global de 500 milhões de dólares, por um

período de nove meses”, a partir de 23 de Março de 2020;

foi ainda autorizada “a não constituição de provisões adicionais

pelas instituições de crédito e sociedades financeiras

nos casos de renegociação dos termos e condições

dos empréstimos, antes do seu vencimento, para os clientes

afectados pela pandemia”.

O Banco de Moçambique justificou estas medidas com a

necessidade de “disponibilizar liquidez em moeda estrangeira

e em moeda nacional para apoiar as empresas e as

famílias a honrarem os seus compromissos, na sequência

do agravamento dos riscos decorrentes dos impactos

macroeconómicos”.

Ao nível migratório, numa comunicação à nação, o Presidente

da República, Filipe Nyusi, anunciou a suspensão

da emissão de vistos de entrada em Moçambique e o cancelamento

de todos os vistos já emitidos.

Entretanto, em comunicado datado de 26 de Março de

2020, e em consequência do cancelamento de voos por

diversas companhias aéreas, impossibilitando os cidadãos

estrangeiros de cumprirem os deveres previstos no Regime

Jurídico do Cidadão Estrangeiro em Moçambique, foram instadas

todas as Direcções Provinciais de Migração a receberem,

a título excepcional, pedidos de prorrogação de vistos,

nas seguintes situações: estrangeiros com vistos de negócio,

visitante e turismo que atingiram o limite máximo de

prorrogação previsto na lei; estrangeiros com autorização

de trabalho de curta duração, cujos vistos tenham expirado;

estrangeiros que entraram no país mediante visto de

fronteira, que se sabe é improrrogável, e que já atingiram

os trinta dias de permanência no país.

Aos cidadãos estrangeiros titulares de Autorização de

Residência que se encontram fora do país será permitida a

renovação dos vulgo “DIRE” quando regressarem, desde

que provem que não conseguiram regressar ao país antes

da caducidade daquele documento devido às restrições

decorrentes da pandemia da COVID-19.

A nível judiciário, o Tribunal Supremo também aprovou,

a 23 de Março de 2020, um conjunto de medidas, sendo

de destacar as seguintes recomendações: a realização de

audiências com a presença das partes, advogados, testemunhas,

declarantes ou outros intervenientes processuais;

a não marcação de julgamentos de vários processos para

a mesma hora; a não entrada simultânea de partes processuais

para as salas de audiência, para julgamentos marcados

para momentos diferentes.

No que respeita à situação migratória, que tantas questões

tem levantado aos trabalhadores expatriados e às empresas,

informação conflituante não permite à data confirmar

as medidas para a renovação de vistos e autorizações de

residência de estrangeiros que estejam em Moçambique.

É expectável que, a breve trecho, esta situação venha a ser

tratada, tendo em conta o actual contexto do encerramento

de fronteiras e da indisponibilidade de voos face à pandemia,

por período ainda imprevisível.

A 1 de Abril o Presidente de Moçambique decretou o

estado de emergência por trinta dias.

*Partner da HRA — ADVOGADOS

abril 2020 | 39


CAPA PANDEMIA

GÁS NATURAL:

As operadoras reduzem

despesas de capital

TOTAL

CONFIANTE,

ENI

E EXXON

ADIAM

RESPOSTAS

Operadoras da Área 4

de Moçambique anunciam revisão

de investimentos, numa altura

em que ainda está por anunciar

a decisão final de investimento

no projecto onshore

LUÍS FONSECA *

A

s expectativas de crescimento e desenvolvimento

de Moçambique assentam,

sobretudo, nos megaprojectos

de gás natural da bacia do Rovuma,

no Norte do país. Mas até que ponto

estes poderão ser retardados ou mitigados devido

à pandemia da COVID-19 e à guerra de preços do

petróleo? As petrolíferas dão dois tipos de respostas.

A francesa Total mantém 2024 como o ano

de início da produção, apesar das incertezas que

a COVID-19 e o baixo preço do petróleo estão a

provocar. “É difícil prever o curso dos acontecimentos,

mas até hoje continuamos dentro dos prazos

para fazer a entrega do primeiro carregamento

40 | Exame Moçambique


de GNL (gás natural liquefeito) em 2024”, referiu

fonte oficial da Total em Moçambique. A declaração

surge mesmo depois de o director executivo

da empresa, Patrick Pouyanné, ter anunciado um

corte de um quinto nas despesas de investimento

para este ano, assim como reduções nos custos

operacionais.

Em Moçambique, a Total diz-se “muito empenhada

em impedir que a COVID-19 chegue ao

projecto na península de Afungi e às comunidades

circunvizinhas” das obras de construção do megaprojecto

de exploração da Área 1 de gás natural —

várias infra-estruturas já estão edificadas ou em

funcionamento, como é o caso da pista de aviação

do complexo de obras.

A ENI DARÁ ESTE MÊS DETALHES

SOBRE A REVISÃO DO PLANO

DE NEGÓCIOS E OS PROJECTOS

AFECTADOS

Por outro lado, as petrolíferas Eni e ExxonMobil

adiam respostas. “Mais detalhes sobre a revisão

do plano de negócios e os projectos afectados

estarão disponíveis no final de Abril, na apresentação

trimestral” sobre a actividade e resultados

da empresa, disse fonte da petrolífera italiana Eni

quando questionada sobre as implicações para

Moçambique. Claudio Descalzi, director executivo

da Eni, anunciou cortes nas despesas de capital

de 2020 e 2021, menos um quarto do previsto

este ano e um corte de um terço no próximo ano.

Os projectos em causa “estão relacionados principalmente

com as actividades a montante [upstream],

em particular a produção, optimização

e desenvolvimento de novos projectos programados

para começar a curto prazo”, referiu o

CEO, sem mais pormenores. Mas um dos projectos

de upstream que está previsto para 2022 é

o início da exploração das reservas de gás Coral

Sul, através de uma plataforma flutuante offshore

(em mar alto).

O parceiro da Eni na Área 4 de exploração de

gás natural em Moçambique tem uma posição

semelhante. “Com base neste contexto sem precedentes,

estamos a avaliar todas as medidas apropriadas

para reduzir significativamente as despesas

de capital e operacionais no curto prazo”, disse,

na segunda quinzena de Março, Darren Woods,

presidente e director executivo da ExxonMobil.

Questionada sobre eventuais impactos nos prazos

previstos para anunciar uma decisão final de

investimento em Moçambique, que estava prevista

para este ano, fonte da empresa disse que,

por princípio, a firma “não especula sobre os prazos”.

“O projecto Rovuma LNG é complexo e levará

vários anos para ser desenvolvido”, referiu, acrescentando

que a ExxonMobil “tem em vigor protocolos

de emergência e segurança para mitigar

riscos numa variedade de cenários, incluindo os

desafios globais da COVID-19”. Neste momento,

“o foco é a saúde e a segurança do pessoal”.

ANALISTAS ALERTAM PARA

TENSÕES ACRESCIDAS

O departamento de estudos do banco sul-africano

Standard Bank considera que, em relação a

Moçambique, a pandemia vai provavelmente pressionar

a balança de pagamentos devido aos baixos

preços das matérias-primas e possivelmente

adiar a implementação dos projectos de gás natural.

A consultora Fitch Solutions acrescenta que há

outros factores negativos a ter em conta, mesmo

antes da COVID-19: a perspectiva de evolução dos

investimentos no sector do gás natural liquefeito

em Moçambique “começa a perder brilho” devido

à corrupção e ao aumento dos ataques de militantes.

Na nota, com o título “Clima de Investimento

no GNL de Moçambique começa a ficar negro”,

enviada aos investidores, escreve-se que “o aumento

do número de ataques na província de Cabo Delgado

aumenta o risco dos grandes investimentos

no sector”, com 2019 a registar “uma subida significativa

do número de ataques” por parte de grupos

insurgentes.

A FRANCESA TOTAL MANTÉM

2024 COMO O ANO DE INÍCIO

DA PRODUÇÃO

Para a Fitch Solutions, esta não é uma situação

decorrente da actual pandemia de coronavírus:

“Mesmo antes dos impactos mundiais da COVID-

19 e do colapso do acordo da Organização dos Países

Exportadores de Petróleo (OPEP), os ataques

no Norte de Moçambique já tinham vindo a progredir.”

O problema, sublinha, é que, agora, com

a descida do preço do petróleo e a perspectiva de

manutenção dos preços baixos, os projectos ficam

menos rentáveis, o que pode afectar as decisões

finais de investimento que ainda não foram tomadas

— no caso, do projecto onshore da Área 4. b

* Rrabalho especial da agência Lusa para a EXAME Moçambique.

abril 2020 | 41


CAPA PANDEMIA

PANDEMIA

ACENTUA

COMPETIÇÃO

GLOBAL

Para Harold James, professor

na Universidade de Princeton

e especialista em História da

Economia, a pandemia acentua

a competição entre sistemas

políticos rivais e poderá impor

retrocessos ao processo

de globalização

FABIANE STEFANO

O

historiador económico britânico

Harold James, professor na Universidade

de Princeton, acredita que a

fase mais aguda da crise do coronavírus

apenas tem destacado uma competição

entre sistemas políticos rivais. Países ricos,

como a Itália e os Estados Unidos, têm falhado na

contenção da propagação do vírus. A China tem

obtido bons resultados em função justamente do

regime autoritário. Para Harold James, por ora a

Coreia do Sul é o país que tem dado a resposta mais

efectiva no combate à pandemia.

James também alerta para os riscos de retrocesso

na globalização. “Estamos a ver um recuo no processo

de globalização, o qual já ocorre há algum

tempo. Com o surto, acredito que esse movimento

se intensifique”, diz o historiador.

HAROLD JAMES,

DE PRINCENTON:

“A crise também deve

dar um forte impulso

à tendência existente

de maior recurso

à telemedicina”

42 | Exame Moçambique


O surto de coronavírus está a alimentar uma reacção

contra a globalização? Quais são as possíveis

consequências?

Estamos, de facto, a assistir a um recuo no processo

de globalização, o qual já ocorre há algum tempo.

É óbvio para todos que a propagação do vírus está

ligada à mobilidade, e os esforços iniciais de contenção

limitam a mobilidade, com proibições de

viagens nos países e entre países. Com o surto, acredito

que esse movimento antiglobalização se intensifique.

Mas os principais efeitos no longo prazo

estão principalmente relacionados com a psicologia

política: a epidemia já gerou uma discussão sobre

se pode ter sido causada pelos governos. Circulam

rumores de que os chineses — ou, noutra versão, os

norte-americanos — estão a utilizar a doença para

enfraquecer ou destruir os seus rivais. Não acredito

que exista base factual para nenhuma dessas

reivindicações, mas, quanto mais o vírus se espalhar,

mais interpretações estranhas proliferarão.

Agora que o coronavírus ganhou proporções verdadeiramente

globais, como analisa o momento

actual?

A fase mais aguda da crise destacou a extensão da

competição entre sistemas políticos rivais. A China,

com uma abordagem mais autoritária, pode lidar

melhor com a pandemia? Portanto, a resposta mais

emblemática para os regimes democráticos é a da

Coreia do Sul.

Outros países, nomeadamente a Itália, mas também

o Reino Unido e os Estados Unidos, têm visivelmente

falhado na tentativa de fornecer simples

testes, os quais, é cada vez mais evidente, constituem

uma ferramenta importante para gerir a contenção

e o isolamento.

A estratégia da China para conter o surto de coronavírus

impôs um forte controlo sobre a sociedade,

fechando cidades e colocando cidadãos em

quarentena. O mundo passou a ver a China como

um poder organizado para enfrentar qualquer

tipo de crise ou continua a vê-la como o mesmo

velho país comunista e autoritário?

As evidências dos últimos dias sugerem que a

China teve bastante sucesso em conter o avanço da

doença. Os extensos controlos e o sistema de monitorização

da população (que cruza dados do histórico

de saúde do cidadão e verifica se há infectados

entre os seus conhecimentos) são notavelmente

sofisticados e bem-sucedidos. Se mesmo assim a

China for seriamente atingida a longo prazo e se

houver a percepção de que as autoridades não responderam

adequadamente, não é irrealista prever

desafios muito maiores para o regime e a sua legitimidade.

Mas até agora, pelo menos, os controlos

sociais da China parecem mais eficazes do que os

sistemas de saúde bastante caóticos e visivelmente

sobrecarregados de outros países. Isto quase certamente

levará muitos outros países a quererem

imitar a China — embora, provavelmente, não na

Europa, onde há preocupações muito maiores com

a privacidade. Mas espero que a crise produza um

debate bastante amplo sobre a recolha (e a utilização

e disseminação) de dados respeitantes à saúde

e outros dados pelos governos.

As contracções da actividade industrial na China

estão a ser sentidas em todo o mundo, reflectindo

o papel crescente da China nas cadeias de

fornecimento e commodities. A China pode perder

a participação no comércio global devido à

crise de saúde pública?

O efeito do vírus é perturbador, mas de curta duração.

No entanto, muitos fabricantes terão consequências:

com o receio de aumentar a probabilidade de

eventos semelhantes no futuro não querem depender

de cadeias de fornecimento longas e distantes.

Os danos no turismo podem ser de longo prazo

— imagino que muitas pessoas não desejem correr

o risco de serem confinadas obrigatoriamente

em navios de cruzeiro de alto risco. Mas os hotéis

e companhias aéreas também podem sofrer um

longo impacto, porque o vírus muda a percepção

de longo prazo do que é um risco aceitável.

Já antes da crise do coronavírus o Presidente

Donald Trump exigia que as empresas multinacionais

abandonassem a China e produzissem

os seus produtos em fábricas norte-americanas.

Este movimento aumentará e mais países

adoptarão a mesma iniciativa?

Sim, os argumentos para encurtar as cadeias de

fornecimento já existiam antes de Trump — o que

também representa as possibilidades tecnológicas

de processos de produção difusos. Admito que a

tendência prossiga e se intensifique.

Espera que os políticos e partidos populistas

dêem mais ênfase aos argumentos contra a

imigração?

Certamente farão esse apelo. Até que ponto é politicamente

atraente e bem-sucedido? Isso dependerá

da bondade, maior ou menor, do julgamento que

se fizer sobre o modo como as autoridades geriram

a crise. b

abril 2020 | 43


ECONOMIA DESNUTRIÇÃO

UM ENTRAVE AO

DESENVOLVIMENTO

FAO

Os resultados do estudo “Custo da Fome” revelam que 43,1%

das crianças em Moçambique sofrem de desnutrição crónica,

a qual representa para o país uma perda anual de cerca

de 1,6 mil milhões de dólares

VALDO MLHONGO

Cerca de 1,6 mil milhões de dólares é

o valor que o país perde anualmente

devido à desnutrição crónica infantil,

revela à EXAME Felicidade Panguene,

especialista da Organização das Nações

Unidas para Alimentação e Agricultura

(FAO) para a área da nutrição. Ao nível da

produtividade, a situação é preocupante.

Um estudo recente, intitulado “Custo da

Fome em Moçambique”, mostra que, só em

2015, cerca de 62 mil milhões de meticais

(10% do PIB) foram perdidos pela economia

em resultado da desnutrição infantil.

A maior fatia deste custo é a perda da

produtividade potencial como resultado

da mortalidade relacionada com a desnutrição

(9,4% do PIB), seguindo-se a saúde

(1,27%) e a educação (0,29%). O estudo

“Custo da Fome em Moçambique”, que

contou com o envolvimento de técnicos

dos sectores da saúde, educação, agricultura,

pesca, estatísticas (INE), protecção

social, economia e finanças, coordenado

pelo Secretariado Técnico de Segurança

Alimentar e Nutricional (SETSAN), concluiu

que cerca de 1 441 940 horas de trabalho

foram perdidas em 2015 devido à

ausência da força de trabalho em resultado

do aumento da mortalidade infantil

ligada à desnutrição crónica. “Isto representou

29,6 mil milhões de meticais, 5,2%

do PIB do país”, apontam os técnicos que

efectuaram o estudo. “É muito dinheiro

que o país perde para fazer frente às diferentes

necessidades de desenvolvimento”,

salienta a especialista da FAO para a área

da nutrição. Em sectores como a agricultura,

é ainda mais claro o enorme entrave

que a desnutrição crónica representa para

o seu desenvolvimento. “A força de trabalho

é limitada e debilitada, obstruindo

aumentos de produção e produtividade,

comercialização e oferta competitiva de

produtos nacionais.” Uma das soluções

para reduzir a desnutrição crónica, refere

a especialista da FAO, passa por adoptar

políticas, regulamentos e padrões alimentares,

que priorizam a disponibilidade e

acessibilidade a alimentos seguros e nutritivos.

“Precisamos de investigação para

providenciar aconselhamento científico

e novas tecnologias. Precisamos de um

sector privado robusto que possa influenciar

positivamente a indústria do sector

alimentar, adaptando os seus produtos às

recomendações nutricionais. Finalmente,

e muito importante, todos nós, indivíduos

e famílias, enquanto consumidores, devemos

melhorar as nossas escolhas e adoptar

padrões alimentares saudáveis.”

FELICIDADE

PANGUENE, DA FAO:

A desnutrição infantil

traduz-se numa perda

anual muito elevada

IMPACTO NA ECONOMIA

Num país caracterizado por consecutivos

choques, como a estiagem, ciclones, inundações

e pragas, os desafios no que respeita

ao acesso à alimentação são enormes.

O estudo que temos vindo a citar revela

que, dos quase 14 milhões de pessoas envolvidas

em actividades manuais, 4 milhões

sofreram de desnutrição crónica na infância.

Um número que, segundo o estudo,

representou uma perda anual no seu potencial

rendimento devido à baixa produtividade,

que ultrapassou os 5,2 mil milhões

de meticais. Os resultados dos últimos

cinco anos do estágio da fome em Moçambique,

resumidos em mais de 60 páginas,

indicam ainda que 612 816 pessoas envolvidas

em actividades não manuais também

sofreram de desnutrição crónica na

infância. “As perdas anuais estimadas de

produtividade para este grupo são de 18

mil milhões de meticais.” A desnutrição

44 | Exame Moçambique


crónica conduz a perdas significativas no

potencial humano e económico. O Banco

Mundial estima que as crianças desnutridas

correm o risco de perderem cerca de 10%

do seu potencial rendimento durante toda

a vida, afectando assim a produtividade

nacional. Katia Dias, directora nacional

da Global Aliança de Nutrição (GAIN),

não receia afirmar que o país está com o

futuro hipotecado. “A nossa taxa de desnutrição

crónica não mudou quase nada

nos últimos vinte anos. Mexeu apenas

1%”, argumentou a directora nacional da

GAIN. O importante agora, refere Katia

Dias, é cortar esta prevalência e garantir

que as próximas gerações não sofram

com a desnutrição crónica. Até porque

as projecções demográficas indicam que

nos próximos trinta anos Moçambique

A DESNUTRIÇÃO

CRÓNICA CONDUZ A

PERDAS SIGNIFICATIVAS

NO POTENCIAL HUMANO

E ECONÓMICO

irá passar dos actuais 29 milhões para 80

milhões de habitantes. “Neste momento,

os nossos sistemas alimentares ainda não

estão afinados para responderem sequer às

necessidades de 29 milhões de habitantes”,

refere Katia Dias. “Se não investirmos na

redução da desnutrição crónica continuaremos

a ter mortes prematuras e elevadas

percentagens da população que não estarão

aptas para contribuir de forma plena

para o desenvolvimento do país. Continuaremos

a ter perdas acentuadas em termos

económicos no potencial produtivo

nacional”, advertiu Felicidade Panguene.

UMA LUTA DE TODOS

Para a especialista da FAO em nutrição,

a insegurança alimentar deve ser atacada

numa vertente multissectorial. “Todos os

sectores têm uma contribuição a dar para

que o alimento esteja disponível e acessível

a todo o momento para todos os segmentos

da população. A agricultura, a indústria,

o comércio, a educação, a saúde, os

transportes, as estradas... devem trabalhar

de mãos dadas para alcançar a segurança

alimentar e nutricional”, frisou. Dados

abril 2020 | 45


ECONOMIA DESNUTRIÇÃO

da Plataforma da Sociedade Civil para o

Movimento Scaling Up, uma rede de ONG

que luta para garantir a segurança alimentar

e combate todas as formas de malnutrição,

indicam que, entre 2010 e 2019, apenas

0,013% do Orçamento do Estado foi afectado

à implementação do Plano de Acção

Multissectorial para a Redução da Desnutrição

Crónica (PAMRDC). O Banco Mundial,

por sua vez, recomenda o investimento

de cerca de 10 dólares (620 meticais) por

cada criança menor de 5 anos, um valor que

corresponderia a 1,1% do Orçamento do

Estado. O cenário é preocupante e implica

grandes desafios. No capítulo dos passos a

seguir, o estudo recomenda a “coordenação,

financiamento e monitoria de programas

de segurança alimentar e nutricional

em áreas específicas, o que requer compromissos

por parte do governo, dos parceiros

do sector privado e da sociedade civil,

e tomada de decisões em termos de planificação

e acompanhamento de todas as

intervenções de segurança alimentar nutricional

em Moçambique”. Mas nem tudo

está perdido neste combate à desnutrição.

Da parte do governo existe um com-

PERDAS

1,6 MILHÕES DE DÓLARES

O valor que o país perde anualmente

devido à desnutrição crónica infantil

62 MIL MILHÕES DE METICAIS

Foram perdidos pela economia em 2015

devido à desnutrição infantil

5,2 MIL MILHÕES DE METICAIS

Foi o que se perdeu em 2015 no potencial

de rendimento de 4 milhões de pessoas

envolvidas em trabalhos manuais devido

a desnutrição crónica na infância

18 MIL MILHÕES DE METICAIS

Foi o que se perdeu em produtividade

das pessoas envolvidas em actividades

não manuais

“A NOSSA TAXA DE

DESNUTRIÇÃO CRÓNICA

NÃO MUDOU QUASE

NADA NOS ÚLTIMOS

VINTE ANOS”

Katia Dias, directora nacional do GAIN

promisso grande para reduzir os índices

elevados da desnutrição crónica ao nível

do país, e tal é visto como alta prioridade.

No seu discurso de posse, o Presidente da

República, Filipe Jacinto Nyusi, foi categórico

ao identificar o combate à pobreza

como emergência nacional, e assumir a

segurança alimentar e o combate à desnutrição

crónica como pilares da sua governação.

“Neste quinquénio iremos primar

por um sector agrário diversificado, competitivo

e sustentável, que contribua para a

segurança alimentar e a redução dos índices

de desnutrição crónica. Queremos dar

passos decisivos rumo àquilo a que chamamos

fome zero”, referiu o Presidente. b

FAO

ALIMENTAÇÃO:

Padrões saudáveis são

indispensáveis para

combater a desnutrição

crónica

46 | Exame Moçambique


abril 2020 | 47


OIL

& GAS

LUÍS FARIA

PUTIN E

MOHAMMAD BIN

SALMAN: Rússia

e Arábia Saudita

não se entendem

PETRÓLEO

PREÇOS COLAPSAM

D.R

Com a crise do coronavírus a alastrar pelo

mundo e a contagiar os mercados, a Arábia

Saudita e os restantes membros da OPEP

propuseram ao seu maior aliado exterior à

organização, a Rússia, que se retirassem do

mercado, diariamente, mais 1,5 milhões de

barris de petróleo. No início de 2017, a Organização

dos Países Produtores de Petróleo e

10 outros países produtores, com a Rússia,

o segundo maior produtor a seguir à Arábia

Saudita, à cabeça, já haviam decidido um

corte na produção diária da matéria-prima

de 1,2 milhões barris, que foi aumentado no

passado mês de Dezembro em 500 mil barris,

a que se acrescentaram ainda 400 mil

retirados do mercado individualmente pela

Arábia Saudita. Mas, mesmo com estes ajustamentos,

a oferta continuava a ser excedentária,

receando-se que o impacto no

mercado da epidemia COVID-19 pudesse

atirar o valor da matéria-prima para níveis

muito baixos, com o mês de Janeiro a representar

já um movimento de descida. Esperava-se

um novo entendimento do grupo que

reúne os 13 membros da OPEP e 10 produtores

não alinhados. Pelo que o anúncio, a

6 de Março, de que não havia acordo quanto

a novo corte surpreendeu. De seguida,

a Arábia Saudita optou por uma guerra

de preços, já ensaiada entre 2014 e 2016.

O preço do barril de Brent desabou dia

9 de Março para o patamar dos 34 dólares,

a maior queda diária em onze anos. A anterior

tentativa para derrubar a produção de

petróleo de xisto norte-americana não resultou

e os orçamentos dos países produtores

dependem muito da receita de exportação

da matéria-prima.

Tombo do Brent

Arábia Saudita e Rússia não se entenderam

66,25 65,37 64 63,21 53,96 57,75 51,9 34,36

59,51 54,01 54,95 45,27 38,39

2

Jan

9

Jan

15

Jan

USD/Barril

Fonte: Investing.

22

Jan

28

Jan

4

Fev

11

Fev

18

Fev

25

Fev

2

Mar

6

Mar

9

Mar

11

Mar

48 | Exame Moçambique


GÁS

PROCURA DUPLICA ATÉ 2040

A Shell prevê que a procura global

por gás natural liquefeito duplique

para 700 milhões de toneladas até

2040. Para isso contribuirão dois factores:

o aumento da procura asiática

e a busca por energias mais limpas.

Para a companhia, o gás terá um

papel relevante numa economia de

baixo carbono. A previsão é de que

cerca de 80% do crescimento da

procura global por energia se dirija

para o gás e as fontes renováveis.

A Shell acredita que o gás natural

liquefeito será uma das respostas

ao aumento da procura global por

energia nas próximas décadas, com

a China a duplicar a sua utilização

desta fonte de energia.

“O mercado global de LNG continuou

a evoluir em 2019, com a

procura crescente por LNG e gás

natural nos sectores da energia

e não energia”, disse Maarten Wetselaar,

que lidera a área do gás e

novas energias da Shell, citado pelo

Financial Times. “Os investimentos

recordes em suprimentos corresponderão

às crescentes necessidades

das pessoas pelo combustível fóssil

mais flexível e de queima mais

limpa”, acrescentou o responsável

da Shell. A empresa investiu significativamente

em infra-estruturas

de gás natural nos últimos anos.

Embora seja contestado por grupos

ambientalistas, o gás liberta

menos emissões que o petróleo e

o carvão e a Shell está convencida

que será uma fonte indispensável

tendo em conta o aumento da procura

induzido pela crescente electrificação.

MERCADO: O preço do LNG russo conquista

o mercado europeu

Exportação Russa de LNG

A Rússia já é a segunda maior exportadora

para o mercado europeu

(milhões/tons)

Fonte: Platts.

7

2018 2019

16

Gás Desce

Os futuros de gás natural só estremeceram com o abalo do preço do petróleo

(USD/MMBtu)

11

Fev

Fonte: Investing.

19

Fev

28

Fev

LNG: A Shell prevê um

grande crescimento da

procura de gás natural

1,768 1,955 1,684 1,708 1,934

6

Mar

11

Mar

PREÇOS

LNG RUSSO AVANÇA NA EUROPA

A Rússia, que afirma ter fundos para aguentar uma guerra

de preços no petróleo, avança decididamente no mercado

europeu. O Petroleum Economist nota que, no último ano, a

Rússia tornou-se a segunda fornecedora de LNG à Europa,

ultrapassando a Nigéria e pressionando outros fornecedores-chave,

como a Argélia. “O custo do LNG russo na Europa

é dos mais baixos do mundo. Pode chegar à Europa abaixo

de 2 dólares/mn Btu”, afirma Samer Mosis, analista sénior na

área do LNG da S&P Global Platts, citado pelo Petroleum Economist.

Em 2018 a Rússia exportou para a Europa 7 milhões

de toneladas de LNG. No último ano as exportações russas

atingiram os 16 milhões, valor que fica apenas atrás do registado

pelo Qatar, que exportou 21 milhões, e à frente do gás

não convencional norte-americano (12 milhões). A quota conseguida

pelos norte-americanos preocupa a Rússia e outros

fornecedores. Enquanto produtora de petróleo, a Rússia tem

capacidade de actuar sobre o preço da matéria-prima, o qual,

quando baixa de 50 dólares por barril, põe em causa a viabilidade

da exploração não convencional de petróleo e gás

dos Estados Unidos. Com o aperfeiçoamento da tecnologia

de fracking a produção norte-americana mostra-se capaz

de resistir a preços cada vez mais baixos.

abril 2020 | 49


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

ENTRE DUAS

ACTIVIDADES CRIATIVAS

Em 2015 aventurou-se num negócio de venda de flores. Hoje, Josefa Massinga

faz a decoração de todo o tipo de eventos e só pensa em crescer

VALDO MLHONGO

Foi por influência da madrinha

que Josefa Massinga ganhou o

gosto pelo negócio das flores.

“Sim, foi com ela que ganhei o

interesse por este tipo de negócio.

E em 2015 decidi abrir a florista”,

conta a empreendedora, hoje com 42 anos.

“Em Dezembro de 2013 perdi a minha

sobrinha, que se afogou numa piscina

da casa da minha mãe, a Khyathu”, lembra.

Está também explicado o nome da

loja, localizada num rés-do-chão de um

prédio baixo, na Avenida Sebastião Marcos

Mabote, para quem vai ao Albazine,

antes de entrar na estrada circular: Florista

Flor Khyathu. O início do negócio

não foi nada fácil. “Decidi abrir a loja no

mês dos namorados e pensei que muita

gente iria comprar, mas não consegui

ter muito retorno face ao que esperava”,

revela. “Os dias subsequentes foram de

muito elogio mas pouca procura, porque

estava a abrir um negócio que aqui

na zona não era muito conhecido, mas

“QUERIA SER PIONEIRA

NUMA ÁREA DE NEGÓCIO

QUE AQUI NÃO

EXISTISSE”

queria ser pioneira numa área de negócio

que fosse diferente, que aqui não existisse.

Eu queria que as pessoas conseguissem

encontrar uma flor, uma rosa, um artigo

de decoração. A ideia era trazer o que está

na cidade mais para junto das pessoas e

fazer a diferença”, conta.

Se dantes era apenas uma loja de venda

de flores, a persistência e a criatividade

fizeram com que, com o tempo, a Flor

Khyathu se transformasse numa empresa

de prestação de diversos tipos de serviços.

“Sim, hoje os nossos serviços alargaram-se.

Tivemos de começar a fazer

serviços de decoração de viaturas, ornamentação

de eventos e igrejas, aluguer de

louça” explica Josefa, acrescentando que

“também fazemos o trabalho de assessoria

de eventos, aluguer de material de

decoração e convites para casamentos.

Foi ficando acoplado dentro da florista”.

O seu primeiro grande trabalho consistiu

em fazer convites e a decoração

para um casamento. “A cliente mandou-

-nos fazer 100 convites para o casamento

e o trabalho de decoração”, confidencia

a empresária. “Levámos duas semanas

nesse trabalho e facturámos, na altura,

cerca de 50 mil meticais.” Em termos de

rendimento, Massinga refere que é no trabalho

de assessoria de eventos que tem

mais ganhos. “Verdade, pois trata-se de

um trabalho mais abrangente, mais completo,

por isso dá-nos mais dinheiro”,

adianta. A carteira de clientes também

cresceu. “Temos uma carteira de clientes

muito grande. Clientes fixos, podemos

falar de cerca de cinco dezenas que

regularmente solicitam os nossos serviços.

Temos a sorte de cada cliente recomendar

EDILSON TOMÁS

50 | Exame Moçambique


JOSEFA

MASSINGA

IDADE: 42 ANOS

NATURALIDADE:

MAPUTO

NOME DA EMPRESA:

FLORISTA FLOR KHYATHU

NEGÓCIO: VENDA DE

FLORES E DECORAÇÃO DE

TODO O TIPO DE EVENTOS

INÍCIO DE ACTIVIDADE: 2015

JOSEFA MASSINGA:

O gosto pelo negócio

das flores


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

DIVERSIFICAR:

A Flor Khyathu

passou a prestar

outros serviços

EDILSON TOMÁS

sempre os nossos serviços e, actualmente,

temos feito trabalho na Matola, Maputo.”

DE OLHOS NO FUTURO

Na abertura da loja Massinga investiu

cerca de 155 mil meticais, através de um

empréstimo bancário. A empreendedora

confessa que os primeiros dois anos não

foram fáceis. “Sabe, comecei a ter um

bom retorno daquilo que é o nosso trabalho

só a partir do terceiro ano”, precisa.

“Eu dou férias colectivas em Janeiro, mas

sempre que reabro tento mudar um pouco

a imagem da florista, não só para minha

satisfação, mas também para a satisfação

do cliente, para perceber que, de alguma

forma, está a haver alguma evolução neste

trabalho.” Inovar sempre numa perspectiva

de crescimento. “Começar a vender

NA REABERTURA DE

FÉRIAS “TENTO SEMPRE

MUDAR UM POUCO A

IMAGEM DA FLORISTA”

flores artificiais foi uma boa estratégia

e ajudou-nos muito.” Trouxe uma dinâmica

diferente à loja. “Começámos também

a entrar num ritmo de trabalho

muito grande.” No que respeita à ornamentação

de viaturas, os preços variam

entre os 2500 meticais os 7 mil meticais.

A empreendedora refere que num

ano chegou a registar acima de 500 mil

meticais de facturação. “Principalmente

quando começámos a introduzir os serviços

complementares”, refere. De início

Massinga só tinha três trabalhadores, mas

agora a empreendedora conta com uma

equipa de 12 elementos de protocolo que

colabora em função do nível do trabalho.

No mesmo prédio, no primeiro andar,

uma outra loja foi inaugurada no dia 14

de Fevereiro. “Lá em cima o atendimento

é mais personalizado. Estamos a vender

acessórios para noivas, aluguer de roupa

para casamento”, esclarece.

No futuro, Massinga sonha ser grande

no seu ramo da actividade. “Sabe, quando

comecei a fazer esse trabalho sempre me

espelhei na Esperança Mangaze. Para

mim ela está no topo a nível da cidade

de Maputo”, revela. “E eu acho que posso

chegar acima dela”, refere, não deixando

escapar um sorriso de satisfação. b

52 | Exame Moçambique


abril 2020 | 53


ECONOMIA IDAI UM ANO DEPOIS

“RECONSTRUIR

DE FORMA MAIS

RESILIENTE PRECISA

DE TEMPO”

O subfinanciamento do sistema das Nações Unidas para apoiar Moçambique,

diz Myrta Kaulard, é uma das dificuldades que se colocam à implantação de métodos

resilientes na reconstrução e na agricultura, num país onde os desastres naturais têm

ocorrido com frequência

LUÍS FONSECA *

MYRTA KAULARD,

COORDENADORA RESIDENTE DA

ONU EM MOÇAMBIQUE:

“O impacto destes desastres

naturais nas pessoas mais

pobres é muito, muito forte”

54 | Exame Moçambique


D

urante as suas intervenções

tem destacado o desafio

que as mudanças climáticas

significam para

Moçambique. Porquê?

Porque o ciclo dos desastres naturais em

Moçambique é muito breve e o impacto

é muito forte. Só há nove meses, entre o

final de uma temporada de ciclones e o

começo da outra. E o país ainda tem de

completar o seu caminho até ao desenvolvimento

sustentável. Por isso, é preciso

pôr no centro das prioridades do país

e da comunidade internacional os esforços

de resiliência e de criação de capacidades

de adaptação às mudanças climáticas. Isso

é muito importante para assegurar o desenvolvimento

sustentável de Moçambique.

É uma missão de todos em Moçambique e

da comunidade internacional. O impacto

destes desastres naturais nas pessoas mais

pobres é muito, muito forte, e quando não

têm apoio as pessoas passam a mecanismos

negativos de resposta — como o abandono

escolar ou casamentos precoces para

sustentar a família — e isso é contrário ao

desenvolvimento sustentável.

“O CICLO DOS

DESASTRES NATURAIS

EM MOÇAMBIQUE É

MUITO BREVE E O

IMPACTO É MUITO FORTE”

KAREL PRINSLOO

Então não seria de esperar que as vítimas

dos ciclones de 2019 já tivessem

casas e edifícios públicos resilientes?

Reconstruir melhor, de forma mais resiliente,

precisa de tempo. Não podemos

esquecer o nível dos danos: cerca de 300

mil habitações foram destruídas e 140 mil

famílias têm uma casa temporária ou tendas.

Agora temos de reconstruir melhor,

porque estamos certos de que vai haver

outros ciclones em Moçambique. Se chegarem

outros, as casas vão ter de resistir.

Mas isso precisa de tempo para estudos.

Para verificar que não podemos pôr um

tecto mais forte se o resto da estrutura não

aguentar. Não podemos pensar construir

abril 2020 | 55


ECONOMIA IDAI UM ANO DEPOIS

capacidade de resiliência em poucos meses

ou um ano. Isto tem de estar integrado nos

planos de desenvolvimento do país. Mas foi

feito muito trabalho que não podemos ver,

muita preparação para esta reconstrução

melhor. A partir do final deste ano, vamos

ver mais casas, mais bem reconstruídas,

e vamos ver mais infra-estruturas.

De quanto dinheiro precisa a Organização

das Nações Unidas para apoiar

Moçambique?

No ano passado, o plano de resposta humanitária

das Nações Unidas precisava de 600

milhões de dólares e recebemos cerca de

metade. Agora precisamos de 120 milhões

de dólares para podermos completar, em

parte, essas necessidades e porque a situação

evoluiu. Estamos numa nova temporada

ciclónica e não temos como responder

se houver outro ciclone porque todos os

COMUNIDADES:

Já se reconstruíram

e adaptaram ao novo

ambiente para onde

tiveram de se mudar

recursos recebidos já foram utilizados.

O Instituto Nacional de Gestão de Calamidades

(INGC) de Moçambique está a

fazer agora muito trabalho de prevenção,

de proteger vidas, com recursos do país. Os

120 milhões de dólares são urgentes, para

300 mil pessoas em zonas onde houve ciclones.

O problema das secas, insegurança alimentar

e mundo agrícola precisa de outros

40 milhões, e isso é muito importante para

as famílias que já vimos que não vão ter

a produção que se esperava.

E além desses valores, há as verbas prometidas

numa conferência de doadores

na Beira, em 2019...

Do lado da reconstrução ainda faltam

verbas. O comprometimento da comunidade

internacional foi de 1,5 mil milhões

de dólares face à necessidade de 3,2 mil

milhões [calculada por Moçambique].

KAREL PRINSLOO

CIMEIRA

CLIMÁTICA

Face à prioridade que deve ser

dada às mudanças climáticas,

Myrta Kaulard destaca a importância

da COP 26 — Cimeira do Clima,

agendada para 9 a 19 de Novembro

em Glasgow, na Escócia. Líderes

globais de diferentes países e

empresas, delegações da ONU e

activistas deverão juntar-se para

discutir os próximos passos na

estratégia global de combate às

mudanças climáticas, um encontro

promovido pelas Nações Unidas

— depois de não ter havido

acordo no encontro de Dezembro

de 2019. No discurso de encerramento

da COP25, Carolina Schmidt,

que é também ministra do

Meio Ambiente chileno, apelou à

necessidade de “uma resposta

mais sólida, urgente e ambiciosa”

para enfrentar a crise climática. A

cimeira de Madrid, na qual participaram

cerca de 200 países, terminou

com a aprovação de um

documento com poucas decisões

no que toca aos assuntos concretos,

como por exemplo as regras

dos mercados internacionais de

carbono. “Não estamos satisfeitos”,

queixou-se Schmidt.

Na reconstrução há que fazer planos, terminar

os estudos e o desembolso vem

etapa por etapa. É este o caminho e, por

isso, o trabalho do gabinete de reconstrução

é muito importante na planificação

e mobilização de recursos.

Será possível chegar aos 3,2 mil milhões?

Temos de fazer o esforço possível, mas também

não podemos ver estes números como

estáticos porque podemos ter outras ameaças,

outros problemas. Por exemplo, a seca,

as cheias deste ano, tudo isto são novos elementos,

pelo que a situação é dinâmica.

56 | Exame Moçambique


Devia haver outra conferência de doadores?

Essa é uma decisão das autoridades nacionais,

não são as Nações Unidas que podem

decidir fazer uma conferência de parceiros,

mas o que estamos a fazer é muita advocacia

e trabalhar de forma muito colaborativa,

com parceiros internacionais, que

têm feito um esforço muito importante.

Tudo o que temos visto até agora tem sido

ajuda dos parceiros internacionais.

Em suma, um ano após o ciclone Idai

ficou satisfeita com o que encontrou

no terreno?

Muitas vezes esse progresso não é tão visível

ou compreensível para quem não acompanha

estas situações. Eu estive nestas

zonas em Julho de 2019 e então tudo era

devastação, estava tudo por fazer. Agora

podemos ver comunidades que se estão a

reconstruir e que já se adaptaram a um

novo ambiente, para o qual tiveram de se

mudar. Quero felicitar e dar os parabéns

às instituições e comunidades por terem

sido tão resilientes e terem feito tantos progressos.

Vimos comunidades que estão a

criar formas de rendimento, meninos que

continuaram nas escolas, vimos ajuda alimentar

distribuída a 2,3 dos 2,5 milhões

de pessoas afectadas, portanto uma preocupação

a menos para as famílias, que assim

puderam pensar na recuperação da sua

vida. Vimos muitas coisas positivas, mas

também muitas necessidades, como a de

reconstrução das casas, mais resilientes.

Confia na capacidade instalada para responder

às necessidades?

Eu penso que, no meio de todas as dificuldades,

o país aprendeu também muitas

coisas neste último ano sobre como responder,

como se adaptar, e isso é algo que

a comunidade internacional tem de continuar

a apoiar. Vimos uma capacidade institucional

no ano passado na resposta ao

Idai e a forma como Moçambique coordenou

a resposta internacional é um exemplo

para muitos países. É muito bom que,

agora que temos um gabinete de reconstrução,

se desenvolvam as suas capacidades.

Tal como vimos a capacidade de

coordenação da resposta humanitária pelo

Instituto Nacional de Gestão de Calamidades

(INGC) e por parte das organizações

moçambicanas, extremamente rápida.

Agora, com o gabinete de reconstrução, é

importante também ter uma capacidade

muito forte de desenvolver e de articular

todas as instituições para impulsionar um

ciclo positivo que contrarie o ciclo negativo

das mudanças climáticas.

Mas já este ano houve população afetada

por cheias, nas mesmas regiões,

embora com menores danos...

Há pessoas que perderam o cultivo o ano

passado com os ciclones Idai e Kenneth e

que agora o estão a perder com as cheias.

Isto é um ciclo frequente em Moçambique

e requer ajuda humanitária, adaptação,

inovação, uma agricultura mais resiliente.

O maior desafio são mesmo as mudanças

climáticas. Como disse, os desastres

naturais são muito fortes e o ciclo é muito

breve: há só nove meses entre o final de

uma temporada de ciclones e o começo

da outra, então saber quanto tempo estas

pessoas terão de esperar para terem casa

nova depende da severidade da temporada.

Se não se passar nada de greve, no

próximo ano há melhorias. Mas se passar

outro ciclone (e ainda temos um mês pela

frente), isto vai levar mais tempo.

DE NOVO, AS CHEIAS

Um ano após os ciclones, acha que o

cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento

Sustentável (ODS) fica comprometido?

É muito importante acelerar o caminho

até aos ODS. No ano passado, todos os

países membros da ONU assinaram, em

Setembro, um compromisso para acelerar

o caminho até ao desenvolvimento sustentável

até 2030. Não há um país no mundo

que esteja a cumprir o cronograma. Naturalmente,

há países que têm mais dificuldades

de desenvolvimento, precisam de

fazer mais esforços para alcançarem estas

metas e as mudanças climáticas são uma

dificuldade enorme. Por isso, importa priorizar

o investimento na resiliência como

uma das maneiras de acelerar o caminho

até aos ODS.

Quase todos os relatórios mostram também

que a insegurança alimentar é uma

das heranças agravadas dos ciclones

de 2019...

O problema da insegurança alimentar

está ligado a vários factores: por um lado,

as cheias, por outro, a seca, e os dois estão

relacionados com as mudanças climáticas.

Já há uma transformação, que é complicada

para as pessoas que vivem da agricultura.

É há a situação em que se encontra

toda a região da África Austral, não apenas

Moçambique. É uma situação que precisa

de respostas imediatas em termos de

ajuda alimentar nutricional para as pessoas

e respostas ao nível de desenvolvimento.

Há que fazer uma adaptação, inovar nas

práticas agrícolas e no uso da água. É preciso

inovar e aumentar a capacidade tecnológica

na previsão de desastres.

Tudo somado, quantas pessoas precisam

de ajuda em Moçambique?

De uma maneira geral, um milhão de pessoas

precisa de ajuda humanitária, e isto é

para poderem seguir até que a reconstrução

pós-ciclones esteja feita e também para responderem

aos novos desafios das cheias e da

seca, numa visão geral para todo o país. b

* Serviço especial da Lusa para a EXAME Moçambique.

Várias inundações assolaram o Centro de Moçambique na segunda quinzena de

Fevereiro, provocando a retirada de 70 mil pessoas, o correspondente a 15 755

famílias, para centros de acomodação ou casas de familiares situadas em locais

seguros, anunciaram as autoridades. As cheias afectaram sobretudo a província

de Sofala, atingindo 4565 hectares de campos de cultivo, o que afectou 3400

camponeses que já tinham sido prejudicados pelo ciclone Idai em 2019.

abril 2020 | 57


ECONOMIA IDAI UM ANO DEPOIS

PAINÉIS SOLARES,

FOGAREIROS E OUTRAS

FORMAS DE RECOMEÇAR

A vida ainda é difícil para os realojados dos ciclones de 2019. Perderam tudo e agora fazem

experiências com o apoio das Nações Unidas e ONG para tentarem fazer crescer algo que

os sustente. Os recursos disponíveis ainda não são os ideais mas há sempre esperança

LUÍS FONSECA *

ENERGIA SOLAR:

Eugénio António utiliza-a no seu

negócio de carregar telemóveis

MYRTA KAULARD,

COORDENADORA RESIDENTE DA

ONU EM MOÇAMBIQUE:

“O impacto destes desastres

naturais nas pessoas mais

pobres é muito, muito forte”

58 | Exame Moçambique


Eugénio António, 40 anos, está

sentado à beira de uma geringonça

que salta à vista: uma

espécie de pequena banca de

madeira, pintada de verde e

com um painel solar por cima. “É um sistema

de carregamento de telemóveis com

energia solar”, explica. Bastam 10 meticais

para carregar cada um a 100%. É assim que

Eugénio está a tentar recomeçar depois

de o ciclone Idai o ter levado ao tapete.

Morava na Praia Nova, o bairro de lata da

cidade da Beira mais exposto à destruição

por estar colado ao mar. Diabético,

vivia a cortar o cabelo. Com a tempestade

a casa desabou, a saúde degradou-

-se e a retenção de líquidos causada pela

diabetes obrigou-o a amputar uma perna.

Foram dias difíceis? “Sim, mas hoje estou

um bocado melhor.”

De uma forma ou de outra, os ciclones

afectaram cerca de 2 milhões de pessoas

em Moçambique e há 100 mil que

foram realojadas em áreas de reassentamento

onde ainda permanecem — espaços

longe das zonas de cheias, onde receberam

tendas, abrigos provisórios, e onde

ONG garantem serviços básicos de saúde,

apoio alimentar e outros de âmbito social.

Eugénio António vive na área de reassentamento

de Mutua, a cerca de 60 quilómetros

da cidade da Beira. Um terreno onde

não havia nada. Agora, há 72 áreas como

esta onde o governo doou parcelas de terreno

aos sobreviventes dos ciclones, para

poderem transformar a tenda provisória

em habitação fixa (ainda com materiais

precários) com “machamba” (horta) que

garanta produção agrícola de subsistência.

Com o seu lote e o posto de carregamento

solar, no local onde nasce o mercado da

nova aldeia, alimenta a esperança de um

novo recomeço para a sua vida. “Gostaria

de voltar a ter um salão” de corte de

cabelo. Para já, mostra um aparador de

cabelo junto às fichas triplas onde carrega

os telemóveis. “Às vezes, quando me pendem,

ainda ‘descabelo’ algumas pessoas.”

Mais abaixo, outro exemplo de empreendedorismo:

Estrela Yuba, 24 anos, mostra

um fogareiro de barro como uma obra de

arte: fazer fogo requer três paus de lenha,

mas com esta nova peça “basta acender

um e já está”. Um grupo de 20 mulheres

realojadas em Mutua passou a ganhar a

vida a fabricar “fogões melhorados”, fogareiros

aliados do combate às mudanças

climáticas para prevenir novos ciclones.

Consomem menos floresta, são mais eficientes

e, mais importante para Estrela,

“dão dinheiro” para comprar comida

e o que mais for preciso para a família.

A ideia de negócio, tal como a de Eugénio,

teve o impulso do Programa das Nações

Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

“Ajudamos a criar algum emprego,

fazer com que a população faça crescer

algo”, refere Ghulam Sherani, dirigente do

PNUD. O programa apoia-se em organizações

locais para tentar virar a página:

dá dinheiro e treino, ouve o que os residentes

querem fazer e indica os projectos

mais seguros, por exemplo recomendando

a criação de patos em vez de galinhas, por

serem mais resilientes e mais bem pagos

no mercado local. A ideia era de Joaquim

Tom, 32 anos, casado com seis filhos em

casa, aficcionado das aves que trocou

de bom grado a banca de comerciante,

no bairro da Praia Nova, pela criação

de patos. “Eu antes já estava a processar

isso no meu coração, mas lá onde vivia

era uma zona insegura”, confidencia. Por

muito precário que ainda seja o bairro de

Mutua, Ghulam Sherani acredita que será

TER COMIDA AINDA É UMA BATALHA

A desnutrição está quase sempre presente

em Moçambique: a falta de alimentos

diversificados faz com que

metade da população moçambicana

sofra de desnutrição crónica. Mas o

ciclone Idai agravou o cenário no Centro

do país, com perda de campos e

mantimentos, e a desnutrição crónica

passou a desnutrição moderada ou

severa, um nível que reflecte carências

maiores. “Já tenho muitos casos

que estão curados”, conta Madalena

Chuarira, 26 anos, técnica dos Médicos

do Mundo que trabalha em conjunto

com a UNICEF nos cuidados de

saúde prestados aos cerca de 2300

habitantes da área de reassentamento

de Ndeja. O segredo é um suplemento

alimentar entregue às mães em pequenos

pacotes.

Um ano depois do Idai, ter comida

continua a ser uma batalha diária que

quase todos os moçambicanos dizem

que só pode ser vencida com uma

“machamba” — o nome dado às hortas

para produção de alimentos. Há ajuda

humanitária (em géneros ou cheques

alimentares), mas essa chega a cada

vez menos pessoas. A falta de fundos

já obrigou o PAM a reduzir o apoio: em

vez dos habituais 40 quilos de milho ou

arroz entregues por mês a cada família

como produto base para agregados

vulneráveis, desde Fevereiro passaram

a ser distribuídos 20 quilos para cada,

especificou Espinola Caribe, chefe do

PAM na cidade da Beira. “Temos problemas

sérios de fundos. Temos uma

necessidade de 48 milhões de dólares

para podermos continuar a assistir

1,3 milhões de pessoas.” “Estamos

a bater às portas”, acrescentou, uma

vez que, sem essa verba, 525 mil pessoas

“estarão fora do programa, por

falta de fundos”, desde Março. Apesar

de os ciclones já terem acontecido há

um ano, é pouco tempo para as famílias

recuperarem os seus rendimentos

e recuperarem o acesso a comida, referiu

Espinola Caribe.

Há um grupo específico a apoiar: 10

mil crianças com subnutrição severa a

moderada que o Programa Alimentar

Mundial (PAM) e o Fundo para a Infância

das Nações Unidas (UNICEF) contam

apoiar este ano com suplementos

alimentares em Moçambique, a par de

15 mil grávidas e lactantes.

abril 2020 | 59


ECONOMIA IDAI UM ANO DEPOIS

CONSTRUIR MELHOR:

A habitação de Bill

Malissane é um exemplo

de construção mais

resiliente

sempre melhor que os locais de origem

de quem acolhe, oriundos de bairros de

lata e zonas de risco.

AINDA NÃO É O CENÁRIO IDEAL

“Estou melhor, aqui é o meu espaço, não

estou a pagar renda”, conta Rabica Andrade

no reassentamento de Mandruzi, onde

integra um grupo de mulheres que produzem

tapetes — uma das actividades

de rendimento dinamizadas pelas organizações

que estão a apoiar a consolidação

destas novas aldeias. Mas são espaço

aonde ainda há muito por fazer, diz Mira

Vilanculo em Mutua. “Estamos a chorar

por energia e por um mercado” onde se

possa ter “outro caril”, ou seja, produtos

e ingredientes que complementem a ajuda

alimentar humanitária, baseada em arroz

e milho. “Com um mercado podíamos

ter um repolho ou uma banana, laranja

ou tangerina”, que para já ficam só na

ementa de sonho.

Nas áreas de reassentamento é comum

haver a ambição de construir uma boa

casa porque as actuais, quando já não são

tendas, ainda misturam lonas e caniço,

barro e pedaços de madeira, finas coberturas

de zinco, à vista, nada que imponha

respeito a uma tempestade. Já se fazem

testes e divulgação de técnicas de construção

resilientes. A habitação de Bill Malissane,

na vila de Dondo, ficou a céu aberto

durante o ciclone Idai é uma das casas-

-piloto da ONU-Habitat para demonstrar

técnicas de reconstrução resiliente.

“Aqui vivem oito pessoas”, refere, ao mostrar

as técnicas de construção usadas para

reforçar a cobertura. O título numa das

paredes, “Casa Amor de God”, também

reflecte esperança nos princípios de Building

Back Better (BBB), ou seja, voltar a

construir melhor. Mas ainda é uma excepção

e a maioria das que se fazem continua

a ser precária.

Num “cenário ideal” todos deviam ter

“uma boa casa, mas estamos em Moçambique,

um dos países mais pobres em

África. São necessários muitos recursos”

que não estão disponíveis, resume Ghulam

Sherani. “Por isso, tentamos fazer o

melhor possível com os recursos disponíveis

para estas pessoas recomeçarem

as suas vidas”, conclui. Um ano depois,

estar longe de zonas de risco de inundação

e fixar residência em zonas seguras é

o primeiro (e único) passo, a reconstrução

de sonho poderá vir a seguir.

O período chuvoso de 2018/2019 foi

dos mais severos de que há memória em

Moçambique: 714 pessoas morreram,

incluindo 648 vítimas de dois ciclones (Idai

e Kenneth) que se abateram sobre Moçambique.

O ciclone Idai atingiu o Centro de

Moçambique em Março, provocou 603

mortos e a cidade da Beira, uma das principais

do país, foi severamente afectada.

O ciclone Kenneth, que se abateu sobre o

Norte do país em Abril, matou 45 pessoas. b

* Serviço especial da Lusa para a EXAME Moçambique.

60 | Exame Moçambique


abril 2020 | 61


GLOBAL COMÉRCIO

TRUMP

ADMITE TARIFAS

AO BRASIL

A ameaça de Donald Trump de impor tarifas ao Brasil

abre uma nova frente de disputas comerciais.

O proteccionismo tenta compensar o dólar alto.

E satisfazer a base eleitoral de Trump

FILIPE SERRANO

P

ode ter sido apenas mais

uma jogada do Presidente

Donald Trump para obter

vantagens para os Estados

Unidos, como já o fez com

diversos países para forçar a assinatura

de acordos. Mas o anúncio feito através

da sua conta no Twitter, em Dezembro,

de que o governo norte-americano deve

impor tarifas de importação sobre o aço

e o alumínio brasileiro e argentino, colocou

definitivamente o Brasil na rota das

políticas comerciais proteccionistas que

são a marca do governo Trump. Se de

facto forem impostas pelos Estados Unidos

(o que não havia acontecido até este

texto ser concluído), as tarifas serão um

duro golpe tanto para o sector siderúrgico

quanto para o governo do Presidente Jair

Bolsonaro. Desde que assumiu a Presidência,

Bolsonaro julgava ter acesso privilegiado

à Casa Branca, e o Brasil, inclusive,

abriu mão do status preferencial de país

emergente na Organização Mundial do

Comércio a pedido dos Estados Unidos,

em troca de uma promessa de apoio americano

à sua entrada na Organização para

a Cooperação e Desenvolvimento Económico

— algo que ainda não ocorreu.

Não é a primeira vez que Trump ameaça

o Brasil. Em 2018, o país já havia sido prejudicado

quando o governo norte-americano

decidiu impor tarifas de importação

de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio,

com o argumento de que a dependência

das importações desses produtos

era uma ameaça à segurança nacional

devido à sua relação com a indústria de

armamento. Mas o efeito das tarifas foi

minimizado porque o Brasil, bem como

a maioria dos países que exportam aço e

alumínio para os Estados Unidos, conseguiu

negociar uma isenção da tarifa em

troca de uma quota para as importações.

Também no ano passado, Trump mencionou

numa entrevista que o Brasil e a

Índia tinham impostos de importação

elevados que prejudicavam as empresas

americanas, e sugeriu que fosse feito algo

para modificar a situação. A ameaça, no

entanto, não se confirmou e foi esquecida.

O que surpreende agora no anúncio

de Trump pelo Twitter é não só o modo

inesperado como foi feito, mas o facto

62 | Exame Moçambique


UM CONSUMIDOR VORAZ

Os Estados Unidos dependem das

importações de aço para suprir a sua procura

interna, e o Brasil é o seu maior fornecedor

Produção, consumo e importação de aço

nos Estados Unidos (em milhões de metros cúbicos

por ano)

120

100

80

60

40

20

Produção Consumo Importações

2009 2011 2013 2015 2017 2019 (1)

Importações de aço dos Estados Unidos,

por país de origem (em milhões de metros cúbicos

por ano)

Outros

24 19

Brasil

GETTY

Itália

3

Vietnam 3

Taiwan 3

Alemanha 4

Japão

4

5

Rússia

9

10

15 Canadá

México

Coreia do Sul

BOLSONARO E TRUMP:

A imposição de tarifas seria um

revés para o Presidente brasileiro

REUTERS

39% é quanto cresceram

as importações de aço brasileiro

pelos Estados Unidos em 2019 (1)

(1)

Até Junho Fonte: Global Steel Trade Monitor

(International Trade Administration)

de o Presidente apontar o dedo directamente

ao Brasil como um culpado pelo

mau desempenho das empresas norte-

-americanas no comércio mundial.

O Presidente alega que o Brasil manipula

o câmbio para manter o real desvalorizado

e as suas exportações competitivas — prática

que não é verdadeira. De acordo com

as palavras de Trump, tal isso dificulta aos

agricultores e às indústrias dos Estados

Unidos a exportação dos seus produtos.

Na tentativa, no início, de agradar aos

produtores rurais — uma das suas bases

eleitorais — que perderam mercado para

o Brasil desde que os Estados Unidos

entraram numa guerra comercial com a

China, Trump pode acabar por prejudicar

a indústria de aço brasileira e também

a norte-americana. O Brasil é um

importante fornecedor de aço aos Estados

Unidos, especialmente de produtos

semiacabados. A indústria de siderurgia

norte-americana depende das importações

para suprir a procura interna, que

é maior do que a sua produção. E o Brasil

tem nisso um papel importante. De

todo o aço importado pelos americanos

em 2019, quase um quinto tem origem

no Brasil, segundo dados do Departamento

de Comércio dos Estados Unidos.

É a maior participação entre os países que

vendem aço aos norte-americanos, um

comércio que somou 2,5 mil milhões de

dólares até Outubro de 2019.

Agora, um ponto no qual Trump tem

razão é que a valorização do dólar prejudica

as exportações norte-americanas.

No entanto, a cotação da moeda está elevada

não por causa de uma suposta manipulação

do câmbio nos outros países, mas

pelo facto de a própria economia norte-

-americana estar a crescer. Os Estados

Unidos estão a viver a mais longa expansão

económica de que se tem registo. São

quase onze anos consecutivos de crescimento

ininterrupto, um recorde. E, ao

contrário das previsões de um arrefecimento

em 2019, os números do terceiro

trimestre de 2019 mostram que o produto

interno bruto americano prossegue uma

expansão em torno de 2% ao ano. Isto

não significa que o temor de uma desaceleração

norte-americana tenha ficado

para trás. Mas num momento em que

abril 2020 | 63


GLOBAL COMÉRCIO

METALURGIA:

O Brasil é hoje o maior

exportador de aço para

os Estados Unidos

ECONOMIA EM ALTA, DÓLAR EM ALTA

O bom momento da economia norte-americana tem feito o dólar valorizar no mundo. Mas, no Brasil, a taxa já foi mais alta, considerando a inflação

Variação do PIB dos Estados Unidos

(em %, sobre o mesmo trimestre do ano anterior)

Previsão 4ºTrim

4,0 350

3,0

2,0

1,0

0

Empregos criados nos Estados Unidos

(em milhares por mês)

250

150

50

0

Cotação do dólar no Brasil ajustada à inflação 1

(em reais)

Jan

Out

2016 2017 2018 2019 2018 2019

1994 2007 2019

(1)

Dólar Ptax do Banco Central. Ajustado ao IPCA Fontes: U.S. Bureau of Economic Analysis e Economatica.

12

8

4

0

2,42 reais | 26/7/2011

10,82 reais | 22/10/2002

4,25 reais

a economia mundial desacelera, e os países

ricos da Europa Ocidental e o Japão

continuam com um crescimento muito

baixo, os Estados Unidos tornaram-se uma

espécie de ilha de prosperidade. Para os

investidores internacionais, que procuram

um lugar seguro e com bons retornos,

os Estados Unidos acabam por ser o

destino mais natural para os investimentos.

“Nas últimas semanas assistimos a

um novo optimismo para com a economia

norte-americana, depois da confirmação

de que não estamos a caminhar

rumo a uma recessão e de que o crescimento

pode continuar. Isto tem levado

ao reforço do dólar”, diz Gregory Daco,

economista-chefe para os Estados Unidos

da consultora britânica Oxford Economics.

Daí que o dólar tenha valorizado

não só em relação ao real, mas também

a uma série de moedas pelo mundo fora.

É um novo cenário que, segundo os especialistas,

tende a estender-se. “Bem ou

mal, neste mundo em desaceleração os

Estados Unidos ainda têm um crescimento

melhor. Pelo que o dólar ganha

valor globalmente face a outras moedas e

o real está no mesmo barco das que desvalorizam”,

diz o economista Alexandre

Schwartsman, ex-director de assuntos

internacionais do Banco Central.

Num ano em que o Presidente Trump

vai disputar a reeleição, o dólar valorizado

prejudica uma das suas principais

promessas: reduzir o défice da balança

comercial dos Estados Unidos. No Twitter,

Trump tem aumentado as críticas ao

presidente do Banco Central norte-americano,

Jerome Powell, devido ao dólar

valorizado. Contra Powell, Trump não

pode fazer muito, além de tweetar. Já em

relação ao Brasil... b

64 | Exame Moçambique


abril 2020 | 65


GLOBAL DESPORTO

FLAMENGO

SEMPRE?

Campeão brasileiro

e vencedor da Taça

Libertadores, o clube

rubro-negro do Rio de Janeiro

pode ser o primeiro bilionário

do futebol brasileiro.

A questão (para as outras

equipas): haverá um domínio

financeiro e desportivo do

clube mais popular do Brasil

nos próximos anos?

LUCAS AMORIM

Já deve ter ouvido falar no

avançado Gabigol ou no técnico

português Jorge Jesus.

Os dois são os maiores nomes

do Flamengo, campeão brasileiro

de futebol com um recorde de pontos

e também da Libertadores da América,

principal torneio de futebol do continente.

Jesus e Gabigol são símbolos do

bem que a boa gestão pode fazer. Clube

mais bem administrado do país e campeão

em facturação e lucros, o Flamengo

é também agora o melhor em campo.

O capitalismo salvou o Flamengo. Agora

falta salvar o futebol brasileiro. A guinada

no Flamengo começou em 2013, quando

uma equipa formada por executivos com

experiência em grandes empresas assumiu

a gestão do clube. A meta era reduzir

a dívida, então a maior entre os clubes de

futebol do país, acima dos 700 milhões

de reais (cerca de 144 milhões de dólares),

e impulsionar o marketing para fazer

da equipa mais popular do Brasil a campeã

em receitas.

A receita passou de 273 milhões de reais

(56 milhões de dólares), em 2013, para 652

milhões (134 milhões de dólares), nos primeiros

nove meses de 2019 — um valor

que, alavancado pelos títulos, pode alcançar

a emblemática marca de mil milhões

de reais (mais de 200 milhões de dólares).

Os sistemáticos prejuízos converteram-se

num superavit acumulado de 630

milhões de reais (perto de 130 milhões

de dólares) no período, segundo dados

de Amir Somoggi, sócio da consultora

Sports Value, especializada em finanças

do desporto. São números que farão

o Flamengo fechar 2019 como a equipa

que mais factura no Brasil, à frente do

Palmeiras, que facturou 688 milhões de

reais (142 milhões de dólares) em 2018.

A distância para os maiores clubes europeus

continua grande: Barcelona e Real

Madrid facturam mais de 700 milhões

de euros. Mas o Flamengo já está mais

perto de clubes tradicionais na Europa,

como o Atlético de Madrid e o Borussia

Dortmund, que facturam na casa dos 300

milhões de euros. O que falta para o Flamengo

entrar de vez nesse grupo? Claudio

Pracownik, presidente da corretora Genial

Investimentos e presidente da comissão

66 | Exame Moçambique


GABIBOL, ÍDOLO

DO FLAMENGO: Mais de

129 milhões de dólares

de superavit desde 2013

de finanças do clube, resume o dilema

rubro-negro. “Para o Flamengo tornar-

-se o Barcelona, o Vasco precisa tornar-

-se o Real Madrid”, diz. É uma referência

aos dois rivais espanhóis que disputam

tanto os títulos dentro de campo quanto

o troféu de mais rico do mundo. “Temos

de trabalhar para melhorar o futebol brasileiro.

Ninguém paga para ver um mau

espectáculo”, afirma Pracownik. “E sem

grandes espectáculos não vamos atrair

os maiores jogadores da Europa.”

Apesar de o Brasil ser o berço de alguns

dos maiores jogadores em actividade, os

20 clubes da primeira divisão facturaram,

juntos, apenas mil milhões de euros em

2018, face a 5,4 mil milhões de euros do

campeonato inglês, 3,2 mil milhões do

alemão e 3,1 mil milhões do espanhol.

D.R.

O Brasil tem um trunfo em relação às

principais ligas europeias: a competitividade.

Neste século, Palmeiras, Santos,

Corinthians, São Paulo, Flamengo,

Cruzeiro, Fluminense e Athletico Paranaense

foram campeões, uma rotatividade

sem precedentes entre os grandes

torneios do mundo. O desafio agora —

para as demais equipas — é evitar que o

sucesso de Flamengo e Palmeiras, campeão

em 2018, faça esses clubes descolarem

da concorrência, algo que poderia

fazer do Brasil uma combinação perigosa

de baixo orçamento com baixa competitividade.

Segundo um estudo da Sports Value, as

receitas dos 20 principais clubes do país

estão entre as mais bem distribuídas do

mundo. Palmeiras e Flamengo facturam,

em conjunto, o equivalente a 24% do total

dos clubes da primeira divisão. Em Inglaterra,

a parcela dos dois principais é de

23%, o que faz com que o país tenha não

só o campeonato mais rico como também

o mais disputado da Europa. Manchester

United, Manchester City, Chelsea, Arsenal

e Leicester já foram campeões neste

século e o Liverpool lidera actualmente

o campeonato inglês. Em França, por sua

vez, o Paris Saint-Germain, dono de um

terço da receita, ganhou seis dos últimos

sete campeonatos. Em Itália, a Juventus,

com um quarto da receita, é octacampeã.

O sucesso financeiro não garante bons

resultados em campo. O Palmeiras, depois

de ser campeão em 2018, afundou-se em

problemas em 2019 e demitiu o técnico

Mano Menezes e o director de futebol

Alexandre Mattos no início de Dezembro

do último ano. Em Inglaterra, o campeão

de receitas, o Manchester United,

não vence um campeonato desde 2012.

O Arsenal, equipa mais rentável do país

neste século, não ergue uma taça desde

2003. Mas, quando uma boa gestão financeira

consegue formar uma equipa acima

da média, o campo pode retroalimentar

as receitas, dando origem a um círculo

virtuoso difícil de ser batido. Depois de

contratar o técnico espanhol Josep Guardiola

em 2013, por exemplo, o Bayern de

Munique não voltou a perder o campeonato

nacional e duplicou as receitas, para

DE FORA PARA DENTRO

A boa gestão financeira permitiu

ao Flamengo investir mais em futebol

Receita total (em milhões de reais)

273

2013

Custo do Departamento de Futebol

(em milhões de reais)

180

2013

170 147 201 352 351 439

Superavits

(em milhões de reais)

-20 64 130 153 159 46 75

2013

Dívida

(em milhões de reais)

757 698 579 461 335 470 567

2013

347

Fontes: Sports Value.

356

510

2016

2016

2016

2016

649 652

543

Set/2019

Set/2019

Set/2019

Set/2019

690 milhões de euros. É o sonho dos adeptos

do Flamengo — mas não é necessariamente

o melhor para o clube.

Campeonatos que são vencidos sempre

pela mesma equipa acabam por perder o

interesse, não só por parte dos adeptos,

mas também dos patrocinadores. A forma

mais simples de impulsionar a competição

é dividindo mais igualitariamente

abril 2020 | 67


GLOBAL DESPORTO

as receitas. As ligas norte-americanas de

futebol americano, de basquete e de basebol

são modelos globais. Os contratos de

transmissão são negociados em conjunto

e divididos igualitariamente, e todos as

equipas recebem mesmo percentagens

das vendas de produtos dos adversários

em lojas oficiais. Os campeonatos ainda

estabelecem limites de salários a serem

pagos por uma mesma equipa e distribuem

igualmente os direitos de contratação dos

jovens universitários mais promissores.

São artifícios que permitiram, por exemplo,

à equipa canadiana Toronto Raptors

ser campeã da última temporada da liga

de basquetebol NBA pela primeira vez

na História.

Nos mais importantes campeonatos de

futebol do mundo, a principal ferramenta

para fomentar o equilíbrio são as negociações

de direitos de transmissão. Para

tentar quebrar o domínio do Real Madrid

e Barcelona, a liga espanhola reformulou

os seus critérios em 2015 mantendo fixa

a parcela anual de 140 milhões de euros

dos gigantes e elevando as parcelas dos clubes

menores de 15 milhões de euros para

60 milhões. Outra medida eficaz é a adopção,

pela UEFA, entidade que rege o futebol

europeu, de instrumentos de fair-play

financeiro, limitando as despesas e dificultando

a injecção artificial de dinheiro

por grandes investidores. A adopção formal

de um modelo empresarial, como o

empregado pelo campeão da Série B do

Campeonato Brasileiro, o Bragantino, e

defendido por um projecto de lei do deputado

Pedro Paulo (DEM-RJ), é apontada

por especialistas em gestão como salutar,

mas não obrigatória. Entre os maiores

clubes do mundo, há os cotados em

bolsa, como a italiana Juventus, mas há

também os que são geridos à moda tradicional,

como o Barcelona. O segredo está

mais na gestão do que no modelo societário

do clube.

Independentemente do modelo, o futebol

vive uma fase de ouro nas finanças.

O Manchester City, actual campeão

inglês, vendeu, no final de Novembro de

2019, pouco mais de 10% das suas acções

ao fundo de investimento norte-americano

Silver Lake, um negócio que avaliou

o clube em 4,8 mil milhões de dólares.

É um valor recorde na história do desporto.

Em 2008, o City foi comprado

por um fundo de investimento ligado

ao xeque Mansour bin Zayed al Nahyan,

de Abu Dhabi, por cerca de 300 milhões

de dólares. Desde então, a receita aumentou

seis vezes, para 500 milhões de libras.

O clube ainda gastou quase 1,5 mil milhões

de libras em contratações e conseguiu quatro

títulos ingleses. Na sua investida para

ganhar a Libertadores, o Flamengo impulsionou

as despesas com o futebol — de 180

milhões de reais (37 milhões de dólares),

em 2013, para 351 milhões (72 milhões de

dólares), em 2019. Ser campeão fica caro. b

GETTY

AL NAHYAN, DONO

DO MANCHESTER CITY:

O clube inglês valorizou

16 vezes em onze anos

68 | Exame Moçambique


abril 2020 | 69


TECNOLOGIA STREAMING

MÚSICA:

O DIGITAL

DÁ LUCRO

Pela primeira vez os serviços de streaming de música

terá alcançado mil milhões de ouvintes em todo o mundo.

E o seu crescimento deve fazer a indústria fonográfica

duplicar de tamanho na próxima década. É uma viragem

e tanto num sector que se encontrava em declínio

LUCAS AGRELA

ESCRITÓRIO

DO SPOTIFY,

NA SUÉCIA: Os serviços

de streaming já representam

quase metade da facturação

do mercado da música

No final do último milénio

a imagem da indústria da

música era a de um mercado

em decadência. As vendas

de álbuns — o pilar do seu

modelo de negócios — perderam sentido

depois do surgimento da música digital,

distribuída e partilhada pela Internet (muitas

vezes ilegalmente). Na época, poucos

investidores de consciência sã colocariam

as suas fichas neste segmento apostando

numa recuperação. Passados mais

de dez anos, o que se vê é exactamente o

oposto. A receita da indústria fonográfica

não apenas parou de diminuir como

tem vindo a aumentar a um ritmo que

não se via há muito tempo. No ano passado,

as vendas globais do sector somaram

19 mil milhões de dólares — quase

10% mais do que em 2017 — e a tendência

é para aumentarem. Até os analistas

do mercado mudaram de ideias. Em 2019,

o banco Goldman Sachs reviu a sua previsão

e agora estima que a indústria musical

terá uma facturação de 45 mil milhões

de dólares em 2030, mais do dobro da que

regista actualmente.

A viragem é puxada pelo crescimento

das aplicações de música por streaming,

que oferecem um amplo acervo pelo preço

de um único álbum por mês. Enquanto as

vendas de CD continuaram a cair, a facturação

com os serviços de streaming explodiu

nos últimos anos e atingiu os 9 mil

milhões de dólares em 2018, quase metade

do total. Segundo um estudo recente da

consultora de mercado alemã Statista,

em 2019, pela primeira vez, o mercado

de streaming de música terá alcançado

mil milhões de ouvintes, entre assinantes

e pessoas que acedem aos seus serviços

gratuitamente. É um marco para um

sector que vendeu uns míseros 52 milhões

de CD em 2018 nos Estados Unidos, 94%

menos do que os 943 milhões comercializados

em 2000, segundo a associação

americana que representa o sector, a Riaa.

Fundada em 2008, a empresa sueca

Spotify é o grande expoente e líder entre

os serviços de música. Está presente em

79 países e parte do segredo do seu sucesso

é o modelo de negócios, que mistura

assinaturas que permitem fazer o download

e aceder a um acervo de mais de

50 milhões de músicas, e receitas com

publicidade, veiculada para os ouvintes

que preferem não pagar. Os planos custam

70 | Exame Moçambique


D.R.

A DIGITALIZAÇÃO DÁ O TOM

Em 2019, o mercado de transmissão de música

via Internet chegará aos mil milhões de ouvintes

no mundo

Ouvintes de serviços de música on-line no mundo

(em mil milhões)

2017 0,9

2018

0,96

2019

1,02

2020

1,07 (1)

2021

1,11 (1)

2022

1,14 (1)

2023

1,16 (1)

A receita global da indústria da música gravada

provinha de media física, mas o streaming de

música assumiu a liderança do sector em 2017

Facturação global da indústria fonográfica

(em mil milhões de dólares)

Media Física

Streaming de Música Música Digital (2)

Direitos autorais espéctaculos

Outros

25

20

15

10

5

2001 2018

0,4

2,7

2,3

9

4,7

(1)

Previsão (2) Excluindo streaming.

Fontes: Statista e IFPI.

cerca de 4 dólares. A empresa não pára

de crescer. No terceiro trimestre de 2019,

o número global de utilizadores atingiu

os 248 milhões, 30% mais do que um ano

antes. Dessa base, 113 milhões são assinantes

— pouco menos do que os 158

milhões de clientes do serviço de vídeos

da Netfix. Os resultados financeiros do

Spotify acompanharam a multiplicação

dos ouvintes. A facturação foi de 1,9 mil

milhões de dólares no terceiro trimestre,

um aumento anual de 28%. O lucro também

for maior, atingindo os 490 milhões

no trimestre.

Grandes empresas tecnológicas não

perdem de vista uma fatia do bilionário

mercado da música. A Amazon e a Apple

têm aplicações de música on-line. O Apple

Music foi lançado em 2015 e tem 60 milhões

de utilizadores graças à força da marca

e do mais de mil milhões de iPhones utilizados

no mundo. Já a Amazon oferece

acesso ao Amazon Music aos clientes do

programa de fidelidade, o Prime. O plano

de benefícios também inclui um serviço

de vídeo e vantagens como entrega grátis.

O acervo da Amazon é pequeno face

às rivais, com 2 milhões de músicas. Por

isso, a empresa tem uma segunda app,

mais cara, com uma biblioteca musical

parecida com a do Spotify. Para Matteo

Ceurvels, analista de pesquisa da consultora

eMarketer para a América Latina,

o crescimento das aplicações de música

acompanha a tendência dos serviços de

vídeo, puxada pela Netflix. “Com o surgimento

de grandes plataformas, como

o Spotify, as empresas digitalizaram um

amplo acervo e recomendam músicas que

o utilizador tem boas hipóteses de gostar

de ouvir. Vivemos hoje uma ascensão

do mercado da música via Internet”,

diz Ceurvels.

DIRECTO AO REFRÃO

A preponderância do streaming no sector

musical causou impacto até na forma

de compor as canções: estas têm ficado

mais curtas. Cada vez que alguém ouve

uma música, é gerado um valor pequeno,

inferior a 1 centavo de dólar, para gravadoras

e artistas. Uma música precisa de

milhões de reproduções para ser lucrativa.

Por isso, as músicas pop perderam

as introduções longas.

A banda irlandesa U2 adaptou-se ao

novo modelo. Na música Where Streets

abril 2020 | 71


TECNOLOGIA STREAMING

HANS-HOLGER ALBRECHT:

Lidera o maior concorrente

do Spotify

O executivo alemão Hans-Holger

Albrecht é presidente mundial da

francesa Deezer, que rivaliza com o

Spotify. Com 56 milhões de músicas,

a Deezer aposta em parcerias e artistas

locais para crescer.

Como é que as aplicações

mudaram

a música nos últimos anos?

Foram uma das maiores revoluções

do mercado. O sector voltou a crescer

por sua causa. Para o consumidor,

a experiência de ouvir música

tornou-se mais personalizada.

Qual foi o impacto das aplicações

na pirataria?

As aplicações surgiram das ruínas

da indústria, abalada pela pirataria.

Ajudaram a formalizar alguns mercados.

A Suécia tinha altos índices

de pirataria. Hoje tem um grande

número de assinantes.

D.R.

UMA SAÍDA

CONTRA A

PIRATARIA

Para o presidente da

francesa Deezer, os serviços

de streaming ajudaram a

combater a partilha ilegal

de música na Internet

Porque assistimos a um aumento

de interesse por podcasts?

A qualidade das produções aumentou

com o investimento das empresas

de streaming de música. Hoje

há mais espaço para os podcasts.

No último ano, no Brasil, o consumo

aumentou 67% na Deezer.

Qual é a estratégia de expansão

global da Deezer?

Oferecer músicas locais. No Brasil,

somos fortes com o sertanejo. Organizamos

eventos e temos ainda um

sistema de pagamento diferenciado

para os artistas regionais. Se alguém

ouve música sertaneja o dia todo em

São Paulo, o dinheiro gerado [por

esse assinante] vai para esses artistas.

Como é feita a partição da receita

com as gravadoras?

Antes, pagávamos 100% da receita

gerada pela reprodução de músicas.

Em 2017 esse valor diminuiu para

os 80%. Actualmente, está entre os

60% e os 70%.

Qual é o grau de importância do

Brasil

na estratégia da Deezer?

O país está entre os três maiores mercados.

Temos uma parceria de gratuidade

com a operadora TIM que é

Have no Name, de 1987, o vocalista Bono

Vox só começa a cantar perto dos 2 minutos,

entre os quase 6 de duração. Numa

música deste ano dos U2, Ahimsa, com

menos de 4 minutos, a introdução tem

pouco mais de 10 segundos. Segundo a

Associação Americana de Editores Musicais,

13% do valor das reproduções de

uma canção vai para o bolso do artista.

Em busca de diferenciação, a francesa

Deezer, uma das maiores rivais do Spotify,

segue um modelo de pagamento

que contempla os artistas que não têm

milhões de reproduções. “Se alguém

ouve música sertaneja o dia todo em São

Paulo, o dinheiro gerado [por esse assinante]

vai para esses artistas”, explica o

executivo alemão Hans-Holger Albrecht,

presidente mundial da Deezer (entrevista

ao lado). Noutras plataformas, o dinheiro

das assinaturas é somado, para depois

ser dividido entre os artistas de todo o

mundo com base no número de reproduções.

O Brasil não tem empresas relevantes

no mercado global de streaming

de música. A de maior renome é a gaúcha

Superplayer, que oferece um serviço

baseado em listas temáticas. Para Robson

Del Fiol, sócio da consultora KPMG,

as empresas que saíram à frente no mercado

global têm grande vantagem. “É um

mercado consolidado e dominado pelas

plataformas estrangeiras, já têm grandes

bases de utilizadores e dificilmente

serão vencidas por startups”, diz Del Fiol.

Para ele, até o Google tem dificuldade em

fazer crescer o serviço YouTube Music,

que tem 15 milhões de assinantes, uma

vez que as pessoas preferem ouvir músicas

nos vídeos do YouTube, de graça.

No novo cenário da indústria da música,

o papel das aplicações é posicionarem-

-se como emissoras de rádio particulares

para cada utilizador, tarefa que só

pode ser realizada com a ajuda da tecnologia.

“Quem conseguir entender o comportamento

do consumidor e oferecer as

melhores experiências vai diferenciar-se”,

diz Clarissa Gaiatto, directora de transformação

digital da consultora Deloitte.

Na música, a media física tornou-se um

nicho, e a receita, agora, vem das aplicações,

cada vez mais personalizadas.b

72 | Exame Moçambique


abril 2020 | 73


TECNOLOGIA SAÚDE

MAIS DIGITAL

PARA SER MAIS

SAUDÁVEL

A tecnologia oferece sofisticação na atenção à saúde

dos mais idosos, cuja quota na população aumenta.

O bem-estar prometido foi, súbita e ironicamente, abalado

por um vírus desconhecido que derruba os mais velhos

A

população mundial nunca

envelheceu tão rapidamente

quanto hoje. De acordo com

a Organização das Nações

Unidas, a percentagem de

pessoas com 65 anos será de uma para cada

seis em 2050. Actualmente, é de uma para

cada 11. Esta faixa etária está na mira das

empresas de tecnologia, um público que

procura manter-se saudável mesmo com o

avanço da idade. A americana Apple transformou

o relógio Apple Watch numa verdadeira

central de saúde. Emite alertas em

caso de queda de idosos, monitoriza exercícios

físicos e oferece recursos para caminhada,

como uma bússola independente do

iPhone. A sul-coreana Samsung, por sua vez,

conta com o relógio Galaxy Watch, compatível

com telemóveis do sistema Android

e com iPhones. Pode monitorizar actividades

físicas e a movimentação do utilizador

durante o sono. Neste novo contexto,

aumenta a preocupação com a pele, e aparelhos

conectados, como o Foreo UFO Mini,

destacam-se. “Nos próximos cinco anos, estimamos

que os dispositivos inteligentes de

saúde serão cada vez mais utilizados. Assim,

caminharemos para um serviço de saúde

conectado”, afirma Mike Jones, analista e

vice-presidente da consultora Gartner. b

GALAXY WATCH

O Galaxy Watch, da Samsung, é um relógio

inteligente compatível com telemóveis

do sistema Android e com iPhones. Permite

monitorizar exercícios físicos, mostra

notificações de aplicações, mede a qualidade

do sono e é resistente à água.

APPLE WATCH SERIES 5

A nova versão do Apple Watch

é uma central de saúde de pulso.

Detecta o nível de ruído do

ambiente, monitoriza os batimentos

cardíacos e estima as calorias

gastas com exercício físico. Tem

um sistema de alerta de queda para

os idosos, que acciona, sozinho,

um contacto de emergência.

74 | Exame Moçambique


FOREO UFO MINI

O Foreo UFO Mini é um aplicador de máscara facial

que tem uma aplicação para ajudar o utilizador

a fazer o procedimento correctamente. Requer

máscaras especiais, para de dia ou de noite, que

são aplicadas em apenas 90 segundos.

NIKE ZOOM

O Nike Zoom pegasus Turbo Shield foi projectado para

ser leve e confortável. Ao mesmo tempo, conta com

um design resistente a diferentes situações climáticas.

A sola de borracha melhora a aderência. Daí ser possível

correr ou caminhar mesmo em meses chuvosos.

BPM CONNECT

O BPM Connect, da Nokia,

é um dispositivo que mede

a pressão arterial e reúne os

dados numa aplicação para

smartphone, facilitando a

visualização dos resultados

e o histórico da pressão da

pessoa. Durante a medição,

uma luz verde indica se

a pressão está boa.

THE DEWY SKIN CREAM

O creme à base de arroz The Dewy Skin Cream,

da japonesa Tatcha, tem efeito antioxidante

e hidratante para a pele. Em alta em países como

os Estados Unidos, este tipo de produto atraiu

a atenção do gigante Unilever, que comprou

a Tatcha por 500 milhões de dólares em 2019.

abril 2020 | 75


BAZARKETING

THIAGO FONSECA

Sócio e director de Criação da Agência GOLO.

PCA Grupo LOCAL de Comunicação SGPS, Lda

UM ANÚNCIO

PARA TODAS

AS MARCAS

Numa situação normal, são as

marcas, as empresas, que fazem

anúncios para o público. Mas este

não é um momento normal. É o

momento de o público fazer um

anúncio para as marcas. Um briefing

invertido: o que as empresas devem

fazer durante esta crise. Esse briefing

parece óbvio: as marcas devem comunicar

as mensagens relevantes. Porque

neste momento não se aplica a lógica das

vendas. É um momento mais do que especial.

E as marcas que entenderem isso

mais rapidamente serão as que também

se tornarão especiais.

Sempre acreditei que o trabalho de

brand building não é publicidade. É construção

de percepções. E isso faz-se a médio

e longo prazo. Diz-se na gíria popular

que é fácil ter amigos quando tudo está

bem. Mas a verdadeira amizade é testada

quando há dificuldades.

MARCAS VIVEM DE RELAÇÕES

Como é que as marcas se devem relacionar

connosco agora?

A crise económica global, que já chegou

devido à pandemia do novo coronavírus,

é real. E já está a colocar todas as

empresas, sem excepção, à prova.

O que fazer? Reagir à situação imediata

olhando apenas para o impacto nas

vendas, ou olhar a médio prazo e ver

para lá da crise?

A atitude e o comportamento que as

empresas tiverem agora vai ditar o futuro

das suas marcas. As marcas devem

vender mais do que produtos ou bens.

Mais do que vender bem, devem vender

o bem.

São essas as marcas que sempre se tornaram

as favoritas dos consumidores —

as que conseguem criar laços emocionais

mais fortes e ter um propósito maior.

Neste momento, é preciso uma grande

capacidade de adaptação rápida para

ajustar, mudar as mensagens pelo bem

comum.

A essência do marketing é a comunicação.

As marcas fazem parte do nosso

dia-a-dia, não apenas nas prateleiras das

lojas mas nas nossas vidas. Falam connosco

desde que acordamos até irmos

dormir.

As marcas estão na rádio, nos jornais,

nos outdoors, nas redes sociais, nos bill-

76 | Exame Moçambique


oards, na televisão, em todo o lado. Estão

sempre presentes. É o momento de

essa presença ser usada para dar algo em

troca à sociedade.

A comunicação deve mudar para mensagens

de prevenção em primeiro lugar.

E, dependendo de quanto tempo durar

este período, também devem fazer o que

MAIS DO QUE VENDER

BEM, AS MARCAS

DEVEM VENDER O BEM

sempre fizeram, vender o optimismo

através dos conteúdos que têm de ser

criados.

Vai ser colocado a teste o futuro das

empresas que afinal só estavam presentes

com o único propósito de vender.

As marcas mais fortes do mundo têm um

propósito maior.

As empresas de sucesso terão de se

adaptar. Manter-se presentes nas nossas

vidas de outras formas.

Mais do que nunca, esta é a altura de

investir.

As marcas que irão crescer após a

COVID-19 serão as que perceberem

que este é um momento único e que vai

transformar o mundo. E é por esse motivo

que devem transformar a crise numa

oportunidade para revelarem o seu propósito

e aproximarem-se dos consumidores.

Porque, afinal, os consumidores

são pessoas. Seres humanos.

A IMPORTÂNCIA DA COMUNICAÇÃO

É tempo de investir. De usar o poder da

comunicação para veicular mensagens

adaptadas ao momento que estamos a

enfrentar.

Esta não é a altura de competirmos

uns com os outros mas de ganharmos

esta guerra.

E, por isso, partilho, com a devida

autorização, um texto de um escritor

moçambicano que também é um amigo

muito especial:

“As grandes marcas não são as que

vendem mais. São aquelas que são as

mais relevantes. E a relevância vem de

várias formas. Inspirem-nos e mostrem-

-nos do que são capazes. Precisamos

como sociedade das vossas melhores

ideias e, acreditem, saberemos como vos

retribuir financeiramente, quando a tormenta

passar. Depois da privação, virá

uma poderosa e descontrolada onda de

consumo.

O público saberá reconhecer quem esteve

ao seu lado quando a tormenta tiver

passado e for hora de matar a sede de

consumo.

As crises fazem parte da vida. Aprendam

também vocês a fazerem parte da

nossa.”

As empresas que mantiverem o seu

investimento em comunicação com as

mensagens certas durante tempos difíceis

são as que se tornam mais fortes e

lucrativas. Foi a História que nos ensinou

isso.

Esta não é a primeira crise do mundo.

Uma coisa é certa: esta crise, como

qualquer outra, vai acabar.

Não deixe que ela acabe com a sua

marca. b

abril 2020 | 77


MARKETING ARTE

UMA JULIETA

FEMINISTA

IVAN PADILLA, EM VERONA

A ACTRIZ TRANS INDYA

MOORE: Depoimento

sobre a diversidade de

raça e género no filme

do calendário

A visão contemporânea da personagem de William

Shakespeare é o tema do Calendário Pirelli de 2020

Na trama de William Shakespeare,

Julieta, a mais romântica

das personagens da

literatura, começa a sua trajectória

como uma adolescente

ingénua e termina como uma mulher

independente, corajosa, que desafia convenções

e morre por convicções. Este foi

o tema escolhido pelo fotógrafo italiano

Paolo Roversi para o Calendário Pirelli

de 2020. “Quis retratar a procura de um

ideal, de um sonho”, explica Roversi na

entrevista concedida no Teatro Filarmónico

de Verona, durante o lançamento do

anuário, no início de Dezembro. “Julieta

é uma mulher que junta a fragilidade à

força, e timidez à rebeldia.”

O nome do calendário é “À Procura de

Julieta”. E Roversi, fotógrafo reconhecido

pelas campanhas publicitárias de moda,

procurou a sua Julieta em cada uma das

nove artistas convidadas, de diferentes

perfis e nacionalidades, a participar.

HOJE

JULIETA

SERIA FEMINISTA

A fragilidade está mais presente no olhar

e no gesto da actriz britânica Claire Foy.

A cantora chinesa Chris Lee, a actriz britânica

Mia Goth e a actriz italiana Stella

Roversi, filha de Paolo, parecem mais contemplativas.

A cantora espanhola Rosalía

e a actriz americana Emma Thompson

interpretam uma Julieta mais sensual.

E a força está na atitude das actrizes americanas

Kristen Stewart, Yara Shahidi

e Indya Moore.

“Acho que sim, Julieta seria feminista

hoje”, responde Yara à pergunta na conferência

de imprensa do lançamento do

calendário. “O feminismo é uma expressão

individual, e essa é a beleza do feminismo.

Cada mulher é uma. E cada uma

de nós interpretou a sua Julieta.” Com 19

anos, Yara é conhecida pela actuação na

série Black-Ish e pelo activismo a favor da

diversidade e da educação das mulheres.

Quando questionada sobre o significado

do amor para a sua geração, afirma: “Acho

78 | Exame Moçambique


interessante ver como o poder do sentimento

muda à medida que crescemos,

passa de platónico a outros níveis. Os conceitos

estão a redefinir-se, falamos hoje

de identidade e fluidez no género, o amor

está a transformar-se com isso. Vamos ver

como lidaremos com a mudança.”

A Pirelli conseguiu realizar um caso

de marketing ao transformar uma folhinha

de borracharia em obra de arte, com

uma tiragem limitada — este ano foram

impressos 12 mil exemplares, distribuídos

apenas aos convidados. Lançado em

1964, o anuário só deixou de ser publicado

A PIRELLI REALIZOU

UM CASO

DE MARKETING

de 1975 a 1983 devido à crise do petróleo.

Os melhores fotógrafos do mundo são

convidados a encabeçarem o projecto e

têm liberdade na escolha do tema e das

personagens. Apesar de a Pirelli ser uma

empresa fundada em Milão, Roversi, nascido

em Ravena, é o primeiro fotógrafo

italiano a fotografar o calendário.

Até há pouco tempo, a sensualidade

dava o tom dos retratos. Nos últimos

cinco anos, os temas passaram a variar.

Este ano ocorreram outras duas mudanças.

A primeira foi o formato. Em vez de

uma folhinha para pendurar na parede,

o calendário inspirou-se nos libretos de

ópera — Roversi é um apaixonado por

música lírica. A versão deste ano tem 132

páginas, com trechos de Romeu e Julieta

e 58 fotografias a cores e a preto e branco

das nove artistas. A segunda novidade é

que, juntamente com a versão impressa,

foi lançada uma curta-metragem de 18

minutos. As convidadas dão depoimentos

sobre a construção da personagem

para o ensaio e aparecem a posar, declamar

e cantar durante as sessões de fotos.

Especialmente comovente no filme é a

fala da actriz Indya Moore: “Eu sou negra

e sou trans. Eu sou negra de pele clara,

e muita gente acha isso bonito. Eu acho

bonita a pele escura. Da mesma forma, sou

uma trans que não parece trans, e para

CLAIRE FOY: Depoimentos

sobre o amor não idealizado

abril 2020 | 79


MARKETING ARTE

A actriz norte-americana Emma Watson

interpreta uma Julieta mais sensual

algumas pessoas isso é ser bonito. Esse

não é meu tipo de beleza.” A atriz Claire

Foy, a rainha Elizabeth nas duas primeiras

temporadas da série The Crown, discorre

com extrema sinceridade sobre as

suas decepções amorosas. “Quando era

menina, tive um amor não correspondido,

e isso transformou-se num hábito”, diz.

A primeira experiência “foi um desastre

e uma tragédia, e destroçou-me o coração.”

E conclui: “Acho que tenho muitas

cicatrizes para me entregar por completo.”

O lançamento do Calendário Pirelli

encerra sempre com uma festa black tie.

Desta feita, o evento aconteceu no Giardino

Giusti, um belíssimo jardim renascentista

de Verona cercado por ciprestes.

Na pista de dança, em contraste com o

supostamente triste depoimento no documentário,

Claire Foy era uma das mais

animadas. Ficou até ao fim do evento

com um grupo de amigas. No trabalho

de Roversi com as nove actrizes e cantoras,

nem Romeu faltou. Kristen Stewart

aparece no filme a recitar discursos

tanto de Julieta como do jovem Montecchio.

“Jamais faria um papel que não estivesse

escondido em algum lugar dentro

de mim”, diz Kristen. “Nunca poderia

encenar alguém que não fosse eu, porque

tal seria uma mentira.” b

A cantora chinesa Chris Lee

80 | Exame Moçambique


abril 2020 | 81


MUNDO

PLANO

GABRIELA RUIC

PORTO DE LOS ANGELES,

NOS ESTADOS UNIDOS: O comércio

dos países do G20 recuou e caminha para

atingir o pior desempenho desde 2017

D.R.

ECONOMIA MUNDIAL

MAIS UMA QUEDA NO COMÉRCIO GLOBAL

O ano de 2019 foi mau para as transacções

comerciais dos países do G20, que reúne

as vinte maiores economias do mundo.

No seu último relatório do ano sobre o

comércio exterior, a Organização para a

Cooperação e Desenvolvimento Económico

(OCDE) ressalta que a troca de mercadorias

dos países do G20 registou o terceiro

trimestre consecutivo de queda. As exportações

recuaram 0,7%, e as importações

0,9%. A fragilidade atingiu todas as regiões,

mas a retracção no terceiro trimestre foi

maior na União Europeia, onde as exportações

caíram 1,8% e as importações 0,4%.

O fraco desempenho do bloco foi puxado

pelo recuo da actividade comercial nas três

maiores economias europeias: Alemanha,

França e Itália. O mais recente acordo entre

os Estados Unidos e a China, que reduziu

parte das tarifas sobre os produtos chineses

e evitou a imposição de novas barreiras

entre os dois países, deverá aliviar a situação

em 2020. Mas a OCDE alerta que, se

no quarto trimestre de 2019 for registada

a quarta queda, o comércio do G20 atingirá

o nível mais baixo desde 2017.

O comércio teve variação negativa até ao

terceiro trimestre de 2019 no bloco G20

Variação trimestral do comércio Exportações

nos países do G20 (em %)

8

6

4

2

0

-2

-4

-6

-8

-10

Fonte: OCDE.

Exportações

Importações

2012 2015 2019

82 | Exame Moçambique


CHINA

BEM-VISTA NA AMÉRICA

LATINA

A maioria da população nos principais países

da América Latina avalia que os laços

com a economia chinesa são positivos

para os interesses locais. O resultado faz

parte de um estudo do instituto americano

Pew Research Center, que aferiu a opinião

do público sobre a China em diversos países.

Já entre os vizinhos da Ásia há mais

desconfiança quanto à crescente influência

chinesa.

Nos emergentes, a maioria da população

considera positiva a influência da China

na economia

Como as pessoas vêem a relação económica

com a China (em %)

Boa

México

África do Sul

Argentina

Brasil

Turquia

Japão

Índia

Coreia do Sul


Fonte: Pew Research Center.

76%

15%

70%

23%

66%

17%

58%

22%

49%

33%

43%

51%

39%

41%

32%

66%

BOLSONARO E TRUMP:

O enfraquecimento

das instituições no

mundo é preocupante

POLÍTICA

DEMOCRACIA ENFRAQUECE NO MUNDO

Ameaçada pela ascensão de governos

nacionalistas apoiados por milhões de

eleitores, a democracia não vive um

bom momento no mundo. Devido a

isso, um número maior de países está

a passar por um processo de “autocratização”,

quando se verifica o enfraquecimento

das instituições que

sustentam a democracia e limitam o

poder dos governos. Pela primeira vez

em quarenta anos, o número de países

em processo de autocratização é

maior do que o de países que estão

a democratizar-se: 24 contra 21. Em

2016, 415 milhões de pessoas viviam

em nações em processo de autocratização.

Actualmente o número é de 2,3

mil milhões. Os dados são retirados de

um estudo recente da Universidade de

Gotemburgo, na Suécia. Os investigadores

consideram que países populosos,

como a Índia, os Estados Unidos e

o Brasil, figuram agora no grupo das

nações em “autocratização”. Por outro

lado, o estudo salienta que, embora

combalida, a democracia continua a

ser o regime político mais difundido,

presente em 99 países.

Pela primeira vez em quarenta anos, há menos países a tornarem-se democracias do que

autocracias

Número de nações em processo de democratização ou autocratização (ano a ano)

Países em democratização

Países em autocratização

REUTERS

CHINA: Boa avaliação na América

Latina e desconfiança na Ásia

D.R.

75

70

65

60

55

50

45

40

35

30

25

20

15

10

5

0

1972 1980 1990 2000 2010 2018

Fonte: Universidade de Gotemburgo.

abril 2020 | 83


GESTÃO ENTREVISTA

“O MAIOR RISCO

É A INCERTEZA”

Para o presidente mundial do grupo de logística DHL, Frank Appel, gerir uma empresa

num cenário de instabilidade exige manter-se atento aos resultados e às estratégias

de longo prazo

RODRIGO CAETANO

Aos primeiros sinais da guerra

comercial entre os Estados

Unidos e a China, os analistas

passaram a monitorizar

de perto indicadores dos

seus impactos na economia. Para abastecer

a procura por informação, em Janeiro

de 2018 o grupo alemão de logística DHL

lançou o Barómetro do Comércio Global,

um índice baseado em dados da própria

operação, a maior do mundo em segmentos

como o de entrega expressa. Até

Novembro, o índice acumulava uma série

consecutiva de quedas ao longo do ano.

Com 500 mil funcionários distribuídos

por 220 países, a DHL também sente os

efeitos da turbulência no comércio mundial.

As receitas têm-se mantido quase

estagnadas. Em 2015, as vendas anuais

do grupo somavam pouco mais de 59 mil

milhões de euros. De lá para cá, o avanço

foi pequeno. No ano passado, a facturação

atingiu os 60 mil milhões de euros.

Há mais de dez anos como presidente

mundial do grupo DHL, o alemão Frank

Appel mantém o optimismo na crença de

que as fronteiras continuarão a ser apagadas.

Numa visita recente a São Paulo, no

Brasil, Appel falou à EXAME.

SEM CERTEZAS

QUANTO AO FUTURO,

AS EMPRESAS ADIAM

INVESTIMENTOS

O comércio global tem vindo a

encolher. Até que ponto isso

representa uma ameaça para os

resultados da DHL?

O maior risco é o cenário de incerteza,

tanto no caso da guerra comercial entre os

Estados Unidos e a China como na indefinição

acerca do Brexit. Sem clareza sobre

o que virá, as empresas adiam investimentos.

Veremos a economia global desacelerar

pelo facto de as empresas adiarem projectos,

tanto na China como no Reino Unido.

Se a China e os Estados Unidos decidirem

que não gostam um do outro e instituírem

mais taxas, o mercado vai adaptar-se.

A conta irá para os consumidores, porque

alguém tem de pagá-la. Mas a dúvida que

a desaceleração gera terá passado. Não

vejo um retrocesso na globalização, pelo

contrário. O Mercosul e a União Europeia

acabaram de assinar um acordo, só falta

ratificá-lo. Claramente, observamos que

os países mais desenvolvidos são também

os mais ligados ao comércio global. Singapura

é o melhor exemplo disso. É um

país sem recursos naturais, com poucas

infra-estruturas, sem educação, mas é um

dos mais ricos, justamente por ser um dos

mais conectados. Não conheço nenhum

caso de proteccionismo que seja bem-sucedido.

Fechar-se para o mundo talvez traga

benefícios a curto prazo mas, com o tempo,

a possibilidade de sucesso é zero.

Mesmo num cenário de

desaceleração, aumenta a pressão por

investimentos em tecnologia no

sector da logística. Como lidar com

este dilema?

Sou um cientista. Na altura em que me tornei

Ph.D. em Neurobiologia, vi a revolução

proporcionada pelo sequenciamento do

ADN. Foram tempos emocionantes. Estamos

a vivenciar um momento como esse

na nossa indústria. Se for a uma construtora,

verá um monte de robots. Mas num

dos nossos depósitos ainda há, em grande

parte, pessoas a trabalharem manual-

84 | Exame Moçambique


FRANK APPEL,

PRESIDENTE

DO GRUPO DHL:

“Não vejo retrocesso

na globalização”

GETTY

mente. À medida que a tecnologia se for

tornando mais barata, o nosso sector

transformar-se-á. Teremos robots, drones,

inteligência artificial, blockchain e por aí

fora. Custa muito dinheiro pôr esses projectos

em funcionamento e o nosso negócio

tem margens pequenas, por isso antes

não podíamos pensar em adoptar essas

tecnologias. Mas esse custo está a baixar.

As pessoas que hoje realizam esses

trabalhos perderão o emprego?

Não. Existe o mito de que a digitalização

destrói empregos. É um disparate. Não sou

economista, mas entendo que há apenas

duas maneiras de gerar crescimento económico.

Uma é ter mais pessoas a fazerem

o mesmo trabalho — só que o mundo

não precisa de mais pessoas. Outra é ter

a mesma quantidade de pessoas a realizarem

mais trabalho. A isso chama-se produtividade.

Com a tecnologia, o nosso sector

vai ter mais produtividade, que resultará

em crescimento económico e, em consequência,

mais emprego. Desde a Revolução

Industrial, o mundo nunca teve tantos

empregos. O que a automação faz é libertar

os trabalhadores de tarefas repetitivas

e permitir que produzam mais em trabalhos

mais relevantes.

Está há uma década à frente da DHL,

mais do dobro do tempo médio de

permanência de presidentes de

empresas globais. Qual é o segredo?

Um líder não é como um técnico de futebol,

que dispõe de 90 minutos para ganhar

o jogo. É preciso evoluir continuamente.

Actualmente, estamos a implementar na

DHL a estratégia para 2025. Um dos pontos

dessa estratégia consiste justamente em

investir 2 mil milhões de euros em digitalização.

Pensar no longo prazo corresponde

a uma das três necessidades básicas

dos seres humanos. Primeiro, queremos

alguém para amar e formar uma família.

Segundo, queremos ser relevantes para o

mundo. E, por fim, queremos ter a expectativa

de que amanhã será melhor do que

hoje. Precisamos dar às pessoas uma perspectiva,

por isso trabalhamos com planos de

seis anos. Deste modo, todos sabem aonde

queremos chegar e qual é o papel que cada

um desempenha nesse processo. b

abril 2020 | 85


GESTÃO VENDAS

MAIS GLOBAL

MAS ACESSÍVEL

A Embraco, o maior fabricante de compressores do mundo,

actualizou a sua plataforma de atendimento aos clientes

RODRIGO CAETANO

E

m 2017, os executivos da

Embraco, a maior fabricante de

compressores do mundo, concluíram

que o sistema de atendimento

ao cliente não tinha

acompanhado a globalização do negócio.

A expansão internacional da empresa, fundada

em Joinville há 48 anos, começou na

década de 1990, quando ainda fazia parte

do grupo Brasmotor, na época também

dono da Brastemp e da Consul. A actualização

mais recente da plataforma que

serve oito fábricas em cinco países havia

sido feita em 1999, dois anos depois da

aquisição do grupo pela americana Whirlpool.

O principal ajustamento consistiu

na substituição do e-mail por formulários

electrónicos. No entanto, o acesso remoto

continuou limitado e dependia da ligação

a servidores da empresa. Estas dificuldades

atrasavam o trabalho dos engenheiros

que visitam os clientes, boa parte deles

A EMPRESA REDUZIU

O TEMPO DE RESPOSTA

A RECLAMAÇÕES

fabricantes de refrigeradores, para resolver

problemas. O tempo entre o registo

de uma reclamação e o início do atendimento

era, em média, de cinco dias. Para

os clientes, dependentes dos compressores

para a sua produção, era uma eternidade.

Em 2017, ao remodelar o sistema, o tempo

de espera diminuiu para 24 horas. Veja

as mudanças e os resultados da empresa,

que desde Julho de 2019 está nas mãos da

japonesa Nidec. b

INVESTIGADORES

DA EMBRACO NO

BRASIL: Sistema na

nuvem e integração

das fábricas

86 | Exame Moçambique


1

UTILIZAR A NUVEM

O primeiro passo do projecto para

melhorar o serviço ao cliente foi

a criação de uma plataforma on-line

na nuvem. Os engenheiros de qualidade

e as equipas de vendas acedem

ao sistema através de aparelhos portáteis

e adicionam fotos e vídeos do problema

para facilitar o trabalho das equipas

de atendimento. A cada etapa,

o sistema indica os próximos

passos e quem é o responsável.

2

COLHER IDEIAS EM TODO O MUNDO

Todas as fábricas da empresa

participaram no projecto, liderado

pela equipa global de qualidade.

Essa diversidade possibilitou o

desenvolvimento de um sistema

já adaptado às necessidades reais

das operações. Diferentes áreas

das empresas envolvidas no

contacto directo com os clientes

participaram no processo.

É possível utilizar o sistema

no idioma local.

3

COMBATER AS CAUSAS DOS PROBLEMAS

Com a unificação de dados numa

só plataforma, foi possível analisar

quais eram os problemas mais

recorrentes. O passo seguinte

foi descobrir as causas desses

problemas, de modo a permitir

ajustes preventivos em diversas

áreas, como design, manufactura

e logística. Com estas medidas

e acções de melhoria contínua,

o índice de rejeição de itens

nas linhas de produção

dos clientes também baixou.

RESULTADOS (1)

• O tempo de resposta às reclamações

diminuiu de cinco dias para apenas um

• A percepção positiva dos clientes

aumentou de 91% para 95%

• O índice de rejeição de produtos

nas linhas de produção caiu 30%

(1)

Referentes ao período de 2016 a 2019.

abril 2020 | 87


ESPECIAL INOVAÇÃO

88 | Exame Moçambique


COM O APOIO DE:

INOVAR

CONTRA

O VÍRUS

Milhares de iniciativas em todo mundo,

conduzidas por todo o tipo de empresas

e empreendedores, desde startups aos

colossos da tecnologia, reinventam-se

e inventam soluções para combater

a pandemia global

90

96

CORRIDA POR SOLUÇÕES

Criatividade faz frente à pandemia

CAMIÕES SEM CONDUTOR

Já circulam nas estradas dos EUA

GETTY

abril 2020 | 89


ESPECIAL INOVAÇÃO

As grandes crises funcionam

sempre como um

estímulo para que surjam

ideias francamente inovadoras.

Um vírus desconhecido

e assassino que afecta quase

todos os países do mundo é um problema

a precisar de solução. Antes: de várias

soluções. Como conseguir os testes mais

eficazes e rápidos que permitam rastear

a doença infecciosa? Como obter celeremente

um medicamento específico para

a combater? Como encurtar o período

que normalmente a descoberta e utilização

de uma vacina exige? Como fabricar

mais ventiladores, indispensáveis na

assistência hospitalar a doentes que atingem

um estado crítico? Em suma, a prevenção,

diagnóstico e combate ao novo

coronavírus mobiliza cientistas de diferentes

áreas do conhecimento, desde biólogos,

epidemiologistas, bioinformáticos

a matemáticos, em todo o mundo, que

comunicam entre si através de uma rede

imensa. Também a população, colocada

em “distanciamento social”, isolamento ou

mesmo quarentena, precisa de comunicar.

Ao avançar, a COVID-19 isola as pessoas

em casa, a única forma de conter a progressão

do contágio, e aquelas cuja profissão

o permite passam ao regime de teletrabalho.

Por quanto tempo é possível manter

as empresas com a esmagadora maioria

dos colaboradores a funcionarem através

da Internet? Ou será que a pandemia

veio demonstrar que, em muitos casos, o

teletrabalho não só substitui o trabalho

presencial como até consegue ser mais produtivo?

Não será a própria reorganização

das empresas em teletrabalho, ditada pela

contenção de contágio da epidemia, com

simplificação de métodos e optimização,

um outro caso inovador no meio do pânico

do COVID-19? Em todo o caso, com o trabalho

a migrar para a videoconferência, os

gigantes da tecnologia colocaram já à disposição

dos utilizadores ferramentas que

facilitam o trabalho à distância.

O CHEIRO A APOCALIPSE QUE

COBRE OS DIAS QUE PASSAM

NÃO TRAVOU OS PRODÍGIOS

INOVADORES

O cheiro a apocalipse que cobre os dias

que passam não coibiu que se multiplicassem

os prodígios inovadores que a tecnologia

permite. Vimos a China construir

em apenas 10 dias um gigantesco hospital,

dezenas de startups a criarem testes

rápidos de rasteio da doença ou mesmo

a mapearem o seu avanço no mundo,

robots a desinfectarem carruagens do

metro em Hong Kong, o e-commerce a disparar,

pacientes a serem tratados em casa

através de vídeo, um exemplo de telemedicina.

Vimos as inovações mais simples

e mais criativas, como a do improvisador

que espeta um clip no isqueiro para

tocar nas superfícies sem se contaminar.

A chama do isqueiro derrete, após cada

contacto, qualquer possível contaminação,

como mostra um dos muitos vídeos

que correm no WhatsApp e noutros sistemas

de comunicação típicos da Internet.

90 | Exame Moçambique


NOVO CORONAVÍRUS:

A necessidade de

inovar a vida face a um

inimigo invisível

Diz-se que a necessidade é a força do

engenho. E é. Por toda a Europa faltam

máquinas de ventilação nos hospitais, uma

falha que pode ditar a morte dos doentes

em estado mais crítico. Também por

todo o lado, empreendedores e criativos

procuram a solução com a tecnologia de

que dispõem. Em Portugal, uma unidade

que trabalha moldes de plástico para eventos

pôs-se a produzir viseiras completas

para o pessoal sanitário com a ajuda

de trabalhadores domésticos. Em Itália,

uma pequena empresa produziu válvulas

para máquinas respiratórias através

de uma impressora 3D. O know-how

de uma equipa de engenheiros foi essencial

para responder aos apelos desesperados

das equipas médicas e para salvar

vidas. Os materiais de protecção esgotam-se

e o mercado torna-se fortemente

especulativo. Na Catalunha, em Espanha,

os habitantes de uma pequena localidade

começaram a produzir em casa

máscaras protectoras com tecidos disponibilizados

por fábricas das redondezas.

Há ideias inovadoras em todos os sectores.

Na Alemanha, um estabelecimento

perto de Leipzing, no Leste do país, inven-

GETTY

AJUDAS

INOVADORAS

“Quero Ajudar” é o nome de uma

aplicação que reúne uma equipa de

voluntários prontos a prestar serviços

a quem estiver de quarentena. A crise

sanitária trouxe muitos exemplos

de inovação que aproveitam as

possibilidades tecnológicas para lançar

cadeias de entreajuda. Em “Quero

Ajudar”, profissionais portugueses e

brasileiros juntaram-se ao programa

de aceleração de “E-commerce

Experience” para criar a aplicação,

uma iniciativa de uma associação

sem fins lucrativos. O projecto assenta

no conceito de entreajuda comunitária

e tem como objectivo superar as

dificuldades causadas pelo COVID-19

através da união entre os grupos de

risco e quem pode prestar a ajuda

necessária. Trata-se de superar as

dificuldades causadas pela COVID-19

no dia-a-dia. Graças à iniciativa, uma

equipa de voluntários presta serviços,

como tomar conta de crianças

ou animais de estimação, fazer

deslocações necessárias, como ir

à farmácia ou ao supermercado,

alojamento dos que estão longe de

casa, o auxílio a animais de estimação

ou ainda dar apoio psicológico.

abril 2020 | 91


ESPECIAL INOVAÇÃO

tou uma maneira de os clientes irem ao

bar sem saírem de casa. Estes encomendam

bebidas e acompanham através de

vídeo a sua preparação e distribuição.

Também a indústria, parada e sem possibilidade

de colocar os stocks, reconverte-

-se, como acontece numa economia de

OS ASSINTOMÁTICOS SÃO

RESPONSÁVEIS PELA

TRANSMISSÃO DA DOENÇA

EM 70% DOS CASOS

guerra. Fábricas nos Estados Unidos vão

passar a produzir material de protecção.

Na Europa, a Ferrari vai produzir ventiladores

e inúmeras indústrias têxteis adaptam-

-se à nova procura de máscaras cirúrgicas.

Na Escócia, uma fábrica de gin produz

agora álcool para higienização das mãos.

TESTES MAIS RÁPIDOS

A detecção de pessoas infectadas pelo

vírus é fundamental para conter a sua propagação.

Um estudo da Universidade de

Colúmbia, nos Estados Unidos, revela que

as pessoas que não apresentam sintomas

— os assintomáticos — são responsáveis

pela transmissão da doença em cerca de

75% dos casos confirmados. No Brasil, um

grupo de empreendedores decidiu reunir

as principais iniciativas de startups para

mitigar o impacto da doença no país. Em

poucas horas foram identificadas 30 iniciativas

e contactadas mais de 500 pessoas,

que passaram a reunir-se no WhatsApp, no

Telegram e outras redes sociais através da

hashtag #StartupsVsCovid19. A Gazeta do

Povo, do Brasil, relata que “uma das startups

presentes no mapa é a Hi Technologies,

que diagnostica o COVID-19 através

de um teste sorológico que demora cerca

de 10 minutos. O teste custará 25 dólares.

Os aparelhos serão comercializados a partir

de Abril e o teste já está disponível nas

farmácias que já possuem o Hilab, um

aparelho de exame de sangue instantâneo.

Outra iniciativa parte da Triágil, startup

de triagem médica on-line. Uma simples

conversa com o chatbot ajuda a classificar

as probabilidades de infecção do paciente

e a gravidade da infecção pelo novo vírus.

A triagem é gratuita”. A iniciativa é apoiada

pela Associação Brasileira de Startups, que

utilizará a sua base de 13 mil startups para

procurar soluções que possam integrar a

próxima versão do mapa.

Também no Brasil, o Serviço Nacional de

Aprendizagem Industrial (SENAI) arrancou

com projectos que actuam na prevenção,

no diagnóstico e no combate ao novo coronavírus.

O SENAI pretende seleccionar

iniciativas que possam, em até 40 dias a

partir do início dos projectos, auxiliar o

Brasil a enfrentar a pandemia da COVID-

-19. Serão destinados 2 milhões de dólares

às propostas seleccionadas. Por todo

o mundo, plataformas de startups trabalham

em respostas inovadoras a situações

novas criadas pela pandemia, com

relevo para as necessidades da medicina

em temos de diagnóstico, tratamento e

cura da doença (medicamentos, tecnologia

em vacinas, monitorização de sintomas

à distância e de grupos de risco, entre

outros), cadeias de valor na Internet, para

onde se mudou a quase totalidade do consumo,

e sistemas de entrega, bem como o

ensino à distância, informação, entretenimento

e soluções de higienização para

a mobilidade urbana.

A GUERRA DA VACINA

O tratamento provavelmente chegará primeiro,

mas a existência de uma vacina é

fundamental para imunizar as populações

de prováveis réplicas do surto, o que

se admite possa acontecer na Europa a

seguir ao Verão. Enquanto a maioria das

comunidades não criar anticorpos que bloqueiem

a transmissão do vírus não haverá

qualquer garantia de que este não volta a

atacar quando retomada a vida normal

ou mesmo conservando novos comportamentos

de prevenção da doença. Foram

as vacinas que praticamente eliminaram, ao

introduzir no corpo ano versões frágeis do

vírus envoltas em adjuvantes e convocar os

glóbulos brancos para o combate ao intruso,

epidemias que custaram milhões de vidas

no passado e ainda são uma ameaça letal

em boa parte do mundo, em que África se

inclui, no presente. Segundo a Organização

Mundial de Saúde (OMS) já existem

em todo o mundo pelo menos 41 iniciativas

para criar uma vacina contra o novo

coronavírus. A OMS acrescenta que, no

entanto, apenas uma já chegou ao estágio

de testes em humanos e apresenta alguma

esperança, ainda que limitada, de chegar a

um produto aprovado em menos de dois

anos. A OMS explica que a disputa pela

vacina envolve oito estratégias diferentes

de atacar o vírus.

A corrida pela vacina encerra centenas

de médicos e cientistas em laboratórios

por todo o mundo, enquanto quase

mil milhões de pessoas se encontram

enfiadas em casa para se protegerem da

epidemia, muitas delas em teletrabalho.

Já se anunciam resultados num tempo

meteórico face ao que dura normalmente

VACINA: Já há testes

em humanos mas

deverá demorar,

pelo menos, 12 meses

a estar no mercado

92 | Exame Moçambique


RAPIDEZ

As actuais tecnologias

de vacinação permitem

que se saltem etapas

no desenvolvimento de

uma vacina, que irá surgir

em tempo recorde

ENTREAJUDA

O isolamento social levou

muitas empresas

a inventarem modelos

de entreajuda social

para acorrer aos mais

necessitados

RESPOSTAS À CRISE

COOPERAÇÃO

Centenas de cientistas,

médicos e especialistas

trabalham em laboratórios

de todo o mundo

em contacto uns com

os outros

COMUNICAÇÃO

Os gigantes da Internet

alargam a mais utilizadores

a videoconferência e

serviços essenciais como

a telemedicina

GETTY

FOI DESENVOLVIDA UMA

VACINA EM TEMPO RECORDE

QUE JÁ ESTÁ A SER TESTADA

EM HUMANOS

o processo de criação de um antídoto eficaz

contra um vírus. Em dias sucessivos,

16 e 17 de Março, a China e os Estados Unidos

anunciaram que já dispunham de uma

vacina contra o vírus SARS-CoV-2, pronta

a ser testada em seres humanos. Os Estados

Unidos já iniciaram mesmo os testes

da vacina que desenvolveram num tempo

recorde (42 dias) em 45 voluntários saudáveis.

Os testes estão a ser efectuados na

cidade de Seattle pela organização Kaiser

Permanente, que garante não existir

o risco de a vacina originar a COVID-19,

pois contém um código genético inofensivo

copiado do vírus que provoca a doença.

A investigação, que dispensou a verificação

da capacidade imunológica da vacina em

animais, é financiada pelo National Institute

of Health e conduzida pela empresa

Moderna Therapeutics, cuja cotação deu

um salto na Bolsa. Trata-se de “uma corrida

contra o vírus e não contra outros

investigadores”, salientou o médico John

Tregoning, especialista em doenças infecciosas

no Imperial College de Londres.

Na China, foi o próprio Ministério da

Defesa a anunciar ter desenvolvido “com

êxito” uma vacina contra o novo coronavírus,

estando a realizar ensaios clínicos em

humanos. A vacina foi desenvolvida pela

Academia Militar de Ciências e a equipa

de investigação liderada pela epidemiologista

Chen Wei, garantindo as autoridades

chinesas que é possível avançar “com

uma produção a grande escala, segura e

efectiva”. Por outro lado, várias instituições

chinesas estão a avançar com vários

ensaios clínicos para comprovar mais

vacinas que estão a ser desenvolvidas.

Uma delas assenta em vectores virais da

gripe e está na fase de testes em animais.

abril 2020 | 93


ESPECIAL INOVAÇÃO

DESAFIOS

À INOVAÇÃO

Este é um tempo para gerar soluções

para um período longo de

distanciamento social. A crise global de

saúde pública convoca a inovação para:

▸Disponibilizar uma vacina

em tempo recorde

▸Conseguir rapidamente testes

mais rápidos e eficazes

▸Arranjar maneira de aumentar

a produção de ventiladores

▸Propor novos métodos

e organização do trabalho

▸Criar cadeias de produção

científica

▸Criar cadeias de entreajuda social

▸Aperfeiçoar a videoconferência

▸Reinventar as cadeias de logística

no e-commerce

SUPERCOMPUTADOR:

O Summit identificou

substâncias que

o vírus utiliza para

contagiar e deixa

a ciência mais perto

de uma solução

▸Popularizar a telemedicina

▸Inventar respostas para as novas

necessidades da indústria

Na Alemanha, o laboratório CureVac também

está a desenvolver uma vacina, que

os alemães acusam os Estados Unidos de

tentar comprar por uma soma avultada.

No Brasil, uma investigação financiada

por uma fundação é liderada pelo imunologista

Jorge Kalil, que, por se encontrar

em isolamento, acompanha o trabalho à

distância. Na Índia, o Serum Institute tem

uma vacina de vírus atenuado já em testes

de segurança em animais. A inoculação

de uma versão enfraquecida do vírus

corresponde a um método tradicional e

de eficácia comprovada, levando, contudo,

o seu desenvolvimento muito mais

tempo. A vacina contra o SARS-CoV-2 só

deverá estar disponível dentro de um ano,

constituindo os testes iniciais o primeiro

de muitos procedimentos. Não chegará a

tempo de travar a actual vaga pandémica,

mas traduzirá uma rapidez sem precedentes

na resposta a um vírus.

MAIS COMUNICAÇÃO

O aumento inusitado da procura conduz,

invariavelmente, a ideias inovadoras.

Os mais poderosos da comunicação on-line

põem à disposição dos profissionais que

estão, por força da pandemia, a trabalhar

a partir de casa, ferramentas mais sofisticadas

de comunicação. A Google decidiu

disponibilizar, até 1 de Julho, a categoria

avançada das videoconferências do “Hangouts

Meet” a todos os clientes do “G Suite

94 | Exame Moçambique


D.R.

PROMESSA

DE REMÉDIOS

A investigação científica indica que alguns medicamentos

mostraram-se eficazes no combate ao vírus pandémico

LUCAS AGRELA

e G Suite Education”. A chinesa Alibaba,

que pontifica nos negócios on-line, abriu

aos residentes na província de Hubei, onde

começou o tsunami sanitário que invadiu

o planeta, a utilização gratuita dos seus

serviços de telemedicina. Ainda na China,

outra gigante da Internet, a Baidu, estabeleceu

um fundo de 35 milhões de dólares

para pesquisa e desenvolvimento de cura

do coronavírus, bem como para medidas

de prevenção a longo prazo.b

Hidroxicloroquina, cloroquina e

remdesivir. São estes os medicamentos

que, segundo estudos

científicos, podem ser

eficazes no combate ao novo

coronavírus. A hidroxicloroquina é a mais

promissora. O remédio é utilizado no tratamento

da malária desde a década de 1930,

mas também já foi usado para combater

doenças como a artrite reumatóide e o lúpus.

Chegou a ser substituído recentemente por

outros porque o protozoário parasita plasmodium

falciparum, causador da malária,

tornou-se resistente à sua acção. A hidroxicloroquina

podia ser utilizada para prevenir

ou combater a malária. O medicamento

já se havia revelado eficaz contra a SARS,

uma doença respiratória aguda que surgiu

na China em 2002 e pertencente ao grupo

coronavírus, assim como o vírus causador

da actual pandemia de COVID-19. Num

estudo publicado por cientistas chineses

a 18 de Março na revista científica Nature,

as drogas hidroxicloroquina e remdesivir

mostraram-se capazes de inibir a infecção

do SARS-CoV-2 (nome do novo coronavírus)

em simulação in vitro. Outro estudo

realizado em França, pelo Instituto Mediterrâneo

de Infecção de Marselha, publicado

no periódico científico International

Journal of Antimicrobial Agents, mostra

que a hidroxicloroquina teve um desempenho

positivo. Em alguns casos, foi utilizado

também um antibiótico chamado

azitromicina, que combate infecções pulmonares

causadas por bactérias.

Numa experiência efectuada com dois

grupos, tendo um recebido o medicamento

e outro não, o resultado da droga no combate

ao novo coronavírus foi eficaz. O antibiótico

azitromicina foi usado em conjunto

com a cloroquina, como no estudo frealizado

em França.

Gregory Rigano é orientador de pesquisa

na Universidade de Stanford, nos Estados

Unidos, e co-autor de um estudo sobre o

uso de hidroxicloroquina em humanos para

combater o coronavírus. O estudo ainda

não foi publicado, mas Rigano já concedeu

uma entrevista a uma rádio americana

sobre o tema. “Este será o estudo

mais importante a ser lançado sobre o

tema. Ponto”, disse Rigano. O bilionário

Elon Musk também admite que o medicamento

poderia ser eficaz contra o COVID-

-19. Apesar de promissor, o medicamento

ainda carece de mais testes clínicos antes

de ser distribuído amplamente à população

de forma segura. Por isso, Donald Trump,

Presidente dos Estados Unidos, pediu que

a Food and Drug Administration seja ágil

com o processo de testes e aprovação do

medicamento. Face à falta de aprovações

clínicas do uso da hidroxicloroquina, a

automedicação não é recomendada pelos

médicos e investigadores. b

abril 2020 | 95


ESPECIAL INOVAÇÃO

TÊNDENCIAS GLOBAIS

Em Março, com a ameaça do novo coronavírus

a espalhar-se no Ocidente e os camionistas muito

expostos ao risco de contágio, a TuSimple, startup que

desenvolve a condução autónoma de veículos, anunciava

estar a expandir o seu programa-piloto de transporte

de mercadorias com a UPS para 20 viagens semanais.

30%

É a redução dos custos de

remessas de mercadorias

com a aplicação da

tecnologia de condução

autónoma assente em

inteligência artificial da

TuSimple. Um estudo da

Universidade da Califórnia,

da Jacobs School of

Engineering e da TuSimple,

com base em informações

recolhidas em 122

percursos, totalizando mais

de 15 mil quilómetros,

apurou que a condução

autónoma poupa ainda 10%

de combustível

200m

É a faixa de visão obtida

pelos sensores de luz

dos camiões autónomos

300m

É o alcance da tecnologia

de radar utilizada pelo

camião autónomo para

classificar objectos, mesmo

em condições adversas

1000m

É a distância coberta pelas

câmaras da plataforma

tecnológica dos camiões

autónomos

360 o

É o reconhecimento

do driver virtual

do camião autónomo,

o que permite planear

com uma antecedência

de 30 minutos

É MUITO DIFÍCIL

DIZER ÀS

PESSOAS: VÁ A

RESTAURANTES E

IGNORE A PILHA

DE CORPOS ALI AO

CANTO, QUEREMOS

QUE CONTINUE A

GASTAR PORQUE

TALVEZ HAJA UM

POLÍTICO QUE

PENSA QUE O

CRESCIMENTO

DO PIB É O QUE

IMPORTA”

Bill Gates

LUÍS FARIA

Director Executivo Exame Moçambique

AS SOLUÇÕES

Se não for controlada, a primeira crise global

de saúde pública, transmitida por médias

globais, matará milhões de pessoas. A taxa

de letalidade da pandemia não é grande e é

bastante selectiva, mas a doença é causada

por um vírus extremamente contagioso que

infectará mais de 70% da população mundial

se não for contido.

Crises agudas, e esta é a mais grave desde

a depressão de 1919 e as duas guerras mundiais

que se seguiram, obrigam a que a inovação

encontre soluções para o que antes era,

quanto muito, um cenário apocalíptico saído

da ficção — o filme Contágio, de Steven Soderbergh,

de 2011, descreve uma situação de que

esta, real, poderia ter sido tirada a papel químico.

Alguma força malévola inspirou-se nele?

Face à pandemia terão de ser encontradas

novas soluções para a nova realidade que o

vírus impôs, tirar as lições devidas do impacto

que está a ter na sociedade e na economia globais

e fazer os necessários reajustamentos. Não

houve quem deixasse de avisar. Bill Gates aproveitou

o convite que lhe foi feito em 2014, pelo

programa de inovação TED, para alertar para

que a grande ameaça que se colocava no horizonte

era a de um vírus que atingiria vastas

camadas da população, chamando a atenção

para a incapacidade dos sistemas de saúde para

enfrentarem a catástrofe anunciada. O que se

confirmou. A única saída é inovar, encontrar

subitamente as soluções contra o vírus que nos

persegue e que os vários sistemas instalados

não foram capazes de travar. b

96 | Exame Moçambique


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EXAME FINAL

CELSO AMORIM

EX-MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DO BRASIL

“NINGUÉM QUER OUVIR

O BRASIL”

Para o ex-ministro das Relações Exteriores

do Brasil, a comunidade internacional deixou

de ver o país como um aliado mas

como um problema

D.R.

Celso Amorim conhece a política externa do Brasil como

poucos. Diplomata desde a década de 1960, foi ministro

das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco

(1993-1995) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011).

Em entrevista à EXAME, o ex-chanceler faz um balanço crítico

do primeiro ano da política externa de Jair Bolsonaro. “Nunca

dantes havíamos rejeitado os valores básicos do multilateralismo

e das normas internacionais”, diz.

Como avalia a política externa do actual governo?

É a política externa mais desastrosa que já vi na história do Brasil.

Nunca dantes havíamos rejeitado os valores básicos do multilateralismo

e das normas internacionais nos mais variados campos.

Também nunca vi um alinhamento automático, absoluto e declarado

com os Estados Unidos como agora.

Quais os benefícios desse alinhamento automático?

Não vejo benefício algum. Até mesmo as pessoas mais conservadoras

do Itamaraty estão horrorizadas, pois isso nunca foi feito.

Os Estados Unidos não respeitam um país que não se respeita.

E o que vemos hoje na relação entre o Brasil e os Estados Unidos

são cenas de paternalismo e desprezo.

O governo Bolsonaro rompeu com a tradição diplomática?

É evidente que sim. Os princípios da não intervenção e da autodeterminação

dos povos, listados na Constituição como princípios

básicos, sempre foram fundamentais para nós. Esses são apenas

dois dos aspectos mais graves dessa ruptura.

Como vê a polémica entre o governo e outros chefes de Estado

quanto às queimadas na Amazónia?

O problema não é a polémica, mas ser ofensivo com um chefe de

Estado. Não concordo com Emmanuel Macron [Presidente de

França] sobre o estatuto internacional da Amazónia. A soberania é

nossa e ninguém o discute, mas, com esta, vem a responsabilidade.

O nosso Presidente teve uma atitude que jamais vi nas relações internacionais.

Nesse episódio, ele ultrapassou os limites da civilidade.

Na sua opinião, como está a imagem do Brasil perante a comunidade

internacional?

As pessoas estão perplexas. O Brasil sempre foi considerado um

país simpático. Só que hoje somos vistos como um problema.

A Amazónia foi o caso mais gritante, mas o que fizemos noutras

áreas, como as atitudes belicosas em relação à Venezuela, acabou

por fazer do Brasil um país que cria problemas.

Qual é, hoje, o papel do Brasil na América Latina?

É pequeno. Há ventos de mudança na região e temos assistido

a uma reacção popular às políticas neoliberais, como no Chile. O

Brasil é um país grande e não será ignorado, mas já ninguém nos

quer nos ouvir. O ministro actual quer aproximar-se de países de

extrema-direita, como a Hungria, e tem atitudes hostis face a outros

países, como a França. É um desvio da nossa política, baseada em

pluralismo e tolerância, sem fanatismo.

A América Latina está a ser palco de várias crises políticas. O

que está a acontecer?

As pessoas acham que podem impor uma doutrina económica e

desconhecem um facto fundamental: estamos a lidar com seres

humanos, não com números ou máquinas. A implementação de

políticas chamadas neoliberais atingiu o limite em muitos países.

Ninguém esperava a recente explosão popular no Chile. E acredito

que esse sentimento chegará ao Brasil. Não sei quando, mas

vai chegar. b

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