MOSTRA MORTOS E A CAMERA

PMaya


mostra/seminário

mortos e a câmera

showcase/seminar the dead and the camera



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Mortos e a câmera

forumdoc.bh.2019

Paulo Maia 1

Ao viajar, diferentemente daquele que se diz explorador e do turista, o

etnógrafo exibe sua posição no mundo, ultrapassa seus limites. Ele não

circula entre o território dos selvagens e dos civilizados: em qualquer

sentido que vá, ele retorna entre os mortos.

Claude Lévi-Strauss

Em memória de Dona Cida, minha mãe.

Piaculum

“As formas elementares da vida religiosa – O sistema totêmico na Austrália”, de Émile

Durkheim, publicado originalmente em 1912, é provavelmente um dos livros mais

impactantes que uma estudante de Ciências Sociais encontra nos primeiros semestres

de seu percurso formativo na universidade. Comigo não foi diferente, e me lembro bem

do entusiasmo ao descobrir no “Livro III”, última parte dessa obra monumental, o enigmático

termo piaculum – donde a expressão, igualmente enigmática, “ritos piaculares”.

Os quatro primeiros capítulos do “Livro III” das Formas Elementares estabelecem

uma distinção complementar importante na economia do livro como um todo, a saber, a

diferença entre cultos negativos e positivos. Os cultos negativos se caracterizam, segundo

Durkheim, pela produção de “seres separados” e de um “estado de separação”, ou ainda,

de um “sistema de abstenções”, entre outras, a abstenção no sentido trágico da inibição

de qualquer atividade, do viver (DURKHEIM, 1996, p.317-347).

Por outro lado, os cultos positivos são marcados por um “estado de espírito” no

qual prevalece a confiança, a alegria e até mesmo o entusiasmo (1996, p.427). São

festas alegres, define Durkheim, “mas há também festas tristes, que têm por objeto

ou enfrentar uma calamidade, ou, simplesmente, relembrá-la e deplorá-la. Esses ritos

1. Antropólogo e professor associado da Faculdade de Educação (UFMG). Coordenador do curso de Formação

Intercultural para Educadores Indígenas (FIEI) e do projeto de extensão forumdoc.ufmg. Co-fundador e curador

do forumdoc.ufmg desde 1997, se destacando as mostras/seminários “O animal e a câmera” (2011), “Queer e

a câmera” (2016), dentre outros.


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têm uma fisionomia muito particular que procuraremos caracterizar e explicar (…).

Propomos chamar piaculares as cerimônias desse gênero. O termo piaculum tem, com

efeito, não só a vantagem de sugerir a ideia de expiação, mas também de conter uma

significação bem mais ampla. Toda infelicidade, tudo que é de mau augúrio, tudo o que

inspira sentimento de angústia ou de temor necessita um piaculum e, em consequência,

é chamado de piacular. Portanto, a palavra parece própria para designar ritos que se

celebram na inquietude ou na tristeza”. “O luto”, conclui Durkheim, “nos oferece um

primeiro e importante exemplo de ritos piaculares” (1996, p.426).

Mais tarde, a leitura da etnografia de Manuela Carneiro da Cunha, “Os mortos e os

outros – Uma análise do sistema funerário e da noção de pessoa entre os índios Khraó”,

publicada em 1978, foi igualmente importante na elucidação dos tais ritos piaculares

introduzidos por Durkheim. Essa etnografia é reconhecida por ter complexificado sobremaneira

a análise e a descrição antropológicas da relação social entre vivos e mortos,

sobretudo no que diz respeito aos processos que realçam a ruptura ou oposição entre

os polos dessa relação, sendo o sistema funerário um aspecto central nessa economia

(1978, p.142).

A análise de Manuela teve um caráter seminal para a etnografia/etnologia indígena

americanista, na medida em que evidenciou as práticas de conhecimento relativas aos

mortos e esclareceu aspectos da noção de pessoa entre os índios Krahó. Não está no

seu escopo, entretanto, mostrar a relação dos Khraó com o “mundo dos brancos”, a partir

da qual as representações relativas aos mortos tendem a se atualizar de maneira muito

peculiar, como demonstra de forma exemplar o filme Chuva é cantoria na aldeia dos

mortos, de João Salaviza e Renée Nader Messora (2018), exibido no forumdoc de 2018.

Durkheim, ao tipificar os cultos negativos por oposição aos cultos positivos, revelou

toda uma engrenagem repressora modulada das mais diferentes maneiras por diferentes

culturas e sociedades. Ainda que o tópico do racismo seja estranho à agenda sociológica

de Durkheim, suas análises sobre os ritos piaculares, em particular, assim como o trabalho

de Manuela Carneiro da Cunha, foram fundamentais para o que poderíamos chamar de

“políticas de consideração”, a fim de utilizarmos uma expressão cunhada recentemente

pelos amazonistas José Antonio Kelly e Marcos Almeida (2019).

Observamos que o racismo institui uma norma de conduta ou culto negativo, no

sentido durkheimiano, imposto pela branquitude às pessoas não-brancas, marcado

por regimes de abstenções, censuras, interdições, obediências, reprovações públicas,

encarceramentos e assassinatos, cujo corolário é toda uma gama de práticas de separação

de domínios tratados ora como “sagrados”, ora como “profanos”, marcados por

segregações, desigualdades e mortes injustas.

viver como morto ou fingir de morta?

Como sobreviver aos regimes de vigilâncias e controles constantes, como escapar e

resistir às políticas de morte que nos colocam diante de um “dilema fatal”: viver como

morto ou fingir de morta? Achiles Mbembe definiu de forma definitiva essa política;

em suas palavras, a necropolítica é a “expressão máxima da soberania [que] reside,


em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve

morrer” (2018, p.5).

Dando continuidade às “conexões parciais” entre antropologia [et al] e cinema no

forumdoc, seria possível e profícuo indagarmos a respeito de uma filmografia “piacular”,

que se celebra na inquietude ou na tristeza, parafraseando a célebre formulação de

Durkheim? Ou ainda, para utilizarmos os termos de Michael Gillespie (2017), seria importante

indagarmos a respeito de um “cinema na vigília” (cinema in the wake), inspirado na

abordagem existencial de Christina Sharpe (2016) a respeito de um aspecto central da

negritude (blackness), indicando os contornos de uma existência “na vigília” (in the wake)

que demanda, por sua vez, todo um “trabalho de vigília” (wake work). Esse “trabalho de

vigília” assume “uma gama de conotações, incluindo ‘velar os mortos, o caminho de um

navio, uma consequência de algo, na linha de fuga e/ou de visão, o despertar e a consciência”.

“O trabalho de Sharpe”, esclarece Gillespie, “mobiliza novos investimentos para

o estudo da morte negra e da arte da negritude. Com o cinema e o vídeo contemporâneo

negro em mente, seu trabalho sugere de forma vital uma mudança de ênfase, do retrato

do horror para uma concentração em como as formas cinematográficas promovem uma

resistência crítica e estética ao horror do antinegritude” (2017, p.53).

Como já é costume “traduzir” ou “transformar” nossos interesses antropológicos e

cinematográficos em mostras/seminários de nossa programação, “Mortos e a Câmera”

pretende dar continuidade à série de mostras/seminários realizadas em torno do ciclo

“Cinemas e Alteridades”, coordenadas pelo programa/projeto de extensão forumdoc.

ufmg na programação oficial de diferentes edições do forumdoc (“O animal e a

câmera”, 2011; “A mulher e a câmera”, 2012; “O inimigo e a câmera”, 2013; “Queer e a

câmera”, 2016 ).

A equipe curatorial se esforçou para a composição de uma filmografia heteróclita,

sobretudo no que diz respeito às estratégias e formas audiovisuais utilizadas, para sermos

mais justos às invenções cinematográficas propostas pelos diferentes filmes. A mostra

apresenta um conjunto de vinte e dois títulos de diferentes formatos e durações, que vão

de filmes focados em relatos e testemunhos a filmes de linhagens mais experimentais,

passando por títulos que se baseiam em ficções especulativas ou que utilizam técnicas

de stop motion, animação, imagem de arquivos, reconstituição, recriação, entre outros,

sem falar nos diferentes aspectos constitutivos dos universos sonoros filmográficos. Essa

heterogeneidade das formas em parte advém das diferentes assinaturas dos trabalhos:

realizadores homens, mulheres e travestis; negros, indígenas, brancos, asiáticos, separados

ou associados, de diferentes regiões e continentes do mundo.

Outro aspecto importante dessa filmografia é que ela lida diretamente com performances

e/ou rituais de morte que exploram o que poderíamos chamar de uma “cosmojustiça

cinematográfica”, inspirada em algumas variantes já mencionadas que podem

ser descritas sob a alcunha de “cinemas piaculares” e/ou “cinema na vigília”. São filmes

que tratam do respeito, do cuidado, da saudade, da memória de pessoas, lugares, seres

e entidades importantes, espíritos e almas de defuntos inquietos ou sob controle, de

vidas interrompidas e silenciadas pelo racismo e por regimes autoritários, em suma,

dos complexos processos políticos e sociais marcados por sentimentos ambivalentes

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entre vivos e entre vivos e mortos, mesclados de respeito e revolta, silenciamentos,

apagamentos e sepultamentos não realizados e por realizar.

ter cuidado com os mortos e os outros [não descuidar…]

Dois filmes internacionais sintetizam exemplarmente os diferentes aspectos em jogo

na mostra “Mortos e a Câmera”: Dead Souls (Almas Mortas), do cineasta chinês Wang

Bing, e Graves without names (Túmulos sem nomes), do cineasta cambojano Rith Pahn,

ambos de 2018.

Wang Bing é sem dúvida um dos grandes documentaristas da atualidade. Com

uma filmografia heterogênea, é também reconhecido por seus documentários de longa

duração, como Tie Xi Qu: West of tracks (2003), com nove horas de duração, um de

seus filmes emblemáticos, exibido no forumdoc em 2009.

Dead Souls (Almas Mortas), seu filme mais recente, segue o mesmo ritmo, e nas suas

mais de oito horas torna-se uma oportunidade rara para o espectador testemunhar o horror

a que foram submetidos os chamados “direitistas” pela Campanha Anti-Direitista de 1957,

instituída pelo governo comunista chinês, até o chamado “período de reabilitação” em

1978. Dividido em quatro partes, o filme é a mais extensa pesquisa cinematográfica, com

um vasto trabalho de montagem, sobre a história de um conjunto completo de “campos

de trabalho/reeducação” conhecido pelo nome de Jiabiangou, na província de Gansu, no

noroeste da China. Filmado quase que integralmente em 2005, o projeto foi interrompido

e retomado em 2014. Wang Bing, em entrevista concedida a Emmanuel Burdeau, cuja

tradução publicamos em primeira mão neste catálogo, informa que coletou/filmou cerca

de 120 testemunhos de sobreviventes desses campos de concentração, somando cerca

de 600 horas de material bruto, sendo a sua intenção original realizar um documentário

que compilasse o maior número de testemunhas desse período. Baseado no livro de

Yang Xianhui, Chronicles of Jiabiangou, Dead Souls desnuda a máquina repressora ou

a necropolítica implantada pelo regime comunista chinês em “campos de reeducação”

do ponto de vista do testemunho de vítimas sobreviventes.

Um dos inúmeros aspectos intrigantes do filme consiste no fato de que, a princípio,

a intenção de Wang Bing era realizar um filme no qual, idealmente, os relatos de sobreviventes

dessem conta da magnitude do regime de remoções, encarceramento e morte;

contudo, revela o diretor, “a perspectiva das pessoas não ia além do alcance de uma

família ou de um povoado”. Nas palavras de Emmanuel Burdeau, tratava-se da “lacuna

entre as palavras dos sobreviventes e o silêncio dos mortos”. Talvez seja dessa lacuna

que o filme retire sua força.

Rith Pahn, de modo correlato, enfrenta em Graves without names (Túmulos sem

nomes), não pela primeira vez em sua carreira, o “genocídio cambodiano” do regime

totalitarista do Khmer Vermelho, que, na década de 1970, exterminou cerca de 2 milhões

de pessoas, de uma população total de 7 milhões. Vítima e sobrevivente do regime,

Rith Pahn foi testemunha da morte por exaustão e desnutrição de seus pais, irmãos e

outros parentes. O filme descreve a busca dos corpos de seus familiares mortos quando

o diretor tinha apenas 13 anos de idade, tendo sido resgatado e levado para a Europa


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em condições de extrema despossessão (Maia e Flores, 2013). Nessa busca, o que

se construiu foi um filme radical que se sustenta em si mesmo, para utilizarmos uma

expressão do antropólogo Roy Wagner. É filmando que Rith Pahn descobre onde seus

familiares mortos foram abandonados, por intermédio do laborioso trabalho de uma

xamã local, para em seguida realizar o enterro apropriado e de acordo com a tradição,

em busca de paz espiritual e justiça social, em respeito aos mortos e sobreviventes do

regime genocida.

Se Wang Bing concentra sua performance documental no registro extensivo de

testemunhos, através do controle da unidade dos relatos de sobreviventes, tidos como

absolutamente essenciais e num certo sentido suficientes para os efeitos esperados, a

performance de Rith Pahn, intervém corporalmente em cena, quando não cria imagens

e máscaras, ou performatiza ritos que, ao modo de um storytelling, acabam por animar

a memória e os mortos, dando-lhes voz e materialidade, bem como espaços, paisagens

e túmulos dignos e nomeados.

exaltar os mortos e a vida

Ressurreição (1987) e Sonhos e Histórias de Fantasmas (1996), de Arthur Omar, encabeçam

a listagem de filmes nacionais da mostra. Ressurreição é um filme de 1987, anterior

à Constituição Brasileira de 1988. Transgressor na forma e na política, é um filme de

intensidades incomparáveis. Exibimos Ressurreição pela primeira vez no forumdoc de

2001; o impacto da sessão de abertura desse ano ainda reverbera em nossos corações

com a força de um choque elétrico. O curta-metragem é inteiramente composto de

fotografias encontradas em arquivos de “jornais sensacionalistas” e do Instituto Médico

Legal (IML) de corpos mortos violentamente, várias delas de chacinas em favelas cariocas.

A montagem que articula a banda sonora, composta por hinos religiosos do catolicismo

popular, parece exaltar as imagens de arquivo de um modo nada convencional, maniacamente.

Sem dúvida, um filme desconcertante.

Arthur Omar é um artista da exaltação. Seu trabalho fotográfico e audiovisual é

marcado por uma postura experimental no modo como ele atua na cena de captura e

composição de sons e imagens para um documentário. Exaltação contra a representação.

Em vez de colocar sua máquina cinematográfica a serviço da representação de uma

comunidade ou cultura, como os dispositivos documentais costumam fazer ao acentuar

o caráter informativo do gênero, Sonhos e Histórias de Fantasmas seguem outra

direção, igualmente exemplar em relação ao seu método cinematográfico no campo do

documentário. As “conexões parciais” entre um quilombo em Minas Gerais e um morro

carioca são um dos pontos altos do filme. Tais conexões se dão por meio, entre outros, de

um corte espaço-temporal radical, como sugere o crítico Felipe Bragança, que provoca

uma verdadeira rasteira no espectador – e, eu acrescentaria, no gênero documental –,

ao desestabilizar unidades tomadas como díspares ou incomensuráveis, acentuando o

caráter sempre incompleto e parcial de qualquer abordagem documental.

Omar estará presente no forumdoc.bh.2019 e fará uma sessão comentada (no dia

25/11) dos dois filmes mencionados, que compõem a mostra. Chance única de assistir


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Ressurreição em uma cópia 35mm. Em comunicação recente por WhatsApp, Omar me

enviou um trecho de uma entrevista de 2006 que compartilho com vocês: “Meus filmes

são como um fantasma que vêm do outro mundo para assombrar o documentário: eu

envolvo o filme com um lençol, desenho dois olhos arregalados, ponho uma máscara de

caveira, e faço Buuuuu!. Eles levam um susto e saem correndo. Aí eu chamo: — pessoal,

não tenha medo, é só a morte da linguagem!”.

cinema in the wake | cinema na vigília

Durante o ano de 2018, realizei um estágio pós-doutoral no Departamento de Performance

(Performance Department) e no Hemispheric Institute of Performance and Politics

da Universidade de Nova York (NYU). 2 Dentre as atividades realizadas naquele ano na

NYU, tive a chance de acompanhar um curso no Departamento de Cinema, intitulado

“Black Documentary”, do professor e crítico de cinema Michael Boyce Gillespie, já citado

nessa apresentação. Gillespie publicou, em 2016, um livro instigante, intitulado Film

Blackness – American Cinema and the Idea of Black Film. De um modo geral, seu esforço

tem sido explorar os significados da expressão blackness, muitas vezes traduzida para

o português como negritude, dentro do que ele chama de “black visual and expressive

culture”, sendo o cinema um dos principais campos de sua pesquisa. Vale destacar

que o que o autor chama de American Cinema and Black Film se restringe à produção

norte-americana.

Com esse escopo, o curso foi uma espécie de história do Cinema Negro produzido

nos Estados Unidos, desde suas experiências iniciais, na passagem do século XIX para o

XX, até a filmografia contemporânea. Destacou-se a variedade de formatos audiovisuais

dessa produção, de filmes documentários, ficção, doc-fic, experimentais, a programas

televisivos, passando por performances artísticas e televisivas, clipes de música, animações,

imagens de arquivo, além de filmes construídos especialmente para o circuito de

galerias de arte, entre outros. Desse modo, o curso contou com uma vasta filmografia e

bibliografia, tendo como espinha dorsal o livro Struggles for Representation – African

American Documentary Film and Video, de 1999, editado por Phyllis R. Klotman e Janet

K. Cutler e devotado ao exame de mais de 300 filmes não-ficcionais produzidos por mais

de 150 African American film/videomakers.

Dois aspectos dessa filmografia – a existência de um arquivo audiovisual fragmentário

e racista que limita e impõe uma certa forma ao “black documentary”, articulada aos

modos como a experiência de pessoas ou grupos de pessoas negras foi representada

pela “black experience on film” – são explorados de diferentes maneiras pelos autores

de Struggle for Representation, que buscam extrair “as consequências do material de

arquivo fragmentário para a prática documental negra e a relação entre a tecnologia

disponível e a representação histórica, traçando os esforços feitos pelos afro-americanos

2. Agradeço imensamente a equipe do Hemi, em especial, Diana Taylor e Marcial Godoy pela acolhida afetuosa e

troca de conhecimentos nesse período, sem o apoio de vocês boa parte da pesquisa realizada para essa mostra

não teria sido possível.


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para documentar sua experiência e os fatores econômicos, sociais, estéticos e históricos

que impulsionam seu trabalho” (Introdução, 1999, p.xxvi).

Assim que comecei a me familiarizar com a filmografia apresentada no curso, tive a

impressão, já com a curadoria da mostra “Mortos e a Câmera” em mente, que a maioria

dos filmes tratava da morte saudosa e, na maioria das vezes, injusta de pessoas negras,

ou seja, boa parte da filmografia apresentada no curso denunciava a morte de negros.

Assistimos a inúmeros velórios, e o conjunto desses filmes acabou por me provocar um

sentimento de que esses corpos estavam sendo velados através dos filmes, sendo este

cinema um cinema enlutado, marcado por injustiças e lutas antirracistas.

Ao comentar, em meu inglês trôpego, essa minha impressão em uma de suas aulas,

Gillespie esclareceu que esse era um dos temas em que estava interessado, tendo

escrito, inclusive, um artigo para a revista Film Quartely cujo objetivo era o de articular

black death (morte negra) e film form (forma fílmica) no cinema afro-[norte]-americano

contemporâneo. Nesse artigo, intitulado Death Grips, que traduzimos e publicamos em

primeira mão no nosso catálogo, Gillespie, inspirado no livro In the Wake: On Blackness

and Being (2016), de Christina Sharpe, explora as diferentes conotações da concepção

de wake work (trabalho de vigília ou de luto, o rastro deixado na água por um navio,

consciência, entre outros sentidos correlatos). Nas palavras de Christine Sharpe, o

“trabalho de vigília” se realiza

[...] plotando, mapeando e coletando os arquivos do cotidiano da morte imanente e iminente dos

negros, e rastreando as maneiras pelas quais resistimos, rompemos e interrompemos, estética

e materialmente, essa imanência e iminência. Estou interessada em como podemos imaginar

maneiras de conhecer o passado, o excesso de ficções contidas nos arquivos, mas não apenas

isso. Também estou interessada em saber como reconhecemos as muitas manifestações da

ficção e esse excesso, esse passado ainda não passado, no presente. (2016, p.13)

memory for forgetting | memória para esquecer

No rastro de Sharpe, Gillespie explora, nesse artigo da Film Quartely, a ideia de um

cinema na vigília (in the wake) a partir da análise de três filmes recentes, que foram

incorporados na curadoria da mostra “Mortos e a Câmera”. Everybody Dies! (2016),

de Frances Bodomo, Dead Nigga BLVD (2015), de Leila Weefur, e White (2011), de A.

Sayeeda Clarke. Segundo Gillespie:

Com concepções distintas e convincentes sobre a morte negra, esses três curtas-metragens

estão profundamente localizados em seu momento americano contemporâneo. Pensar com

esses filmes envolve pensar através dos objetos performativos, do grotesco racial e do futuro

da exclusão social. Juntos, esses filmes suspendem, promovem rupturas e perturbam, constituindo

historiografias e estratégias visuais distintas. Dead Nigga BLVD., com sua articulação

em stop-motion dos mortos, reúne três narrativas históricas para demonstrar um agravante

arco de injustiça. Everybody Dies! se apropria dos estilos mortos de um game show infantil

de televisão aberta para considerar a frequência enlouquecedora e o acúmulo da injustiça


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violenta. A encenação do afrofuturismo em White, como uma modalidade de vida após a morte

da escravidão, reconsidera os efeitos desiguais da crise global. (2015, p. 59)

Foi também no segundo semestre de 2018, por indicação de Michael Gillespie, que

estive presente em uma sessão de still/here (2001), do norte americano Christopher

Harris, na NYU, em Nova York, que contou com a presença do diretor. O documentário

destoa singularmente dos demais filmes do diretor, cuja obra se caracteriza, entre outros,

por não repetir o mesmo método ou proposta fílmica em seus trabalhos, de modo que

a linguagem de cada filme se esgota naquele mesmo projeto.

still/here, que faz parte da mostra “Mortos e a câmera”, retrata em preto e branco

as ruínas e os lotes vagos da paisagem familiar de uma vizinhança (neighborhood), a

zona norte de St. Louis, Missouri (EUA), um bairro outrora povoado em sua maioria por

trabalhadores pobres afro-americanos, em estado de decomposição e abandono. Como

no filme de Rith Pahn, Christopher Harris também retorna à paisagem de sua infância, mas,

diferentemente do primeiro, a distância temporal e o vazio espacial não são preenchidos;

pelo contrário, é pelo confronto entre a presença do cinema e a ausência profunda de

uma comunidade destruída que o registro documental ganha força 3 .

Espero que tenha ficado claro o quanto a curadoria da presente mostra se valeu do

trabalho excepcional de Michael Gillespie, que, além de autorizar a tradução de Death

Grips para o português e sua publicação em nosso catálogo, nos ajudou na produção das

autorizações de exibição dos três filmes descritos acima. Foi também no seu sylabus, ou

programa de curso, que descobri um daqueles textos que impactam o leitor da primeira à

ultima linha; trata-se do famoso ensaio “A condição da vida negra é o luto” (The condition

of Black Life Is One of Mourning), da poeta jamaicana e professora de inglês Claudia

Rankine, publicado pela primeira vez em junho de 2015 no jornal The New York Times.

Transcrevo o primeiro parágrafo, a fim de instigá-los à leitura desse ensaio espetacular,

traduzido também em primeira mão na seção de ensaios do nosso catálogo, que traduz

de forma contundente a condição existencial de pessoas negras em sociedades racistas:

“Uma amiga recentemente me falou que, quando ela deu à luz seu filho, antes de

nomeá-lo, antes mesmo de amamentá-lo, seu primeiro pensamento foi: tenho que tirá-lo

deste país. Nós duas rimos. Talvez nosso humor negro tenha a ver com a compreensão de

que sair não era uma opção nem o desejo real. É assim a nossa vida. Aqui trabalhamos,

temos cidadania, pensões, seguro de saúde, família, amigos e assim por diante. Ela

não poderia ir embora, ela não foi. Anos após seu nascimento, sempre que seu filho sai

de casa, seu status de mãe de um ser humano permanece tão precário como sempre.

Somado aos medos naturais de todos os pais que enfrentam a aleatoriedade da vida,

há ainda o conhecimento das maneiras pelas quais o racismo institucional funciona em

3. Em 2019, o 21º FestCurtasBH, festival de cinema de Belo Horizonte, não somente convidou o cineasta para

vir ao Brasil, mas também contou em sua programação com duas mostras correlacionadas: uma retrospectiva

completa de Christopher Harris intitulada “Poética e política da forma” e uma curadoria de filmes composta pelo

realizador intitulada “Influências e Ressonâncias”. Além de “Notas de still/here (fac-simile)”, o catálogo conta

com entrevistas e ensaios sobre a obra do cineasta.


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nosso país. O nosso riso foi o riso da vulnerabilidade, do medo, da identificação e de

uma estagnação absurda”.

Mas a estagnação é parcial e momentânea, demonstra Rankine no decorrer do ensaio;

o movimento Black Lives Matter, segundo ela, pode ser lido como um movimento que

lamenta e protesta contra a vidas negras em constante estado de precariedade. Nesse

sentido, Rankine sugere um alinhamento desse movimento com os mortos, na forma de

enlutamento e recusa de esquecimento das injustiças diante de todos nós. “Se fôssemos

vistos como viventes, não estaríamos morrendo simplesmente porque os brancos não

gostam de nós”, contra-ataca a autora. Compartilhamos do desejo de, através desta

mostra/seminário, estabelecermos um “alinhamento com os mortos” através do cinema,

numa política de memória pelo esquecimento de traumas sociais.

genocídio à brasileira

Foi Abdias Nascimento quem tornou célebre a formulação ou denúncia sobre “O genocídio

do negro brasileiro”, que, acompanhado do subtítulo “Processo de um racismo mascarado”,

tornou-se o nome de um dos livros (rejeitados) mais importantes da historiografia

brasileira. A atualidade da análise de Abdias é contundente, como confirmam os dados

mais recentes, publicados em maio de 2019, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

(Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no Atlas da Violência, documento

público sobre o número de assassinatos por ano no Brasil. Os dados divulgados

referem-se ao período de 2007 a 2017, e de um modo geral são alarmantes; quando

observados os aspectos raciais, de gênero e de geração, a situação parece bem pior.

Falta no Atlas um tratamento mais acurado dos dados referentes à população indígena.

De todo modo, o número de homicídios em 2017 foi de 65.602 pessoas assassinadas,

o que equivale a uma taxa de 31,6 mortes para cada cem mil habitantes, o maior nível

histórico de letalidade violenta intencional no país; para se ter um ideia, o número de

homicídios em 2007 não chegava a 50.000.

Os dados referentes à violência letal contra a população negra brasileira são surpreendentes

e bastante significativos. Somente em 2017, 49,5 mil pessoas negras foram

mortas, o que corresponde a 75,5% do total de homicídios. Outro dado chocante se

refere ao fato de que 35.783 pessoas assassinadas em 2017 tinham entre 15 e 29 anos,

sendo 94,4% do sexo masculino. As análises interseccionais desses dados corroboram

todo um “sistema de opressão interligado”, como sugere a reflexão epistemológica de

Patricia Hill Collins. 4

Compondo uma deriva contemporânea nacional que tangencia de diferentes maneiras

a memória justa contra a morte injusta de negros, mulheres, indígenas, lgbtqi – em

4. Para maiores informações, cf. Atlas da Violência:

/2019/ 06/Atlas-da-Violencia-2019_05jun_vers%C3%A3o-coletiva.pdf>; Fórum Brasileiro de Segurança

Pública (FBSP): ; a plataforma Violência contra as Mulheres em Dados:

; sobre os dados relativos à violência

LGBTFóbicas:

-da-violencia e http://dapp.fgv.br/dados-publicos-sobre-violencia-homofobica-no-brasil-29-anos-de-comba-


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especial, travestis e transgêneros – no território brasileiro, fazem parte da mostra os

filmes Chico (2018), dos Irmãos Carvalho; Apelo (2014), de Clara Ianni e Débora Maria

da Silva; Pontes sobre o Abismo (2019), de Aline Motta; Para todas as moças (2019),

de Castiel Vitorino, A-Gente Laranja (2019), de Denilson Baniwa e Yvy Reñoi; e Semente

da terra (2017), da ASCURI (Associação Cultural de Realizadores Indígenas). Juntos

formam um bloco de resistência política e linguagens cinematográficas inventadas

por corpos e corpas cuja existência se dá em um estado de precariedade marcada por

mortes precoces e senso de injustiça, para utilizarmos o vocabulário de Claudia Rankine.

O primeiro bloco formado por Chico (2018), dos Irmãos Carvalho; Apelo (2014),

de Clara Ianni e Débora Maria da Silva; Pontes sobre o Abismo (2019), de Aline Motta;

Para todas as moças (2019), de Castiel Vitorino, são filmes marcados por diferentes

estratégias cinematográficas de lidar com o pan-óptico afrofuturista, o anonimato de

mortes criminosas e cemitérios clandestinos, o tempo e a memória ancestral, o trauma

brasileiro contra “o fogo do esquecimento” que, como sugere Fabio Andrade em belo

ensaio escrito especialmente para a mostra, “ameaça os mortos e os vivos”.

A-Gente Laranja (2019), de Denilson Baniwa e Yvy Reñoi; e Semente da terra (2017),

da ASCURI (Associação Cultural de Realizadores Indígenas), ambos assinados por

indígenas, são construídos tendo como pano de fundo os territórios e terras indígenas,

ameaçados pela ganância do capital e de homens brancos. Denilson Baniwa, multi-artista,

é responsável pela maravilhosa série de imagens de “satélite baniwa” intitulada “Natureza

Morta” (2016-2019) que chama atenção para a destruição de áreas preservadas,

entenda-se, territórios indígenas, capturadas por uma lente que transcria “imagens de

satélite” aglutinando as áreas devastadas, pelo fogo e pelo agronegócio, em formas ou

silhuetas de corpos de humanos e animais, dentre outros. A-gente Laranja, por sua vez,

é um curta metragem no qual se destaca a montagem alucinante de diferentes aeronaves,

em diferentes lugares e épocas, sobrevoando comunidade e aldeias despejando

venenos (armas químicas) sobre elas. Sabemos de diferentes casos no país, sobretudo

em relação aos Guarani, de ataques de fazendeiros a comunidades indígenas utilizando

aeronaves para dispersão de produtos letais, parte das imagens do filme de Denilson

são justamente destes casos.

Yvy Reñoi, Semente da Terra, do coletivo ASCURI, aborda a resistência indígena

frente aos conflitos territoriais a partir dos ataques realizados por capangas e fazendeiros

milicianos contra os Kaiowa e Guarani da aldeia de Teukue no Mato Grosso do

Sul em 2016. Num ritmo frenético a câmera acompanha a retirada de mais um corpo

de um indígena morto por fazendeiros, nesse caso em específico, cinco dias após a

visita a Campo Grande do inimigo número um dos povos indígenas no Brasil, o atual

presidente Jair Bolsonaro.

te-ao-preconceito/>; finalmente, sobre a violência contra povos indígenas:

uploads/2018/09/Relatorio-violencia-contra-povos-indigenas _2017-Cimi.pdf>.


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ecocídio e extinção

Sabemos que não apenas os corpos e vidas de pessoas em estado de vulnerabilidade e

expostas ao racismo estrutural estão sob ataque constante no Brasil, os meio-ambientes

ou territórios que nutrem, alimentam, hidratam, refrescam, abrigam essa diversidade de

gentes não cessam de ser apropriados e invadidos, capitalizados e, finalmente, destruídos.

As consequências da falta de cuidado com os diferentes seres que constituem o que

chamamos simplesmente de Terra estão apenas se iniciando, mas se tomarmos como

base todos os crimes ambientais ocorridos no Brasil nos últimos meses, estamos diante

de um colapso ambiental e, consequentemente, social sem precedentes.

De acordo com a ONG Global Witness, ao menos 164 ativistas ambientais foram

mortos por defenderem seus territórios em 2018; comunidades, casas, terras e recursos

naturais, contra projetos agro-industriais-florestais-mineirais-hidroelétricos, para ficarmos

entre os mais destrutivos. O Brasil consta entre os países que mais matam ambientalistas;

em 2017, foram registrados 57 homicídios. O documentário Chico Mendes: Eu

Quero Viver, do inglês Adrian Cowell, reconhecido como um dos maiores cineastas

da Amazônia, não mostra um caso fora da curva, mas a trajetória e execução do maior

líder seringueiro brasileiro. Em tempos de crimes ambientais constantes, rompimento

de barragens, queimadas descontroladas, derramamento de óleo na costa brasileira

e invasões de terras por particulares, Chico Mendes: Eu Quero Viver continua com o

trabalho de luta contra a destruição e a comoditização do meio ambiente e dos povos que

vivem na Amazônia. Sua programação na mostra “Mortos e a Câmera” é uma deferência

em relação a sua memória e a seu legado, e contaremos com uma sessão comentada do

filme (30/11) por Ruben Caixeta de Queiróz e Ademilson Concianza.

cosmopolíticas de consideração [os vivos e os mortos]

O último bloco de filmes da mostra articula diferentes aparatos cosmológicos de dois

povos indígenas situados no Brasil, os Tikmũ’ũn (Maxakali) e os Kamayurá; dos povos

indígenas australianos Tiwi e Karrabing e do povo Dogon, no Mali africano. Tatakox Vila

Nova (2009), da Comunidade Maxakali Aldeia Nova do Pradinho, Mãtãnãg, a encantada

(2019), de Shawara Maxakali e Charles Bicalho, Uaká (1988), de Paula Gaitán, Good-bye

Old Man (1977), de David MacDougall, Wutharr, Saltwater Dreams, de Elizabeth Povinelli

e o Karrabing Film Collective, e Sigui Synthèse (1981), de Jean Rouch e Germaine

Dieterlen, são filmes que, de modos singulares e a partir de estratégias fílmicas e tradições

estilísticas distintas, realizam um trabalho de “alinhamento” em relação ao mundo dos

mortos, denotando diferentes modulações do que, na esteira de uma expressão cunhada

recentemente pelos amazonistas A. José Kelly e Marcos Almeida (2019), vamos chamando

de “cosmopolíticas de consideração”, em particular, de consideração aos mortos.

Um de nossos interesses norteadores quando criamos o forumdoc, em 1997, em

Belo Horizonte (MG), era “indigenizar” o campo do cinema no Brasil, em especial aquele

dos festivais de cinema dedicados ao documentário e ao filme etnográfico. Nosso desejo

foi o de criar um festival de cinema no qual os povos indígenas estivessem, desde sua

origem, implicados, seja por meio da curadoria e da exibição de filmes sobre pessoas e


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povos indígenas, seja por meio de uma filmografia que ia se formando e que podemos

dizer que hoje, cerca de 20 anos depois, encontra-se plenamente consolidada, qual seja,

aquela produzida por “realizadores indígenas”, categoria não menos problemática que

“cinema indígena”, mas que, na falta de outras melhores, seguimos utilizando. Destaca-se

entre essa produção aquela dos realizadores indígenas do povo Maxakali, localizado no

nordeste de Minas Gerais (Brasil).

Tatakox (2007), de Isael Maxakali, que infelizmente não exibiremos nesta mostra, e

Tatakox Vila Nova (2009), assinado coletivamente pela Comunidade Maxakali Aldeia Nova

do Pradinho, que, felizmente, exibiremos, são exemplares e portadores de uma marca

ou particularidade essencial no que diz respeito à estética indígena cinematográfica: a

proximidade ou mesmo simultaneidade entre o fazer fílmico e o fazer ritual. Podemos

falar aqui então de filme-ritual, evocando os longos planos-sequência neles apresentados

e a presença paradigmática da “ação encorporada” dos personagens enquadrados

pela cena ou “campo cinematográfico”, do “antecampo” (pessoa ou equipe que dirige e

filma a cena) e do “fora-de-campo” (tudo aquilo que está fora de cena, fora de quadro,

inclusive o sobrenatural e os fazendeiros do entorno), para utilizarmos os termos analíticos

propostos por André Brasil e Bernardo Belisário (2016) para o “cinema indígena”.

Tikmũ’ũn, mais conhecidos como Maxakali, são um povo falante da língua indígena

maxakali, da família linguística Macro-Jê. Habitantes de um outrora vasto território de

Mata Atlântica, estão hoje reduzidos a pequenas porções de terras demarcadas, porém

cercadas de fazendas particulares no nordeste do estado de Minas Gerais, no Brasil,

totalizando cerca de 1.500 pessoas distribuídas em quatro diferentes aldeias. A história

do povo maxakali é uma história de resistência contra a invasão de seu território e a expropriação

e a destruição de sua fauna e flora, essenciais para o bem viver nas comunidades.

Ambos os filmes foram realizados em aldeias maxakali. O primeiro, com equipamento

amador e em condições improvisadas, após Isael Maxacali ter participado de uma oficina

de realização cinematográfica oferecida pelo já então famoso cineasta indígena xavante

Divino Tserewahú, no forumdoc, em Belo Horizonte. Tatakox é o primeiro filme de Isael

e aborda o ritual de mesmo nome, um ritual de iniciação de meninos nas práticas de

conhecimento do xamanismo, ritual de intensa plasticidade e vigor performático. Tatakox

é também o nome do “espírito da lagarta”, responsável pela iniciação de meninos durante

o período em que ficam reclusos no Kuxex, ou casa dos cantos, quando recebem lições

valorosas do mundo masculino.

O filme de Isael foi o primeiro realizado por um indígena maxakali e gerou reações

interessantes por parte de outros Maxakali que não vivem na mesma aldeia. Quando os

Maxakali da comunidade vizinha do Pradinho assistiram ao filme de Isael, não ficaram

satisfeitos. Acharam que o filme, além de não estar completo, não retratava bem a forma

como, na perspectiva deles, o ritual do Tatakox deve ser realizado e apresentado. Após

uma oficina de realização ministrada pelo célebre projeto Vídeo nas Aldeias na aldeia

de Pradinho, em 2008, um grupo liderado por Guigui Maxakali resolveu responder

ao Tatakox de Isael com outro filme-ritual, igualmente impactante, mas que difere do

primeiro num aspecto fundamental – o filme feito na aldeia de Pradinho mostra, sem

cortes, as crianças mortas/espíritos tatakox sendo retiradas de um buraco debaixo


da terra, sob o som estridente de flautas de taquara e rodopios sem fim de crianças

e jovens paramentados. Tatakox e Tatakox Vila Nova são filmes-rituais realizados em

longos planos-sequências e marcam duas perspectivas cinematográficas sobre um

ritual culturalmente compartilhado e dirigido pelos espíritos tatakox.

Mãtãnãg, a encantada, de Shawara Maxakali e Charles Bicalho, é fruto de uma oficina

de desenhos e animação coordenada por Charles Bicalho no território tikmũ’ũn, mais

especificamente na Aldeia Verde, no município de Ladainha (MG). Roberto Romero, em

ensaio escrito especialmente para a mostra, identifica na “transcriação filmíca” proposta

pelo filme uma espécie de “transformação do mito”, centrada em uma história do vasto

repertório mítico tikmũ’ũn. Mãtãnãg, esclarece Romero, “é conhecida como uma mulher

muito antiga que, inconformada com a morte do marido por uma picada de cobra,

recusou-se a enterrá-lo e resolveu acompanhá-lo até a aldeia dos mortos. O caminho

até lá é tortuoso: Mãtãgnãg prepara beijús com a carne do marido morto e come para

encantar-se e seguir os seus rastros. No percurso, uma série de desafios dificulta o seu

caminho: o tronco de uma árvore que gira tentando impedir sua passagem sobre um rio;

um mamoeiro que lança seus frutos; uma nuvem de gafanhotos ferozes, tudo parece feito

para impedir a passagem dos vivos ao mundo dos mortos. Mas chegando lá, a surpresa:

a aldeia dos mortos é habitada por feras como onças, leões, elefantes e hipopótamos.

Assustada e com saudades dos parentes do lado de cá, Mãtãgnãg decide voltar, porém,

sob uma condição: não contar nada do que viu para os vivos”. Os desenhos vibrantes

em stopmotion formam camadas e sobreposições que dinamizam o caminho descrito

pelo mito de ida e volta, às vezes, somente de ida ao mundo dos mortos.

Uaká, de Paula Gaitán, explora delicadamente o universo e os movimentos de um

dos rituais mais famosos dos povos indígenas xinguanos, o Kuarup. Ritual em deferência

aos mortos ilustres compartilhado por diferentes povos indígenas da região, o Kuarup

é um rito que, na sua origem, teria sido realizado para trazer trazer de volta das aldeias

dos mortos os parentes defuntos. Uaká foi filmado durante a preparação de um ritual

kuarup, que contou com a participação de nove diferentes povos da região, em uma

aldeia kamayurá chamada Takumã, no Xingu. Como Arthur Omar e ao seu modo, Paula

Gaitán desvia do propalado método etnográfico rumo ao universo do encantamento e

da exaltação de corpos e falas indígenas. Exaltação contra a representação.

Good-bye Old Man, de David MacDougall, é um filme encomendado por um homem

tiwi chamado Geoffrey Mangatopi, que, já próximo de sua morte, teria solicitado a filmagem

de seu próprio ritual fúnebre, chamado na região de Pukamani. O filme e o realizador

tornaram-se clássicos do gênero etnográfico, ao seguir de perto a longa preparação de

uma tradição funerária ancestral, que culmina no deslocamento de toda uma comunidade

para uma praia chamada Carslake, onde o ritual é dançado por especialistas e as

exéquias realizadas. Narrado por um dos participantes da cerimônia a partir de suas

observações sobre o filme editado, a voz em off, bem como o som direto, são aspectos

fundamentais e complementares do filme.

Wutharr, Saltwater Dreams é o terceiro filme do Coletivo Karrabing Filme (Karrabing

Film Collective), formado em sua maioria por realizadores karrabing, mas não exclusivamente,

vez que a antropóloga norte-americana Elizabeth Povinelli também faz parte

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do grupo. Filmado em uma paisagem aborígene muito semelhante à de Good-Bye Old

Man, esse é sem dúvida um dos filmes mais intrigantes da mostra, de uma ousadia

formal inédita, caracterizado pela própria Povinelli como um “realismo improvisado”

(improvisational realism). De uma estética surreal e inovadora, o filme se estrutura em

uma série de flashbacks que apresentam diferentes versões sobre o que teria causado

o problema no motor de um barco, deixando a família presa em uma praia distante. A

mise-en-scène dos mortos ou ancestrais como prováveis causadores do estrago do

motor é um dos pontos altos do filme.

Last but not least, fechamos com o magistral Sigui Synthèse, dos gigantes Jean

Rouch e Germaine Dieterlen, defuntos ilustres, entre outros, de nossa mostra piacular.

Sigui Synthèse é o filme síntese de uma série de sete filmes realizados entre os anos de

1966 e 1974 sobre as cerimônias que os Dogon do Mali chamam de Sigui. Realizadas

a cada 60 anos e com duração de sete anos, essas cerimônias foram primeiramente

descritas por Marcel Griaule, em 1907. Durante a cerimônia, os Dogon comemoram a

revelação da palavra oral aos homens, a transformação ou regeneração da terra, bem

como a morte e funeral dos primeiros ancestrais dogon. É impossível esquecer os cantos

e as danças de centenas de pessoas, em ritmo marcado pelo solo árido das montanhas

do território dogon, bem como o comentário over, na voz inconfundível do realizador

que, como demonstra Matheus Araújo, em ensaio escrito especialmente para a mostra,

“interage com as vozes dos Dogon (nunca legendadas), os sons da sua vida comum, as

músicas das suas cerimônias (cantos, percussões etc) e a força de suas falas rituais, que

Rouch traduz e recita com sua típica entoação encantatória”.

Não é a primeira vez que esse filme magistral é exibido no forumdoc: a primeira

sessão, interminável, foi realizada dentro da mostra Rouch-Dieterlen de 2000, no antigo

Cine Nazaré, talvez em seu último ano de vida, com um projecionista, como bem recorda

nosso colega Ewerton Belico, que não sabia trocar os rolos de 16mm, e foi marcada pelas

quebras e pausas constantes causadas tanto pela inépcia do projecionista quanto pela

antiguidade da cópia. Reza a lenda que essa sessão durou alguns dias, e a sensação

era a de uma sessão que nunca iria terminar, como os ritos e filmes de longa-duração.

wake work | trabalho de vigília

A mostra “Mortos e a Câmera” será acompanhada de um seminário, no Cine Humberto

Mauro (Palácio das Artes-MG), casa do forumdoc desde 1997, que pretende abordar

as conexões parciais entre memória, necropolíticas, cosmojustiças e cinema, antropologia,

performance e arte. A intenção do seminário é se alinhar à proposta de Michael

Gillespie a partir da formulação “cinema na vigília” (cinema in the wake), na esteira de

Christina Sharpe, bem como ao chamado de Claudia Rankine, de modo a expandi-los

para territórios não explorados por esses autores. O fato de a existência de pessoas

negras, mulheres, indígenas e lgbtqi, entre outros, ser uma existência na vigília (existence

on the wake), marcada pela escravidão e pelos genocídios, faz toda a diferença

para pensarmos os modos como lidamos com a vigília de nossos mortos, em especial

quando utilizamos mediações políticas e artísticas, raramente acadêmicas, para fazer esse


percurso obrigatório de ir e voltar do encontro com nossos mortos. Vale ainda esclarecer

que, para Sharpe (2016, p.14), o modo de “existência na vigília” e o “trabalho de vigília”

(wake work) são entendidos como formas de consciência/conhecimento (consciousness).

Sobre o “trabalho de vigília”, Sharpe resume: “Se, como sugeri até agora, pensamos na

metáfora da vigília em todos os seus significados (vigiar os mortos, o caminho de um

navio, uma consequência de algo, na linha de voo e/ou visão, despertar e consciência)

e se juntamos a vigília ao trabalho, a fim de fazer da nossa vigília e trabalho de vigília

nossa analítica, podemos continuar imaginando novas maneiras de fazer vigília na vigília

da escravidão, nas vidas após a escravidão (slavery’s afterlives), para sobreviver (e mais)

a vida após a morte da propriedade. Em resumo, quero dizer que o fio do trabalho de

vigília é um modo de habitar e romper essa episteme com nossos conhecimentos vividos

e vidas in/imagináveis. Com essa análise, podemos imaginar o contrário do que sabemos

agora na vigília da escravidão”. (2016, p.17-18)

A primeira sessão será dedicada ao cinema do e com o povo Tikmũ’ũn (Maxakali).

Dois filmes compõem a sessão: Tatakox Vila Nova e Mãtãnãg, a encantada, que será apresentado

e comentado por Suely e Isael Maxakali, Charles Bicalho, no dia 23/11, às 17h.

No dia 25/11, às 17h, será a abertura do seminário “Mortos e a Câmera”, com a

apresentação do coordenador de curadoria Paulo Maia e nossa convidada especial,

Leda Maria Martins, poeta e professora da Faculdade de Letras da UFMG. Leda fará

uma conferência de abertura, estabelecendo aproximações e afastamentos a respeito

do tema proposto. Nesse mesmo dia, às 21h, Arthur Omar estará presente na sessão

comentada de seus filmes Ressurreição e Sonhos e Histórias de Fantasmas.

No dia 26/11, às 15h, teremos nossa primeira mesa redonda, intitulada “Trabalho

de vigília” (wake work), com a participação de Denilson Baniwa, Castiel Vitorino, Davi

de Jesus do Nascimento e Célia Xakriabá. Roberto Romero fará a mediação da mesa,

cujo foco será dado aos agenciamentos artísticos e políticos que podem ser entendidos

na clave dos “trabalhos de vigília”.

A segunda mesa ocorrerá no dia 27/11, às 15h, será intitulada “Cinema na vigília”

(cinema in the wake) e contará com a participação de André Brasil, Tatiana Carvalho

Costa, Fabio Rodrigues e Ademilson Kaiowá. A mediação ficará a cargo de Carla Italiano.

Nessa mesa esperamos explorar o cinema, como sugere Michael Gillespie, na vigília,

abordando suas experimentações formais e capacidades críticas. Às 17h os filmes Chico

Mendes - Eu quero Viver, de Andrian Cowell e Yvy Reñoi, e Semente da terra, assinado

coletivamente pela ASCURI (Associação Cultural de Realizadores Indígenas) serão

comentados por Ruben Caixeta de Queiróz e Ademilson Concianza, membro da ASCURI.

No dia 30/11 às 19h, Renato Sztutman irá apresentar os filmes Good-Bye Old Man

(Adeus Homem Velho), de David MacDougall e Wutharr, e Saltwater Dreams (Sonhos

de Água Salgada), assinado pelo Karrabing Film Collective (coletivo Karrabing Filme).

Fecharemos a mostra/seminário “Mortos e a Câmera” com chave de ouro no dia

1º/12, com a sessão de encerramento, às 21h, com o filme Sigui Synthèse, de Jean

Rouch e Germaine Dieterlene, apresentado por Júnia Torres.

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ensaios e entrevistas

Na seção de Ensaios e Entrevistas do presente catálogo forumdoc.bh.2019, publicamos

o artigo “Death Grips” (Abraços da Morte), de Michael Boyce Gillespie e o ensaio “The

Condition of Black Life Is One of Mourning” (A Condição da vida negra é o luto), de

Claudia Rankine, ambos traduzidos em primeira mão pelo forumdoc.bh; “Numa terra

estranha: sobre Mãtãnãg, a encantada, uma animação de Shawara Maxakali e Charles

Bicalho” de Roberto Romero; “O cinema e os ritos funerários Dogon em Sigui 1967-1973:

Invenção da Palavra e da Morte (Jean Rouch e Germaine Dieterlen, 1981)” de Mateus

Araújo; “Quem cala sobre teu corpo, consente na tua morte” de Fabio Rodrigues; um

trecho de uma entrevista de Emmanuel Burdeau com Wang Bing. Também publicamos

a transcrição de uma fala de Castiel Vitorino intitulada “Cura Bantu” (2019) , e o ensaio

visual “A ponte caiu se vira e atravessa nadando” (2019), de Davi de Jesus do Nascimento.

Referências

ARAÚJO, Mateus. O cinema e os ritos funerários Dogon em Sigui 1967-1973: Invenção

da Palavra e da Morte (Jean Rouch e Germaine Dieterlen, 1981). In: Catálogo forumdoc.

bh.2019, Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2019.

BRASIL, André e Belisário, Bernardo. Desmanchar o cinema: variações do fora-de-campo

em cinemas indígenas. Sociologia e Antropologia. Vol. 6, no. 3, Rio de Janeiro, set./dez.

2016. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752016v633

BURDEAU, Emmanuel. Trecho de uma entrevista de Emmanuel Burdeau com Wang Bing.

In: Catálogo forumdoc.bh.2019, Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2019.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Os Mortos e os Outros – Uma análise do sistema

funerário e da noção de pessoa entre os índios Khraó. São Paulo: Editora Hucitec, 1978.

DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa – O sistema totêmico na

Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 1996 [1912].

GILLESPIE, Michael Boyce. Film Blackness - American Cinema and the Idea of Black Film.

Carolina do Norte: Duke University Press, 2016.

GILLESPIE, Michael Boyce. Death Grips. Film Quarterly, Vol. 71 No. 2, Winter, 2017.

KELLY José Antonio e Matos, Marcos de Almeida. Política da consideração: ação e influência

nas terras baixas da América do Sul. Mana [online]. 2019, v. 25, n.2, p.391-426. Epub Sep.

05, 2019. ISSN 0104-9313. .

KLOTMAN, Phyllis R. e Cutler, Janet K. (ed.) Struggles for Representation - African

American Documentary Film and Video. Indianápolis: Indiana University Press,1999.

MAIA, Carla e Flores, Luis. O convite, ou: a imagem que o cinema permite. In: O cinema

de Rithy Pahn / Carla Maia e Luís Felipe Flores (Orgs.). São Paulo/Rio de Janeiro: Centro

Cultural Banco do Brasil; Ministério da Cultura, 2013.


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MBEMBE, Achiles. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política de

morte. Rio de Janeiro: N-1 edições, 2018.

NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo

mascarado. São Paulo: Perspectivas, 2016.

NASCIMENTO, Davi de Jesus do. A ponte caiu se vira e atravessa nadando. In: Catálogo

forumdoc.bh.2019, Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2019.

RANKINE, Claudia. The condition of Black Life Is One of Mourning. New York Times. 17

de Junho de 2015. Disponível em: https://www.nytimes.com/2015/06/22/magazine/

the-condition-of-black-life-is-one-of-mourning.html (Acessado em outubro de 2019).

RODRIGUES, Fabio. Quem cala sobre teu corpo, consente na tua morte. In: Catálogo

forumdoc.bh.2019, Belo Horizonte: Filmes de Quintal, 2019.

ROMERO, Roberto. Numa terra estranha: sobre Mãtãnãg, a encantada, uma animação

de Shawara Maxakali e Charles Bicalho. In: Catálogo forumdoc.bh.2019, Belo Horizonte:

Filmes de Quintal, 2019.

VITORINO, Castiel. Cura Bantu. In: Catálogo forumdoc.bh.2019, Belo Horizonte: Filmes

de Quintal, 2019.

SHARPE, Christina. In the Wake: On Blackness and Being. Durham and London: Duke

University Press, 2016.

SIQUEIRA, Ana [et al.]. (Org.). 21º FESTCURTASBH: Festival Internacional de Curtas de

Belo Horizonte. Belo Horizonte: Fundação Clóvis Salgado, 2019.



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Dead Souls • Almas Mortas • Si Ling Hun

França/Suíça, 2018, cor, 507’ • direção director Wang Bing • fotografia cinematography Wang Bing • montagem editing

Catherine Rascon • produção production Les Films D’ici, CS Productions • contato contact t.lionel@docandfilm.com

Na província de Gansu, no noroeste da China, encontram-se os restos de inúmeros prisioneiros abandonados

no Deserto de Gobi há sessenta anos. Designados “ultra-direitistas” na Campanha Anti-Direitista de 1957 do

Partido Comunista, morreram à fome em campos de reeducação. O filme convida-nos a conhecer os sobreviventes,

para descobrir, em primeira mão, quem foram essas pessoas, as adversidades que tiveram de suportar

e qual foi o seu destino.

In Gansu Province, northwest China, lie the remains of countless prisoners abandoned in the Gobi Desert sixty

years ago. Designated as “ultra-rightists” in the Communist Party’s Anti-Rightist campaign of 1957, they starved to

death in the Jiabiangou and Mingshui reeducation camps. The film invites us to meet the survivors of the camps to

find out firsthand who these people were, the hardships they were forced to endure and what became their destiny.

Cine Humberto Mauro, 28 nov, 19h - Parte 1 • 29 nov, 14h30 - Parte 2

Les Tombeaux Sans Noms • Túmulos Sem Nome • Nameless Grave

França/Camboja, 2018, cor, 115’ • direção director Rithy Panh • fotografia cinematography Rithy Panh, Prum Mésar •

montagem editing Rithy Panh • música music Marc Marder • produção production Catherine Dussart Production, Arte

France, Anupheap Production • contato contact joris@playtime.group

Quando uma criança de 13 anos de idade, que perdeu a maior parte da família sob o regime do Khmer Vermelho,

embarca em uma procura pelas sepulturas de seus familiares, o que ela encontra lá? O documentário registra

a busca por paz espiritual, tanto para quem foi morto quanto para os sobreviventes do sistema político que

dominou o Camboja na década de 1970.

When a 13 years old kid, who has lost most of his family under Khmer Rouge’s regime, goes on a search for the

graves of his relatives, what will be found? The documentary film shows the search for spiritual peace, both for

who was killed and for the survivors of the political system that dominated Cambodia in the 1970s.

Cine Humberto Mauro, 24 nov, 19h


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Ressurreição • Resurrection

Brasil, 1987, p&b, 6’ • direção director Arthur Omar • fotografia cinematography Arquivos de Jornais • montagem editing

Aida Marques • músicas music Coração Santo, Queremos Deus • produção production Córtex Digital • contato contact

arthuromar@gmail.com

Composto com fotografias de arquivos de jornais populares brasileiros especializados em assassinatos violentos,

e do Instituto Médico Legal. As estranhas posturas dos corpos massacrados lembram as figuras dos pintores

Maneiristas. Menos uma denuncia, que um estudo sobre a ação da lei da gravidade sobre corpos sem vida.

The film is made with archive photography from Brazilian newspapers specialized in violent murders and from

morgues. The strange postures of the slaughtered bodies remind the pictures of the Mannerism period. It is less

a denouncement than a study on the action of law of gravity on lifeless bodies.

Cine Humberto Mauro, 25 nov, 21h *Sessão comentada por Arthur Omar

Sonhos e Histórias de Fantasmas • Dreams and Ghost Stories

Brasil, 1996, cor, 45’ • direção diretor Arthur Omar • contato contact arthuromar@gmail.com

Raízes negras e psicanálise selvagem. Um quilombo no interior de Minas Gerais formado por velhos ligados à

tradição. Uma turma funk no Rio de Janeiro, jovem, sem qualquer ligação com o passado. Pressão comunitária

e êxtase metafísico, com aparições de fantasmas, numa linguagem sensorial.

Black roots and wild psychoanalysis. A quilombo in the countryside of Minas Gerais formed by the elderly linked

to the traditions. A funk group in Rio de Janeiro, young, not connected to the past. Communitarian pressure and

metaphysical ecstasy with ghost appearing in a sensorial language.

Cine Humberto Mauro, 25 nov, 21h *Sessão comentada por Arthur Omar


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Dead Nigga Blvd

Estados Unidos, 2015, cor e p&b, 5’ • direção director Leila Weefur • fotografia cinematography Leila Weefur • contato

contact leilaweefur@gmail.com

Dead Nigga Blvd encontra-se em algum lugar entre a vida na Terra e a vida após a morte. Emmet Till, Oscar

Grant e Trayvon Martin vivem em frustração e confusão ao serem forçados a confrontarem suas mortes da

mesma forma que nós as confrontamos, através de uma transmissão. Esses três jovens representam apenas

uma pequena porcentagem de mortes causadas por injustiças raciais, mas seus rostos se tornaram icônicos no

debate sobre o racismo norte-americano.

Dead Nigga Blvd. exists somewhere between life on Earth and the afterlife. Emmett Till, Oscar Grant, and Trayvon

Martin dwell in frustration and confusion as they are forced to confront their deaths in the same way we all

have confronted their deaths, through a broadcast. These three young men represent only a small percentage

of deaths caused by racial injustices but their faces have become iconic in the conversation of American racism.

Cine Humberto Mauro, 30 nov, 16h30

Noise+Thirst • Barulho+Sede

Estados Unidos, 2018, cor, 7’ • direção director Leila Weefur • contato contact leilaweefur@gmail.com

Noise+Thirst é uma vídeo instalação que apresenta a Negritude como habitante do espaço entre barulho &

silêncio e entre sede & satisfação. A colagem sonora que a acompanha, uma gestalt da masculinidade negra,

questiona até que ponto devemos escrutinar minuciosamente nossa negritude para testemunhar um contraste

que ocorre naturalmente?

Noise+Thirst is a video installation presenting blackness as an inhabitant of the space between noise & silence

and thirst & satisfaction. The accompanying sound collage, a gestalt of black masculinity, asks how closely must

we scrutinize our blackness to bear witness to a naturally occurring contrast?

Cine Humberto Mauro, 30 nov, 16h30


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Everybody Dies! • Todo Mundo Morre!

Estados Unidos, 2016, cor, 9’ • direção director Nuotama Frances Bodomo • fotografia cinematography Chananun

Chotrungroj • montagem editing Colin Elliott • som sound Eli Cohn • produção production Laurie Thomas, Valerie

Steinberg • contato contact moreinfo@nuotamabodomo.inf

Em um programa de TV de acesso público, Ripa, a ceifadora, ensina crianças negras sobre o dia em que morrerão.

A public access tv show in which ripa the (grim) reaper teaches black kids about the day they’ll die.

Cine Humberto Mauro, 30 nov, 16h30

White • Branco

Estados Unidos, 2011, cor, 16’ • direção director A. Sayeeda Moreno • fotografia cinematography Jeffrey Kim • montagem

editing Frederic Tcheng • som sound Laura Sinnot • produção production Smriti Mundhra • contato contact a.sayeeda.

moreno@gmail.com

É mais um dia de 48 graus, a cinco dias do Natal, e calor é a única estação que resta para a cidade de Nova York.

Bato e sua esposa Gina estão esperando um bebê. Embora tenham planejado ter o bebê em casa, agora Gina

necessita dos serviços de uma clínica para um parto prematuro. Sem dinheiro, Bato começa uma corrida contra

o tempo para salvar sua família.

It’s another 120-degree day with five more days to Christmas and hot is the only season left in New York City. Global

warming has become a tangible threat and everyone is creating new ways to protect themselves from the sun. Bato

and his wife Gina are expecting a baby. Although they planned to have the baby at home, Gina now requires the

services of a clinic for the premature delivery. With no money, Bato enters into a race against time to save his family.

Cine Humberto Mauro, 26 nov,17h


39

still/here • ainda/aqui

Estados Unidos, 2001, p&b, 60’ • direção director Christopher Harris • fotografia cinematography Christopher Harris,

Joel Wanek • montagem editing Christopher Harris • som sound Christopher Harris • produção production Christopher

Harris • contato contact christopher-harris@uiowa.edu

still/here é uma meditação sobre a vasta paisagem de ruínas e lotes vagos que constitui a zona norte de St. Louis,

uma área povoada quase exclusivamente pela classe operária e por trabalhadores pobres afro-americanos.

Embora construa um registro documental de flagelo e decadência, ainda/ aqui é uma recusa ao fim que reside

no espaço da ruptura e confronta a presença de uma ausência profunda. (C.H.)

still/here is a meditation on the vast landscape of ruins and vacant lots that constitute the north side of St. Louis,

an area populated almost exclusively by working class and working poor African Americans. Though it constructs

a documentary record of blight and decay, still/here is a refusal of closure that dwells within the space of rupture

and confronts the presence of a profound absence. (C.H.)

Cine Humberto Mauro, 30 nov, 16h30

Chico

Brasil, 2018, cor, 22’ • direção director Irmãos Carvalho • fotografia cinematography Gabriela Almeida • montagem

editing João Rabllo • som sound Gustavo Andrade • produção production Nasceu Na Rua Filmes • contato contact

marcosmagalhaescarvalho@hotmail.com, eduardomagalhaescarvalho@yahoo.com.br

2029. Treze anos depois de um golpe de Estado no Brasil, crianças pobres, negras e faveladas são marcadas em seu

nascimento com uma tornozeleira e têm suas vidas rastreadas por pressupor-se que elas irão, mais cedo ou mais

tarde, entrar para o crime. Chico é mais uma dessas crianças. No aniversário dele, é aprovada a lei que autoriza a

prisão desses menores. O clima de festa dará espaço a uma separação dolorosa entre Chico e sua mãe, Nazaré.

Brazil, 2029. Black and favela children are marked with an anklet at birth and have their lives monitored since it’s

assumed that sooner or later they will join crime. Chico is one of those kids. On his birthday, a law authorizing

the arrest of these minors is approved. The party mood will give way to a painful separation between Chico and

his mother, Nazaré.

Cine Humberto Mauro, 26 nov, 17h


40

Apelo • Appeal

Brasil, 2014, cor, 13’ • direção director Clara Ianni, Débora Maria da Silva • fotografia cinematography Pedro Sotero •

montagem editing Onze Corujas • som sound Confraria de Sons e Charutos • produção production Massa Real • contato

contact clara.ianni@gmail.com

Apelo surge da urgência em lidar com a institucionalização da violência no Brasil – consolidada ao longo da

história do país. Filmado no Cemitério Dom Bosco na periferia de São Paulo, a obra conecta atos de violência

do presente com os do passado por meio de um discurso público de Débora Maria da Silva, que teve seu filho

assassinado em 2006, vítima das ações conduzidas por esquadrões da morte da polícia militar de São Paulo.

Appeal emerges from the urgency in dealing with the institutionalization of violence in Brazil – consolidated throughout

the history of the country. Filmed in Dom Bosco Cemetery, in the outskirts of São Paulo, the film connects

violent acts of the present to the ones of the past through a public speech of Débora Maria da Silva, who had her

son murdered in 2006, victim of actions of the death squads of the military police of São Paulo.

Cine Humberto Mauro, 26 nov, 17h

Pontes Sobre Abismos • Bridges Over The Abyss

Brasil, 2017, cor, 9’ • direção director Aline Motta • fotografia cinematography Aline Motta • montagem editing Fernando

Lima • som sound Bruno Elisabetsky • produção production Aline Motta • contato contact lalinemotta@gmail.com

Instigada pela revelação de um segredo de família, Aline partiu em uma jornada à procura de vestígios de seus

antepassados. Ela viajou para áreas rurais no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, Portugal e Serra Leoa, pesquisando

em arquivos públicos e privados e, ao mesmo tempo, criando uma contra-narrativa do que geralmente se conta

sobre a forma como as famílias brasileiras foram formadas com sua história violenta e as noções românticas de

sua louvada miscigenação.

Instigated by the revelation of a family secret, Aline left on a journey to look for traces of her ancestors. She

has travelled through Rio de Janeiro, Minas Gerais, Portugal and Sierra Leone researching in public and private

archives and creating a counter-narrative about what is usually told about the formation of the Brazilian families.

Cine Humberto Mauro, 26 nov, 17h


41

Para Todas as Moças • For All the Ladies

Brasil, 2019, cor, 3’ • direção director Castiel Vitorino Brasileiro • montagem editing Castiel Vitorino Brasileiro • contato

contact castielvitorinob@gmail.com

Macumba de travesti, só bixa consegue desfazer. Feitiço de bixa, só travesti consegue quebrar.

Queen macumba, only queers get to undo it. Queer spell, only queens get to break it.

Cine Humberto Mauro, 26 nov, 17h

A-Gente Laranja

Brasil, 2019, cor, 2’ • direção director Denilson Baniwa • fotografia cinematography Imagens de Arquivo • montagem

editing Denilson Baniwa • contato contact denilsonbaniwa@gmail.com

No vídeo A-gente Laranja (2019), o artista propõe-se a inter-relacionar imagens de ataques químicos a populações

Guarani-Kaiowá perpetrados por fazendeiros no estado do Mato do Grosso do Sul ao longo dos anos 2000,

com imagens de arquivo de aviões norte-americanos sobrevoando e lançando o herbicida Agente Laranja em

pleno período de Guerra do Vietnã, nos anos 70. O trabalho conecta arquivos e histórias que à princípio não

estariam relacionadas.

In the short film, the artist proposes the interaction between images of chemical attacks to Guarani-Kaiowa

indigenous population perpetrated by farm owners of Mato Grosso do Sul state through the 2000s, with archive

images of US choppers spraying the herbicide Agent Orange during the Vietnam War period, in the 1970s. The

work connects archive and stories that otherwise wouldn’t be connected.

Cine Humberto Mauro, 26 nov, 14h


42

Yvy Reñoi, Semente Da Terra • Yvy Reñoi, Seed Of The Earth

Brasil, 2017, cor, 15’ • direção director Coletiva da ASCURI • roteiro script Eliel Benites sob orientação do Aty Guasu •

fotografia cinematography Ademilson Concianza Verga, Gilmar Kiripuku Galache • contato contact ascuri.ms@gmail.com

A luta dos Kaiowa e Guarani da aldeia Teykue pela retomada do seu território tradicional é marcada por disputas

de terra. Em junho de 2016, um novo ataque financiado por ruralistas resultou em mais um indígena morto e quatro

feridos. 90 cápsulas de balas foram encontradas na retomada e inúmeras marcas de tiros. Nenhum fazendeiro

foi preso. Tudo isso acontece cinco dias após a visita do atual presidente Jair Bolsonaro (então no PSC/RJ) a

Campo Grande. Coincidência?

The struggle of the Kaiowa and Guarani, of the Teykue hamlet, for taking back their traditional territory has

many land disputes. In June, 2016, an attack financed by big farm owners resulted in one more indigenous death

and four wounded. 90 bullets jackets were found and countless shot marks. No farm owner was jailed. All this

happens five days after the now President Jair Bolsonaro (then in PSC/RJ) visit to Campo Grande. Coincidence?

Cine Humberto Mauro, 27 nov, 14h

Chico Mendes: Eu Quero Viver • Chico Mendes: I Want to Live

Brasil, 1989, cor, 56’ • direção director Adrian Cowell • fotografia cinematography Vicente Rios, Auro Lu • montagem

editing Chris Christophe, Terry Twigg, Andrew Mason • som sound Vanderlei de Castro, Rafael de Carvalho, Nélio Rios •

produção production Roger James, Vicente Rios, Morrow Cater • contato contact igpa@pucgoias.edu.br

O filme mostra a trajetória de Chico Mendes, líder seringueiro no Acre, em defesa da Amazônia. Com registros

feitos entre 1985 e 1988, acompanhamos Chico Mendes na organização dos seringueiros em defesa da floresta,

no nascimento da Aliança dos Povos da Floresta, e na luta pela demarcação das primeiras reservas extrativistas

na Amazônia. O filme mostra, ainda, a trama armada para seu assassinato e as repercussões no Brasil e no mundo.

The film presents the path of Chico Mendes, a rubber tapper leader form Acre, defending the Amazon. Shot

between 1985 and 1988, it shows Chico Mendes organizing the rubber tappers to defend the forest, the birth of

Aliança dos Povos da Floresta (Forest People’s Alliance), and the struggle for the demarcation of extractive reserves

in the Amazon. The film also presents the plot made to murder him and the repercussion in Brazil and the world.

Cine Humberto Mauro, 27 nov, 17h *Sessão comentada por Ruben Caixeta de Queiroz


43

Tatakox – Aldeia Vila Nova • Tatakox – Vila Nova Village

Brasil, 2009, cor, 22’ • direção director Comunidade Maxakali Aldeia Nova do Pradinho • fotografia cinematography

João Duro Maxakali • montagem editing João Duro Maxakali • som sound João Duro Maxakali • produção production

Comunidade Maxakali Aldeia Nova do Pradinho • contato contact rtugny@gmail.com

Quando as mulheres sentem saudade das suas crianças que morreram pequenas, os Tatakox vão buscá-las e

trazem-nas às aldeias para que as mães as vejam. Com a filmadora nós pudemos ver de onde é que os Tatakox

tiram as crianças. Depois, no mesmo dia, os meninos vivos da aldeia são levados de suas mães pelos espíritos

para ficar na casa dos homens e aprender.

When women miss their children who died small, the Tatakox fetch them so their mothers can see them in their

hamlet. With the camera we are able to see from where the Tatakox bring the kids. Then, on the same day, the

living boys are taken by the spirits from their mothers to stay in the house of men to learn.

Cine Humberto Mauro, 23 nov, 17h *Sessão comentada por Sueli e Isael Maxakali e Charles Bicalho

Mãtãnãg, a Encantada • Mãtãnãg, the Enchanted

Brasil, 2019, cor, 15’ • direção director Shawara Maxakali, Charles Bicalho • fotografia cinematography Jackson Abacatu •

montagem editing Charles Bicalho, Jackson Abacatu, Marcos Henrique Coelho • som sound Guilherme Bahia • produção

production Charles Bicalho, Cláudia Alves, Marcos Henrique Coelho • contato contact charlesbicalho@gmail.com

Mãtãnãg, a Encantada acompanha a trajetória da índia Mãtãnãg, que segue o espírito de seu marido, morto por

uma picada de cobra, até a aldeia dos mortos. Juntos eles superam os obstáculos que separam o mundo terreno

do mundo espiritual. Falado em língua Maxakali e legendado em português, o curta se baseia em uma história

tradicional do povo indígena Maxakali.

Mãtãnãg, the Enchanted follows the path of the indigenous Mãtãnãg, who is following the spirit of her dead

husband, killed by a poisonous snake’s bite, to the hamlet of the dead. Together they overcome the obstacles

that separate the living world from the dead world. The short film, spoken in Maxakali, is based on a traditional

story of the Maxakali indigenous people.

Cine Humberto Mauro, 23 nov, 17h *Sessão comentada por Sueli e Isael Maxakali e Charles Bicalho


44

Uaká

Brasil, 1988, cor, 90’ • direção director Paula Gaitán • fotografia cinematography Jonnhy Howard • montagem editing

Aida Marquez • som sound Alberto Camuirano • produção production Tarcísio Vidigal, Hilton Kauffmann • contato

contact paulagaitan@gmail.com

Os gestos dos índios Kamayurá, suas vozes, seus adornos corporais e a natureza exuberante do Xingu neste que

é um filme-poema ao redor da preparação do ritual do Kuarup.

The gestures of the indigenous Kamayurá, their voices, their body adornments and the exuberant nature of Xingu

are in this film, which is a poem-film on the preparation of the Kuarup ritual.

Sessão realizada em parceira com o projeto História Permanente do Cinema/Cine Humberto Mauro.

Cine Humberto Mauro, 25 nov, 15h

Good-Bye Old Man • Adeus Meu Velho

Austrália, 1977, cor, 66’ • direção director David MacDougall • fotografia cinematography David MacDougall • montagem

editing David MacDougall • som sound Bryan Butler • produção production AIAS Film Unit (Australian Institute of

Aboriginal Studies, Canberra) • contato contact orders@roninfilms.com.au

O último pedido de um homem Tiwi, da Ilha Melville, foi que fizessem um filme sobre a cerimônia de pukumani

(luto) de sua morte. O filme acompanha sua família, desde os dias de preparação até a partida final do velho

homem. O filme conta com a narração de Thomas Woody Minipini, um dos participantes.

A last request of a Tiwi man on Melville Island was that a film be made of the pukumani (bereavment) ceremony

to follow his death. The film follows his family, from the days of preparation to their final leave-taking of the old

man. Commentary by Thomas Woody Minipini, one of the participants.

Cine Humberto Mauro, 30 nov, 18h30 * Sessão apresentada por Renato Sztutman


45

Wutharr, Saltwater Dreams • Wutharr, Sonhos De Água Salgada

Austrália, 2016, cor, 29’ • direção director Karrabing Film Collective • fotografia cinematography Natasha Lewis •

montagem editing Elizabeth A. Povinelli • som sound Leandros Ntounis • produção production Karrabing Indigenous

Corporation • contato contact karrabingkarrakul@gmail.com

Através de uma série de flashbacks cada vez mais surreais, uma família indígena discute o que pode ter causado

o problema no motor de seu barco que os deixou encalhados no mato. Enquanto especulam os papéis que os

ancestrais, o Estado regulador e a fé cristã exerceram sobre o incidente, Wutharr, Sonhos de Água Salgada explora

as múltiplas demandas e os incontornáveis vórtices da vida indígena contemporânea.

Across a series of increasingly surreal flashbacks, an extended indigenous family argues about what caused their

boat’s motor to break down and leave them stranded out bush. As they consider the roles played in the incident

by the ancestral present, the regulatory state and the Christian faith, Wutharr, Saltwater Dreams explores the

multiple demands and inescapable vortexes of contemporary indigenous life.

Cine Humberto Mauro, 30 nov, 18h30 * Sessão apresentada por Renato Sztutman

Sigui Synthèse (1967 - 1973) - L’ Invention de la Parole et de la mort

Sigui Síntese (1967 - 1973) - A invenção da palavra e da morte

Mali/ França, 1981, cor, 120’ • direção director Jean Rouch, Germaine Dieterlen • fotografia cinematography Jean Rouch •

montagem editing Danielle Teissier • som sound Gilbert Rouget, Moussa Hamifou, Guindo Ibrahim • contato contact

www.comitedufilmethnographique.com/contact/

Ensaio de síntese da série dos sete filmes de Rouch (1967-1974) sobre as complexas cerimônias do Sigui, que os

Dogon do Mali organizam a cada 60 anos para celebrar e reviver a invenção do mundo, a doação da linguagem

aos homens e a morte de seus ancestrais.

The film is a synthesis essay of the seven films by Rouch (1967-1974) on the complex Sigui ceremonies that the

Dogon, of Mali, organize every 60 years to celebrate and revive the invention of the world, the donation of language

to humankind and the death of their ancestors.

Cine Humberto Mauro, 01 dez, 21h * Sessão apresentada por Júnia Torres

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