EXAME Junho 2020

EXAME.MOZ

Numa altura em que o mundo se confronta com uma das maiores crises globais, o regresso do futebol pode trazer alegrias (e amarguras) a milhões de adeptos. Mas os custos da paragem podem ser demasiados altos em alguns campeonatos, incluindo o moçambicano.
Fomos ver o que representam.
O dossier de commodities, aborda o impacto da queda dos preços na economia moçambicana, também reflectido no orçamento (que analisamos nesta edição). Este foi o tema de um webinar que apoiámos, promovido pela Delegação da União Europeia, em parceria com o Ministério da Indústria e Comércio e a Eurocam, disponível em www.eumoztalks.com.
No nosso especial "Inovação" abordamos o crescimento do comércio electrónico e a crescente importância da cibersegurança.

COMMODITIES ● A crise devastou

o preço das matérias-primas

OE 2020 ● O cenário externo

mudou com a COVID-19

Nº 89 v Junho 2020 v 200Mt v 5 Edição Moçambique

O RETORNO

DO FUTEBOL

O grande futebol está de regresso à TV, com estádios, por enquanto, vazios.

Um símbolo da “nova normalidade” que tenta fintar a pandemia. Transferências

milionárias não faltarão quando reabrir o mercado de jogadores.

Os clubes, incluindo os moçambicanos, fazem contas à vida. Os da elite europeia

são demasiado grandes para cair. Segue o espectáculo.

INOVAÇÃO

Comércio

electrónico

dispara


REVISTA MENSAL — ANO 7 — N O 89 — JUNHO 2020

TIRAGEM: 10 000 EXEMPLARES — CAPA: GETTY

30

SÓNIA MATSINHE:

Novos e nutritivos

paladares do pão

NEGÓCIOS

30 Empreendedora A marca O Paladar D’ Terra, de Sónia Matsinhe,

faz pães nutritivos à base de farinha de trigo e tubérculos

34 Finanças A procura de novas tecnologias financeiras, suscitada

pela pandemia, abre uma oportunidade às fintechs

ECONOMIA

36 Dívida Moçambique quer Credit Suisse e VTB a pagarem pela

reestruturação dos títulos soberanos, derivados da EMATUM

40 Orçamento A pandemia piorou o cenário internacional

de referência do OE 2020

44 Crescimento O Fundo Monetário Internacional (FMI) antecipa

que estabilizará ao nível do último ano

COMMODITIES

50 Exportações Estão a cair devido à doença das commodities, cujo

preço foi infectado pelo vírus pandémico

D.R.

40

ADRIANO

MALEIANE:

O ministro

da Economia

e Finanças gere

o OE sob o impacto

da COVID-19

56

CARLOS ZACARIAS:

O presidente do INP

garante que os

prazos do projecto

do gás se mantêm

EDILSON TOMÁS

56 Gás A crise não irá comprometer o arranque da primeira produção

e exploração de GNL do Projecto Coral Sul, garante Carlos Zacarias,

presidente do INP

60 Webinar A evolução do preço das commodities foi o tema do

primeiro Webinar organizado pela União Europeia em parceria

com o Ministério da Indústria e Comércio e a EuroCam

64 Caju A quebra do preço da amêndoa nos mercados internacionais

foi ditada pela concorrência desleal e agravada pela pandemia

ESPECIAL

68 Comércio electrónico Aumentou muito as suas vendas com

a pandemia

68 Cibersegurança A segurança na rede deverá estar no centro

da inovação empresarial

76 Digitalização Para Sérgio Gomes, do FNB, a pressão que as

fintechs colocam aos bancos impulsiona soluções e canais digitais

78 Banca Precisa de manter o ritmo de mudança, inovando

as plataformas e introduzindo novas ferramentas que criem

diferenciação, diz Sansão Monjane, do FNB

D.R.

SECÇÕES

Editorial 6

Primeiro Lugar 8

Grandes Números 12

Oil&Gas 46

Bazarketing 48

Exame Final 82

4 | Exame Moçambique


CAPA

14 Regresso do futebol

O grande espectáculo dos campeonatos milionários

está de volta à televisão, ainda que emoldurado por

bancadas vazias. A factura da pandemia é pesada, mas

os clubes onde jogam os ídolos são grandes de mais

para cair. Por cá, o vírus também atacou em força

o Moçambola

GETTY


CARTADODIRECTOR

IRIS DE BRITO

DIRECTORA

E A BOLA VOLTA

A ROLAR

O

“desporto rei” sai do confinamento mas

ainda em distanciamento social. Não

podemos ficar indiferentes às bancadas

vazias ou à ausência dos gritos das multidões

ao rubro. Vinte e dois jogadores em campo.

Os estádios vazios. É a “nova normalidade” que

nos foi imposta por um inimigo silencioso,

que a todos tenta intimidar, e que conseguiu

o impensável: parar o futebol mundial. Como PARA MUITAS

diria o jornalista e locutor desportivo português,

Jorge Perestrelo (1948-2005): “O que é

MULHERES

PODERÃO

isso, minha nossa senhora?” Mas a nossa história

é uma história de superação e de adaptação

ao ambiente que nos rodeia. Utilizando as 90 MINUTOS

SER OS SEUS

palavras de Stephen Hawking, “inteligência é a

DE PAZ E SOSSEGO

capacidade de se adaptar à mudança”. Assim,

face às circunstâncias, os relvados voltam a ser palco dos campeonatos

nacionais da primeira divisão e a bola volta a rolar dentro das quatro linhas

numa tentativa de minimizar as perdas financeiras, que são milionárias nos

principais campeonatos europeus, e que colocam em causa a sustentabilidade

dos clubes no campeonato nacional Moçambicano — o Moçambola.

Contudo, jogadores e técnicos são sensíveis à ausência dos adeptos nas

bancadas e da chama do calor humano que, tantas vezes, tem o poder de

unir povos e nações em torno de uma emoção que só a magia da competição

desportiva ao mais alto nível consegue emanar. Essa magia foi sentida

em momentos icónicos como em Maio de 1995, quando um jogo de râguebi

conseguiu unir a África do Sul, inspirada pelo espírito aglutinador de Nelson

Mandela; ou em 2016, quando a lusofonia se uniu para sofrer por Portugal

e celebrar a sua histórica vitória no Campeonato Europeu de Futebol.

E porque atravessamos um momento peculiar e particularmente desafiante

da nossa história recente, aproveitemos o regresso do futebol para relembrar

momentos de perseverança, de brilho e, principalmente, de superação.

Infelizmente, para muitas mulheres estes poderão ser os seus 90 minutos

de paz e sossego. Isto porque, de acordo com dados da Organização Mundial

de Saúde (OMS), na Europa, durante o período de confinamento, o

número de casos de violência contra as mulheres registou um aumento de

até 60%, em comparação com o mesmo período do ano passado. Perante

este cenário, a FIFA associa-se à OMS. Em Moçambique, dez anos depois

da aprovação da lei contra a violência doméstica, os 90 minutos poderão

ser uma oportunidade para salvar uma vida. b

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6 | Exame Moçambique


junho 2020 | 19


PRIMEIRO

LUGAR

MOÇAMBIQUE ESSENCIAL. PEQUENAS NOTÍCIAS SOBRE UM GRANDE PAÍS

RECUO: No primeiro trimestre as trocas comerciais

entre Moçambique e a China diminuíram 26% face a 2019

D.R.

COMÉRCIO

MENOS TROCAS COM A CHINA

Entre Janeiro e Março deste ano as trocas comerciais entre Moçambique

e a China registaram uma quebra superior a 26% em comparação

com o mesmo período do último ano, situando-se em

476 milhões de dólares, de acordo com as estatísticas dos Serviços

de Alfândega da China. Moçambique exportou para Pequim bens

no valor de 157 milhões de dólares e importou mercadorias com um

valor superior a 318 milhões de dólares. Se as compras de Moçambique

à China aumentaram, em Março, uns expressivos 157,6% face

a Fevereiro, as exportações moçambicanas para a segunda maior

economia do mundo caíram mais de 27%. Em Março, as trocas entre

os dois países superaram os 158 milhões de dólares.

De Janeiro a Março de 2020, as trocas comerciais entre a China

e os Países de Língua Portuguesa foram de 31,968 mil milhões

de dólares, o que representa um decréscimo homólogo de 5,13%.

As importações da China dos Países de Língua Portuguesa foram

de 23,227 mil milhões de dólares, um recuo, face ao mesmo período

do ano anterior, de 5,15%, enquanto as exportações da China para

os Países de Língua Portuguesa foram de 8,741 mil milhões de dólares,

um decréscimo homólogo de 5,08%. No mês de Março as trocas

comerciais foram de 10,593 mil milhões de dólares, aumentando

20,36% face ao mês anterior. As importações da China dos Países

de Língua Portuguesa foram de 7,503 mil milhões de dólares, um

aumento de 0,71% face ao mês anterior, enquanto as exportações

da China para os Países de Língua Portuguesa foram de 3,09 mil

milhões, um aumento de 128,74% face ao mês anterior. Entre os

países que falam português o principal parceiro comercial da China

continua a ser, de longe, o Brasil, com as trocas entre os dois países

a atingirem 24,7 mil milhões de dólares entre Janeiro e Março

deste ano, decaindo ligeiramente face a igual período de 2019.

Já Angola, o segundo maior parceiro da China no grupo de países,

regista uma queda acentuada no valor do seu comércio com

a potência asiática, superior a 16% no primeiro trimestre do ano.

Portugal é o terceiro parceiro comercial da China entre os Países

de Língua Portuguesa e Moçambique o quarto.

8 | Exame Moçambique


O mundo enfrenta uma das batalhas mais críticas para a existência

da Humanidade.

Filipe Nyusi, Presidente da República.

CONSÓRCIO

PLATAFORMA DE GÁS NATURAL AVANÇA

O consórcio Coral Floating Liquefied

Natural Gas SA anunciou a conclusão

da montagem do primeiro módulo do

casco da plataforma que irá produzir

gás natural no Norte do país.

Num comunicado, citado pelo fórum

para a cooperação económica e comercial

entre a China e os Países de Língua

Portuguesa, o consórcio refere que foi

montado o módulo de geração de energia

na plataforma Coral Sul FLNG, nos

estaleiros da Samsung Heavy Industries,

na Coreia do Sul. Segundo o jornal

moçambicano Carta, o consórcio

prevê que a produção de gás natural

na área 4 da bacia do Rovuma, ao largo

da província de Cabo Delgado, arranque

em 2022.

No comunicado, o consórcio garante

que está a implementar um extenso

plano para fornecer oportunidades de

formação e emprego a jovens moçambicanos.

O consórcio é liderado pela

petrolífera italiana ENI SPA.

SALA DE

MERCADOS

Abril

67,46

Abril

1,94

MOEDA

(Meticais por USD)

-2%

GÁS NATURAL

(USD/MMBtu)*

-11%

Maio

68,80

Maio

1,73

Abril

13,78

CRUDE

(USD/barril)

141%

Maio

33,25

CARVÃO DE COQUE

(USD/ton.)

PORTOS

COBRE E COBALTO DA RDC PASSA POR MOÇAMBIQUE

A China Molybdenum Co está a enviar cobre e cobalto da República Democrática do

Congo (RDC) para a China através de portos em Moçambique, avançou um porta-

-voz da mineradora.

De acordo com a Reuters, a China Moly, que opera a mina de Tenke Fungurume,

na República Democrática do Congo, teve de mudar de planos logísticos após a

África do Sul ter limitado os seus portos a bens essenciais. A empresa chinesa está

a enviar cobre e cobalto através de vários pequenos portos em Moçambique, de Dar-

-es-Salaam, na Tanzânia, e de Walvis Bay, na Namíbia, revelou a agência noticiosa.

Segundo um comunicado enviado pela China Moly à Bolsa de Valores de Xangai, as

vendas de hidróxido de cobalto, utilizado para produzir baterias para veículos eléctricos,

atingiram no primeiro trimestre 5334 toneladas, mais 49,3% do que em igual

período de 2019.

D.R.

Abril

115,01

Abril

326,00

Março

1738,30

MILHO

(USD/Bushel)**

D.R.

-1%

-2%

OURO

(USD/t oz)***

+1%

Maio

114,01

Maio

318,00

Abril

1753,50

COTAÇÕES A 22/04/2020 E A 23/05/2020

* MMBtu = milhões de British Thermal Unit

(medida da capacidade térmica)

** 1 bushel de milho = 25,4 Kg

*** t oz = onças troy = 31,21 g.

FONTES: BM, Bloomberg, CME Group.

junho 2020 | 9


PRIMEIRO LUGAR

COVID-19

AJUDA DA USAID SOBE

PARA 7 MILHÕES

A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento

Internacional (USAID) já apoiou

a resposta de Moçambique à COVID-19 com

mais de 7 milhões de dólares, incluindo financiamento

à formação de trabalhadores de

saúde, revelou Kenneth Staley, líder do grupo

de trabalho da USAID para a COVID-19, à Lusa.

O valor mais do que duplica os 2,8 milhões

de contributo que foram anunciados no início

de Abril, afirmou Kenneth Staley, acrescentando

que a agência está também a monitorizar

o sistema de água e saneamento, como

o controlo de infecções nas infra-estruturas

de saúde em Moçambique. Kenneth Staley,

também coordenador da resposta global à

malária, acrescentou que a USAID continua a

salvaguardar a prestação de serviços de tratamento

à malária em Moçambique e em todo

o continente, com uma adaptação no tratamento

da febre, “tentando encontrar novas

formas para tratar de maneira eficaz e segura

nas condições actuais”. Segundo a informação

divulgada pela Administração norte-americana

a 3 de Abril, Moçambique receberia

2,8 milhões de dólares de um envelope financeiro

inicial de 274 milhões de dólares destinado

a ajuda médica e humanitária no âmbito

da luta contra a pandemia de COVID-19 em

África. O valor reservado a Moçambique

somava-se aos 3,8 mil milhões de dólares em

ajuda médica e 6 mil milhões de dólares em

apoio ao desenvolvimento gastos no país nas

últimas duas décadas.

USAID: Reforçou o apoio a Moçambique

na resposta à pandemia

D.R.

VACINAS:

A Gavi pretende reunir 7,4 mil milhões de dólares

para imunizar 300 milhões de crianças

SAÚDE

FILIPE NYUSI REALÇA PAPEL

DA ALIANÇA DAS VACINAS

O Presidente Filipe Nyusi saudou o papel da Aliança das Vacinas, Gavi, na saúde

infantil e no combate à cólera no país, durante uma cimeira global de angariação

de fundos. “Em parceria com a Gavi, Moçambique conseguiu melhorar significativamente

a saúde infantil”, afirmou durante uma intervenção por vídeo no evento,

integralmente realizado de forma remota pela Internet. O Chefe de Estado reconheceu

que a cimeira se realiza “numa altura em que o mundo enfrenta uma das

batalhas mais críticas para a existência da Humanidade”, mas destacou a importância

da imunização no país como “o melhor investimento para a saúde”.

Nyusi recordou que Moçambique tem vindo a registar surtos de cólera desde

1990, sobretudo no Norte do país, e em particular no ano passado, após as inundações

provocadas pelo ciclone Idai. “Para responder aos surtos de cólera, temos

implementado vacinações direccionadas e campanhas nas quais a Gavi e os seus

parceiros têm prestado um papel vital que ajudou o país a parar a propagação

da doença”, disse. Cerca de 1600 pessoas, sobretudo crianças, beneficiaram de

uma campanha de emergência de vacina oral contra a cólera, em 2019, adiantou,

mostrando-se “muito grato” pelo apoio na coordenação e monitorização do progresso

dos surtos e no planeamento para a resposta. A Cimeira Global da Aliança

das Vacinas (Gavi) pretende angariar 7,4 mil milhões de dólares para imunizar

300 milhões de crianças em cinco anos e salvar entre 7 e 8 milhões de vidas.

D.R.

10 | Exame Moçambique


ELECTRICIDADE

REDUÇÃO DE TARIFA CUSTA 15 MILHÕES

A redução da tarifa para as famílias mais desfavorecidas e pequenas e médias

empresas vai custar à Electricidade de Moçambique (EDM) 15 milhões de dólares.

A EDM vai cortar 50% da tarifa de energia para as famílias vulneráveis e 10%

para as pequenas e médias empresas afectadas pela pandemia de COVID-19, de

acordo com o anúncio feito no Parlamento pelo ministro dos Recursos Minerais

e Energia, Max Tonela. O porta-voz da EDM, Luis Amado, disse posteriormente,

em conferência de imprensa, em Maputo, que a redução das tarifas vai beneficiar

179 mil clientes e terá um impacto de 15 milhões de dólares nas receitas da empresa.

Luís Amado adiantou que a empresa vai procurar junto do governo encontrar uma

forma de compensação, uma vez que pode afectar a capacidade de a empresa

cumprir o seu plano de investimento na expansão da rede eléctrica. Para este ano,

a eléctrica pública projecta expandir o fornecimento de energia para 300 mil consumidores.

A redução da tarifa de energia para as famílias mais desfavorecidas e

para as micro, pequenas e médias empresas afectadas pela pandemia de COVID-19

enquadra-se num conjunto de medidas de alívio económico e fiscal que o governo

tem vindo a anunciar.

PANDEMIA

ONU APELA A APOIO

DE 68 MILHÕES A MOÇAMBIQUE

TARIFA: A sua redução para

famílias desfavorecidas e PME

decorre dos efeitos da pandemia

As Nações Unidas lançaram um apelo aos parceiros internacionais para a angariação

de 68 milhões de dólares destinados a um apoio urgente a Moçambique para

o combate à COVID-19, anunciou a organização. O apelo urgente em resposta à

COVID-19 concentra-se nas necessidades imediatas e críticas daqueles que já estão

a enfrentar condições humanitárias severas”, referiu a ONU em comunicado. O plano

foi apresentado no mesmo dia em que foi lançado outro apelo para apoio a deslocados

pela violência armada em Cabo Delgado no valor em 35,5 milhões de dólares,

totalizando 103,6 milhões de dólares de pedidos para Moçambique. “Convido

a comunidade internacional a unir-se e a apoiar de maneira atempada e generosa

o povo de Moçambique, respondendo a esses dois apelos”, sublinhou Myrta Kaulard,

coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique.

D.R.

IMPACTO:

Os custos de adaptação às alterações

climáticas são muito elevados

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

ÁFRICA SUBSARIANA

PRECISA DE

500 MIL MILHÕES

Os países da África Subsariana vão precisar

de até 500 mil milhões de dólares nos próximos

dez anos para se adaptarem às alterações

climáticas e garantir a segurança alimentar.

De acordo com um documento do Fundo

Monetário Internacional (FMI), citado pela Lusa,

sobre o impacto das alterações climáticas na

região, o financiamento necessário equivale a

cerca de 2% ou 3% da riqueza regional e seria

bem mais produtivo do que a ajuda externa

para combater os efeitos. No capítulo das Perspectivas

Económicas Regionais dedicado às

alterações climáticas, o FMI diz que as necessidades

de financiamento centram-se entre os

30 a 50 mil milhões de dólares, por ano, mas

enfrentam dificuldades orçamentais por parte

dos governos. Num artigo publicado no blogue

oficial do FMI, que acompanha a divulgação

do capítulo, os economistas Pritha Mitra

e Seung Mo Choi notam que a pandemia “é

apenas a última catástrofe” a atingir a África

Subsariana, aumentando para 240 milhões

o número de pessoas com fome na região.

As alterações climáticas e os desastres naturais

matam pelo menos mil pessoas e deixam

13 milhões vulneráveis a acidentes, perda de

casa, insegurança alimentar ou sem água ou

saneamento básico.

D.R.


GRANDES

NÚMEROS

PARA SABER LER OS SINAIS DE UMA ECONOMIA EM MUDANÇA

COVID-19

QUEM PERDE E QUEM GANHA

Mesmo numa catástrofe, há quem perca e quem ganhe. Quando se trata da espécie humana, o balanço chega sempre no final

do dia. Será mais claro quando a pandemia passar. Entretanto, há economias, áreas de negócio e empresas vencedoras. Assim

como perdedoras. Para já, a economia chinesa mostra-se mais resiliente e, no meio da recessão mundial, deverá encerrar o ano

ainda a crescer, embora menos do que se estimava antes de a epidemia eclodir. Entre os países perdedores estão, também para já,

os Estados Unidos e os que integram o bloco europeu. Para o tradicional "Ocidente" desenvolvido a factura é pesada. Foram os

mais atingidos pela pandemia, com empresas a suspenderem a actividade ou a fecharem as portas e os números do desemprego

a aumentarem como não há memória. Os apoios financeiros anunciados por estes países para amparar o abalo económico causado

pelo surto é igualmente fabuloso.

DESEMPREGO A OCIDENTE

PIOR QUE A GRANDE DEPRESSÃO

A taxa de desemprego nos Estados Unidos

chegou a 14,7%, a maior desde os anos da

Grande Depressão de 1929. Passaram a estar

desempregados, desde meados de Março,

36,5 milhões de pessoas

DESEMPREGADOS NOS EUA

(% DA FORÇA DE TRABALHO TOTAL)

UE COM CONTAS POR FAZER

Em Março, mês dos confinamentos na Europa, o

desemprego ainda não explodiu e o Eurostat ainda

não divulgou os números de Abril. Em Março, diz o

instituto de estatística europeu, existiam 12,156 milhões

de pessoas no desemprego na Zona Euro

DESEMPREGO NA ZONA EURO

(% DA FORÇA DE TRABALHO TOTAL)

3,5% 3,6% 3,5% 4,4% 14,7% 7,3%

7,4%

DEZ

JAN FEV MAR ABR FEV

MAR

12 | Exame Moçambique


Uma coisa que aprendemos com a crise da COVID-19 é o quão

importante a Amazon se tornou para os nossos clientes.

Jeff Bezos, CEO da Amazon.

TRILIÕES

PARA A CRISE

Do lado dos sectores e das empresas é óbvio quem

perdeu mais: as companhias aéreas e o turismo,

incluindo nos países em que este sector tem forte

influência no PIB e na restauração. Outros sectores

também estão a passar um ano mau, como o segurador.

Os triunfadores são óbvios: na área digital a

pandemia antecipou um mercado que, sem a ameaça

do vírus, poderia levar uma década a conquistar.

Os exemplos mais brilhantes são empresas como

a Amazon, a multiplicar transacções, a Google e a

Apple, a procurarem liderar os sistemas de rastreio

digital dos infectados, e a Zoom, a dar um salto gigantesco

na capitalização bolsista com o seu sistema de

videoconferência. Há ainda que contar com as farmacêuticas,

que dispõem agora de enormes recursos

financeiros para o desenvolvimento de tratamentos

ou de uma vacina, reforçando ainda mais a força de

uma indústria que já dava cartas.

GANHADORES...

25 mil milhões de dólares foi quanto acumulou

o dono da Amazon, Jeff Bezos, desde o início

da pandemia. A Amazon contratou mais 175 mil

pessoas para os seus armazéns nos Estados Unidos

para corresponder ao aumento da procura

255% foi quanto aumentaram as vendas

de desinfectante para as mãos em Fevereiro

no Reino Unido; nos EUA aumentaram 70%

42% foi quanto subiram as acções

da farmacêutica norte-americana Moderna

que testa uma vacina

15% é o aumento do valor das acções

da Netflix

Já é difícil contabilizar os milhões de milhões

de euros e dólares que os diferentes governos

ou blocos económicos vão anunciando para

combater os efeitos da crise

5 000 000

... E PERDEDORES

APOIOS EUROPEUS E AMERICANOS

(EM MILHÕES DE EUROS)

500 000

250 000 200 000

345 000

1 500 000

Alemanha Itália Espanha França Comissão

Europeia*

* Em negociação

EUA

4,5 milhões de voos foram cancelados

28 450 postos de trabalho foram perdidos

na British Airways, Scandinavian Airlines (SAS),

Icelandair, Ryanair, United Airlines e Virgin Atlantic

203 mil milhões de dólares será, segundo

a Lloyd's of London, o custo da pandemia para

as seguradoras em 2020

100 milhões de empregos serão perdidos

no sector do turismo devido à COVID-19

junho 2020 | 13


CAPA FUTEBOL REGRESSA

O ESPECTÁCULO

VAI CONTINUAR

As grandes ligas europeias, que centram a atenção do futebol mundial, regressam com

a reabertura da sociedade nos diferentes países. Os campeonatos milionários também

acumularam prejuízos milionários com a suspensão dos jogos, mas são demasiado grandes

para cair. O futebol europeu reabre na televisão, mas com estádios sem adeptos

ANDRÉ PIPA

14 | Exame Moçambique


DE VOLTA:

O futebol milionário

regressa e fica até

Agosto, para já em

estádios sem

adeptos

AS GRANDES LIGAS EUROPEIAS

SÃO DEMASIADO IMPORTANTES

PARA SEREM CANCELADAS

De entre as cinco ligas mais poderosas

da Europa — as chamadas big five —,

a Premier inglesa é um caso à parte.

É a mais valiosa (gera um volume de

negócios superior a 10 mil milhões de

euros por época), a que atrai mais espectadores e a

que chega a um maior número de países. A Premier

tornou-se progressivamente um fenómeno televisivo

global, como a americana NBA (basquetebol),

e recolhe uma fatia importantíssima de receitas no

exterior — 4,6 mil milhões de euros para o período

de 2019-2022 —, sendo extremamente popular

no imenso mercado asiático, onde clubes como

Manchester United, Liverpool e Chelsea têm largos

milhões de seguidores. Como se não bastasse

a indiscutida (e invejada) hegemonia económica,

a Premier conseguiu na época passada arrebatar à

sua grande rival, a liga espanhola, a primazia desportiva

nas competições continentais: pela primeira

vez na história todas as finais europeias foram exclusivamente

disputadas por clubes do mesmo país, a

Inglaterra no caso — Liverpool-Tottenham na Liga

dos Campeões; Chelsea-Arsenal na Liga Europa;

Liverpool-Chelsea na Supertaça Europeia. Foi a

afirmação de poderio que faltava a uma liga mais

pujante e mediática que nunca.

Naturalmente, os efeitos da pandemia sentem-

-se na mesma proporção: em Inglaterra as perdas

possíveis medem-se em 2,7 mil milhões caso a Premier

não seja reatada, e 1,8 mil milhões mesmo que

seja finalizada — o recomeço está marcado para

17 de Junho. Números astronómicos que ajudam

a explicar a decisão da UEFA de adiar o Europeu

para que as ligas principais pudessem completar

as jornadas em falta. É verdade que a COVID-19

conseguiu imobilizar por completo a Premier, força

centrifugadora capaz de atrair a nata dos futebolistas

e treinadores mundiais; mas, ao contrário da

liga francesa, holandesa e belga, que foram canceladas

relativamente cedo pelos governos dos respectivos

países sem escândalo de maior, a Premier,

como certos bancos, é too big to fail.

LA LIGA REABRE

Demasiado importante para ser cancelada é também

o que se pode dizer da espanhola La Liga, avaliada

em 6,6 mil milhões de euros, onde se encontram

GETTY

junho 2020 | 15


CAPA FUTEBOL REGRESSA

os dois clubes que têm dominado o futebol europeu

no século xxi, o Real Madrid e o Barcelona,

e o outsider Atlético de Madrid, que entrou definitivamente

na reduzida elite dos que compram e

vendem acima dos 100 milhões. Para se ter uma

ideia do poder do futebol espanhol, estes três clubes

juntos gastaram nesta época um total de 801

milhões de euros em reforços (Real: 303; Barcelona:

255; Atlético: 243), um investimento capaz

EM INGLATERRA AS PERDAS

POSSÍVEIS SÃO DE 1,8 MIL MILHÕES

CASO SE CONCLUA A PREMIER

— O RECOMEÇO ESTÁ MARCADO

PARA 17 DE JUNHO

de obrigar qualquer regulador a pensar muito bem

antes de se decidir pelo cancelamento do campeonato.

Em desvantagem no campeonato (dois

pontos atrás do arqui-rival Barcelona) e nos oitavos-de-final

da Champions (perdeu em casa com o

Manchester City por 1-2), o Real Madrid mostrou

como a velha nobreza se comporta num momento

ARHUS: O clube dinamarquês

disponibiliza bilhetes virtuais

COMO MANTER OS ADEPTOS “IN”?

Os adeptos são sempre o que sustenta e dá vida e cor ao futebol,

o maior aglutinador de massas de todos os desportos. A pandemia obrigou

o futebol a pedir aos adeptos que se abstenham de ir aos estádios

por motivos de saúde pública. O final desta temporada está a jogar-

-se assim e vamos ver como será na próxima. Ver o gigantesco estádio

do Borussia Dortmund (Westfalenstadion) completamente vazio

no regresso da Bundesliga foi penoso para quem percebe a importância

dos adeptos, das claques e dos ambientes por eles criados no

desenrolar dos jogos. O único calor humano provinha de um sector

do estádio onde as cadeiras estavam decoradas com fotografias dos

sócios detentores dos lugares — uma ideia certamente replicada das

fotografias de fiéis alinhadas nos bancos de certas igrejas espanholas

e italianas, como se estivessem a “escutar” a prelecção do pároco de

serviço. O mesmo acontece com a visão do imenso estádio da Luz despojado

de gente em vez dos 50 mil adeptos habituais; ou o absurdo

silêncio das bancadas de Anfield Road instantes antes do início do

jogo, quando habitualmente os adeptos entoam a plenos pulmões a

mais bela e sentida de todas as canções do futebol — o famoso “You’ll

Never Walk Alone”. Mas há quem esteja a fazer tudo para não perder o

contacto e a fidelidade dos adeptos. Da Dinamarca vieram duas ideias

admiráveis destinadas a “trazer” os adeptos de volta ao futebol dentro

das limitações actuais.

O Aarhus fechou uma parceria com a plataforma de videoconferências

Zoom e com o canal Discovery Network e disponibiliza bilhetes virtuais

para os adeptos, em casa, poderem “seguir” os jogos no estádio, surgindo

num dos 23 ecrãs gigantes com “lotação” de 575 pessoas (sendo

um destinado aos adeptos adversários) que o clube instalou

nas bancadas — ou bancasas?… — do Ceres Park &

Arena, que tem capacidade para 20 mil lugares. Desta

forma os jogadores podem ver as caras dos adeptos a

apoiarem as equipas e a festejarem cada golo. Um bom

exemplo de criatividade e golpe de asa a que podemos

juntar a ideia doutro clube dinamarquês, o Midtjylland,

que montou um drive-in para 10 mil adeptos assistirem

aos jogos dentro das respectivas viaturas virados para

os ecrãs gigantes dispostos na parte exterior da MCH

Arena. Um expediente que começa a ser seguido um

pouco por todo o lado e não só no futebol.

Resta saber, quando se passar ao passo seguinte —

permitir espectadores nos estádios em número limitado

(um terço ou um quarto da lotação?) — como vai

ser feita a escolha dos que podem preencher as novas

cotas de assistência. E como se vão evitar ajuntamentos

nos transportes para o estádio e nos acessos às bancadas?

Questões que estão a ser atentamente estudadas

com vista à próxima época.

GETTY


CAPA FUTEBOL REGRESSA

de crise. O clube atravessou a pandemia

com a serenidade e contenção que faltou

ao rival catalão, mergulhado numa

crise institucional que, provavelmente,

levará à saída da actual direcção, envolvida

numa série de trapalhadas difíceis

de justificar.

A urgência de recomeçar também se

percebe na série A italiana, que não pára

de crescer e ganhar adeptos à boleia do

icónico Cristiano Ronaldo, de longe a

maior referência do star system futebolístico

mundial. Um dos países mais castigados

pela pandemia — e também um

dos que vai receber mais dinheiro da UE,

cerca de 77 mil milhões de euros —, a

Itália anseia pela normalidade do calcio

os fins-de-semana. Aí o futebol é uma

paixão transversal a todas as regiões e

estratos sociais. Os clubes italianos investiram

quase mil milhões em contratações

nesta época, com a Juventus à cabeça

(190 milhões), seguida pelo Inter (160 milhões),

Roma (98 milhões) e Nápoles (90 milhões). E querem

recuperar o investimento — neste aspecto,

os clubes não são diferentes das outras empresas.

A Alemanha lidou bem com a pandemia e, sem

surpresa, a Bundesliga foi a primeira das grandes

ligas a regressar. Não temos qualquer dúvida de

que o exemplo de eficiência, pragmatismo e sensatez

dado pelo futebol alemão a milhões de telespectadores

europeus animou ingleses, espanhóis e

italianos a concluírem os respectivos campeonatos.

ONDA DE CHOQUE

Em França, o anúncio do governo, no final de

Abril, do cancelamento de todas as competições

desportivas até Setembro causou uma onda de

choque e esteve longe de recolher unanimidade

mesmo numa altura (pico da pandemia) em que

o sistema de saúde francês estava a dar sinais de

colapso. O título foi atribuído ao Paris SG, que

liderava o campeonato com uma vantagem expressiva

de 12 pontos (e um jogo a menos) sobre o

Olympique Marselha de André Villas Boas, que

terminou no segundo lugar com entrada directa

na próxima Champions. As perguntas do género

“não nos teremos precipitado?” começaram a surgir

na imprensa desportiva assim que os franceses

perceberam que, ao contrário deles, outras

ligas europeias não foram sujeitas a uma decisão

tão drástica. Mesmo disponibilizando verbas

significativas para ajudar os clubes a suportarem

PARIS SG:

Liderava o campeonato

francês com uma

vantagem expressiva

e ficou com o título

a paragem recorde (seis meses sem competição nem

receitas), a federação e a liga francesas continuam

a ser objecto de críticas e sê-lo-ão ainda mais se

o Paris SG (apurado para os quartos-de-final da

Champions) e o Olympique Lyon (em vantagem

sobre a Juventus após a primeira mão dos oitavos-

-de-final) acusarem em Agosto a lacuna de tantos

meses sem competição.

ATÉ AGOSTO

As competições europeias prendem milhões à

frente da televisão e são para concluir no mês de

Agosto. A final da Liga Europa está marcada para

o dia 18, em Gdansk, e a final da Champions para

o dia 29, no estádio olímpico Atatürk, em Istambul,

entre a Europa e a Ásia. Será o final possível

de uma época atribulada, a que ficará para sempre

associada à COVID-19.

Acreditamos que nenhum especialista conseguirá

alguma vez apurar o impacto total da pandemia

no futebol. É uma avaliação impossível. Não

foi apenas a interrupção prolongada das ligas de

referência. A paralisação da Liga dos Campeões

e da Liga Europa e o adiamento da fase final do

Europeu trouxeram prejuízos colossais, difíceis de

contabilizar por envolverem uma cadeia de serviços

muito ampla e diversificada, como as viagens

dos adeptos de uns países para os outros, as receitas

da hotelaria e da restauração e os contratos de

sponsorização e direitos televisivos que envolvem

verbas superiores às das ligas mais poderosas. b

18 | Exame Moçambique


CAPA FUTEBOL REGRESSA

COMO SOBREVIVEM

OS NOSSOS CLUBES

Com o Estado de Emergência em vigor, o campeonato nacional de futebol, Moçambola,

não arrancou. Os clubes viram os seus patrocínios reduzidos para mais de metade devido

aos impactos da COVID-19, colocando-os numa situação de crise financeira preocupante

VALDO MLHONGO

É

um facto que em Moçambique o futebol

está longe de ser uma actividade rentável,

tal como ocorre na Europa e em alguns

países africanos. Aliás, grande parte dos

clubes do futebol da maior competição em

Moçambique, vulgo Moçambola, depende quase a

100% dos patrocínios concedidos pelas empresas

para sobreviver. Ora, com a crise causada pela pandemia

de COVID-19 e o seu impacto nas empresas,

muitos desses clubes viram as suas receitas reduzidas,

situação que os coloca numa situação crítica

do ponto de vista financeiro. Jeremias da Costa,

presidente do Clube de Desporto da Costa do Sol,

um dos grandes do Moçambola e com o maior

número de títulos conquistados ao longo da respectiva

existência, fala da receita perdida devido

ao impacto da COVID-19: “Muitos parceiros nossos

que davam alguma contribuição retraíram-se

devido às dificuldades das suas empresas”, refere o

presidente do Clube de Desporto da Costa do Sol,

sem avançar números. Jeremias da Costa adiantou

à EXAME que, neste momento, o clube não consegue

gerar receitas próprias. “Dependemos da boa

vontade dos nossos parceiros”, assume o presidente

do clube, que tem como maior parceiro a empresa

pública Electricidade de Moçambique.

Um outro “gigante” do Moçambola que passa

pelas mesmas dificuldades é o clube Ferroviário

de Maputo. A crise causada pela pandemia de

COVID-19 forçou a uma redução de mais de metade

do orçamento do clube em termos de patrocínios.

“Vimos aquilo que é o nosso patrocínio, a partir do

20 | Exame Moçambique


mês de Abril, reduzir-se a metade”, refere Teodomiro

Ângelo, presidente do Ferroviário de Maputo.

“E, consequentemente, tivemos de reduzir o salário

dos nossos atletas e técnicos para metade. Podemos

pagar apenas 7% do orçamentado neste momento.

Quanto ao resto, vivemos dos patrocínios, que também

foram afectados pela crise”, acrescenta. O cenário

agrava-se ainda mais quando se trata de clubes

sem patrocinadores. É o caso do clube Desportivo

de Maputo, um dos históricos do país, que sobrevive

com o pouco que ganha com o arrendamento

das suas infra-estruturas. E, agora, com “o campeonato

parado devido à pandemia não temos obtido

nenhuma receita para o clube, e sentimos bastante

isso”, diz Issofu Mahomed, vogal responsável pela

infra-estrutura do Desportivo de Maputo. Mohamed

acrescenta que o clube gastava mensalmente

em salários cerca de 2 milhões de meticais, ou seja,

anualmente são destinados à equipa sénior 24 milhões

de meticais. Mas com a crise instalada a tesouraria

SÉRGIO MANJATE

GRANDE

PARTE DOS

CLUBES DO

MOÇAMBOLA

DEPENDE

QUASE A

100% DE

PATROCÍNIOS

MOÇAMBOLA:

Os clubes

debatem-se

com o recuo

dos patrocínios

não chega para pagar a tempo os salários dos jogadores.

“Com alguma coisa que ainda existia nos

cofres pagámos 50% dos salários no mês passado.

Este mês (Junho), estamos à espera de uma entrada

para pagarmos os outros 50%”, refere, acrescentando

que “os jogadores já estão informados sobre a situação

actual do clube e entenderam”.

Mesmo assim, apesar do cenário actual, o clube

da Costa do Sol, que também é campeão nacional

em título, é talvez dos poucos que ainda continua

a pagar os salários a 100% aos seus atletas. “Felizmente

ainda temos alguns parceiros que se mantêm

embora numa perspectiva diferente, mas vão

dando alguma contribuição que nos permite honrar

os nossos compromissos”, explica.

REALIDADE DIFÍCIL

Em condições normais seriam necessários cerca de

2 milhões de dólares para realizar o campeonato

nacional de futebol, disse à EXAME Ananias Cuane,

presidente da Liga Moçambicana de Futebol. “Neste

momento o orçamento que foi aprovado para os

14 clubes, tendo em conta a realidade do nosso campeonato,

é de cerca de 90 milhões de meticais, dos

quais já estão garantidos 62 milhões de meticais”,

esclareceu o presidente da Liga Moçambicana de

Futebol. “A nossa gestão foi sempre muito criteriosa

para podermos, mesmo com défice orçamental, iniciar

o campeonato e conseguirmos chegar ao fim”,

acrescentou. Cuane diz que a crise económica que

o país atravessou nos últimos anos e o problema da

COVID-19 contribuíram para a redução do número

de empresas que patrocinam o campeonato nacional.

Actualmente apenas seis empresas estão a patrocinar

a Liga. Faizal Sidat, presidente da Federação

Moçambicana de Futebol, diz que com a crise causada

pela pandemia muita coisa mudou. “Isto tudo

veio complicar o nosso calendário competitivo e as

nossas finanças. Contávamos com alguma receita

proveniente dos nossos parceiros e outra vinda da

bilheteira, mas neste momento só temos despesas,

não temos receitas. E alguns parceiros também

se retraíram”, adianta o presidente da Federação

Moçambicana de Futebol, sem apontar números.

A situação real dos clubes de futebol sénior é preocupante.

Sem patrocínios os clubes não conseguem

produzir receitas capazes de cobrir os custos das

suas actividades. É quase certo que sem apoio das

empresas nenhum clube sobreviveria. “Esta crise

trouxe grandes problemas aos clubes do Moçambola”,

diz Sidat.

Uma situação difícil a actual, mas que os clubes

estão decididos a suplantar.b

junho 2020 | 21


CAPA FUTEBOL REGRESSA

NO FIO DA NAVALHA

Em Portugal, a paragem da Primeira Liga originou um prejuízo na ordem dos

150 milhões euros a um futebol cada vez menos competitivo e que poderá aproveitar

a crise para se reinventar

ANDRÉ PIPA

O FUTEBOL

PORTUGUÊS

TEM DE MUDAR

DE VIDA PARA

SER

COMPETITIVO

NO CONTEXTO

EUROPEU

Apandemia pode ter mudado a face do

futebol profissional português para

sempre? Apetece dizer: era desejável

que sim, dado que ninguém de bom

senso e com os pés assentes na terra

pode defender a manutenção do modelo actual do

futebol português, cada vez mais desligado da realidade

do país, cada vez menos competitivo, cada vez

mais periférico no contexto europeu. O presidente

da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), Fernando

Gomes, foi o primeiro a aproveitar a paragem forçada

da competição e os danos imediatos causados

à maioria dos clubes para lançar um vigoroso alerta

em forma de carta aberta publicada em vários jornais

portugueses. Esse texto pode ficar na história como a

primeira pedra de um novo edifício que tantos desejam

(ou dizem desejar) mas que ninguém parece ter

vontade de construir. Disse Fernando Gomes, basicamente:

meus senhores, o futebol português assim

como está não é um produto viável, precisa de mudar

de vida e de hábitos para ter alguma hipótese de continuar

a ser competitivo no contexto europeu... e vendável

no mercado exterior. Gomes sabia que a maior

parte dos clubes já se encontrava no fio da navalha e

entendeu ser esta uma oportunidade única de sensibilizar

todos os agentes para a mudança que tem de

ser feita. As ideias e pistas que sugeriu nesse documento

apontavam expressa ou subliminarmente para

a reformulação dos quadros competitivos (“temos

de construir provas rentáveis, relevantes e viáveis;

plantéis mais curtos; maior aposta nas equipas B e

de sub-23”), redução do número de jogadores profissionais

(“o futebol português, com a dimensão que o

país tem, não tem condições para garantir cerca de

dois mil empregos de qualidade”) e a alteração do

modelo de negócio (mais igualdade na distribuição

22 | Exame Moçambique


de receitas, aposta clara na venda dos direitos televisivos

para outros países, grandes não podem depender

tanto dos dinheiros da UEFA).

Um discurso racional e sensato em tempos de

angústia e incerteza que, sem surpresa, foi recebido

com um coro geral de aprovação. Na verdade,

Gomes apontou caminhos viáveis para a regeneração

que realmente urge fazer no quadro competitivo (e

comportamental...) do futebol português. A questão

é que anda “toda” a gente a reconhecer isto há tantos,

tantos anos..., mas mudanças... zero. Sempre adiadas

por este ou aquele motivo. Basta ver o que aconteceu

assim que se aproximou o reinício do campeonato.

Os debates em vários fóruns sobre assuntos prementes

levantados pelo presidente da FPF, como a redução

de equipas na Primeira Liga (12 é um número

frequentemente citado) e a distribuição mais equitativa

dos direitos televisivos, deram progressivamente

lugar às quezílias clubísticas, rivalidades doentias

e discussões estéreis que infelizmente alimentam

o futebol doméstico há bem mais de três décadas.

Como se nem um acontecimento com a gravidade

da pandemia fosse capaz de alterar a essência

do futebol de clubes em Portugal (a selecção é outra

conversa...) em que a esperteza, a capacidade de tecer

alianças (ainda que de ocasião), o

tráfico de influências, as trocas de

favores e o jogo de cintura continuam

a ter um papel preponderante

na competição. Demasiado

preponderante.

A Primeira Liga voltou ao activo

por uma razão muito simples:

garantir a sobrevivência do futebol

profissional de elite, embora

neste lote se contem vários clubes

“eternamente” endividados que

não conseguem atrair, em média,

mais do que 2 a 3 mil espectadores

nos jogos caseiros. A Segunda

Liga foi cancelada por uma questão

igualmente muito simples:

não gera receitas suficientes para

justificar os gastos da “operação

retoma”. Uma cenoura de milhão

e meio disponibilizada pela Federação

portuguesa e pela Liga de

Clubes serviu para amenizar perdas

e queixumes aos clubes do

escalão secundário e demover os

mais contestatários.

O campeonato nos “novos”

moldes difere muito do habitual.

A PRIMEIRA

LIGA VOLTOU

AO ACTIVO

PARA

GARANTIR A

SOBREVIVÊNCIA

DO FUTEBOL

PROFISSIONAL

DE ELITE

RICARDO QUARESMA: Tornou-se um dos símbolos

da qualidade dos jogadores portugueses

Parece mais uma experiência laboratorial do que

uma competição de massas. Há estádios sem público

e sem o calor dos adeptos, e a verdade desportiva

fica em causa a partir do momento em que há equipas

que não fazem um único jogo em casa. Mas não

vale a pena torcer o nariz e apontar falhas e incongruências,

que são algumas. Foi o modelo possível

dentro das exigências da Direcção-Geral da Saúde

portuguesa e atendendo à urgência de os clubes voltarem

a competir para não perderem mais receitas

— televisivas à cabeça. A alternativa seria bem pior:

não se retomando a competição, é voz corrente que

a maior parte dos clubes da Primeira Liga provavelmente

entraria em falência antes do início da próxima

época. Lembre-se: se em meados de Abril, ao

fim de um mês de paragem, já todos se encontravam

em situação periclitante (com excepção do Benfica

ainda e muito por força do fabuloso encaixe com a

venda de João Félix), imagine-se o que lhes aconteceria

se o futebol só regressasse em meados de Agosto

ou Setembro, como em França, na Holanda e na Bélgica.

Nem é preciso fazer um desenho. Havia e continua

a haver um certo risco na retoma, isso é inegável,

mas os clubes portugueses não tinham outra saída.

É a sua própria sobrevivência que está em causa e nem


CAPA FUTEBOL REGRESSA

vale a pena lembrar que os três maiores clubes portugueses

— os únicos de verdadeira dimensão europeia

— acumulam défices (mais de mil milhões os

três juntos) que certamente não seriam vistos com

tanta benevolência noutros sectores de actividade.

BENFICA DESAFOGADO

Entre os maiores clubes portugueses, o efeito da pandemia

não se fez sentir da mesma forma. O Benfica

foi o que resistiu melhor à crise por ser aquele que

se encontra em situação financeira mais desafogada.

A 7 de Março passado o Benfica apresentou um resultado

líquido de 104,2 milhões de euros, no melhor

desempenho da história da SAD. É verdade que o passivo

aumentou quase 21 milhões de euros (cifrando-

-se agora em 383,3 milhões), mas a divida líquida

baixou para os 45,9 milhões de euros, o valor mais

baixo dos últimos anos. A venda, há quase um ano,

de João Félix por números estratosféricos (encaixe de

108,2 milhões, descontadas as comissões, um negócio

sensacional intermediado pelo agente Jorge Mendes)

permitiu à direcção de Luís Filipe Vieira liquidar

em plena pandemia um empréstimo obrigacionista

de 50 milhões de euros, ficar com outros 50 milhões

em caixa e manter intactos os salários da equipa de

futebol, ou seja, sem os cortes (entre 30 e 40%) que

os rivais Sporting e FC Porto impuseram nos respectivos

plantéis.

É claro que o Benfica respira muito melhor que os

grandes rivais, mas o futuro próximo não se apresenta

assim tão animador para os adeptos tendo em

conta os sinais que têm sido sugeridos no discurso

oficial e que apontam para um travão às contratações

(lembre-se que o Benfica nesta temporada gastou

57 milhões euros em três jogadores — tendo recuperado

20 milhões com a venda de Raúl de Tomás) e,

de um modo geral, uma tendência de contenção de

despesas em todas as áreas. Que levará ao mais que

previsível adiamento do “projecto europeu” — aquilo

que tem sido o falhanço mais evidente no consulado

de Luís Filipe Vieira. Isso mesmo reconheceram há

cerca de um mês duas figuras importantes do “benfiquismo”,

o campeão europeu António Simões, que

disse o seguinte: “Este Benfica é indiscutivelmente

curto, não tem qualidade para competir com os verdadeiros

candidatos na Liga dos Campeões, não tem

qualquer hipótese. É preciso trazer jogadores para

jogar e não para serem comprados por dez e vendidos

por vinte. Assim a promessa (de um Benfica

europeu) não poderá ser realizada.” Já Rui Costa,

em declarações à BTV por ocasião do 58.º aniversário

do célebre 5-3 ao Real Madrid em Amesterdão,

reconheceu que “o Benfica tem de recuperar rapi-

O SPORTING

DE FIGO E

RONALDO

APOSTA NUMA

SÉRIE DE

JOVENS

TALENTOSOS,

MAS AINDA

SEM PROVAS

DADAS

NEYMAR:

Messi quer vê-lo de

novo em Barcelona

TRANSFERÊNCIAS:

A maior fonte de

receitas do futebol

português

ERLING HAALAND:

O goleador norueguês

do Dortmund é a

revelação da

temporada e pode

protagonizar uma

transferência

24 | Exame Moçambique


MERCADO EM BANHO-MARIA

De que forma a pandemia pode afectar o mercado

de transferências?

Há um estudo interessante da consultora holandesa

KPMG Sports que conclui que “os clubes

mais penalizados pela crise pandémica serão,

sem dúvida, aqueles cujos orçamentos estão

mais dependentes da venda de jogadores”,

uma vez que se espera uma forte retracção

do mercado de transferências. É precisamente

o caso português, um país tradicionalmente

formador-exportador. O relatório da KPMG

acrescenta que “o menor volume de entradas

e saídas de jogadores sucederá por dois

motivos essenciais: todos os clubes perderam

receitas de bilheteira, comerciais e televisivas,

além de que, com as economias dos

países em crise, os adeptos emocionalmente

abalados pela pandemia não irão ver com bons

olhos que se paguem fortunas por jogadores”.

Em Portugal, muito mais que as receitas televisivas,

de bilheteira e de merchandising, as

transferências são e sempre foram aquilo que

verdadeiramente alimenta a incipiente indústria

de futebol portuguesa — incipiente por o

mercado não ter dimensão nem o produto ter

qualidade suficiente para a exposição internacional.

É através das vendas de jogadores que

os clubes mais pequenos conseguem encaixes

financeiros para pagarem despesas, elaborarem

orçamentos mais ambiciosos e investirem

em infra-estruturas e meios que lhe permitam

crescer. Este é um ciclo eterno que permite

o desenvolvimento do futebol. É através

das transferências que os clubes com mais

posses conseguem os melhores jogadores do

mercado, continuando a ser mais competitivos

que os outros. O dinheiro das transferências

alimenta boa parte da máquina montada

em torno do futebol, sobretudo quando os

negócios são milionários. Veja-se como o

Benfica não sentiu como os outros os efeitos

económicos da pandemia por ter encaixado

108 milhões de euros com a venda de um jogador

— João Félix. Os consultores da KPMG

antecipam ainda que muitas equipas, sobretudo

as de menores recursos, “irão apostar

mais nos jogadores da formação”. Outra das

tendências previstas é a da “contratação de

futebolistas em final de contrato”, o chamado

custo zero, bem como a “troca de jogadores

entre clubes”. Neste momento, “despachados”

os promissores João Félix e Francisco

Trincão (vendido pelo Braga ao Barcelona por

30 milhões) e o consagrado Bruno Fernandes

(o melhor jogador em Portugal nos últimos

dois anos), não se vê ninguém com capacidade/estatuto

suficiente para poder protagonizar

uma transferência de largos milhões

— sem esquecer que os jovens portugueses

continuam no topo das preferências dos grandes

clubes europeus. Se o mercado português

se pode queixar dos efeitos pandemia na sua

principal fonte de receitas, a venda de jogadores,

em termos internacionais não faltam

nomes prontos a entrar no mercado de fabulosas

transacções. Há um conjunto de jogadores

que, em condições normais, poderiam ser transferidos

este Verão por somas astronómicas: o

avançado argentino Lautaro Martinez (Inter);

o jovem goleador norueguês Erling Haaland

(Dortmund), sem dúvida alguma a maior revelação

da temporada; a vedeta brasileira Neymar

(Paris SG), que Messi deseja de novo em

Barcelona; o médio francês Paul Pogba (Manchester

United), alegadamente pretendido pela

Juventus, Real Madrid e Paris SG, mas sempre

envolto em polémicas mais ou menos estéreis;

o magnífico avançado francês Kylian Mpapée

(Paris SG), provavelmente o mais capacitado

para suceder à dupla Ronaldo-Messi no trono

do futebol mundial; o egípcio Mohamed Salah

(Liverpool), um dos talentos mais “desequilibradores”

da actualidade; e o senegalês Sadio

Mane (Liverpool), a seta africana que conquistou

a bancada mais efusiva do Mundo (o Kop

de Anfield Road). Eles têm surgido dia após

dia nos maiores diários desportivos europeus

e vão continuar a alimentar folhetins, mas é

bem possível que no final do Verão… a maioria

não tenha mudado de camisola.

junho 2020 | 25


CAPA FUTEBOL REGRESSA

damente a condição de grande clube de top europeu

após três campanhas consecutivas falhadas na

Liga dos Campeões”.

Rui Costa tem razão. O Benfica sempre foi grande

na Europa até à perda progressiva de competitividade

ocorrida a partir de meados dos anos 90 e que Jorge

Jesus maquilhou com duas finais seguidas na Liga

Europa (2013, 2014) após uma presença nos quartos-de-final

da Champions (2012). Mas a promessa

de recuperação foi sol de pouca dura: a verdade é

que o Benfica mais poderoso dos últimos anos não

consegue, por norma, passar da fase de grupos da

Champions. Ao fim de tantos anos na presidência,

Luís Filipe Vieira parece ainda não ter percebido que

enquanto estiver confinado a uma dimensão unicamente

doméstica o Benfica não conseguirá ser visto

pelos agentes dominantes do jogo como um produto

apetecível, à imagem do peso-pesado que efectivamente

foi há mais de cinquenta anos.

Clube habitualmente vendedor, ou não fosse a vertente

negocial o cunho mais marcante da gestão de

Vieira nos últimos anos (grandes vendas e significativas

mais-valias... em detrimento da ambição desportiva,

acusam os rivais na corrida à presidência), o

Benfica sabe que o mercado nos próximos tempos não

será tão generoso e poderá demorar algum tempo a

chegar aos valores que eram praticados antes da pandemia

— se voltar a chegar. Como também sabe que

os seus futebolistas mais cotados (Rúben Dias, Pizzi,

Grimaldo, Rafa Silva, Gabriel...) perderam valor no

rescaldo de mais uma campanha fracassada na Liga

dos Campeões, a competição-montra onde se forjam

os grandes negócios. A qualidade indiscutível (e

os vinte golos) do avançado brasileiro Carlos Vinicius

podem, no entanto, assegurar mais um grande

negócio ao Benfica no defeso. É que os goleadores

têm sempre mercado.

O Benfica, como o FC Porto, só tem um objectivo

verdadeiramente importante até ao dia 26 de Julho:

ganhar o campeonato para garantir a entrada directa

na próxima Champions e os 40 milhões correspondentes.

A qualificação directa é importante porque a

perda evidente de competitividade dos clubes nacionais

na Europa tornou as pré-eliminatórias de acesso

à Champions ainda mais arriscadas, como se viu na

presente temporada com a surpreendente eliminação

do FC Porto às mãos de um clube sem qualquer

expressão europeia, o Krasnodar (Rússia). Se o Benfica

for campeão, será o sexto título nos últimos sete

anos, acentuando a primazia doméstica sobre o rival

portista. É claro que se ganhar um campeonato que

a certa altura parecia ganho e depois estava a caminho

de ser perdido (na altura da interrupção), o presidente

Luís Filipe Vieira avança para as eleições de

Outubro numa posição mais confortável.

FC PORTO ENDIVIDADO

A eliminação com o Krasnodar e perda consequente

de 40 milhões previstos no orçamento representou

um golpe duríssimo para a tesouraria do FC Porto.

Obrigado a realizar cerca de cem milhões de euros até

ao Outono para não voltar a cair sob a alçada disciplinar

da UEFA (além de ter de liquidar um empréstimo

obrigacionista incumprido em plena pandemia),

o FC Porto vive um dos momentos mais delicados da

longa presidência (38 anos) de Pinto da Costa, que

tem pela primeira vez, em muitos anos, oposição

nas próximas eleições. Lembre-se que a SAD portista

apresentou um resultado líquido consolidado

negativo de 51,854 milhões de euros no primeiro

semestre da época corrente, justificado no relatório

pela não qualificação para a Champions. O passivo

ascendeu a 444,526 milhões de euros, um aumento

de 36,421 milhões relativamente ao exercício anterior.

Ou seja, com as contas no vermelho, apesar de ter

activos interessantes, o FC Porto é, dos três grandes

clubes portugueses, aquele que mais precisa de ganhar

o campeonato para garantir desde logo a injecção

O BENFICA RESISTE

FINANCEIRAMENTE POR FORÇA

DO FABULOSO ENCAIXE COM

A VENDA DE JOÃO FÉLIX

de 40 milhões da presença na Champions. Mas não

chega. Pelo segundo ano consecutivo o FCP sabe que

tem de vender vários jogadores, o que, naturalmente,

não deixará de ter reflexos na capacidade competitiva

da equipa. Lembre-se que no Verão passado Sérgio

Conceição viu sair quase meia equipa titular (Eder

Militão, Felipe, Brahimi, Herrera, Oliver...), em dois

casos sem retorno financeiro, coisa impensável no

FCP de outros tempos.

Na altura da interrupção, o FC Porto liderava o

campeonato depois de ultrapassar sensacionalmente

o Benfica. Mas, desde então, as notícias (e especulações)

mais relevantes sobre o universo portista versam

sobre a crise financeira e a necessidade de o clube

vender para equilibrar as contas. Pelo que sem tem

lido, o treinador Sérgio Conceição vai perder vários

avançados no defeso — Tiquinho Soares, Moussa

Marega e Zé Luis estarão de saída — e ainda os centrais

Diogo Leite (Valência ou Sevilha?), Alex Telles

(apalavrado com o PSG) e o extremo mexicano

26 | Exame Moçambique


RECEITA:

A ida de João

Félix para o

Atlético de Madrid

deu ao Benfica

fôlego financeiro

para resistir à

paragem

Jesus Corona, “que meia Europa quer” e cujo preço a

SAD portista já fixou em 30 milhões. Em face disto,

os adeptos questionam que equipa terá Sérgio Conceição

na próxima época, lembrando que o FCP tem

vindo progressivamente a perder qualidade e competitividade

a nível internacional. Os factos mostram

que o FCP com Sérgio até tem sido mais competitivo

que o próprio Benfica, já que luta até ao fim em todas

as frentes — no campeonato e nas taças.

Não é fácil prever quem ganhará o campeonato,

mas sabe-se que o FC Porto chegou à liderança depois

de anular a expressiva desvantagem (7 pontos) para o

Benfica... e que tem vantagem no confronto directo

com os encarnados (duas vitórias e um total de 5-2).

Se for o FCP campeão, a leitura que se fará parece-

-nos óbvia: ganhar um segundo campeonato em três

anos numa conjuntura económica altamente desfavorável

(sobretudo quando comparada com a do

Benfica) será sempre uma proeza assinalável; e talvez

represente para o hipertitulado presidente do

clube, Pinto da Costa, uma das vitórias mais saborosas

sobre o homólogo benfiquista — que, por sua

vez, terá muitas dificuldades em explicar aos adeptos

a perda de um segundo campeonato em três anos

para um FCP endividado e empobrecido.

SPORTING, FÉ NO TREINADOR

A situação financeira do Sporting é preocupante,

embora o seu presidente, Frederico Varandas, não se

canse de sublinhar que “era bem pior” quando chegou

à presidência do clube. Com um resultado negativo

de 11,4 milhões (uma redução de 7,7 milhões relativamente

ao exercício anterior) e o passivo a aumentar

de 378 para 421 milhões (venda de Bruno Fernandes

ainda não contabilizada), Varandas não tem tido a

vida fácil. Contestado por uma franja significativa de

adeptos e fragilizado por várias demissões na própria

equipa directiva, jogou a própria sobrevivência

na contratação do prometedor treinador Rúben

Amorim, que passou pelo Braga com o brilho de um

cometa. Amorim custou 10 milhões (a que já acrescem

cerca 4 milhões por o clube ter falhado os primeiros

pagamentos) e é nele que Varandas assenta o

plano estratégico para os próximos dois anos. O plano

prevê a qualificação para a Champions e o regresso

em força à formação como pedra-de-toque do novo

edifício futebolístico leonino. Tudo isto sem esquecer

que o presidente que ora defende convictamente

a capacidade de Rúben Amorim é o mesmo que, no

espaço de um ano, deu guia de marcha a quatro treinadores:

José Peseiro, Marcel Keizer, Leonel Pontes

e Jorge Silas. Mas mesmo com essa incongruência, o

futebol profissional do Sporting parece estar a trilhar

caminhos mais lógicos e realistas depois de Bruno

de Carvalho ter feito — e desperdiçado — o maior

investimento de sempre na história do clube sem

resultados assinaláveis no futebol. No ano corrente,

que ficará para a história como o da pandemia, três

presidentes chegaram à conclusão de que o treinador

Rúben Amorim tem mesmo algo de especial: António

Salvador. Luís Filipe Vieira. E Frederico Varandas,

que se chegou à frente com uma verba jamais

vista no futebol português.

É possível que Rúben Amorim pertença a essa

categoria de treinadores verdadeiramente especiais,

habilitados a criar empatia e um sentimento

de confiança generalizada entre os que o rodeiam

junho 2020 | 27


CAPA FUTEBOL REGRESSA

ARGUMENTOS PARA O EUROPEU

Foi lógica e sensata a decisão da UEFA de adiar o Europeu

de 2020, dito “das cidades” (será disputado em 12 cidades de

12 países: Bilbau, Dublin, Londres, Glasgow, Munique, Amesterdão,

Copenhaga, Roma, Budapeste, Bucareste, Moscovo e

Baku) para o Verão de 2021. O orçamento da FPF para esta

época previa receitas “de participação das selecções em

competições de 13,9 milhões de euros”, uma verba significativa

cuja maior fatia provinha da participação no Europeu

(9,25 milhões só de prémio de presença). Mas trata-se apenas

do adiamento de uma receita garantida. Por outro lado,

a pandemia permitiu a Portugal tornar-se o primeiro país

campeão da Europa durante cinco anos e não os quatro da

ordem. No aspecto desportivo, haverá vantagens e algumas

desvantagens. Todos os jogadores terão mais um ano nas pernas

o que, no caso do mais decisivo de todos (CR7, que terá

36 anos), pode não ser bom, sem esquecer os acréscimos dos

veteranos centrais Pepe (38) e José Fonte (37) e do médio

João Moutinho (34). Por outro lado, o adiamento permite a

outro jogador de top, o médio Bruno Fernandes, chegar ao

próximo Europeu (cuja final está marcada para Londres) com

um estatuto de superestrela que seria difícil ter este Verão,

apesar da rapidez com que se impôs no Manchester United.

Outro jogador de grande potencial a quem o adiamento

pode beneficiar é João Félix (20 anos),

cujo rendimento na época de estreia do Atlético

de Madrid tem sido muito aquém do que se

esperava. Um ano mais de experiência numa liga

tão dura e competitiva como a espanhola poderá

ajudá-lo a encontrar o seu espaço na selecção.

HÁ UM CONJUNTO DE JOGADORES

QUE, EM CONDIÇÕES NORMAIS,

PODERIAM SER TRANSFERIDOS

ESTE VERÃO POR SOMAS

ASTRONÓMICAS

e trabalham com ele. São esses os sinais que chegam

de Alvalade, depois da curta, mas impressionante,

estadia de Rúben em Braga, marcada pela conquista

da Taça da Liga e por uma sequência extraordinária

de cinco vitórias consecutivas sobre os três grandes.

Aquilo que importa neste momento aos sportinguistas,

mais do que a posição final no campeonato

(atrás ou à frente do Braga), é saber como vai Rúben

Amorim fazer o onze da próxima época, sabendo-

-se que está disposto a apostar numa série de jovens

talentosos mas ainda sem provas dadas no futebol

de primeira linha. Citem-se Eduardo Quaresma,

Gonçalo Inácio, Matheus Nunes, Joelson Fernandes,

Tiago Tomás e o mais rodado Gonzalo Plata, entre

os que têm sido mais falados. Eles representam o

regresso lógico do clube à formação, um sector onde

o Sporting produziu talentos de uma excepcionalidade

nunca igualada na história do futebol português

(Cristiano Ronaldo, Luís Figo e Paulo Futre, por

exemplo). Varandas conta com Rúben para o início

de uma nova vaga, mas os adeptos também sabem

que o Sporting continua vendedor. Sendo certo, por

outro lado, que nenhuma fornada de jovens talentos

consegue crescer e evoluir sem estar amparada

por um núcleo duro de jogadores experientes... e de

qualidade. Foi o que aconteceu aos teenagers Ricardo

Quaresma e Cristiano Ronaldo no Sporting de Lazlo

Bolöni: estavam enquadrados por João Vieira Pinto,

Mário Jardel, Paulo Bento, Pedro Barbosa e Sá Pinto,

entre outros. Na noite de 28 de Abril de 2002, a bela

Praça do Município em Lisboa encheu-se de adeptos

sportinguistas que cantaram a plenos pulmões:

“Só eu sei porque não fico em casa.” Comemoravam

a última vitória dos leões no campeonato. É difícil,

atentando na conjuntura actual, imaginar que o Sporting

de Rúben Amorim consiga reunir meios que lhe

permitam um novo título a breve prazo.b

28 | Exame Moçambique


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

O PALADAR D’TERRA

Era auxiliar da mãe no fabrico de bolos e salgados. Hoje, através da marca

O Paladar D’Terra, Sónia Matsinhe faz pães nutritivos à base de farinha de trigo

e tubérculos (mandioca e batata-doce) e quer ir longe

VALDO MLHONGO

Foi como ajudante no fabrico

dos tradicionais bolos de aniversário

e salgados que Sónia

Matsinhe descobriu o caminho

para o início de um novo

negócio, nutritivo e saudável. “Tempos

depois comecei a ter necessidade de querer

fazer algo diferente, inovar na área gastronómica”,

revela a empresária de pães

nutritivos em conversa com a EXAME.

O primeiro passo foi a pesquisa, precisamente

em 2017. “Sim, comecei a pesquisar

na Internet e observei que a tendência

era mesmo para a alimentação saudável,

ou seja, as pessoas começavam a adoptar

um estilo de vida saudável”, refere a

empreendedora de 40 anos. “Essas pesquisas

levaram-me à descoberta de pães

nutritivos. Daí, fui fazendo alguns cursos

on-line para aprimorar o conhecimento”,

explica a dona da marca O Paladar

D’Terra. A pesquisa durou cerca de um

ano, durante o qual concebeu um trajecto

de crescimento para um novo modelo de

negócio, o fabrico de pães nutritivos feitos

à base de farinha de trigo e tubérculos

(mandioca e batata-doce). Os primeiros

clientes foram os colegas de trabalho.

“Sabe, quando lhes falei do pão estranharam,

mas muito rapidamente, depois de

provarem, gostaram”, refere com um sorriso

de satisfação. E hoje o cenário mudou.

“São meus clientes”, conta, orgulhosa.

No início a produção era dirigida a um

TRATA-SE DE UM PÃO

FORTIFICADO, NUTRITIVO,

ENERGÉTICO, FONTE

DE VITAMINAS E DE

CARBOIDRATOS, QUE

PROLONGA A SENSAÇÃO

DE SACIEDADE

número muito reduzido de clientes, mas,

com o tempo, os pedidos foram aumentando

e a carteira de clientes também se

alargou. Actualmente trabalha com quase

quatro dezenas de clientes, entre fixos e

ocasionais. “Claro que ainda não estou

satisfeita... são etapas de crescimento que

devem ser seguidas”, refere a empresária,

que tem como desafio atacar o mercado

das pastelarias e lanchonetes.

Os pães têm o formato de pão de forma e

apresentam-se em três tamanhos: pequeno,

médio e grande. “Até agora consigo arrecadar

uma média mensal de 8 mil meticais,

num investimento de 3 mil meticais.

Isto é apenas o começo”, adianta, confiante.

O fabrico segue o processo normal

de produção do pão. “É como fazer o

pão normal, apenas acrescento os tubérculos.

Ah, também adiciono ovo e manteiga.

Esse processo (produção) leva mais

ou menos seis horas. Adquiro a matéria-

-prima num dos mercados mais famosos

da cidade de Maputo, Fajardo. “É lá que

EDILSON TOMÁS

30 | Exame Moçambique


SÓNIA

MATSINHE

IDADE: 40 ANOS

NATURALIDADE:

MAPUTO

NOME DO NEGÓCIO:

O PALADAR D’TERRA

RAMO: ALIMENTOS

SAUDÁVEIS

NÚMERO DE

TRABALHADORES: 2

SÓNIA MATSINHE: Quer ser

uma referência na produção

de produtos saudáveis


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

NUTRITIVOS: Pães feitos

à base de farinha de trigo

e tubérculos

FORMATO: Os pães oferecem-se

no formato do tradicional pão de forma

compro a mandioca e a batata-doce. Tenho

fornecedores fixos, e o resto do material,

como o inhame e a cenoura, arranjo com

facilidade por aqui.”

O INÍCIO DE TUDO

A empreendedora reconhece que o início

não foi fácil. “Houve descrença por parte

da minha família mas, à medida que me

fui aperfeiçoando, começaram a perceber

que afinal era possível fazer coisas diferentes”

com um produto tão comum como o

pão “e fui, à medida que o tempo passava,

conquistando a confiança deles”. Será este

um pão diferenciado? “Sim, é fortificado,

nutritivo, energético, fonte de vitaminas,

fonte de carboidratos e prolonga a sensação

de saciedade”, explica.

A criatividade da Sónia Matsinhe na

produção de produtos saudáveis não se

fica pelo pão. Matsinhe é também especialista

na produção de geleias feita à base

de casca de fruta (manga, papaia, maracujá),

bem como na produção de biscoitos

feitos com cascas de banana e semente

de papaia e de abacate, e ainda na produção

de cálcio feito à base de casca de ovo.

“Na verdade, reinvento receitas de acordo

com as inspirações que vou tendo”, refere.

“Não gosto de desperdício.” Os preços

variam entre os 3 mil e os 5 mil meticais.

EDILSON TOMÁS

A empreendedora salienta que os seus

produtos são feitos a pensar em pessoas

com algum tipo de restrição alimentar.

“Refiro-me a diabéticos e praticantes de

exercício físico, entre outros”, esclarece.

“Estou em processo de formalização do

negócio e de mudança do nome”, revela.

Actualmente usa o nome Pão Com Tubérculo

como a marca do seu negócio, mas

“vou já mudar para O Paladar D’Terra,

é mais abrangente e dá ênfase aos produtos

naturais”.

E planos para o futuro? “Esses não faltam”,

diz, sorrindo. “Quero ser uma referência

nacional na produção de produtos

saudáveis.” Até lá, o caminho a ser percorrido

é longo. E há que, antes do mais,

investir no marketing da marca a ser lançada.

Uma realidade da qual a empreendedora

está ciente. “Hoje, as plataformas

digitais são um instrumento muito importante

para qualquer negócio. É por isso que

tenho estado a trabalhar na sua utilização

para me dar a conhecer”, conclui. b

32 | Exame Moçambique


maio 2020 | 33


NEGÓCIOS FINANÇAS

FINTECHS:

Irão ter uma

comunidade

com serviços

partilhados

no país

OPORTUNIDADE

DE OURO PARA

AS FINTECHS

MOÇAMBICANAS?

Com o novo coronavírus aumenta a procura por novas

tecnologias financeiras, abrindo oportunidades a empresas

inovadoras. Mas como é que a tesouraria de uma startup

que ainda mal tem mercado enfrenta um mundo

em abrandamento e confinado? João Gaspar, presidente

da Fintech.mz, fala dos dois lados da moeda

O

sector das fintechs em

Moçambique não escapa

às dificuldades provocadas

pelo impacto da COVID-19,

mas o momento que se vive

é também “uma oportunidade de ouro” para

estreitar a relação entre as startups financeiras

digitais e a área da banca e seguros,

defende João Gaspar, presidente da Fintech.

mz, associação moçambicana do sector.

É que o contexto de restrições e distanciamento

social está a aumentar a procura e

implementação de soluções tecnológicas

à distância para pagamentos, transacções e

troca de documentos, ou seja, tudo aquilo

em que as empresas tecnológicas financeiras

trabalham, todos os dias.

Face ao novo contexto, a Fintech.mz lançou

no início de Maio um inquérito às fintechs

de modo a que cada qual possa indicar

como pode contribuir para manter o mundo

— em concreto, Moçambique — a funcionar,

mesmo com as restrições impostas pela

COVID-19. As respostas estão a ser processadas

e, em breve, “vão ser disponibilizadas

na Internet” num directório para consulta

aberta. Os pagamentos em lojas sem contacto

físico, canais de venda on-line ou

34 | Exame Moçambique


transição de processos burocráticos para

formato digital — evitando passear papéis

por várias repartições — são exemplos que

saltam logo à cabeça, exemplifica.

Este directório pretende dar um empurrão

para aproveitar a tal “oportunidade de

ouro”, a par de contactos junto dos reguladores,

“sensibilizando-os para a necessidade

de abertura de novos serviços e legislação

adequada” para dar suporte legal a serviços

financeiros inovadores, por exemplo,

para provedores de pagamentos em meticais,

na Internet, entre outros.

“Continuo a dizer que Moçambique é um

mercado com bastantes oportunidades”, que

já existiam antes da COVID-19, refere João

Gaspar, tendo em conta que só um terço da

população tem uma conta bancária e que

são ainda menos os moçambicanos que

subscrevem seguros. Mas além das oportunidades,

os desafios de base também se

mantêm e algumas dificuldades estão a ser

amplificadas pela pandemia de COVID-19.

“O maior impacto tem a ver com empresas

que são startups e estão a ter alguns

problemas de tesouraria.” Em causa estão

empresas com pouco ou nenhum volume

de negócios — algumas ainda estão a desenvolver

produtos — e que estão impedidas

de aceder ao mercado para terem receitas

devido às restrições globais. E se algumas

podem pensar em recorrer a mecanismos

que vão sendo anunciados pelas autoridades

e pela banca, a maioria pode ainda não ter

estrutura para tal, alerta João Gaspar. “Há

empresas que já tinham uma actividade

económica que sustentava os seus custos,

empresas com mais alguns anos de existência,

equilibradas e que podem ter aqui uma

quebra”, mas eventualmente com “capacidade

para usar os mecanismos disponíveis”.

“Agora, as empresas mais pequenas, que são

a grande maioria, com projectos inovadores

nestas áreas, têm um problema maior

porque não têm histórico financeiro. Para

obter crédito é mais complicado, além dos

custos” que um empréstimo pode implicar.

Assim, a Fintech.mz aposta em “sensibilizar

alguns financiadores, doadores, organizações

não-governamentais (ONG) que

já estavam a trabalhar com estes projectos”

para tentar encontrar um conceito mais

próximo de “subsídios para apoio durantes

estes meses” de restrições. “Pode ser

a maneira de ajudar estas empresas mais

pequenas e que estão a iniciar a actividade.”

PLANOS PARA APOIAR

AS FINTECHS

A associação de fintechs de Moçambique

está a planear acções para lá do período de

restrições causadas pela COVID-19. Uma

delas passa por criar uma casa para startups

do sector e onde sejam disponibilizados serviços

partilhados, com destaque para serviços

jurídicos. A ideia segue um modelo que

João Gaspar visitou em Março, em Portugal,

a Fintech House, em Lisboa. Uma comunidade

centrada nas fintechs, sem fins lucrativos,

com o objectivo de ligar startups.

Quem entra conta com o apoio de parceiros

em quatro vértices: bancário, seguros,

jurídico e consultoria. “É um modelo interessante”,

sublinha João Gaspar. b

* Serviço especial da Lusa para a EXAME.

FINTECH.MZ: DAR VOZ A UM NOVO SECTOR

A Fintech.mz — Associação das Fintechs

de Moçambique foi lançada oficialmente

em Fevereiro, em Maputo, como

entidade que agrega empresas tecnológicas

ligadas ao sector financeiro.

JOÃO GASPAR: Moçambique é um

mercado com bastantes oportunidades

O país conta com 16 empresas que estão a

começar a trabalhar na área, quatro numa

plataforma de ensaios (denominada no

meio pelo termo inglês sandbox) criada

pelo Banco de Moçambique, outras em

nichos de mercado ou sob regime piloto,

“em busca de escala e impulso”, descreve

João Gaspar. A venda de seguros

através de plataformas móveis, a criação

de sistemas de pagamento electrónico

(gateways) que podem ser usados, por

exemplo, por comércio on-line ou aplicações

de transferências de dinheiro

internacionais, são algumas das áreas

que as fintechs moçambicanas estão a

desenvolver.

Num país onde só uma percentagem

muito baixa da população tem conta bancária,

estas empresas assumem especial

importância, refere João Gaspar. “Não

basta ter mais pessoas com contas bancárias,

é preciso fazer com que utilizem

os sistemas digitais de pagamento e aí,

claramente, entramos na área da tecnologia,

em conceitos novos e numa maneira

nova de abordar o cliente”, descreve.

APOIO DA FSD MOÇAMBIQUE

A associação Financial Sector Deepening

Moçambique (FSD Moçambique) é uma

organização de promoção de inclusão

financeira que tem impulsionado a criação

de fintechs no país. A FSD apoiou a

criação da associação, que “faz parte do

ecossistema das fintechs com um papel

muito importante para a inclusão financeira”,

refere Esselina Macome, directora-executiva

do FSD. Juntas, como

um grupo, as fintechs “poderão fazer-se

ouvir e mostrar melhor a sua relevância”,

acrescentou, apontando como exemplo

de sucesso deste sector o crescimento

das carteiras móveis — contas bancárias

baseadas no número de telemóvel.

junho 2020 | 35


ECONOMIA DÍVIDA

DÍVIDAS OCULTAS:

MOÇAMBIQUE CONTRA

CREDIT SUISSE

Depois de Nova Iorque, Londres é o novo palco das decisões sobre as dívidas ocultas.

Bancos dizem que foi tudo legal, mas Moçambique usa as investigações para alegar

que foi vítima. Quer Credit Suisse e VTB a pagarem pela reestruturação dos títulos

soberanos, derivados da EMATUM

LUÍS FONSECA*

36 | Exame Moçambique


CREDIT SUISSE:

Para a PGR o país não é

responsável pelas garantias

soberanas assinadas pelo

antigo Ministro das Finanças,

Manuel Chang

A TRANSPARÊNCIA

FOI SUBSTITUÍDA

POR UM “ABOMINÁVEL

SECRETISMO EM

TODAS AS OPERAÇÕES

FINANCEIRAS DAS

EMPRESAS AQUI

IMPLICADAS” —

ACÓRDÃO DO CONSELHO

CONSTITUCIONAL

Cerca de um ano depois da

primeira decisão, chegou a

segunda: o Conselho Constitucional

(CC) de Moçambique

considerou nulos todos os

actos relativos aos empréstimos contraídos

pelo Estado para as empresas ProIndicus e

MAM relacionados com o caso das dívidas

ocultas. “O Conselho Constitucional declara

a nulidade dos actos relativos aos empréstimos

contraídos pelas empresas ProIndicus

e Mozambique Asset Management (MAM)

e das garantias soberanas conferidas pelo

governo, em 2013 e 2014, respectivamente,

com todas as consequências legais”, lê-se no

documento divulgado a 12 de Maio. A decisão

é idêntica à que já havia sido tomada pelo

CC em Junho de 2019 quando o órgão, após

petições públicas, foi chamado a deliberar

sobre o empréstimo à EMATUM. Assim,

os três empréstimos assentes em garantias

assinadas pelo ministro das Finanças

de então, Manuel Chang, e atribuídos

a cada uma das empresas envolvidas no

caso, são anulados pelo CC. É o resultado

de duas petições dinamizadas pelo Fórum

de Monitoria da Dívida (FMO) que reuniram

milhares de assinaturas e que foram

entregues em 2017 (contra a EMATUM) e

2019 (para fazer face à ProIndicus e MAM).

Desta vez estavam em causa dois empréstimos:

um de 622 milhões de dólares contraído

junto do banco Credit Suisse para a

ProIndicus e outro de 535 milhões de dólares

contraído junto do Banco de Comércio

Exterior da Rússia (VTB) a favor da MAM.

À semelhança da avaliação sobre o empréstimo

para a EMATUM, os juízes dizem

que a transparência foi substituída por um

“abominável secretismo em todas as operações

financeiras das empresas aqui implicadas”.

O CC refere que a “ilegalidade” em

causa tem “um efeito jurídico aniquilador”

sobre os actos.

Os acórdãos (de Maio deste ano sobre

a ProIndicus e MAM e o de 2019 sobre a

EMATUM) vão no mesmo sentido, mas

apanham o governo a remar em direcções

diferentes, num e noutro momento. A declaração

de Junho do último ano não impediu

o governo de renegociar com os credores o

reembolso dos “eurobonds” da EMATUM

— o que valeu críticas da sociedade civil,

acusando-o de estar a renegociar uma dívida

considerada nula pela Justiça. Já o acórdão

de Maio surge numa altura em que o próprio

governo já tinha adiantado caminho,

abrindo processos internacionais para anular

as dívidas da ProIndicus e MAM. Porquê

esta diferença de actuação?

Num caso, o Executivo moçambicano

sempre fez saber que, no seu entender, é preciso

honrar a parcela da dívida contraída

pela EMATUM, alegando que foi a única

que foi convertida em títulos soberanos,

“eurobonds”, transaccionados nos mercados

internacionais e que estão na posse de

vários investidores pelo mundo. Ou seja,

esta parcela tem um peso acrescido na credibilidade

necessária para futuro acesso ao

mercado externo de dívida — numa altura

em que o país procura quem lhe empreste

1,5 mil milhões de dólares para financiar

a participação de 15% da Empresa Nacional

de Hidrocarbonetos (ENH) na Área 1

de exploração de gás natural. Arriscar um

novo default, incumprimento, como aconteceu

entre 2016 e final de 2019, significa

fechar portas às fontes de financiamento

externo, entende o Executivo.

Já sobre os empréstimos à ProIndicus e

MAM, foram acordados directamente com

os bancos Credit Suisse e VTB, sem troca por

títulos soberanos como no caso da EMA-

TUM. Nunca foram liquidados e nem vão

ser, de acordo com as acções movidas por

Moçambique. O Estado lusófono não só

requer a sua anulação como exige aos bancos

que se responsabilizem pela reestruturação

da dívida da EMATUM e pelas “perdas

macroeconómicas que resultam das irregularidades

dos arguidos”. Aqui o Estado

moçambicano apoia-se em todas as ilegalidades

apontadas pelo Conselho Constitucional

e reveladas nas investigações ao

caso. “Moçambique foi enganado na troca

das obrigações [da EMATUM] pela dívida

soberana em 2016”, lê-se num memorando

distribuído há cerca de um ano a portadores

dos “eurobonds”, que confirma a tese oficial

do governo, segundo a qual estes empréstimos

à ProIndicus e MAM “não constituem

uma obrigação válida, legal ou imputável a

Moçambique”. Será que Moçambique vai

ganhar a sua causa frente aos dois bancos?

AUDIÊNCIAS ARRANCAM

EM LONDRES

A resposta sobre o desfecho do caso passa

agora pelo Tribunal Superior da Justiça de

junho 2020 | 37


ECONOMIA DÍVIDA

Inglaterra (Hight Court of Justice), onde

arrancaram a 26 de Maio as audiências

das partes no processo do Estado moçambicano

contra o Credit Suisse — este processo

não inclui o VTB. Na sua petição

(divulgada pelo CIP — Centro de Integridade

Pública, ONG moçambicana),

a Procuradoria-Geral da República (PGR)

moçambicana faz dois pedidos: por um

lado, a declaração de que o país não é responsável

pelas garantias soberanas assinadas

pelo antigo Ministro das Finanças,

Manuel Chang, para viabilizar o empréstimo

da ProIndicus; por outro, a condenação

dos réus a pagarem indemnização

a Moçambique pelas perdas e danos causados.

Além do Credit Suisse, estão entre os

réus três dos seus quadros à altura (Surjan

Singh, Andrew Pearse e Detelina Subeva),

o estaleiro naval Privinvest e empresas

na sua órbita. O que dizem os arguidos?

O estaleiro alega que o tribunal inglês

não tem competência para julgar o caso,

enquanto os restantes arguidos dizem que

tudo foi contratado de forma legal.

Entretanto, há outros processos de uns

contra outros. Entre eles, o banco russo

VTB colocou uma acção em tribunal, em

Londres, exigindo 817,5 milhões de dólares,

mais juros, ao Estado moçambicano

por falhar as prestações do empréstimo da

MAM (Mozambique Asset Management).

O banco russo com filial em Londres argumenta

que o Estado moçambicano de forma

“irrevogável e incondicionalmente” garantiu

que pagaria se as empresas falhassem.

Mas Moçambique revelou em Maio

outro passo para demonstrar o seu afastamento

em relação às três empresa do

escândalo. Além de acções judiciais em

Londres, o Ministério Público moçambicano

propôs a dissolução da ProIndicus,

EMATUM e MAM, considerando que

a situação de liquidez das três empresas é

inferior a metade do valor do capital social.

Em suma, a mensagem é esta: os credores

que procurem ressarcir-se durante o processo

de falência.

DIFERENTES PERSPECTIVAS

Há diferentes perspectivas sobre o que vai

acontecer com os valores das dívidas ocultas

depois destes mais recentes desenvolvimentos.

O Fundo Monetário Internacional

(FMI) diz que uma redução adicional da

dívida está à vista, uma vez que o governo

“não pretende suportar a MAM” — uma

das empresas do escândalo das dívidas

ocultas —, “que deve seguir para falência,

enquanto a validade das garantias estatais

ao empréstimo do banco VTB à MAM está

a ser contestada” judicialmente. A apreciação

faz parte do mais recente relatório da

organização sobre Moçambique, divulgado

em Abril. O fundo acredita que o país vai

libertar-se progressivamente do peso desta

dívida nas suas contas públicas.

E AS RESPONSABILIDADES

CRIMINAIS?

Já a consultora Economist Intelligence Unit

(EIU) considera que a decisão do Conselho

Constitucional relativamente à nulidade das

dívidas da MAM e ProIndicus “pode complicar

o acesso de Moçambique a financiamento

externo”. Em causa, a necessidade de

endividamento de 1,5 mil milhões de dólares

para financiar a participação de 15% da

ENH. De qualquer maneira, a pandemia da

COVID-19 veio aumentar as incertezas: “O

recente colapso na actividade económica e na

confiança dos investidores deve adiar estes

esforços” de captação de financiamento. b

* Serviço especial da Lusa para a EXAME

Em Londres as partes dirimem argumentos

para que um juiz decida quem

paga a conta. Do outro lado do Atlântico,

os EUA continuam a querer julgar

o ex-ministro das Finanças, Manuel

Chang, por fraude, corrupção e lavagem

de dinheiro, no que classificam

uma burla internacional de 2,2 mil

milhões de dólares, as “dívidas ocultas”

que também prejudicaram investidores

norte-americanos e que passaram

por balcões daquele país. Para o efeito,

os EUA continuam a pedir a extradição

do antigo governante, detido na África

do Sul desde final de 2018. Mas Moçambique

considera que o ex-ministro será

absolvido nos EUA, tal como aconteceu

com o franco-libanês Jean Boustani,

“peça-chave de todo o processo

de endividamento e desvio

dos valores em causa”, referiu

Beatriz Buchili, procuradora-geral

da República, no

final de Maio, no Parlamento.

Justificou assim a luta pela

extradição para Maputo.

Na informação prestada na

Assembleia da República,

Buchili revelou ainda que o

número de arguidos no processo

autónomo sobre as dívidas ocultas

subiu de quatro para dez desde Abril

do último ano. Entre eles está Manuel

Chang. Este processo autónomo trata-

-se de um outro, independente do processo

principal aberto em Moçambique

no âmbito das dívidas ocultas em que

foram constituídos vinte arguidos — dos

quais dezanove estão em prisão preventiva

e um em liberdade provisória

mediante pagamento de caução. Entre os

arguidos do processo principal sobressaem

figuras do círculo próximo do ex-

-Presidente Armando Guebuza, como

um dos seus filhos, Ndambi Guebuza,

e a sua secretária pessoal, Inês Moaine.

Os vinte aguardam a decisão da justiça

acerca dos recursos que apresentaram

do despacho de pronúncia.

HIGHT COURT OF

JUSTICE:

Nele arrancaram

a 26 de Maio as

audiências das

partes no processo

do Estado

moçambicano

contra o Credit

Suisse

38 | Exame Moçambique


ECONOMIA OE 2020

ORÇAMENTO

PARA UM ANO

DE INCERTEZA

Em ano de pandemia, o OE fixa como objectivo um crescimento da economia idêntico

ao de 2019, com a receita a descer e a despesa e o défice a subirem. Também as despesas

de investimento recuam

LUÍS FARIA

CRESCIMENTO:

Mantém-se ao

nível de 2019, o

que não é mau em

ano de pandemia

junho 2020 | 39


ECONOMIA OE 2020

H

á menos optimismo quanto

ao crescimento da economia

este ano, que as autoridades

esperavam que fosse

de 4%, mas, mesmo assim,

no meio da pandemia COVID-19 e a

suportar ainda os efeitos dos ciclones,

Moçambique deverá crescer a uma taxa

de 2,2%, de acordo com a previsão inscrita

no Orçamento de Estado (OE) para

2020, uma estimativa alinhada com a do

Fundo Monetário Internacional (FMI).

O texto do Relatório de Fundamentação

do OE lembra que “a implementação

do Orçamento de Estado para 2020 coincide

com a implementação do Plano de

Reconstrução pós-ciclones Idai e Kenneth,

devendo prestar-se atenção especial

às intervenções que visam normalizar a

vida da população das zonas afectadas,

sobretudo no que respeita à higiene, ao

saneamento do meio, às infra-estruturas

básicas da saúde, da educação, de habitação,

do comércio, de telecomunicações

e da rede viária. Adicionalmente, é elaborado

num contexto macroeconómico

internacional marcado por perspectivas

de recessão da economia mundial face à

eclosão da COVID-19, onde se espera uma

taxa de crescimento de 3,3% para 2020,

contra os 2,9% esperados para 2019, tendo

como pressupostos os estímulos da política

monetária para as economias emergentes

e em desenvolvimento e a recuperação

do comércio”.

Se a taxa de crescimento projectada no

OE para a economia moçambicana este

ano coincide com a última estimativa

formulada pelo Fundo Monetário Internacional

(FMI), o quadro que serviu de

referência para o andamento da economia

global ainda não tem em conta a profundidade

da crise causada pela COVID-19.

O texto do documento reconhece-o, ressalvando

que “as previsões aqui apresentadas

não levam em consideração a recente

eclosão da COVID-19, o que traz incertezas

quanto às perspectivas macroeconómicas,

diante da importância dos países

mais afectados (China, Itália, Estados

Unidos da América e Alemanha, entre

outros) na economia mundial” e dedica ao

assunto uma longa nota sobre o “Impacto

GETTY

da COVID-19 na Economia Mundial”.

O OE para 2020 aborda o contexto internacional,

com base na actualização que

o FMI fez das suas previsões para a economia

mundial em Janeiro. Ora, a meio

de Abril, o Fundo reviu drasticamente

as suas projecções face à brutalidade do

OS NÚMEROS

DO OE

Taxa de Crescimento Real

2,2%

Taxa de Inflação Média Anual

6,6%

Exportações

4 409,7 milhões USD

Reservas Internacionais

Líquidas

de 3 276 milhões USD, capazes

de cobrir 5,8 meses

de importações

Receita do Estado

235 590,6 milhões de MT,

o equivalente a 23,1% do PIB

Despesa do Estado

345 381,8 milhões de MT,

o correspondente a 33,9%

do PIB

Défice Orçamental

109 791,2 milhões de MT,

o equivalente a 10,8% do PIB

Défice Orçamental após

Donativos

23 252,1 milhões de MT,

o equivalente a 2,3% do PIB

Saldo Primário

14 070,9 milhões de MT,

o correspondente a 1,4% do PIB

impacto da pandemia na actividade económica

global. No primeiro mês do ano

apontava para um crescimento de 3,3%

em 2020. Em Abril, com o impacto da

pandemia, admite uma quebra de 3%.

Isto, no melhor dos cenários. Também as

expectativas para o preço das principais

commodities caíram radicalmente com a

crise trazida pela COVID-19, com destaque

para os índices do preço da energia,

com o tombo do preço do petróleo e também

a descida do índice do preço do gás

natural. Recuou igualmente o preço do

alumínio, salvando-se apenas o preço dos

bens alimentares.

SOB O SIGNO DA INCERTEZA

As previsões em que o Orçamento assenta

estão, pois, envoltas em grandes incertezas,

não se sabendo quando acaba e qual

o impacto final da pandemia. “Persistem

incertezas quanto às perspectivas da economia

mundial, dada a eclosão da COVID-

-19, diante da importância dos países mais

afectados (China, Itália, Estados Unidos

da América e Alemanha, entre outros) na

economia mundial”, reconhece o texto do

relatório que fundamenta o OE.

A lei do Orçamento de Estado para 2020,

após aprovação pela Assembleia da República

foi promulgada pelo Presidente Filipe

Nyusi a 22 de Abril. O OE foi aprovado com

os votos favoráveis da FRELIMO e os desfavoráveis

dos partidos da oposição, que

consideram que o governo está a subestimar

os efeitos da pandemia.

Para o Executivo, a taxa de crescimento da

economia estimada será suportada fundamentalmente

“pelas actividades de reconstrução

pós-ciclones, a retoma da actividade

dos sectores económicos e a materialização

de diversos projectos ligados à indústria

de gás natural na bacia do Rovuma”.

O relatório de fundamentação estima

que a inflação média anual se situe em

6,6%, que as exportações atingirão 4409,7

milhões de dólares e que as reservas internacionais

líquidas (RIL) se situarão em

3276 milhões de dólares, um valor capaz

de cobrir 5,8 meses de importações.

A área de actividade que apresentará

maior dinamismo de acordo com as estimativas

orçamentais é a construção, com

40 | Exame Moçambique


um crescimento projectado, em termos

reais, de 3%. Os transportes, armazenagem

e informação e comunicações, as

actividades financeiras e de seguros e a

administração pública, defesa e segurança

social, e ainda saúde e acção social, deverão

crescer 2%. Espera-se que a agricultura

cresça a um ritmo de 1,8%, prevendo-se

que as indústrias extractivas voltem a ter

uma evolução positiva (1,5% de crescimento),

após terem registado uma quebra

de 1,8% no último ano, segundo a avaliação

preliminar, admitindo-se, entretanto,

no texto do OE, que a indústria do carvão

mineral deverá ser uma das mais afectadas

pela COVID-19 “devido à redução da

procura e à queda dos preços no mercado

internacional”.

ESPERA-SE QUE

AS INDÚSTRIAS

EXTRACTIVAS

RECUPEREM E QUE

A AGRICULTURA

CRESÇA 1,8%

METICAL DESVALORIZA

O metical depreciará este ano, utilizando

o Orçamento de Estado a taxa de câmbio

média face ao dólar para 2020 de 66,6

meticais por cada unidade da moeda

CRESCIMENTO DA ECONOMIA

Antes da crise global as autoridades apontavam

a meta do crescimento este ano mais para cima,

mas estima-se que se consiga o crescimento

efectivo de 2019

4,7%

2019 OE Lei 2019

realização prel.

Fonte: OE/2020.

2,2% 2,2%

2020 OE

ADRIANO

MALEIANE:

O ministro das

Finanças vai

conduzir o OE

em condições

externas difíceis

junho 2020 | 41


ECONOMIA OE 2020

norte-americana. Em 2019 a taxa de câmbio

média foi de 62,5 meticais por cada

dólar. O saldo da conta corrente agravar-

-se-á ligeiramente, com as exportações a

decaírem para 4409,7 milhões de dólares,

face aos 4718 milhões apurados em

2019, e as exportações a aumentarem dos

6799 milhões de dólares do último ano

para 7166,4 milhões.

A CONSTRUÇÃO

DEVERÁ SER O SECTOR

MAIS DINÂMICO

O investimento directo estrangeiro

aumentará, embora condicionado pela

incerteza da decisão final de investimento

relativa à exploração de gás natural

na bacia do Rovuma, esperando-se

uma injecção líquida de fundos na ordem

dos 2264 milhões de dólares, mais 273

milhões que em 2020.

RECEITA DESCE

O Estado prevê contar este ano com recursos

internos no valor de 278 374,7 milhões

de meticais, o correspondente a 27,3%

do produto interno (PIB), e com mais de

67 mil milhões de meticais de recursos

externos, o equivalente a 6,6% do PIB.

Para as receitas do Estado, que totalizarão,

segundo a estimativa orçamental,

mais de 235,5 mil milhões de meticais,

contribuirão sobretudo as receitas fiscais

(que se contrairão ligeiramente face

a 2019, prevendo-se que atinjam 193,5 mil

milhões de meticais) e as receitas sobre

bens e serviços, que incluem o IVA, entre

outros impostos, e também se reduzirão

face ao último ano, prevendo-se que passem

de perto de 96 mil milhões de meticais

para pouco mais de 87 mil milhões.

As principais rubricas da receita estatal

descem de valor, com as receitas de

capital a aumentarem, em contrapartida,

de perto de 8 mil milhões de meticais

em 2019 para cerca de 9 mil milhões

no corrente ano. O saldo transitado de

mais-valias aumenta de 5274 milhões de

meticais para mais de 14,2 mil milhões, e

o recurso ao financiamento interno também

aumenta sensivelmente, de 19,4 mil

milhões de meticais no último ano para

28,5 mil milhões em 2020.

Os recursos captados externamente

diminuem, no seu conjunto, de mais de

71 mil milhões de meticais para 67 mil

milhões. Espera-se que os donativos atinjam

466 milhões de dólares (cerca de 31

mil milhões de meticais), um incremento

nominal de 1,6% face à previsão para 2019.

Os créditos contraídos no exterior descem

de 43,7 mil milhões de meticais inscritos

na lei orçamental de 2019, para quase

36 mil milhões de meticais. Há ainda que

contar com o financiamento de apoio

directo ao OE concedido pelo FMI e

pelo Banco Mundial no âmbito do apoio

ao governo para fazer face à COVID-19,

num valor superior a 21 mil milhões de

meticais, o equivalente a 2,1% do PIB.

DESPESA AUMENTA

A despesa do Estado aumenta, segundo

a lei orçamental, com destaque para o

maior peso das despesas de funcionamento.

O Estado está autorizado a gastar,

este ano, mais de 345,38 mil milhões de

meticais, o equivalente a 33,9% do PIB.

As despesas de funcionamento reduzem-

-se: no último ano foram fixadas em perto

de 196,6 mil milhões de meticais no OE

do último ano, prevendo-se que superem,

em 2020, 228 mil milhões. Já as despesas

de investimento recuam para perto de

71 mil milhões de meticais, quando o

INFLAÇÃO:

Os preços voltam

a subir este ano

PREÇOS VÃO SUBIR

Após terem iniciado em 2016 uma trajectória

descendente, este ano os preços vão voltar a subir

Taxa de inflação média (em %)

3,6% 19,9% 15,1% 3,9% 2,8% 6,6%

2015 2016 2017 2018 2019 2020*

*Projecção Fonte: OE/2020.

COMO SE REPARTE A DESPESA

As despesas de funcionamento aumentam

mas as despesas de investimento recuam

Despesa (% do total)

57,8%

66,1%

2019 2020

Funcionamento Investimento Op. Financeiras

Fonte: OE/2020.

30,1%

20,6%

12,2% 13,3%

42 | Exame Moçambique


PARA ONDE VÃO AS DESPESAS

As despesas com o pessoal representam

a grande fatia das despesas de funcionamento

12,5%

0,5%

1,3%

54,3%

ONDE O ESTADO VAI BUSCAR O DINHEIRO

As receitas fiscais continuarão a representar

a grande fonte de receita em 2020

6,4%

7,3%

4,2%

O QUE PAGA A DÍVIDA

O OE prevê que os juros internos, com um custo

de 24,2 mil milhões de meticais, representem

o principal serviço da dívida

13,1

(mil milhões de MTC)

15,1%

24,2

37,3

16,3%

82,1%

Despesas com pessoal Encargos da dívida

Bens e serviços Transferências correntes

Subsídios Outros

Receitas fiscais Receitas não fiscais

Receitas consignadas Receitas de capital

Encargos da dívida

Juros externos

Juros internos

Fonte: OE/2020. Fonte: OE/2020. Fonte: OE/2020.

Orçamento do último ano as fixava num

valor superior 102 mil milhões de meticais.

“A redução das despesas de investimento

em 30,6% em termos nominais face

à previsão para 2019, resulta da redução

dos recursos tanto da componente interna

como da componente externa do investimento”,

refere o texto do OE. Os encargos

da dívida (juros internos e externos)

sobem de 35 mil milhões de meticais em

2019 para 37,32 mil milhões em 2020,

representando 3,7% do PIB.

No quadro dos grandes compromissos

firmados pelas autoridades para a aplicação

da despesa, o OE afecta 66,27 mil milhões

de meticais ao sector da educação (27,1% da

despesa total), 26,71 mil milhões à saúde

(10,9% da despesa) e quase 25 mil milhões

à agricultura e ao desenvolvimento rural

(29,1% da despesa). É para as infra-estruturas

(estradas, águas e obras públicas)

que é dirigido o maior esforço de investimento

público (mais de 23 mil milhões

de meticais). Os transportes e comunicações

receberão 8,1 mil milhões de meticais.

O serviço da dívida, traduzido em amortização

de empréstimos externos e internos,

custará mais de 41,2 mil milhões de

meticais, que corresponde a 4% do PIB e

representa um incremento de 0,9 pontos

percentuais.

O METICAL IRÁ

DESVALORIZAR

FACE AO DÓLAR

FINANCIAR O DÉFICE

O défice orçamental estimado para este

ano agrava-se, passando a representar

10,8% do PIB, mais 1,4 pontos percentuais

que o previsto na lei orçamental para

2019. Para o seu financiamento concorrerão

os donativos externos (que irão cobrir

o défice em 3% do PIB), os créditos externos,

os saldos transitados de mais-valias

e o crédito interno.b

junho 2020 | 43


ECONOMIA PROJECÇÃO

KRISTALINA

GEORGIEVA:

A directora-geral

do FMI alertou em

Março para a

recessão global

MOÇAMBIQUE COM

CRESCIMENTO ESTÁVEL

O Fundo Monetário Internacional (FMI) antecipa a estabilização do crescimento

da economia moçambicana. Na sua primeira previsão pós-crise, estima, no mais benévolo

cenário, uma quebra de 3% da economia mundial este ano

LUÍS FARIA

O FMI TRAÇA CENÁRIOS

MAIS SOMBRIOS

EM QUE A PANDEMIA

VEIO PARA FICAR

Na primeira revisão das suas

perspectivas de Outono

para a economia mundial

após a eclosão da pandemia

COVID-19, o Fundo

Monetário Internacional aponta para que

a economia nacional cresça 2,2% este ano,

estabilizando em relação a 2019 e acima

da média prevista para o grupo de países

de baixo rendimento, no qual se inclui

Moçambique, que deverá, no seu conjunto,

registar um crescimento de 1,6%

em 2020. Para o próximo ano as expectativas

são ainda melhores, prevendo o FMI

que Moçambique venha a crescer 4,7%.

A estimativa para a economia moçambicana

é bastante positiva, tendo em conta

o impacto da pandemia da COVID-19 na

44 | Exame Moçambique


economia mundial. Após as últimas previsões

do Fundo, feitas em Janeiro deste

ano, a pandemia agravou consideravelmente

a quebra da economia global, que

se prevê agora deverá afundar numa quebra

de 3% este ano. A recessão mais acentuada

ocorrerá na Zona Euro, com um

tombo do produto interno bruto (PIB)

de 7,5%, com os Estados Unidos a registarem

um crescimento negativo este ano

de 5,9% e China e Índia a obterem, apesar

do surto infeccioso que teve origem

na Ásia, crescimentos ainda positivos este

“A MAGNITUDE

E A VELOCIDADE

DO COLAPSO DA

ACTIVIDADE ECONÓMICA

SÃO DIFERENTES DE

TUDO O QUE JÁ VIMOS”

CRESCIMENTO DA ECONOMIA MOÇAMBICANA

Crescimento do PIB real em %

7,6% 7,3% 7% 7,4% 6,7% 3,8% 3,7% 3,4% 2,2% 2,2% 4,7%

2002/

2011

2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021

RECESSÃO MUNDIAL

PIB Mundial em %

2,9%

2019

Fontes: FMI, WEO Apr 2020.

-3%

2020

5,8%

2021

ano: 1,2% e 1,9%. Para o próximo ano, e

tendo como base o cenário mais favorável

do FMI, a China registará uma forte

retoma (9,2%) e a Índia também recuperará

rapidamente, com um crescimento

projectado de 7,4%.

O FMI, que classifica a crise actual decorrente

da pandemia da doença COVID-19

como a “pior desde a Grande Depressão”

de 1929 e a rotula como “o Grande Bloqueio”,

faz as suas projecções num cenário

de “linha de base”, que pressupõe que a

pandemia desapareça no segundo semestre

de 2020 e os esforços de contenção

possam ser gradualmente desenvolvidos.

O Fundo alerta que para “evitar a possibilidade

de piores resultados” é necessário

adoptar políticas eficazes e que “as medidas

necessárias para reduzir o contágio e

proteger vidas são um instrumento importante

na saúde humana e económica no

longo prazo”. O relatório acrescenta que,

face às consequências económicas agudas

em sectores específicos, “os formuladores

de políticas terão de implementar

medidas fiscais, monetárias e financeiras

substanciais, direccionadas para apoiar as

famílias e as empresas afectadas internamente.

O FMI defende ainda uma forte

cooperação internacional multilateral,

considerando-a “essencial para superar

os efeitos da epidemia, inclusive para

ajudar países com restrições financeiras

que enfrentam dois choques simultâneos

— de saúde e de financiamento —, bem

como para canalizar a ajuda para países

com sistemas de saúde fracos”.

Na introdução ao relatório, Gita Gopinath,

a economista-chefe do Fundo, assinala

que “o mundo mudou radicalmente

nos três meses desde a nossa última actualização

do relatório ‘World Economic

Outlook’, em Janeiro. Um desastre raro

— uma pandemia de coronavírus — está

a provocar a perda trágica de um número

cada vez maior de vidas. À medida que

os países impõem as quarentenas e práticas

de distanciamento social necessárias

para conter a pandemia, o mundo entrou

num grande lockdown. A magnitude e a

velocidade do colapso da actividade económica

que se seguiu são diferentes de

tudo o que já vimos”.

O documento traça, entretanto, cenários

ainda mais sombrios, em que os efeitos

da pandemia se prolongam no tempo,

com resultados devastadores na economia

mundial e no emprego. Se tal vier a acontecer,

a economia mundial poderá registar

uma recessão superior a 3% este ano e 5%

em 2021. O Fundo admite a hipótese de se

verificar um segundo surto em 2021 (no

próximo Inverno no Hemisfério Norte), o

qual será pelo menos dois terços tão grave

quanto o inicial. Se tal vier a acontecer, o

produto global estimado para o próximo

ano será 5% inferior ao previsto no cenário

base. O que domina é a incerteza quanto

à duração da pandemia, a eficácia ao seu

combate e o surgimento de antídotos que a

possam estancar, como uma vacina. Como

está quase tudo em aberto, o FMI também

equaciona um cenário mais favorável

que o seu cenário base, cuja materialização

depende do desenvolvimento de um

tratamento ou vacina eficazes mais cedo

do que o esperado, o que permitirá remover

as medidas de distanciamento social

e uma recuperação mais rápida do que o

antecipado.

No início de Março, o FMI pôs à disposição

dos países mais atingidos pela pandemia

um financiamento de emergência

de 50 mil milhões de dólares. Os director

e vice-director dos Assuntos Orçamentais

do FMI, Vítor Gaspar e Paolo

Mauro, escreveram, na altura, no blogue

do Fundo, que os governos devem “dar

subsídios salariais às pessoas e empresas

para ajudar a conter o contágio”. A directora-geral

do Fundo Monetário Internacional

(FMI), Kristalina Georgieva, avisou,

no final de Março, que a economia global

já se encontrava em recessão. b

junho 2020 | 45


OIL

& GAS

LUÍS FARIA

GÁS NATURAL:

O negócio é

favorecido pelo seu

papel na transição

energética

PREÇOS

PANDEMIA RETRAI PROCURA

D.R.

Os preços do gás deverão cair mais com a

actual crise pandémica “do que no anterior

megaciclo”, prevê a McKinsey num estudo

sobre o sector a que a EXAME teve acesso.

A consultora dedica um extenso documento

aos custos e oportunidades do sector

do petróleo e do gás pós-COVID-19.

O gás de xisto, lembra o relatório, aumentou

consideravelmente a oferta de gás, pelo

que a pandemia teve um efeito imediato,

fazendo cair a procura entre 5% e 10%, em

contraste com as expectativas optimistas

que reinavam antes da crise. No entanto,

o documento prevê um desenvolvimento

positivo do negócio do gás natural e do

LNG, o que tem a ver com o seu papel na

transição energética, assegurando um lugar

no futuro mix de energias. É, entretanto,

necessário ter em conta, refere a consultora,

que, no caso do LNG, a sua capacidade

de expansão ao longo da década

acrescentará pressão no que respeita à

volatilidade dos preços. A prazo, além de

2035, o sector do gás experimentará as

mesmas pressões que o petróleo. Muitos

factores favoráveis fazem do gás o combustível

fóssil de crescimento mais rápido:

a forte procura impulsionada pela transição

energética. No entanto, o volume total das

emissões de gases de efeito estufa ainda

está a ser calculada para algumas cadeias

de valor de LNG. A McKinsey “estima que

a procura global de gás tenha um pico no

final da década de 2030, pois a electrificação

do aquecimento e o desenvolvimento

de fontes renováveis ​podem diminuir a procura

a longo prazo. Isto, combinado com

a volatilidade a médio prazo, pode levar a

uma consolidação adicional e a um sector

que opera com economia incremental”.

O impacto no sector é profundo em vários

segmentos de operação. Por exemplo, a

procura para produtos refinados diminuiu

20%, colocando a refinação numa situação

crítica. A McKinsey estima que a procura

demore pelos menos dois anos a recuperar.

As companhias do sector são afectadas

pela necessidade de operar em segurança

sanitária, dificuldades de armazenagem e

pela descida dos preços de venda, inferiores

aos custos suportados por alguns

operadores.

Gás natural futuros

(em USD)

1,821 1,949 1,72 1,646

1,7

21Abr 30Abr 12Mai 15Mai 21Mai

Fonte: Investing.

46 | Exame Moçambique


EUA

SECTOR PERDE EMPREGO

D.R.

A Bloomberg publicou a meio de

Abril uma notícia com o título: “Jobs

keep disappearing in US oil and gas

industry” (Os empregos desaparecem

na indústria de Oil&Gas dos

Estados Unidos). “De repente, o

petróleo e o gás tornaram-se um

hobby pelo qual apenas as empresas

mais capitalizadas do sector

poderão continuar a interessar-se”,

afirma Dan Eberhart, director-executivo

da empresa de serviços de

campos petrolíferos Canary Drilling

Services, que demitiu cerca de

200 pessoas e implementou cortes

salariais gerais. “Uma grande quantidade

de empregos no sector do

petróleo e do gás é fornecida por

empresas de serviços de campos

petrolíferos — e essas empresas

são mais fracas que as companhias

petrolíferas e vão começar a desaparecer

rapidamente.” A BBC News

publicou, por seu turno, no final de

Maio, uma reportagem com o título:

Produção de petróleo nos EUA

(barris/milhões)

Fonte: EIA.

“Coronavirus: ‘Thousands’ of North

Sea oil and gas jobs under threat”

(Coronavírus, milhares de empregos

no sector do Oil&Gas do mar

do Norte em perigo). Segundo a

BBC, o Reino Unido poderá perder

30 mil empregos na indústria

em resultado da pandemia e

do baixo preço do petróleo. “Se o

Reino Unido quiser manter o seu

fornecimento de energia doméstica,

proteger empregos e construir

a infra-estrutura crítica necessária

para fazer a transição para um

futuro líquido zero, a nossa é uma

indústria pela qual lutar”, refere a

BBC. A indústria delineou um plano

em três etapas, que espera minimizar

o impacto a longo prazo.

Exige o atendimento das necessidades

imediatas do sector, seguidas

da sua recuperação industrial

e, em seguida, uma transição acelerada

para emissões líquidas zero

de gases de efeito estufa.

12,9 12,9 13,1 13 12,1 11,6

Dez19 Jan20 Fev20 Mar20 Abr20 Mai20

CONFIRMAÇÃO: A Total mantém a previsão

de efectuar as primeiras entregas de GNL em 2024

LNG

TOTAL REAFIRMA

CALENDÁRIO DE EXPLORAÇÃO

A Total reafirmou a data de exploração de gás natural em

Moçambique, sete semanas após suspensão temporária de

actividades devido à descoberta do primeiro caso de COVID-19

no futuro complexo industrial de processamento de gás natural

em Cabo Delgado. “Com base nas previsões actuais, essa

suspensão temporária de actividades não terá um impacto

material no cronograma do projecto e continuamos no caminho

certo para efectuarmos a entrega das primeiras cargas

de gás natural liquefeito (GNL) em 2024”, lê-se na newsletter

da petrolífera francesa distribuída à imprensa. O primeiro

caso de COVID-19 descoberto no complexo industrial de processamento

de gás natural da Total em Afungi, Cabo Delgado,

foi anunciado a 2 de Abril, seguindo-se várias outras

infecções que tornaram o local um foco de contaminação e

que colocaram a província com maior número de casos de

COVID-19 em Moçambique. A petrolífera foi obrigada a isolar

alguns trabalhadores e a suspender temporariamente as

suas actividades, deixando em funcionamento apenas “trabalhos

mínimos” na área do projecto para a exploração de

gás no Norte de Moçambique.

Maiores produtores mundiais de gás natural

(2018/mil milhões de metros cúbicos)

863

Nos EUA e Reino

Unido a indústria do

Oil&gas vai

dispensar milhares

de trabalhadores

EUA

Rússia

Irão

248,5

725,5

181,6

Qatar

176

China

D.R.

Fonte: Statista.

junho 2020 | 47


BAZARKETING

THIAGO FONSECA

Sócio e director de Criação da Agência GOLO.

PCA Grupo LOCAL de Comunicação SGPS, Lda

FAZER LOCALMENTE

A pandemia global da COVID-19

está a fazer cair uma máscara local

em todo o mundo. Sobretudo

em Moçambique, um país que sempre

importou quase tudo sem precisar de se

importar em fazer. Porque, afinal, era só

mandar vir — da África do Sul, da Europa,

da Ásia, da América.

Mas sem voos e com as fronteiras fechadas,

está a acontecer algo que merece

ser revelado.

No primeiro mês do estado de emergência,

numa pequena vila fronteiriça, o

mercado local, o dumba, ficou praticamente

vazio. A fronteira tinha fechado

e tudo o que era vendido ali sempre veio

do outro lado da fronteira: da África do

Sul.

PARA NOS

ADAPTARMOS TIVEMOS

DE ADOPTAR NOVAS

FORMAS DE VIVER

Agora que vamos no terceiro mês da

renovação do estado de emergência,

deu-se um fenómeno muito especial: o

mercado está cheio e bem abastecido.

Ao falar com uma vendedora, perguntei-lhe

de onde vinham aqueles legumes

todos. Ela respondeu-me prontamente:

“Vêm daqui mesmo.”

Perguntei-lhe de aonde vinham e

como. E ela disse-me que estavam a ser

cultivados ali, na vila. Tinham feito machambas.

Os vegetais eram mais frescos, mais

bonitos de aspecto e mais saborosos.

Havia também uma enorme variedade.

As margens de venda também são

maiores para os comerciantes.

E fica claro, com este exemplo, que afinal

é possível.

O PRODUTO LOCAL

O produto local é produto da necessidade.

Temos tudo. A terra é fértil. Aquilo de

que precisamos é de ideias férteis. Semear

para colher. E isto não apenas na

agricultura, mas em todas as áreas.

O ponto, neste caso, é a capacidade

que, afinal, existe. Foi preciso querer

para crer.

Vamos imaginar, apenas por momentos,

que as fronteiras iriam continuar

fechadas durante muito tempo. O que

aconteceria?

Teríamos de resolver tudo localmente.

Os serviços em todas as áreas iriam

desenvolver-se.

As skills dos profissionais já estão a

melhorar. Se não se pode importar roupa,

costura-se. Os serviços básicos não

podem parar. E a necessidade que existe

faz com que se desenvolvam soluções locais

para tudo.

Este é o diagnóstico do vírus na economia.

O novo coronavírus acelerou

a produtividade local. A necessidade

de adaptação a uma nova realidade.

E é sabido que, se a capacidade local aumenta,

a produção também aumenta.

E Moçambique passa de importador a

exportador.

Os produtos locais surgem e, por consequência,

marcas locais para esses produtos.

A distribuição local também aumenta.

E com isso a necessidade de vias de acesso

para escoar a produção.

A economia fortalece-se.

Fazer crescer a capacidade local é fazer

crescer Moçambique.

HÁ UMA EMERGÊNCIA

EM ENTENDER

O ESTADO DE

EMERGÊNCIA

Com o encerramento das escolas,

uma geração jovem com acesso à comunicação

digital está a usar o on-line

para aprender. E muitas pessoas estão

48 | Exame Moçambique


a aprender coisas que nunca tinham feito.

A consultar o YouTube e outras plataformas.

Há uma mudança a acontecer, e uma

aceleração enorme provocada pela pandemia.

Para nos adaptarmos tivemos de adoptar

novas formas de viver.

A GLOBALIZAÇÃO FOI INFECTADA

Recentemente, a revista The Economist

saiu com este headline muito forte na

capa: “Has COVID-19 killed globalisation?”

E aprofunda, do ponto de vista

ocidental, o modo como a economia

global está a ser afectada e a maneira de

fazer marketing.

Já antes da pandemia a globalização

estava a enfraquecer. O sistema de comércio

global que dominou a economia

nas últimas décadas estava a ser prejudicado

com as crises económicas e a disputa

a nível comercial entre a América

e a China.

Agora, com o impacto imediato nas

vendas das grandes marcas globais, tudo

muda.

Há uma reflexão lógica por parte dos

accionistas das multinacionais acerca

de onde deverão investir nos próximos

anos. Porque as coisas não voltarão a ser

como eram.

E antecipa-se um aumento da subsistência

local e investimento nos bens

NESTE MOMENTO EM

QUE TODOS ANDAMOS

DE MÁSCARA, CAIU

A MÁSCARA DA

GLOBALIZAÇÃO

essenciais, sendo a saúde um dos mais

importantes sectores. Um bem de necessidade

básica.

O capital muda de mãos.

As acções que irão valorizar são as

boas acções.

Afinal, quem pode garantir que não

irão surgir novas pandemias? A Humanidade

não tem a imunidade que pensava

ter.

Isto mudou a globalização como a conhecíamos.

E aumenta o localismo em

todos os seus aspectos.

A comunicação também muda. Aumenta

a necessidade de obter informação

e de comunicar todas estas novas

formas de viver e entendê-las rapidamente.

Há uma emergência em entender o

estado de emergência., assim como os

aspectos positivos que trouxe. Para Moçambique,

é a revelação da capacidade

local.

Estas são lições que devemos aprender

e, sobretudo, empreender. Aplicar.

Fazer.

Neste momento em que todos andamos

de máscara, caiu a máscara da

globalização. Pensar local nunca foi tão

importante.b

junho 2020 | 49


COMMODITIES DOSSIER

A DOENÇA DAS

COMMODITIES

O novo coronavírus “infectou” as commodities

prejudicando a balança comercial moçambicana, já de si

deficitária. Com as exportações concentradas no carvão

e no alumínio, as receitas voltaram a cair no primeiro

trimestre. O segredo está na diversificação da economia,

com o agro-negócio a precisar de ganhar peso

RICARDO DAVID LOPES

EXPORTAÇÕES:

Estão em queda desde

o início do ano

Aideia de que no diversificar

é que está o ganho aplica-se

como uma luva à economia

moçambicana, hoje mais do

que nunca — e, sobretudo,

daqui em diante. As exportações do país

estão em queda desde o início do ano, em

valor, depois de já terem recuado no ano

passado, a sofrer agora o impacto da pandemia

da COVID-19 quer por reduções

na produção, quer pela baixa das cotações

internacionais dos principais produtos

vendidos ao exterior, algo que já

se tinha feito sentir em 2019.

As receitas das exportações estão concentradas

nos sectores do carvão e do alumínio,

com quase 70% do total, pelo que

não é de espantar que, agora, paguemos

a factura. A procura de ambas as matérias-primas

está em baixa, assim como o

preço, o que se reflecte nas contas finais:

o país arrecadou, entre Janeiro e Março,

de acordo com dados do banco central,

pouco mais de 1,1 mil milhões de dólares

com tudo o que vendeu para fora.

O CARVÃO E O ALUMÍNIO

REPRESENTAM QUASE

70% DAS EXPORTAÇÕES

GETTY

A chave, defende o jurista Guilherme

Daniel, partner do escritório de advogados

Vieira de Almeida, está na diversificação

da economia para que as receitas

dependam menos de poucas matérias-

-primas, como acontece actualmente —

problema que pode agravar-se no futuro,

quando entrarem em operação os megaprojectos

de gás natural previstos.

“A diversificação é uma grande vantagem,

porque a economia continua a funcionar,

salvo nos casos em que o impacto de

uma crise seja imediato, e a saída da crise

é facilitada após a COVID-19”, explica o

jurista, para quem o governo deve reforçar

a aposta no sector agrícola, o que aliás está

previsto no Plano Quinquenal 2020-2025.

“Cerca de 10% do Orçamento do Estado

nos próximos cinco anos será para a agricultura”,

lembra Guilherme Daniel, que

aponta como sectores estratégicos a avi-


cultura e produções associadas (caso do

milho ou soja, por exemplo), ou a cultura

de alimentos “básicos”, como a batata,

a cebola ou o tomate.

“É uma área para a qual o país está a olhar

com muita atenção”, afirma, lembrando

que o sector agrícola, mesmo em momentos

de crise, nem é dos que mais sofre —

e as pessoas precisam sempre de comer.

Olhar para lá do carvão, do alumínio e

até do gás é necessário. Dados do Banco de

Moçambique indicam que, entre Janeiro

e Março deste ano, as receitas provenientes

das exportações destes produtos

diminuíram fortemente, em particular

as do carvão, a matéria-prima que mais

dinheiro rende a Moçambique, que afundou

mais de 40%.

VALE DEIXA CAIR OBJECTIVO

A Vale garante que até agora a produção

se mantém, mas admite haver dificuldades

à vista, pelo que deixa de assumir a

meta de produção que a multinacional

brasileira tinha avançado.

“A mina de Moatize, na província de Tete,

continua a trabalhar, estando garantida a

continuidade do negócio em Moçambique”,

garantiu a empresa num comunicado

referente aos resultados do primeiro

trimestre. No documento, a empresa refere

que vai “manter a exploração de carvão

activa, ainda que de forma mais limitada”.

“Devido às incertezas decorrentes da

pandemia do novo coronavírus, que

incluem a postergação da reforma da unidade

de processamento em Moçambique

(sem nova data de início), a Vale retira o

guidance para a produção de carvão em

2020 e não pode indicar novo guidance

no momento”, acrescenta.

Guilherme Daniel reforça que “a Vale

está quase parada, quer pelo facto de

muitos expatriados terem regressado ao

Brasil [por causa da pandemia], quer,

especialmente, porque o principal cliente

é a China”, ainda longe de recuperar do

impacto do novo coronavírus.

Não é difícil fazer as contas ao mal que a

pandemia está também a fazer a esta indústria.

O preço do carvão (ver gráficos nestas

páginas) já caiu cerca de 22% desde o início

do ano (até 20 de Maio, data da recolha

A MARCA DAS NOSSAS EXPORTAÇÕES

TENDÊNCIA DE SUBIDA (em milhões de dólares)

No ano passado, as exportações recuaram

cerca de 9% face a 2018, mas há uma tendência

de subida nos últimos cinco anos

PREÇOS EM QUEDA

Os preços das matérias-primas mais importantes

nas exportações de Moçambique estão em queda

-10%

-20%

-30%

-40%

-50%

2019 2018 2017 2016 2015

Total Miscelânea

de produtos

Energia

eléctrica

Outras

mercadorias

Indústria

extractiva

Indústria

transformadora

Produtos

Agrícolas

Fonte: Banco de Moçambique.

Var. 1 ano

Gás

Natural

Var. início do ano

Fonte: Trading Economics.

1000 2000 3000 4000 5000

Carvão

(usd/ton)

Alumínio

(usd/ton)

Açúcar

(usd/libra)

Algodão

(usd/libra)

de dados para este artigo). O do alumínio,

por seu turno, baixou quase 17,6%,

em linha com a baixa das cotações internacionais

do açúcar, do algodão ou do caju.

Apostar na agricultura e toda a cadeia

do agro-negócio faz, assim, ainda mais

sentido, até porque, em geral, o desempenho

das exportações nesta área tem sido

positivo, e porque aquilo que produzirmos

aqui deixaremos de ter de importar, gastando

divisas sem que se crie valor no país.

No ano passado, por exemplo, as receitas

oriundas das exportações agrícolas, com

um peso de menos de 10% nas exportações

O PESO DAS EXTRACTIVAS (peso em % do total)

As indústrias extractiva e transformadora

valeram, no ano passado, mais de dois terços

das exportações, a agricultura pesa menos de 10%

2,9%

RECEITAS DESLIZAM (IT colectado — milhões de dólares)

Entretanto, nos primeiros três meses do ano

mantém-se uma tendência de queda nas receitas,

face ao homólogo, fruto da redução de produção

e preços, nalguns casos

1000

800

600

400

200

IT 2019 IT 2020

Produtos

Agrícolas

9,2%

Produtos agrícolas

Miscelânea de produtos

Fonte: Banco de Moçambique.

Indústria transformadora

Indústria extractiva Outras mercadorias Energia eléctrica

Fonte: Banco de Moçambique.

Indústria

transf.

9,7%

41,9%

Indústria Outras

extractiva mercadorias

9,1%

Energia

eléctrica

27,2%

Misc. de

produtos

Total

junho 2020 | 51


COMMODITIES DOSSIER

CARVÃO: As oscilações

de preço da matéria-

-prima afectam

profundamente as

exportações

D.R.

totais, subiram cerca de 42,7% face a 2018,

com vários produtos a crescerem a três ou

mesmo quatro dígitos — caso do algodão.

PREÇO DO CARVÃO CAIU

22% DESDE JANEIRO.

O DO ALUMÍNIO 17,6%

MENOS DEPENDÊNCIA

Tiago Dionísio, economista-chefe da

Eaglestone Securities, concorda que a

agricultura deve estar no mapa moçambicano,

a par de projectos nas indústrias

extractivas e outras, mas defende que, ao

contrário de outros países, Moçambique

está menos exposto às variações de uma

só matéria-prima e de um só comprador.

“Há uma dependência importante do carvão

e do alumínio, mas bastante inferior à

de outros países africanos exportadores de

commodities, como Angola ou a Nigéria,

onde mais de 90% das suas exportações

dizem respeito ao petróleo. Por outro lado,

Moçambique exporta para um número

variado de países, com destaque para a

África do Sul e a Índia (17% do total)”,

adianta o responsável, para quem “ter

uma base diversificada de clientes é também

um factor importante para enfrentar

melhor os efeitos da actual pandemia”.

O economista lembra que “a indústria

extractiva tem atraído mais de metade do

investimento directo estrangeiro no país

nos últimos anos” e enumera outros “sectores

relevantes”, como a indústria transformadora

e do transporte, armazenagem

e comunicações. “Penso que estes sectores

continuarão a ser talvez os que vão

atrair maior interesse”, antecipa, adiantando

que “os países melhor posicionados

deverão ser Itália, França e EUA devido ao

sector do gás”.

Mas há outros países que têm demonstrado

maior interesse por Moçambique nos

últimos anos, como os Emirados Árabes

Unidos e a Holanda, diz o responsável,

para quem é agora importante “assegurar

que as empresas continuam a operar

o melhor possível e que os trabalhadores

continuam a receber o seu ordenado”.

“A introdução de algumas medidas temporárias

de alívio fiscal poderia ajudar

tanto as empresas, como os trabalhadores”,

refere o economista-chefe da Eaglestone,

que tem escritórios em Lisboa, Luanda,

Moçambique e Joanesburgo, entre outros,

estando em três grandes áreas de actividade

— assessoria financeira, private

equity e mercado de capitais. Nalguns

casos, defende, teria mesmo “de haver

um apoio financeiro directo aos agentes

económicos, empresas e particulares”, e

as medidas “teriam também de ser bastante

focadas nos sectores da economia

mais afectados pela pandemia e/ou também

naqueles com maior peso no PIB”.

“A agricultura representa cerca de 20%

do PIB moçambicano, mas sectores como

os transportes e comunicações, retalho,

52 | Exame Moçambique


indústria transformadora e mineiro são

também bastante relevantes para o país.”

EMPRESAS PRECISAM DE DINHEIRO

Guilherme Daniel também defende que

devem existir medidas para apoiar sobretudo

a liquidez das empresas, ainda que

entenda que o Estado, por ter pouca capacidade

financeira, não consiga abdicar

O ESTADO DEVE SER

CRIATIVO NAS MEDIDAS

DE APOIO A EMPRESAS

de receitas fiscais para ajudar a economia

a retomar.

“O Estado tem que ser mais criativo”

neste contexto, defende o sócio da Vieira

de Almeida. “Mesmo que não sacrifique

receita fiscal, o governo poderá ter de, por

exemplo, vir a aceitar diferir alguma receita”,

afirma, acrescentando que a própria Segurança

Social “também poderia reembolsar

as empresas” de parte das contribuições.

O problema, lembra o jurista, é que a

redução da actividade está a deixar muitas

empresas sem liquidez para pagar

sequer os salários, optando muitas vezes

por despedir pessoal em vez de tentar

baixar custos fixos, reduzindo os salários

com a aprovação dos trabalhadores.

A lei, lamenta, não o permite.

“Mesmo que haja um acordo entre

empresa e trabalhador para uma redução

temporária e extraordinária do valor

do salário, tal é nulo perante a lei”, afirma,

apelando a que o governo adopte “medidas

legislativas de curto prazo, adaptadas

à situação excepcional” que vivemos.

“O que está em causa é salvar empregos.”

CAJU A SOFRER

Na área agrícola, o sector do caju é um

dos que mais está a sofrer, não apenas

pela queda do preço e da produção, mas

por causa das condições do mercado, que

favorecem os estrangeiros em detrimento

dos investidores nacionais, alerta a associação

AICAJU.

Em entrevista à EXAME (ver pág. 56),

o vice-presidente da associação denuncia

D.R.

a concorrência desleal que é feita por asiáticos,

sem que o governo adopte medidas

de protecção aos nacionais.

Em meados de Maio, recorde-se, a

AICAJU anunciou em comunicado que

“o processamento de castanha [de caju]

este ano não deverá chegar às 35 mil

toneladas, o que representa uma quebra

acima de 30% quando comparada com

as cerca de 52 mil toneladas processadas

o ano passado”.

“O país tem, neste momento, menos de

dez fábricas de processamento primário

a operar, sendo que algumas irão parar a

meio deste ano, estima-se que em Agosto,

por falta da matéria-prima”, um problema

que a associação diz ser fruto de “uma

tendência de comercialização negativa

dos últimos anos, uma vez que a indústria

nacional tem vindo a processar cada

vez menos castanha”. “As quebras do processamento

da castanha-de-caju justificam-se

pelo contexto, particularmente

adverso, em que os industriais nacionais

DIVERSIFICAÇÃO:

O esforço a fazer na

agricultura é decisivo

para obter maior

estabilidade

estão a operar, com a crescente concorrência

agressiva e protegida por parte de

players internacionais, como é o caso da

Índia e do Vietname, e pela não actualização

das medidas de resposta domésticas a

este novo paradigma”, lamenta a AICAJU.

“Ao aumentar a sobretaxa da importação

da amêndoa acabada de 45 para 70%, no

ano passado, a Índia aumentou ainda

GOVERNO APROVOU

UM SUBSÍDIO AO PREÇO

DO ALGODÃO-CAROÇO

PARA 2019-2020

mais o poder de compra e a capacidade

de influenciar mercados por parte dos

seus industriais”, denuncia a associação,

que explica que, agora, os processadores

asiáticos “podem comprar, em Moçambique,

matéria-prima a preços inflaciona-

junho 2020 | 53


COMMODITIES DOSSIER

dos e desleais, desvirtuando o mercado

com impacto negativo na indústria nacional,

na cadeia de valor de transformação

e, por último, nos cofres do Estado”.

No sector do algodão as notícias são mais

animadoras, apesar de uma quebra de 45%

nas receitas de exportação no primeiro trimestre

do ano, face ao homólogo, motivada

também pela baixa de cerca de 14%

na cotação internacional desta commodity.

O Conselho de Ministros aprovou no

mês passado um subsídio ao preço do algodão-caroço

para a campanha 2019-2020.

Em comunicado, a Associação Algodoeira

de Moçambique (AAM) refere que este

subsídio, no valor de 6 meticais por cada

quilo de algodão-caroço, “permitirá elevar

o valor das compras [deste produto]

aos produtores para cerca 1,1 mil milhões

de meticais, o que representa uma enorme

ferramenta de desenvolvimento rural”.

“Este apoio é, sem dúvida, um marco

histórico na política agrária e económica

REDUÇÃO DA

ACTIVIDADE ESTÁ

A DEIXAR MUITAS

EMPRESAS SEM LIQUIDEZ

nacional e um sinal real e indiscutível da

aposta séria do governo na agricultura e

na população rural”, adianta o documento,

que garante que este “não é um subsídio ao

consumo, mas sim à produção e às famílias

produtoras”. A associação liderada por

Francisco Ferreira dos Santos afirma que,

“no actual contexto de grande crise económica

global, causada pela pandemia da

COVID-19, em que o algodão tem sido um

dos produtos agrícolas mais afectados, este

subsídio vai, por um lado, proteger o rendimento

de quase um milhão de pessoas

do meio rural, e por outro representa um

claro incentivo à produção e produtivi-

dade, na medida em que se consegue um

aumento preço do algodão-caroço face ao

praticado na campanha anterior”.

ALGODÃO EM ALTA

Na próxima campanha de 2020/21 teremos

ainda mais produtores motivados e a

produzir mais algodão, prevendo-se, por

essa via, um aumento no valor das exportações

em pelo menos 12 milhões USD,

o que, refere a AAM, representa “mais de

três vezes o valor do subsídio” a este sector,

que “assiste mais de 200 mil famílias.

Associado ao algodão, o subsector transformador

“conta com dez fábricas de processamento,

gerando cerca de 40 mil postos

de emprego directo e indirecto na cadeia

de valor”.

Guilherme Daniel também vê com bons

olhos este tipo de medidas, porque reflectem

a aposta do governo na agricultura.

“A ideia é que possam existir mais subsídios

para sectores produtivos da economia.”b

D.R.

VALE: Com a incerteza

trazida pela pandemia

deixou cair o objectivo

para a produção

54 | Exame Moçambique


junho 2020 | 55


COMMODITIES DOSSIER

PROJECTOS DE

EXPLORAÇÃO DE GÁS

RESISTEM À PANDEMIA

A crise causada pela pandemia da COVID-19 levou a que algumas empresas petrolíferas

revissem os seus planos de negócios, mas Carlos Zacarias, presidente do conselho

de administração do Instituto Nacional de Petróleo (INP), diz que os prazos estabelecidos

serão respeitados

VALDO MLHONGO

CARLOS ZACARIAS:

O presidente do INP

garante que os prazos

previstos para o

início da produção

e carregamento

do primeiro cargueiro

de GNL se mantêm

56 | Exame Moçambique


A

crise causada pela pandemia

da COVID-19 não irá

comprometer o arranque

da primeira produção e

exploração de gás natural

liquefeito do Projecto Coral Sul, marcada

para o ano de 2022, garante Carlos Zacarias,

presidente do conselho de administração

do Instituto Nacional de Petróleo

(INP), em entrevista à EXAME. Carlos

Zacarias revelou que está em curso o lançamento

do 6.º concurso para a concessão

de áreas para a pesquisa e produção

de hidrocarbonetos, decorrendo agora

acções de avaliação do potencial petrolífero,

bem como a definição das áreas

de concurso, incluindo discussões com

os potenciais investidores. Até aqui, só

nos últimos quinze anos Moçambique

recebeu um investimento de mais de 10

mil milhões de dólares em actividades de

pesquisa e desenvolvimento nas bacias de

Moçambique e Rovuma.

Em que medida a conjuntura actual

(COVID-19) compromete os

investimentos feitos na indústria

petrolífera?

Em Moçambique, a combinação dos efeitos

da COVID-19 e da baixa repentina do

preço de petróleo levou a que algumas

companhias petrolíferas a operarem na

bacia do Rovuma revissem os seus planos

de negócio. Com efeito, houve reformulação

dos programas de trabalho, no

entanto estas alterações serão ajustadas

às fases subsequentes dos projectos por

forma a respeitarem-se os prazos estabelecidos.

“NÃO OBSTANTE A

DESACELERAÇÃO DAS

ACTIVIDADES E TODAS

AS DIFICULDADES

CRIADAS PELA ACTUAL

CONJUNTURA, MANTÉM-

-SE O ANO DE 2024

COMO O INÍCIO DA

PRODUÇÃO DO GÁS

NATURAL LIQUEFEITO”

Em que estágio se encontram os

projectos de exploração de gás

natural em curso no presente

momento?

Na área 4 da bacia do Rovuma as operações

de perfuração e conclusão dos poços

do projecto Coral Sul FLNG foram interrompidas

temporariamente devido ao

impacto da pandemia da COVID-19 para

a rotação de pessoal. No entanto, a construção

da plataforma flutuante Coral Sul

prossegue como previsto na Coreia do

Sul, sendo que o início da primeira produção

de LNG está marcado para 2022.

No Projecto Golfinho/Atum (Mozambque

LNG) Área 1 da bacia do Rovuma,

embora a Total tenha anunciado cortes

de cerca de um quinto nas despesas de

investimento e redução dos custos operacionais

para 2020 a nível global, os investimentos

e projectos prioritários, incluindo

o Projecto Golfinho/Atum, não sofrerão

qualquer redução. Não obstante a desaceleração

das actividades e todas as dificuldades

criadas pela actual conjuntura,

mantém-se o ano de 2024 como o início

da produção do gás natural liquefeito,

tal como programado inicialmente, com

uma produção anual de 12,88 milhões de

toneladas (mtpa). No Projecto Rovuma

LNG — Área 4 da bacia do Rovuma, a

Rovuma Mozambique Venture (MRV),

operadora do projecto, anunciou o adiamento

da Decisão Final de Investimentos

do Projecto, inicialmente previsto para

2020, para uma data ainda não definida.

Este adiamento deve-se fundamentalmente

a cortes nas despesas operacionais

em 15% das respectivas empresas-mãe.

Não obstante, as concessionárias continuam

as suas actividades e prevê-se que

a DFI seja tomada logo que a conjuntura

do mercado alterar. No Projecto de Produção

de Gás de Pande/Temane — Blocos

de Pande e Temane, bacia de Moçambique,

a produção iniciou-se em 2004,

com uma capacidade contratual de 120

MGJ/a (milhões de gigajoules/ano) e um

investimento inicial de 1,2 mil milhões

de dólares, que expandiu em 2009 para

a capacidade de produção de 120 para 183

MGJ/a e posteriormente para 197 MGJ/a,

em 2015. Actualmente a produção é de

cerca de 190 MGJ/a (incluindo para o gás

usado em operações). A pandemia mundial

(COVID-19), que se vem alastrando

de forma rápida desde Dezembro de 2019,

obrigou à necessidade de tomada de medidas

de precaução de modo a proteger os

profissionais. Com efeito, a Sasol interrompeu

algumas actividades, mantendo

a continuação das suas operações e actividades

críticas em Moçambique, como

operações, serviços e actividades críticas

de negócio, porém observando na íntegra

as medidas de mitigação da COVID-

19 decretadas pelo governo, bem como

medidas internas da Sasol. No Projecto de

Produção de Petróleo Leve, actualmente

as actividades de perfuração, reparação e

abandono de poços encontram-se suspensas

devido ao alastramento da COVID-

-19, devendo ser retomadas o mais breve

possível em função dos desenvolvimentos.

Nas novas áreas adjudicadas no 5.º

concurso para pesquisa e produção de

petróleo em Moçambique, o programa

de actividades e orçamentos continua em

consonância com os contratos rubricados

aquando da concessão das áreas, não

havendo por enquanto previsão de alteração,

pelo menos a curto e médio prazos.

Nos últimos dez a quinze anos qual

foi o investimento total efectuado em

operações petrolíferas em

Moçambique?

Nos últimos dez a quinze anos foram

investidos mais de 10 mil milhões de dólares

em actividades de pesquisa e desenvolvimento

nas bacias de Moçambique

e Rovuma.

Quais são os projectos em

perspectiva?

Temos em vista o lançamento do 6.º concurso

para a concessão de áreas para pesquisa

e produção de hidrocarbonetos,

decorrendo com acções de avaliação do

potencial petrolífero bem como a definição

das áreas de concurso, incluindo dis-

junho 2020 | 57


COMMODITIES DOSSIER

cussões com os potenciais investidores. A

este processo seguir-se-á a submissão das

propostas de áreas a serem submetidas a

concurso à aprovação superior.

Moçambique mantém o calendário

para o desenvolvimento da produção

de gás natural liquefeito?

Pese embora tenha havido uma reformulação

dos programas de trabalho estabelecidos

com as companhias, importa referir

que estas alterações serão ajustadas às fases

subsequentes dos projectos por forma a

respeitar-se o calendário para o desenvolvimento

e produção do gás natural liquefeito.

Assim sendo, o início da produção

e carregamento do primeiro cargueiro

de GNL do Projecto Coral Sul continua

para 2022 e do Projecto Golfinho/Atum

(Mozambique LNG) para 2024.

Os riscos económicos da crise

poderão dificultar a decisão final de

investimento na bacia do Rovuma?

“NOS ÚLTIMOS DEZ A

QUINZE ANOS FORAM

INVESTIDOS MAIS

DE 10 MIL MILHÕES

DE DÓLARES EM

ACTIVIDADES

DE PESQUISA E

DESENVOLVIMENTO

NAS BACIAS DE

MOÇAMBIQUE

E ROVUMA”

Como sabe, o FID é tomado por investidores

tendo sempre em conta as condições

objectivas (mercado e outros), pelo que é

necessário que todas as condições objectivas

estejam criadas para que os investidores

decidam sobre os investimentos

a constituir. Neste momento, o mercado

é caracterizado, para além da COVID-

19, por uma queda acentuada do preço

de petróleo no mercado internacional.

O preço do gás natural caiu, no

entanto incomparavelmente menos

que o do petróleo. Trata-se de um

mercado muito mais estável?

O preço de referência na indústria petrolífera

é o petróleo. Todos os outros subprodutos

associados à indústria têm os

preços indexados ao preço do petróleo.

Quaisquer variações do preço do petróleo

afectam todos os outros subprodutos,

incluindo o gás natural. Ademais, o

efeito da queda dos preços do petróleo

sobre os outros subprodutos não é imediato

na medida em que existem cláusulas

nos contratos de compra e venda

(que são contratos de longo prazo) que,

de certa forma, asseguram a flutuação

dos preços. b

REUTERS

GÁS:

O seu preço é afectado

pelo valor do petróleo

no mercado

internacional

58 | Exame Moçambique


junho 2020 | 59


COMMODITIES DOSSIER

DESAFIOS GLOBAIS

EXIGEM RESPOSTAS

GLOBAIS

A queda dos preços das commodities e o seu impacto ao nível das economias africanas,

em especial em Moçambique, serviu como mote para o primeiro Webinar organizado pela

União Europeia em parceria com o Ministério da Indústria e Comércio e a EuroCam

VALDO MLHONGO

Não há dúvida de que a propagação

da pandemia da

COVID-19, que se vem

alastrando de forma rápida

desde Dezembro último,

trouxe consigo um grande impacto ao

nível da economia global. Para o continente

africano, em particular Moçambique,

cuja economia é fortemente dependente

das exportações das matérias-primas, os

impactos são enormes. Segundo dados

revelados pelo ministro da Indústria e

Comércio, Carlos Mesquita, os mercados

globais consomem cerca de 88% das

exportações de África, nomeadamente

petróleo, minério e produtos agrícolas.

Segundo Mesquita, África possui cerca de

12% das reservas de petróleo do mundo,

42% das reservas de ouro, cerca de 90%

das reservas de metais, vastos recursos

florestais e 60% das terras aráveis do pla-

60 | Exame Moçambique


neta. “O desafio para a África é, e sempre

foi, a capacidade limitada de agregar

valor aos recursos naturais e a interligação

entre diversos sectores na economia”,

referiu o ministro da Indústria e Comércio

durante a abertura do primeiro Webinar

focado na queda dos preços das commodities

e o seu impacto ao nível das economias

africanas, organizado pela União

Europeia em parceria com o Ministério

da Indústria e Comércio e a EuroCam.

Para Adriano Nuvunga, director do Centro

para Democracia e Desenvolvimento

(CDD), África precisa de uma boa governação

para aproveitar da melhor forma

as oportunidades de investimentos que

surgem. Lembrou as oportunidades de

investimentos que existiram, no passado

recente, mas que foram mal aproveitadas.

“Quando a África esteve no pico de recepção

de investimento directo estrangeiro

direccionado para o sector energético, deixou

essa janela de oportunidade escapar”,

referiu Adriano Nuvunga. Mostrou-se

OS MERCADOS GLOBAIS

CONSOMEM CERCA DE

80% DAS EXPORTAÇÕES

AFRICANAS

de paradigma nas economias africanas.

“O que estou a dizer é que não há neste

momento um debate sobre o modo como

África pode aproveitar este momento de

crise para diversificar a sua economia.”

Pietro Toigo, representante residente

do Banco Africano de Desenvolvimento

em Moçambique (BAD), mencionou uma

série de projectos de apoio que o BAD

tem na manga. Disse que, para já, a prioridade

é assegurar a continuação de abastecimento

de bens essenciais e a protecção

das cadeias de fornecimento continentais.

“Neste sentido estamos a trabalhar com

as comunidades económicas regionais,

com a coordenação das autoridades aduaneiras,

esperamos anunciar um programa

ao nível da SADC nos próximos dias.”

No sector industrial, adiantou que a sua

instituição pretende aproveitar a crise para

ver como o continente africano se pode

organizar em termos de uma estrutura

económica diferente. Sobretudo, no que

concerne a algumas das indústrias menos

desenvolvidas no continente, nomeadamente

a indústria farmacêutica. “Neste

momento, que há uma procura coordenada,

simultânea, de medicamentos, acho

que teremos espaço para o desenvolvimento

de uma indústria continental para

satisfazer a procura”, salientou sem avançar

números. Mas para que isso se materialize,

referiu Toigo, “é preciso integrar a

cadeia de valor ao nível continental e viabilizar

ainda mais a integração regional”.

DIVERSIFICAR A ECONOMIA

A economia moçambicana é dependente

dos sectores da mineração, produtos agrí-

preocupado com aquilo que chamou de

“endividamento excessivo”, e muitas das

vezes “ilegal”, que afecta as possibilidades

de as empresas internacionais atraírem

o investimento. Para ele, a crise causada

pela pandemia da COVID-19 deve servir

como um incentivo para uma mudança

em particular na protecção do que chamamos

corredores verdes, para permitir

o acesso do comércio de bens alimentares”,

avançou. E não ficou por aí. “Também

estamos a trabalhar numa iniciativa

de coordenação da resposta da política de

abertura dos mercados depois do lockdown

WEBINAR:

Uma parceria entre o Ministério

da Indústria e Comércio e a EuroCam

moderado pela directora da EXAME

junho 2020 | 61


COMMODITIES DOSSIER

ÁFRICA PODERÁ

APROVEITAR A CRISE

PARA DIVERSIFICAR

A ECONOMIA

rados”. O economista-chefe do Standard

Bank considera ainda que num contexto

em que a maior parte dos produtos que

Moçambique exporta tem pouco valor

acrescentado, “sempre que houver uma

grande oscilação no preço desses produtos

no mundo a economia está sujeita a sofrer

um choque na balança de pagamentos”.

Por parte do governo, Carlos Mesquita

avançou que há um trabalho que está

a ser feito na implementação de medidas

de apoio às empresas para garantir a

continuidade e o funcionamento possível

das actividades produtivas e da economia

como um todo. “A estratégia do

governo passa por impulsionar a produção

e a competitividade, potenciando a

utilização dos recursos naturais, internos,

de modo a dinamizar a cadeia de valor e

incentivar a modernização e a diversificação

da economia.”

Os “desafios globais”, ditados pelos efeitos

da pandemia da COVID-19, “precisam

de respostas globais”, referiu Antonio

Sanchez, embaixador da União Europeia,

frisando a necessidade de multilateralismo,

trabalho conjunto, para se vencerem

os actuais desafios. “Na Europa

RISCOS E OPORTUNIDADES:

Os efeitos da crise pandémica foram debatidos no Webinar

colas, energia e turismo, “onde a base de

exportação consiste fundamentalmente

em produtos não transformados”, assume

Carlos Mesquita. Estima que a queda das

exportações e os preços de produtos como

o alumínio, o carvão mineral, o algodão

e o açúcar, resultante da menor procura

global das commodities, “terá consequências

de longo prazo tendo em conta a

fraca capacidade de os países africanos,

em particular Moçambique, de enfrentarem

a crise da COVID-19”. A conjuntura

mundial obrigou o país a rever em

baixa o crescimento económico do presente

ano para 2,2%, com maior incidência

no sector dos transportes, construção

e turismo.

Fáusio Mussá, administrador e economista-chefe

do Standard Bank, assinalou

que o impacto da oscilação dos preços

das commodities tem a ver com o nível de

dependência de cada uma das economias

em relação aos recursos naturais. “No

caso de Moçambique, apesar de existir

uma relativa diversificação na contribuição

para o produto interno bruto, o que

observamos é que há uma grande dependência

das commodities para a receita de

exportação”, referiu, salientando que “seria

mais saudável para uma economia como

a de Moçambique que não só dependesse

das receitas de exportação do carvão, ou

de alumínio, mas que também tivesse no

seu portefólio de produtos de exportação

mais produtos da indústria manufactu-

estamos dispostos a pôr a nossa experiência

ao serviço dos países africanos”, disse.

E Moçambique, referiu o embaixador, tem

uma enorme vantagem nesse sentido pois

é um país aberto e está inserido em diferentes

espaços regionais. Mas isso, por si

só, não basta. Há que haver maior diversificação

económica. Apontou a revolução

digital e a economia verde como dois dos

grandes desafios do país, pois o potencial

existe. É um facto que face à crise e

à queda dos preços das commodities, as

economias africanas precisam, cada vez

62 | Exame Moçambique


mais, de diversificarem os investimentos

em projectos com maior potencial de rentabilidade.

Apesar disso, o representante

residente do BAD em Moçambique acredita

que, a médio prazo, a indústria do

GNL tem um grande potencial para servir

como “lubrificante” do crescimento

económico de Moçambique dado que a

crise actual se deve a uma queda da procura

global, causada pela pandemia da

COVID-19. Além disso, alguns factores

geopolíticos provocarão o aumento da

oferta. Para Toigo, o gás natural possui

uma cadeia de valor muito diversificada,

podendo ser um input na agricultura e na

produção eléctrica doméstica, entre outras

áreas. “Mesmo no contexto de diversificação,

fora das commodities do sector extractivo,

achamos que o gás natural liquefeito

vai ter um papel âncora no desenvolvimento

de Moçambique nos próximos vinte

a trinta anos. Mas alerta que “vai precisar

de um quadro de políticas e de um quadro

regulamentar muito claro para alavancar

o processo de industrialização

e de diversificação económica”.

Quem partilha a mesma linha do raciocínio

é Simone Santi, presidente da Euro-

Cam, entidade que congrega um conjunto

de câmaras de comércio e associações

similares europeias. Para ele, a queda do

preço do gás natural no mercado internacional

não significa, necessariamente, a

insustentabilidade dos negócios de GNL

da bacia do Rovuma. “O que conta mais é

a quantidade das reservas de gás natural

que Moçambique tem e o futuro da transição

energética a nível global, que justificam

a continuação dos megaprojectos

no sector de hidrocarbonetos”, referiu.

Santi lembrou ainda que a queda global

no preço das commodities não decorre de

fundamentos económicos, sendo antes

especulativa e, portanto, os preços vão

voltar a aumentar.

A INDÚSTRIA DO GNL

TEM POTENCIAL

PARA SERVIR COMO

“LUBRIFICANTE”

DO CRESCIMENTO

ECONÓMICO DE

MOÇAMBIQUE

PME EM SITUAÇÃO CRÍTICA

A queda global dos preços das commodities

tem também afectado as pequenas

e médias empresas, que correspondem

a mais de 90% do tecido empresarial

moçambicano. Dados da Confederação

das Associações Económicas de Moçambique

(CTA) indicam que no sector do

oil&gás, a nível laboral, foram repatriados

vários especialistas estrangeiros e nacionais

que estão envolvidos na implantação

dos projectos de petróleo e gás na província

de Cabo Delgado, afectando negativamente

a produtividade de toda a cadeia

de valor associada ao sector. Segundo a

CTA, cerca de 160 PME na área mineira

registaram uma redução significativa

na facturação, o que corresponde a uma

perda de receita estimada em cerca de

12,6 milhões de dólares. Um cenário

que, reduzindo a base de tributação, irá,

sublinha Adriano Nuvunga, afectar ainda

mais a situação deficitária do Orçamento

do Estado. “Uma das principais fontes de

financiamento Orçamento do Estado “é

o pagamento do IRPS e as pessoas estão

a ir para o desemprego”, precisou.

Em termos de impactos directos, mais de

500 PME associadas às indústrias extractivas,

em particular no sector mineiro, estão

afectadas pelos impactos da pandemia

da COVID-19 até à data, pelo que cerca de

85 suspenderam completamente as suas

actividades devido à suspensão temporária

dos contratos. Podem estar em risco

26 350 postos de trabalho se a situação

financeira das empresas se agravar. Pietro

Toigo refere que o BAD poderá analisar

a possibilidade de financiar algumas iniciativas

através do Orçamento do Estado,

abrangendo a protecção social e algumas

medidas de apoio às PME, entre outras.

“Estamos a considerar algumas intervenções

directas de apoio ao sector privado

através de linhas de créditos para bancos

locais que posteriormente poderão

ser disponibilizadas a PME”, avançou,

salientando que “são linhas de créditos

a longo prazo”.

Quando “o novo normal” se estabelecer,

Fáusio Mussá diz que o governo

precisará de criar um ambiente macroeconómico

estável, um ambiente em que

as taxas de juros são estáveis e baixas

por um período longo, para assegurar o

alavancamento da competitividade das

PME. “Penso que Moçambique já está a

trabalhar nisso através das intervenções

do governador de Banco de Moçambique.

Mas também, defende Mussá, deve existir

facilidade em fazer negócios em Moçambique

e um ambiente de paz. “Há aqui

um conjunto de desafios que as empresas

pequenas e grandes enfrentam que

têm de ser ultrapassados.”

No seu discurso de encerramento, o

embaixador da União Europeia reconheceu

que numa crise todos perdem,

mas também é possível aproveitar a crise

para conceber algumas estratégias. Salientou

que um dos pilares de um Moçambique

mais forte, com mais capacidade nos

próximos anos, é investir na juventude,

na formação para aproveitar todas essas

oportunidades que o país tem. b

junho 2020 | 63


COMMODITIES DOSSIER

CAJU: Um produto que

pode voltar a ganhar a

expressão que teve na

economia moçambicana

“O INVESTIMENTO ENCONTRA

SEMPRE CAMINHO ONDE

É BEM-VINDO”

A Associação das Indústrias de Caju alerta para a queda do preço

da amêndoa nos mercados internacionais, uma quebra ditada pela concorrência

desleal e agravada pela pandemia

RICARDO DAVID LOPES

64 | Exame Moçambique


A

fileira do caju perde terreno

sobretudo devido à concorrência

desleal da Índia

e do Vietname e também

por não haver medidas do

Estado que privilegiem o empresariado

nacional, alerta o vice-presidente da Associação

das Indústrias de Caju (AICAJU).

A baixa do preço internacional da amêndoa,

em plena pandemia, vem agravar

a situação.

As exportações de castanha e de

amêndoa de caju triplicaram em valor

em 2019 face a 2018. O que esteve na

origem deste desempenho?

É fundamental fazer a distinção entre as

exportações de castanha-de-caju, que é

um produto em bruto, da amêndoa, que

é processada e exportada com valor acrescentado.

No contexto actual, 49% de todo

o valor da cadeia, da árvore até ao consumidor

final na UE ou EUA, é captado

se o caju for processado no país. No que

respeita à indústria foram processadas

60 mil toneladas em 2018, 52 mil em 2019,

e estima-se que 35 mil em 2020.

E a produção de matéria-prima?

Tem vindo paulatinamente a aumentar,

apesar de ainda estar longe das históricas

250 mil toneladas de quando éramos os

maiores produtores de caju do mundo. De

acordo com dados do INCAJU, a campanha

de comercialização em 2018/19 registou

142 104 toneladas de castanha-de-caju

comercializadas, que comparam com 129

“O PREÇO DA AMÊNDOA

CAIU MAIS DE 15% DESDE

O INÍCIO DA CRISE E 25%

FACE AO ANO PASSADO”

643 toneladas no anterior. A indústria foi,

num passado recente, responsável por mais

de 50% da absorção da matéria-prima, mas as

razões do decréscimo deste rácio prendem-

-se com a implementação de políticas proteccionistas

e encorajadoras do investimento

e processamento industrial no Vietname e

na Índia. Neste momento, afigura-se fundamental

a actualização, da nossa parte,

das políticas nacionais de defesa da indústria

para continuarmos a ser competitivos.

Têm surgido novos investimentos?

Na indústria, houve uma grande consolidação

e aumento da capacidade por parte dos players

já existentes até 2016. Houve igualmente uma

corrida à mecanização, entre 2010 e 2016,

no sentido de nos mantermos competitivos.

Em 2018, o Presidente Filipe Nyusi inaugurou

a primeira fábrica de processamento que

surgiu na zona Centro/Sul — Macia, Gaza

— em mais de vinte anos. Trata-se de unidade

totalmente mecanizada e orçamentada

em mais de 7,5 milhões de dólares.

No entanto, o espírito dos novos investimentos

na indústria do caju moçambicana foi

posto em espera devido à delapidação das

condições para processar no país. Infelizmente,

a produção comercial ainda não é

uma realidade.

Porquê?

Devido a muitos constrangimentos: genética

vegetal, pressupostos para a modelação

financeira fidedignos e problemas

de acesso a terra com escala comercial.

Neste campo, acho que temos bastante a

aprender com as experiências da Costa do

Marfim e do Brasil. Seria interessante um

acordo com o Brasil no que toca à investigação

agrária, de modo a melhorarmos

os nossos rendimentos ao nível do campo.

É também neste âmbito que os industriais

do caju pretendem implementar programas

de capacitação dos produtores para o desenvolvimento

de novos cajueiros. O objectivo

é garantir às comunidades os recursos

e infra-estrutura para apoiar a plantação

do caju através de suporte técnico e financeiro.

A indústria de caju nacional tem uma

capacidade única de agregar valor à cadeia

agrícola e fomentar a economia local. Estes

fundamentos são já hoje espelhados no projecto-piloto

de Malaipa, que visa integrar

produtor e processador, com todos os benefícios

que tal relação traz.

Qual o emprego no sector?

Estimam-se que existem mais de 1,4 milhões

de famílias produtoras de caju no território

moçambicano. Em relação à indústria,

já empregou, num passado recente, cerca

de 17 500 trabalhadores formais, na sua

maioria, em mais de 75%, mulheres e contribuidores

para a Segurança Social. Por

outro lado, estima que há cerca de 25 mil

chefes de família dependentes da cadeia de

valor do processamento. E há mais de 250

pequenas e médias empresas moçambicanas

a trabalharem com os industriais.

Quais os principais mercados de

exportação deste produto?

Os EUA e o mercado europeu continuam

a ser os maiores, especialmente para amêndoas

inteiras, bem como o Médio Oriente e

alguns países sul asiáticos, mais para “grades”

de partidas.

Quais têm sido os principais

junho 2020 | 65


COMMODITIES DOSSIER

constrangimentos na produção

industrial?

As quebras do processamento da castanha-

-de-caju justificam-se pelo contexto particularmente

adverso em que os industriais

nacionais estão a operar, com a crescente

concorrência agressiva e protegida por parte

de players internacionais, casos da Índia e

do Vietname, e pela não actualização das

medidas de resposta domésticas a este novo

paradigma. Ao aumentar a sobretaxa da

importação da amêndoa acabada de 45%

para 70% no ano passado, a Índia aumentou

ainda mais o poder de compra e a capacidade

de influenciar mercados por parte

dos seus industriais. Os processadores asiáticos

podem agora comprar, em Moçambique,

matéria-prima a preços inflacionados

e desleais, desvirtuando o mercado com

impacto negativo na indústria nacional,

na cadeia de valor de transformação e, por

último, nos cofres do Estado.

E na exportação, há

constrangimentos?

Existem alguns problemas do foro logístico

na exportação em bruto, mas, de uma

maneira geral, não há problemas de maior.

Importa referir que a exportação ilegal,

sem pagamento da sobretaxa, continua a

lesar o Estado moçambicano em milhões

de dólares por ano, e claro que desvirtua

a comercialização ao nível do campo.

Estão previstos novos investimentos

no sector?

Neste momento todos os investimentos estão

parados, por falta de um quadro regulatório

e de fomento da indústria que inspire

a confiança necessária para os industriais

crescerem e consolidarem as suas operações,

e que, por outro lado, atraia novos

players. Contudo, acreditamos que, com

um plano bem definido, poderíamos, em

cinco anos, processar toda a castanha produzida

em Moçambique. O investimento

encontra sempre o seu caminho para onde

é bem-vindo, mas para tal é necessário

haver políticas que priorizem verdadeiramente

que a castanha seja absorvida pelas

fábricas moçambicanas e que, por outro

lado, ofereçam um quadro de trabalho que

seja propício ao crescimento da indústria.

A QUEBRA (TONELADAS PROCESSADAS /mil ton)

A indústria do caju, que processou 60 mil

toneladas em 2018, prevê só processar 35 em 2020

60 52 35

2018 2019 2020*

*previsão

Quais os principais players?

Existem cerca de 17 fábricas activas, apesar

de este ano apenas estarem a laborar dez, no

rescaldo das dificuldades que vivemos. Das

17 fábricas, nove são de grande dimensão

(mais de 3500 toneladas/ano), destacando-

-se a Condor, a Olam, a ETG (Korosho) e a

Gani Comercial (Caju Ilha), sendo as restantes

de pequena e média dimensão.

O ano está quase a meio, com a

pandemia da COVID-19 a afectar todas

as economias. Como está a evoluir o

sector?

As medidas de distanciamento e de higiene

e segurança alimentar ditaram uma redução

do nível de produção, no entanto o mais

preocupante foi a queda significativa dos preços

da amêndoa no mercado internacional.

A indústria de processamento moçambicana

é uma a que se chama single origin — toda a

matéria-prima tem origem no mesmo país

(Moçambique) — e é aprovisionada pelos

processadores no curto espaço de tempo

da campanha de comercialização — tradicionalmente

de Outubro a Novembro no

Norte do país, de Janeiro a Março no Sul.

Isto quer dizer que os processadores assumem

um risco de lock de custo de inventário

de matéria-prima, obviamente em linha

com o mercado do produto acabado, mas

estando expostos às variações do preço da

amêndoa acabada durante o resto do ano.

O ano de 2020 fica inevitavelmente marcado

pelo novo coronavírus, mas a nossa

resiliência industrial faz-nos acreditar que

ultrapassaremos os problemas causados

desde que os fundamentais da indústria

sejam repostos, em termos de políticas,

em tempo útil.

Os preços têm-se mantido estáveis

ou há uma tendência de queda?

Há uma tendência de queda, como disse.

Este ano, a campanha de caju fica, inevitavelmente,

marcada pela pandemia da

COVID-19. Muito antes de os primeiros

casos de infecção terem sido confirmados

em Moçambique já o sector sentia o enorme

impacto causado pela quebra dos mercados

do Oriente, em particular da China.

Em Janeiro, a exportação de amêndoa do

Vietname para a China atingiu mínimos

dos últimos cinco anos. Este facto quebrou

a confiança dos mercados e levou os

importadores ocidentais a reduzirem encomendas

e a tentarem renegociar contratos

já fechados. Estes tumultos nos mercados

tiveram como resultado uma quebra significativa

do preço da amêndoa, de mais

de 15% desde o início da crise, e 25% face

ao ano passado. Isto, para uma realidade

industrial em que os volumes são enormes,

mas as margens muito pequenas,

é obviamente desastroso.

Quais as perspectivas para este ano e

os próximos, tendo em conta a

necessidade de contenção de

despesas públicas, que pode levar à

redução de subsídios públicos?

A nossa indústria, à imagem de muitas

outras, obriga a que nos reinventemos

constantemente. Estamos sempre

à procura de eficiências, quer através da

mecanização, quer através de sistemas

de produção mais inteligentes que nos

ajudem a poupar. A indústria do caju foi,

durante os últimos vinte anos, sustentável

por si própria, sem recurso a apoios

estatais e grande contribuidora para os

cofres do Estado, quer através das contribuições

para o Instituto Nacional

de Segurança Social (INSS), quer através

de outras contribuições fiscais. b

66 | Exame Moçambique


junho 2020 | 67


ESPECIAL INOVAÇÃO

68 | Exame Moçambique


COM O APOIO DE:

COMPRAR

NA REDE

O comércio electrónico ganhou fôlego

com a pandemia. Tornou-se um recurso

precioso para consumidores isolados ou

socialmente distanciados. A prova de que

as crises são também oportunidades?

Decerto, mas com uma taxa de

crescimento das transacções que não se

manterá quando a procura voltar

efectivamente à normalidade. Recebeu,

em todo o caso, um grande impulso, que

terá de consolidar com a segurança das

transacções e a eficiência da logística.

Terá de continuar a inovar

70

A HORA DO COMÉRCIO ELECTRÓNICO

Com a crise as compras on-line

dispararam

72 CIBERSEGURANÇA

No coração da inovação

junho 2020 | 69


ESPECIAL INOVAÇÃO

Procura e oferta foram abruptamente

atingidas pela crise

pandémica. É a primeira vez

que tal acontece. Os Estados

procuram garantir aos

cidadãos parte do rendimento perdido e

suster a queda da procura. As empresas

adaptam a sua organização à nova realidade

recorrendo massivamente às ferramentas

digitais, que já tinham ao dispor

mas raramente utilizavam. Mitigado, à

medida do combate à pandemia, o consumo

orientou-se para o comércio electrónico,

o que redobra a importância da

segurança das transacções on-line e da

digitalização, por parte das empresas, de

muitos dos seus procedimentos.

O isolamento colocou, de facto, em todo

o Hemisfério Norte, milhões de consumidores

on-line. O distanciamento social

que caracteriza agora uma fase em que

muitos países ensaiam a reabertura das

economias mantém a tendência para comprar

na Internet. Foi aí que consumidores

confinados passaram a fazer as suas

compras essenciais, como a alimentação

e produtos farmacêuticos, o que até

já originou parcerias inovadoras entre

empresas que operam nestes dois sectores.

A fragmentação social ditada pela

pandemia aumentou igualmente a procura

por diversão on-line, assim como

ENTRE OS MAIORES DESAFIOS

DO COMÉRCIO ELECTRÓNICO

FIGURAM A SEGURANÇA DAS

OPERAÇÕES E A FIABILIDADE

DA CADEIA LOGÍSTICA

a compra de produtos informáticos. As vendas

pela Internet aumentaram, em Abril,

209% relativamente ao período homólogo

de 2019, de acordo com a empresa de sistemas

de pagamentos electrónicos ACI

Worldwide. Entre os segmentos de retalho

destaca-se o de videogames e jogos

electrónicos, que registou, naquele mês,

um aumento de 126% nas vendas.

O comércio reformulou-se para responder

à procura e há mesmo uma “economia

do novo normal” , que durará enquanto

durar a pandemia, o que ainda é uma incógnita.

Contudo, mesmo quando tudo finalmente

acabar, os consumidores manterão

alguns dos hábitos adquiridos durante o

surto. Para o comércio electrónico a crise

representou a oportunidade de demonstrar

a muitos consumidores que a este só

recorriam esporadicamente que é uma

alternativa ao comércio tradicional. E as

empresas vão, doravante, investir ainda

mais nos canais digitais.

A oportunidade existe, e também os

desafios. Entre os maiores figuram a segurança

das operações e a fiabilidade da

cadeia logística, própria ou contratada em

alguns segmentos. A segurança das operações

não é um tema novo, mas será cada

vez mais decisivo para o sucesso do negócio

on-line. Se o consumidor não sentir

que os sistemas de pagamentos e as transacções

estão completamente a salvo dos

ataques dos hackers, cada vez em maior

número e mais sofisticados, evitará fazer

compras on-line. O incremento da digitalização

induzido pela crise foi, de acordo

com a empresa francesa de tecnologia e

segurança Thales, acompanhado pelo

aumento de ataques informáticos. A rápida

disseminação do novo coronavírus tornou-se

uma arma para os cibercriminosos

que atacam os sistemas de informação de

empresas, organizações e indivíduos com

objectivos financeiros e de espionagem.

A meio do mês de Maio a companhia aérea

britânica EasyJet revelou ter sido alvo de

um ciberataque “altamente sofisticado”

que comprometeu os dados pessoais de

cerca de 9 milhões de clientes. A transportadora,

em grandes dificuldades devido

à quebra gigantesca nas viagens aéreas,

precisou que os piratas informáticos tiveram

acesso aos endereços de e-mail e aos

pormenores de viagem dos passageiros,

ISOLAMENTO:

Fez disparar as compras on-line


e num número mais restrito de casos,

de 2208 pessoas, aos dados dos cartões

de crédito. Os ataques cibernéticos multiplicaram-se

em vários países, atingindo

as mais diferentes empresas, algumas de

grande dimensão que, embora detendo a

intrusão criminosa com as suas defesas,

não deixaram de ver alguns dos seus sistemas

afectados. A cibersegurança ganha

assim um novo papel, não só porque se

intensificam e sofisticam os ataques informáticos,

mas igualmente porque surgem

novos tipos de criminosos, como é o caso

dos hackers activistas, que não se movem

pelos objectivos tradicionais e infligem

novos e pesados danos às organizações.

CLICK AND COLLECT

Muitas empresas, algumas das quais

grandes retalhistas, não estavam preparadas

para um aumento tão repentino

e tão drástico das compras on-line.

Alguns sites chegaram a “entupir” face à

avalanche das solicitações por parte dos

consumidores, que foram colocados em

listas de espera. Noutros casos, emergiram

sérios embaraços com a logística de

distribuição dos produtos adquiridos.

O sistema click and collect revelou-se

uma solução para o congestionamento

gerado nos sistemas logísticos. Tal aconteceu,

por exemplo, em Itália, o primeiro

país europeu a ser devastado pela pandemia.

Nos primeiros quatro meses do ano

a Itália acrescentou 2 milhões de novos

compradores digitais, segundo dados de

um estudo Netcomm Forum Live 2020.

Os sistemas de entrega debateram-se com

dificuldades perante a explosão das compras.

Grande parte das empresas recorreu

então ao click and collect para fazer

chegar as encomendas aos consumidores.

Através do click and collect, o consumidor

escolhe o seu produto no site da loja,

efectua toda a operação de forma digital

(pedido, pagamento, etc.) e diz ainda

onde quer levantar a encomenda. Deixa

assim de pagar um valor suplementar para

AS COMPRAS FEITAS POR

PROCESSOS DIGITAIS NÃO

PODEM ATRASAR-SE NEM

SER POUCO CONFORTÁVEIS

PARA O CONSUMIDOR

que o produto lhe seja entregue em casa,

o que pode encurtar o prazo de entrega.

O local de levantamento podem ser os

Correios ou uma loja, como, por exemplo,

uma farmácia ou o mini-mercado

mais próximo, o que se revelou particularmente

oportuno durante os confinamentos

ditados pelo vírus.

O comércio electrónico joga decisivamente

a sua credibilidade na eficácia e

flexibilidade da entrega. Não pode atrasar-se

nem obrigar o consumidor a ficar

amarrado à eventualidade da entrega.

Mesmo em tempos de pandemia não

pode contrariar a sua mobilidade. Muitas

empresas contratam distribuidores

especializados, os quais permitem aos

pequenos negócios um canal de escoamento

importante. O click and collect é

outra alternativa interessante e os Correios

são uma boa opção. Mas outras lojas convenientes

para o consumidor irão aderir

a este sistema, dado que o levantamento

da encomenda representa igualmente uma

oportunidade de compra.

Se a segurança das transacções e a eficiência

na distribuição forem asseguradas,

o comércio electrónico será um dos

vencedores da pandemia. Os novos clientes

trazidos pelas quarentenas não são

sobretudo os completamente neófitos em

matéria de compras on-line. Trata-se de

consumidores que já tinham hábitos digitais,

mas utilizavam as transacções electrónicas

nas compras ligadas a software

ou com carácter ocasional. A pandemia

alargou bruscamente as categorias de

produtos que estes consumidores, que já

não eram alheios ao meio digital, passaram

a comprar nas plataformas da rede.

É muito possível que mantenham muitos

dos hábitos adquiridos no pós-pandemia.

Como também é provável que o comércio

electrónico ganhe proximidade física

do consumidor. A possibilidade de este

poder levantar o produto onde e quando

quer traduz essa proximidade. É que as

vantagens de tirar partido da panóplia de

meios electrónicos de que dispõe tornaram-se,

com a limitação da mobilidade,

evidentes para o consumidor. b

OLHAR PARA A LOGÍSTICA

Apesar do grande potencial do comércio electrónico é preciso que as empresas

tenham uma logística bem estruturada. Para isso têm de olhar para a:

CULTURA DA

ORGANIZAÇÃO

ORGANIZAÇÃO

E GESTÃO

DOS STOCKS

O CLIENTE,

O CENTRO

DE TODO

O PROCESSO

DE VENDA

junho 2020 | 71


ESPECIAL INOVAÇÃO

CIBERSEGURANÇA

NO CORAÇÃO

DA INOVAÇÃO

O relatório anual da consultora global EY sobre

cibersegurança acentua que os riscos aumentaram

e que este é o momento para colocar a segurança digital

das empresas no centro da sua actividade de inovação

e transformação

Com que frequência a cibersegurança

surge na agenda da administração?

29%

CIBERSEGURANÇA

EM AGENDA

10% 7%

29%

25%

Anualmente

Trimestralmente

Ad-hoc (cadência incerta)

Outras cadências

Nunca

Fonte: GISS 2020/EY.

N

a edição deste ano do “Global

Information Security

Survey (GISS)”, da EY, a

cibersegurança não apenas

envolve riscos como tem de

ser encarada na perspectiva da inovação

e da mudança. A EY está convencida de

que existe actualmente uma clara oportunidade

de colocar a questão da cibersegurança

no coração da actividade de

inovação e transformação das empresas.

Isto reclama a participação dos gestores

de segurança da informação (CISO na

sigla internacional), da administração, das

equipas de gestão que operam a um nível

superior. O objectivo é que a segurança

cibernética constitua um valor-chave no

processo de transformação digital e criar

um clima de confiança e cooperação das

equipas responsáveis pela segurança e as

equipas que actuam nas organizações.

As empresas que conseguirem este nível

de colaboração entre os especialistas em

segurança cibernética e a restante organização

criam uma “oportunidade de

ouro” para obter vantagens competitivas

e diferenciação. Esta é a melhor resposta a

um mercado que se apresenta disruptivo.

Sérgio Martins, Associate Partner Cybersecurity

Services da EY em Moçambique,

assinala que “mais de duas décadas após

a EY ter começado a reportar os esforços

das organizações para proteger a sua

segurança cibernética, a ameaça continua

a aumentar e a transformar-se. Enfrentamos

mais ataques do que nunca, e de

uma gama mais ampla de produtos cada

vez mais criativos de actores maléficos

— em geral com motivações muito dife-

72 | Exame Moçambique


entes”. A boa notícia, acrescenta Sérgio

Martins, é que as empresas e os gestores

mostram-se actualmente muito mais

empenhados com a segurança informática

das suas operações e com a garantia

da privacidade.

O documento da EY salienta que a criação

de indicadores de desempenho e risco

e a sua comunicação adequada é fundamental

para que o nível de cibersegurança

e o seu envolvimento no negócio possam

ser acompanhados pelos órgãos de administração

e gestão das empresas.

Há todas as vantagens em integrar a

cibersegurança no negócio como elemento

competitivo e diferenciador, sublinha o

estudo, pois não HACKERS: só os ataques aumentam,

como a sua Uma natureza ameaça é preocupante.

crescente

Os activistas hackers à segurança que, na esteira de

Julian Assange, da acedem digitalização aos media, confessam-se

movidos das empresas por causas sociais e

geram controvérsia na opinião pública.

Repartem já praticamente a maior parte

dos ataques efectuados com os cibercriminosos

tradicionais. É também significativo

que entre a autoria, voluntária ou

involuntária, dos ataques, figure em terceiro

lugar, no inquérito realizado pela

EY, a fragilidade dos funcionários. Como

diz Sérgio Martins, “temos de pensar

o ciberespaço doutra forma, protegendo-

-nos contra as campanhas desencadeadas

por actores que pretendem atingir

objectivos próprios — e isso requer um

nível diferente de integração do negócio”.

As soluções de cibersegurança devem

marcar presença desde as primeiras fases

do lançamento de novas iniciativas, concretizar-se

naquilo que a EY designa uma

cultura de “Security by Design”. Assim, e

tendo em vista este objectivo, os directores

de segurança informática devem estreitar

o relacionamento com os seus colegas

ao longo da organização, incluindo funções

como o marketing, a investigação

junho 2020 | 73


ESPECIAL INOVAÇÃO

PASSOS

CIBERSEGUROS

1.Reconhecer

que a cibersegurança

é um valor essencial na

transformação digital

2.Estabelecer uma relação

de confiança com

as outras funções

da organização

3.Implementar

as estruturas

de governança adequadas

Fonte: EY/GISS 2020.

e desenvolvimento e as vendas, assim

como incrementar a colaboração com

a administração e a direcção executiva.

AINDA À DEFESA

O estudo da EY mostra que a maioria (60%)

das organizações ainda joga “à defesa” no

que respeita à cibersegurança, procurando,

quando há um reforço da atenção ou do

orçamento dedicado ao assunto, acautelar,

acima de tudo, o risco. Integrá-la

no negócio logo nas primeiras etapas de

novas iniciativas não constitui, pois, a

principal preocupação. Embora a transformação

digital surja no radar de 14%

das organizações interpeladas pelo estudo,

apenas 6% destas elegem as tecnologias

emergentes como uma área prioritária.

Um exemplo: apesar de serem correntes

nos media as preocupações relacionadas

com a exposição perigosa que a ligação

PORQUE INVESTEM EM

CIBERSEGURANÇA

As iniciativas dirigidas ao risco preponderam

nos novos investimentos em cibersegurança

3% 3%

9%

9%

29%

Redução do risco (ameaças emergentes)

Requisitos de conformidade

Crise (intrusão)

Novos negócios

Redução de custos

Outros

Fonte: GISS 2020/EY.

CONFIANÇA NAS DEFESAS

A maior parte dos administradores mostra

"alguma" confiança nas medidas contra

ciberataques

4%

20%

30%

Pouca confiança

Alguma confiança

Elevada confiança

Extrema confiança

Nada confiantes

Fonte: GISS 2020/EY.

13%

47%

33%

de diferentes dispositivos pode acarretar,

somente 6% das iniciativas dirigidas

à Internet das coisas contemplam novos

gastos em cibersegurança. O relatório

revela que estes se orientam muito mais

para áreas de risco mais tradicionais,

como assegurar a privacidade de dados,

o objectivo no qual mais se investe, do

que para tecnologias emergentes como

a inteligência artificial (IA), robótica ou

a adopção de blockchain. Cerca de 17%

das organizações aplica 5%, ou menos,

dos seus orçamentos de cibersegurança

em novas iniciativas e 44% delas aplica

menos de 15%. Além disso, a cibersegurança

é vista como uma função que

mantém a organização segura, mas não

como um aliado essencial no processo

de transformação. Se 29% dos inquiridos

no estudo da EY associam a função

à protecção da empresa, apenas 7% concordam

que ela “permite a inovação com

confiança”.

Integrar a cibersegurança em novas iniciativas

e tecnologias emergentes, introduzindo

uma nova cultura na matéria, terá

de ter em conta que as organizações continuam

a confrontar-se com as ameaças

tradicionais dirigidas às respectivas operações.

“Enquanto 72% dos participantes

no estudo afirmam ter detectado a intromissão

mais significativa dos últimos doze

meses no espaço de um mês, 28% dizem

que o problema levou mais tempo a descobrir”,

assinala o relatório. Os responsáveis

pela cibersegurança terão obviamente

como prioridade defender a organização,

mas terão de adaptar-se, tornando

esta função mais eficaz, e de assumir, de

uma forma proactiva, a transformação

da organização e a evolução do cenário

de ameaças externas. O estudo considera

que a cibersegurança, ao invés de ser percepcionada

como um obstáculo à transformação

e inovação, por estas mexerem

com o nível de risco, pode trazer soluções

viáveis a qualquer problema, funcionando

como um parceiro em quem confiar. b

74 | Exame Moçambique


NÚMEROS DO RELATÓRIO DA EY

36% das organizações admitem

envolver a cibersegurança nas

novas iniciativas de negócios

59% das organizações dizem

que o relacionamento da

cibersegurança nas novas áreas de

negócio é, quanto muito, neutro

20% das administrações

mostram-se confiantes de que

os riscos cibernéticos e as medidas

de mitigação que lhes são dadas

a conhecer protegem as suas

organizações dos principais

ciberataques

7% das organizações consideram

que a cibersegurança impulsiona

a inovação

60% das organizações não

possuem um responsável pela

cibersegurança que tenha lugar

na administração ou ao nível

da direcção

86% das organizações revelam

que novos investimentos em

cibersegurança são justificados

principalmente pela prevenção

de crises ou adequação

a conformidades

59% das organizações

experimentaram uma tentativa

de intrusão ou uma intrusão

concretizada nos últimos doze

meses

14% dos novos recursos afectos

à cibersegurança são aplicados

nos programas de transformação

digital

92% dos administradores estão

envolvidos na direcção da

cibersegurança cibernética,

mas apenas 20% se mostram

extremamente confiantes

nas medidas de mitigação

de ciberataques

54% das organizações inscrevem

regularmente a cibersegurança

na agenda da administração

25% das organizações mostram-

-se capazes de quantificar do

ponto de vista financeiro a eficácia

dos seus gastos em cibersegurança

Fonte: EY/GISS 2020.

junho 2020 | 75


ESPECIAL INOVAÇÃO

MEIOS DIGITAIS VÃO

SER OS PREFERIDOS

Sérgio Gomes, Head of Retail, SME and Channels do FNB, tira ilações da crise e acentua

a corrida ao digital. A pressão que as fintechs colocam à banca, considera, impulsiona

soluções e canais digitais

Acorrida ao digital está em

curso e, para os bancos, o

objectivo é corresponder ou

mesmo exceder as expectativas

dos clientes. Sérgio

Gomes, Head of Retail, SME and Channels

do FNB, nota que sectores económicos

inteiros irão experimentar uma revolução.

A crise global da COVID-19 poderá dar

um grande impulso à digitalização da

actividade económica?

A crise originada pela COVID-19 tem certas

particularidades que poderão acelerar

o processo de digitalização da economia

que já vinha adquirindo algum momentum

durante a última década. Nos mais

variados sectores económicos existem diferentes

incentivos que estão a revelar-se fundamentais

para uma corrida generalizada

pela digitalização. Se, por um lado, sectores

como o retalho e o comércio em geral, distribuição

e serviços profissionais vinham

já num acelerado processo de substituição

de meios físicos por digitais, outros sectores

há que ou se encontravam a meio do

processo ou ainda a tentar reinventá-lo.

São os sectores que se podem dar como

mais penalizados. Uma crise económica

ou financeira serve sempre de forte incentivo

a que se operem pequenas ou grandes

revoluções a nível de processos e modelos

de negócio, e será muito interessante

compreender como se vão reinventar as

indústrias de hotelaria e turismo, restauração,

transportes e entretenimento. Por um

lado, poderão observar uma grande revolução

e serem substituídas, numa base de

progresso digital, que por exemplo poderá

significar um maior consumo de take-

-away ou uma maior propensão ao consumo

de tecnologias que nos aproximem

da realidade virtual em substituição do

consumo de turismo. Por outro lado, podemos

observar revoluções mais associadas

ao processo, com uma progressão tecnológica

que sustenta não a substituição das

indústrias, mas o progresso interno, com

alteração de processos e modelos de negócio.

Um dos grandes exemplos da última

década a este nível foi a chamada gig economy,

com o aparecimento de Uber, Air-

Bnb e outras plataformas que permitiram

o fomento do trabalho em nome individual

e de uma indústria de serviços alimentada

por um modelo de negócio totalmente inovador

e alavancado nas tecnologias digitais.

Se associarmos o fenómeno da gig

economy ao impulso de trabalho a partir

de casa, um dos fenómenos muito interessantes

que podem vir a ganhar dimensão

tem a ver com o próprio mercado de trabalho

e a forma como trabalhadores e empresas

se vão relacionar, sendo cada vez mais

comum a força de trabalho das empresas

não estar concentrada num “escritório”

mas distribuída pelo mundo e potencialmente

com arranjos contratuais inovadores

e muito mais associados a resultados e

entregas específicas. Na essência, os agentes

económicos vão sempre procurar maximizar

o seu lucro, e sendo a redução de

custos e o alcance de mercado derivadas

fundamentais, o processo de digitalização

estará no foco de todo o decisor. Observamos

mais que nunca um passo fundamental

para uma “4.ª revolução industrial” — a

crise da COVID-19 funciona, sem dúvida,

como catalisadora.

As transacções digitais vão ganhar

mercado àquelas ligadas a uma

presença física?

De Janeiro a Março de 2020 as aquisições

em ambiente e-commerce a nível global

aumentaram 1,5 biliões, um número

extraordinário e muito associado ao facto

de grande parte da população com acesso

a estes meios estar confinada, mas também

ao facto de muitos dos retalhistas

já terem processos digitais e de entregas

muito robustos.

De acordo com a Forbes, retalhistas

on-line americanos tiveram aumentos

de 68% em receitas quando se compara

o primeiro trimestre de 2020 com igual

76 | Exame Moçambique


período de 2019, e 129% de aumento de

pedidos. Interessante também o facto

de 72% dos pedidos serem feitos através

de apps móveis instaladas em smartphones

e não através de computador. Isto leva-nos

à crescente apetência do consumidor pelo

consumo digital e por via digital, fomentando

ainda mais o e-commerce. O crescimento

da quota de mercado de transacções

originadas por meios digitais não presenciais

ganha assim uma dimensão crescente

e considerável e será muito rapidamente o

meio preferencial de aquisição de serviços

e bens. Não só é um meio de crescimento

seguro, como a sua conveniência e resiliência

ficaram comprovados na recente

crise da COVID-19. Rapidamente entraremos

numa dinâmica de mercado em

que os meios digitais de encomenda, pagamento

e entrega não serão diferenciadores,

mas sim a base dos negócios, sendo

A CRISE DA COVID-19

IMPULSIONA OS MEIOS

DE PAGAMENTO DIGITAIS

E REFORÇA O PAPEL

DAS FINTECHS

que a evolução irá alavancar-se mais na

inteligência artificial e na capacidade de

se anteciparem as necessidades do consumidor

e atacar aquilo a que se chama o

“ZMOT – Zero moment of truth”, ou seja,

o momento-chave em que o cliente toma

a decisão de consumo.

A digitalização da banca vai acelerar?

Os serviços financeiros em geral foram

das primeiras indústrias a abraçar o processo

de digitalização. Esta evolução para o

mundo digital ocorreu a duas velocidades.

As organizações dominantes do mundo

financeiro tiveram uma progressão mais

lenta, adaptando-se ao ritmo do seu desejo

de investir e com menor orientação para o

cliente. Já os bancos de menor dimensão

ou as fintechs que começaram aos poucos

a surgir no início do milénio (por exemplo

o Paypal), tomaram a sua progressão

digital como elemento diferenciador

fundamental e como forma de poderem

mais rapidamente penetrar o mercado e

assegurar uma posição e balanço que sustentasse

a sua operação. Quando a banca

tradicional, e nomeadamente os bancos

de maior dimensão, viram certas linhas

de negócio a perderem força e a impactarem

negativamente nos seus resultados, o

instinto virou-se para duas opções: desafiar

e tentar eliminar a fintech ou o banco

challenger, ou então adquiri-los em mercado.

Este tipo de estratégias era notoriamente

claro, por exemplo, aquando do

forte crescimento do M-Pesa da Safaricom,

tendo a generalidade dos bancos do

Quénia optado por tentar desafiar, criando

as suas próprias e-wallets e serviços digitais.

Isto resultou num dos maiores saltos

no que respeita ao desenvolvimento de um

mercado financeiro, beneficiando grandemente

os clientes a nível de SLA (Service

Level Agreement), qualidade do serviço,

redução de custos e opções em mercado.

Este fenómeno tem-se repetido ao longo

do tempo, e embora a estratégia dominante

SÉRGIO GOMES:

A crise deu um

grande impulso

à digitalização

venha sendo actualmente a da colaboração

com fintechs, quer pela interoperabilidade

como no caso do M-Pesa, quer pela contratação

de serviços da fintech especializada

em determinados segmentos ou áreas de

actuação bancária, a pressão que as fintechs

colocam aos bancos é um dos maiores

impulsionadores do desenvolvimento

das soluções digitais e dos canais digitais.

A crise da COVID-19 apenas vem acentuar

a necessidade do desenvolvimento de

meios de pagamento digitais e reforçar o

papel das fintechs. O e-commerce é sustentado

por um pilar essencial de pagamentos

instantâneos, sem complexidade e com

baixo custo para os intervenientes, e as fintechs

estão rapidamente a dominar esse

espaço, encontrando-se inclusive protegidas

por regulação, como é o caso recente da

União Europeia com a directiva DSP2, que

vem abrir possibilidades enormes a nível

do acesso e integração de meios de pagamento.

Vamos continuar a assistir igualmente

à crescente inovação e diferenciação

de produtos e serviços, com maior utilização

de blockchain, novas modalidades de

financiamento do retalho, desenvolvimento

das carteiras virtuais e smart contracts. b


ESPECIAL INOVAÇÃO

BANCOS DEVEM INOVAR

AS PLATAFORMAS

Para Sansão Monjane, Head of IT do FNB, os bancos precisam de manter o ritmo

de mudança, inovando as plataformas e introduzindo novas ferramentas que criem

diferenciação

SANSÃO MONJANE:

As empresas devem

apetrechar-se

das tecnologias

e dos padrões

de conformidade

mais actualizados

As marcas vão conferir renovada

prioridade aos seus

investimentos digitais e

reconsiderar tanto o seu

posicionamento como o dos

seus produtos, antecipa Para Sansão Monjane,

Head of IT do FNB, face às grandes

alterações verificadas pelo comportamento

dos consumidores durante a crise pandémica

e à evidente aceleração da transformação

digital.

Que desafio comporta para os bancos

contarem com mais clientes do

comércio electrónico?

Ao mesmo tempo que o mercado de comércio

electrónico passa por uma transformação

acelerada, os consumidores exigem

serviços e experiências que sejam melhores

e mais rápidos. Os bancos precisam de

manter o ritmo de mudança e aumentar a

oferta inovando as suas plataformas com

novas ferramentas, como análises, melhores

interfaces, melhores integrações para

criar diferenciação, para corresponder ou

mesmo exceder as expectativas dos clientes.

Durante a pandemia, juntamente com

o uso massivo de ferramentas digitais,

assistimos a um aumento de ataques

cibernéticos. Estes são uma ameaça ao

comércio electrónico, aumentando o

risco de fazer negócios?

78 | Exame Moçambique


AS ORGANIZAÇÕES

DEVEM SER VISTAS

COMO UM LOCAL SEGURO

PARA OS UTILIZADORES

PARTILHAREM OS SEUS DADOS

PESSOAIS E REALIZAREM

TRANSACÇÕES

A pandemia da COVID-19 está a trazer

grandes mudanças no comportamento

do consumidor, acelerando a transformação

digital em direcção aos media sociais,

e-learning e e-commerce, fazendo com que

as marcas voltem a priorizar os investimentos

digitais e reconsiderem quer o seu

posicionamento quer o do produto. Estes

canais estão a ganhar maior importância

e, por outro lado, há quem procure obter

vantagens com a sua exploração.

Hoje, os ciberataques são uma das maiores

ameaças ao mercado dos negócios digitais,

não apenas pelo facto de poderem

causar perda de receita, mas também por

poderem prejudicar a reputação de qualquer

instituição, fazendo com que não se

sinta segura.

Quais os ataques informáticos mais

frequentes?

São de três tipos os ataques cibernéticos

mais comuns: a recusa de serviços (DoS),

o “homem no meio” (MitM) e o phishing.

Cada ataque variará de acordo com o objectivo.

Por exemplo, o objectivo do DoS é

colocar os sistemas de uma empresa off-

-line e alguns dos ataques podem até não

trazer benefícios financeiros directos ao

atacante, a menos que sejam orquestrados

por um concorrente comercial. Os outros

tipos são mais frequentes, e o objectivo é

adquirir informações úteis que permitam

ao invasor roubar informações que possam

trazer um benefício financeiro, assim como

vendê-las a outras entidades nelas interessadas

ou usá-las para realizar transacções

em nome dos proprietários.

TRANSFORMAÇÃO

DIGITAL: A banca mantém

o ritmo de mudança em

direcção aos novos

paradigmas

A Moody´s e o israelita Team8 vão

estabelecer um rating para a

cibersegurança. Como é que as

empresas se devem prevenir contra

os ataques informáticos?

As empresas devem apetrechar-se das tecnologias

e dos padrões de conformidade

mais actualizados de modo a garantirem

que estão sempre um passo à frente da

ameaça, sendo proactivas, testando os

seus sistemas regularmente e compreendendo

que são alvo de cibercriminosos.

Ter a melhor tecnologia é apenas uma das

condições para impedir que a organização

seja alvo de ataques cibernéticos, as

empresas também devem investir na formação

de utilizadores e clientes em itens

como ataques de phishing para ajudá-

-los a criar uma linha de defesa contra

a ameaça cibernética.

Pode o nível de segurança digital de

uma organização influenciar a

percepção de clientes e outros

stakeholders?

Com o aumento diário dos utilizadores digitalizados

e a existência de mais plataformas

de comércio electrónico, as organizações

devem ser vistas como um local seguro

para os utilizadores partilharem os seus

dados pessoais e realizarem transacções.

Uma empresa que investe em segurança

pode ganhar mais depressa a confiança

do utilizador do que uma empresa que

oferece mais produtos porque, quando se

trata de questões financeiras, os clientes

tendem a preocupar-se com a protecção da

privacidade e a protecção de dados. Uma

organização que investe nestes aspectos

provavelmente será mais bem percepcionada

pelo mercado e, consequentemente,

terá uma maior participação.

Emergem constantemente novos

riscos informáticos. As apólices de

seguro apresentam cobertura

suficiente para estes riscos, é fácil

mantê-las actualizadas?

A área de segurança cibernética é uma

roda giratória que nunca pára. A cada

minuto as instituições são alvo de diferentes

formas de ataque. Não envolvem

apenas habilidades técnicas, mas também

os outros factores que referi. As políticas

devem ser claras e consistentes o suficiente

para permitirem escalabilidade.

Certamente não é uma tarefa fácil dada

a dinâmica do mundo, mas os profissionais

trabalham todos os dias para mantê-

-la actualizada. b

junho 2020 | 79


ESPECIAL INOVAÇÃO

TÊNDENCIAS GLOBAIS

A inovação na área digital irá beneficiar de milhões

de dólares de apoio na Europa e nos Estados Unidos,

onde se salienta na agenda para a recuperação

da economia, travada a fundo pelo surto pandémico

3,3 milhões de dólares

é o valor destinado pela Agência Espacial do Reino Unido e pela Agência

Espacial Europeia (ESA) para lançar novas iniciativas tecnológicas

e novos serviços fornecidos pelas equipas da área do aeroespacial.

As agências acreditam que os dados de satélite e a tecnologia de drones

podem fornecer kits de teste, máscaras, batas e óculos de protecção.

INCENTIVOS À INOVAÇÃO

O Reino Unido lançou um programa no total de perto de 26 milhões

de dólares segundo o qual cada empresa que aposte em inovação

no combate à pandemia pode ver os seus custos cobertos a 100% até

ao limite de 50 mil libras (mais de 63 mil dólares). O programa do

governo britânico, “Innovate UK”, apela às empresas que desenvolvam

“inovações que incentivem novas formas de trabalhar e garantam

produtividade contínua em sectores-chave para o Reino Unido”.

OPORTUNIDADES DA PANDEMIA

O surto pandémico provocou a derrocada da economia mundial e

aproximou o mundo on-line do mundo off-line. A inovação na área do

digital vai dar um salto com as fantásticas somas que Estados Unidos

e a União Europeia vão gastar na retoma da economia. Os Estados

Unidos vão acrescentar aos 3 triliões de dólares gastos no combate aos

efeitos do surto mais uns tantos milhões de milhões na recuperação

económica. A União Europeia anunciou um programa de 750 mil milhões

de euros, sendo a maior parte subsídios sem reflexo na dívida dos

Estados-membros, e que inclui prioridades como a economia verde

e a digitalização. Só a Alemanha afectou 500 mil milhões de euros

ao seu esforço de recuperação, com uma parte do investimento a incidir

nas áreas de inovação.

ACREDITO SER

POSSÍVEL QUE

PESSOAS COMUNS

OPTEM POR SER

EXTRAORDINÁRIAS."

Elon Musk

fundador da Tesla

e da SpaceX

SÉRGIO MARTINS

EY ASSOCIATE PARTNER CYBERSECURITY SERVICES

A CIBERSEGURANÇA,

ACTIVADOR-CHAVE

De acordo com o “EY Global Information Security

Survey” (GISS), apesar de mais de 60% dos

inquiridos revelarem um crescimento generalizado

de ciberataques, apenas um terço das organizações

afirma que a função de cibersegurança

é envolvida nas fases de planeamento de uma

nova iniciativa de negócio. Não existindo uma

cultura de cibersegurança desde a concepção

das iniciativas (security by design), muitos riscos

de segurança apenas são considerados nas

fases finais das iniciativas digitais e acabam

por ser implementadas soluções de cibersegurança

como remendos próximos da data de lançamento.

A cibersegurança, tradicionalmente,

tem sido uma actividade dirigida à conformidade,

executada recorrendo a abordagens de

alinhamento com normas baseadas em controlos,

ao invés de ser incorporada de raiz nas

iniciativas suportadas por tecnologias. Este não

é um modelo sustentável. Se alguma vez esperamos

antecipar-nos à ameaça, teremos de nos

focar na criação de uma cultura de security by

design. Isto apenas pode ser concretizado se conseguirmos

superar a separação que existe entre

as funções de cibersegurança e a gestão e permitir

que o Chief Information Security Officer

(CISO) actue como consultor e facilitador em

vez de ser um obstáculo estereotipado. É estabelecer

relações de confiança transversalmente

a todas as funções da organização, para que a

cibersegurança seja instituída como um activador-chave

de valor acrescentado.b

80 | Exame Moçambique


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junho 2020 | 81


EXAME FINAL

INCERTEZA

Deixou de haver amanhã, a incerteza quanto

à evolução da pandemia e ao relançamento

das economias turva os palpites sobre o futuro

imediato. As bolsas, ainda bem, estão optimistas

LUÍS FARIA

I

ncerteza quase absoluta, é tudo com o que se pode contar nos

dias que correm. Incerteza quanto à evolução da pandemia

e incerteza em relação às explosões sociais que deflagram

numa situação em que muitas economias foram destroçadas,

acarretando a perda abrupta de rendimentos e a escalada

sem precedentes do desemprego. E incerteza ainda face às tensões

geopolíticas suscitadas pela crise, que colocam um ponto de

interrogação sobre a distribuição do poder global que dela sairá.

Depois de nascer na China e contaminar o resto da Ásia, a

doença devastou Estados Unidos e Europa, abatendo-se agora

pesadamente sobre a América Latina, mas deixa os países africanos

em muito maus lençóis, ainda que o continente seja o mais

poupado à crise sanitária, pelo menos por agora, muito devido

às medidas tomadas pelos diferentes governos, as quais condicionam

fortemente os orçamentos e agravam o endividamento.

A crise económica atinge fortemente o comércio internacional e

o preço das matérias-primas, principais produtos de exportação

dos países africanos. Ninguém está a salvo da globalização. Para

o bem e para o mal. E África joga, na competição geopolítica em

que se tornou a pandemia, com poucos recursos de financiamento.

De combate ao vírus e relançamento das economias.

A ocidente, os governos e os bancos centrais não param de

lançar milhões de milhões de dólares para acudir a empresas

imobilizadas na sua actividade e nas suas vendas e compensar

parcialmente a súbita perda de rendimentos de grande parte

da população. A procura e a oferta afundaram-se em simultâneo,

o que é inédito nos anais das grandes crises, com o impacto

do vírus. Os custos económicos, financeiros, sociais e políticos

do confinamento são brutais.

Em África, as assustadoras previsões feitas pela Organização

Mundial de Saúde em Fevereiro, pouco após o surgimento do

primeiro caso no continente e que apontavam para a morte de

83 mil a 190 mil pessoas em 47 países só no primeiro ano, felizmente

não se concretizaram.

Como do futuro imediato muito pouco se sabe, a situação

dá para tudo, serve tanto o mais profundo pessimismo como o

mais motivador optimismo. As bolsas, por exemplo, estão optimistas.

Após a quebra estrondosa inicial retomaram a confiança

e os índices das principais praças financeiras têm vindo a recuperar.

A 8 de Junho o S&P 500 conseguia a maior valorização de 50

sessões em nove décadas. As previsões para este ano para a economia

mundial são terríveis, mas os investidores não só se entusiasmam

com os gigantescos apoios concedidos pelos governos,

como ainda têm a expectativa de que mais estímulos aí virão.

E antecipa-se, entretanto, que em 2021 o crescimento mundial

será já positivo e que em 2022 alcançará mesmo um ritmo elevado.

Todas as entidades partem de um cenário em que a pandemia

vai desaparecendo, não deixando de acrescentar outros mais

sombrios não vá a incerteza que domina o mundo tomar o pior

caminho, ditado pelo recrudescimento da epidemia e implicando

novas medidas de confinamento.

O maior obstáculo à recuperação das economias é a desconfiança

gerada pela incerteza. Nos Estados Unidos e na Europa

assistiu-se a uma perda severa de rendimentos, com uma parte

da sociedade a engrossar a fila para conseguir alimentos. Os consumidores

mostram-se desconfiados e receosos. Enquanto não se

dissipar a ameaça de contágio persistirá o espectro do medo e o

clima não mudará. Também é difícil, do lado da oferta, restabelecer

as cadeias de valor e lidar com trabalhadores intranquilos e

medidas sanitárias que trazem custos acrescidos num contexto em

que a capacidade produtiva não é quase sempre completamente

aproveitada. Tudo continua a depender da celeridade com que será

resolvida a crise de saúde pública. A confiança só reanimará —

e sem confiança não há consumo, não há economia — quando a

questão sanitária for resolvida. Mas não desanimemos, até pode

acontecer que o vírus, uma variável invisível e determinante que

escapa a todo o controlo, perca força e desanime...

Estímulos não faltam a ocidente e a economia da China, com

o surto aparentemente controlado, ainda deve conseguir registar

um valor positivo este ano, embora as autoridades chinesas

tenham desistido de revelar qualquer estimativa. Se a pandemia,

com tudo o que ela convoca no comportamento das pessoas, desaparecer,

ou seja, se a incerteza se desfizer, não faltarão recursos

para relançar a economia a norte. Só que a globalização não se

extinguiu e será inviável contar apenas com metade do planeta

para a retoma.b

D.R.

82 | Exame Moçambique

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