Além-Mar_Julho2020

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Revista mensal | N.º 704 | Ano LXIV | Preço 1,50 € (IVA incluído)

além-mar

Julho-Agosto 2020 | www.alem-mar.org

Perspectiva Missionária

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

COMBATER O RACISMO


MISSIONÁRIOS COMBONIANOS

ao serviço do evangelho no mundo

P. e Joaquim Moreira da Silva,

missionário comboniano,

na Etiópia

CASAS EM PORTUGAL


Perspectiva Missionária

além-mar

Ano LXIV | Nº 704

sumário

Propriedade:

Missionários Combonianos

do Coração de Jesus

Pessoa Colectiva nº 500139989

Redacção

Director: Bernardino Frutuoso (CP 6411 A)

Redacção: Carlos Reis (CP 2790 A);

Fernando Félix (CP 1902 A)

Correspondentes: Arlindo Pinto (Roma);

Feliz Martins (Sudão); Jairo García

(Colômbia); António Carlos Ferreira

(Filipinas)

Colaboradores: Ana Glória Lucas;

António Marujo; Fernando Domingues;

Fernando Sousa; Filipe Messeder;

Francisco Sarsfield Cabral; José Vieira;

Manuel Augusto Ferreira; Marco Bello;

Margarida Santos Lopes; Paolo Moiola;

Susana Vilas Boas

Revisão: Helder Guégués

Paginação: Luís Ferreira

Arquivo: Amélia Maria Neves

Redacção:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286

E-mail: alem-mar@netcabo.pt

Estatuto Editorial: www.alem-mar.org

ADMINISTRAÇÃO

Administrador: Jorge Brites

Sede do editor e Administração:

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Entidade: 20105

Referência: o número de assinante

(por cima do nome na folha com a sua

direcção)

Produção gráfica e impressão:

Jorge Fernandes, Lda.

Quinta Conde Mascarenhas, L 9

2825-259 CHARNECA DA CAPARICA

Registo na ERC com o n. o 100668

Depósito legal: 7934/85

ISSN 0871 – 5661

Tiragem do número anterior:

16 000 exemplares

além-mar tem o exclusivo para Portugal dos

serviços das seguintes revistas estrangeiras:

Nigrizia (Verona) | Mundo Negro (Madrid)

| Esquila Misional (México) | Misión sin

Fronteras (Lima) | Iglesia Sinfronteras

(Bogotá) | World Mission (Manila) | New

People (Nairobi) | Worldwide (Pretória)|

| Afriquespoir (Kinshasa).

A nossa página

na Internet:

www.alem-mar.org

16

30

46

ESTADOS UNIDOS

George Floyd tinha um sonho: “tocar

o mundo”. E o sonho cumpriu-se.

Não quando imaginava um futuro brilhante,

mas na sua morte brutal, que

obriga os Estados Unidos da América

a penitenciar-se pelo racismo do passado

e do presente.

JUSTIÇA INTERNACIONAL

O estabelecimento de tribunais internacionais

permanentes representa um

enorme progresso para a Humanidade.

Vale a inter-relação entre o Estado de

direito e a paz, a segurança, o desenvolvimento

e o respeito dos direitos

humanos.

GENTE SOLIDÁRIA

Há dez anos, a Igreja Católica fundou

a Talitha Kum, uma rede internacional

de religiosas que combate o tráfico

humano, considerado a escravidão do

século xxi.

Foto de capa: © iStock/dmbaker

04 Fórum

05 Editorial

06 Actualidades

11 África minha

12 Igreja em missão

13 Contraponto

14 Do alto dos Andes

26 Armas nucleares

28 Mundo

34 Brasil-Venezuela

42 Vida missionária

44 Portugal

50 Livros

51 Discos

52 Povos e Culturas

55 Apontamentos

56 Vocação & Vida

além-mar | Julho-Agosto 2020


fórum

Sou solidário

Acedi a apoiar a missão da Igreja

e, tal como a revista Além-Mar

solicitou aos leitores, doei 0,5 % na

minha declaração de IRS para apoiar

os projectos e a obra dos Missionários

Combonianos, em Portugal

e em mais de 40 países dos quatro

continentes. […] Não só o fiz, como

partilhei a minha ajuda com os meus

amigos e familiares para os motivar

a fazer o mesmo. Sou solidário, por

acreditar que «não custa nada e faz

muito bem».

Luís Machado | Correio electrónico

Desunidos na luta

Estou chocada com a falta de coordenação

internacional contra a

doença covid-19. Todos sabemos

que a política isolacionista de alguns

países não irá derrotar o vírus

e que a continuar assim a situação

ficará fora de controlo. […] Já se

fala em segundas vagas de infecções

e os países permanecem desunidos

na partilha de capacidades e na luta

contra a pandemia. Espero que num

futuro próximo haja vacinas acessíveis

a toda a gente. Os alertas estão

lançados e, como diz o director da

Além-Mar em editorial, «sendo a

pobreza a principal determinante da

covid-19, ataca mais a saúde e a sustentabilidade

económica das camadas

mais excluídas da população».

É sempre assim, mas não tem que ser.

Clara Fernandes | Guimarães

Informação missionária

Nestes tempos da covid-19 tive

mais tempo para entrar no vosso

portal da internet (www.alem-mar.

org) e na vossa página do Facebook

(revista.alemmar). Fiquei surpreendido

com o profissionalismo do

portal, a qualidade e actualidade da

informação. Permite-nos conhecer

a situação do mundo numa óptica

missionária, dando destaque aos países

do Sul do mundo.

António Silva | Correio electrónico

RETRATOS

Igualdade de género

agenda

JULHO

03 Dia Internacional sem Sacos de Plástico

09 Dia Mundial pelo Desarmamento

11 Dia Mundial da População

17 Dia Mundial da Justiça Internacional

18 Dia Internacional Nelson Mandela

30 Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas

AGOSTO

09 Dia Internacional dos Povos Indígenas

23 Dia Internacional de Lembrança do Tráfico de Escravos

e sua Abolição

29 Dia Internacional contra Testes Nucleares

Julho

Rezemos para que as famílias de hoje

sejam acompanhadas com amor, respeito

e conselho.

intenção do papa

© cathopic

Agosto

Rezemos por todas as pessoas que trabalham

e vivem do mar, entre elas os

marinheiros, os pescadores e suas famílias.

Veja o comentário do Papa Francisco em: www.apostoladodaoracao.pt/o-video-do-papa

© cathopic

2020 Julho-Agosto | além-mar


editorial

salvar a casa comum

© 123RF

Bernardino Frutuoso

Director

Este Ano Laudato

Si’ apresenta-

-se como um

kairós, um tempo

oportuno / tempo

de Deus, que nos

pode orientar na

rota da ecologia

integral.

Cumpriram-se, no passado

mês de Maio, cinco anos

da publicação da encíclica

ecológica e social Laudato

Si’, um dos textos excepcionais do início

do século xxi. No documento, o Papa

Francisco traça uma crítica global ao

modelo tecnocrático dominante e propõe

que a ecologia integral se torne um novo

paradigma da justiça, em que o cuidado

da Natureza e a preocupação para com

os mais frágeis e descartáveis da sociedade

sejam inseparáveis. Como tudo está

interligado, o cuidado dos ecossistemas é

fundamental para promover a dignidade

de cada pessoa e o bem comum, e só há

progresso autêntico com a garantia de

uma inter-relação entre o campo social e

o ambiental.

Para realçar a relevância desta profética

encíclica – que nos fornece a bússola

para construir um

futuro mais justo,

fraterno e sustentável

–, o Dicastério

para o Serviço do

Desenvolvimento

Humano Integral da

Santa Sé convocou

o Ano Laudato Si’,

um tempo especial

para reflectir/actuar

com base no texto do

pontífice e «chamar a

atenção para o grito

da Terra e dos pobres»,

como referiu o

Papa Francisco.

O objectivo é apresentar

no final deste

período – no dia 24

de Maio de 2021 –

um compromisso

público comum com

vista a uma «sustentabilidade

total»,

a ser alcançada no

prazo de sete anos.

A iniciativa desenvolve-se

nesta nova

época, desafiante e complexa, da (pós-)

pandemia e converte-se, lembra o Dicastério

do Vaticano, numa «oportunidade

única para transformar a destruição que

nos rodeia numa nova forma de viver

juntos, unidos no amor, na compaixão

e na solidariedade, e numa relação mais

harmoniosa com a Natureza, a nossa casa

comum».

Na mesma linha, o cardeal José Tolentino

Mendonça referiu no discurso

que pronunciou nas celebrações do 10 de

Junho: «A pandemia veio, por fim, expor

a urgência de um novo pacto ambiental.

Hoje é impossível não ver a dimensão do

problema ecológico e climático, que têm

uma clara raiz sistémica. Não podemos

continuar a chamar progresso àquilo que

para as frágeis condições do planeta, ou

para a existência dos outros seres vivos,

tem sido uma evidente regressão.»

Nessa perspectiva, sublinha o comunicado

do Dicastério, «para começar a

pensar no mundo que virá despois da

covid-19, necessitamos de um enfoque

integral, pois tudo está intimamente relacionado,

e os problemas actuais requerem

um olhar que tenha em conta todos

os factores da crise mundial».

E o texto acrescenta que «a urgência da

situação climática requer respostas imediatas,

holísticas e unificadas em todos

os âmbitos: local, regional, nacional e

internacional».

Construir uma nova civilização e

conseguir uma transformação socioecológica

são grandes desafios para os discípulos

missionários de Jesus e para toda

a Humanidade. Este Ano Laudato Si’

apresenta-se como um kairós, um tempo

oportuno / tempo de Deus, que nos pode

orientar na rota da ecologia integral.

É uma ocasião favorável para um processo

de conversão ecológica – que restabelece

laços de comunhão com todos

os seres vivos e exige a multiplicação

de pequenos gestos ecológicos na vida

quotidiana – e para elaborar um novo

pacto ambiental, que salve a casa comum

e, portanto, a vida. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


foto do mês

Foto: © 123RF/Stephane Bidouze

2020 Julho-Agosto | além-mar


&

pessoas factos

u

u

u

O presidente do CNRT, na oposição

em Timor-Leste, recusa

a mediação oferecida pelo Vaticano

para ultrapassar a crise

política neste país do Sudeste

Asiático. «A melhor solução só

pode vir de eleições antecipadas»,

responde Xanana Gusmão,

referindo-se ao que classifica

como violações da Constituição

pelo chefe de Estado, Francisco

‘Lu-Olo’ Guterres, da FRETILIN.

O presidente da Coreia do Sul

pede ao regime norte-coreano

que pare com animosidades e

retorne às negociações. «Não

devemos adiar as promessas de

paz», apela Moon Jae-in. Em Junho,

Pyongyang destruiu o Gabinete

Intercoreano, escritório

de integração com a Coreia do

Sul, um edifício inaugurado em

2018 para simbolizar a aproximação

diplomática entre os dois

países.

A violência na RD Congo já fez

1300 mortos e 500 mil deslocados

desde Setembro, referem

as Nações Unidas, que admitem

terem sido cometidos crimes de

guerra ou contra a humanidade

por parte de grupos armados

e forças militares neste país da

África Central. «Estou chocada

com o aumento dos ataques

brutais», declara Michelle Bachelet,

alta-comissária das Nações

Unidas para os Direitos Humanos

(ACDH).

u Florestas, biodiversidade e pessoas

A

s árvores são um investimento inteligente para manter a temperatura

do planeta na medida certa, absorver o dióxido de

carbono e filtrar a poluição do ar. O relatório The State of the

World’s Forests 2020, promovido pela Organização das Nações

Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), destaca a importância

destes ecossistemas para proteger as espécies do planeta.

«É preciso agir urgentemente para se proteger a biodiversidade

das florestas devido às taxas alarmantes de desmatamento e

degradação», alerta a FAO.

u

Nove das dez crises mais negligenciadas

no mundo encontram-

-se em África, aponta o Conselho

Norueguês para os Refugiados

(NRC). Camarões, RD Congo e

Burquina Faso têm as crises de

deslocação de pessoas mais negligenciadas.

«Confrontadas com

uma miríade de emergências, os

apelos a ajudas caem em orelhas

moucas», comprova Jan Egeland,

secretário-geral do NRC.

além-mar | Julho-Agosto 2020


actualidades

© Lusa

© UNICEF/Romenzi

HIMALAIAS

Confronto na cordilheira

Exército indiano anuncia a morte de 20 militares num confronto com

O tropas chinesas na fronteira disputada nos Himalaias, uma região a

grande altitude. O governo nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra

Modi já garantiu «ser capaz de dar uma resposta adequada». Por

sua vez, o governo do presidente Xi Jinping acusa as forças indianas de realizaram

«ataques provocadores» às suas tropas e não anuncia baixas do seu

lado. O confronto é o primeiro com vítimas mortais entre os dois gigantes

asiáticos desde 1975.

Em 1962, China e Índia envolveram-se numa guerra pela disputa do território

nas regiões de Ladakh e Arunachal Pradesh, não se entendendo sobre

a extensão da sua fronteira comum. Já na década de 1980, chegaram a

um acordo de cooperação.

IÉMEN

Saúde em colapso

As Nações Unidas podem ser forçadas a encerrar cerca de trinta programas

de ajuda no Iémen, a menos que recebam o financiamento que os

Estados prometeram ao país. «Tememos que inúmeras vidas sejam perdidas

por causa de doenças», afirma Rupert Colville, porta-voz do Alto

Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACDH).

O sistema de saúde deste país do Sudoeste da península da Arábia está em

colapso, com a população a enfrentar a pandemia de covid-19, epidemias

de cólera e diarreia e uma guerra entre rebeldes xiitas huthis e as forças

sunitas do presidente Abd Hadi.

© Lusa/Joedson Alves © Harandane Dicko

PORTUGAL

Militares no Mali

Portugal envia para o Mali, no

início de Julho, uma missão

que inclui 63 militares da Força

Aérea e um avião de transporte,

no âmbito da MINUSMA, missão

das Nações Unidas naquele país

da África Ocidental. «A presença

destas missões é essencial para o

cumprimento dos frágeis acordos

de paz e para o reforço das

capacidades do Estado maliano»,

explica João Cravinho, ministro da

Defesa Nacional.

AMAZÓNIA

Indígenas infectados

Mais de cinco mil indígenas

que vivem na floresta

amazónica em nove países da

América do Sul estão infectados e

cerca de 550 morreram devido à

covid-19, refere um levantamento

da Rede Eclesial Pan-Amazónica

(REPAM). «Mais de 93 povos

da maior floresta tropical do

mundo foram infectados» refere

a organização ligada à Igreja

Católica, que realça o Peru,

Colômbia, Brasil e Bolívia.

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Lusa/Salvatore Di Nolfi

SUÍÇA

Black Lives Matter

Os Estados africanos pretendem que o

Conselho de Direitos Humanos das Nações

Unidas (UNHCR), com sede em Genebra, lance

uma investigação sobre o racismo sistémico e

a violência policial no mundo. Na sequência da

mobilização global Black Lives Matter («Vidas

Negras Importam», em tradução livre), o grupo

de países exige que uma comissão de inquérito

internacional independente leve à justiça os

autores de actos de violência contra negros.

BURUNDI

Trabalho a continuar

novo presidente do Burundi,

O general Évariste Ndayishimiye (na

foto), promete «continuar o trabalho»

de Pierre Nkurunziza, que terminava

o mandato em Agosto e que morreu

em Junho, após alegada paragem

cardíaca. O país da África Central vive

uma crise política desde 2015, de que

já resultaram 1200 mortos e mais de

400 mil refugiados, acontecimentos

alvo de uma investigação do Tribunal

Penal Internacional (TPI).

CABO-VERDE

Reservas da biosfera

As ilhas cabo-verdianas do

Fogo e Maio, de origem vulcânica,

deverão ser aprovadas

como reservas mundiais da

biosfera da UNESCO. As candidaturas

foram recomendadas

para serem apreciadas e aprovadas,

em Outubro, na 32.ª Sessão

do Conselho Internacional

de Coordenação da Organização

das Nações Unidas para a Educação,

a Ciência e a Cultura.

© Aldo Bien

MOÇAMBIQUE

Conflito pelo tráfico

representante do Escritório

O das Nações Unidas sobre

Droga e Crime Organizado

(UNODC) em Moçambique

considera que o tráfico de

heroína, do Afeganistão para a

Europa, é uma das principais

razões do conflito em Cabo

Delgado, no Norte do país, que

envolve grupos jiadistas. «Aqui,

aparentemente, encontram uma

localização estratégica única para

facilitar o tráfico de drogas»,

refere César Guedes.

© Lusa/António Silva

além-mar | Julho-Agosto 2020


actualidades

© Laila Sieber / SEA-WATCH.ORG

MEDITERRÂNEO

Chegadas incessantes

Os navios humanitários de resgate

a migrantes que tentam

atravessar o mar Mediterrâneo

para chegar à Europa estão de regresso

às águas, após ausência por

causa da pandemia. A organização

italiana Mediterranea Saving Humans

e a alemã Sea Watch denunciam

«inúmeros casos de omissão

de ajuda, atraso na prestação

de socorro e rejeições ilegais que

são crimes internacionais», assim

como refugiados de guerra e vítimas

de tortura «serem deixados

para morrer em silêncio ou capturados

com a coordenação dos governos

europeus e devolvidos», aos

campos de detenção da Líbia.

MUNDO

Marinheiros demorados

As Nações Unidas denunciam

a situação de centenas de milhares

de marinheiros retidos nos

navios, devido às restrições impostas

para evitar a propagação da

pandemia de covid-19, e apela aos

governos para que garantam o seu

repatriamento. «Sem possibilidade

de deixar os navios, o tempo máximo

no mar estipulado nas convenções

internacionais está a ser

ignorado, com alguns marinheiros

abandonados no mar durante 15

meses», aponta António Guterres,

secretário-geral da organização,

que defende que as substituições

de tripulação aconteçam e sejam

seguras.

ÁFRICA

Risco de exploração

Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR)

O alerta para o risco de as dificuldades económicas causadas pela pandemia

estarem a empurrar os refugiados urbanos de África para a exploração laboral

e sexual. Em regiões da África Oriental, no Corno de África e na região

dos Grandes Lagos, os refugiados das zonas urbanas perderam os empregos

com o encerramento dos negócios motivados pelas medidas de combate à

covid-19.

«Tememos que, se não receberem mais apoio, muitos refugiados urbanos

se tornem extremamente vulneráveis à exploração, contraiam dívidas significativas

e possam ser forçados a situações desesperadas para sobreviver, como

trabalho infantil ou sexo comercial», revela Charlie Yaxley, porta-voz do

ACNUR.

ÁFRICA

Cenário misto

A

pós o primeiro caso de covid-19 no continente, em Fevereiro, o director-

-adjunto do Africa CDC, centro africano de controlo e prevenção de

doenças, traça um cenário misto da evolução da pandemia na região. Dez

países africanos representam cerca de 80 % dos casos registados no continente

e mais de 70 % das mortes aconteceram em apenas cinco países (Argélia,

Egipto, Nigéria, África do Sul e Sudão). «A tendência geral é que o crescimento

da doença ainda está sob controlo», avalia Ahmed Ouma, alertando

que o pico da pandemia no continente ainda não ocorreu.

© Harandane Dicko © 123RF/H.I.Kurucan

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Lusa/Christian Bruna

P. e José Vieira

Missionário comboniano

Atletas da

África Oriental

dominam meio-

-fundo e fundo

há décadas.

áfrica minha

máquinas de corrida

O

etíope Abebe Bikile ganhou,

descalço, a maratona

olímpica de Roma em 1960

e inaugurou o domínio dos

fundistas da África Oriental. Voltou a

ganhar a prova-rainha do atletismo em

Tóquio, quatro anos depois. Em 1968,

no México, lesionado, cedeu o lugar no

pódio ao compatriota Mamo Welde.

Hoje, os dez mais rápidos corredores

da maratona são do Quénia (quatro) e

da Etiópia (seis). Entre as atletas, cinco

são quenianas, três etíopes, uma é inglesa

(com o segundo melhor tempo) e uma

israelita. Nas provas específicas, nos 10

quilómetros e na maratona, as mais rápidas

são sete do Quénia e três da Etiópia;

nos homens, cinco são do Quénia e três

da Etiópia.

O queniano Eliud Kipchoge (na foto)

foi o primeiro a correr a maratona em

menos de duas horas em Viena com o

tempo-canhão de uma

hora, 59 minutos e 40

segundos. O recorde,

contudo, não foi homologado,

porque a prova

não seguira as regras de

andamento e da toma de

fluidos. Mas é o maratonista

mais rápido:

ganhou a maratona de

Berlim em 2018 com o

tempo de duas horas,

um minuto e 39 segundos.

Kipchoge venceu

12 das 13 maratonas em

que participou.

Qual é o segredo do

domínio absoluto dos

atletas da África Oriental

sobretudo na maratona,

a prova dos 42,195

quilómetros, e a capacidade

para bater recorde

atrás de recorde?

As respostas são

variadas. Os atletas dos

dois países treinam em

áreas altas do vale de

Rift, onde o ar tem menos oxigénio, o

que lhes dá mais resistência. Depois, os

estudantes fazem muitos quilómetros a

pé para ir à escola. Há ainda a questão da

alimentação rica em verduras e amido e

com pouca carne.

No caso do Quénia, há um dado

transversal: os melhores atletas pertencem

à tribo dos Kalenjins, um povo

nilótico que vive no vale de Rift e tem

algumas características físicas especiais:

são altos e magros, com a barriga das

pernas e tornozelos finos, aspectos morfológicos

que favorecem a corrida.

Além disso, os ritos de iniciação, tanto

dos rapazes como das meninas, fazem

com que tenham uma capacidade enorme

de sofrimento para aguentar a dor,

um dos predicados para correr provas

de longa duração, que exigem grande

esforço físico e psicológico. Kipchoge

Keino bateu o recorde dos 1500 metros

nas olimpíadas do México em 1968 com

uma infecção dolorosa na vesícula. Os

médicos aconselharam-no a não competir,

mas ele foi mais forte que a dor:

venceu com um recorde olímpico.

Na Etiópia, os atletas campeões são

de tribos diferentes, mas muitos vêm

do vale de Rift, oromos da zona de Arsi.

Treinam juntos com programas muito

exigentes, são disciplinados e beneficiam

da boa organização do sector. Quando

vivia na Etiópia e, de madrugada, viajava

da capital para Sul, encontrava as estradas

à volta de Adis-Abeba cheias de gente

a correr antes que o ar ficasse inquinado

pelos gases dos velhos veículos. A cidade

fica a quase 2500 metros de altitude e a

madrugada é geralmente muito fria.

Uma nota relevante: o missionário

irlandês Colm O’Connell foi para a Escola

Secundária de São Patrício em Iten

(no vale de Rift queniano) para leccionar

Geografia por três meses, em 1976.

Fundou uma equipa de atletismo (que

produziu alguns dos melhores fundistas)

e por lá ficou até hoje. É conhecido como

o padrinho dos corredores quenianos e o

melhor treinador do mundo. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


igreja em missão

ITÁLIA

Campanha

contra as armas

Diferentes entidades missionárias

italianas, entre elas a revista

Nigrizia, editada pelos Missionários

Combonianos, relançam no

próximo dia 9 de Julho a campanha

«Mudemos de alvo! Invistamos

na paz, não nas armas». Procura-

-se, assim, sensibilizar os católicos

para que não invistam em organizações

financeiras que fazem negócios

com empresas armamentistas.

Quatro países africanos – Egipto,

Argélia, Nigéria e Quénia – compram

58 % das armas vendidas por

Itália.

MUNDO

Ano Laudato Si’

A

Santa Sé anunciou em Maio passado o Ano Laudato Si’ para fomentar a

reflexão e a acção na linha da encíclica ecológica do Papa Francisco. O ano

especial é promovido pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento

Humano Integral e tem como objectivo principal «propor um compromisso

público comum com a sustentabilidade total a ser alcançada em sete anos»,

porque a ecologia integral deve tornar-se «um novo paradigma da justiça».

Em Portugal, a Universidade Católica e a Cáritas Portuguesa inauguraram

as actividades do Ano Laudato Si’ com uma conferência digital do cardeal

Luis Antonio Tagle, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos.

O prelado filipino recomenda o estudo da encíclica ecológica nas universidades

e convida a criar sinergias, pois «nenhuma pessoa sozinha pode

promover um mundo melhor, mas é uma acção conjunta. Trata-se de uma

transformação de um mundo que aceitámos durante muitos anos e para a

mudança acontecer, é necessária paciência».

© 123RF

© 123RF

SUDÃO DO SUL

Abraçar a paz

Os responsáveis do Conselho

de Igrejas do Sudão do Sul

expressaram num comunicado,

no passado dia 20 de Junho, que

«estão profundamente tristes pela

escalada de violência» em quase todos

os Estados do país. Lamentam

o «aumento na perda de vidas humanas

e a destruição dos bens das

populações empobrecidas pelos

conflitos». A organização ecuménica

convida o Governo a deter os

confrontos em curso em várias regiões

do país e a abraçar a paz.

RD CONGO

Violência contra católicos

diocese de Bondo, no Norte da R. D. do Congo, há dez anos que sofre

A com a violência intermitente dos rebeldes do Exército de Resistência do

Senhor, de Joseph Kony. No pa ssado dia 28 de Maio, os guerrilheiros invadiram

a paróquia de Bambilo, assassinaram e sequestraram algumas pessoas e

destruíram o centro de saúde paroquial e outras instalações.

A Igreja de Bondo há anos que denuncia a situação de insegurança, a violência,

as violações e os assassínios, mas continua sem resposta por parte dos

responsáveis políticos.

2020 Julho-Agosto | além-mar


Eugénio Fonseca

Presidente da Cáritas Portuguesa

Esta pandemia

veio chamar a

atenção para

a necessidade

urgente da

renovação da

pastoral social.

contraponto

desafios da covid-19

à acção social e

caritativa da igreja

Recuso-me a fazer uma leitura

providencialista da pandemia

que está a atingir o mundo.

Também não a posso fazer

com uma atitude ateísta. Acredito,

firmemente, no Deus revelado por Jesus

Cristo como nosso Pai (cf. Lc 11, 1-4) e,

segundo a designação de S. João, como

Amor em plenitude (cf. I João 4,16). Ora,

um Deus assim não quer o sofrimento

e a morte dos seus filhos e filhas, que

ama infinitamente sem qualquer forma

de discriminação. Por outro lado, não é

um malabarista que, como Criador do

Universo, dispõe dele conforme as suas

conveniências. O verdadeiro Deus não é

assim. Além do amor que d’Ele emana, o

que me apaixona em Deus é ter assumido

o risco de nos ter criado

livres e inteligentes, com

todas as condições para fazermos

opções e capacidades

para continuarmos a recriar,

potenciando, com Ele, a obra

da Criação (cf. Gn 1, 28).

Se permite o sofrimento é

para que dele tiremos o bem

necessário.

Assim deve ser entendido

o surgimento da covid-19.

Esta desgraça veio recordar-

-nos que “dominar a terra”

não é utilizá-la a nosso bel-

-prazer; que somos criaturas

interdependentes, incluindo

não só as humanas; que

o respeito pelos outros,

particularmente pelos mais

débeis, é um dever inalienável;

que temos ainda muito a

conhecer sobre a Natureza e

a vida; que há valores inegociáveis,

dada a sua essência.

Outras conclusões ainda

hão-de surgir?!

Esta pandemia também veio lançar

desafios à acção da Igreja Católica.

Ninguém questionará a sua exemplar

colaboração para que a contaminação

do vírus não tivesse maior amplitude,

enfrentando até fundamentalismos

internos. Contudo, entre outras acções

pastorais, esta pandemia veio chamar a

atenção para a necessidade urgente da

renovação da pastoral social, que tem de

ser capaz de ler os sinais dos tempos e

dar-lhes respostas por antecipação e não

por reacção. Até porque nos impele a isso

a intervenção do Espírito Santo, que não

se dá bem com o marasmo do “sempre

se fez assim”, como nos recordou o Papa

Francisco (cf. Evangelii Gaudium, 33),

mas é a “força motriz” da renovação de

todas as coisas (cf. Ap 21,5).

Deixo a minha modesta opinião sobre

o que me parece urgente renovar. Assim:

(i) Assumir a prática organizada da caridade

como essencial para a credibilidade

da fé incarnada, e das razões da esperança

que a Igreja tem de ser para o mundo.

Fazer, de verdade, preferência pelos mais

pobres; (ii) Fazer tudo para que cada

paróquia, ou unidades pastorais, tenham

um grupo bem organizado para que, em

nome da comunidade cristã, se promovam

acções de caridade libertadora. Esta

acção não se pode esgotar nos centros

sociais paroquiais; (iii) Renovar os

grupos existentes, promovendo a cultura

intergeracional com vista ao imperioso

rejuvenescimento; (iv) Capacitar os

agentes da pastoral social para que possam

fazer bem, o bem que devem fazer;

(v) Criar dinamismos de parceria com

outras organizações civis e de comunhão

intra-eclesial.

Se não se olhar a sério para esta dimensão

evangelizadora da Igreja, continuaremos

a ter católicos muito religiosos,

mas pouco cristãos. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


do alto dos andes

Fernando Sousa | Jornalista

© Lusa/Jose Jacome

Indígenas em luta

EM NOME DA TERRA

O essencial da questão indígena na América Latina, a terra, pode dar passos

importantes até 2030. Basta que os Estados reconheçam os direitos ancestrais

dos seus povos originários – fiéis guardiães da agro-biodiversidade – e se

libertem da teia de interesses que a trazem adiada. Vão fazer isso?

Para os povos nativos, a terra

está no centro das suas vidas,

é a sua respiração, o seu estado

de alma, é dela que tudo parte e torna;

daí a permanente conflitualidade

entre as comunidades despojadas e

os que chegaram depois e preferem a

apropriação à partilha.

Encoberta por outros dramas,

como a covid-19, a terra continua a

ser para os povos nativos da América

Latina e das Caraíbas o maior deles.

O mais antigo. E o mais letal. Segundo

um estudo da Comissão Económica

para a América Latina (CEPAL) e o

Fundo para o Desenvolvimento dos

Povos Indígenas da América Latina

e das Caraíbas, subsistem cobertos

pela selva ou às claras 1223 conflitos

territoriais na região opondo comunidades

indígenas e explorações

mineiras e de hidrocarbonetos, e outras,

que resultam quase sempre em

repressão, criminalização e vítimas.

Só entre 2015 e o primeiro semestre

de 2019 foram assassinados 232 activistas

indígenas defensores dos seus

direitos – quatro por mês.

Travar a fundo

Como parar com isto foi o que levou

ao levantamento CEPAL/Filac. Os

Estados, afirmam os relatores, devem

garantir em sede jurídica a propriedade

ou a posse colectiva das terras

dos povos originários, mantendo-as

desde logo fora dos jogos dos mercados;

e, em todas as circunstâncias,

os interessados dentro dos processos.

Importante ainda é que a declaração

de áreas protegidas feitas pelos

Estados que integrem em maior ou

menor extensão territórios reivindicados

não afectem os direitos das

comunidades nativas. E não estamos

a falar de pequenas regiões, estamos

a falar de muitos hectares, de

milhares de hectares, de milhões de

hectares. Para termos uma ideia, os

territórios ancestrais abrangem 22

por cento da superfície da Terra, a

mesma que habitamos todos, onde

se encontram 80 por cento da diversidade

biológica total, e metade das

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Lusa/Chema Moya

zonas protegidas estabeleceram-se

em terras nativas. Contas já feitas.

Na América Central, 90 por cento

ocupam terras nativas, na América

do Sul ascendem a 214 as áreas que

se sobrepõem às dos indígenas – 79

no Brasil, 16 na Bolívia, 28 no Chile,

15 no Equador e 22 na Venezuela.

Também é muito diferente como

cada país protege, ou diz proteger,

os povos nativos, e isso em parte tem

que ver com desenvolvimentos políticos

dos últimos trinta anos. A Bolívia,

o primeiro país a eleger um presidente

indígena, em 2005, o Equador,

onde os mais antigos se levantam e

tudo treme, o México, a Nicarágua e

a Venezuela, por esta ordem, levam

a palma na defesa constitucional

dos direitos dos povos originários.

A Argentina, o Brasil e o Paraguai

reconhecem aos seus mais naturais

«um catálogo limitado de direitos».

E seis, Colômbia, El Salvador, Guatemala,

Honduras, Panamá e Peru, têm

os indígenas como sujeitos de protecção.

No fim da lista estão o Chile

– esse Chile onde os Mapuches, esses

irredutíveis “homens da terra” que

nem Incas, nem Espanhóis, nem ditadores

conseguiram submeter, conq

Indígena brasileiro do povo mura.

Na página anterior, indígenas do

Equador exigem os seus direitos numa

manifestação em Quito, capital do país

tinuam a defender o seu espaço – a

Costa Rica e o Uruguai como exemplos

de nenhum reconhecimento.

Guardiães da terra

A CEPAL e o Fundo para o Desenvolvimento

dos Povos Indígenas da

América Latina e das Caraíbas realçam

ainda o papel dos povos indígenas

na protecção do ambiente. Chama-lhes

mesmo os «fiéis guardiães

da agro-biodiversidade». E não é por

menos: 51 por cento da superfície da

Terra na região entre 1990 e 2015 diminuiu

46 por cento, qualquer coisa

como 928 milhões de hectares.

E termina propondo aos destinatários

– os Estados da região, evidentemente

– que voltem a ler os Objectivos

de Desenvolvimento Sustentável

das Nações Unidas, dezassete e nenhum

no bom caminho, aprovados

em 2015, para serem cumpridos em

quinze anos. Alguns dos mais importantes:

acabar com todas as formas

de pobreza em todo o mundo – no

caso das regiões indígenas garantir

a tal segurança jurídica das terras;

pôr fim à fome [ver caixa], garantir a

segurança alimentar, melhorar a nutrição

e promover a agricultura sustentável

– duplicar a produtividade

agrícola nativa e os seus rendimentos;

e obter a igualdade de género e o

empoderamento de todas as mulheres

e raparigas. Vão fazer isso? am

© 123RF

pobres entre os

pobres

A

Organização Internacional do Trabalho

(OIT) fez um levantamento

sobre a situação da população indígena

em nove países da América Latina,

concluindo que é escandalosa

a pobreza que a atinge. E isto mais

de trinta anos depois de aprovado

o Convénio sobre Povos Indígenas e

Tribais (n.º 169), que supostamente

devia melhorar o quadro de carências

das populações autóctones.

De acordo com o balanço, de Fevereiro,

que importa que o tempo

não apague, os povos originários

são 8,5% dos habitantes da região,

e ainda das Caraíbas; porém, os que

vivem nos países estudados representam

mais de 30% dos pobres,

quando a média mundial é de 19%.

Quer dizer, são três vezes mais.

Mas o estudo vai mais longe no

drama que traz à luz do dia: os mais

pobres desses pobres são as mulheres

e as raparigas. Isso porque a

pobreza extrema está associada ao

género. Segundo as contas da organização,

7% das mulheres indígenas

vive com 1,90 dólares diários. São as

maiores vítimas. Dependem desproporcionadamente

de empregos informais:

85% trabalham aí.

Os indígenas têm ainda poucas

oportunidades de conseguir empregos

de qualidade. E ganham 31 por

cento menos do que outros trabalhadores

da mesma ocupação, uma

diferença muito maior do que a de

outros no mundo, para o que contribuirá

também a circunstância de só

31% dos autóctones terem acesso a

estudos.

além-mar | Julho-Agosto 2020


apestados unidos da américa

VIDAS NEGRAS

da importância

de george floyd

Ele tinha um sonho: “tocar o mundo”. E o sonho

cumpriu-se. Não quando imaginava um futuro brilhante,

mas na sua morte brutal, que obriga os Estados Unidos

da América a penitenciar-se pelo racismo do passado

e do presente – 155 anos depois de abolir a escravatura.

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

© Lusa/Michael Reynolds

2020 Julho-Agosto | além-mar


To look around the United States today

is enough to make prophets and angels weep.

This is not the land of the free;

it is only very unwillingly

and sporadically

the home of the brave. *

James Baldwin,

I’m not your Negro

além-mar | Julho-Agosto 2020


estados unidos da américa

© Lusa/Tannen Maury

A

vida do negro George Perry

Floyd Jr, 46 anos, foi roubada

em 25 de Maio, depois

de um agente branco da

Polícia de Minneapolis, impávido e

de mãos nos bolsos, o ter asfixiado

com um joelho, durante 8 minutos

e 46 segundos, indiferente aos seus

gritos de dor: I can’t breathe («Não

consigo respirar»).

Tudo começou ao entardecer do

Memorial Day, dia em que os Estados

Unidos homenageiam os seus

soldados caídos em combate, quando

Floyd foi comprar um maço de

cigarros à Cup Foods. Às 20h01, um

dos empregados desta loja de conveniência

ligou para o serviço de

emergência 911, queixando-se de

que Floyd, interpelado num parque

onde estacionara o seu SUV, havia

recusado devolver o tabaco, alegadamente

pago com «uma nota falsa de

20 dólares».

Um primeiro carro-patrulha com

dois agentes, Alexander Kueng e

Thomas Lane, chegou às 20h08. Lane

puxou da arma para exigir que Floyd

colocasse as mãos no volante, e este

obedeceu. Depois, ordenaram-lhe

que saísse da sua viatura, algemaram-no

e deram-lhe ordem de prisão.

Quando o forçaram a entrar no

veículo da polícia, Floyd resistiu, em

vão, dizendo que era claustrofóbico.

Chegaram, entretanto, mais duas

viaturas, a terceira trazendo os agentes

Tou Thao e Derek Chauvin, que

assumiu o comando.

Às 20h19, Chauvin retirou Floyd

do carro-patrulha onde fora detido à

força, fazendo-o cair com o rosto no

alcatrão. Floyd implorou pelo menos

16 vezes: «I can’t breathe». Quando

avisou, «I’m about to die» («Estou a

morrer»), Chauvin respondeu: «Relaxa».

Floyd suplicou: «Por favor,

solte o joelho do meu pescoço. Não

consigo respirar.»

Às 20h22, os agentes requisitaram

uma ambulância, «sem urgência».

Sangrando do nariz, Floyd queixou-

-se novamente: «Dói-me o estômago,

dói-me o pescoço, dói-me tudo.»

Pediu água e rogou: «Não me matem!»

p Manifestantes protestam em Washington

contra o racismo e a violência

policial depois de um agente branco

da Polícia de Minneapolis ter asfixiado

com um joelho, durante 8 minutos e 46

segundos, o negro George Floyd

Às 20h27, quando a ambulância

chegou, Chauvin manteve o joelho

sobre o pescoço de Floyd durante

mais um minuto, enquanto os paramédicos

mediam a pulsação do detido,

já silencioso e imóvel. Foram

chamados os bombeiros, mas os

agentes não os ajudaram a localizar a

ambulância, onde Floyd sofreu uma

paragem cardíaca. Às 21h25, foi declarado

o óbito, no Hennepin County

Medical Center.

O primeiro relatório do Departamento

da Polícia de Minneapolis

omitiu quase todos os pormenores

filmados por testemunhas, em particular

o joelho de Chauvin sobre o pescoço

da vítima. A primeira autópsia

negou sinais de asfixia traumática

ou estrangulamento. Em 1 de Junho,

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Lusa/Larry W. Smith

porém, nas conclusões finais e após

dois exames forenses independentes

requeridos pela família, o principal

médico-legista concluiu que a morte

de Floyd foi «um homicídio, provocado

por paragem cardiopulmomar,

enquanto estava a ser dominado» pelos

agentes que o submeteram a uma

«compressão do pescoço».

Black Lives Matter

Chauvin só foi detido em 29 de Maio,

já os protestos contra a brutalidade e

impunidade da polícia alastravam

por Minneapolis, depois de um vídeo

posto a circular nas redes sociais

ter criado choque e repulsa. Embora

tenha sido o primeiro agente branco

no Estado do Minnesota a ser incriminado

pela morte de um negro,

Chauvin foi, inicialmente, apenas

acusado de homicídio em terceiro

grau e homicídio involuntário de segundo

grau.

Em 3 de Junho, depois ter tomado

conta do caso, o procurador Keith

Ellison alterou as acusações contra

Chauvin, para que incluíssem homicídio

em segundo grau. Acusou

também os restantes três agentes de

cumplicidade em homicídio de segundo

grau.

A morte de Floyd teve, no imediato,

um impacto maior do que o do

assassínio, em 1967, do reverendo

Martin Luther King Jr., o activista

dos direitos cívicos cujo manifesto,

I Have a Dream («Eu tenho um sonho»),

obrigou os EUA a fazer um

exame de consciência. «Quero que

os meus filhos sejam julgados pelo

teor do seu carácter e não pela cor da

sua pele», proclamou King.

Hoje, ao movimento Black Lives

Matter (BLM, Vidas Negras Importam),

que comanda os protestos,

não basta contrição por séculos de

injustiça, desigualdade e segregação.

Nas ruas, centenas de milhares de

pessoas exigem mudanças concretas.

Até porque, ao contrário do que em

1971 cantava Gil Scott Heron, The

Revolution Will not be Televised, a

actual rebelião está a ser transmitida

por uma potente arma: os telemóveis.

Foi um vídeo gravado por Dar-

p Protestos em Dallas contra o racismo

após a morte de George Floyd.

O movimento Black Lives Matter exige

a proibição de métodos cruéis usados

pela polícia e a demissão e condenação

de agentes abusadores

nella Frazier, uma jovem negra de 17

anos, que imortalizou o martírio de

Floyd.

Uma morte que, desde logo, congregou

multidões de várias raças,

religiões e classes sociais num grito

colectivo pela dignidade humana.

Uma morte que exige a proibição de

métodos cruéis usados pela polícia,

a demissão e condenação de agentes

abusadores, a reabertura de casos

suspeitos arquivados. Uma morte

que obrigou políticos a delinear reformas

urgentes. Uma morte que

compeliu indivíduos, empresas e instituições

a fazer mea culpa, por palavras,

actos e omissões. Uma morte

que remove símbolos e derruba estátuas

de esclavagistas e colonizadores,

porque uma nova geração de negros

u

além-mar | Julho-Agosto 2020


estados unidos da américa

© Lusa/Justin Lane

© Lusa/Craig Lassig

p Uma imagem de George Floyd exposta

num memorial improvisado perto do

lugar onde ele foi detido pela Polícia,

em Minneapolis, Minnesota, EUA. Ao

lado, jovens prostetam contra o racismo

e pedem justiça para os negros

reclama o seu devido lugar nos livros

de História.

Ainda hoje, manuais escolares

nos EUA ignoram ou subvalorizam

acontecimentos traumáticos, como o

Massacre de Tulsa em 1921, quando,

em dois dias de terror, supremacistas

brancos do Ku Klux Klan (KKK)

mataram mais de 300 pessoas negras

e queimaram centenas de casas e negócios

na próspera Black Wall Street.

Até à morte de Floyd, muitos brancos

americanos nunca tinham ouvido

falar no Juneteenth (fusão de June

e nineteenth), a celebração do dia 19

de Junho de 1865, quando o general

da União, Gordon Granger, chegou a

Galveston, no Texas, para anunciar

o fim da Guerra Civil e a libertação

de todos os escravizados, dois meses

depois da rendição do general da

Confederação, Robert E. Lee, e mais

de dois anos após a Proclamação

da Emancipação, que o presidente

Abraham Lincoln assinara em 1 de

Janeiro de 1863.

Em busca da redenção

Volvidos 155 anos, os EUA negros

interrogam-se porque é que o seu Dia

da Liberdade se mantém um feriado

estadual no Texas, não merecendo o

tributo reservado à Confederação e

a Robert E. Lee, homenageados em

bandeiras e esculturas, monumentos

e estradas, moedas e selos, parques e

hotéis, navios e submarinos, liceus e

universidades – da Virgínia à Carolina

do Norte.

Foi na Carolina do Norte, em Fayeteville,

que George Floyd nasceu,

embora tenha crescido em Third

Ward Cuney Homes, um bairro social

conhecido como Bricks, onde a

mãe, Larcenia Cissy Floyd, separada

do marido, criou filhos e netos e se

tornou um dos membros mais activos

da comissão de moradores.

Para os amigos, Floyd era Big

Floyd, porque o seu 1,94 m a todos

impressionava. Para a família, era o

© Lusa/Peter Foley

2020 Julho-Agosto | além-mar


Superman, que concluiu o ensino secundário

na Jack Yates High School,

onde, atleta exímio, elevou a equipa

de futebol a um campeonato estadual

– uma proeza no Texas.

O desporto poderia ter salvado

Floyd da pobreza. Aos 17 anos, ansiava

por «tocar o mundo», ser um

basquetebolista famoso na NBA,

como o seu ídolo LeBron James, ou

um futebolista célebre da NFL. Foi o

primeiro dos irmãos a ser admitido,

em 1993, numa universidade (South

Florida Community College) e a

obter uma bolsa de estudos. Em 1995,

foi treinar basquetebol para o campus

de Kingsville da Texas A&M University,

mas abandonou os estudos.

Sem um diploma, o “gigante gentil”

regressou a Houston e a Bricks, onde

drogas e gangues matavam muitos

jovens, alguns antes de chegar aos 20

anos. Mas Bricks também inspirava

artistas, como Beyoncé, e Floyd, com

a sua voz rouca de Ray Charles, integrou

um grupo de hip-hop.

Não bastou para o livrar de apuros.

Passou pelo menos uma década em

várias penitenciárias. Libertado em

p Um homem observa um mural com

as fotografias de pessoas que foram

mortas pela polícia, na cidade de Nova

Iorque

2013, procurou refúgio na Igreja da

Ressurreição, em Houston, determinado

a ser líder comunitário e exemplo

para os cinco filhos.

A estrada para a redenção levou-

-o até St Louis Park, no Minnesota,

onde foi partilhar um dúplex com

dois colegas. No seu quarto, debaixo

da almofada, guardava uma Bíblia,

que costumava ler em voz alta, relata

o New York Times. Em 2017, foi contratado

como guarda de um centro

para pessoas sem abrigo do Exército

de Salvação. Posteriormente, arranjou

um emprego como camionista e

outro como segurança num restaurante-danceteria,

onde os clientes

adoravam a sua simpatia e sentido

de humor. A pandemia de covid-19

infectou-o e deixou-o sem trabalho,

quando o governador ordenou o

confinamento social.

além-mar | Julho-Agosto 2020


estados unidos da américa

© Lusa/Erik S. Lesser

Nada será como dantes?

No dia 9 de Junho, quando duas fileiras

de agentes saudaram o caixão

de George Floyd, à entrada da Igreja

Fonte de Louvor (Fountain of Praise),

em Houston, antes de o seu corpo

ser sepultado ao lado da campa

da mãe que ele tanto admirava e a

quem pediu socorro enquanto o matavam,

muitos rezaram para que ele

tivesse sido a última das mais recentes

vítimas de brutalidade policial.

A lista é longa: Rodney King, em

1991; Amadou Diallo, em 1999; Sean

Bell, em 2006; Anthony Lamar, em

2011; Jonathan Ferrell, em 2013; Eric

Garner, Michael Brown e Tamir Rice,

em 2014; Walter Scott e Freddie Gray,

em 2015; Alton Sterling, Korryn Gaines

e Pillando Castille, em 2016; Stephon

Clark e Antwon Rose, em 2018;

Elijah McCalin, em 2019; ou Breonna

Taylor, em Março de 2020.

Mas não. No sábado 13 de Junho,

em Atlanta, o negro Rayshard

Brooks, 27 anos, foi morto, com

duas balas nas costas, no dia de aniversário

de uma das suas três filhas,

às quais deu os nomes de Blessing

(Bênção), Memory (Memória) e

Dream (Sonho). Tinha adormecido

e estava a congestionar o drive-in de

um parque de estacionamento. O encontro

com a polícia, que se iniciou

cordial e terminou fatal, durou 41

minutos e 17 segundos.

Submetido primeiro a um teste de

alcoolemia, cujo resultado o interditava

de conduzir, foi-lhe dada ordem

de prisão, sem lhe terem sido lidos os

seus direitos, como a lei requer. Assustado,

Brooks resistiu, apossou-se

do taser de um agente, disparou-o e

tentou fugir. Um outro polícia pegou

na sua Glock de 9 mm e alvejou-o,

regozijando-se: «Apanhei-o!»

Antes da morte de Floyd, talvez

nenhum dos agentes fosse punido.

Mas, aparentemente, já não é possível

ignorar os clamores de justiça.

p Manifestantes do Black Lives Matter

manifestam-se no Centro Martin Luther

King Jr. na sequência da morte de

Rayshard Brooks, morto por um polícia

em Atlanta

O chefe da polícia de Atlanta demitiu-se

logo após o tiroteio. Garrett

Rolfe, o agente que baleou e pontapeou

Brooks quando o corpo deste

jazia ensanguentado no pavimento,

foi despedido e enfrenta 11 acusações,

incluindo homicídio. Se considerado

culpado em tribunal, pode

ficar em prisão perpétua.

George Floyd tinha um sonho... am

* Olhar hoje para os Estados Unidos

é o suficiente para fazer chorar profetas

e anjos.

Esta não é a terra dos livres;

é apenas a contragosto e esporadicamente

a terra dos corajosos.

(Tradução livre)

2020 Julho-Agosto | além-mar


ENTREVISTA COM RASHAWN RAY

estamos a assistir a um

ponto de viragem nos eua

Nos EUA, quando um polícia mata um civil, são os contribuintes

que pagam as indemnizações dos processos judiciais. Em busca

de soluções para a brutalidade de uma instituição cujas maiores

vítimas são as pessoas negras, o sociólogo americano Rashawn

Ray defende que os fundos que oferecem imunidade às «maçãs

podres de uma árvore apodrecida» devem ser transferidos para

serviços sociais. Entrevista à Além-Mar, por correio electrónico.

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

Rashawn Ray é doutorado e

professor de Sociologia na

Universidade de Maryland.

É também co-director da

revista Contexts, publicada pela

American Sociological Association

(ASA), a maior associação mundial

de profissionais da especialidade.

Não tem cadastro criminal, como faz

questão de salientar.

O tio-avô Walter J. Gooch foi o primeiro

negro chefe da polícia na sua

terra natal, Murfreesboro, no Estado

de Tennessee. O avô Clarence Williams

serviu em duas guerras e foi

condecorado com um Coração de

Púrpura (Purple Heart) e uma Estrela

de Bronze (Bronze Star), medalhas

atribuídas, em vida ou postumamente,

a militares que se destacaram em

actos heróicos.

Não obstante estes pergaminhos,

pessoais, profissionais e familiares,

aos 40 anos, Ray tem a certeza de que

já foi interpelado pela polícia mais

vezes do que a sua idade. «Mandam-

-me parar enquanto conduzo ou estou

num parque de estacionamento,

quando ando de comboio ou de autocarro,

quando passeio, quando corro,

© Foto cedida por Rashawn Ray

p Rashawn Ray, professor de Sociologia

na Universidade de Maryland

quando estudo, quando me divirto»,

descreve ele num artigo publicado

no site do think-tank Brookings Institution,

em Washington, onde é investigador.

«Já fui insultado, atirado

contra paredes e detido.»

Autor de Race and Ethnic Relations

in the 21 st Century: History, Theory,

Institutions, and Policy (Raça e Relações

Étnicas no Século xxi: História,

Teoria, Instituições e Política), Ray

tem recebido vários prémios académicos.

Desde há uma década que

trabalha com dezenas de esquadras

de polícia, com o Departamento de

Segurança Interna e com as Forças

Armadas dos EUA. É responsável

por vários programas e cursos com

o objectivo de pôr fim a um sistema

em que, diz, «bad apples come from

rotten trees» («maçãs podres vêm de

árvores apodrecidas»).

Como é que uma pessoa que tem

sido perseguida, injuriada, agredida

e até detida pela polícia viu o

horrífico vídeo da tortura e morte

de George Floyd?

Eu olho para este tipo de incidentes

com as lentes de um sociólogo

que estuda a polícia. O assassínio de

George Floyd expõe uma das mais

perturbadoras estatísticas nos EUA

– as pessoas negras têm 3,5 vezes

mais probabilidade do que as brancas

de serem mortas pela polícia,

mesmo sem estarem envolvidas em

ataques ou na posse de armas.

além-mar | Julho-Agosto 2020


estados unidos da américa

Da sua experiência com a polícia,

o que mais o traumatizou? Como

é que explica aos seus dois filhos

os perigos de viver num país onde

persiste um racismo sistémico?

A maioria dos casos envolvendo a

polícia causam stress. A minha investigação

demonstra que, em bairros

onde predomina a violência policial,

os homens sofrem maiores níveis

de depressão e ansiedade. Quanto

às mulheres nesses bairros, o sofrimento

é sobretudo físico. Portanto,

as vítimas não são apenas os mortos

pela polícia, mas também os que

observam e têm de viver essas situações.

Quando converso com os meus

filhos [dois rapazes], pergunto-lhes

como é que avaliam os acontecimentos.

Com base nas suas respostas,

tento dar-lhes informação que

melhor os ajude a processar o que se

passa. Procuro sempre ensinar-lhes

estratégias saudáveis que os ajudem

a lidar com o racismo na América.

O que vê agora, quando olha para

os protestos em massa exigindo

justiça racial? Como é que descreve

a composição e determinação dos

manifestantes? Esperava estas multidões

avassaladoras?

Eu nunca vi protestos com uma tão

grande diversidade racial. Mais de

75 % dos americanos consideram

que o que aconteceu a George Floyd

faz parte de um padrão [de comportamento],

em que os negros têm

poucas oportunidades de serem bem

tratados pela polícia.

E a brutalidade policial tem sido

quase sempre o motor das rebeliões

dos afro-americanos. A partir do

seu trabalho com forças de segurança,

que recomendações faz?

Eu acho que, para poder realmente

lidar com as árvores apodrecidas na

polícia, a América tem de reestruturar

o sistema em que são os civis a

pagar indemnizações pela má conduta

dos agentes. Quando uma pessoa

é indemnizada por ter sido maltratada

pela polícia, esse dinheiro

© Lusa/Tannen Maury

p Nos EUA milhares de pessoas continuam

a manifestar-se contra o racismo.

«Eu nunca vi protestos com uma tão

grande diversidade racial. Mais de 75%

dos americanos consideram que o que

aconteceu a George Floyd faz parte de

um padrão [de comportamento], em que

os negros têm poucas oportunidades de

serem bem tratados pela polícia»

vem dos contribuintes. Eu defendo

que o dinheiro deve provir dos planos

de seguros dos departamentos

de polícia. Deste modo, será possível

responsabilizar os departamentos e

os agentes.

Depois da morte de Floyd, o Conselho

Municipal de Minneapolis

prometeu desmantelar todo o departamento

de polícia da cidade,

alegando que «o sistema não pode

ser reformado». O presidente da

Câmara de Nova Iorque também se

comprometeu a cortar o financiamento

da NYPD. Será que estamos

a assistir a um ponto de viragem,

ou medidas como esta jamais poderão

ser aplicadas devido ao enorme

poder dos sindicatos, que alguns

acusam de agir como “máfias protectoras”,

que intimidam políticos

e juízes?

Eu acho que sim [que é um ponto de

viragem]. Retirar fundos à polícia

significa, basicamente, deslocar fundos

ou investi-los noutros sectores.

Cidades como Los Angeles ou Baltimore

já estão a reduzir o financiamento

da polícia, transferindo fundos

para serviços sociais dedicados

à saúde mental e a infra-estruturas

para emprego.

Perante os actuais acontecimentos,

alguns analistas falam de uma

«óbvia analogia histórica» com a

vaga de protestos e tumultos no

início dos anos 1960 e depois do

assassínio do reverendo Martin Luther

King Jr [MLK], em 1968. Concorda?

Há uma clara semelhança em relação

a 1968. Depois de MLK ter

sido assassinado, houve distúrbios

2020 Julho-Agosto | além-mar


e agitação em massa. Dias depois, o

presidente Lyndon Johnson aprovou

uma das mais amplas leis de direitos

cívicos da História, com ênfase no

direito a habitação condigna. Depois

do assassínio de George Floyd, os

protestos generalizados estão a contribuir

para que sejam retirados fundos

a departamentos de polícia, e até

já foi assinada [por Donald Trump]

uma ordem executiva presidencial

com vista à reforma da polícia.

© Lusa/Tannen Maury

p «Os EUA fundaram-se no racismo.

A única maneira de lidar com isto é

através de indemnizações [pela escravatura]

– um processo que também

está a ganhar força. Quanto às pessoas

que protestam não votarem, isso é uma

grande falácia. As pessoas que protestam

são, frequentemente, algumas das

mais activas politicamente»

corajar os supremacistas brancos

nos EUA. Será que, para renovar o

mandato nas presidenciais de Novembro,

ele está a tentar imitar Richard

Nixon, eleito graças aos votos

dos brancos e a uma mensagem de

“lei e ordem”?

Tendo em conta a pandemia [de covid-19],

que afecta, particularmente,

as comunidades negras – 70 %

dos mais de 120 mil mortos entre

mais de 2 milhões de infectados], a

recessão económica [mais de 14 milhões

de desempregados até Junho] e

os protestos, acho que será difícil a

Trump ultrapassar estas barreiras no

caminho para a reeleição.

Numa recente entrevista à CNN, o

filósofo e crítico social Cornel West

chamou a atenção para o facto de o

movimento Black Lives Matter ter

aparecido quando os EUA tinham

um presidente negro [Barack Obama],

um procurador-geral negro

[Eric Holder] e um director negro

do departamento de Segurança

Interna [Jeh Johnson]. No entanto,

acrescentou, “nenhum deles foi

© Lusa/Michael Reynolds

Mas a reforma prometida é modesta,

e Trump, que não poupa elogios

à polícia, tem sido acusado de enbem-sucedido”

porque “rostos negros

em lugares brancos acomodaram-se

demasiado a uma sociedade

em que o poder e a fama é o que importa

mais”. A previsão dele é a de

que “os supremacistas brancos andarão

por cá durante muito, muito,

muito tempo”. Partilha deste pessimismo?

Eu estou moderadamente optimista.

Penso que este momento é diferente.

Quatro agentes em Minneapolis

foram despedidos e acusados. Três

pessoas foram acusadas do assassínio

de Ahmad Arbery [um jovem morto

a tiro por civis, quando fazia jogging

no parque do seu bairro]. Amy Cooper

[que ameaçou chamar a polícia,

esperando vingar-se de um ornitólogo

negro que apenas lhe exigiu que

colocasse a coleira no seu cão, seguindo

as regras do parque onde se

cruzaram] perdeu o emprego e ficou

sem o cão. Tudo isto são mudanças.

A ordem executiva [de Trump] não é

perfeita, mas muda a agulha. Retirar

fundos à polícia é um passo gigante.

Se o Congresso conseguir aprovar

uma sólida lei de reforma da polícia,

as maçãs podres serão responsabilizadas

e os fundos poderão ser canalizados

para beneficiar civis.

Barack Obama encorajou recentemente

os protestos, mas também

o voto: «Não se trata de uma coisa

ou outra; temos de fazer ambas,

para conseguirmos uma verdadeira

mudança.» Será que os manifestantes

ouviram este apelo? Será que

a América alguma vez será “uma

nação com liberdade e justiça para

todos”, como exige o juramento de

lealdade à bandeira?

Uma nação... Não tenho a certeza. Os

EUA fundaram-se no racismo. A única

maneira de lidar com isto é através

de indemnizações [pela escravatura]

– um processo que também está a

ganhar força. Quanto às pessoas que

protestam não votarem, isso é uma

grande falácia. As pessoas que protestam

são, frequentemente, algumas

das mais activas politicamente. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


armas apo nucleares

arsenais atómicos

O ritmo de redução dos arsenais nucleares diminuiu significativamente

em comparação com os anos 1990. Agora, em vez de planear o

desarmamento, os Estados com armas nucleares estão a reter e a

acrescentar novo armamento atómico.

Texto: Carlos Reis, jornalista

© 123RF

O inventário combinado de ogivas nucleares permanece a um nível muito alto no mundo, isto

quando o novo tratado nuclear START, assinado pelos Estados Unidos e pela Rússia, caducará

em 2021 e ainda não há planos para estender o acordo.

© Andreas Solaro

«Um mundo sem armas

nucleares é possível

e urgente. A posse de

armas de destruição em

massa não abre caminho

para a paz e não protege

das actuais ameaças à

segurança nacional e

internacional.»

Papa Francisco

«A história dos ensaios

atómicos está cheia

de sofrimento. As

suas consequências

devastadoras afectam o

meio ambiente, a saúde,

a segurança alimentar

e o desenvolvimento

económico.»

António Guterres, secretário-geral das

Nações Unidas

2019 Julho-Agosto | além-mar


© 123RF

NOVAS ARMAS HIPERSÓNICAS

Mísseis ultra-rápidos não-balísticos

com capacidade nuclear

Avangard (Rússia)

DF-ZF (China)

C-HGB (Estados Unidos)

V-Max (França)

A maior preocupação actual da Agência Internacional de

Energia Atómica (IAEA) gira em torno da Índia, Paquistão,

Israel e Coreia do Norte, países que são detentores de

armas nucleares, mas que não aderiram ao Tratado de

Não-Proliferação de Armas Nucleares (NPT).

ENSAIOS EXPLOSIVOS

75 anos

O primeiro teste nuclear do mundo realizou-se

em Julho de 1945, no Deserto do Novo México

(Estados Unidos).

2000 testes

Detonações nucleares atmosféricas, subterrâneas

e subaquáticas já realizadas nos quatro continentes

e no oceano Pacífico.

184 signatários

Apesar de já ratificado por 168 Estados, o Tratado

de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT)

ainda não entrou em vigor, 24 anos após

a sua adopção.

© 123RF

CLUBE NUCLEAR

mais de 90% de todas as ogivas nucleares são propriedade da rússia e dos estados unidos.

estados com armas nucleares – número de ogivas

Reino Unido

215

Rússia

6372

Israel

80

França

300

Coreia do Norte

25

China

260

Estados Unidos

5800

Índia

135

Paquistão

145

Fonte: FAS Status of World Nuclear Forces 2020

além-mar | Julho-Agosto 2020


ap mundo

cuidar das crianças

A crise originada pela pandemia está a ter um impacto social

e económico global. Para milhões de crianças, isso pode significar

a morte, o desenvolvimento de doenças, a interrupção

na educação e a entrada no mundo do trabalho.

Nas duas últimas décadas,

houve avanços na luta contra

o trabalho infantil e 94

milhões de crianças deixaram

essa condição (eram 246 milhões

no ano 2000). Uma conquista

que a crise da covid-19 ameaça, obrigando

milhões de crianças vulneráveis

a trabalhar. Esse é o alerta que

fazem a Organização Internacional

do Trabalho (OIT) e o Fundo das

Nações Unidas para a Infância (Unicef)

no estudo conjunto intitulado

A Covid-19 e o trabalho infantil: num

tempo de crise, é tempo de agir.

A crise actual pode «causar estragos

no rendimento familiar e, sem

apoio, muitas famílias podem recorrer

ao trabalho dos filhos», explica

o director-geral da OIT, Guy Ryder.

«As crianças que já eram obrigadas

a trabalhar correm o risco de trabalhar

mais horas ou em piores condições»

e, além disso, «muitas delas

podem ser forçadas às piores formas

de trabalho infantil, o que provoca

danos significativos para a sua saúde

e segurança», afirmou o responsável

da OIT.

Texto: Bernardino Frutuoso, jornalista

Pobreza e trabalho infantil

O relatório não apresenta dados sobre

o impacto da covid-19 no incremento

da pobreza infantil nos vários

países do mundo, pois ainda se está

a trabalhar nos modelos de previsão.

Contudo, para a OIT e a Unicef, a

pandemia «pode conduzir a um aumento

da pobreza e, portanto, a um

aumento do trabalho infantil, já que

© 123RF

2020 Julho-Agosto | além-mar


as famílias usam todos os meios disponíveis

para sobreviver».

O documento frisa que, em alguns

países, os estudos realizados

demonstram que o aumento de um

ponto percentual na pobreza leva a

um aumento de pelo menos 0,7 %

no trabalho infantil. «Em tempos de

crise, o trabalho infantil é um recurso

utilizado pelas famílias», afirma a

directora-executiva da Unicef, Henrietta

Fore. Todavia, «o encerramento

temporário de escolas está a afectar

mais de mil milhões de alunos em

mais de 130 países. Mesmo quando

as aulas recomeçarem, algumas famílias

podem já não ter condições

económicas para que os seus filhos

e filhas voltem à escola», indicam a

OIT e a Unicef. Assim, «mais crianças

podem ser forçadas a trabalhar

em empregos que as exploram e as

põem em perigo».

O ano de 2021 será o Ano Internacional

para a Eliminação do Trabalho

Infantil. Por isso, ao repensar

o mundo pós-covid, as duas organizações

das Nações Unidas propõem

uma série de medidas para combater

o aumento do trabalho infantil. «Precisamos

de garantir que as crianças e

as suas famílias têm as ferramentas

necessárias para enfrentar tempestades

semelhantes no futuro. Educação

de qualidade, serviços de protecção

social e melhores oportunidades económicas

podem ser agentes de mudança»,

sublinhou Henrietta Fore.

Investir na saúde

A pandemia pode, igualmente, provocar

a morte de 1,2 milhões de menores

de 5 anos nos próximos seis

meses, devido ao aumento da desnutrição

e à falta dos serviços médicos

de rotina e de vacinação. Ou seja, seis

mil menores de 5 anos podem morrer

por dia se não forem tomadas

medidas, alerta um estudo da Escola

Johns Hopkins Bloomberg de Saúde

Pública difundido na revista The

Lancet Global Health.

Estas mortes somam-se às dos 2,5

milhões de crianças que já morrem

© 123RF

números

152 milhões

de crianças e adolescentes

entre os 5 e os 17 anos estavam

envolvidos em trabalho infantil

globalmente em 2016

1,2 milhões

de menores de 5 anos podem

morrer por causas preveníveis

nos próximos seis meses,

devido à cobertura reduzida

dos serviços médicos de rotina

e ao aumento da desnutrição

80 milhões

de bebés com menos de 1 ano

de idade correm o risco de

contrair doenças como difteria,

sarampo ou poliomielite

370 milhões

de crianças de 143 países,

que normalmente dependem

da alimentação escolar como

fonte fiável de nutrição diária,

têm de procurar outras

alternativas enquanto as escolas

permanecem fechadas

p A recessão económica causada

pela covid-19 pode obrigar milhões de

crianças vulneráveis a entrar no mundo

laboral. As organizações que trabalham

com a infância lançaram uma campanha

para evitar que a crise da pandemia seja

uma crise dos direitos das crianças

cada seis meses antes de completarem

os 5 anos de idade nos 118 países

abrangidos pelo estudo. Seria o

primeiro aumento da mortalidade

infantil global desde que se iniciaram

os registos em 1960.

A pandemia causou, ainda, um

atraso nas campanhas de vacinação.

Por isso, pelo menos 80 milhões de

bebés com menos de 1 ano de idade

correm o risco de contrair doenças

como difteria, sarampo ou poliomielite,

23 milhões dos quais em África,

refere a Unicef num recente relatório

elaborado em colaboração com a

ISGlobal.

A Unicef e outras organizações que

trabalham com a infância afirmam

que a crise da covid-19 não pode ser

uma crise dos direitos das crianças.

Nesse sentido, lançaram uma campanha

internacional para evitar uma

crise a largo prazo para as crianças,

especialmente as mais vulneráveis: as

que se vêem afectadas pela pobreza,

a exclusão ou a violência familiar. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


justiça ap internacional

alcance universal

O estabelecimento

de tribunais

internacionais

permanentes

representa um

enorme progresso

para a Humanidade.

Vale a inter-relação

entre o Estado de

direito e a paz,

a segurança, o

desenvolvimento

e o respeito dos

direitos humanos.

Texto: Carlos Reis, jornalista

A

universalidade dos direitos

humanos está na origem

e natureza da justiça internacional.

A jurisdição

universal dita que quem quer que

cometa uma violação de direitos humanos

pode ser julgado em qualquer

país independentemente de onde o

crime foi cometido. Os tribunais internacionais

têm contribuído para a

expansão da jurisdição internacional,

assim como para a ampliação da

responsabilidade comum às nações.

A par da responsabilidade internacional

dos Estados e organizações

internacionais, afirma-se também a

dos indivíduos.

Cada tribunal internacional tem a

sua jurisdição fundamentada num

tratado ou instrumento internacional

distinto, e tem o seu próprio direito

aplicável. Juntos formam uma

rede e o possível embrião de um

futuro judiciário internacional. «A

expansão alentadora da jurisdição

internacional mediante a coexistência

de tribunais internacionais é um

sinal dos nossos tempos, neste início

do século xxi, de modo a assegurar

que cada um dos tais tribunais dê a

sua contribuição efectiva ao Direito

Internacional na busca da realização

da justiça internacional», observa o

magistrado brasileiro Cançado Trindade,

juiz do Tribunal Internacional

de Justiça (ICJ).

Contudo, torna-se evidente que

os casos que alcançam os tribunais

internacionais constituem uma parcela

ínfima das múltiplas injustiças

e abusos perpetrados contra os seres

q Realização de uma sessão no Tribunal

Internacional de Justiça (ICJ). Na outra

página, jornalistas fazem a cobertura

na entrada da sede do ICJ, na cidade de

Haia, Países Baixos

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Lusa/Robin Van Lonkhuijsen

A jurisdição

universal dita

que quem quer

que cometa uma

violação de direitos

humanos pode

ser julgado em

qualquer país

independentemente

de onde o crime foi

cometido.

© 123RF

humanos e os povos em todo o mundo.

«É isto que deveria ser objecto de

preocupação e não os falsos problemas

de delimitação de competências

institucionais. É importante que operem

regular e continuamente todos

os tribunais internacionais contemporâneos

no mundo brutalizado em

que vivemos», preconiza Cançado

Trindade, que já foi presidente do

Tribunal Interamericano de Direitos

Humanos. O estabelecimento de tribunais

internacionais permanentes

constitui um contributo valioso para

o fortalecimento do direito internacional,

em prol de um mundo mais

seguro e estável, regido pelo direito

e pela justiça.

Integração e coordenação

Na histórica Reunião de Tribunais

de Justiça Internacionais e Regionais

do Mundo, presidentes de onze tribunais

globais e regionais de direitos

humanos e de integração económica

encontraram-se, em 2007, em Manágua

(Nicarágua), onde reafirmaram

os princípios e propósitos da Carta

das Nações Unidas, como «denominador

comum que vincula todos os

Estados». Os magistrados participantes

enfatizaram a obrigação de a

comunidade internacional cumprir

fielmente as normas e princípios do

Direito Internacional, atendendo a

que «o fim último do Estado de Direito

é a pessoa humana e a tutela dos

seus direitos».

Também os líderes mundiais da

Comissão das Nações Unidas recomendam

aos Estados um «compromisso

com um ordenamento jurídico

internacional baseado no Estado

de direito e no direito internacional»,

tal como está expresso na resolução

The Rule of Law at the National and

International Levels. O documento

defende «um sistema multilateral e

eficaz de modo a prevenir ou sancionar

violações do direito internacional».

As Nações Unidas apontam

ainda a necessidade de assegurar o

cumprimento das sentenças dos tribunais

e as resoluções das organiza-

u

além-mar | Julho-Agosto 2020


justiça internacional

sofrimento agudo

© 123RF

penas para crimes atrozes

Um dos exemplos mais conhecidos de justiça internacional

foi a detenção de Augusto Pinochet, presidente do

Chile entre 1973 e 1990, por crimes de abuso dos direitos

humanos, por mandato do tribunal espanhol Audiencia

Nacional. Outros chefes de Estado já foram julgados ou

indiciados pela justiça internacional, por genocídio, crimes

contra a humanidade ou de guerra.

O primeiro foi Slobodan Milošević, presidente da Jugoslávia

de 1997 a 2000, acusado pelo Tribunal Penal

Internacional (TPI). Também Khieu Samphan, presidente

da Kampuchea Democrática (Camboja) de 1976 e 1979,

foi acusado pelas Câmaras Extraordinárias do Tribunal do

Camboja (ECCC), estabelecidas pelas Nações Unidas.

Em África, Charles Taylor, presidente da Libéria de 1997

a 2003, foi condenado pelo Tribunal Especial para a Serra

Leoa (SCSL), coordenado pelas Nações Unidas. Laurent

Gbagbo, presidente da Costa do Marfim entre 2000 e 2010,

foi condenado pelo TPI, instância que também acusou

Omar Al-Bashir, presidente do Sudão entre 1989 e 2019.

Com sede em Haia (Países Baixos), o TPI iniciou as suas

actividades permanentes em 2002, processando e julgando

indivíduos, diferenciando-se do Tribunal Internacional

de Justiça (ICJ), principal órgão judiciário das Nações Unidas,

que examina litígios entre Estados e tem também

sede em Haia.

O Tribunal Penal Internacional, actualmente presidido

pelo juiz nigeriano Chile Eboe-Osuji, já julgou três dezenas

de casos e tem situações sob investigação no Afeganistão,

Birmânia/Mianmar, Burundi, Costa do Marfim, Darfur/

/Sudão, Geórgia, Líbia, Mali, Quénia, República Centro-Africana,

RD Congo e Uganda.

Em 2017, a União Africana aprovou a resolução ICC Withdrawal

Strategy, que declara a intenção de propor ao

Conselho de Segurança das Nações Unidas a reforma do

Tribunal Penal Internacional, uma vez que o abandono em

massa do TPI não é consensual entre os Estados-membros

da comunidade africana. «Existe um historial que aponta

para uma relação conturbada entre o TPI e certos Estados

africanos, cujo desfecho é ainda incerto», constatam Filipa

Raimundo e Ana Sá, professoras de Ciência Política e Políticas

Públicas no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa,

o que atribuem a acusações destes países de a instância

ser manietada pelas grandes potências, pautada pela parcialidade

e humilhação a líderes africanos e, também, pela

imposição neocolonial que faz ao mundo não ocidental.

Para o futuro, fica a garantia de que «as Nações Unidas

continuarão a apoiar os civis perante as injustiças. Continuaremos

a levar perante a justiça os que cometeram crimes

de guerra atrozes em todas as regiões do mundo», assegura

António Guterres, secretário-geral da organização.

2020 Julho-Agosto | além-mar


ções internacionais, dentro do princípio

da sujeição dos Estados e suas

autoridades.

«São os vencedores dos conflitos

que fazem justiça e, como é óbvio, raramente

contra si mesmos. Com frequência,

os sobreviventes enfrentam

discriminação, como as mulheres

violadas em situação de guerra. Por

vezes, o sistema penal simplesmente

deixa de existir ou os políticos tentam

“esquecer o passado” com amnistias»,

constata a Amnistia Internacional,

que defende que se alguém

for acusado de um crime pode ser

julgado em qualquer lugar onde seja

encontrado, independentemente do

local onde foi praticada a infracção.

q Julgamento no tribunal do Complexo

Judicial de Schiphol (SJC), Países

Baixos, sobre a queda do voo MH17 da

Malaysia Airlines abatido na Ucrânia.

Página anterior, a sede do Tribunal

Penal Internacional, em Haia

tribunais

internacionais

Globais

Tribunal Internacional de Justiça (ICJ)

Tribunal Penal Internacional (TPI)

Tribunal Internacional do Direito

do Mar (ITLOS)

Regionais

Tribunal Interamericano de Direitos

Humanos (Corte IDH)

Tribunal Centro-Americano

de Justiça (CCJ)

Tribunal Permanente de Revisão

do Mercosul (TPR)

Tribunal de Justiça da Comunidade

Andina (TJCA)

Tribunal de Justiça do Caribe (CCJ)

Tribunal de Justiça da União

Europeia (CJEU)

Tribunal Europeu dos Direitos

do Homem (ECHR)

Tribunal da Associação Europeia

de Comércio Livre (EFTA Court)

Tribunal Africano dos Direitos Humanos

e dos Povos (AfCHPR)

© Lusa/Remko De Waal

Assim, pretende-se que todos os

Estados mostrem o seu empenho na

justiça internacional através da cooperação,

e julguem criminalmente,

ou extraditem, suspeitos de crimes

graves ao abrigo da lei internacional.

As organizações intergovernamentais,

nomeadamente a ONU e outras

entidades regionais, devem cooperar

e aplicar a jurisdição universal.

Alicerces para punições

A justiça internacional está alicerçada

nos conceitos de justiça, verdade

e reparação. Os Estados devem investigar

todos os crimes e julgar os

suspeitos em julgamentos justos. Isto

sem recorrerem à tortura ou à pena

de morte, o que só alimentaria ainda

mais o ciclo de abusos.

Por sua vez, as vítimas, familiares

e todos os cidadãos têm direito a saber

o que aconteceu. As autoridades

devem apurar e reconhecer de forma

pública os factos sobre os crimes cometidos.

Alguns países que viveram

anos conturbados, como a África do

Sul, fizeram-no com as comissões de

apuramento da verdade. «Porém, isso

não deve incluir amnistias por atrocidades

passadas», no entendimento

da Amnistia Internacional (AI).

Finalmente, por reparação plena

entende-se que o sofrimento das vítimas

e das suas famílias tem de ter

resoluções adequadas. Estas pessoas

precisam de ajuda para reconstruírem

as suas vidas, o que pode incluir

apoio material e psicológico.

Entre as muitas razões pelas quais

as pessoas ficam impunes por actos

de genocídio, tortura, desaparecimentos

e outras violações dos direitos

humanos, destacam-se a falta de

vontade política em investigar e responsabilizar

criminalmente pessoas

suspeitas de terem praticado crimes,

e os fracos sistemas de justiça penal.

«Não podem existir ‘portos seguros’

onde se fique a salvo de responsabilização»,

esclarece a AI. Quem

pratica os piores crimes imagináveis,

não pode nunca conseguir evadir-se

à justiça. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


ap brasil – venezuela

«odisseia warao»: reportagem interfronteiriça (4)

rotas de dor

e esperança

Pacaraima e Santa Elena de Uairén são duas pequenas

cidades. Distam 20 quilómetros uma da outra. A primeira situa-

-se no Brasil, a segunda na Venezuela, no território indígena

dos Pemones. Fomos visitá-los, porque os fluxos de migrantes

– incluindo os waraos – passam pelo seu território.

Texto: Paolo Moiola e Marco Bello, jornalistas

2020 Julho-Agosto | além-mar


VENEZUELA

Santa Elena

de Uairén

Pacaraima

Boa Vista

Manaus

GUIANA

WARAO TERMINAL

JANOKOIDA

© Paolo Moiola

SURINAME

BRASIL

GUIANA

FRANCESA

p Mapa que apresenta as etapas desta

reportagem (a vermelho estão assinalados

os lugares que correspondem a

esta 4. a parte). Em cima, mulher warao

no campo de migrantes de Pacaraima,

cidade brasileira que faz fronteira com

a Venezuela. Ao lado, um jovem warao

trabalha como barbeiro no Abrigo

Janokoida, em Pacaraima. As paredes

estão adornadas com coloridos murais

com elementos da cultura warao

© Kreative Zone / Revista MC

© Paolo Moiola

BOA VISTA. É madrugada.

Estamos prontos, mas Fernando,

o taxista, ainda não

apareceu, apesar de lhe termos

pedido que fosse pontual. Finalmente,

aproxima-se um carro com o

logótipo da Cootap, a cooperativa de

transportes da cidade.

Em poucos minutos, afastamo-nos

de Boa Vista. Apanhamos a BR-174,

a estrada federal em que teremos de

percorrer uns 200 quilómetros antes

de chegar a Pacaraima, a cidade brasileira

localizada na fronteira com a

Venezuela.

Uma vez fora da cidade, o trânsito

reduz-se consideravelmente. A estrada

é uma recta única, longa. Com

muitos buracos. Em torno da BR-174

não há florestas, mas vastos campos,

com terras que quase não são cultivadas

ou com baixa vegetação. Olhamos

para os letreiros, que indicam os

nomes das áreas indígenas.

Fernando conduz. E fala. Tem

ideias muito próximas às do presidente

Bolsonaro. «Antes, aqui havia

vacas e galinhas. E agora? Nada»,

afirma o nosso motorista. E acrescenta:

«Os indígenas não semeiam e

não criam animais. Só queimam. Fazem

mal a quem quer trabalhar.» Depois

de ouvir estas palavras, nenhum

de nós tem coragem de lhe pedir um

comentário sobre os Waraos.

Nos últimos quilómetros da nossa

viagem, o ambiente que circunda

a Br-174 começa a mudar. Agora há

florestas, curvas e subidas: iniciámos

a subida à serra de Pacaraima, o relevo

montanhoso mais importante

do Norte do Brasil. Os camiões que

circulam têm dificuldade para subir

a encosta e obrigam-nos a diminuir

a velocidade.

Acontece em Pacaraima

Às 10 da manhã chegamos a Pacaraima,

situada a quase mil metros de

altitude. De repente, encontramo-

-nos imersos num tráfego caótico.

Saímos, imediatamente, do carro.

A cidade era, até há pouco tempo,

um pequeno centro fronteiriço, com

u

além-mar | Julho-Agosto 2020


Centenas de pessoas

à espera

Em primeiro lugar, vamos visitar o

grande pavilhão erigido nas imediações

do campo desportivo da cidade,

que também está ocupado com tendas.

Este é o local onde se realizam as

primeiras – e fundamentais – formalidades

burocráticas, mas não só. Em

frente aos módulos pré-fabricados,

que albergam os vários escritórios,

centenas de pessoas estão sentadas

em bancos, tranquilamente, à espera

da sua vez. Outras permanecem nas

filas ordenadas, esperando a entrada.

São pessoas de todas as idades, vestidas

com dignidade, muitas levam

malas grandes e tróleis. Vemos algumas

mães com filhos, mesmo muito

pequenos. E percebemos que há uma

maior presença de mulheres do que

de homens.

Aparentemente, quase todos estão

felizes e confiantes, mesmo que estejam

a deixar o seu país. As bagagens

são todas depositadas numa área

controlada por dois soldados muito

jovens. Ao lado, vemos alguns dispobrasil

– venezuela

© Juan Carlos Greco

aproximadamente 12 mil habitantes

(IBGE, 2017). Mas tudo mudou

quando a crise na vizinha Venezuela

se agravou e milhares de migrantes

começaram a chegar. Ruas estreitas,

casas baixas, pequenas lojas de todos

os tipos e uma multidão buliçosa.

Notamos, imediatamente, muitos

carros com matrícula venezuelana.

Procuramos a paróquia Sagrado

Coração de Jesus, administrada

pelo padre Jesús Lopez Fernandéz

de Boadilla, um sacerdote espanhol

conhecido pelo seu trabalho com

os migrantes. A casa paroquial fica

num pátio interior, escondida por

um edifício cor de laranja, que serve

de centro pastoral para os migrantes

da diocese de Roraima.

O Padre Jesús não está na sede,

mas encontramos Peggy Vivas, uma

missionária leiga venezuelana que

viaja frequentemente entre Santa

Elena de Uairén e Pacaraima. É ela

que nos ajudará como guia e taxista.

© Paolo Moiola

© Paolo Moiola

p A BR-174, estrada federal que chega a Pacaraima, cidade brasileira localizada na

fronteira com a Venezuela. Em baixo, Peggy Vivas, missionária leiga venezuelana, em

frente do centro pastoral dos imigrantes da diocese de Roraima, em Pacaraima

2020 Julho-Agosto | além-mar


p Mulheres waraos cozinham nos fogões

comunitários no abrigo de Janokoida,

em Pacaraima. O abrigo fica a poucas

centenas de metros do centro da cidade

e é administrado pela Operação Acolhida

sitivos que permitem comunicar por

telefone ou Internet. Nos vários cartazes

expostos existem informações e

indicações, como um onde está escrito:

«Mantenha a calma». Tudo isto se

realiza ao som de música brasileira,

que se ouve em alto volume.

Segundo a informação que recolhemos,

chegam, cada dia, entre 500

e 800 pessoas. Na secção alfandegária,

onde se faz a verificação dos

passaportes, são todos venezuelanos,

à espera de um visto de entrada.

Pomo-nos na fila, pois precisamos de

carimbar o nosso passaporte com o

selo de saída do país.

Ao lado da grande estrutura onde

se cumprem as formalidades fronteiriças,

existe uma idêntica para o acolhimento

dos migrantes. Nesse pavilhão

estão a trabalhar funcionários

da Fraternidade International (ONG

brasileira), das ONG norte-americanas

Adra e World Vision, bem como

do ACNUR (Alto Comissariado das

Nações Unidas para os Refugiados),

da OIM (Organização Internacional

para as Migrações) e de outras agências

das Nações Unidas.

No pavilhão existe um posto

médico e um espaço para as crianças

brincarem, organizado pela Unicef

(Fundo das Nações Unidas para a

© Paolo Moiola

Infância). A presença militar é perceptível

e generalizada, mas não

sufocante. Um jovem soldado, com

luvas descartáveis, distribui copos de

leite aos que esperam. Os funcionários

da OIM explicam a um grupo

de algumas dezenas de migrantes os

diferentes tipos de vistos que podem

ser solicitados e os respectivos procedimentos.

Noutra área, os funcionários

da Secretaria da Receita Federal

fazem a fotografia tipo passe aos

migrantes e emitem-lhes o CPF (Cadastro

de Pessoa Física – documento

que, no Brasil, serve para identificar

os contribuintes), enquanto os do

ACNUR inserem os dados de cada

migrante numa base de dados e verificam

os casos mais vulneráveis.

Existe, ainda, uma área de vacinação

obrigatória para aqueles que não a

tenham feito anteriormente.

Os funcionários do ACNUR,

cerca de dez pessoas, são jovens e

mostram-se extremamente disponíveis.

Conseguimos encontrar Rafael

Levy, o responsável – também muito

jovem – da missão da ONU de Pacaraima,

que nos agenda um encontro

para o dia seguinte, quando regressarmos

da Venezuela.

Santa Elena e o território

dos Pemones

Com o visto nos passaportes e as mochilas

ligeiras, estamos prontos para

nos dirigirmos para «a linha», como

se chama, comummente, à fronteira.

Esperamos por Peggy, que, pouco

depois, chega conduzindo o todo-o-

-terreno com o qual iremos a Santa

Elena. Quando deixamos a fronteira,

vemos que, no sentido oposto, na

entrada, há uma longa fila de carros

com matrícula venezuelana. Os

ocupantes desceram dos veículos e

a bagagem é, meticulosamente, verificada

pela polícia brasileira. Na saída,

pelo contrário, há poucos carros,

todos repletos de mercadorias. São

os venezuelanos que vêm comprar a

Pacaraima ou Boa Vista para, depois,

fornecer as lojas em Santa Elena, e

não só.

u

além-mar | Julho-Agosto 2020


brasil – venezuela

© Paolo Moiola

p Vista geral da cidade de Santa Elena,

na Venezuela, que fica a 18 quilómetros

da fronteira brasileira. Ao lado, um

cartaz dos Pemones dá as boas-vindas

ao seu território, nas proximidades de

Santa Elena

© Paolo Moiola

Percorremos algumas dezenas de

metros e cruzamos para território

venezuelano, como assinalam os placares

e as bandeiras que drapejam

nos postes. «Vejam como a bandeira

da Venezuela se esbateu», observa o

padre Kokal – que nos acompanhou

na viagem e serviu de intérprete e

antropólogo –, sem dissimular o seu

sarcasmo. Andamos mais algumas

centenas de metros e chegamos ao

posto de controlo fronteiriço da polícia

venezuelana, que funciona numa

unidade móvel do SAIME (Servicio

Administrativo de Identificación,

Migración y Extranjería). A verificação

do passaporte, de que estão

encarregados três jovens polícias, é

muito rápida, e as nossas mochilas

nem sequer são abertas. Na alfândega,

onde os carros carregados de

mercadorias são parados para fiscalização,

nós passamos rapidamente,

também porque Peggy é conhecida e

está em casa. O mesmo aconteceu no

primeiro bloqueio do exército venezuelano,

a cerca de dez quilómetros

da fronteira: para passar, foi suficiente

um cumprimento da nossa acompanhante.

Entre a fronteira e Santa Elena de

Uairén (Estado de Bolívar, no município

de Gran Sabana) são menos

de vinte quilómetros. A estrada, quase

sem trânsito, atravessa uma paisagem

agradavelmente ondulante.

À primeira vista, a cidade, que tem

cerca de 30 mil habitantes, é um lugar

tranquilo.

O carro de Peggy passa perto de

um pequeno edifício colorido, num

letreiro lemos «Segurança Indígena»

e vemos o desenho de um índio com

arco e flechas. É um posto de controlo

dos Pemones, a etnia indígena que,

actualmente, luta com o Governo de

Maduro por questões relacionadas

com a exploração do território, rico

em ouro e diamantes.

Seremos hóspedes dos frades capuchinhos,

que vivem um pouco

afastados do centro e muito perto

da Catedral de Santa Elena, edifício

sólido construído em pedra local.

A casa dos missionários encontra-se

num lugar mais elevado que Santa

Elena e, de lá, observamos a cidade

que se estende em baixo, rodeada de

vegetação. O padre Carlos Caripá, o

superior, explica que a sua pequena

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Paolo Moiola

p O alpendre onde vive o grupo conhecido

como Warao Terminal, em Santa

Elena. Ao lado, duas crianças waraos de

Santa Elena mostram notas de mil bolívares;

a moeda venezuelana, hiper-inflacionada,

serve somente para brincar

comunidade já está no território do

povo pemon.

Os waraos de Santa Elena

Em Santa Elena de Uairén os waraos

são algumas dúzias e foram relegados

para fora da cidade, para perto

da rodoviária, onde pedimos que nos

levem. Lá vive o grupo conhecido

como Warao Terminal.

Quando chegamos, presenciamos

uma situação pouco agradável.

Os indígenas vivem acampados sob

um alpendre, no meio de um campo

não cultivado que, quando chove, se

transforma em pântano. Colocaram

as suas redes o melhor que puderam.

No chão, há roupas, sacos, algumas

panelas. São seis famílias com muitas

crianças, umas trinta pessoas, no

total. São muito descuidados consigo

mesmos, nota-se um grau muito

baixo de higiene e limpeza pessoal, à

semelhança do seu precário abrigo.

Foi a pior situação que encontrámos

na nossa viagem. Felizmente, as

crianças ainda conseguem divertir-

-se. Algumas delas estão a brincar

com um camião de plástico, sobre e

em volta do qual estão muitas notas

de bolívares, a moeda venezuelana,

que parecem verdadeiras. Apanhamos

algumas: são autênticas. Os indígenas

reparam no nosso espanto

© Paolo Moiola

e começam a rir. Riem-se porque

aquelas notas não valem nem o papel

em que estão impressas. São um símbolo

da deriva económica em que

está o país.

Perguntamos aos adultos o que

planeiam fazer: vão-se mudar para o

Brasil, regressar à sua terra natal ou

ficar em Santa Elena? Dizem-nos que

preferem ficar, à espera de melhores

tempos. É difícil compreender as

razões desta opção, mas ainda mais

difícil é julgá-la. Explicam-nos que a

proprietária do terreno os deixa em

paz, enquanto os donos das terras

circundantes não lhes permitem cultivar.

Ali vivem, ou melhor, sobrevivem,

de esmolas e pequenas ajudas.

Voltamos ao centro, passando

junto da gigantesca (e feia) estátua

de Santa Elena. Vemos uma bomba

de gasolina, que está fechada.

É administrada por militares, «só

funciona algumas horas por dia

– explica o padre Carlos – e a gasolina

é racionada. Por outro lado, o

u

além-mar | Julho-Agosto 2020


brasil – venezuela

p A Praça Bolívar, no centro da cidade de Santa Elena. Em baixo, foto de grupo dos

waraos que se encontram no abrigo de Pacaraima

© Paolo Moiola

© Paolo Moiola

combustível é praticamente gratuito,

o que incentiva o contrabando com

o país vizinho». O centro, apinhado

de carros, desenvolveu-se em torno

da praça principal, dedicada a Simon

Bolívar, pequena e arborizada. Há

muitos transeuntes. Numa cidade

fronteiriça como esta, a escassez de

bens é muito menos perceptível do

que no resto da Venezuela. As lojas

exibem os mais variados produtos,

incluindo frutas e géneros alimentícios.

Pode-se pagar em bolívares ou

em reais, a moeda brasileira, como

indicam os letreiros onde põem os

preços.

Quase tudo vem do Brasil. «Os

pagamentos com a nossa moeda

são feitos de modo digital. Usamos

os cartões ou o telemóvel. Pagar em

dinheiro é muito complicado, dada a

enorme quantidade de bolívares que

teríamos de levar connosco», explica

o padre Carlos. Em seguida, leva-nos

a ver o hospital: de fora a estrutura

parece deserta. «Não há medicamentos

– comenta – e, quando temos necessidade,

procuramos trazê-los do

Brasil. Os médicos são poucos e também

trabalham no sector privado.»

Expatriado sem documentos

Na manhã seguinte, começamos

a fazer a rota no sentido inverso.

Acompanham-nos dois jovens frades

capuchinhos. São eles que, a

poucos quilómetros da cidade, nos

assinalam um caminho no meio

dos campos. «É por ali que se passa

para evitar os controlos fronteiriços.

Chama-se trocha [trilho]», explicam.

É usado por quem não tem passaporte

(nomeadamente, muitos dos

indígenas waraos) e por aqueles que

p Mulher warao cozinha no abrigo de

Pacaraima

realizam actividades de contrabando.

Chegamos, novamente, à fronteira.

Os trâmites burocráticos são

rápidos. Desta vez, na saída vemos

uma longa fila de carros. São brasileiros

e vão reabastecer na bomba

de combustível venezuelana, que

vende a um preço muito mais acessível.

Ultrapassada «a linha», entramos

na grande estrutura para pôr

no passaporte o carimbo de entrada,

controlo feito pela Polícia Federal

brasileira. Em seguida, dirigimo-nos

para o espaço do ACNUR, montado

na mesma estrutura, pois temos

agendado um encontro com Rafael.

O escritório da agência das Nações

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Paolo Moiola

p Funcionário do ACNUR mostra um

cartaz em que está escrito «Yakera!», a

palavra warao usada para cumprimentar.

À esquerda, Lis, a jovem funcionária do

ACNUR que nos acompanha na nossa visita

ao abrigo Janokoida, em Pacaraima.

Em baixo, mural warao que expressa a

unidade desse povo indígena

© Paolo Moiola

© Paolo Moiola

© Paolo Moiola

Unidas funciona numa tenda, bem

equipado, sem janelas, mas com ar

condicionado. Nos painéis brancos,

que funcionam como paredes, foram

colocados cartazes explicativos

e autocolantes («ACNUR agradece o

apoio dos Estados Unidos», diz um

deles), escritos em diferentes línguas,

inclusive indígenas. «Yakera!», lê-se

em muitos lados. Rafael não chega,

mas fomos informados de que temos

autorização para entrar no Abrigo de

Janokoida, o refúgio indígena de Pacaraima.

Danças em Janokoida

O Abrigo Janokoida («Grande Casa»,

em língua indígena) fica a poucas

centenas de metros do centro da cidade

e é administrado pela Operação

Acolhida. No portão, onde se controla

o acesso ao refúgio, há um cartaz

com as regras, enquanto nas laterais

há duas bandeiras, a do Brasil e a da

Operação Acolhida. Entramos e, imediatamente,

o padre Kokal é abordado

por dezenas de waraos, sobretudo

mulheres e crianças, que o recebem

com uma saudação calorosa.

Janokoida situa-se no cume de uma

colina. No topo encontram-se a entrada,

escritórios e um barracão para

os hóspedes, mais abaixo há um alpendre

com vários fogões (que qualquer

um pode usar). Acompanhado

por Lis, uma jovem funcionária

do ACNUR, entramos no barracão

onde, reconhecido por muitos dos

hóspedes, o padre Kokal é acolhido

com um canto e uma dança colectiva.

Aproveitamos para dar uma vista

de olhos. Tal como em Pintolândia,

o refúgio de Boa Vista, também aqui

existem estruturas de ferro, nas quais

os indígenas (quase todos waraos)

podem pendurar as suas redes.

Para muitos deles o próximo destino

será Boa Vista. Outros, sempre

em grupos familiares, continuarão

para Manaus.

Enquanto falamos com Lis, aproxima-se

Rafael. Um oficial militar

olha para nós com ar inquisitivo, para

tentar perceber quem somos e o que

estamos a fazer. Nós estávamos impressionados

com o olhar perdido e

velado da tristeza de um idoso warao,

que parece não ser capaz de estar tão

longe do delta do Orinoco. am

(4.ª e última parte)

Esta reportagem integra-se no projecto «The

Warao Odissey» desenvolvido pela ONG Missioni

Consolata Onlus e realizado com o contributo

financeiro da União Europeia e da Região de Piemonte

(Itália) através da iniciativa «Frame Voice

Report!» do Consórcio de ONG piemontesas.

além-mar | Julho-Agosto 2020


vida ap missionária

© Foto cedida pela Ir. Flor de Maria Decelis/Esquila Misional

sinais de vida e esperança

Uma comunidade internacional de missionárias combonianas

desenvolve na Zâmbia iniciativas de evangelização e promoção

humana integral, projectos que permitem às pessoas desenvolver

as suas capacidades e sonhar com uma vida melhor.

A

nossa comunidade de

combonianas de Mongu,

na Zâmbia, é constituída

por seis missionárias de

quatro nacionalidades: Omaira (Colômbia),

Anns (Índia), Evette (EUA)

e três mexicanas (Maru, Sónia e Flor

de Maria).

Na missão temos muitas tarefas e

responsabilidades no campo social

e pastoral. Participamos na pastoral

catequética, acompanhamos os

jovens da diocese e da paróquia, na

Texto: Ir. Flor de Maria Decelis, missionária comboniana

pastoral da saúde e da mulher na

paróquia de Santa Ágata. Também

colaboramos com as iniciativas de

espiritualidade e cuidado da criação

no âmbito local e nacional.

Além disso, cooperamos num projecto

de promoção social chamado

«Mãe Terra», que se iniciou há uns

anos e visa apoiar os agricultores

desta região na produção de moringa,

uma planta medicinal. O processo

para conseguir a certificação sanitária

que lhes permitisse processar,

embalar e vender o pó de moringa

desenvolveu-se muito lentamente e

não foi fácil. São muitos os requisitos

exigidos e os custos económicos

são elevados, com muitas taxas para

pagar. Mas, finalmente, há algumas

semanas, obtiveram a autorização

oficial que permite à associação comercializar

o produto no país e no

estrangeiro.

Neste projecto do pó de moringa

participam os agricultores associados,

que recebem constantemente

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Fotos cedidas pela Ir. Flor de Maria Decelis/Esquila Misional

capacitação em agricultura, nutrição

e administração.

Outro desafio que se procura superar

relaciona-se com a situação

de seca, tão comum nestas regiões,

que provoca colheitas muito fracas

e escassas. Assim, procura-se apoiar

os agricultores, ajudando-os a conseguir

os adubos a baixo preço e bombas

de água para regar as árvores,

mas ainda falta que o apoio chegue

aos lugares mais distantes.

Promoção integral da mulher

Eu participo nos projectos de promoção

da mulher na paróquia de

Santa Ágata. Com a ajuda de amigos

e benfeitores, pudemos construir um

pequeno centro. No local iniciaram-

-se pequenos cursos básicos de corte

e costura, informática, etc. Também

não faltam os cursos em que se ensina

a ler e escrever na sua língua local

e inglês, o idioma oficial. São as mulheres

as responsáveis na organização

dessas capacitações. As senhoras

mais preparadas partilham os seus

conhecimentos com as outras mulheres,

que não tiveram as mesmas

possibilidades de desenvolvimento

técnico-profissional. Assim, muitas

mulheres, com os conhecimentos adquiridos

podem dar uma reviravolta

às suas vidas e pensar num futuro

melhor para elas e as suas famílias.

No centro promovem-se também

outras iniciativas que ajudam no

crescimento humano, espiritual e

económico das mulheres. Por exemplo,

organizam-se cursos em que se

instrui como preparar a terra para o

p A Ir. Flor de Maria, missionária comboniana

(no centro), com duas senhoras

da missão. Em baixo e na página anterior,

actividades organizadas pela equipa

da pastoral da saúde e da mulher na

paróquia de Santa Ágata, Zâmbia

cultivo de árvores e plantas ou como

fazer carvão fabricado em casa com

materiais recicláveis. Também se fomenta

a participação em campanhas

de conscientização ecológica e de

saúde.

Testemunhas de Jesus

Há onze anos, quando cheguei a

Mongu, era uma povoação pequena.

Agora está a desenvolver-se graças à

Igreja e a outras entidades que estão

aqui presentes.

As comunidades cristãs são entusiastas

e, desde as propostas do

Evangelho, procuram responder a

esta realidade concreta, cheia de desafios.

No final do ano passado constituiu-se

na nossa paróquia um novo

conselho pastoral e estabeleceram-se

novos objectivos, projectos e sonhos

para as comunidades eclesiais e os

grupos laicais.

Mas também há outros sinais de esperança

na missão. Um dia, ao visitar

uma comunidade numa zona rural,

conheci a Astrid. Ela acompanhava

com amor e espírito de liderança

um grupo de mulheres. Mas no seu

coração carregava uma grande dor:

o seu marido bebia demasiado. No

entanto, ela educou todos os filhos,

dando-lhes a possibilidade de irem

à escola. Um dia, o Senhor chamou-

-a para o seu seio e, surpreendentemente,

o marido mudou e deixou de

beber álcool. Tempos depois, ao visitar

a comunidade cristã com outras

companheiras, ele apresentou-nos

um grupo de 40 crianças de diversas

idades, para as quais tinha iniciado

uma pré-escola. Ajudava também os

que, por diferentes motivos, tinham

abandonado o ensino a que regularizassem

a sua situação e regressassem

à escola. Um dos seus filhos tinha-

-se juntado ao projecto e animava as

crianças a estudar e aprender.

Na missão testemunhamos a fé em

Jesus e experimentamos, igualmente,

a alegria de conviver com as pessoas,

partilhar as suas dores e fracassos e

colaborar na construção de um futuro

melhor para todos. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


portugal ap

aprender a dizer «sim»

No âmbito da preparação da Jornada Mundial da Juventude,

a realizar em Portugal no ano de 2023, o projecto Say yes:

aprender a dizer «sim» quer ser um contributo para a renovação

da catequese com adolescentes.

Texto: P. e Tiago Neto, director do Sector da Catequese do Patriarcado de Lisboa

Say yes: aprender a dizer

«sim». Este é o nome do

projecto de catequese com

adolescentes iniciado em

Setembro de 2019 no qual participam

mais de 40 mil adolescentes

de todo o País. Percorrendo as diversas

edições da Jornada Mundial

da Juventude, este projecto tem um

duplo objectivo: 1) contribuir para a

renovação da catequese com adolescentes

em Portugal, propondo uma

pedagogia de tipo projectual e um

maior protagonismo dos adolescentes;

2) apresentar as Jornadas Mundiais

da Juventude (JMJ) como um

itinerário formativo, baseado numa

metodologia de discernimento espiritual

da realidade (reconhecer, interpretar,

escolher, festejar) em vista

da preparação e vivência da JMJ-

-Lisboa 2023.

O Sector da Catequese do Patriarcado

de Lisboa pretende com este

projecto contribuir para o esforço

conjunto de repensar a catequese

com adolescentes na recepção

do recente sínodo sobre os jovens,

a fé e o discernimento vocacional,

particularmente da exortação apostólica

Christus vivit. Tendo em conta

a preocupação relativa à dificuldade

de a catequese proporcionar o encontro

vivo com Jesus, o projecto

Say yes manifesta particular atenção

à iniciação à oração com a qual se

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Luis Rodrigues

pretende que os adolescentes se possam

encontrar com a pessoa de Jesus

Cristo.

Processo sinodal

O projecto Say yes pretende envolver

os catequistas e os adolescentes

num processo sinodal de reflexão

conjunta sobre o caminho efectuado

na catequese. De um modo global,

os catequistas agradecem e valorizam

a importância deste projecto,

pelo facto de permitir uma maior

inter-relação entre catequistas e os

catequizandos, entre a catequese, a

comunidade cristã e a sociedade em

geral. Sentem-se os catequizandos

O projecto Say yes

pretende envolver

os catequistas e

os adolescentes

num processo

sinodal de

reflexão conjunta.

mais entusiasmados com a catequese

e mais responsáveis pelo seu próprio

caminho de fé. Os projectos de

serviço e de missão desenvolvidos

pelos diversos grupos de catequese

são prova disso. Depois de uma tomada

de consciência da sua situação

de vida e de uma análise da realidade

actual (reconhecer), os adolescentes,

através da meditação da Palavra de

Deus e da sua interiorização na oração

(interpretar), revelam disponibilidade

para fazer escolhas em prol

dos outros (escolher) e de as celebrar

(festejar).

São os próprios adolescentes que

testemunham, na primeira pessoa,

que o Say yes apresenta uma proposta

catequética muito diferente do que

era habitual: valoriza alguns elementos

próprios da linguagem digital; estabelece

uma ampla relação com os

problemas da actualidade; fomenta

um melhor conhecimento de si mesmo

e uma interacção entre os membros

do grupo; apela a uma maior

criatividade e responsabilidade na

dinamização de projectos de serviço.

Este primeiro ano do projecto Say

yes revelou a necessidade de garantir

mais tempo à dinâmica dos projectos

de serviço e de missão realizados

pelos adolescentes, pelo que

as circunstâncias do adiamento da

JMJ Lisboa permite fazê-lo alargando

o Say yes por mais um ano. Os

próprios desafios apresentados pelo

período de confinamento provocado

pela covid-19 manifestaram uma

criatividade que permitiu não só o

encontro dos adolescentes com os

catequistas e a continuidade da catequese,

como a sua reflexão sobre a

situação actual à luz dos desafios de

uma ecologia integral. Este último

tema exige um maior empenho na

formação dos adolescentes de modo

que se descubram como o agora de

Deus e testemunhas da esperança de

amanhã. Oxalá possamos fazer por

esta geração JMJ portuguesa o que

nos é devido. am

Texto conjunto da Missão Press

além-mar | Julho-Agosto 2020


ap gente solidária

© 123RF

SALVAR VIDAS

Há dez anos, a Igreja Católica fundou a Talitha Kum, uma rede

internacional de religiosas que combate o tráfico humano,

considerado a escravidão do século xxi.

O

tráfico de pessoas é um fenómeno

complexo e multidimensional,

que afecta

milhões de pessoas e toda

a sociedade. As vítimas do tráfico

são principalmente os mais pobres

e todos aqueles que, por diferentes

circunstâncias, se podem definir

como os últimos, os descartados da

sociedade. E, entre eles, as mulheres

e as crianças são as vítimas principais,

pois cerca de 72 % das pessoas

traficadas são mulheres e meninas

e a percentagem de vítimas infantis

mais do que duplicou de 2004 a 2016,

chegando a perto de 30 % de acordo

Texto: Jairo Alberto Garcia, jornalista

com os dados do Gabinete das Nações

Unidas contra a Droga e o Crime

(UNODC, na sigla em inglês).

António Guterres, secretário-geral

das Nações Unidas, afirmou na mensagem

para o Dia Mundial contra o

Tráfico de Pessoas do ano passado

– que se comemora no dia 30 de Julho

– que o tráfico humano floresce

graças ao «conflito armado, ao deslocamento,

às mudanças climáticas,

aos desastres naturais e à pobreza,

que exacerbam as vulnerabilidades

e o desespero». E o português sublinhava

que «as vítimas mais comuns

são traficadas para exploração

sexual» e também «para trabalhos

forçados, recrutamento como crianças-soldados

e outras formas de exploração

e abuso».

Sendo um crime sem fronteiras,

o tráfico humano necessita de ser

combatido globalmente. Esse é o objectivo

da organização Talitha Kum,

a rede internacional da vida consagrada

contra o tráfico de pessoas.

O projecto nasceu em 2010 de uma

intuição missionária da União Internacional

das Superioras-Gerais e hoje

apresenta-se como uma rede mundial

que coordena os esforços dos institutos

de vida consagrada empenhados

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Talitha Kum

© Talitha Kum/Lisa Kristine

p A rede Talitha Kum assistiu, desde

a sua fundação, mais de quinze mil

vítimas do tráfico e mais de duzentas

mil pessoas foram abrangidas através

de acções de prevenção e sensibilização

da rede internacional de religiosas

de que partilham a visão e os princípios

destas mulheres consagradas

que lutam contra o tráfico humano.

Em apenas dez anos conseguiu coordenar

52 redes de religiosas, presentes

em mais de 90 países de todos os

continentes. No trabalho estão envolvidos

dois mil agentes pastorais,

foram assistidas mais de quinze mil

no combate ao tráfico de pessoas.

Talitha Kum é uma expressão que se

encontra no Evangelho de Marcos

(Mc 5, 41). A palavra Talitha Kum

– que traduzida do aramaico significa

«Menina, eu te digo, levanta-te» –

foi escolhida pela rede para definir a

sua identidade, porque expressa o poder

transformador da compaixão e da

misericórdia e desperta o desejo profundo

da dignidade e da vida, ferida

com tantas formas de exploração.

Talitha Kum é uma rede de redes,

constituída por 44 redes nacionais

dirigidas por religiosas, mas que envolve

todas as pessoas de boa vontavítimas

do tráfico e mais de duzentas

mil pessoas foram abrangidas através

de acções de prevenção e sensibilização

da rede.

Talitha Kum presta apoio às vítimas

e sobreviventes do tráfico de

pessoas, centrando o seu trabalho na

prevenção, protecção, reintegração

social e reabilitação de sobreviventes.

Promove, igualmente, acções que reduzam

as causas sistémicas deste flagelo,

favorecendo o trabalho em rede

entre as pessoas consagradas e outras

organizações sociais a nível nacional

e internacional. Realiza, ainda, acções

proféticas e denuncia as causas

da exploração de vidas com fins económicos

e o tráfico de pessoas. Todavia,

promove campanhas para a mudança

de mentalidade e de hábitos.

As actividades e projectos da rede

destinam-se a todos aqueles que se

sentem lesados na sua dignidade e

estão privados de liberdade, independentemente

do seu estilo de vida,

etnia, religião, condições socioeconómicas

e orientação sexual. Os

membros da Talitha Kum reconhecem

e testemunham os valores cristãos,

o diálogo no respeito das diferentes

tradições religiosas e dos que

não têm credo.

Histórias trágicas

As histórias das vítimas de tráfico humano

que a rede Talitha Kum ajuda

a resgatar expressam bem a vida de

desespero, abandono e pobreza dessas

pessoas, mas também a sua força

e coragem. As vítimas, muitas vezes

enganadas com falsas promessas por

pessoas sem escrúpulos, que procuram

somente o lucro, entram em

processos de exploração dos quais é,

geralmente, muito difícil sair. Assim

o percebemos nas histórias de Jessie

e Somchai, duas pessoas que as religiosas

da rede ajudaram a resgatar e

a integrar na sociedade.

Jessie é uma jovem do Uganda.

Trabalhava numa indústria química

do seu país. A situação alterou-se

quando adoeceu por causa de uma

alergia às substâncias que utilizava e u

além-mar | Julho-Agosto 2020


gente solidária

teve de deixar o trabalho. «Comprei

um pequeno quiosque para vender

comida aos transeuntes. Tudo corria

bem até que fui enganada por uma

agência, que me ofereceu trabalho

no Médio Oriente. Acreditava que

aquela fosse uma grande oportunidade,

mas, em vez disso, encontrei-

-me num contexto de escravidão

doméstica. Trabalhava sem descanso

e não recebia nem comida nem pagamento.

Não pensava em nada mais

a não ser escapar daquela terrível situação»,

relata.

Querendo sair desse contexto de

exploração, Jessie tentou e conseguiu

fugir: «Durante a primeira tentativa

de fuga fui violentada por um

taxista ao qual tinha pedido ajuda.

Mas o desespero levou-me a fugir

novamente e, por sorte, outro taxista

acompanhou-me até à embaixada.

Foi o começo de uma nova vida.»

Jessie entrou em contacto com

umas religiosas católicas que a acolheram

na sua casa: «As irmãs cuidaram

de mim, deram-me comida,

roupa e dignidade. Um dia inquiri

junto das irmãs sobre a possibilidade

de poder retornar a casa: muitas

vezes pensava na felicidade que me

dava o pequeno quiosque que eu

possuía poucos anos antes.» A jovem

ugandesa conta que as religiosas a

ajudaram a obter os documentos e

pôde regressar ao seu país. «Hoje,

vivo no Uganda e as religiosas continuam

a ajudar-me na minha preparação

laboral e na reinserção social»,

assegura Jessie.

Somchai, da Tailândia, tem agora

40 anos. Vivia com a família num

bairro-de-lata e a sua vida nunca

foi fácil. Não pôde estudar, porque

os seus pais eram pobres. Não tinha

documentos e sofria de esquizofrenia.

Ganhava a vida com a venda de

lixo. Quando lhe ofereceram trabalho

num barco de pesca, aceitou a

proposta, pois estava cansado de tanta

pobreza. «Eu sonhava viajar pelo

mundo. Infelizmente, encontrei-me

numa situação pior do que antes:

comia pouco e não podia repousar.

© Talitha Kum/Lisa Kristine

© Talitha Kum/Lisa Kristine

p As irmãs de Talitha Kum prestam apoio às vítimas e sobreviventes do tráfico de

pessoas, centrando o seu trabalho na prevenção, protecção, reintegração social e

reabilitação de sobreviventes

Mesmo o pagamento prometido jamais

chegou. Depois de alguns meses,

fui abandonado numa ilha da

Indonésia. Não entendia a sua língua,

sofri muito», conta. Somchai

tentou fugir dessa ilha-prisão, mas

foi somente graças à ajuda da Cáritas

e, depois, da rede Talitha Kum, que

conseguiu reconquistar a liberdade e

retornar à Tailândia.

«As religiosas ajudaram-me a obter

os documentos que eu nunca tinha

tido e acompanharam o meu caso,

ajudaram-me a conseguir o ressarcimento

por danos e a construir uma

nova casa, onde vivo com os meus

pais. Retomei o meu antigo trabalho

e as irmãs continuam a apoiar-me

para viver com dignidade, não obstante

a minha doença», sublinha.

A covid-19 amplia e agrava

as injustiças

As Nações Unidas alertaram para o

facto de que a actual crise pode tornar

as vítimas de tráfico de seres humanos

ainda mais vulneráveis, uma

vez que a pandemia restringe as deslocações,

absorve recursos e reduz os

serviços.

Na mesma linha, a Ir. Gabriella

Bottani, missionária comboniana e

coordenadora internacional de Talitha

Kum desde 2015, expressou que a

2020 Julho-Agosto | além-mar


p Participantes num dos cursos de formação organizados pela rede Talitha Kum.

Em baixo, a Ir. Gabriella Bottani, missionária comboniana e coordenadora internacional

de Talitha Kum desde 2015

covid-19 «funciona como uma lente

que amplia e agrava as injustiças e as

vulnerabilidades de milhões de pessoas

em todo o mundo. A pandemia

acelera processos, desencadeando

um efeito disruptivo que exige unir

mais o compromisso em prol do

cuidado pelo meio ambiente e pelas

pessoas (cf. Laudato Si’ 48), promovendo

caminhos reais de conversão

e mudança». A religiosa afirma que,

de acordo com os relatórios das diferentes

redes mundiais, os primeiros

dados indicam «o visível agravamento

das vulnerabilidades e o aumento

exponencial de pessoas frágeis, por

causa das condições de extrema pobreza.

Os grupos que mais sofrem

são as mulheres, as crianças, as minorias

étnicas, os cidadãos estrangeiros,

em particular os que não têm

documentos e os povos indígenas».

E a religiosa acrescenta que «o principal

factor que, juntamente com a

disseminação do vírus, contribuiu

para essa vulnerabilidade foi a perda

de trabalho em vários sectores

de produção e serviços: doméstico,

assistência a idosos, restaurantes, turismo,

indústria de transformação e,

principalmente, trabalhos informais

da economia de subsistência. Houve

também um aumento de preços para

as necessidades básicas. Tudo isso

© Talitha Kum

© Talitha Kum

causou fome, insegurança habitacional,

endividamento e muita mobilidade

humana».

A comboniana sublinha que as irmãs

continuaram o seu serviço nas

casas abrigos, onde a covid-19 aumentou

a ansiedade, a insegurança

e a precariedade. Nesse contexto, «as

irmãs buscam reorganizar e manter

vivo um espaço de esperança e cuidado

para todos. A reorganização da

vida é importante, novos protocolos

de higiene e distância social foram

introduzidos. Os espaços vazios deixados

pela ausência de voluntários

são preenchidos pela criatividade.

As casas têm de lidar com o aumento

exagerado das despesas, perante a

redução de doações».

«Em vários casos, as máquinas de

costura nos abrigos tornaram-se oficinas

de produção de máscaras, tanto

para necessidades internas quanto

para serem distribuídas a grupos vulneráveis,

juntamente com cabazes

de alimentos e informações sobre

padrões de higiene a serem mantidos»,

explica a Ir. Gabriella. E acrescenta

que, apesar das dificuldades e

riscos, «muitas irmãs se juntaram a

outros grupos para a distribuição de

alimentos e apoio financeiro àqueles

que foram abandonados à própria

sorte, mesmo pelos traficantes. Outras

disponibilizaram-se para oferecer

assistência espiritual e psicossocial

por telefone, aprendendo a usar

plataformas online.»

A irmã comboniana sublinha que a

covid-19 «introduziu uma mudança

que, certamente, não será resolvida

a curto prazo; isso exige que todos,

especialmente aqueles que desempenham

papéis de liderança, tenham

tempo para repensar o presente e o

futuro. Este é um momento privilegiado

para gerar o novo». E por

esse motivo, conclui a religiosa, «é

urgente ressignificar o que estamos

a experimentar, encontrar uma chave

de leitura que nos abra ao diferente,

ao novo, ao inédito, sem medo. Essa

é a esperança para a qual somos chamadas».

am

além-mar | Julho-Agosto 2020


livros

Anunciar Deus aos jovens

livro Contar Deus hoje, do professor e escritor André

O Monda, fala-nos das estratégias utilizadas por este

autor perante a necessidade de revelar Deus aos mais

jovens. Sendo professor de Religião do ensino secundário,

o autor viu-se confrontado com a distância a que os seus

alunos estavam de Deus. Assim, e no convívio diário com

estes, foi conseguindo mostrar-lhes um Deus mais acessível

ao seu entendimento, através da ligação emocional

que foi, também, criando com os seus alunos.

Esta é uma obra que dirige ao leitor uma enorme leveza,

mesmo quando se debruça sobre temas tão profundos

como a fé, o Cristianismo, a vida de Jesus e a força de

Deus na experiência de cada uma das nossas histórias.

Monda pretende, mais do que partilhar uma lista sobre

como se deve falar de Deus aos jovens, relatar a sua

própria experiência e fazer dela exemplo. Há uma citação

sua nesta obra que poderia resumir todas as suas intenções

como professor em contacto com os mais novos:

«às falsas e perigosas vertigens que os jovens recebem

devemos contrapor não com uma lição tranquilizadora,

mas uma aula ainda mais electrizante, dotada de uma

carga positiva, generosa e geradora».

Através da leitura destas páginas compreendemos que

a fé não pode entender-se como uma receita ou uma

fórmula, mas sim como uma história que se pode contar

e sobre a qual se pode falar; a fé baseia-se num encontro

com a pessoa de Jesus que é capaz de nos inspirar todos

os dias de uma forma absolutamente reveladora e inesperada.

O professor André Monda explica-nos que mais do que

encontrar respostas, é necessária a ousadia de se fazer

perguntas. Seja qual for a nossa idade, sejam quais forem

os contornos da nossa história com Deus.

Na realidade, Monda pretende que os seus alunos estejam

aptos para encontrar as suas próprias respostas

e dá-las à luz da sua vida e da sua história, ainda que

estes tentem (num primeiro momento) obter respostas-

-chave (preferencialmente dadas por outrem) para as suas

inquietações.

Título: «Contar Deus Hoje»

Autor: Andrea Monda

Editor: Paulinas | www.paulinas.pt | Tel. 219 405 640

Esta é, sem dúvida, uma obra elucidativa sobre a melhor

forma de abordar questões religiosas com aqueles

que tendem a contrariá-las por, simplesmente, não as julgarem

ao alcance do seu entendimento. Segundo Monda,

os jovens precisam de ser ouvidos e precisam de alguém

que mostre interesse pelo que têm a dizer.

André Monda faz, exactamente, aquilo que apregoa

nestas suas páginas: conta-nos a sua história, fala-nos da

sua experiência e da forma como quis entender a história

de fé de todos quantos se foram cruzando consigo.

Em conclusão, esta é uma obra que nos desinstala, que

nos obriga a fazer perguntas sobre a nossa forma de viver

com Deus e sobre a forma como experienciamos este amor

total que não pretende acorrentar-nos, mas sim dar-nos a

liberdade da alegria.

Marta Arrais

A obra apresenta uma reflexão

inédita do Papa Francisco, intitulada

“Alento de vida nova”,

e um conjunto de meditações

sobre a oração cristã proferidas

pelo Santo Padre ao longo do

pontificado. As reflexões «estão

marcadas pela sua experiência

pessoal: as palavras não são

abstractas, derivam da sua vivência»,

escreve Kirill, patriarca

de Moscovo, na introdução.

Éloi Laurent afirma que a obsessão

pelo crescimento não nos

deixa ver com clareza o bem-

-estar económico, é cega ao

bem-estar humano, surda ao

sofrimento social e muda quanto

ao estado do planeta. É necessário

orientar a economia por

indicadores como o bem-estar, a

resiliência e a sustentabilidade,

dando maior importância à justiça

social e à qualidade de vida.

Título: A Oração – Alento da Vida Nova

Autor: Papa Francisco

Editora: Paulinas | Tel. 219 405 640

Título: De Olhos Postos no Amanhã

Autor: Éloi Laurent

Editora: Casa das Letras | Tel. 214 272 200

2019 Julho-Agosto | além-mar


discos

António Marujo

gesto solidário

Na liturgia ortodoxa,

o único instrumento

permitido é a voz humana.

É natural, por isso, que os

Balcãs tenham assumido

uma tradição musical única,

quase de tom misterioso,

com as sonoridades das

vozes trazidas do folclore

para a liturgia, e vice-versa

– a tal ponto que o disco

que em grande parte revelou

esta sonoridade se intitulava

As Vozes que Falam

com Deus. Na Bulgária, as

primeiras conversões ao

E

ste disco começa com

o som do sintetizador

como se fossem gotas a

cair. Fonte de Mel (Honey

Fountain) é o título do

tema, que depois evolui

para uma meditação onde

podemos ver, como fundo,

uma caminhada, uma

paisagem, um fim de tarde

tranquilo. O trompetista

Avishai Cohen regressou

há seis anos dos Estados

Unidos a Israel, juntou-

-se a mais quatro músicos

para fazer a Big Vicious

(Uzi Ramirez, na guitarra,

Yonatan Albalak também

Título: Bulgarian Voices

Intérpretes: Perunika Trio; dir. Eugenia Georgieva

Edição: ARC Music

vgm@plurimega.com

Cristianismo no século ix levaram à quase imediata

tradução dos textos litúrgicos para búlgaro, bem

como à adaptação para a música das regiões que

hoje constituem o país. A tradição eslava e ortodoxa,

bem como a musicalidade vocal das diversas

regiões que hoje compõem o país, são as inspirações

do Perunika Trio, que vai buscar o seu nome à

deusa eslava da chuva e da beleza eterna. Fundindo

folclore e música litúrgica, o grupo consegue, neste

disco, dar uma imagem da riqueza e diversidade

melódica, com as diferentes ornamentações e ondulações

típicas da música balcânica. Sejam elas

mais divertidas e jocosas (Rano mi e More/Nascer

do Sol ou Malo Selo/Pequena Aldeia), mais melancólicas

ou mais ternas (como Po Jutva/Colheita, ou

Angel i Moma/Anjo e Donzela ou Velichanie Bogorodichno/Adoração

da Virgem, por exemplo). Ou

falem elas dos ciclos agrários ou da paisagem, das

colheitas ou da fecundidade, do amor ou da maternidade,

da saudade ou da beleza. Quase sempre

celebrando o lado feminino da vida e a mulher.

Título: Big Vicious

Intérpretes: Avishai Cohen e Big Vicious

Edição: ECM New Series

discos@dargil.pt

na guitarra e baixo, Aviv Cohen e Ziv Ravitz nas

percussões) e oferece-nos um mar de tranquilidade

feito disco para nos ajudar a atravessar um Verão

que promete ser perturbador. As notas da edição

dizem que a peça This Time It’s Different (Desta vez

é diferente), poderia servir de mote para o projecto.

E, podíamos acrescentar, poderia ser o lema para

nos colocar o disco como música de fundo para

atravessar este tempo diferente. O disco tem jazz,

sim, mas também electrónica, música ambiente e

psicadélica, rock, pop e outros sons. Tem, inclusivamente,

uma versão da Sonata ao Luar, de Beethoven

(de quem em Dezembro próximo se celebram

250 anos do nascimento), trabalhada a partir

do trompete, que capta da melodia original a sua

força melancólica, mas dando-lhe uma nova energia

e jovialidade. O disco consegue, assim, como

diz Ziv Ravitz, citado na introdução, uma mistura

«profunda, e muito melódica» entre as várias inspirações.

Chamada de atenção para um pormenor

importante: a bela capa desenhada pelo ilustrador

israelita David Polonsky, autor do romance gráfico

e documentário animado Valsa com Bashir.

Projecto agro-pecuário

dos estudantes

de Teologia, Quénia

No centro de estudos teológicos

de Nairobi, no Quénia, residem

29 combonianos, entre jovens

estudantes provenientes de todo

o continente africano e formadores.

Nos terrenos da casa, a comunidade

religiosa, com o apoio

de um funcionário, desenvolve

pequenos projectos de produção

agrícola e pecuária e, assim, com

esse trabalho agrícola colaboram

na auto-sustentabilidade alimentar

do grupo. Para continuar com

esta actividade, necessitam de

alfaias agrícolas, construir novos

currais para os animais, adquirir

uma bomba de sucção para ordenhar

as vacas e um depósito para

guardar o leite em condições de

higiene.

A revista Além-Mar, com o Projecto

4/2020, contando com a generosidade

dos seus leitores, quer

contribuir com 5000 euros.

Se deseja participar, pode mandar a

sua contribuição por cheque bancário,

vale postal, transferência bancária

para o IBAN PT50 0007 0059 0000

0030 0070 9 (neste caso deve indicar-nos

– editalemmar@netcabo.pt ou

213 955 286 – que a transferência se

destina ao Gesto Solidário), ou online

(https://www.combonianos.pt/doar)

seleccionando a opção “projecto solidariedade

Além-Mar”.

além-mar | Julho-Agosto 2020


povos e culturas

arte contra a pandemia

A luta contra a covid-19 tem surgido como tema em diferentes

manifestações artísticas, da música à arte de rua. No Senegal, artistas

do rap, juntamente com outros músicos, sensibilizam e motivam a

população para enfrentar a pandemia. Os grafiteiros também se uniram

à campanha e com os seus coloridos murais alertam a população para

os cuidados de higiene básicos que se devem adoptar.

Quando o Senegal registava

a primeira centena de

casos confirmados de covid-19,

ainda não havia

vítimas e onze pessoas já haviam

recuperado da infecção, o palácio

presidencial foi palco de acontecimentos

insólitos e surpreendentes: o

presidente da República, Macky Sall,

recebeu em audiência os representantes

do movimento Y’en a Marre

e um grupo de artistas hip-hop do

país. Muitos destes representantes

são executantes do estilo musical

rap, que, há menos de um ano, tinham

posto a sua música e popularidade

ao serviço da contestação ao

presidente, durante a campanha para

as eleições presidenciais. As letras

dos rappers fizeram críticas duras e

tentaram mobilizar o povo para evitar

a reeleição de Macky Sall. O rap

inspirou a união dos cidadãos diante

de um inimigo comum, como explica

Awadi, um dos decanos do rap

senegalês.

Deste encontro com o presidente,

nasceu a música Daan Corona, em

que é evidente a mensagem da unidade.

Participam vinte artistas. Entre

os executantes estão os melhores do

rap senegalês, com uma combinação

de decanos do género – como Awadi,

Duggy Tee ou Xuman; estrelas mais

recentes: Dip ou Hamilton; jovens

que ganham relevo: Samba Peuzzi ou

Ngaaka Blinde; assim como músicos

© Didier Awadi

© Wikimedia

Texto: Carlos Bajo Erro

p O rapper Didier Awadi (esq.) e o cantor Youssou N’dour (em baixo), dois dos vinte

artistas que participam na campanha Daan Corona, destinada à luta contra a covid-19

2020 Julho-Agosto | além-mar


© ONU senegal

acostumadas a que nos envolvamos

por razões políticas, mas agora fizemo-lo

por um problema de saúde.

Somos capazes de nos mobilizar e

unir diante de muitos outros desafios.»

E o rapper lembra que a maioria

dos artistas participantes neste

projecto e muitos outros já estavam a

pôr a sua música ao serviço do combate

à propagação da pandemia, porque

é um meio para alcançar toda a

sociedade senegalesa.

O movimento civil Y’en a Marre

foi, provavelmente, um dos mais

precoces. O seu coordenador, Aliou

Sane, lembra que o movimento, que

mantém uma contestação contínua

aos abusos de poder e diante de qualquer

desigualdade, deu um passo à

frente muito rapidamente e fê-lo de

tal maneira que se tornou uma das

organizações da sociedade civil com

mais capacidade de mobilização, por

meio do hip-hop e conversando tudo

movimento Y’en a Marre: Fou

Malade ou Simon Kouka; e vozes

femininas do rap senegalês: Oumy

Gueye OMG, Moonaya ou Mamy

Victory. Junto com as referências

do hip-hop e para reforçar a ideia de

unidade, participam alguns dos pilares

da música popular senegalesa

mbalax, como Youssou N’dour ou

Viviane Chidid.

«Na reunião com o presidente Macky

Sall, comprometemo-nos a fazer

uma canção voluntariamente» – explica

Awadi em relação a Daan Corona

– «e que todos os lucros fossem

destinados à luta contra a covid-19,

através do Ministério da Saúde. Nós,

artistas das culturas urbanas, reunimo-nos,

pegámos numa música de

Youssou N’dour, convidámo-lo e ele

juntou-se a nós no projecto, que é o

fruto da unidade do rap e do mundo

da música em geral.»

Lutar contra o vírus em união

No idioma uolof, o título da música

Daan Corona significa «vencer

o corona». E caso houvesse alguma

dúvida sobre a mensagem, o próprio

artista Youssou N’dour chama

a atenção para a clareza do refrão:

«Jovens do país, isto é o que quero

para a minha nação.» E os restantes

artistas declaram, contundentes, no

coro: «Venham, assumam esta luta,

nós podemos consegui-lo.»

Daan Corona é uma canção de sensibilização,

em que se repetem as medidas

básicas de prevenção e de higiene,

a distância física, o evitamento

de multidões e os demais conselhos

habituais da Organização Mundial

de Saúde. É também uma música

motivacional, que tem como referências

constantes: combater o vírus,

todos juntos para o vencer, unir

forças... Ao mesmo tempo, a música

lança mensagens sobre a autonomia

da África, sobretudo em relação aos

testes da vacina e apela para a solidariedade:

«Vamos cuidar daqueles

que ficaram com o frigorífico vazio»,

apregoa um dos versos.

O tema Daan Corona é um símbolo

do compromisso e da fraternidade

do mundo hip-hop senegalês para

com o seu país. Diz Awadi: «Os artistas

senegaleses comprometeram-se

outra vez e mostraram que o fazem

quando é preciso. As pessoas estão

p Grafito de RBS Crew em Dacar, capital

do Senegal, com dicas e conselhos

sanitários que as pessoas devem

adoptar na luta contra a covid-19

u

além-mar | Julho-Agosto 2020


povos e culturas

© Lusa/Aliou Mbaye

-cá-tu-lá com todos os cidadãos. Em

19 de Março, com 38 casos confirmados

no país, o Y’en a Marre lançou a

música motivadora da campanha

Fagaru Ci Coronavirus («prevenir

o coronavírus»). Os promotores do

movimento olharam para o resto do

mundo e anteciparam a magnitude

do desafio. Fou Malade escreveu a

canção e alguns dos rostos mais conhecidos

do colectivo gravaram o

videoclipe em pleno Hospital Fann,

a referência na luta contra doenças

infecciosas em Dacar, a capital. Apesar

da sua postura crítica para com o

Governo, o movimento não quis lançar

a campanha sem concertá-la com

o Ministério da Saúde.

© RBS Crew

© RBS Crew

As paredes falam

A sensibilização não se faz somente

com a música. As paredes falam e,

nas últimas semanas, em muitos muros

da cidade de Dacar começaram

a ser desenhados coloridos grafitos,

com dicas e conselhos sanitários, indicando

os cuidados de higiene que

as pessoas devem adoptar, seja em

casa ou na vida social. Cuidados de

prevenção no combate à covid-19

que, desse modo, são colocados no

subconsciente dos cidadãos. Os colectivos

RBS Crew e Undu Graffti

são os autores da maioria dos mup

Controlo da temperatura em Dacar,

capital do Senegal. Em baixo, murais

com os cuidados de higienização a ter

durante a covid-19

rais. Os seus trabalhos transmitem

os conselhos sanitários a grupos que,

de outras formas, dificilmente poderiam

ser sensibilizados.

Esta experiência dos grafitos como

ferramenta para a prevenção da covid-19

não é exclusiva do Senegal, e

podem ser encontrados esses exemplos

em outras cidades do continente

africano e do mundo. É fácil entender

que as imagens superam as barreiras

linguísticas, e até mesmo a literacia,

em diversas sociedades, nomeadamente

nos ambientes urbanos.

Outras iniciativas

Xuman, um dos veteranos do hip-hop

senegalês, continua a experimentar

novos formatos para transmitir mensagens

transformadoras. «Agora, a

covid-19 provocou o que chamamos

união sagrada. Toda a gente está reunida

em torno do essencial. De que

serve protestar se nem sequer sabemos

qual será o caminho para sair

desta crise?», reflecte ele. E declara:

«Os rappers no Senegal mantiveram

sempre o seu discurso, a sua linguagem

de verdade e opuseram-se às

injustiças. Agora, tínhamos de mostrar

que sabemos deixar de lado as

nossas diferenças quando se trata de

unir-nos em torno do essencial. E o

essencial, neste momento, é informar

o maior número possível de pessoas

sobre esta epidemia, desempenhar o

papel de sensibilizadores, de voz do

povo, trazer uma mensagem positiva,

de consciencialização, de patriotismo.»

Xuman também é um dos promotores

do Journal Rappé, um noticiário

de rap que tem episódios especiais

dedicados à pandemia.

Desde os primeiros momentos

da covid-19 no Senegal, o YouTube

encheu-se de músicas, géneros urbanos

ou populares, que apelavam

para conter o contágio. Todos os

artistas queriam lançar a sua mensagem,

participar em iniciativas corais,

conectar-se com os seus seguidores

e, finalmente, aumentar a conscientização.

am

2020 Julho-Agosto | além-mar


© 123RF

P. e Fernando Domingues

Missionário comboniano

A mensagem

desses profetas

e os gestos

que usavam

para comunicar

a palavra de

Deus, eram a

maneira concreta

de Deus “falar”

com o seu povo.

apontamentos

caminhar com os

profetas

Enquanto caminhavam juntos de

Jerusalém para Emaús, o terceiro

peregrino (Jesus) abriu-lhes

o entendimento para poderem

ver como os antigos profetas da tradição

religiosa de Israel «já falavam de Cristo»

(Lc 24,27).

Esta abertura do entendimento,

compreendemos bem, é já sinal de que

o Espírito Santo entrou em acção! Nos

anos a seguir, o mesmo Espírito Santo vai

continuar a agir na vida e na inteligência

das primeiras comunidades de discípulos

para os ajudar a lembrar e entender tudo

o que Jesus tinha dito e feito.

É com a ajuda do Espírito que, a partir

de agora, eles vão ler de novo a História

e as palavras do Jesus terreno, enquanto

caminham juntos e conversam com o

mesmo Jesus, agora ressuscitado.

Digamos já com clareza: não é que

os profetas antigos, como Ezequiel ou

Oseias, se tinham

posto a adivinhar

detalhes da vida

futura de Jesus.

Seria quase ridículo,

e inútil. Eles não

eram videntes com

poderes mágicos

para conhecer o

futuro!

A verdade é que

a mensagem desses

profetas dos séculos

passados e os gestos

que usavam para

comunicar a palavra

de Deus, adaptando-

-se sempre às situações

concretas que

o povo ia vivendo,

eram a maneira concreta

de Deus “falar”

com o seu povo.

Assim, por

exemplo, através das

palavras de Oseias, e até por meio dos

acontecimentos da sua vida pessoal, e

dos problemas sérios que teve com a sua

mulher (cf. Os 2-3), Deus foi já manifestando

aquele coração de amor e misericórdia

de que Jesus, séculos mais tarde, ia

gostar tanto de falar.

Ou ainda, aquela visão do vale semeado

de ossos ressequidos, de que fala

o profeta Ezequiel (cf. Ez 37), diz-nos

como Deus via os efeitos devastadores

que a injustiça e a infidelidade do povo

traziam a Israel. É o mesmo coração

preocupado de Deus que fala em Jesus,

quando ele convida o seu povo à conversão

urgente para evitar a própria destruição

(cf. Lc 13,1-5).

Em Jesus, os discípulos – nós – não

se limitam a reconhecer só que a Palavra

antiga de Deus está agora presente

a falar-nos na pessoa concreta de Jesus

de Nazaré. Na verdade, lembrando a

“Palavra Antiga” de Deus (o Antigo

Testamento), e caminhando em companhia

da “Palavra Nova” do mesmo Deus

(Jesus ressuscitado), nós aprendemos

também o vocabulário e a linguagem que

Deus usa para falar connosco e que nós

podemos usar para falar com Ele. Nas

palavras, gestos e atitudes de Jesus, nós

descobrimos como Deus gosta de falar

connosco e o que gosta de nos dizer; e

aprendemos também como podemos

falar com Ele: quando quiserdes rezar

dizei: «Pai Nosso...». E mais ainda: aprendemos

também uma nova linguagem e o

vocabulário para falar e viver uns com os

outros: «Amai-vos uns aos outros, como

eu vos amei», «como eu vos fiz, fazei vós

também» (cf. Jo 13,34; Rm 12,10).

Caminhando juntos à escuta de Jesus,

os discípulos recuperam a Palavra antiga

(AT) como instrumento precioso para

poderem ir entendendo pouco a pouco o

que significa, concretamente, caminhar

com Jesus ao longo dos vários percursos

da vida que vão vivendo. am

além-mar | Julho-Agosto 2020


vocação e vida

Susana Vilas Boas | Investigadora e leiga comboniana

acompanhamento vocacional

e vida na comunidade

Ousar trilhar um caminho de discernimento vocacional

integral, acompanhado pela comunidade, é atrever-se a

confrontar-se consigo mesmo e dar uma resposta cristã às

inquietações do mundo de hoje.

Desde que a História

é História que

parece existir um

atrito incontornável entre

as gerações. De um lado,

os jovens não se reconhecem

com aquilo que lhes

é imposto pela sociedade;

por outro, os mais

velhos – as autoridades da

sociedade – queixam-se

dos desleixos e da rebeldia

dos mais novos. O incessante

questionamento dos

jovens, «porque é que tem

de ser assim?», contrabalança

com o abanar

da cabeça dos adultos,

enquanto murmuram o

habitual «no meu tempo

não era nada disto, havia

respeito, os mais novos

obedeciam aos mais velhos»,

etc. Seja como for,

os que hoje parecem não

entender os mais jovens

também já foram, outrora,

os reclamadores do Estado

social. Que quer isto

dizer? Que simplesmente

se renderam às forças da

autoridade social da sua

época? Claro que não! Se

assim fosse, a sociedade

na qual cresceram seria

igual à anterior e igual

à actual. Ora isso não se

verifica. Isto quer apenas

dizer que é sempre mais

fácil recorrer à resignação

do que ponderar e realizar

mudanças de fundo. Os

adultos conhecem as

dificuldades de lutar contracorrente

e, de algum

modo, procuram proteger

os mais jovens. Muitas vezes,

este desejo de protecção

assume um carácter

impositivo e quase cega e

bloqueia a relação intergeracional.

Contudo, fará

sentido baixar os braços

face a esta possibilidade?

Não será, antes, questão

de lutar para um caminhar

conjunto em que a

experiência de uns auxilia

às mudanças que outros

querem realizar?

Diz-se que burro velho

não aprende línguas,

por isso, os mais jovens

são chamados a dar um

primeiro passo para uma

relação fecunda entre

gerações. Não porque os

mais velhos são incapazes

de o fazer, mas porque a

ousadia que tanto caracteriza

a juventude facilita

o início de um caminho

que nunca se faz sozinho.

A vocação não existe

isolada dos outros, nem

subsiste se se pretender

vivê-la unicamente de

mãos dadas com os que

pensam como nós. Ousar

trilhar um caminho de

discernimento vocacional

acompanhado é ousar

confrontar-se consigo

mesmo, com as suas inseguranças

e com a própria

fragilidade daquilo que se

deseja. Afinal, a vocação

não é fruto de um desejo

egoísta, mas do sonho de

Deus que se encontra com

a autenticidade daquilo

que somos – sem nos

mutilar nem nos bloquear

naquilo que verdadeiramente

nos faz felizes e nos

torna pessoas realizadas.

Acompanhamento

vocacional: uma

perda de tempo?

Diz a escritora e jornalista

brasileira Clarice Lispector

que «quem caminha

sozinho pode até chegar

mais rápido, mas aquele

que vai acompanhado

com certeza vai mais longe».

Ora, quando se fala

de vocação, fala-se sempre

de “chegar mais longe”,

ainda que, quase sempre,

isso não signifique chegar

depressa. Por outro lado,

isso também não significa

ficar parado! Antes, pôr-

-se a caminho e, fazendo

face às dificuldades, viver

a descoberta da vocação

de modo seguro, aprofundado

e autêntico.

Este caminho acompanhado

não pode ser

confundido com um

caminho cheio de gente!

Muitas vezes, pensamos

que o facto de fazermos

parte de um grupo de jovens

e de “trabalhar muito

na Igreja” basta para este

acompanhamento vocacional.

Afinal, Deus faz-se

presente nestes grupos e

nestas actividades – podemos

senti-Lo! No entanto,

como adverte o Papa

Francisco, nos grupos a

que pertencemos «têm a

sensação de viver o amor

fraterno, mas o seu grupo

talvez se tenha tornado

um simples prolongamento

do próprio eu. Isto

agrava-se se a vocação do

leigo for concebida unicamente

como um serviço

interno da Igreja (leitores,

acólitos, catequistas,

etc.), esquecendo-se que a

vocação laical é, antes de

mais nada, a caridade na

família, a caridade social e

a caridade política» (Cristo

Vive, n.º 168).

O compromisso da

caridade é aquele que

brota da fé – uma fé capaz

u

2020 Julho-Agosto | além-mar


© Luis Felipe

além-mar | Julho-Agosto 2020


vocação e vida

de transfigurar o mundo!

Não se trata de entender a

vocação como uma acção

de caridadezinha, mas de

a entender como entrega e

serviço de amor à humanidade.

Não existe, por

isso mesmo, uma vocação

que esteja alheada da justiça,

dos direitos humanos

ou da misericórdia. Antes,

estas são a base de toda a

vocação – na medida em

que nela se inscreve o sentido

e a própria essência

do ser humano. Assim,

discernir e lutar para se

viver a autenticidade da

vocação e lutar verdadeiramente

por estes valores

que, como sabemos, não

são fáceis de alcançar...

leva tempo... exige força e

a comunhão do máximo

de forças que se possam

juntar a nós. No entanto,

a felicidade não é uma

corrida contra o tempo,

mas uma caminhada com

o tempo – um tempo que

se vive humanamente, de

mãos dadas e nunca de

modo isolado.

Onde leva o caminho

vocacional?

Perante os desafios do

mundo de hoje, às tantas

injustiças, à violência, à

fome e à destruição da

vida, o papa propõe aos

jovens um caminho de

discernimento vocacional

integral: um caminho

que não fecha os olhos

à realidade, mas, antes,

que vai para lá do próprio

umbigo. Trata-se de um

caminho que se constituiu

pela construção

de uma amizade social,

que é bem diferente dos

caminhos da resignação e

da imposição. Construir

© cathopic

este caminho não é fácil. É

sempre «preciso renunciar

a qualquer coisa, é

preciso negociar, mas, se o

fizermos a pensar no bem

de todos, podemos fazer

a experiência maravilhosa

de deixar de lado

as diferenças para lutar

juntos por um objectivo

comum» (Cristo Vive,

n.º 169).

O caminho que percorremos

só pode ser autêntico

se vivido em comunidade;

uma comunidade

que, apesar das suas dificuldades,

dos diferentes

modos de pensar e agir,

só subsiste de mãos dadas

com todo o género humano.

Esta luta não é perda

de tempo! «O empenho

social e o contacto directo

com os pobres continuam

a ser uma oportunidade

fundamental para descobrir

ou aprofundar a fé e

para discernir a própria

vocação» (Cristo Vive,

n.º 170).

A vocação na e para a

comunidade

Apesar das diferenças

e das dificuldades de

diálogo é na comunidade

que frutifica a vocação; é

nela que germina a “vida

em abundância” que

ansiamos; não porque

esta vida leve a “ver-se

livre da comunidade”, mas

porque permite viver com

ela e para (ao serviço)

dela. Não se trata de se

tornar escravo da comunidade,

mas de tornar a

nossa acção nela como

um serviço que integra

e espelha aquilo que

verdadeiramente somos

e desejamos ser. Se hoje

fazemos “muitas coisas

para a Igreja”, ousar viver

a vocação levará a sermos

“muita coisa na Igreja”!

Já não se tratará de uma

actividade/responsabilidade

que temos de fazer

para os outros, mas de um

serviço nosso – no qual

nos realizamos e por meio

do qual vamos trilhando

os caminhos da nossa

vocação.

Ousar percorrer um

caminho na e para a comunidade

implica ousar a

mudança – tanto a nossa

(porque somos obrigados

a uma descentralização, a

um olhar para lá do nosso

eu) como comunitária

(na medida em que nos

tornamos, na comunidade,

embaixadores do bem

comum e construtores de

um mundo mais justo e

mais humano). Atento a

este desafio da mudança,

exorta-nos o Papa

Francisco, dizendo: «Por

favor, não deixeis para

outros o ser protagonista

da mudança! [...] Continuai

a vencer a apatia,

dando uma resposta cristã

às inquietações sociais e

políticas que estão surgindo

em várias partes do

mundo» (Cristo Vive, n.º

174). am

Centro

Vocacional

Juvenil (CVJ)

Estão disponíveis para

acompanhamento espiritual

e vocacional:

O P. e Dário Chaves,

na Maia

Tlm: 916 656 857

Correio electrónico:

jovemissio@gmail.com;

www.jim.pt

O P. e Jorge Brites,

em Lisboa

Tel: 213 955 286

Correio electrónico:

jovemissiosul@gmail.com

2020 Julho-Agosto | além-mar


É vital que hoje a Igreja saia para

anunciar o Evangelho a todos,

em todos os lugares, em todas as ocasiões,

sem demora, sem repugnâncias e sem medo.

Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, 23

P. e Francisco Machado

missionário comboniano

no Gana

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