exame90

EXAME.MOZ

Os 2500 kms da costa moçambicana são novamente uma via de integração económica. A convergência para um mercado doméstico integrado permitirá uma redução das assimetrias existentes e tornar o país mais eficiente, levando produtos nacionais a mais consumidores nacionais, reduzindo assim a dependência das importações e fomentando a coesão nacional. E poderá, e deverá até, criar novos negócios. Potenciar o desenvolvimento de uma rede de transportes capilar, trará um desenvolvimento mais generalizado e mais inclusivo. E este processo inicia-se com o arranque do projecto de cabotagem.
Nesta edição tratamos também, entre outros temas, da inovação em África. A inovação não é mais que a imaginação e a inteligência aplicadas ao serviço do homem. O continente já provou a sua capacidade para inovar de raiz, mas também para criar novas utilizações para as tecnologias já generalizadas, como o telemóvel, com benefícios para a população.
Boas leituras e, acima de tudo, saúde

GÁS ● Megaprojecto

da Área 1 mantém calendário

FORTUNAS ● Quem perde

e quem ganha com a COVID-19

Nº 90 v Julho 2020 v 200Mt v 5 Edição Moçambique

INOVAÇÃO

Os trunfos

criativos

de África

CABOTAGEM

TRANSPORTAR POR MAR

O relançamento do transporte de mercadorias por mar, ao longo da extensa costa

do país, permite reduzir preços na cadeia de fornecimento, facilita o acesso

ao mercado e alivia a saturada rede viária. O objectivo último é conseguir

pôr a funcionar uma cadeia intermodal de transporte “porta-a-porta”, de Maputo

até Afungi, na província de Cabo Delgado


REVISTA MENSAL — ANO 7 — N O 90 — JULHO 2020

TIRAGEM: 10 000 EXEMPLARES — CAPA: GETTY

24

SIMONE SANTI:

Criar valor

acrescentado

utilizando tomate

nacional

NEGÓCIOS

24 Empreendedor A Leonardo Green acaba de fazer um novo

investimento na produção e processamento de tomate

30 PME Estiveram em foco no Webinar organizado pela União Europeia

em parceria com o Ministério da Indústria e Comércio e a EuroCam

ECONOMIA

34 Rubis A pandemia afecta este ano o desempenho da Montepuez

Rubi Mining (MRM), mas a segurança, a manutenção e os serviços

essenciais mantêm-se

38 Algodão A fileira do algodão está pronta para agarrar a sua parte

do desafio de uma nova fase da agricultura nacional

ENERGIA

42 Área 1 As obras do megaprojecto de exploração de gás natural

na bacia do Rovuma avançam e o calendário mantém-se

D.R.

34

SAMORA MACHEL

JR: A MRM tem

vindo a desenvolver

esforços para tornar

a sua produção

mais eficiente

58

JEFF BEZOS:

O dono da Amazon

é um dos que

mais ganha com

a COVID-19

EDILSON TOMÁS

46 Mercado O preço do gás natural está a cair menos do que o do

petróleo desde o início da crise, mas perdeu o mesmo valor, cerca

de metade, no último ano

50 Estudo A procura de gás natural poderá cair este ano 5% a 10% face

aos níveis previstos antes da COVID-19, indica um documento da

McKinsey

GLOBAL

54 OCDE As economias mais desenvolvidas colapsaram com a

pandemia e a OCDE reviu as suas previsões, apresentando dois

cenários sombrios

58 Fortunas O património de alguns multimilionários ainda engordou

mais com a crise, mas também há quem perca muitos milhões

60 Cruzeiros A próspera indústria dos cruzeiros marítimos e as

companhias aéreas são vítimas colossais da crise pandémica

64 Tecnologia Entre as histórias milionárias do lockdown destaca-se

as de Eric Yuan, engenheiro de software, pai da Zoom, um serviço

de videoconferência

DESPORTO

66 Fórmula 1 Lewis Hamilton e a Mercedes partem superfavoritos

no Mundial de F1 mais atípico dos últimos anos

ESPECIAL

72 África inova Os empreendedores do continente têm mostrado

uma grande capacidade de inovar, a chave para um

desenvolvimento próprio e sustentado

D.R.

SECÇÕES

Editorial 6

Primeiro Lugar 8

Grandes Números 14

Bazarketing 52

Exame Final 82

4 | Exame Moçambique


CAPA

16 Cabotagem

O relançamento da cabotagem em Moçambique, vinte

e cinco anos após a sua suspensão, abre um novo

capítulo no transporte de carga num país que possui

mais de dois mil quilómetros de costa, tendo como

horizonte baixar os preços nas cadeias de fornecimento


CARTADODIRECTOR

IRIS DE BRITO

DIRECTORA

A CABOTAGEM

COMO AGENTE

DE INTEGRAÇÃO

Em Agosto de 1940, um jovem de nome

Philippe Peschaud (1915-2006) participou

activamente em operações logísticas

do exército francês, que se revelaram muito

importantes para a derrota das forças nazis na

Europa.

Na 2.ª Grande Guerra, a criação e defesa

de linhas de abastecimento com a frente e,

simultaneamente, a destruição das instalações

logísticas do inimigo, como por exemplo

a destruição das reservas de combustível

alemãs, fundamentais para a deslocação das

forças motorizadas nazis, destacaram a importância

da logística no plano militar. A guerra

traz essencialmente grandes horrores mas também

alguns avanços no conhecimento.

A CABOTAGEM

PODERÁ DAR

UM IMPULSO

DECISIVO AO

MERCADO

INTERNO

A Peschaud, fundada por Philippe Peschaud, é hoje uma empresa especializada

em logística, com destaque para os serviços de apoio à indústria

de Oil & Gas. Foi a empresa escolhida para parceira do projecto de cabotagem

em Moçambique, detendo uma participação de 75% na Sociedade

Moçambicana de Cabotagem, sendo os restantes 25% detidos pela estatal

Transmarítima.

Para um país com o recorte geográfico de Moçambique, o esforço desenvolvido

pelas autoridades para o recrudescimento da cabotagem é de louvar.

Ainda mais quando cerca de 60% da população, segundo o UNDP,

vive junto da linha de costa. E para que este projecto se concretizasse foi

adoptado um conjunto de medidas, há muito exigidas pelo sector privado,

desde a redução de taxas à liberalização de procedimentos alfandegários,

que poderá ler em pormenor no tema de capa desta edição

No país, as assimetrias de preços existentes ao nível regional são resultado

das dificuldades de integração dos mercados, por exemplo de produtos

agrícolas, face aos elevados custos de transporte rodoviário, inflacionados

pela insegurança do transporte por esta via. A via aérea comporta custos

que são muitas vezes incomportáveis para os operadores económicos.

A cabotagem vem assim preencher uma importante lacuna em termos de

transportes que, se acompanhada por uma maior interconectividade e capilaridade

dos transportes terrestres, poderá dar um impulso decisivo à criação

de um mercado interno com menores assimetrias.

Mais que uma acção de carácter económico, a cabotagem poderá ser uma

importante ferramenta para a aproximação dos habitantes das diversas regiões

de Moçambique, estimulando a interdependência e a coesão nacional.b

Edifício Rovuma, Rua da Sé, n.º 114,

Escritório 109

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Colaboraram nesta edição:

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Chavisso, Luís Fonseca, Mariam Umarji,

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A revista EXAME (Moçambique) é um

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de Edições, Lda.

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Conselho de gerência

Luís Penha e Costa

Rui Borges

António Domingues

6 | Exame Moçambique


PRIMEIRO

LUGAR

MOÇAMBIQUE ESSENCIAL. PEQUENAS NOTÍCIAS SOBRE UM GRANDE PAÍS

CRESCIMENTO: Moçambique é dos poucos países

africanos que escapa à recessão este ano

D.R.

FMI

MOÇAMBIQUE RESISTE AO COLAPSO AFRICANO

Moçambique deverá crescer 1,4% em 2020, de acordo com as

últimas projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI), que

agravou a sua perspectiva negativa para a evolução da economia

africana este ano, a qual deverá, com as novas estimativas,

contrair 3,2%, caindo mais 1,6 pontos percentuais do que o

projectado em Abril e anulando dez anos de desenvolvimento.

A anterior previsão para o andamento da economia nacional este

ano, feita pelo FMI, andava a par com a estimativa governamental,

apontando para um crescimento de 2,2%. Quanto a 2021, o

Fundo antecipa agora que a economia do país cresça 4,2%, abaixo

dos 4,7% anteriormente estimados.

A verdade é que a pandemia está a devastar as economias

da África Subsariana e poderá deixar um rasto de 39 milhões

de pessoas a viverem na pobreza extrema, ou seja, com menos

de 1,9 dólares por dia. Das 45 economias da região, 37 pioram a

sua previsão de crescimento face ao projectado pelos analistas

do FMI em Abril, e “o PIB da região vai ser 243 mil milhões de

dólares menor que o projectado em Outubro de 2019”. A que-

bra na economia é particularmente acentuada no caso dos países

exportadores de petróleo, assim como dos que dependem do

turismo. Angola prolongará a recessão, com a economia a afundar

4%. Também a África do Sul registará uma queda muito significativa,

com uma contracção de 8% da actividade económica.

Em Angola, África do Sul e Nigéria, segundo a actualização da

perspectiva do FMI sobre a economia subsariana, “o PIB real deverá

regressar aos níveis de crescimento pré-crise (da COVID-19) só

em 2023 ou 2024”. O relatório acrescenta que “a recuperação

em 2021 será mais lenta que a recuperação da economia global

porque os apoios políticos lançados pelos países da África Subsariana

para facilitar a recuperação são consideravelmente mais

pequenos do que aqueles que foram implementados em muitas

economias emergentes”. “Prevê-se que o crescimento económico

recupere para 3,4% em 2021, assumindo que o levantamento gradual

das medidas de confinamento das últimas semanas se mantém

e, mais importante, que a região consegue evitar as dinâmicas

da epidemia noutros locais”, refere o relatório.

8 | Exame Moçambique


O pior ainda está para vir.

Tedros Ghebreyesus, director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

FINANCIAMENTO

ÁFRICA PRECISA DE 100 MIL MILHÕES

“Os países africanos ainda enfrentam

necessidades de financiamento superiores

a 110 mil milhões de dólares em

2020, havendo 44 mil milhões por financiar”,

afirma o FMI no seu último relatório

sobre o continente, publicado no

final de Junho sob o título revelador de

“Cinco quadros que mostram a maior

contracção económica da África Subsariana

desde a década de 1970”, uma

consequência da crise pandémica.

O documento assinala que várias “instituições

financeiras internacionais,

incluindo o próprio FMI, já prestaram

a extremamente necessária assistência

à África Subsariana, mas não chega.

Em 15 de Abril, o G20 anunciou a Iniciativa

de Suspensão do Serviço da Dívida

(DSSI), que permite que os países mais

pobres do mundo — a maioria deles

em África — suspendam 14 mil milhões

de dólares de pagamentos do serviço

da dívida com vencimento em 2020.

O FMI destaca que o ambiente global é

fortemente penalizador. “Desde Abril,

a estimativa para o crescimento global

em 2020 desce 1,9 pontos percentuais,

antecipando-se agora uma quebra de

4,9%, as viagens colapsaram e os fluxos

turísticos estancaram, espera-se

que as remessas caiam cerca de 20%,

as condições de acesso ao financiamento

externo mantêm-se apertadas,

apesar de um certo alívio nas últimas

semanas e o preço das matérias-primas

mantém-se baixo”, assinala o relatório.

SALA DE

MERCADOS

Maio

68,80

Maio

1,73

Maio

33,25

MOEDA

(Meticais por USD)

-2%

GÁS NATURAL

(USD/MMBtu)*

-5%

CRUDE

(USD/barril)

+21%

Junho

69,91

Junho

1,64

Junho

40,37

PRIMEIRO TRIMESTRE

IMPORTAÇÕES SOBEM

O défice balança comercial moçambicana

fixou-se em 908,3 milhões

de dólares no primeiro trimestre

deste ano, de acordo com a Síntese

da Conjuntura Económica do Instituo

Nacional de Estatística (INE).

As exportações reduziram em cerca

de 21,9% e as importações aumentaram

cerca de 9%, em comparação

DÉFICE: O saldo da balança comercial

foi negativo no primeiro trimestre

com o trimestre homólogo de 2019. Os principais parceiros comerciais de Moçambique

continuam a ser a África do Sul, Índia e China. No período, a África do Sul recebeu

23,3% das exportações do país, a Índia 12,3% e a China 4,3%. No que respeita às

importações que fazemos, 23,1% são provenientes da África do Sul, 10,2% da Índia

e 8,5% da China. “Dos principais produtos exportados no trimestre, o destaque vai

para as barras e perfis de alumínio (23,1%), carvão mineral (hulha) (19,5%), energia

eléctrica (15,5%) e gás natural (6,8%)”, refere o INE. De registar ainda que, no período,

o volume de carvão vendido aumentou 113,7% face a igual período de 2019, e 3,8%

em relação ao trimestre anterior. Já o volume de alumínio vendido foi menor, tanto

em relação ao trimestre homólogo como ao anterior.

D.R.

Maio

114,01

Maio

318,00

Maio

1753,50

CARVÃO DE COQUE

(USD/ton.)

MILHO

(USD/Bushel)**

D.R.

-1%

+3%

OURO

(USD/t oz)***

+2%

Junho

112,93

Junho

329,00

Junho

1782,00

COTAÇÕES A 23/05/2020 E A 23/06/2020

* MMBtu = milhões de British Thermal Unit

(medida da capacidade térmica)

** 1 bushel de milho = 25,4 Kg

*** t oz = onças troy = 31,21 g.

FONTES: BM, Bloomberg, CME Group.

julho 2020 | 9


PRIMEIRO LUGAR

INOVAÇÃO

TRÊS STARTUPS

REPRESENTAM

MOÇAMBIQUE

MobileCare, Pagalu e Zinwe foram as três

startups escolhidas pelo júri para representar

Moçambique na final regional do Desafio

de Inovação da SADC, que teve lugar em

finais de Junho. A MobileCare, startup orientada

para a prestação de serviços de seguro

a custos reduzidos, é vencedora na categoria

acessos a serviços básicos. A Pagalu é vencedora

na categoria identidade financeira digital.

Por sua vez, na categoria financiamento

a pequenas e médias empresas (PME), destaca-se

a Zinwe, ideia de negócio que permite

o crowdfunding, a obtenção de capital

para iniciativas de interesse colectivo através

da agregação de múltiplas fontes de financiamento,

o que possibilita a ligação de investidores

de PME, no âmbito do acesso aos

serviços financeiros. Pela distinção nacional,

as startups vencedoras receberão mil dólares,

apoio de experts através de sessões de business

advisory e “mentoria” para estarem mais

bem preparadas para a final regional do desafio,

onde poderão ganhar até 5 mil dólares e

o acesso a um programa de incubação internacional.

A nível nacional, o Financial Sector

Deepening Moçambique (FSDMoç) e a Ideia-

Lab são as entidades responsáveis por implementar

este desafio, e garantiram a formação

dos participantes para aprimorarem as suas

ideias de negócio e trazerem soluções significativas

para África no seu todo.

SADC: Três startups nacionais participaram

no Desafio de Inovação da organização

D.R.

DÍVIDA

CHINA, MAIOR FINANCIADOR

A China era o maior financiador de Moçambique no final de 2018, detendo 39% da

dívida pública externa do país, o equivalente a cerca de 2,1 mil milhões de dólares,

revelou o diário O País. Segundo um relatório do Ministério da Economia e Finanças,

a dívida pública de Moçambique atingiu 12,1 mil milhões de dólares no final

de 2018, um aumento de 11%, com a componente da dívida externa a subir 8%.

Entre os principais credores externos de Moçambique contam-se ainda o banco

suíço Credit Suisse (726,5 milhões de dólares) e Portugal (602,9 milhões de dólares),

refere o diário moçambicano. Cerca de 90% da dívida pública externa estava

contratada a taxas de juro fixas, mais 2 pontos percentuais do que em 2017, sublinha

o relatório. O Presidente Filipe Nyusi revelou em Junho de 2018 que a China

iria perdoar a dívida sem juros de Moçambique a expirar até ao final do ano, referiu

na altura a agência AIM.

GÁS

ENH FINANCIA PARTICIPAÇÃO NA ÁREA 1

A Empresa Nacional de

Hidrocarbonetos (ENH) TOTAL: Lidera o consórcio em que participa a ENH

pretende encontrar um

financiamento mais barato

do que aquele de que dispõe

para pagar a sua participação

no maior projecto

de gás natural em construção

no país, anunciou o

governo. “Há um acordo”

com os outros sócios

da Área 1 (petrolíferas

internacionais, lideradas

pela Total) para que financiem a quota de 15% da ENH “na fase de construção”,

explicou o ministro dos Recursos Minerais e Energia, Max Tonela, numa visita às

obras na península de Afungi. “Mas, como empresa, a ENH tem o objectivo de

maximizar o retorno do seu investimento e, nessa perspectiva, está a trabalhar

com aconselhamento financeiro na perspectiva de encontrar alternativas de financiamento

que permitam custos mais baixos da operação”, acrescentou o ministro,

citado pela agência Lusa. “Este exercício está ainda em curso”, referiu. “Não

há riscos para o projecto” devido a esta necessidade de a ENH procurar empréstimos

para ter lugar na sociedade, destacou Max Tonela. “Há um exercício de refinanciamento

da sua participação no projecto, com custos mais baixos.” A agência

financeira Bloomberg divulgou que o aconselhamento financeiro está a ser prestado

pelo banco Societe Generale por via de já prestar esse serviço ao megaprojecto

Mozambique LNG — designação do consórcio da Área 1.

Em Novembro do último ano, a captação de cerca de 1500 milhões de dólares

para a participação da ENH na Área 1 foi o projecto mais caro apresentado num

fórum de investimento organizado pelo Banco Africano de Desenvolvimento

(BAD) em Joanesburgo, na África do Sul. Foi a primeira apresentação do Estado

moçambicano perante a banca e investidores internacionais após a reestruturação

da dívida soberana, acordada com credores em Outubro de 2019.

D.R.

10 | Exame Moçambique


COVID-19

FACIM CANCELADA

A 57.ª edição da FACIM, Feira Agropecuária, Comercial e Industrial de Moçambique,

a maior e mais emblemática do país, foi cancelada devido ao novo coronavírus.

“Não vai haver Facim este ano: não pode haver aglomerados de pessoas,

segundo a lei”, disse Lourenço Sambo, director da Apiex, citado pela agência Lusa.

Do total de 32 países que já tinham confirmado presença para a feira deste ano,

14 cancelaram a sua participação, o que, além das restrições impostas pela pandemia,

levou à anulação do evento, acrescentou. “Vimos que não valia a pena esperar

que os restantes também cancelassem”, referiu Sambo. A principal feira de

actividades económicas moçambicana, que decorre anualmente entre Agosto e

Setembro, conta com a participação de cerca de 20 a 30 países e serve de “montra

da economia moçambicana e porta de entrada de investimento estrangeiro”.

“O impacto é enorme, há muito negócio e dinheiro perdido”, frisou. A Apiex avançou

que, para 2021, há três moldes diferentes em estudo, dependendo da evolução

da doença no país e no mundo: feira digital, presencial ou a combinação dos

dois. “É provável que a feira perca o número de países e empresas participantes”,

assim como visitantes, observou.

O país vive em estado de emergência desde 1 de Abril devido à pandemia da

COVID-19. O chefe de Estado anunciou no final de Junho a prorrogação do estado

de emergência pela terceira vez — o máximo previsto na Constituição —, com levantamento

faseado de algumas restrições.

As escolas vão reabrir faseadamente, voltará a haver ligações aéreas internacionais

com alguns países, será permitido mais pessoal nos locais de trabalho e os

museus poderão reabrir.

FACIM: Já pensa no formato em que se vai apresentar em 2021

PORTO DA

BEIRA: Já está

a ser afectado

pela pandemia

HUAWEI: Em conjunto com a Universidade

Pedagógica de Maputo criou uma academia

TECNOLOGIA

UNIVERSIDADE

MOÇAMBICANA CRIA

ACADEMIA

A Universidade Pedagógica de Maputo (UP-

-Maputo) vai criar uma Academia Huawei

dedicada às Tecnologias de Informação e Comunicação

(TIC), que deverá abrir na primeira

metade de 2021. A novidade surgiu durante

uma videoconferência que contou com a presença

do reitor da UP-Maputo, Jorge Ferrão,

e o director-executivo da gigante tecnológico

chinês Huawei Technologies Co. Ltd. em

Moçambique, Wu Ku. Segundo o Jornal Notícias,

a Huawei doou à universidade na semana

passada equipamento informático para a instalação

de um laboratório de redes, como parte

da futura Academia, explicou Jorge Ferrão.

A criação da Academia surge no âmbito de

uma parceria acordada em 2018 entre a UP-

-Maputo e a Huawei, que inclui ainda a formação

anual de pelo menos 20 estudantes

na área das TIC, refere o diário moçambicano.

A Huawei tem grandes expectativas quanto

à instalação da Academia para ajudar a formar

jovens moçambicanos em novas tecnologias,

disse Wu Ku, citado pelo Jornal Notícias.

D.R.

D.R.

julho 2020 | 11


DÍVIDAS OCULTAS

MOÇAMBIQUE AVANÇA NOS TRIBUNAIS

CREDIT SUISSE: Moçambique exige a anulação da dívida

da ProIndicus e uma indemnização pelo escândalo das

dívidas ocultas

Um juiz britânico aceitou a

alteração da denominação

do grupo Privinvest num

processo judicial sobre as

“dívidas ocultas” a decorrer

em Londres, desbloqueando

os procedimentos abertos

pela Procuradoria-Geral

da República moçambicana

contra o banco

de investimento Credit

Suisse. Os advogados

do grupo naval libanês

tinham posto em causa

a referência do processo

à Prinvinvest Shipbuilding

SAL Abu Dhabi (Branch),

uma subsidiária nos Emirados Árabes Unidos que surge na primeira página do

contrato com a empresa pública moçambicana ProIndicus. Segundo o advogado

da sociedade Essex Court Chambers, Nathan Pillow, citado pela Lusa, aquela

empresa “simplesmente não existe” porque a licença foi transferida para outra

subsidiária intitulada Privinvest Shipbuilding Investments LLC.

Porém, o juiz do Tribunal Comercial de Londres, que faz parte do Tribunal Superior

[High Court], aceitou o requerimento que pedia para o grupo passar a ser

referido na queixa como Privinvest Shipbuilding SAL Holding, que é a empresa-

-mãe de uma série de subsidiárias.

“A meu ver, este é um caso de erro de nomenclatura e não um caso de erro de

identificação”, disse o juiz David Waksman, numa audiência que se realizou em

modo virtual devido às restrições relacionadas pela pandemia da COVID-19. Esta

questão estava a impedir o avanço do processo iniciado em Março de 2019 contra

múltiplos arguidos e entidades relacionado com o caso das “dívidas ocultas” do

Estado moçambicano. Na acção, recorda a Lusa, Moçambique pretende anular

a dívida de 622 milhões de dólares da ProIndicus ao Credit Suisse e requer uma

indemnização que cubra todas as perdas do escândalo das “dívidas ocultas”.

Além do Credit Suisse, o processo indicou como arguidos os antigos executivos

do banco de investimento, Surjan Singh, Andrew James Pearse e Detelina

Subeva, e várias empresas ligadas ao grupo naval Privinvest por suspeitas

de suborno. A estes arguidos, Moçambique reivindica compensação financeira e

o pagamento de qualquer dinheiro recebido no âmbito deste contrato. Em causa

estão as “dívidas ocultas” do Estado moçambicano (de cerca de 2 mil milhões de

dólares) contraídas entre 2013 a 2014 em forma de crédito junto das filiais britânicas

dos bancos de investimentos Credit Suisse e VTB em nome das empresas

estatais moçambicanas ProIndicus, EMATUM e MAM. O negócio acentuou

uma crise financeira pública e levou Moçambique a entrar em incumprimento no

pagamento aos credores internacionais.

De acordo com a acusação, os empréstimos foram avalizados pelo então ministro

das Finanças, Manuel Chang, mas o governo afirmou que ele “não tinha autoridade”

para assinar as garantias soberanas, que eram inconstitucionais e ilegais

porque o Parlamento não aprovou os empréstimos.

INFLAÇÃO

PREÇOS CONTROLADOS

A inflação mantém-se baixa e controlada em

Maio, segundo os últimos dados do Instituto

Nacional de Estatística (INE). Há produtos

significativos que descem menos de preço

(deflação), mas mesmo os que mostram uma

tendência contrária contribuem para uma variação

média anual dos preços que não chega a

3% e a uma variação homóloga dessa ordem.

Contudo, há uma ligeira inversão de sentido na

inflação aferida em termos médios e que vem

caindo desde 2018. Em Abril era de 2,73% e em

Maio foi de 2,78%, embora em Maio a tendência

tenha sido mesmo de descida generalizada

dos preços. Segundo o INE, “dados recolhidos

nas cidades de Maputo, Beira e Nampula, ao

longo do mês de Maio do ano em curso, indicam

que o país registou, face ao mês anterior,

uma deflação na ordem de 0,6%. As divisões

de Educação e de Alimentação e bebidas não

alcoólicas foram as de maior destaque, ao

contribuírem no total da deflação mensal com

cerca de 0,32 e 0,23 pontos percentuais (pp)

negativos, respectivamente”.

PREÇOS:

O custo de vida em geral aumentou menos

D.R.

12 | Exame Moçambique


julho 2020 | 13


GRANDES

NÚMEROS

PARA SABER LER OS SINAIS DE UMA ECONOMIA EM MUDANÇA

PANDEMIA

OS GANHADORES

As empresas tecnológicas foram as grandes beneficiárias da pandemia.

E como são estas que estão entre as dez maiores empresas

mundiais e os seus proprietários disputam entre si o título de

pessoa mais rica do planeta, as bolsas mantêm-se em alta, com

os investidores a procurarem activos seguros. O retalho digital

bateu recordes, com Jeff Bezos, líder da Amazon, a aumentar

o seu património para 150 mil milhões de dólares. Também

as empresas farmacêuticas são ganhadoras, mas ainda longe

dos ganhos obtidos pelos colossos digitais, a que se juntou um

novo player, ao qual a pandemia assentou que nem uma luva no

modelo de negócio: a Zoom, com serviços de videoconferência

que se tornaram uma moderna infra-estrutura de negócios.

As acções da empresa de S. José, na Califórnia, que se negociavam

a perto dos 77 dólares em Janeiro, ultrapassaram os 242

dólares em Junho, uma apreciação de mercado superior a 200%

no semestre em que boa parte da economia mundial parou por

decreto. O número de utilizadores móveis da Zoom Vídeo Communications

foi, em Março, três vezes maior do que o registado

pela rival Teams da Microsoft. O volume diário de utilizadores

móveis da Zoom nos Estados Unidos atingiu o recorde de 4,84

milhões, com as crianças a estudarem e os funcionários a trabalharem

a partir de casa em todo o Ocidente. No entanto, a utilização

do sistema de videoconferência da Zoom chegou a ser

proibida por Musk, outro grande vencedor da vaga pandémica,

aos funcionários da Tesla devido às alegadas falhas de segurança

do sistema. Um problema que a Zoom já terá resolvido ao anunciar

a encriptação dos dados que circulam nos seus servidores.

Em plena pandemia, Musk colocou no espaço, em colaboração

com a NASA, o primeiro foguetão privado. De início manifestou-se

irado contra o confinamento, que denunciou como um

abuso estatal. No entanto, ofereceu-se de imediato para produzir

ventiladores que faltavam nos serviços de saúde norte-americanos.

Musk acrescentou, com a pandemia, 15,3 mil milhões de

dólares à sua fortuna. A sua Tesla, produtora de carros eléctricos,

quase duplicou o valor em bolsa. Zuckerberg, a cara do universo

Facebook, envolvido na polémica suscitada pela "censura"

a posts do Presidente Donald Trump, não deixará de acrescentar

este ano um ganho à sua fortuna de 87 400 milhões de dólares.

Os mercados de capitais foram reanimando, após a queda inicial,

com a valorização dos activos de grandes empresas e os

trilionários pacotes de estímulos anunciados pelos governos.

A abundância de liquidez e taxas de juro baixas estimulam a

aquisição de activos. O índice Nasdaq, que agrega as chamadas

empresas tecnológicas, bateu mesmo recordes, com todos

os principais índices a subirem para os níveis anteriores à crise.

O que está a fazer grandes números é a tecnologia, a saúde e a

alimentação, surgindo, num segundo plano, a indústria, o retalho

e os serviços.

200% foi a valorização da Zoom, a fazedora de pontes de comunicação, desde Janeiro

150 000 milhões de dólares é o património de Jeff Bezos, da Amazon, um ganhador da crise

4 840 000 foi o volume diário recorde de utilizadores móveis da Zoom nos Estados Unidos

no final de Março

15 300 milhões de dólares foram acrescentados por Elon Musk à sua fortuna devido à crise

pandémica

9 000 milhões de dólares é quanto o líder do universo Facebook, Mark Zuckerberg,

deverá arrecadar este ano

14 | Exame Moçambique


A primeira vez que imaginei a Zoom era estudante universitário

na China e levava dez horas de comboio para visitar a minha

namorada, agora a minha esposa.

Eirc Yuan, fundador da Zoom.

BOLSAS EM CIMA

Os triliões de estímulos governamentais

e a valorização de grandes empresas põem

as bolsas em alta no meio da crise pandémica

DOW JONES

O Dow teve a sua pontuação mais baixa

a 23 de Março, quando se ficou nos 18 591,93 pontos

28 462,14 22 327,48

26 289,98

O EMPURRÃO

DAS TECNOLÓGICAS

A forte valorização das acções das maiores

empresas norte-americanas em capitalização

de mercado, a que se juntam novas estrelas

como a Zoom, fez subir os índices de acções

nos Estados Unidos

ZOOM

A pandemia alavancou o valor da Zoom no mercado de capitais.

Chegou a cotar acima de 243 dólares a 16 de Junho

66,79 150,88 242,56

12/30/2019 3/30/2020 6/16/2020

S&P 500

Em 23 de Março o índice chegou a cair para 218,26 durante a sessão

321,08 261,5 312,96

12/30/2019 3/30/2020 6/16/2020

AMAZON

Jeff Bezos, o líder da empresa, conseguiu acrescentar ao seu

património, com a pandemia, 44 mil milhões de dólares

1 846,89 1 936,95 2 615,27

12/30/2019 3/30/2020 6/16/2020

NASDAQ

O Nasdaq atingiu novo recorde dada a capitalização

das empresas tecnológicas que o compõem

8 945,99 7 774,15 9 895,87

12/30/2019 3/30/2020 6/16/2020

FACEBOOK

As acções do Facebook Inc também deslizaram até ao fim de

Março, mas desde então já recuperaram acima do final de 2019

204,41 165,95 235,65

12/30/2019 3/30/2020 6/16/2020

12/30/2019 3/30/2020 6/16/2020

Fonte: Investia.

Fonte: Investia.

julho 2020 | 15


CAPA CABOTAGEM

UM NOVO CAPÍTULO

NO TRANSPORTE

INTERNO DE CARGA

16 | Exame Moçambique


Orelançamento da cabotagem em

Moçambique, vinte e cinco anos após

a sua suspensão, abre um novo capítulo

no transporte de carga num país

que possui mais de 2 mil quilómetros

de costa. A localização geográfica de Moçambique,

virada para o oceano Índico, foi o principal motivo

que em 1980 levou o governo a criar a Navique,

uma empresa estatal que garantiu o transporte de

carga durante quase quinze anos. Segundo dados

do Ministério dos Transportes e Comunicações,

a frota de 22 navios da empresa transportava, em

média, 220 mil toneladas de carga por ano, numa

altura em que a ligação terrestre entre as diferentes

regiões do país estava condicionada devido à

guerra civil. “A frota da Navique, de forma gradual,

foi envelhecendo e, com o fim da guerra, em

1992, houve investimentos para a reabilitação das

estradas e isso não foi acompanhado por investimentos

no transporte marítimo”, explica Berlindo

Fernando, coordenador do actual Projecto de Cabotagem

no Ministério dos Transportes e Comunicações.

Com a extinção da Navique, o transporte

doméstico de mercadorias ficou dependente da

O INVESTIMENTO INICIAL

DO CONSÓRCIO QUE EXPLORA

A CABOTAGEM FOI DE 6 MILHÕES

DE DÓLARES

A Sociedade Moçambicana de Cabotagem

(SMC) faz-se ao mar. Após anos de estudos

e debate sobre o que falhou no sector, o novo

consórcio anuncia mudanças para o transporte

doméstico marítimo costeiro regressar,

com rapidez e preços atractivos

ESTÊVÃO AZARIAS CHAVISSO *

rodovia. Em 2019, segundo dados do Instituto

Nacional de Estatística (INE), a quase totalidade

da carga manuseada foi transportada por estrada

ou via-férrea. Aliás, descontando a produção e

exportação do carvão mineral em grande escala,

que impulsionou o ramo ferroviário de carga, o

transporte rodoviário é o principal meio de transporte

de carga — responsável pela circulação, em

média, de cerca de 48% da mercadoria doméstica

nos últimos dez anos.

“Actualmente, existe uma pressão enorme sobre as

estradas e isso faz com que o pavimento se degrade

com rapidez, sem falar no número de acidentes”,

nota Berlindo. Para reverter o cenário e no âmbito

do Programa Quinquenal (2020 -2024), o governo

procurou um parceiro para relançar o serviço de

cabotagem no país. Surge assim o consórcio Sociedade

Moçambicana de Cabotagem (SMC), com um

investimento inicial de 6 milhões de dólares. Uma

parceria detida pelo grupo francês de logística Peschaud

(75%) e pela estatal Transmarítima (25%).

julho 2020 | 17


CAPA CABOTAGEM

Além de reduzir a pressão nas estradas do país, a

intenção do Executivo moçambicano ao relançar o

serviço de cabotagem passa por garantir a redução

dos custos de transporte de mercadorias e, consequentemente,

os preços ao consumidor, a partir

de um sistema de transporte integrado e complementar.

“A visão que nós temos é de que este é um

projecto nacional e, assim, todos os parceiros são

chamados a abraçar o projecto”, diz Pedro Monjardino,

gestor de projecto da SMC.

O serviço passa a ligar a costa moçambicana de

ponta a ponta. Do porto de Maputo, capital do país,

no Sul, até Afungi, na província de Cabo Delgado,

extremo norte, onde está a ser construído o maior

investimento privado em África, liderado pela petrolífera

francesa Total, para a exploração de gás natural.

Numa fase inicial, a ligação será assegurada

por dois navios: o Greta (com capacidade para 260

contentores e duas gruas de 60 toneladas) e o Ylang

(com capacidade para 450 toneladas e uma grua de

30 toneladas). Estes navios da SMC vão ligar os dois

portos e fazer escala na Beira, Quelimane, Nacala,

Pemba e Mocímboa da Praia, em ambos os sentidos.

O RELANÇAMENTO DO SERVIÇO

DE CABOTAGEM TEM EM VISTA

A REDUÇÃO DOS CUSTOS DE

TRANSPORTE DE MERCADORIAS

NOVO QUADRO NORMATIVO

FAVORECE A CABOTAGEM

Para a revitalização da cabotagem, Moçambique

aprovou vários instrumentos para facilitar o processo,

com destaque para regulamentos que reduzem

a burocracia no manuseamento de mercadorias

nos portos do país, uma queixa constante entre o

empresariado local. “A razão pela qual a cabotagem

não tinha sucessos em Moçambique estava ligada

ao corpo normativo que vigorava”, salienta Pedro

Monjardino. No novo quadro, o destaque vai para

a aprovação do Regime Aduaneiro de Cabotagem

Marítima. Isenta-se a necessidade de intervenção

de despachante aduaneiro e o serviço de cabotagem

será feito através da Janela Única, uma plataforma

informática das Alfândegas de Moçambique. “São

alterações estruturais que vão garantir maior rapidez.

Tempo e custo são essenciais para o sucesso

na cabotagem”, refere Luís Archer de Carvalho,

director-geral da SMC.

Mas além destas alterações para conquistar o

empresariado, o Executivo moçambicano redu-

CAPACIDADE DE OPERAÇÃO DA SMC

A Sociedade Moçambicana de Cabotagem, detida pela Peschaud

(75%) e pela estatal Transmarítima (25%), arrancou com a operação

no início de Julho e, numa fase inicial, o projecto é assegurado por

dois navios: o navio Greta, com capacidade para 260 contentores e

duas gruas de 60 toneladas, e o navio Ylang, com capacidade para

450 toneladas e uma grua de 30 toneladas. Segundo a empresa,

além das operações com carga contentorizada e carga convencional

(transporte de mercadorias a granel, ensacada, máquinas e outros

equipamentos entre os portos de Moçambique), o projecto pretende

garantir o serviço “porta-a-porta”, com a subcontratação de

operadores de transporte rodoviário, garantindo um sistema complementar.

Trata-se de assegurar a recolha e entrega de mercadoria

em qualquer local do país.

Em Julho deverá arrancar a primeira viagem de Maputo para a cidade

da Beira, depois Nacala, Quelimane e Pemba. A viagem de Maputo

a Pemba, com uma paragem na Beira, Quelimane, Nacala e Pemba,

tem prazo estimado entre onze e quinze dias. No percurso inverso são

nove dias. O processo começa com o pedido de frete, feito à Sociedade

Moçambicana de Cabotagem através de e-mail ou no próprio

site (www.smc.co.mz). A reserva é confirmada com um código que

possibilitará o pré-registo na plataforma electrónica Janela Única

(JUE), ao que se segue o início do processo aduaneiro.

SMC: A estratégia inclui outras oportunidades, com a criação

de uma cadeia de abastecimento de produtos agrícolas

18 | Exame Moçambique


LUÍS ARCHER

DE CARVALHO,

DIRECTOR-GERAL

DA SMC: “Tempo

e custo são

essenciais para

o sucesso na

cabotagem”

PEDRO

MONJARDINO:

Para o gestor

da SMC o

relançamento

da cabotagem

é um projecto

nacional

ziu em 70% e 50% as taxas de ajuda à navegação e

de estadia, que são cobradas pelo Instituto Nacional

de Hidrografia e Navegação e pelo Instituto

Nacional da Marinha, respectivamente. Por outro

lado, foram conduzidas várias discussões com as

concessionárias dos portos moçambicanos, o que

culminou com reduções das taxas portuárias que

variam entre 50% e 60%. Para a SMC, as alterações

O SERVIÇO PASSA A LIGAR

A COSTA MOÇAMBICANA

DE PONTA A PONTA

foram extremamente importantes, tendo deixado

um ambiente favorável para o reinício da atividade.

“Pensamos que estas alterações eliminaram os

problemas que fizeram com que outros projectos

anteriores não tivessem tido sucesso. Calculamos

que, em função do diálogo que temos com as partes,

qualquer dificuldade possa ser objecto rápido de

concertação”, acrescenta Luís Archer de Carvalho.

De acordo com este responsável, além de custos

mais reduzidos para o transporte, a rapidez

julho 2020 | 19


CAPA CABOTAGEM

RELANÇAMENTO:

O serviço passa a ligar

a costa moçambicana

de ponta a ponta

em todos os processos administrativos e operacionais

que consubstanciam a cabotagem é um factor

essencial — com maior flexibilidade nas operações

portuárias, nos processos aduaneiros e na capacidade

de resposta de toda a cadeia logística.

Do lado do Estado, as alterações adotadas procuram,

além de criar um regime aduaneiro de

cabotagem de processos simplificados, aumentar

o controlo das receitas fiscais.

EXPECTATIVAS DE

UMA NAVEGAÇÃO INTENSA

Os projectos de gás natural em construção no Norte

de Moçambique devem colocar a economia do país

a crescer a um ritmo acelerado a partir de 2024, até

chegar a incrementos de 10% anualmente, segundo

o Fundo Monetário Internacional e outras entidades.

“Com o crescimento económico que vamos

registar nos próximos anos, teremos uma navegabilidade

intensa. Portanto, olhamos com muito

optimismo para o relançamento da cabotagem e

esperamos que o sector privado trabalhe com o

governo no sentido de tirar proveito destas oportunidades”,

destaca o coordenador do Projecto

de Cabotagem no Ministério dos Transportes e

Comunicações.

Mas, para a SMC, a dinâmica da indústria de

gás exige uma gestão de expectativas e, por isso, a

estratégia inclui outras oportunidades no mercado

MAPUTO E

AFUNGI, NA

PROVÍNCIA

DE CABO

DELGADO,

PASSARÃO A

ESTAR LIGADOS

PELO SERVIÇO

DE CABOTAGEM

interno, com a criação de uma cadeia de abastecimento

de produtos agrícolas. “Temos um navio

em Pemba e estamos atentos a todas as informações

que vão surgindo. Há interesse, mas para o

processo de cabotagem não foi tida essa variável”,

ligada unicamente aos projectos de gás, frisou o

gestor de projeto na SMC.

A província de Cabo Delgado vive dias de sobressalto

devido aos ataques armados no extremo norte

por grupos insurgentes, mas a situação não ensombra

o projeto de cabotagem. “Neste momento,

mesmo falando com outras linhas de navegação,

não se tem abordado qualquer tipo de risco no que

diz respeito a pirataria, pelo menos entre Maputo

e Pemba. Temos a situação da insegurança em distritos

do Norte de Cabo Delgado, mas esperamos

que seja temporária. Estamos atentos a esta situação”,

refere Luís Archer de Carvalho.

O governo moçambicano garante que tudo está a

ser feito para repor a estabilidade na região, considerando

que a segurança no canal de Moçambique

é um desafio regional. “O canal de Moçambique é

calmo em termos de navegação.” Há outras zonas,

mais a norte, “que estão afectadas pelo terrorismo

marítimo, como por exemplo o Corno de África”,

salienta Berlindo Fernando.b

* Serviço especial da Lusa

para a EXAME Moçambique.

20 | Exame Moçambique


UM SERVIÇO

“PORTA-A-PORTA”

O grande objectivo é estruturar cadeias de abastecimento de modo a que forneçam

um serviço integrado, uma cadeia de abastecimento mais barata e a CTA, a confederação

empresarial, considera fundamental a ligação intermodal. Já se pensa em estender

o serviço a passageiros

ESTÊVÃO AZARIAS CHAVISSO

D

urante a cerimónia simbólica de relançamento

do serviço de cabotagem em

Maputo, a 10 de Junho, o chefe de Estado,

Filipe Nyusi, defendeu que, além da

redução de custos, a revitalização do

transporte marítimo interno vai impor novo dinamismo

na movimentação de mercadorias no país.

“Moçambique tem potencial para reestruturar a

sua logística, para que esta assente em sistemas de

transportes integrados e complementares, explorando

as vantagens competitivas de cada tipo”, disse

Filipe Nyusi na altura. O dinamismo proposto pelo

Presidente moçambicano poderá ser atingido com

a adopção de um sistema integrado de transporte,

através de uma entrega das mercadorias “porta-a-

-porta”. A ideia é contratar serviços de empresas

rodoviárias para levarem as mercadorias até aos

portos e destes para os destinos finais, garantindo

“um processo completo”.

Segundo o gestor de projecto na Sociedade Moçambicana

de Cabotagem, a ideia é garantir um sistema

de transporte “colaborante”, conjugando o transporte

marítimo e rodoviário, o que vai garantir o abastecimento

de regiões do interior do país. “É necessário

criar cadeias de abastecimento com empresas de

transporte rodoviário locais e que permitam fazer

com que o preço por tonelada dos produtos seja mais

baixo”, disse Pedro Monjardino.

Com o relançamento da cabotagem espera-se a criação

de uma cadeia de abastecimento barata, garantindo

que a produção agrícola do Norte e Centro

(zonas tidas como mais produtivas) abasteça o Sul,

que tem actualmente recorrido, em muitos casos,

GRETA:

Uns dois navios

responsáveis

pela nova fase

da cabotagem

à África do Sul. “Com este método, além de garantir

um serviço completo, teremos impacto na criação

de empregos”, acrescentou Pedro Monjardino.

TAMBÉM PARA PASSAGEIROS?

Além de mercadorias, a ambição do Executivo de

Filipe Nyusi é garantir que a via marítima seja também

uma alternativa face à crise nos transportes de

passageiros, que tem afectado principalmente as capitais

provinciais. “Se formos a verificar no mundo,

julho 2020 | 21


CAPA CABOTAGEM

o transporte marítimo de passageiros é mais usado

para lazer. Mas nós temos um desafio aqui no país

que é fortalecer o transporte de pessoas. Portanto,

estamos a estudar esta opção”, declarou Berlindo

Fernando, coordenador do projecto de cabotagem

no Ministério dos Transportes e Comunicações.

Para a Sociedade Moçambicana de Cabotagem,

o transporte de passageiros é uma opção que também

não está descartada, mas trata-se de uma “outra

etapa”. “Para esse tipo de serviço são necessárias

outras embarcações, mais rápidas e seguras, além

de um estudo de viabilidade para tentar avaliar se

há um número de clientes mínimo que estejam dispostos

a pagar. É tudo uma questão de análise, mas

a opção não está de todo fora do escopo do nosso

projecto”, conclui Luís Archer de Carvalho.

A AMBIÇÃO DO EXECUTIVO É

GARANTIR QUE A VIA MARÍTIMA

SEJA UMA ALTERNATIVA FACE

À CRISE NOS TRANSPORTES

DE PASSAGEIROS

A REDE

PORTA-

-A-PORTA

RECOLHA

DE CARGA

TRANSPORTE

RODOVIÁRIO

PORTO

DE ORIGEM

TRANSPORTE

MARÍTIMO

PORTO

DE DESTINO

TRANSPORTE

RODOVIÁRIO

ENTREGA

DA CARGA

MENOS RISCOS E MAIS

OPORTUNIDADES

A Confederação das Associações Económicas de

Moçambique (CTA), a maior associação patronal

do país, considera a cabotagem marítima “fundamental

para o desenvolvimento da intermodalidade

entre os meios de transporte, sobretudo para

a carga”. Trata-se de um “facto positivo” tendo em

consideração uma realidade em que as empresas

se confrontam com a “degradação das vias terrestres”

e outros riscos. A cabotagem potencia uma

“redução dos acidentes de viação e de riscos inerentes

à insegurança devido a tensão político-militar

na região centro do país, bem como à insegurança

devido aos ataques por insurgentes na província

de Cabo Delgado”.

A CTA acredita que a reactivação do transporte

marítimo “contribuirá para a minimização dos custos

de transporte de carga entre as várias regiões

do país e aumentará a ligação entre os centros de

produção e de consumo, bem como a melhoria da

competitividade dos produtos locais em relação aos

bens importados”.

O tema da cabotagem tem merecido vários estudos

da CTA. Num artigo de Novembro de 2019,

publicado no portal da confederação, conclui-se que

“o país poderá obter vários ganhos com a reactivação

da cabotagem marítima, por se tratar de uma

modalidade que confere maior segurança, economias

de escala, menor impacto ambiental, baixo

nível de consumo de combustível, entre outras”.

No entanto, sublinha o documento, são necessárias

medidas “para flexibilizar a acção dos operadores

privados”, indo ao encontro das alterações que

a SMC e o governo já anunciaram. A CTA defende

uma “massificação da divulgação dos novos procedimentos

nas entidades que intervêm no processo

de cabotagem”.

Os patrões consideram ainda importante manter

um olho no que se passa no exterior, de maneira a

adequar o quadro regulador e fiscal para a cabotagem

às práticas “seguidas por países concorrentes,

de modo a tornar o sector viável e fazer com que as

indústrias passem a usar, para algumas mercadorias,

os serviços da cabotagem e não os camiões”.

Uma outra sugestão perdura há vários anos,

constando já de um estudo publicado pela CTA em

Agosto de 2014. A confederação patronal defende

a criação de “uma autoridade reguladora independente

capaz de assegurar e monitorar a implementação

do quadro legal do sector”. A regulação

englobaria “preços/taxas, acesso aos serviços e infra-

-estruturas portuárias, cumprimento das normas

do sector e ainda na auscultação de queixas e recursos

a este submetidos. O regulador deve promover

a transparência e a harmonização dos processos do

sector”, lê-se no documento.

OPORTUNIDADES DE NEGÓCIO

Já no relatório de Agosto de 2014 eram antecipadas

várias oportunidades de negócio que podem advir

da reactivação da cabotagem. Desde logo, a criação

de serviços de logística associados ao desenvolvimento

dos megaprojectos — especialmente os

que estão ligados ao gás, porque deverá “aumentar

a demanda por serviços logísticos mais integrados”

—, assim como a procura de serviços de embarcações

menores como, por exemplo, lanchas, navios

de abastecimento, rebocadores e batelões.

Antecipava-se também uma oportunidade de

desenvolvimento “do transporte nas águas interiores”,

através de rios, para incentivar as ligações aos

portos servidos com cabotagem. Seguindo o mesmo

raciocínio, abrem-se portas para sistemas de transporte

multimodais incorporando as estradas, vias-

-férreas e o mar, “reduzindo ainda mais os custos

para os clientes permitindo a prestação de melhores

serviços pelas empresas de cabotagem” — em

linha com o que a SMC já anunciou como serviço

porta-a-porta.b

22 | Exame Moçambique


julho 2020 | 23


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

TOMATE QUE É CÁ

PROCESSADO

A Leonardo Green é uma empresa do grupo Leonardo, que possui uma rede de negócios

em diversos sectores de actividade, acaba de fazer um novo investimento na produção

e processamento de tomate e quer expandir o negócio

VALDO MLHONGO

Cerca de cinco mil dólares é o

capital investido pelo grupo

Leonardo Green no início

de um novo negócio de processamento

de tomate produzido

no mercado nacional. A decisão

de investimento surge para fazer face a

uma quantidade de tomate produzido

localmente e que tem sido pouco aproveitado.

“A ideia é criar um valor acrescentado

e utilizar o tomate nacional”,

refere Simone Santi, director-geral de

Leonardo Green e líder da Leonardo

Business Consulting. O processo de produção

começa pela aquisição do próprio

tomate no mercado Zimpeto ou directamente

junto dos próprios produtores em

Boane. “Na verdade, nós preferimos comprar

junto dos camponeses pois o preço

é acessível e eles (camponeses) ganham

mais”, confessa à EXAME. Semanalmente,

em média, “compramos 10 sacos

de 20 quilos. “É 100% tomate nacional”,

sublinha o empresário com satisfação.

A qualidade do tomate conta muito

para o produto final. “Não pode ser muito

maduro, nem muito verde”, esclarece, revelando

os passos que se seguem no processamento.

“O tomate é limpo e depois

é cortado manualmente”. Após isso, “o

OS CAMPONESES FAZEM

UM PREÇO ACESSÍVEL E

GANHAM MAIS QUANDO

VENDEM DIRECTAMENTE

O TOMATE

tomate vai para a máquina e aí, separa-

-se a casca e a semente fora e fica apenas

a polpa de tomate, que por sua vez vai

ser cozida, tratada e misturada com diferentes

tipos de molhos, desde o napolitano,

o bolonhês, puttanesca, mexicano,

atum do Índico, entre outros”, detalha.

Enquanto decorre este processo, “há uma

outra equipa que está a limpar e esterilizar

as garrafas para o enchimento”.

Santi refere que o processo mais complicado

é a preparação das garrafas. “As

garrafas devem ser 100% esterilizados. E

isso pode levar-nos um dia inteiro”. De

momento, há uma equipa que faz a recolha

das garrafas, mas, num futuro próximo,

isso poderá mudar. “Estamos agora

a fechar um acordo com uma empresa

que nos irá fornecer as garrafas”, diz.

Actualmente, o processo de processamento,

que conta com uma equipa de

dez trabalhadores, abarca 150 garrafas

de 330 ml por dia. Com o novo equipamento

vindo da Itália a capacidade vai

aumentar muito substancialmente: “agora

temos a capacidade de triplicar a nossa

produção diária”, acrescenta Santi. Mas,

estrategicamente, “não é neste momento

necessário, pois estamos agora a entrar

no mercado”, esclarece.

EDILSON TOMÁS

24 | Exame Moçambique


BI

A Leonardo Green é a

empresa do Leonardo

Group que actua no sector

agroalimentar, energético e

ambiental. Entre os

serviços que presta

contam-se a mecanização

agrícola, airrigação e

saneamento de água, o

desenvolvimento de

projectos de energia

renovável, o

desenvolvimento rural e

investimentos sustentáveis.

O Leonardo Group é um

centro que integra

empresas dos sectores

comercial, jurídico, turismo

e imobiliário, agroalimentar

e energia.

SIMONE SANTI:

O director-geral do grupo

Leonardo Green espera

recuperar num ano o

investimento e expandir a

actividade


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

PROCESSAMENTO:

O tomate é primeiro

limpo e cortado

manualmente

FICHA DO NEGÓCIO

A Leonardo Green vai contar

com o fornecimento de garrafas

por uma empresa e adquiriu

equipamento em Itália que lhe

permitirá triplicar a produção

COMPRAS

10 sacos de tomate de 20 quilos

semanalmente

QUALIDADE:

É garantida a 100%

pelo tomate

nacional

PRODUÇÃO

150 garrafas de 330 ml diariamente

(com possibilidade de triplicar)

PREÇO

120 meticais por garrafa de 330 ml

EDILSON TOMÁS

VENDAS

Actualmente 100 garrafas por dia

em média com tendência a crescer

DE OLHOS NO MERCADO

O preço do tomate é de 120 meticais por

garrafa de 330ml. As vendas ainda não

atingiram os níveis desejados. “Como

iniciámos há pouco tempo, cerca de dois

meses, a actividade temos estado a vender

em média 100 garrafas por dia. Ainda

estamos a vender um pouco na zona semi-

-urbana e em grande medida a pessoas

singulares. O nosso objectivo é expandir

e popularizar o nosso tomate”, diz.

E por falar em expandir, adianta que o

A EMPRESA TEM AGORA

A POSSIBILIDADE DE

TRIPLICAR A PRODUÇÃO

DIÁRIA

grupo está “agora a pensar em iniciar o

nosso processamento em Pemba e em

Tete”. “Acho que isso vai acontecer dentro

de dois meses”, adianta.

A IDEIA É INSTALAR A

FÁBRICA NO BAIRRO

EDUARDO MONDLANE

Para garantir que haja sempre tomate

para processar, Simone Santi diz que já

existe um projecto de produção de tomate

no bairro de Eduardo Mondlane. “Sim,

estamos a iniciar uma produção agrícola,

no bairro Eduardo Mondlane, para alimentar

o nosso processamento”. “Estamos

agora a fazer as valas para o terreno.

É um espaço de 17 hectares”, precisa. E

é por lá também que Santi pretende instalar

a fábrica, no futuro próximo. “Por

agora, neste momento, estamos a trabalhar

aqui na cidade, mas a nossa ideia é

instalar a fábrica na Eduardo Mondlane.

Isso irá acontecer após a COVID-19. Com

o negócio a fluir, Santi acredita que dentro

de um ano será capaz de recuperar

o valor investido, sendo que há “outros

projectos de processamento que estão

na manga”. b

26 | Exame Moçambique


julho 2020 | 27


PUBLIREPORTAGEM

EDILSON TOMÁS

ELISHA

CHIRAU JÚNIOR:

O director geral

da Imperial

Insurance assume

uma forma

diferente de estar

no mercado

28 | Exame Moçambique


“Queremos ser uma

das seguradoras preferidas

do mercado”

No mercado moçambicano desde 2016, a Imperial Insurance está a desenvolver

a actividade seguradora no país de uma forma diferente, com inovação e novos

serviços, mais centrada nas necessidades dos clientes

O

novo director-geral da Imperial Insurance, Elisha

Chirau Júnior, aposta numa nova forma de fazer

seguros no mercado, centrada no cliente. “Queremos

inovar a forma de fazer o seguro no mercado,

identificando os problemas e trazendo soluções”, refere. Chirau

Júnior acrescenta que, até 2023, a Imperial Insurance será

uma marca conhecida em todo o país.

Que novidades, no que respeita a produtos de seguro, podem

os clientes esperar da Imperial Insurance, que tem uma nova

liderança?

Uma maneira diferente de estar na actividade seguradora, mais

alinhada com a inovação. Queremos identificar os problemas

que realmente os clientes têm e, em função disso, desenharmos

os produtos de seguros orientados para os problemas que

o mercado possui. Criamos uma relação de parceria com os

nossos clientes.

Que vantagens os clientes podem ter ao aderirem aos vossos

produtos?

A primeira vantagem é a paz de espírito. Queremos que os nossos

clientes se sintam seguros relativamente ao bem segurado.

A Imperial Insurance estará sempre aí para oferecer uma solução,

uma ajuda para repor o seu bem, e isso traz essa segurança,

tranquilidade, aos nossos clientes.

Qual é o público que pretendem atingir?

Queremos atingir todas as classes sociais, queremos que todos

tenha acesso ao seguro. Agora decidimos introduzir os seguros

de saúde e de funeral para pessoas de baixo rendimento. No ano

passado, por exemplo, lançámos um novo produto para os camponeses.

Observámos que muitos camponeses não têm acesso

ao crédito devido ao risco que a sua actividade representa para

a banca. Isso levou-nos a conceber um produto que irá facilitar

o acesso ao crédito por parte dos camponeses- Seguro Agrícola.

Como será desenvolvido esse seguro?

Trata-se de um produto dirigido à agricultura. Já temos um acordo

de parceria com Câmara do Comércio, com a qual estamos a trabalhar.

Identificámos alguns projectos agrícolas que realmente

precisam de financiamento. Temos vários bancos disponíveis para

financiarem esses projectos, mas sem seguro não podem avançar.

Os bancos precisam de seguro para que, caso aconteça algo,

o dinheiro do banco esteja assegurado, e é aí que nós entramos,

como Imperial, para dar, primeiro, uma possibilidade de inclusão

financeira aos camponeses e, depois, a protecção do investimento

que o banco irá fazer.

O que vos distingue da concorrência?

O nosso maior factor diferenciador é a inovação. Nós criamos realmente

os produtos para darmos uma solução aos problemas que o

mercado enfrenta. Só para ter uma ideia, lançámos recentemente

produtos de despesas legais que estamos a vender ao mercado.

Importa referir que é o único produto deste tipo que existe no mercado.

Estamos a trazer inovação ao mercado para encontrar soluções

que permitam segurar todas as coisas que precisam de ser seguras.

A médio e longo prazo até onde quer ir a Imperial Insurance?

A nossa visão é sermos a seguradora preferida no mercado em que

operamos. Preferida no sentido em que a pessoa que pensa fazer um

seguro pensa na Imperial Insurance. Isso poderá acontecer através

de serviços excelentes que oferecemos aos nossos clientes, devido

à rapidez com que realizamos os pagamentos de sinistros, à celeridade

no que respeita à documentação que entregamos aos nossos

clientes... não estamos nos seguros somente para vender seguros,

estamos no negócio para criar parcerias com os nossos clientes. Um

outro objectivo que queremos alcançar a longo prazo é integrar o

Top 6 no ranking das maiores seguradoras da praça. Até 2023 queremos

ser uma marca bem conhecida no mercado ao nível de todas

as províncias do país. A Imperial insurance estará sempre disponível

para oferecer uma solução.

julho 2020 | 29


NEGÓCIOS PME

EMPRESAS DEVEM

REINVENTAR-SE

O segundo Webinar organizado pela União Europeia, em parceria com o Ministério

da Indústria e Comércio e a EuroCam, debateu a sobrevivência das empresas no contexto

da crise causada pela pandemia da COVID-19

VALDO MLHONGO

DESAFIOS ANUNCIADOS:

As empresas têm de se reinventar, identificar

oportunidades e acelerar a digitalização

30 | Exame Moçambique


Apandemia da COVID-19

trouxe impactos severos ao

sector empresarial moçambicano,

e de um modo particular

às pequenas e médias

empresas (PME), que representam mais

de 90% do tecido empresarial nacional.

Tendo como pano de fundo este cenário,

e com o objectivo de debater e criar soluções

face à crise enfrentada pelas PME,

a União Europeia, em parceria com o

Ministério da Indústria e Comércio e a

EuroCam, organizaram o segundo Webinar

no âmbito do projecto EU Moz Talks,

que integra a plataforma de comunicação

estabelecida entre os parceiros Delegação

da União Europeia, Ministério da Indústria

e Comércio e a EuroCam e o sector

privado. O foco incidiu no sector privado.

Na sua intervenção inicial, António Sanchéz-Benedito

Gaspar, embaixador da

União Europeia, começou por dizer que a

sobrevivência das empresas vai depender de

um conjunto de medidas de índole política

e exige-lhes uma maior capacidade de se

reinventarem. Do lado da União Europeia,

Sanchéz disse estar em curso uma resposta

global e abrangente. “Estamos a mobilizar

mais de 30 mil milhões de euros de ajuda

juntamente com os nossos Estados-membros.

Para Moçambique vamos mobilizar

200 milhões de euros e a primeira prioridade

será o fornecimento de equipamento

ao sector da saúde”, referiu o embaixador,

acrescentando que “sobretudo estamos a

fortalecer o Estado moçambicano com o

foco e a atenção nos serviços sociais básicos”.

No âmbito do programa da energia,

o embaixador revelou a existência de um

programa de assistência e assessoria envolvendo

um pacote até 25 milhões de euros

destinado a financiar incrementos na organização

das pequenas e médias empresas.

“Isso está a ser feito através da Fundação

para o Desenvolvimento da Comunidade

e com a cooperação alemã”, salientou.

NOVAS OPORTUNIDADES

EM TEMPOS DE CRISE

Também para Luísa Diogo, presidente

do conselho de administração do Absa

Bank Moçambique, o momento impõe que

as empresas consigam reinventar-se.

“As empresas devem redefinir as suas estratégias

e ver as possibilidades que têm pela

frente”, disse a presidente do Absa Bank

durante a sua intervenção. Numa primeira

fase, Luísa Diogo referiu que “é preciso

olhar para o mercado local e para mundo

inteiro e, na base disso, ver as diferentes

dificuldades, os desafios e depois ver as

oportunidades também”.

A presidente do Absa Bank lembrou ao

sector privado a importância da parceria

com a União Europeia, assinalando que

a União Europeia é um parceiro privilegiado

de Moçambique. “É um parceiro

que actua em Moçambique nos diferentes

sectores de actividade, desde o sector primário

até ao sector industrial, mineiro”,

avançou. Na verdade, as PME precisam

de se restruturar muito rapidamente para

terem acesso às oportunidades de negócio

num mercado cada vez mais digital e com

enormes desafios.

Eduardo Sengo, director-executivo da

Confederação das Associações Económicas

de Moçambique (CTA), reconhece os

desafios e adianta que, com a COVID-19,

os processos de negócios começam a exigir

cada vez mais digitalização. Segundo

Sengo, os modelos de negócios das PME

ainda se baseiam nos processos manuais.

“Esta é a etapa que estamos a seguir, procurar

encontrar os mecanismos de apoiar

as PME a digitalizarem os seus processos

de negócios de tal forma que continuem

com as suas actividades”, avançou.

NEM TUDO É MAU

Mas nem tudo está mal para as empresas.

Há alguns avanços. No sector da saúde,

por exemplo, onde a procura de material e

equipamento atingiu o pico, Sengo diz que

houve o envolvimento de algumas PME

para satisfazer a procura. Sim, “algumas

empresas puderam fazer o seu reposicionamento,

restruturar-se para responder às

oportunidades abertas com a COVID-19”.

Mariam Umarji, presidente da Associação

das Mulheres Empresárias e Empreendedoras

de Moçambique (FEMME), acentuou

que as mulheres souberam procurar

soluções perante um contexto que exige

cada vez mais inovações. “Da parte das

mulheres que fazem parte da nossa associação

temos verificado que começaram

a procurar formas alternativas de continuar

no mercado e com diferentes soluções”,

explica. “Para as mulheres que estão

nas zonas urbanas, o que verificamos é que

rapidamente conseguiram encontrar formas

de passar o seu serviço para alguma

das opções digitais”, diz, acrescentando

que “a maior parte das empresas que passou

para o trabalho remoto utilizando as

novas plataformas, sobretudo na área dos

serviços, conseguiu continuar a prestar os

seus serviços, não obstante os custos inerentes”.

Paulo Oliveira, vice-presidente do

pelouro financeiro da CTA e administrador

do grupo Salvador Caetano, diz que a

confederação tem estado a apresentar um

conjunto de medidas fiscais, aduaneiras,

financeiras e laborais ao governo com o

objectivo único de assegurar a sobrevivência

das empresas e a manutenção dos postos

de trabalho. “Estas medidas que temos

apresentado têm a ver com o adiamento

de pagamentos de impostos, isenção de

direitos aduaneiros, diferimentos de pagamentos

de obrigação para a banca e apoio

aos pagamentos de salários, entre outras.”

Enquanto, segundo Oliveira, as medidas

do governo não forem suficientemente

“abrangentes”, os apoios ao sector privado

vão chegando através de várias parcerias.

APOIOS

200 MILHÕES

de euros é quanto a União

Europeia vai disponibilizar

a Moçambique

12,5 MILHÕES

de dólares é o fundo de apoio

à tesouraria das PME avançado

pela cooperação portuguesa

600 MILHÕES

de meticais integram uma linha

de assistência financeira às PME

em estruturação

julho 2020 | 31


NEGÓCIOS PME

RECURSOS: Devem

ser centrados no apoio

financeiro às PME

que digitalizam os

processos de negócio

Existe, no entanto, um fundo de apoio à

tesouraria para as PME, avançado pela

cooperação portuguesa, no valor total de

12,5 milhões de dólares. “É um fundo que

se destina às empresas de direito moçambicano,

e cerca de 3,4 milhões de meticais

são destinados ao apoio à tesouraria

e com reembolso de cinco anos”, revela o

vice-presidente do pelouro financeiro da

CTA. O fundo está disponível através da

banca comercial. Ainda sobre o financiamento

às PME, que atravessam dificuldades

face à crise causada pela pandemia da

COVID-19, o director-executivo da CTA

diz que está em restruturação uma linha

de 600 milhões de meticais para a assistência

às empresas. Mas também “há outras

linhas que ainda estamos a trabalhar com

o Banco Africano de Desenvolvimento e

esperamos que o mais cedo possível haja

novidades”.

EU MOZ TALKS

A plataforma EU Moz Talks tem

como objectivo contribuir

decisivamente para a melhoria

sustentada das condições de

vida de todos os moçambicanos.

A 6 de Maio de 2019 realizou-se

a Primeira Mesa-Redonda

Moçambique-União Europeia,

sob o tema “Nova parceria para

o investimento e o emprego

sustentável”. A 29 de Maio deste ano

realizou-se o Webinar “Queda do

preço das commodities: impacto no

continente africano”. Considerando os

resultados e o feedback positivo dos

participantes, terá lugar uma segunda

mesa-redonda após o regresso das

condições sanitárias à normalidade

e estando garantidas as condições de

segurança de todos os participantes.

A EXAME é a media partner das

iniciativas.

OS CRITÉRIOS DOS APOIOS

Que critérios podem ser usados no apoio às

PME? Sobre esta questão, Eduardo Sengo

considera que o ideal é recorrer aos mecanismos

de mercado. Ou seja, usar as instituições

já existentes, o que reduziria os

custos administrativos. “Obviamente deve

criar-se uma espécie de comité de selecção

de projectos que permita que as associações

empresarias e sectoriais possam participar

de perto e acompanhar este processo.”

Para Gerry Marketos, vice-presidente da

EuroCam, a actual fase que o país atravessa

constitui uma oportunidade ímpar

para fortalecer o investimento europeu em

Moçambique. Deu como exemplo o avanço

do projecto da Área 1, liderada pela empresa

francesa Total, no desenvolvimento de um

dos maiores investimentos na extracção de

gás natural a partir de 2024. “Tudo isso, a

meu ver, demonstra que, apesar das dificuldades

e desafios existentes na província

de Cabo Delgado, a presença europeia

na bacia do Rovuma continua firme.” Mas

também, segundo Marketos, há aspectos

que precisam de ser melhorados de modo a

atrair mais investimentos estrangeiros para

o país. “Acho pertinente usar a oportunidade

deste Webinar para propor ao nosso

governo e à delegação da União Europeia

o lançamento de um estudo sobre a revisão

da Lei de Investimento em Moçambique”

pois, considera Gerry Marketos,

a legislação precisa de ser revista e adaptada

“em conformidade com a realidade

socioeconómica pós-COVID-19, com

vista a facilitar a atracção de novo investimento

estrangeiro”. Mateus Matusse,

director nacional de Apoio ao Desenvolvimento

do Sector Privado no Ministério

da Indústria e Comércio, disse, no

encerramento de debate, que a natureza

da crise exige respostas inovadoras, criativas,

robustas e tempestivas, daí a importância

do Webinar. b

32 | Exame Moçambique


julho 2020 | 33


ECONOMIA RUBIS

“OS RUBIS

PERTENCEM

A MOÇAMBIQUE”

Samora Machel Jr.,

PCA da Montepuez Rubi Mining,

antecipa um leilão no quarto

trimestre, num ano marcado

pela incerteza da pandemia

da COVID-19. Projectos de

carácter social são para manter,

mas a expansão, para já, está

fora dos planos da empresa

RICARDO DAVID LOPES

SAMORA MACHEL JR.:

Maximizar valores de venda

para que as pedras preciosas

tragam riqueza ao país

34 | Exame Moçambique


A

pandemia afecta este ano

o desempenho da Montepuez

Rubi Mining (MRM),

mas a segurança, a manutenção

e os serviços essenciais

mantêm-se para assegurar que a

empresa, o maior contribuinte fiscal em

Cabo Delgado, “retome as operações com

normalidade assim que seja seguro e praticável”,

diz Samora Machel Jr., o seu presidente.

As pedras preciosas compradas

a bom preço, lembra, apontando a crise

de 2008, são activos de valor e de refúgio

em tempos de incerteza. Activos resilientes

que deverão ter um leilão de fixação

de preços no último trimestre do ano.

Como tem evoluído a produção

em Moçambique?

Desde o início das operações, em 2012, que

a MRM tem vindo a desenvolver esforços

para tornar a sua produção mais eficiente.

Um dos investimentos mais recentes foi

na nova casa de selecção e classificação de

rubis. Trata-se da primeira infra-estrutura

do género na indústria de pedras

preciosas coloridas e estará ao nível das

melhores unidades diamantíferas do

mundo. Resulta de um investimento

de 900 milhões de meticais (15 milhões

de dólares), que visa aumentar significativamente

a capacidade de produção

e as skills (aptidões) dos colaboradores.

O ano de 2019 foi de investimento e crescimento

significativos na MRM. Além da

casa de selecção e classificação de rubis,

implementámos um novo espessante na

fábrica de lavagem, aumentando a capacidade

para 150 toneladas/hora. E temos

mais desenvolvimentos previstos, com a

introdução de duas unidades de pré-triagem

de alto desempenho para a remoção

de partículas mais finas antes da entrada

na linha de lavagem, o que irá resultar

em maior concentração do produto

desejado, dando assim mais capacidade

a esta unidade.

Balanço positivo, portanto...

Temos a convicção de que os rubis pertencem

a Moçambique e cabe-nos estruturar

a indústria de pedras preciosas para

que estes recursos tragam o máximo

de rendimento ao país. O nosso papel é

“custodiar” estes rubis, explorando-os de

forma responsável, fazer a sua promoção

e venda ao preço mais alto possível, para

depois trazer o dinheiro de volta. Estamos

focados em contínuas melhorias operacionais

e da performance da empresa,

e continuamos a avançar promovendo a

transparência, confiança e práticas responsáveis

de mineração.

“OS INVESTIMENTOS

PREVISTOS LIGADOS

AO REASSENTAMENTO

MANTÊM-SE”

Quais são os principais mercados

de exportação?

Historicamente, os parceiros de leilão tailandeses

tendem a dominar nos rubis, e

a Tailândia mantém-se como o principal

centro de corte e polimento, mas temos

assistido a um interesse crescente de

outros mercados, como a China.

Como estão a olhar para o futuro?

A nossa visão de longo prazo é sermos

líder mundial nas pedras preciosas coloridas,

promovendo a transparência, a

confiança e práticas de mineração responsáveis.

A nossa abordagem foi sempre

progressiva e não convencional. Somos

uma empresa jovem e dinâmica que apoia

talentos em potência. Procuramos fazer

as coisas de forma diferente, mantendo

um equilíbrio entre as pessoas, o lucro e

INDÚSTRIA EXTRACTIVA

valores em milhões USD

2018 2019

128,2 121,9

Rubis, safiras

e esmeraldas

Areias

pesadas

Fonte: Banco de Moçambique.

1 752,8

1 257,3

263,8 321,7 312,3 273,7

Carvão

mineral

Gás

natural

o ambiente. Excluindo os efeitos da pandemia

da COVID-19, os objectivos da

MRM para 2020 passam por aumentar

a produção de 2260,7 quilates, em 2019,

para 5400 quilates este ano, participar

em mais leilões, aumentar o número de

colaboradores, de 609 em Dezembro de

2019, para 709 em Dezembro deste ano,

e investir mais na zona da mina.

Em quê?

Na construção de uma segunda fábrica

de tratamento que processe minério de

outras áreas de exploração, na substituição

e expansão da nossa frota, na conclusão

do Plano de Acção de Reassentamento

(PAR) e em novos desenvolvimentos.

Quantos colaboradores têm no país?

A MRM assegura o emprego, entre efectivos

e contratados, a 1455 pessoas, das

quais 95% moçambicanas. Ao nível de

Cabo Delgado, empregamos cerca de 700

pessoas, das quais 300 das comunidades

em torno da empresa.

“O NOSSO PAPEL É

‘CUSTODIAR’ ESTES

RUBIS, EXPLORANDO-OS

DE FORMA

RESPONSÁVEL”

A pandemia teve impacto na vossa

actividade, nomeadamente com a

suspensão dos leilões. Como lidam

com esta situação?

A pandemia vai afectar a nossa performance

este ano por várias razões: generalização

das restrições a viagens e os leilões de qualidade

mista agendados para Julho serão

remarcados, o que pode resultar na existência

de apenas um leilão no último trimestre

do ano. A MRM suspendeu todas

as operações não críticas a 22 de Abril, e

o bem-estar dos colaboradores e comunidades

continua a ser a principal prioridade.

A segurança, a manutenção e outros

serviços essenciais mantêm-se, para assegurar

que a MRM está bem posicionada

para retomar as operações com norma-

julho 2020 | 35


ECONOMIA RUBIS

“A NOSSA VISÃO DE

LONGO PRAZO É SERMOS

LÍDER MUNDIAL NAS

PEDRAS PRECIOSAS

COLORIDAS”

lidade assim que tal seja seguro e praticável.

Entretanto, suspendemos, até ver,

o investimento de capital em expansão,

incluindo a segunda unidade que lhe referi,

que teria um valor de 12 milhões de dólares.

No entanto, os investimentos previstos

ligados ao reassentamento mantêm-se,

com o objectivo de alojar as populações

no mês de Julho. Temos acompanhado as

medidas preventivas implementadas pelo

governo no sentido da redução do risco

de importação da COVID-19 e contaminação

no âmbito do projecto.

O preço dos rubis e esmeraldas tem

sido afectado pela pandemia?

O preço é fixado em leilões — o próximo

deverá ser no último trimestre. Pedras

preciosas compradas a bom preço foram

sempre consideradas activos de valor e

refúgio em períodos de incerteza económica

e política. Isso foi evidente durante a

crise financeira de 2008, quando as pedras

preciosas se revelaram marcadamente resilientes

face às quedas significativas nos

principais índices. O Gemval Aggregate

Index (GVA), um benchmark de referência

na fixação de preços da indústria de

jóias, mostra igualmente que as pedras

preciosas superaram o desempenho do

FSTE 100 desde Maio de 2008. São notórias

as recentes quebras nos mercados de

capitais desencadeadas pela COVID-19, e

os próximos meses deverão demonstrar a

resiliência relativa da GVA face ao FSTE

100, S&P 500 e DJIA.

O que seria necessário para este

sector ganhar peso no PIB e nas

O QUE A MRM PAGOU AO ESTADO

mil milhões MTC

2,06

2017

Fonte: Empresa.

A INDÚSTRIA EXTRACTIVA NO PIB

6,86%

2017

2,359

2018

7,35%

2018

exportações?

De acordo com o 8.º relatório da Iniciativa

de Transparência na Indústria Extractiva

[EITI, 2020, no acrónimo inglês],

baseado na conciliação entre pagamentos

declarados pelas empresas e receitas

declaradas por instituições governamentais,

a MRM foi a segunda empresa de

indústria mineira que mais pagamentos

efectuou ao Estado moçambicano em

2017 e 2018. De acordo com os valores

declarados pelo governo, a MRM pagou

“ESTAMOS FOCADOS EM

CONTÍNUAS MELHORIAS

OPERACIONAIS E DA

PERFORMANCE”

2 060 428 675,78 meticais em 2017, e

2 359 428 866,43 meticais em 2018. Nos

últimos anos, a MRM evidenciou-se pelo

seu contributo ao país, mas sobretudo a

nível provincial. Fomos novamente reconhecidos

como o maior contribuinte fiscal

em Cabo Delgado pelo quinto ano consecutivo

(2014, 2015, 2016, 2017 e 2018).

Segundo o relatório da EITI, a “contribuição

da indústria extractiva para o PIB

foi de cerca de 6,86% em 2017, e 7,35%

em 2018, o que demonstra um aumento

do contributo deste sector ao longo dos

anos. Em termos de contribuições para

o Tesouro Nacional, o total das receitas

ascendeu a 213 222,9 e 213 032,2 milhões

de meticais, respectivamente. O contributo

das empresas que operam na indústria

extractiva para o Estado nestes anos

foi de 35 426,09 e 19 071,27 milhões

de meticais, o que corresponde

a 17% e 9% do total da receita

captada nesses anos. b

RUBIS E ESMERALDAS:

Activos que resistem

a períodos de incerteza

36 | Exame Moçambique


julho 2020 | 37


ECONOMIA ALGODÃO

FRANCISCO FERREIRA

DOS SANTOS: O sector

do algodão é estruturante

para o país

“O SECTOR

DO ALGODÃO É MUITO

TRANSPARENTE”

A fileira do algodão está pronta para agarrar a sua parte do desafio de uma nova fase

da agricultura nacional, garante o presidente da Associação Algodoeira de Moçambique

(AMM), Francisco Ferreira dos Santos

RICARDO DAVID LOPES

38 | Exame Moçambique


F

rancisco Ferreira dos Santos

elogia a “consistência” do

desempenho da indústria algodoeira

nacional e acredita que

a atribuição de apoios a outros

sectores estratégicos, em linha com os

concedidos ao algodão-caroço, traria

ganhos no curto prazo ao país. Para o

presidente da Associação Algodoeira de

Moçambique (AMM), o sector do algodão

é um sector estruturante para o país,

que envolve, em média, cerca de 200 mil

famílias, representa uma fonte de sustento

para um milhão de pessoas e garante cerca

de 20 mil empregos directos e indirectos.

Acentua ainda que se trata de um sector

muito transparente no qual o preço ao

produtor é controlado.

O preço do algodão tem, no entanto,

vindo a ressentir-se da guerra comercial

entre os Estados Unidos e a China,

da pandemia com o lockdown da indústria

têxtil asiática, da quebra nos mercados

financeiros, o que afecta a cotação do

produto, e da queda do preço do petróleo,

que torna as fibras sintéticas muito

mais competitivas.

“PRECISAMOS DE CRIAR

MECANISMOS DE GESTÃO

DE CHOQUES E CRISES”

As exportações de algodão tiveram

um forte aumento em valor em 2019,

face aos anos anteriores. Como se

explica este desempenho?

A produção de 2019/20 foi semelhante

à da campanha anterior. Essa diferença

poderá decorrer do facto de, por vezes,

o momento da exportação variar de ano

para ano, consoante a dinâmica dos mercados.

Em regra, a sementeira ocorre em

Dezembro, a colheita em Maio, o processamento

entre Junho e Dezembro,

em função do volume, e a exportação a

partir de Julho, também de acordo com

a produção e a dinâmica dos mercados.

Quais os principais clientes?

A indústria têxtil mundial ainda se encontra

muito localizada na Ásia. Alguns

países africanos, nomeadamente as Maurícias,

tiveram muito sucesso em cativar

o investimento nesta indústria, tendo

vindo a tornar-se importantes clientes

para o nosso algodão.

Como tem evoluído a produção?

A média de produção anual dos últimos

dez anos situa-se em torno das 70 mil

toneladas de algodão-caroço, com um

pico de produção, em 2012, de 185 mil

toneladas, que se deveu ao aumento exponencial

do preço do algodão em 2011 — o

que levou a uma enorme adesão de produtores

à cultura no ano seguinte. Este

ano estimamos cerca de 45 mil toneladas.

Tanto este ano e como em 2019 tivemos

várias adversidades a nível do clima

que conduziram à perda de áreas e rendimentos.

Qual a importância deste sector,

actualmente, em termos de emprego,

e quais as perspectivas futuras?

Mesmo com as dificuldades que se verificaram

nos últimos dois anos, continua

a ser um sector estruturante para o

país. Está em sétimo lugar no ranking das

exportações nacionais e em quarto dos

produtos agrícolas. Envolve, em média,

cerca de 200 mil famílias, representando,

portanto, uma fonte de sustento para

um milhão de pessoas, e garante cerca

de 20 mil postos de emprego directo e

indirecto. É um sector muito transparente,

onde o preço ao produtor é controlado,

garantindo-se que este recebe,

pelo menos, cerca de 60% do valor total

da receita de exportação das empresas.

É, sem dúvida, um veículo de desenvolvimento

rural e de distribuição de rendimento

no meio rural.

O preço do algodão tem sofrido

variações

ou mantém-se estável?

O preço do algodão vinha tendo um

comportamento relativamente estável

até à intensificação da guerra comercial

entre os EUA e a China, a partir de Maio

de 2019, e, agora, com o despoletar da

pandemia. O algodão tem sido dos produtos

agrícolas mais afectados pela pandemia

e pela crise económica, com uma

redução de preço nos últimos meses em

cerca de 30%.

O que provoca essa queda?

Deve-se a vários factores que estão relacionados

entre si: queda do consumo dos produtos

têxteis nesta fase de crise, lockdown

severo nos países asiáticos, onde se situa uma

grande parte da indústria têxtil (quebra da

procura), queda dos mercados financeiros,

o que também pressiona a cotação internacional,

e a redução do preço do petróleo,

que, além de afectar os mercados e a

confiança, torna as fibras sintéticas, derivadas

do petróleo e concorrentes do algodão,

muito mais competitivas.

NÚMEROS DO SECTOR

200 mil famílias estão envolvidas

na produção algodoeira

1 milhão de pessoas têm

a produção de algodão fonte

de sustento

20 mil empregos directos

e indirectos são gerados no sector

60% do valor total da receita

de exportação das empresas cabe

aos produtores

Como está a evoluir a produção e a

exportação nestes primeiros meses

do ano?

A exportação do algodão da presente campanha

começa em Julho, mas ainda existe

algum em stock da anterior, fundamentalmente

devido à queda do preço decorrente

da guerra comercial EUA-China,

que dificultou a colocação externa do

produto nacional.

Quais os impactos da COVID-19?

O primeiro grande impacto da pandemia

está na redução abrupta do preço, conforme

expliquei, além, naturalmente, de

junho 2020 | 39


ECONOMIA ALGODÃO

todos os constrangimentos decorrentes

das diversas medidas de prevenção internas

e nos países nossos clientes.

Quais são os principais players deste

sector?

Em Moçambique temos, neste momento,

seis empresas, sendo três detidas por

capital nacional e três por capital estrangeiro.

As nacionais são a JFS (Niassa), a

SANAM (Nampula) e a SAM (Nampula).

As estrangeiras são a PLEXUS (Cabo Delgado),

a OLAM (Nampula) e a CHINA AC

(Sofala). Sem desprezar o esforço de ninguém,

notamos que, de um modo geral, as

empresas nacionais têm tido um desempenho

mais consistente.

O governo deu luz verde ao subsídio

“O ALGODÃO TEM SIDO

DOS PRODUTOS MAIS

AFECTADOS PELA

PANDEMIA”

ao algodão-caroço nesta campanha.

Sem subsídios o sector não tem

sustentação?

O algodão é uma cultura muito antiga no

país. Nunca parou a respectiva actividade,

mesmo nos momentos mais difíceis,

o que é um sinal indiscutível do compromisso

e da resiliência das empresas e das

centenas de milhar de produtores que,

com muito esforço e dedicação, mantêm

esta actividade, com enorme impacto na

criação de emprego, na geração de divisas

e no desenvolvimento rural. Como tal,

acredito que o algodão conseguisse sobreviver

a esta crise, como já o fez no

passado, mas sairia dela muito amolgado

e penalizando enormemente o rendimento

dos produtores, o desenvolvimento

rural e o programa nacional em geral.

Mais do que lutar por sobrevivência, o

país deve lutar para promover e desenvolver

a sua agricultura, de uma forma

sólida e consistente.

Neste momento, a situação é

especial...

Moçambique precisa de criar mecanismos

de gestão de choques e crises, à semelhança

do que fazem todos os outros principais

produtores de algodão, sem excepção,

SUBSÍDIO

AO ALGODÃO-CAROÇO:

Beneficia directamente

os produtores de algodão

40 | Exame Moçambique


desde os países de produção comercial/

empresarial, como os Estados Unidos, o

Brasil e a Austrália, aos de produção de

base familiar, como a China, a Índia e

os países da África Oeste que são uma

referência no algodão, nomeadamente

o Burkina Faso, o Chade e o Togo. Não

se trata de uma questão de subsídio pelo

subsídio, muito menos um subsídio ao

consumo: é um mecanismo de suporte

à produção nacional e à economia rural,

com sustentabilidade social e económica,

para ser accionado em momentos de choque,

como aquele que agora vivemos.

É um investimento...

Exacto, não se trata de um custo, mas sim

um investimento – e um investimento com

retorno directo, imediato e muito tangível.

O subsídio é direccionado apenas para

os produtores de algodão e não para as

empresas. Ou seja, o ganho das empresas

será indirecto, pelo facto de conseguirem

aumentar e estabilizar os volumes de produção

nos anos seguintes, condição fundamental

para a sustentabilidade do seu

“A CULTURA DE

ALGODÃO NUNCA

PAROU, MESMO

NOS MOMENTOS

MAIS DIFÍCEIS”

negócio. A estrutura actual do subsector

algodoeiro oferece condições para a aplicação

deste apoio, sem qualquer gasto adicional

de controlo ou distribuição dos valores,

garantindo-se que cada metical investido

chegará ao produtor. É uma medida inteligente

e necessária, não apenas para o

algodão, mas para as outras culturas estratégicas

que justifiquem e que tenham condições

para a sua aplicação.

“O SUBSÍDIO AO

ALGODÃO-CAROÇO

NÃO É UM CUSTO,

É UM INVESTIMENTO”

Estão previstos novos investimentos

no sector?

Mesmo com as dificuldades de mercado

sentidas em 2019 e 2020, que tiveram

impactos especialmente relevantes em

algumas das empresas, o subsector continua

a investir e a inovar. A título de

exemplo, temos o nosso parque industrial

perfeitamente mantido e preparado, e

estamos a investir em fábricas de óleo alimentar

para processar o caroço do algodão

e outras oleaginosas. Também temos

diversas inovações e investimentos em

várias áreas do desenvolvimento rural,

que são necessárias a qualquer agricultor.

Quais?

Por exemplo, novas técnicas e ferramentas

de produção, agricultura de conservação

e certificação da produção, serviços

de mecanização agrária, acesso a serviços

financeiros, incluindo o seguro agrícola,

redes de distribuição de insumos e

comercialização agrícola, entre outros.

Além disso, também estamos a trabalhar

com o governo para se conseguir utilizar

a estrutura do algodão para o desenvolvimento

de outras culturas estratégicas

NO TOP

O algodão foi, em 2019, o terceiro produto agrícola

nacional em valor de exportação

Top produtos agrícolas

milhões USD

2018 2019

Fonte: Banco de Moçambique.

do país, em particular o milho e a soja,

procurando alcançar a optimização dos

recursos e a integração das cadeias de

valor, sempre tendo por base o aumento

do rendimento do produtor, a estabilização

do negócio das empresas e o desenvolvimento

nacional. Acreditamos que

estamos, por isso, a entrar num grande

momento da agricultura nacional e o

algodão está preparado para desempenhar

o respectivo papel nesse processo.

Quais têm sido os principais

constrangimentos à actividade?

Como referi, o estabelecimento de um

mecanismo de gestão de choques de mercado

sempre foi uma grande prioridade

para o subsector e isso foi conseguido este

ano. É um marco histórico, sem dúvida.

Além disso, estamos a trabalhar activamente

em várias prioridades, como

a produção e tratamento de semente de

qualidade, a industrialização e aproveitamento

de produtos e subprodutos e a optimização

do protocolo de produção, com

a introdução de novas técnicas, pequenas

ferramentas e tecnologias. Também

estamos a apostar na diversificação de

culturas e na optimização da operação

de logística, entre outros aspectos. b

82,2

219,8

230,4

36,1

30,2

26,1

8,6 9,8

0,5

2,8

Amendoim Castanha-de-caju Algodão Legumes e hortÍcolas Tabaco

junho 2020 | 41


GÁS MEGAPROJECTOS

AERÓDROMO:

Novo aeródromo

de Afungi, dentro

da zona

de implantação

do projecto

OBRAS DO CAIS:

Um cais já está

operacional e tem

recebido

carregamentos do

projecto, além

de apoios à circulação

de mercadorias

e apoio humanitário

às populações locais

PENÍNSULA DO GÁS JÁ GANHA

FORMA EM CABO DELGADO

Na primeira visita ao recinto de obras em Afungi já foi possível ver infra-estruturas

do megaprojecto a funcionar e movimentação de terras que mostram para onde

está projectado tudo o resto

LUÍS FONSECA *

42 | Exame Moçambique


Este projecto é

sólido”, afirmou

Ronan Bescond,

director-geral

da Total em

Moçambique, ao mostrar em que ponto

estão as obras do megaprojecto de exploração

de gás natural da Área 1 da bacia

do Rovuma. É o maior investimento privado

em curso em África, no valor de

20 mil milhões de dólares. Apesar dos

desafios impostos pela COVID-19 e pelos

ataques armados classificados como terrorismo

que acontecem nas zonas em

redor, 2024 continua a ser o prazo previsto

para encher o primeiro navio cargueiro

no cais de Afungi com gás natural

liquefeito. Gás puxado para terra a partir

de jazidas sob o fundo oceânico e que

será transformado em líquido no complexo

industrial em construção.

A assinatura do projecto financeiro com

banco e agências de exportação, que vão

emprestar a quase totalidade do valor em

causa, “confirma que este projecto é sólido,

porque há pessoas dispostas a investirem

16 mil milhões de dólares. Confiam no

operador [a Total], no consórcio, confiam

que temos os empreiteiros certos e que há

uma boa colaboração entre este grupo e

o governo para alcançar as expectativas”,

especificou. O projecto financeiro vai ser

assinado com uma combinação de bancos

e agências de crédito à exportação

sedeadas em países que estão a produzir

componentes para o empreendimento.

À hora de fecho desta edição, a assinatura

estava presa por pormenores burocráticos.

“Já recebemos a aprovação de todas

as agências de exportação e estamos na

ronda final de [processamento da] documentação”,

referiu Bescond.

Conseguir fechar o project finance para

a Área 1 nesta altura desafia algumas análises

que nos últimos meses colocaram o

empreendimento sob pressão acrescida

depois do abrandamento económico provocado

pela COVID-19, de proporções e

duração ainda imprevisíveis. Ainda mais

quando o vizinho consórcio da Área 4,

liderado pela ExxonMobil e a Eni, adiou

a decisão final de investimento justificando-se

com o novo contexto adverso.

O MAIOR INVESTIMENTO

PRIVADO EM CURSO EM

ÁFRICA (20 MIL MILHÕES

DE DÓLARES) MINIMIZA

RISCOS DO PRESENTE

(COMO A COVID-19)

E EXPLICA QUE O

OBJECTIVO ESTÁ

NO LONGO PRAZO

O consórcio da Área 4 vai explorar reservas

contíguas às da Área 1 e partilhar áreas

do empreendimento industrial em terra.

Adiaram as obras para data a definir.

Mas o director-geral da Total minimizou

a queda do preço do petróleo (da casa

dos 60 dólares por barril de Brent para

cerca de 40 dólares, desde há um ano).

TOTAL RESPONDE A QUESTÕES SENSÍVEIS

A província de Cabo Delgado, onde está

a ser implantado o megaprojecto de gás,

não é um território qualquer. A nível

internacional tem tido mediatismo por ser

alvo de terrorismo associado a grupos

“jihadistas”. Mas o investimento no gás

tem permanecido fora da mira dos

agressores. “A situação de insegurança

não está directamente ligada ao projecto

de gás”, referiu Ronan Bescond.

“O governo colocou recursos de forma

a mitigar a situação e a proteger a

população”, porque nos últimos dois

anos e meio já houve confrontos a poucos

quilómetros. “Há um protocolo com o

Ministério do Interior e o Ministério da

Defesa que será ajustado, dependendo do

avanço das actividades.” Esta colaboração

tem sido alvo de críticas da sociedade

civil, que questionam: será que os

investimentos privados estão acima das

populações? Ronan Bescond refere que

o protocolo abrange “um plano de base

comunitária. O projecto assume

É uma das variáveis que define a sustentabilidade

do projecto, mas Bescond sublinhou

que este é um empreendimento para

o longo prazo. A exploração das reservas

Golfinho e Atum, que começa em

2024, deverá durar vinte e cinco anos e

há outras jazidas na Área 1 por desenvolver.

Mais: o director-geral da Total aponta

o gás natural como um “combustível de

transição” no cenário de mudança energética

e abandono dos recursos fósseis.

“FEITO MEMORÁVEL”

O recinto de obras do empreendimento,

em Afungi, foi em Abril e Maio o local

com maior concentração de casos (96) de

COVID-19 em Moçambique, obrigando

à paralisação quase total dos trabalhos.

As operações estão a ser retomadas gradualmente

desde o início de Junho, depois

do espaço ter sido declarado livre do novo

coronavírus. Mas só lá para Novembro

deverá estar retomada a velocidade de

cruzeiro por perdurarem ainda restrições

a responsabilidade de associar estas

forças de segurança na área para proteger

as comunidades locais e regionais”.

As questões humanitárias, sociais e de

investimento na economia local ocuparam

boa parte da apresentação de Bescond aos

jornalistas, centrada em duas apostas: no

conteúdo local e na criação de emprego.

Em Janeiro havia 5500 moçambicanos

a trabalhar nas obras do megaprojecto

da Área 1 e prevê-se que esse número

se mantenha, sendo que, depois de

terminada a construção, em 2024, o

consórcio prevê criar 1500 empregos de

longa duração. E 699 milhões de dólares já

foram aplicados em aquisições a empresas

moçambicanas até ao segundo trimestre

de 2020: “Investimos muito tempo

no conteúdo local”, garante Bescond.

Por outro lado, a cidade do gás, associada

ao empreendimento, vai começar a ser

construída em 2021, com capacidade para

albergar 150 mil pessoas atraídas pelas

oportunidades criadas em Afungi.

julho 2020 | 43


GÁS MEGAPROJECTOS

à mobilidade internacional. Seja como for,

o cronograma do empreendimento não

foi afectado porque a fase actual abrange

sobretudo tarefas de engenharia e aquisições.

A construção física vai ter o grande

impulso a partir de 2021.

Bescond minimizou também os ataques

armados que há dois anos e meio afectam

a província de Cabo Delgado, sublinhando

que nunca visaram o recinto de construção

do empreendimento. Mas somando

todos os riscos, o director-geral da Total

em Moçambique classificou como “um

feito memorável” conseguir fechar, na

conjuntura actual, o projecto financeiro

para o megaprojecto de gás que lidera em

Moçambique.

APESAR DA COVID-19,

PLENA PRODUÇÃO EM 2025

A primeira visita aberta às obras de Afungi

ocorreu um ano depois da decisão final

de investimento para a Área 1 da bacia

do Rovuma, anunciada numa cerimónia

em Maputo a 18 de Junho de 2019. Desta

vez, a visita decorreu com muitas regras

de desinfecção, distanciamento social e

movimentos limitados no recinto onde

houve, como notámos, o maior surto de

INSTALAÇÕES: Um dos portões de entrada

nas zonas de serviço do projecto

EM JANEIRO HAVIA

5500 MOÇAMBICANOS A

TRABALHAR NAS OBRAS

DO MEGAPROJECTO

DA ÁREA 1

COVID-19 no país, entre Abril e Maio, que

chegou a 96 casos entre 880 trabalhadores.

O projecto já foi declarado livre do novo

coronavírus e as equipas estão a regressar

gradualmente ao trabalho, devendo

este retomar o ritmo que tinha antes da

pandemia, com cerca de 6500 trabalhadores,

no final do ano, com o fim das restrições

globais de transporte. O surto de

COVID-19 não terá influência no cronograma

da obra: Estamos dentro dos prazos

“para que a primeira entrega de gás

natural liquefeito seja feita em 2024 e a

plena produção (13,12 milhões de toneladas/ano)

em 2025”, garantiu Bescond.

GOVERNO “ORGULHOSO”

“Sentimo-nos orgulhosos como país por

podermos ter em Moçambique o maior

investimento em África”, referiu o ministro

dos Recursos Minerais e Energia, Max

Tonela, na visita a Afungi, a 19 de Junho.

Este é também “o maior investimento no

país pós-independência” e o governante

acrescentou que o objectivo é que seja “um

projecto transformador”, ou seja, “não permitir

que Moçambique só exporte”, mas

alimentar novas indústrias e empreendimentos.

“Estamos preocupados em criar

condições que promovam à volta do projecto

o desenvolvimento de outros sectores

na nossa economia.” b

* Trabalho especial da Lusa para a EXAME.

NOVOS ESPAÇOS

EM AFUNGI

Além de estradas, estaleiros,

alojamento e outros espaços de apoio

às obras, estão já em funcionamento

em Afungi um cais marítimo e um

aeródromo e foi criada a nova vila de

Quitunda. Já aí habitam 186 famílias

(cerca de 1200 pessoas), transferidas

de povoados dos terrenos de

implantação do projecto, e novas fases

de expansão estão previstas para o

total a acolher chegar às 556 famílias.

No lugar de uma povoação rural

de construções precárias, agora há

uma vila com infra-estruturas (água,

electricidade, saneamento, acesso)

como não existe em mais lado

nenhum da província.

Na avaliação feita em 2018, meses

depois de iniciadas as obras, as

organizações da sociedade civil

moçambicanas deram nota positiva

ao dossier de reassentamento das

populações que viviam na área das

obras, apesar das preocupações

relativas à deslocalização de

comunidades piscatórias e à

disponibilização de terras para cultivo.

Em resposta, o consórcio de

petrolíferas e o Estado moçambicano

garantem dar ouvidos às preocupações

e estar abertos ao escrutínio.

44 | Exame Moçambique


julho 2020 | 45


ENERGIA MERCADO

GÁS E PETRÓLEO:

APARENTE

“DESCOMPASSO”

O preço do gás natural está a cair menos do que o do petróleo desde o início da crise,

mas perdeu o mesmo valor, cerca de metade, no último ano. Há razões que explicam este

aparente “descompasso” entre as duas matérias-primas nesta fase

RICARDO DAVID LOPES

PETRÓLEO: A quebra no

preço do crude vai afectar

a produção de gás associado

46 | Exame Moçambique


Se os projectos de gás natural

previstos para a bacia do

Rovuma, em Cabo Delgado,

já estivessem em operação,

Moçambique sentiria de forma

mais pesada o impacto da baixa das cotações

internacionais desta matéria-prima nas

suas exportações. As crises anteriores à da

pandemia de COVID-19 que agora vivemos

mostram que o preço desta commodity

oscila menos do que o do seu “irmão” petróleo.

Mas desde Janeiro — e no último ano

— a cotação do gás acumula perdas superiores

às dos outros produtos que são, por

agora, o grosso das exportações moçambicanas,

como o carvão e o alumínio.

Desde o início do ano, a cotação internacional

do gás natural caiu cerca de 23%,

essencialmente devido ao impacto da pandemia

do novo coronavírus, que compara

com 47% no caso do petróleo (brent

e crude). Os preços do gás, ainda assim,

podem vir a subir, o que é uma boa notícia,

sobretudo a pensar no médio prazo,

quando entrarem em operação os projectos

da Total, na Área 1, e da Exxon-

Mobil e Eni, na Área 4 — ainda que haja

agora dúvidas sobre o futuro do que é liderado

pela companhia norte-americana.

SEPARAÇÃO DE PREÇOS

Em entrevista à EXAME, o advogado

especialista em assuntos petrolíferos, Rui

Amendoeira, explica que nos últimos anos

“temos assistido a uma progressiva desconexão

entre o preço do petróleo e o do gás

natural, sobretudo porque este tem vindo

a desenvolver um mercado com características

próprias cada vez mais independente

de petróleo”.

“O mercado do gás natural foi evoluindo

de um contexto predominantemente doméstico

ou regional para um mercado global,

devido ao aumento da produção e exportação

de gás natural liquefeito (GNL).

Embora os dois produtos continuem a

‘concorrer’ em certa medida, sobretudo

na utilização industrial, a correlação entre

os respectivos preços tem vindo a diminuir”,

assinala o jurista. A procura de gás

natural está também a cair menos nesta

fase da pandemia em relação ao petróleo,

que é “afectado pela drástica diminuição

de mobilidade e consequente redução do

consumo no sector dos transportes”. “Por

outro lado, uma parte do mercado do gás

natural ainda assenta em contratos de

longo prazo entre produtores e compradores,

o que oferece maior estabilidade

de preço”, acrescenta Rui Amendoeira,

que destaca que “a recente guerra comercial

entre a Arábia Saudita e a Rússia teve

maior impacto no aumento da produção

de petróleo, tendo essa circunstância sido

amplificada pela especulação financeira

com os contratos de futuros de petróleo”.

A conjugação destes factores, entre outros,

explica, tem “protegido em alguma medida

A COTAÇÃO DO GÁS

NATURAL JÁ CAIU

23% ESTE ANO, QUE

COMPARA COM 47%

DO PETRÓLEO

o preço do gás natural em comparação

com o do petróleo”, sendo que a produção

de ambas as commodities está interligada.

“A produção de gás natural está, em

certa medida, interligada e dependente

da produção de petróleo, nomeadamente

em relação ao designado ‘gás associado’ —

produzido em conjunto com o petróleo e

como by product deste. A queda abrupta

do preço do petróleo está a provocar uma

redução da produção e um forte desinvestimento

na exploração, e isso vai inevitavelmente

afectar a produção de gás

associado”, diz Rui Amendoeira, que prevê

uma diminuição da produção de gás “no

horizonte próximo e, a prazo, esse factor

irá pôr pressão para a subida do preço”.

Entretanto, quando chegarmos ao próximo

Inverno no Hemisfério Norte, poderemos

ter “a convergência do natural

aumento sazonal de procura para electricidade

e aquecimento com um contexto

de redução acentuada da produção. Nesse

sentido, antecipo uma possível recuperação

do preço nos próximos meses”.

O especialista reforça que “no horizonte

próximo, o baixo preço do petróleo

tem sempre alguma correlação com

a redução do preço do gás, ainda que esses

movimentos tenham algum desfasamento

temporal. No longo prazo, será possível

argumentar que um cenário duradouro de

preços baixos (de petróleo) poderá fazer

com o que os investidores se desloquem

para o mercado do gás natural, incluindo

no investimento em projectos de GNL”.

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

ACELERA

“É um cenário possível, porém os investimentos

em projectos de GNL exigem

recursos financeiros consideráveis, logo

qualquer benefício demorará tempo a concretizar-se

na prática”, alerta Rui Amendoeira,

que vê no processo da chamada

transição energética, no sentido da descarbonização

da economia, algo que a

pandemia poderá acelerar — um outro

ponto a favor do gás, sobretudo no médio

e longo prazo.

“A violenta disrupção do mercado do

petróleo dos últimos meses vai ter um efeito

negativo nas condições futuras de investimento

no sector. A pandemia colocou a

nu os riscos do investimento na actividade

petrolífera, sobretudo no petróleo mais

caro ou de mais difícil extracção. É certo

que o mercado petrolífero está habituado

à volatilidade do preço, mas os acontecimentos

de Março e Maio foram extremos

na sua dimensão”, assinala o responsável.

É que, recorda, o nível de destruição

de preço, de perda de receita, de quebra

de investimentos e de postos de trabalho,

entre outros prejuízos, assumiu contornos

de algo “extraordinário mesmo para

os padrões da indústria petrolífera, e nem

tudo ficou a dever-se à pandemia, porque

há problemas estruturais do sector que

foram ‘destapados’ pela COVID-19”. Em

causa, afirma, está o facto de já antes da

pandemia haver um “permanente excesso

de produção — sobretudo do shale oil

(óleo de xisto) — que torna difícil manter

o preço elevado numa altura em que o

aumento estrutural da procura tem sido

mais limitado”.

Este problema estrutural — de desajuste

entre a procura e a oferta — vai

continuar a existir nos próximos anos,

com muito petróleo a ser extraído e uma

julho 2020 | 47


ENERGIA MERCADO

GÁS: Pode gerar receitas

públicas de 3 mil milhões

de dólares por ano a partir

de 2030

NOS ÚLTIMOS ANOS

TEM HAVIDO “UMA

PROGRESSIVA

DESCONEXÃO ENTRE

O PREÇO DO PETRÓLEO

E O DO GÁS” NATURAL

procura limitada por causa da transição

energética, electrificação dos transportes,

etc. “É natural que este acontecimento

extremo faça acelerar o processo futuro

de desinvestimento no sector do petróleo

bruto em benefício do gás natural e das

energias renováveis”, admite o advogado.

A quebra de preços — e a incerteza quando

ao futuro — tem vindo a causar adiamentos

e suspensões de investimentos, e também

muitas falências no sector do Oil &

Gas, assinala Rui Amendoeira. “O investimento

na nova exploração de petróleo e

gás já está a diminuir e de um modo significativo.

Todas as companhias do sector

anunciaram recentemente cortes importantes

nos seus orçamentos de exploração

e investimento para 2020”, lembra. É que,

explica, num contexto de crise “os investimentos

de capital são os primeiros a serem

sacrificados” e, por outro lado, o investimento

em novos projectos de GNL, ou

expansão dos actuais, poderá ser “posto em

causa também, pois são projectos de capital

intensivo que dependem da existência

de contratos de longo prazo com os compradores

para poderem ser financiados”.

Num cenário em que existe incerteza

sobre o nível de procura futuro, é mais

difícil assegurar esses contratos e/ou convencer

os bancos a financiarem os respectivos

projectos. No entanto, num horizonte

de médio/longo prazo, continuo optimista

em relação ao potencial de crescimento do

mercado GNL”, conclui.

DECISÃO DA EXXON

COM IMPACTO ELEVADO

Moçambique não poderia ser excepção.

O anunciado adiamento da decisão final

de investimento (FID, no acrónimo inglês)

do projecto da ExxonMobil tem efeitos

colaterais profundos em vários sectores

e empresas, alerta o partner da Vieira de

Almeida, Guilherme Daniel. “Este adiamento

tem um impacto muito significativo

junto de diversos fornecedores,

moçambicanos e estrangeiros” que iriam

estar associados ao projecto da Área 4 da

bacia do Rovuma, avaliado em cerca de

25 mil milhões de dólares, quase o dobro

do PIB do país.

Entretanto, felizmente, assinala o jurista,

o projecto Coral Sul, liderado pela italiana

Eni e orçado em perto de 5 mil milhões

de dólares, mantém-se no calendário,

assim como o da Área 1, da francesa Total,

Moçambique LNG, avaliado em cerca de

23 mil milhões de dólares, que já teve decisão

de investimento.

Em meados de Abril, recorde-se, o Gabinete

de Estudos Económicos do Standard

GOLPE QUE O SECTOR

DO PETRÓLEO SOFREU

PODE ACELERAR A

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA,

COM BENEFÍCIO PARA

O GÁS NATURAL

Bank considerou que o adiamento da decisão

final de investimento pela Exxon — justificado

com os efeitos da COVID-19 na

economia mundial — poderá também dificultar

o financiamento do país nos mercados

internacionais, afectar o crescimento

do PIB e prejudicar a balança de pagamentos.

“A pandemia vai provavelmente pressionar

a balança de pagamentos devido

aos baixos preços das matérias-primas,

48 | Exame Moçambique


possivelmente adiar a implementação dos

projectos de GNL na bacia do Rovuma e

[causar] perturbações na actividade económica”,

refere o documento, citado pela

agência Lusa.

A opção da companhia norte-americana

— que já havia adiado a decisão final de

investimento no ano passado — também

mereceu uma nota da S&P Global Platts

Analytics, para a qual este passo atrás pode

mesmo atrasar a primeira exportação de

gás natural de 2025 para 2030.

“O risco à volta dos investimentos no projecto

é exagerado pelo facto de não serem

conhecidos receptores da capacidade, com

a capacidade de exportação a contrair-se”,

alertou o analista Like Cottell, que acrescentou

que “a ExxonMobil deverá suspender

este projecto até que a economia seja

mais favorável, com a produção a ser prevista

apenas em 2030”.

A petrolífera justificou a decisão com as

“difíceis condições de operação decorrentes

do abrandamento da economia a nível

mundial e a redução do preço das matérias-primas

devido à descida da procura”,

no seguimento das medidas decretadas

para conter a propagação da pandemia.

“A ExxonMobil continua a trabalhar activamente

com os seus parceiros e o governo

para optimizar os planos de desenvolvimento,

melhorando as sinergias e explorando

as oportunidades relacionadas com

o ambiente actual de baixos preços”, garantiu

a empresa norte-americana no comunicado

em que anunciou o adiamento — e

no qual não indicou novos prazos para

a decisão.

O analista da Platts, por seu turno, alertou

para que “a queda na oferta de GNL

e a recente e abrupta queda nos preços

do petróleo aumentaram os riscos de um

projecto que já era financeiramente desafiante”,

o que constitui um “revés para

Moçambique”.

UM NOVO FÔLEGO?

Ainda assim, quando arrancarem, os projectos

vão trazer um novo fôlego à fragilizada

economia do país — pelo menos

a acreditar que a “normalidade” de preços

regressará. Em meados do ano passado,

recorde-se, a Bloomberg estimou

em cerca de 95 mil milhões de dólares

até 2045 o impacto, em receitas, dos projectos

de gás em Moçambique. A agência

financeira explicou que os 95 mil milhões

DECISÃO DE ADIAMENTO

DA EXXONMOBIL

AFECTA VÁRIOS

FORNECEDORES DE

PRODUTOS E SERVIÇOS

de dólares resultam da soma de 46 mil

milhões de dólares do consórcio liderado

pela ExxonMobil, com os 49 mil milhões

de dólares estimados com os restantes —

no entanto, estes números já foram revistos

em alta noutras previsões... feitas antes

da pandemia.

EXPORTAÇÕES EM BAIXA

Variação anual

O preço das matérias-primas mais importantes

das exportações de Moçambique caiu nos últimos

12 meses

Gás

natural

-30,9

Carvão

(USD/

tonelada)

-22,69

Fonte: Trading Economics (25/06).

Alumínio

(USD/

tonelada)

-12,53

Açúcar

(USD/libra)

-2,33

Algodão

(USD/libra)

-4,19

À EXAME, Tiago Dionísio, economista-

-chefe da Eaglestone Securities, com escritórios

em Moçambique, Lisboa, Luanda e

Joanesburgo, entre outros, destaca os efeitos

positivos destes projectos, ainda que

haja riscos associados ao facto de o país

passar a depender mais de uma matéria-

-prima para as suas receitas em divisas.

“O gás natural vai trazer enormes benefícios

para Moçambique, apesar de haver

o risco de, no longo prazo, tornar o país

mais dependente desta commodity. Em

primeiro lugar, os actuais investimentos

no sector do gás vão beneficiar também

outras áreas da economia moçambicana,

como a construção, o imobiliário e o retalho.

E, em segundo, o sector do gás vai

trazer importantes receitas para o país.”

O responsável da Eaglestone, que opera

nos segmentos de assessoria financeira, private

equity e mercado de capitais, recorda

que há estimativas que apontam para que

as receitas públicas provenientes do sector

do gás possam rondar os 3 mil milhões de

dólares por ano a partir de 2030. E não tem

dúvidas. “Trata-se de um montante muito

significativo para uma economia como a de

Moçambique, onde o PIB nominal de 2019

era de cerca de 15 mil milhões de dólares.”b

julho 2020 | 49


ENERGIA ESTUDO

MUDAR

OU MORRER

A procura de gás natural poderá cair

este ano 5% a 10% face aos níveis

previstos antes da COVID-19, indica

um documento da McKinsey sobre

o sector do Oil & Gas, a que a

EXAME teve acesso. As perspectivas

para o gás natural são boas

RICARDO DAVID LOPES

OIL&GAS:

O sector tem de

introduzir

mudanças

estruturais para

manter o

desempenho

50 | Exame Moçambique


Não é a primeira vez que o

sector do Oil & Gas está em

crise. Mas esta é diferente,

garante um documento

da McKinsey & Company

sobre o impacto da COVID-19 nesta indústria,

que está agora obrigada a mudar de

vida e a focar-se em alterações profundas

a vários níveis — sob pena de haver mortos

e feridos pelo caminho.

O documento lembra que este é “o terceiro

colapso nos preços nos últimos doze

anos”, mas “é diferente” dos anteriores.

“O contexto actual combina um choque do

lado da oferta com uma quebra na procura

e uma crise humanitária sem precedentes”,

refere o documento, divulgado em Maio.

A saúde financeira da maior parte das

empresas do sector e o advento do petróleo

e do gás de xisto são dois outros factores

que os executivos da indústria têm

agora de ter em conta, refere a McKinsey,

para quem as mudanças que devem ser

aceleradas teriam de ser feitas de qualquer

forma, também a pensar na descarbonização

da economia.

“Sem mudanças fundamentais, será difícil

voltarmos a assistir ao bom desempenho

do sector a que estamos habituados”,

diz o research da consultora, que antecipa

fusões e aquisições em grande escala na

maior parte da cadeia de valor do Oil &

Gas, que tem vindo a sofrer perdas de

rentabilidade nos últimos anos.

A McKinsey — que aponta para uma

recuperação do preço do petróleo para

os níveis pré-COVID entre 2021 e 2022

— refere a “posição favorável” em que

podem ficar o gás natural e o gás natural

liquefeito (GNL) no contexto da transição

energética, que pode “ser acelerada” por

causa dos efeitos da pandemia.

TUDO NOVO, OU QUASE

O documento sublinha que serão “críticos”

para o futuro da indústria factores como

a disciplina financeira, alocação adequada

de capitais, gestão prudente de risco e na

própria governance das empresas.

“Mudar estratégias e modelos de negócio

é imperativo”, sustenta a consultora,

que aponta exemplos de sectores que tiveram

de reinventar-se também no passado

O QUE A INDÚSTRIA

DEVE FAZER:

,REAVALIAR O PORTEFÓLIO

,AFECTAR CAPITAL A PROJECTOS

DE ELEVADO RETORNO

,SER OUSADA PERANTE

OPORTUNIDADES DE FUSÕES

E AQUISIÇÕES

,MUDAR O MODELO

OPERACIONAL PARA CONSEGUIR

MAIS DESEMPENHO E

COMPETITIVIDADE POR VIA DOS

CUSTOS

,GARANTIR A RESILIÊNCIA

DA CADEIA DA OFERTA COM

NOVAS PARCERIAS

,CRIAR A ORGANIZAÇÃO

DO FUTURO, QUER EM TALENTO

QUER EM ESTRUTURA

— como o do aço, automóvel e financeiro,

entre outros.

A crise actual, sublinha a McKinsey,

traz também “novas oportunidades de

liderança, na regulação e na resiliência e

balanço das empresas”, sendo que o foco

dos gestores de muitas destas empresas

— sobretudo as que se endividaram para

desenvolver projectos de óleo de xisto —

deve estar em cinco pontos.

As empresas devem reavaliar o seu portefólio

e alterar “radicalmente a alocação

de capital para projectos e oportunidades

de elevado retorno”; devem ser “ousadas

perante oportunidades de fusões e aquisições”;

alterar o modelo operacional de

forma a conseguirem atingir um novo

patamar de performance e competitividade

por via dos custos; garantir a resiliência

da cadeia da oferta redefinindo

novas parcerias estratégicas; e criar “a

organização do futuro, quer em talento

quer em estrutura”. b

ESCRITÓRIOS DA MCKINSEY: A consultora

analisou o impacto da COVID-19 no

petróleo e no gás

julho 2020 | 51


BAZARKETING

THIAGO FONSECA

Sócio e director de Criação da Agência GOLO.

PCA Grupo LOCAL de Comunicação SGPS, Lda

MUDANDO DE ASSUNTO

O assunto sempre muda. Mas se

há uma coisa que não muda, é que

há sempre assunto. Há sempre algo

para falar. E, já diz a sabedoria popular, a

falar é que a gente se entende.

Falar é comunicar. E a comunicação é

das coisas mais importantes em todos os

aspectos da nossa vida.

O mundo parece ter-se virado do avesso

em 2020. E ainda vamos a meio do ano.

E sem saber o fim. Por isso, a pergunta:

a comunicação é importante neste momento?

OS VERDADEIROS

LÍDERES COMUNICAM

DIARIAMENTE COM OS

MEMBROS DA SUA

EQUIPA. E AS MARCAS

QUE QUISEREM LIDERAR

TÊM DE FAZER O MESMO

COM O PÚBLICO

Com a pandemia, é importante reflectir

na importância da comunicação.

E não apenas da comunicação das marcas.

A comunicação considerada no seu

todo. Porque nunca foi publicidade o que

fazemos. Foi sempre comunicação com

um propósito.

A comunicação continua. Sempre.

O que se comunica muda sempre também.

A história tem as evidências.

Já foi há mais de mil anos a propagação

da fé, da Igreja Católica pelo mundo

inteiro.

Daí o termo propaganda.

A humanidade já passou, em meados

do século xx, por uma era em que se comunicou

a “importância” de fumar tabaco.

O ASSUNTO MUDOU

Agora mudou quase tudo. Estamos na

era do novo coronavírus. Nunca houve

tanto assunto como agora.

E quando a pandemia começou, reflecti

muito sobre as marcas. E o que deveriam

fazer.

As marcas sempre estiveram presentes

nas nossas vidas. Nas vidas dos consumidores.

Será que por motivos racionais de

equações de vendas, ou outras decisões

de gestão, as marcas devem sair das nossas

vidas agora? Ou deverão continuar

ao nosso lado mais do que nunca.

A resposta é simples. Uma marca é

mais forte do que um produto. É uma relação

que é construída. E as relações são

construídas com base em comunicação.

Os consumidores são muito mais do

que esse título atribuído pelo marketing.

São pessoas.

E mais do que relações com os produtos,

estabelecem relações de confiança

com as marcas.

E se as empresas que gerem as marcas

cortarem essas relações, parando a comunicação

mais do que parecer, vão parecer

interesseiras. Porque só aparecem

quando é para vender.

E qualquer pessoa repara. A marca que

fizer isso pode não ter reparo.

O propósito de todos tem de ser maior.

Comunicar não é apenas anunciar. Na sua

forma mais simples, comunicar é falar.

É informação também. E nunca o mundo

esteve tão atento à informação como agora.

Nem nunca se partilhou tanto como

estamos a fazer neste momento.

Por isso, a mensagem para todos os

anunciantes, numa linguagem muito

popular, só pode ser uma. Vá para o ar

para não ir ao ar. Mesmo os negócios

que estejam a sofrer impacto neste momento.

ENQUANTO AS MARCAS

SALVAM VIDAS,

AS EMPRESAS ESTÃO

A SALVAR A VIDA

DESSAS MARCAS

O que devem fazer é mudar o que comunicam.

Mas estarem presentes.

E é com agradável surpresa que vemos

que a maior parte dos anunciantes está a

fazer isso.

O que comprova que a comunicação é

importante.

Agora comunicamos para salvar vidas.

Mensagens sobre o uso da máscara.

Do distanciamento social.

Enquanto as marcas salvam vidas, as

empresas estão a salvar a vida dessas

marcas.

52 | Exame Moçambique


UM BEM ESSENCIAL

A COVID-19 veio revelar que a comunicação

faz parte da lista principal dos essential

goods para a humanidade.

As marcas que mostram empatia, que

aparecem a cuidar, conquistam a simpatia

do público. E isso é importante neste

momento. Mas é mais importante a longo

prazo.

Há uma urgente necessidade de mudar

o que é preciso. De aprender. De investir

e vender os bens essenciais. De as empresas

se transformarem e se adaptarem.

Porque não estamos apenas numa mudança.

Estamos numa evolução.

Charles Darwin, que formulou a teoria

da evolução, disse: “Não é o mais forte,

nem o mais inteligente, que sobrevive.

É o mais disposto à mudança.”

As empresas também estão a adaptar-

-se. A mudar e evoluir. E nessa adaptação

a comunicação interna dentro das

empresas desempenha um papel fundamental.

Os trabalhadores precisam de trabalhar

de novas maneiras. E comunicar internamente

é essencial para a continuidade

saudável de qualquer organização.

As empresas e as marcas de sucesso

têm características positivas bem definidas.

Uma delas é, sem dúvida, serem

boas a comunicar.

Os verdadeiros líderes fazem isso diariamente

com os membros da sua equipa.

E as marcas que quiserem liderar têm

de fazer o mesmo com o público.

Ao contrário do que a “lógica” pode

levar a pensar, a oportunidade é maior

agora.

Já passam mais de seis meses de inundação

de notícias sobre a COVID-19. Todos

os dias e a toda a hora.

As pessoas procuram algo para se distraírem.

E recebem com agrado os anúncios

que têm entretenimento e emoção.

Que nos tocam, nos dão esperança e nos

fazem sentir humanos.

Agora que todas as pessoas estão mais

do que atentas aos telemóveis e se sentam

à frente da televisão para saberem das últimas

do assunto do momento, aqui fica

uma ideia: mude de assunto.b

julho 2020 | 53


GLOBAL OCDE

O GRANDE

COLAPSO

CRISE:

Qualquer dos

cenários traçados

pela OCDE

é muito

preocupante

As economias mais desenvolvidas colapsaram com

a pandemia e a OCDE reviu as suas previsões, apresentando

dois cenários sombrios, um dos quais admite a possibilidade

de um segundo surto antes de 2020 acabar. Caso em que

a economia global se afunda 7,6%

LUÍS FARIA

S

e a crise sanitária que o mundo

vive com o alastramento da

COVID-19 só encontra paralelo

na gripe espanhola do

início do século passado, também

o colapso económico por esta provocado

deverá ultrapassar, em amplitude,

as recessões de que há memória, a última

delas ocorrida em 2008 com a insustentável

valorização de títulos imobiliários

a causar a derrocada do sistema financeiro.

No caso da actual pandemia, a

última projecção é sempre a pior. E a mais

recente é a da OCDE, a Organização para

a Cooperação e o Desenvolvimento Económico,

que agrupa os países mais desenvolvidos,

e faz do seu relatório de Junho

deste ano um extenso apanhado sobre a

crise e as suas consequências. A OCDE

havia feito as suas últimas previsões no

início de Março. Desde então, os surtos

de vírus evoluíram para uma epidemia

global. Os governos tiveram de decretar

o encerramento de grande parte da actividade

económica para conter a pandemia

e salvaguardar os sistemas de saúde,

ganhando tempo para reforçá-los. “A actividade

económica entrou em colapso em

toda a OCDE durante as paralisações, de

20% a 30% em alguns países, um choque

extraordinário. As fronteiras foram fechadas

e o comércio ruiu. Simultaneamente,

os governos implementaram medidas rápidas

de apoio, grandes e inovadoras, para

amortecer o golpe, subsidiando trabalhadores

e empresas. As redes de segurança

NO CURSO DA ACTUAL

PANDEMIA A ÚLTIMA

PROJECÇÃO É SEMPRE

A PIOR

REUTERS

social e financeira foram reforçadas a uma

velocidade recorde. À medida que o stress

financeiro aumentava, os bancos centrais

tomaram medidas contundentes e oportunas,

implementando uma série de políticas

convencionais e não convencionais

acima e além das usadas na Crise Financeira

Global, impedindo que à crise sanitária

e económica se juntasse uma crise

financeira”, refere o editorial do Outlook

da OCDE de Junho, assinado por Laurence

Boone, economista-chefe da organização.

Rastreamentos, distanciamento físico e

isolamento são os principais instrumentos

para combater o vírus e factores indispensáveis

para retomar as actividades

económicas e sociais. Mas não só poderão

ser insuficientes para impedir uma

segunda vaga da infecção, como alguns

sectores, como a aviação, o turismo, os

serviços de alimentação (restaurantes e

outros) e os serviços de entretenimento

não retomarão enquanto não se estancar

a pandemia, que continua a somar casos

confirmados e mortes em todo o planeta.

54 | Exame Moçambique


GETTY

A OCDE sublinha que, com a pandemia,

a grande integração global dissolveu-se

num cenário de fragmentação. As

economias divergem, o seu nível de actividade

depende de quando foram atingidas

pelo surto, as cadeias de valor falham.

O preço das matérias-primas caiu, com a

economias emergentes a serem também

fortemente afectadas pela crise. Assiste-

-se a grandes saídas de capital e a uma

queda substancial das remessas. O largo

contingente de trabalhadores informais e

o acesso à protecção social dificulta ainda

mais o combate ao vírus nestes países.

Os governos, mesmo os dos países mais

ricos, reconhece a OCDE, não conseguirão

“defender a actividade e os salários

do sector privado por um período

DESAFIOS

As economias dos mercados

emergentes e países

em desenvolvimento

permanecem altamente

vulneráveis à recessão

global e à pandemia do novo

coronavírus:

,ELEVADO

ENDIVIDAMENTO

,FORTE DEPENDÊNCIA

DA PROCURA DAS

ECONOMIAS AVANÇADAS

E DA CHINA

,ESTABILIZADORES

FISCAIS AUTOMÁTICOS

MAIS FRACOS

prolongado. Capital e trabalhadores de

sectores e empresas prejudicados terão

de avançar para a expansão. Tais transições

são difíceis e raramente se dão

com a rapidez suficiente para impedir

que aumente o número de empresas falidas,

assim como o desemprego, por um

período sustentável”.

DOIS CENÁRIOS

É perante o que classifica como “extraordinária

incerteza” que a OCDE apresenta

dois cenários, que considera “igualmente

prováveis”, na formulação das suas previsões.

Num deles assume-se que ocorre

uma segunda vaga epidémica em todas as

economias até ao final deste ano. Qualquer

dos cenários é preocupante, em qualquer

julho 2020 | 55


GLOBAL OCDE

LAGARDE,

DO BCE:

A reacção à crise

pelos bancos

centrais foi

notável, diz

a OCDE

deles a actividade económica não volta ao

normal pois o surto pandémico mantém-

-se, com menor ou maior intensidade. No

que é classificado como “duplo impacto”,

a economia global deve cair 7,6% este ano,

não conseguindo atingir o nível pré-crise

no final de 2021. No cenário mais benévolo,

em que se admite que o pico da epidemia

não se repita, o PIB mundial deve cair 6%

este ano, fechando 2021 num nível próximo

do que era registado antes da crise. O relatório

observa que, no caso de ocorrer novo

surto até ao final do ano, a produção global

deverá cair 4,5% no quarto trimestre,

ficando 11% abaixo do nível registado em

idêntico período de 2019, o que se traduzirá

num colapso da actividade económica

que só encontra precedentes na Grande

Recessão de 1928.

Os governos e as autoridades monetárias

reagiram de forma “notável” à crise,

adoptando as medidas que se impunham,

considera a OCDE, mas, em resultado,

VÍRUS INCERTO

Dados incompletos e conhecimentos

insuficientes sobre a natureza do

novo vírus tornam incerta a evolução

da pandemia, acentua a OCDE:

O vírus da COVID-19 é altamente contagioso,

mas a extensão da sua infecciosidade é

incerta. O consenso é que a taxa de

reprodução (ou seja, o número de pessoas

susceptíveis que cada pessoa com o patógeno

infecta, o R0) se situa entre 2 e 3 na ausência

de medidas de contenção, sendo, no entanto,

admitidos números de magnitude superior.

Na ausência de medidas para controlar o

surto, suprimindo as taxas de contacto —

factor não biológico da taxa de reprodução

—, tais números elevados implicariam altas

taxas de infecção das populações. Quando

há rigor nos relatórios, a baixa incidência

de casos confirmados acumulados sugere que

os bloqueios e outras medidas de contenção

conseguiram trazer a taxa de reprodução

efectiva abaixo da unidade, sendo que

o contágio pode voltar a aumentar

acentuadamente quando as medidas

de contenção são relaxadas. No entanto,

se houver uma subnotificação generalizada,

o levantamento das restrições será

acompanhado por um aumento menor

das taxas de infecção.

De facto, a verdadeira extensão da infecção

da população, e quão perto ela está dos níveis

necessários para a imunidade colectiva, é

controversa. Evidências recolhidas em países

com alta intensidade de testagem (por

exemplo, a Islândia e o Luxemburgo) e

estudos nacionais recentes (por exemplo,

os provindos de França e da República Checa)

indicam que apenas cerca de 6% da

população nacional foi infectada, o que

está bem abaixo do nível necessário para

a imunidade colectiva. Além disso,

o grau e duração da imunidade obtidos

através da infecção, a premissa para a

imunidade colectiva, ainda são incertos.

As estimativas da taxa de letalidade tendem

a aumentar com o tempo à medida que as

infecções se espalham globalmente. A ampla

gama de estimativas sugere a importância

de factores biológicos, como as doenças

crónicas, e possíveis factores não biológicos,

como a capacidade dos sistemas de saúde,

na determinação das taxas de mortalidade

do vírus.

A possível sazonalidade do vírus ainda não foi

confirmada. Como as temperaturas quentes

e a humidade o enfraquecem, as infecções

devem diminuir no Hemisfério Norte nos

próximos meses, verificando-se o inverso no

Hemisfério Sul. Mas a sazonalidade também

implicaria que um novo surto ocorresse no

Hemisfério Norte no final do ano.

O momento da descoberta da vacina é, por

definição, incerto, sendo incerto o momento

em que o vírus deixará de constituir uma

ameaça à vida. A vacina para a COVID-19

poderá ser desenvolvida num tempo recorde,

entre doze e dezoito meses, dados os

extraordinários esforços globais que a

comunidade científica e as empresas

farmacêuticas estão a fazer com esse

objectivo.

56 | Exame Moçambique


os défices orçamentais dispararam, a

dívida pública deverá subir para níveis

“excepcionalmente elevados”, as taxas de

juro foram reduzidas a zero ou passaram

mesmo a ser negativas e os balanços dos

bancos centrais ampliaram-se drasticamente.

Os instrumentos utilizados pela

política monetária para enfrentar os efeitos

do surto, como a compra de activos pelos

bancos centrais, não tem, contudo, mais

margem de flexibilização caso ocorra novo

surto ou a recuperação se mostrar especialmente

débil. Cabe, na perspectiva da

OCDE, à política fiscal fornecer estímulos

adicionais. O que não dispensa as autoridades

monetárias de impulsionarem programas

para garantir crédito e liquidez,

assim como de conservar baixas as taxas

de juro. Ou seja, a política monetária deve

ser “acomodatícia”. Se 2021 deverá repor

algum equilíbrio nas finanças públicas, com

melhoria do saldo orçamental e atenuação

das medidas de emergência, estas últimas

não deverão ser abandonadas repentinamente

pelos governos, podendo ser substituídas

por outras que impulsionem mais

a economia.

LONGA SOMBRA

“A crise lançará uma longa sombra sobre

o mundo e as economias da OCDE. Até

2021 terá levado o rendimento per capita

na maioria dos países da OCDE de regresso

aos níveis de 2013 no cenário de duplo

impacto e aos níveis de 2016 no cenário

de um único surto”, refere o relatório,

que realça o impacto da crise na produção

potencial e no emprego. Ao interromper

as cadeias de valor, a crise deverá levar as

empresas a reforçarem a sua resiliência,

encurtando a distância para os seus fornecedores,

preterindo assim os mais longínquos

mesmo que mais eficientes. A OCDE

reconhece que a reformulação das cadeias

de valor poderá prejudicar a eficiência e o

rendimento globais. É um custo da travagem

da globalização.

A aversão ao risco nos mercados financeiros,

que aumentou substancialmente

no início do surto pandémico, tem vindo,

entretanto, a diminuir, nota o documento.

A rápida disseminação da pandemia e as

medidas de contenção adoptadas pelos

CRESCIMENTO

DA ECONOMIA GLOBAL

(em %)

3,3 3,4 2,7 -7,6 -6 2,8 5,2

2012-2019

(média)

2018 2019 2020

com

2.ª vaga

2020

única

vaga

2021

com

2.ª vaga

2021

única

vaga

diferentes países provocaram quedas maciças

no preço dos activos financeiros e o

aumento da volatilidade, com as acções a

caírem, em alguns países, entre 30% e 50%

e ao ritmo mais rápido desde 1987. As respostas

“rápidas e abrangentes” dos bancos

centrais ajudaram a que se restabelecesse

alguma estabilidade, com a reversão parcial

nos movimentos dos activos financeiros

e menor volatilidade. Mesmo assim,

em muitas grandes economias o preço das

acções situa-se entre 10% e 20% abaixo dos

níveis do final de 2019.

Sendo global, a pandemia produz um

choque assimétrico pelo mundo fora.

É certo que, num mundo fortemente interligado

por cadeias de fornecimento, fluxos

turísticos internacionais e investimentos,

todas as economias são afectadas pelas

interrupções na oferta e na procura, mas

os países que já enfrentavam vulnerabilidades,

no plano da dívida, por exemplo,

terão mais dificuldade em recuperar do

que outros que puderam adoptar medidas

fiscais e monetárias de combate à propagação

do vírus mais poderosas. Ora, os

países em desenvolvimento e os de baixo

e médio rendimento apresentam dívidas

elevadas. O esforço financeiro exigido

para combater a pandemia pressiona fortemente

as contas públicas, num contexto

de forte densidade populacional, dificuldades

em assegurar o distanciamento

social devido às condições de alojamento

e transporte de largas camadas da população

e sistemas de saúde que não dispõem

das condições necessárias para responder

com eficácia. O amplo sector informal

da economia condiciona as medidas

de confinamento. Além do esforço financeiro

extraordinário, os países de médio

e baixo rendimento confrontam-se com

a retracção do investimento no mercado

internacional. “É provável que uma incerteza

considerável também prevaleça por

um longo período, impedindo o investimento,

mesmo que uma nova onda da pandemia

possa ser evitada”, assinala a OCDE.

O comércio, tanto o fronteiriço como o

de longa distância, deverá retrair-se substancialmente,

com a pandemia a ditar o

esfumar da confiança da procura e a interrupção

nas cadeias de fornecimento, o que

levará à sua reformulação. Mas o crescimento

das transacções globais já vinha

abrandando e experimentado episódios

como a guerra de tarifas entre os Estados

Unidos e a China e o Brexit. A pandemia

destapou vulnerabilidades da economia

internacional. E os custos elevadíssimos

associados a estas fragilidades, quando

ainda não se descortina no horizonte o

termo da crise sanitária, podem ser duradouros.

b

DESENVOLVIDOS

ENDIVIDAM-SE

pontos percentuais do PIB

A OCDE faz as projecções para a dívida

pública nas principais economias no período

2019-2021

Apenas um surto

8,2

18,61

OCDE

6,83

24,49

Estados

Unidos

Com nova vaga

10,37

16,98

Zona

Euro

9,17

22,43

Japão

0,88

4,93

Coreia

Fonte: OCDE.

julho 2020 | 57


GLOBAL FORTUNAS

QUEM GANHA E QUEM

PERDE COM A PANDEMIA

Lojas físicas e comércio electrónico são duas faces da mesma moeda. Jeff Bezos e Bernard

Arnault os antagonistas: o primeiro ganhou com a valorização da Amazon o que o segundo

perdeu com a desvalorização do grupo LVMH

ALMERINDA ROMEIRA

GETTY

58 | Exame Moçambique


C

ara ou coroa? Bernard Arnault,

o francês que define o gosto

dos milionários, a segunda

pessoa mais rica do mundo

em 2019 de acordo com a Forbes,

não precisa de jogar a moeda ao ar

para saber que, por agora, perde. A pandemia

obrigou ao confinamento de 4,5

mil milhões de pessoas entre meados de

Março e início de Maio de 2020, e encerrou-lhe

as cerca de 5 mil boutiques de

luxo, emagrecendo em milhões de dólares

as receitas da divisão de negócios mais

rentável do LVMH — Louis Vuitton Moët

Hennessy, um império de 75 insígnias,

das bebidas à moda, dos perfumes e cosméticos

aos relógios e jóias. Arnault não

só não facturou em loja, o que se reflecte,

já, nas receitas do primeiro trimestre, que

caíram 15%, como, em consequência, as

acções na bolsa chegaram a deslizar 20%.

Dono da Fendi, Givenchy, Marc Jacobs,

Bvlgari, TAG Heuer, Dom Pérignon, Moët

& Chandon e um dos maiores accionistas

do supermercado Carrefour e da rede

de hotéis Belmond, dona do mítico Copacabana

Palace, o empresário opera negócios

com margens superiores a 20%.

O número permite-lhe aguentar a moeda

no ar enquanto não chegam melhores dias,

o que (inevitavelmente) acabará por suceder.

Não há realidade mais dinâmica do

que a da bolsa de valores e o LVMH integra

o CAC 40, principal índice da Euronext

Paris.

Nos trinta e cinco anos que leva na alta

voltagem, nunca antes, porém, o francês

enfrentou uma tão grande tormenta.

Engenheiro de profissão, geria o negócio

de construção da família quando tropeçou

na falência do grupo Boussac, detentor

da maison Christian Dior. A partir daí, a

história faz-se de aquisições, fusões, reestruturações

e rasgo. O cimento é o marketing

tradicional em contracorrente com as

tendências modernas. De Arnault conta-

-se que, um dia, terá perguntado a outro

mago do marketing, Steve Jobs, fundador

da Apple, que o admirava profundamente,

se sabia onde estaria o iphone daí

a vinte anos — é que ele tinha a certeza

que o Moët & Chandon continuaria a ser

bebido trinta ou cinquenta anos depois.

DE LIVRARIA

DE GARAGEM A UM TRILIÃO

Jeff Bezos é hoje o homem com mais

motivos para erguer a taça do precioso

néctar. Tal como Arnault, construiu um

mega-império na época da globalização,

o paradigma em que se move o mundo

desde a viragem do milénio, mas na moeda

do comércio optou pela coroa: a loja on-

-line. Durante o lockdown, o seu património

líquido engordou o que o património

líquido do dono das lojas de luxo emagreceu,

à volta de uns 25 mil milhões de

dólares. O número escreve-se com nove

zeros, tem uma magnitude equivalente ao

produto interno bruto da Letónia e quase

duplica o de Moçambique.

As medidas de isolamento social para

conter o contágio do novo coronavírus

restringiram a circulação das pessoas

numa dimensão planetária. Com lojas,

livrarias, restaurantes, bares e centros

comerciais fechados, muitas necessidades

e desejos só puderam ser satisfeitos

por via do comércio on-line. A Amazon

foi as pernas de muita gente e ganhou

(ainda) mais músculo. Contratou 175 mil

pessoas nos Estados Unidos e priorizou

a entrega de produtos essenciais de margens

mais estreitas. No primeiro trimestre

do ano, as suas vendas aumentaram

cerca de um quarto, mas o accionista diz

que não foram suficientes para impedir a

queda das receitas. A sua imagem também

foi salpicada por denúncias sobre o

tratamento dado aos trabalhadores nos

centros de distribuição, onde vários terão

testado positivo ao vírus. Wall Street foi

indiferente a isso. O aumento do valor das

acções chegou a atingir a fasquia dos 30%,

impulsionando o património líquido de

Bezos — o visionário que, com a mulher

MacKenzie (outra ganhadora da pandemia)

fundou, nos anos 90, a primeira

livraria on-line do mundo na garagem da

casa onde viviam.

A lista anual de bilionários da Forbes,

publicada em 7 de Abril último, assinala

que o impacto devastador do coronavírus

e a queda no número reflecte, já, o

impacto da pandemia. Ainda assim, e

de acordo com o Bloomberg Billionaire

Index, oito bilionários tinham, até 10 de

JEFF BEZOS: O valor

das acções da

Amazon disparou

em Wall Street

COMO

DISPAROU

A RIQUEZA

Cerca de uma dezena de

bilionários viu aumentar o

património líquido em mais de

mil milhões (MM) de dólares

entre o início do ano e 10 de Abril,

segundo o Bloomberg Billionaire

Index.

▸Jeff Bezos, fundador e CEO

da Amazon: 10 MM de dólares

(25 MM até 15 de Abril)

▸Elon Musk, CEO da Tesla e

fundador e CEO da SpaceX: 5 MM

▸MacKenzie Bezos, filantropa,

ex-mulher de Bezos: 3,5 MM

(8,6 MM até 15 de Abril)

▸Eric Yuan, Fundador e CEO

da Zoom: 2,58 MM

▸Steve Ballmer, Ex-CEO da Microsoft

e dono dos Los Angeles Clippers: 2,2

MM

▸John Albert Sobrato, magnata do

imobiliário de Silicon Valley: 2,07 MM

▸Joshua Harris, co-fundador do

fundo Apollo Global Management:

1,72 MM

▸Rocco Commisso, fundador e CEO

do Mediacom Communications:

1,09 MM

Abril, enchido os bolsos em mais de mil

milhões.

Na realidade, a valorização das acções

acelera em contramão com a economia,

um paradoxo difícil de entender quando

todos os indicadores reais são negativos.b

julho 2020 | 59


GLOBAL FORTUNAS

CRUZEIROS AFUNDAM

NO MAR ALTO

A próspera indústria dos cruzeiros foi ao fundo e as

companhias de aviação despenharam-se, o que não impediu

o alemão Heinz Hermann Thiele de se tornar, em três meses,

o maior accionista da Lufthansa

ALMERINDA ROMEIRA

A

Scarlet Lady não vai levantar

âncora tão cedo. O barco de

277 metros de comprimento,

construído nos estaleiros da

Fincantieri em Génova, Itália,

marca(va) a estreia de Richard Branson

no negócio dos cruzeiros. A viagem inaugural,

prevista para Abril de 2020, não chegou

a realizar-se devido à COVID-19, adiando,

não se sabe para quando, as esperanças do

excêntrico bilionário inglês de começar a

rentabilizar o investimento de 600 milhões

de dólares. Com um império construído na

aviação, media e fitness, o entusiasta das

viagens espaciais é o último milionário a

entrar no negócio das “aldeias flutuantes”.

Arne Wilhelmsen é o grande capitão

desta indústria. O milionário norueguês

A INDÚSTRIA DOS

CRUZEIROS VALE CERCA

DE 150 MIL MILHÕES DE

DÓLARES E DEVERIA

ESTAR A VIVER EM 2020

O SEU MELHOR ANO

DE SEMPRE

que, em 1968, antecipando a altura em

que as férias se democratizavam, ajudou

a fundar a Royal Caribbean Cruises e a

quem o sector deve a sua visão moderna.

A empresa é hoje cabeça do segundo maior

grupo de cruzeiros do mundo. O terceiro

é o Norwegian Cruise Line e o primeiro, o

grupo Carnival, que opera uma dezena de

marcas (entre as quais Princess Cruises,

Seabourn, Costa, AIDA e Cunard) e uma

frota de mais de 100 navios, que escalam

em 700 portos. Ironia do destino: como se

não lhe fosse suportável ver o que o futuro

lhe reserva, Arne Wilhelmsen despediu-se

da vida aos 90 anos, na segunda semana

de Abril, em pleno lockdown. Em Palma

de Maiorca, capital das ilhas Baleares, em

Espanha, não foi revelada a causa da morte.

A indústria dos cruzeiros está avaliada em

cerca de 150 mil milhões de dólares e deveria

estar a viver em 2020 o seu melhor ano

de sempre. O boom. Os números compreendiam

um reforço de 19 novas embarcações

60 | Exame Moçambique


do género Scarlet Lady, um investimento

total de 9 mil milhões de dólares, e um

total de 32 milhões de passageiros estimados

pela Associação Internacional de

Linhas de Cruzeiros. Naturalmente, tudo

isso foi anunciado antes do novo coronavírus

surgir na cidade chinesa de Wuhan,

no final de 2019, e vir alterar o curso normal

da vida na Terra.

Nesta altura do ano, em que é Verão no

Hemisfério Norte e a maioria das pessoas

goza férias, a frota de 340 navios que deveria

estar em alto mar afundou. A caixa

registadora deixou de facturar e as empresas

enfrentam agora custos de manutenção

elevados para evitar o deteriorar dos equipamentos,

pedidos de reembolso pelas viagens

não realizadas e processos judiciais de

GETTY

passageiros que perderam parentes e tripulantes

que adoeceram. Só resta mesmo

aguentar o barco. É o que tentam fazer,

recorrendo ao crédito e colocando activos

no prego. O jornal inglês Financial Times

noticiou, recentemente, mais de 12 “bis” de

empréstimos. Em Maio, a Norwegian entregou

dois navios e duas ilhas como colateral

a troco de 2,4 biliões de dólares. Numa

operação idêntica, a Carnival levantou

6,4 biliões e a Royal Caribbean, cujo rating

de crédito foi despromovido ao nível do lixo

pelas agências de notação S&P e Moody’s,

captou 3,3 mil milhões.

No jogo da moeda ao ar, os cruzeiros são

o sector que mais perde com a crise sanitária

e económica provocada pela COVID-19.

A coroa da tecnologia, a sua antítese. Terão,

porventura, também a recuperação mais

difícil, embora as principais companhias

se tenham apressado a garantir que o nível

de reservas para 2021 atinge níveis anteriores

à pandemia. Restabelecer a confiança é

um factor crítico. Não será fácil. Na memória

do mundo estão frescas ainda as imagens

do Diamond Princess de quarentena,

ao largo da costa de Yokohama, no Japão,

ainda em Fevereiro. O navio da Princess

Cruises, onde se verificou o primeiro surto

a bordo, tinha na altura o maior número

de casos de contágio de COVID-19 fora da

China e, de acordo com dados da Universidade

Johns Hopkins, 13 dos 712 infectadas

a bordo morreram. Durante semanas,

as televisões brindaram o mundo com o

espectáculo de navios obrigados a saltar de

porto em porto, com país após país a recusar

autorização de acostagem devido às restrições

para travar a COVID-19. O jornal

Miami Herald, que acompanha o sector,

fez recentemente as contas: 82 óbitos em

consequência do vírus contraído nos cruzeiros,

número que, apesar de tudo, fica

diluído no mais de meio milhão de vítimas

da COVID-19 registadas até início de

Julho em todo o mundo.

O VOO DE HERMANN THIELE

Com registo nas Bahamas, nas Bermudas,

no Panamá e até na Libéria, os cruzeiros

estão, à partida, excluídos dos resgates

que alguns governos de países ricos estão

a fazer em alguns sectores. Por exemplo, o

da aviação, outro grande perdedor da crise.

Em Junho, a International Air Transport

Association (IATA) anunciou perdas estimadas

de 84 mil milhões de dólares para

este ano. Em 2020, as receitas deverão rondar

os 419 mil milhões, isto é, metade de

2019, o equivalente ao PIB da Noruega.

Enquanto governos, empresas e empresários

discutem pacotes de ajuda estatal

e alguns, como Michael O’Leary, dono da

Ryanair, consideram que são um atropelo

à livre concorrência, os aviões começam

aos poucos a regressar aos céus. A União

Europeia reabriu o espaço aéreo no dia

1 de Julho a 15 países. De fora ficaram os

Estados Unidos, Brasil e Rússia por não

oferecerem ainda garantias no controlo

do surto.

HEINZ HERMANN THIELE:

Num surpreendente golpe relâmpago

tornou-se o maior accionista da Lufthansa

RICHARD BRANSON:

O excêntrico milionário teve uma estreia

desastrosa no negócio dos cruzeiros

julho 2020 | 61


GLOBAL FORTUNAS

A transportadora aérea alemã Lufthansa,

que há dois meses e meio tinha toda a frota

em pista, acaba salva por um resgate de

9 mil milhões de euros, o equivalente a 10,1

mil milhões de dólares, do Estado e será

reestruturada. Porém, a ironia tem destas

coisas: a crise que arrasou este gigante dos

céus deu ao mundo o mais novo multimilionário

da aviação. Chama-se Heinz Hermann

Thiele e tem 79 anos. Nascido durante

a Segunda Guerra Mundial, na Alemanha de

Hitler, self made man, fez fortuna nos negócios.

Actualmente, é accionista maioritário

e administrador honorário da Knorr-Bremse,

líder mundial em sistemas de travagem

para veículos ferroviários e comerciais

e tem, segundo a Forbes, uma fortuna estimada

em 15,3 mil milhões de dólares.

Em Março, quando o tráfego aéreo começou

a abrandar devido ao coronavírus e as

acções da Lufthansa vieram por aí abaixo,

Thiele viu a oportunidade de multiplicar

os cifrões. Num surpreendente golpe

relâmpago, tornou-se o maior accionista

com 15,2%. Primeiro comprou 3%, passou

para 5%, depois para 10, até chegar à actual

posição. Embora contrário ao resgate decidido

pelo governo liderado pela chanceler

Angela Merkel, que lhe vai encurtar a posição,

votou a favor. Há razões para acreditar

que depois da reestruturação a companhia

ficará mais forte, que o mesmo quererá dizer

mais valiosa. Genial.

O encerramento do espaço aéreo mundial,

que obrigou os aviões a ficarem em terra,

custa à Ibéria 7 milhões de euros por dia.

Contas de Luis Gallego, CEO da transportadora,

que integra o grupo IAG, que inclui

a British Airways, ao jornal El País. O plano

de reestruturação para tentar vencer a sangria

da espanhola será gradual. “Seremos

mais pequenos mas estaremos vivos, o que

ainda não está claro que outras companhias

aéreas possam dizer”, acrescentou.

Olhando para o ar, a IATA não prevê que

a procura do transporte aéreo regresse aos

níveis em que estava antes da COVID-19

antes de 2023 ou 2024. Sir Richard Branson,

número 565 da Forbes, com cerca de

4 biliões de património líquido, que já perdeu

nos cruzeiros, enfrenta nos céus a principal

tempestade. Numa tentativa de evitar o

colapso financeiro da Virgin Atlantic, com

sede no Reino Unido, e da Virgin Australia,

sediada na Austrália, e salvar 70 mil empregos,

não hesitou em oferecer a ilha Necker

nas Caraíbas, onde vive, como garantia para

empréstimos. Caso para dizer que também

os ricos levam à letra a máxima “vão-se os

anéis, fiquem os dedos”. b

NA DISNEY FOI MESMO CARA E COROA

Isto de ganhar e perder nem sempre é óbvio. A pandemia obrigou o gigante de entretenimento norte-americano, Disney, a

encerrar os parques de diversões quando o confinamento se tornou obrigatório, o que, segundo o CEO, Bob Chapek, custou

à bilheteira 1,4 mil milhões de dólares. Em simultâneo, porém, a procura de serviços de streaming explodiu. A plataforma

Disney+, lançada em Novembro, contabiliza 55 milhões de assinantes, número que a Netflix levou cinco anos a alcançar.

O entretenimento doméstico é um dos vencedores da quarentena, reforçando a tendência crescente que vinha de trás.

Já as empresas de entretenimento que dependem de grandes multidões estão entre as primeiras vítimas do coronavírus.

O Cirque du Soleil, por exemplo, avançou no fim de Junho com um pedido de protecção para evitar a falência devido aos

efeitos da pandemia.

DISNEY:

A COVID-19 custou

ao gigante

do entretenimento

1,4 mil milhões

de dólares

62 | Exame Moçambique


julho 2020 | 63


GLOBAL FORTUNAS

OS NOVOS BILIONÁRIOS

DA TECNOLOGIA

Entre as histórias milionárias do lockdown destacam-se as de Eric Yuan, engenheiro

de software, pai da Zoom, que ganhou perto de três “bis”, e de Tobias Lütke, da Shopify,

que se tornou a empresa mais valiosa do Canadá

ELON MUSK:

Conseguiu que os

investidores

atribuam mais valor

à sua Tesla que à

Toyota

REUTERS

64 | Exame Moçambique


Tobias Lütke, o alemão naturalizado

canadiano, gosta que

comparem os seus escritórios

aos melhores hotéis-boutique

de Otava. Não faltam chesterfields,

máquinas de cerveja e salas de

ioga. Este programador autodidacta, que

na juventude quis montar uma loja virtual

de equipamentos para a prática de

snowboard e, não a encontrando, acabou

por desenvolver a sua própria solução,

é a estrela que mais brilha na galáxia

fervilhante da bolsa mais poderosa do

mundo. Em Wall Street, este ano, a Shopify,

empresa que fundou em 2004, acumula

ganhos superiores a 100%.

Aos 39 anos, o entrepreneur não tem

(ainda) a fama nem a fortuna de Jeff Bezos

ou Mark Zuckerberg, mas durante a crise

a sua empresa e, por consequência, a sua

fortuna, teve um ritmo de crescimento

superior ao dos seus antagonistas. O valor

de mercado da Shopify superou os 100 mil

milhões de dólares, bateu o Royal Bank of

Canadá e tornou-se a empresa mais valiosa

da 16.ª economia do mundo, o Canadá.

Lütke anunciou, recentemente, acordos

com a Walmart e o Facebook, que dão

aos comerciantes que utilizam a sua plataforma

on-line a possibilidade de vender

pelo Facebook Shop e Instagram. Ou seja,

impulsionou o crescimento da empresa e

a sua conta pessoal, que, na altura em que

investigávamos para este artigo, ascendia

a 6,6 mil milhões.

A tecnologia é o sector que mais valorizou

nestes meses de crise sanitária, que

encontrou no home office a saída possível.

Que o diga Eric Yuan, engenheiro de software,

pai da Zoom. O papel da sua “mina

de ouro”, a plataforma de videoconferências,

ultrapassou os 223 dólares, cinco vezes

mais do que o preço da oferta pública inicial

(IPO, na sigla inglesa) com que entrou

no mercado há apenas catorze meses.

Chinês de nascimento, Yuan emigrou

com alguma dificuldade para os Estados

Unidos, onde obteve a dupla nacionalidade.

Fez carreira na WebEx, empresa comprada

pela Cisco, em 2007, da qual levou tampa

quando apresentou um projecto de videoconferências,

o que o levou a bater com a

porta, sacudir a frustração e fundar, em

2011, a empresa sem a qual teria sido mais

difícil ao mundo empresarial colocar os

trabalhadores em teletrabalho.

Eric Yuan é hoje um dos 300 homens

mais ricos do mundo. Um bilionário,

com uma fortuna idêntica à de Tobias

Lütke. Vive o sonho americano na plenitude

e agradece ao novo coronavírus os

300 milhões de utilizadores conquistados

durante o lockdown. As videoconferências

revelaram-se um filão tão proveitoso

que a Microsoft e a Cisco, que, não o ouviram

quando Yuan lhes propôs o negócio,

estão-lhe no encalço.

MARCAS

CONTRA O ÓDIO

MEXEM NO

BOLSO DE

ZUCKERBERG

As grandes marcas da indústria

estão a tomar posição contra o

ódio, deixando os bolsos de Mark

Zuckerberg um tudo nada menos

cheios. O movimento que está a

cavalgar a onda acontece durante a

crise da COVID-19, que ainda assola

o mundo, mas vai muito para além

dela. À medida que se aproximam

as eleições presidenciais nos

Estados Unidos, o discurso na rede

social polariza-se e gigantes como

a Unilever, Verizon e Coca-Cola

decidiram cortar a publicidade

no Facebook. Em bolsa, o papel

veio por aí abaixo e a fortuna do

fundador e CEO da empresa sofreu

um golpe de 7 mil milhões de

dólares. É cedo para avaliar

a extensão do estrago

de Zuckerberg, que terá sido um

dos que mais ganhou com

o confinamento global.

TRAVÕES A FUNDO

COM EXCEPÇÃO DE MUSK

Na frota da indústria automóvel mundial,

apenas uma fortuna acelerou nos

últimos meses, a de Elon Musk. O accionista

maioritário da Tesla “pesa” agora

uns módicos 38,2 mil milhões de dólares,

segundo a Business Insider. O facto

não terá directamente a ver com a crise,

mas tão simplesmente com a lógica das

expectativas que faz mover Wall Street,

onde a fabricante está cotada. Um e-mail

em que Musk dizia aos colaboradores que

está tudo a postos para iniciar a produção

em série do camião Semi, o primeiro

da empresa, terá transpirado para o mercado

e provocado a euforia dos investidores.

Seja como for, as acções da Tesla,

que há um ano, sim, há um ano, valiam

170 dólares, atingiram no dia 10 de Junho

os mil dólares por acção, elevando a capitalização

bolsista para a casa dos 190 mil

milhões de dólares.

O papel Tesla, por norma, sobe e desce,

qual carrossel, sempre que o excêntrico

empresário sul- africano-canadiano fala

ou “tuita”. Ignora-se, portanto, em que

sentido irá a sua evolução nos próximos

tempos, contudo não deixa de ser

impressionante que os investidores atribuam

mais valor a uma empresa que, em

2019, vendeu menos de 400 mil carros do

que à japonesa Toyota, que comercializou

10 milhões.

Durante a pandemia, a generalidade

da indústria automóvel travou a fundo,

parando a produção e colocando linhas

de montagem ao serviço da comunidade

— em Espanha, a Seat produziu ventiladores,

e na Alemanha a Mercedes-Benz pôs

as impressoras 3D a fabricar componentes

individuais para equipamentos médicos.

Nos stands fechados, as vendas foram ao

zero. Só o grupo Volkswagen, maior fabricante

do mundo, produziu menos 23% entre

Janeiro e Março, com o volume de negócios

a recuar 8,3% para 61,8 mil milhões

de dólares (55,1 mil milhões de euros).

Menos produção, menos vendas, menos

lucros — este é o retrato de um sector que

vive actualmente uma fase complexa de

transição rumo a um futuro mais ecológico.

A.R. b

julho 2020 | 65


DESPORTO FÓRMULA 1

EM MODO

CURTO-CIRCUITO

CIRCO: Está de volta em versão

condensada devido à crise pandémica

Lewis Hamilton e a Mercedes partem superfavoritos no Mundial

de F1 mais atípico dos últimos anos, já que a pandemia reduziu o calendário original

e trouxe alguma incerteza ao circuito

ANDRÉ PIPA

66 | Exame Moçambique


A FIA, FACE AOS EFEITOS

DA PANDEMIA, FEZ

APROVAR UM PACOTE

DE ALTERAÇÕES AOS

REGULAMENTOS DA F1

Os adeptos europeus perderam três GP

clássicos por causa do vírus — Holanda

(Zandvoort), França (Paul Ricard) e, sobretudo,

Mónaco, mais o seu inigualável circuito

citadino de Monte Carlo. Os fãs da

modalidade podem, entretanto, ter um

inesperado jackpot se a Federação Internacional

do Automóvel (FIA) confirmar

a notícia que corre com insistência nos

bastidores: a realização de um Grande

Prémio no Autódromo Internacional do

Algarve (AIA), em Portimão, Portugal,

(será o 26.º Grande Prémio de Portugal),

possivelmente a 27 Setembro. Recentemente

reclassificado pela FIA com a nota

máxima para circuitos (grau 1), a pista da

Mexilhoeira Grande — tem 4,684 quilómetros,

16 curvas e todas as infra-estruturas

de apoio exigidas pelo “circo” — poderá,

à semelhança da Áustria e da Grã-Bretanha,

acolher uma segunda corrida a 4 de

Outubro sob a designação Grande Prémio

do Algarve. A confirmar-se, é uma grande

notícia para os fãs portugueses, que não

vêem um Grande Prémio em Portugal

desde que o Estoril acolheu a última corrida

em Setembro de 1996 (vitória de Jacques

Villeneuve em Williams-Renault).

A F1 movimenta milhões e é um dos poucos

desportos verdadeiramente globais,

garantindo por isso um impacto mediático/promocional

nessa escala de grandeza.

Além dos GP da Austrália (que abrem a

temporada), Holanda, Mónaco e França,

também foram cancelados os GP do Azerbaijão,

Singapura e Japão. O director desportivo

e técnico da Fórmula 1, Ross Brawn,

já garantiu que a recta final do campeonato

decorrerá no Médio Oriente — Bahrain e

Abu Dhabi estão confirmados — e afirmou

que não está “descartada a possibilidade

de algumas corridas poderem contar com

público se a situação da pandemia evoluir

favoravelmente”.

Preocupado com o efeito devastador

do coronavírus no desporto automóvel

em geral e na F1 em particular — nem

todas as escuderias têm o músculo financeiro

da Ferrari, Mercedes ou Red Bull

—, a FIA não perdeu tempo a prevenir o

futuro e fez aprovar, através do seu Conselho

Mundial, um pacote de alterações

aos regulamentos desportivos e técnicos

da F1, sobressaindo a obrigatoriedade de

redução em 2021 do limite de despesas

O

piloto inglês Lewis Hamilton

e a Mercedes são as apostas

mais seguras para os títulos

de pilotos e construtores

no Mundial de F1, cuja

71.ª temporada fica desde já marcada pelos

efeitos da pandemia COVID-19. Aquele

que seria o campeonato com mais corridas

da história (22) encontra-se, por ora,

reduzido a uma primeira etapa europeia

com oito grandes prémios confirmados

até ao dia 13 Setembro, não se sabendo

onde e quando se disputarão as restantes

corridas — estão previstas mais sete,

podendo, se a pandemia permitir, chegar

a dez. Confirmados estão o GP da Áustria

com dose dupla no Red Bull Ring de

Spielberg, a 6 e 12 de Julho — este último

levará a designação GP da Estíria; o GP

da Hungria (Hungaroring), a 19 Julho; o

GP da Grã-Bretanha, com nova dose dupla

em Silverstone, a 2 e 9 Agosto, sendo que

a segunda corrida comemora os 70 anos

da Fórmula 1; o GP de Espanha na Catalunha,

a 16 Agosto; o GP da Bélgica, em

Spa-Francorchamps, a 30 Agosto; e o GP

de Itália, em Monza, a 6 Setembro.

por equipa e por temporada de 157 para

130,8 milhões de euros. Nos anos seguintes

esse limite será ainda mais restritivo.

HEGEMÓNICOS

Em termos desportivos, a potência e fiabilidade

da Mercedes garantem a Lewis

Hamilton a possibilidade de concretizar

aquilo que se julgava “impossível”: igualar

os sete títulos mundiais de Michael

Schumacher e suplantar, de passagem, o

recorde de vitórias (91) em grandes prémios

do malogrado piloto alemão. Hamilton

tem 84 triunfos e a única dúvida é

julho 2020 | 67


DESPORTO FÓRMULA 1

A MERCEDES CONTINUA

INACESSÍVEL, A DESPEITO

DA AMEAÇA QUE

REPRESENTA MAX

VERSTAPPEN (RED BULL)

POKER DE ASES

MERCEDES AMG PETRONAS

Director: Toto Wolff

Director técnico: James Allison

Monolugar: F1 W11

Motor: Mercedes F1 M11 EQ

Pilotos:

Lewis Hamilton (Grã-Bretanha),

250 GP – 84 vitórias – 151 pódios

Valtteri Bottas (Finlândia) - 139 GP

– 7 vitórias – 45 pódios

SCUDERIA FERRARI

Director: Mattia Binotto

Director técnico: Simone Resta

Monolugar: SF1000

Motor: Ferrari 065

Pilotos:

Sebastian Vettel (Alemanha),

240 GP – 53 vitórias – 120 pódios

Charles Leclerc (Mónaco) - 42 GP

– 2 vitórias – 10 pódios

RED BULL RACING

Director: Christian Horner

Director técnico: Pierre Wache

Monolugar: RB16

Motor: Honda RA620H

Pilotos:

Max Verstappen (Holanda), 120 GP

8 vitórias – 31 pódios

Alexander Albon (Tailândia) - 21 GP

0 vitórias – 0 pódios (melhor res.

6.º lugar)

McLAREN

Director: Andreas Seidl

Director técnico: James Kay

Monolugar: MCL35

Motor: Renault E-Tech 20

Pilotos:

Carlos Sainz Jr. (Espanha), 102 GP

0 vitórias – 1 pódio

Lando Norris (Grã-Bretanha)

21 GP – 0 vitórias – 0 pódios

(melhor res. 6.º lugar)

LEWIS HAMILTON:

A possibilidade de igualar

os sete títulos mundiais

do Michael Schumacher

saber em que corrida e em que circuito

vai ultrapassar de vez a marca de Schumi.

A superioridade de Lewis e da Mercedes

tem sido de tal forma vincada e constante

que nenhum outro cenário, como

o eventual triunfo do vice finlandês Valtteri

Bottas, é de equacionar... pelo menos

em circunstâncias normais. Hamilton é

a marca registada do gigante alemão e

ninguém tem dúvidas sobre qual é o foco

principal da equipa de Toto Wolff: a conquista

do histórico duplo “hepta” — o do

piloto e o da construtora que, a acontecer,

seria o sétimo consecutivo (!), superando

definitivamente o recorde (6) da

rival Ferrari.

Os treinos na Catalunha para o [posterioremente

cancelado] GP da Austrália

confirmaram a ideia de que a Mercedes

continua inacessível, a despeito da ameaça

que representa Max Verstappen (Red

Bull), que surgiu bastante forte na recta

final da temporada passada. O holandês

Jan Lammers, antigo boss da A1 Team

Netherlands (onde correu Jos Verstappen,

pai de Max), considera que este

pode ser o ano do compatriota: “Talvez

Max esteja a começar aquilo que pode

vir a ser a sua primeira campanha bem-

-sucedida no Mundial. A Red Bull esteve

fiável em Barcelona e a minha intuição é

que eles estão bem melhor do que pensamos.

Creio que a Mercedes descobrirá

como é difícil conseguir sete títulos mundiais

seguidos. Este pode ser o ano da Red

Bull e de Max Verstappen”, disse Lammers.

O próprio piloto, de 22 anos, acredita

nessa possibilidade: “Estou ansioso

para começar depois de uma pausa muito

longa e vou tentar lutar pela vitória em

todas as corridas”, declarou Max à cadeia

RTL. “Toda a equipa tem como objectivo

vencer o campeonato”, acrescentou Verstappen,

que se estreia a correr em casa —

dois GP seguidos no Red Bull Ring de

Spielberg. O holandês diz que a ausência

de público “não prejudica o meu verdadeiro

objectivo: vencer as duas corridas”.

Voltando à favorita Mercedes, o facto

de ambos os pilotos terminarem contrato

no final deste ano, aliado à anunciada

saída de Sebastian Vettel da Ferrari

(será substituído pelo espanhol Carlos

Sainz Jr.) tem sido fonte de mexericos de

vária ordem mas, daquilo que se sabe, a

Mercedes vai apostar forte na continuidade

do hexacampeão mundial, estando

preparada para, se for caso disso, deixar

sair Bottas. O próprio futuro da Mercedes

68 | Exame Moçambique


na Fórmula 1 tem sido fonte de rumores,

não faltando no “circo” quem acredite que

a marca alemã está a pensar na retirada

a breve prazo. Um deles é Eddie Jordan.

O proprietário da antiga escuderia britânica,

em declarações ao site F1-Inside, previu

que a Mercedes “vai deixar a F1 dentro

de dois anos” e que “Lewis Hamilton vai

para a Ferrari”. Disse Jordan: “O mundo

mudou completamente por causa do coronavírus.

Os valores das pessoas mudaram

e a consciência ambiental tornou-se uma

prioridade. Para os responsáveis deste desporto

isso significa que chegou a hora de

repensar o futuro. Tenho certeza de que

construtoras como a Mercedes, a Honda

e talvez a Renault vão romper contratos

e encerrar os seus compromissos na F1

dentro dos próximos dois anos”, disse

Jordan, sublinhando que “a Mercedes

já não tem mais nada para fazer: conquistou

tudo, não pode ir mais além...”

Sobre Hamilton, Eddie Jordan disse que

o futuro do britânico passa por Itália:

“Lewis vai para a Ferrari. Somente os italianos

podem pagar o seu salário [cerca

de 44 milhões euros/ano] e até sabem que

o investimento vale a pena. Verstappen

ficará na Red Bull e tentará vencer Lewis,

mas será muito difícil.”

Há quem avance que o director da Mercedes,

Toto Wolff, está a considerar a possibilidade

de contratar Sebastian Vettel

(Ferrari) em 2021. Sabe-se que a Daimler

[proprietária da Mercedes] veria com

muitos bons olhos ter novamente um

piloto alemão na equipa, o que não acontece

desde o abandono de Nico Rosberg

em 2016. Juntar no mesmo team Hamilton

e Vettel, uma superdupla destinada a

arrasar — juntos valem neste momento

dez títulos, 137 vitórias e 271 pódios —,

garantiria mais um ano ou dois de hegemonia

à marca alemã. Antes de, quem

sabe, deixar as pistas com um recorde

de triunfos dificilmente alcançável. Lembre-se

que desde o início da era híbrida

na F1 (na Austrália-2014) com a adop-

julho 2020 | 69


DESPORTO FÓRMULA 1

ção dos motores V6 1.6 Turbo assistidos

electricamente, correram-se 121 Grandes

Prémios, sendo 89 deles ganhos pela

Mercedes (uma incrível percentagem de

êxito de 73,55%), contra apenas 17 vitórias

da Ferrari e 15 da Red Bull.

FERRARI A VÊ-LOS PASSAR

Dezassete triunfos em 121 GP é uma estatística

desanimadora para a mítica escuderia

italiana, que não ganha um Mundial de

Pilotos desde 2007 (com Kimi Räikkonen)

e o título de Construtores desde 2008. São

muitos anos de jejum para o emblema mais

carismático do circuito, mas a verdade é

que dificilmente a Ferrari conseguirá este

ano aproximar-se da Mercedes a ponto

de discutir a primazia. No ano passado a

Ferrari somou 504 pontos contra 739 da

equipa alemã (e 417 da Red Bull) e viu os

seus dois pilotos — o monegasco Charles

Leclerc (264 pontos) e o alemão Vettel (264)

— terminarem atrás de Max Verstappen

(278), Valtteri Bottas (326) e Lewis Hamilton

(413). É verdade que o jovem Leclerc

(22 anos) foi a grande revelação da temporada

— duas vitórias, dez pódios e seis

poles no ano de estreia pela Ferrari (tinha

sido piloto de testes da escuderia em 2016 e

2017) —, tendo inclusivamente superado o

colega tetracampeão do mundo; mas, tudo

somado, não deverá chegar para suplantar

o padrão da época passada, que é demasiado

curto para uma marca com o peso

e as ambições da Cavallino Rampante.

O antigo patrão da F1, Bernie Ecclestone,

foi curto e seco quando comentou para o

diário alemão Blick os resultados dos testes

de Inverno: “O carro [Ferrari] obviamente

não é bom. Mas, como milhões de

fãs dos [monolugares] vermelhos, estou à

espera de ser surpreendido...”

Como se não bastasse a crónica falta

de fiabilidade dos Ferrari (sobretudo

quando comparados com os flechas de

prata), as relações entre Vettel e o emergente

Leclerc não são as melhores, o que

dificulta o trabalho de equipa. Fricções,

ciúmes e desentendimentos não constituem

novidade num mundo tão egocêntrico

e “umbiguista” como o dos pilotos de

F1, mas o pior é quando os jornais tomam

partido na guerra, como parece ter acontecido

quando se soube, pela imprensa italiana,

que Sebastian Vettel, ao contrário

de Leclerc, não aceitou reduzir o seu salário

durante a fase mais dura da pandemia,

quando toda a Itália estava confinada em

casa. “Falei com Charles [Leclerc] sobre os

testes de Fiorano para o GP da Áustria e

agradeci-lhe o seu apoio espontâneo ao

nosso programa de redução de custos”,

disse, num tom aparentemente casual, o

director da escuderia Matias Binotto em

entrevista ao jornal La Stampa, de Turim.

Binotto não mencionou Vettel especificamente,

mas deixou explícito que Leclerc,

que tem contrato até 2024, concordou com

uma redução de 25% do seu salário de

12 milhões de euros/ano. A imprensa alemã

levou a história a peito e saiu em defesa do

“seu” piloto, noticiando que Vettel “doou

muito dinheiro não só em Itália como noutros

lugares da Europa para ajudar a minorar

os efeitos da pandemia”. “Vettel quer

ajudar, mas prefere decidir onde e como,

em vez de deixar essa decisão para a Ferrari...”,

escreveu um jornalista do diário

Bild, Lennart Wermke. Não se sabe se este

conflito ítalo-germânico é para continuar,

como não se sabe se o fogoso Leclerc vai

ter de ajoelhar-se perante o estatuto do

colega alemão de equipa, que tem um

tetracampeonato no currículo. Sabe-se é

que Lewis Hamilton tenciona ajoelhar-se

na pista durante a entoação do hino austríaco

no primeiro GP da época, num gesto

de solidariedade com o movimento mundial

Black Lives Matter. O campeão conta

com o apoio do presidente da FIA, Jean

Todt (“tenho o maior respeito por Lewis

Hamilton e pelo seu trabalho nas redes

sociais. A FIA também é muito activa em

questões de direitos humanos”, disse o

dirigente francês), mas ninguém é profeta

na sua terra, a julgar pela opinião do político

britânico Nigel Farage, líder do partido

Brexit, sobre o famoso compatriota:

“Hamilton tem aplaudido a demolição de

estátuas e apelado à remoção de todos os

símbolos racistas do mundo. Mas depois

recebe 40 milhões de libras [cerca de 44

milhões de euros] por ano da Mercedes,

uma escuderia que tem lucrado bastante

com a escravidão.b

CAMPEÕES NOS ÚLTIMOS 15 ANOS

Ano Pilotos Construtores

2019 Lewis Hamilton (Mercedes) Mercedes

2018 Lewis Hamilton (Mercedes) Mercedes

2017 Lewis Hamilton (Mercedes) Mercedes

2016 Nico Rosberg (Mercedes) Mercedes

2015 Lewis Hamilton (Mercedes) Mercedes

2014 Lewis Hamilton (Mercedes) Mercedes

2013 Sebastian Vettel (Red Bull-Renault) Red Bull Racing

2012 Sebastian Vettel (Red Bull-Renault) Red Bull Racing

2011 Sebastian Vettel (Red Bull-Renault) Red Bull Racing

2010 Sebastian Vettel (Red Bull-Renault) Red Bull Racing

2009 Jenson Button (Brawn-Mercedes) Brawn GP Formula 1

2008 Lewis Hamilton (McLaren-Mercedes) Ferrari

2007 Kimi Räikkonen (Ferrari) Ferrari

2006 Fernando Alonso (Renault) Renault F1 Team

2005 Fernando Alonso (Renault) Renault F1 Team

70 | Exame Moçambique


julho 2020 | 71


ESPECIAL INOVAÇÃO

72 | Exame Moçambique


COM O APOIO DE:

ÁFRICA É

MUITO

CRIATIVA

O continente tem poucos recursos,

mas não lhe falta capacidade de inovação,

com respostas a problemas concretos que

surpreendem o mundo. As startups

africanas têm atraído investimento

externo e serão decisivas na definição

de um padrão de desenvolvimento

próprio e sustentável

74 TALENTO

Em África não

faltam exemplos

78 EY

Apoiar projectos

inovadores

julho 2020 | 73


ESPECIAL INOVAÇÃO

Apesar de não ser fértil em

recursos financeiros, África

possui matérias-primas e

mostra ser capaz de surpreender

o mundo em

matéria de inovação. Por todo o continente,

provas de criatividade e capacidade

para concretizar projectos inovadores

não faltam. A utilização do telemóvel é

elevada e a dispersão populacional em

várias zonas tem impulsionado invenções

associadas à inovação. Estas inovações

têm-se mostrado uma forma de

alargar acessos de comunidades isoladas

a serviços, proporcionando em especial a

inclusão financeira. São ainda surpreendentes

as soluções encontradas no plano

dos serviços de comunicação. Também

onde existem problemas muito sérios,

como os que respeitam ao acesso a utilities

básicas como água e energia, não têm

faltado respostas criativas.

Muitos dos exemplos inovadores que o

continente exibe com sucesso não beneficiam,

contudo, como deviam dos benefícios

a retirar dos direitos de propriedade

intelectual (PI). Os sistemas de PI são hoje

decisivos para o êxito dos processos de

inovação. Lá voltaremos.

AS ECONOMIAS AFRICANAS

TERÃO DE DIVERSIFICAR-SE

E ADOPTAR UM PADRÃO DE

DESENVOLVIMENTO ASSENTE

NA CAPACIDADE DE INOVAÇÃO

África, nomeadamente a Subsariana,

vem apresentando taxas de crescimento

globais acima da média mundial, assim

como uma elevada taxa de crescimento

da sua população. A população do continente

deverá duplicar em 2050, passando

dos actuais 1,2 mil milhões de habitantes

para 2,4 mil milhões, dos quais mais

de 60% terão menos de 25 anos. Acontece

que, apesar dos bons desempenhos

conseguidos em alguns países africanos,

IHUB: Em Nairobi,

estende-se por sete mil

metros quadrados

o crescimento não foi acompanhado pelo

emprego de uma população extremamente

jovem e que representa uma oportunidade,

mas também um enorme desafio. A taxa

de desemprego em África supera muito a

média mundial. O sector agrícola, os serviços

financeiros e as telecomunicações

ocupam a maior parte do emprego, mas

a indústria só emprega 6,5% das pessoas

que trabalham.

A queda do preço das matérias-primas

exportadas pelo continente e as restrições

no acesso ao financiamento, em

consequência da crise global originada

pela pandemia, irão tornar mais premente

a diversificação da economia e a

adopção de um padrão de desenvolvimento

próprio, tal como o fizeram países

como o Japão, a China e a Coreia do

Sul. A Coreia do Sul, um dos "dragões

asiáticos", é uma demonstração de que

as políticas públicas dirigidas à inovação

podem gerar processos de desenvolvimento

sustentados.

INTERNET É BEM-VINDA

Na África Subsariana o aumento do acesso

à Internet é visto como positivo para

a sociedade e economia

Impacto da Internet (em %)

Educação

Economia

Relações

pessoais

Política

Ética

Boa influência

45

52

63

62

79 5

Não Influencia

10

8

16

Má influência

Nota: Média de seis países com base na amostra recolhida no Gana,

Nigéria, Senegal, África do Sul e Tanzânia

Fonte: PEW Research Center.

11

12

22

27

13

39

74 | Exame Moçambique


Ao mesmo tempo que o continente tem

cada vez mais dificuldade em captar investimento

directo estrangeiro para os sectores

tradicionais, o qual agora se retraiu

drasticamente com a crise pandémica,

não tem deixado de chegar dinheiro de

fora dirigido às iniciativas mais criativas.

Segundo a gestora Partech Ventures, só

em 2016 as startups africanas captaram

financiamentos de 367 milhões de dólares,

quatro vezes mais que quatro anos

antes. Os desafios são tantos e a produtividade

tão baixa que é sempre possível

melhorar, e melhorar bastante, se houver

imaginação.

INOVAÇÃO FEBRIL

Os empresários africanos têm encontrado

respostas inovadoras para os problemas

mais imediatos e mostrado um

elevado pragmatismo. Em grande parte

dos países africanos há mais telemóveis

do que habitantes, que deles passaram a

depender para aceder a muitos serviços e

mesmo às suas contas bancárias. A questão

é que os telemóveis têm de ser carregados

e a energia, principalmente em

zonas mais afastadas, é um bem escasso.

No Ruanda, Henry Nyakarundi criou

uma plataforma que funciona como um

quiosque móvel, que pode carregar até

dezasseis telemóveis ao mesmo tempo.

As baterias da plataforma são carregadas

por painéis solares ou mesmo por um sistema

de pedale. Os engarrafamentos são

o dia-a-dia nas grandes cidades africanas.

No Quénia, uma aplicação para telemóvel

permite enviar mensagens aos motoristas

para evitar engarrafamentos em Nairobi.

A aplicação informa os utilizadores

sobre as condições de tráfego, enviando a

recomendação de rotas que evitem congestionamentos.

Assenta as suas recomendações

num sistema central que utiliza

algoritmos de reconhecimento das imagens

captadas pelas câmaras

existentes na cidade.

Em matéria de geração

de energia há

mais inovação

que brilha no

continente.

É o caso da

turbina eólica

sem pás, inspirada

nos

barcos à vela,

desenvolvida

p o r u m a

startup tunisina.

A inovação

deve-se a Hassine

Labaied e Anis Aouini,

da Saphon Energy. A turbina, que

recebeu uma patente internacional em

Março de 2013, assenta na conversão,

primeiro, da energia eólica em energia

mecânica, recorrendo à utilização de pistões

e energia hidráulica, e finalmente em

electricidade. O kit de teste antimalária

é uma contribuição da criatividade do

continente para o combate a um dos seus

maiores flagelos de saúde pública. O kit

de diagnóstico médico rápido (20 minutos)

antimalária do sul-africano Ashley

Uys é um dos nove desenvolvidos a nível

mundial. Para repelir os mosquitos, causadores

da malária, dois estudantes do

CONTINENTE

DIGITALIZA-SE

África já possui:

942 milhões

de telemóveis

498 milhões

de smartphones

60% de penetração

e utilização de wi-fi


ESPECIAL INOVAÇÃO

M PESA: Criado

para reembolsar

microcréditos,

passou a

permitir

transferir

dinheiro

O CASO DA M-PESA

Lançado em 2007 pela Vodafone para

a Vodacom e a Safaricom, a empresa

nacional de telecomunicações do Quénia,

a M-Pesa (M referencia o telemóvel

e Pesa significa dinheiro em Swahili) foi

originalmente concebida para permitir

o reembolso de dívidas de microcrédito

por telemóvel, com a promessa de reduzir

os custos relacionados com a gestão de

dinheiro cash (transportes, risco…) e de

poder aplicar uma taxa de juro mais baixa

e tornar possível a transferência de

cêntimos.

O lançamento de uma versão piloto

permitiu medir a apetência da população

por um serviço do género e encorajou

a Safaricom a alargar a sua oferta a um

sistema de transferência de dinheiro.

O sistema alavancou-se numa rede de

pequenos comerciantes, dispersa por todo

o país e de fácil acesso para os utilizadores

que pretendem depositar ou levantar

dinheiro.

Um serviço que facilitou os pagamentos

entre particulares, facilitando o

afastamento das famílias entre as zonas

rurais e urbanas, bem como facilitando as

transacções comerciais, sem esquecer que

se tornou também uma alternativa mais

segura para os comerciantes. Em poucos

anos, este sistema de pagamento virtual

substituiu quase por completo o dinheiro

em cash no comércio e nas repartições.

Hoje, permite que 70% da população

tenha acesso a serviços bancários básicos

e é responsável por 9 milhões de

transacções diárias, representando

25% do PIB nacional.

Os benefícios da M-Pesa estendem-se

a todo o país. Um estudo demonstrou

recentemente que as famílias rurais com

M-Pesa aumentaram os seus rendimentos

entre 5% e 30%. Além disso, o sistema

permitiu o surgimento de um grande

número de startups que basearam o seu

modelo de receita na plataforma de

pagamento. Actualmente, a M-Pesa até

acolhe algumas delas na sua incubadora

em Nairobi.

O sistema da M-Pesa assenta numa rede

de comerciantes independentes que

rapidamente ultrapassou o número de

agências bancárias. Em 2010, três anos

após o seu lançamento, a rede contava

com 17 600 parceiros contra 840 agências

bancárias. Com este modelo, adicionar um

novo comerciante à rede representa um

custo marginal igual a zero, enquanto

construir uma nova agência já representa

um investimento. A M-Pesa é

uma empresa infinita.

Abderrahmane Chaoui, Senior Project Analyst na

FABERNOVEL

76 | Exame Moçambique


Instituto Internacional de Engenharia de

Água e Meio Ambiente (2iE) de Burkina

Faso desenvolveram um sabão especial.

O cheiro do produto afasta os insectos.

Um dos seus ingredientes também mata

as larvas de Anopheles, impedindo a sua

proliferação em águas estagnadas. Composto

de citronela, calêndula, karité e

outros ingredientes mantidos em segredo,

o sabão Faso foi projectado para ser acessível

a todos, produzido exclusivamente

com recursos locais. Também no campo

da telemedicina, agora mais popularizado

com a pandemia, deram-se passos

significativos. O Cardiopad é um tablet

que permite fazer remotamente, sobretudo

em zonas rurais, electrocardiogramas.

Foi desenvolvido pelo camaronês

Arthur Zang para fazer face ao precário

rácio existente de 30 cardiologistas para 20

milhões de pessoas com que o país conta.

Através de SMS, Internet e call center,

a plataforma Mlouma oferece aos

produtores a oportunidade de comunicarem

com os clientes sobre os seus

produtos, indicando os preços, quantidades

e locais de produção. A Mlouna,

criada em 2012 pelo senegalês Abubakar

Sidy Sonko, permite que 3 mil produtores

se mantenham em contacto com os

retalhistas. No Gana, a Ghanéen Bright

Simons lançou a amPedigree em 2007,

uma solução móvel que autentica medicamentos

e reúne as principais operadoras

de rede móvel em África, a indústria

farmacêutica e as autoridades de saúde.

Há muitos mais exemplos da capacidade

inovadora dos africanos. Moçambique

também oferece vários. A EXAME

tem dedicado um espaço especial em cada

uma das suas edições ao espírito empreendedor.

Na sand box (caixa de areia), a

incubadora que o Banco de Moçambique

e o FSD Moçambique lançaram em

Maio de 2018, têm participado empresas

que se afirmam no mercado. É o caso da

Paytec, uma fintech que opera na digitalização

financeira e que João Gaspar,

o seu CEO, disse nestas páginas, em entrevista,

estar a desenvolver “uma solução

de integração para o utilizador, permitindo

que este efectue transacções de

pagamento em lojas, compra de produtos

ou serviços como pré-pagos, pacotes

de TV, etc., a partir de uma única APP

ou canal USSD, podendo funcionar com

qualquer banco, com vários em simultâneo

e/ou também com carteiras móveis”.

BERÇOS CRIATIVOS

Os países africanos mais inovadores são

também aqueles que dedicam espaço de

incubação e regulação própria às iniciativas

disruptoras. No Quénia, o iHub

tornou-se uma referência. Dispõe actualmente

de um espaço moderno, que se

estende por 7 mil metros quadrados, para

acolher as empresas incubadas. Também

a África do Sul e a Nigéria se têm destacado

na atracção do investimento

externo dirigido a projectos

inovadores. Aliás,

o primeiro “tricórnio”

(startup cujo

valor atinge

mil milhões

de dólares)

africano

é da Nigéria,

a Jumia.

O continente

está não apenas

a gerar

empresas inovadoras,

como

também a torná-

-las um ecossistema

que inclui o iHub e outras incubadoras

do Quénia, Wennovation e Co-Creation

Hub, em Lagos, na Nigéria, blueMoon,

em Adis-Abeba, na Etiópia, e Bandwidth

Barn, na Cidade do Cabo, África do Sul.

A maior oportunidade que se coloca

à inovação em tempo de pandemia é o

anúncio da descoberta de uma vacina.

Uma inovação que move milhões e um

marketing frenético. Anuncia-se algo

minimamente preparado e a cotação em

bolsa dispara, como aconteceu à antes

desconhecida farmacêutica Moderna

e aos parceiros da Oxford, a AstraZeneca.

Os grandes negócios de laboratório

não têm, no entanto, a exclusividade em

matéria de inovação. A pandemia abre

várias oportunidades na oferta de soluções

inovadoras para os problemas que

causa, sobretudo num continente onde

os recursos orçamentais para responder

ao surto são magros.

O continente africano ao sul do Sara

terá de assentar o seu desenvolvimento

nas respostas concretas, adequadas, inovadoras,

que os seus melhores talentos

encontrem para os graves problemas que

persistem e que tendem a avolumar-se

com a explosão de uma população muito

jovem e cada vez mais urbanizada.b


ESPECIAL INOVAÇÃO

"A NECESSIDADE

AGUÇA O ENGENHO"

Os empreendedores africanos foram movidos pela necessidade, diz Bruno Dias, Partner

de Consulting da EY em Moçambique, que invoca, a propósito, a expressão de Nelson

Mandela: "Parece sempre impossível até ser feito"

BRUNO DIAS:

A EY apoia os

seus clientes

no lançamento

de modelos

de negócios

inovadores

78 | Exame Moçambique


Q

ue oportunidades é que

a inovação disruptiva

pode trazer ao desenvolvimento

em África?

A inovação disruptiva

é, e continuará a ser, uma realidade em

África geradora de oportunidades de

aceleração do seu desenvolvimento. Há

vários exemplos de transformação disruptiva

por introdução de simplicidade

e acessibilidade, aproveitando novas tecnologias,

mas também desenvolvendo

novos modelos de negócios e explorando

tecnologias antigas de novas maneiras.

A KickStart é um exemplo deste tipo de

inovação em África, produzindo equipamentos

de baixo custo para cidadãos no

Quénia, Tanzânia e Mali. Conseguiu criar

as cadeias logísticas e adapta equipamentos

às preferências do mercado.

Uma das suas inovações é a bomba de

irrigação accionada com o pé MoneyMaker,

que aumenta radicalmente a produtividade

no trabalho agrícola no campo. A bomba

permite multiplicar por dez a receita anual

do agricultor típico. A despesa inicial do

agricultor é geralmente custeada por um

microcrédito, em geral a ser pago entre

três e seis meses.

Os empresários e empreendedores africanos

revelam um pragmatismo especial?

Há um conhecido provérbio que diz que “a

necessidade aguça o engenho”. Penso que

é muito válido em África e está presente

nos exemplos de inovação mais emblemáticos.

Os empreendedores africanos

conseguiram, por exemplo, substituir serviços

financeiros tradicionais, fazendo-

-os assentar em plataformas disruptivas

assentes em serviços móveis inovadores,

ou aproveitar energias de fontes renováveis

onde a rede eléctrica não está disponível.

Mais do que serem pragmáticos, os

empreendedores africanos foram movidos

pela necessidade e, parafraseando

Mandela, “it always seems impossible

until it is done”.

A crescente utilização do telemóvel e a

digitalização abrem portas à inovação

num continente onde faltam infra-estruturas

físicas?

É um lugar comum dizer que África é o

continente do futuro. Estima-se que em

2050 mais de 50% da população em África

terá menos de 25 anos. Um crescimento

populacional a esta velocidade coloca o

continente sob enorme pressão, nomeadamente

no desemprego jovem, mas abre

uma enorme oportunidade de capacitação

nos paradigmas inerentes ao digital

e à criação de emprego próprio. Exemplo

disso é o programa da Google — “Digital

skills for Africa”— que, em onze meses,

capacitou gratuitamente um milhão de

jovens em 27 países do continente com

ferramentas digitais. Obviamente que é

fundamental os governos continuarem

a apostar na promoção dos sectores com

potencial de aceleração do desenvolvimento

económico-social e na melhoria das infra-

-estruturas para acelerar este desígnio de

inovação. Mas os empresários africanos

já deram provas em contexto adverso e

continuarão, seguramente, a dar provas

do seu engenho.

Em que tipo de projectos e processos

inovadores mais tem participado a EY

no continente?

A EY tem apoiado clientes no lançamento

de modelos de negócio inovadores em vários

países do continente africano. Exemplos

disso são o suporte ao lançamento de um

“banco digital”, a implementação de soluções

de automação inteligente de processos

ou de analítica avançada que permitem

conhecer melhor o cliente e a decisão empresarial

mais sustentada. Outra área de foco

em que publicámos recentemente um estudo

foi a de inovação em inclusão financeira.

Em Moçambique temos trabalhado nos

últimos anos para criar competências nos

vários domínios associados ao digital e temos

alguns projectos activos de implementação

tecnológica, de simplificação de processos

e de concepção de soluções inovadoras.

As utilities e os serviços públicos do continente

terão de se inovar rapidamente

face às mudanças induzidas nos ecossistemas

pela tecnologia?

Nas utilities existe já um grau de inovação

muito interessante, nomeadamente ao nível

dos meios e canais de pagamento, de que

o Credelec é um exemplo em Moçambique.

A evolução para novos paradigmas de

inovação, como os smart grids ou micro-

-grids, depende muito da capacitação da

infra-estrutura. Haverá que fazer o business

case em cada caso da sua manutenção

progressiva vis-à-vis um salto disruptivo

para o uso mais alargado de IoT e outros

paradigmas digitais. No que se refere aos

serviços públicos, e falando no caso específico

de Moçambique, existe um longo

caminho a percorrer, principalmente na eficiente

simplificação e digitalização de processos

e capacitação dos agentes públicos,

em particular nas províncias e nos distritos.

A simplificação e a desmaterialização dos

processos e o uso de tecnologia na criação

de serviços públicos eficientes e transparentes

são imperativas e estão na agenda

quer de vários governos em África, quer

dos principais doadores e multilaterais.

Países como a Nigéria, o Quénia e a África

do Sul apresentam vários sucessos de

inovação. Moçambique segue no mesmo

caminho?

Existe em Moçambique potencial e vontade

para seguir este caminho. Este facto

é particularmente visível numa geração de

jovens empreendedores na área do digital

e iniciativas como a incubadora Sandbox,

lançada pelo Banco de Moçambique e o

FSD Moçambique. Faltam ainda peças-

-chave no ecossistema, como o acesso célere

ao financiamento para um projecto nas

suas várias fases — é importante o acesso

a seed capital e a angel investors — assim

como a formação e capacitação em gestão

dos empresários. b

julho 2020 | 79


ESPECIAL INOVAÇÃO

TÊNDENCIAS GLOBAIS

Redes de incubação de empresas têm gerado inovação

em África, captando recursos para as startups

45 milhões de pessoas

Utilizam no Quénia o M-Pesa, o sistema de pagamento digital

da Safaricon. O país foi pioneiro em matéria de pagamentos

e transferências por telemóvel

SILICON VALLEY QUENIANO

Na parte alta de Nairobi, o novo e envidraçado “Upper Hill”, o bairro

da moda no que toca a negócios, alberga cada vez mais startups

bem-sucedidas. Por aí já passaram 170 startups, gerando-se uma rede

que mantém ligados 17 mil profissionais. Num desses edifícios fica

o iHub, que funciona como coworking e incubadora.

100

milhões

de dólares

é quanto a IBM prevê

investir até 2024

2

milhões

de dólares

foi quanto o iHub recebeu da

Invested Development, uma

gestora de recursos dos

Estados Unidos

80

mil

empréstimos

são feitos diariamente

no Quénia através

de telemóvel

250

mil

produtores

do Gana são associados do

Tratror Tractor, uma aplicação

de aluguer

ALÉM DE SER UMA

OPORTUNIDADE

SEM PARALELO

PARA A GERAÇÃO

DE EMPREGOS

JOVENS, A

INOVAÇÃO É UMA

FORMA EFICIENTE

DE REDUZIR O

HIATO DE INFRA-

-ESTRUTURA

DO CONTINENTE

AFRICANO"

Christine Lagarde

governadora do Banco

Central Europeu

INOVAÇÃO SOCIAL

No continente africano a orientação das inovações

para o preenchimento de lacunas ao nível de

infra-estruturas tem resultado numa melhoria

da qualidade de vida das populações, que passam

assim muitas vezes a aceder a serviços fundamentais

através de soluções que não foram

testadas noutras geografias. Resultam de aplicações

criadas especificamente para responder às

características do continente africano. É o bem

conhecido caso da banca móvel, que leva os serviços

bancários aos locais mais remotos, bastando

para o efeito a existência de rede móvel.

Chakanetsa Mavhunga é Professor Associado

do MIT e Tech Strategist. No seu livro What do

Science, Technology and Innovation mean from

Africa, defende a tradição da cultura de inovação

africana e afirma que a África não é apenas

beneficiária da tecnologia mas consegue

dar-lhe novas aplicações, novas funções, que a

reinventam. Para o efeito apresenta o exemplo

das funcionalidades que o telemóvel ganhou

no continente.

A necessidade de generalizar o uso das inovações

faz com que estas assentem muitas

vezes em tecnologias que são conhecidas ou

estão disseminadas pela população. E o engenho

estende-se, por exemplo, a novas formas

de distribuição de produtos ou serviços já existentes.

A venda de electricidade em pré-pagamento

permite reduzir o risco de operadoras

como a EDM mas não é regra nos países europeus.

O desenvolvimento de soluções tão simples

mas eficazes como esta, ou como a banca que

vendia borrifadelas individuais de perfume no

Mercado do Roque Santeiro em Angola, mostram

o pragmatismo e a vertente social da inovação

em África.b

80 | Exame Moçambique


Todos os meses Moçambique vai estar em Exame.

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Moçambique:

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EXAME FINAL

MARIAM UMARJI

MANAGING PARTNER DA MB CONSULTING/

ACADEMIA DE GESTÃO & FINANÇAS PÚBLICAS

PRECISAMOS

DE CONTEÚDO LOCAL

O conteúdo local é necessário,

agora mais do que nunca, em todos

os sectores

D.R.

Um estudo feito pela CTA — Confederação das Associações

Económicas de Moçambique estima que, por conta

da COVID-19, o sector empresarial moçambicano poderá

registar perdas entre 234 e 375 milhões de dólares, sendo

que o sector do turismo é o mais afectado, com perdas estimadas

entre 53 e 71 milhões de dólares.

Muito se tem falado sobre o chamado conteúdo local ou nacional

em virtude do gradual estabelecimento e potencial sucesso das

novas indústrias de petróleo e gás em Moçambique. Uma realidade

ainda distante do empresariado nacional nas mais diversas dimensões.

Uma proposta de lei, chamada lei de conteúdo nacional, foi

divulgada e debatida até finais de 2019 e, desde então, aguarda-

-se por uma versão final e consensualizada da legislação. Várias

versões já circularam e não têm merecido consenso entre proponentes

e sector privado. Será que assegurar uma percentagem de

participação das empresas nacionais, independentemente do seu

tamanho, deve circunscrever-se a este sector? Basta definir a participação

apenas como a capacidade de prestar o serviço ou fornecer

ou produzir um bem sob regimes de certificação internacional?

E basta que a empresa se registe em Moçambique para ser local?

Mas será que é só a indústria do petróleo e gás que contrata em

Moçambique? Então e o Estado, as empresas públicas e participadas,

os fundos e institutos autónomos, etc., etc.? E a panóplia

dos chamados parceiros de cooperação bilaterais e multilaterais?

Apesar de termos um Regulamento de Aquisições do Estado

(Decreto 5, de 8 de Março de 2016), onde estão detalhadas as regras

e procedimentos de aquisição de bens e serviços pelo Estado, será

que o mesmo prevê ou privilegia a aquisição através de fornecedores

e prestadores de serviços moçambicanos? A iniciativa “Made

in Mozambique”, a definição de micro, pequena e média empresa

e outros aspectos que poderiam contribuir para o fomento e uso

de conteúdo local e nacional não estão previstos nesta versão do

regulamento, ao contrário de versões anteriores. Não estão enunciados

no decreto nem são, na prática, verificados.

O que é nacional é bom e disponível em muitos casos. Não

é perfeito, pode ser melhorado, pode ser certificado... Pode, mas

é preciso usar (dando acesso e oportunidade) e é preciso construtivamente

melhorar (dando feedback construtivo). Se outras geografias

fazem isto de forma propositada e intencional, o que nos

impede, a nós, de tomarmos a mesma atitude? E porque não pode o

Estado tomar o exemplo e dianteira, quando a maior parte da despesa

pública é gasta na aquisição de bens e serviços? E onde ficam

os parceiros de cooperação ou de desenvolvimento e a importante

indústria do desenvolvimento? Muitos ficarão incomodados com

estes questionamentos, mas agora, mais do que nunca, precisamos

de nos confrontar com isto.

Considerando que quer o Estado, quer os seus parceiros de cooperação,

são actores ainda críticos para o desenvolvimento de um

sector privado nacional, não será que a lei que se pretende aprovar

deve ser o mais abrangente possível? E incluir também estes actores?

É uma realidade que com a crise das dívidas ocultas o volume

de recursos externos oriundos destes parceiros reduziu, tendo

ainda, no entanto, uma expressão importante na nossa economia.

Mas qual foi o papel do sector empresarial nacional, sobretudo

as MPME, em despoletar tal crise? Nenhum, a meu ver. Fomos,

contudo, dos primeiros a sofrer na pele as consequências de todas

as decisões e sanções, escritas e não escritas, que esta crise criou.

Pelo mal de uns pagam todos. Proliferam as compras quase em

exclusividade às empresas estrangeiras e a adjudicação de contratos

de prestação de serviços a consultores internacionais que

frequentemente não conhecem o contexto e a realidade do país.

As organizações da sociedade civil hoje concorrem aos recursos

dos parceiros prestando os serviços que antes as MPME nacionais

estavam a prestar. Um outro exemplo da problemática em mãos.

O recurso a estes fundos tem de ser mais justo e equitativo

para com as empresas nacionais. Se somos suficientemente bons

para sermos subcontratados, porque não podemos ser apoiados

para sermos suficientemente bons para sermos contratados? b

82 | Exame Moçambique

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