EXAME 91

EXAME.MOZ

Num período de incertezas o fim é sempre uma certeza presente. Esta é a última edição da EXAME. Fica um agradecimento especial aos nossos leitores, que sempre nos inspiraram ao longo destas 91 edições, onde produzimos mais de 7500 páginas sobre a realidade económica moçambicana e internacional.
Nesta última edição abordamos a temática do investimento directo estrangeiro. Se no curto prazo está já a reflectir os efeitos da menor capacidade de investimento das empresas, no longo prazo África enfrenta outros desafios, como o menor retorno esperado de alguns projectos e o da relocalização das cadeias de produção. Mas Moçambique é já um destino prioritário do IDE no continente. E é muito bem vindo.

INOVAÇÃO ● T@ablet

Comunitário combate pandemia

EUROPA ● Resposta poderosa

ao impacto da COVID-19

91 v Agosto/Setembro v 200Mt v 5 Edição Moçambique

VACINA

Falta muito

para acabar a

pandemia?

CRISE GLOBAL

DINHEIRO QUE PODE

DEIXAR DE ENTRAR

A crise global está a provocar uma contracção generalizada e profunda

do investimento directo estrangeiro (IDE). Este ano, Moçambique conseguirá salvar-se deste

eclipse do investimento externo devido ao financiamento aprovado para o projecto de gás

natural mais avançado na bacia do Rovuma. Mas o que está para vir não é bom.


REVISTA MENSAL — ANO 7 — N O 91 — AGOSTO/SETEMBRO 2020

TIRAGEM: 10 000 EXEMPLARES — CAPA: GETTY

38

NILZA BRAGA:

Ajudar as

empresas

a gerirem

os riscos na saúde

e segurança no

trabalho

NEGÓCIOS

38 Empreendedor Nilza Braga fundou a USALAMA, empresa

especializada em consultoria na área da segurança e saúde, e quer

criar um centro para formar profissionais especializados em saúde

e segurança operacional

ECONOMIA

44 Inovação A T@ablet Comunitário leva o conhecimento e a

informação às zonas rurais e onde a população não tem acesso à

literacia. Agora combate a COVID-19. Dayn Amade, o seu criador,

explica porque a missão o inspira

GLOBAL

50 Vacina O mundo espera o milagre que o liberte do pesadelo

da pandemia. As expectativas incidem na vacina, com progressos

anunciados diariamente pelos seus diferentes promotores. A EXAME

aborda o tema com uma pergunta: afinal, quando acaba a crise?

48

DAYN AMAD:

Criador da T@ablet

Comunitário,

inovação

moçambicana que

utiliza a tecnologia

para levar a

literacia às

populações

EDILSON TOMÁS

60 Europa Após muita polémica os dirigentes europeus definiram

um megapacote financeiro para enfrentar a crise e recuperar a

economia a pensar naquilo que será o mundo depois da COVID-19.

Um programa que põe muito dinheiro na transição energética

DESPORTO

68 Champions A Liga Milionária culminou, esta estranha época,

numa inédita final a oito realizada em Lisboa. Apesar dos estádios

vazios, os jogos finais da Champions League trazem sempre o desfile

de vedetas, expectativas, surpresas e desilusões. Pela TV

D.R.

50

VACINA: Ansiedade

das sociedades,

interesses

comerciais e

geopolítica

colocam-na no

epicentro do

chamado “novo

normal”

GETTY

SECÇÕES

Editorial 6

Primeiro Lugar 8

Grandes Números 14

Bazarketing 42

Opinião 66

Exame Final 82

4 | Exame Moçambique


CAPA

16 Investimento externo

A quebra severa dos fluxos de investimento

externo este ano vão colocar as economias africanas

em dificuldades com a falta de novos projectos.

A Moçambique vai valer o projecto de gás liderado

pela Total. O pior está para vir: se recuperou um pouco

em 2019, este ano o investimento directo estrangeiro

vai afundar-se em África


CARTADODIRECTOR

IRIS DE BRITO

DIRECTORA

DA RACIONALIDADE DO ACTOR

À VELHA ARTE DE SUN TZU

PODEMOS DECIDIR

COMO DESEJAMOS

SER RECORDADOS

Ao abordar a temática do investimento directo

estrangeiro (IDE), nada é mais pertinente (na

óptica do investidor) do que a aferição do

ambiente interno e externo, seja com recurso às análises

SWOT e PESTEL, seja através de outras quaisquer

ferramentas disponíveis. A actual conjuntura aponta para um ambiente de

incerteza nos próximos tempos... a “tempestade à vista”, que representa um risco

acrescido para investidores e empresários. É, por conseguinte, uma altura em que

o processo de tomada de decisão deve ser assente na racionalidade do actor/decisor.

A retracção generalizada do IDE a que faz referência o relatório da UNCTAD,

World Investment Report 2020, não deixa de ser um reflexo dessa racionalidade.

Ou, como diria Sun Tzu em A Arte da Guerra: “Concentre-se nos pontos fortes,

reconheça as fraquezas, agarre as oportunidades e proteja-se contra as ameaças.”

São, por vezes, decisões difíceis que devem ser tomadas com responsabilidade, de

um modo consciente. As peculiaridades dos tempos que atravessamos, os desafios

e adversidades que enfrentamos, levam vários autores a sugerirem o aparecimento

de uma “nova ordem global” após a pandemia imposta pela COVID-19,

enquanto outros referem-se a uma “nova normalidade”. Para muitos será, sem

dúvida, o virar de uma página da história. É o caso da EXAME Moçambique. É

o virar da página de uma longa e maravilhosa história; de uma deliciosa jornada.

Face ao actual cenário e após muita ponderação e debate interno, chegámos à

difícil (mas racional) decisão de não dar continuidade à publicação da EXAME

Moçambique. Foram ponderadas soluções alternativas ao término da publicação

que implicariam, de uma ou de outra forma, a alteração do actual formato e/

ou características da revista. E a EXAME é uma marca. Uma referência. E é com

o sentido de responsabilidade para com os nossos leitores, parceiros e, acima de

tudo, toda a equipa que fez deste um projecto de sucesso, que saímos do mercado

moçambicano sem alterar uma vírgula à nossa imagem de marca. Diz-nos ainda

Sun Tzu que “um Estado que pereceu nunca poderá ser reavivado, nem um homem

que morreu poderá ser ressuscitado”. Mas enquanto simples agentes de um mercado

em plena transformação, podemos decidir como desejamos ser recordados.

E é esta a imagem que gostaríamos de deixar, esperando que sintam (muitas)

saudades nossas.

Do ponto de vista pessoal, foi uma grande honra e um grande privilégio fazer

parte desta marca e servir esta equipa. Uma equipa de excelência, coesa, incansável.

Um capital intelectual de elevado valor que continuará a servir Moçambique.

Enquanto directora da EXAME Moçambique endereço os meus agradecimentos

a todos os leitores e parceiros que nos acompanharam durante esta maravilhosa

e desafiante jornada, apesar de não tão longa quanto gostaríamos. Enquanto

membro desta fantástica e competente equipa, e porque nas ameaças podem

encontrar-se oportunidades, acredito que possamos surpreender num futuro

não muito longínquo.

Assim sendo, só me resta deixar um grande e emotivo até breve.

Khanimambo Moçambique. Estamos juntos!b

Edifício Rovuma, Rua da Sé, n.º 114,

Escritório 109

MAPUTO, MOÇAMBIQUE

geral@examemocambique.co.mz

Directora: Iris de Brito

Director Executivo: Luis Faria

(luis.faria@luisfaria.com)

Arte: Pedro Bénard

Colaboradores Regulares:

Valdo Mlhongo,

Thiago Fonseca (crónica),

Edilson Tomás (fotografia),

Colaboraram nesta edição:

Almerinda Romeira, André Pipa, Milton Ngunza,

Ricardo David Lopes.

Direitos Internacionais:

EXAME Brasil (texto e imagens),

AFP, Graphic News e IStockPhoto

Coordenação Geral: Marta Cordeiro (projecto),

Inês Reis (arte)

Multimédia e Internet: Plot.

www.examemocambique.co.mz

PUBLICIDADE

+258 843 107 660

comercial@examemocambique.co.mz

Comercial: Gerson dos Santos

ASSINATURAS

Moçambique: Nádia Pene, +258 845 757 478

Portugal: Ana Rute Sousa, +351 213 804 010

assinaturas@examemocambique.co.mz

REDACÇÃO

+ 258 21 322 183

redaccao@examemocambique.co.mz

Produção: Ana Miranda

Número de registo: 09/GABINFO - DEC/2012

Tiragem: 10 mil exemplares

Distribuição:

Moçambique: Flotsan, Bairro Patrice Lumumba,

Rua “A” Casa 242, Matola

Tel.: +258 84 492 2014; +258 82 301 3211.

e-mail: mozadmin@africandistribution.net

Portugal: VASP, MLP Quinta do Grajal, Venda Seca

2739-511 Agualva Cacém Tel.: +351 214 337 000

Impressão: Minerva Print

Av. Mohamed Siad Barre, n.º 365

Maputo

A revista EXAME (Moçambique) é um

licenciamento internacional da revista EXAME

(Brasil), propriedade da Editora Abril.

Sociedade Moçambicana

de Edições, Lda.

Director-Geral

Miguel Lemos

Conselho de gerência

Luís Penha e Costa

Rui Borges

António Domingues

6 | Exame Moçambique


PRIMEIRO

LUGAR

MOÇAMBIQUE ESSENCIAL. PEQUENAS NOTÍCIAS SOBRE UM GRANDE PAÍS

DESINFLAÇÃO:

O custo de vida desce

há três meses consecutivos

D.R.

INFLAÇÃO

PREÇOS EM CLARA DESCIDA

Pelo terceiro mês consecutivo os preços baixam em Moçambique,

ou seja, a variação mensal da inflação é negativa. Em Julho, de

acordo com o Instituto Nacional de Estatística (IME), a vida ficou

mais barata 0,2% relativamente ao mês anterior, tomando como

referência os dados recolhidos nas cidades de Maputo, Beira e Nampula.

Já em Maio e Junho o país conhecera uma variação negativa

da inflação mensal, de 0,6% e 0,55%, respectivamente.

A inflação homóloga, que confronta o nível de preços num determinado

mês com o nível que verificava em igual período do ano

anterior e é um dos indicadores mais utilizados para traduzir a evolução

do custo de vida, situou-se, em Julho, em 2,8%. “A divisão

de Alimentação e Bebidas não Alcoólicas foi em termos homólogos

a que registou maior variação de preços com cerca de 7,4%”,

esclarece o INE. A inflação média situou-se em 2,86%. Tanto a trajectória

da inflação homóloga como da inflação média apontam

para uma descida ou estabilização dos preços, depois da inflação

ter registado valores muito elevados no país em 2017.

Foi a cidade da Beira que mais contribuiu para a deflação mensal

em Julho, com uma variação negativa de menos 0,42%, seguindo-

-se Nampula (menos 0,3%) e Maputo (menos 0,06%). No que toca à

variação acumulada, de Janeiro a Julho do ano em curso as cidades

de Nampula e de Maputo foram caracterizadas pelo aumento dos

preços, tendo registado uma inflação de cerca de 0,79% e 0,68%,

respectivamente. No entanto, a cidade da Beira apresentou uma

tendência contrária, ao registar uma deflação de aproximadamente

1,03%. No que concerne à inflação homóloga, a cidade de Nampula

liderou a tendência de aumento do nível geral de preços com

aproximadamente 3,85%, seguida da cidade da Beira com 3,52%

e, por último, da cidade de Maputo com 2,02%. Já no que toca à

influência das diferentes categorias de produtos no recuo mensal

dos preços, o INE destaca a divisão de Alimentação e Bebidas não

Alcoólicas como “a que teve o maior impacto, ao contribuir no total

da variação mensal com cerca de 0,22 pontos percentuais (pp)

negativos”. Destaca ainda a queda de preços do tomate (5,3%), da

cebola (9%), do açúcar castanho (5,9%), da alface (12,3%), do óleo

alimentar (2,5%), da couve (7,8%) e do repolho (10,4%).

No que respeita à variação dos preços acumulada de Janeiro

a Julho deste ano, o país registou uma subida de preços na ordem

de 0,38%. As divisões de Alimentação e Bebidas não Alcoólicas

e de Transportes, foram as de maior destaque na tendência

geral de subida de preços ao contribuírem com cerca de 0,19 pp

e 0,18 pp positivos, respectivamente.

8 | Exame Moçambique


Ser livre não é apenas quebrar as próprias correntes, mas viver

de uma maneira que respeite e aumente a liberdade dos outros.

Nelson Mandela, líder africano.

COVID-19

BAD DOA 40 MILHÕES DE DÓLARES

Face aos impactos da COVID-19 e em

resposta aos pedidos de apoio por

parte do governo moçambicano, o

Banco Africano de Desenvolvimento

(BAD) aprovou, no final de Julho, um

apoio no valor de 40 milhões de dólares.

O valor desembolsado pelo BAD

irá apoiar a expansão da protecção

social e fortalecer a resiliência económica

aos choques causados pela

pandemia, com medidas de apoio ao

sector privado, com um enfoque na

agricultura e nas pequenas e médias

empresas, que são as que mais se ressentem

da crise. Além dos 40 milhões

de dólares, os recursos incluem cerca de

1,5 milhões de dólares para a aquisição

de material médico de emergência,

4 milhões de dólares de apoio a pequenos

produtores agrícolas afectados

pelas alterações nas ligações comercias

e 500 mil dólares de apoio ao sector

dos transportes. “São medidas que

foram concebidas em estreita consulta

ao governo, ao sector privado moçambicano

e aos parceiros internacionais

e accionistas do BAD, empenhados na

resposta à COVID-19 em Moçambique,

para prover alívio financeiro imediato às

pequenas empresas e às famílias num

momento tão complexo”, explica Pietro

Toigo, representante do Banco Africano

de Desenvolvimento em Maputo.

Sabe-se que o valor ora aprovado, a

título de donativo, faz parte de uma

série de operações de apoio aos países

africanos que o BAD está a implementar,

desde o início da pandemia, que

inclui, entre outras medidas, a emissão

de uma obrigação de 3 mil milhões de

dólares, em Março, para financiar uma

facilidade pan-Africana de resposta à

COVID-19, no valor de 7,4 mil milhões

de dólares.

SALA DE

MERCADOS

Junho

69,91

Junho

1,64

Junho

40,37

Junho

112,93

MOEDA

(Meticais por USD)

-1%

GÁS NATURAL

(USD/MMBtu)*

+10%

CRUDE

(USD/barril)

+2%

CARVÃO DE COQUE

(USD/ton.)

-4%

MILHO

(USD/Bushel)**

Julho

70,60

Julho

1,81

Julho

41,07

Julho

108,60

PIETRO TOIGO:

O representante do BAD

em Maputo acentua o apoio

às PME e às famílias num

momento complexo

Junho

329,00

D.R.

+2%

OURO

(USD/t oz)***

Julho

335,50

Junho

Julho

1782,00

+8%

1917,40

COTAÇÕES A 23/06/2020 E A 23/07/2020

* MMBtu = milhões de British Thermal Unit

(medida da capacidade térmica)

** 1 bushel de milho = 25,4 Kg

*** t oz = onças troy = 31,21 g.

FONTES: BM, Bloomberg, CME Group.

agosto/setembro 2020 | 9


PRIMEIRO LUGAR

SOFALA

PESQUISAS DE

HIDROCARBONETOS

INTERROMPIDAS

A abertura de poços de pesquisa de petróleo

e gás na província de Sofala, concretamente

no distrito de Búzi, foi interrompida

devido à pandemia COVID-19, de acordo com

comunicação feita pelos operadores ao Instituto

Nacional de Petróleo (INP). “Trata-se de

uma actividade complexa, levada a cabo por

um número considerável de trabalhadores,

incluindo expatriados que, devido à obrigatoriedade

de cumprir os procedimentos estabelecidos

pelo governo relativos à entrada e

saída de bens e pessoas no território nacional,

não poderão proceder à devida rotação.

Neste momento, as actividades de perfuração

estão resumidas à manutenção da plataforma

no local”, lê-se na nota publicada na página

oficial do INP, citada pela agência de notícias

MMO. “Espera-se que logo que se proceda

ao levantamento do estado de emergência e

as condições de circulação estejam normalizadas,

os furos BS-1 e BS-2 sejam completados

e testados, com vista a verificar o fluxo e

quantificação de gás natural”, lê-se na nota

do INP. Ainda segundo o INP, a abertura de

cada um dos furos de pesquisa está avaliada

em 15,2 milhões de dólares. A Buzi Hydrocarbons

detém 75% dos direitos sobre o Bloco

de Búzi e o governo moçambicano 25%, através

da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos

(ENH). A empresa da Indonésia anunciou

o início das perfurações em 2019.

ENH: Participa na pesquisa de petróleo

e gás em Búzi, na província de Sofala

D.R.

POSIÇÃO

CTA CONTRA A SELAGEM DE CERVEJAS E TABACO

A Associação das Confederações Económicas (CTA) defende a não introdução

da selagem de cervejas por não “ser social nem economicamente viável”, como

se lê no seu boletim informativo. Adiante-se que a CTA já submeteu ao governo

o parecer do sector privado sobre a Proposta de Regulamento de Bebidas

Alcoólicas e Tabaco Manufacturado. É que “a indústria e o comércio de bebidas

alcoólicas e tabaco manufacturado, bem como as demais indústrias, vêm,

desde 2019, sofrendo grandes dificuldades nas suas operações em toda a sua

cadeia de suprimento, por conta de várias perdas ocorridas devido aos ciclones

Idai e Kenneth e actualmente a pandemia da COVID-19”. Em resultado destes

factores, segundo a CTA, a economia nacional registou uma desaceleração dos

previstos 4,6% para 2,2% em 2019 (o pior desempenho económico dos últimos

dez anos), e para o ano em curso prevê-se um crescimento negativo que ultrapassa

os 3%. A CTA defende que a “introdução e alargamento da selagem deverão

ter em conta estes aspectos para que se possa alcançar a devida eficiência

técnica sem comprometer a eficiência do tecido empresarial que já se encontra

fragilizado”. A proposta

de diploma prevê ainda

a introdução da selagem

digital, cujo custo é

de 4,95 euros por cada

mil selos. Os custos de

aquisição e instalação

de maquinaria necessárias

para a aposição do

selo nas diversas linhas

de produção preocupam

o sector privado.

GAZA

IPME APOIA ACESSO A FINANCIAMENTO

CERVEJA:

A sua selagem

não é viável

consideram os

representantes

empresariais

Um dos obstáculos no acesso ao crédito pela maioria das pequenas e médias

empresas tem sido a preparação dos documentos necessários. Tendo em conta

este facto, o Instituto para a Promoção das Pequenas e Médias Empresas (IPEME)

manifestou a intenção de apoiar os agentes económicos da província de Gaza na

rápida obtenção da documentação necessária para concorrer às linhas de financiamento

disponíveis no Banco Nacional de Investimentos (BNI), nomeadamente

a GOV COVID-19 e a BNI COVID-19. Num encontro realizado em Julho, o director

de Estudos e Estatística no IPEME, Lazaro Macuacuá, garantiu estar em curso um

trabalho que se encontra a ser desenvolvido pelo Ministério da Indústria e Comércio

de modo a que nenhuma empresa seja excluída por falta de documentação

básica. Deste modo, o IPEME poderá, neste processo, apoiar na rápida obtenção

dos documentos. Para o empresariado de Gaza, que marcou presença no encontro

que teve lugar na Casa do Empresário, a intervenção do IPEME aliviará o sufoco

que os agentes económicos enfrentavam para concorrer a estas linhas de financiamento

e trará ganhos, visto que muitos operadores informais poderão passar

para o sector formal, permitindo ao Estado arrecadar mais receitas de impostos.

10 | Exame Moçambique


INFRA-ESTRUTURAS

BANCO MUNDIAL PRONTO

PARA APOIAR CABO DELGADO

O Banco Mundial manifestou-se disponível para apoiar a reconstrução de infra-

-estruturas e a criação de empregos na província de Cabo Delgado, afectada pela

violência armada desde Outubro de 2017. “O Banco Mundial encorajou e mostrou-

-se favorável a apoiar na promoção da reconstrução de infra-estruturas e de actividades

de desenvolvimento económico e criação de emprego para os jovens [em

Cabo Delgado]”, refere um comunicado de imprensa da Presidência, que cita o

presidente do Banco Mundial, David Malpass, que manteve uma reunião virtual

de trabalho com o Presidente Filipe Nyusi.

Além de manifestar a disponibilidade em apoiar aquela província, o dirigente

do Banco Mundial felicitou o governo pelas medidas que tem tomado para fazer

face aos ataques, defendendo a definição de “projectos concretos” na região para

garantir a inclusão dos jovens. O conflito já matou, pelo menos, mil pessoas, e

algumas das acções dos grupos armados têm sido reivindicadas pelo grupo jihadista

Estado Islâmico (EI). De acordo com as Nações Unidas, a violência armada

em Cabo Delgado forçou à fuga de 250 mil pessoas de distritos afectados pela

insegurança, mais a norte da província.

Além da violência armada em Cabo Delgado, Malpass e Nyusi abordaram os

desafios impostos pelo novo coronavírus, tendo o Banco Mundial manifestado

abertura para apoiar o país, tendo em conta o estado de evolução e os efeitos

da pandemia. “Os dois dirigentes reafirmaram o seu empenho em aprofundar a

sua parceria, remetendo aos membros da equipa do Banco a prosseguir a interacção

com o governo de Moçambique para intervir em áreas e programas concretos”,

conclui o comunicado.

O mais recente apoio do Banco Mundial a Moçambique incidiu na área da agricultura,

onde a entidade internacional disponibilizou 500 milhões de dólares para

apoiar o projecto Sustenta, cujo objectivo é integrar pequenos agricultores na

cadeia de valor de produção e aumentar a sua capacidade.

DAVID MALPASS:

O presidente do

Banco Mundial

manteve uma

reunião virtual

de trabalho com

o Presidente Filipe

Nyusi

REDE ELÉCTRICA: EDM

recebeu um estudo sobre

a integração de uma

central a carvão

ELECTRICIDADE

EDM RECEBE ESTUDO

SOBRE INTEGRAÇÃO

ELÉCTRICA

A Ncondezi Energy entregou à Electricidade de

Moçambique (EDM) um estudo sobre as opções

de integração na rede eléctrica moçambicana

de uma nova central a carvão que a empresa

pretende construir na província de Tete, no

Norte de Moçambique. O director-executivo

da Ncondezi, Hanno Pengilly, afirmou, no início

de Agosto, em comunicado, que a versão

final do estudo identificou várias formas de

reduzir os custos das linhas de transmissão

de energia e facilitar uma futura expansão.

O responsável referiu ainda que as negociações

sobre a tarifa a cobrar à EDM para o fornecimento

de energia estão a progredir de forma

“positiva”, após a Ncondezi ter entregue, em

Março passado, uma proposta formal de tarifa.

O grupo estatal chinês China Machinery

Engineering é um dos parceiros estratégicos

do projecto, que foi incluído numa lista de

infra-estruturas prioritárias para Moçambique,

decidida pelos governos de Moçambique e da

China, disse a Ncondezi em Janeiro passado.

D.R.

D.R.

agosto/setembro 2020 | 11


FINALISTA

AFRICA’S BUSINESS HEROES SELECCIONA

START-UP MOÇAMBICANA

A Africa’s Business Heroes (ABH), competição criada em 2019 pelo Africa Netpreneur

Prize Initiative, seleccionou a start-up moçambicana ideiaLab como uma

das finalistas para a edição de 2020. O Africa Netpreneur Prize Initiative é um

programa de promoção do desenvolvimento do continente africano patrocinado

pelo magnata chinês Jack Ma. Num comunicado, citado pelo Macau Hub, a ideia-

Lab sublinha que a ABH recebeu mais de 22 mil candidaturas de todo o continente,

tendo seleccionado 50 finalistas de 21 países. A start-up moçambicana,

ligada à incubação de empresas, é a única finalista dos Países de Língua Portuguesa.

A ABH pretende identificar e apoiar uma geração de empreendedores

africanos que possam criar soluções para os problemas mais urgentes que África

enfrenta, promovendo ao mesmo tempo uma economia sustentável e inclusiva,

refere o comunicado. A selecção

da ideiaLab como finalista da

ABH pode ajudar a colocar

Moçambique no mapa mundial

de empreendedorismo “pelas

melhores razões”, diz no comunicado

Sara Fakir, co-fundadora

da start-up. A final da competição

vai decorrer na capital da

Etiópia, Adis Abeba, entre meados

de Novembro e Dezembro.

JACK MA: O magnata chinês patrocina a promoção

do desenvolvimento em África

CATÁSTROFES

ÁFRICA MAIS VULNERÁVEL

ENERGIA

TRANSPORTE DE ELECTRICIDADE

EM CONCURSO INTERNACIONAL

RISCO: Está a aumentar a exposição e

vulnerabilidade do continente a desastres naturais

D.R.

O governo moçambicano lançou um concurso público internacional para a construção

da infra-estrutura de fornecimento de energia eléctrica ao Malawi, com uma

extensão de 220 quilómetros, disse à Lusa João Catine, responsável do projecto.

João Catine adiantou que o concurso, lançado na segunda semana de Julho, destina-se

à selecção da empresa responsável pela construção da infra-estrutura que

vai viabilizar o fornecimento e venda de energia eléctrica produzida em Moçambique

ao Malawi. A empreitada vai consistir na construção de uma linha de transporte

de energia de 145 quilómetros no território moçambicano

e de 75 quilómetros no Malawi. O projecto está

avaliado em 127 milhões de dólares já assegurados

pelo Banco Mundial, governo da Noruega, União Europeia

(UE) e Cooperação Financeira Alemã, através do

banco alemão KFW. Moçambique vende energia eléctrica

a vários países da África Austral, tirando partido

do seu potencial energético.

ENERGIA: Construção de uma nova linha de transporte

de electricidade para o Malawi foi posta a concurso

A vulnerabilidade de África a desastres naturais

está a aumentar e a capacidade de reacção a

catástrofes a diminuir, conclui o primeiro relatório

sobre a redução de riscos no continente

elaborado pela União Africana. Com efeito, de

acordo com o Relatório Africano sobre a Redução

de Riscos de Catástrofes, “o perfil de risco

de África está a aumentar”, bem como a vulnerabilidade

e a exposição a desastres naturais de

um continente cuja capacidade de reacção sofreu

uma diminuição. O documento, apresentado pela

comissária para a Agricultura e Economia Rural, a

angolana Josefa Sacko, compara os períodos de

2015-2016 e 2017-2018, registando aumentos no

número de catástrofes que assolaram a região,

na mortalidade e nas perdas económicas associadas.

O número de catástrofes aumentou de

311, em 2015-2016, para 474, em 2017-2018, de

acordo com o documento, que aponta ainda um

aumento da mortalidade de cerca de 31 mil pessoas

para mais de 36 mil. As perdas económicas

aumentaram de 2 mil milhões de dólares, para

8 mil milhões de dólares, entre os dois períodos.

Em sentido oposto, o número de pessoas afectadas

diminuiu de mais de 58 milhões em 2015-

-2016 para 22 milhões em 2017-2018. De acordo

com Josefa Sacko, dos 50 países que participaram

no relatório apenas 22% têm estratégias de

redução de risco em vigor e, destes, apenas 5%

estão a implementá-las na íntegra. Entre os países

africanos lusófonos analisados pelo relatório,

Moçambique é o mais bem avaliado, com pontuações

de 2.4 (2015-2016) e 3.4 (2017-2018).

12 | Exame Moçambique


COVID-19

ACTIVIDADE EMPRESARIAL CONTRAIU 65%

A actividade empresarial em Moçambique reduziu em cerca de 65% e o índice

de robustez empresarial em cerca de 49%, como efeito da pandemia da COVID-

-19, revela um estudo divulgado pela Confederação das Associações Económicas

(CTA). De acordo com o presidente interino da CTA, Álvaro Massingue, o sector

empresarial registou perdas de facturação no primeiro semestre do ano estimadas

em cerca de 453 milhões de dólares. “Considerando a evolução da pandemia

e a dinâmica económica que se projecta para o segundo semestre do ano,

estima-se que o volume de perdas de facturação do sector empresarial em todo o

ano de 2020 poderá ascender a aproximadamente 951 milhões de dólares, o que

corresponde a cerca de 7% do PIB (Produto Interno Bruto)”, referiu Álvaro Massingue

. Ainda no primeiro semestre foram suspensos 30 mil contratos de trabalho,

número que pode passar no final do ano para 63 mil, representando 11% da

massa laboral empregue no sector privado em todo o país. Com vista a estimular

a actividade económica, o governo adoptou no primeiro semestre um conjunto

de medidas, as quais, alerta Álvaro Massingue, “em grande parte não geraram o

impacto que se esperava no sector”. “Para a melhoria deste cenário, propõe-se a

adopção de um novo quadro de medidas que responda efectivamente aos desafios

que a pandemia impõe ao sector empresarial e à economia em geral”, propõe

o dirigente da maior associação empresarial do país. A proposta da CTA inclui o

alargamento da abrangência da medida referente ao adiamento dos pagamentos

por conta do imposto sobre o rendimento de pessoas colectivas (IRPC), bem

como da redução do custo de electricidade, e a implementação efectiva da medida

sobre a compensação dos créditos do Imposto de Valor Acrescentado (IVA).

A CTA defende também a reabertura dos centros de atracção turística e a adopção

de outros incentivos específicos para o sector da hotelaria e turismo, o mais

afectado pela pandemia no país, tendo atingido uma retracção da sua actividade

em mais de 75% só no primeiro semestre do ano. A organização empresarial quer

ver igualmente reforçadas as linhas de financiamento da actividade empresarial,

sublinhando que as actuais cobrem apenas 5% das necessidades totais.

ECONOMIA: Contrai fortemente sob o impacto da COVID-19

INICIATIVA

FILIPE NYUSI:

O Chefe de Estado

anunciou no Niassa a

iniciativa de construção

de aterros

GOVERNO VAI CONSTRUIR

ATERROS DE GESTÃO DE

RESÍDUOS

“O governo, através do Ministério da Terra

e Ambiente, irá desenvolver a iniciativa presidencial

de construção de aterros controlados

de gestão de resíduos sólidos, sendo

nesta primeira fase um aterro por cada província”,

anunciou Filipe Nyusi, no Niassa, no

Norte do país, no âmbito da visita presidencial

àquela província. O Chefe de Estado, citado

pela agência Lusa, disse ainda que a iniciativa

“é insignificante dada a vastidão de cada província

de Moçambique”, mas, segundo o Presidente,

ainda assim o objectivo é “reduzir a

deposição desregrada dos resíduos sólidos no

território”. “É pouco, mas nós estamos para

começar. Queremos aterros cientificamente

aprovados”, destacou.

O episódio mais recente sobre a má conservação

de resíduos sólidos no país ocorreu

em Fevereiro de 2018, quando uma parte da

maior lixeira de Maputo, com a altura de um edifício

de três andares, desabou devido à chuva

forte e abateu-se sobre diversas habitações

precárias do bairro em redor. Dezasseis pessoas

morreram no local, Hulene, das quais sete

eram crianças. Em 2018, o governo moçambicano

anunciou que a lixeira de Hulene seria

encerrada, uma operação estimada em

110 milhões de dólares.

D.R.

D.R.

agosto/setembro 2020 | 13


GRANDES

NÚMEROS

PARA SABER LER OS SINAIS DE UMA ECONOMIA EM MUDANÇA

MARCAS

TECNOLOGIA AINDA

MAIS VALIOSA

A tecnologia continua a imperar entre as marcas mais valiosas do mundo, de

acordo com o estudo da Brand Finance respeitante a 2020. A Amazon, que a

Brand Finance classifica como retalhista e não como tecnológica, mantém o

primeiro lugar da lista das 100 mais valiosas e a Google passa para a segunda

posição, por troca com a Apple. Curiosamente, a primeira grande marca chinesa

a surgir na tabela, em sexto lugar, é financeira, o gigante bancário ICBC.

Entre as dez primeiras classificadas só três marcas vêem reduzir ligeiramente o

respectivo valor: a Apple, a Microsoft e o Facebook. Todas as outras apreciaram

fortemente, apesar da crise mundial suscitada pela pandemia da COVID-19, ou

mesmo beneficiando do impulso que esta deu ao recurso às novas tecnologias.

A América do Norte, a Ásia e a Europa dominam a tabela elaborada pela

Brand Finance. Nela apenas surge uma empresa de outro continente, a milionária

petrolífera da Arábia Saudita, agora cotada em Bolsa, a Saudi Aramco.

O valor das marcas não se confunde com a avaliação de mercado das empresas,

correspondente ao somatório do valor das acções cotadas, assentando em

vários factores, como os investimentos efectuados em marketing, por exemplo.

As quatro marcas mais valiosas do mundo são norte-americanas, intrometendo-se,

na quinta posição, a Samsung, da Coreia do Sul, e, na sexta, a sigla

que designa o colosso financeiro chinês ICBC. As marcas chinesas reaparecem

na tabela em nono e décimo lugar através da seguradora Ping An e da tecnológica

Huawei, a primeira com uma expressiva valorização. Tanto a Ping An

como a Huawei ganharam posições na tabela. O mesmo acontece com a primeira

marca europeia que nela figura, a alemã Mercedes-Benz. Aliás, as marcas

germânicas do sector automóvel dominam o ranking europeu, que engloba

ainda empresas de comunicações, como a Deutche Telecom, consultoras, como

a EY, retalhistas de móveis, como a sueca IKEA, e petrolíferas, como a Shell,

a Total e a BP. Na Ásia, além das marcas chinesas referidas, a que se associa

o China Construction Bank na 13.ª posição, e da sul-coreana Samsung, ocupam

ainda lugar de relevo as marcas das construtoras automóveis japonesas

Toyota e Mitsubishi.

A Amazon que, em 2019, tinha um valor de marca de perto de 188 mil

milhões de dólares, passa este ano a valer mais de 220 mil milhões. Também o

valor da marca Google progride de 142,7 mil milhões de dólares em 2019 para

159,7 mil milhões em 2020. A marca Samsung, que mantém a quinta posição,

valoriza, de um ano para o outro, quase 3 mil milhões de dólares. De acentuar

que, ainda de acordo com a classificação da Brand Finance, quatro empresas

obtêm uma avaliação de marca superior a 100 mil milhões de dólares, sendo

três delas tecnológicas (considerando-se a Amazon uma empresa de retalho).

JEFF BEZOS,

DA AMAZON:

Liderança das marcas

mundiais reforçada

em 2020

14 | Exame Moçambique


O Facebook é uma empresa orgulhosamente americana.

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook.

AS 10 MARCAS

MAIS VALIOSAS

2020

2019

QUANTO VALEM AS LÍDERES

(mil milhões de dólares)

2019

2020

1 | 1

2 | 3

3 | 2

4 | 4

5 | 5

6 | 8

7 | 7

8 | 11

9 | 14

10 | 12

Amazon EUA (=)

Google EUA (▴)

Apple EUA (▾)

Microsoft EUA (=)

Samsung Coreia do Sul (=)

ICBC China (▴)

Facebook EUA (=)

Wallmart EUA (▴)

Ping An China (▴)

Huawei China (▴)

Amazon

Google

Apple

Microsoft

Samsung

ICBC

Facebook

142,75

159,72

153,63

140,52

119,59

117,07

91,28

94,49

79,82

80,79

83,2

79,8

187,9

220,79

Walmart

67,86

77,52

Ping An

57,62

69,04

Huawei

62,27

65,08

Fonte: Brand Finance.

GETTY

agosto/setembro 2020 | 15


CAPA INVESTIMENTO

O QUE FAZER

QUANDO

O DINHEIRO FOGE?

Os fluxos de investimento directo estrangeiro vão afundar em 2020, com os efeitos

da COVID-19 no horizonte. As economias mais frágeis, como muitas africanas,

vão continuar a sofrer com a perda de novos projectos, mas Moçambique tem um “trunfo”

que pode ajudar a salvar a face — e, sobretudo, a criar empregos: a conclusão do

financiamento do projecto de gás liderado pela Total

RICARDO DAVID LOPES

16 | Exame Moçambique


MOZAMBIQUE LNG:

Pode ajudar a salvar o investimento

directo estrangeiro (IDE) no país

já a partir deste ano

julho 2020 | 17


CAPA INVESTIMENTO

Quando, em meados do próximo ano,

a Conferência das Nações Unidas

sobre Comércio e Desenvolvimento

(UNCTAD, no acrónimo inglês)

divulgar aquele que será o seu 31.º

Relatório do Investimento Mundial, Moçambique

poderá estar em destaque, mas pela positiva, não

havendo percalços no desenvolvimento do projecto

de gás natural liderado pela Total na bacia

do Rovuma, Cabo Delgado. Há cerca de um mês, a

petrolífera francesa anunciou ter finalizado o financiamento

dos 16 mil milhões de dólares necessários

para assegurar a conclusão do Mozambique

LNG, na Área 1, que deverá começar a entregar

gás natural liquefeito em 2024 e estar em pleno

no ano seguinte.

O sucesso da operação, em plena pandemia de

COVID-19, deu alento ao governo e aos promotores

do projecto, que no total ascende a 23 mil

milhões de dólares e é o maior investimento em

África. Entre os financiadores da empreitada,

que promete entregar ao país 50 mil milhões de

dólares ao longo de vinte e cinco anos de concessão,

estão o Banco Africano de Desenvolvimento

(400 milhões de dólares), o Banco do Japão para a

Cooperação Internacional (3 mil milhões de dólares)

e o Banco Africano de Exportações e Importações

(Afreximbank), entre outros.

Em contraciclo com o projecto concorrente — o

Rovuma LNG, liderado pela ExxonMobil, adiado

devido à queda dos preços da matéria-prima e aos

efeitos da pandemia —, o Mozambique LNG pode

ajudar a salvar o investimento directo estrangeiro

(IDE) no país já a partir deste ano, após as quedas

em 2019, que colocaram o indicador em mínimos.

No ano passado, de acordo com o 30.º Relatório

do Investimento Mundial da UNCTAD (World

Investment Report 2020, WRI2020), divulgado

recentemente, Moçambique viu “fugir” cerca 500

milhões de dólares em IDE face ao ano anterior

(ver gráficos nas páginas seguintes). O ano de 2019

foi o pior dos últimos dez, em termos de IDE, que

se ficou por cerca de 2,2 mil milhões de dólares.

Ainda assim, o país foi o segundo que mais IDE

recebeu na região austral, depois da África do Sul,

destino de 4,6 mil milhões de dólares do exterior

— quase menos mil milhões face a 2018.

Mas nem Moçambique nem o vizinho a Sul

são excepções. Em regra, o ano passado, indica o

documento, o continente africano viu o IDE cair,

para cerca de 45 mil milhões de dólares, depois

de ter recuperado no ano anterior (51 mil milhões

de dólares).

OS MAIORES

AVANÇOS DO

IDE EM 2019

OCORRERAM

NAS ECONOMIAS

EM TRANSIÇÃO

(GRUPO

ONDE ESTÁ

MOÇAMBIQUE)

E NA EUROPA.

MAS EM 2020

TUDO MUDA

QUEBRA: O ano passado

o continente africano

viu o IDE cair, para cerca

de 45 mil milhões de dólares

Nos países em desenvolvimento de África, o indicador

caiu cerca de 10% em 2019, após um 2018

positivo, com um aumento de 22% face ao (péssimo)

ano de 2017, quando caíra 10%. E este foi o

pior desempenho por regiões, depois da Ásia, com

uma quebra homóloga de 5% no IDE dos países

em desenvolvimento da região.

O IDE mundial avançou 3%, liderado pelas economias

em transição (+59%, grupo onde está Moçambique)

e pela Europa (+10%). No caso moçambicano,

em 2019, de acordo com um estudo do Banco de

Moçambique tornado público em Março — antes

do relatório da UNCTAD —, mais de metade

do total investido veio da Vale Moçambique, do

grupo brasileiro Vale e de parceiros do Corredor

de Desenvolvimento do Norte. Já os grandes projectos

de exploração de gás natural investiram

pouco menos de 900 milhões de dólares.

O documento do banco central, citado pela

imprensa, avança que os grandes projectos continuam

a ser o principal destino do IDE, com 1,1 mil

milhões de dólares, a par de 979,8 milhões no carvão.

O segundo sector que mais recebeu IDE em 2019

foi o dos Transportes, Armazenagem e Comunicações

(365 milhões de dólares), seguido das

Indústrias Transformadoras (alimentares, bebidas,

tabaco, têxteis e outras) — 152 milhões de

dólares. Na Agricultura, Produção Animal, Caça

e Silvicultura, o IDE ficou-se pelos 53 milhões de

dólares, num ano marcado por desinvestimento

(-20,4 milhões de dólares) na produção e distribuição

de electricidade, gás e água.

18 | Exame Moçambique


IMPACTO DA PANDEMIA NOS LUCROS

PREVISTOS, NOVOS PROJECTOS DE

INVESTIMENTO E DE FUSÕES &

AQUISIÇÕES DAS 5000 MAIORES

MULTINACIONAIS

Previsão

de queda

de resultados

Total -36%

Primário -65%

Minas, extracção, petróleo -70%

Agricultura, florestas, pescas -1%

Indústria -34%

Veículos motorizados

e equipamento de transporte

-50%

Têxtil, vestuário, peles -49%

Materiais básicos -47%

Maquinaria e equipamento -39%

Outros produtos -28%

Computadores, electrónica, produtos

ópticos e material eléctrico

-20%

Alimentos, bebidas e tabaco -15%

Farmácia, químicos de uso clínico

e produtos botânicos

-14%

Serviços -35%

Hospedagem e alimentação -94%

Transportes e armazenagem -63%

Outros serviços -44%

Actividades comerciais -32%

Informação e comunicação -31%

Comércio -28%

Financeiro e seguros -23%

Construção -21%

Electricidade, gás, água

e gestão de resíduos

-16%

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

TEMPESTADE À VISTA

O pior, contudo, pode estar para vir — para todos

—, sobretudo por causa da COVID-19. De acordo

com o WIR2020, o IDE mundial pode cair em 2020

entre 30 a 40% face ao ano passado, ficando, no

pior dos cenários, abaixo da fasquia simbólica do

bilião de dólares, um mínimo de 2005. A UNC-

TAD antecipa que o IDE volte a recuar no próximo

ano, entre 5% e 10%, podendo recuperar em 2022.

O tombo coloca o IDE mundial a níveis bem

abaixo dos atingidos na sequência da crise financeira

de 2008/2009 e ataca em cheio as economias

em desenvolvimento e as que estão ainda na transição

para esse estatuto, as chamadas mais vulneráveis

por serem muito dependentes de investimentos

RENOVÁVEIS JÁ SÃO MAIS DE METADE

DOS PROJECTOS DE INVESTIMENTO

Não é ainda uma realidade generalizada em África, mas é uma tendência

incontornável do IDE global, numa altura em que já estão na

agenda as preocupações com a sustentabilidade ambiental dos projectos.

As energias renováveis têm vindo a receber cada vez mais

atenção nos últimos dez anos e, em 2019, este sector constituiu mais

de metade dos projectos de investimento a nível global.

A preponderância destes investimentos, assinala a UNCTAD, é “ainda

mais marcada nas economias desenvolvidas, onde esta indústria já

representava mais de 50% do investimento em 2015, tendo vindo

a crescer desde então”.

Nos países em desenvolvimento o investimento em energias renováveis

também cresceu, passando de 20% do total, em 2010, para

44%, em 2019. Neste grupo de países, lembra a agência das Nações

Unidas, os investimentos em infra-estruturas são igualmente importantes,

representando mais de 20% do total dos projectos na última

década, com um pico de cerca de 30% em 2013-2014, motivado

sobretudo pelo lançamento do projecto da Rota da Seda Marítima

do Século XXI, uma estratégia de desenvolvimento adoptada pela

China envolvendo desenvolvimento de infra-estruturas e investimentos

em países da Europa, Ásia e África.

De acordo com a UNCTAD, o custo médio destes projectos baixou

na última década em mais de 30%, levando as renováveis a um “ciclo

virtuoso de custos decrescentes, aumento da implementação e aceleração

do progresso tecnológico”, indica o WIR2020.

“De acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável, o

preço dos painéis solares caiu cerca de 80%, desde 2010, e o das

turbinas eólicas, 30 a 40%. O impacto da pandemia irá resultar na

competição por financiamento internacional por parte de novos

projectos”, diz o relatório, que acrescenta que “muitos já anunciados

foram adiados, suspensos ou cancelados para que fosse priorizado

o combate à crise”.

ENERGIA RENOVÁVEL:

Mais de metade dos projectos

de investimento a nível global

agosto 2020 | 19


CAPA INVESTIMENTO

associados à exploração e exportação de commodites,

em especial as petrolíferas — cuja procura

tem vindo a cair por causa da COVID-19.

As estimativas da UNCTAD apontam para um

recuo generalizado do IDE em todas as regiões,

com o continente africano a correr o risco de ver

este indicador cair até 40% este ano, face a 2019,

no pior dos cenários.

A pandemia, contudo, não é o único desafio

— nem o único factor a puxar para baixo o IDE,

indica o WIR2020. “A nova revolução industrial,

o aumento dos nacionalismos económicos e as

tendências ligadas à sustentabilidade terão consequências

profundas na configuração do investimento

internacional até à década de 2030”, refere

o documento.

“A tendência internacional generalizada aponta

para cadeias de valor mais curtas, maior concentração

de valor e declínio do investimento internacional

em activos produtivos físicos”, acrescenta o

documento, que destaca que estas mudanças irão

trazer “enormes desafios aos países em desenvolvimento”.

“Durante décadas, as estratégias de desenvolvimento

e industrialização destes países assentaram

na captação de IDE, no reforço da participação

AS ESTIMATIVAS

DA UNCTAD

APONTAM QUE

ÁFRICA CORRE

O RISCO DE VER

O INDICADOR DE

QUEBRA DO IDE

CAIR ATÉ 40%

CHINA:

Liderou

a captação

de investimento

directo estrangeiro

por África

PROJECTOS DE INVESTIMENTO

RECUAM

Em comparação com o ano de 2019, há no primeiro

trimestre deste ano uma quebra substancial de novos

projectos de investimento, com realce para o sector

industrial

PRIMÁRIO INDÚSTRIA SERVIÇOS

-29%

-38%

-23%

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

e procura de valor em cadeias de valor globais e

na aposta no upgrade tecnológico em cadeias de

produção internacionais”, assinala a UNCTAD,

que destaca oportunidades na criação de cadeias

de valor regionais e na entrada em novos mercados

através de plataformas digitais. Mas a “captura”

destas oportunidades, lembra a instituição,

irá implicar “uma mudança nas estratégias de

desenvolvimento”.

Garantida, para já, é “muita incerteza” quanto

ao futuro. “As perspectivas [de crescimento do

IDE] dependem da duração da crise sanitária e

da eficácia das políticas de intervenção públicas

para mitigar os efeitos económicos da pandemia”,

assinala a agência da ONU, que adiciona os riscos

geopolíticos e financeiros e a manutenção de

tensões comerciais como “ingredientes” de incerteza

adicionais.

A pandemia, explica o WIR2020, é “um choque

na oferta, procura e políticas de IDE. As medidas

de confinamento estão a provocar abrandamento

em projectos de investimento em curso, e a perspectiva

de uma profunda recessão leva os líderes

20 | Exame Moçambique


MENOS FUSÕES E AQUISIÇÕES

Também houve queda de novos projectos de Janeiro

a Abril deste ano face ao conjunto de 2019, com relevo

para computadores, electrónica, produtos ópticos e

material eléctrico, e com excepção apenas da actividade

farmacêutica e de produção de químicos de uso clínico

PRIMÁRIO INDÚSTRIA SERVIÇOS

-9%

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

-22%

-21%

das companhias multinacionais a reavaliarem

novos projectos. As medidas políticas implementadas

pelos governos durante a crise incluem restrições

a novos investimentos”.

Um inquérito realizado em Março junto dos

líderes das 5 mil maiores empresas multinacionais

— responsáveis por quase todo o IDE global

— indica que os gestores antecipam uma quebra

nos lucros este ano na ordem dos 36%, em média,

com o sector primário a liderar as perspectivas

negativas (quebra de 65% nos resultados). Já na

hospedagem e alimentação, antecipam-se quebras

de 94%.

A UNCTAD destaca que há uma relação directa

entre PIB e investimento, e entre resultados das

empresas e capacidade de investir, pelo que não

apenas podemos esperar quebras, como já estamos

a vivê-las. O documento avança que, contas

feitas, no primeiro quadrimestre deste ano

houve já uma quebra de 30% em novos projectos

de investimento, e de 21% em operações de fusões

e aquisições (F&A), face a todo o ano de 2019, nos

dois casos.

No sector primário, a quebra de novos projectos de

investimento é de 29%, e em F&A de 9%. Na indústria,

as baixas são de 38% e 22%, respectivamente,

enquanto nos serviços o recuo é de 23% e 21%.

Também a quebra de mais de 40% em project

finance — modelo de financiamento usado sobretudo

na construção de infra-estruturas — é um

indicador do pessimismo generalizado.

ÁFRICA: UMA PEQUENA PARCELA

No ano passado, de acordo com o relatório, as economias

desenvolvidas africanas receberam, no conjunto,

45,4 mil milhões de dólares de IDE (cerca

de 2,9% do total mundial), uma quebra de 10,3%

face a 2018. O Egipto foi o país que captou mais

dinheiro vindo de fora, cerca de 9 mil milhões de

dólares (+10,8% face a 2018), seguido da África do

Sul (4,6 mil milhões de dólares, -15,1%), Congo

(3,4 mil milhões, -22%), Nigéria (3,3 mil milhões,

-48,5%) e Etiópia (2,5 mil milhões de dólares, -24%

do que em 2018).

O documento avança que as perspectivas para o

IDE nos países mais desenvolvidos de África “permanecem

negativas em 2020, face à pandemia”,

muito devido à quebra nos preços do petróleo e

outras matérias-primas. “A estimativa de quebra

de 25 a 40% no IDE baseia-se nas projecções de

crescimento do PIB, a par de um conjunto de facagosto

2020 | 21


CAPA INVESTIMENTO

No caso da região central do continente, o

IDE recuou 7%, para 8,7 mil milhões de dólares.

Na RDC, caiu 9%, para 1,5 mil milhões de dólares,

continuando a ser canalizado sobretudo para

o sector mineiro, em especial cobalto, de que o país

é um dos maiores produtores mundiais.

Na região Sul, o IDE aumentou 22%, para 5,4 mil

milhões, e Angola a registou desinvestimentos, fruto

do repatriamento de lucros do sector petrolífero.

RECURSOS NATURAIS:

Os investimentos dos

países em

desenvolvimento

estão a ser afectados

pelo preço das

matérias-primas

ÁSIA GANHA TERRENO

As economias mais desenvolvidas da Ásia viram o

IDE cair 4,9% o ano passado, para 473 mil milhões

de dólares, mas a região afirmou-se como destino

de cerca de 30% de todo o IDE mundial em 2019.

A China liderou a captação de IDE, com

141,2 mil milhões de dólares, mais 2,1% face a 2018,

seguida de Singapura (92,1 mil milhões, +15,5%),

Hong Kong (68,4 mil milhões, -34,4%), Índia

tores específicos ligados ao investimento”, indica

o documento.

A UNCTAD revela que, face à incerteza económica

generalizada e às restrições de deslocações,

“muitos projectos de investimento anunciados e

previstos deverão ser cancelados ou suspensos.

Até Abril de 2020, o número de F&A transfronteiriças

baixou 72% face à média mensal de 2019”.

A aposta em parcerias público-privadas e a aceleração

da integração regional, incluindo em termos de

livre comércio, poderão mitigar estes efeitos, assinala

a agência.

Numa análise por regiões do continente, verifica-se

que a norte o IDE caiu 11% em 2019, com

o Egipto em contraciclo graças ao aumento de

confiança gerado pelas reformas macroeconómicas

do governo. Na África Subsariana, após um

aumento significativo verificado em 2018, o IDE

caiu cerca de 10%, para 32 mil milhões de dólares,

arrastado pelos recuos na Nigéria, África do

Sul e Etiópia. Na África Ocidental, o IDE caiu

21%, para 11 mil milhões de dólares em 2019, em

boa parte devido à redução do investimento na

Nigéria, depois de dois anos de aumentos consecutivos,

fruto, sobretudo, do abrandamento

do investimento em petróleo e gás. Já os fluxos

de IDE para os países da África Oriental caíram

9%, para os 7,8 mil milhões de dólares, em boa

parte devido às quebras de investimento na Etiópia,

fruto da instabilidade em algumas regiões.

A China foi o principal investidor, com 60% dos

projectos de IDE aprovados.

FLUXOS DE IDE GLOBAIS E PREVISÕES POR REGIÕES

E CATEGORIAS DE PAÍSES

O IDE global poderá ficar abaixo de um bilião de USD em 2020, o valor

mais baixo desde 2005, se se confirmar uma queda de 40% face a 2019.

As economias em desenvolvimento, assim como as mais débeis, como Moçambique,

são as mais afectadas.

(em milhares de milhões de USD e %)

2017 2018 2019 2020 (P)

Mundo 1 700 1 495 1 540 920 - 1 080

Economias desenvolvidas 950 761 800 480 - 600

Europa 570 364 429 240 - 300

América do Norte 304 297 297 190 - 240

Economias em desenvolvimento 701 699 685 380 - 480

África 42 51 45 25 - 35

Ásia 502 499 474 260 330

América Latina e Caraíbas 156 149 164 70 - 100

Economias em transição 50 35 55 30 - 40

Memorandum — taxa de crescimento anual (em %)

2017 2018 2019 2020 (P)

Mundo -14 -12 3 (-40 a -30)

Economias desenvolvidas -25 -20 5 (-40 a -25)

Europa -16 -36 18 (-45 a -30)

América do Norte -40 -2 0 (-35 a -20)

Economias em desenvolvimento 7 0 -2 (-45 a -30)

África -10 22 -10 (-40 a -25)

Ásia 7 -1 -5 (-45 a -30)

América Latina e Caraíbas 14 -5 10 (-55 a -40)

Economias em transição -25 -31 59 (-45 a -30)

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

22 | Exame Moçambique


julho 2020 | 23


CAPA INVESTIMENTO

AVIAÇÃO: SEGURA SENÃO CAI

O sector do turismo tem sido um dos mais fustigados pelos efeitos

económicos da pandemia, levando muitos países a investirem

recursos públicos na salvação de companhias aéreas. Entre as ajudas

estão empréstimos e garantias de Estado a financiamentos, mas

alguns governos optaram mesmo por entrar no capital das empresas.

▸A Itália vai nacionalizar a Alitalia e anunciou uma injecção de capital

de 3 mil milhões de dólares na companhia.

▸A Alemanha anunciou a nacionalização da Condor Arilines e chegou

a um acordo com a Lufthansa para um pacote de salvamento de 9

mil milhões de euros. O Estado alemão fica com 20% da companhia

(por 300 milhões de euros) e injecta 5,7 mil milhões, sem que este

capital seja convertido em direitos de voto, e que a empresa deverá

ir reembolsando trimestralmente ou em bloco. Caso haja falhas no

pagamento, ou o governo necessite de bloquear uma tomada hostil

à companhia, este capital pode ser convertido em 5% dos direitos

de voto. O KfW, o banco estatal de desenvolvimento, vai disponibilizar

linhas de crédito de 3 mil milhões de euros.

▸A Noruega disponibilizou garantias de Estado até 900 milhões de

euros à Norwegian Air, ao abrigo de um acordo que pode resultar

na conversão em capital do valor em causa.

▸A Finlândia anunciou um pacote de 600 milhões de euros para recapitalizar

a Finnair, onde o Estado detém 55% das acções.

▸Os EUA aprovaram um pacote de auxílio de 25 mil milhões de USD

para a indústria da aviação civil. Ao abrigo deste “resgate”, o governo

pode adquirir acções da American Airlines (3%), United Airlines (2,3%),

JetBlue (1,3%), Delta Airlines (1%) e Southwest Airlines (0,6%).

▸O banco de desenvolvimento do Brasil está a negociar os termos

do apoio público às companhias Azul and Gol, e à transportadora

regional, Latam, assim como à Embraer, neste caso.

(50,6 mil milhões, +19,9%) e Indonésia (23,4 mil

milhões de dólares, -13,9%).

Em 2020, os fluxos de IDE deverão cair entre

30 e 45%, fruto da pandemia. O número de novos

projectos de investimento no primeiro quadrimestre

caiu 37% e o número de F&A recuou 35% até Abril.

A China, o país onde começou a pandemia e

que é o segundo maior receptor de IDE mundial,

após os EUA, deverá ser “severamente” afectada

este ano, refere a UNCTAD. O PIB contraiu 6,8%

no primeiro trimestre, e estima-se que o IDE para

o país no período tenha recuado 13%, para 31 mil

milhões de USD, face ao ano passado, excluindo

o sector financeiro.

AMÉRICA LATINA E CARAÍBAS

EM CONTRACICLO

Os fluxos de IDE para esta região aumentaram

10,3% o ano passado, para 164,2 mil milhões

de dólares, cerca de 10,7% do total mundial.

O Brasil liderou, com um aumento de 20,4%, para

72 mil milhões de dólares, seguido do México

(32,9 mil milhões, -5,3%), Colômbia (14,5 mil

IDE EM ÁFRICA POR REGIÕES EM 2019

(Milhões de USD)

O Norte de África é a região do continente que recebe

mais investimento directo proveniente do exterior,

ficando a África Austral em último lugar entre as

grandes regiões beneficiárias

13 679

10 870

ALITALIA: O Estado italiano

vai nacionalizar a sua companhia

de bandeira e injectar capital

8 702

7 756

4 360

Norte Ocidental Central Oriental Austral

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

24 | Exame Moçambique


UNCTAD:

Há mudanças e políticas que podem

ajudar os países a recuperarem

da crise a nível nacional

milhões USD, +25,6%), Chile (11,4 mil milhões de

dólares, +62,9%) e Peru (8,9 mil milhões, +37,1%).

As boas notícias, contudo, devem ter chegado ao

final, já que a UNCTAD antecipa para este ano uma

quebra para metade dos fluxos de IDE. “A pandemia

chegou relativamente tarde à região e alimentou

a instabilidade social e política que, aliada às

debilidades estruturais, deverá levar a uma profunda

recessão”, diz o documento.

O PIB deverá recuar 5% este ano. O número

de projectos de investimento anunciados no

primeiro quadrimestre caiu 36%, sendo que, no

caso do Brasil, recuou para metade no período,

face ao homólogo, enquanto no México a redução

foi de 31%.

A pandemia tem tido efeitos mais severos nos

sectores de commodities, turismo e transportes.

Nas indústrias automóvel e têxtil, prevê-se que

se continuem a fazer sentir também efeitos negativos,

quer na procura, quer na oferta.

No caso da indústria automóvel, segundo a

UNCTAD, o número de novos projectos de investimento

caiu 73% no primeiro quadrimestre, com

o México a ser o país mais afectado. No ano passado,

o IDE neste sector correspondeu a 20% do

total no país.

NO ANO PASSADO, AS ECONOMIAS

DESENVOLVIDAS AFRICANAS

RECEBERAM 45,4 MIL MILHÕES DE

DÓLARES DE IDE (2,9% DO TOTAL

MUNDIAL)

ECONOMIAS EM TRANSIÇÃO

RECEBERAM MAIS

A Rússia liderou a captação de IDE o ano passado

neste grupo de países, com 31,7 mil milhões

de dólares, mais do dobro (139,9%) face a 2018.

O segundo país com mais IDE foi a Sérvia

(4,3, mil milhões, +4,7%), seguida da Ucrânia

(3,1 mil milhões de dólares, +30,4%), Cazaquistão

(mesmo valor de IDE, quebra de 17%) e Uzbequistão

(2,3 mil milhões, +266%). O forte aumento

do IDE na Rússia surge após dois anos de quebra

e deve-se essencialmente ao reinvestimento de

lucros em projectos em curso. Mas este ano antecipa-se

uma quebra de 38% no IDE. Entretanto,

a Rússia tem vindo a diversificar os países onde

investe, com foco também em África, ao abrigo

de projectos derivados da primeira Cimeira Rús-

agosto/setembro 2020 | 25


CAPA INVESTIMENTO

PARA ONDE FOI O IDE EM 2019

No último ano a maior fatia do investimento directo estrangeiro dirigiu-se às

economias desenvolvidas, recebendo as economias em transição um valor residual

3,6%

Economias

em transição

44,5%

Economias em

desenvolvimento

O VAI E VOLTA DO IDE

(Mil milhões de USD)

O Japão foi, em 2019, o país que mais investiu no exterior.

Eis os dez países que mais investiram no exterior no último ano

227

125 125

117

99

77

59

51,9%

Economias

desenvolvidas

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

39 36 33

Japão EUA Holanda China Alemanha Canadá Hong Kong França Coreia Singapura

China

do Sul

sia-África, em 2019 (ver caixa “Investimento que

vem do frio”).

O MUNDO É DOS GRANDES

Não são as que mais precisam, em teoria, mas são

as que mais IDE receberam em 2019 — e nos anos

anteriores. As economias desenvolvidas receberam

52% do IDE mundial no ano passado, num

total de 800,2 mil milhões de dólares, mais 5,1%

do que em 2018.

Os EUA mantiveram-se como o maior receptor,

apesar de uma quebra de 2,9%, com 246,2 mil

milhões de dólares. No ranking dos cinco países

desta categoria que mais dinheiro viram entrar nas

suas economias seguem-se a Holanda, com 84,2 mil

OS LÍDERES DAS 5000 MAIORES

MULTINACIONAIS ANTECIPAM

UMA QUEBRA MÉDIA DE

36% NOS LUCROS ESTE ANO

milhões de USD, a Irlanda, com 78,2 mil milhões

de dólares, o Reino Unido, com 59,1 mil milhões,

e o Canadá, com 50,3 mil milhões de dólares.

Mas este ano o IDE nestes países deve recuar

35%, graças à redução esperada nos resultados das

empresas, cujos lucros respondem, habitualmente,

por 60% do reinvestimento. De acordo com a UNC-

TAD, os fluxos de IDE para os países desenvolvidos

devem cair para cerca de 500 mil milhões de

dólares em 2020, graças ao impacto da COVID-

-19 nos lucros das maiores empresas.

Até Abril deste ano, o número de F&A transfronteiriças

dirigidas a estas economias caiu 53% face

à média mensal de 2019. Quanto a novos projectos

de investimento anunciados no mesmo período,

o recuo é de 26%.

A UNCTAD assinala, contudo, que “apesar de

o impacto [da COVID-19] ser severo, a queda prevista

[no IDE] nestas economias é inferior à das

economias em desenvolvimento. A sua capacidade

de implementar pacotes de estímulos fiscais para

absorver os efeitos do choque económico e auxiliar

a recuperação é maior”.

“Por outro lado, os fluxos de IDE nas economias

desenvolvidas incorporam níveis de financiamento

mais elevados e que podem ser menos afectados

pela crise do que o investimento em activos produtivos”,

refere o documento.

A UNCTAD antecipa que os fluxos de IDE para

a Europa venham a recuar entre 30 e 45%, devido

26 | Exame Moçambique


CAPA INVESTIMENTO

INVESTIMENTO QUE VEM DO FRIO

A Rússia não é um investidor de peso em África, ainda, mas

tem procurado reforçar a aproximação ao continente e

encontrar novas oportunidades de investimento.

A Cimeira Rússia-África, em 2019, foi o gatilho desta nova

era. O volume de investimento russo no continente é geralmente

reduzido, mas há excepções. Em 2019, por exemplo,

o Congo recebeu IDE russo de 779 milhões de dólares,

quando a Lukoil, o maior investidor externo do país, comprou

25% da Marine XII, com um projecto já em fase de

exploração.

Outras empresas russas estão em África, como a estatal Alrosa,

em Angola, Botswana e Zimbabwe, a Renova (registada nas

Bahamas), que está no sector mineiro no Gabão, Moçambique

e África do Sul, ou a também estatal operadora nuclear Rosatom,

que investe no Egipto e na Nigéria.

A cimeira de 2019 conduziu à assinatura de vários novos projectos

de investimento:

▸A empresa estatal de segurança informática Avomatika

(integrada na Rostec Corporation) assinou um contrato com

a operadora móvel angolana Movicel para proteger a sua

infra-estrutura tecnológica.

▸O EFKO Group e a United Oil (Egipto) assinaram um acordo

de intenções para a criação de uma joint venture para a construção

de uma fábrica de 300 milhões USD.

▸A Rosatom e o governo do Ruanda assinaram um acordo

para a construção de um centro de ciência nuclear e tecnologia

em Kigali.

▸A estatal Uralchem, registada no Chipre, e o grupo angolano

Opaia (que actua na construção civil, energia solar, água,

turismo, agricultura e outras indústrias) assinaram um memorando

de entendimento para a construção de uma fábrica de

ureia e amoníaco em Angola, no valor de mil milhões de dólares.

▸O banco estatal russo VEB assinou um acordo para a construção

de uma refinaria em Marrocos, no valor de 2,2 mil

milhões de dólares.

RÚSSIA:

Tem procurado reforçar a

aproximação ao continente africano

28 | Exame Moçambique


ao impacto “dramático” da pandemia na maioria

das economias e a “fragilidades económicas

preexistentes”. A estimativa de IDE para a América

do Norte aponta para uma queda que pode

chegar aos 35%.

As previsões de resultados para 2020 das principais

multinacionais baseadas em países desenvolvidos

apontam para uma redução média de 39%,

o que deverá ter impacto no IDE, dado o papel

que o reinvestimento de lucros desempenha nos

fluxos de investimento nesta categoria de economias,

refere o WIR2020. Dada a dependência dos

países em desenvolvimento e dos mais frágeis

do IDE das economias desenvolvidas, o impacto

em países como Moçambique e outros em África

é previsível — em baixa.

AS ECONOMIAS MAIS

DESENVOLVIDAS DA ÁSIA VIRAM O

IDE CAIR 4,9% NO ANO PASSADO,

PARA 473 MIL MILHÕES DE DÓLARES

TOP 5 DO IDE NOS MENOS DESENVOLVIDOS 2019

(Mil milhões de USD)

Moçambique inclui-se entre os países que captam mais IDE no grupo

dos menos desenvolvidos. O Camboja lidera o grupo de países e foi,

entre os primeiros, o único a registar uma evolução positiva no último ano

3,7

+15,5%

2,8

-22,2%

2,5

-24%

2,2

-18,2%

1,5

-55,8%

MOÇAMBIQUE NO TOP 5 DOS MENOS

DESENVOLVIDOS

O IDE no grupo de 47 países que a UNCTAD

categoriza como mais frágeis economicamente,

ou menos desenvolvidos, onde Moçambique está

incluído, também caiu em 2019. Recuou 5,7%, para

21,1 mil milhões de dólares, valendo apenas 1,4%

do total mundial.

O Camboja, com 3,7 mil milhões de dólares de

IDE (+15,5% face a 2018), lidera o Top 5 deste grupo.

Seguem-se o Myanmar, com 2,8 mil milhões de

dólares (-22,2%), a Etiópia, com 2,5 mil milhões de

dólares (-24%), Moçambique, com 2,2 mil milhões

de dólares (-18,2%), e o Bangladesh, com uma

forte quebra de quase 56%, para 1,6 mil milhões

de dólares.

A China tem sido o maior investidor neste grupo

de países, com um stock de investimento de 45 mil

milhões de dólares no final de 2018, bem à frente

do segundo classificado, a França, com 11 mil

milhões de USD. Portugal está em 9.º lugar neste

ranking, com um stock de investimento de 5 mil

milhões de USD.

As perspectivas para estes países em 2020 são

“extremamente fracas”, avança a UNCTAD.

“As necessárias medidas sanitárias para controlar

a COVID-19 impedem a implementação de projectos

de investimento em curso e anunciados.

Os países menos desenvolvidos são altamente

Camboja

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

Myanmar Etiópia Moçambique Bangladesh

ENTRADAS DE IDE EM ÁFRICA 2014-2019

(milhões de USD)

No último ano entrou menos investimento directo estrangeiro no continente que

em 2014. Com excepção de 2018, a tendência tem sido para a diminuição da entrada

de IDE em África

53 908

57 564

46 023

41 535

50 577

45 368

2014 2015 2016 2017 2018 2019

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

agosto/setembro 2020 | 29


ECONOMIAS

DESENVOLVIDAS:

Recebem a maior

parte do IDE mundial

dependentes de investimentos em recursos naturais,

que estão a ser afectados negativamente pelos

choques nos preços das commodities e do petróleo”,

lembra o WIR2020.

Também os países menos desenvolvidos que

dependem do turismo irão assistir a uma quebra

nesta indústria, e os projectos de investimento

anunciados, que já estavam em baixa em 2019,

foram ainda mais afectados no primeiro quadrimestre

de 2020.

A pandemia e os seus efeitos económicos,

afirma o documento, vão “atingir duramente

estes países, tornando as perspectivas do IDE

negras”. “Os recursos internos limitados e a

débil capacidade dos sistemas de saúde constituem

um desafio imediato para os países menos

desenvolvidos no que diz respeito ao combate

à pandemia.”

“As medidas restritivas para controlar a pandemia

tiveram consequências negativas para as

actividades económicas. O impacto imediato no

IDE é o congelamento de projectos em curso

e de operações nos países receptores”, assinala

O IMPACTO IMEDIATO NO IDE

DAS MEDIDAS RESTRITIVAS

É O CONGELAMENTO DE PROJECTOS

EM CURSO E DE OPERAÇÕES NOS

PAÍSES RECEPTORES

o estudo, que acrescenta que “um shutdown prolongado

das actividades económicas irá desencorajar

novo investimento e abrandar o IDE de

investidores actuais, podendo resultar em desinvestimentos”.

A verificar-se, tal poderá “afectar

muitos países menos desenvolvidos fortemente

dependentes de investidores externos quer para

as actividades industriais focadas em exportações,

quer para parcerias público-privadas em

projectos de desenvolvimento de infra-estruturas”,

como centrais de energia ou parques industriais.

“Um atraso nestes projectos irá reduzir

não apenas as perspectivas de curto prazo de

novos fluxos de IDE para estes países, como irá

30 | Exame Moçambique


IDE EM MOÇAMBIQUE

(Milhões de USD)

O investimento directo estrangeiro que aflui ao país tem

vindo a diminuir desde 2014, mostrando, no entanto,

desde a inversão de quebra em 2018, que ensaiava uma

recuperação

4 902

3 867

3 093

2 293

2 703

2 212

2014 2015 2016 2017 2018 2019

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

desacelerar o crescimento económico no longo

prazo”, alerta a agência das Nações Unidas.

O relatório avança que o recuo nos projectos

de IDE anunciados no primeiro quadrimestre

deste ano acelerou, baixando 27% em número

e quase 20% em valor face à média quadrimestral

de 2019, em que os níveis estavam já 12%

abaixo do anterior, sobretudo devido à queda

no sector energético nos países menos desenvolvidos

da Ásia. A quebra nos resultados das

empresas investidoras afecta o IDE nestes países,

ainda que nalguns, como Moçambique, Etiópia

e Myanmar, o histórico mostre que a dependência

deste factor no IDE é residual.

Em média, no ano passado, os fluxos de IDE

para os 33 países africanos menos desenvolvidos

subiram 17%, para 12 mil milhões de dólares,

com a Zâmbia (345 milhões dólares) e o Togo

(317 milhões de dólares) a liderarem os aumentos,

a par do Uganda (mais 211 milhões de dólares

face a 2018, para 1,3 mil milhões no total).

Também a Tanzânia recebeu mais 5% de IDE,

a Mauritânia 15%, e o Senegal, 16%.

Pela negativa, assinala o WIR2020, a quebra de

794 milhões de dólares na Etiópia, de 491 milhões

de dólares em Moçambique e de 310 milhões de

dólares no Sudão. Na Etiópia, os fluxos de IDE

caíram pelo segundo ano consecutivo, após um

pico em 2016. Em Moçambique, caiu para um

mínimo de dez anos, arrastado pelo recuo de

um terço no investimento no sector mineiro.

DAR A VOLTA POR CIMA

Há mudanças e políticas que podem ajudar os

países a recuperarem da crise, ao nível nacional

e no cenário internacional, lembra a UNC-

TAD. E estas mudanças podem traduzir-se no

estímulo de captação de IDE.

As políticas de investimento, por exemplo,

podem “contrariar a crise de formas diversas”,

assinala o documento. A nível nacional, devem

facilitar o investimento, o que pode passar por

apoios fiscais ou financeiro às empresas e colaboradores

como primeira linha de combate à crise.

A redução nos passos necessários para a constituição

de empresas, encurtando o tempo até

agosto/setembro 2020 | 31


CAPA INVESTIMENTO

ao início de actividade, o alívio burocrático ou

a redução de taxas têm sido implementados com

sucesso em países como a China, Myanmar, Sérvia

ou Tailândia.

O aumento do recurso ao on-line e a plataformas

electrónicas nas actividades económicas e serviços,

a criação de incentivos financeiros ou fiscais

para a produção de equipamentos médicos para a

COVID-19, ou para a conversão de linhas de produção

existentes, e de apoios para actividades económicas

em quebra, são medidas apontadas pela

UNCTAD que, a nível nacional, podem ajudar a

criar novas oportunidades.

Em casos extremos, os governos podem optar

pela tomada de capital, pelo Estado, de empresas

em dificuldades, ou mesmo nacionalizá-las, se isso

se revelar necessário para evitar impactos maiores

e mais duradouros. E não devem deixar de ter em

atenção as pequenas e médias empresas, apoiando

fiscalmente, por exemplo, fornecedores nacionais.

AS

PLATAFORMAS

DIGITAIS E A

PRODUÇÃO DE

EQUIPAMENTOS

MÉDICOS PARA

A COVID-19

PODEM CRIAR

OPORTUNIDADES

A nível internacional, há igualmente políticas

de investimento que podem criar melhor um

ambiente de negócios nesta fase, como acordos

para investimentos transfronteiriços. A UNC-

TAD refere igualmente a necessidade de reformar

os acordos de investimento internacionais

(IIA, no acrónimo inglês), reforçando as garantias

dos investidores.b

Nota: Os países menos desenvolvidos incluem o Afeganistão,

Angola, Bangladesh, Benim, Butão, Burkina

Faso, Burundi, Camboja, República Centro-Africana,

Chade, Comores, RDC, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Gâmbia,

Guiné, Guiné-Bissau, Haiti, Kiribati, Lesoto, Libéria,

Madagáscar, Malawi, Mali, Mauritânia, Moçambique,

Myanmar, Nepal, Níger, Ruanda, São Tomé e Príncipe,

Senegal, Serra Leoa, Ilhas Salomão, Somália, Sudão do

Sul, Sudão, Timor-Leste, Togo, Tuvalu, Uganda, Tanzânia,

Vanuatu, Iémen e Zâmbia.

IDE NA ÁFRICA AUSTRAL 2018-2019

(Milhões de USD)

Com a quebra da economia angolana, a África do Sul

recebe o maior quinhão de IDE na África Austral, logo

seguida por Moçambique. De 2018 para 2019 o IDE

recuou nos dois países

2018 2019

102|98

Malawi

36|130

Suazilândia

2 703|2 212

Moçambique

745|280

Zimbabwe

408|753

Zâmbia

-6 456|-4098

Angola

157|17

Namíbia

Fonte: WIR2020 (UNCTAD).

286|261

Botswana

5 450|4 624

África do Sul

129|118

Lesoto

32 | Exame Moçambique


CAPA DOING BUSINESS

AMBIENTE DE NEGÓCIOS

E IDE: QUE RELAÇÃO?

A relação entre IDE e a posição dos países no Doing Business, do Banco Mundial, não

é linear, porque há sectores — como o petróleo ou minas — onde o investimento surge

sempre. Mas quanto melhor posicionado, mais hipóteses tem um país de, pelo menos, cair

no “radar” dos investidores que andam à procura de sítio para aplicarem o seu dinheiro

RICARDO DAVID LOPES

MOÇAMBIQUE:

Ocupa a 8ª posição

entre os países da SADC

Se houvesse uma relação de causa-efeito

linear entre a posição dos países no

ranking da facilidade de fazer negócios

do Doing Business, elaborado anualmente

pelo Banco Mundial, e o investimento

directo estrangeiro (IDE) em cada um deles,

o mundo seria seguramente diferente daquilo que

conhecemos. Sendo verdade que existe uma relação

entre os dois elementos — porque um país é tanto

mais atractivo para os investidores quando mais

fácil e menos oneroso é para fazer negócios —, ela

não é directa. E, por vezes, o ganho em posições no

IDE, de um ano para o outro, pode até nem implicar

a chegada de mais investimento.

Na última edição do Doing Business (DB 2020),

divulgada em Outubro de 2019, a Nova Zelândia

lidera o ranking (o que, aliás, ocorre desde 2017),

mas entre os dez primeiros classificados na tabela

do Banco Mundial não está na frente, longe disso.

Em 2019 (últimos dados conhecidos), de acordo

com o World Investment Report da UNCTAD, o

país recebeu cerca de 5,4 mil milhões de USD em

IDE (ver infografia nestas páginas), o que corresponde

a dezassete vezes menos do que acolheu o

segundo na tabela do Banco Mundial (Singapura,

número dois do ranking), ou quarenta e cinco vezes

menos que os EUA — o país que mais capta IDE no

mesmo ano e ficou em 8.º lugar no DB desse ano.

34 | Exame Moçambique


MAPUTO,

É A MELHOR

CIDADE DO

PAÍS PARA

ABRIR UMA

EMPRESA,

SEGUIDA

DA CABO

DELGADO

E GAZA

Os EUA, tradicionalmente o principal destino

do IDE mundial, desde 2015 nunca conseguiram

melhor do que um 6.º lugar no DB (ver gráficos nestas

páginas). Mas nem por isso são o país favorito

dos investidores quando se trata de aplicar capital.

Já a China, que ocupa a segunda posição em termos

de captação de IDE mundial, tem vindo a melhorar

substancialmente a sua posição neste ranking, ocupando

em 2019 a 49.ª posição (e passou para a 31.ª

em 2020). Mas, em termos de IDE, não tem havido

alterações significativas desde 2015.

No caso da SADC, confirma-se que não há uma

relação directa entre o DB e o IDE: as Maurícias

são o único país da região nas posições cimeiras

do ranking do Banco Mundial, mas estão longe de

receber o investimento da maior economia da zona,

a África do Sul.

Em Moçambique, o IDE tem andado mais ao ritmo

dos projectos de carvão e gás do que sob a batuta do

ranking do IDE, onde, de resto, o país esteve sempre

em más posições, por factores que vão desde a

burocracia à percepção da corrupção, entre outros.

Ainda assim, tomando outros exemplos africanos

como referência, como as Maurícias ou o Ruanda,

que têm vindo a ganhar a atenção (e o dinheiro)

dos investidores internacionais, o certo é que, se

no caso das minas, gás e petróleo parece não haver

tanta sensibilidade ao ranking do Banco Mundial,

este factor é relevante para, por exemplo, lançar

empresas de serviços, fábricas e projectos turísticos,

entre outros.

A posição no DB é relevante quando se trata de

atrair investidores, sobretudo aqueles que estão a

pensar lançar novos projectos e olham com atenção

para as condições que cada país oferece, a vários

níveis, antes de tomarem a decisão.

Em 2020, a Nova Zelândia voltou a ser o país

com melhor ambiente de negócios e Singapura o

segundo, e a Dinamarca “cedeu” o terceiro lugar

no ranking do DB.

No Top 10 dos países onde existe maior facilidade

de fazer negócios (ver tabelas e gráficos nestas

páginas), os EUA e Reino Unido melhoraram face

ao relatório de 2019, enquanto a Noruega recuou e

a Macedónia foi “expulsa”, dando lugar à Suécia.

O Doing Business é uma espécie de barómetro

da facilidade de realizar negócios nos diferentes

países, elaborado pelo Banco Mundial desde 2004,

que se baseia na análise e quantificação de indicadores

revelantes para as empresas e os empresários.

O ranking da facilidade de fazer negócios (em 190

países) é calculado de acordo com o resultado em

doze indicadores (iniciar um negócio, procedimentos

para licenças de construção, obter electricidade,

registo de propriedade, obtenção de crédito, protecção

de investidores minoritários, pagar impostos,

comércio internacional, execução de contratos,

resolução de insolvências, contratar trabalhadores).

Este ano, segundo o relatório, 115 economias

tornaram mais fácil fazer negócios, com destaque

para a Arábia Saudita, Jordânia, Togo, Barém, Tajiquistão,

Paquistão, Kuwait, China, Índia e Nigéria.

E apenas duas economias africanas (Ruanda, em

29.º, e Maurícias, em 13.º) ficaram no Top 50, um

grupo onde não há economias latino-americanas.

“Os estudos mostram uma relação de causalidade

entre liberdade económica e crescimento

do produto interno bruto, na qual as liberdades

salariais, de preços, direitos de propriedade e procedimentos

de licenciamento conduzem a desenvolvimento

económico”, refere o estudo, que nesta

edição volta ao tema dos registos de terras e de propriedades.

Em 190 economias analisadas, o registo

de terras privados não cobre todo o território em

146, um problema que é mais acentuado em países

de baixo rendimento (apenas há registo de 3%

O DOING BUSINESS

E O INVESTIMENTO DIRECTO

ESTRANGEIRO (IDE)

(IDE em milhões de USD)

Os EUA têm liderado a entrada de IDE, mas...

DB IDE 2019

Nova Zelândia 5 426,6

Singapura 92 080,5

Dinamarca 930,2

Hong Kong 68 379,0

Coreia do Sul 10 565,6

Geórgia 1 267,7

Noruega 4 298,3

EUA 246 215,0

Reino Unido 59 137,1

Macedónia 365,2

DB IDE 2018

Nova Zelândia 1 945,7

Singapura 79 738,4

Dinamarca 162,6

Coreia do Sul 12 182,6

Hong Kong 104 245,7

EUA 253 561,0

Reino Unido 65 299,6

Noruega 2 086,6

Geórgia 1 265,2

Suécia 3 856,9

Fonte: DB 2019, 2018, 2017, 2016, 2015 e base de dados IDE UNCTAD.

agosto/setembro 2020 | 35


CAPA DOING BUSINESS

das terras privadas). A importância da regulação

é destacada no Doing Business 2020, que dá conta

de vinte e duas reformas implementadas nas vinte

principais economias do ranking. Desde 2003/2004,

segundo o documento, as vinte economias com

melhor desempenho levaram a cabo 464 alterações

regulatórias.

Nas economias africanas, o documento destaca

pela positiva os casos da Nigéria e do Togo.

Este país, em boa parte inspirado pelo exemplo do

Ruanda, tem vindo a implementar medidas e reformas

para facilitar o início de um negócio, registo

de propriedade e obtenção de crédito. Nesta edição

do Doing Business ficou no 97.º lugar, para

onde trepou a toda a velocidade a partir do 137.º,

onde estava em 2019. “Na África Subsariana, o

Togo representa um ‘ponto brilhante’. A região

continua a ser uma das que tem desempenho mais

fraco na facilidade de fazer negócios”, assinala o

documento. Em média, a pontuação dos países da

região é de 51,8, que compara com 78,4 das economias

de elevado rendimento da OCDE e 63 da

média mundial. Ainda assim, face ao ano passado,

as economias subsarianas melhoraram face a 2019

(ver tabelas nestas páginas).

O Gana e a Nigéria encurtaram o tempo necessário

para a obtenção de uma ligação eléctrica, num ano

em que, na África Subsariana, apesar de se manterem

os apagões em muitos países, tem havido um

esforço por parte das empresas fornecedoras para

que haja “progressos significativos” neste capítulo.

Nos países do Norte de África, o relatório assinala

melhorias nos registos de propriedade.

PORT LOUIS:

Capital das Maurícias,

o melhor país africano

para fazer negócios

CHINA MELHORA AMBIENTE

DE NEGÓCIOS E IDE

(IDE em milhões de USD)

A China tem vindo a melhorar no DB, afirmando-se

como o segundo destino de IDE mundial.

DB

141225

IDE

ÁFRICA DO SUL CAPTA

MAIS INVESTIMENTO

(IDE em milhões de USD)

Na SADC, a África do Sul liderou a captação

de IDE em 2019

País Posição DB 2019 IDE 2019

Maurícias 13 472,3

África do Sul 84 4 624,4

Botswana 87 260,9

Seicheles 100 125,5

Namíbia 104 - 17,4

Malawi 109 97,9

Lesoto 122 117,6

Moçambique 138 2 211,7

Zimbabwe 140 280,0

Tanzânia 141 1 112,4

Madagáscar 161 227,3

Angola 177 - 4 098,5

Essuatini (ex-Suazilândia) nd 130,2

Fonte: DB2020 E 2019.

138305

136315

133711 135577

46,0 78 78 84 90

2019 2018 2017 2016 2015

MOÇAMBIQUE, 8.º NA SADC

Moçambique ficou nesta edição na 138.ª posição,

caindo três face a 2019 e ficando a doze lugares em

relação ao melhor de sempre, em 2011, quando o

país ficou em 126.º no ranking. Entre os países da

SADC, Moçambique ficou em 8.º lugar, numa lista

liderada pelas Maurícias, que passou da 20.ª posição,

em 2019, para a 13.ª, em 2020.

O país melhorou marginalmente a sua pontuação

nos critérios iniciar um negócio (de 67,6 para

69,3) e procedimentos para licenças de construção,

obter electricidade e no registo de propriedade,

assim como na resolução de insolvências e contratar

trabalhadores. No resto, piorou ou manteve. b

36 | Exame Moçambique


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

TRABALHAR COM

SEGURANÇA E SAÚDE

Nilza Braga decidiu empreender na área da Saúde e Segurança no Trabalho, onde exerce

a profissão há quase década e meia e, no futuro, quer criar um centro para formar

profissionais em saúde e segurança ocupacional

VALDO MLHONGO

Depois de um longo trajecto

profissional ligado à área

da Saúde e Segurança no

Trabalho, iniciado em

2006, Nilza Braga decidiu

abrir a sua própria empresa. “Pela bagagem

que já vinha carregando em todos

os lugares por onde passei, senti que este

era o momento de abrir a minha própria

empresa, na área da Saúde e Segurança

no Trabalho”, refere a jovem de 35 anos,

dona e fundadora da USALAMA, empresa

especializada em consultoria, avaliações

de segurança, implementação de sistemas

e formação na área da Saúde e Segurança

no Trabalho. “Já tinha uma rede de contactos

suficiente... e decidi mesmo avançar

no que mais gosto de fazer e fiz nesta

área”, refere a empreendedora à EXAME.

Só que desta vez já não como empregada

mas como empresária.

Nilza conta que os seus primeiros clientes

foram as micro, pequenas e médias

empresas. Sim, “comecei por pegar naquelas

empresas pequenas que ouvem falar

de saúde e segurança no trabalho mas

têm receio por acharem que é bastante

oneroso”, adianta. No início, conseguiu

angariar cinco empresas. “Ajudámo-las

a preparar pelo menos o sistema de gestão

e a documentação e os procedimentos

do trabalho, incluindo as avaliações de

risco que deveriam implementar”, refere.

Ao longo deste ainda curto percurso, a

USALAMA tem evoluído consideravelmente.

“Estamos agora a começar a trabalhar

com algumas empresas grandes,

sobretudo no que tange às formações”,

com destaque para a “Mozambique Leaf

Tobacco, a SKM Engenharia e a Grindrod,

entre outras. Temos algumas (formações)

já agendadas para a Tete, Nacala,

mas, por causa da COVID e porque estamos

em estado de emergência, tivemos

de protelar”, esclarece. Os preços variam

em função da grandeza, fragilidade dos

colaboradores da empresa e o tipo de sistema

que deve ser implementado. “Geralmente

os valores mínimos, numa base de

avença, podem situar-se entre 80 a 100

mil meticais, mas isso também depende

da grandeza da empresa.”

Para o início do negócio a empreendedora

investiu cerca de 400 mil meticais.

“Foi por aí que começámos e senti que

era o suficiente para garantir que tinha a

minha empresa e um lugar onde pudesse

começar a receber os meus clientes”, diz.

No início contava com apenas dois colaboradores,

mas agora são cinco.

No leque da lista de serviços prestados

pela USALAMA está a auditoria interna

com vista a identificar os riscos, higiene

ocupacional, serviços de treino de primeiros

socorros e combate a incêndios,

“A NOSSA FILOSOFIA

É SIMPLES: AJUDAR AS

EMPRESAS A GERIREM

RISCOS HOJE PARA

PROMOVEREM

MELHORIAS CONTÍNUAS

AMANHÔ

de motivação e de mudança de culturas

dentro da empresa. “Todas estas áreas

são aquelas em que encontramos algum

perigo que possa originar algum acidente

de trabalho ou doença ocupacional aos

trabalhadores.” A mudança comportamental

em relação à saúde e segurança no

trabalho tem sido um dos maiores desafios,

revela a empreendedora. “A nossa

filosofia é simples: ajudar as empresas a

gerirem os riscos hoje para promoverem

EDILSON TOMÁS

38 | Exame Moçambique


NILZA

BRAGA

IDADE: 35 ANOS

NATURALIDADE:

MAPUTO

EMPRESA:

USALAMA

RAMO DA ACTIVIDADE:

CONSULTORIA NA SAÚDE E

SEGURANÇA NO TRABALHO

FORMAÇÃO: GESTORA

INÍCIO DE ACTIVIDADE:

FEVEREIRO 2020

NÚMERO DE

COLABORADORES: 5

INVESTIMENTO INICIAL:

CERCA DE 400 MIL METICAIS

NILZA BRAGA:

A paixão de cuidar das

pessoas e a vasta experiência

na Saúde e Segurança no

Trabalho


NEGÓCIOS EMPREENDEDORISMO

EQUIPA: A USALAMA arrancou com a empresária e dois colaboradores

melhorias contínuas amanhã, garantido

assim que cada colaborador possa voltar

para a sua casa no final de cada turno de

trabalho.”

UMA VIDA LIGADA

À SAÚDE E SEGURANÇA

Já passaram catorze anos desde que Nilza

Braga trabalha na área da Saúde e Segurança

no Trabalho. Tanto quanto se lembra,

cedo apaixonou-se por ela. “Na verdade,

eu cresci num ambiente que motivava querer

cuidar de pessoas, o meu pai é enfermeiro

e sempre serviu de inspiração no que

respeita a cuidar das pessoas”, confessa.

O seu primeiro emprego foi na indústria

açucareira, como assistente numa clínica

de saúde ocupacional, isto em 2006. “A

minha tarefa era dar assessoria à gestora

da clínica, que não era moçambicana, para

facilitar a comunicação.” O bom desempenho

demonstrado, a dedicação e a “paixão

de sempre querer cuidar de pessoas”, fez

com que dois anos depois ganhasse uma

bolsa para estudar na vizinha África do Sul.

“Sim, a empresa decidiu enviar-me para

fazer algumas formações na África do Sul.

Foram todas ligadas à Saúde e Segurança

no Trabalho, com destaque para a área de

Gestão da Saúde e Segurança no Trabalho.”

Após as formações e de regresso ao

país, Nilza é enquadrada no departamento

da Agricultura (na mesma empresa), que

contava com cerca de 6 mil colaboradores.

“Aqui a minha maior tarefa era garantir

com que todos eles tivessem conhecimento

e capacitá-los para que soubessem o que

“PARA JÁ, O NOSSO

OBJECTIVO É ABRAÇAR

OS PROJECTOS DO

NORTE DE

MOÇAMBIQUE”

era saúde e segurança no trabalho, garantir

que eles sabiam quais eram os cuidados

que deveriam ter no local de trabalho

e, dessa forma, conseguirem prevenir-se

de acidentes de trabalho, assim como das

doenças profissionais.” Seis anos depois,

a gestora de Saúde e Segurança no Trabalho

sai da Indústria Açucareira de Xinavane

para abraçar novos desafios, ligados

aos projectos de carvão no Norte do país.

“Fui trabalhar numa mina na Zambézia,

onde estive a desempenhar as mesmas

funções, coordenar todas as actividades

do acampamento e garantir a saúde

e segurança no geral a todos os colaboradores

da empresa.” E porque a vida é feita

de desafios, dois anos depois Nilza Braga,

em busca de novas oportunidades, conseguiu

ligar-se a uma outra empresa que

fazia manutenção e providenciava alimentação

para os acampamentos da Anadarko,

no Norte. E, como sempre, a “minha

tarefa era fazer a gestão da saúde e segurança

ocupacional em todos os acampamentos

que a Anadarko tinha lá na

fase inicial do projecto”, refere a especialista

em Saúde e Segurança Ocupacional.

A relação contratual também não duraria

mais que dois anos. De regresso a Maputo,

outra parte da sua experiência veio a ser

adquirida na indústria alimentar e processadora:

“Trabalhei como gestora de

departamento de Saúde e Segurança no

Trabalho.” Foi, aliás, durante todo esse

período que Nilza percebeu que havia um

mercado grande por explorar. E não pensou

duas vezes. Ainda bem que assim foi.

“Para já, o nosso objectivo é abraçar os

projectos do Norte de Moçambique. Esse é

um dos desafios”, assume. Além da Saúde

e Segurança no Trabalho, a USALAMA

actua também na área da limpeza de silos

e trabalhos em espaços confinados. E é

nessa área que tem obtido a maior facturação.

“Foi-nos adjudicado um trabalho

que consistia em fazer a limpeza de

silos de sereias. Levou-nos uma semana

e facturámos 1600 mil meticais”, revela.

Dentro de alguns anos a empreendedora

pensa ampliar o leque de serviços da

empresa. “Queremos também estar com

condições de certificar as empresas no

sistema de Saúde e Segurança no Trabalho”,

revela. E não pretende parar por aí.

“Queremos criar um centro de formação

para formarmos profissionais em Saúde e

Segurança no Trabalho. Neste momento

ainda não estamos credenciados para formarmos

profissionais, mas no futuro pretendemos

chegar lá”, conclui. b

40 | Exame Moçambique


agosto 2020 | 41


BAZARKETING

THIAGO FONSECA

Sócio e director de Criação da Agência GOLO.

PCA Grupo LOCAL de Comunicação SGPS, Lda

A MAIOR RIQUEZA

DE MOÇAMBIQUE

Há quase uma década escrevi o

primeiro artigo para a primeira

edição da revista EXAME Moçambique.

Soube, pelos meus amigos editores,

que esta será a última edição. E, por isso,

resolvi revisitar esse primeiro texto, da

edição número um, lançada em Junho

de 2012: “A maior riqueza de Moçambique

são os moçambicanos.”

Quis acabar pelo começo. Uma forma

de começar. E também de perceber se,

após este tempo todo, esse artigo continuava

a fazer sentido.

E continua.

“A maior riqueza de Moçambique não

está no subsolo, nem nas enormes reservas

de gás natural, nem ao longo das

praias paradisíacas nos mais de 2 mil

quilómetros de costa.

Não se deixe enganar.

A maior riqueza de Moçambique são

os moçambicanos.

Quando se viaja para fora de Moçambique,

ao regressar ao país não podemos

deixar de sentir a boa energia e o calor

do povo moçambicano, a capacidade de

receber com simpatia.

A qualidade das pessoas daqui, a sua

enorme alegria, tem reputação internacional.

É uma marca do povo moçambicano.

É comum dizer-se: ‘A terra da boa gente.’

Se o indicador principal para o ranking

dos países fosse o índice de energia posi-

tiva do seu povo, Moçambique seria claramente

um dos líderes mundiais.

Mas é importante nunca confundir a

humildade do povo moçambicano com

a sua tolerância. Nem confundir a generosidade

das pessoas como uma oportunidade

para quem vem.

No caso do marketing, a melhor forma

de respeitar Moçambique é, antes de

mais nada, respeitar os moçambicanos.

Os seus valores muito únicos e locais, a

cultura, os gostos, as tendências e a sua

diversidade.

UMA ILHA CULTURAL

Moçambique é um caso especial. Uma

‘ilha’ na região, cercada por países cuja

colonização foi de origem inglesa.

Dada a conjuntura política e económica

dos últimos quarenta anos, e, sobretudo,

o isolamento do resto do mundo

na década de 1980, o país preservou de

forma intacta a cultura local e muitos

valores são únicos apenas a Moçambique.

Agora com as fronteiras fechadas, isto

é mais válido do que nunca.

Então, qual é a melhor forma de chegar?

A melhor forma de chegar a qualquer

lugar é com respeito.

Respeitar é conquistar a intimidade.

Só quem respeita será mais íntimo e

mais próximo. Quem respeita normalmente

também é respeitado. Só aqueles

que nós sabemos que nos irão respeitar

é que deixamos que entrem na nossa

casa. Neste caso, a casa é o mercado moçambicano.

E o lugar são os cérebros de

milhões de pessoas e consumidores moçambicanos.

Ao fazer marketing para este cenário,

é necessário entender que tanto os anunciantes

como as agências e os media têm

na sua mão uma ferramenta muito poderosa:

a comunicação. Todos nós que

usamos os mass media somos os moldadores

da sociedade. Podemos vulgarizá-la,

brutalizá-la, ou podemos ajudar

42 | Exame Moçambique


como Moçambique se o mesmo não for

suportado por uma ideia local. Algo que

seja aceite e bem aceite pelo povo.

Técnicas de copy paste trazidas do

Ocidente já mostraram que não dão os

melhores resultados.

Isto já foi comprovado por vários

anunciantes internacionais no passado

recente. Já vimos campanhas globais,

produzidas com verbas de milhões de

dólares, terem pouco resultado, e apenas

quando as marcas tentam ser mais próximas

de Moçambique e dos moçambicanos

é que conseguem penetrar.

Ou seja, fazer marketing em mercados

emergentes como Moçambique tem

menos a ver com o tamanho da verba e

mais a ver com o tamanho do respeito.

SE A MAIOR RIQUEZA

DE MOÇAMBIQUE SÃO

AS PESSOAS, INVISTA

NELAS

a transportar esta sociedade para um nível

mais elevado.

Fórmulas e métodos usados em mercados

que são chamados do ‘primeiro

mundo’ e que agora estão em crise, não

funcionarão aqui.

A comunicação e o marketing afectam

hábitos, costumes, lançam modas

e tendências. Mudam comportamentos

e influenciam definitivamente gerações.

Entram nas nossas vidas sem pedirem

licença, fazem-se passar por notícia, entretenimento,

diversão, tudo para conseguirem

o que pretendem: persuadir e

convencer.

No entanto, a comunicação e o marketing

também podem ser usados para dar

e não apenas para tirar. Podem ser usados

para valorizar, enaltecer e preservar

Moçambique. Claro, se houver essa sensibilidade

e preocupação.

Por isso, esqueça o sucesso e o investimento

de milhões que possa fazer em

marketing num mercado emergente

RESPEITO

Por outro lado, Moçambique é muito

mais do que a marrabenta e a capulana.

Há que aprofundar e adaptar não as

ideias de fora, mas adaptar-se a si próprio

no novo contexto e nessa nova realidade

que é Moçambique.

Quem tiver esta humildade, e capacidade

de investir, não dinheiro mas de

oferecer essa disposição e energia de si

para aprender o mercado, respeitá-lo e

valorizá-lo, terá, com certeza, mais resultados.

Quem oferecer respeito a Moçambique

estará muito mais bem posicionado

do que as marcas que usam o mercado

como uma enorme cantina para apenas

ganharem dinheiro.

Marketing tem tudo a ver com a lei da

oferta e da procura, certo? Então, faça

a sua oferta em forma de respeito que

a procura será muito maior.

Afinal, se o maior tesouro de Moçambique

são as pessoas, então faça o seu

investimento aí, no lugar certo, e vai ver

como ele vai valorizar-se.”b

agosto/setembro 2020 | 43


ECONOMIA INOVAÇÃO

TECNOLOGIA INCLUSIVA

O T@ablet comunitário, uma inovação moçambicana, utiliza a tecnologia para levar

a escola à comunidade rural mais remota. As enormes janelas digitais de um contentor

que vai a todo o lado disponibilizam informação e conhecimento através de aulas,

animações e videoconferências

LUÍS FARIA

44 | Exame Moçambique


A

criatividade prática dos

inovadores africanos está

a tornar-se a sua imagem

de marca internacional.

Dayn Amade, o moçambicano

que criou o tablet comunitário,

já tem o seu invento patenteado. Onde as

distâncias são grandes , como em África,

é muito difícil a inclusão das comunidades

rurais na sociedade da informação e

do conhecimento. Dayn Amade encontrou

uma solução imaginativa e simples

para reduzir o fosso que afasta as comunidades

mais remotas da aprendizagem,

convicto da ideia de que esta é indispensável

num mundo digitalizado, assente no

conhecimento e na informação, e em que

se vive uma verdadeira revolução da economia,

com a aplicação das novas tecnologias

aos diferentes sectores de actividade.

Não há qualquer tipo de dúvida de que a

sociedade perde qualidade com a iliteracia.

A solução do T@ablet Comunitário

para levar literacia às comunidades mais

remotas consiste, fisicamente, num atrelado

(trolley), onde assenta um contentor

cuja janelas são alta tecnologia. Pode ser

transportado para todos os lados e por

todos os caminhos e utiliza as fontes de

energia mais adequadas, em custo e autonomia.

As unidades do projecto são alimentadas

a energia solar, que substituiu

o diesel que as fazia mover inicialmente.

O que pode fazer pelas populações a

alta tecnologia instalada num contentor

com cada vez maior mobilidade, dada a

autonomia ganha com a adopção de energia

solar e muito versátil movimentação,

podendo ser levado tanto por animais de

tracção como por unidades motorizadas?

Quase tudo. Desde a literacia financeira à

área da saúde. Face à contingência pandémica

o T@ablet Comunitário já fez chegar,

na província de Maputo, a centenas

de pessoas informação sobre o combate

à COVID-19.

Aquela que pode ser classificada como

a primeira escola digital contém um LCD

“touchscreen” de 100 polegadas, quatro

monitores tácteis, webcams, um sistema

de impressão dos mais variados tipos de

cartões e ainda um frigorífico para remédios

e vacinas. O projecto tem recorrido

muito a animação para comunicar os

diferentes temas e tem também disponibilizado

aos seus auditórios videoconferências.

Nas diferentes campanhas do

tablet comunitário foram já envolvidas

cerca de 2,4 milhões de pessoas, revela

Dayn Amade em entrevista que publicamos

nesta edição.

Em campo desde 2015, as unidades do

T@ablet Comunitário já desenvolveram

diferentes campanhas, desde a educação

financeira à contracepção e HIV-SIDA.

Aulas e conferências por vídeo envolveram,

na campanha de educação financeira,

22 distritos, 43 escolas e a participação de

1 370 estudantes. Na campanha virada

para a contracepção e o HIV, após as aulas

e as conferências efectuadas por vídeo os

estudantes eram convidados a testar o respectivo

nível de conhecimento através de

um “Quiz” (basicamente um questionário

destinado a exercitar a mente) instalado

no Tablet Comunitário. A campanha

envolveu 18 distritos, 54 locais públicos, 89

escolas e 7 242 jovens. O T@ablet comunitário

e o T@ablet Comunitário TV foram

ainda o suporte da campanha de educação

cívica realizada pelo STAE - Secretariado

Técnico de Administração Eleitoral.

O projecto utiliza a “gamification technology”,

actualmente muito empregue

no ensino e que promove o maior envolvimento

dos alunos, recorrendo à lógica

dos jogos. Tal permite obter retorno das

acções realizadas, possibilitando aos parceiros

informações sobre quem captou e

não captou as informações transmitidas,

o que é que foi apreendido e o modo como

o comportamento das pessoas pode ser

afectado pelas novas informações.

Face à emergência da pandemia, o Tablet

Comunitário, com o apoio da organização

para o desenvolvimento industrial

das Nações Unidas (UNIDO) e do “Global

Environment Facility” – fundo global

para o ambiente (GEF), está a conduzir

campanhas digitais de combate à propagação

do vírus junto de comunidades

que, de outro modo, seriam excluídas da

informação digital. “A necessidade de

medidas inovadoras para fazer chegar

às comunidades a mensagem de como

prevenir a propagação da pandemia não

CRIAÇÃO MOÇAMBICANA

O Tablet Comunitário foi criado pelo

empresário moçambicano Dayn

Amade, movido pela ambição de

reduzir a exclusão digital em África. O

grande objectivo do projecto é

capacitar as pessoas que vivem em

comunidades rurais através da

educação. Dayn Amade lidera a

Kamaleon Eventos Tecnológicos, uma

empresa moçambicana composta e

criada por jovens moçambicanos. Com

direitos de design registados no UK

Intellectual Property Office – o Tablet

Comunitário fez-se ao caminho

primeira vez em 2015. Tem como

parceiras organizações governamentais

e não governamentais como a

Universidade Eduardo Mondlane, o

CNE, o STAE, o Ministério da Educação

e Desenvolvimento Humano, o

Ministério de Ciência e Tecnologia,

Ensino Superior e Técnico e

Profissional, o FSDMo. e o PSI

Moçambique. Tem contado ainda no

desenvolvimento das suas campanhas

com o envolvimento de personalidades

destacadas, como é o caso de Graça

Machel.

pode ser subestimada em tempos como

aqueles que vivemos. Recorrendo à energia

solar, podemos disponibilizar informação

digital em formato vídeo, o que

torna muito mais fácil às comunidades

rurais compreenderem a mensagem relativa

à COVID-19”, acentua Dayn Amade,

citado pela UNIDO.

Foi a UNIDO que apoiou o projecto

com 10 kits solares, permitindo que a iniciativa

transitasse do diesel para a energia

solar. Os kits solares consistem em cinco

painéis solares de 250 watts, um inversor

híbrido de 3 KW, quatro baterias 200AH

e acessórios. Todas as dez tablets comunitárias

foram convertidas à energia solar,

existindo já a ideia, com implementação

atrasada pela pandemia, de produzir um

terminal comunitário anfíbio.b

agosto/setembro 2020 | 45


ECONOMIA INOVAÇÃO

DAYN AMADE:

Inspira-o a missão

de fazer chegar às

comunidades tecnologia

que lhes permitam

aprender

EDUCAÇÃO QUE

CHEGA A TODO

O LADO

O criador do T@ablet Comunitário, Dayn Amade, explica

o que o levou a lançar o projecto e adianta que o recurso

à energia solar trouxe mais autonomia ao projecto e que

a internacionalização é um objectivo.

D

ayn Amade criou o T@ablet

Comunitário, uma iniciativa

que recorre a ferramentas

digitais para levar a literacia,

seja em que domínio for, às

comunidades mais afastadas e mais isoladas.

Invoca Nelson Mandela quando afirmou

que a educação é a arma mais poderosa

para mudar o mundo e diz, com simplicidade,

que gostaria de fazer a sua “pequena

parte” na missão de trazer às populações

a informação e o conhecimento. É isso

que que lhe dá, cada manhã, ao acordar

“vontade de continuar a batalhar”.

Actualmente o T@ablet Comunitário está

na primeira linha do esclarecimento da

população sobre o combate à COVID-19,

estando já em preparação a segunda fase

da campanha. A utilização da energia

solar pelas unidades do projecto conferiram-lhe

outro fôlego e a sua intervenção

noutros países em desenvolvimento,

tanto de África, como da Ásia e América

Latina é um horizonte.

Quantas pessoas foram já informadas

sobre a COVID-19 através da

iniciativa T@ablet Comunitário?

Apesar de estarmos já a preparar a segunda

fase da campanha de sensibilização, este

é um projecto-piloto direccionado para a

Província de Maputo. Durante os 3 dias

de implementação da campanha tivemos

a participação de aproximadamente 400

pessoas nos Distritos de Moamba, Magude

e Matutuíne.

Qual o objectivo a atingir nesta acção

de esclarecimento sobre as medidas

de prevenção e combate à pandemia

em termos de pessoas abrangidas?

Constatou-se que, apesar dos esforços do

Governo e das entidades oficiais, muitos

cidadãos das zonas periféricas de Maputo

não têm acesso à informação fidedigna

sobre a pandemia da COVID-19. Sendo

que é uma condição premente e com

impactos potencialmente severos a nível

da saúde pública, entendemos que é fundamental

que todos os cidadãos estejam

devidamente informados sobre o que é a

COVID-19, as formas de transmissão do

novo coronavírus e quais as medidas mais

46 | Exame Moçambique


adequadas para impedir a sua propagação.

São informações básicas que devem

ser difundidas o mais possível, de forma

clara e perceptível, principalmente pelas

populações mais vulneráveis – que são as

estão em maior risco, não só de contrair

a doença, mas também de sofrer as suas

consequências.

Para além dos parceiros do projecto

esta acção do T@ablet Comunitário

conta com o envolvimento de outras

personalidades?

A Dra. Graça Machel, a quem carinhosamente

chamamos de Mamã Graça,

tem sido um verdadeiro apoio e tem-nos

dado força e coragem para irmos avante.

A Mamã Graça, que dedica a maior parte

do seu tempo a batalhar pelo bem-estar

das comunidades, principalmente no que

concerne à saúde das populações vulneráveis,

em particular das mulheres e

das jovens raparigas, entende aqueles

que são os nossos objectivos, o alcance

e potencial do nosso projecto e da nossa

plataforma. Temos também recebido o

reconhecimento de instituições internacionais.

Recentemente fomos convidados

para membro do ITU que é a Agência

Especializada das Nações Unidas para

as Tecnologias de Informação e Comunicação.

Aos poucos vamos sentindo os

resultados dos nossos esforços. O que é

compensador.

O T@ablet Comunitário assume-se

como um projecto de educação

digital, com intervenção desde a

educação financeira à saúde. Como

são construídos os conteúdos

educativos das diferentes acções?

Os conteúdos são construídos por uma

equipa multidisciplinar que inclui sociólogos,

antropólogos e psicólogos da Universidade

Eduardo Mondlane. Para além

da mensagem que se quer transmitir (seja

relacionada com a saúde ou outra temática)

é importante atendermos aos hábitos

e costumes dos diferentes segmentos

da população. Esta equipa multidisciplinar

zela pela concordância com os diferentes

valores o que contribui para uma

maior aceitação da mensagem. Desta

forma conseguimos garantir um maior

impacto da(s) campanha(s) e uma verdadeira

mudança de comportamento, que é

o que verdadeiramente se pretende com

as campanhas de sensibilização.

Quantas pessoas já foram abrangidas

pela iniciativa T@ablet Comunitário

desde 2015?

Com as diversas campanhas que foram

implementadas com os nossos diversos

parceiros, foram abrangidas cerca

de 2 400 000 pessoas, maioritariamente

mulheres e crianças.

A adopção de energia solar trouxe vantagens

significativas. Todas as unidades

do projecto já estão equipadas com

kits solares?

Sim. Com o apoio da UNIDO e do Global

Envirnonment Facility, todas as nossas

unidades estão já equipadas com kits

solares. É para nós uma grande vitória

pois conseguimos operar de forma mais

autónoma e percorrer mais quilómetros

pelo país levando as nossas campanhas.

Como é feito o financiamento das

diferentes acções?

O financiamento é feito casuisticamente,

projecto a projecto, via ONGs ou Organizações

Governamentais. Normalmente

apresentamos um projecto para apreciação

no qual referimos os objectivos, raio

de alcance, número de pessoas a abranger

e com um orçamento estimado. Trabalhamos,

mormente, com Agências

Internacionais de Desenvolvimento, Organizações

Não Governamentais e Organismos

Públicos.

O T@ablet Comunitário, assente em

tecnologia moçambicana e cujos direitos

estão registados no UK Intellectual

Property Office, irá estender a sua acção

a outros países do continente?

A nossa estratégia de scaling up está já

delineada. O nosso objectivo é a internacionalização

para os demais países em

desenvolvimento, começando pelos países

vizinhos. Ásia e América Latina estão

também no nosso horizonte. Obviamente

este é um desafio de longo prazo. Sabemos

que não será fácil e que levará o seu

tempo. Mas confiamos no nosso projecto

e nos benefícios que trará para as comunidades

em termos de acesso à informação

nas zonas remotas e desprovidas de

infraestruturas.

“É UMA QUESTÃO

DE JUSTIÇA QUE AS

NOSSAS COMUNIDADES

EM ZONAS REMOTAS

POSSAM BENEFICIAR

DA TECNOLOGIA PARA

MELHOR APRENDER”

Em que momento teve a ideia e o que

é o que o inspirou a criar esta

ferramenta de educação e inclusão

digital das comunidades rurais?

A ausência de infraestruturas obstaculiza

não só a educação, mas também o acesso

à informação sobre assuntos e matérias

que são essenciais para o dia-a-dia e para

a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Na era da revolução industrial 4.0

não se justifica que grande parte da nossa

população, nomeadamente a população

que vive nas zonas remotas e rurais, esteja

à margem. Com uma grande quantidade

e diversidade de ferramentas digitais disponíveis

no mundo, considero que é uma

questão de justiça que as nossas comunidades

em zonas remotas possam beneficiar

da tecnologia para melhor aprender.

É isso que me inspira diariamente e me

faz acordar de manhã com vontade de

continuar a batalhar. É saber que os meus

pequenos gestos estão, de facto, a mudar

a vida das pessoas.

Uma pessoa de cada vez. Mas se essa

pessoa passar a mensagem a outras, então

já terá valido a pena. O que me motiva

é saber que contribuí para o processo de

aprendizagem de populações vulneráveis.

Como disse o saudoso Madiba, a educação

é a arma mais poderosa que se pode

utilizar para mudar o mundo. Gostaria

de fazer a minha pequena parte. b

agosto/setembro 2020 | 47


PUBLIREPORTAGEM

FÁTIMA FARINHA:

A Directora

Nacional de Vendas

da Imperial

Insurance revela

que a COVID-19 é

coberta pela

seguradora

EDILSON TOMÁS

48 | Exame Moçambique


“O nosso objectivo

é o bem-estar dos nossos

parceiros”

Há quatro anos no mercado moçambicano, a Imperial Insurance tem vindo

a inovar os seus serviços ano após ano e a conquistar novos parceiros. Segura já mais

de cinco mil vidas e pretende ser a primeira seguradora em qualidade e provisão

de seguro de saúde

O

ferecer serviços de qualidade e garantir o bem-estar

dos clientes com o foco nas empresas é o grande

objectivo da Imperial Insurance, refere a Directora

Nacional de Vendas da seguradora, Fátima

Farinha. Salienta ainda que a Imperial Insurance conta com

uma vasta rede de prestadores de cuidados de saúde, a nível

nacional e internacional.

No actual momento, marcado pela pandemia do novo coronavírus,

o seguro de saúde tem sido o vosso principal produto?

Temos visto que o seguro de saúde tem sido o mais procurado

no mercado, sobretudo no presente ano. É um ramo sensível

e precisa de muita atenção de modo a oferecermos serviços de

qualidade. Fizemos uma análise dos serviços que o mercado

oferece e percebemos que havia espaço para melhorarmos no

ramo seguro de saúde e é o que temos estado a fazer.

Qual é o público que pretendem atingir?

Neste momento estamos focados no seguro de saúde dirigido

às empresas. Num futuro próximo iremos atacar todas

as camadas sociais.

A vossa cobertura estende-se também para fora do país?

Sim, a nossa cobertura estende-se também para fora do país.

Temos um contrato com uma companhia sul-africana que permite

com que a pessoa tenha acesso a atendimento hospitalar

em todos países africanos através do nosso cartão magnético.

Fora de África estamos a trabalhar com provedores na Índia e

em Portugal. A nossa prioridade é, em primeiro lugar, oferecer

serviços de qualidade e excelência aos nossos parceiros.

O que vos distingue da concorrência no ramo da saúde?

O nosso objectivo é melhorar sempre. Até há pouco tempo

não tínhamos a cobertura do novo coronavírus. Neste momento

o nosso seguro de saúde paga na totalidade a eventualidade

coronavírus, tanto no que respeita aos testes de diagnóstico,

como às consultas e internamento. Outro ponto de diferenciação

muito importante é que nós temos médicos da Imperial

que dão um segundo prognóstico caso seja necessário. Se um

segurado tiver estado envolvido ou em contacto com alguém

infectado pela COVID-19, temos disponíveis em Maputo e em

“’PERCEBEMOS QUE EXISTE

SEMPRE ESPAÇO PARA

MELHORAR NO SEGURO

DE SAÚDE”

Pemba, até ao momento, hotéis onde a pessoa pode aguardar

em isolamento o resultado para não contagiar a respectiva

família. Isto para dizer que o nosso objectivo é sempre o

bem-estar do nosso parceiro. Achamos que é importante fazer

com que os nossos parceiros se sintam confiantes, sabendo que

têm uma seguradora a que sempre podem recorrer nos casos

de seguro de saúde.

Há alguma meta a ser atingida, especificamente no ramo saúde?

Diz-se que a satisfação do cliente é que dita a qualidade do nosso

produto. A médio e longo prazo pretendemos ser a seguradora

número um em qualidade e provisão de seguro de saúde aos

nossos parceiros.

agosto/setembro 2020 | 49


GLOBAL VACINA

A GUERRA

PELA

SUPREMACIA

A solução da crise global depende da solução da pandemia,

e esta reside na descoberta de uma vacina que dê

xeque-mate ao SARS-Cov-2. Todos querem chegar primeiro,

governos e farmacêuticas, e movimentam-se milhares de

milhões de dólares. O negócio do século é arma poderosa

de afirmação geopolítica

ALMERINDA ROMEIRA

E

stados Unidos, China, Alemanha,

Reino Unido e... Rússia.

Os países movimentam-se,

qual peças no tabuleiro de

xadrez, com o objectivo de

darem xeque-mate ao SARS-Cov-2, o novo

coronavírus que já infectou 18 milhões de

pessoas e matou 700 mil. Todos querem

chegar à vacina depressa e em primeiro

lugar. Faz lembrar a corrida ao espaço

durante a Guerra Fria, mas com interesses

multiplicados. Em vez dos dois beligerantes

de então (EUA e União Soviética), separados

na ambição de controlar o mundo, há

agora vários países e numerosas empresas

e consórcios que, além de poder, disputam

negócios de muitos milhares de

milhões de dólares. Resultado? “Todos

podem e vão pedir, emprestar e roubar

aos outros”, diz Kent Sepkowitz, especialista

em infecções no Memorial Sloan

Kettering Cancer Center, de Nova Iorque,

e analista da televisão CNN.

A corrida pela vacina que proteja da

COVID-19 junta todos os ingredientes,

desde a cooperação entre cientistas até

acusações de ciberespionagem. Com os

números a aumentarem sem mostras de

abrandamento, a margem dos governos

estreita-se. Na realidade, a vacina é um instrumento

de poder que tornará mais forte

quem o detiver. Na maior corrida geopolítica

do século xxi ganhará supremacia

quem mais cedo tiver a capa da protecção.

Estados Unidos e China, as duas maiores

economias do mundo, disputam aqui

REUTERS

VACINA: A disputada chave

para a crise global faz correr

governos e laboratórios

o seu primeiro duelo no campo científico.

Partem na pole position, com acusações

mútuas, e tudo fazem para garantir

que não defraudam as expectativas. Alemanha

e Reino Unido, rosto da Europa,

exibem a pujança dos seus sistemas de

ciência e investigação. A Rússia joga a cartada

que lhe permita readquirir a glória

passada. O Japão e a Austrália integram

o pelotão, continuando a evidenciar-se

como países profundamente inovadores,

e a Índia, player da indústria farmacêutica

mundial, põe à prova o seu poderio

como fornecedor global.

Donald Trump entrou na guerra pela

vacina que protegerá da COVID-19 fazendo

o oposto de Roosevelt na II Guerra Mundial.

O actual Presidente dos Estados Unidos,

50 | Exame Moçambique


a quem a infecção se atravessou literalmente

no caminho — as sondagens dão como

perdida a reeleição em Novembro para o

democrata Joe Biden —, joga sozinho, na

tentativa de ganhar hegemonia. Colocou

o país fora da OMS (Organização Mundial

de Saúde) e não colaborou na maratona

de angariação de fundos destinada

a financiar a investigação de tratamentos

e vacina promovida por este organismo e

patrocinada pela União Europeia, para a

qual a cantora Madonna contribuiu com

um cheque de um milhão.

Como estratégia, Trump deita mão ao

que consegue e agora também luta pelo

adiamento das eleições, na esperança de

que a vacina surja a tempo de o salvar.

Desde o primeiro instante, o seu propósito

consiste em dar xeque-mate ao rei e

não olha a meios para chamar à sua esfera

de influência todo aquele que, à partida,

revele potencial ganhador. Criou um programa

— “Warp Speed” — que distribuiu

grandes somas de dinheiro por empresas

de biotecnologia inovadoras e farmacêuticas

nacionais e estrangeiras para acelerar

vacinas e tratamentos e garantiu, assim,

que os norte-americanos estarão entre os

primeiros a serem vacinados mesmo que

a solução não venha dos esforços domésticos.

União Europeia e EUA têm um

Acordo de Reconhecimento Mútuo, que

permite que os medicamentos sejam usados

​dentro das fronteiras uns dos outros,

evitando a duplicação de ensaios clínicos,

o que facilita a estratégia de Trump.

TRUMP COMPETE

Na linha de que não há tempo a perder e

de que só não se compra o que o dinheiro

não consegue pagar, o Presidente do Estados

Unidos envolveu-se ainda em Março

numa disputa pouco convencional com

um país aliado — a Alemanha. A notícia

surgiu no credível Welt: Donald Trump

tentou garantir para os Estados Unidos o

direito exclusivo de uma potencial vacina

desenvolvida pela CureVac, que usa a tecnologia

do RNA mensageiro (mRNA), e

anunciara a possibilidade de um fármaco

experimental em Junho ou Julho, que veio

a confirmar-se. A biotech de Tübingen

negou a investida, deixando na boca do

ministro da Saúde o esclarecimento. “A

CureVac vai desenvolver a vacina e, se for

agosto/setembro 2020 | 51


GLOBAL VACINA

VLADIMIR PUTIN:

A Rússia entrou

subitamente na

corrida e poderá

surpreender o mundo

XI JIPING:

Desta vez a China

não pode falhar

possível, será para o mundo inteiro, e não

para um só país”, garantiu Jens Spahn, que

goza de grande popularidade pela gestão

da crise do coronavírus e afirma-se como

provável sucessor de Angela Merkel na

futura corrida à chancelaria. Bruxelas também

sinalizou a importância estratégica da

CureVac ao colocar em cima da mesa um

envelope financeiro de até 80 milhões de

euros destinado a “acelerar o desenvolvimento

e a produção de uma vacina contra

o novo coronavírus na Europa”. Mais

recentemente, o ministro da Economia,

Peter Altmaier, anunciou o investimento

de 337,4 milhões de dólares na compra

de 23% do capital da empresa. Definitivamente,

a Alemanha “não está à venda”,

como sublinhou, e nunca alienará capacidade

estratégica, custe o que custar.

O fim justifica os meios e a CureVac dispõe

agora deles.

Noutra decisão fundamental, o governo

federal de Angela Merkel aprovou legislação

que permite rejeitar ofertas de aquisição

estrangeiras feitas em empresas estratégicas

da área da saúde. Fica, assim, salvaguardada

a propriedade alemã das duas candidatas

que estão na corrida pela vacina

contra o coronavírus — além da CureVac,

a BioNTech, que a vai produzir em conjunto

com a farmacêutica norte-americana

Pfizer e é, neste momento, uma das

mais promissoras.

Com duas candidatas a vacinas nascidas

na Universidade de Oxford e no Imperial

College de Londres, o Reino Unido

afirma-se na corrida pela excelência das

suas instituições centenárias, mas não

só. Neste campo, Boris Johnson, o primeiro-ministro

conservador, que sobreviveu

à COVID-19, dá mostras de saber o

que faz autorizando e pagando a expansão

da capacidade de produção do reino.

Há dois meses endossou um cheque de

93 milhões de libras, destinado a um novo

edificado: o Centro de Inovação e Fabricação

de Vacinas, em Harwell, Oxfordshire,

vai ser o pilar da estratégia governamental,

garantindo que, uma vez disponível,

a vacina possa ser lançada rapidamente em

grandes quantidades no mercado.

As instalações estarão operacionais no

Verão de 2021 e terão capacidade para produzir

doses suficientes para toda a população

do Reino Unido em menos de seis

meses. No lançamento da primeira pedra,

Sir Mark Walport, responsável pela agência

Pesquisa e Inovação do Reino Unido, classificou

o complexo como “uma nova arma

essencial no arsenal do país contra doenças

e outras ameaças biológicas”. Porém,

como se acredita que a vacina exista antes,

constroem-se já instalações provisórias,

que poderão começar a fabricar em larga

escala este Verão.

APARIÇÃO RUSSA

A Rússia entrou subitamente na corrida e

surpreenderá o mundo se se confirmar o

anúncio, feito muito em jeito de guerra fria

DONALD TRUMP:

Garantir que os norte-

-americanos estarão

entre os primeiros

a serem vacinados

— registar uma vacina até 12 de Agosto,

o que seria a primeira aprovação oficial

de um fármaco contra o SARS-Cov-2.

Os avanços científicos não constam no relatório

da OMS e estão a provocar algumas

dúvidas cá fora. Numa primeira reacção,

Anthony Fauci, o principal epidemiologista

dos Estados Unidos, disse esperar

que a China e a Rússia “estejam realmente

a testar” as vacinas “antes de entregá-las

a qualquer pessoa”.

A Rússia disse ter a vacina no final de

Julho. Primeiro foi o vice-ministro da

Defesa, Ruslan Tsalikov, depois a presidente

da Câmara Alta do Parlamento,

Valentina Matviyenkom. “Definitivamente,

somos o primeiro país a anunciar

52 | Exame Moçambique


vacinas testadas clinicamente.” Curiosamente,

uma semana antes, o Kremlin

tinha sido acusado pelo Centro Nacional

de Cibersegurança do Reino Unido, em

conjunto com entidades homólogas nos

Estados Unidos e Canadá, de estar por

detrás de ciberataques contra universidades,

farmacêuticas e cientistas britânicos

com o objectivo de roubar informação

sobre o desenvolvimento da vacina. Um

toque que Matviyenkom não deixou sem

resposta: “Alguns tentaram acusar-nos de

interferir e realizar ataques cibernéticos

para roubar vacinas de outros. Não precisamos

de roubar nada porque o nosso

próprio potencial é forte.” A confirmar-

-se, o êxito da vacina seria um duro golpe

nos países ocidentais.

Desenvolvida no Gamaleya Research Institute,

a vacina terá estado a ser testada em

investigadores, membros da elite e militares,

com êxito, devendo iniciar os testes

de Fase 3 na próxima semana na Rússia,

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

O objectivo anunciado é começar a produção

em massa e vacinar primeiro médicos

e professores, e depois toda a população

no Outono de 2020, antes da chegada de

uma segunda vaga.

Às portas de Agosto, a Rússia caminha

para um milhão de casos, sendo o quarto

país mais atingido depois dos Estados

Unidos, Brasil e Índia. O vírus continua

a espalhar-se a grande velocidade entre

uma população cada vez mais indiferente,

sobretudo depois de o Presidente, Vladimir

Putin, ter apelado a um alívio no dia

seguinte ao do registo do maior número

de mortos pela doença. A economia, ferida

com a queda do preço do petróleo que abriu

um buraco de 40 mil milhões nas receitas

previstas, ameaça ruir, arrastando na

queda o funcionalismo público, atingido

já com um corte salarial de 10%. Para os

145 milhões de russos, a vacina é como

pão para a boca.

No Japão, qualquer vacina é vista como

uma arma para proteger os cidadãos, pelo

que vacinas importadas requerem ensaios

clínicos adicionais. O país confia pouco no

estrangeiro em matéria de fornecimento e

está habituado a desenvolver os seus produtos.

As suas empresas também estão na corrida

contra a COVID-19. Além disso, uma

parceria com a Pfizer/BioNTech permite

que a vacina experimental deste consórcio

seja testada nas terras do Sol Nascente

durante o primeiro semestre de 2021.

A Austrália destaca-se com várias candidatas

experimentais na corrida e está a

tentar provar que a BCG, que protege contra

a tuberculose, pode ter aqui uma palavra

a dizer. Reforça o seu papel inovador

na comunidade internacional. A Índia

também compete na área científica, mas

sobretudo na produtiva. O segundo país

mais populoso do mundo desempenhará

um papel-chave na cadeia de produção

e distribuição mundial.

DONALD TRUMP ENTROU

NA GUERRA PELA

VACINA FAZENDO O

OPOSTO DE ROOSEVELT

NA II GUERRA MUNDIAL

REDENÇÃO CHINESA

A China não quer, nem pode perder, esta

guerra. Ponto. Tendo sido em Wuhan, na

província de Hubei, que o novo coronavírus

surgiu e de onde viajou, a redenção

do país de 1,4 mil milhões de pessoas,

responsabilizado por muitos de contagiar

o mundo, só poderá ser feita através

da vacina. Tudo está em jogo — a credibilidade

e o respeito da nação, dos seus

cientistas e políticos. Xi Jinping impôs

mobilização colectiva e vê resultados: a

China apresenta sete candidatas em fase

de testes clínicos. Uma vacina experimental,

desenvolvida pela CanSino Biologics,

começou mesmo a ser usada extraordinariamente,

após ter dado resultados

positivos nos ensaios e a aprovação pela

Comissão Militar Central, a 25 de Junho,

para que fosse usada no Exército de Libertação

Popular.

A China tem seguido uma política de

parcerias, que lhe permitem realizar testes

noutras geografias e, em alguns casos,

contemplam a transferência de tecnologia.

O Abu Dhabi é ponto de paragem na escala

da Sinopharm, como mostra a imagem que

correu mundo a 15 de Julho no arranque

da Fase 3 dos testes: o xeique Abdullah

bin Mohammed Al Hamed, de 47 anos,

ministro da Saúde, a receber a dosagem

no braço. Uma parceria entre os Emirados

Árabes Unidos, através do Group

42, empresa de inteligência artificial e

computação em nuvem, e a sexta maior

fabricante do mundo de vacinas, justificada

pela demografia diversificada desta

confederação de monarquias do Golfo

Pérsico, posiciona o país com menos de

10 milhões de habitantes na linha da frente

do acesso à vacina, caso a candidata seja

bem-sucedida.

Uma parceria junta uma outra empresa

chinesa, a Sinovac, e o Instituto Butantan

do Brasil, um dos maiores centros de

pesquisa biomédica do mundo, ligado à

Secretaria de Estado da Saúde. O Brasil

fica com acesso a toda a tecnologia e

também à patente para produzir a CoronaVac

se a mesma se mostrar eficiente no

combate à COVID-19, revelou o governador

de São Paulo, João Dória, aquando

do início da Fase 3 dos testes que ainda

decorrem e envolvem vários estados. Com

210 milhões de pessoas, o maior país da

América do Sul contabiliza em cinco meses

87 004 mortes e 2,5 milhões de infecções,

entre as quais a do Presidente, Jair

Bolsonaro, que continua a retirar gravidade

à doença. Segundo na lista vermelha

a seguir aos Estados Unidos, o Brasil

vê nesta cooperação uma centelha de

luz. “Se tivermos sucesso, como esperamos

— disse João Doria —, a vacina será

produzida aqui no Instituto Butantan já

no início do próximo ano, com mais de

120 milhões de doses. A vacina será destinada

a todos os brasileiros, não apenas

aqueles que são de São Paulo, e isso será

feito através do Sistema Único de Saúde.”

Para a China estão virados muitos povos.

Rodrigo Duterte, o Presidente das Filipinas,

disse no Parlamento que as escolas

não reabrirão enquanto não houver vacina

e admitiu ter pedido ajuda a Xi Jinping

para a vacina.

Desta vez, a China não pode falhar.

Nem o resto do mundo. Afinal, há 7,8

mil milhões de vidas em suspenso desde

o início do ano.b

agosto/setembro 2020 | 53


GLOBAL VACINA

CANDIDATAS

MAIS

PROMISSORAS

Universidade de Oxford/AstraZeneca,

BioNTech/Pfizer e Moderna, a par de três

empresas chinesas, são as principais candidatas

a colocarem a primeira vacina no mercado,

já, no final deste ano. A Rússia seria a grande

surpresa

ANTHONY FAUCI:

O epidemiologista norte-americano

está ligado à vacina ensaiada

pela biotecnológica Moderna

Uma vacina em menos de

dois anos vai além de tudo

o que a ciência já viu. Mas,

com boa dose de probabilidade,

poderá mesmo acontecer,

graças ao nível extraordinário de

desenvolvimento da ciência, à cooperação

e trabalho entre cientistas e parcerias,

o que constituirá um avanço extraordinário

para a humanidade. Não apenas

uma vacina, mas várias poderão aparecer.

De acordo com a Organização Mundial

de Saúde estão, neste momento, em desenvolvimento

139, e todos os dias surgem

notícias de avanços. Se é certo que muitos

projectos vão ficar pelo caminho e

outros terminarão sem resultados conclusivos,

acredita-se que alguns acabarão por

triunfar. Na fase de ensaios clínicos pontificam

26 vacinas experimentais, à hora

do fecho desta edição, das quais seis na

chamada Fase 3, último e decisivo passo

HÁ 26 VACINAS NA FASE

DE ENSAIOS CLÍNICOS,

DAS QUAIS SEIS NA

CHAMADA FASE 3,

ÚLTIMO E DECISIVO

PASSO ANTES DA

APROVAÇÃO

antes da aprovação. Os ensaios consistem

na inoculação da vacina em milhares

de voluntários a fim de determinar se

impede, de facto, a infecção. Para passar

de candidata a vacina, tem de ser confirmada

como segura e eficaz durante todo

o processo de testes clínicos em humanos

(3 fases), antecedidos por pré-clínicos e

antes por testes em animais, que culminam

todo um longo processo de desenvolvimento.

A batalha pela vacina contra

a COVID-19 começou ainda em Janeiro

de 2020, com a decifração do genoma da

SARS-CoV-2. Em Março arrancaram os

primeiros testes de segurança em seres

humanos. Embora a produção seja posterior

à aprovação, neste caso há empresas

que inverteram as prioridades, começando

a produção mesmo correndo o risco de ter

de eliminá-la no caso de o fármaco não vir

a ser aprovado. O objectivo é ter a vacina

ainda este ano. Eis alguns nomes a fixar.

ASTRAZENECA /

UNIVERSIDADE DE OXFORD

Conhecida como AZD1222, a candidata a

vacina desenvolvida por cientistas da Universidade

de Oxford com a farmacêutica

anglo-sueca AstraZeneca revelou boa resposta

imunitária nos testes: induziu anticorpos

em mais de 90% dos indivíduos

após uma dose e 100% nos que receberam

54 | Exame Moçambique


uma segunda dose, sem efeitos colaterais

graves, segundo os resultados preliminares

divulgados na revista científica The

Lancet. Esta vacina inscreve-se na abordagem

de vector viral não-replicante, utilizando

um adenovírus que causa resfriado

em macacos, mas foi reprogramado para

não causar doenças em humanos. O vírus

transporta uma parte do código genético

do SARS-Cov-2, responsável pela produção

da proteína “spike”, utilizada para a

invasão das células, e o objectivo é que,

quando responder ao adenovírus alterado,

o organismo crie imunidade contra

a proteína do coronavírus, impedindo

a infecção. Os investigadores de Oxford

estavam a desenvolver testes com coronavírus

causadores da SARS e da MERS,

quando o SARS-Cov-2, da mesma família,

apareceu, o que permitiu acelerar

o passo e distanciar-se da concorrência.

A candidata está actualmente na Fase

2/3 de testes em Inglaterra e em ensaios

de Fase 3 na África do Sul e no Brasil,

devido a uma parceria com a Unifesp.

O primeiro lote de 60 milhões de doses

poderá ser entregue até final deste ano.

DIFICULDADES?

OS FRASCOS DE VIDRO

Vacinar 7,8 mil milhões de pessoas,

população estimada do planeta, será

uma tarefa ciclópica, mas até iniciar

o processo muito obstáculo haverá

a ultrapassar. Uma vacina em duas

doses (ignora-se ainda) obrigaria, por

exemplo, a produzir mais de 15 mil

milhões de unidades, o que significa

dispor do mesmo número de frascos,

dado que cada um contém apenas uma

dose individual. Os frascos são em

vidro borossilicato, feito de sílica e

trióxido de boro, e a China, por

exemplo, que será um grande produtor

da vacina contra a COVID-19, depende

fortemente das importações desse tipo

de frascos. A produção está nas mãos

de empresas japonesas e americanas,

enquanto o produto acabado depende

dos franceses, italianos e alemães.

Uma ruptura na cadeia de

fornecimento não está excluída.

BIONTECH/PFIZER

A BNT162b1 está a ser desenvolvida pela

empresa de biotecnologia alemã BioNTech

e a farmacêutica norte-americana Pfizer

e usa a tecnologia do ARN mensageiro,

um código genético que se insere nas

células humanas para as obrigar a fabricarem

anticorpos específicos para o novo

coronavírus. A principal vantagem desta

abordagem está na rapidez: se uma combinação

genética não obtiver o resultado

ideal, basta trocar a amostra de ARN e

recomeçar a experimentação. Desvantagem?

Não há histórico, o método nunca

foi aprovado para utilização em humanos.

O protótipo da BioNTech/Pfizer não é a

única vacina experimental de ARN, tecnologia

que, se conseguir confirmar a sua

eficácia e segurança, facilitaria a produção

rápida e em massa de doses sem a necessidade

de manipular vírus infecciosos. Os

resultados preliminares do ensaio clínico

dito de fase 1/2 realizado nos EUA foram

positivos. O início da Fase 3 arrancou a 27

de Julho, abrangendo 30 mil participantes

entre 18 e os 85 anos em 120 locais no

mundo. Se forem bem-sucedidos, a candidata

poderá seguir para revisão regulatória

no final de Outubro. O CEO da

Pfizer, Albert Bourla, comunicou ao mercado

que as empresas assumiram os riscos

de desenvolvimento clínico e produção,

de forma a “garantir que o produto está

disponível imediatamente se os ensaios

clínicos forem bem-sucedidos e lhes for

concedida autorização para uso de emergência”.

O plano inclui a produção de até

100 milhões de doses até ao final de 2020,

e potencialmente mais de 1,3 mil milhões

até ao final de 2021. A BNT162 também

está em estudo na China, no âmbito de

uma parceria com a Fosun Pharma.

CANSINO BIOLOGICS

A empresa de biotecnologia CanSino Biologics,

em parceria com o Instituto de Biologia

da Academia de Ciências Médicas

Militares da China, desenvolveu a única

vacina aprovada até à data e que está a ser

usada em milhares de militares chineses.

Aprovaram-na como “medicamento

especialmente necessário” por um ano,

desconhecendo-se, no entanto, se é de

uso obrigatório ou opcional. Esta vacina

segue uma abordagem similar à da Universidade

de Oxford, utilizando um adenovírus

alterado para carregar o material

genético do Sars-Cov-2, responsável pela

produção da proteína “spike”. A biotech de

Tianjin, fundada há cerca de uma década

por quatro cientistas chineses que trabalhavam

no Canadá e apostaram no regresso à

China com o objectivo de fazerem recuar

o atraso do país no campo das vacinas,

destacou-se por ser a primeira a avançar

para a Fase 2 dos testes clínicos. Em Julho

reportou que os estudos demonstraram

que produzia uma resposta imune forte.

A CanSino tem uma parceria para testes

do composto no Canadá.

SINOPHARM

O primeiro ensaio clínico de Fase 3 do

mundo de uma candidata a vacina contra

a COVID-19 teve como protagonista o

Grupo Farmacêutico Nacional da China

Sinopharm e cenário o Abu Dhabi. “A

vacina inactivada que desenvolvemos pode

cobrir todas as estirpes do coronavírus

que foram detectadas até ao momento,

incluindo as rastreadas no mercado de

Xinfadi em Pequim”, revelou Yang Xiaoming,

presidente da Sinopharm, ao Global

Times. São duas as vacinas com chancela

desta farmacêutica desenvolvidas separadamente

pelo Instituto Sinopharm,

em Pequim, e pelo Instituto de Wuhan.

Usam a abordagem tradicional da versão

enfraquecida ou inactivada do coronavírus

para provocar uma resposta imune.

Se forem aprovadas, as vacinas poderão

estar prontas para uso público até ao final

do ano, início de 2021.

SINOVAC

Chama-se CoronaVac a candidata da chinesa

Sinovac Life Sciences Corp, com sede

em Pequim. Em Junho, a empresa reportou

que os resultados preliminares dos

ensaios clínicos realizados mostraram

perfis favoráveis ​de imunogenicidade e

segurança, num total de 743 voluntários

agosto/setembro 2020 | 55


GLOBAL VACINA

saudáveis ​com idades entre 18 e 59 anos.

Em meados de Julho arrancaram no Brasil

os ensaios clínicos da Fase 3, que se

estenderam à Indonésia mediante cooperação

com a empresa estatal deste país,

Bio Farma. Em breve, começarão também

no Bangladesh, que já deu aprovação

para o efeito. “Esperamos comparar

os resultados dos testes numa plataforma

global, a fim de obter um resultado científico

preciso”, disse Liu Peicheng, porta-

-voz do Sinovac, ao jornal Global Times.

A Sinovac está a construir instalações em

Daxing, Pequim, com vista à produção

de 100 milhões de doses por ano.

MODERNA

Dá pelo nome de mRNA-1273 a primeira

candidata desenvolvida pelos Estados Unidos

a chegar à Fase 3 dos ensaios clínicos,

que arrancaram a 27 de Julho em Savannah,

Geórgia, e abrangem 30 mil voluntários,

que vão receber duas doses com

vinte e oito dias de intervalo, em 89 lugares

do país. Desenvolvida pela empresa

de biotecnologia Moderna em colaboração

com a Autoridade Biomédica de Pesquisa

e Desenvolvimento Avançado e o

Instituto Nacional de Alergia e Doenças

Infecciosas (NIAID), dirigido por

Anthony Fauci, foi testada com sucesso

para a mutação D614G do vírus mais

comum do mundo, presente em mais de

70% das infecções confirmadas e estirpe

ASTRAZENECA: A farmacêutica

anglo-sueca desenvolve uma vacina em

parceria com a Universidade de Oxford

A FILA DAS PRIORIDADES

Nem todos as pessoas poderão receber

a vacina ao mesmo tempo. Numa

perspectiva optimista, a operação

estender-se-á no tempo e demorará

meses. O debate das prioridades

começa a ser feito nos países mais

desenvolvidos e a maioria concorda

que médicos, enfermeiros, no geral

todos os profissionais de saúde, devem

ser os primeiros. Mas e depois? Outros

trabalhadores da linha da frente? Os

mais velhos? Os professores? Na visão

de Bill Gates, especialista em vacinas

e maior financiador privado no esforço

global para chegar à protecção contra

a COVID-19, num mundo ideal seria

feito “um acordo global sobre quem

deveria receber a vacina primeiro, mas,

considerando os interesses em jogo,

isso é improvável”. Os governos que

garantem o financiamento das

descobertas, os países onde os ensaios

estão a ser realizados e os locais onde

a pandemia é pior — todos dirão que

devem ser eles. Bill Gates escreve no

seu blogue que se estivesse nas suas

mãos daria primazia aos países de

baixo rendimento. “Devem ser os

primeiros, porque as pessoas correm

um risco muito maior de morrerem

nesses lugares.” O mesmo continua a

repetir todos os dias Tedros

Ghebreyesus, director da Organização

Mundial de Saúde (OMS), para quem

a vacina “tem de ser um bem público

e mundial, de acesso equitativo”. Para

isso terá de haver consenso, sendo

necessário “compromisso político”.

dominante na Europa, atingindo 100%

dos casos em alguns países. Segundo um

estudo publicado no New England Journal

of Medicine, a candidata foi capaz

de criar uma resposta imunitária forte e

controlar rapidamente a infecção nas vias

aéreas superiores (fossas nasais, faringe e

laringe) e inferiores (traqueia e pulmão)

de macacos-rhesus. A Moderna foi a primeira

empresa a começar o estudo sobre

o novo coronavírus em humanos, a 16 de

Março, somente sessenta e seis dias depois

de ser conhecida a sequência genética do

vírus, e recebeu financiamento da operação

Warp Speed. Segundo o Financial

Times, a vacina deverá custar entre 42 e

51 euros (50-60 dólares), o protocolo e o

acordo prevêem duas doses e está a ser

negociada com vários governos, tendo

a administração Trump garantido 300

milhões de doses.

RÚSSIA

A vacina russa contra a COVID-19 está

a ser desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa

Gamaleya de Epidemiologia e Microbiologia

com o Ministério da Saúde da

Federação Russa. Não há dados pormenorizados

sobre os testes científicos

no relatório da OMS, mas no dia 21 de

Julho o Ministério da Defesa anunciou

a conclusão com “êxito da fase de provas

clínicas” e que “os resultados das

análises mostram de forma inequívoca

56 | Exame Moçambique


que todos os voluntários desenvolveram

uma resposta imunitária como resultado

da vacina”. Referiu também que os testes

foram realizados “em concordância com

a metodologia científica e com a legislação

em vigor, sem encurtar os prazos da

investigação para que sejam evitados riscos

posteriores”.

ÍNDIA

Tem duas candidatas na corrida. Três instituições,

o Conselho Indiano de Pesquisa

Médica, o Instituto Nacional de Virologia

e a farmacêutica Bharat Biotech, desenvolveram

uma vacina que revela, segundo

os primeiros relatos, resultados “muito

promissores”. Segundo o presidente da

Bharat, a vacina deverá estar pronta, no

mínimo, em 2021. A segunda candidata

da Índia foi desenvolvida pela empresa

Zydus Cadila, usa a tecnologia do ADN

e já começou a ser testada em humanos.

OS PRIMEIROS TESTES

DE SEGURANÇA EM

SERES HUMANOS

ARRANCARAM

EM MARÇO

JAPÃO

Pioneira no Japão, a AnGes uniu-se à

Takara Bio Inc. e à Universidade de Osaka

no desenvolvimento de uma vacina de

ADN. A vacina contém o ADN de proteínas

de espículas encontradas na superfície

do vírus, que após injectados deverão

permitir ao sistema imunológico da pessoa

desenvolver anticorpos que previnem a

infecção. A biofarmacêutica AnGes anunciou

o início dos testes clínicos em Julho

e, caso sejam bem-sucedidos, espera receber

aprovação do governo até ao final do

ano e lançar a vacina já em 2021.

AUSTRÁLIA

O país do canguru tem várias candidatas

na corrida, e a mais avançada dá pelo

nome de Covax-19, está a ser desenvolvida

por uma equipa da Universidade de

Flinders, em Adelaide, e começou a realizar

testes clínicos em humanos no dia

1 de Julho. Na primeira ronda de ensaios

clínicos a que foi sujeita apresenta resultados

na resposta imunológica e foi considerada

segura. “A nossa vacina ainda

vai ser sujeita a mais testes até ao ensaio

clínico final, mas não há razão para não

incluir idosos dos lares de Victoria na

próxima fase de testes, dar-lhes a vacina

e, assim, tentar protegê-los. Sabemos que

não lhes vai fazer mal, porque é completamente

segura”, defende Nikolai Petrovsky,

que lidera a investigação. A Covax-19

baseia-se numa proteína sintética produzida

pelo crescimento em células de

insectos, projectada para imitar a proteína

“spike” da parte externa do vírus

SARS-CoV-2, que a usa para se ligar às

células humanas.

BCG

A conhecida vacina da BCG poderá ser

um meio para proteger os profissionais

de saúde e os grupos de risco contra a

COVID-19. Um estudo realizado em Abril

concluiu que os países onde a vacina de

prevenção contra a tuberculose não é

obrigatória registam mortalidade mais

elevada na COVID-19. Este é o ponto de

partida de uma outra vacina que está a

ser desenvolvida na Austrália pelo Murdoch

Children’s Research Institute. Usa

o bacilo Calmette–Guérin (BCG) e está

na Fase 3 dos testes. b A.R.

agosto/setembro 2020 | 57


GLOBAL VACINA

MAIS DE UM BILIÃO

DE DOSES VENDIDAS

Os países ricos acumulam compras, enquanto a Organização Mundial de Saúde

tenta um compromisso global para evitar que o resto do mundo fique para trás.

Iniciativa Covax junta 165 países

MERCADO:

A vacina já está a alimentar

um mercado de futuros

58 | Exame Moçambique


A

vacina ainda não existe, mas

já está a alimentar um verdadeiro

mercado de futuros.

Numa corrida vertiginosa

para a garantir, os governos

dos países ricos contratualizam encomendas

que só serão fornecidas se a candidata

vier a ser autorizada para produção.

A conta dos negócios anunciados até agora

soma 1,3 mil milhões de doses, número que

duplicará se considerarmos as opções de

compra e os acordos pendentes. Segundo

a empresa de análise de mercado Airfinity,

citada pela Bloomberg, a quantidade

atinge uma tal dimensão que poderá não

conseguir ser satisfeita antes do primeiro

trimestre de 2022.

A aposta dos países está em formar um

portefólio que ofereça garantias reais mas,

claro, só poderá tentar fazê-lo quem dispuser

de meios para isso. Para evitar que

o resto do mundo fique para trás, a Organização

Mundial de Saúde patrocina a iniciativa

COVAX, em conjunto com a Gavi

— Vaccine Alliance e a CEPI (Coalition for

Epidemic Preparedness Innovations), organização

fundada pelos governos da Noruega

e da Índia, Fundação Bill & Melinda Gates,

A PROCURA TEM

UMA TAL DIMENSÃO

QUE PODERÁ NÃO

CONSEGUIR SER

SATISFEITA ANTES

DO PRIMEIRO TRIMESTRE

DE 2022

Wellcome Trust, do Reino Unido, e Fórum

Económico Mundial. O objectivo é o fornecimento

de 2 mil milhões de doses de

vacinas até ao final de 2021 aos países participantes.

A distribuição será proporcional

à população de cada país, começando

pelos profissionais de saúde até cobrir 20%

da população. As remessas aumentarão à

medida “das necessidades, vulnerabilidade

ou ameaça da COVID-19”. Segundo a OMS,

90 países alinham na COVAX, mas outros

1,3 mil

milhões de doses de vacinas já

foram encomendadas pelos

países ricos

1,9 mil

milhões de dólares é o valor do

acordo de entrega feito pela

Pfizer/BioNTech

750 milhões

de euros foi quanto pagaram

quatro países europeus à Astra

Zeneca/Universidade de Oxford

300 milhões

de doses foram encomendadas

pela União Europeia à francesa

Sanofi

75, entre os quais Portugal, já manifestaram

interesse em aderir.

A lógica da diversificação do risco preside

à estratégia dos ricos que andam às

compras. Os Estados Unidos, país que

mais investiu na investigação da vacina,

financiando além de americanas também

empresas estrangeiras, garantiu o melhor

no mercado de futuros. No início de Agosto

tinha fechado acordos com as candidatas

ocidentais mais promissoras a curto prazo:

AstraZeneca/Universidade de Oxford,

Moderna e Pfizer/BioNTech, com entregas

previstas ainda para 2020. O mais milionário

dos acordos envolveu 1,9 mil milhões

de dólares e teve como protagonista o consórcio

germano-americano, que se compromete

com a entrega de 100 milhões de

doses até Dezembro. Os EUA têm opção

de compra de mais 500 milhões de doses.

Até agora, que se saiba, nenhum destes

três grupos fez negócio com a União Europeia.

Bruxelas, que representa 27 países num

total de mais de 450 milhões de pessoas,

anunciou no dia 31 de Julho ter formalizado

a sua primeira encomenda. Visa a farmacêutica

francesa Sanofi e o fornecimento

de 300 milhões de doses da sua vacina em

desenvolvimento. Ursula von der Leyen, que

preside à Comissão Europeia, explicou que

este contrato é a primeira pedra da estratégia

europeia. “Embora hoje não se saiba

que vacina funcionará melhor, a Europa está

a investir num portefólio diversificado de

vacinas promissoras, com base em vários

tipos de tecnologias. Isso aumenta as nossas

hipóteses de obtermos rapidamente

um remédio eficaz contra o vírus.” Bruxelas

disponibilizou o fundo de emergência

de 2,4 mil milhões de euros como carteira

para a compra antecipada. Além do negócio

com a Sanofi, conhece-se a tentativa da

União de chegar a acordo com a norte-americana

Johnson & Johnson, a britânica GlaxoSmithKline,

a também norte-americana

Moderna e a alemã CureVac, havendo um

sexto laboratório por identificar.

Os europeus estão entre os mais agressivos

no mercado. Para aumentar o poder

de negociação e tentar manter a produção

na Europa, quatro países — Países Baixos,

Alemanha, França e Itália — formaram a

Aliança de Vacinas Inclusivas e trabalham

de forma coordenada com a Comissão Europeia.

Fecharam recentemente acordo com

a AstraZeneca/Universidade de Oxford,

garantindo até 400 milhões de doses da

vacina mais promissora e pagando 750

milhões de euros. Segundo a Reuters, se

esta vacina for aprovada pelas autoridades

reguladoras da UE, a fabricante de medicamentos

Catalent começará a produção

nas suas instalações de Anagni, Itália, já a

partir deste mês. Ainda na Europa, o Reino

Unido, que actua a solo, já anunciou compras

de 250 milhões de doses a três empresas:

a anglo-sueca Astra Zeneca, a francesa

Valneva e um consórcio que junta as farmacêuticas

francesa Sanofi e inglesa GSK.

As farmacêuticas contam munições para

a batalha da produção que aí vem, expandindo

instalações ou construindo de modo

a aumentarem a capacidade de produção.

O maior laboratório do mundo do sector,

o indiano Serum Institute, vai produzir

mil milhões de doses, na sequência de

um acordo de licenciamento com a Astra

Zeneca/Universidade de Oxford. As doses

destinam-se à Índia e países de baixo rendimento,

e 400 milhões deverão ser entregues

até ao final de 2020. Doses de uma

vacina que, neste momento, relembre-se,

nem sequer existe. A.R.b

agosto/setembro 2020 | 59


GLOBAL EUROPA

CIMEIRA:

Os líderes europeus aprovaram

um megapacote financeiro

para a recuperação da União

A BAZUKA

EUROPEIA

Com a economia da Zona Euro a afundar-se 12% no segundo

trimestre e o desemprego a disparar, a União Europeia

acabou por mutualizar a emissão de dívida, o que é inédito,

para financiar a recuperação, e por armar uma bazuca

de 1824,3 mil milhões de euros para acudir às economias

dos Estados-membros até 2027

LUÍS FARIA

A

União Europeia parecia

não conseguir que os

seus membros chegassem

a um acordo financeiro

para combater os efeitos

devastadores da pandemia sobre a economia

do bloco económico, à semelhança

do que aconteceu na crise financeira de

2008. Ao contrário dos Estados Unidos,

de várias potências asiáticas e mesmo de

alguns dos seus Estados-membros, que

se anteciparam e já injectaram milhares

de milhões de euros nas economias,

como é o caso da Alemanha, a União

mostrava-se bloqueada, com alguns dos

países “contribuintes” a colocarem grandes

reticências em financiarem, a fundo

perdido, ou seja, através de subvenções,

em milhares de milhões, os seus parceiros

do “Sul”, nomeadamente Itália, Espanha

e Portugal.

“Os cidadãos europeus estão à espera de

um forte plano de recuperação. O mundo

está a observar-nos”, declarou Ursula

von der Leyen, presidente da Comissão

60 | Exame Moçambique


Europeia, numa publicação feita na rede

social Twitter nas vésperas do Conselho

Europeu, o órgão que agrupa os líderes

dos Estados-membros, que teve lugar

em Bruxelas a 21 de Julho. A reunião, a

segunda mais longa na história do bloco,

viria a aprovar um pacote financeiro sem

precedentes, que atinge, no conjunto do

quadro financeiro plurianual 2021-2027

e do fundo de recuperação para combater

os efeitos da pandemia, 1824,3 mil

milhões de euros. A “próxima geração

UE”, nome dado ao fundo de recuperação,

dispõe, até 2026, de 390 mil milhões

de euros de subvenções a fundo perdido

e 360 mil milhões destinados a empréstimos.

A grande novidade é que, pela

primeira vez, vai ser emitida dívida no

montante de 750 mil milhões de euros

em nome da União Europeia pela própria

Comissão, ou seja, mutualizada,

em que a responsabilidade é partilhada

pelos 27 Estados-membros, como queriam

Itália, Espanha e Portugal, e pela

qual se bateram a Comissão Europeia

e o eixo franco-alemão, embora o envelope

que receberão a fundo perdido seja

menor do que o falado no início da reunião

de primeiros-ministros.

Na verdade, a insistência de Von deer

Leyen num acordo deste tipo e a impecável

coordenação do eixo franco-alemão

decidiram o resultado da longa maratona

de 21 de Julho. A influência e a experiência

da chanceler alemã Angela Merkel foi

determinante. Merkel, que não estará distante

de pôr termo à sua carreira política

activa, deixou mais uma vez a sua marca

30% DOS RECURSOS

FINANCEIROS PARA

A RECUPERAÇÃO SERÃO

INVESTIDOS NO CLIMA

neste renascimento da coesão europeia,

utilizando um argumento demolidor:

quaisquer que fossem as razões dos diferentes

países, o que estava em causa era a

continuidade do mercado europeu e da

sua grande interdependência, os países

ricos acabariam sempre derrotados mesmo

que não ocorressem aos mais necessitados

por perderem importantes mercados.

Para a Alemanha, por exemplo, o mercado

italiano é deveras relevante. E como

sempre, a Alemanha, agora ainda mais

depois da saída do Reino Unido com o

Brexit, impôs-se.

Mas o grupo de países que colocava

objecções a que fosse transferido dinheiro

a fundo perdido, e no qual se incluíam,

e incluem, a Holanda, a Áustria, a Dinamarca

e a Finlândia, também não se deu

como derrotado na negociação, tendo

reduzido, à custa de outros fundos europeus,

o financiamento destinado ao esforço

de recuperação colocado inicialmente em

cima da mesa e fixado as suas condições

à libertação dos fundos solicitados pelos

projectos encaminhados pelos membros

do bloco económico. Os 500 mil milhões

de euros de subvenções propostas a fundo

perdido levaram um corte em 110 mil

milhões de euros no acordo alcançado.

São fixadas, por outro lado, metas à recuperação

dos países que integram a União.

Se um Estado-membro considerar que

outro não está a cumprir as metas que

lhe foram fixadas, poderá desencadear

mecanismos que suspendem os pagamentos

europeus ao país alegadamente

“em falta”. Como normalmente o “diabo”

surge nos pormenores, a exigente e complexa

arquitectura do acordo financeiro

europeu coloca desafios de cumprimento

dos grandes objectivos europeus e a realização

de reformas internas aos países

que dele mais vão beneficiar.

Três mulheres, Ursula von der Leyen,

Angela Merkel, a primeira dirigente alemã

oriunda da antiga parte Leste do país,

Christine Lagarde, presidente do Banco

Central Europeu, para onde transitou

vinda do FMI, procuram manter o maior

mercado do mundo vivo, apesar do projecto

de construção europeia estar cheio

de contradições. Elas decorrem dos tratados

em que assenta o desenvolvimento do

projecto da União Europeia, com convergência

monetária e bancos centrais que

respondem perante o Banco Central Europeu,

imposição de regras quanto à infla-

O QUE FICOU

PARA TRÁS

O acordo financeiro impôs

reduções a outros programas

da União Europeia.

Foram sacrificados:

,Nova iniciativa da Comissão

para a Saúde (no valor de

5 mil milhões, desapareceu)

,Instrumento de solvência

(no valor de 26 mil milhões,

desapareceu)

,Migração (redução

do orçamento)

,Acção externa da UE

(redução do orçamento)

agosto/setembro 2020 | 61


GLOBAL EUROPA

ção e endividamento público, mas total

desunião fiscal, com as grandes empresas

dos diferentes países a sediarem-se,

para efeitos da tributação, em Estados-

-membros muito mais competitivos em

termos fiscais, como a Holanda, Malta

e Irlanda. Esta última aplaudiu mesmo

a recente vitória da Apple no Tribunal

Europeu, que a Comissão considerava

pagar impostos a menos, tirando partido

da implantação do seu quartel-general

europeu na... Irlanda. As autoridades

de concorrência europeias achavam que

a Apple devia ser multada em 14 mil

milhões de euros, valor da poupança fiscal

decorrente de acordos estabelecidos

com o Estado irlandês. Para manter o

seu processo de integração e consolidar

o mercado interno a Europa precisa de

financiar a convergência das economias

que compõem o bloco. O Banco Central

Europeu (BCE) dispõe de recursos para

controlar a política monetária, sendo

também a única instituição europeia

A COMISSÃO EUROPEIA

PROPORÁ MEDIDAS,

A ADOPTAR PELO

CONSELHO POR MAIORIA

QUALIFICADA, EM CASO

DE INFRACÇÕES

verdadeiramente “federalizada”. Christine

Lagarde, ao contrário do que muitos

esperavam, não adoptou uma política

restritiva, mantendo a compra de dívida

e garantindo o financiamento, a taxas de

juro razoáveis, das economias mais endividadas,

na esteira do seu antecessor, o

italiano Mario Draghi. O BCE reagiu de

pronto face à pandemia, acalmando os

mercados com um envelope de 750 mil

milhões de euros destinado a comprar

dívida dos governos e das empresas em

toda a Zona Euro.

A quebra no produto interno da União

é avassaladora. A economia da Zona Euro

deu um trambolhão de 12,1% no segundo

trimestre deste ano. O produto interno

caiu 22,1% em Espanha, 19% em França

e 17,3% em Itália. Daí que os esforços do

BCE não chegassem para conter o desabamento

de economias que são obrigadas

a conviver com o vírus depois de

experimentarem confinamentos, sendo

algumas fortemente dependentes do

turismo, que se contrairá profundamente

enquanto uma vacina não puser termo à

pandemia. Os esforços do BCE e a flexibilização

das regras internas respeitantes

ao défice orçamental não chegariam

para conter o óbvio: a falência a prazo

de alguns países, entre os quais Itália.

Com o anúncio do pacote financeiro

europeu as taxas de juro das dívidas

nacionais têm-se mantido estáveis, algo

NOVOS IMPOSTOS

Além das receitas tradicionais,

a UE prevê ir buscar

dinheiro a novos impostos.

A presidente da Comissão

Europeia Ursula von der Leyen,

classificou mesmo os novos

recursos próprios, como os

decorrentes das taxas sobre

produtos de plástico não

reciclado ou sobre bens e

serviços digitais importados ,

como a grande novidade.

,Novo imposto baseado nos

resíduos do plástico (2021)

,Medidas de ajustamento das

emissões de carbono (2023)

,Imposto Digital (2023)

,Revisão e alargamento do

regime de comércio e emissões

(aviação e transporte marítimo)

,Imposto sobre as transacções

financeiras

que é vital para países como Itália, Espanha,

Grécia ou Portugal, que apresentam

um peso excessivo da dívida no

produto interno e no orçamento. Nem a

Europa tinha, pois, opção, sob o risco de

se fragmentar, nem as reticências postas

por alguns países ao respeito de princípios

institucionais europeus por parte

de outros constituiu obstáculo a que os

27 chegassem a acordo. Bastaria à Hungria

e Polónia, países acusados de não

estarem a respeitar regras institucionais,

votarem contra a “Nova Geração UE”

para se inviabilizarem quaisquer fundos

de recuperação. As decisões do Conselho

Europeu são tomadas por unanimidade

e as discussões sobre democracia e

liberalismo ficaram para mais tarde, o

momento actual não é para brincadeiras.

Os menos favoráveis ao “federalismo”,

em que os governos e parlamentos nacionais

abdicam de poderes soberanos, vêem

neste pacote financeiro europeu um reforço

do poder de Bruxelas. No entanto, ele só

foi possível por decisão dos líderes dos

62 | Exame Moçambique


ORÇAMENTO MILIONÁRIO

(Mil milhões de euros)

Ascendem a 1824,3 mil milhões de euros

os recursos europeus para 2021-2027

1074,3

Quadro

Plurianual

750

Fundos

Recuperação

NOVA GERAÇÃO UE

(Mil milhões de euros)

MACRON E MERKEL:

O eixo franco-alemão funcionou

afinado e obteve o acordo

O programa de recuperação “Nova Geração

UE” é, na sua maior parte, a fundo perdido

governos efectivos, ou seja, os governos

nacionais, da União Europeia, subalternizando

o Parlamento Europeu, que ainda

terá de aprová-lo, o que deverá acontecer,

com mais ou menos tumulto oratório, e a

própria Comissão. Estar-se-á, com a inédita

responsibilização da Comissão Europeia

pela dívida emitida, perante uma nova

abordagem do projecto da União, com a

aplicação dos fundos disponibilizados

a conferir um novo papel de efectiva coordenação

do processo de integração ao Conselho

Europeu, ou o bloco económico poderá

revelar, com os recursos disponibilizados,

as reformas exigidas e a persistente pressão

da migração, novas fragilidades?b

390

Subvenções

Fonte: Conselho da Europa.

360

Empréstimos

PIB NA ZONA EURO

A quebra da economia do euro é brutal desde o início da pandemia

DESEMPREGO

NA ZONA EURO

0,7 0,8 0,8 0,3 0,4 0,2 0,5 0,1 0,3 0,1

2º tri

2017

3º tri

2017

4º tri

2017

1º tri

2018

2º tri

2018

3º tri

2018

1º tri

2019

2º tri

2019

3º tri

2019

4º tri

2019

1º tri

2020

-3,6

2º tri

2020

,7,8% foi a taxa de desemprego

em Junho

,12 685 mil pessoas estavam

desempregados

,2 360 mil de jovens (menos de

25 anos) não tinham emprego

Fonte: Eurostat.

-12,1

agosto/setembro 2020 | 63


OIL

& GAS

LUÍS FARIA

PERDAS

TRIMESTRE TERRÍVEL

QUEBRAS: Os lucros

das petrolíferas

entraram em queda

com a crise global

D.R.

As petrolíferas começam a revelar nos seus

resultados o impacto da pandemia. A francesa

Total terá registado no segundo trimestre

do ano uma perda líquida superior a

8,2 mil milhões de dólares, a larga maioria

numa exploração arenosa do Canadá. Trata-

-se da primeira queda trimestral desde 2015.

Também a Shell reflectiu, no seu desempenho,

o impacto da pandemia, que se junta

aos custos da transição energética e à queda

do preço do petróleo. A petrolífera anglo-

-holandesa declara ter perdido mais de

18 mil milhões de dólares no período. A espanhola

Repsol registou prejuízos de 2484

milhões de euros no primeiro semestre

deste ano, contra um lucro de 1133 milhões

no período homólogo. Nos primeiros três

meses do ano, a Repsol teve um prejuízo

de 578 milhões de dólares, situação que se

agravou no segundo trimestre com o avançar

da pandemia COVID-19 e com a paralisação

da economia, com prejuízos de 2,3 mil

milhões de dólares, que compara com um

lucro de 623 milhões de dólares no segundo

trimestre de 2019. Já a italiana Eni registou

perdas de 5,2 mil milhões de dólares entre

Abril e Junho, com prejuízos ajustados de

quase 848 milhões de dólares. A portuguesa

Galp Energia registou no período um

prejuízo de 52 milhões de euros (perto de

62 milhões de dólares), quando no primeiro

trimestre obtivera um lucro de 29 milhões.

Refira-se, entretanto, que as principais

petrolíferas, como a Total e a Shell, adquiriram

petróleo a baixo custo para armazenamento,

tirando partido da baixa acentuada

do preço ditada pela pandemia COVID-19.

No primeiro trimestre a BP anunciou ter

registado perdas de 4365 milhões de dólares

(4034 milhões de euros) devido a condições

“extraordinárias” provocadas pela

pandemia COVID-19 e factores associados

ao fornecimento e procura de petróleo.

No mesmo trimestre do ano passado,

a BP registara lucros de 2934 milhões de

dólares. Pelo contrário, e ainda nos primeiros

três meses, a segunda maior petrolífera

norte-americana, a Chevron, surpreendeu

o mercado ao apresentar resultados

de 3,6 mil milhões de dólares, acima dos

2,6 mil milhões registados em igual período

de 2019, um resultado que se fica, entretanto,

muito a dever à venda de activos nas

Filipinas e no Azerbaijão. Quanto à primeira

petrolífera norte-americana, a ExxonMobil,

também apresentou, no primeiro trimestre,

resultados que superaram as expectativas

do mercado graças aos prolíferos recursos

de Permian e Guiana. Os analistas prevêem,

no entanto, uma quebra do desempenho no

segundo trimestre.

Perdas no segundo trimestre

(mil milhões USD)

GALP REPSOL ENI TOTAL SHELL

0,62

Fonte: Petrolíferas.

2,3

5,2

8,2

18

64 | Exame Moçambique


BRENT

PREÇOS SOB PRESSÃO

D.R.

D.R.

O preço do barril de petróleo de

referência, tipo Brent, após cair

abaixo dos 20 dólares no final de

Abril, face ao impacto da pandemia

e ao desentendimento entre a

Arábia Saudita e a Rússia quanto

ao controlo da oferta, parecia ter

retomado um sentido ascendente,

ajudado, entre outros factores,

pelo desconfinamento progressivo

em muitos países. A 5 de Junho o

preço do barril de Brent na praça

de Londres superou os 40 dólares,

chegando a cotar-se, a 21 de Julho,

acima dos 44 dólares. A revelação

de que os stocks norte-americanos

se encontravam abaixo do esperado,

acusando o maior recuo desde

Dezembro, e a retoma da procura

por parte da China, manteve o preço

dos futuros de Brent na casa dos

Preço do Brent

(barris/USD)

43 dólares no final de Julho. Contudo,

mesmo no virar do mês, os

recrudescimentos do surto viral na

Ásia e a progressão do contágio por

todo o mundo, associados a notícias

do aumento do desemprego

nos Estados Unidos e na Europa,

bloqueavam qualquer evolução

positiva do valor do crude. Assinale-se

que, apesar da recuperação

dos principais índices bolsistas, o

fundo de índice Vanguard Energy

(NYSE:VDE) — que possui, entre

as suas dez principais participações,

a Exxon Mobil (NYSE:XOM),

a Chevron (NYSE:CVX) e a Phillips

66 (NYSE:PSX) — ainda regista

uma queda de 40% no ano. Algumas

grandes empresas do sector

do Oil&Gas já reduziram o valor

dos seus dividendos.

66,16 59,32 52,18 24,93 19,99 34,74 41,02 43,41

27 Dez 27 Jan 27 Fev 27 Mar 27 Abr 27 Mai 27 Jun 27 Jul

Fonte: Investing.

PREÇO DO PETRÓLEO:

Depois de desabar a sua recuperação é incerta

Acções da Chevron

(em USD)

NEGÓCIO

CHEVRON: Os activos da Noble dão-lhe acesso

a importantes bacias petrolíferas

68,56 89,44 92,79 87,62

1 Abr 1 Mai 1 Jun 1 Jul

Fonte: Investing.

CHEVRON COMPRA NOBLE

A petrolífera Chevron anunciou ter chegado a acordo para

comprar a Noble Energy, um negócio que envolve apenas

acções e avalia a empresa de produção de petróleo e gás,

com sede em Houston, em 5 mil milhões de dólares. A oferta

de compra avalia cada acção da Noble em 10,38 dólares, um

valor 7,5% acima do valor de cada acção no fecho do mercado

anterior ao anúncio. O acordo, considerando as dívidas

da Noble Energy, ascende a cerca de 13 mil milhões

de dólares. Os activos da Noble permitirão a presença da

Chevron na bacia DJ, no Colorado, e na bacia de Permian,

entre o Texas Ocidental e o Novo México, nos Estados Unidos.

A aquisição permitirá ainda gerir sinergias com os activos

da Chevron no Mediterrâneo Este e na África Ocidental,

que poderão traduzir-se numa redução de custos na ordem

dos 300 milhões de dólares. A oferta da Chevron acontece

pouco mais de um ano após a empresa ter sido forçada a

retirar a sua proposta pela Anadarko Petroleum Corp — na

altura, a rival Occidental Petroleum Corp fez uma oferta

maior. O colapso dos preços do petróleo em Abril devido à

pandemia de COVID-19 e a uma guerra de preços entre russos

e sauditas atingiu duramente os produtores de petróleo

shale, levando muitas empresas a pedirem protecção contra

a falência. Embora os preços tenham vindo a recuperar

desde então, o futuro permanece uma incógnita já que os

novos casos de coronavírus ameaçam impactar a recuperação

da procura global por combustíveis.

agosto/setembro 2020 | 65


OPINIÃO

MILCON NGUNZA

Coordenador dos Estudos e Reforma

Tributária do Centro de Estudos

da Administração Geral Tributária de Angola

MELHORÁMOS!

Angola reestruturou o quadro de tributação

das empresas, procurando tornar o fisco mais

amigável do investimento, protegendo as

microempresas e preparando assim a sua

entrada na Zona de Livre Comércio da SADC

Em Angola as empresas privadas constituem actualmente

o grosso do tecido empresarial, sendo cada vez menos as

empresas do sector público que se mantêm em actividade.

De acordo com os últimos números divulgados pelo Instituto

Nacional de Estatística, das empresas em actividade em

2017, 0,3% eram empresas do Estado, 0,3% associações e fundações,

2,5% sociedades anónimas, 50% empresários em nome

individual e 47% sociedades por quotas. O tecido empresarial

angolano observou uma tendência sempre crescente ao longo do

período de 2016 a 2019. Até ao final do período em referência foram

analisadas, no Ficheiro de Unidades Estatísticas Empresariais,

202 496 empresas. Deste universo, 55 957 encontravam-se em

actividade em 2019, quando no ano anterior o universo era de

52 689 empresas activas.

Levando em consideração as mutações impostas pelos condicionalismos

económicos, financeiros e cambiais decorrentes

da queda abrupta do preço do petróleo nos principais mercados

internacionais, acrescidas agora das decorrentes da pandemia da

COVID-19, nos dias que correm vive-se em Angola um ambiente

político-social e uma vontade verdadeiramente reformadores em

múltiplos sectores de actividade administrativa pública e privada.

Com efeito, no que à fiscalidade diz respeito, identificou-se, recentemente,

a necessidade de reestruturação da tributação das empresas,

tentando encontrar, na medida do possível, o quadro normativo

que, obedecendo a princípios de eficiência e equidade, melhor se

ajuste às limitações intrínsecas ao contexto económico-empresarial.

Pretendeu-se, entretanto, corporizar o objectivo de edificar um

quadro de tributação “amigo do investimento”, que promova a

simplificação do cumprimento das obrigações tributárias, a internacionalização

e a competitividade das empresas angolanas, procedendo-se

a uma revisão geral das bases legais fundamentais do

sistema da tributação das empresas, a reavaliação da taxa nominal

e, bem assim, a revisão de alguns regimes fundamentais para acicatar

o investimento nacional e estrangeiro.

Entre outras alterações, esta reestruturação sinaliza uma transferência

progressiva da carga fiscal do rendimento para o consumo,

tendo-se julgado conveniente a redução da taxa geral do Imposto

Industrial de 30 para 25%, permitindo a saída de Angola do leque

de países da SADC com taxas mais altas sobre o lucro das empresas

para passar a ser um dos que tem taxas mais baixas. Por outro

lado, tratando-se de rendimentos provenientes de actividades exclusivamente

de explorações agrícolas, aquícolas, apícolas, avícolas,

pecuárias, piscatórias e silvícolas, estabeleceu-se uma taxa de tributação

substancialmente inferior à realidade anterior, passando

de 15% para 10%.

Não podendo o Estado, nas circunstâncias actuais, prescindir de

receitas fiscais, não foi possível levar o desagravamento da tributação

dos lucros das empresas tão longe quanto o desejável. A prática

internacional tem demonstrado que é possível proceder a alterações

fiscais, orientadas para a simplificação do sistema e para a descida

de taxas de imposto relativamente neutras em termos orçamentais

e com significativos resultados positivos na dinamização da economia

e na criação de emprego a médio e longo prazo.

Outrossim, no quadro das alterações operadas, a nova lei enquadra

no centro de gravidade das suas preocupações o tratamento fiscal

diferenciado das empresas, tendo como estandarte o seu volume

de negócios, mediante a consagração de um regime simplificado

aplicável às microempresas, considerando-se como tais as empresas

sujeitas ao regime de não sujeição do IVA que, com este novo

enquadramento, passam agora a estar dispensadas, tanto quanto

possível, de quaisquer burocracias empresariais ou fiscais, assentando

a sua tributação em mecanismos o mais simples possíveis,

mediante a apresentação de um modelo de contabilidade simplificada

ou livro de registo de compra e venda e serviços prestados,

prescindindo-se, por conseguinte, da maior parte das exigências

implicadas na contabilidade propriamente dita. Isto é, de maneira

a que o imposto seja um resultado apurado em termos tão automáticos

quanto seja exequível do ponto de vista da sua praticabilidade.

Contudo, face ao número de alterações introduzidas, tornam-se

evidentes os pequenos passos dados, no sentido de Angola preparar

a sua entrada na Zona de Livre de Comércio da SADC, permitindo

que se arme para enfrentar as profundas transformações que

a sociedade irá conhecer a breve trecho.b

66 | Exame Moçambique


novembro 2019 | 67


DESPORTO FUTEBOL

LIGA DOS

CAMPEÕES:

Lisboa recebe

a recta final

do campeonato

milionário

GETTY

68 | Exame Moçambique


A FINAL A OITO

DA CHAMPIONS

O futebol movido a “petro euros”, representado pelo

Manchester City e Paris SG, tenta mais uma vez alcançar

o título europeu numa Champions League atípica,

na qual o Bayern Munique parece mais forte

ANDRÉ PIPA

O

futebol de elite volta à capital

portuguesa seis anos

depois de o Real Madrid

ganhar a sua décima Liga

dos Campeões no estádio

da Luz, após golear no prolongamento

(4-1) o vizinho e rival, Atlético de Madrid.

A diferença, relativamente a Maio de 2014,

é que agora Lisboa acolhe não duas, mas

oito equipas, que decidirão o título europeu

num modelo inédito e irrepetível —

uma final eight com os quartos de final

e as meias-finais a serem disputados em

regime de jogo único, à porta fechada,

nos dois maiores recintos desportivos da

capital portuguesa: o estádio da Luz (onde

joga o Benfica) e o estádio Alvalade XXI

(onde joga o Sporting). Como se sabe, a

pandemia COVID-19 é a culpada desta

originalidade. A competição esteve interrompida

desde o início de Março e só se

conclui no dia 23 Agosto, com a final no

estádio da Luz, catorze meses(!) depois

do início da prova (eliminatórias preliminares).

Entre o cancelamento definitivo

da edição deste ano e a adopção

de um figurino de emergência, a UEFA,

ouvidas todas as partes, avançou para a

segunda solução, naturalmente pressionada

nesse sentido pelas operadoras televisivas

e pelos partners daquela que é a

competição clubística mais importante

do calendário futebolístico. É um facto

que todos perdem receitas (menos jogos,

menos transmissões, menos publicidade,

nula receita de bilheteira sendo os jogos

sem público), mas ao menos o álbum de

honra da Champions não fica com um

ano em branco.

LISBOA ACOLHE

OITO EQUIPAS, QUE

DECIDIRÃO O TÍTULO

EUROPEU NUM MODELO

INÉDITO E IRREPETÍVEL

Até à interrupção da prova em Março,

devido à pandemia, só tinha havido uma

grande surpresa: a eliminação do Liverpool,

campeão europeu e mundial em

título, pelo Atlético de Madrid, que operou

uma sensacional reviravolta em Anfield

Road (de 0-2 para 3-2 no prolongamento)

depois de ganhar o jogo da 1.ª mão em

Madrid (1-0). O Liverpool era um dos

favoritos claros à vitória, ao lado de outros

tradicionais candidatos como o Bayern, o

Barcelona, a Juventus, o Manchester City

e o Paris SG e, apesar do bom desempenho

do Atlético de Madrid nos últimos

anos — foi finalista vencido da Champions

em 2014 e 2016 e semifinalista em

2015 (nas três ocasiões, sempre batido

agosto/setembro 2020 | 69


DESPORTO FUTEBOL

LEONEL MESSI:

O argentino

mostra na final da

Champions a magia

do seu futebol

pelo vizinho Real Madrid) — ninguém

esperava que a brilhante orquestra vermelha

de Jurgen Klopp caísse perante

uma equipa que a generalidade da crítica

considera praticar um futebol enfadonho,

previsível e carente de audácia. Mas

EM PROVA ESTÃO

LIONEL MESSI E

ALGUNS DOS MELHORES

FUTEBOLISTAS DA

ACTUALIDADE, COMO

NEYMAR, KYLIAN

MBAPPÉ E ROBERT

LEWANDOWSKI

a verdade é que caiu. À proeza do Atlético

seguiu-se, quase seis meses depois, a

eliminação da Juventus pelo Olympique

Lyon, que poucos esperavam. A passagem

do Lyon veio reforçar o quadro inédito

desde que a prova se disputa no formato

Champions (1992-93): pela primeira vez

nos quartos de final estão seis equipas

que nunca foram campeãs europeias —

Atlético de Madrid, RB Leipzig, a Atalanta

de Bergamo, Paris SG, Manchester

City e Lyon. Como o sorteio caprichosamente

colocou as quatro primeiras equipas

todas do mesmo lado, é garantido

que uma delas estará na final a discutir

o título europeu. Possivelmente contra o

vencedor do duelo entre os únicos “históricos”

presentes — Bayern Munique e

Barcelona.

A presença de seis não vencedores em

fase tão adiantada da prova não significa

que a edição de 2020 não tenha a qualidade

de outras edições recentes. É evidente

que a Champions sem Cristiano Ronaldo

NEYMAR:

Uma das estrelas

da constelação

que o PSG traz à

fase final da Liga

dos Campeões

MAIS TÍTULOS

Espanha e Real de Madrid lideram destacados

as listas de países e de clubes que levaram para

casa o ceptro da Liga dos Campeões

Países

Vitórias

Espanha 18

Inglaterra 13

Itália 12

Clubes

Vitórias

Real Madrid 13

AC Milan 7

Liverpool 6

Treinadores

Vitórias

Zinedine Zidane 3

Carlo Ancelotti 3

Robert Paisley 3

Jogadores

Vitórias

Francisco Gento 6

Cristiano Ronaldo 5

Paolo Maldini 5

não é a mesma coisa — ou não fosse ele

o recordista de golos (130), mas também

de títulos (5), finais (6) e meias-finais (11)

—, mas Lionel Messi ainda está em prova,

assim como alguns dos melhores futebolistas

da actualidade, como Neymar,

70 | Exame Moçambique


agosto/setembro 2020 | 71


DESPORTO FUTEBOL

IMPACTO DE 50 MILHÕES NA ECONOMIA LUSA

Mesmo sem público nos estádios, os sete jogos que

a cidade de Lisboa acolhe no “final 8” da Champions

(três no estádio Alvalade XXI, quatro no estádio da Luz)

representam para a economia portuguesa um impacto

de cerca de 50 milhões de euros, segundo um estudo

elaborado pelo IPAM — Instituto Português de

Administração e Marketing — sob a coordenação de

Daniel Sá. Os especialistas do IPAM prevêem a chegada

de 16 mil adeptos sem bilhete e apontam para 3300

visitantes na final. A hotelaria lisboeta acolherá cerca

de 600 elementos das comitivas das oito equipas,

400 jornalistas acreditados, mil pessoas de staff de apoio

à competição, mil convidados da UEFA, 200 elementos das

equipas de televisão e 42 elementos das equipas

de arbitragem.

Os analistas do IPAM sublinham, no estudo, as vantagens

económicas para a cidade que acolhe a final da Liga dos

Campeões: “Além do potencial de visibilidade de que a

cidade e o país beneficiam, existe um conjunto de impactos

económicos directos devido aos sete jogos. A esse nível

está previsto que 49% seja atribuído ao in home e outdoor

eating and drinking. Destaca-se ainda o alojamento (13%),

viagens (9%), actividades turísticas (5%), hospitalidade

(4%), compras (3%), diversão (3%), catering (3%); activação

de sponsors (3%) e eventos especiais (3%). A logística,

outros serviços e segurança, combinados, representam

5% do impacto económico

para o país.” Mesmo com o

duro golpe que representa a

ausência de Cristiano Ronaldo

(e tudo o que ele significa

e movimenta), o impacto

mediático dos jogos será

imenso e representa um boost

incalculável para a imagem

de Portugal no exterior,

tratando-se da primeira

grande competição desportiva

RECEITA: Mesmo sem

assistência, a cimeira

do futebol de luxo

traz negócio à capital

portuguesa no meio

da pandemia

europeia organizada em tempo de pandemia.

Basta pensar que a final do ano passado (Liverpool-

-Tottenham, em Madrid) teve uma audiência de

400 milhões de espectadores em 217 países e gerou mil

milhões de interacções nas redes sociais, um recorde de

performance digital. “Vamos estar nos telejornais e nos

jornais todos os dias. Será uma promoção extraordinária

para Portugal, é como se saísse o Euromilhões”, disse

Francisco Calheiros, presidente da Confederação de

Turismo de Portugal. Por seu turno, Raúl Martins,

presidente da Associação da Hotelaria de Portugal,

sublinhou a importância da “oportunidade de ter milhões

de europeus com a sua atenção concentrada em Lisboa

e Portugal. É também um importante sinal de confiança

que as organizações internacionais depositam em

Portugal, nas suas instituições, nas suas empresas

e nos portugueses… e pode ser um bom ‘tiro de partida’

para o turismo e para a retoma da hotelaria na cidade”.

Lembre-se que em Maio de 2014, com o estádio da Luz

cheio (mais de 60 mil espectadores), a final da Champions

entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid gerou

46 milhões de euros à economia portuguesa em dois dias.

Lisboa registou 50 mil dormidas e o mesmo número de

deslocações internas e serviu cerca de 400 mil refeições.

Desta vez são onze dias e oito equipas…

72 | Exame Moçambique


Kylian Mbappé, Robert Lewandowski,

Philippe Coutinho, Antoine Griezmann,

Luis Suárez, Raheem Sterling, Kevin de

Bruyne e Memphis Depay, entre outros.

DESAFIO DAS ARÁBIAS

A pandemia alterou de tal modo o calendário

futebolístico e o momento das equipas

que é difícil, ao fim de quase seis

meses, encontrar uma linha de continuidade

entre o que estavam a produzir em

Março e aquilo que serão capazes de produzir

na final eight de Lisboa em pleno

mês de Agosto, quando o calor aperta

e as temperaturas sobem regularmente

acima dos 30 graus. Há um consenso

A PANDEMIA ALTEROU

TUDO DE TAL FORMA

QUE É DIFÍCIL SABER

O QUE AS EQUIPAS SÃO

CAPAZES DE PRODUZIR

NA FINAL EIGHT

DE LISBOA

generalizado em relação ao favoritismo

do Bayern Munique, muito provavelmente

o clube mais bem gerido do mundo, onde

tudo parece funcionar na melhor tradição

alemã de eficácia, precisão e objectividade.

A campanha do Bayern tem sido

arrasadora à imagem do bomber polaco

Lewandowski, que chega à final eight com

13 golos em sete jogos. Mas já lá vamos.

Por ora detenhamo-nos no Manchester

City e no Paris SG, dois clubes que são

propriedade de fundos estatais árabes e

que, apesar de terem gasto mais de mil

milhões de euros em contratações nos

últimos sete anos, continuam a falhar,

ano após ano, o objectivo que os move —

a conquista do título europeu. Lisboa será

para os dois a oitava tentativa de conquistar

o troféu europeu mais ambicionado

após sete épocas de fracasso continuado.

O City, segundo clube de Manchester,

foi comprado em Setembro de 2008

pelo Abu Dhabi United Group do xeque

Mansour bin Zayed. Doze anos e cerca

ROBERT

LEWANDOWSKI:

O polaco do Bayern

de Munique é o mais

eficaz nº 9 da Europa

MAIS JOGOS

Três espanhóis, um português e um galês encimam

a lista dos jogadores que mais marcaram presença

na Champions

177

Iker

Casillas

(Esp)

170

Cristiano

Ronaldo

(Por)

151 145 142

Xavi

Hernández

(Esp)

Ryan

Giggs

(Gal)

Raúl

González

(Esp)

de 1,2 mil milhões de euros depois, é

o quinto clube mais valioso do mundo

no ranking da Forbes (2,69 mil milhões

de euros) e um dos que gera mais receitas:

na época de 2018-19 encaixou 568

milhões. O City é a potência dominante

em Inglaterra — na época passada tornou-se

a primeira equipa a vencer todas

as competições domésticas — e o eterno

candidato frustrado ao título continental.

Falhou essa conquista com o treinador

italiano Roberto Mancini (uma

vez), falhou com o chileno Manuel Pellegrini

(três vezes), e continua a falhar

com o espanhol Pep Guardiola (vai na

quarta tentativa), por muitos considerado

o melhor treinador do mundo. A pressão

sobre Guardiola é grande: a equipa

foi varrida na Premier pelo “tornado”

Liverpool (terminou no segundo lugar, a

18 pontos de distância dos reds) e foi eliminada

na meia-final da Taça de Inglaterra

pelo Arsenal, que está longe de ser

um “tubarão”. Só a conquista da Champions

pode impedir que se avolumem as

críticas a Pep Guardiola pela incapacidade

de transpor para a Europa a competitividade

de que dá mostras a nível doméstico.

Sobretudo quando o maior rival — o

Liverpool — mostra precisamente essa

capacidade para ganhar a Champions,

como aconteceu há um ano. Sucessivamente

eliminado pelo Mónaco (2017, nos

oitavos), Liverpool (2018, nos quartos)

agosto/setembro 2020 | 73


DESPORTO FUTEBOL

HÁ UM CONSENSO

GENERALIZADO

RELATIVAMENTE AO

FAVORITISMO DO

BAYERN MUNIQUE

e Tottenham (2019, nos quartos), o City

de Guardiola apresenta em Lisboa um

plantel luxuoso com duas superestrelas à

cabeça — o avançado Raheem Sterling e

o médio Kevin de Bruyne —, suportados

por outros jogadores de grande classe como

o guarda-redes Ederson, os médios Bernardo

Silva, David Silva e Riyad Mahrez,

e os avançados Sergio Aguero e Gabriel

Jesus. Qualquer resultado que não passe

pela presença na final da Luz será sempre

um acto falhado para Guardiola, que

ganhou as suas duas Champions (2009 e

2011) quando tinha Messi, Xavi e Iniesta

no tal Barcelona do “tiki taka”.

O Paris SG fez o mesmo percurso e,

curiosamente, sofre os mesmos traumas

do Manchester City. É grande em

casa... mas não consegue afirmar-se na

elite europeia. O PSG foi comprado pelo

fundo Qatar Investment Authority em

2011, e desde então, sob a presidência de

Nasser Al-Khelaifi, tornou-se uma espécie

de papa-títulos francês, exercendo

uma hegemonia doméstica absolutamente

asfixiante. Vencedor de todas as

competições francesas (quatro) na época

corrente, o que acontece pela quarta vez

nos últimos seis anos(!), o Paris SG tentará

em Lisboa, pelo oitavo ano consecutivo,

cumprir o velho sonho europeu.

E para isso tem de ultrapassar os quar-

CASCAIS:

Há equipas

que ficarão

aquarteladas

na elegante vila

piscatória próxima

de Lisboa

DIEGO SIMEONE:

Para o treinador

do Atlético de

Madrid cada jogo

é uma batalha

QUARTÉIS-GENERAIS

Para quem esteja em Lisboa entre 12

e 23 de Agosto e goste de futebol, aqui

fica a localização dos hotéis e dos locais

de treino das oito equipas finalistas.

Atalanta: fica no hotel Corinthia

(Lisboa); treina no estádio Pina

Manique (Lisboa)

Atlético de Madrid: fica no hotel Epic

Sana (Lisboa); treina no Campus do

Benfica (Seixal)

Barcelona: fica no Sheraton Cascais

Resort (Quinta da Marinha, Cascais);

treina no estádio do Jamor (Oeiras)

Bayern Munique: fica no hotel Penha

Longa (Sintra); treina no Estádio

Municipal de Mafra (Mafra)

Manchester City: fica no hotel

Sheraton (Lisboa); treina na Cidade

do Futebol (Oeiras)

Olympique Lyon: fica no hotel

Cascais Mirage (Cascais); treina

no Estádio do Restelo (Lisboa)

Paris SG: fica no hotel Myriad

(Parque das Nações, Lisboa);

treina na Academia do Sporting

(Alchochete)

RB Leipzig: fica no hotel Palácio

Estoril (Estoril); treina no estádio

Coimbra da Mota (Estoril)

74 | Exame Moçambique


agosto/setembro 2020 | 75


DESPORTO FUTEBOL

MAIS GOLOS

O duelo entre Ronaldo e Messi domina

acorrida aos golos na liga milionária.

Segue-se um espanhol, Raúl González

130

115

71

66 65

Cristiano

Ronaldo

(Por)

Lionel

Messi

(Arg)

Raúl

González

(Esp)

Robert

Lewandowski

(Pol)

Karim

Benzema

(Fra)

tos de final da Champions, o que nunca

aconteceu no consulado de Al-Khelaifi.

Tal como o City, o proprietário árabe do

PSG investiu nos últimos anos mais de

mil milhões em jogadores sonantes —

Ibrahimovic, Cavani, Neymar, Ángel Di

Maria, Kylian Mbappé e Mauro Icardi, só

para citar meia dúzia de nomes — mas

não consegue ultrapassar o cabo das tormentas

europeu apesar de ter objectivamente

todas as condições para isso.

Com resultados de 636 milhões euros

em 2018-19 e o 11.º lugar na lista Forbes

dos clubes mais valiosos do mundo (1,092

milhões), o maior clube de Paris assemelha-se

ao Manchester City como eterno

candidato frustrado ao título continental.

Falhou essa conquista com o treinador

italiano Carlo Ancelotti (uma vez), falhou

com o francês Laurent Blanc (três vezes),

falhou com o espanhol Unai Emery (duas

vezes) e continua a falhar com o alemão

Thomas Tuchel (vai na segunda tentativa).

Apesar de dispor de um plantel excepcional

— Neymar, Mbappé (embora inferiorizado

por lesão), Icardi, Di Maria, Julian

Draxler, Leandro Paredes, Pablo Sarabia

ANTHONY LOPES:

A incrível defesa que fez

de um livre disparado pelo

compatriota Cristiano Ronaldo

ajudou o Lyon a estar na final

O SORTEIO DESTINOU

QUE BAYERN E

BARCELONA SE

ENCONTRASSEM EM

LISBOA NAQUILO QUE

PARECE SER UMA FINAL

ANTECIPADA

e Marco Verratti e o tricampeão europeu

Keylor Navas fariam a felicidade de qualquer

treinador —, o Paris SG continua a

emitir sinais preocupantes. A saída intempestiva

do goleador uruguaio Cavani, o

continuado namoro de Neymar com a

ex-equipa (Barcelona) e a lesão de Kylian

Mbappé são apenas mais três achas para a

fogueira que ameaça consumir a paciência

dos adeptos parisienses. Mas é um

facto que o continuado insucesso destes

dois clubes milionários na prova que

conta, demonstra, se dúvidas houvesse,

que o futebol é uma indústria diferente

76 | Exame Moçambique


das outras... onde o arcaboiço financeiro,

sendo importante, não é de todo decisivo.

Como se verifica pelos exemplos do City

e do PSG, ter milhões para comprar os

melhores jogadores e os melhores treinadores

não é suficiente para ganhar a

Champions. É preciso algo mais.

REALEZAS ALEMÃ E CATALÃ

Bayern Munique e Barcelona, ambos

cinco vezes campeões europeus, representam

a realeza europeia na cimeira de

Lisboa. Dois clubes eternos, intemporais,

ambos com um historial e um currículo

DO ATLÉTICO DE MADRID

NÃO SE ESPERAM

SURPRESAS: A EQUIPA

JOGA UM FUTEBOL

CALCULISTA,

ENFADONHO E FALHO

DE AUDÁCIA

riquíssimo na prova. Dos oito presentes

em Lisboa são também os dois com o

coeficiente UEFA mais elevado — Barcelona:

124,000; Bayern: 123,000. O sorteio

destinou que se encontrassem em Lisboa

naquilo que parece ser uma final antecipada.

Se a lógica prevalecer, o vencedor

deste duelo tem muitas hipóteses de sair

de Lisboa campeão europeu. O Bayern

não possui armamento atómico, ao contrário

do Barcelona, que tem Lionel Messi,

mas parece ter um colectivo mais equilibrado

e muito mais afinado. Apesar de

ter trocado de treinador em Novembro

agosto/setembro 2020 | 77


DESPORTO FUTEBOL

(o croata Niko Kovac foi despedido, e para

o seu lugar a direcção do Bayern optou

por promover o adjunto e antigo jogador

Hans-Dieter Flick), o Bayern não acusou

qualquer instabilidade e acabou por

ganhar a Bundesliga (oitava consecutiva)

e a Taça da Alemanha com enorme autoridade.

Além de ter o “9” mais eficaz da

Europa — o polaco Lewandowski é o único

com mais de 50 golos na época —, um

guarda-redes que é uma lenda do futebol

— falamos da muralha Manuel Neuer —,

dois maestros com a qualidade de Thiago

Alcântara e Philippe Coutinho e um desequilibrador

com o talento de Serge Gnabry,

o Bayern joga com um ritmo e uma

intensidade difíceis de suportar por uma

equipa que não tenha grande envergadura

atlética. Além disso, a equipa bávara tem

experiência europeia de sobra, uma vez

SÓ A CONQUISTA DA

CHAMPIONS PODE

IMPEDIR QUE SE

AVOLUMEM AS CRÍTICAS

A PEP GUARDIOLA NO

MANCHESTER CITY

que chega regularmente às etapas decisivas

da Champions. E isso é muito importante

nesta competição feita para equipas

maduras e calejadas.

É o caso do Barcelona, embora o futebol

jogado pela equipa catalã nesta temporada

deixe francamente a desejar — tanto com

Ernesto Valverde, despedido em Janeiro,

como com o seu substituto, Quique Setién.

É claro que Messi é um génio capaz de

maquilhar muita coisa e que Luis Suárez

mantém, aos 33 anos, o instinto matador

apurado, mas cremos que dificilmente o

Barcelona conseguirá eliminar o Bayern

a jogar o futebol espesso, triste e desarticulado

que lhe temos visto. Perdida a

Liga para o Real Madrid, a equipa catalã

agarra-se com toda a força à Champions

para evitar mais uma época decepcionante

na Europa. O Barcelona não conquista a

“orelhuda” desde 2015, e desde então tem

acumulado eliminações com derrotas fora

de casa difíceis de explicar: Atlético de

Madrid em 2016 (0-2 no Vicente Calderón),

Juventus em 2017 (0-3 em Turim),

Roma em 2018 (0-3 no Olímpico) e Liverpool

em 2019 (0-4 em Anfield).

78 | Exame Moçambique


ESTÁDIOS:

Os jogos serão disputados no

estádio da Luz (onde joga o

Benfica) e no estádio Alvalade

XXI (onde joga o Sporting)

SURPRESA À VISTA

No lote dos não campeões europeus —

lembre-se que um deles vai chegar à

final — tem de se destacar a fantástica

campanha da Atalanta de Bergamo, que

marcou 98 golos(!) no campeonato italiano

(terminou no 3.º lugar) e 16 (em

oito jogos) na época de estreia na Champions.

A equipa, liderada por Gian Piero

Gasperini (o mais velho de todos os treinadores

finalistas, com 62 anos), joga o

futebol mais ofensivo de Itália e assenta

o seu anormal poder de concretização

em dois internacionais colombianos de

29 anos — Luis Muriel e Duván Zapata

— e no veterano argentino Papu Gómez

(32 anos), que está a fazer uma época

espectacular. De recordar que a Atalanta

está umbilicalmente ligada à pandemia

COVID-19: o chamado “jogo zero” do

O PARIS SG SOFRE OS

MESMOS TRAUMAS DO

CITY. É GRANDE EM

CASA… MAS NÃO

CONSEGUE AFIRMAR-SE

NA ELITE EUROPEIA

futebol europeu aconteceu na recepção

da equipa italiana ao Valência no estádio

de San Siro, em Milão, que terá infectado

cerca de 40 mil adeptos que aí se deslocaram.

Lembre-se que a província de Bergamo

foi uma das regiões europeias mais

afectadas pelo vírus, com cerca de 6 mil

vítimas. A campanha da Atalanta lembra

a inesquecível saga, nos anos 90, da

Sampdoria de Gianluca Vialli, Roberto

Mancini, Toninho Cerezo e Attilio Lombardo.

Chegaram à final da Taça dos

Campeões (em Wembley) com o Barcelona

de Cruyff e só caíram no prolongamento

vergados a um livre-canhão do

holandês Ronald Koeman.

Do Atlético de Madrid de Diego “El

Cholo” Simeone não se esperam surpresas:

a equipa joga um futebol calculista,

enfadonho e falho de audácia.

Talento, fantasia e virtuosismo são conceitos

basicamente ausentes na filosofia

do treinador argentino — o chamado

“uno-cerismo”. Este sempre privilegiou

a vertente atlética e de combate

em detrimento do futebol impositivo e

dominador. Para Simeone, no Atlético

agosto/setembro 2020 | 79


DESPORTO FUTEBOL

ATALANTA DE BERGAMO:

Uma fantástica campanha

no campeonato italiano

e na Champions

desde 2012, cada jogo é uma batalha, e

é certo que o Atlético parte sempre na

posição de entrincheirado. Com a excepção

de Antoine Griezmann, os jogadores

mais talentosos não têm tido a vida

fácil na equipa madrilena. Um deles é o

jovem português João Félix, que custou

126 milhões e não justificou até agora

o investimento... embora o presidente

do clube, Enrique Cerezo, tenha garantido

que “João vai aparecer em Lisboa”.

Uma coisa é certa: vai reaparecer no Seixal

Campus do Benfica, porque é nesse

local que o Atlético realiza os treinos.

O guarda-redes Jan Oblak, outro ex-benfiquista,

costuma ser o jogador mais decisivo

dos colchoneros, que têm no médios

Saúl Níguez e Thomas Partey, assim como

no avançado argentino Ángel Correa, as

unidades mais produtivas — sem esquecer

a “moral” do médio Marcos Llorente,

o homem que eliminou o campeão europeu

em Anfield com dois golos.

Os alemães do RasenballSport Leipzig,

liderados pelo jovem treinador Julian

Nagelsmann (apenas 33 anos), constituem,

com a Atalanta, uma das grandes

OS ALEMÃES DO

RASENBALLSPORT

LEIPZIG CONSTITUEM,

COM A ATALANTA,

UMA DAS GRANDES

SURPRESAS DA PROVA

surpresas da prova. Com cinco vitórias e

14 golos em oito jogos, o RB Leipzig personifica

as virtudes e os defeitos do futebol

alemão: objectividade, eficácia e poder

atlético, mas também uma certa incapacidade

de dar a volta (falta-lhes o golpe

de asa que sobra às equipas latinas...) a

adversários que se fechem bem — como o

Atlético de Madrid. Privado do goleador

Timo Werner (de partida para o Chelsea

de Londres), que foi o abono de família

da equipa, Nagelsmann confia no médio

espanhol Dani Olmo e no avançado austríaco

Marcel Sabitzer para levar a nau a

bom porto.

Termine-se com o Olympique Lyon de

Rudi Garcia, que eliminou a Juventus de

Maurizio Sarri graças a um penalty “à

Panenka” do holandês Memphis Depay

no jogo de Turim. Foi esse golo que deu a

passagem ao Lyon sem esquecer uma fantástica

defesa do guarda-redes Anthony

Lopes a negar um golo “cantado” de livre

ao compatriota Ronaldo, que podia ter

decidido a eliminatória a favor da Juventus.

Dos oito finalistas, o Lyon é aquele que

terminou a liga doméstica em pior posição

— estava em 7.º lugar no campeonato

francês (a 28 pontos do líder) quando a

prova foi interrompida (e não reatada)

pela pandemia. A equipa melhorou com

a substituição, em Outubro passado, do

treinador brasileiro Sylvinho pelo experiente

Rudi Garcia, e a verdade é que,

alimentada pelo virtuosismo de Depay

e pela sagacidade táctica do treinador

francês (anteriormente comprovada em

Marselha e em Roma), o Lyon foi capaz

de eliminar um dos pesos-pesados da

prova. Seria, contudo, estranho que o

Manchester City se deixasse surpreender

pelo outsider francês...b

80 | Exame Moçambique


agosto/setembro 2020 | 81


EXAME FINAL

MIGUEL LEMOS

DIRECTOR-GERAL DA SOCIEDADE

MOÇAMBICANA DE EDIÇÕES

O FIM

Assumimos, como revista

de economia, a racionalidade

das nossas decisões.

D.R.

Apalavra “fim” transporta em si uma carga pesada, uma

tristeza e um apagar de esperanças. Não precisa de

ser assim. O fim é um desfecho natural para todas as

formas de vida. A EXAME não é um ser vivo, apesar

de ter sido sempre um projecto cheio de vida. Um projecto que

mostrou a sua relevância, com uma linha editorial baseada na

isenção, objectividade e simplicidade. Fomos um projecto auto-

-sustentável, com a resiliência e a capacidade de se reinventar

nos momentos mais adversos.

Mas, como revista de economia, temos a responsabilidade

de tomar decisões racionais do ponto de vista económico.

A decisão de terminar o projecto em Moçambique passa pela

necessidade de garantir o cumprimento de todas as responsabilidades,

incluindo para com a nossa valorizada equipa.

E garantir também que a revista mantenha a qualidade de sempre,

até à última edição.

Quero agradecer a todos os que colaboraram com a EXAME

ao longo do tempo, mas sublinho o papel de apoio constante dos

accionistas, o papel dos directores Joaquim Dai e Iris de Brito,

e o profissionalismo dos editores Luís Leitão, Pedro Cativelos

e, actualmente, do nosso dedicado Luís Faria.

A entrega e o empenho de Ana Esteves, ex-COO, e da nossa

actual equipa, formada por Nádia Pene, responsável pela área

operacional, Valdo Mlhongo, jornalista e chefe de redacção,

Gerson dos Santos, responsável pela área comercial e distribuição

e pelo nosso ardina Saíde, foi fundamental para o projecto

ter a dignidade que merece até à última edição. Tivemos

a sorte de ter uma equipa de excelência até ao fim, movida pelo

brio profissional. Não é fácil...

Como “opinion maker” participante desde o início, Thiago

Fonseca trouxe um dinamismo de escrita e a uma visão local do

marketing que cativaram o interesse dos nossos leitores, extravasando

para outros públicos.

Ana Miranda, Pedro Pinguinha, Elsa Pereira e Pedro Bénard

adicionaram aos excelentes conteúdos dos nossos licenciadores,

dos colaboradores externos e da equipa editorial, um grafismo

e uma paginação originais e criativos. Não esquecendo todos

os outros, Júlio Dengucho e Edilson Tomás foram os fotógrafos

mais requisitados. Na revisão, Laurinda Brandão foi o nosso

filtro mais fino para garantir a qualidade final.

A todos os nossos anunciantes e patrocinadores, que nos

apoiaram ao longo deste projecto, e a todos os nossos leitores,

fica o nosso humilde agradecimento, esperando termos correspondido

às vossas expectativas ao longo das 91 edições da

EXAME, dos especiais que produzimos e das conferências e

webinars que organizámos. Muito obrigado.

As árvores morrem de pé. b

82 | Exame Moçambique

More magazines by this user
Similar magazines