COLETÂNEA ELAS NAS LETRAS

PiraporaEditora

A «ELAS nas Letras» nasce da iniciativa da Pastoral da Mulher Marginalizada de realizar uma incursão na Literatura, para além de sua militância em prol das mulheres em situação de violência, abandono e prostituição.
O modelo da coletânea segue o projeto «Antologias Solidárias», comandado pela escritora
Sada Ali, cujos primeiros parceiros foram, em 2015,
a Academia Barretense de Cultura (ABC) e a Casa Transitória «André Luiz»,
beneficiária da venda
da 1ª edição das Antologias Solidárias, em 2016.
As «Antologias» seguintes foram lançadas em Ribeirão Preto, junto à UGT (Memorial da Classe Operária) e em Barretos, junto ao Fundo Social de Solidariedade, além de mais uma obra em parceria com a ABC.
Agora é hora das mulheres assumirem, mais uma vez, o protagonismo e, através das letras, deixarem sua mensagem de empoderamento e luta.



Copyright © Editora Pirapora

Coletânea “Elas nas Letras”

Realização: Pastoral da Mulher Marginalizada de Barretos

Apoio: Secretaria de Cultura de Barretos/Prefeitura de Barretos

Coordenação do projeto: Sada Ali

Revisão/Edição: Luiz Felipe Nunes (Pirapora Editora/MaTV)

Composição Eletrônica: Pirapora Editora

Impressão: Ativa Gráfica e Editora

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

AL398

Ali, Sada, Vários Autores

Coletânea “ELAS nas Letras”: 1ª edição

Pastoral da Mulher Marginalizada de Barretos/Prefeitura de Barretos

Pirapora Editora, 2020.

ISBN 978-65-991598-0-0

1. Contos brasileiros - Coletânea 2. Crônicas brasileiras - Coletânea 3. Poesias

brasileiras - Coletânea I Ali, Sada - Vários Autores

Índices para catálogo sistemático:

CDD-B869.8

CDU-82.8

1. Coletânea/Miscelânea de Escritos Brasileiros

B869.8

A responsabilidade pelo conteúdo desta coletânea é reservado à

Pastoral da Mulher Marginalizada de Barretos e aos autores dos textos.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob

quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos autores.

2020

Editora Pirapora

Rua Jeremias de Paula Eduardo, 2006 - Centro

15910-000, Monte Alto, SP

(16) 99709-1146 - monteatv@gmail.com


Pelo fato de ser mulher, suportou seu destino passivamente, parecendo

que lhe roubaram suas possibilidades, que escorregou da juventude

para a maturidade sem ter tomado consciência disso.

Descobre que seu marido, meio e ocupações não eram dignos de si;

sente-se incompreendida.

Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo – Livro 1: Fatos e Mitos”.

4ª Edição. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

Porque o ideal de mulher branca, sedutora mas não puta, bem casada

nas não nula, que trabalha mas sem tanto sucesso para não esmagar

seu homem, magra mas não neurótica com a comida, que continua

indefinidamente jovem sem se deixar desfigurar por cirurgias

plásticas, uma mamãe realizada que não se deixa monopolizar pelas

fraldas e pelos deveres de casa, boa dona de casa sem virar empregada

doméstica, culta mas não tão culta quanto um homem; essa mulher

branca e feliz, cuja imagem nos é esfregada o tempo todo na cara, essa

mulher com a qual deveríamos nos esforçar para parecer — tirando

o fato de que elas devam ficar de saco cheio com qualquer coisa —,

devo dizer que jamais a conheci, em lugar algum. Acredito até que ela

nem mesmo exista.

Virginie Despentes, “Teoria King Kong”.

1ª Edição. São Paulo: N-1 Edições, 2016.


Sobre a Edição

Sada Ali, Luiz Felipe Nunes 6

Prefácio

Maria Augusta Dib (PMM) 8

Adriana Queiroz

Poemas 23

Fátima França

Fênix 32

Flávia Cunha

A história de Jurema 42

Glaucia Martins Simões

Evolução Histórica da Mulher 53

Luciene Figueiredo

Arquitetura da Paz 71

Maria Queiroz da Cunha

Contos de Maria 84

Maria Augusta Araujo Teles

Poemas 98

Mariana Ducatti

Mulher, Seja! 107

Rosa Carneiro

Quando o amor é mais forte 116

Thaís Mendes Moura Carneiro

Um mergulho em mim 138

77

29

S U M Á R I O

Nota de Apoio

7 João Batista Chicalé

Adalgisa Borsato

13 Jocilene e Rosiclei

e O Perfume das Flores

Ana Paula Geraige

Questão Cultural,

Histórica e Patológica

Fátima Abon Ali Simamura

35 Linda era seu nome

Glaucia Chiarelli

47 Compreensão? Tá tudo bemEm

12 atos

Karla Armani Medeiros

57 A pianista Haydée Menezes:

viagens nas pontas dos dedos

Lucimara Leite

Christine de Pizan: uma escrita pela igualdade

Maria Augusta Dib

92 ELAS no lugar de fala, escrita,

exercício político privado e público

Maria Teresa Vieira

103 IKIGAI

Miriam Leirias

111 Lembranças de cobras e lagartos/

Os tempos eram assim

Sada Ali

126 Lá vem a Teresa Torta...


SOBRE A EDIÇÃO

A Coletânea ELAS nas Letras é a quinta produção literária cooperativa

a ser publicada, desde 2015, dentro do projeto Antologias Solidárias.

Com autores de 17 cidades de Brasil e Portugal, essas edições ocorreram

em parceria e benefício da UGT – Memorial da Classe Operária, de

Ribeirão Preto, e das entidades barretenses: Casa Transitória “André Luiz”,

Academia Barretense de Cultura (ABC) e Fundo Social de Solidariedade, da

Prefeitura de Barretos – em parceria com a Secretaria de Cultura.

E é repetindo essa parceria com o município que chegamos à Pastoral

da Mulher Marginalizada (PMM) de Barretos. A importância e o

impacto desse trabalho surpreenderam a coordenação das Antologias

que, de pronto, pensou em reunir escritoras para contarem histórias, a

partir do lugar da fala feminino.

É a primeira obra do projeto que tem, também, como foco, a questão

de gênero. É uma discussão ampla, que escapa às limitações biológicas e

adentra o complexo emaranhado social e, sobretudo, de identidade humana.

Nesse sentido, 20 mulheres, das mais variadas ocupações, faixas

etárias e, cada uma, com sua identidade e visão de mundo, colaboraram

na construção dessa importante obra, desde o rateio de parte das despesas

– as demais, cobertas com apoio da Secretaria de Cultura de Barretos,

ao compartilhamento de seus universos interiores, através de contos,

crônicas e poesias que compõem esse trabalho.

ELAS nas Letras. Mais um esforço de suporte à PMM e, sobretudo,

instrumento de força, de protagonismo da mulher, em seu árduo caminho

contra as opressões históricas, sociais e mesmo “antropológicas” em tempos

que até a pandemia significa aumento de violência (sobretudo doméstica)

contra a mulher.

Sada Ali – coordenadora

Luiz Felipe Nunes – editor


NOTA DE APOIO

A Secretaria de Cultura de Barretos aceitou, de pronto, esse novo

convite da coordenação do projeto Antologias Solidárias, para apoiar a

Literatura, sobretudo quando se trata de um fazer cultural engajado, com

um foco social importante.

Afinal, o sucesso do projeto de Sada Ali e Luiz Felipe Nunes já se

mostrou patente, à cidade, em outras iniciativas, envolvendo importantes

entidades locais e, mesmo nosso Fundo Social de Solidariedade.

Para além desses aspectos, todo e qualquer esforço para que a leitura

seja (ou volte a ser) hábito é essencial e deve ser suportado e digno

de aplausos.

O fato de serem autoras que residem ou residiram em Barretos faz

com que, até mesmo quem pense em escrever veja, nessas obras, que é

possível produzir e ver seu trabalho publicado.

Estimular novos leitores e, quem sabe, escritores, urge.

Quanto menos se lê, menos exercitamos a mente criativa e mais reféns

de “ideias prontas” nos tornamos. No mundo atual, de tanta circulação

de informação, mas filtros débeis para fatos, refletir, ler o contexto

(mais que o texto) é pré-requisito básico para sermos cidadãos – e pessoas

– que se expressem com ética e valores que devem ser construídos

pela nossa leitura – e não “pré-fabricados”, digeridos e entregues a nós:

não podemos terceirizar o que somos e pensamos.

Nesse momento de pandemia – e após sua superação – a “receita”

para uma sociedade saudável segue a mesma: o ponto de partida é, como

sempre foi, a leitura.

O melhor raciocínio que podemos ter é aquele construído por nós

mesmos. A leitura nos dá os tijolos, o cimento e toda estrutura que precisamos.

A partir dessa obra, leiamos mais!

João Batista Chicalé – secretário de Cultura de Barretos


PREFÁCIO

Os publicanos e as prostitutas vos precederão no Reino de Deus (Mt 21,31)

A Pastoral da Mulher Marginalizada cumprimenta e agradece

Sada Ali pela iniciativa da Coletânea ELAS nas Letras, bem como todas as

escritoras que se entregaram à realização desta, que além de contribuir

culturalmente com a sociedade, apoiará financeiramente a Equipe Semear

da PMM de Barretos.

A PMM segue as diretrizes das Pastorais Sociais da CNBB – Conferência

Nacional dos Bispos do Brasil. Nasceu na década de 60, por iniciativa

de Dom Fragoso nos Estados do Nordeste brasileiro (Maranhão, Piauí

e Ceará) com a missão de ser presença solidária profética e evangélica

junto à mulher, adolescente, jovem e adulta em situação de prostituição,

oferecendo-lhes relações humanas e humanizadoras que lhes fortaleçam

a autoestima, o protagonismo e a cidadania.

Acompanhando as mulheres em situação de prostituição, a PMM

lhes oferece condições de construção de novas relações consigo mesma,

com o outro, com a natureza e com Deus, para que tenham vida em plenitude

(Jó 10,10), enquanto também estabelece redes de parcerias com

organismos governamentais e não-governamentais para a denúncia e

enfrentamento das formas de violência, feminicídio, tráfico de pessoas,

opressão e exploração das mulheres.

A Equipe Semear, da PMM de Barretos, nasceu em 2004 por iniciativa

do casal recém-chegado de Rondonópolis: Nivalda e José Aparecido

Menezes, de amadurecida experiência como agentes pastorais da Equipe

PMM mato-grossense. Em 2006, já visitavam 9 pontos de prostituição, atendiam

mais de 550 mulheres, com apoio da família do casal, da Diocese

e da comunidade, através de profissionais voluntários em Assistência Social,

Psicologia, Direito e Enfermagem.

A Semear cresceu e se efetivou. Ao longo de 15 anos de caminhada,

estiveram à frente de seus projetos: as famílias de Nivalda Menezes e de

Jorge Ityanagui, os bispos Dom Edmilson e Dom Milton, o assistente social

Odário Filho, a delegada Gláucia Simões, a técnica em enfermagem Luciana

Menezes, a psicóloga Regina Baston e a advogada Heloisa Menezes.

A Semear, o secretariado nacional da PMM, contribuições financeiras

de entidades e projetos de fomento e parcerias com a comunidade barretense

tornaram possíveis as ações da missão pastoral junto às mulheres em


situação de prostituição, bem como atividades de prevenção e combate ao

abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes nas escolas.

A Equipe Semear construiu a Casa de Marias – Centro Pastoral da

Mulher Marginalizada na comunidade São Gaspar Bertoni – Paróquia São

Benedito, e realiza, também em outros locais da cidade, palestras, encontros

e seminários; exames preventivos de Saúde para as mulheres.

No dia 18 de maio – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração

Sexual contra Crianças e Adolescentes, promove Concurso de Redação

sobre o tema; também atua nas datas de 25 de novembro – Dia de

Combate à Violência à Mulher; 8 de março - Dia da Mulher; 30 de julho

– Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas; além de ações especiais no Dia

das Mães; Páscoa e Natal.

Barretos, julho de 2020

Maria Augusta Nogueira Machado Dib

é agente pastoral da PMM - Pastoral da Mulher Marginalizada

Equipe voluntária de agentes pastorais da PMM de Barretos (da esq. para a dir.):

Jorge Ityanagui, Luciane Duarte Menezes, Henrique Menezes Carneiro,

Nivalda Duarte Menezes, Regina Célia Manarini Baston e

Heloísa Chubaci Bezerra de Menezes


UM POUCO DA PASTORAL DA

MULHER MARGINALIZADA

DE BARRETOS



COORDENADORA DA AÇÃO


Jocilene e Rosiclei

e

O Perfume das Flores

Adalgisa Borsato

Adalgisa Borsato nasceu em Barretos.

Tem formação em Ciências Sociais e Teatro.

Exerceu o cargo de Bibliotecária na Prefeitura

Municipal de Barretos.

É membro da Academia Barretense de Cultura

– ABC; ocupa a cadeira de número 32.

Percorreu todas as áreas da Literatura.

É autora de Contos, Crônicas, Poemas,

Literatura Infantil e Juvenil, Romance,

Autobiografia e Teatro. Participa de Antologias.

No teatro, escreveu peças infantis e juvenis,

para fantoches, de formação humana, para

adultos e uma peça histórica.

Livros de destaque: Rodeio, trilha de campeões,

Vida que nos transforma (autobiografia).

Infantis: Os sapos do Vovô Galdino.

Os pássaros do Vovô Galdino.

Peças teatrais de destaque: A Caminhada

(conta a história de Barretos) e Amor em Preto

e Branco (sobre discriminação racial)


Jocilene e Rosiclei - Adalgisa Borsato

Gêmeas, Jocilene e Rosiclei nasceram após o extermínio do bando

de Lampião e Maria Bonita, no Nordeste brasileiro.

Sertão árido; não produzia nada além de cactos e macaxeira para

alimentar as cabras. Carcaças de gado riscavam o agreste de branco.

Mercedes sofria no crescimento das filhas; se esgotou amamentando e

cuidando. A família criava cabras e trabalhava na plantação de feijão,

que esperava chuva.

O pai e a mãe contavam às meninas as histórias do bando de Lampião,

exaltando o papel de Maria Bonita, que acompanhava o companheiro

lutando de igual para igual. Diziam e repetiam que Lampião

havia se transformado num bandido em defesa dos mais humildes, explorados

pelos proprietários de terras.

Falavam para as meninas que no agreste a vida não facilita: tem que

lutar, tem que brigar...

O pai, Severino, havia pego um alqueire de terra para trabalhar à

meia. Os donos levavam quase tudo quando a família conseguia colher

alguma coisa. Cansado da lida, Severino foi embora para a região

Sudeste, onde tudo parecia melhor para viver. Prometeu voltar para

buscar a família.

Jocilene e Rosiclei tiveram a primeira perda: o pai, que julgavam ser

tão herói quanto o Rei do Cangaço das histórias que ouviam.

Mas ainda restava a heroína que as protegia dos males do sertão sem

fim: a mãe.

Moravam numa casinha de adobe. No fogão a lenha, o fogo lerdo

cozinhava alguns grãos de feijão e aquecia um bule com café.

As meninas viviam isoladas de tudo, das vilas e das grandes cidades.

Aprendiam com a mãe coisas domésticas como cozinhar, fazer crochê

e bordar.

A água vinha de um riacho bem distante, sempre ameaçando secar.

Buscar a água e colher macaxeira era necessário.


Jocilene e Rosiclei 15

Mercedes lamuriava; o marido a havia abandonado com duas filhas

que em quase nada poderiam ajudá-la naquele fim de mundo.

Por que nascemos aqui, Senhor?!, indagava Mercedes.

As gêmeas, sem escola, procuravam ouvir o que a mãe contava dos

tempos de outrora: de uma vida vazia e sem sentido, sempre a seca e a

violência em tempos de Lampião; nada mais.

Vocês precisam se casar e obedecer os maridos.

Ordem dada, mas não cumprida.

Dia de buscar água, pois a botija já estava pelo fundo e o cocho das

cabras, vazio.

Jocilene, sorrateira, se arma de faca: era necessário ter cuidado, já

estavam mocinhas. Rosiclei pegou o canivete que o pai esqueceu. Seguiram.

No solo, os rastos ficavam gravados na poeira da estrada.

Passaram pela vila de casinhas enfileiradas. Nas janelas, moços,

crianças e idosos a espiar as meninas passando com cabaças e outras

vasilhas que encheriam com o líquido precioso. Meninos brincando no

quintal comunitário: bolinha de gude, pega-pega e amarelinha.

Poucas vezes haviam passado por lá. Na necessidade do descanso

da mãe, era preciso.

Olhos curiosos vigiando por todo lado, mulheres com suas saias rodadas

em tecidos de chita; rezadeiras e benzedeiras. Malfeitores, remanescentes

do bando de Lampião também habitavam aquela vila aos pés

de Serra Talhada...

Olheiros viam passando duas meninas bonitas; pensavam que eram

tímidas e vulneráveis, como as de antigamente, que foram marcadas

a ferro quente pelo cangaceiro e sua companheira Maria Bonita. O

que não sabiam era das histórias que povoavam suas mentes criativas e

cheias de imaginação, prevenidas pela mãe de todas as maldades existentes.

Maldades que assolaram o sertão com capangas e coiteiros de

Lampião, quando deixavam o chão banhado em sangue.

Rose, te prepara que hoje estou vendo perigo! Joci, trouxe uma espingarda,

vamos aproveitar para praticar o tiro, longe dos olhos de Mainha!

Continuando o caminho, chegaram ao riacho de fino veio d’água.

Aproveitaram para tomar banho antes de voltarem. Alegria sem igual,

ooo


16 Adalgisa Borsato

água, água ... Brincadeira de molhar uma a outra, alertas a tudo.

No entorno do riacho, pequenos arbustos cresciam na esperança de

sobrevivência. Um movimento, um barulho de galho seco quebrando.

Era preciso atenção. Jocilene pulou fora da água, chamou a irmã para

irem embora. Observaram rastos maiores que os delas em volta do

mato. Foram conversando pelo caminho, na proposta de não deixarem

ninguém as maltratar: nunca!, juraram. E juramento era coisa sagrada

para elas.

Começaram entoar cantigas de roda como se inocentes fossem. Disfarçadamente

aproveitaram para treinar tiro ao alvo. Caminharam.

Chegaram, enfim, em casa. Surpresas, encontraram a mãe amordaçada

e amarrada numa cadeira. Toda casa revirada.

Mãe, o que aconteceu?!, perguntou Jocilene, soltando as amarras da

mãe.

O fazendeiro veio com seus capangas. Queriam o combinado com seu pai,

metade da colheita, mas não colhemos nada, faltou chuva, então pediu para

sairmos das terras!

Rosiclei andou de um lado para o outro, cheia de raiva.

Vamos ... nós vamos embora, ninguém vai nos humilhar!

Mas trabalhamos tantos anos aqui, cuidamos da terra!, falou Mercedes.

Não é nossa terra, mãe, entenda: vamos embora sim!, afirmou Jocilene.

O idoso que deixa o lugar onde se acostumou sofre, perde-se parte da sua história,

se emociona e o coração entristece, disse Mercedes, cheia de dor.

Melhor perder a história do que a vida: recomeçar é natural, falou Rosiclei.

As três mulheres, tomadas pela força natural das sertanejas, planejaram

a partida. Venderam as cabras e saíram à noite para ninguém as

perseguir com cobranças do que nada deviam.

Levaram cantis com água, poucas trocas de roupas e todas as ferramentas

que possuíam para trabalhar a terra; foice, enxada, facão, rastelo,

pregos e arame farpado. Colocaram tudo em um carrinho de mão

para facilitar o transporte.

Vestiram-se com gibão, lenços vermelhos nos pescoços, chapéus de

couro. Nas costas e na cintura, levaram todas as indumentárias iguais

às de Lampião: cinto de couro encravado de balas, duas espingardas,

cartucheira, faca, facão, canivete e boleadeiras.

Com um candeeiro seguia, à frente, a mãe.


Jocilene e Rosiclei 17

Quando começou a amanhecer, ouviram o aboio do sertanejo a procura

de alimento para o gado. As três mulheres já estavam longe de

casa. Cansadas, pararam para comer um pouco de farofa de carne seca

e descansar. O sol avermelhado refletia sombras fantasmagóricas de

galhos retorcidos e cactos.

Era verão. O calor castigava todo Nordeste. Mercedes estava exausta.

Sentou-se naquela sombra rala e adormeceu.

O que se via à frente era só espinheira, solo rachado, gado morto e o

mormaço tomando conta de tudo.

Jocilene e Rosiclei perceberam que alguém as seguia. E estava perto.

As gêmeas ficaram de tocaia, pois ensinamentos para se protegerem

tiveram de sobra. Carregaram as espingardas e, deitadas sobre as malas

de roupas, fingiram dormir; com um leve tecido branco de algodão cobriram-se,

escondendo as armas. Com um olho aberto e outro fechado

olhavam, de vez em quando, para o horizonte amarelado pela densa

poeira. Eis que vultos de homens armados surgiram por detrás da moita

de mandacaru e avançaram para o lado das mulheres.

Nem deu tempo de aproximarem; foram alvejados por disparos

impiedosos das gêmeas. Três bandidos, assaltantes, tombaram no solo

arenoso do sertão. Mercedes despertou, aturdida e assustada, constatou

toda trama e a defesa que as filhas tiveram a coragem de fazer.

Sim. Fizeram porque o momento e o contexto exigiam a defesa pessoal

para a sobrevivência.

Ao verificarem as faces dos mortos, surpreenderam-se ao notar que

eram os homens que compraram as cabras e, com certeza, vieram matá-las

para roubar-lhes o dinheiro. Olharam-se, mãe e filhas e, claro, um

só pensamento: voltar e recuperar as cabras, depois seguirem viagem

e pararem à beira do veio de água, alimentar os animais, progredirem

mesmo que em terras emprestadas.

Porque quem é forte resiste à seca e as intempéries do sertão.

Como disse Euclides da Cunha

O sertanejo é, antes de tudo, um forte.


O Perfume das Flores - Adalgisa Borsato

médico desceu as escadarias apressado, sentou-se no sofá da an-

O tessala, colocou as mãos no rosto e chorou copiosamente.

Eu observava-o de dentro do meu quarto e, sem coragem de me

aproximar, fiquei no mesmo lugar, imóvel. Imaginei logo que Justina

não teria sobrevivido ao parto tão difícil, pois sofria desde o começo

da manhã. Lembrei-me do dia que ela chegou na Casa ainda menina,

tão insegura e meiga. Trazida pelas mãos do pai, que ficara viúvo, ela

se esquivava, relutante, em ficar. A Madre Superiora a acolheu com

alegria. Nos dias que seguiram, pude notar que Justina era obediente e

inteligente, sempre buscando livros na biblioteca.

A Casa era grande e podia abrigar alunas de todas as partes da Europa,

numa época de incertezas políticas e econômicas. Os jardins circundavam

os aposentos, mostrando pequenas árvores cuidadosamente

podadas de forma arredondada. Os canteiros de rosas exalavam o mais

suave perfume que alcançava as janelas de venezianas e vidraças embaçadas.

Os quartos do andar superior eram amplos, mobiliados com

camas, guarda-roupas, escrivaninhas, toucadores e banheiros anexos.

O Colégio Interno era exclusivo para meninas de famílias abastadas e

algumas vagas eram preenchidas por filhas de famílias carentes. Mas

todas recebiam igual tratamento, era o caso de Justina, órfã de mãe.

Procurei fazer de tudo para tratá-la com serenidade; sentia que tinha

uma tristeza escondida, por isso estava sempre tentando agradá-la; ora

colocando flores em seu quarto, ora indicando um livro especial.

A vida na Casa era bem dinâmica: aulas de todas as matérias da grade

curricular e outras extras como bordado, pintura, culinária e bons

modos.

Um dia, a Madre Superiora chegou com a novidade: as meninas

teriam aulas de Como ser boa esposa e dona de casa. Muitas não gostaram

da novidade, pois entendiam que deveriam ser livres em pleno século

vinte, inspiradas nas mudanças de condutas das parisienses. Elas rece-


O Perfume das Flores 19

biam jornais, por intermédio do entregador de cartas, e informações

vindas de familiares distantes através de missivas; assim se atualizavam

com notícias recentes.

Justina falou comigo sobre as aulas impostas pela Madre Superiora.

Também se queixou que o pai tratava mal sua mãe, exigindo que fizesse

serviços pesados e inadequados para uma mulher. Confessou-me que

a mãe morrera em seu terceiro parto, talvez por causa de maus-tratos.

Nesse dia, ela chorou muito; a tarde estava chegando e ela continuou

chorando. Eu a conduzi até seu quarto, consolei-a e a aconselhei que

se conformasse — era a condição feminina até aqueles dias. Disse-lhe

que tudo mudaria com o passar dos tempos. Ela se acalmou e dormiu.

O vento trouxe o perfume das flores e o quarto ficou com ares amenos.

No outro dia, o carteiro chegou com a novidade: uma guerra poderia

eclodir a qualquer momento, colocando toda Europa em perigo. Assustado,

corri para o meu quarto, pensando nos resultados de uma guerra:

mortes e instabilidade social. E o Colégio, como enfrentaria tantos dissabores?

Comecei a reunir meus pertences, minhas correspondências e

economias guardadas com tanto sacrifício. Coloquei algumas roupas

na mala, junto às cartas e a bolsa de moedas, prevenindo uma partida

precoce. Depois fui ver como estavam as alunas, principalmente Justina,

que adormecera tão frágil na noite anterior.

Ela não estava no quarto. Saí, aflito, procurando-a. Olhei através da

janela e vi, no interior do jardim, sob o caramanchão de primaveras,

Justina e um rapaz desconhecido. Preocupei-me, pois não era permitido

a alguém entrar nas dependências da Casa sem autorização da Madre

Superiora. Fui, apressado, ver o que acontecia, encontrando Justina

já sozinha e aparentemente perturbada.

Com dezesseis anos, Justina havia se transformado em jovem rebelde

e, de certa forma, inconformada com a vida sem a mãe. O tempo

vivido ali no Colégio, mesmo com as melhores orientações e muita

leitura, não tirou o amargo que ela trazia do passado.

A vida está apenas começando, disse a ela, na intenção de animá-la. Ela

saiu apressada, me agradecendo pelas palavras de incentivo.

Justina, moça quase formada, de pele alva, cabelos ruivos levemente

ondulados, era uma imagem bonita de se ver.

Na iminência da guerra, o pai de Justina veio ao Colégio saber como


20 Adalgisa Borsato

todos estavam, se ela queria ir com ele passar uns tempos na cidade do

interior, pois teria mais segurança. Justina aceitou e partiu com o pai.

Os dias seguiram cheios de preocupações na Casa. As alunas, com

medo, se retiravam mais cedo aos quartos.

Nas ruas, um barulho estranho de pessoas correndo em busca de

abrigo: era uma guerra insana e sem propósitos, desumana mesmo.

A sirene com o toque de recolher soava estridente aos meus ouvidos.

Deitei e cobri a cabeça num reflexo de proteção. A lembrança de Justina

me intrigava e passei a perguntar se estava apaixonado por ela ou

seria preocupação por alguém que nutria o desejo de proteger.

Da janela, eu via pessoas sendo levadas por caminhões cheios de

soldados armados e me perguntava: por que tanta injustiça e intolerância

com a Humanidade?

Certo dia, esses mesmos soldados haviam entrado no Colégio e se

alimentaram bem, obrigando-nos a fazermos o melhor manjar que, sabiam,

era servido para as alunas.

Ao percebermos a provável invasão, colocamos as meninas no sótão

e fechamos com pesadas correntes e cadeados; era preciso protegê-las.

Dolores chorava muito. Pedimos a todas para ficarem quietas. Alba,

a mais sensata, disse que tomaria conta das demais e as manteria em

silêncio. Ficamos bem pertos do caos, rezando muito. Lembrei-me de

Justina e pensei que estaria protegida junto ao seu pai. Rezei e pedi

proteção às demais alunas, encerradas no sótão.

Tive que assumir a cozinha e servir os soldados, pois as cozinheiras

se retiraram com muito medo. Fiz o trabalho com humildade, como

se cozinheiro fosse. A Madre Superiora se manteve trancada em seu

escritório.

Depois de se fartarem, os soldados se retiraram em algazarra, com

traquinagens e demonstrações de desumanidade ao encontrarem alguém

na rua.

Seis meses depois desse episódio, a guerra terminou. A cidade estava

deserta; muitas famílias foram levadas para lugares distantes, aos

centros de concentração nazistas. O cenário do Colégio ficou diferente:

alunas que perderam seus pais ficariam às expensas da Igreja, num

país de maioria Católica. No entanto, o ambiente era tenso na volta às

aulas. Havia chegado ao Colégio um capelão, dizendo ter sido enviado


O Perfume das Flores 21

para acalmar as alunas que, depois do período de guerra, ficaram traumatizadas

e necessitando de apoio espiritual. O jovem capelão apresentou

documentos que comprovavam sua ligação com a Igreja, mas

tinha pensamentos um tanto contraditórios aos meus. Passei a observá-

-lo com frequência. Não acreditei em suas doces palavras de conforto.

Justina voltou com seu pai, num dia chuvoso. Foi direto para o quarto,

parecia um tanto aborrecida. Tentei falar com ela, mas bateu a porta

do quarto e se trancou. Senti uma sensação horrível, mescla de preocupação

e rejeição, quase uma afirmação de amor impossível: uma perda

para mim.

Um dia, o capelão chamou Justina para uma conversa particular

de assistência espiritual. Após um tempo, ela saiu da sala chorando e

correu para o jardim. Eu a vi através da janela do meu quarto. Segui-a

com o olhar: sentou-se sob o caramanchão e continuou chorando. Fiquei

deveras preocupado: o que estaria acontecendo com Justina? Cada vez

mais sentia que a amava e queria protegê-la de todos os males. Cheguei

a pensar em pedir a ela que fosse para o convento firmar votos de compromisso

com Cristo.

Os dias seguiram tristonhos. Nada me alegrava depois da guerra,

pois, o homem que mata seu irmão não agrada a Deus.

A Madre Superiora fazia de tudo para o bem-estar das alunas, recebendo

verba provincial para manter a Casa com tantas órfãs. O corpo

docente foi ampliado, com professores e professoras especializados em

Literatura e conhecimentos gerais.

Mas, infelizmente, a Superiora foi substituída por um padre com

título de Monsenhor. Novos tempos surgiram no Colégio, com a aceitação

de regras de conduta mais modernas.

Um dia, encontrei o livro de bons modos, da Madre Superiora, jogado

no lixo.

A Casa ficou bastante movimentada naqueles dias de adeus à guerra

e cheios de novidades descontroladas. Monsenhor chamava as alunas,

de vez em quando, para fazer sermões indesejados. As moças saíam de

sua sala desapontadas. Queixavam-se comigo de estranhos tratos para

com elas. Diziam que o capelão assistia às seções de conversas sem

falar nada, nem interferia, conivente.

O tempo seguia sem que alguém tomasse providências diante das


22 Adalgisa Borsato

reclamações das alunas quanto aos abusos do monsenhor.

Até o dia em que o médico desceu as escadas, sentou-se no sofá da

antessala, colocou as mãos no rosto e chorou copiosamente.

Subi correndo as escadas, entrei no quarto de Justina, tomei suas

mãos e percebi que ela ainda vivia. Me aproximei de sua face pálida e

coloquei o ouvido rente a seus lábios e ela murmurou:

O monsenhor não é um homem de Deus.

Depois, ela se calou para sempre.

Meus dias que seguiram na Casa foram para investigar os procedimentos

duvidosos do padre e do capelão. Com muito cuidado, seguia

os passos dos dois e, quando o monsenhor chamava alguma aluna em

sua sala, eu ia para o jardim e ficava espiando pela janela, discretamente.

Assustado, vi condutas reprováveis de assédio às meninas e, sem

pensar, teci um plano. Convidei a polícia e o governador para fazermos

um confronto inesperado na sala do padre.

Após abrirmos a porta com uma chave reserva, encontramos uma

aluna encostada na parede e o capelão tentando pular a janela. O seguramos

e começamos interrogar onde estaria o monsenhor. Ele, pálido,

apontou para a janela que dava para o jardim. Corremos e vimos o

padre já distante, saindo para a rua.

Analisei aquela situação: quando Justina apareceu grávida, tive momentos

de insensatez, maus pensamentos mesmo, imaginando quem

teria abusado dela.

Seria o jardineiro, o jornaleiro, algum soldado daquela guerra infame. Seria

seu próprio pai? Ou os padres? Porque a mulher tem sido desrespeitada há séculos,

por pessoas estranhas ou próximas.

Com as palavras de Justina, tudo ficou claro e evidente. Enquanto a

polícia prendia os padres, fui ao meu quarto para pegar meus pertences

e partir. Não conseguiria ficar na Casa depois do ocorrido com Justina.

Saí apressado e, ao chegar na primeira cidade, sentei-me num bar

para tomar café. Peguei emprestado um jornal. Abri. As fotos dos dois

padres estavam estampadas — eles eram, na verdade, dois carrascos

remanescentes de guerra. Disfarçados de autoridades eclesiásticas, continuaram

cometendo atrocidades desumanas (tal e qual eram).


Poemas

Adriana Queiroz

Adriana Regina Queiroz é pedagoga pós-

-graduada, psicopedagoga, especialista em

Educação Especial e Intelectual. Professora

de nível superior em Pedagogia; professora

estadual efetiva em Sala de Recursos,

professora da APAE de Barretos, coordenadora

do projeto “Mãos na Terra”, escritora e

apaixonada pela Língua Portuguesa.

É natural da cidade de Itapagipe, em Minas

Gerais. Descendente de família tradicional de

músicos e escritores, sempre descreveu em

contos e poesias suas vivências


Adriana Queiroz

VOCÊ

Você, doce ser indecifrável,

Saqueando meus pensamentos.

Você, que em minhas angústias,

É a cura total.

Você, que nas noites de agonia

Vem florescer meus sonhos.

Você, que sem querer arranca-me

Mil declarações.

Você, que ao meu lado chora

Para secar-lhe as lágrimas.

Você me faz superar

Ao seu mais leve toque.

Que me faz ser mil, para ser só de você.

Que me faz te implorar

Apenas com o olhar.

Você, que em mim se procura,

Pleno e feliz.

Que me machucas sem dó,

E com dores, entrego-me a você.

Você, que com um sorriso se vai,

Deixando comigo as lembranças do amor.

Que me deixa só e que, sozinha, estarei.

Você, que por tantas fez-me chorar

E me trouxe alegrias, pois não o esqueci.

E que sozinha fico

Esperando por você.


Poemas 25

ASA PAIXÃO

O olhar penetrante

Todo negro de você

Ainda viaja livre,

Sereno,

No pensamento...

Os lábios finos,

Macios

De um beijo molhado

Ainda deixam umedecida minha boca.

As palavras grandes,

A voz rouca,

Terna, morena

Ao vento

Ainda se faz ouvir

Em profundos ecos.

No silêncio das recordações,

Os momentos tidos

Tão poucos foram.

As incertezas neste amanhã

Tão evidentes que me machucam.

As lembranças, quase que

Tão perdidas,

Vagueiam sem rumo,

Esquecidas...

Na saudade de você

No desejo de te ver

Na esperança de ser feliz

De saber ser amor

E de saber, enfim,

Amar você!


26 Adriana Queiroz

É BOM VIVER CONTIGO

Sonho que se sonha só

Não é sonho que se vive.

Quem sonha, se revolta

Quem se revolta, chora.

Não chores, sorria!

Se penso, relembro...

Foi bom viver contigo.

Se quero tudo,

Às vezes fracasso,

Mas mesmo assim, levanto.

Mudo de rumo.

Amanhece...

Revivo as mesmas coisas,

Os mesmos temores.

Quero a vida...

Se caminho, chego,

Paro no tempo e fico...

Imagino coisas, revivo sonhos.

Sonho que perdi...

E, então, tudo muda

E estou livre.

E os pesadelos, as dores

Caem ao chão.

E canto,

E grito, e espero.

Chegou a hora:

Estou no ar,

Estou voando...

Meu medo se foi;

Não estou só,

Restam lembranças.

Foi bom viver contigo...


Poemas 27

EU, VOCÊ, NÓS

Eu, que sem permissão

Nem sinal entrei na tua vida,

Comecei a fazer parte dela.

Eu, que te fiz meu,

Sem poder te possuir.

Fiz ser tudo, menos homem.

Eu, que gemia, corria, sofria

E por ti tudo fazia.

Eu, que cheguei sorrindo

E saí chorando.

Que deixei de tudo

Para ser só sua.

Anulei a vida

Para viver você.

Fui deixando-me ao tempo

Para viver tormentos.

Você que, sem dó, atirou-me ao destino.

Que me amou uma só vez

E me fez amar sem direção.

Possuiu-me sem dar tempo...

Você, que fervilhou -me os nervos

Ditando intenções.

Joguei-me inteira;

Da mesma forma, fui jogada.

Vivemos o tudo,

Conhecemos o amor fatigado, o nada...

Choramos, sorrimos, vivemos

E nos desprezamos.

Saímos dos limites

Sem regras, nem leis

Lutamos, perdemos, sofremos e esquecemos.

Nós, que ao darmos as mãos

Numa união traiçoeira

Morremos...

Nós...

Nos acabamos.

Eu, você, nós...


28 Adriana Queiroz

APESAR DE TUDO

Era um vazio...

Que foi preenchido,

E vivido de frente.

E foi amado...

É um passado que retorna

E vem mais forte

E dói mais fundo!

No desespero, a procura inútil.

No embalo do vento,

Perdi meu tempo, distraidamente.

Um coração se desfaz em pedaços mínimos

Que caem ao chão.

Eu choro...

Sim, seu amor renovou-me

Eu, que quase destruí-me.

Meu medo retorna,

Medo de tudo, medo do amor,

Medo da vida, medo do medo

De perder você...

Sacudiram-me, esmurraram-me,

Espancaram-me, e eu não desisti.

Vou sozinha,

Sou sozinha,

De um interior forte

E ego prepotente.

Serei superior,

Brilharei seu lado negro,

Deslizarei pelo seu mundo,

Onde serei fogo de ardentes chamas.

Tenho receio, tenho vergonha,

Escondo-me atrás de máscaras

Transparentes demais...

Aos seus olhos

Um dia eu sofri,

Torturei-me e morri...

Fui ingênua, por isso sofri.

Depois do feito,

Eu fui deixada

E magoada.

Reencontrei-me no meu mundo.

E o grito do medo,

Ecoou no tempo

E não mais amei.

Quero ser livre,

Amada do meu jeito

Ser grande aos meus olhos

Para que possa enfim,

Ser novamente,

Uma nova mulher!


Questão Cultural,

Histórica e Patológica

Ana Paula Geraige

Ana Paula Jerônymo Geraige, nascida em

Barretos, é formada em design de interiores

pelo Centro Universitário Barão de Mauá


Ana Paula Geraige

Impossível dissociar atrocidades — como exploração sexual infantil

e tráfico humano — de aspectos culturais, históricos e, também, como

doença, em alguns casos.

Não há dúvidas de que o fator preponderante para tantas aberrações

se situa na má distribuição de renda mundo afora e nas decorrentes péssimas

condições de vida dos mais variados povos, cujas famílias, muitas

vezes, se submetem a essas situações pela absoluta falta de alternativas.

É triste ver mães, não raro, submetendo filhas à prostituição e/ou as

vendendo para pessoas mais abastadas, em busca de um pouco mais de

dignidade humana. Faltam recursos financeiros, culturais e, com toda

a certeza, uma boa dose de religião ou amor em Deus.

Por outro lado, há, também, uma boa dose de patologia nisso tudo,

bastando ver que o turismo sexual é algo mais comum do que se imagina.

Quem nunca assistiu a reportagens sobre ricos europeus e americanos

que vêm ao Brasil com essa finalidade? Ou o contrário, brasileiras

que se mudam para o estrangeiro com tal objetivo?

Existe muita naturalidade e muita hipocrisia nisso tudo, mas não é

fácil modificar comportamentos que vêm desde o Mundo Antigo e se

mantêm firmes até os dias atuais, apenas com variações e adaptações

com a modernidade.

A quantidade de pessoas consideradas normais que têm hábitos frequentes

de acessar sites de pornografia infantil é algo assustador. Será

isso uma patologia? Será isso uma herança comportamental do que

essas pessoas viveram em casa? Enfim, esse assunto tem que ser tratado

de forma multiprofissional, com psicólogos, psiquiatras, sociólogos,

historiadores, profissionais do Direito, etc.

Não bastam criações de leis e tratados, nacionais ou internacionais,

pois sua intenção de coibir tais práticas não é suficiente, já que o problema

é muito mais profundo, muito mais estrutural e a punição não é

capaz de minimizar questões culturais milenares.


Questão Cultural, Histórica e Patológica 31

De forma geral, a atuação do Estado nessa e em outras questões

nunca foi e não é suficiente para trazer respostas efetivas na tentativa

de resolução de tais problemas. Gastam-se bilhões de dólares com programas

ineficientes e grande parte desse dinheiro não tem seu destino

final: perde-se no caminho, com ONGs inescrupulosas ou é mal aplicada,

por incompetência ou má-fé.

Por tais razões, é imprescindível a participação constante e progressiva

de toda a sociedade, de forma engajada, no processo de mudança

de visão sobre essa problemática, através de disciplinas próprias nas

escolas, desde os primeiros anos da idade escolar até as universidades,

para que o tema não se perca e não seja algo temporário e efêmero.

Não há solução mágica!


Fênix

Fátima França

Maria de Fátima Batista França, nasceu em

1954, em Barretos. Filha de Zilda Batista

Simões (de quem herdou a paixão pela

natureza e estudos) e de Sebastião França, de

quem tomou gosto pela política, pois em sua

tenra infância já o acompanhava nos comícios.

Com Álvaro Diniz Linhares aprendeu o gosto

e prazer da leitura, sendo iniciada em Navio

Negreiro de Castro Alves; José Simões Sobrinho

apresentou-lhe o mundo da Justiça.

Foi casada com Luiz Aurélio de Jesus Salles e

tem dois filhos: Thiago Moreno França Salles e

Avana França Salles.

Fátima é graduada em Psicologia pela

Faculdade São Marcos (SP) e mestre em

Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP

Trabalhou como psicóloga por 25 anos no

judiciário paulista: em Barretos, Grande SP e

capital .Também foi professora na Faculdade

Educacional de Barretos. Sua trajetória literária

teve início na participação do livro Novos

Talentos da Literatura, lançado na Bienal do

Livro no Rio de Janeiro


Fátima França

Ao adentrar naquele espaço do cotidiano, me deparo com rosas

plantadas em frente ao prédio. São rosas vermelhas, brancas,

amarelas. Maravilhosamente, rosas. Em seguida, percorro entre espaços

cinzas e brancos. Ali, conheço Fênix e sua historia.

Diante de mim há uma mulher gravida, vestida com uma camiseta

que estampa o passarinho Piu-Piu. Nesse corpo que está em minha

frente, existe uma menina e a denúncia de que, forçosamente, se tornou

mulher. Num primeiro momento, ela está assustada, mas paulatinamente

começa a falar:

Os pais se separaram e, com o rompimento da relação conjugal, ela e seus irmãos

ficaram com o pai em uma fazenda, bem afastada do convívio social

Assim que ela começou a desabrochar e entrar na adolescência, abruptamente

foi violentada por Jair, seu pai. O abuso ocorreu inúmeras vezes e ela ficou

grávida.

Nos primeiros meses de sua gestação, ela estava tomada por um caldeirão

de sentimentos: angústia, raiva, ódio e ressentimento.

Logo, ela propôs colocar o bebê para adoção.

Com o passar dos meses, mudou a sua decisão: o seu corpo de mulher

levava em seu ventre não só um bebê, mas sim, Clara, sua filha.

Em seu olhar, palavras e gestos, Fênix trazia consigo a força de uma

guerreira para lutar contra todas as adversidades e, dessa forma, assumir

os cuidados da filha.

No percurso da escuta, também ouvi, por vezes, os relatos de Jair:

ele assumiu o abuso da filha, sob a justificativa de que, com a separação,

ele precisava de uma relação sexual segura: logo, com a própria

filha, ele não corria riscos de contrair Aids.

Após meses de escuta de Fênix, Jair e demais filhos, encaminhei à

Têmis as considerações sobre o caso. Na ocasião, Têmis não só estava

com uma venda em seus olhos, mas demonstrava estar completamente

cega e assim pronunciou o seguinte veredicto: Jair deveria ser absolvi-


34

Fênix

do, pois a relação sexual ocorreu mediante a permissão de Fênix, que

tinha idade suficiente para distinguir o certo do errado.

Fênix seguiu sua vida, trouxe Clara ao mundo que, por sua vez, deu

luz, força e coragem à jovem mãe.

O tempo passou e Têmis foi surpreendida com uma nova denúncia:

Joao e Maria, filhos de Jair, estavam sendo espancados pelo pai. Imediatamente,

Fênix se prontificou a assumir a guarda dos irmãos. Renasce

mulher, mãe, ser humano — vai ter com Têmis e espera que, desta

feita, suas palavras espantem a sonolência com que conduz os destinos

das pessoas.

Não é fácil. Lenta, vacilante, Têmis se levanta. Parece acordar e, até,

enxergar o que lhe está a meio palmo.

Observa, analisa e pensa e decide: Joao e Maria não ficariam mais

correndo riscos e perdidos na floresta; com urgência, eles deixariam de

morar com o pai e passariam a ficar sob os cuidados de Fênix.

Como se houvesse passado uma vida — uma das muitas que Fênix

precisou viver — saímos todos daquelas salas cinzas e brancas e passamos

a percorrer os corredores do prédio.

Os tons tristes dão lugar ao frescor da brisa, às cores e cheiros do

jardim. Ali está a Natureza, que retribui a resiliência de Fênix lhe entregando

louvores — estes, entregues por Cora, Rosa, Simone, Frida e Nice,

em forma de rosas vermelhas, amarelas, brancas...

MA

RA

VI

LHO

SA

MEN

TE

ROSAS!


Linda era seu nome

Fátima Abon

Ali Simamura

Fátima Abon Ali Simamura nasceu em

Barretos e mora em São Bernardo do Campo.

Casada, tem três filhos e um neto. Fez carreira e

atuou na área de Tecnologia; como Analista de

Sistemas, aposentou-se em 2013. Desde então,

tem como hobby tocar piano, além de cantar

com o Grupo Vocal Esperançar. É apaixonada

pela Literatura e escrever é mais um desafio


Fátima Abon Ali Simamura

Linda coloca as mãos sobre seus seios sedutoramente cobertos

pelo vestido de renda branco. Incrédula, não cabe em si de tanta

admiração com o presente de seu pai.

Tal como Narciso, observa sua imagem refletida no espelho do surrado

guarda-roupa da avó. Corpo esbelto, muito por desabrochar, lábios

carnudos e rosados, pela morena clara, olhos castanhos esverdeados,

cabelos negros encaracolados, presos lateralmente por presilhas

coloridas.

Poucas vezes passava o final de semana na Praia Grande desde a separação

de seus pais, quando estava com apenas três anos. Mas aquele

final de semana seria especial: se encantara com Gabriel, o novo funcionário

da barraca de praia de seu pai.

Estranhara a atitude do pai, que telefonara insistindo muito, com

a desculpa de antecipar seus presentes de Natal e até compensar sua

ausência na comemoração do seu aniversário de quinze anos, ocorrida

há três meses.

Às vezes, refletia sobre a vida de Mário, aos olhos de sua mãe e pelo

que percebia.

Chamava sua atenção o fato dele não ter outra mulher, continuar

morando com a mãe, Matilde, mais mandona do que nunca depois da

morte do seu avô. Mas, naquele sábado, não queria penetrar na bolha

que seu pai vivia.

ooo

Mário não participara da criação da filha. Sempre calado, de olhar

taciturno, deixara tudo por conta da mãe, Leila e da avó.

Conhecera Leila num período de férias, quando ela fora pela primeira

vez à praia com os tios e ficara numa casa próxima à barraca de Mario.

Leila logo percebeu o interesse daquele rapaz, de porte franzino,

com dezoito anos (aparentando bem menos) que nunca tivera namorada

para apresentar em casa e, por isso, era sempre cobrado pelos pais.


Linda era seu nome 37

Filho único, sem interesse pelos estudos, abandonara a escola sem

completar o Ensino Médio. Poucos amigos, ocupando-se apenas em

fazer sanduíches e sucos na barraca da praia.

Mas, surpreendentemente, com um discurso decorado, deveras e

sinceramente apaixonado, Mário seduz Leila. Hormônios à flor da

pele, eles aproveitaram todo tempo; entretanto, como o período de férias

terminaria no final de semana e os beijos e carícias deixavam gosto

de quero mais, combinaram de se encontrar na sexta-feira, no quarto

dela, quando todos estivessem dormindo.

Sem nenhum pudor, repetiram o encontro no sábado e domingo,

para tudo acabar na segunda-feira, com o retorno de Leila pra capital.

Lá ela vivia sem irmãos, com um pai aposentado por problemas de saúde

e a uma mãe diarista. Mas aquele romance de verão terminou em

tempestade. No mês seguinte, sentiu falta do seu período menstrual e

não teve como esconder seus terríveis enjoos. Sua mãe, numa conversa

incisiva, rapidamente confirma a imprudência da filha. Imediatamente,

mais preocupados do que severos com Leila, entram em contato

com a mãe de Mário e vão até a Praia Grande. Para surpresa de todos,

Mário, que tentara, sem sucesso, falar com Leila naquele período, sem

pestanejar, assume a responsabilidade e, apesar da pouca idade e decepção

dos pais conservadores, ambos insistem em ficar juntos.

Os pais jamais concordariam com a interrupção da gravidez, em

nenhuma hipótese. Perceberam que o melhor, naquele momento, seria

Leila permanecer na Praia Grande.

No início, tudo era cor-de-rosa: paixão, desejo e planos. Mas Mario

e Leila logo encararam as dificuldades. A magia do conto de fadas se

transformara numa realidade nua e crua, na cama de casal adquirida

em dez pagamentos nas Casas Bahia.

Leila remoía a tristeza de perder sua adolescência, longe dos pais,

fora da escola, longe das amigas e, pior, perdendo a beleza do seu corpo,

antes tão esbelto, numa gravidez não programada.

Apesar disso, os meses se passaram e a gravidez, dentro da normalidade,

com acompanhamento feito no Posto de Saúde, pelos telefonemas

e as poucas sacolas de enxoval trazidas pela mãe.

Na primeira primavera do novo milênio, Leila dá a luz a uma linda

menina. Seu nome não poderia ser outro que não Linda. Sua mãe


38 Fátima Abon Ali Simamura

esteve com ela nas primeiras semanas após o parto; não tanto quanto

desejava. Leila se revelou uma mãe primorosa e, como seria previsível,

não conseguia mais dar atenção a Mario que, nervoso e ciumento,

provocava ansiedade na esposa, fazendo seus batimentos cardíacos se

acelerarem todas as vezes em que se aproximava dela.

Mesmo assim, Linda crescia feliz e graciosa enquanto Leila, a cada

dia, estava mais arrependida da guinada de sua vida. O príncipe se

transformara em sapo há muito tempo e a ansiedade estava próxima a

ataques de pânico.

Como nada acontece por acaso, numa ensolarada manhã de sábado,

Leila, ao levar Linda à praia, é reconhecida por sua antiga professora.

A conversa com Dona Lucia reacendeu sua chama pela a vida.

Precisava de muita coragem para impor-se e encontrar um novo rumo,

longe de Mario e da Praia Grande.

De forma bem triste e inesperada, o destino possibilitou uma saída,

pela porta da frente. Seu pai veio a falecer, vítima de um infarto. Após o

enterro, ela aproveita para ficar com a mãe até a Missa de Sétimo Dia.

Mas foi ficando mais uma semana, um mês e outro mês até que admitiu

a definitiva separação, enfiada goela abaixo de Mário.

Consegue uma creche para Linda e retoma seus estudos, no período

noturno, na sua antiga escola, para tentar encontrar algum emprego.

Enquanto isso, Mário seguia cada dia em replay ao dia anterior, sem

perspectiva, sem emoção. Uma louca vontade de se vingar de Leila

torna-se um câncer dentro do seu peito. De nada adiantava os empurrões

da mãe ou os encontros furtivos com qualquer garota interessada

nele. Nunca aceitou o fato de Leila ter ido embora e, nestes doze anos,

vinha preparando meticulosamente sua vingança, num prato gelado e

recheado de maldades.

Mario, para intranquilidade da mãe, passava as noites no seu quarto,

isolado de todos, vendo fotos antigas. Assim que pôde, comprou um

celular e passou a seguir as duas nas redes sociais. Sabia tudo sobre elas:

desde a confeitaria onde Leila era gerente, sua faculdade de Gastronomia

e onde passavam seus períodos de lazer.

Na sua insignificância e machismo, argumentava, ensimesmado: se

ela gostava tanto de cozinhar, por que não ficara ajudando sua mãe na barraca?

Sem nada deixar transparecer, a cada dia seu coração parecia explodir


Linda era seu nome 39

de tanto ódio e ciúme.

ooo

Mas, naquele final de semana, finalmente concretizaria seu plano de

vingança. Aquela era a hora tão esperada. Mario sabia que Linda experimentaria

o vestido, cuidadosamente escolhido, quando ela confirmou

a vinda para a praia.

E lá estava Linda. Em posição privilegiada, Mario conseguia vê-la

pelo espelho da penteadeira. Aquela imagem sedutora faz aflorar seu

desejo reprimido; seu coração bater descompensado; retesar seu órgão

sexual embaixo da bermuda, toda molhada de suco de maracujá, de

propósito, derrubado.

Linda, despreocupada, apenas encostara a janela e deixara a porta

entreaberta. Não conseguia fechar o zíper do vestido tomara-que-caia,

quando Gabriel bate na porta da frente. Pensando estar sozinha na

casa, se assusta e corre até a porta do quarto, dando de frente com o pai

que, espertamente, se recompõe, fingindo ter chegado naquele momento

no corredor que dava acesso ao quarto.

Como Mario esquecera o celular na barraca, Gabriel o avisa que

o novo vendedor de polpas o aguardava na barraca e sai, fechando o

portão atrás de si.

Linda, sem nada desconfiar do pai, solicita que ele feche o engastalhado

zíper do vestido. Mário diz que vai primeiro lavar as mãos e

trocar de bermuda. Aquele pedido da filha facilitaria demasiadamente

seu dantesco propósito; uma perfeita luva em suas mãos.

Linda, encantada com o novo vestido e com vontade de passear

no calçadão da praia continuava se admirando no espelho e nem se

dá conta que seu pai, discretamente, retornara ao quarto. Apenas de

bermuda, tomou o cuidado de tirar a camiseta, fecha a porta e aproxima-se

de Linda para, supostamente, ajudá-la com o zíper. No exato

momento em que Linda vira-se de costas, Mario a segura fortemente e

tapa sua boca com a mão esquerda enquanto segura seus braços com a

mão direita. Linda sem nada entender, se apavora e tenta, sem sucesso,

se desvencilhar do pai. Para agonia de Linda, o zíper não fora fechado

e o vestido facilmente escorrega para baixo.

Mario arrasta a filha para a velha cama de Matilde e, colocando-a

de costas sobre o edredom cor de mel, amarra o guardanapo de pano


40 Fátima Abon Ali Simamura

que trouxe da cozinha entre os dentes de Linda, impedindo-a de gritar.

Já não enxergava a filha: ali estava sua Leila. Com toda volúpia beija as

costas da filha começando pela nuca e, depois, vai descendo até onde

alcançasse sem correr o risco de que ela se soltasse.

Linda se debate desesperada e, em vão, Mário continua acariciando

as suas costas com seus lábios e os ralos e espinhosos fios do bigode,

enquanto a prende sob suas pernas.

Mario não pensava mais em vingança: simplesmente, voltara no

tempo que tivera Leila pela primeira vez. Coloca Linda de barriga para

cima e extasiado, com toda força, comprime o tórax nos seios da filha

e em seus mamilos descobertos.

Dizendo obscenidades, chamando-a de Leila, com toda força rasga

sua ultima peça deixando-a inteiramente nua. Linda, sufocada pelo

corpo do pai, não tem mais forças para resistir. Desesperado de tanto

desejo, esfregando-se todo no corpo da filha, morde seus seios, suga-lhe

os mamilos como uma criança faminta, até que abaixa sua bermuda

e encosta seu membro entre as coxas da filha pronto para deflorar sua

virginal libido.

Mas Gabriel, como um anjo enviado por Deus, retorna à casa chamando

pelo patrãozinho e, pela porta dos fundos, chega rapidamente

na cozinha.

Mário não se dera conta. Estava com a apavorada Linda, há pelo

menos vinte minutos. Esquecera-se totalmente do vendedor de polpas.

Linda se aproveita do momento de surpresa e distração do pai, que fica

sem resguardo: num reflexo desesperado, acerta-lhe o joelho direito no

seu membro retesado. Mario, contorcendo-se de dor, perde o equilíbrio

e cai da cama — para sorte de Linda, ao lado oposto à porta. Ela, rapidamente,

foge, agarrando apenas a toalha que usara depois do banho,

antes de experimentar o vestido. Vai até a cozinha e pede socorro para

Gabriel. Tem tempo apenas de dizer que o pai estava louco, quando

ouvem um estampido vindo do quarto.

Mario, como que voltando de um transe, se deu conta de que seu

plano falhara. Depois que se deliciasse do corpo de Linda, pretendia

matá-la e, em seguida, se suicidar, numa louca e completa vingança.

Mas o desgraçado daquele maldito moleque, interessado em Linda, colocara

tudo a perder. Rapidamente, foi até o guarda-roupa e procurou a


Linda era seu nome 41

arma que seu pai sempre guardara para defesa da casa. Já havia conferido

se estava carregada e bastava preparar o gatilho. Não se arriscaria

indo para fora do quarto. Linda já estava protegida por Gabriel e, provavelmente,

correria para fora da casa. A vida, para ele, já não tinha

mais nenhum sentido. Na verdade, há doze anos se considerava um

morto-vivo. Colocou o cano da arma na boca e, sem nada mais pensar,

apertou o gatilho. Aquele fora o estampido ouvido por Linda e Gabriel.

O mundo desaba sobre a cabeça de Linda e, amparada por Gabriel,

buscam ajuda até a chegada da Polícia. Não se recorda mais de

como foi levada e por quanto tempo ficou sedada no hospital da Praia

Grande. Lembrava, apenas, que não lhe permitiram ver a triste cena no

quarto da avó. Desperta com a mãe ao seu lado e uma policial, esperando

para ouvir seu triste relato. As lágrimas escorrem copiosamente

pela face de ambas. Abraçadas, não encontram palavras para descrever

tamanha monstruosidade daquele pai, distante no dia-a-dia, mas que

nunca demonstrara ter uma mente tão marcada pelo ódio. Leila jamais

poderia imaginar que Mario teria guardado tanto rancor e acaba por

ter sentimentos contraditórios de compaixão e revolta. Se não tivesse se

separado de Mario, isso teria acontecido? O preço da sua liberdade fora

muito alto para o coração partido de Mario? Como não percebera sua

fraqueza? Em tudo, uma única certeza: nada justificaria tanta maldade.

Onde e como buscariam forças para se superarem do trauma vivido?

Quanto tempo seria necessário para Linda e Leila acordarem daquele

pesadelo? Um, dois, três, quatro anos... uma vida inteira?

ooo

Muito esforço. Anos seguem e, mesmo com ajuda de terapia, Linda

ainda não consegue ter um relacionamento amoroso.

Mas, sim, há esperança: ao reencontrar Gabriel, aquele anjo que a

salvara naquele dia fatídico, tudo vem à tona novamente.

Depois de tanto tempo, seus olhares se cruzam. Um abraço cheio de

afeto e silêncio sela aquele momento de paz. Sentem-se envolvidos por

uma luz divina em plena Estação Sé do metrô.

Quem sabe, o prenúncio de um novo caminho.


A história de Jurema

Flávia Cunha

Flavia Cunha é professora aposentada e

pedagoga. Sempre gostou muito de ler e

escrever. Prefere escrever poesias, mas

também tem muitos textos em prosa, incluídos

em várias antologias da Editora InHouse.

Faz parte da ABC (Academia Barretense de

Cultura), ocupando a cadeira n° 39.

Publicou 6 livros de poesia e, muitas vezes,

coloca poemas de sua autoria em sua página

do Facebook.

Também pertence à Academia Jundiaiense de

Letras, ao Grêmio Cultural “Professor Pedro

Fávaro” e à Academia Feminina de Letras e

Artes de Jundiaí


Flávia Cunha

Já passava de meia-noite quando Jurema ouviu o marido abrindo

o portãozinho de ferro e, depois, caminhando pelo corredor,

dizendo palavrões e chamando por ela, enquanto tentava abrir a porta

da sala.

Angustiada, foi ao quarto das crianças para verificar se estavam dormindo.

Todas ressonavam tranquilamente, seus três amores! Fechou a

porta com cuidado e se dirigiu à sala, pedindo a Deus que seu marido

entrasse e se jogasse na cama, totalmente embriagado, dormindo imediatamente,

como fazia muitas vezes.

Mas, desta vez, Jurema não teve a mesma sorte: ele, extremamente

agressivo, atacou-a com toda violência, dando inúmeros socos em seu

rosto e a jogando no chão. Os chutes, por todo seu corpo, vieram em

seguida, até que ela desmaiou, tais eram as dores que sentia.

Na manhã seguinte, Jurema acordou com o choro das crianças. O

marido já havia saído e o bebê, no berço, exigia seus cuidados.

Levantou-se com dificuldade, enquanto os dois meninos a auxiliavam

a segurar no batente da porta, assustados com seu aspecto. Foi

segurando nas paredes até o banheiro e, ao ver o estado deplorável em

que estava seu rosto, em vários pontos rasgado pelo anel que seu marido

usava, e as manchas roxas em volta dos olhos, quase desmaiou

novamente.

Com a força que Deus dá às mães nas horas difíceis, procurou acalmar

as crianças, dizendo que havia caído e batido o rosto na quina da

mesa. Elas, porém, confessaram ter ouvido toda a agressão do pai contra

ela, mas fingiram estar dormindo, para não sofrerem aquele ataque

também.

Jurema já havia sido vítima do marido por muitas vezes, mas nunca

com tanta violência.

Naquele dia, percebeu que não poderia sair para trabalhar e nem

levar as crianças para a creche. Todos perceberiam o que havia aconte-


44

A história de Jurema

cido.

Fez a mamadeira para o bebê, serviu o café da manhã para as crianças,

ligou para comunicar que seus filhos não iriam à escola e avisou

sua patroa que não iria trabalhar, com a desculpa de que o bebê estava

doente.

Pediu aos filhos que trancassem a porta e ficassem no quarto, enquanto

ela estivesse tomando um banho e vestindo roupas limpas.

Uma grande revolta nasceu dentro dela; o amor que sentia pelo marido

transformou-se em ódio mortal. Pensou no que poderia ter acontecido

com seus filhos e decidiu sair de casa ainda naquela manhã.

Fez rapidamente a mala com algumas roupas para todos, a certidão

de nascimento das crianças, fraldas para o bebê e pão com queijo para

os meninos. Colocou na bolsa o dinheiro que tinha em casa e, antes de

sair, pediu aos meninos que fossem até o portão verificar se o marido

estava por ali.

Ele não estava visível. Saíram, então, da casinha alugada onde moravam,

a última da rua, onde nem tinham vizinhos.

Um ônibus encostou assim que chegaram ao ponto. O destino: um

terminal rodoviário de São Paulo.

Lá chegando, Jurema sentiu-se perdida, sem saber para onde ir. Teria

que ser para uma cidade onde não tivessem parentes e amigos, bem

longe da capital. Cobrindo como podia o próprio rosto, comprou as

passagens para uma cidade bem distante (usando quase todo o pagamento

do mês que havia recebido um dia antes), depois de ouvir algumas

pessoas conversando sobre a possibilidade de encontrarem trabalho

durante uma grande festa que haveria nesse município.

A viagem foi longa, porque o ônibus parava muitas vezes para deixar

e recolher passageiros. O bebê chorava, cansado e nervoso; chegaram

a seu destino tarde da noite.

Dormiram em uma praça deserta, escondidos sob alguns arbustos.

Quando amanheceu, Jurema foi acordada por um senhor de maneiras

distintas, que a ajudou a se levantar e ficou admirado com o estado

de seu rosto, cheio de cortes e hematomas.

Não tenha medo, disse ele.

Vejo que passou por momentos terríveis! Mas, apesar de ferida, você tem um

rosto lindo, que com bons cuidados voltará a ser como era.


Flávia Cunha 45

Estou aqui na cidade com o meu pessoal, para trabalhar em uma grande

festa que começará daqui a quinze dias. Viemos de São Paulo. Venha comigo

e pode levar seus filhos. Estamos em uma chácara alugada, com muito espaço.

Será bom para as crianças.

Jurema, enfraquecida como estava, logo aceitou o convite e entrou

no carro daquele homem, levando seus filhos.

Na chácara, foram muito bem tratados e, dentro de algum tempo,

a jovem mulher já estava mais forte e agradecida a seu benfeitor. Seu

rosto ficara com algumas marcas, mas uma boa maquiagem esconderia

qualquer cicatriz.

Havia, porém, uma condição para que continuassem com o grupo:

ela e as crianças não poderiam sair do interior da casa e nem conversar

com ninguém que não fizesse parte do grupo.

Ela aceitou, agradecida por tudo que faziam por ela e seus filhos.

Alguns dias depois, chegaram algumas moças, todas muito bonitas,

mas com modos vulgares, que nem lhe deram atenção.

Dois dias antes do início da festa, Jurema acordou, procurou pelos

filhos, mas não os encontrou.

Desesperada, saiu pela chácara a chamar por eles, mas logo aquele

senhor distinto puxou-a pelo braço, com força, dizendo:

Seus filhos estão seguros. Não podem ficar aqui porque o ambiente da chácara

não será adequado para eles durante a festa. Você, sim, ficará conosco, porque

chegou a hora de começar a trabalhar.

Levou-a de volta para a casa e, chamando as jovens bonitas, disse-

-lhes:

Expliquem a ela qual será o seu trabalho a partir de hoje à noite. Ela tem

que estar muito bem vestida e maquiada, pois será a nova atração para nossos

convidados.

Jurema soube, então, que elas todas eram prostitutas e que ela também

teria que se prostituir, oferecendo-se aos convidados e satisfazendo

seus desejos, se quisesse ver seus filhos novamente.

A chácara estava cercada por homens armados, de modo que ela

não conseguiria sair dali, pois seria morta e seus filhos também.

A jovem chorou muito, mas foi obrigada a concordar, com a esperança

de rever seus filhos um dia.

Naquela mesma noite, apesar de sua timidez, foi um sucesso para os


46

A história de Jurema

convidados, que, encantados por sua beleza, queriam todos ficar com

ela.

A festa durou quase um mês e Jurema já via suas forças se esgotarem

e, com elas, suas esperanças de reencontrar os filhos.

Sua tristeza era tão grande que nem percebeu que um jovem do grupo

estava apaixonado por ela e resolvido a ajudá-la.

Ficou tão doente que o protetor-algoz decidiu abandoná-la na chácara.

Tinha certeza de que ela morreria em poucos dias, naquele lugar

retirado, sem um tratamento médico.

O grupo todo partiu, ficando ali somente o jovem que a amava, pois

havia sugerido ao chefe que seria importante ter certeza de sua morte.

Depois seguiria o grupo.

Quando já estavam bem longe, o rapaz levou-a para o hospital da

cidade e a deixou na porta de entrada do pronto-socorro.

Por amor, desistiu dela, para depois de alguns dias alcançar o grupo,

declarando que tudo estava resolvido.

Jurema ficou internada no hospital, entre a vida e a morte, mas o

bom tratamento e o desejo de recuperar seus filhos a salvaram.

Contou à polícia tudo o que havia acontecido, mas não tinha nenhuma

referência concreta sobre aquele senhor e seu grupo para lhes dar.

Foi encaminhada para a Pastoral da Mulher Marginalizada, existente

em uma cidade próxima. Ali, aprendeu uma profissão e recebeu todo

apoio material e psicológico de que necessitava.

Até hoje não descobriram o paradeiro de seus filhos. Não levou na

viagem nenhuma fotografia deles, somente as certidões de nascimento.

Na delegacia, fizeram um retrato falado de cada criança. Jurema sente

que estão vivos e não perde a esperança de encontrá-los um dia.

Colabora com a Pastoral alertando adolescentes e jovens sobre os riscos

da prostituição, os sinais de que correm o perigo de sofrerem abusos

sexuais e até mesmo de serem vítimas do tráfico humano.

Jurema respeita suas companheiras que também foram vítimas da

prostituição e da maldade humana, e merece ter sua história contada

na Coletânea “ELAS nas Letras”.


Tá tudo bem

Glaucia Chiarelli

Formada em Comunicação Social, com

ênfase em jornalismo e especialização em

Produção de Conteúdo Audiovisual para

Multiplataformas.

Jornalista. Apresentadora, diretora e roteirista

do programa #Juntos e de casa, em exibição

pela Vale TV.

Realiza também assessoria de comunicação da

Secretaria Municipal de Cultura de Barretos

Trabalhou na REDEVIDA como repórter,

produtora e editora de matérias jornalísticas,

documentários e reportagens especiais, e

como apresentadora interina.

Experiência na coordenação de

radiojornalismo; por mais de 19 anos atuou

na apresentação e produção de programas em

diferentes emissoras de rádio, como: O Diário

FM, Colina FM e Independente AM e afiliada da

Jovem Pan FM e Band FM.

Por mais de 10 anos desenvolveu oficinas de

jogo dramático infantil em diversas secretarias

da Prefeitura de Barretos


Glaucia Chiarelli

De:

Para:

segunda, 3 de fev, às 3h

Oi Aline, bom dia.

Hoje acordei mais cedo e aproveitei pra te responder. Está tudo bem

sim, só a correria aqui em casa. A semana passada foi difícil, mas agora

já passou.

Entrei mesmo só pra falar que tá tudo bem.

Beijos

De:

Para:

terça, 4 de fev, às 5h

Oi Aline, bom dia de novo.

Tudo bem? Por aqui também. Hoje tá tranquilo e deu pra falar de

novo. Então, tô com uma saudade de conversar pessoalmente. Você

podia vir aqui em casa na quinta à tarde, o que acha?

Tá tudo tranquilo, mas faz tempo que a gente não conversa mais.

Já não podemos falar por Whats, então seria legal pessoalmente. Te

espero.

Mas tá tudo bem, viu?

Beijos

De:

Para:

quarta, 5 de fev, às 8h

Oi Aline, voltei.

Ai, amiga, quero tanto falar com você. Hoje tô te chamando toda

hora né? Mas é que faz tempo que a gente não se vê. Tá tudo certo


Tá tudo bem 49

pra amanhã? Aquele dia da mesinha foi um acidente. O Roberto me

empurrou, mas errou na força. Ele não queria que machucasse. Você

tinha dito que não ia mais falar comigo se eu continuasse com ele, mas

tá tudo bem! Eu queria te falar isso.

Bjus

De:

Para:

quarta, 5 de fev, às 21h

Oi Aline,

Nossa, amiga, você nem viu nenhuma mensagem ainda e eu já voltei

aqui! Tá tudo bem, viu! Mas é que eu queria falar com alguém. Você

vem mesmo amanhã? Sabe, eu tava pensando tanto na vida... queria

tanto falar com uma amiga, pedir uns conselhos seus (de novo rsrsr).

Mas tá tudo bem, viu? Não se preocupe!

Bjus

De:

Para:

quinta, 6 de fev, às 2h

Oi Aline! Quando puder me responda, tá? Queria saber como você

tá, conversar...

Beijos

De:

Para:

quinta, 6 de fev, às 11h

Aline,

Oi amiga, tudo bem? Por aqui também tá tudo bem. Olha, melhor

você não vir hoje não. O Roberto vai chegar mais cedo e aí você sabe

né? Ele gosta de ficar só a gente. Depois te explico melhor. Mas tá tudo

bem, viu?

Bj

De:

Para:

sexta, 7 de fev, às 4h


50

Glaucia Chiarelli

Aline,

Oi amiga! Desculpa o sumiço!

A semana foi muito corrida. Tá tudo bem, mas é que não deu pra

falar de novo por aqui. Eu machuquei o olho e tava nervosa. Menina,

você não acredita o quanto eu sou estabanada: tava descendo do ônibus,

daí eu caí, bati o olho na lixeira, escorreguei, fui pro chão e machuquei

bem esse dedo do meio.

Mas tá tudo bem, viu? Nossa, fiquei tão nervosa. Tô te contando

isso pra quando você vir aqui não achar que foi o Roberto. Ele não faz

mais isso. Eu que não sei como me machuco tanto, rsrs.

De:

Para:

quinta, 6 de fev, às 9h

Aline,

Amiga, quando puder liga aqui! Tô sozinha em casa. Eu tô com

muito sono, não dormi direito esta noite, mas queria muito falar com

você.

Mas olha: não se preocupe, viu? Tá tudo bem.

Beijos

De:

Para:

quinta, 6 de fev, às 20h

Aline,

Ai amiga, eu tô desesperada! Tava tudo bem esses dias. Eu machuquei

descendo do ônibus, mas fora isso tudo tranquilo. Aqui em casa

eu tava fazendo tudo direitinho. Eu pensei bastante e resolvi fazer a

minha parte. Tudo. Sem dar motivo nenhum pra falar, porque aí, se

acontecesse algo, não seria mais minha culpa. Mas eu acabei fazendo

tudo errado de novo!

Eu fiz tudo na hora que ele não tava em casa. Eu fiz os meninos ficarem

quietos (assim, sabe como é criança: tinha hora que eles gritavam

mesmo, mas eu dei uma controlada). Eu fiz a janta certinho pra não

dar motivo, mas Aline... não teve jeito! Eu falei de novo da minha mãe.

Eu esqueci que ele tava nervoso com o trabalho e perguntei da minha


Tá tudo bem 51

mãe, se ela podia ficar aqui em casa na próxima semana, quando vem

pro retorno no hospital. A culpa foi minha, eu devia saber que ele tava

nervoso. Ai, por que eu fui perguntar de novo? Eu sei que ele não gosta

que a gente fica perguntando a mesma coisa mil vezes! E ele tava muito

nervoso.

Coitado, ele esqueceu de fechar o portão de trás da firma antes das

16h ontem e o encarregado dele deu um esporro nele, na frente de todo

mundo! Ele tava muito nervoso e eu fui perguntar isso mais uma vez.

Eu sabia que ele não gostava: então, por que eu perguntei de novo?

Aí ele me empurrou de novo e eu bati o dente. Foi um acidente. Eu

juro!

Ai Aline, eu tô com tanta vergonha! Como eu vou sair de casa na segunda?

É o primeiro dia de aula dos meninos e eu tenho que levar eles

na escola; só que a Vera, aquela coordenadora de quem te falei, veio

com umas conversas estranhas comigo aquela vez, por causa do roxo

no meu braço, e agora ela vai querer saber do meu dente, porque tá

muito inchado. Eu sou muito estabanada. Ele não empurrou forte, mas

eu me desequilibrei. Aí ela vai ver o dedo e o olho também, certeza! Ai,

Aline, vai acabar dando problema pro Roberto e a culpa vai ser minha!

Eu sei que você falou que não queria mais saber disso, que não ia

mais se meter, que você acaba ficando com raiva dele e minha também...

mas pode me dar esse apoio só mais essa vez? Pelos meninos.

Pode levá-los na escola segunda?

Aguardo sua resposta urgente.

Beijos

De:

Para:

quinta, 6 de fev, às 22h

Aline,

Cadê você? Ai amiga, eu tô te perguntando de novo porque eu tô

com medo. O Roberto disse que não quer saber de ninguém cuidando

da nossa vida amanhã, que a gente não deve contar nada pra ninguém

do que acontece dentro da casa da gente, que ele aprendeu isso com o

pai dele, que aprendeu com o pai dele também. Minha mãe também

me ensinava isso, mas eu liguei ela pra desabafar (pra minha mãe, por-


52

Glaucia Chiarelli

que não tô conseguindo falar com você e o seu número eu tive que apagar

do meu telefone pra não dar confusão; por isso, a gente só conversa

por email)... mas Aline, ele jogou meu celular na parede. Despedaçou.

Ainda nem acabei de pagar, mas ele falou que não era pra falar nada

pra ninguém.

Aline, ele falou que se tiver uma reclamação por causa da escola, ele

disse que aí sim eu vou ver. Eu sei que ele fala da boca pra fora, mas

tô com medo, amiga! E o pior é que os meninos estão ficando revoltados.

O Luiz Henrique disse que vai bater no pai dele. Onde já se viu,

filho batendo em pai? A culpa é minha, Aline, eu devia ter feito alguma

coisa. Eu não tô sendo boa mãe! Por minha culpa, os meninos estão

assim, com raiva do pai. Pai é pai.

Ai, Aline, por favor, amiga, me responda assim que puder.

Beijo

De:

Para:

segunda, 10 de fev, às 3h

Oi Aline, tudo bem?

Bom dia. Acordei mais cedo de novo só pra confirmar: você vai poder

ir na escola com os meninos?

Beijos.

De:

Para:

segunda, 10 de fev, às 19h

Oi Aline, tudo bem com você?

Espero que sim. Quero me desculpar por esse monte de e-mails que

te enviei esses dias. Encontrei sua irmã na escola ontem e ela disse que

você está viajando.

Olha, não se preocupe com nada, tá? Está tudo bem. Eu só me apavorei

um pouco, você me conhece. Não devia ter te mandado esse monte

de e-mail. Espero que compreenda.

Por favor, não diga nada pro Paulo.

Tá tudo bem.


Evolução Histórica

da Mulher

Glaucia Martins Simões

Possui graduação em Direito pela Universidade

de Ribeirão Preto (1992) e mestrado em

Direito pela Universidade de Franca (2003).

É professora vinculada ao Centro Universitário

da Fundação Educacional de Barretos.

Delegada de Polícia de 1994 a 2019.

Atualmente, presta serviços voluntários junto

à sociedade com palestras e também em um

projeto de mulheres vítimas de violência


Glaucia Martins Simões

Ao fazer uma breve análise histórica, podemos verificar que era

comum a mulher ser tratada de forma discriminatória e subordinada

em relação ao homem. Na Era Primitiva, a coleta de frutos

e raízes comestíveis eram atividades desenvolvidas pelas mulheres. A

caça era atividade masculina. Já havia, portanto, uma divisão natural

do trabalho; no entanto, a mulher era valorizada no grupo.

Com o aparecimento da propriedade privada dos rebanhos, depois

da terra a linha de descendência passou a se fazer pelo pai, a fim de se

garantir os direitos dos filhos à herança. Da mulher passou a se exigir a

virgindade antes do casamento e a fidelidade conjugal.

No extenso período Medieval, as mulheres são dinâmicas como as

manifestações do tempo em que viveram; o casamento tinha como objetivo

a procriação.

A mulher sempre era submissa: primeiro ao pai e, quando se casava,

ao marido. A ela cabia as responsabilidades domésticas. A mulher, na

condição de prostituta, era discriminada; no entanto, considerada um

mal necessário, pois servia aos jovens rapazes.

Um grande marco da história da mulher medieval foi a Inquisição:

durante mais de 300 anos, a mesma Europa que viu nascer a Idade

Moderna e presenciou feitos como a conquista do Novo Mundo, a

ascensão da burguesia comercial e o fim do domínio feudal, fez das

fogueiras um instrumento de repressão, tortura e morte para milhares

de mulheres condenadas em praças públicas, consideradas bruxas, por

terem o domínio no uso de plantas medicinais, entre outros.

É importante destacar que as contribuições das mulheres para as

culturas humanas foram inúmeras e nunca tiveram o devido crédito e

valor: elas desenvolveram vários idiomas, a agricultura, o artesanato, a

culinária e a cerâmica, entre outros saberes.

A partir da Revolução Francesa, em 1789, a mulher deixou de ser


Evolução Histórica da Mulher 55

considerada importante apenas para a procriação e execução de tarefas

domésticas. A Revolução Francesa influenciou muito a organização

futura da mulher, em busca de seus direitos.

A Revolução Industrial incorporou o trabalho feminino nas fábricas.

Foi o começo da mudança do status feminino: de dona de casa, a

mulher passou a trabalhar arduamente nas fábricas de fiar, onde recebia

pouco, trabalhava excessivamente e, muitas vezes, era abusada pelos

patrões.

No Brasil, seguindo um cronograma de marcos, podemos destacar

algumas conquistas na área da educação e do trabalho.

Em 1917, o serviço público passa a admitir mulheres no quadro de

funcionários. Em 1932, as mulheres conquistam legalmente o direito

ao voto, sacramentado pela constituição de 1946.

Os anos 80 são marcados pela luta contra a violência às mulheres

e pelo princípio de que os gêneros são diferentes, mas não desiguais.

Foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, com o propósito

de acabar com a discriminação da mulher e aumentar a participação

feminina nas atividades políticas, econômicas e culturais.

A Constituição Federal de 1988 foi um marco na história da emancipação

da mulher: homens e mulheres passaram a ser iguais em direitos

e obrigações — ambos são iguais e podem opinar sobre todas as

questões da família, acabando com a chefia da sociedade conjugal.

As conquistas sociais femininas foram muitas. No entanto, ainda se

está longe do ideal. A maioria das mulheres ainda ocupa menos cargos

de poder e prestígio, seu salário ainda é menor que o dos homens nas

mesmas funções e elas continuam a serem vistas como as principais

responsáveis pela casa e pela família, cumprindo muitas vezes uma tripla

jornada.

Outro marco referente a nossa evolução, principalmente com relação

ao combate à violência contra a mulher é a Lei Maria da Penha (Lei

11.340, de 2006). Surgiu como resultado dos esforços do movimento

de mulheres e poderes públicos no enfrentamento à violência doméstica

e familiar, e ao alto índice de morte de mulheres no país.

Na prevenção à violência, a Lei Maria da Penha prevê políticas públicas

integradas entre órgãos responsáveis (Poder Judiciário, Ministério

Público, Defensoria Pública, com as áreas de segurança pública, assis-


56

Glaucia Martins Simões

tência social, saúde, educação, trabalho e habitação).

Concluindo: nossa caminhada ainda exige muitas batalhas, pois temos

algo que nos é peculiar: a Dádiva da Maternidade; dom Divino que

nos move.


A pianista Haydée

Menezes: viagens nas

pontas dos dedos

Karla Armani Medeiros

É historiadora e autora da obra “De onde

cantam as cigarras”. É articulista do jornal

“O Diário” e professora de História, com

ênfase nas áreas de História do Brasil,

Museologia, Patrimônio e História Regional.

Graduada em História e pós-graduada em

“História, Sociedade e Cultura”, tem trabalhos

publicados sobre temas históricos de Barretos.

É barretense, ex-Secretária Municipal de

Cultura (2013-2015) e titular da cadeira 7

da Academia Barretense de Cultura (ABC).

Apaixonada pela história da cidade e pelo

Museu! Agora, também divulga seus estudos

no canal do Youtube “Profa Karla Armani”


Karla Armani Medeiros

“Essa viagem foi o fato cultural culminante da história barretense, em 1938. Não é só de admiração

e entusiasmo, mas sobretudo de gratidão, o preito que te devem os 11.999 habitantes de Barretos do

último censo, e mais os que chegaram depois. Sim, de gratidão principalmente. Porque os críticos

de todas as cidades que visitaste espalhando nas almas inesquecíveis emoções da Beleza suprema,

naturalmente quizeram saber donde lhes ia aquela artista invulgar, onde surgira á vida, onde

nascera, e por certo haverão registrado em seus apontamentos, com surpresa, que és filha de Barretos,

cidade de que não há notícias nas folhas, mas da qual se boqueja, quiçá justamente, uma fama

duvidosa, por aí além. -Oh! Será possível? Pois então há gente civilizada naquele rincão esquecido

da província bandeirante? Não é aquilo apenas um núcleo de negócios e couto de valentões? E é por

isso que tudo, patrícia cara, [...], foste por toda a parte, com a fidalguia do teu trato, com a cortezia

das tuas atitudes, com a tua beleza despretenciosa, e em particular com a magia dos teus dedos

a deslizar sobre o marfim sonoro, foste desmentindo a bisbilhotice e os aleives dos inconscientes e

tornando assim conhecido e elevado o nome da tua terra natal. Sê bemvinda!”

Crônica “Esboços” de Caá-Ubi, Jornal “A Semana”, Barretos (SP), 30/07/1938 (grafia

original; grifos meus) 1

Apresentava-se como Haydée Menezes, a “artista invulgar”, a

“filha de Barretos”, a “patrícia cara” descrita pelo jornalista Osório

Rocha sob seu pseudônimo Cáa Ubi. Era pianista, barretense e

personalidade constante nas páginas de jornais da cidade nas

décadas de 1930 e 1940. As palavras rebuscadas e adjetivadas de

Osório têm a intenção de destacar o ofício musical da pianista,

e, simultaneamente, sublinhá-la como expoente de cultura e arte

- único meio capaz de elevar o nome da cidade como local de

boa convivência, desmentindo (ou desfazendo) a fama de cidade

incivilizada, violenta, isolada e conservadora. Barretos, naqueles

anos 1930, já era uma cidade cuja urbanidade se revelava por

casarões imperiosos no centro, bons comércios, teatros, clubes, sede

de estação ferroviária e instituições sólidas; porém, em suas tradições

ruralistas, o conservadorismo e a criminalidade (a “lei do revólver”)

ainda entreameavam certos momentos daquele tempo presente. A

presença de Haydée e seu piano valorizavam a figuração da cidade

como culta, conforme veiculava “A Semana” de 31/01/1932:

“Barretos não é mais uma cidade sertaneja, pois o conforto de suas casas, o


A pianista Haydée Menezes: viagens nas pontas dos dedos 59

amor pelas artes, que se manifesta eloquentemente em ocasiões como a que

nos proporcionou a senhorita Haydée Menezes, testemunham o progresso

intelectual [da cidade]”.

Assentada por tamanha receptividade, no supracitado ano

de 1938, a pianista retornava à sua terra natal, depois de longa

excursão pelo Norte e Nordeste do Brasil, onde realizou séries

de concertos pela Instrução Artística do Brasil (IAB). Por esta

associação, Haydée viajou por sete estados brasileiros, tornando-se

hóspede oficial de governantes e interventores; frequentou espaços

de arte, foi aplaudida por plateias diversas em teatros históricos

e conheceu artistas modernos, eruditos e populares. Somando os

concertos, audições e recitais pela IAB aos seus particulares, são

pelo menos 98 apresentações e 49 cidades visitadas entre os anos de

1930 e 1947. Números que refletem uma carreira importante, a qual

pode ser estudada pela perspectiva da História sob vários temas: a

condição feminina no ofício da música; a formação como pianista;

suas referências na arte; a atuação como difusora da cultura paulista

e brasileira; e a vivência na Instrução Artística do Brasil — objetos

de estudo deste artigo.

Mas pode-se lançar um olhar micro à obra e vivência dessa pianista

que, apesar de nascida no interior, formou-se nas salas nobres do

tradicional Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, e,

de lá, tornou-se concertista da IAB e personalidade de destaque na

crítica jornalística do país. Não nos é possível mais ouvir os toques

de seus dedos; resta-nos, portanto, conhecer um pouco de sua obra,

deslizando-se por entre essas páginas.

Fim do prelúdio, princípio da História.

--xxx--

O toque do piano era apreciado nas famílias de vida burguesa no

Brasil desde o século XIX: “era o instrumento por excelência da música

do amor socializado com casamento e bênção divina tão necessário à família

como o leito nupcial e a mesa de jantar” 2 . Sabe-se que, por instrução ou

ocupação, nas famílias ditas “tradicionais”, abastadas, nos grandes

centros e no interior, era comum o estudo do piano às moças. Fora do

habitual era a continuação destes estudos em salas conservatorianas

e a transformação do piano em instrumento de trabalho, isto é,


60 Karla Armani Medeiros

ser pianista. Fato que ocorreu com Haydée. Ela, nascida em 20

de novembro de 1915, em Barretos, era filha da sra. Amélia Júlia

de Oliveira Menezes e do Major Elyseu Ferreira de Menezes. Sua

mãe era filha de José Eduardo de Oliveira, comerciante conhecido

como Zeca Vigilato, originário de Caconde (SP), líder político local

desde os fins do século XIX e proprietário de um dos palacetes mais

ornamentados da cidade, onde se realizavam reuniões e bailes. Seu

pai, Elyseu, também político influente local, além de participante

de diversas instituições culturais da cidade, foi músico, professor

e escrevente de cartório 3 . O pai de Elyseu era José de Menezes

Ferreira, conhecido pela alcunha de Ferreirinha: vindo de Frutal para

Barretos, em 1876 já possuía uma botica no arraial, onde também

exercia atividade de “professor” 4 . Elyseu e Amélia casaram-se em

Barretos em 1895 5 e, em 1912, construíram sua residência defronte a

de Zeca Vigilato, tão imponente quanto. Dotado de uma arquitetura

que mesclava elementos neoclássicos, art nouveau à exaltação de

arcos e ogivas na entrada, “sendo de admirar o seu interior decorado pelos

famosos Moriscalchi, pintores de Jaboticabal” 6 , o casarão da família de

Haydée, junto ao de seu avô, compunha o cenário ideal de “cartãopostal”

de uma Barretos que se enamorava pelos ares da Belle Époque.

Demonstrando sensibilidade, a menina Haydée tão cedo iniciou

aulas de piano com o maestro Carlos Guimarães, que há anos era o

pianista oficial do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos. Graças

à condição familiar e ao incentivo do maestro, que logo notou o

talento da jovem, Haydée foi aprovada nos exames e ingressou, em

1927, no 4º ano do curso de piano 7 do Conservatório Dramático e

Musical de São Paulo. Aos 12 anos, mudou-se para São Paulo com

sua mãe, estudando nos colégios Minerva e Santa Inês e dedicandose

ao piano no clássico Conservatório. Este, instituição fundada em

1906, no auge da economia paulista cafeeira, era um dos maiores

representantes de ensino musical no país; e, mais, “corresponde à

democratização do ensino de música em São Paulo” 8 . Tradicional pelo

tempo, mas contemporâneo no ensino, era dotado de professores de

alto gabarito, os quais acompanharam Haydée em vários momentos

de sua carreira, tais como Zacarias Autuori, Julieta Reischert,

Ruth Barros, Carlos Cardim, Chagas Júnior, Furio Franceschini,


A pianista Haydée Menezes: viagens nas pontas dos dedos 61

Mozart Camargo Guarnieri, Samuel Arcanjo dos Santos e Mário de

Andrade. Este último, célebre literato modernista, era catedrático

de História da Música e foi paraninfo na formatura de Haydée, em 3

de abril de 1934, onde, no Teatro Municipal, junto a 230 formandas,

sendo somente 15 como “pianista concertista”, aos 19 anos de

idade formava-se no grau máximo com “distinção e louvor”. Dali

em diante, a recente “pianista concertista” se apresentaria nos mais

tradicionais teatros do país, incluindo o mesmo Teatro Municipal

de São Paulo 9 , onde se formara.

O olhar atento do público e as expectativas diante das críticas

já faziam parte do universo de Haydée antes mesmo de se formar,

pois a pianista já havia realizado concertos e audições desde 1930

no Grêmio Literário e Recreativo de Barretos e em cidades da

região como Olímpia, Jaboticabal, Jaú e São Paulo 10 . Um destes

concertos ocorreu em 1931, quando, no Teatro Santo Antônio, em

Barretos, Haydée se apresentou no festival de Heitor Villa-Lobos

com a pianista Antonieta Rudge, esboçando seu talento de artista

junto a estes nomes já consagrados nacionalmente 11 . Ainda antes

de sua formatura, Haydée já tinha sido contratada pela Instrução

Artística do Brasil e se esforçava para criar, em Barretos, um

núcleo da IAB. Esta, fundada em 1931 pela concertista Helena

de Magalhães Castro 12 , possuía sede central no edifício Glória, na

capital paulista 13 , e tinha por finalidade básica a criação de uma rede

de apresentações culturais no interior paulista e em outras cidades

por todo o Brasil, permitindo a formação do público brasileiro

através do conhecimento e apreciação da arte erudita e popular,

de modo que esse público tivesse a chance de conhecer os próprios

artistas nacionais, e, estes, formados em instituições de Música e

Arte, tivessem acesso ao emprego e elevação na carreira artística.

Durante sua existência, a IAB manteve núcleos em dezenas de

cidades, contando com subvenções financeiras de prefeituras e

clubes recreativos, além do apoio de hotéis e grandes instituições

artísticas e educativas que patrocinavam os saraus, conferências,

recitais, concertos e audições oferecidos a módicos preços. Para

essa rede funcionar, artistas contratados eram também designados

a atuarem na fundação destas sedes nas cidades, como foi o caso de


62 Karla Armani Medeiros

Haydée, que inaugurou e reinaugurou a IAB em Barretos, em 1935

e 1940, além da recente capital Goiânia (GO) e Araguari (MG) em

1938 e em Assis (SP) em 1941 14 . Em Barretos, a IAB funcionou

com subvenção da Prefeitura e do Grêmio Literário e Recreativo

de Barretos, clube tradicional e local de recepção e apresentação

de artistas importantes trazidos por Haydée pela IAB, tais como:

Dinorá de Carvalho, Helena de Magalhães Castro, Maria do Carmo

Botelho e Cândido de Arruda Botelho, Corrêa Júnior, Tito Schippa

e outros tantos.

A introspecção e a concentração da pianista em seus concertos

puderam ser vivenciadas pelos barretenses em vários momentos,

pois Haydée executou recitais e audições diversas vezes no Grêmio

Literário e Recreativo de Barretos, inclusive sob o patrocínio da IAB.

Entre os anos de 1935 a 1937, Haydée foi professora particular de

piano em Barretos, realizando recitais com suas alunas, expondo-as

em apresentações em homenagem à Santa Cecília 15 – a padroeira

da Música. Neste ínterim, foi homenageada em variadas ocasiões

na cidade, não só pelo Grêmio, mas por outras instituições, como

o Rotary e a ACIRB 16 . Do mesmo modo, Haydée era promotora

de recitais beneficentes em contribuição à igreja, à Vila dos Pobres,

ao Asilo “Anália Franco”, ao Asilo “Dr. Mariano Dias” e à

Santa Casa 17 , além de realizar recitais em benefício e incentivo a

outros colegas, como foi o caso do recital ao violinista barretense

Spartáco Rigonatti, também estudante do Conservatório, em 1934,

no Grêmio, promovido por Haydée e suas parceiras barretenses,

pianistas conservatorianas Adelaide Galati e Antonia Naves Vieira

Machado 18 . Ainda no Grêmio, Haydée realizou concerto com seu

professor de “Música de Câmara” do Conservatório, Zacarias

Autuori, em 1933, sendo uma apresentação que muito agradou ao

público, mais do que a própria vinda de Villa-Lobos dois anos antes:

“Foi mesmo, pelo encanto, pela atração, pela magia que exerceu sobre a

platéia, a maior festa, no genero, realizada em nossa terra, suplantando,

de muito, a da excursão Villa-Lobos. Villa-Lobos é, inegavelmente, uma

formidável compleição de artista, mas não soube fazer-se compreender pelo

nosso público. Autuori, ao contrário, egualmente grande e egualmente

perfeito, tem a seu favor um sentimento iluminado mercê do qual com


A pianista Haydée Menezes: viagens nas pontas dos dedos 63

simplicidade e facilidade acha o caminho dos nossos corações” 19 .

O dedilhar, deslizar e desnudar do piano de Haydée em Barretos

era sinônimo de enriquecimento cultural àquela gente interiorana;

trazia elementos de arte a um lugarejo que tinha de tudo para

ser afastado da música erudita e, mais ainda, das composições

brasileiras. Portanto, cada vez que se apresentava, além dos aplausos

instantâneos, recebia em seguida notas nos jornais, como a seguinte:

“Haydee Menezes provou com a belleza da sua presença a grandeza de sua

arte, dedilhando no seu maravilhoso teclado rosas de harmonias formidáveis,

estylizadas nos sons bárbaros da música africana e na graça deliciosa e

subtil da valsa de Moszkowsky” 20 . A referência à “música africana”

trata-se de “A Dança dos Negros” do mineiro Fructuoso Vianna,

em contraponto ao alemão erudito Moszkowsy. Esse balanço

entre os compositores nacionais e estrangeiros, sendo clássicos ou

modernos 21 , era recorrente nos concertos de Haydée, os quais, às

vezes, era programado por ela mesma ou pela IAB. Ela deslizava

os clássicos Chopin, Liszt e Scarlatti, assim como os modernos

Debussy, Pick Mangiagalli e Cyril Scott, na mesma intensidade em

que dedilhava os brasileiros Alexandre Levy, Camargo Guarnieri,

Alberto Nepomuceno, Souza Lima, Francisco Mignone, Francisco

Casabona, Heitor Villa-Lobos e Marcello Tupynambá — sendo

este compositor, maestro e crítico musical, casado com Irene

Menezes, prima de Haydée. Tupynambá acompanhou Haydée em

vários momentos de sua carreira 22 . A espetacularização do erudito

estrangeiro era importante, pois, muitas vezes, eram as músicas mais

conhecidas, clássicas; porém, a apreciação das canções brasileiras

modernas não só demarcava seus autores (maestros e professores),

como ressignificava o momento de nacionalização da cultura

brasileira, notadamente da Música – fenômeno iniciado a partir de

1914, com a Grande Guerra, e monumentalizado pela Semana de

Arte Moderna em 1922 23 . Haydée vivenciou essa fase nacionalista.

Declamações também faziam parte de suas apresentações,

pois Haydée era formada em Declamação, pelo Conservatório.

Em sua maioria, os concertos eram divididos entre solos de

piano com músicas estrangeiras, solos de canto, declamações de

poesia e, por fim, composições brasileiras em piano e/ou canto.


64 Karla Armani Medeiros

Na parte de declamações, os poemas eram de autores brasileiros,

tais como Guilherme de Almeida, Suzana de Campos, Cassiano

Ricardo, Jonny Doin, Bastos Tigre, Oliveira Ribeiro Netto, Ricardo

Gonçalves, Belmiro Braga, Júlio Tinton e Margarida Lopes de

Almeida. As temáticas desses poemas também revelam o momento

da busca pela brasilidade, pelo florescimento do Brasil regional –

muitas vezes traduzido na (re)construção da identidade paulista,

do bandeirantismo 24 ; afinal, a maioria destes poetas era paulista.

Inclusive, era este o tema recorrente nas críticas de jornais sobre os

concertos de Haydée e das repercussões da IAB. São longas, bem

escritas e até poeticamente relatadas as opiniões sobre Haydée em

suas apresentações, visto que, em praticamente todas as 49 cidades

visitadas por ela, os jornais publicaram algo a seu respeito. Na

generalidade, as críticas se referiam ao aspecto técnico, como a

boa pedalização, seu senso interpretativo, a clareza na execução,

a sonoridade agradável, suas linhas melódicas e a personalidade

como solista. Ademais, eram sempre delicadamente citadas as

características físicas e pessoais de Haydée, como sua beleza, simpatia

e jovialidade. Sendo justamente o fato de ser jovem o aparato usado

nas poucas críticas desfavoráveis que sofreu 25 , como uma pianista

que ainda estava em construção, prevendo seu futuro promissor

e comparando-a, neste futuro, a nomes de pianistas consagradas

como Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro e Antonieta Rudge.

Nas reportagens das múltiplas cidades, Haydée era qualificada

e apresentada como “virtuose”, “peregrina artista”, “consagrada

pianista”, “pianista de escol”, “festejada pianista bandeirante” e “grande

embaixatriz” 26 . Vocábulos crônicos.

Palmas dos mais diversos públicos recebeu Haydée durante

as viagens, de Norte a Sul no Brasil, que empreendeu pela IAB,

oportunidade na qual conheceu capitais e cidades do Norte e

Nordeste do Brasil Central e do interior de São Paulo. Destas

viagens, destacam-se três excursões principais, sob a organização

da presidente Helena de Magalhães Castro: a primeira foi a

excursão ao Norte/Nordeste, em 1938, com o violinista Antonio

Ferrer 27 , onde conheceram Manaus, Belém, Ceará, Natal e Recife;

aportaram depois em Vitória (ES) e na capital Rio de Janeiro.


A pianista Haydée Menezes: viagens nas pontas dos dedos 65

Nestas viagens, algumas literalmente sobre as águas de grandes rios,

Haydée relatava com bom vocabulário suas impressões, deixando

transparecer sua apreciação pela cultura brasileira e seus aprazeres

artísticos: “É imenso o Rio Amazonas. É muito pitoresca [a viagem].

Vão-se atravessando canais e avistando ilhas. Nada, porém, empolga

tanto a vista como o encontro dos rios Solimões e Negro. [...]. Manaus, a

‘cidade risonha’, embora pequena, possue mais vida e mais movimento do

que Belém. O Teatro Amazonas é magestoso. Há em seu salão de honra

uma série de telas magníficas sobre motivos indígenas, da flora e da

fauna amazonenses, pintadas todas por De Angelis. [...]. Affirmo, porém,

que estou encantada com o povo nortista. Todo ele é amável, simples e

hospitaleiro” 28 . Depois, vieram os concertos em cidades da região da

Sorocabana, em 1941, com a solista Celina Sampaio 29 ; e, em 1944,

os recitais na região Noroeste de São Paulo junto à cantora Nair

Duarte Nunes 30 e nas localidades da Araraquarense com a cantora

Almerinda Borges e o violoncelista Fausto Borges 31 . Haydée esteve

ladeada por outros importantes solistas e músicos nestes concertos

pela IAB, destacando-se Celina Sampaio, pianista discípula de

Vera Janacopulos. Componente das principais críticas em jornais

da década de 1940, “era autodidata em campos humanísticos, tinha base

filosófica, sensibilidade intensa, intuição reveladora e espírito religioso” 32 . O

contexto da década de 1940 também permite perceber a ascensão

da cultura brasileira, em especial a Música, como emblema para o

projeto do “Estado Novo” do presidente Getúlio Vargas, como se

vê em algumas críticas de jornais que anunciavam os concertos e a

música de Haydée como a personificação para os “novos tempos”,

“novos ritmos da vida” 33 , somando-se aos elementos de patriotismo

e civismo constantes nos atos e nas apresentações. Era o espírito

patriótico da época.

O retorno ao palco era constante nos concertos e recitais de

Haydée, acompanhada de outros músicos ou não, visto que seus

programas eram compostos por música instrumental clássica, erudita

e popular, bem como poesias brasileiras de aflorados sentimentos.

Nestas apresentações e viagens, Haydée era acompanhada pela

irmã Yolanda ou pela mãe Amélia, pessoa que a assistia também

em recitais íntimos e reuniões culturais, tais como aconteciam na


66 Karla Armani Medeiros

“cabana dos Becker” nas noites paulistanas, onde Haydée desfrutava

da companhia e prosa litero-musical de músicos e escritores como

Lígia Fagundes 34 . Os espaços de sociabilidade de Haydée não

se restringiam aos teatros e clubes; além dessas reuniões mais

intimistas, a pianista frequentava redações de jornais e emissoras de

rádio, onde também promovia concertos ao vivo; como foi o caso

da interpretação musical que ofereceu junto ao violinista Antonio

Ferrer ao programa “A Hora do Brasil”, no Rio de Janeiro, em julho

de 1938 35 . Nestas viagens, Haydée se aventurava em conhecer as

cidades, geralmente acompanhada por autoridades (interventores

e prefeitos), comparecendo em festas populares, comemorações,

quermesses, espaços de arte, além dos recantos de belezas naturais

como cachoeiras, rios, pontes, portos etc. Essa experiência, traduzida

em oportunidade de estudos e conhecimentos, elevava a imagem de

Haydée na própria cidade de Barretos, enxergando-a como “uma

artista tão singular que brotou da aspereza sertaneja de Barretos para ir se

entender em grande camaradagem com sujeitos complicados e geniais” 36 .

As impressões que Haydée promovia à plateia eram sonorizadas

não só pelos calorosos aplausos, mas também pelos recortes da

crítica jornalística. A plateia que lhe assistia, geralmente associados

de clubes ou pagantes dos teatros, era sempre adjetivada como

“fina”, “culta” e “seleta”, compondo uma cena tão poética quanto

a descrição desta nota jornalística: “O aparecimento da jovem artista

em cêna domina psicológicamente a plateia: silêncio absoluto, peitos

arfantes, olhos moribundos, êxtase verídico (quantas recordações…) naquela

população ordinariamente rebelde, mas agora curvada ao fascínio da que

tão bem e com acentos tão expressivos sabe falar o idioma do céu” 37 .

O silêncio tomou conta desses aplausos no derradeiro ano de

1947, quando, enquanto Haydée era aplaudida num concerto

beneficente em Guaratinguetá (SP), seu irmão José Eduardo de

Oliveira Menezes sofria um atentado a tiros em Barretos, sua terra

natal. Jornalista, redator do “Correio de Barretos”, José Eduardo

era um irmão querido, que usava do jornal como um estandarte

aos feitos artísticos da irmã. A própria cidade de Guarantinguetá

se sensibilizou com a notícia: “Antegosavamos uma continuação dessa

noitada artística de sexta-feira, no mesmo salão… O destino não quiz!!!


A pianista Haydée Menezes: viagens nas pontas dos dedos 67

[...] Apenas… compartilhamos com todos, com o coração compungido, o

epílogo dessa noite triunfal de Haydée de Oliveira Menezes. Sua triste mãe,

aqui com ela teve duplas lagrimas: as do triunfo inconteste de sua filha… e

as do infortunio de seu filho distante! Haydée! Guaratinguetá inteira sofre

contigo e com os teus!” 38 . Segundo a família, Haydée interrompia a

carreira de concertista após a morte de seu irmão, dedicando-se às

aulas particulares de piano na capital paulista, onde, naquele ano

de 1947, já era professora do mesmo Conservatório Dramático e

Musical de São Paulo 39 em que se formara treze anos antes. Era o

fim de Haydée como concertista e recitalista da IAB, mas não como

pianista, que foi até sua vida findar em 17 de agosto de 2004. Não

foi mãe; se casou em 1963 com Paulo de Oliveira e teve uma vida

dedicada ao piano como extensão não só de sua mão, mas de toda

a arte e conhecimento fertilizados em sua mente.

À História não cabe ressaltar suas qualidades pessoais, mas sim

conhecer sua concepção artística, contextualizando-a à época;

traçando, portanto, quase uma epopeia cultural dentro da história

local (Barretos) e regional (interior de São Paulo). A aparição dos

nomes dos artistas, bem como suas formações, as composições e

seus autores revelam traços da mentalidade daqueles anos 30 e

40, além de compreender o fenômeno nacionalizante da cultura

brasileira tão estudado pelo escritor Mário de Andrade, morto em

1945 (cujo falecimento foi lamentado em cartão oficial de Haydée 40 ).

Sendo assim, Haydée tornou-se personagem histórica não pela sua

experiência individual, mas pelo quanto essa vivência tem a mostrar

sobre o momento cultural da época, as instituições, pensamentos e a

difusão da música brasileira pelo toque de seu piano; apresentando-a

aos próprios brasileiros em recantos distantes. Trajetória não

captada e nem registrada pelo memorialismo local, que a Haydée

dedica poucas linhas, apesar de numerosas citações em jornais e

fotografias.

Mas a História corrige, anuncia, dá voz e cria possibilidades.

A obra de Haydée foi marcada por suas viagens pelo Brasil,

onde cidades longínquas aplaudiram a sua interpretação da música

erudita e brasileira. No entanto, as viagens em que a pianista elevou

o público no tocante à emoção e erudição, inverteram o olhar


68 Karla Armani Medeiros

ao velho teclado de marfim: de mero e frio instrumento a uma

plataforma de cultura. Pontas dos dedos que viajavam, da Rapsódia

de Liszt, à Alma Brasileira de Villa-Lobos.

HAYDÉE DE OLIVEIRA MENEZES, em recital de reinauguração da Instrução Artística do

Brasil no Grêmio Literário e Recreativo de Barretos, na noite de 10 de dezembro de 1940:

Artigo dedicado à Luzia Menezes Junqueira Netto, sobrinha de Haydée,

pelo inestimável gesto de doar-me o álbum de família da pianista, e a

Clovis de Oliveira Menezes (in memoriam) pela sensibilidade de ter

produzido este álbum, preciosa fonte histórica.

A autora.


A pianista Haydée Menezes: viagens nas pontas dos dedos 69

REFERÊNCIAS E NOTAS:

1 - Recorte de jornal arquivado no álbum “Haydée O. Menezes: sua vida artística”, produzido artesanalmente

por seu irmão Clóvis, e doado pela sobrinha Luzia Menezes à autora deste artigo.

Todas as citações de jornais deste texto, pertencem originalmente a este álbum, que integra 308

recortes de jornais e convites entre os anos de 1928 a 1948.

2 - ANDRADE, Mário. Aspectos da música brasileira. São Paulo: Martins, 1965, p. 16.

3 - ROCHA, Osório. Barretos de outrora. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1954, p. 125, 131.

4 - MENEZES, Ruy. Espiral: História do desenvolvimento cultural de Barretos. Barretos: INTEC,

1985, p. 61.

5 - No dia 21/02/1895. Fonte: Cisalhas de Osório Rocha, folha 150 - Acervo do Museu “Ruy

Menezes”.

6 - MENEZES, RUY ...op cit, p. 8.

7 - “Folha de Barretos”, Barretos (SP), 04/04/1934.

8 - FREITAG, Léa Vinocur. Momentos de música brasileira. São Paulo: Nobel, 1985, p. 37.

9 - “Correio de Barretos”, Barretos (SP), 09/12/1943.

10 - “A Semana”, 02/02/1930; “O Popular”, 02/02/1930; “A Semana”, 31/01/1932; “Folha

de Barretos”, 31/08/1933; “Correio de Barretos”, 02/09/1933; “Folha de Barretos”,

15/09/1933; “Folha de Barretos”, 21/09/1933; “Folha de Barretos”, 01/02/1934; “A Notícia”,

31/01/1934; “A Semana”, 04/02/1934 – todos jornais de Barretos. Exceções: “A Cidade

de Olímpia”, Olímpia, 28/01/1934; “O Combate”, Jaboticabal, 04/02/1934.

11 - Jornal “Correio de Barretos”, Barretos (SP), 13/06/1943, ed. 498, p. 1 – Arquivo do Museu

“Ruy Menezes”.

12 - Helena de Magalhães Castro (1902-1995), foi folclorista, concertista, pianista, professora,

declamadora e violonista. Era conhecida, não só por ser a fundadora e presidente da IAB, mas

pelos seus concertos de violão. Visitou Barretos em 1925, 1928, 1931, 1933 e 1944 (Fonte:

ROCHA, Osório. Reminiscências, vol II. Ribeirão Preto: Ed. Cori, s/d).

13 - BISPO, A.A.(Ed.). Ensino musical e difusão cultural em processos sociais de entre-guerras: A Instrucção

Artistica do Brasil e o papel da mulher no centenário de Carlos Gomes em 1936:

Helena de Magalhães Castro (1902-1995). Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira

162/15 (2016:04). (Site: http://revista.brasil-europa.eu/).

14 - “A Semana”, Barretos (SP), 03/06/1934; “O Triângulo”, Araguari (MG), 04/09/1938;

“Correio Oficial”, Goiânia (GO), 25/09/1938; “Correio de Barretos”, Barretos (SP),

15/12/1940; “Jornal de Assis”, Assis (SP), 09/08/1941.

15 - “A Semana”, Barretos (SP), 29/11/1936. Haydée foi quem inseriu essas homenagens à

Santa Cecília na cidade.

16 - “Correio de Barretos”, Barretos (SP), 20/03/1945 e 09/11/1944.

17 - “II Pícolo”, Barretos, 29/01/1930.

18 - “A Notícia”, 31/01/1934; “Folha de Barretos”, 01/02/1934; “A Semana”, 04/02/1934.

Todos jornais de Barretos.

19 - “Folha de Barretos”, Barretos (SP), 21/09/1933.

20 - “A Notícia”, Barretos (SP), 18/07/1935.

21 - Uma reportagem em Assis (SP) elogia a escolha do programa, falando dos clássicos e o

misto com os modernistas internacionais, “sem esquecer o maluco ‘Polichinello’ de Villa Lobos”

(“Jornal de Assis”, Assis, 15/08/1941).

22 - Exemplo em “Correio Paulistano”, São Paulo, 13/07/1938 e “Folha da Noite”, São Paulo,

19/07/1938.


70 Karla Armani Medeiros

23 - ANDRADE, Mário. Pequena História da Música, São Paulo: Livraria Martins Editora, 4ª

ed., Coleção Obras Completas de Mário de Andrade, vol. VIII, 1953, p. 194.

24 - Escreveu Helena de Magalhães Castro à Haydée em seu álbum: “Haydée querida: - Como

bôas paulistas sigamos o lema: ‘Pró Brasilia fiant eximia’ - Parabens a você pelo esforço em sustentar a

‘IAB’ em Barretos. Bandeirante de um alto ideal, tome por lema ‘Pró arte fiant eximia’. Helena de Magalhães

Castro (1936)”. (Fonte: “Correio de Barretos”, 09/12/1943). “Pró Brasilia fiant eximia” era o

lema do brasão do estado de SP, instituído em 1932 com a guerra civil paulista, substituído pelo

Estado Novo varguista e retomado com a redemocratização brasileira em 1946.

25 - “Diário da Manhã”, Ribeirão Preto (SP), 09/11/1938; “Commercio da Franca”, Franca

(SP), 20/11/1938.

26 - Os jornais das cidades interioranas e das capitais em que Haydée visitou teciam críticas e

comentários a seu respeito. Alguns jornais da capital paulista, bem demarcados por assinaturas

de críticos literários reconhecidos, também escreveram sobre Haydée - foram eles: “O Dia”,

“Folha da Noite”, “Folha da Manhã”, “Diário de S. Paulo” (Gracita de Miranda e Caldeira

Filho), “Estado de S. Paulo”, “O Correio de São Paulo”, “A Gazeta” (Corrêa Júnior), “Diário

Popular”, “Correio Paulistano”, “Diário da Noite” e “Jornal da Manhã” .

27 - “A Semana”, Barretos (SP), 05/03/1938.

28 - “Correio de Barretos”, Barretos (SP), 10/07/1938.

29 - “O Progresso”, Lins (SP), 02/09/1941.

30 - “O Dia”, São Paulo (SP), 29/03/1944; “A Voz do Povo”, Ourinhos (SP), 20/09/1941;

“O Jornal”, Araçatuba (SP), 30/10/1941; “Correio de Marília”, Marília (SP), 12/11/1941).

31 - “O Estado de S. Paulo”, São Paulo (SP), 11/10/1944.

32 - FREITAG, Léa V. ....op cit, p. 119.

33 - “O Popular”, Santo Anastácio (SP), 17/08/1941.

34 - “Correio de Barretos”, Barretos (SP), 21/05/1944; “Folha da Manhã”, SP, 20/09/1945.

35 - “Correio da Noite”, Rio de Janeiro (RJ), 07/07/1938.

36 - Crônica e Mário Mazzeo Guimarães em “A Semana”, Barretos (SP), 21/12/1938.

37 - “Jornal de Assis”, Assis (SP), 15/08/1941.

38 - “O Paraíba”, Guaratinguetá (SP), 17/08/1947, nota assinada por “Strabão”.

39 - “Correio de Barretos”, Barretos (SP), 14/08/1947.

40 - Cartão de presença no velório de Mário de Andrade em papel timbrado da Organização

Social de Luto, remetente: Haydée Menezes, 1945 – Acervo Mário de Andrade, pertencente ao

Instituto de Estudos Brasileiros.


Arquitetura da Paz

Luciene Figueiredo

Luciene Figueiredo nasceu em São Paulo,

capital, onde cursou Arquitetura e Urbanismo

na Universidade Mackenzie e pós-graduação

na UNESP/UMAPAZ, no curso Ecologia,

Arte e Sustentabilidade. Além de arquiteta, é

paisagista, professora, fotógrafa, pesquisadora

e mãe. Teve oportunidade de viajar para

mais de 30 países, onde estuda e garimpa

materiais para contribuir com inovações aos

que solicitam sugestões ou projetos, sempre

oferecendo sustentabilidade, estabilidade e

adequação


Luciene Figueiredo

Um lugar para abrigar não só o corpo, mas a alma. Onde se possa

ficar em paz com o mundo e consigo mesmo. Um lugar para se

encontrar e, talvez... achar a felicidade.

Fiz uma reflexão fundamental nessa época de conflitos: a inter-relação

entre Arquitetura e Paz. A primeira tiragem de meu livro foi de 300

exemplares, pela editora Scortecci. Também fiz publicação por e-book.

Foram vendidos aproximadamente 270 até a presente data.

O homem é um animal territorialista: se apega ao lugar que habita,

procura conforto, aconchego, paz e segurança.

O espaço habitado, privado, a arquitetura que abriga e acolhe são

sempre lembrados com carinho e respeito. O espaço público, muitas vezes,

não é valorizado e reconhecido por falta de informação e cultura.

Frequentemente associada à religião, ou a um estado diferenciado

de percepção, a Paz deve ser uma preocupação na hora de construir,

pois faz parte da sensação de conforto e bem-estar que a maioria das

pessoas almeja.

A arquitetura sustentável e a bioclimática são exemplos de métodos

construtivos que minimizam o impacto ambiental e podem ser consideradas

como Arquitetura da Paz.

A intenção é fazer arquitetura para pessoas, no nosso planeta, com

necessidade urgente de sustentabilidade, reconhecendo a dimensão humana,

incluindo os sentidos e os aspectos psicológicos e cognitivos.

É fundamental acolher os sonhos e necessidades de todos, independentemente

das diferenças de credos, valores e idades.

Paz é se harmonizar com o movimento da Natureza e deixar a vida

fluir. Com isso, retomo nossa condição animal, cuja gênese é a Natureza.

Essa retomada é importante pois, talvez, nos últimos tempos,

tenhamos ficado presos demais somente ao nosso lado racional e tecnológico,

com resultados duvidosos.

É preciso aprender a contemplar para se ter paz. Facilita essa con-


Arquitetura da Paz 73

templação quando temos lugares cuidadosamente criados para isso.

Profissionais importantes, desde o nosso emblemático Severiano

Porto, com suas propostas arquitetônicas brasileiríssimas, até Alain de

Botton, que teve a ousadia de unir Arquitetura com Felicidade, devem ser

estudados. José Miguel Aroztegui, destacado arquiteto uruguaio, Jean

Omer Marie Gabriel Monnet, político francês, visto por muitos como o

arquiteto da unidade europeia; profissionais que se preocuparam com

a Paz.

Nasci em São Paulo, capital, onde cursei Arquitetura e Urbanismo

na Universidade Mackenzie. Sou pós graduada pela UNESP/UMA-

PAZ e tive como Trabalho de Conclusão de Curso a pesquisa Arquitetura

da paz, percepções provocadas pelo espaço, que originou um livro.

A idéia de Arquitetura da Paz surgiu quando trabalhei na Secretaria

do Verde e do Meio Ambiente, na Prefeitura de São Paulo e uma colega

comentou que faria do espaço público existente ao lado do Viveiro

Manequinho Lopes, um local de estudos a UMAPAZ (Universidade

Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz). A concepção foi feita de

forma participativa. UMAPAZ considerou experiências de Universidades

Abertas em vários países e no Brasil, como a Unilivre - Universidade

Livre do Meio Ambiente, em Curitiba (PR), a Universidad Libre

del Ambiente, em Córdoba - Argentina; a U-Peace da Costa Rica, a

Universidad Libre de Cataluña, na Espanha e o Schumacher College,

na Inglaterra.

A construção da paz se preocupa não apenas com a construção, mas

também com a desconstrução. Para analisar e transformar conflitos,

mais atenção deve ser dada aos fatores políticos e psicológicos variáveis.

Devem ser feitos esforços para identificar e desmantelar paredes

sentimentais. Este termo refere-se a conceitos, teorias, dogmas, atitudes,

hábitos, emoções e inclinações que inibem a transição democrática e a

transformação construtiva dos conflitos.

Construímos o ambiente utilizando valores objetivos como forma,

função, cor, textura, aeração, temperatura, iluminação, sonoridade e simbologia.

Cada um desses valores resulta no espaço dimensionado, funcional,

que resulta no espaço arquitetônico.

O estudo das cores contribui com a adequação do seu uso, não só para

a segurança (codificação de perigos pelo uso da cor), ordenação e auxí-


74 Luciene Figueiredo

lio de orientação organizacional (princípio de organização pela aplicação

da cor), mas também para a saúde e bem-estar dos usuários (devido

a sua influência psicológica). Tema amplo e interessante.

Arquitetura sustentável preconiza que uma construção deve alterar

minimamente o meio ambiente em que está inserida. Deve utilizar a

maior quantidade possível de elementos de origem natural e garantir

um aproveitamento racional dos recursos necessários para iluminar e

ventilar os ambientes, de forma a reduzir os desperdícios nessas áreas.

As técnicas de construção com terra crua são muito antigas, existem

a mais ou menos 9.000 anos. Todas as culturas antigas utilizaram a terra

nas construções de suas casas, fortalezas e espaços religiosos. Ainda

hoje, um terço da humanidade vive em casas de terra; em países em

desenvolvimento, este número aumenta para mais da metade da população.

A terra é o material de construção mais importante e abundante

na maioria das regiões do mundo.

Realizei entrevistas com pessoas de diversas nacionalidades, idades

e profissões diversas, para verificar como arquitetura da paz pode ser

compreendida e vivenciada.

Iniciei entrevistas em fevereiro de 2011, concluindo em setembro de

2015 perguntando a diversas pessoas:

O que é Arquitetura da Paz? O que, numa edificação, te faz sentir mais paz?

Você sente mais paz num ambiente construído ou ao ar livre (praça, praia, montanha)?

Tive respostas variadas, como as culturas:

“É Arquitetura em sintonia com o entorno. É a função primordial da arquitetura:

prover abrigo. A sensação de proteção, e dependendo da paisagem, a de

contemplação. Segurança, mesmo que subjetiva e conforto. Amplidão, espaço

verde, janelões, pé direito alto. Eu me sinto mais em paz em ambientes construídos:

o velho e tradicional “aconchego do lar”. O ambiente construído, o abrigo,

é o que me protege das interferências externas”.

Nos países que visitei, estudei e garimpei materiais sustentáveis,

para contribuir com inovação e atenção, que despendo aos que solicitam

sugestões.

Estive em lugares que me remeteram à valiosa Paz:

1. Machu Picchu (Peru) está situado no alto de uma montanha, a


Arquitetura da Paz 75

2.400 metros de altitude, cercada por outras montanhas e circundada

pelo rio Urubamba.

2. Cemitérios. Cemitério deriva de palavras greco-latinas que podem

ser traduzidas como “por a jazer” podendo ser lugares de práticas religiosas.

Existem vários cemitérios denominados Cemitério da Paz.

3. Ambientes próximo ao mar, lagos ou rios sempre são convidativos

para contemplação. Rio e lagos são espaços de paz, onde o usuário

usufrui os prazeres proporcionados pela natureza da água. Por isso é

tão comum construção de laguinhos, cascatas num jardim ornamental.

4. Áreas verdes, parques ou praças são convites à admiração e contemplação

da Natureza. As áreas verdes são componentes que propiciam

alto nível de qualidade de vida e desenvolvimento humano à cidade.

Jardim funcional, varanda, terraço, jardim vertical, jardim drenante,

jardim sensorial e telhado verde podem ser instalados, desde que se

planeje uma manutenção adequada. Cada planta tem um nome, uma

necessidade e um efeito estético único. Muito estudo é necessário para

saber a melhor localização da vegetação, para contemplar o belo, com

manutenção adequada.

Todas as atividades humanas sofrem a influência de três aspectos:

físico, cognitivo e psíquico. A conjugação adequada destes fatores (a análise

de um domínio levando em consideração o outro) permite projetar

ambientes seguros, confortáveis e eficientes.

A natureza proporciona integração e paz em pessoas que usufruem

de área verde, seja contemplando ou interagindo no espaço.

Em meu livro há detalhamento de Certificações para construções

sustentáveis (o Leadership in Energy and Environmental Design (LEED)),

e a Certificação da Construção Sustentável – Processo AQUA® (Alta Qualidade

Ambiental).

Pilares da Arquitetura da Paz:

1. Estabilidade - É importante reconhecer o solo, usar a fundação adequada,

para que a construção seja estável. O edifício deve sobreviver às

intempéries. Deve ser seguro.

2. Sustentabilidade - Tem três componentes: Ambiental, econômico e social.

Arquitetura utilizando os recursos ambientais existentes no local.


76 Luciene Figueiredo

Economicamente viável. Socialmente justa. Sustentabilidade é tema

extenso e requer constante aprendizado.

3. Adequação - Refletir, considerando o momento sócio-histórico que

estamos vivendo e projetar a edificação apropriada ao entorno, considerando

fatores como cultura, religiosidade, enfim, harmonia na implantação.

Além de arquiteta, urbanista, paisagista, sou mãe, esposa, professora,

fotógrafa, pesquisadora, garimpeira e, agora, escritora.

Sou fiel às minhas convicções. Meu TCC se transformou em livro

com apresentação escrita por Ruth Cassab Brólio, contra-capa de Benedito

Abbud.

Recortei o presente texto desta obra e o incluí nesta coletânea, com

propósito de Bem Viver, que une diversas mulheres de importantes saberes.

Isto é um convite à reflexão, e que as boas energias abençoem seu

lar.


Christine de Pizan:

uma escrita pela

igualdade

Lucimara Leite

Professora universitária por mais de 20 anos.

Pós-doutora em Letras Clássicas e Vernáculas,

pela USP e Universidade Aberta de Lisboa;

doutora em Literatura Francesa pela USP

e Sorbonne; mestre em Comunicação e

Semiótica (PUC) e graduada em Filosofia (PUC)


Lucimara Leite

Christine de Pizan nasceu em Veneza, em 1364. Seu pai, Thomas

de Pizan, era professor da Universidade de Bolonha; sobre sua

mãe, quase nada se sabe. Com 4 anos de idade, a pequena Christine

muda-se com a família para Paris, pois seu pai havia sido convidado

para trabalhar na corte do rei Charles V.

Em Paris, sob a orientação de seu pai, Christine inicia-se no mundo

das Letras. Graças à sua inclinação para o conhecimento e a posição

exercida por seu pai, teve acesso à grande biblioteca do rei, considerada

uma das melhores na época. Quando completou 15 anos, seu pai escolheu

para ela, como marido, Etienne Castel. Seu pai morreu em 1386 e,

três anos depois, seu marido, após dez anos de casamento feliz, como

ela mesma escreveu. A partir desse momento, sua posição muda. De

filha e esposa, agora dela depende o provimento da família: sua mãe e

seus três filhos.

Nesse momento de desamparo, ela encontrou refúgio nos estudos

para suas aflições. O conhecimento tornou-se também o modo de ganhar

o seu sustento e o da família.

A partir da boa recepção de seus textos, Christine começa a escrever

publicamente e adota o nome Pizan, para homenagear seu pai. Escritora

prolífica, em pouco tempo (1399-1405), produz uma obra com aproximadamente

quinze livros: poemas, tratados de Educação, morais e

políticos, entre outros. Destaca-se a temática do feminino, a apresentação

da ideia de que as diferenças entre homens e mulheres são de

origem social.

O interesse pela temática da igualdade da mulher apresentada por

Christine nos textos Cité des dames (1405) e Trois vertus (1406), nos quais

procura traçar o perfil de uma mulher medieval atuante, ativa, companheira

do marido, aconselhando-o e trabalhando a seu lado ou mesmo

na falta deste, quando assume a administração do reino, ou da fazenda,

ou da empresa de manufatura, do grande ou pequeno comércio, con-


Christine de Pizan: uma escrita pela igualdade 79

forme sua posição social, levou-nos a buscar mais informações sobre

essas obras e o contexto em que foram produzidas. Saber como era a

vida das mulheres do final do século XIV e início do XV, perceber na

obra da autora como ela registra as marcas de um período que foi de

avanço, no que tange às prerrogativas femininas, e nos obriga a rever

nossas ideias sobre ele.

O primeiro, Cité des dames, foi sua tentativa inaugural de escrever

uma história das mulheres, usando, como forma de argumentação, o

exemplo de vida de mais de cento e vinte mulheres, em sua maioria

personagens mitológicas. Tenta, assim, resgatar a honra das mulheres,

pois os exemplos atestavam as virtudes e a força que elas naturalmente

possuem. A história das mulheres, assim como de outras minorias excluídas,

não necessita de heroínas, pois o que chega até nós são biografias

em que as mulheres se identificam pelos atributos de mãe e esposa

de homens famosos e nunca por seus próprios feitos.

Christine, nesse ponto, não inovou, pois ela corroborava com o sistema

no qual estava inserida; porém, tem como objetivo claro restabelecer

a honra das mulheres. Tal procedimento atesta duas características

da autora: sua erudição, sem dúvida, mas também sua angústia diante

do sentimento de misoginia que afetava o julgamento das mulheres.

No capítulo I do Livro I, descreve um momento de insanidade, em

que “culpa” a Deus por tê-la feito nascer num corpo de mulher:

... en lamentations envers Dieu, disant cela et encore davantage,

tristement affligée, car en ma folie je me désespérais que Dieu m’ait

fait naître dans un corps féminin. 1

Ao buscar as causas desse sentimento auto-depreciativo, vai encontrá-las

nas autoridades, clérigos e homens de Letras, que pelo poder da

escrita e da palavra denegriam as virtudes femininas.

A sua argumentação para provar a inocência da mulher fundamenta-se

na bondade de Deus (como Deus, em sua infinita sabedoria e perfeita

bondade, criaria um ser tão mau?), pois acredita que haja algo de errado

no fato de tantos condenarem não a uma, mas a todas as criaturas feitas

por Deus, só que do sexo feminino.

1 - PIZAN, C. La cité des dames. p. 38. Tradução nossa: “... lamentando para Deus, dizendo isso e

ainda mais, tristemente afligida, pois em minha loucura me desesperava porque Deus me fez nascer

num corpo feminino”.


80 Lucimara Leite

Não aceita a opinião de que as mulheres sejam criaturas frágeis, que

facilmente se deixam levar pelos vícios. E vai rebater esse pensamento

equivocado dos homens no próprio terreno deles. Tanto é assim que

ousa lançar mão de uma arma masculina, a escrita, ocupando um lugar

até então restrito aos homens, com raras exceções, como era o caso de

Marie de France.

É dessa mulher ativa, responsável pela educação dos filhos, conhecedora

das leis, das artes, da Literatura, dominadora da eloquência e

produtora de conhecimento que a autora nos fala. Seu objetivo era fazer

com que os homens saíssem de sua ignorância em relação às mulheres

e, também, que os exemplos e conselhos apresentados em suas

obras pudessem servir de espelho para outras mulheres.

A educação privilegiada que Christine teve, sua inclinação para os

estudos e a forte influência de seu pai e, depois, de seu marido, homens

ligados ao conhecimento e à política, marcaram-na profundamente,

fazendo com que não se abandonasse ao acaso, mas procurasse, justamente

nesse ambiente das Letras, o consolo para a perda de seus entes

queridos e a maneira de vencer suas dificuldades financeiras.

Christine foi escritora numa época em que, para nós, é difícil imaginar

que existissem mulheres capazes de ter outra função além daquela

determinada para seu sexo: gerar. Além disso, viveu da profissão de

escritora. Foi uma escritora-mulher que ousou afirmar, no início do século

XV, que a origem da desigualdade entre homens e mulheres é de

fundo social, devido ao fato de as mulheres terem tido seu acesso à

Educação negado e possuírem apenas experiências domésticas. Para

ela, esse não-acesso à Educação e a falta de exercício na esfera pública

é que determinavam a exclusão da mulher na sociedade.

De modo geral, há uma grande dificuldade em se obter informações

sobre a Idade Média, problema que se agrava quando se trata de conhecer

a função e o lugar da mulher medieval, sua relação com o marido,

com os filhos, a maneira de educá-los, o transcorrer do seu dia-a-dia,

seu trabalho, etc. É importante, enfim, conhecer melhor o cotidiano

dessas mulheres para compreender que tipo de influências dessa época

ainda se fazem presentes entre as mulheres de hoje. Por isso, conhecer

Christine de Pizan enquanto escritora engajada no movimento social

de restabelecimento da moral feminina é de alta relevância, pois ela


Christine de Pizan: uma escrita pela igualdade 81

escreveu sobre assuntos políticos, sociais, econômicos, educacionais e

morais, e sua erudição é clara no notável conjunto de sua obra.

A mulher medieval já tinha sua identidade determinada pelo olhar

do homem: ela era a figura frágil, inconstante e sedutora, que precisava

ter sempre um homem para guiá-la, para ser a “cabeça”. Esse modo

de olhar para ela foi transformado a partir do século XII, com o amor

cortês e o culto à Virgem Maria. O signo mulher passa, então, a oscilar

entre o papel de santa e o de sedutora, que corrompe o homem. Ela

é idolatrada, principalmente, na função de mãe, como o demonstra a

literatura da época. Nela, surgem biografias de várias mulheres com

destaque para o seu papel de mãe e esposa.

Uma contribuição para essa mudança de pensamento em relação

à mulher foi o ressurgimento das cidades, pois ali elas tiveram uma

presença mais importante e significativa. Chegaram mesmo a dividir

com os homens desde as tarefas domésticas até os papéis e ações de

trabalho no cotidiano dessas comunidades. Exerceram o ofício de pedreiras,

comerciantes, sapateiras, etc. e, algumas vezes, mesmo sem a

tutela masculina. Essas trabalhadoras, juntamente com as religiosas,

foram as primeiras mulheres a ocupar, efetivamente, uma posição mais

ativa na sociedade medieval. O convento representava uma alternativa

de vida mais autônoma para as mulheres, pois eram elas que os geriam

e administravam.

Foi entre esse público que Christine de Pizan encontrou seu “leitor”.

A sociedade do final da Idade Média começava a abrir-se economicamente.

Nela, existia espaço para as mulheres, para além do fiar e gerar

filhos. A autora teve a perspicácia de atender ao chamado de sua missão:

restabelecer a dignidade feminina, principalmente se fazendo ouvir

pelos poderosos da época. Ela, certamente, acreditava que, se esses

homens apoiassem a sua causa em favor das mulheres, eles serviriam

de exemplos para os outros e mesmo os mais humildes se espelhariam

neles.

Um dos grandes méritos de seus textos é o argumento que as mulheres

só são inferiores aos homens porque elas não tem acesso à Educação.

Com esta tese, Christine insere o primeiro debate feminista,

Querelle des femmes. Ela ousa assinar suas obras, defender as mulheres,

escrever para elas e também para os homens, fazer uma primeira histó-


82 Lucimara Leite

ria das mulheres e um manual de educação feminino:

Minha senhora, se a mente delas é tão capaz de aprender e conceber

quanto a dos homens, por que elas não aprendem ainda mais?

Ela me respondeu: ‘Minha querida criança, porque não é necessário

à sociedade que elas se ocupem dos afazeres dos homens...’ 2

As retaliações de aproveitadores sofridas pelas viúvas por sua inexperiência

na esfera pública dirigiram a escritora para outro tema: a educação.

Mostrava que era preciso que se preparassem as meninas para

a vida, que elas tivessem uma educação nivelada à dos meninos, e que

esse atendimento se estendesse a todos os estamentos sociais.

Tal abordagem era extremamente inovadora para a época, pois ela

afirmava que a diferença entre os sexos era de cunho social, argumentando

que as mulheres possuíam a mesma capacidade intelectual que

os homens, mas que, devido a seu isolamento social, eram consideradas

menos capacitadas. Portanto, além da reivindicação por uma educação

participativa das mulheres, Christine postulava a necessidade de

Educação para todos. Para ela, a principal virtude a se ensinar para as

meninas deveria ser a prudência, para que, quando mulheres, pudessem,

com discrição, se defender das injustiças sofridas.

As discussões que ela trouxe à baila são importantes por terem provocado

uma reflexão e, consequentemente, uma nova percepção: a das

mulheres enquanto indivíduos que começam a emergir na sociedade.

Também, enquanto testemunha de um tempo, ela escreveu sobre os

problemas das mulheres da época, mostrando sua difícil sobrevivência

em condições econômicas e políticas adversas.

Dessa forma, Christine trouxe para a Literatura dados completamente

novos. E o mais relevante é que a realidade, ali, é vista sob a

perspectiva de uma mulher que sofreu a angústia de ficar viúva e de ter

de sustentar uma família.

Portanto, a partir de um enfoque particular, foram passadas informações

históricas e sociais sobre a mulher em geral, que perante à sociedade

era um ser marginalizado.

2 - PIZAN, Christine. La cité des dames. Paris: Éditions Stock, 1986. p. 92. Tradução nossa.


Christine de Pizan: uma escrita pela igualdade 83

Em 1430, Christine morre. Deixa textos que, além de serem um registro

de sua época, propõem algo de revolucionário para ser colocado

em prática: o direito das mulheres, de qualquer estamento social, à

Educação.

Se pensarmos que Christine de Pizan escreveu há mais de 600 anos,

perceberemos a modernidade e relevância de seus textos e de sua vida.

E além disso: da relevância dos exemplos do modo de vida das mulheres

do início do século XV, observações essas advindas do cotidiano

de mulheres de várias camadas sociais.


Crônicas de Maria

Maria Queiroz da Cunha

Nascida na Fazenda Cachoeira, em Itapagipe,

Minas Gerais. Foi professora efetiva estadual,

graduada em Letras e pós-graduada em

Alfabetização. Atuou como docente no ensino

Fundamental e Médio. É também compositora

do Hino a Itapagipe e o da Escola Estadual

Santo Antônio, onde efetivou sua docência por

longos anos, passando a fazer parte da vida

educacional de praticamente todos os jovens

da cidade.

Descendente de família tradicional da

região, ainda muito jovem encantou-se

pelo vasto conhecimento que os livros lhe

proporcionavam; neles, encontra incentivo e

inspiração para expressar em contos e poemas

suas lembranças e emoções


Maria Queiroz da Cunha

A PRIMEIRA MUDANÇA

Ali pelos três anos de idades, tivemos que nos mudar do nosso pedaço

de terra, porque meu pai precisou vendê-la.

Assim, fomos para uma fazenda que não era nossa, chamada Queixado.

Ali vivemos pouco tempo.

Lembro-me da casa, que era um grande rancho coberto de capim

sapé... tinha quintal, como toda casa de fazenda.

No fundo havia um canavial: as canas eram doces, muito saborosas.

Esse canavial se encerrava à beira de um pequeno riacho. Atravessado

sobre ele havia um grosso tronco de madeira (uma pinguela) dando

acesso ao seu outro lado.

Ali moravam nossos vizinhos, uma família de três pessoas: a mãe,

um filho (rapaz com um tanto de surdez) e uma moça de lindos olhos

azuis.

Seus parentes eram da cidade de Uberaba e, sempre que os visitavam,

levavam chocolate em pó para misturar ao leite.

Ficamos amigos. A moça sempre me pegava no colo e me levava

até a casa deles. Sempre preparavam o leite com o chocolate e, se eu

não estivesse lá, ela ou a mãe gritavam: Maria! Vem beber chocolate! Eu

saía correndo pela trilha entre o canavial, atravessava o córrego pela

pinguela e, do outro lado, o cachorro deles, marrom com grandes manchas

brancas, de nome Tupi, já me esperava de cara alegre, abanando o

rabo. E já vinha a mãe, segurando uma caneca esmaltada, de cor azul,

decorada com delicadas florzinhas amarelas; vinha assoprando o leite

para esfriar.

Eu adorava essa cena! Ainda continua entre as tantas memórias minhas.

Lembro-me, ainda, neste mesmo lugar, do dia em que, distraída,

desapareci de perto dos meus irmãos. Acordei com uma gritaria: Mariaaa!!!

Levantei a cabeça, ainda sonolenta, olhei, e minha irmã mais


86

Crônicas de Maria

velha, que sempre cuidava de mim, gritou: Aqui, ela! Achei!

Eu estava dormindo no batedor — tábua usada para bater, lavar as

roupas. E todos diziam, ao mesmo tempo: A onça vai te comer! A sucuri

também! Não me lembro de sentir medo.

A SEGUNDA MUDANÇA

Assim o tempo ia passando, até que nos mudamos para outra fazenda

ainda mais distante, de nome Suturno. Nunca entendi o significado

desse nome; talvez uma forma equivocada de dizer o nome do planeta

Saturno.

Essa fazenda ficava quase na pontinha do Triângulo Mineiro, onde

dois rios se encontravam: o Paranaíba, que separa Minas de Mato

Grosso e o Rio Grande, que separa Minas do Estado de São Paulo.

A fazenda ficava próxima do Rio Grande; a cidadezinha mais perto

de nós era Santa Clara — ainda está lá, no estado de São Paulo.

Meu pai atravessava o rio de canoa e lá fazia compras das coisas

que a gente não produzia, como alguns remédios, tecidos mais finos,

ferramentas e outros.

Nossa roça de arroz, feijão e milho, ficava à beirinha do rio. Meu pai

sempre deixava na água, abaixo de uma corredeira do rio, um anzol

com isca: a ponta da cordinha ele amarrava em um galho da árvore que

se debruçava sobre o grande poço de águas calmas.

Isso era feito à tardezinha e aquilo quase não falhava: bem cedinho,

lá estava meu pai puxando a linha com um grande peixe preso

ao anzol. Ora dourado, ora pintado. Era uma alegria vê-lo chegando

montado em nosso cavalo, com aquele peixão: a cabeça presa ao arreio

e arrastando o rabo no chão.

A CASA

A casa desta fazenda também era grande, de pau-a-pique, só que

coberta com telhas tão antigas e cheias de lodo que mal se via a tradicional

cor marrom.

Antes da casa, para se chegar até ela, havia uma estrada por onde

quase não passava ninguém, pois a redondeza era bem pouco povoada.

No terreiro da sala ficava o curral, onde se ordenhavam nossas queridas

vaquinhas.


Maria Queiroz da Cunha 87

Tínhamos nosso quintal com algumas plantações e animais domésticos:

porcos, galinhas.

Bem abaixo do quintal passava um córrego de águas muito cristalinas,

o fundo dele era forrado por pedregulhos de formas arredondadas

e cor beje bem clarinha salpicado por pedrinhas bem pretinhas e redondinhas.

Utilizávamos a água desse córrego para todas as nossas necessidades.

Era tão limpinha, deslizando tão serena que mal se percebia a água

correndo ali.

O POÇO

Um pouco acima de onde pegávamos água — em latas e baldes —

para lavar até a casa, havia um poço, de bom tamanho, com algumas

plantas aquáticas do tipo Santa Luzia, típicas de águas calmas.

Ali tomávamos banho, brincávamos, engolíamos peixinhos vivos

acreditando que isso ajudaria a aprender nadar... era só felicidade! E

gostávamos muito de catar umas pedrinhas tão brilhantes, tão atraentes,

que pereciam prender nossa visão e nosso interesse por elas! Não

conseguíamos parar de juntá-las e havia muitas delas por toda margem

do poço.

Só depois de muito tempo entendi que pedrinhas eram aquelas; posso

dizer que brincávamos com um tesouro e, como não conhecíamos o

valor de tais pedrinhas, ao cessar as brincadeiras, acabávamos abandonando-as

por ali mesmo!

Um aviso aos leitores que se, por acaso, passarem os olhos sobre

estas páginas: não se aventurem na esperança de irem até lá em busca

das preciosas pedrinhas: por lá, agora, é só canavial para produção de

combustível.

A PINDAÍBA

Do outro lado desse córrego formou-se um brejo, meio pantanoso,

coberto por árvores altíssimas e vegetação mais baixa. Ali se abrigavam

vários animais selvagens daquela região, inclusive diversos tipos de cobras

— e a temida Sucuri.

Supunha-se que nenhum ser humano civilizado estivera por aquele

lugar de tão difícil acesso e perigoso que era.


88

Crônicas de Maria

No alto das árvores cantavam pássaros de cantos alegres como os

periquitos, as maritacas, araras e muitos outros; também triste o Urutau,

camuflado nos galhos secos, e a coruja, piando naquelas noites silenciosas

como um aviso macabro de que coisas ruins iriam acontecer;

por outro lado, o magnetismo daquele lugar transmitia, ao mesmo tempo,

a sensação de curiosidade, medo, respeito e admiração por aquela

magnífica paisagem virgem, intocada.

NOSSAS BRINCADEIRAS

Nossas brincadeiras daquela época seriam hoje consideradas perigosas.

Como não havia muito que fazer, antes da construção de uma escola

na vila próxima, passávamos grande parte do tempo brincando e

inventando novas brincadeiras.

Não havia vizinhos perto de nós; então brincávamos nós, irmãos,

grandes e pequenos.

Uma das brincadeiras que gostávamos bastante era na palha de arroz.

Como a roça ficava meio longe de casa, papai transportava os feixes

de arroz para serem batidos no terreiro de casa, que era limpinho.

Esse trabalho consistia em bater os feixes em tábuas suspensas para

separar os grãos da palha. Os grãos eram guardados em uma grande

caixa de madeira chamada tulha e seriam usados no decorrer do tempo,

até a próxima colheita.

Com as palhas, brincávamos fazendo grandes montes perto de árvores

ou paus bem altos, onde subíamos e saltávamos sobre as palhas.

Era muito divertido!

Brincávamos também de esconde-esconde, cobrindo-nos com as palhas

e, quando meu irmão mais velho não ia para a roça com nosso pai,

as brincadeiras focavam bem mais agitadas, pois ele era muito criativo

com elas e “incrementava” tudo.

Sempre que era a vez dele procurar nos montes de palha onde havia

(ou não) crianças escondidas, ele vinha com uma vara enorme surrando

os montes... só se ouvia Ai! Ai! Ai!

Outras vezes, com um isqueiro que ele guardava “a sete chaves”, ia

colocando fogo nos montes de palha: era criança saltando e correndo...

ninguém esperava pelo fogo! E ele dando risadas. Imagine uma brinca-


Maria Queiroz da Cunha 89

deira dessas nos dias de hoje?

Sempre que vejo, nos Jogos Olímpicos de hoje, o salto com varas, o

salto à distância, a corrida de percurso, fico pensando que tudo isso já

praticávamos sem nunca ter tido acesso a informação nenhuma, pois

não existiam meios de comunicação naquele lugar tão isolado.

Para o salto com varas, meu irmão as cortava perto da pindaíba:

eram bem compridas e de uma madeira que curvava mas não quebrava.

E saltávamos moitas de ramos ou qualquer outro obstáculo, inclusive

alguém deitado no chão, que se levantava na hora do salto, fazendo

“sacanagem”.

Ele era sempre o campeão nesta modalidade de altura do salto, pois

era maior e pegava a vara mais comprida.

No salto à distância, o mérito ficava sempre com minha irmã mais

velha, por ser a mais alta de todos. Já na corrida, imagina só quem vencia

sempre? O tiquinho de gente que era eu, a Maria! Agilidade e rapidez

não faltavam àquelas perninhas que até hoje caminham, digamos,

com a firmeza que ainda lhes permitem tantos novembros passados.

NOSSO CAVALO

Tínhamos um cavalo branco de nome Matungo, já com certa idade,

e isso o tornava bem mansinho e camarada.

No pasto onde ficava, havia vários cupinzeiros; nem precisava chamá-lo:

ele já vinha trotando e encostava ali para montarmos nele. E,

assim, íamos montando enquanto coubesse... dávamos várias voltas

pelo pasto: de repente, todos despencávamos ao chão — ele parava,

montávamos de novo, ele cansava e, a cada cupinzeiro por que ele passava

perto, dava uma paradinha para ver se alguém descia.

As brincadeiras eram o melhor de nossas vidas! Quase sempre nos

esfolávamos no chão duro, sofríamos cortes nos pés e outros acidentes.

E o remédio? Salmoura, água com sal... alguns gritavam: Ai! Ai! Ai! E

mamãe, com todo bom humor característico dela, achava graça. Longe

de ser um sentimento de vingança por nossas peraltices; ela curava nossos

ferimentos repetindo uma antiga frase:

O que arde, cura. O que aperta, segura.

Doía muito, mas não era empecilho para repetirmos tudo nos pró-


90

Crônicas de Maria

ximos dias.

A TAPERA

Seguindo a estrada que passava em frente nossa casa, havia uma

tapera (restos de antiga moradia). O que comprovava isso eram os grandes

troncos de madeira meio cobertos de terra, formando quadrados e

desenhando os cômodos da casa.

Via-se que eram Aroeira, porque a madeira era escura e bem lisinha

com fendas bem profundas, trabalhadas cuidadosamente pelo tempo.

Outros troncos de pé, com alguns meio caídos, escorados neles, davam

uma sinistra impressão de um tempo muito antigo e desconhecido. Diziam

que ali viviam almas penadas, que o lugar era assombrado.

Contavam histórias de acontecimentos inexplicáveis ali.

Uma velha goiabeira de troncos e galhos retorcidos, que resistia ao

passar dos anos, contribuía também com aquele prenúncio de coisa

má, apesar dos frutos docinhos que ela produzia, às vezes colhidos pelos

que desafiavam os assombrosos relatos feitos por pessoas do lugar.

Ali, a estrada passava entre dois morros pedregosos e de cor esbranquiçada.

Sempre passávamos ali correndo.

Certa tarde, pedimos a nossa mãe para irmos à casa de uma família

amiga. A casa ficava meio longe, para lá dos dois morros.

Não me recordo o que fomos fazer lá. Só me lembro de que anoiteceu

e tivemos que voltar para casa morrendo de medo por ter que

passar, já de noite, bem em frente à tapera.

Íamos todos juntos, bem pertinho um do outro. A alguns metros

daquele lugar, quando olhamos para o mato, ali pertinho de nós, vimos

uma luz, meio prateada, sem nada que lhe servisse de suporte: era só

a luz mesmo e ela se mexia — ia para um lado, para outro, subia, descia...

ficamos aterrorizados! Parecia que nossas pernas tinham virado

pedras, não conseguíamos nos mexer nem sair do lugar.

Em um momento, a luz se movimentou em nossa direção: aí sim,

adeus pernas pesadas! Foi aquela gritaria e correria estrada afora.

De repente, minha irmã, que estava sempre cuidando de mim, parou

e gritou:

Maria, cadê a Maria? Mariaaaa!


Maria Queiroz da Cunha 91

Eu era a menor dos que estavam lá e respondi, já bem à frente do

caminho:

Estou aqui! - comprovando, assim, a minha grande habilidade nas

corridas.

Chegamos em casa de pernas bambas e com o coração “a sair pela

boca”. Contamos para nossa mãe, todos falando ao mesmo tempo, e

ela disse:

Aquela luz é a Mãe do Ouro. Ela aparece nos lugares onde tem ouro enterrado,

assombrando os que passam para não pegarem o ouro.

Ficamos meio confusos. Mas, naquele tempo, acreditamos: muitos

destemidos se atreviam a cavar o chão onde a luz aparecia, mas nunca

se ouviu histórias de encontrarem ouro não.

Hoje, já existe explicação para este fenômeno. Vazamento de gás

metano, formado no solo por decomposição de materiais inflamáveis

em contato com a atmosfera.


ELAS no lugar de fala,

escrita, exercício político

privado e público

Maria Augusta Dib

Maria Augusta Nogueira Machado Dib - Guti

- apelido de infância, vivida em Barretos onde

nasceu em 1955.

Filha de Maria Flávia Nogueira e Antonio

Ribeiro Machado, casada com Jorge Moysés

Dib Filho, mãe de Jorge Neto/Joca, Antonio

José/Tom e Luis Felipe/Lipe, avó de Lucas,

Vinicius, Marina, Mariana e Isabel.

Graduada em Psicologia, com especialização

em Psicanálise, mestrado em Comunicação e

Semiótica e doutorado em Filosofia.

Psicoterapeuta e professora de Psicologia e

Filosofia.

Diretora do Apropriarte - Espaço de Arte,

Educação e Cultura, em São Paulo.

Participa da Pastoral da Mulher Marginalizada

desde 1993, iniciando em Fortaleza/Ceará

com projetos de atendimento às adolescentes

prostituídas grávidas que se drogavam


Maria Augusta Dib

Jornada de qualquer mulher supera o privado e o psicológico e

“A atinge o público e o cultural” (Allan Chinen).

Viventes humanos, de todos os gêneros, são seres políticos exercendo

esta arte bem ou mal nos espaços privados e fora deles.

A cada vez que eu acabava de dar à luz um menino (tenho três filhos

já adultos), minha avó materna me dizia

Que bom minha neta! uma mulher a menos no mundo para sofrer.

Eu, que experimentava satisfação em ser mulher e me sentia importante

por sê-la, não entendia como aquela mulher forte, guerreira, mãe

de 5 mulheres e 5 homens, avó e bisavó — politizada de tal monta que

me ensinara ser apaixonada por política — pensava daquela forma.

A faculdade de Psicologia, a vida doméstica de dona de casa, esposa,

mãe, junto à vida pública de psicóloga — sempre estudando, trabalhando

em escolas e clínicas, e agente na Pastoral da Mulher Marginalizada

me explicaram o que minha avó me falava. Também passei a entender

um poema de Coelho Neto (1864-1934) que, menina, eu declamava

no Colégio Auxiliadora, achando-o lindo e triste, mesmo sem entendê-lo.

Mulheres somos de muitas etnias, diferentes culturas, variadas crenças

religiosas, filosóficas, científicas. Nós, mulheres ocidentais, recebemos

inicialmente mais influências das culturas grega e bíblica. Em ambas,

a mulher surge depois do homem, e com uma espécie de curiosidade

acentuada e de maldição. Pandora e Eva foram responsabilizadas pelos

erros dos homens, por doenças e até pela morte; por causa dela, ele

perdeu o paraíso da felicidade e da imortalidade.

A evidência histórica factual aponta para as indispensáveis participações

da mulher na construção da sociedade humana em todo o

planeta Terra e o lugar que lhe foi atribuído nesta História dentro do

jogo de forças que a compõe: Escravidão e Liberdade, Colonialismo,


94 ELAS no lugar de fala, escrita, exercício político privado e público

Matriarcado, Patriarcado, Luta de Classes.

Tal jogo de forças, ao longo dos tempos, reservou à mulher um lugar

de proibição, submissão, fragilidade, vulnerabilidade, desvalorização,

negação e ataque à sua importância originária: sua força e poder, inteligência,

habilidades muitas, corpo sexualizado e sensual, para além de

um corpo a serviço da maternidade.

Mãe – relação primordial: o corpo da fertilidade que concebe, gesta,

pare, alimenta, educa, apresenta o pai – este é seu pai. Hoje temos o exame

de DNA para comprovar a paternidade, mas sempre quem deteve

este saber foi a mãe. Ela detém a prioridade do saber sobre o novo ser

que está a caminho e quem é seu pai. Mãe — primeiro espaço morfogenético

do ser vivente. Até Jesus Cristo o teve.

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra

o coração! Ser mãe é ter no alheio

Lábio que suga, o pedestal do seio,

Onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra

Sobre um berço dormindo! É ser anseio,

É ser temeridade, é ser receio,

É ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,

Espelho em que se mira afortunada,

Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!

Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!

Ser mãe é padecer num paraíso!

O poema acima, de Coelho Neto, aponta, por um lado, a idealização

da mulher no lugar da mãe e, por outro, os legítimos sentimentos

maternos da ambivalente experiência. O corpo da mulher, sempre sob

vigilância social, é liberado quando para ser mãe. O homem-pai aborta

infinitamente mais vezes seus filhos, mas apenas a mãe é acusada de

aborto, condenada, punida.

Madonas eternas, donas da vida e da morte, já que não há vida sem

morte. Lugar simbólico que vai se desdobrando de, geradoras a serviço

da vida, a serviçais, escravas, propriedade dos pais, irmãos, maridos,

filhos, homens até estranhos, muitas vezes elas sendo objetos sexuais,


Maria Augusta Dib 95

sem voz e sem vez por escolha própria.

Mesmo na Bíblia, encontramos histórias de mulheres que foram oferecidas

pelo pai e irmão a outros homens; oferecidas ao que se chamava

incesto, adultério, prostituição. Como Betsabéia foi usada por Davi,

como o incesto das filhas de Ló.

Forte é estar no lugar da mulher: da onipotência materna à impotência,

até sua anulação: oferecidas, vendidas, doadas, violentadas, estupradas,

assassinadas.

Mulher, tua cor é o vermelho, porque vermelho é a cor do seu coração;

mulher, tua cor é o vermelho, porque vermelho é a cor de seu

sangue de vida e de morte.

Mulher, tua cor é o vermelho, porque é a cor da vergonha, o atributo

que lhe deram desde seu nascimento. A vergonha de ser mulher e trazer

a vergonha em seu corpo, corpo de honra e desonra, de desejo, poucos

direitos e muitos deveres, de humilhação e marginalidade.

Passo a passo, lugar de afirmação, prazer e orgulho.

Encontramos, nos registros arqueológicos da Idade da Pedra e do

Bronze, as primeiras representações da mulher — sempre associadas ao

corpo da fertilidade, gravidez, maternidade. De forma geral, até o meio

do século XX se esperava da mulher e de seu corpo que estivessem em

função da maternidade, dos cuidados da família e da educação.

Historicamente, depois da agricultura familiar, os primeiros trabalhos

da mulher fora do âmbito doméstico deram-se nos espaços de

prostituição e nos espaços escolares, levando a mulher a adentrar a

Academia, dado que estava autorizada a ser professora. As mulheres

eram extremamente ameaçadoras se elas não estivessem restritas aos

espaços domésticos.

Sair de casa sozinha, não se casar, aprender a ler, escrever, falar em

público, ter pensamentos próprios e os declarar, não seguir as regras da

Côrte e da Igreja já foram motivo de heresia e condenação à fogueira.

Alguns poucos nomes de mulheres que conseguiram ultrapassar as

barreiras sociais sem serem punidas foram registrados no passado da

História. Uma história relatada pelos homens.

Na contemporaneidade, as fogueiras foram substituídas. O feminicídio

vem aumentando, especialmente no Brasil. Direitos e benefícios

sociais, antes conquistados para as mulheres, estão sendo retirados des-


96 ELAS no lugar de fala, escrita, exercício político privado e público

de o golpe de Estado em 2016 — destacadamente às empregadas domésticas.

Até mesmo políticas públicas e a Secretaria, direcionadas às mulheres,

foram desprezadas. O mapeamento da violência às mulheres no

Brasil e as casas de atendimento às mulheres violentadas, que estavam

funcionando regularmente até 2015, após 2016 cessaram.

Dados de 2019 apontam, no primeiro trimestre, mais de 200 mulheres

assassinadas no Brasil. Uma mulher morta a cada 2 horas, vítima

de violência. Uma em cada 4 mulheres já sofreu violência. 21 casos de

feminicídio registrados na primeira semana de janeiro de 2019; até o

final daquele mês, foram 119 mortes e 60 atentados.

Em 2020, estes números aumentaram.

Já está sendo considerado inevitável o termo epidemia de feminicídio

no Brasil. Os próprios parceiros são os maiores suspeitos das agressões,

atentados, assassinatos. Desde 1° de janeiro de 2019, no Brasil, o representante

maior do Poder Executivo considera a mulher uma fraquejada

que merece até ser estuprada ou eliminada.

Quantas Marias da Penha mais serão atacadas pelos seus maridos...

Quantas Marielles mais serão executadas?

Dignidade e Direitos da Pessoa Humana são princípios fundamentais da

Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) desde 10 de dezembro

de 1948, aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU)

– e o Brasil é signatário. Então, se concordou e assinou, deveria seguir.

A dignidade da pessoa humana, qualquer que seja seu gênero, é um

princípio fundamental do Brasil, e significa que é um objetivo a ser

cumprido pelo Estado através da ação dos seus governos. O respeito

aos direitos fundamentais é essencial para garantir o exercício da dignidade

humana.

Findando a Ditadura Militar (1964-1985), buscou-se dar espaço à

democracia e ao protagonismo da mulher. Em 1984, a Secretaria do

Planejamento do Município de São Paulo fez o Manual Direitos da Mulher

a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos e conforme as

leis brasileiras.

A paraibana Luiza Erundina foi a primeira mulher a ser prefeita da

tradicional e conservadora cidade de São Paulo, eleita legitimamente

em 1989.


Maria Augusta Dib 97

A mineira Dilma Vana Rousseff foi a primeira mulher a ser presidenta

do Brasil — eleita e reeleita, legitimamente, em 2010 e 2014.

Excelentíssima Dilma, A Senhora da Democracia, mãe de Paula e avó

de Gabriel e Guilherme, sabe que

o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí

afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem (Guimarães

Rosa em Grande Sertão: Veredas).

(O presente texto foi escrito a partir de palestras proferidas pela autora

em encontros da Pastoral da Mulher Marginalizada, para ser publicado

nesta Coletânea “ELAS nas Letras”).

Maria Augusta Nogueira

Machado Dib, agente pastoral

da PMM - Pastoral da Mulher

Marginalizada


Poemas

Maria Augusta

Araujo Teles

Maria Augusta Araujo Teles nasceu

em Barretos, em 1975. É bacharel em

Contabilidade e Administração de Empresas.

Escreve poemas e poesias como hobby,

herança de família. Já escreveu e publicou

diversos poemas a serem lidos em sua página

social no Instagram: @mariah_particular.


Maria Augusta Araujo Teles

E QUANDO ESTOU COM VOCÊ

E quando estou com você

Eu simplesmente me encontro.

Eu já não sei mais onde é o ponto

E nem onde foi que me perdi.

Procuro em mim,

A todo momento,

O que fez mudar

Esse meu sentimento.

Não é tão fácil

Deixar pra trás

O que vivi;

Já nem me lembro mais

Do quanto fui capaz

Pra ter você aqui.

Tamanha coragem

Jamais me bastou

Pra esquecer de tudo,

Fingir que não mudou.

O telefone ficou mudo

E, quando estou com você,

Essa paixão me abraça.

Eu sei aonde quero ir:

Meu mundo se enche de graça!

Deliro quando sorri!


100 Poemas

CONQUISTA EM SILÊNCIO

Eu falo com você

Através do meu silêncio

Pois tem coisas

Que nem é preciso dizer

Você me entende

Você me compreende

Mesmo sem me ouvir

Você me faz sentir

Olhe nos meus olhos

E escute meu coração

Ele pulsa feito um louco

E transborda essa paixão

Serena eu me mantenho

Ainda fixo meu olhar

Eu entro na sua alma

E com toda minha calma

Continuo a te esperar

Você sabe o que eu sinto

E, verdade: eu não minto

Pensamentos tomam conta

Será que vai rolar?

Vou te dar felicidade

Vou explodir essa cidade

Quando eu me declarar

Esse sorriso me fascina

Me deixe ser sua menina

Vou me entregar...


Maria Augusta Araujo Teles 101

Quero te mostrar o meu amor

O silêncio tenta te explicar

Me deixe sentir o teu sabor

O teu beijo quer o meu encontrar.

SE VOCÊ QUISER, POSSO TE MOSTRAR O PARAÍSO

Se você quiser, posso te mostrar o Paraíso.

Você tem o dom de despertar o prazer,

Tem o brilho do desejo nesse lindo sorriso.

Posso te perguntar o que eu tenho que fazer?

Quero ir além dos sonhos,

Quero ir além do que é real.

Quero ir muito longe com você.

Seu olhar me dá vontade,

Seu corpo me faz enlouquecer.

Posso eu estar maluca?

Posso eu então desejar que os seus lábios digam o meu nome?

Desejo insaciável que penetra o meu corpo,

Que deixa minha boca molhada,

Mãos geladas

Que querem tocar você.

Podemos, então, a qualquer tempo,

Descobrir o que é felicidade unida ao prazer.


102 Poemas

EU MENTI

Eu menti,

Quando disse que você

Jamais seria,

O dono dessa minha alegria

O dono do meu coração.

Eu menti,

Pois jamais sonhei amar alguém assim.

Queria ter você longe de mim

Mas não saberia dessa minha reação.

Eu menti.

Menti pra mim.

Como pude me enganar assim?

E me arrependo,

Pois durante todo o tempo

Não tive você aqui.

Demorei pra abrir meu coração:

Hoje ele explode de paixão.

Jamais vou esquecer

O brilho dos seus olhos quando disse

Que o meu coração estava a fim

De você...


IKIGAI

Maria Teresa Vieira

Nasceu em Nova Friburgo, região serrana do

RJ. É médica pediatra e dermatologista com

doutorado em Ciências Médicas.

Trabalhou durante 25 anos com recémnascidos

prematuros.

Atualmente, mora em São Paulo. A busca

da espiritualidade e do autoconhecimento

são uma constante em sua vida. É espírita

Kardecista além de praticante de Yoga,

Meditação e Ikebana


Maria Teresa Vieira

CÁ ENTRE NÓS....

Já repararam que alguns dias parecem iguais? A mesma rotina,

contas a pagar, situações a resolver, pessoas a contactar...

Apesar de toda pregação de autoajuda de que cada dia é um dia, não

é assim que percebemos esses momentos. Na verdade, acredito que se

não sentirmos profundamente algo como verdadeiro, se não colarmos

na alma, isso nunca fará parte da nossa vida! Pois foi num desses momentos

meio mornos, de água meio parada que recebi em casa o presente

de uma amiga da vida toda – temos o hábito de trocar livros! Ela já

entrou na época dos e-books e eu ainda me sinto uma cidadã do século

passado – amo livros impressos, tocar fisicamente o papel.

O título do livro – “IKIGAI – os segredos dos japoneses para uma vida

longa e feliz”, de Héctor Garcia e Francesc Miralles – me deixou curiosa:

mas, afinal, o que será isso?, pergunto eu, aqui do outro lado do mundo!

IKIGAI – mais que simplesmente uma palavra de origem japonesa,

um conceito, a busca de um significado para a própria vida, para uma

vida longa e feliz! Tarefa difícil, essa! Podemos passar uma vida inteira

sem nem ao menos chegar perto dessa ideia, do sentido da própria

vida. Não é de hoje que os seres humanos buscam um sentido para a

existência na Terra. Afinal, o que viemos fazer nesse planeta?! Será que

os animais já vem com a sua missão impressa no DNA e nós, humanos,

temos que descobrir a nossa?

Quando desmembramos os caracteres da palavra IKIGAI, temos

vida e valer a pena. Sua razão de viver, o que te move, o que te faz levantar

todas as manhãs e seguir em frente, o que te deixa alinhado com sua

vontade interior! O conceito de longevidade pela longevidade talvez não se

justifique. Envelhecer é um dos maiores desafios da vida... não é fácil.

Quando vemos aqueles que amamos envelhecendo, algo dentro de nós

se modifica: a vida fica mais real, perdemos as ilusões e passamos a

vislumbrar a finitude.


IKIGAI 105

Como somos seres contraditórios, não compreendemos bem o envelhecimento:

se, por um lado, não queremos envelhecer, por outro,

sonhamos com uma vida longa e feliz!

Existem cinco lugares no mundo onde o número de centenários é

elevado: a ilha de Okinawa, no Japão, Sardenha, na Itália, Loma Linda,

na Califórnia, a península de Nicoya, na Costa Rica e Icária, na Grécia.

Em comum, seus habitantes centenários têm boas condições de saúde,

o que lhes permite continuar trabalhando ao longo de toda a vida;

alimentação saudável, com o consumo diário de vegetais, frutas e cereais,

azeite, alimentos antioxidantes (tofu, missô, cenoura, batata-doce,

repolho), pouquíssimo açúcar, além da prática de exercícios físicos

regulares como caminhadas, bem distante de práticas exageradas em

academias ultramodernas.

Mas o principal: o sentimento de pertencimento à sua comunidade e

poder contar com uma rede de ajuda mútua, dando sustentação emocional

à vida longa e produtiva! Tudo isso parece tão distante da vida

nas grandes cidades! Vivemos estressados, correndo de um lado para

o outro, reféns de muita tecnologia, de contatos virtuais e ilusórios e,

continuamente, preocupados com o que virá... E o que virá? Nem eu,

nem você e, de verdade, ninguém saberá dizer com certeza!

Entrevistando pessoas centenárias sobre como chegaram a essa altura

da vida, os autores receberam respostas do tipo: coma e durma – é

preciso aprender a relaxar / não coma carne / vejo pouco, escuto mal, não posso

sentir nada, mas está tudo bem / se mantiver sua mente e seu corpo ocupados,

ficará aqui por bastante tempo ou simplesmente, não morri antes.

Há muitos anos, li um artigo cujo foco principal era saber o que permitiu

que algumas pessoas sobrevivessem a campos de concentração.

Viviam em condições sub-humanas, sob estresse emocional e físico extremos,

passavam fome....não tinham com o que sonhar.

Mas uma grande parte dos sobreviventes foram justamente aqueles

que conseguiram vislumbrar alguma vida após o horror da guerra, que

sonharam com um propósito para quando saíssem do campo, que criaram

uma realidade particular como ponto de apoio na luta desesperada

pela sobrevivência. Certamente, as condições físicas e nutricionais influíram.

Mas, sem dúvida, a estrutura emocional foi decisiva na superação

daquela situação desesperadora.


106

Maria Teresa Vieira

Eu pessoalmente, não penso muito no envelhecimento! Vou vivendo,

tentando agregar pessoas e criando atividades que alegrem o meu

dia, que me façam vislumbrar facetas da vida que nunca tinha percebido

ou que não havia me permitido ver! Vou caminhando... tentando

evoluir... tentando me encontrar comigo mesma... sei que, no final das

contas, talvez seja esse o maior dos encontros da vida!

Busquei a meditação... achei a espiritualidade, esse canal maravilhoso

de comunicação com o que transcende o material, com Deus, com

os mentores espirituais, com Buda, com os santos, com o divino!

Parece que, à medida em que a jornada se faz, vamos deixando pelo

caminho algumas bagagens pesadas, questões pelas quais não vale a

pena lutar, futilidades... é como se girássemos sobre o próprio eixo,

como um isômero, e passássemos a enxergar a vida de outra forma!

Passamos a aceitar o que não há jeito de ser mudado, a compreender

que a vida é, na sua essência, impermanente, como dizem os budistas!

Que existem ciclos e que, num dado momento, se dissolvem, se fecham

para que outros se abram!

Aprendi que ficar presa a um ciclo que já terminou é ir contra o

fluxo da vida. São vários e particulares os caminhos: cada um trilha o

seu, da melhor forma que puder. Mas é certo que precisamos de ajuda

nessa longa jornada!

Precisamos de coragem, de disciplina, de força, de fé — seja no que

você acredite; de saúde, de alegria e de leveza para continuar a caminhada!

Teremos momentos alegres, felizes e aqueles muito difíceis de passar...

e é assim: cada um a seu modo, buscando uma forma de caminhar

e evoluir, buscando a sua essência, buscando o seu IKIGAI!

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa


Mulher, Seja!

Mariana Ducatti

É psicóloga (pela Universidade de Ribeirão

Preto), mestre e doutora em Ciências (pela

Universidade de São Paulo). Atua como

Psicóloga Hospitalar e Docente Universitária.

É coordenadora e docente do Curso de

Psicologia da Faculdade Barretos e do Curso

de Especialização em Psicologia da Saúde e

Hospitalar da Faculdade de Ciências da Saúde

de Barretos “Dr. Paulo Prata”. É autora de

artigos científicos na área da Psicologia


Mariana Ducatti

“Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda. 1 ”.

S

abe-se que a mulher ocupa inúmeros papéis sociais e que

cada uma é do jeito que é devido sua história de vida e

personalidade. Como cada mulher é única, a tarefa de defini-la

torna-se difícil. A mulher pode ser estudante, mãe, apaixonada,

cozinheira, firme, dona de casa, professora, empresária, sonhadora

e muitas vezes, tudo isto junto. Apesar de não ser fácil definir aquela

que ocupa muitos lugares na sociedade e representa a maior parte

do povo brasileiro, tentarei, ao mesclar música e ciência, refletir

sobre o ser mulher.

Ser mulher não é ser “XX”; não é carregar dois cromossomos

iguais que são os responsáveis pela formação de órgãos sexuais que

diferenciam biologicamente homens de mulheres e proporciona a

possibilidade de reprodução. Ser mulher não é ser como aquelas

mulheres de Atenas que “vivem pros seus maridos (...) que geram pros seus

maridos os novos filhos (...) que “não tem gosto ou vontade, nem defeito

ou qualidade”². Ser mulher é ter “dom... magia... força... raça.... gana

sempre” 3 .

E realmente é preciso muito gana para ser mulher, pois, segundo

informações e estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e

Estatística (IBGE) 4 , as mulheres em 2016 realizaram mais atividades

domésticas e cuidaram mais de seus familiares do que os homens

(mesmo sendo estas atividades de homens e mulheres!). Apesar da

mulher não ser (e não dever ser!) como a mulher de Atenas, ela

ainda dedica 73% mais horas do que os homens ao cuidado com as

demandas familiares.

Martins 5 , por exemplo, realizou uma revisão da literatura a

fim de identificar o perfil de cuidadores de idosos com Doença

de Alzheimer e constatou que a maioria dos cuidadores são os


Mulher, Seja! 109

membros da família e que mais de 80% destes são do sexo feminino.

A literatura científica também revela que as mulheres não atuam

apenas como principais cuidadoras junto à idosos adoecidos; elas

também são as principais cuidadoras quando as crianças da família,

seus filhos, adoecem 6,7 .

Mas a mulher que antes se responsabiliza apenas por sua família

e fazia “tudo sempre igual” 8 ... que esperava o marido, no portão, para

o jantar... e falava para ele se cuidar além das outras coisas “que diz

toda mulher” 8 , agora faz mais. Muito mais! E fala o que quiser!

Segundo o IGBE 4 , a participação da mulher no mercado de

trabalho aumentou de modo significativo, assim como o seu tempo

dedicado aos estudos. Os dados do IBGE 4 também evidenciam que

a mulher tem conquistado seu espaço em cargos administrativos de

empresas privadas e no governo. Aquela que até 1934 não podia

votar, agora pode (e deve, quando achar conveniente) assumir cargos

políticos e ser, em qualquer espaço, a mulher que deseja ser!

Assim temos, ao longo da história, uma mudança no ser mulher.

Aquela que antes era apenas a responsável pelos cuidados com a

família e a casa, agora pode ser responsável pelo que quiser, pode

exercer as funções que mais lhe agrada e pode definir-se como

quiser. Neste sentido, Borsa e Feil 9 afirmam que, até meados do

séculos XX, a mulher tinha como atividade principal a maternidade,

que consistia nos cuidados com os filhos e no dever de ser uma

boa mãe; contudo, a partir dos anos sessenta a mulher passou a

questionar o dever da maternidade e consequentemente pode fazer

novas escolhas. Abriu-se a possibilidade do não ser mãe, do finalizar

um casamento, do trabalhar fora de casa, de ser quem quisesse ser.

Abriu-se a possibilidade de ter diversas facetas e não apenas uma.

A mulher que antes foi obrigada por uma sociedade a ser a

“Amélia, que não tinha a menor vaidade” 10 , agora “vira a mesa, assume o

jogo” 11 e entende que “não precisa ser Amélia pra ser de verdade” 12 .

Bia Ferreira, na música Não Precisa Ser Amélia, canta para todas

as mulheres (e homens também, para que fiquem cientes!) “Cê tem a

liberdade pra ser quem você quiser. Seja preta, indígena, trans, nordestina.

Não se nasce feminina, torna-se mulher” 12 .

A mulher que, antes, era apenas a mãe e a esposa pode agora ser


110

Mariana Ducatti

quem quiser. Pode ser como Mônica, que toma “um conhaque” 13 e

tem “tinta no cabelo” 13 , que faz faculdade, fala alemão e gosta “do

Bandeira e do Bauhus.” 13 e que fala sobre “coisas sobre o Planalto Central,

magia e meditação” 13 ... Pode ser sonhadora como Beatriz 14 ... Dengosa

e geniosa como Mariana 15 ... Ou risonha como Irene 16 ...

A mulher pode ser quem quiser enquanto aquele papel lhe fizer

sentido. Pode mudar, quando desejar. Pode ser! Sendo assim:

Mulher, seja!

Mulher menina, mulher adulta, mulher idosa, seja.

Seja sua ação e sua reação.

Seu peso e a sua medida.

Seja seu sonho e sua realização. Seja!

1 - Música “Mulher”, de Erasmo Carlos.

2 - Música “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque

3 - Música “Maria Maria”, de Milton Nascimento

4 - IGBE. Estatística de Gênero: Indicadores sociais das mulheres no Brasil; 2018 [acesso 28 de

junho de 2020]. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101551_

informativo.pdf

5 - Martins, LAC. Cuidadores de idosos com Doença de Alzheimer: uma revisão do perfil

[monografia na internet]; 2019 [Acesso 28 de junho de 2020]. Disponível em: http://bdm.

ufmt.br/handle/1/1676

6 - Alves SPA, Bueno D. O perfil dos cuidadores de pacientes pediátricos com fibrose cística.

Ciênc. saúde colet. 2018 Maio; 23(5): 1451-1457.

7 - Honicky M, Silva, RR. O adolescente e o processo de hospitalização: percepção, privação e

elaboração. Psicol. hosp. 2009; 7(1): 44-67.

8 - Música “Cotidiano”, Chico Buarque

9 - Borsa JC, Feil CF. O papel da mulher no contexto familiar: uma breve reflexão. Psicologia.

com.pt. 2008 [acessado em 28 de junho de 2020]. Disponível em: https://www.researchgate.

net/profile/Cristiane_Feil/publication/303208368_O_PAPEL_DA_MULHER_NO_CON-

TEXTO_FAMILIAR_UMA_BREVE_REFLEXAO/links/5738f27308ae9f741b2bde8f/O-

-PAPEL-DA-MULHER-NO-CONTEXTO-FAMILIAR-UMA-BREVE-REFLEXAO.pdf

10 - Música “Ai! Que saudade da Amélia”, de Mario Lago e Ataulfo Alves

11 - Música “Descontruindo Amélia”, Pitty

12 - Música “Não Precisa Ser Amélia”, Bia Ferreira

13 - Música “Eduardo e Mônica”, Legião Urbana

14 - Música “Beatriz”, Chico Buarque

15 - Música “Mariana”, Seu Jorge

16 - Música “Irene”, Caetano Veloso


Lembranças de

cobras e lagartos e

Os tempos eram assim

Miriam Leirias

Miriam Leirias é psicóloga, professora

aposentada, ex-sindicalista e, também, mãe

e avó. Participa de saraus, clubes de leitura e

cursos, aperfeiçoando sua escrita.

Trabalha por um mundo melhor para todxs e

para ela também


Lembranças de cobras e lagartos - Miriam Leirias

Era uma casa branca, pintada de cal, com paredes muito largas e

janelas grandes e generosas de cor marrom. Sentávamos nelas

para ver o trem passar, duas vezes por dia: uma, no sentido capital, de

manhã, e a volta no sentido do interior do Estado, à noitinha. Balançávamos

nossas pernas e mãos. Acenávamos para os viajantes anônimos,

alguns dos quais nos retribuíam, com entusiasmo.

Os cômodos da casa eram amplos e continham armadores de redes

em sua maioria, o que ajudava a mudar suas funções à noite. Quartos,

só havia dois: um para minha mãe e outro para minha irmã mais velha,

recém-casada, que tivera um filho e morava conosco provisoriamente.

A sala de jantar tinha um banco grande e cadeiras para acomodar

todos nós: mamãe e seus oito filhos. Cada um buscando as migalhas de

sua atenção, repartida entre uma viuvez recente, dificuldades financeiras

e a criação dos filhos.

Cada um buscando criar-se e recriar-se, como a sinfonia mais desencontrada

do John Cage.

A cozinha, além de potes de água fresquinha, comprada e trazida

do olheiro de água doce, comportava um fogão a carvão e um armário

forrado de papel picotado, formando quase que um bordado.

O banheiro — aliás, os banheiros — eram lá fora da casa. Um bem

próximo e um mais distante. O mais próximo continha a privada e um

cacimbão, de onde era retirada a água e posta num tanque para uso

doméstico. O outro, meu preferido, estava bem mais distante e só havia

a privada, instalada num patamar de três andares, uma espécie de altar.

Para chegar lá, precisava passar pelo pé de mangueira, pelas bananeiras

e pelo capinzal.

Como já falei, era o meu preferido.

Lá podia ficar o tempo que quisesse sem ser perturbada, pois meus

irmãos não gostavam dele. Dava mais trabalho para manter sua higiene

e era longe de casa.


Lembranças de cobras e lagartos 113

Para mim, valia a pena a trabalheira. Lá eu ficava, cantando (agora

entendo que era pela boa acústica).

Imaginava-me cantora famosa, usando piteira e vestido longo, igual

àquela mulher da revista O Cruzeiro.

Inventava mundos e soluções, como aquele espaço fictício de férias

para as mães (não sei se bom para elas ou para os filhos, pensando hoje)

ou aquele lugar para as crianças sem família e não felizes.

Às vezes, eu criava alguns espaços que me davam medo — pareciam

tão reais!

Quando percebia o tempo, havia demorado demais da conta.

Voltava desconfiada, tentando despistar das aventuras passadas.

Antes via ou o mamoeiro, ou a mangueira, ou o imbuzeiro e levava

alguma notícia para minha mãe:

Tem um ninho de passarinho na goiabeira!

A mangueira está começando a florir!

Vi o lagarto e aquela cobra amarela!

Minha mãe me olhava, entre certa cumplicidade e estranhamento,

como se dissesse: essa minha filha...

Numa destas vezes em que estava no “meu trono”, criando meus

mundos, escuto uns sons muito estranhos, pavorosos e uma forte batida.

Saio na disparada, corri como nunca. Entro atropeladamente pela

cozinha, abro a boca para articular alguma palavra, a voz não sai.

Minha mãe, tentando saber o que houve, se fui mordida por algum

bicho, ou se me machuquei, me examina, me pergunta o que aconteceu.

Um irmão traz um copo d’água com açúcar. E eu sem fala. Os

outros irmãos apavorados.

Neste momento escutamos risadas. Muitas risadas. Foram ver: eram

meus irmãos mais velhos, rindo desbragadamente.


Os tempos eram assim - Miriam Leirias

Faz tanto tempo que não fazemos algo juntas, só você e eu. Estamos

sempre com mais gente. Hoje, talvez, você consiga abrir um

espaço em sua agenda e passe por aqui. Vou preparar aqueles bolinhos

de cenoura com chá de hibisco.

Outro dia lhe disse: eu queria tanto conversar sobre a sua meninice, a época

do seu nascimento... Você me respondeu: não, mãe! Pega leve! Os tempos são

outros, estou apressada. Concordei. Calei. Foi sempre ou quase sempre,

assim. Evitamos alguns temas que podem eclodir numa crise. Foram

pequenos conflitos que se tornaram fendas entre nós.

Minha menina; gostaria, sim, de falar de minhas meias presenças,

de minhas meias ausências, dos espaços divididos com outros não conhecidos,

que eram para permanecer desconhecidos. De minha quase

falta de alegria, ou mesmo tristeza. Não era sua a culpa.

Havia coisas que não podia falar — queria preservá-la.

Como era difícil eu estar inteira brincando no parque, com você,

quando minha amiga não podia ficar com a filha. E a outra amiga que

estava sendo torturada, grávida?! Não eram no meu corpo as torturas,

mas ele reagia, adoecia. Eu sentia cada dor impingida aos amigos e até

aos desconhecidos.

Você ali, saudável e linda. Eu temendo que, a qualquer momento,

pudessem chegar a nós, como chegaram à Yolanda, ao Irmão, à Amelinha.

Experimentei a maternidade entre êxtase, por estar gerando um ser

muito querido e a culpa, por trazê-la a um mundo onde não poderia

garantir uma vida segura e feliz.

Com que direito ponho um ser no mundo? Neste mundo?

“Vivíamos entre a ousadia e o medo”, como disse Fernanda Montenegro,

outro dia. Às vezes, era mais medo.

Você nasceu. E foi aquela explosão incontrolável de alegria! Eu dizia,

eufórica: eu amo o mundo! Eu amo!


Os tempos eram assim 115

Você veio com força e com vontade de viver. Às vezes, mexia na

estrutura de sua mãe amedrontada; às vezes, bulia na minha querência

de vida, de liberdade e de esperança.

ooo

Ao mesmo tempo em que me impulsionava a lutar por um mundo

melhor e mais justo, você era também motivo para me preservar.

Diminuí minha participação em algumas atividades de maior risco.

Agora existia você, para dar conta.

Minha menina foi crescendo, cheia de vida, de vontades. O entorno,

aos poucos, mudando. Foi possível lutar pela Abertura do País; em seguida,

pelas Diretas Já!. As conquistas foram suadas: brigávamos passo

a passo. Para você, era como se fosse algo vindo naturalmente. Como

se sempre houvesse existido, fossem as conquistas políticas, fossem as

sexuais.

Conversávamos sobre a situação do País, mas não sobre as ressonâncias

para nós duas, no afeto entre nós.

Depois, os exilados foram voltando e, dos que sobreviveram às torturas,

muitos tiveram merecido reconhecimento, o que ajudou as suas

crianças a entenderem e, talvez, aceitarem os desconfortos por elas vividos.

Poderiam até criticar as escolhas de seus pais, mas havia o contraponto

social em que o contexto ancorava.

Eu não. Não fui torturada, nem exilada, mas fui, sim, apartada do

meu País. Não o reconhecia, na maioria das vezes. Sofri, em minha

alma, as sevícias impingidas ao Frei Tito, à Tarcísia, à Criméria, ao

Derbi e sua família. Procurava sustentar meu corpo, para não sucumbir,

também.

As minhas dores não se comparavam com as que eles e outros sofreram.

Por isso achei desnecessário — mesquinho até — falar com você

sobre como a criei, num tempo que era assim e que forjou mães que

eram assim. Fez falta não conversar. Talvez alguns pequenos conflitos

tivessem se tornado só pequenos conflitos. E não fendas.

Ai, se eu fosse poeta para falar o indizível.

Din-don! Din-don!

Ah! A campainha! Você veio, minha menina!


Quando o amor

é mais forte

Rosa Carneiro

Aparecida Rosa Moro Carneiro nasceu em 1º

de março de 1943, na fazenda Tamboril, em

Pontal. Casada há 50 anos com Sergio Murad

Carneiro, tiveram três filhos: Sergio Filho,

Simone e Carina. Tem dois genros: Alfredo e

Gabriel. Uma nora, Daniela. Seis netos: Sergio

Neto, Gabriela, Pedro, João, Antônia e Júlia.

Cursou Pedagogia e Administração de

Empresas no Colégio Soares de Oliveira, em

Barretos. Lecionou por 25 anos no Ensino

Fundamental. Fundadora da empresa SR

Embalagens Plásticas em 1979, onde trabalha

até hoje.

Trabalha voluntariamente na Creche Santo

Antonio de Pádua, há 25 anos. Catequista,

leciona para crianças da 1ª etapa no Centro

Catequético Paulo VI. É vice-presidente da ABC

(Academia Barretense de Cultura). Escreveu o

livro A Altura do Céu e vários contos.

Lançou seu segundo livro No caminho...

histórias para contar! Participou de todas as 5

Antologias Solidárias, além de colaborar com

artigos para a imprensa barretense


Rosa Carneiro

Sabia que teria uma vida diferente ao casar-se com Haroldo. Era

professora formada, já estava lecionando em uma classe no Grupo

Escolar da pequena cidade onde morava com seus pais e irmãos,

mas realmente pensou que seria apaixonante morar na fazenda com o

homem que amava e, ainda, trabalhar com crianças... Assim relatou-

-me Ana Maria:

Estava sentada na varanda lendo e, ao mesmo tempo, olhando Rafael, que

brincava de bola no gramado do jardim, quando eu cheguei.

Disse-me que precisava recordar sua vida dos últimos anos — e se

eu gostaria de ouvi-la. Deixou o livro solto no colo e deu asas a seus

pensamentos, recordando sua vida de alguns anos atrás.

Iniciou seu relato.

Como a pintura de um quadro, viu-se estudando na cidade de Jundiaí,

centro maior e com mais facilidade de escolas. Passear com as

amigas, paquerar, ir aos bailes, cinema, barzinhos... Que vida boa levava!

Seu sonho era ser professora. Sabia que a profissão era desvalorizada,

mas era o que mais queria: ensinar crianças a ler, escrever, cantar

com elas, contar histórias, brincar, ensinar Matemática, Geografia, um

pouco de tudo que ela havia aprendido.

Formou-se e voltou para casa de seus pais. Logo, apareceu um concurso

para o Magistério primário e, prestando vestibular, foi aprovada.

Escolheu sua cadeira em uma fazenda pertencente ao município onde

vivia com seus pais e irmãos. Seus irmãos mais velhos já haviam se

formado. Paulo trabalhava no banco e André gerenciava um supermercado.

Ainda não haviam se casado e viviam todos juntos com os pais.

Era assim naquela época: ninguém saía de casa antes do casamento.

Escolheu uma cadeira na fazenda Boa Vista. Deveria começar a lecionar

em fevereiro e ainda era início de dezembro. Estava muito en-


118 Quando o amor é mais forte

tusiasmada, sonhando com sua primeira escola e queria conhecê-la.

Como todos trabalhavam, esperou sábado para Paulo, seu irmão, levá-

-la até a fazenda. Saíram cedo. Sua mãe, Paulo e Ana.

Apenas alguns quilômetros e lá estavam na entrada da fazenda. Não

era uma qualquer. A entrada principal era cercada por uma guarita,

onde um guarda uniformizado tomava conta. No interfone, Paulo falou

o motivo da visita. Após alguns minutos, o grande portão se abriu e

o guarda mostrou onde ficava a escola, no interior do pátio da fazenda.

Infelizmente, estava fechada e o administrador da fazenda não estava

em casa. Foram até a casa principal e a senhora que os atendeu

não tinha como ajudar, pois não possuía a chave. Um pouco ansiosa e

decepcionada Ana falou para sua mãe e irmão:

Tudo bem. Voltaremos outro dia... pelo menos sabemos o caminho e onde

está localizada a escola da fazenda Boa Vista.

Não desistiu nem esperou. No dia seguinte, após o almoço, Ana e

sua mãe se dirigiram até a fazenda. Agora sim! Localizaram o administrador

que, gentilmente, mostrou a elas a escola. Havia mais uma

professora na fazenda e Ana lecionaria para a primeira série, enquanto

a outra professora ficaria com a segunda. As crianças das duas séries

seguintes estudavam na cidade. Logo que saíram da escola com o administrador,

depararam-se com um rapaz muito elegante, em um lindo

cavalo preto. Era o dono da fazenda.

Haroldo era o seu nome. Desceu do cavalo para cumprimentá-las.

Rapaz de boa aparência, educado, com um lindo sorriso. Ana se encantou

por ele — e o olhar com que ele lhe retribuiu fez tremer suas pernas.

Dois dias antes do início do ano letivo, foi abrir a escola e ver se estava

em condições de ser usada. Encontrou-a impecável, limpa e organizada.

Ainda estava olhando alguns quadros da professora da segunda

série quando sentiu alguém a suas costas.

Quando se virou levou um grande susto. Era Haroldo.

- Oi, tudo bem? Sou Haroldo! Você se assustou?

- Não, respondi. Eu estava distraída...

Haroldo, rapaz acostumado a ser paquerado pelas jovens, tentou,

pela primeira vez, tomar a iniciativa e mostrar sua lábia para ela. Ana

contou que o tratou com distância e elegância.


Rosa Carneiro 119

- Prazer! - respondeu com certa indiferença e completou – sou a

nova professora da turma da manhã na escola.

- Eu já sabia - respondeu Haroldo. Gostaria de me acompanhar para

tomar um suco em minha casa? - perguntou, em seguida.

- Não, muito obrigada! Seria ótimo, mas tenho que voltar para casa.

Minha mãe está me esperando no carro.

O ano letivo começou e, muito entusiasmada mostrava, com simpatia

e atenção, seu jeito amoroso com as pessoas. Logo se tornou conhecida

e amada pelas crianças e seus familiares.

Haroldo continuava visitando-a e, lentamente, uma simpática amizade

surgia entre eles. Haroldo vivia na casa grande. Havia perdido

seus pais há muitos anos em um desastre de carro e morava sozinho

com uma senhora que o criara. Nhá Joana era sua babá desde seu nascimento

e nunca o abandonara. O tempo passava e Haroldo e Ana já se

visitavam e saíam juntos para passear com os amigos.

Pouco a pouco, um romance nasceu. Apaixonaram-se. O casamento

aconteceu nos jardins da Boa Vista. Toda cidade foi convidada e ninguém,

antes ou depois, falava sobre outro assunto.

Após alguns dias, viajaram em lua de mel. Países como Dinamarca,

França, Suécia estavam no itinerário de Haroldo, que havia preparado

tudo. Ela, garota simples, enamorada, vivia um sonho impossível e inacreditável.

Haroldo dedicou-se inteiramente a ela; ela acreditava que

ele a amava e se sentia muito feliz. Um mês passou rapidamente; agora

tinham que voltar para casa.

Para Haroldo, ela não voltaria à escola; mas insistiu que gostaria de

continuar seu trabalho.

Em pouco tempo se familiarizara com a fazenda. Nas horas vagas,

visitava as famílias dos operários. Tinha tempo para plantar o jardim,

ajudar nhá Joana e ainda ler muito.

Estava sempre pronta para Haroldo, que chegava em casa à tardinha,

também vindo das plantações da fazenda.

Não fazia um ano que haviam se casado quando engravidou.

Nas primeiras semanas, a felicidade tomou conta de Haroldo, que

presenteou Ana com um lindo anel de esmeraldas. Mas, após aquele

fascínio, Haroldo já não dava muita atenção para a esposa. Chegava

tarde, cheirando bebida, desarrumado, entrava e ia direto para a cama.


120 Quando o amor é mais forte

Ana estranhou sua atitude e, na manhã seguinte, questionou a situação,

sem nunca reclamar.

Algum problema sério na fazenda, querido?

Haroldo não respondeu à pergunta e, com indelicadeza, disse que

ela nada tinha a ver com os negócios da fazenda.

O tempo foi passando e, a cada dia, Haroldo chegava mais tarde,

mais bêbado e agressivo. Agora chutava cadeira, jogava tudo no chão

por onde passava e nem tomava banho para deitar-se. Não se alimentava

e, quando ela questionava e apresentava seu jantar, gritava. nhá Joana

também estava inquieta e dizia para ter paciência. Haroldo dormia

até às 12, 13 horas e saía solando os pneus da camionete.

Numa quinta-feira chuvosa, apareceu na sede da fazenda o administrador.

Queria falar com Ana. Ela o recebeu na varanda. Américo questionou

que ele não sabia mais o que fazer na fazenda, que a plantação

havia terminado e ele não tinha mais programação para os operários;

eles estavam sem receber seus salários há três meses.

Ana não sabia nada da fazenda. O desespero tomou conta dela, que

já sentia o peso da gravidez e foi tomada de surpresa. Para ela, Haroldo,

ainda que diferente de antigamente, ainda estava tomando conta da

fazenda. Tranquilizou Américo de que falaria com Haroldo a noite e,

com certeza, tudo seria resolvido a contento.

Haroldo chegou de madrugada, pior que os dias anteriores, mas

Ana estava esperando. Sem titubear, tentou conversar com ele, mas levou

um safanão que a jogou ao chão; ele ainda gritou que Ana não

tinha nada a ver com seus negócios.

- Tenho sim! - com dores horríveis, e se levantando com dificuldade,

respondeu.

- Você me deve explicação sobre suas atitudes dos últimos meses!

- Quem é você para me pedir explicações, pobretona! Se não tivesse

casado comigo, estaria morrendo de fome junto com sua família vagabunda!

Casou comigo para ter status! Cale a boca ou jogo você para

fora a pontapés!

Ana contou-me que tremia e se deixou, sentada no chão, de olhos

arregalados. Precisava se controlar, senão perderia meu filhinho.

Haroldo bateu a porta do quarto e saiu arrastando pneus da camio-


Rosa Carneiro 121

nete. Levantou-se e, após lavar o rosto, agora muito inchado, deitou no

seu lado da cama. Nunca abandonaria seu lugar ao lado de seu esposo.

Ficou quieta, ali, deitada, protegendo seu bebê, mas não dormiu...

Levantou-se cedo para lecionar. Haroldo não havia chegado. Foi para

a escola muito preocupada, mas não tinha a quem recorrer. Não queria

preocupar seus pais. Nem saberia o que dizer a eles.

O tempo foi passando. Os cobradores aparecendo no portão da sede

da fazenda. Os trabalhadores fazendo serviços insignificantes e sem pagamento.

Precisava dar um jeito! Vendeu seu anel de esmeraldas para pagar

os trabalhadores. Ele era muito valioso. Sem mais saber o que fazer,

chamou Américo para, com ele, decidir a administração da fazenda.

O milho e a soja teriam de ser colhidos. Deveriam alugar uma colheitadeira

para a soja e o milho seria colhido pelos trabalhadores. Pediu

a Américo que procurasse saber na cidade onde seu marido passava

seus dias. Foi quando Américo disse que já sabia que Haroldo estava

passando a noite em uma mesa de jogos em Jundiaí.

Sentiu que ia desmaiar. Precisava trazer seu esposo de volta, saber o

que aconteceu para que ele acabasse assim, numa mesa de jogo. Mas

não deu tempo. Haroldo havia hipotecado a fazenda e não pagara a

hipoteca na data certa. A fazenda passou para o Estado que, sem a

decisão de Haroldo de readquiri-la, colocou-a em leilão.

A bela e produtiva fazenda foi vendida num piscar de olhos. Haroldo

desapareceu e ninguém mais soube o paradeiro dele.

Ana recebeu intimação para deixar a fazenda. Tudo que ela não

queria era voltar para a casa de seus pais, agora velhinhos e doentes.

Mas criou coragem e foi conversar com eles. Foi acolhida com o maior

amor. Levou consigo nhá Joana que, sofrida e idosa, não tinha para

onde ir.

Nesse período estava de licença-maternidade, pois seu filho estava

para nascer.

Não demorou muito e se sentiu envolvida com as dores do parto.

No hospital, com a mãe a seu lado, estava feliz, mas angustiada: onde

estaria Haroldo? Como desejava que ele estivesse a seu lado! Nunca

entendeu o que acontecera a ele. Por que a mudança, por que o desaparecimento?

Seu filho Rafael nasceu forte e sadio. Chorou lágrimas de felicidade


122 Quando o amor é mais forte

e também dolorosas, ao se sentir sozinha nesse momento especial. Jurou

para seu filhinho recém-nascido que encontraria seu pai.

E não esqueceu.

O tempo foi passando. Tentou se fortalecer, enquanto Rafael crescia

a olhos vistos. Tomou uma decisão que já estava rondando em sua

cabeça: deixaria Rafael com seus pais e nhá Joana e sairia à procura de

Haroldo. Onde? Não sabia! Falou com seus pais, que lhe aconselharam

a não ir. Haroldo não merece isso! Mas insistiu.

Numa manhã chuvosa, se despediu de seu pequeno bebê e, com algumas

roupas na mala, partiu em seu carro. Procuraria primeiramente

em Jundiaí.

Percorreu bares, casas de jogos, casas de mulheres serviçais do sexo,

hotéis, cadeias e nada — ninguém conhecera ou vira Haroldo.

O que fazer? Teria que andar mais um pouco. Com gastos mínimos,

quase somente com o combustível, fraca e com medo, partiu para São

Paulo. Meu Deus! Onde procurar Haroldo numa cidade tão grande? Pior que

procurar uma agulha num palheiro! - era seu pensamento. Mas não desistiu;

sentia que Haroldo precisava dela.

Procurou nos becos, nos albergues noturnos, em pequenos e horríveis

hotéis da periferia e nada. Falar com quem? Não conhecia ninguém.

Explicar o quê? “Por favor, você viu o Haroldo?”.

Certa noite, colocou o carro em um lugar afastado e recostou para

descansar. Tão cansada e desolada estava, que sentiu as lágrimas fluírem

em seus olhos e chorou, chorou muito: de saudade de seu filho, da

ingratidão do marido. Chorou pela decepção do tão sonhado casamento.

Quando percebeu, alguém batia no vidro do carro. Que susto levou!

Era um guarda de rua, que advertia que ela não podia ficar ali naquele

lugar. Era muito perigoso.

Ela não sabia aonde ir e, num impulso de fraqueza, grossas lágrimas

saltaram dos seus olhos, deixando o bondoso policial preocupado.

Pela primeira vez, explicou, em desespero, o que estava fazendo ali.

O guarda aconselhou-a a procurar na Cracolândia. Nunca imaginaria

Haroldo neste lugar, mas disse ao guarda que iria até lá. O guarda disse

que a acompanharia quando terminasse seu plantão, se ela quisesse

esperar. Como não esperar?! - pensou. Não sabia onde ficava nem como

chegar lá.


Rosa Carneiro 123

Na manhã seguinte, quando o guarda saiu do plantão, seguiram para

a Cracolândia. Arrepiou-se ao chegar ao lugar. Que desespero aquelas

pessoas jogadas nesse lugar sórdido, imundo! Impossível Haroldo ter vindo

parar ali. Desceu do carro e iniciou a procura, determinada a encontrá-

-lo se ele estivesse nesse lugar.

Com a ajuda do guarda, andou muito. Não encontrou Haroldo.

Agradeceu pela gentileza e disse que procuraria um hotel. Mas virou

uma esquina e continuou procurando numa rua perpendicular. Sentiu-

-se em desespero, pois tentavam lhe arrancar a bolsa das mãos e até sua

saia tentaram puxar. Como louca, corria das pessoas, mas continuava

procurando... De repente, alguém com a mão estendida suplicou:

Uma esmola, pelo amor de Deus!

Reconheceu aquela voz frágil e se virou. Um homem sujo, maltrapilho,

barbudo estendia sua mão, ainda mais suja, para ela.

Levou um susto. Conheceu o homem! Era seu marido, era Haroldo!

Aproximou-se e o chamou pelo nome. O maltrapilho assustou-se e,

olhando para ela, encolheu-se.

É você Haroldo? - perguntou. Estou te procurando há vários dias! Vamos

para casa!

Haroldo se encolheu ainda mais e fez um gesto para fugir.

Nisso, um guarda que passava, perguntou-lhe o que estava acontecendo.

Disse-lhe que era seu marido e que queria levá-lo para um hospital,

pois achava que ele estava muito doente. O guarda concordou e a

ambulância levou Haroldo, praticamente inconsciente, para o hospital.

Seguiu atrás com seu carro.

Seus pensamentos voltaram-se para os meses que viveu feliz com

Haroldo. Resgataria seu amado das drogas com toda sua força.

Seguiu a viatura até o hospital. Não tinha muito que fazer por enquanto,

mas não abandonaria Haroldo nem por um minuto. Sentia

tanto desespero, tanta solidão!

Os dias foram passando. Haroldo, inconsciente, alimentado por soro

ainda tinha alucinações violentas. Com muita força, conseguia segurá-

-lo e acalmá-lo. Foram muitos dias e noites.

Não sabia quantos se passaram. Uma madrugada, já mais calmo,


124 Quando o amor é mais forte

Haroldo mexeu os braços e balbuciou algumas palavras desconexas.

A esperança não a abandonava. Estava segura de que recuperaria seu

marido. Seu Deus e seu amor eram mais fortes que as drogas.

Pouco a pouco, Haroldo foi voltando a si e tentando saber onde se

encontrava.

Reconheceu-a e estremeceu. Queria sair da cama e, com os olhos

lacrimejantes, se debatia. Seu coração estava a mil. Continuou ali, sentada,

segurando sua mão e falando palavras serenas para tranquilizá-lo.

Indo e voltando de sua inconsciência, Haroldo, por vezes, balbuciava

seu nome e voltava a dormir. Muitos dias se passaram, mas ela

não saia daquela cadeira perto da cama. Dormia algumas horas num

pequeno hotel nas imediações e voltava ao hospital. Às vezes, recostava

a cabeça na cama e as lágrimas apareciam. Lembrava-se de seu filho.

Como estaria agora? E as crianças da escola, seus pais... - porém, queria salvar

seu marido, não queria que seu filho crescesse sem o pai.

Os sinais vitais de Haroldo foram melhorando e ele já conseguia

conversar melhor.

Naquela tarde, falou com Ana e perguntou por que ela estava no

hospital com ele e quem o trouxera.

Explicou detalhadamente e duas lágrimas surgiram em seus olhos.

Sabia que não tínhamos casa e que deveríamos ir para a casa de

meus pais.

Pouco a pouco, de acordo com a melhora de Haroldo ela foi contando

o que aconteceu e da beleza do filho. Conforme relatava os acontecimentos

sem esconder nada, Haroldo, cabisbaixo, dizia baixinho:

Perdão Ana! Perdão meu amor! O que foi que aconteceu comigo? Como cheguei

a esse buraco tão fundo?

Na sua tristeza, de ver o sofrimento de Haroldo, ela afirmava que

o futuro os esperava com muita saúde e alegria. Era somente isso que

deveria pensar.

Já bem recuperado do vício e das alucinações, Haroldo recebeu alta

do hospital e assim partiram para casa.

Lá, todos os esperavam. O pequeno Rafael pulou em seus braços.

Foi uma choradeira só.

Algumas semanas passaram. Agora, Haroldo já saía para a rua.


Rosa Carneiro 125

Disse-lhe que iria procurar um emprego. Como era agrônomo, achou

que seria fácil. Mas não. Seu histórico era muito ruim. Ninguém queria

aceitá-lo. Resolveu partir para a cidade maior, Jundiaí.

Depois de enviar muitos currículos conseguiu uma entrevista.

Esperou por semanas. Já desiludido, recebeu uma ligação telefônica:

estava empregado e faria o que mais gostava — cuidar de terras,

plantações, colheitas.

Ana preocupou-se com a separação, mas logo tentou transferir-se

para uma escola em Jundiaí. Conseguiu uma sala numa estadual. Começaria

lecionar na nova escola em fevereiro. Teria mais de dois meses

para procurar uma casa e mudar. Nhá Joana iria morar com eles.

Tudo iria dar certo: Haroldo trabalhando na fazenda, ela na escola

e nhá Joana cuidando de Rafael.

Compraram alguns móveis, utensílios para cozinha e começaram

uma vida nova do nada.

Mas Ana estava preocupada: não estava feliz. Salvara seu amor, pai

de seu filho e construíra um tão sonhado lar. Viviam felizes os três com

a ajuda de nhá Joana, mas tinha medo da recaída, pois as más línguas

diziam que era normal.

Acordou de seus devaneios e, feliz, sentiu que tudo exalava felicidade.

O ano seguia calmo, a família unida, Rafael crescendo... Deixou

o livro de lado e se fixou em seu garoto, que continuava brincando de

bola no gramado.

Convidou Rafael e a mim para entramos e seguimos para a cozinha.

Preparararia o jantar.

Naquela noite, Haroldo não apareceu, à tardinha, como era de costume,

nem mais tarde, nem no outro dia... Eu estava com Ana e senti

sua angustia.

Preparou-se e seguiu para São Paulo: agora, sabia onde encontrar

Haroldo.

Nunca desistiria dele.


Lá vem a

Teresa Torta...

Sada Ali

Sada Ali nasceu em Barretos. Escritora desde

sempre, concebeu Helena e Vitória (de sua

obra bipartite “Perfume dos Laranjais”) por 10

anos.

Lançou “Perfume” em Barretos, Ribeirão Preto,

Uberaba e São João del-Rei/MG (vencedora

de edital da UFSJ), além das Feiras do Livro

Caminhos da Leitura e da Fliporto, em Olinda/

PE. Ainda lançou em Florianópolis (Livraria

Catarinense) e em São Paulo (Bienal, Livraria

Cultura e Casa das Rosas).

No exterior, sua obra esteve na 107 Foire de

Paris, na França e London Book Fair (Londres,

Inglaterra). Ainda em terras francesas, pelo

Ministério da Cultura, Sada esteve presente

no Espaço Evasion e nas Festas Consulares de

2013, em Lyon.

Em Portugal (2016), lançou em Gaia e Porto.

Comandou canal on-line de entrevistas com

autores independentes, o Ponto de Leitura

TeVeLê. Coordena essa Antologia Solidária


Sada Ali

Sua chegada era precedida pelo jargão: Lá vem a Teresa Torta... Lá

vem a Beleza Torta. A sonoridade das sílabas era acompanhada

do molejo, ginga e da cadência inata dos moradores daquela área da

cidade. Samba no pé, rima na voz e remelexo nos quadris. A vila era

campeã. Campeã do samba, da cachaça e das mulheres da vida.

Lá vem a Beleza Torta. Nos áureos tempos, teria dado um bom samba.

Bateria nos acordes e ela, o tema, na frente, rainha soberana gingando

com toda a tortuosidade do seu corpo explorado. Fora-se o tempo.

Passara, soçobrando a amargura crônica, injusta, díspar — um contraponto

à sua pretensa obstinação.

Diziam termos todo o tempo do mundo. A eternidade!, diziam. Mas

o que é o tempo senão um monopólio de eternidade oferecido em doses

homeopáticas? Átimos de segundos exaurindo nossas forças e nos

colocando à sua mercê? Insistira em renegá-lo e ele mantivera-se em

plácida espera. Sem imposições. Paciência inesgotável, consumindo

vorazmente carnes, sonhos, desejos e ilusões.

Abruptamente, algo parecia ter se rompido. Um elo, uma cadeia,

uma conexão. Quem era aquela estranha a ocupar a frente do seu espelho?

Nada restara de sua antiga consorte. Rosto, corpo, mãos, expressões.

A beleza estava realmente torta; Teresa totalmente torta. Declínio

da saúde, paciência, musculatura e tudo mais que se referisse ao seu

ser. Tudo sendo consumido; mas a maior sensação de perda estava nos

cabelos. Sedosos, brilhantes, os negros cachos haviam se transformado

em montículos de nuvens entremeando nuanças amarelas, alvas e acinzentadas.

Do antigo jardim, um canteiro de urtigas. Sem viço, perfume

ou cor.

Uma companheira sugerira, tentando rejuvenescer-lhe a aparência,

que passasse a tonalizá-los e, de maneira a melhor convencê-la, além

de presenteá-la com uma negra tintura, também se comprometera a

aplicá-la. Outra frase, também dita pela amiga – e que maior persuasão


128

Lá vem a Teresa Torta...

exercera na resolução – fora o desafio à sua personalidade:

A Teresa que eu conheci nunca temeria ousar.

E fora rendida.

Usara e, inicialmente, até gostara. As madeixas negras, recaindo em

cachos sobre os ombros, fizeram-na sentir-se realmente rejuvenescida.

Assim procedera durante anos, findo os quais tivera que abandonar o

uso. As parcas economias, seus rendimentos, haviam decaído e não a

permitiam sequer pensar em consumir qualquer supérfluo. Resignara-

-se, deixando, novamente, os cachos descoloridos. A colega de trabalho

afirmara: cabelos brancos envelhecem, fazem perder clientes!

Para não ter que confirmar já viver aquela realidade, culpara a imagem

vislumbrada todas as manhãs ao se mirar no pedaço de espelho

disposto sobre a pia do banheiro. Aquilo realmente não valeria o custo

da cara tinta! Ao mencionar o espelho, lhe vem à mente o exato momento

em que ele havia se estilhaçado. O fato ocorrera durante uma

das madrugadas mais frias já vividas. Encontrava-se diante da janela, a

assoprar bolinhas do próprio hálito contra seu vidro, quando um ruído

ecoa pelo ambiente. Abaixa o volume do rádio de pilhas disposto na estante

à sua direita e, deslizando rapidamente a manga da blusa de lã sobre

os desenhos traçados por seu bafento vapor, tenta visualizar através

da vidraça o lado externo da avenida. Nada inusual. O frio espantara

a maioria dos transeuntes e, na estreita via, poucos carros circulavam.

O cenário, nada fugidio, mantinha sua singular displicência e a fizera

questionar-se da direção do ruído. O que seu sentido auditivo captara

havia ocorrido do lado interno e não externo. Estava, quase como de

costume, na mais completa solitude. O que ocorrera?

O ambiente contíguo era guarnecido por sumária mobília: duas poltronas,

uma estante feita de tijolos vazados e tábuas enceradas (onde se

encontrava seu rádio a pilhas) e alguns exemplares que possibilitariam,

a quem fosse permitida a invasão, captar a dimensão de sua personalidade:

livros profanos e religiosos. Apenas. A arte da vida não permitia

ambiguidades: sonhar era para poucos. Para que livros, se nem escola ou

futuro teria? Escola: tabu, privilégio de ricos. Frequentar? Impossível.

Aprendera a ler numa deferência da vizinha, que acreditara poder ser

um dia professora. Bondade efêmera, tão efêmera quanto o sonho da


Sada Ali 129

vizinha. Há anos dividiam o ponto numa das esquinas da vila.

Tendo aprendido o básico, a descoberta das letras e o que os seus

símbolos traduziam, um mundo novo se descortinara. Lia os jornais

em que trazia, embrulhadas, as compras do bar do seu Augusto; as

revistas eróticas do pai que, displicentemente, as abandonava ao lado

da cama; os livros de bolso trocados com outras companheiras de infortúnio

e os religiosos oferecidos pelas damas de caridade. Isso, até o

dia em que as expulsara. Como ousavam falar em Deus e exibir escancarada

mediocridade diante das dificuldades e tormentos alheios? Em

seu reduto, faltavam todos os gêneros necessários para se viver com

dignidade; até mesmo a água, a essência da vida. Deus era aquilo? Deus

permitia aquilo? E por que vinham com aquela palhaçada de dizer que Deus

está em meio aos pobres, em meio aos humildes, em meio aos que se resignam

diante de seus tormentos? Suas vestes, mãos, cabelos e faces bem cuidadas

não pareciam patentear o dogma ou verdade alvíssaras.

Aquilo era partilhar do desejo divino?

Ateia! – fora a resposta.

Teresa alonga os braços em direção à própria miséria, ao corpo defeituoso,

à pobreza. Se não carregasse um ser supremo em seu interior,

como sobreviver? Nunca mais retornaram; isso sim, fora um presente

divino! A consumação do Éden na diabólica e abandonada vila.

Desliza o olhar sobre os pertences buscando a causa do ruído: algo

havia sido quebrado. Vasculha como uma devassa, faminta pelo dinheiro

prometido. Depara-se com a morbidez vazia da cama e uma

gratidão súbita a acomete: a cama era a responsável por seu sustento!

Presenteada há um quarto de século por um cliente satisfeito, larga e

espaçosa, madeira maciça e estrado de molas. Não possuía um traço de

cupim. Aquilo sim era uma cama e não as porcarias que hoje se encontravam

à disposição nos convencionais magazines. E quantas aventuras

já não haviam compartilhado...

Diligentemente — e sem outros pensamentos a lhe interromperem

o andar, alcança as outras mínimas dependências: cozinha, que comportava

um micro-tanque e o último cômodo, o banheiro. Da porta do

diminuto banheiro já detecta o incidente. A parede que sustentava o

espelho era edificada por tijolos vazados e revestida por fraco reboco,


130

Lá vem a Teresa Torta...

certamente a causa da queda. O estrago só não fora pior pelo auxílio

miraculoso da pia, que além de interrompê-lo de uma completa queda,

salvara-o da inutilidade permanente. Decidira-se, então, a não substituí-

-lo. Esperaria que aquele lhe predestinasse os sete anos de azar. Não

desejaria incorrer no risco de, com um novo, fazê-lo também desabar

daquela parede oca e, com isto, duplicar os anos de infortúnio.

Com o passar do tempo, perdera o interesse em adquirir um que

viesse a substituí-lo. A imagem refletida já não compensaria novo gasto.

Melhor seria continuar vendo-se por entre as nesgas das rachaduras.

Para um rosto gasto, aquele trincado espelho bastaria. E, retomando o

início de sua introspecção, como poderia explicar, ainda hoje, as palavras

que sua passagem incitava? Pelos saudosos momentos não inteiramente

esquecidos?

Morava naquelas imediações pelo tempo de sua vida e se julgava

parte da paisagem. Era a velha figueira plantada defronte à casa da Maria;

o banco no bar do falecido Sr. Augusto; o velho poste de madeira

poupado pela companhia energética; as pedras cortantes perdidas no

meio do caminho. Fora um, melhor dizer, era um adorno a mais na vila;

e se sua passagem ainda era recebida por saudosa saudação, certamente

seria devido ao grato reconhecimento da juventude que a recebia

com a mesma euforia herdada dos seus predecessores.

Naquele tempo, seu quadril arredondado e empinado, seios perfeitos

e rijos, cabelos sedosos e naturalmente pretos, pele moreno-jambo,

um sorriso de marfim emoldurado por lábios carnudos e macios, realmente

faziam por merecer aqueles galanteios. Mas, à sua passagem, os

suspiros que os homens lhe dedicavam tornavam-se tímidos, tépidos,

bocas fechadas, gargantas travadas premidas entre dentes... O jargão

repetido à meia-boca interrompia o parcial silêncio. Aquela timidez incoerente

só fora compreendida quando um cliente confidenciara: você

é maravilhosa por inteiro, mas a parte que a difere das demais são seus olhos.

E o que há com meus olhos? – perguntara, estarrecida. – Com tantos

predicados, — e alongara a mão em direção ao próprio corpo já mutilado

— são meus olhos que arrebatam a maior atenção? O homem cala-se,

absorto. Arranha suas costas, marcação inútil num território sem lei

ou posse, confere cada detalhe de seu corpo, detém-se na tortuosidade

da coluna, observa minuciosamente. Sorri um sorriso de homem expe-


Sada Ali 131

riente e reafirma a beleza avistada em seu olhar. Únicos! Seus olhos são

milhares de sensações — prosseguira no que julgara pura pieguice.

Mas nos intimidam.

No mesmo instante, deixa a cama e, caminhando com a lepidez

que a tortuosidade de sua deficiência a permitia, mira-se no espelho

ainda intacto para uma melhor observação. – Teria algum fundamento

ou era mais uma tentativa de sedução? As pestanas longas e escuras, se

debatendo em contraposição umas às outras, cobriam-lhe temporária

e superficialmente o fundo branco dos olhos coloridos por duas bolas

de um ofuscante cinza. Retorna descrente para junto do homem que

tentara lhe ressaltar, pela primeira vez, a singularidade dos olhos. Era,

seguramente, conversa para amolecer seu coração.

Sua gargalhada irônica estrondeara, ecoando pelos quatro cantos do

aposento antes de lhe afirmar: deixa de ironia!, e fixando novamente o

olhar, àquela altura já frígido como o sentimento que lhe dedicava, conclui:

agradeça por eu estar ainda um pouco mais sóbria de mim, por não ter me

embriagado no desejo maior que é estar em mim. Essa sensatez que sobrou ainda

me impede de ser irônica. Se embriagada estivesse na magnitude maior do

seu eu, aquele eu pleno, inteiro, seguramente seu eu lhe diria: desapareça

da minha frente! Não estou aqui para ouvir suas asneiras. Meu próximo cliente

me espera. Nova admiração e o homem a pede em casamento enquanto

continua a ressaltar a beleza dos seus olhos. A esse seguiram-se muitos

outros pedidos. Sempre negados. Um dia, amadurecida pelas empíricas

experiências e na mais completa solidão, reagindo a uma saudade

não identificada, que entrava sem convite para assumir o comando da

casa e a ocupar por inteiro, repensa:

Se tivesse tentado...

ooo

Comprar mistura sempre fora um tormento. Como comprar, se nunca

pagavam? Não iria. O sopapo ao pé do ouvido a destitui da decisão.

Não era para repetir aquelas palavras. Se seu pai chegasse e a encontrasse

falando daquela maneira, não iria gostar e terminaria espancando-a,

como sempre acontecia. Falar ou calar? Ambas terminariam em idêntica

implicação. Temente, escolhe o calar-se; mas o silêncio é como pensara:

recebido como um desafio. A mão aberta, os dedos em riste. O ar


132

Lá vem a Teresa Torta...

sibila, cortante rente ao seu ouvido. Fecha os olhos e cobre as orelhas.

E a primeira bordoada deixa as marcas sobre a pele moreno-jambo das

faces. Dois vincos trincando a pele, fruta sendo partida pela lâmina da

faca. Dor! Novas bordoadas e um médio corte no supercílio. Nem o

ferimento tem o poder de sensibilizá-la, mas diante da premente necessidade

da mistura, a mãe sai para apanhar algo que estancasse aquele

sangue vertido. Nenhum pedido de perdão ecoa de seus lábios.

O sangue escorre rosto afora e o medo seu corpo adentra. Nada

de mencionar o ocorrido, tampouco as marcas podiam ser notadas.

Espera o trapo com a quietude dos que sabem o dano de qualquer movimento

proibido. Um resto do passado em forma de tecido é deposto

em sua mão. Tão massacrado quanto seu interior. Atira o velho trapo

sujo de sangue sobre a cadeira, único móvel daquele ambiente, e sai

caminhando com toda a dignidade que lhe restara. No rosto ainda vincado,

acrescia-se o rastro seco traçado pelo volume de sangue. Absorta

na própria dor, não se atém à beleza do dia, uma suave manhã de outono.

Uma vontade de morrer; de apagar para todo o sempre aquelas

cenas que vivera. Tal como as fadas que lhe tapavam olhos e ouvidos

nas madrugadas, livrando-a de presenciar ou ouvir os gemidos e outros

ruídos oriundos do quarto do pai, a morte também poderia resgatá-la,

livrá-la para todo o sempre daquela penitência.

Nesse pensamento, eleva novamente o olhar ao céu. Quanta beleza!

– exclama interiormente ao notar, pela primeira vez, o esplendor da manhã.

O céu, tomado de azul, era regido pela magnitude do Sol que, alongando

as copas das árvores, projetava sombras sobre o seu caminho.

Belo dia para morrer. Apesar da idade, que lhe fora amadurecida pelas

empíricas experiências, se apieda do próprio epitáfio: aqui jaz Teresa: menina

pura e virgem, precocemente chamada pelo Senhor. Ao menos na morte

poderia ser tratada com civilidade. Já não lhe fora dito que enterrar seus

mortos se constituía num primeiro ato de civilização que a humanidade

ensaiara? Pés descalços, acham uma pedra. Um corte e vermelho

filete de sangue. Abaixa-se para conferir o estrago e ouve o primeiro

assobio. O vestido curto, as coxas bronzeadas e roliças, os seios mal

nascidos, despontando em plena ignorância às leis da gravidade. Um

novo assovio e se vira, rosto inexpressivo, para deparar com Melcíades,

o filho mais velho de D. Jussara. Três anos mais velho, forte, de um


Sada Ali 133

moreno que quase se aproximava ao negro, era um dos mais próximos

amigos. Por que havia lhe assoviado? Aquele era seu costume para as

tardes de verão, quando reunidos a mais uma dúzia de meninos e meninas,

saíam para apanhar as rosadas e suculentas mangas das chácaras

nas redondezas, para nadar no pequeno regueiro que corria atrás das

casas da vila e para outras pueris aventuras... Teria alguma desventura

para lhe contar? Não. Dificilmente. Seus pais eram mais ponderados na

maneira de tratá-lo e ele vivia de um jeito que considerava até absurdamente

feliz. Esquece-o e volta a caminhar.

Sr. Augusto percebe a melancolia e as marcas a brasão feitas nas faces

trigueiras da cliente regular. Como poderia se recusar a entregar três

míseros ovos a um pequeno anjo? O que teria se sucedido àquela menina?

Outra pancadaria inútil? Gostaria de poder ajudá-la, mas a vida,

com sua constante urgência, sempre relegava determinações alheias, ao

nada, ao vazio das próprias necessidades. Caminho de volta e os mesmos

assobios. Aqueles assobios eram galanteios gratuitos. O anseio em

Melcíades resgata parte do seu desejo pela vida. A vida poderia não ser

tão desastrosamente ruim. Ou seria?

Àqueles assovios outros se sucedem, muitos dos quais, inúmeras

vezes, assistidos pelo pai, ocultado pela janela, ou ainda à porta, sentado

junto a outros tão alcoolizados quanto ele. Cerca de cinco anos

transcorrem. Já não brincava de fada com a velha boneca herdada da

prima da filha da vizinha. Por que sua fada a havia abandonado assim

que lhe surgira as primeiras regras? Não sonhava mais com a morte

libertadora, mas continuava como o fizera em toda a sua infância: a

tapar, durante as madrugadas, os próprios ouvidos para se livrar dos

urros de cadela no cio do quarto contíguo. A mãe sibilava mais que o

vento em tempestade de verão. Sibilo agudo e cortante, que bramia e

permanecia.

Aquela fora sua escola, seu meio. Nenhum ser vivente, nenhum ser

onipotente partira em seu socorro. Tinha que se livrar, pelos próprios

recursos, dos olhares lascivos do pai, dos urros e impropérios intolerantes

da mãe e dos assobios da molecada da redondeza, todos tão miseráveis

e indefinidos quanto seu próprio mundo. Até que, numa tarde

chuvosa, por que fora escolher seu momento favorito na Natureza?, quando

ouvia e via chuva rebater contra a janela de vidro – janela tão comum


134

Lá vem a Teresa Torta...

quanto a que ainda fazia bafejar para escrever desinteressantes e efêmeras

mensagens ao mundo — eles a haviam deixado eternamente

marcada. Batem a porta. A chuva caía, em meio a trovões e outras

particularidades inerentes. O pai, que parecia já estar aguardando visita,

se apressa em atender. Abre a porta e, instantaneamente, os dois

metros que os separavam passam a inexistir pela rigidez com que seu

olhar a escrutinava. Não resistindo àquela força que atuava como imã,

se estaca, pronta a obedecê-lo, a segui-lo, a qualquer outra atitude que

o pai lhe impingisse. A porta se abre largamente, dando passagem à

inoportuna visita. O recém-chegado deposita o guarda-chuva contra a

parede, entrega o grosso capote ao pai. Confidenciam ao pé do ouvido.

O homem assente com sisudez. Parecia tenso.

Forte, de ventre proeminente, tez larga — ainda não se encontrava

inteiramente calvo, mas era o que suas grandes entradas lhe prometiam

— passara a mirá-la. Recua o passo atemorizada, recostando o corpo

magro contra o frio e impessoal vidro da janela. O pai chama. Se aproxima,

hesitante. O que poderiam desejar? Alguma oferta de emprego?

Ouvira o pai e a mãe a conversarem e, pelo teor do diálogo, sabia estar

com os dias contados a sua vida sem nenhum, seria correto dizer, afazer

rentável, posto que trabalho era o que mais exercia desde que alcançara

a mínima altura para cuidar da pia, fogão e tanque. Seu pai estaria

recebendo a visita de um possível empregador?

O senhor lhe estendera as mãos gordas, nodosas e brancas que, por

sua maciez, a fizera acreditar ser um patrão. Mãos macias, nenhuma

calosidade aparente. Apresentam-lhe o Sr. Durval e a mandam ser boazinha

com ele. Saem sob a chuva torrencial. Sob a soleira da porta

ainda lhes observa a saída. Ao que precisamente o pai aludira quando

dissera ser boazinha? Talvez se lhe servisse um café... E onde pretendiam

ir com aquela chuva?

Oferece a cadeira. Um som de lenhos ressecados e prestes a cederem

se insinua pela sala triste e úmida. Sai para preparar o café. Ele calmamente

espera. Tinha a eternidade como aliada. Mete a mão no bolso

da camisa, de onde retorna com uma carteira de cigarros e uma caixa

de fósforos. Acende, puxa com vigor, bafejando a primeira e delirante

tragada. Expele generosas baforadas de fumaça perfumada e envolvente.

Envolvente como a névoa da noite. A nicotina preenchia seu prazer


Sada Ali 135

e a névoa da noite encobriria seus atos. Retorna. Café no bule e coração

nas mãos. Serve no copo e aguarda, à retaguarda. Sentia-se mais protegida.

O copo retorna vazio. Parecia querer outro. Estende o bule, mas

o que a encontra são as mãos livres. É enlaçada com violência. Bule e

copo caem e se misturam formando estragos heterogêneos em sons,

texturas, aromas e finalidades. Eclodem, velados pela tempestade que

desgraçadamente colaborava para a desventura que se abatia sobre ela.

Compreendera, naquele instante, a escolha do dia chuvoso. Seu terror

seria abafado pela Natureza – e ela, infalivelmente, colaboraria para

seu pavor.

Suas vestes são rasgadas. Esperneia, urra. Animal silvestre enjaulado.

A boca é recoberta e, para conter a força que impusera aos membros

inferiores, sofre certeiros chutes pelo baixo ventre, bacia e nádegas. No

momento em que era submetida à pior parte da agressão, ousaria afirmar

terem sido utilizados vários pares de mãos na tentativa de dominá-

-la. Vencida pelo cansaço, cede. Seu corpo é deflorado sem piedade,

carinho, encanto; tampouco cuidado. Findo o ato, notas são atiradas

a esmo, misturando-se aos cacos e à borra de café. O homem, isto é,

Sr. Durval, sai e seu pai – era dele um dos pares de mãos a segurá-la —

imediatamente se apresenta. Ainda no chão, a mãe reinicia a tortura.

Durval, pai e mãe; tortura física e moral. A mãe, aos gritos, defende a

atitude, delimitando o território feminino. Ser mulher era aquilo. Ter

o corpo violentado, humilhado, usado. Apanha nas faces, membros

superiores e inferiores. Recolhem o dinheiro espalhado pela sala, arrumam

seus pertences em duas sacolas plásticas. Iam partir. Haviam

esperado tempo demais. Ela aprendera a ganhar a vida. Que fosse dona

do próprio sustento. Ainda a orientam a não pegar criança. O pai nunca

assumia. Filho de puta não tinha pai. E, a propósito: aquele não era o

seu pai. As últimas palavras proferidas e ouvidas. E saem.

Fica um tempo ainda inerte, sem ação. Café e guimbas de cigarro

como companheiros de infortúnio. Tenta se levantar, mas perde os sentidos.

Horas depois de intercalar desmaios e lucidez, arrasta-se até alcançar

a porta. Alonga o braço e, com um solavanco, a move. A chuva

caía. Um lamento derramado em cântaros. Ou prantos? Bênção para

uma benéfica morte ou, na falta de forças até para a morte, que essa a

lavasse e a purificasse da imundície da invasão, expurgasse o mal enrai-


136

Lá vem a Teresa Torta...

zado em suas entranhas e a libertasse do pecado cometido.

Ali permanecera até sentir a chuva minguar, céu interromper o lamento.

A dor era novamente sua.

O dia amanhece e, antes que fosse avistada por algum olhar indiscreto,

se arrasta ao interior da casa. Ainda assim, esperaria pelo retorno

da mãe e daquele a quem chamava de pai. Insistia em acreditar no

regresso. Ledo engano. Estava só. O dia morre no horizonte. Queria

ter ido com ele. Mas viveria para sentir todas as dores do mundo. Um

assobio invade a casa. Melcíades. Qual seria a programação do fim do

dia? Apanhar manga, nadar no córrego?

Gostaria de poder acompanhá-los como de costume, mas jamais

seria. A inocência tirada, as dores alicerçadas, os medos cravados na

carne. Um desejo crescente a invade. Queria caminhar solitária, sentar

sob as árvores, presenciar o ocaso, o último suspiro do sol.

Dias depois, Melcíades retorna. Para na soleira e assovia novamente.

Porta entreaberta. Entra. Por que não atende aos assobios? – questiona.

Ao ver seus andrajos, sangue e fezes, pensa em buscar socorro. O detém.

Estava próxima da maioridade. Não podia se arriscar a perder

a liberdade, ser reclusa em uma instituição para menores. Odiaria ser

atendida por assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras e padres. Melcíades

cuida fraternalmente. Desnecessário dizer que, após recuperada,

também exige seu quinhão. Assim, sua vida profissional se iniciara.

Assim, sua mãe a ensinara a batalhar pelo próprio sustento.

O corpo sarara sem cuidados médicos. De que adiantaria corrigir o

físico? A dor da alma jamais a deixaria. Sr. Durval a fizera; o suposto

pai o permitira e a mãe aprovara. E a sua vida, tal como a outra Teresa,

aquela que já se encontrava cansada, fora inteiramente encaminhada

para a guerra, à luta pela sobrevivência, sob a única maneira que lhe

fora ensinada.

ooo

O tempo passara, afoito como uma labareda diante das folhas secas.

As cicatrizes se fecharam, as quebraduras haviam se soldado, tortuosas,

paralelas, diagonais: cada uma ilustrando, à sua moda, a sua caminhada.

Sua tortuosidade física a agraciara com numerosos clientes.

A bela e a fera.

Um rosto angelical encobrindo um corpo surreal, como lhe haviam


Sada Ali 137

dito uns tantos outros Senhores Durvais a cruzar seu caminho. Alguns

afáveis, outros grosseiros; uns atentos às suas dores, outros voltados

apenas aos próprios anseios.

Apenas um a fizera se emocionar, apenas um se fizera digno de registro

numa memória que ainda hoje vinha a acalentá-la. Ainda se recorda

da maior sensação de prazer que alguém jamais poderia ter lhe

proporcionado. Visitava sua casa quando, singelamente, a convidara a

dançar. Assustara-se. Corpo imperfeito, prostituta. Era só para a cama.

Recusa-se. Ele insiste e o disco de vinil ecoa na vitrola. A música invadira

o ambiente, ecoara romanticamente pelo quarto, penetrara em seu

coração e retumbara em seus sentidos...

O dono da perfeita voz a ecoar na sonata, sem se atentar à ignorância

daquela que nunca antes o havia ouvido, emociona e a desperta

para a alegria que também poderia ser o viver.

A música, dominando seus receios, lhe conferia a pureza dos anjos.

O tal Charles magicamente a transportara ao paraíso, onde os seus defeitos

diagonais e paralelos simplesmente inexistiam.

Momento único.

Durante os minutos em que ecoara o vinil, ele a fizera sentir-se

perfeita e íntegra. Ele a fizera esquecer-se do refrão que, vida afora, a

acompanhara:

Lá vem a Beleza Torta... Lá vem a Teresa Torta...


Um mergulho em mim

Thaís Mendes

Moura Carneiro

Thaís Mendes Moura Carneiro é apaixonada

por histórias, pessoas e abraços. Mestranda

em História Social e graduada em História

pela Universidade de São Paulo (USP), pósgraduada

em Fundamentos da Arte e da

Cultura pela Universidade Estadual Paulista

(UNESP), encontrou na escrita um caminho.

Seus primeiros rabiscos a acompanharam na

adolescência e, desde 2016, produz conteúdo

para o site Mulheres Viajantes, criado como

um espaço de empoderamento feminino por

meio de viagens. Em 2010, experimentou a sua

primeira viagem sozinha e a partir disso, não

parou mais, conhecendo 10 países


Thaís Mendes Moura Carneiro

Passagens compradas e o coração saindo pela boca. Eu não lembrava

qual havia sido a última vez que eu tinha tomado uma

decisão dessas. Eu só tinha saído do país uma vez e o destino era o

mesmo. Agora, seria mais fácil, foi o que eu pensei. Eu já conhecia a cidade

que me fez morrer de amores por ela. Viajei com aquela angústia

dentro de mim.

A primeira vez que eu pisei em Buenos Aires foi em 2010. Eu era

uma garota de 19 anos, estudante de uma universidade pública que trabalhava

em dois estágios e dispendia de cinco a seis horas no transporte.

Foi o fato de morar com os meus pais, na periferia de São Paulo, que

me deu espaço para juntar um dos salários que eu recebia por um ano.

Foi a minha primeira viagem sozinha. Aprendi um tanto, chorei outro,

comemorei os meus 20 anos, me desentendi e me decepcionei com

algumas pessoas, me apaixonei pela qualidade de vida de morar em

uma cidade em que eu podia me locomover a pé. Um dos momentos

mais memoráveis dessa minha estada de um mês na cidade foi ouvir da

minha mãe, pela primeira vez, ao telefone, eu te amo.

A vida é, minimamente, uma loucura. Por vezes, sou tomada por

avalanches e me sinto encurralada. Em outras, percebo que a avalanche

não é feita de neve — e esse gelo todo pode ser um delicioso sorvete e

eu posso deslizar caminho afora. Amo sorvetes. Digamos que eu sou

apaixonada por comer e as metáforas com alimentos são corriqueiras

na minha fala.

Deixemos as aventuras de 2010 para pensarmos as desventuras na

cidade, três anos depois, no frio de julho. Eu amo o inverno. Talvez esse

apreço todo seja por ser temporada do meu aniversário e, claro, férias

escolares. De algum modo, alinhei as expectativas do meu eu criança ao

ficar anos trabalhando em uma escola como professora, o que fez com

que eu curtisse as férias, praticamente, da mesma forma.

2013 foi o ano em que o Brasil pegou fogo. As manifestações de ju-


140

Um mergulho em mim

nho pipocaram por todo o país. 1 milhão de pessoas chegaram a ocupar

as ruas de São Paulo para protestar contra os atos de violência contra

civis e jornalistas, cometidos pela Polícia Militar. Não só o País estava

em chamas, mas meu coração também. Dramática? Um pouco.

No mesmo mês, eu havia finalizado um relacionamento abusivo que

durou cinco anos. Eu demorei alguns meses para formatar o que eu vivi

sob a égide dessa nomenclatura. Aprendi com uma das pessoas mais

admiráveis que eu conheço, que ao verbalizarmos sentimentos e processos

tão íntimos, acabamos por nomeá-los e, muitas vezes, torná-los

estáticos. Eu tive muito medo da transformação — todo esse furacão

em palavras me parecia uma forma de sacralizar a dor e a frustração.

Me sentia envergonhada por ter vivido aquilo, por me permitir passar

por isso.

O que as pessoas podiam dizer? Será que elas já sabiam? Por que eu não “me

dei ao respeito”? E se ele quiser se vingar de mim? Se ele quiser me processar

por dizer que foi abusivo? Foi um relacionamento abusivo mesmo sem ele ter

me batido? As questões rodopiavam em uma dança perversa na minha

mente. Foi absorta nesses pensamentos,que voltei a mi Buenos Aires querido,

buscando um novo fôlego.

Pois bem, era final de junho de 2013 e o inverno ainda não tinha se

instaurado em terras portenhas, de fato. As emoções começaram logo

no avião, quando durante os meus esforços para cochilar, retomei mentalmente

as tarefas que eu deveria realizar antes do embarque e me dei

conta da minha primeira turbulência da viagem: esqueci de sacar dinheiro.

Como alguém esquece de levar dinheiro vivo para uma viagem?

Não sei. Eu tenho tantas habilidades quem nessa altura do campeonato,

nem me surpreendo mais. Tranquilizei-me, pensando que, chegando lá

eu daria um jeito. O que importa é a fé, não é?

Consegui cair no sono e a voz da comissária de bordo no alto-falante

me acorda. Estou confusa. Será que estou entendendo direito? Aterrissamos

no aeroporto de Ezeiza e me deparei, pela primeira vez na vida,

com uma greve de carregadores de mala. Segunda turbulência de viagem.

Eu já conhecia bem a prática de defesa de direitos dos argentinos.

No mês em que morei na cidade, vi as ruas repletas de manifestações,

piquetes e cartazes. E lá estava eu, em meio a um paro argentino. Foi

dada a largada para a confusão. O meu celular, praticamente sem bate-


Thaís Mendes Moura Carneiro 141

ria, teve ajuda de um carregador emprestado por uma jovem solidária

no aeroporto. Não resolveu: eu não conseguia fazer ligações. Dei um

jeitinho para usar o orelhão e avisar a hospedagem que eu atrasaria um

bocado. Isso resolvido, lá fui eu entender as medidas a serem tomadas

pela companhia aérea e, na imprecisão das informações, decidir esperar,

nem que fosse madrugada afora, as malas serem liberadas.

Passadas três horas, consegui pegar a minha mala e seguir para minha

hospedagem. Depois disso, eu nunca mais despachei bagagem e

aprendi o significado de viajar leve, usando apenas uma mala de mão.

Reservei uma cama em um albergue simples da cidade, no bairro da

Recoleta, um dos representantes da classe média alta de lá. Logo quando

cheguei, fiquei confusa com a entrada e, mais ainda, quando não

percebi o elevador e tentei levar a minha mala gigantesca escada acima.

O recepcionista, um fofo, veio ao meu auxílio.

Ele me deixou fazer o check-in no dia seguinte. Afinal, eu precisava

arranjar o dinheiro, mas não contei a ele. A gentileza foi por conta do

avanço do horário e o meu cansaço. Fui para o quarto e foi uma das

noites mais frias que já passei. A pior foi o acampamento que realizei

em uma comunidade indígena, mas eu conto essa história em outro

momento. Em meio à escuridão, fui ao banheiro e pisei em algo gelado

e viscoso. Não dei bola; no dia seguinte percebi que a minha roomate

havia vomitado na porta do banheiro. Acordei e não havia água quente

no quarto. O frio se devia ao aquecedor desligado. Terceira turbulência

de viagem (ou quarta)?

Tomei um café da manhã com um pãozinho duro e uma porção de

doce de leite. No rádio — sim, no rádio — tocava Juanes.

Y para tu amor que es mi tesoro, Tengo mi vida toda entera a tus pies.

Eu não sabia bem o porquê de estar ali; minha angústia aumentava

em cada passo dado em falso.

Y para tu amor que me ilumina, Tengo una luna, un arco iris y un clavel.

Era uma das minhas músicas preferidas, na minha cidade preferida

na vida e com uma sensação de humilhação engasgada na garganta.

Ao fim e ao cabo, eu sabia que a minha dor era a minha libertação. Eu

precisava viver isso.

Saí emburrada de lá, à procura de um locutório. Eu precisava avisar

à minha mãe que eu estava bem. Para quem não a conhece, ela sem-


142

Um mergulho em mim

pre me pede que eu ligue ou envie uma mensagem, avisando como

estou — e sempre acrescenta uma ameaça à conversa. Fui ligar pra ela,

com as minhas moedas contadas, e explicar a situação. Ela me sugeriu

mudar de hospedagem, ao que eu achei uma ótima ideia e pensei em

buscar no site que eu tinha visto ao regressar ao albergue. Me perdi na

volta e fui parar no centro da cidade, na calle Florida para ser mais exata.

Esqueci da obviedade de que eu estava sem dinheiro e fiz algumas compras

no cartão de crédito, ao que o meu cartão na terceira ou quarta

transação recusou a funcionar. Quinta turbulência de viagem. Eu não

tinha avisado à operadora de cartão.

Aviso viagem? Eu não fazia ideia do que era isso em junho de 2013.

Hoje em dia, está na minha lista de afazeres pré-viagem, por mais que

eu só o leve para emergências. Ligações de telefone, depois, em um locutório,

eu descobri que, além da falta de dinheiro vivo, eu não poderia

mais usar o cartão, pois ele havia sido bloqueado e só seria liberado

quando a fatura fechasse. Ou seja: eu já deveria estar no Brasil, de acordo

com a data. Mas como voltar, se eu não tinha dinheiro mais nem

para pegar uma condução? Que angústia e que erro!

A minha tentativa de performar como a personagem principal de

Comer, Rezar e Amar estava indo por água abaixo. De fato, não tinha

como eu me reencontrar daquele jeito. Caos dentro e fora de mim. A

minha solução, dada por um amigo colombiano, foi a de pedir que a

minha mãe me fizesse uma transferência em dinheiro.

Estava decidida a sair do albergue em que eu havia me hospedado.

Não tinha nada de vida noturna como eu pensava, estava dividindo o

quarto com uma senhora brasileira que havia vomitado na noite anterior,

o café da manhã era ruim, não havia água quente nem calefação.

Foi quando eu subi as escadas da recepção, um tanto quanto emburrada

com os meus erros, dei de cara com ele.

Havia trocado o turno do recepcionista e aquele sorriso me fez acelerar

o peito. Era só o que me faltava. Conversamos e eu me perdi no

sotaque portenho. Decidi que talvez, quem sabe, fosse uma boa ideia

permanecer ali. Foi o que disse à minha mãe ao telefone. Eu sou boa

de conversa e foi o que fiz.

Como a vida era uma loucura, me envolvi na paixonite mais louca.

Todos os detalhes fazem a história se assemelhar a mais um exemplar


Thaís Mendes Moura Carneiro 143

das novelas da Talia nos anos 1990. Durou uma semana.

O que seja eterno enquanto dure esse amor teve o gosto amargo de ser um

homem casado.

No último dia que nos vimos, ele me levou a um bairro que eu não

conhecia. Entramos em uma basílica para conhecer. Desabei a chorar,

aos soluços silenciados. As questões pipocavam na minha mente

aos borbotões. O que seria de mim dali pra frente? Como caminhar de cabeça

erguida? A minha boca amargava por ter sido traída e eu tinha sido A

Outra por uma semana. A minha angústia era por ter carregado um

relacionamento abusivo e opressivo por tantos anos.

A minha paixonite hermana me acolheu e me levou para tomar um

café com medialunas e manteiga. Ele perguntou se eu estava bem. A sua

preocupação era se as minhas lágrimas tinham a ver com o fato de não

nos vermos mais ou pela esposa dele. Ai, a arrogância masculina! Eu expliquei

a ele que voltar pra minha cidade era um retorno à construção

de mim mesma.

A minha versão portenha-brazuca de Comer, Rezar e Amar, tinha sido

concluída entre lágrimas e alfajores. Aprendi ali, na cidade que mais me

dá saudade e vontade de voltar, que viajar não resolveria minha angústia.

Fugir dos problemas jamais se viabilizaria porque eu levaria eles

comigo, fosse qual oceano eu pisasse.

Quando deixei Buenos Aires no início de julho, eu não imaginava

os meandros da vida que me levariam de volta para lá em dezembro do

mesmo ano. Eu fui embora cantarolando Piazzolla, com a consciência

de que, pela dor e pelo amor, eu deveria mudar.

E mudei.


Prefixo Editorial: 66961

Número ISBN: 978-65-991598-0-0

Título: Coletânea “ELAS nas Letras”

Tipo de Suporte: Papel

Essa obra foi impressa

em Triplex Supremo LD Branco 250 g/m2, Orelhas: 40 x 70mm,

4x0 cores (CAPA) e em Polen Soft Creme (MIOLO), pela

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