Alem-Mar_Outubro2020

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Revista mensal | N.º 706 | Ano LXIV | Preço 1,50 € (IVA incluído)

além-mar

Outubro 2020 | www.alem-mar.org

Perspectiva Missionária

mês missionário

ENVIADOS EM MISSÃO


MISSIONÁRIOS COMBONIANOS

ao serviço do evangelho no mundo

CASAS EM PORTUGAL

P. e Leonel Claro,

missionário comboniano,

no Chade


Perspectiva Missionária

além-mar

Ano LXIV | Nº 706

sumário

Propriedade:

Missionários Combonianos

do Coração de Jesus

Pessoa Colectiva nº 500139989

Redacção

Director: Bernardino Frutuoso (CP 6411 A)

Redacção: Carlos Reis (CP 2790 A);

Fernando Félix (CP 1902 A)

Correspondentes: Arlindo Pinto (Roma);

Feliz Martins (Sudão); Jairo García

(Colômbia); António Carlos Ferreira

(Filipinas)

Colaboradores: Ana Glória Lucas;

António Marujo; Fernando Domingues;

Fernando Sousa; Filipe Messeder;

Francisco Sarsfield Cabral; José Vieira;

Manuel Augusto Ferreira; Marco Bello;

Margarida Santos Lopes; Paolo Moiola;

Susana Vilas Boas

Revisão: Helder Guégués

Paginação: Luís Ferreira

Arquivo: Amélia Maria Neves

Redacção:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286

E-mail: alem-mar@netcabo.pt

Estatuto Editorial: www.alem-mar.org

ADMINISTRAÇÃO

Administrador: Jorge Brites

Sede do editor e Administração:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

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Pagamento por multibanco:

Entidade: 20105

Referência: o número de assinante

(por cima do nome na folha com a sua

direcção)

Produção gráfica e impressão:

Jorge Fernandes, Lda.

Quinta Conde Mascarenhas, L 9

2825-259 CHARNECA DA CAPARICA

Registo na ERC com o n. o 100668

Depósito legal: 7934/85

ISSN 0871 – 5661

Tiragem do número anterior:

17 700 exemplares

16

36

ENVIADOS EM MISSÃO

A História da Igreja tem-se construído

com o envio de missionários que, das

suas comunidades de origem, saem

para testemunhar a Boa Notícia do

Reino, com palavras e obras, nas fronteiras

mais distantes da Humanidade.

LESBOS

Dois incêndios destruíram Moria (Lesbos,

Grécia), o maior campo de refugiados

da Europa. «A Europa devia ter

vergonha», o incêndio «foi provocado

pela nossa inacção», afirmou o cardeal

Jean-Claude Hollerich.

04 Fórum

05 Editorial

06 Actualidades

11 África minha

12 Igreja em missão

13 Contraponto

14 Do alto dos Andes

30 Desenvolvimento

urbano

32 Mundo

38 Estados Unidos

da América

50 Livros

51 Discos

52 Povos e Culturas

55 Apontamentos

56 Vocação & Vida

além-mar tem o exclusivo para Portugal dos

serviços das seguintes revistas estrangeiras:

Nigrizia (Verona) | Mundo Negro (Madrid)

| Esquila Misional (México) | Misión sin

Fronteras (Lima) | Iglesia Sinfronteras

(Bogotá) | World Mission (Manila) | New

People (Nairobi) | Worldwide (Pretória)|

| Afriquespoir (Kinshasa).

A nossa página

na Internet:

www.alem-mar.org

43

LÍBANO

Uma devastadora explosão em Beirute

deixou bem evidente como um sistema

confessional corrupto continua a sacrificar

vidas e bens. O historiador Roberto

Khatlab e a Irmã Myri ajudam-nos

a entender a importância dos cristãos

numa nação em desassossego.

Foto de capa: © dreamstime

além-mar | Outubro 2020


fórum

Comunidades

e conhecimentos

Quero comunicar-vos que continuo

a ser um leitor fiel e interessado

da revista dos Missionários

Combonianos. Gosto das suas

páginas com matérias variadas,

sempre muito focadas nos problemas

ambientais e nas questões dos

países em desenvolvimento. As páginas

que mais aprecio são as dos

Povos do Mundo, dado o meu especial

interesse pelas comunidades

e seus conhecimentos e pela antropologia

cultural. [...] Entretanto, e

uma vez mais, chega o mês em que

a minha assinatura anual da edição

impressa da Além-Mar chega

ao fim, o mesmo é dizer, chega o

momento de a renovar. Obrigado

pelo vosso trabalho jornalístico e

missionário.

Miguel Branco | Figueira de Castelo Rodrigo

Futuro com Audácia

Agora que em Portugal se discute

o apoio ao fim da obrigatoriedade

da disciplina de Cidadania

e Desenvolvimento nos currículos

escolares, defendo que se alimente

o espírito crítico e interventivo

dos jovens e recordo o papel que a

revista missionária Audácia tem ao

agenda de outubro

«inspirar, informar e divertir» os

mais novos. Obrigada pelo papel

relevante que a revista juvenil dos

Missionários Combonianos tem na

formação dos meus filhos.

Maria Matias | Correio electrónico

Perspectiva missionária

RETRATOS

contra a pena de morte

Agora que vivemos uma crise sanitária,

é importante que as regras

de mercado não se tornem uma

barreira para o acesso a medicamentos,

diagnósticos e equipamentos

médicos e a uma vacina de acesso

universal. Como leitora, conto

com o empenho e adesão da Além-

-Mar a esta causa humanitária, isto

sem descurar a questão das mudanças

climáticas e do desenvolvimento

sustentável que a revista tão bem

acompanha. [...] Congratulo ainda

os missionários combonianos que

nos quatro continentes promovem a

dignidade das pessoas, defendem os

direitos humanos, a justiça e a paz.

«Missão é erguer o olhar», como foi

escrito recentemente na revista.

Isabel Luz | Correio electrónico

intenção do papa

1 Dia Internacional dos Idosos

2 Dia Internacional da Não-Violência

7 Dia Mundial do Habitat

10 Dia Mundial contra a Pena de Morte

13 Dia Internacional para a Redução de

Desastres Naturais

16 Dia Mundial da Alimentação

17 Dia Internacional para a Erradicação

da Pobreza

18 Dia Mundial das Missões

24 Dia Internacional da Informação sobre

o Desenvolvimento

24 Dia das Nações Unidas

31 Dia Mundial das Cidades

Outubro

Rezemos para que, em virtude do baptismo, os fiéis leigos,

em especial as mulheres, participem mais nas instâncias

de responsabilidade da Igreja.

Veja o comentário do Papa Francisco em:

www.apostoladodaoracao.pt/o-video-do-papa

© cathopic

2020 Outubro | além-mar


editorial

Bernardino Frutuoso

Director

Os missionários

são rostos

próximos,

samaritanos e

visíveis da Igreja.

é a nossa hora de ser missão

O

bispo Pedro Casaldáliga

faleceu recentemente e, ao

revisitar os seus escritos, encontrei

esta bela poesia sobre

o tempo e a esperança activa: «É tarde /

mas é nossa hora. / É tarde / mas é todo

o tempo / que temos à mão / para fazer

futuro. / É tarde / mas somos nós / esta

hora tardia. / É tarde / mas é madrugada

/ se insistimos um pouco.» Nestes tempos

complexos de pandemia, impõe-se a

distância de segurança entre as pessoas

e as nossas vozes são moduladas pelas

máscaras que nos tapam o rosto e criam

barreiras comunicacionais e afectivas.

Despertam-se no planeta novos temores,

incertezas, isolamentos e aflições. Acentuam-se

os males

sociais endémicos

(fome, desemprego,

racismo, corrupção...)

e aumenta

a desigualdade

social. Podemos, por

isso, ser tentados a

considerar que não

vivemos um kairós,

um tempo de Deus,

e permanecer apáticos.

Na mensagem

para o Dia Mundial

das Missões (ver páginas

18-20), o Papa

Francisco sublinha,

precisamente, que

compreender «aquilo

que Deus nos

está a dizer nestes

tempos de pandemia

torna-se um desafio

também para a missão

da Igreja».

E convida-nos a não

adiar para outra

hora o discernimento

e a acção missionária:

«Desafia-

-nos a doença, a

tribulação, o medo,

o isolamento. Interpela-nos a pobreza

de quem morre sozinho, de quem está

abandonado a si mesmo, de quem perde

o emprego e o salário, de quem não tem

abrigo e comida.» E o papa salienta que

«longe de aumentar a desconfiança e a

indiferença», esta condição provocada

pela covid-19 «deveria tornar-nos mais

atentos à nossa maneira de nos relacionarmos

com os outros» e com Deus.

Portanto, neste contexto de metacrise,

sabemos pela fé que este não é o tempo

para adiar ou suspender a vida, mas é a

hora de Deus, um tempo favorável para

redescobrir o poder da esperança e a

alegria de nos comprometermos com

a vida. Os milhares de missionários

dispersos pelas periferias do mundo são

um sinal desse compromisso evangélico.

Foram, como todos nós, sacudidos por

esta imprevista tempestade global, mas,

no meio da vulnerabilidade, do sofrimento

e do medo, permaneceram nos

seus lugares e testemunharam (mesmo

perdendo a vida) o amor oblativo e o

serviço desinteressado aos mais necessitados

– nestes meses multiplicaram-se

nos cinco continentes, sobretudo no Sul

do mundo, os compromissos e projectos

sociocaritativos da Igreja universal. Os

missionários são rostos próximos, samaritanos

e visíveis da Igreja e realizam,

na simplicidade e gratuidade do serviço

quotidiano, a revolução do cuidado que o

Papa Francisco nos convida a fazer.

No hoje da Igreja e da História, todos

os discípulos de Jesus, com o Evangelho

na mão e no coração, sabem que a vida é

missão. Convocados, enviados e fortalecidos

pelo Espírito Santo, são Igreja em

saída, homens e mulheres que proclamam

o Reino de Deus com alegria e audácia

até aos confins da Terra, testemunham

a fé e o amor de Deus e constroem

com humildade, dedicação e criatividade

um futuro melhor para todos. Contribuem,

assim, para tornar realidade o

sonho de Deus para a Humanidade: conseguir

com que todas as pessoas tenham

vida e vida em abundância. am

além-mar | Outubro 2020


foto do mês

Foto: © Lusa/Paolo Aguilar

u Vacinas reservadas

AUnicef anuncia que vai coordenar a compra e distribuição

de vacinas contra a covid-19 para nove

dezenas de países de baixos e médios rendimentos.

«A maior e mais rápida operação alguma vez realizada

na aquisição e distribuição de vacinas» está integrada

no plano do Mecanismo de Acesso Mundial

às Vacinas contra a Covid-19 (COVAX), coordenado

pelo fundo das Nações Unidas, em colaboração com

a Organização Pan-Americana de Saúde.

Entretanto, um grupo de países ricos, que representam

13% da população mundial, já adquiriu metade

das futuras doses das vacinas em estudo contra

a covid-19, revela a Oxfam. A ONG defende que «o

acesso vital às vacinas não deve depender de onde

se vive ou de quanto dinheiro se tem» e critica a

confederação de organizações contra a pobreza.

2020 Outubro | além-mar


&

pessoas factos

u

u

u

u

O novo presidente da Guiné-

-Bissau, Cissoco Embaló, realiza

em Outubro uma visita de Estado

a Portugal, a convite do seu

homólogo Marcelo Rebelo de

Sousa. Entretanto, organizações

da sociedade civil guineense

denunciam em carta aberta aos

órgãos de soberania que o país

assiste a «graves retrocessos

nas conquistas já alcançadas

nos valores e princípios do Estado

de direito e democrático».

As eleições presidenciais de Outubro

na Costa do Marfim contam

com os candidatos Alassane

Ouattara, chefe de Estado cessante

que concorre a um terceiro

mandato, o que é considerado

inconstitucional pela oposição e

motiva protestos violentos neste

país da África Ocidental. Concorrem

ainda o ex-presidente

Konan Bedie, o antigo primeiro-

-ministro Affi N’Guessan, e o dissidente

Konan Bertin.

O Conselho de Segurança das

Nações Unidas (UNSC) exige

que todos os países cumpram o

embargo de armas à Líbia, amplamente

violado, e retirem todos

os mercenários do país do

Norte de África. Emirados Árabes

Unidos, Rússia e Jordânia,

de um lado, e Turquia e Catar,

do outro, violam o embargo de

armas, tornando-o «totalmente

ineficaz», acusam os monitores

das sanções à Líbia.

A representante das Nações Unidas

na RD Congo recusa a amnistia

prévia e integração no exército

regular dos grupos armados

como forma de instaurar a paz

e a estabilidade no Leste deste

país da África Central. «Não

devemos amnistiar», defende

Leila Zerrougui, Os senhores da

guerra pretenderiam a integração

com alta patente no exército, em

troca da sua desmobilização.

além-mar | Outubro 2020


actualidades

© Lusa/Jerome Favre

© Lusa/Yahya Arhab

CHINA

Estado repressivo

Mais de 300 organizações não-governamentais instam as Nações Unidas

a criarem um mecanismo internacional para investigar as violações

dos direitos humanos na China e pedem que «actuem de forma decisiva

para proteger as liberdades fundamentais na China». As ONG de seis dezenas

de países denunciam as «violações em massa dos direitos humanos

cometidas pela China em Hong Kong, Tibete e Xinjiang» e a «supressão de

informações no contexto da pandemia, ataques a defensores dos direitos

humanos, jornalistas, advogados e críticos do Governo em todo o país».

Os signatários afirmam ainda que Pequim «deturpa o mandato do Conselho

de Direitos Humanos das Nações Unidas» e se esforça por ficar acima

do escrutínio crítico.

IÉMEN

Promessas falhadas

As Nações Unidas alertam para a deterioração da situação no Iémen,

onde «o espectro da fome está mais presente», denunciando que vários

doadores árabes falharam nas suas promessas de apoio. «Combates

intensificados, necessidades humanitárias aumentadas e a pandemia estão

a provocar estragos», afirma Martin Griffths, enviado das Nações Unidas

a este país da península da Arábia. A guerra no Iémen opõe, há mais de

cinco anos, os rebeldes Huthis, apoiados pelo Irão, contra forças leais ao

Governo, reconhecidas pela comunidade internacional e apoiadas pela

Arábia Saudita.

© Lusa/Javier Mamani © UNICEF/Romenzi

PORTUGAL

Esforço conjunto

Governo português revela

O disponibilidade para acolher

até 100 menores migrantes provenientes

do campo de refugiados

de Moria, na ilha de Lesbos.

A União Europeia lançou uma

iniciativa para permitir a recepção

por vários Estados-membros de

cerca de 400 menores desacompanhados

do campo de refugiados

na Grécia, devastado por um

incêndio, que deixou os seus

13 mil ocupantes desabrigados.

BOLÍVIA

Eleições presidenciais

Jeanine Áñez, (na foto)

presidente interina da Bolívia,

desistiu da candidatura às

eleições presidenciais marcadas

para 18 de Outubro. Luis Arce,

do partido Movimento ao

Socialismo (MAS) de Evo Morales,

é o favorito à vitória, com 40%

das intenções de voto, seguido

pelo ex-presidente Carlos Mesa,

que conta com o apoio de 26%

do eleitorado. Segundo a lei

boliviana, para vencer na primeira

volta é suficiente obter mais de

40% dos votos e uma vantagem

de dez pontos percentuais sobre

o segundo classificado.

2020 Outubro | além-mar


© 123RF

UNIÃO EUROPEIA

Pacto de Migração

Comissão Europeia ultima a proposta de

A reforço do controlo das fronteiras externas

da União Europeia e de uma mais rápida e eficaz

expulsão dos migrantes em situação irregular.

A presidente Ursula von der Leyen pretende um

acordo político para depois alcançar um pacto

definitivo sobre uma política comum de asilo e

imigração, com a Agência Europeia de Fronteiras

(Frontex) no centro do plano.

IRÃO

Sanções excluídas

As Nações Unidas não apoiam a

reposição de sanções contra o

Irão, já que membros do Conselho de

Segurança entendem que «qualquer

decisão ou medida tomada na

intenção de restabelecer as sanções

não terá nenhum efeito jurídico».

Os Estados Unidos retiraram-se do

Acordo Nuclear de 2015 que limita

o programa nuclear do país xiita do

golfo Pérsico, por considerarem que

as sanções não eram suficientes.

© Lusa/Daniel Irungu

© 123RF

RD CONGO

Nobel inibido

As Forças de Manutenção

da Paz das Nações Unidas

(UNPF) puseram sob protecção

o médico e Nobel da Paz

2018, Denis Mukwege (na foto),

ameaçado por ter denunciado

chacinas de civis no Leste da RD

Congo. No hospital de Panzi, situado

na província do Kinvu Sul,

o cirurgião já acolheu e operou

mais de quatro mil mulheres da

região, violadas sexualmente e

mutiladas por grupos armados.

© Fundação Denis Mukwege

TANZÂNIA

‘Bulldozer’ descontrolado

governo do presidente John

O Magufuli (na foto, conhecido por

Bulldozer por causa das mudanças

radicais que pôs em prática), que

se recandidata pelo partido CCM

nas eleições gerais de Outubro na

Tanzânia, aumenta a repressão contra

os partidos da oposição, os meios

de comunicação e activistas. «Em

vez de defenderem o direito à livre

expressão, as autoridades tomam

medidas que suscitam preocupações

sobre eleições livres e justas»,

denuncia Oryem Nyeko, investigador

da Human Rights Watch.

além-mar | Outubro 2020


actualidades

© UNICEF/Panjwani

MUNDO

Escolas encerradas

Quase 900 milhões de crianças

em todo o mundo não regressaram

ainda à escola devido à pandemia,

o que as pode tornar mais

vulneráveis ao trabalho infantil e à

violência. «Há países que não têm

nenhum plano para a retoma das

aulas», aponta Henrietta Fore, directora-executiva

da Unicef. Embora

a reabertura de forma segura das

escolas deva ser uma prioridade,

por garantirem educação, saúde,

segurança e nutrição, o director do

Programa de Emergências em Saúde

da OMS, Mike Ryan, vinca que

«não há soluções mágicas» enquanto

a transmissão comunitária não

for travada.

ÁFRICA

Dívida

A

s Nações Unidas defendem a

suspensão da dívida dos países

africanos, que precisam de 200

mil milhões de dólares para ultrapassar

as dificuldades trazidas pela

pandemia. O relatório Comprehensive

Response to Covid-19 sublinha

a importância de um «congelamento

geral da dívida para os países

africanos, bem como um pacote

de resposta global de 10 % do

PIB mundial», fracção do valor da

produção anual global, para uma

resposta eficaz e bases para a recuperação,

que passa pelo aumento

da capacidade hospitalar, criação

de empregos e incentivo ao empreendedorismo

feminino.

MOÇAMBIQUE

Violência chocante

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra uma mulher (posteriormente

identificada como Paulina Chitai), que caminha nua à beira da estrada,

em Mocímboa da Praia, província de Cabo Delgado. É seguida por vários

homens vestidos com fardas das Forças de Defesa e Segurança (FDS) de Moçambique.

É espancada violentamente com um pau. Grita de dor. Foge. Pouco

depois, com uma rajada de metralhadora é assassinada. Disparam-lhe ainda

outras vezes.

Na sequência da indignação que causou o vídeo, as FDS emitiram um comunicado

em que consideram «as imagens chocantes, abusivas, repugnantes,

horripilantes e acima de tudo condenáveis em todas as suas dimensões» e

reafirmam o «cometimento em proteger os direitos humanos».

Segundo fontes locais, a mulher estava acompanhada de um filho de 12

anos, Moisés Mutupa, que foi espancado e atirado para uns arbustos, onde

viria a falecer sem nenhum tipo de assistência.

A Amnistia Internacional, que tinha denunciado actos de tortura cometidos

pelas forças de segurança em Moçambique, pediu às autoridades do país

que lancem imediatamente uma investigação independente e imparcial sobre

a execução extrajudicial de uma mulher indefesa em Mocímboa da Praia.

MALI

Presidente interino

Comité Nacional para a Salvação

do Povo (CNSP) do Mali

O

– a junta militar que organizou um

golpe de Estado contra o presidente

Ibrahim Boubacar Keita, e que

governa o país africano desde essa

altura – nomeou o antigo ministro

da Defesa e coronel reformado Ba

N’Daou como presidente interino.

O dirigente assumiu o cargo no

passado 25 de Setembro e terá como

missão governar o Mali durante os

próximos 18 meses, período definido

pela junta como necessário para

se fazer uma transição política o

menos disruptiva possível, antes do

agendamento de novas eleições.

© Lusa/Life Tiemoko © Lusa/António Silva

2020 Outubro | além-mar


© 123RF

P. e José Vieira

Missionário comboniano

Indústrias

extractivas

têm «dívida

ecológica»

com a África.

áfrica minha

pegada suja

A

África é um continente muito

rico em minerais: ouro (89

por cento da produção mundial),

tântalo (vêm da RD do

Congo 80 % deste metal fundamental

para a indústria digital), platina (mais

de 60 % é produzida na África do Sul),

diamantes (metade da produção global),

bauxite (a Guiné detém 25 % das reservas

mundiais), carvão (Moçambique tem um

dos maiores depósitos por explorar do

mundo), cobalto, urânio, petróleo, gás

natural e muito mais.

Muitas economias africanas dependem

demasiado da exploração dos

minérios que têm um impacto ecológico

negativo como, por exemplo, nos casos

do ouro, carvão e petróleo. As minas

crescem à custa da deflorestação, da

biodiversidade e da vida selvagem, de

pastagens e terrenos agrícolas. A actividade

ainda é responsável pela poluição

dos solos, subsolos, água e ar que causa

problemas graves

de saúde, além da

violência e corrupção.

Noventa por

cento dos africanos

dependem da terra

para viverem.

O Papa Francisco

denunciou num curto

vídeo que publicou

em Setembro nas

redes sociais o que

chamou de «dívida

ecológica» dos países

e empresas do Norte,

que enriquecem com

a exploração dos

bens naturais do Sul.

Qualificou de ultrajante

a prática de

multinacionais que

fazem no estrangeiro

aquilo que lhes é

proibido no próprio

país.

A extracção de

petróleo no delta

do Níger e no Sudão do Sul são dois

casos emblemáticos. A Shell, que explora

o petróleo na Nigéria desde 1956, é

responsável por inúmeros acidentes que

contaminaram vastas áreas de solos e rios

do delta, pondo em risco a subsistência

dos povos locais.

No Sudão do Sul, dois relatórios

encomendados pelo Governo denunciam

a existência de águas e terras contaminadas

com níveis muito perigosos de

produtos tóxicos derivados da extracção

do crude que podem estar na origem de

malformações em bebés, abortos e outros

problemas de saúde nos habitantes das

áreas dos campos petrolíferos. As jazidas

são exploradas por consórcios encabeçados

por empresas chinesas com parceiros

da Malásia, Índia, Egipto e Sudão do

Sul. O Governo meteu os relatórios na

gaveta, porque o petróleo cobre 98 % das

entradas do orçamento do país. Egbert

Wesselink, da Pax Christi holandesa, que

investigou o assunto, afirma que o país

está a realizar uma das operações de extracção

de petróleo mais sujas do mundo.

Entretanto, com a crise climática a

mudar os motores movidos a combustíveis

fósseis para eléctricos e a hidrogénio,

as grandes petrolíferas procuram no

plástico a alternativa para o uso do crude.

O New York Times noticiou que um

grupo das maiores firmas da petroquímica

estava a pressionar a administração

Trump para forçar o Governo queniano a

importar plástico novo e em lixo.

O Quénia tem uma das leis antiplásticos

mais duras (usar sacos de polietileno dá

prisão). Em 2019, empresas americanas

exportaram mais de 450 mil toneladas de

lixo plástico para 96 países para reciclagem.

Muito acaba em lixeiras, rios ou no

mar.

Mas também há sinais de esperança!

O Zimbabué acaba de proibir a mineração

em parques nacionais incluindo na reserva

de Hwange, onde tinha concessionado

a exploração de carvão a duas empresas

chinesas. E tornou ilegal a exploração

manual de ouro no leito dos rios. am

além-mar | Outubro 2020


igreja em missão

VATICANO

Nova encíclica

Papa Francisco vai publicar

O uma nova encíclica – Fratelli

tutti («Todos irmãos») – a 4 de

Outubro, dia de São Francisco de

Assis. O documento é dedicado à

fraternidade, um dos valores promovidos

pelo Papa Francisco ao

longo do seu pontificado, particularmente

em Fevereiro de 2019,

quando assinou, juntamente com

Ahmed Al Tayyeb, o histórico Documento

sobre a Fraternidade Humana.

REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA

Futuro ameaçado

N

a carta pastoral Deixai Sair o Meu Povo, os bispos da República Centro-

-Africana afirmam que «há sinais de esperança, mas a contínua presença

de grupos armados ameaça o futuro». E sublinham que verificam «com

amargura que 70 %, ou até mesmo 80 %, do nosso país é ocupado por grupos

armados, alguns dos quais são liderados pelos mercenários atrozes».

Estes «grupos estão envolvidos em crimes de guerra, crimes contra a humanidade,

crimes ambientais e saques em larga escala dos nossos recursos

minerais. Eles cometeram crimes de sangue contra pessoas inocentes em

Bocaranga, Bohong, Bozoum, Besson, Bouar, Birao, Ndélé, Bria, Lemouna,

Koudjili», denunciam os prelados.

No documento, os bispos incentivam os jovens e as mulheres a terem papel

activo nas eleições presidenciais, previstas para Dezembro.

© Lusa/Claudio Peri

© Lusa/Natacha Buhler

JAPÃO

Fonte de vida

arquidiocese de Tóquio (Japão)

A lançou uma campanha de sensibilização

para a responsabilidade

de poupar e proteger a água, que

tantas vezes é «maltratada, poluída

e desperdiçada», pondo em perigo

«a sobrevivência e a saúde dos seres

humanos».

«Quando estiver com sede, encha

um copo de água até metade e

beba. Se for necessário, acrescente

mais água», sugerem. Um pequeno

gesto, aparentemente banal, mas

que ajuda a não desperdiçar a nossa

fonte de vida.

AMÉRICA LATINA E CARIBE

Soluções comuns para a crise

presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), que

A representa a Igreja Católica em 22 países, apelou à cooperação regional

na procura de soluções para a crise provocada pela covid-19, numa carta aos

líderes e governos da região.

«Exigimos que as políticas públicas tenham sempre em mente, em primeiro

lugar, os homens e mulheres da nossa terra e principalmente os mais pobres»,

afirmam os prelados.

Olhando para o futuro e os desafios que o continente terá de enfrentar, os

bispos pedem que os países o façam unidos e para ser eficazes no combate «às

chamadas doenças invisíveis, resultado do défice e de condições socioeconómicas

injustas, que causam mais mortes do que a covid-19».

© 123RF

2020 Outubro | além-mar


contraponto

conversão pastoral

© cathopic

D. Armando Esteves Domingues

bispo auxiliar do Porto

A missão

ad gentes é

modelo para

toda a acção

evangelizadora!

Para mim, quando adolescente,

missionários eram os «peras»,

nome dado aos religiosos do

seminário dos Combonianos de

Viseu.

Morava perto e, em férias, com frequência

me esgueirava até lá. Ia jogar à

bola ou às cartas, ia em busca de selos

«de todo o mundo» para a minha colecção,

ou apenas ouvir histórias de missionários

que, com incrível entusiasmo,

contavam a vida, a aventura e os perigos

das missões em África. Havia ali um respiro

universal que fazia sonhar e querer

fazer algo semelhante! Estavam presentes

os ingredientes de uma comunidade missionária.

A presença evangelizava!

O pior é que, quando a família descobriu

que, em vez de ir trabalhar nos livros da

paróquia, eu fugia para o Seminário das

Missões, me proibiu de lá voltar… para

não me «perder», pois o meu lugar já era

o Seminário da Diocese. Os missionários

eram eles! Eu não…

Lembrei esta experiência quando li a

nova Instrução da Congregação do Clero

intitulada Conversão

Pastoral da Comunidade

Paroquial ao

serviço da missão

evangelizadora da

Igreja. Vale a pena ler

e estudar, até porque

todos nascemos para

Cristo numa paróquia,

todos temos

uma imagem de

comunidade onde

aprendemos a dizer a

vida com o olhar da

fé. No novo documento,

diz-se que é

necessário individualizar

perspectivas que

permitam renovar as

estruturas paroquiais

«tradicionais» em

chave missionária

para serem protagonistas

de uma «nova

etapa de evangelização» (cf. EG 287).

É resposta a iniciativas de reorganização

do «território» das dioceses, onde

a paróquia se abre a outras paróquias,

constituem «unidades pastorais» e elaboraram

percursos pastorais conjuntos

mais centrados na evangelização que na

manutenção.

Um estudo da Universidade de Pisa

dizia que 80 % a 85 % da actividade

pastoral das paróquias se destinava à

conservação dos cristãos «praticantes»!

Apetece dizer: «É preciso desconfinar

Deus» ou «não alimentem só as mesmas

ovelhas já gordas»!

Não admira que a nova Instrução já

não fale só de paróquia, mas de comunidade

– Povo de Deus! Vencendo a

tentação do auto-referencialismo e clericalismo,

haverá alegria em poder e saber

«sair» para caminhar com cada irmão.

Na unidade entre sacerdotes, consagrados,

leigos e até homens de boa vontade

não crentes ou de crença diferente, acontecerá

a Nova Evangelização.

Que conversão! Imaginemos que as

estruturas da pastoral, mesmo as que

já deram frutos e hoje estão ultrapassadas,

se tornavam missionárias: as da

área social a criar projectos onde todos

se sintam envolvidos; a «catequese» a

traduzir o Evangelho em formas de vida

inculturada, em diálogo reciprocamente

enriquecedor com as outras culturas que

convivem na comunidade; a liturgia,

em todas as suas etapas, a convidar a

recolocar Deus no centro da vida e do

testemunho.

Seria bom ouvir o que contariam

comunidades recentes, porventura da

missão ad gentes, com estruturas simples,

mas «convertidas» para evangelizar. Qual

o papel dos leigos, como é a formação,

o testemunho, a festa, a alegria? E nas

dificuldades?

A missão ad gentes é modelo para toda

a acção evangelizadora!

Afinal, até na paróquia se pode ser

missionário! Até «eu» e não só «eles», os

«peras»! am

além-mar | Outubro 2020


do alto dos andes

Fernando Sousa | Jornalista

© Lusa/Carlos Ortega

Colômbia

MATAR POR MATAR

A capital colombiana voltou a ser palco de novas manifestações contra a

polícia, que voltou a matar por matar. Indignada, a presidente da Câmara de

Bogotá exige medidas, mas o presidente Duque encolhe os ombros.

A

Colômbia volta às notícias pelos

motivos de sempre: mais

violência e mais mortes, agora

por as pessoas estarem fartas da

brutalidade policial e da inacção do

Governo.

Já tinha acontecido depois da morte

de Dylan Cruz, 18 anos, no ano

passado, durante um protesto pacífico

contra as políticas do presidente

Iván Duque. Voltou a acontecer com

a de Javier Ordóñez, 43 anos, detido

e sujeito a repetidos choques eléctricos

com um taser quando já estava

imobilizado. Morreu horas depois

de ter chegado ao hospital. Um vídeo

divulgado nas redes sociais mostra o

episódio.

Revoltadas, milhares de pessoas

desceram às ruas da capital, da vizinha

Soacha e um pouco por todo

o país, para protestar contra as arbitrariedades

da polícia, em particular

dos CAI [postos de polícia chamados

«comandos de acção imediata»], que

concentram as raivas. Autocarros

foram incendiados e esquadras atacadas,

protestos reprimidos com a

mesma violência.

Tatiana, uma trabalhadora social

de 24 anos, e Andrey, um professor

de 33, estavam os dois num protesto

pacífico em frente do CAI de Ciudad

Bolívar, um bairro popular da periferia

de Bogotá. Nisto, a polícia carregou,

ele filmou a brutalidade, um

agente pediu-lhe o telemóvel, mas

ele recusou e foi agredido, e metido

numa cela com mais catorze pessoas,

todas privadas de papéis e telemóveis,

molhadas e gaseadas com gás

pimenta. No seu caso, ficou ainda

com quatro dentes partidos.

Balanço da ira popular: novas vítimas

mortais, como Cristian Hernández,

morto a tiro em frente de uma

esquadra, centenas de feridos, muitas

detenções e relatos de abusos difíceis

2020 Outubro | além-mar


de entender mesmo num país que

parece conviver tão bem com a violência

como com a cultura ou até a fé.

Indignação

Indignada com a situação, a presidente

da Câmara de Bogotá, Claudia

López, do partido progressista Aliança

Verde, foi ter com o presidente

Duque entregando-lhe uma hora e

meia de gravações de vídeo com os

excessos policiais. Ali se vêem, segundo

a agência IPS, agentes escondendo

a identificação e a agredir com

paus, civis enquadrados pelas forças

de segurança a disparar contra os

manifestantes, polícias a arremessar

pedras e a quebrar janelas gritando

contra cidadãos em pijama e disparos

contra pessoas pelas costas.

A audiência revelou-se, no entanto,

inútil no essencial. Tudo o que o

inquilino do Palácio Nariño prometeu

foi identificar os autores dos disparos,

afastando a ideia da reforma

da polícia.

q A presidente da Câmara de Bogotá,

Claudia López, encontra-se com familiares

das vítimas da violência.

Pág. anterior, manifestação de solidariedade

com as vítimas e de protesto

contra a brutalidade policial em Bogotá,

capital da Colômbia

Há muito que a presidente da Câmara

e outros críticos vêm alertando

para a necessidade da reforma da

polícia. Os excessos das forças de segurança

agravaram-se com a entrada

em vigor do Código Nacional da Polícia

e Convivência (Lei 1801, 2016),

que entre outras coisas reforçou os

seus poderes. De acordo com uma

sondagem da Gallup, 57 por cento

dos colombianos têm má opinião da

polícia. Mas o Governo parece mais

apostado em soluções de força do

que ir à causa das coisas.

Raivas acumuladas

O levantamento contra a brutalidade

policial esconde uma realidade

social mais grave, um mal mais antigo

e profundo. Tão antigo quanto as

guerras que marcaram o país desde o

período dito de La Violencia [período

de conflito civil entre os apoiantes

do Partido Liberal Colombiano e o

Partido Conservador Colombiano,

que ocorreu aproximadamente entre

1948 e 1958], umas mal acabadas

outras inacabadas; tão profundo

quanto esconde ressentimentos tão

acumulados que mal deixam ver os

motivos ou as soluções.

O número quase diário de vítimas

da violência na Colômbia é muito

superior ao das revoltas de Bogo-

© Bogota’s Mayoralty

tá. Desde o princípio do ano foram

mortas 185 pessoas em 46 chacinas

de acordo com o Instituto de Estudos

para o Desenvolvimento e a Paz, em

consequência das guerras mal acabadas,

como a das Autodefesas Unidas

da Colômbia [AUC, paramilitares,

permitidas por vários governos] ou

das Forças Armadas Revolucionárias

da Colômbia [FARC, comunistas],

respectivamente em 2006 e 2017, ou

em fase negocial como a do Exército

de Libertação Nacional (ELN), o

maior grupo ainda em armas.

Os Colombianos continuam a viver

em guerra, embora uma guerra

mais fragmentada, mais dispersa,

com todo um mundo de atropelos

aos direitos humanos por parte de

todos os seus protagonistas. Segundo

Christoph Harnisch, chefe da última

delegação do Comité Internacional

da Cruz Vermelha, há pelo menos

cinco conflitos activos no país: com

o ELN, que se fortaleceu com o desaparecimento

das FARC; com os narcotraficantes

do Clã do Golfo, a que

se juntaram ex-paramilitares; com

o Exército Popular de Libertação,

que se aproveitou, tal como o ELN,

dos territórios deixados vagos pelos

guerrilheiros comunistas; com dissidentes

das FARC que não aceitaram

a paz e entre os dois últimos grupos

rebeldes, ELN e EPL.

Disposto também aqui a não assumir

responsabilidades, o Governo

prefere apontar o dedo aos suspeitos

do costume. «Os chacinadores de

hoje são os mesmos de ontem e pelas

mesmas razões, ex-FARC, Exército

de Libertação Nacional, grupos de

narcotraficantes e outros delinquentes»,

disse o ministro da Defesa, Carlos

Holmes Trujillo.

De acordo com o Centro de Memória

Histórica, ainda que todos

aqueles grupos tenham usado as

chacinas como forma de domínio e

terror, dos 1982 ocorridos entre 1985

e 2012, 58 por cento foram perpetrados

por paramilitares, velhos aliados

de vários governos, formalmente

desmobilizados em 2006. am

além-mar | Outubro 2020


DIA OUTUBRO MUNDIAL MISSIONÁRIO

DAS MISSÕES

© 123RF

2020 Outubro | além-mar


ENVIADOS

EM MISSÃO

A História da Igreja tem-se construído com o envio de missionários

que, das suas comunidades de origem, saem para testemunhar

a Boa Notícia do Reino, com palavras e obras, nas fronteiras mais

distantes da Humanidade. Hoje, como escreve o Papa Francisco,

«Deus continua a procurar pessoas para enviar ao mundo

e às nações, a fim de testemunhar o seu amor».

além-mar | Outubro 2020


rios

OUTUBRO MISSIONÁRIO | MENSAGEM DE FRANCISCO

«EIS-ME AQUI, ENVIA-ME»

© Fernando Llano

Na Mensagem para o Dia Mundial

das Missões, este ano celebrado

no contexto da pandemia, o Papa

Francisco convida os baptizados

a serem criativos, impulsores e

motivadores da vocação missionária,

e a acolher com generosidade o

chamado de Deus para serem enviados

como testemunhas do Evangelho até

aos confins do mundo.

Desejo manifestar a minha

gratidão a Deus pelo empenho

com que, em Outubro

passado, foi vivido o Mês

Missionário Extraordinário em toda

a Igreja. Estou convencido de que

isso contribuiu para estimular a conversão

missionária em muitas comunidades

pela senda indicada no tema

«Baptizados e enviados: a Igreja de

Cristo em missão no mundo».

Neste ano, marcado pelas tribulações

e desafios causados pela pandemia

de covid-19, este caminho missionário

de toda a Igreja continua

à luz da palavra que encontramos

na narração da vocação do profeta

Isaías: «Eis-me aqui, envia-me» (Is 6,

8). É a resposta, sempre nova, à pergunta

do Senhor: «Quem enviarei?»

(ibid). Este chamamento provém

do coração de Deus, da sua misericórdia,

que interpela quer a Igreja

quer a humanidade na crise mundial

actual. «À semelhança dos discípulos

do Evangelho, fomos surpreendidos

por uma tempestade inesperada e

furibunda. Demo-nos conta de estar

no mesmo barco, todos frágeis e

desorientados, mas, ao mesmo tempo,

importantes e necessários: todos

chamados a remar juntos, todos carecidos

de mútuo encorajamento.

E, neste barco, estamos todos. Tal

como os discípulos que, falando

a uma só voz, dizem angustiados

“vamos perecer” (cf. Mc 4, 38), assim

também nós nos apercebemos

de que não podemos avançar cada

um por conta própria, mas só o

conseguiremos juntos» (Francisco,

Meditação na Praça de São Pedro,

27/03/2020). Estamos verdadeiramente

assustados, desorientados e

temerosos. O sofrimento e a morte

fazem-nos experimentar a nossa

fragilidade humana; mas, ao mesmo

tempo, todos nos reconhecemos par-

2020 Outubro | além-mar


ticipantes dum forte desejo de vida e

de libertação do mal. Neste contexto,

a chamada à missão, o convite a sair

de si mesmo por amor de Deus e do

próximo aparece como oportunidade

de partilha, serviço, intercessão.

A missão que Deus confia a cada um

faz passar do «eu» medroso e fechado

ao «eu» resoluto e renovado pelo

dom de si.

No sacrifício da cruz, onde se realiza

a missão de Jesus (cf. Jo 19, 28-

-30), Deus revela que o seu amor é

por todos e cada um (cf. Jo 19, 26-

27). E pede-nos a nossa disponibilidade

pessoal para ser enviados,

porque Ele é Amor em perene movimento

de missão, sempre em saída

de Si mesmo para dar vida. Por amor

dos homens, Deus Pai enviou o Filho

Jesus (cf. Jo 3, 16). Jesus é o Missionário

do Pai: a sua Pessoa e a sua

obra são, inteiramente, obediência à

vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; 6, 38; 8,

12-30; Heb 10, 5-10). Por sua vez, Jesus

– crucificado e ressuscitado por

nós –, no seu movimento de amor

atrai-nos com o seu próprio Espírito,

que anima a Igreja, torna-nos discípulos

de Cristo e envia-nos em missão

ao mundo e às nações.

«A missão que

Deus confia a cada

um faz passar do

“eu” medroso e

fechado ao “eu”

resoluto e renovado

pelo dom de si.»

«A missão, a “Igreja em saída” não

é um programa, um intuito concretizável

por um esforço de vontade.

É Cristo que faz sair a Igreja de si

mesma. Na missão de anunciar o

Evangelho, moves-te porque o Espírito

te impele e conduz (Francisco,

Sem Ele nada podemos fazer, 2019,

16-17). Deus é sempre o primeiro a

amar-nos e, com este amor, vem ao

nosso encontro e chama-nos. A nossa

vocação pessoal provém do facto

de sermos filhos e filhas de Deus na

Igreja, sua família, irmãos e irmãs

naquela caridade que Jesus nos testemunhou.

Mas todos têm uma dignidade

humana fundada na vocação

divina a ser filhos de Deus, a tornar-

-se, no sacramento do Baptismo e na

liberdade da fé, aquilo que são desde

sempre no coração de Deus.

Já o facto de ter recebido gratuitamente

a vida constitui um convite

implícito para entrar na dinâmica

do dom de si mesmo: uma semente

que, nos baptizados, ganhará forma

madura como resposta de amor no

matrimónio e na virgindade pelo

Reino de Deus. A vida humana nasce

do amor de Deus, cresce no amor e

tende para o amor. Ninguém está excluído

do amor de Deus e, no santo

sacrifício de seu Filho Jesus na cruz,

Deus venceu o pecado e a morte (cf.

Rom 8, 31-39). Para Deus, o mal

– incluindo o próprio pecado – torna-se

um desafio para amar, e amar

cada vez mais (cf. Mt 5, 38-48; Lc 23,

33-34). Por isso, no Mistério Pascal, a

misericórdia divina cura a ferida primordial

da humanidade e derrama-

-se sobre o Universo inteiro. A Igreja,

sacramento universal do amor de

Deus pelo mundo, prolonga na História

a missão de Jesus e envia-nos

u

além-mar | Outubro 2020


rios

«A missão é

resposta, livre

e consciente, à

chamada de Deus.»

por toda a parte para que, através do

nosso testemunho da fé e do anúncio

do Evangelho, Deus continue a

manifestar o seu amor e possa tocar

e transformar corações, mentes, corpos,

sociedades e culturas em todo o

tempo e lugar.

A missão é resposta, livre e consciente,

à chamada de Deus. Mas esta

chamada só a podemos sentir quando

vivemos numa relação pessoal de

amor com Jesus vivo na sua Igreja.

Perguntemo-nos: estamos prontos a

acolher a presença do Espírito Santo

na nossa vida, a ouvir a chamada à

missão quer no caminho do matrimónio,

quer no da virgindade consagrada

ou do sacerdócio ordenado

e, em todo o caso, na vida comum

de todos os dias? Estamos dispostos

a ser enviados para qualquer lugar

a fim de testemunhar a nossa fé em

Deus Pai misericordioso, proclamar

o Evangelho da salvação de Jesus

Cristo, partilhar a vida divina do

Espírito Santo edificando a Igreja?

Como Maria, a Mãe de Jesus, estamos

prontos a permanecer sem reservas

ao serviço da vontade de Deus

(cf. Lc 1, 38)? Esta disponibilidade

interior é muito importante para se

conseguir responder a Deus: Eis-me

aqui, Senhor, envia-me (cf. Is 6, 8).

E isto respondido não em abstracto,

mas no hoje da Igreja e da História.

A compreensão daquilo que Deus

nos está a dizer nestes tempos de pandemia

torna-se um desafio também

para a missão da Igreja. Desafia-nos

a doença, a tribulação, o medo, o isolamento.

Interpela-nos a pobreza de

quem morre sozinho, de quem está

abandonado a si mesmo, de quem

perde o emprego e o salário, de quem

não tem abrigo e comida. Obrigados

à distância física e a permanecer em

casa, somos convidados a redescobrir

que precisamos das relações sociais e

também da relação comunitária com

Deus. Longe de aumentar a desconfiança

e a indiferença, esta condição

deveria tornar-nos mais atentos à

nossa maneira de nos relacionarmos

com os outros. E a oração, na qual

Deus toca e move o nosso coração,

abre-nos às carências de amor, dignidade

e liberdade dos nossos irmãos,

bem como ao cuidado por toda a

criação. A impossibilidade de nos

reunirmos como Igreja para celebrar

a Eucaristia fez-nos partilhar a condição

de muitas comunidades cristãs

que não podem celebrar a Missa

todos os domingos. Neste contexto,

é-nos dirigida novamente a pergunta

de Deus – «quem enviarei?» – e

aguarda, de nós, uma resposta generosa

e convicta: «Eis-me aqui, envia-

-me» (Is 6, 8). Deus continua a procurar

pessoas para enviar ao mundo

e às nações, a fim de testemunhar o

seu amor, a sua salvação do pecado e

da morte, a sua libertação do mal (cf.

Mt 9, 35-38; Lc 10, 1-11).

Celebrar o Dia Mundial das Missões

significa também reiterar que a

oração, a reflexão e a ajuda material

das vossas ofertas são oportunidades

para participar activamente na missão

de Jesus na sua Igreja. A caridade

manifestada nas colectas das celebrações

litúrgicas do terceiro domingo

de Outubro tem por objectivo sustentar

o trabalho missionário, realizado

em meu nome pelas Obras Missionárias

Pontifícias, que acodem às

necessidades espirituais e materiais

dos povos e das Igrejas de todo o

mundo para a salvação de todos.

A Santíssima Virgem Maria, Estrela

da Evangelização e Consoladora

dos Aflitos, discípula missionária do

seu Filho Jesus, continue a amparar-

-nos e a interceder por nós. am

2020 Outubro | além-mar


OUTUBRO MISSIONÁRIO | DADOS DA IGREJA NO MUNDO

ao serviço da missão

A Igreja, com os seus missionários e instituições sociais, continua

a dar apoio a milhares de pessoas nos territórios de missão.

Fonte: Anuário Estatístico da Igreja 2019

67 695 444

crianças e jovens estão

a ser educados em

instituições católicas:

creches (7 375 144)

primária (34 660 054)

secundária (20 369 152)

superior técnico (2 345 799)

e universitário (2 945 295)

5269

Hospitais

15 735

Lares de terceira idade,

doentes crónicos e deficientes

16 068

Dispensários

9813

Orfanatos

além-mar | Outubro 2020


rios

OUTUBRO MISSIONÁRIO | TESTEMUNHO DA ÁFRICA

PEQUENOS PASSOS PARA

UM FUTURO MELHOR

No Sul do Níger, só uma em cada três mulheres sabem ler

e escrever. As meninas casam-se quando são ainda crianças.

Nessa realidade, um grupo de religiosas trabalha para mudar

a situação e construir um futuro melhor.

Texto: Barbara Brustlein | Fotos: Jörg Böthling

Oitenta por cento das mulheres

no Níger não sabem

ler nem escrever. A cada

duas horas, morre uma

mulher no parto e, em média, cada

uma dá à luz sete filhos. Nesta realidade,

a Ir. Marie Catherine Kingbo,

superiora da Fraternité des Servantes

du Christ em Maradi, começou a

trabalhar com apenas uma irmã em

2006. Hoje, onde as duas mulheres

começaram do nada, existe uma escola

e um internato dirigidos pelas

irmãs da congregação.

Meninas-noivas

«Quando a árvore arde, muitas vezes

é demasiado tarde para ir buscar

água», dizem aqui no Níger, África

Ocidental. A árvore na aldeia de Dan

Bako e nas aldeias em redor pode

ainda não estar a pegar fogo, e as

mães podem não permitir que se fale

com elas. É por isso que a irmã Marie

Catherine e as outras irmãs batem às

portas das casas das famílias. «Só um

ano para a sua filha», dizem às mães.

«Dê à sua menina apenas um ano e

veremos.» A idade média em que as

meninas aqui nas aldeias do Sul do

Níger se casam é de 12 anos.

Mas também há crianças de 9 anos

entre as noivas. Os maridos têm

2020 Outubro | além-mar


pelo menos a idade legal, a maioria

na casa dos vinte anos, mas às vezes

também são homens idosos. «Isso

significa que as meninas não têm

oportunidade de educação ou independência»,

diz a Ir. Kingbo. Há

catorze anos, a senegalesa veio para

a diocese de Maradi, fundou uma

comunidade religiosa e deu início à

sua missão até hoje: dar um futuro às

meninas e às mulheres. Rahatatou,

de 15 anos, está a estender roupa no

pátio de uma das casas cor de areia

de Dan Bako, a vila onde ela começou

o seu trabalho com mulheres no

campo. Rahatatou é uma das raparigas

pelas quais as irmãs obtiveram

uma prorrogação. «O que estás a fazer

aqui com a tua mãe? Pensei que

morasses na aldeia vizinha», pergunta

a Ir. Arlette, que hoje está de visita

às famílias.

A resposta permanece vaga, deve

ter havido problemas com o marido.

«Ela casou-se no ano passado e

recentemente sofreu um aborto»,

explicará a irmã mais tarde. A rapariga

não é excepção. «Os casamentos

p A Ir. Marie Catherine Kingbo, superiora

da Fraternité des Servantes du

Christ em Maradi. Em baixo, a água tem

de ser trazida de um poço a mais de

100 metros. Pág. anterior, crianças na

sala de aula

prematuros são seguidos por todo o

género de dificuldades, infelizmente

também abortos espontâneos», diz a

Ir. Kingbo. Ganhar tempo para fazer

com que as mães levem as meninas

mais tarde é o mais importante para

a Ir. Kingbo e suas companheiras de

campanha. Com Rahatatou isso funcionou

apenas até certo ponto: as irmãs

esperavam que ela pudesse ir à

escola por muito mais tempo. «Mas,

infelizmente, isto acontece com frequência:

as meninas simplesmente

não voltam às aulas depois das férias.

Se formos investigar para onde

foram, ouviremos: “Elas casaram-

-se.” Os campos que partilhamos são

verdes. Aqui as mulheres cultivam

colectivamente os campos e armazenam

as suas reservas juntas.»

Superar a pobreza

Nas aldeias, as religiosas reúnem as

pessoas para discutir questões sensíveis.

Nas áreas rurais, onde a pobreza

é mais severa, encorajam as mulheres

a usar o microcrédito para se manterem

economicamente por conta

própria e pouparem para os tempos

difíceis. Porque o Níger vive isso repetidas

vezes: o país da zona do Sahel

está a lutar contra a fome. «Coronavírus?

Não. Isso realmente não é

um problema aqui. Muitos aqui nem

acreditam que exista. A questão que

se põe aqui é como encontrar o suficiente

para comer», diz-nos a Ir. Marie

Catherine Kingbo. «Estou sempre

nas aldeias. A comida escasseia,

agora as meninas vão casar-se, pois

assim as famílias podem economizar

dinheiro», acrescenta a religiosa.

Um grupo reuniu-se, há ressentimento

porque o sistema de irrigação

falhou e não pode funcionar.

A alternativa não é muito tentadora:

algumas centenas de metros mais à

frente, na espaçosa praça da aldeia,

existe uma fonte. Jungiram os bois

com uma canga e puxam os baldes

de água das profundezas com os alcatruzes

que giram. Baraka Makamma

é uma das mulheres que trabalham

nos campos da comunidade e

u

além-mar | Outubro 2020


rios

DIA MUNDIAL DAS MISSÕES | ÁFRICA

armazenam reservas no banco de cereais

fundado pelas freiras. «Isso permite

economizar pelo menos algum

dinheiro», diz a mãe de sete filhos.

Juntamente com o que o marido ganha,

continuam à tona. As preocupações

diminuíram. Pelo menos um

pouco. «Quando começámos a ir às

aldeias, a primeira coisa que fizemos

foi reunirmo-nos com as mulheres

para conversar com elas sobre a sua

situação», diz a Ir. Kingbo. As freiras

convidaram os chefes tradicionais

das aldeias e os imãs. «Quando viram

que não estávamos a provocar o

caos, mas que a comunidade estava

cada vez mais forte, nós e o nosso

trabalho foram bem-vindos», lembra.

Hoje, a Ir. Kingbo está sob a protecção

do Sultão. Quando se trata de

adquirir um terreno, ele é um agente

e defensor.

Testemunho cristão

Os cristãos são uma pequena minoria

no Níger, que é moldada pelo

Islão tradicionalmente tolerante das

irmandades. No máximo, 1,5 % dos

Nigerianos são cristãos. Mas persiste,

igualmente, o terror dos grupos

islâmicos. Junto da cidade de Agadez

existe um centro de migração africana

no Níger. Desde que as rotas pelo

Sara e pelo Mediterrâneo se tornaram

mais difíceis, inúmeros jovens

migrantes ficam aqui. Cuidar deles

é um grande desafio para o futuro.

Porque os grupos terroristas que

actuam em nome do Islão ficam

muito felizes em socorrerem-se com

jovens sem perspectivas e continuam

a encontrar aí novos combatentes.

«Se um dia os muçulmanos dissessem:

“Queremos expulsar os cristãos”,

eles poderiam fazer isso a qualquer

momento», diz D. Ambroise

Ouédraogo, bispo de Maradi. A conp

Escola para meninas, que em Maradi

não têm oportunidade de educação ou

independência. Ao lado, Nafisa, de 9

anos, frequenta a Escola Missionária

Tibiri-Gobir há quatro anos

2020 Outubro | além-mar


vite dele, a Ir. Kingbo iniciou o seu

trabalho no país em 2006. Já houve

ataques e agressões de extremistas

no passado, por exemplo, na cidade

de Zinder, em 2015, quando, entre

outras coisas, uma escola católica foi

destruída. O bispo também sabe que

o Islão radical está a crescer e a segurança

no país está a deteriorar-se.

Mas afirma: «Ainda que sejamos minoria:

somos uma minoria que tem

um lugar permanente.» Também

para isso contribuem as escolas católicas,

que gozam de boa reputação e

são frequentadas por muitos funcionários

e dignitários do país.

Para a Ir. Kingbo, é das adolescentes

da sua escola que ela se orgulha.

Principalmente crianças de zonas

remotas do país vivem no internato.

Algumas viveram situações terríveis.

Entre as meninas mais velhas está

Sylvie, de 17 anos, através de cuja aldeia

na fronteira com a Nigéria bandos

de jiadistas saqueadores marcharam

para intimidar as pessoas. «Nós,

meninas, não podemos ficar em casa.

p Na aldeia de Dan Bako, uma cooperativa

de mulheres trabalha colectivamente

nos campos. Ao lado, D. Ambroise

Ouédraogo, bispo de Maradi. No máximo,

1,5% dos Nigerianos são cristãos

Essas pessoas podem fazer qualquer

coisa contra nós», diz ela. Está sentada

e à sua volta há um pequeno grupo

de colegas. «Se lhes perguntar o que

querem ser no futuro, dirão: enfermeira,

professora.» Sylvie, que fugiu

do Boko Haram e tenta contactar alguém

em casa uma vez por semana

para ter a certeza de que todos permanecem

ainda vivos, quer ficar com

as irmãs para sempre. «Veremos se é

isso que elas querem», diz a Ir. Kingbo.

E depois há a Nafisa, neta do tio

do Sultão. Ele deixou-a aos cuidados

das irmãs para que ela pudesse estudar

numa boa escola. Nafisa tem

9 anos e, portanto, está na idade de

casar. «Assim é», diz a Ir. Kingbo com

um olhar determinado. «Mas não há

dúvidas quanto a isso.» am

além-mar | Outubro 2020


rios

OUTUBRO MISSIONÁRIO | TESTEMUNDO DA ÁSIA

semente de mostarda

No Sri Lanca, as Missionárias Combonianas procuram testemunhar

o Evangelho da vida, conscientes de que os cristãos se

assemelham a uma pequena semente de mostarda, que tem a

vocação e a força para se tornar uma árvore e dar muitos frutos.

Texto: Ir. Beatriz Galán Domingo (Sri Lanca)

As primeiras missionárias

combonianas chegaram ao

país em Março de 2012,

convidadas pelo bispo de

Kandy, José Vianney Fernando. Tinha-nos

conhecido no Dubai, onde

viu como funcionava a escola, o centro

catequético e como acompanhávamos

as diferentes comunidades de

migrantes que ali estavam presentes.

Como a paz se estava a estabelecer

no Sri Lanca, após quase trinta anos

de guerra civil [1983–2009], o bispo

queria-nos na sua diocese. Qualquer

ajuda era bem-vinda para fortalecer

a educação e curar a convivência

entre os Cingaleses e os Tâmiles, os

dois grupos étnicos enfrentados.

As irmãs Libanos Ayele, Quy Thi

Dinh e Nelly Kangogo foram as

pioneiras. Começaram do zero na

missão de Talawakelle, localizada no

centro da ilha, uma missão que estava

chamada a viver e a crescer num

ambiente em que os cristãos eram

minoritários.

Cheguei a Talawakelle em Agosto

de 2017. Actualmente, somos uma

comunidade composta por quatro

irmãs, cada uma de nacionalidade

diferente, mas chamadas a testemunhar

o Evangelho com a vida.

Lembro-me do dia em que cheguei.

Em vez das habituais quatro

horas e meia, levámos seis horas

para chegar à missão porque estava

a chover torrencialmente. Três anos

depois, cada vez que faço esta viagem,

ainda sou surpreendida pela

majestade da selva, pelas cores vivas

dos templos hindus e pela serenidade

impassível dos budas jacentes no

meio da montanha. A Natureza e

religiosidade desta cidade são o seu

melhor cartão-de-visita.

Jovem e inexperiente, aterrei cheia

de paixão e ansiosa para revolucionar

tudo o mais rápido possível.

Agora ainda sou jovem, mas o tempo

e as pessoas ensinaram-me que, além

da paixão, a missão requer paciência,

perseverança, oração e muita humildade;

liberdade de conhecer, colaborar,

amar e deixar amar pelas pessoas

que nos recebem.

As pessoas com quem vivemos são

pessoas que sofrem. Descendem dos

escravos trazidos pelos Britânicos no

século xix para trabalhar em plantações

de chá, um dos produtos em

que, ainda hoje, se baseia a economia

do país. Devido às suas raízes indianas,

muitos só adquiriram a nacionalidade

cingalesa depois de 2003.

Todavia, apesar do reconhecimento

q A Ir. Beatriz Galán Domingo com as

crianças da escola na missão de Talawakelle,

Sri Lanca

© Foto cedida pela Ir. Beatriz Galán Domingo

2020 Outubro | além-mar


© 123RF

p Mulheres a apanhar chá no Sri Lanca,

um dos produtos em que se baseia

a economia do país

jurídico, os Tâmiles da região central

do país continuam a ser uma das

comunidades que é vítima de discriminação

e sofre com as desigualdades

económicas, políticas e sociais.

Nesta região, a maioria da população

depende da indústria do chá, seja na

recolha ou no processamento. Atrás

de cada taça de chá, tão apreciada

no mundo ocidental, estão as vidas

de milhares de mulheres queimadas

pelo sol e anémicas por causa das

sanguessugas das plantações. Este é,

infelizmente, o resultado da ganância

de um sistema que troca 12 quilos

de folha de chá por três euros, na

melhor das hipóteses.

Comunidades vivas

Com os olhos bem abertos a esta

realidade, em que a vida é explorada,

especialmente a das mulheres, a

nossa missão acontece. Partilhamos

a alegria de trabalhar numa escola

diocesana onde cristãos e hindus

– estudantes e professores – nos

comprometemos de alma e coração

na formação de boas pessoas e cidadãos

honestos. A educação é a ferramenta

mais poderosa para quebrar o

círculo da pobreza e o estigma da escravatura.

Além disso, é o lugar propício

para descobrir que as diferenças

étnicas e religiosas não são uma

ameaça, mas um reflexo da riqueza e

da pluralidade do país.

O outro pilar da nossa presença é

a paróquia de St. Patrick’s, com mais

de 1500 famílias cristãs espalhadas

por 60 comunidades. Há muitas vidas

e muita vida: mais de 300 crianças

na catequese, a Legião de Maria,

os grupos da Divina Misericórdia e

de São José Vaz, outros grupos de

jovens. É uma tarefa que partilhamos

com os dois sacerdotes diocesanos

da paróquia, os padres Mathew

e Dilan, e com as irmãs da Sagrada

Família de Bordéus. Somos uma comunidade

cristã que se parece a uma

semente de mostarda. Apesar de ser

a menor das presenças religiosas do

país, tem a vocação e a força para se

tornar uma árvore capaz de fornecer

abrigo e dar bons frutos.

Agradeço a Deus e a este povo pelos

anos partilhados. A oração constante

de budistas, hindus, muçulmanos e

cristãos fortaleceu a minha própria

oração. A prioridade da família na

sociedade cingalesa fez-me valorizar

ainda mais a minha. A simplicidade

e a pobreza com que vivem os meus

vizinhos levou-me a tentar encontrar

o que é verdadeiramente necessário.

A solenidade de algumas celebrações,

os simbolismos, as cores e os cheiros

fizeram-me entender que nada é demasiado

belo para Deus. A alegria

serena, a timidez que rapidamente se

torna confiança e a conversa com mil

perguntas ensinaram-me a valorizar

a importância de deter-se e conversar

com as pessoas. O sofrimento destas

pessoas que foram escravizadas reforça

a promessa de Cristo: «Vim para

que tenham vida e vida em abundância.»

A fé inabalável de uma minoria,

por vezes perseguida e massacrada,

confirma que a Igreja é uma mãe, que

está chamada a sair dos templos e das

barreiras do medo e do privilégio;

que ainda quando é perseguida está

chamada a ser anúncio da vida plena

em Jesus Cristo. am

além-mar | Outubro 2020


rios

OUTUBRO MISSIONÁRIO | TESTEMUNHO DA AMÉRICA

evangelizar na terra

dos q’eqchís

Na paróquia de São Luís de Petén, na Guatemala,

os Missionários Combonianos caminham e servem com

generosidade e alegria 120 comunidades cristãs.

Texto: P. e Fabrice Agbetiafa (na Guatemala)

Em 2014, depois de concluir

os meus estudos em Teologia

em Lima (Peru), regressei ao

Togo, o meu país. No dia 9 de

Agosto, fui ordenado padre em Lomé,

a capital, com outros dezanove religiosos,

e em 4 de Dezembro desse mesmo

ano viajei para a Guatemala para a minha

primeira missão, «o meu primeiro

amor», parafraseando São Daniel

Comboni, o nosso fundador.

Depois de trabalhar com os jovens,

em Outubro de 2019 fui enviado

para a paróquia de São Luís. Esta

missão comboniana está localizada

no departamento de Petén, no Norte

da Guatemala, a 363 km da capital,

uma região com uma altitude que

não ultrapassa os 300 metros, com

inúmeros lagos, entre os quais o lago

Izabal, o maior do país. A comunidade

abriu-se depois de um discernimento

em que era procurada uma

presença entre os mais pobres da

América Central. São Luís, localizada

numa área maioritariamente q’eqchí,

é a maior das dezoito paróquias do

vicariato apostólico de Petén.

Para melhor trabalhar e promover

a inculturação do Evangelho na

comunidade, comprometemo-nos a

aprender a sua língua e conhecer os

costumes das pessoas que acompanhamos

e servimos. Foi por isso que

comecei a estudar a língua, cultura

e costumes q’eqchís em Cobán, embora

agora, por causa do novo coronavírus,

tivesse de interromper essa

aprendizagem; tivemos, igualmente,

de reduzir as nossas actividades com

as comunidades católicas com as

quais trabalhamos.

Compromisso pastoral

Esta é a minha primeira experiência

missionária numa paróquia. Nos

meses que ando por aqui, tenho tentado

observar, aprender, adaptar-me

e tirar as minhas sandálias nesta terra

sagrada em que estou a pisar. Sinto-me

como um recém-nascido que

abre os olhos ao que o rodeia.

Na paróquia de São Luís somos

quatro combonianos e servimos nos

quinze centros que a compõem. Em

q O P. e Fabrice Agbetiafa, originário do

Togo, missionário em Petén, Guatemala

© Foto cedida pelo P.e Fabrice Agbetiafa

2020 Outubro | além-mar


p Os católicos da paróquia de São Luís de Petén, Guatemala, estão presentes em 15

centros e distribuem-se por 12o comunidades cristãs

Participo regularmente em reuniões

de coordenadores comunitários,

que normalmente são catequistas

e líderes de zona. Durante estes

encontros, as experiências e problemas

das comunidades são avaliados

e coordenados. Reflectimos também

sobre as actividades e linhas pastorais

da zona para criar mais comunhão

e participação entre elas.

Para os conhecer, há momentos

em que temos de passar até três horas

a conduzir nas estradas, embora

também seja comum termos de deixar

o veículo estacionado e atravessar

um rio ou caminhar pela floresta

acompanhados pelo ruído dos macacada

um deles participam grupos

de católicos, divididos por critérios

geográficos e linguísticos. Embora

a maioria deles sejam q’eqchís, há

também comunidades onde os fiéis

falam apenas castelhano. No total,

existem cerca de 120 comunidades

cristãs, das quais conheço cerca de

100. Ao longo deste tempo, dediquei-me

essencialmente a visitá-los

e a conhecê-los. Também celebrei a

eucaristia, administrei baptismos e

casamentos, visitei os doentes, ouvi

as confissões. Muitas vezes celebro a

eucaristia numa comunidade cristã e

durmo lá, para sair no dia seguinte e

poder celebrar noutro lugar.

© Comboni Press © Comboni Press

cos uivadores. Nestes meses em que

permaneci em Petén, tive de andar

na lama bastantes vezes e ser «devorado»

pelas picadas dos mosquitos.

Embora não saiba nadar, atravessei

rios em pequenas canoas que podem

facilmente virar-se ao menor movimento

ou desequilíbrio.

São, apesar de tudo, experiências

missionárias preciosas e edificantes,

que preenchem a vida. O mais bonito

destas visitas é o acolhimento das

pessoas.

Quando chegamos às comunidades,

estão sempre à nossa espera,

recebem-nos fraternalmente e oferecem-nos

uma refeição. Se a missa

ou a reunião é no final da manhã,

somos despedidos com um almoço

partilhado, tornando muito visível o

sentido comunitário que caracteriza

o povo Q’eqchí. Além disso, também

participo em encontros de animadores

de pequenas comunidades missionárias,

na formação de catequistas

ou na preparação de crianças e

jovens para a primeira comunhão e

confirmação.

A paróquia tem muita vida e exige

um grande compromisso. Estou

muito feliz aqui. Temos uma estrutura

muito solvente e muitos leigos

comprometidos, dispostos a servir a

comunidade.

Os quatro combonianos que constituímos

a comunidade religiosa

queremos formar agentes pastorais

que sejam missionários na paróquia,

despertar nos nossos jovens inquietações

vocacionais e promover vocações

diocesanas e combonianas. Sonhamos

que os jovens são o «agora

de Deus» para a paróquia e a Igreja

universal.

Também insistimos na pastoral

das mulheres, para a qual promovemos

reuniões e ateliês, promovendo

assim a participação feminina na

Igreja e na sociedade. Perante a escassez

de recursos económicos, a pobreza

e o aumento do analfabetismo,

a paróquia também ajuda jovens de

famílias necessitadas com um programa

de bolsas de estudo. am

além-mar | Outubro 2020


apo desenvolvimento urbano

cidades mais habitáveis

Mais da metade da população mundial vive actualmente em cidades.

Até 2050, esse valor chegará a 70 %, com o crescimento concentrado na

Ásia e na África. A urbanização é uma das tendências transformadoras

do mundo e levanta desafios de sustentabilidade, mas também

oportunidades para uma melhor qualidade de vida.

Texto: Carlos Reis, jornalista

© 123RF

«Continuar a gerir as

cidades da maneira

usual levará à

insustentabilidade.

Precisamos de novas

ideias para ajudar a

transformar a maneira

como vivemos nas

cidades.»

Maimunah Sharif, directora executiva

da UN-Habitat

«As metrópoles

concentram a

pobreza, mas também

representam a melhor

esperança de escapar

dela. É por isso que

as pessoas migram

para as cidades.»

William Cobbett, director-geral

da Cities Alliance

2020 Outubro | além-mar


A urbanização planeada maximiza a capacidade das cidades de gerar

empregos e riqueza e promover a diversidade e a coesão social.

A batalha para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável

será decidida nas cidades. As cidades precisam de criar oportunidades,

interacções e compartilha sustentável de recursos.

CONCENTRAÇÃO

As cidades

ocupam 3%

da superfície terrestre,

consomem mais

de 2/3 da energia mundial,

geram 80% do produto

interno bruto

e geram 70%

das emissões

de dióxido

de carbono

DESAFIOS

Habitação e segurança

Meio ambiente e

mudanças climáticas

Infra-estruturas e serviços

básicos

Saúde e segurança

alimentar

Educação e trabalho

decente

Recursos naturais

EXPANSÃO

Expansão em áreas rurais

Criação de cidades-

-satélites conectadas

Cidades mais compactas,

densas e sustentáveis

Fusão de megacidades

Áreas urbanas

secundárias de média

dimensão

Crescimento dos bairros-

-de-lata periféricos

CIDADES CENTRADAS NO CIDADÃO

índice de cidades sustentáveis

Estocolmo 72 %

Seattle 63 %

São

Francisco

65 %

Nova Iorque 66 %

Edimburgo 70 %

Londres 74 %

Seul 66 %

Hong Kong 67 %

Nairobi 29 %

Singapura 70 %

Santiago 45 %

São Paulo 44 %

Cidade do Cabo 28 %

Joanesburgo 31 %

Camberra 59 %

Brisbane 57 %

Sidney 59 %

Fonte: Arcadis Sustainable Cities Index 2018

além-mar | Outubro 2020


ap mundo

sociedades para

todas as idades

O envelhecimento populacional é uma das transformações sociais

mais significativas do século xxi, com implicações transversais

a todos os sectores da sociedade. Os países do mundo estão

a assistir a um crescimento no número e na proporção

de pessoas idosas da sua população.

Texto: Carlos Reis, jornalista

© 123RF

2020 Outubro | além-mar


A

população mundial está a

envelhecer devido ao aumento

da esperança de

vida e à queda dos níveis

de fertilidade. Até 2050, uma em

cada seis pessoas no mundo (16 %)

terá mais de 65 anos. As regiões onde

a parcela da população com 65 anos

ou mais é projectada para o dobro

entre 2020 e 2050 incluem o Norte

de África, a Ásia e a América Latina.

Consequentemente, o número

de pessoas em idade produtiva em

relação aos idosos com mais de 65

anos está em queda, revela o relatório

World Population Prospects 2019,

promovido pelo Departamento de

Assuntos Económicos e Sociais das

Nações Unidas (UN DESA), que

prevê que o número de pessoas com

80 anos ou mais triplicará, de 143

milhões na actualidade para 426 milhões

em 2050. Perante este cenário,

é urgente que as pessoas idosas sejam

cada vez mais consideradas como

contribuintes para o desenvolvimento

e as suas aptidões transformadas

em políticas e programas.

«O envelhecimento da população é

uma história de êxito humano, reflectindo

o avanço da saúde pública, medicina

e desenvolvimento económico

e social», observa o estudo World

Population Ageing 2019. O aumento

da longevidade humana associado

à transição demográfica foi o motor

do crescimento global da população.

O declínio subsequente da fertilidade

foi o gatilho que levou a uma percentagem

cada vez maior de pessoas idosas

na população mundial.

Hoje, pela primeira vez na História,

a esperança de vida no mundo

ultrapassa os 71 anos, mais seis anos

que em 1990. Contudo, a esperança

de uma vida saudável, sem sofrer

problemas graves de saúde, cresceu

no mesmo período 5,4 anos (de

56,9 anos para 62,3 anos). Estas mudanças

têm implicações profundas.

Uma criança nascida no Brasil ou

em Mianmar pode esperar viver vinte

anos mais que uma criança nascida

há cinquenta anos.

© 123RF

Velha economia

Uma vida mais longa é um recurso

incrivelmente valioso. Proporciona a

oportunidade de repensar não apenas

no que a idade avançada pode

ser, mas como todas as vidas se podem

desdobrar. Por exemplo, em

muitas partes do mundo, o curso da

vida é actualmente enquadrado em

torno de um conjunto rígido de fases:

infância, fase de estudos, um período

definido de trabalho e, em seguida,

reforma. A partir desta perspectiva,

assume-se frequentemente que os

anos extras são simplesmente adicionados

ao fim da vida e permitem

uma aposentação mais longa.

Entretanto, quanto mais pessoas

chegam a idades mais avançadas,

há evidências de que muitas estão

repensando este enquadramento rígido

de vida. Muitos idosos consideram

agora estudar mais, ter uma

nova carreira ou ocupação.

O envelhecimento da população e

um crescimento populacional mais

lento afectarão as economias de todos

os Estados, de acordo com os

seus valores culturais, sistemas institucionais

e incentivos económicos.

«Longe de ser um obstáculo ao desenvolvimento

económico, os idosos

p Hoje, pela primeira vez na História,

a esperança de vida no mundo ultrapassa

os 71 anos. Os mais velhos passam

experiências para as gerações mais

jovens e, com isso, ajudam-nas a fortalecer

as suas capacidades

em sociedades que estão a envelhecer

podem servir como um factor

importante, senão o motor desse desenvolvimento»,

prevê Ronald Lee,

professor de Economia e Demografia

da Universidade da Califórnia em

Berkeley, um dos autores do Handbook

of the Economics of Population

Aging (Elsevier, 2016).

Os idosos trabalham em regime de

remuneração ou não, cuidam de familiares

e amigos e realizam trabalho

pós-aposentação em organizações e

associações. Os mais velhos passam

experiências para as gerações mais

jovens e, com isso, ajudam-nas a fortalecer

as suas capacidades. «Pessoas

mais velhas cuidam regularmente

dos seus netos e estão a sustentar os

seus filhos. Em África, por exemplo,

o apoio familiar dos avós desempenha

um papel particularmente importante

no apoio às crianças, visto

que a geração dos pais foi fortemente

afectada pelos efeitos do VIH/sida»,

u

além-mar | Outubro 2020


mundo

nota a Organização Mundial de Saúde.

© 123RF

Os idosos devem

ser protagonistas

na sociedade,

porque alimentam a

cultura da esperança

e garantem a

sobrevivência

dos países.

Região

Mundo

Haja saúde

O envelhecimento da população tem

efeitos profundos sobre a procura

por cuidados de longo prazo. À medida

que a esperança de vida aumenta,

o valor geral da saúde aumenta.

Assim, a amplitude das oportunidades

que surgem do aumento da longevidade

dependerá muito do factor

fundamental que é a saúde. Se esses

anos a mais são dominados por declínios

na capacidade física e mental,

as implicações para as pessoas mais

velhas e para a sociedade são muito

mais negativas.

Margaret Chan, consultora do Fórum

Boao para a Ásia e directora-geral

da Organização Mundial de Saúde,

de 2006 a 2017, considera que,

«embora seja assumido muitas vezes

que o aumento da longevidade está

a ser acompanhado por um período

prolongado de boa saúde, existem

poucas evidências que sugiram que

os idosos de hoje apresentem uma

saúde melhor do que os seus pais tinham

com a mesma idade».

A maioria dos problemas de saúde

enfrentados por pessoas mais velhas

são associados a condições crónicas,

principalmente doenças não

transmissíveis. Muitas delas podem

ser prevenidas ou retardadas envolvendo-se

em comportamentos saudáveis.

Outros problemas de saúde

podem ser controlados de maneira

eficaz, sobretudo se forem detectados

precocemente. E mesmo para as

pessoas com declínios nas capacidades,

os ambientes de apoio podem

garantir que elas vivam vidas dignas.

«Alguns idosos vivem relativamente

livres de doenças crónicas,

mas outros podem viver anos com

doenças crónicas que antes eram

fatais. Os dispositivos médicos também

melhoram a mobilidade. O resultado

não é apenas o aumento da

procura, mas uma gama mais ampla

de necessidades de saúde», explica

Edward Norton, professor de Política

e Gestão de Saúde da Universidade

do Michigan. Todavia, o mundo

está muito longe desses ideais e o

envelhecimento da população exige

uma resposta global e abrangente da

saúde pública.

Poder grisalho

Os idosos devem ter condições de

participar activamente na vida social,

económica e política, de forma que se

reduzam as desigualdades de velhice

dentro dos países e entre os países.

Isto na convicção de que a todos,

MILHÕES DE PESSOAS COM 65 ANOS OU MAIS

África Subsariana

Norte de África e Ásia Ocidental

Sul da Ásia e Ásia Central

América Latina

Europa e América do Norte

2019

703

32

29

119

56

200

2050

1549

101

96

328

145

296

Fonte: UN DESA World Population Prospects 2019

2020 Outubro | além-mar


© 123RF

PRINCÍPIOS DAS NAÇÕES UNIDAS EM FAVOR DAS PESSOAS IDOSAS

Independência

• Acesso a alimentação, água, alojamento,

vestuário e cuidados de

saúde adequados, através da garantia

de rendimentos, do apoio

familiar e comunitário e da auto-

-ajuda.

• Possibilidade de trabalhar ou de

ter acesso a outras fontes de rendimento.

• Possibilidade de participar na decisão

que determina quando e a que

ritmo tem lugar a retirada da vida

activa.

• Acesso a programas adequados de

educação e formação.

• Possibilidade de viver em ambientes

que sejam seguros e adaptáveis

às suas preferências pessoais

e capacidades em transformação.

• Possibilidade de residir no seu domicílio

tanto tempo quanto possível.

Participação

• Permanecer integrados na sociedade,

participar activamente na

formulação e execução de políticas

que afectem directamente o

seu bem-estar e partilhar os seus

conhecimentos e aptidões com as

gerações mais jovens.

• Possibilidade de procurar e desenvolver

oportunidades para prestar

serviços à comunidade e para trabalhar

como voluntários em tarefas

adequadas aos seus interesses e

capacidades.

• Possibilidade de constituir movimentos

ou associações de idosos.

Assistência

• Beneficiar dos cuidados e da protecção

da família e da comunidade

em conformidade com o sistema

de valores culturais de cada sociedade.

• Acesso a cuidados de saúde que

os ajudem a manter ou a readquirir

um nível óptimo de bem-estar

físico, mental e emocional e que

previnam ou atrasem o surgimento

de doenças.

• Acesso a serviços sociais e jurídicos

que reforcem a respectiva autonomia,

protecção e assistência.

• Possibilidade de utilizar meios

adequados de assistência em meio

institucional que lhes proporcionem

protecção, reabilitação e estimulação

social e mental numa

atmosfera humana e segura.

• Possibilidade de gozar os direitos

humanos e liberdades fundamentais

quando residam em qualquer

lar ou instituição de assistência ou

tratamento, incluindo a garantia do

pleno respeito da sua dignidade,

convicções, necessidades e privacidade

e do direito de tomar decisões

acerca do seu cuidado e da

qualidade das suas vidas.

Realização pessoal

• Possibilidade de procurar oportunidades

com vista ao pleno desenvolvimento

do seu potencial.

• Acesso aos recursos educativos,

culturais, espirituais e recreativos

da sociedade.

Dignidade

• Possibilidade de viver com dignidade

e segurança, sem serem explorados

ou maltratados física ou

mentalmente.

• Ser tratados de forma justa, independentemente

da sua idade, género,

origem racial ou étnica, deficiência

ou outra condição, e ser

valorizados independentemente da

sua contribuição económica.

Fonte: UN Principles for Older Persons

independentemente da idade, sexo,

deficiência, etnia, religião e nível económico,

devem ser garantidas oportunidades

iguais de inclusão social,

indispensável para alcançar até 2030

os Objectivos de Desenvolvimento

Sustentável das Nações Unidas.

Os idosos devem ser protagonistas

na sociedade porque alimentam

a cultura da esperança e garantem a

sobrevivência dos países, no entendimento

do Vaticano, que sensibiliza a

população sobre as oportunidades e

os desafios de uma sociedade que envelhece

a um ritmo cada vez maior,

e consciencializa para a contribuição

que os idosos dão à sociedade e a sua

valorização plena.

«Quando os idosos são negligenciados,

perdemos a tradição, que

não é um museu de coisas velhas, é a

garantia do futuro. Se não aprendermos

a tratar bem os idosos, também

nós seremos tratados assim», adverte

o Papa Francisco, solicitando a todos

que não deixem de dar atenção aos

que sofrem por doenças, exclusão ou

solidão. «Os anciãos são um tesouro,

são a sabedoria, um património das

nossas comunidades», considera o

pontífice, também ele ancião.

Em 1991, a Assembleia Geral das

Nações Unidas adoptou os Princípios

das Nações Unidas em Favor

das Pessoas Idosas e encorajou os

governos a incorporar os 18 direitos

relacionados com a independência,

participação, cuidado, auto-realização

e dignidade.

Na década seguinte, a acção em

nome do envelhecimento contou,

em 2002, com a realização da Second

World Assembly on Ageing,

em Madrid, uma reunião das Nações

Unidas onde se desenhou a política

internacional sobre o envelhecimento

no século xxi. As suas recomendações

apontaram para a «qualidade

do envelhecimento populacional, da

promoção do bem-estar e da saúde

na velhice e na importância de redes

de apoio». Tudo para adicionar vida

aos anos que foram adicionados à

vida. am

além-mar | Outubro 2020


ap lesbos

© Lusa/Orestis Panagiotou

moria:

um vexame

para a europa

Dois incêndios destruíram

Moria (Lesbos, Grécia), o

maior campo de refugiados

da Europa. Quase 13 mil

pessoas – na sua maioria são pessoas

que fogem de conflitos e regimes ditatoriais

no Afeganistão, Síria e alguns

países africanos – viviam em

condições precárias, num campo que

estava em confinamento, depois de

ter sido detectado o primeiro caso de

covid-19. Fugiram das chamas com

a roupa do corpo e os pertences que

conseguiram transportar. Ficaram

sem abrigo, pernoitando ao relento.

«A Europa devia ter vergonha»,

o incêndio no campo de refugiados

de Moria «foi provocado pela nossa

inacção», afirmou o cardeal Jean-

-Claude Hollerich, presidente da

Comissão dos Episcopados da União

Europeia. Uma opinião partilhada

por outros responsáveis religiosos, representantes

de instituições de solidariedade

e organizações humanitárias.

© Lusa/Orestis Panagiotou

2020 Outubro | além-mar


© 123RF

© Lusa/Orestis Panagiotou

© Lusa/Vangelis Papantonis

© Lusa/Vangelis Papantonis

Moria já era considerado um inferno.

As organizações não-governamentais

multiplicaram nos últimos

anos os alertas sobre as condições

de vida indignas do campo: existia

sobrelotação (viviam no campo de

refugiados quatro vezes mais pessoas

do que a sua real capacidade), a insegurança

era total, em particular para

as mulheres (que se queixavam de

assédio na hora de usar os lavabos),

o chão era um lamaçal.

Depois da tragédia, os migrantes

foram encaminhados para um campo

temporário em Kara Tepe – que

em turco significa «montanha negra»

–, mas as condições não são melhores

do que aquelas que existiam

em Moria antes do incêndio.

As ONG consideram que esta solução

não responde às necessidades

básicas dessas pessoas e equivale a

colocá-las numa prisão a céu aberto.

E apelam à União Europeia para que

inicie um processo de redistribuição

dos requerentes de asilo por cada um

dos Estados-membros.

A Comunidade de Sant’Egídio,

o Serviço Jesuíta aos Refugiados e

as Irmãs Missionárias de São Carlo

Borromeo (Scalabrinianas) tornaram

público um comunicado conjunto no

qual pedem à União Europeia que,

em cooperação com o Governo grego,

intervenha «imediatamente para

acolher e integrar um número de

pessoas que indubitavelmente está

ao seu alcance». Recordemos que,

em 18 de Março de 2016, um acordo

celebrado entre a União Europeia e a

Turquia limitava o afluxo de migrantes

e refugiados à Europa, em troca

de 6 mil milhões de euros. Por muitos

rotulado «acordo da vergonha»,

condenou os requerentes de asilo que

estavam nos campos gregos a processos

burocráticos intermináveis.

O Papa Francisco, que em 2016 visitou

Moria para alertar para o drama

dos migrantes, também manifestou a

sua solidariedade aos refugiados do

campo destruído pelo fogo e pediu

um acolhimento digno e humano

para estas pessoas. am

além-mar | Outubro 2020


ap estados unidos da américa

AS MINORIAS DA AMÉRICA / 2. OS EUA E A POPULAÇÃO NEGRA: ESCRAVIDÃO

© wgntv.com

UMA VERGONHA

COM 246 ANOS

Os escravos que chegaram da África aos EUA não eram pessoas,

mas objectos. Comprados, vendidos, explorados, humilhados.

Em 1860, no Sul do país, eram quatro milhões. A guerra civil

conduziu ao fim da escravatura, mas não à liberdade de viver

como os brancos. Essa ainda é uma meta muito distante.

O

início do tráfico de escravos

africanos pelos europeus

está fixado pelos

historiadores em 1441.

Naquele ano, os capitães portugueses

Antão Gonçalves e Nuno Tristão

capturaram doze africanos no Cabo

Branco (actual Mauritânia) e trouxeram-nos

para Portugal (fonte: brycchancarey.com).

Texto: Paolo Moiola, Jornalista

Em Janeiro de 1510, começou o

transporte sistemático de escravos

do Continente Negro para o chamado

Novo Mundo: o rei Fernando de

Aragão e Castela havia de facto autorizado

o envio de uma expedição de

50 africanos para São Domingos.

O comércio então teve uma escalada

significativa em 1518. Em

Agosto daquele ano, Carlos V de

Habsburgo concedeu autorização

ao cortesão flamengo Lorenzo de

Gorrevod para importar 4 mil africanos

para o vice-reinado da Nova

Espanha (incluindo México, América

Central e territórios centro-ocidentais

dos actuais Estados Unidos).

A partir de então, milhares de escravos

foram enviados para o Novo

Mundo todos os anos.

2020 Outubro | além-mar


© William Henry Brooke

Também para marcar o início da

escravatura nas colónias inglesas

– os futuros Estados Unidos – há

uma data simbólica: 1619. E, como

quase sempre acontece nas análises

históricas, há uma data final: 1865.

Portanto, se considerarmos estas

duas datas, é possível dizer que, naquele

país, a instituição da escravatura

durou 246 anos.

Para entender o que era, pode ser

revelador ler os editais da época.

Homens em leilão

Era 27 de Abril de 1769 quando um

cartaz anunciou a venda em leilão

de uma «carga seleccionada de 250

negros», que viera directamente da

Gâmbia. O anúncio público mostrou

transparência, pois não escondeu o

facto de que, no navio, ocorrera um

surto de varíola. Especificando logo

em seguida que tudo estava debelado

e que a carga poderia ser comprada

sem medo de infecção.

No início – de 1672 a 1698 – era

apenas a Royal African Company

que importava escravos africanos

para as colónias americanas. Então, o

monopólio acabou e outras companhias

entraram no mercado. Como

a companhia do comerciante inglês

Joseph Wragg. Entre 1717 e 1744, a

q Ilustração da época que representa

um leilão público de escravos. Ao lado,

cartaz que anuncia um leilão de 250 negros

provenientes da Gâmbia, em 1769

© Tom Bivins

Wragg & Savage podia contar com

36 navios negreiros. Com eles foi

possível importar cerca de 10 mil escravos

africanos, sobretudo da Gâmbia

e de Angola.

Ao chegarem a solo americano, os

escravos eram vendidos em leilões

públicos como se fossem objectos.

Os seus preços variaram de um mínimo

de 250 dólares a um máximo

de 1750 dólares por peça (cerca de 40

mil dólares hoje em dia).

Em 28 de Outubro de 1859, um

certo Jacob August de Warrenton,

da Carolina do Norte, publicou um

anúncio de algumas linhas intitulado

«Negroes for sale» (negros à venda).

Dizia: «Venderei em leilão público

[...] oito preciosos criados da família,

consistindo num homem negro, lavrador

de primeira classe; um rapaz

de 17 anos, servidor de confiança;

um excelente cozinheiro; uma empregada

e uma costureira. [...] Não

são vendidos por defeitos, mas em

consequência da minha transferência

para o Norte».

Se os escravos fugissem do seu senhor,

era prometida uma recompensa

pela sua captura.

Em 23 de Agosto de 1852, o Sr.

John Means, de St. Louis, Missuri,

fez um anúncio nestes termos: «O

meu negro chamado George fugiu.

O dito negro tem 1,75 m de altura,

pele escura; toca violino e vários

outros instrumentos também; é um

indivíduo astuto, inteligente e de

aparência muito afável; tem 25 anos.

Se aquele negro for capturado e posto

na cadeia de St. Louis ou levado

para este condado para que eu possa

recuperá-lo, receberão 1000 dólares

de recompensa imediatamente.»

Uma vez recuperados, os escravos

fugitivos eram severamente punidos.

O escravo era considerado por lei

propriedade do senhor. Como tal, ele

foi privado da maioria dos direitos

normalmente detidos por pessoas

livres: em tribunal, o testemunho de

negros era inadmissível em qualquer

disputa que envolvesse brancos; não

podiam ser parte num contrato, nem

poderiam ter propriedade; mesmo

quando atacados, não podiam atingir

uma pessoa branca.

O domínio do branco sobre os negros

de sua propriedade resultou em

muitas outras restrições: os escravos

não podiam sair sem autorização; a

menos que uma pessoa branca estivesse

presente, não se podiam reunir;

não podiam possuir armas de

fogo; não podiam aprender a ler ou

escrever, nem transmitir ou possuir

textos potencialmente inflamatórios

(até mesmo a própria Bíblia, como

veremos); como o casamento era um

contrato, não se podiam casar. As famílias

foram formadas igualmente,

mas sem o imprimatur da lei.

u

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Também havia um problema dentro

do problema. Os familiares viviam

em risco perene de serem separados

pela venda de um ou mais

familiares, conforme relatado pelo

National Humanities Center. Como

os escravos eram parte da propriedade

do senhor, podiam ser objecto de

várias transacções comerciais. Um

escravo podia ser vendido por causa

de parte de uma propriedade, ou

porque o dono precisava de dinheiro,

ou porque considerava o escravo não

confiável, improdutivo ou causador

de problemas. Desse modo, poderia

facilmente acontecer que um pai

fosse vendido sem a mulher e os filhos,

ou que apenas a mãe e os filhos

ou mesmo os filhos fossem vendidos.

O romance abolicionista mais famoso

da época (1852), A Cabana

do Pai Tomás, da escritora branca

Harriet Beecher Stowe [1811-1896],

também fala da venda de parentes.

Alguns anos antes, em 1845, havia

sido publicada a autobiografia

de Frederick Douglass (1818-1895),

nascido na escravidão mas depois fugido.

Frederick diz que foi separado

da mãe e não conhecia o pai (que, no

entanto, foi murmurando ser o próprio

proprietário).

Sem data de nascimento

A «Narrativa da vida de Frederick

Douglass, um escravo americano, escrita

por si mesmo» (Narrative of the

life of Frederick Douglass, an American

slave, Written by himself), levou

o seu autor à fama e à actividade política.

«Eu nasci», escreve Frederick, «em

Tuckahol, perto de Hillsborough e a

cerca de doze milhas de Easton, no

condado de Talbot, Maryland. Não

tenho ideia precisa da minha idade

porque nunca vi um documento

oficial que a registasse. A grande

maioria dos escravos sabe da sua

idade tanto quanto os cavalos, e

neste ponto todos os senhores que

conheço desejam mantê-los na

escuridão total. Não me lembro

de alguma vez ter encontrado um

© McPherson-&-Oliver © maps.com

© National Museum of American History

p Cicatrizes nas costas de um escravo

depois das punições com chicote

(Luisiana, 1863). Em baixo, algemas

utilizadas para manietar os escravos

p Mapa que indica as rotas da escravatura

da África para a América, de 1450

a 1808

escravo que soubesse em que dia

veio ao mundo. No máximo, referia

vagamente a estação do plantio, da

colheita, da cereja, ou da Primavera

ou do Outono. Isso foi, para mim,

um motivo de constrangimento desde

a infância. Os meninos brancos

sabiam a sua idade: porque me negaram

o mesmo privilégio? Certamente

não poderia perguntar ao meu

senhor. Para ele, qualquer pergunta

de um escravo era incorrecta e impertinente,

um sinal de um espírito

inquieto.»

Frederick Douglass nasceu escravo

em Maryland, ou seja, não num Estado

do Sul. Na verdade, porém, era

aqui que a escravidão se concentrava,

representando um pilar essencial

do sistema económico.

Em Janeiro de 1860, Lawrence

M. Keitt, um membro do Parlamento

da Carolina do Sul, disse à Câmara:

«A escravatura africana é a pedra angular

do tecido industrial, social e político

do Sul; e qualquer guerra contra

ela é uma guerra contra a sua própria

existência: demolir a instituição da

escravatura africana e reduzir o Sul

ao despovoamento e à barbárie.» Havia

alguma verdade neste discurso.

2020 Outubro | além-mar


os Estados a aboliram, acentuando

assim a distância dos Estados do Sul.

© Library of Congress

© Library of Congress/O’Sullivan, Timothy

p Un grupo de escravos que fugiram, Virgínia, 1862. Em baixo, afro-americanos

preparam o algodão em frente da casa de descaroçamento na plantação de Smith,

Carolina do Sul (1862)

Diversidade entre Norte e Sul

A economia do Sul baseava-se principalmente

em grandes fazendas

(plantações) que produziam safras

comerciais como algodão e tabaco.

Contavam com os escravos como

principal força de trabalho. Em 1860,

pouco antes da guerra civil, nos Estados

do Sul, com uma população total

de 12 milhões, havia quase quatro

milhões de escravos. Em dois Estados,

Mississípi e Carolina do Sul, o

número de escravos excedeu 50 % da

população total; noutros, Alabama,

Florida, Geórgia e Luisiana, 40 % (estatísticas

históricas dos EUA).

«Em 1860», lê-se na Enciclopédia

Britânica, «a riqueza per capita dos

brancos no Sul era o dobro da do

Norte e três quintos dos indivíduos

mais ricos do país eram sulistas”.»

No Norte do país, a estrutura económica

era mais diversificada (indústria

e serviços), também por isso

a escravatura nunca se enraizou,

tanto que, entre 1774 e 1804, todos

Nas entrelinhas da Bíblia

Os proprietários de escravos declararam-se

cristãos. Portanto, é interessante

ver como eles usaram a Bíblia

para justificar a escravatura. Havia

dois textos preferidos dos proprietários

de escravos.

No Antigo Testamento, Génesis

9: 18-27: «Quando Noé acordou da

embriaguez, ele sabia o que o seu filho

mais novo lhe tinha feito; então

ele disse: “Maldito seja Canaã! Que

ele seja o último dos servos dos seus

irmãos”». E depois, no Novo Testamento,

a carta de Paulo aos Efésios 6:

5-9: «Escravos, obedecei aos senhores

terrenos, com o maior respeito,

na simplicidade do vosso coração,

como a Cristo: não para dar nas vistas,

como quem procura agradar aos

homens, mas como escravos de Cristo,

que fazem a vontade de Deus, do

fundo do coração; servi de boa vontade,

como se servísseis ao Senhor

e não a homens, sabendo que cada

um, escravo ou livre, será recompensado

pelo Senhor, conforme o bem

que fizer. E vós, os senhores, fazei o

mesmo para com eles: deixai-vos de

ameaças, sabendo que o Senhor, que

o é tanto deles como vosso, está nos

Céus e diante dele não há acepção de

pessoas.»

Mark Noll, historiador do cristianismo

americano, debruça-se sobre

teólogos que falavam da providência.

Segundo eles, foi isso que trouxe os

africanos para a América, pois a sua

escravidão permitiria que eles conhecessem

a mensagem cristã e, portanto,

as suas almas seriam salvas.

Na Bíblia, entretanto, podem ser

encontrados excertos que incitam

ou justificam a rebelião. Como, no

Novo Testamento, a carta de Paulo

aos Gálatas, 3,28: «Não há judeu nem

grego; não há escravo nem livre; não

há homem e mulher, porque todos

sois um só em Cristo Jesus.»

Tanto é verdade que, em 1807, foi

publicada uma Bíblia para uso de es-

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estados unidos da américa

© Spider Martin - Birmingham Civil Rights Institute

cravos, usada por missionários evangélicos

britânicos para converter e

educar africanos reduzidos à escravidão.

Era uma Bíblia purgada de capítulos

potencialmente subversivos e,

portanto, perigosos para o statu quo.

As onze de domingo

O uso da religião para justificar a instituição

da escravatura não passou

despercebido aos olhos de Frederick

Douglass.

«Revendo a História», escreve ele,

«que a antecede, percebo que em

muitos casos, para falar em religião,

usei de um tom e de uma forma que

pode induzir quem não conhece as

minhas ideias a supor que me oponho

a qualquer religião. [...] No que

disse sobre e contra a religião, refiro-

-me apenas à religião escrava deste

país, sem nenhuma alusão possível

ao Cristianismo no sentido próprio;

porque, entre o cristianismo deste

país e o cristianismo de Cristo, reconheço

a maior diferença que se pode

imaginar [...]. Amo o cristianismo

puro, pacífico e imparcial de Cristo:

portanto, odeio o cristianismo

corrupto, escravizador, açoitador de

mulheres, destruidor de berços, parcial

e hipócrita, o cristianismo deste

país. [...] Os mercadores de corpos e

almas humanos seguram um banco

sob o púlpito e apoiam-se. O mercador

dá o seu ouro a escorrer lágrimas

© Mathew Brady

s Martin Luther King e a esposa (ao

centro), em Março de 1965 numa das

marchas de Selma (que será abordado no

próximo número). Em baixo, o presidente

Abraham Lincoln numa foto de 1864

e sangue para sustentar o púlpito; em

troca, o púlpito envolve o seu trânsito

infernal com o manto do cristianismo.»

Não muito longe destas posições

críticas podemos encontrar, cento e

quinze anos depois, Martin Luther

King (1929-1968), o maior líder negro

da História dos Estados Unidos.

Em 17 de Abril de 1960, durante

o programa Meet the Press, do canal

de televisão NBC, King afirmou: «É

assustador que a hora mais segregada

na América cristã seja as 11 da manhã

de domingo...»

Uma emenda não é suficiente

Havia algum tempo, os atritos entre

o Sul e o Norte dos Estados Unidos

vinham crescendo. A situação piorou

quando, a 6 de Novembro de 1860,

Abraham Lincoln, um republicano

conhecido pelas suas ideias antiescravistas,

foi eleito presidente. Para

preservar o seu estatuto, sete Estados

do Sul – Alabama, Florida, Geórgia,

Luisiana, Mississípi, Carolina do

Sul e Texas – decidiram separar-se

da União e formar a Confederação.

Quando a guerra começou, quatro

outros – Arkansas, Carolina do Norte,

Tennessee e Virgínia – juntaram-

-se ao grupo secessionista. A 1 de

Janeiro de 1863, Lincoln emitiu um

édito de emancipação pelo qual todos

os escravos dos Estados confederados

eram libertados. «A proclamação da

emancipação», comenta a Enciclopédia

Britânica, «fez muito mais do que

elevar a guerra ao nível de uma cruzada

pela liberdade humana. Trouxe

alguns resultados práticos substanciais,

porque permitiu à União recrutar

soldados negros.»

Cerca de 186 mil ex-escravos negros

ingressaram no exército da

União, dos quais 38 mil perderam a

vida. O número total de mortes no final

da guerra – vencida pela União –

foi de 620 mil (de uma população

de cerca de 31,5 milhões, segundo o

censo de 1860), tornando-se o conflito

mais sangrento da história americana.

O presidente Lincoln foi assassinado

em 14 de Abril de 1865 e não

teve tempo de ver a entrada em vigor,

poucos meses depois, da XIII

emenda à Constituição, segundo a

qual «nem escravidão nem serviço

involuntário [...] podem existir nos

Estados Unidos ou em qualquer lugar

sob sua jurisdição».

Uma alteração clara. E, no entanto,

a libertação dos negros da América

estava longe de ser completa.

(2.ª Parte – Continua)

2020 Outubro | além-mar


líbano

líbano: morrer,

partir, regressar *

Refúgio de religiões, o País dos Cedros perdeu a fé nos seus

governantes. Uma devastadora explosão em Beirute deixou bem

evidente como um sistema confessional corrupto – contra o qual

começou uma revolução há precisamente um ano – continua a sacrificar

vidas e bens. O historiador Roberto Khatlab e a Irmã Myri ajudam-nos

a entender a importância dos cristãos numa nação em desassossego.

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

© Lusa/Wael Hamzeh

além-mar | Outubro 2020


líbano

© Lusa/Wael Hamzeh

No dia 4 de Agosto, Roberto

Khatlab estava a 7 km de

distância quando uma das

mais potentes explosões

não nucleares de que há memória

quase obliterou Beirute, e os seus

bairros cristãos, em particular. Sentado

na sua sala, suspeitou de um

terramoto, mas o que viu depois foi

«uma cena apocalíptica» em que «todos

se sentiam diante da morte».

«Tudo se movimentava à minha

volta», relata o director do Centro

de Estudos e Culturas da América

Latina na Université Saint-Esprit

de Kaslik (instituição privada católica

maronita), numa entrevista à

Além-Mar, por correio electrónico.

«A deslocação do ar causada por

uma segunda deflagração empurrou

os móveis contra mim. Eu próprio

me senti empurrado pelo ar. Como

as portas e janelas estavam abertas,

os vidros do meu apartamento não

se partiram.» O mesmo não aconteceu

às vidraças fechadas de igrejas,

lojas e outros imóveis do bairro onde

o líbano-brasileiro Khatlab habita.

«Foram minutos de grande tensão»,

até ter a certeza de que a família

estava segura. «Felizmente nada sofremos.»

Em seguida, ele foi ao porto

para saber dos amigos e conhecidos.

Viu ruas destruídas, carros esmagados

por paredes, varandas que caíram,

muitos vidros no chão. «Sangue

por toda a parte. Pessoas magoadas e

a chorar. Pessoas indignadas. Pessoas

correndo para salvar vidas, carregando

feridos ao colo», porque não havia

ambulâncias ou viaturas particulares

suficientes para acudir a todos.

Há seis anos que 2750 toneladas de

nitrato de amónio estavam armazenadas

no hangar n.º 12 do porto de

Beirute. Sacos empilhados, e alguns

deles esburacados, nas proximidades

de combustíveis. Ali ficaram desde

Novembro de 2013, quando o comandante

do navio moldavo Rhosus,

fretado por um empresário russo

endividado e residente em Chipre,

abandonou a carga, depois de uma

fábrica de explosivos em Moçambique

se ter recusado a pagar a substância

química que encomendara.

Todas as autoridades foram avisadas

para o perigo extremo e a ameaça

à segurança das populações, apurou

uma investigação do diário The

New York Times: «os responsáveis

aduaneiros, três ministérios, o comandante

do Exército, pelo menos

dois juízes e – semanas antes da explosão

– o presidente e o primeiro-

-ministro». Ninguém se preocupou.

A tragédia tornou-se inevitável.

No dia 4 de Agosto, um incêndio

acidental causou a explosão que uma

equipa da Universidade de Sheffeld,

no Reino Unido, estimou ter sido

equivalente a 1000-1500 toneladas

de TNT, ou seja, um décimo da intensidade

da bomba nuclear lançada

em Hiroxima (Japão) em 1945.

Contaram-se 200 mortos, cerca de

6500 feridos e uns 300 mil (entre as

quais 80 mil crianças) desalojados.

Mais de 90 mil habitações ficaram

destruídas, total ou parcialmente,

assim como mais de uma centena de

igrejas, capelas, conventos e escolas,

segundo estimativas da Fundação

Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). Muitos

hospitais na área atingida sofreram

danos estruturais, foram incapazes

de acolher quem procurava

socorro. Alguns pacientes perderam

a vida. Os prejuízos num país já à

beira do colapso económico calculam-se

em milhares de milhões de

dólares. A comunidade internacional

prometeu auxílio.

«Vivi os últimos sete anos de uma

guerra civil que durou 15 [de 1979

até 1990], e isto fez-me recordar a

2020 Outubro | além-mar


© 123RF

p Foto aérea feita por um drone da

zona destruída pela explosão no porto

de Beirute. Ao lado, o historiador líbano-

-brasileiro Roberto Khatlab

destruição do passado», lamenta

Roberto Khatlab, historiador, investigador

e escritor. Quando as armas

se calaram, a cidade foi renascendo,

«mas agora um tsunami de ar tudo

arrasou».

As áreas mais atingidas foram

Achrafieh, Saifi, Gemmaizé, Mar Mikhael,

Sursock, Accaoui, Geitaoui,

Quarrantaine, no sector oriental,

predominantemente cristão, mas

também uma parte do centro da capital,

refere Khatlab. «Em Achrafieh,

várias casas e até palacetes do século

xix tinham sido reconstruídos por

famílias depois da guerra. O que de-

morou dez anos a pôr de pé voltou a

cair em apenas cinco minutos. Como

um sopro.»

«As casas antigas, algumas de três

andares, foram as mais danificadas.

Caíram tectos e paredes, matando

e ferindo moradores e transeuntes.

Os edifícios mais modernos viram

arrancadas vidraças e portas, transformando-se

em esqueletos. No seu

interior, também se encontraram

muitos mortos e feridos.»

Perto do porto, observa Khatlab,

alguns dos imóveis antigos haviam

sido transformados em bares, restaurantes

e cafés. Antes da covid-19,

eram pontos de encontro que se enchiam

de libaneses e estrangeiros,

sobretudo a partir das 18h00. De certo

modo, o isolamento imposto pela

pandemia impediu um drama humano

ainda maior. «As ruas tinham

tantos escombros que se tornaram

irreconhecíveis.» Muitas pessoas tiveram

de procurar abrigo junto de

parentes e amigos, alguns fora de

Beirute.

«Não olho para os que morreram

como “mártires”, como aqui se costuma

dizer para aliviar a dor da perda

de entes queridos em atentados – eu

vejo-os como vítimas, assassinados

pela negligência de governantes,

porque não escolheram morrer por

uma causa», vinca Khatlab, que há 60

anos nasceu em Maringá, no Estado

brasileiro do Paraná, e há mais de 25

divide o tempo entre os países da sua

dupla nacionalidade.

Um novo êxodo?

É também desolador o balanço feito

à Além-Mar pela Irmã Myri, que pertence

à Congregação das Monjas da

Unidade de Antioquia, no Convento

de São Tiago Mutilado, em Qara, na

Síria. «Há 50 mil apartamentos que

precisam de ser restaurados – 12 %

estão totalmente destruídos, 25 %

com estragos graves (isto é, atingidos

na sua estrutura) e os restantes

necessitando entre 500 e 5000 euros

para serem reabilitados», explica a

religiosa portuguesa.

u

além-mar | Outubro 2020


líbano

© Lusa/Nabil Mounzer

«As instituições cristãs, os hospitais,

as escolas ou os apartamentos

sofreram uma destruição à volta dos

85 %, num perímetro de dez quilómetros.

No interior, tudo ficou destruído

e não pode ser utilizado.»

«A situação é extremamente difícil.

Os Libaneses têm sofrido muito desde

o final do ano passado. Primeiro

uma revolução [contra o sectarismo

e a corrupção] paralisou o país.

Depois, veio a ruína e a falência dos

bancos, assim como a depreciação da

libra libanesa, o que fez com que os

salários perdessem seis ou dez vezes

o seu valor, enquanto os preços subiram

em flecha duas ou três vezes

mais, mesmo em relação à moeda

local. A seguir veio o coronavírus e a

explosão, activada por um incêndio,

supostamente causado por uma operação

de soldadura» no porto.

A crise económica já estava a forçar

muitas famílias a emigrar, indica

a Irmã Myri, enfatizando: «Agora,

são os jovens que deixam o país. Ficarão

somente os idosos. A presença

cristã no Médio Oriente está seriamente

em risco.»

País multicultural

e multi-religioso

Líbano é um país do Médio

O Oriente, com capital em Beirute.

Tem uma área de 10 452 km 2 ,

para uma população estimada, em

Julho de 2020, em 5 469 612 de habitantes.

É um país pequeno, mas

multicultural e multi-religioso.

Não existem estatísticas oficiais

e com rigor censitário actualmente,

mas o CIA World Factbook especificava,

com estimativas referentes

a 2018, que entre os residentes no

Líbano (porque a diáspora é superior

à população residente) se contavam:

– 61,1% de muçulmanos (30,6%

sunitas, 30,5% xiitas, pequeníssimas

percentagens de cento alauitas

e sufis);

– 33,7% de cristãos (a maior parte

maronitas, ortodoxos orientais,

greco-melquitas católicos, arménios

ortodoxos, arménios católicos, Igreja

Assíria do Oriente, protestantes, siríacos

ortodoxos, siríacos católicos e

católicos caldeus);

– 5,2% de druzos.

Existem, ainda, pequenas comunidades

de budistas, baha’is, hindus,

mórmones e judeus.

p Prédios antigos devastados pela

explosão, Beirute. Foram destruídas

mais de 90 mil habitações, mais de uma

centena de igrejas, conventos e escolas

Roberto Khatlab, que é também

investigador no Centro de Estudos

da Emigração Libanesa na Universidade

de Notre Dame, em Beirute,

confirma o desejo de fuga, mas

acredita que muitos libaneses «não

baixaram os braços, porque são resistentes,

têm amor à vida e não aceitam

desaparecer».

A emigração é importante para o

Líbano, «mas ficaremos sem Líbano

se continuar este êxodo», realça Khatlab,

citando o cristão Michel Chiha

(1891-1954), considerado um dos

pais da Constituição libanesa. «Há

quatro milhões de habitantes no Líbano

– uma estimativa, porque o

último censo oficial data de 1932 –

e cerca de 12 milhões na diáspora.

A emigração, graças às remessas de

divisas, é uma forte componente da

economia nacional. Muitos sobrevivem

com o dinheiro que recebem de

2020 Outubro | além-mar


p O secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin (dir.), visitou a área

danificada pela explosão que abalou a cidade de Beirute. Em baixo, clérigos da Igreja

Arménia Libanesa oram pela paz no Líbano e pelas vítimas da explosão

condição de continuarem a realizar

os seus rituais religiosos na tradição

oriental e na língua de Jesus.

Com a independência, em 1943,

o Estado passou a ser administrado

por um sistema confessional que se

tem revelado pernicioso.

Os cristãos, conservadores e progressistas,

praticantes e não praticantes,

que até 1975 eram o maior

grupo, e hoje constituem 30 %-40 %

da população, «têm sido os que mais

emigram devido aos vários conflitos»,

anota Khatlab, mencionando

também uma baixa taxa de natalidade

para a redução demográfica. Isso

não os impede, todavia, de ter uma

representação parlamentar igual à

dos muçulmanos (50 %-50 %).

O sistema que rege as dezoito confissões

religiosas do Líbano atribui a

presidência da República a um católico

maronita e a chefia do Governo a

um muçulmano sunita. O presidente

do Parlamento é sempre um muçulmano

xiita. Todos os restantes cargos

políticos são também distribuídos

segundo critérios comunitários. Isto

favorece «o clientelismo e a corrupção»,

critica Roberto Khatlab, e é por

essa razão que, desde 17 de Outubro

de 2019, os libaneses – de todos os

credos – protestam nas ruas, clamando

por reformas e uma renovação da

classe política.

Para Khatlab, a nova geração «não

quer um governo teocrático, mas de

tecnocratas», demanda um governo

que «não ofereça oportunidades

só às elites», porque são estas quem

alimenta a «fuga de cérebros». Mas

ele interroga-se: «Onde encontrar

tecnocratas que não estejam ligados

a um partido, a uma comunidade religiosa?»

«O problema é que, no Líbano, há

séculos que política e religião andam

de mãos dadas. Todos os partidos são

uma espécie de “tribos”. Quando se

identifica um partido, logo se reconhece

o chefe de uma família», acrescenta

Khatlab. «A liderança passa de

pai para filho. É hereditária, haja ou

não competência.» Aqui, «não há lufamiliares,

emigrantes da primeira

geração, no golfo Pérsico, na Austrália

ou no Canadá.»

As vagas migratórias «aconteceram

sempre durante e depois de catástrofes,

guerras, conflitos, massacres».

A grande emigração, recorda o autor

de obras como As Igrejas Orientais,

Católicas e Ortodoxas: Tradições Vivas,

começou nos anos 1860, quando

uma rebelião de camponeses maronitas

contra os senhores feudais

drusos, no Norte do Monte Líbano,

culminou numa matança de 20 mil

cristãos e na destruição de 380 aldeias

e 560 igrejas.

«Refúgio para os perseguidos no

Médio Oriente, principalmente depois

do século vii, com o advento

do Islão», segundo a descrição de

Khatlab, a verdade é que o Líbano,

ainda antes de se tornar um Estado

moderno, criado a partir da Síria do

derrotado Império Otomano, em

1920, já era consumido por quezílias

sectárias e uma ânsia de hegemonia

identitária e política.

Um país de “tribos”

Foram as autoridades do Mandato

Francês, interessadas em manter um

posto avançado no Médio Oriente,

que forçaram a coabitação de populações

rivais sem vontade de convivência.

Os cristãos maronitas, por

exemplo, desde o século xvi que

ansiavam «criar uma ilha cristã num

mar muçulmano» e com esse propósito

em mente pediram ao papa (que

aceitou) adesão à Igreja Latina, na

© Lusa/Wael Hamzeh

© Lusa/Wael Hamzeh

além-mar | Outubro 2020


comunidade líbano

cristã em risco

A Irmã Myri, monja portuguesa a viver na Síria, afirma que a presença cristã nas

terras da Revelação está em risco e apela à solidariedade para com os cristãos do

Líbano que ficaram com as suas casas e capelas destruídas pela explosão.

Do Convento de São Tiago Mutilado,

em Qara, na Síria, que se ergueu

de um mosteiro em ruínas do

século vi, a Irmã Myri apela à solidariedade

dos Portugueses para com os cristãos

do Líbano, cujas casas e templos

na zona leste de Beirute foram os mais

atingidos pela explosão que destruiu

um terço da cidade.

«A presença cristã nas terras da Revelação

está em risco, assim como os seus

costumes e ritos herdados dos primeiros

fiéis», alerta a monja portuguesa.

«Como poderá sobreviver uma árvore

sem raízes?»

«A nossa associação fez um levantamento

da situação e das pessoas mais

vulneráveis», explica a religiosa em

entrevista, por correio electrónico, à

Além-Mar. «Neste momento, estamos a

restaurar seis edifícios e uns 150 apartamentos,

dos quais cerca de 20 pertencem

a famílias com uma pessoa deficiente.»

«O que fazemos é procurar os apartamentos

que precisem até 3000 euros

[de obras] para serem restaurados. Não

fazemos mais do que pôr a porta da

entrada e as janelas, mas trabalhamos

muito depressa, para que tudo fique

instalado antes do Inverno.»

«Temos uma cozinha que, diariamente,

prepara refeições quentes para 2500

pessoas, além de sanduíches e croissãs

para outras 2500. Oferecemos ainda

sanduíches a voluntários: 1600 por dia.

Vamos abrir também dois centros para

mulheres vulneráveis e crianças em dificuldade.»

Outros projectos envolvem

retirar e reciclar os destroços e pôr a

circular miniautocarros, pois «a maioria

dos carros particulares ficou completamente

danificada».

A viver numa nação em guerra civil

desde 2011, a Irmã Myri constata que

o Líbano se encontra, actualmente, em

pior estado do que a Síria. Perante a

degradação económica no País dos Cedros,

muitos cristãos sírios, em particular

os jovens que fugiram para escapar

ao serviço militar (que é agora de sete

e não dois anos, cumprido em zonas

de combate) gostariam de regressar à

pátria. Mas não encontrarão trabalho e

não conseguirão evitar a tropa, nem os

castigos acrescidos por terem desertado,

refere.

«Com a falência dos bancos libaneses,

muitos cristãos sírios perderam

uma parte substancial das suas economias

– na verdade, toda a Síria sofreu

[com esse colapso], porque a maioria

das trocas comerciais com o exterior era

© João Claudio © 123RF/Aleksandar Pavlovic

s Capela no Santuário de Nossa Senhora de Harissa, no Líbano. Todos os anos, pelo

menos 2 milhões de peregrinos, cristãos e muçulmanos, vão até lá rezar.

Em baixo, a Ir. Myri dá o seu testemunho em Fátima

feita através do Líbano», anota a irmã

da Congregação das Monjas da Unidade

de Antioquia. Esse intercâmbio ajudava

a aliviar o peso das sanções económicas

e diplomáticas impostas ao regime

de Bashar al-Assad.

«A situação é extremamente difícil

e são precisos grandes milagres para

a resolver», realça a antiga estudante

de Medicina Veterinária, nascida há 39

anos na freguesia de Milharado, em

Mafra. «As pessoas sofrem, e a fome

aperta. Nos dois países a preocupação

é encontrar alimentos para o dia-

-a-dia. Na Síria, o Governo mantém o

pão a baixos preços, com prejuízo, mas

só assim os pobres podem comer. No

Líbano, ouvem-se histórias de entreajuda,

troca de bens, dar a quem não

tem, esperando apenas a recompensa

de Deus. Na Síria, regista-se outra vez

uma crise de combustíveis. Quase não

se encontra carburante e gás. Às vezes,

a electricidade é muito escassa. Até cozinhar

é complicado.»

«Em suma, parece que só uma intervenção

divina poderá permitir que estes

dois países retomem o caminho da

normalidade», conclui a Ir. Myri. «Este

combate, para continuar as promessas

de Deus, é de todos. A oração e a união

entre irmãos em Cristo são a nossa

arma. Deixo este apelo.»

M. S. L.

2020 Outubro | além-mar


gar para ateus» – os cidadãos têm no

seu registo familiar o nome, o apelido

e a religião, sejam ou não devotos.

A resolução de qualquer problema

– um casamento (que é sempre religioso

e nunca civil) ou uma herança,

por exemplo – tem de obedecer aos

estatutos da comunidade. Tudo isto

contribuiu para que o país se tornasse,

simultaneamente, «arcaico e moderno».

O último santuário

Formado em Filosofia, Teologia,

História das Religiões e Arqueologia,

Khatlab concorda com o grande escritor

franco-libanês Amin Maalouf,

que, quando inquirido pela revista

Le Point sobre as razões que levaram

um país síntese entre o Oriente e o

Ocidente a mergulhar no caos social,

político e económico, respondeu:

«Entre os numerosos factores que

desempenharam um papel nefasto,

pomos muitas vezes a ênfase no ambiente

regional, que é, efectivamente,

calamitoso. Mas se tivesse de apontar

o dedo ao factor mais determinante

[...], eu designaria, sem hesitar, o

confessionalismo.»

s A catedral Maronita de São Jorge, a Mesquita Mohammad Al-Amin e o Jardim do

Perdão em Beirute. Em baixo, manifestantes antigovernamentais numa rua de Beirute;

levam uma faixa com palavras em árabe onde se lê “Não à opressão, não ao terrorismo

militar, não ao regime fascista”

© 123RF

«É a realidade», comenta Khatlab.

«Mas como mudar? Beirute divide-

-se em bairros. Toda a gente sabe

onde estão os bairros cristãos e os

bairros muçulmanos. Diz-se que o

Leste é cristão e o oeste é muçulmano.

A estrutura social gira à volta do

confessionalismo. É diferente olhar

para Beirute vivendo fora da cidade

e vivendo dentro dela. As pessoas são

classificadas segundo a sua confissão

religiosa quando nascem.»

Mais: desde o cessar-fogo de 1990,

são os antigos senhores da guerra

que continuam a governar o Líbano,

recusando ceder o poder. E os partidos

cristãos continuam divididos, o

que reduz a sua influência. Uns são

aliados do Hezbollah xiita e do Irão,

como a frente do presidente Michel

Aoun; outros são parceiros de muçulmanos

sunitas próximos da Arábia

Saudita, como a frente de Samir

Geagea.

O patriarca maronita defende que

o Líbano deve «desligar-se desta política

dos eixos» e que a única solução

é o país declarar-se neutro. Roberto

Khatlab admite que esta é uma prédica

constante de Bechara Boutros

al-Rahi, mas vê dificuldade na concretização

da neutralidade. «Como

ser neutro numa pequena região

com uma tão grande diversidade de

povos, religiões, culturas e tradições?

Será preciso educar o povo para esse

compromisso.»

Para o historiador líbano-brasileiro,

Beirute é um mosaico, agora estilhaçado

pela explosão de 4 de Agosto,

mas ele confia em que se «manterá

reluzente», como escreveu a poetisa

Nadia Tueni (1935-1983): «Beirute é

o último santuário no Oriente, onde

o homem se pode sempre vestir de

luz/ Beirute, mil vezes morta, mil vezes

renascida/ Beirute, em cada casa

reside uma ideia.» am

© Lusa/Nabil Mounzer

* Título adaptado de A Game of Swallows:

To Die, To Leave, To Return («Um Jogo de

Andorinhas: Morrer, Viver, Regressar»), livro

de banda desenhada em que a libanesa

Zeina Abirached conta as suas memórias da

guerra civil de 1975-1990.

além-mar | Outubro 2020


livros

Cristãos que amam e servem

com alegria

obra intitulada Consagrados para Amar e Servir, da autoria

do P. e Manuel Morujão, é um verdadeiro desafio para

A

o leitor. Ainda que seja, essencialmente, dirigida aos que

optaram pela vida consagrada, não deixa de interpelar positivamente

os leitores que não seguiram o caminho da vida

religiosa, mas que, pelo Baptismo, se consagraram a Cristo.

Convém referir que os textos que integram esta publicação

são o resultado das presenças do autor nas semanas

de estudos sobre a vida consagrada.

A introdução geral e o prefácio deste livro são da autoria

do P. e Manuel Barbosa SCJ, que elucida o leitor sobre

as diferentes temáticas de reflexão que aqui encontrará:

«Nos seus escritos, o padre Morujão aborda temáticas sobre

a vida consagrada como a comunidade em perdão e

festa, a vida comunitária propriamente dita, a misericórdia,

a comunhão, os votos…»

O primeiro texto do P. e Manuel Morujão é um retrato

belíssimo e profundo sobre a forma como o autor imagina

(e vê) o Céu. Recorrendo às suas palavras, este é o lugar

onde deixamos de nos ver e de nos centrar na nossa individualidade,

para passar a olhar para os outros e para

abrir os nossos horizontes à existência dos irmãos.

Ao avançar na leitura desta obra, deparamos com uma

escrita clara, simples e cheia de sentido(s). O autor oferece

aos seus leitores uma visão abrangente e inegavelmente

bonita sobre a vida cristã. Na verdade, não são só

os consagrados que têm a responsabilidade de viver em

Deus: todos somos chamados a ser espelho desse Amor

incondicional que começa no Pai. O leitor compreenderá

que é também sua a missão de saber viver em comunidade,

de optar por um modo de vida baseado na humildade

e na «pobreza voluntária».

O P. e Manuel Morujão atreve-se a fazer-nos perguntas

que nos desinstalam e que nos obrigam a abandonar o

nosso egoísmo e as nossas ideias preconcebidas sobre

a vida consagrada, sobre a vida em comunidade e, até,

sobre a própria vida cristã.

Título: «Consagrados para Amar e Servir»

Autor: Manuel Morujão, SJ

Editor: Apostolado da Oração | Tel. 253 689 443

Os textos reunidos nesta obra incluem pistas muito lúcidas

sobre como podemos ter um coração mais misericordioso

e mais semelhante ao do Pai. Este Deus de Amor

oferece-nos o seu rosto e a sua Luz é a chave para ser

capaz de perdoar o outro como também eu espero ser

perdoado.

De acordo com as palavras do autor, Deus é dotado de

sentido de humor e é capaz de se alegrar connosco e por

nós: «Deus não vive deprimido, desiludido, angustiado,

mas sim transbordando cascatas de esperança e optimismo

festivos.»

Em conclusão, esta é uma obra profundamente bem

redigida, na qual a escrita do P. e Manuel Morujão tem a

delicadeza (e também a força) da água transparente que

corre nos rios mais límpidos.

Marta Arrais

Título: «Vida após a Pandemia»

Autor: Papa Francisco

Editora: Paulinas

www.paulinas.pt | Tel. 219 405 640

Pequena recolha de intervenções

do Papa Francisco sobre

a preparação do mundo para

o período pós-pandemia. Um

apelo à tomada de consciência

para a redefinição de objectivos

económicos, políticos e

sociais nos tempos de retoma,

que visem a harmonização e

equilíbrio para a Terra. Prefácio

do cardeal jesuíta canadiano

Michael Czerny.

Título: «Dar nas Vistas por Relações Públicas»

Autor: Domingos Antunes Valente

Edição de autor

E-mail: nini.licciardello@gmail.com

Introdução às técnicas de comunicação

institucional a utilizar

por individualidades, famílias,

comunidades, empresas e

instituições sociais e políticas.

As relações públicas internas e

externas pelo professor de Comunicação

e Relações Públicas

do Instituto de Ensino Profissional.

2020 Outubro | além-mar


discos

António Marujo

gesto solidário

E

ste disco abre com uma

canção de embalar, em

diálogo entre uma voz terna

e um violino que primeiro

sublinha a melodia, depois

como que acentua uma alegria

serena e melancólica:

«Levem-no ali, depois tragam-no

de novo até mim,

mostrem-lhe as árvores em

flor e os pássaros a cantar...»

Logo depois, uma música

instrumental de grande intensidade

dançante completa

a apresentação das intenções

do disco: um «magnífico

programa musical que reúne

os mais belos cantos e as mais

Título: Arctic Light

Intérpretes: Capella Romana

Direcção: Ivan Moody

info@cappellaromana.org ou www.cappellaromana.org

doxa. A região seria vítima de lutas constantes

entre a Suécia e a Rússia e só a independência

finlandesa, depois da Revolução Russa de

1917, permitiu à Igreja do país ganhar estatuto

autónomo, ligando-se ao patriarcado ecuménico

de Constantinopla. Embora mantendo as

raízes russas do canto, isso permitiu criar uma

expressão própria na liturgia que, consoante

os compositores, passam por uma relação intensa

entre música e texto, pela recriação de

peças tradicionais ou pela acentuação do diálogo

entre técnica musical e emoção. O disco

completa-se com uma criação de Ivan Moody,

protopresbítero ortodoxo (o único não-finlandês

a participar, mas que tem trabalhado

no país e, em algumas temporadas, também

em Lisboa): Ó Vós, Apóstolos é destinado à festa

da Dormição da Mãe de Deus e inclui uma

parte em ritmo de canção de embalar e outra

em marcha fúnebre. São Luzes do Árctico,

como diz o título do disco.

Título: Synergia – Musiques de l’Île de Chypre

Intérpretes: Vários; dir. Dimitri Psonis

Edição: Alia Vox

vgm@plurimega.com

Música ortodoxa finlandesa?

À primeira vista,

pode parecer estranho, pois

pensamos na Escandinávia

como terra predominantemente

luterana. Ivan Moody

explica que a história ortodoxa

finlandesa começa no

século xii, com o comércio

entre Novgorod e a Carélia

(região hoje dividida entre

a Finlândia e a Rússia).

A criação de alguns mosteiros

acabou por revelar-se

crucial para a expansão ortobelas

danças das antigas tradições cipriotas»,

constituindo «uma verdadeira revelação»,

como diz Jordi Savall na apresentação desta

colecção de treze peças musicais escolhida por

Dimitri Psonis, um dos músicos que com ele

colabora. O leque das escolhas integra ainda

canções de amor, ou que acompanham os casamentos,

por exemplo, algumas das quais são

cantadas em grego e turco, indiferentemente.

E essa é a outra beleza desta recolha: pôr em

diálogo duas culturas que têm dialogado intensamente,

mas cuja dimensão política se

traduziu quase sempre em antagonismo – traduzido,

nomeadamente, na divisão de Chipre

em duas metades, desde que a Turquia ocupou

a parte norte, em 1974. A par da riqueza

melódica, vocal e instrumental (Yinekios

karsilamas é uma bela peregrinação conjunta

dos alaúdes, percussões, violino, santur e saz,

e Vraka-konyah uma vibrante interacção entre

as vozes e os instrumentos), este disco revela-

-nos uma tradição musical de grande qualidade.

A não perder.

Ajudar a chegar

aos lugares

remotos

Os Missionários Combonianos

estão presentes na paróquia de

Matany, Uganda, desde 1966.

Têm acompanhado os Karamojongs

nos seus três maiores

padecimentos: pobreza, fome e

guerra. A paz, entretanto, vai-se

estabelecendo na região e os que

tinham procurado refúgio em

outras partes estão a regressar às

suas aldeias. Todavia, mantêm-se

a pobreza e a fome.

A comunidade comboniana,

onde está o português Ir. Eduardo

Freitas, que é enfermeiro, no

hospital diocesano local, necessita

de atender pastoralmente as

comunidades cristãs mais distantes.

Para isso, precisa de um meio

de transporte robusto, que possa

vencer as estradas difíceis, em

particular no tempo das chuvas.

A revista Além-Mar, com o Projecto

6/2020, contando com a generosidade

dos seus leitores, quer

contribuir com 5000 euros.

Se deseja participar, pode mandar a

sua contribuição por cheque bancário,

vale postal, transferência bancária

para o IBAN PT50 0007 0059 0000

0030 0070 9 (neste caso deve indicar-nos

– editalemmar@netcabo.pt ou

213 955 286 – que a transferência se

destina ao Gesto Solidário), ou online

(https://www.combonianos.pt/doar)

seleccionando a opção “projecto solidariedade

Além-Mar”.

além-mar | Outubro 2020


povos e culturas

© 123RF

sudão

OS ACORDES DA REVOLUÇÃO

Há um ano, um movimento pacífico

pela democracia varreu o Sudão. Os

músicos foram para a rua e lançaram

novos temas nas redes sociais. Alguns

desses temas, como os da banda Aswat

al Medina e Nancy Agag, converteram-se

em hinos da revolução, que culminou na

formação do governo de transição.

A música continua a inspirar o povo num

país em mudança, enquanto aguarda a

marcação das eleições sucessivamente

adiadas.

Texto: Carla Fibla García-Sala

ASWAT AL MEDINA

Quem é o grupo Aswat al Medina?

Somos um movimento, um modo

de vida e, claro, um grupo de música.

Temos uma mensagem centrada

no amor e na paz. Começámos há

oito anos, temos dois discos e vinte

singles, compostos e produzidos integralmente

por nós.

São uma banda multifacetada…

Mohamed Beran é guitarrista, pintor,

artista e director de arte. Mohamed

Timon é o porta-voz do grupo e toca

baixo. Mohamed Hamid é guitarrista,

vocalista e compositor. Mujtaba

Alsiddig é pianista, compositor, produtor

musical e de áudio. Mohamed

Nour, o baterista, foi quem intro-

2020 Outubro | além-mar


duziu o cajón espanhol no Sudão.

Hussam Musa é o percussionista.

E Ibrahim Ibn Almadya é vocalista e

guitarrista.

O que contribui para o vosso êxito?

Acreditamos no que fazemos. Cada

um de nós já tinha a sua experiência

na indústria da música no Sudão,

mas o que nos junta neste projecto

é saber que compomos para as próximas

gerações. Aswat al Medina

significa «Sons da Cidade». É simbólico.

É chave inspiradora. Sabemos

que vão nascer outras versões deste

grupo, porque não se pode esconder

o que está sempre a acontecer onde

se vive.

Calhou-vos viver um momento

crucial para o Sudão…

q Os membros da banda Aswat al Medina,

que se consideram um movimento,

um modo de vida. Na pág. anterior, Ibrahim

Ibn Almadya, vocalista e guitarrista,

durante um concerto da banda

Nós estamos a fazer a nossa parte,

o que sentimos que temos de fazer.

E toda a gente, cada um no seu lugar,

devia fazer o mesmo. Nós cantamos,

na linguagem da rua, sobre o que

está a acontecer.

Como conseguiram chegar às pessoas

no tempo do antigo regime?

O problema do passado era o controlo

do Governo, porque não queria

que se conhecesse a verdade. Então,

pedimos autorização para fazer um

programa de televisão, e, desse modo,

actuávamos na rua de forma aberta e

gratuita. Quando nos perguntavam o

que fazíamos, dizíamos que estávamos

a gravar um programa de televisão,

para o qual tínhamos licença.

Somos uns sobreviventes.

O que aprenderam daquela época

de controlo e censura?

Quando algum de nós foi detido,

pelo que estava a cantar, porque dizia

a verdade, nunca se rendeu. Continuámos

a fazer o que fazíamos, porque,

para nos parar, teriam de nos

arrancar a língua. À maior parte do

sistema não lhe agradava escutar a

realidade, a opinião do povo, mas

nós forçámo-lo a escutar, porque

estávamos nas ruas. Escutávamos o

povo e o povo escutava-nos. E gerou-

-se um movimento. A mensagem do

nosso grupo conseguiu a adesão do

povo, e muita gente associou-se.

Quais são os temas das letras das

vossas canções?

O amor e a paz, mas não o típico

amor romântico. Falamos dos conceitos

de amor e paz sociais.

O que é o amor?

É uma filosofia. É dar e receber com o

espírito de partilha de conhecimento,

comida, experiências de vida…

tudo. É a família, é Deus...

Como pode a música contribuir

para a mudança no Sudão?

A indústria musical está um caos. Fazendo

o que podemos, continuamos

fielmente a ser reflexo do que vemos,

e misturamos outros géneros de música

– experimental, independente,

blues e jazz – com ritmos sudaneses.

u

© Carla Fibla García-Sala

© 123RF

além-mar | Outubro 2020


povos e culturas

Com uma mensagem política?

Temos a nossa própria visão. Dizemos

a verdade. Não estamos ligados

a partidos políticos. Não pertencemos

a nenhum partido.

Qual é a verdade hoje em dia?

Temos de construir o Sudão que temos

na cabeça, e não esperar que o

novo Governo o faça por nós. Chamamos

à razão quem, sentindo-se

qualificado, não toma a palavra nem

gera mudanças. Não podemos ficar

à espera de que alguém nos bata à

porta e dê o que queremos. Temos de

trabalhar para isso.

Como é que o povo sudanês procura

a música?

Nós organizamos os nossos concertos,

quando temos como financiá-

-los e dispomos de tempo. Nunca

pedimos dinheiro à nossa audiência.

Porque não há mulheres no vosso

grupo?

No Sudão, é complicado formar

bandas mistas. As famílias não deixam

as mulheres estar fora até tarde,

têm de deixar os concertos antes que

acabem e é preciso acompanhá-las a

casa. Será necessário mudar muitos

costumes para que isso seja possível.

E o compromisso delas tem de ser

igual ao nosso, porque, às vezes, ficamos

três dias trancados a compor

um tema. Encantar-nos-ia ter vozes

femininas e mulheres que toquem,

mas faltam profissionais femininas

capazes de considerar a banda como

um projecto de vida.

NANCY AGAG

Nancy Agag, como define a sua música?

É sudanesa autêntica com sabor moderno.

Assenta na escala pentatónica,

com ritmos e instrumentos especiais.

Tem a sua origem no Centro e Norte

do país, e isso percebe-se no idioma e

na forma de cantar. As minhas letras

falam do amor ao país, ao Sudão, e

incluem valores como a amizade e a

honestidade.

Que papel desempenhou durante a

revolução?

Sou uma cidadã sudanesa que interage

com a realidade envolvente

por meio das canções. Cada vez que

havia uma manifestação, fazia uma

publicação no Facebook, para contar

o que estava a acontecer.

Esperava o que aconteceu durante

a revolução?

Sim e não. Todos sentíamos que tinha

de suceder alguma coisa, um

estouro, porque havia muitos problemas:

filas para o pão, transportes

públicos… Havia tensão social. Algo

tinha de mudar, mas não sabíamos

quando nem como.

Você envolveu-se nas acções da Associação

Hanabihum («Construímos»).

Porquê?

Antes, tudo o que se relacionava com

a guerra e a paz estava nas mãos dos

políticos. Eles tomavam as decisões e

nós cidadãos não tínhamos parte. Mas

somos uma nação e os cidadãos encarnamos

a solução. Estamos a organizar

p A cantora e compositora sudanesa

Nancy Agag. As suas letras falam do

amor ao Sudão e veiculam valores como

a amizade e a honestidade

caravanas de paz, a começar pelas zonas

que mais sofreram com a guerra:

Darfur, Nilo Azul e Montes Nuba.

Que importância tem a música

para o povo?

Inspira-o. Os Sudaneses amamos a

música. Está presente na nossa vida

quotidiana. Infiltra-se na nossa rotina

e faz-nos reflectir. E o povo andava

triste e preocupado.

Que dificuldades têm na actualidade

os músicos sudaneses?

O Governo não faz nada pela cultura,

faltam espaços para tocar… Cada

qual tem de encarregar-se de tudo.

O que pediria ao governo que saia

das urnas?

Depois de alcançar a paz e a estabilidade,

que entenda que a música é

o espelho da sociedade. E que precisa

de ser cuidada, com orçamento e

infra-estruturas. am

© Carla Fibla García-Sala

2020 Outubro | além-mar


apontamentos

fica connosco

P. e Fernando Domingues

Missionário comboniano

O segredo está

em fazermos

da nossa vida

um contínuo

«fica connosco,

Senhor», e

vermos a Sua

presença no

rosto de cada

irmão e irmã

que cruzam o

nosso caminho.

Os três caminhantes – assim

nos diz São Lucas – chegaram

a Emaús já ao cair da

noite. Quase para os pôr à

prova, o terceiro peregrino fez de conta

que ia mais adiante, mas os dois insistiram

com ele: «Fica connosco!»

Certamente eles já tinham quem ali

os acolhia, e sabiam bem o que significa

chegar ao fim de um dia de caminho e

entrar numa casa onde há rostos amigos

que te dizem: «Bem-vindo!»

Acolher é uma forma de vida, quem

se sente acolhido, gosta de acolher os

outros. E assim se vão ajuntando sempre

novos elos à cadeia de fraternidade.

Quanto mais acolhemos e somos

acolhidos, mais descobrimos o enorme

potencial de fraternidade que pode

encerrar até o mais pequeno gesto de

acolhimento.

Um dia, chegou à minha comunidade

um colega que eu ainda não conhecia

pessoalmente, mas alguém me tinha

dito que ele acabava de sair de uma

experiência de vida missionário muito,

muito dura. Parecia exausto. O primeiro

dia foi para ele dormir, finalmente, num

ambiente tranquilo. No dia a seguir,

contente de ter

um companheiro

para uma boa

piza, convidei-o,

e lá fomos a um

daqueles locais

onde nos podemos

sentar a uma

mesa a poucos

metros da boca

do forno a lenha,

de onde saem as

pizas acabadas de

cozer.

O episódio já

se me tinha quase

varrido da memória,

quando ele

passou de novo

por lá, uns bons

anos mais tarde, e

me lembrou aquela piza. Para ele, aquele

pequeno gesto de um colega quase desconhecido

tinha sido como um bálsamo

para as feridas que trazia na alma, mais

do que no corpo cansado.

Ficámos anos sem nos encontrarmos

de novo, mas, cada um na parte do mundo

onde é enviado, continuamos a viver

na certeza de que às vezes, para grandes

males, pequenos remédios chegam muito

bem.

«Fica connosco». Estas duas palavras

que marcaram o gesto de acolhimento

daqueles dois de Emaús para com o terceiro

peregrino apontam para milhares

de outros momentos semelhantes, nos

quais um simples gesto de acolhimento

bastou para ajudar um irmão, uma irmã

a recomeçar o seu caminhar na vida.

Nós mesmos, povo de navegadores

no passado, e hoje povo profundamente

marcado e enriquecido pela imigração,

sabemos bem o que é chegar a uma terra

estrangeira e encontrar gente que nos

acolhe e nos oferece novas possibilidades

de trabalho e de vida.

Mas o «viver acolhendo» pode ir ainda

mais longe: o velho patriarca Abraão, que

pensava só oferecer aos três viandantes

que passavam pela frente da sua tenda

uma sombra para descansar, água para

lavar os pés e um naco de pão com um

pouco de carne assada, na verdade acolhia

o próprio Deus que vinha oferecer-

-lhe a possibilidade de se tornar o pai de

um povo inteiro (Génesis 18). E os dois

discípulos de Emaús só mais tarde descobriram

que tinham acolhido em casa o

próprio Jesus ressuscitado.

E o acolhimento não acaba neste mundo.

Um místico muçulmano do século

xii gostava de dizer que «quanto mais

acolhermos a Deus em nossa casa nesta

vida, mais Ele nos acolherá na sua casa

na vida eterna».

O segredo está em fazermos da

nossa vida um contínuo «fica connosco,

Senhor», e vermos a Sua presença no

rosto de cada irmão e irmã que cruzam o

nosso caminho. am

além-mar | Outubro 2020


vocação e vida

Susana Vilas Boas | Investigadora e leiga comboniana

A VOCAÇÃO NÃO É INDIFERENTE

À REALIDADE

Vivemos no mundo e a nossa

vida alheia não é alheia à

realidade concreta que nos

interpela cada dia. E é no

mundo em que caminhamos

que a vocação se realiza, é

nele que ela se desenvolve e

frutifica.

Que desafios se colocam

à vocação?

Porque parece

ser tão difícil discernir o

caminho? Como vencer

as barreiras, que colocamos

a nós mesmos, para

trilhar um caminho vocacional

autêntico, que nos

realize? Como sair da teia

de pressões e de opiniões

de quantos nos rodeiam

e de quantos nos querem

“vender” um futuro fácil

perante o qual ficamos

deslumbrados? Todas estas

questões nos invadem

e, pouco a pouco, vemo-

-nos à deriva, perdidos

do rumo que, verdadeiramente,

queríamos

seguir. Eis que o novo ano

pastoral começa, mas, que

passos damos no nosso

caminho de discernimento

vocacional?

© 123RF

2020 Outubro | além-mar


O mês missionário abre

o ano pastoral e, simultaneamente,

coloca-nos

numa posição de abertura

face à realidade do

mundo que nos rodeia.

Neste ano, e em pleno

tempo de pandemia, o

Papa Francisco recorda,

neste quinto aniversário

da Encíclica Laudato

Si’, a responsabilidade

que cada ser humano

tem para com o mundo.

Alerta o papa que

não se trata de procurar

uma “ecologia simples”,

como se o separar o lixo

resolvesse tudo. Antes, o

papa fala de uma ecologia

integral que, atendendo

bramento da fama), mas

também a realidade em

que vivemos e aquela à

qual tantas vezes insistimos

em fechar os olhos.

A vocação é sempre

ecológica

Se pensamos a ecologia

como o cuidado com toda

a Criação, se a pensamos

como respeito por si mesmo

e pelos outros, percebemos

que a vocação terá

de ser sempre pensada

numa perspectiva ecológica.

Só desta maneira

teremos, por um lado,

abertura para “arrumar a

casa” que somos, evitando

as poluições que ofuscam

o nosso pensar e o próprio

sonhar o futuro, evitando

a correria desenfreada

por fazer muitas coisas e,

sobretudo, evitando que o

deslumbramento do ter e

do parecer perturbe a capacidade

de olhar aquilo

que somos e aquilo que,

verdadeiramente, ansiamos

ser. Por outro lado,

esta dimensão ecológica

da vocação permite-nos

olhar para lá de nós mesmos.

A vocação é sempre

fecunda, dá sempre fruto

e é sempre dom para os

outros. Neste sentido, ela

realiza-se indo ao encontro

da realidade e nunca

fugindo dela!

É certo que as necessidades,

o sofrimento e as

injustiças abundam no

mundo em que vivemos.

Quando olhamos a realidade

nesta perspectiva,

sentimo-nos impotentes e

incapazes de abarcar tudo.

Por isso mesmo, a realidade

que nos envolve é uma

realidade que precisa,

não apenas de ser cuida-

à realidade, «integre o

lugar específico que o

ser humano ocupa neste

mundo e as suas relações

com a realidade que o

rodeia» (Laudato Si’,

n.º 15). Por isso mesmo,

somos convidados a

pensar a vocação também

com os olhos postos nesta

responsabilidade.

Fechar os olhos à realidade

que nos rodeia é

pensar a vocação “voltada

para o próprio umbigo”!

Há que ter em conta, por

isso mesmo, não apenas as

nossas vontades e os nossos

desejos (tantas vezes

caprichosos e ligados ao

facilitismo e ao deslumda,

mas que, sobretudo,

precisa de ser amada.

Ora, amar uma realidade

ferida não é fácil e abraçar

uma vocação que vá ao

seu encontro também não

é fácil. Só com o acompanhamento

vocacional

certo se torna possível discernir

a vocação evitando

a asfixia de não poder

chegar a todas as situações

que carecem de auxílio,

só assim é possível não

desanimar face ao mar de

sofrimento que, tantas vezes,

nos turva a visão para

as inúmeras situações

de esperança e de vida

verdadeira que abundam

no nosso mundo.

A indiferença não é

compatível com

a vocação

É frequente olharmos a

realidade como se não

fizéssemos parte dela.

O desejo de fuga de

situações adversas leva-

-nos a centrar o nosso

discernimento apenas nos

problemas circundantes:

na nossa família, nos

nossos amigos, nos nossos

desafios futuros ligados

ao trabalho e à economia.

Daqui, criamos a ideia

ilusória de uma vocação

“fácil”, na medida em

que sentimos que, se não

formos por determinado

caminho… não conseguimos

alcançar nada.

Fechamos a possibilidade

de percorrer outras vias,

apenas por uma ideia

sobre a nossa realidade (a

ideia que antevê dificuldades

e lutas). No entanto,

esta ideia sobre o “nosso

mundo circunscrito”

acaba por ter repercussões

graves face à realidade do

u

além-mar | Outubro 2020


vocação e vida

mundo que habitamos.

Pouco a pouco, ficamos

indiferentes às interpelações

do mundo, ficamos

indiferentes ao sofrimento

dos outros e, sem nos

apercebermos, desenvolvemos

uma indiferença

até por nós mesmos: já

não importa quem somos

nem quem desejamos ser,

mas aquilo que criamos

como “ideia do que é possível”

em relação a nós, à

nossa vida e ao mundinho

fechado em que mergulhamos,

como se nada

mais existisse.

A indiferença não é

distintiva do ser cristão.

Nela não existe autenticidade

do ser pessoa.

Por isso mesmo, não

podemos fingir que não

existe um mundo além

de nós mesmos nem que

a vida pode fazer sentido

se a circunscrevermos ao

pequeno círculo familiar e

à pequena rede de amigos

que temos. O mundo é

muito maior do que nós!

Nele vivemos e com ele

caminhamos, não sendo

a nossa vida alheia

à realidade que existe

no mundo. Assim, para

uma vida autêntica, não

podemos ficar surdos aos

apelos da realidade. Antes,

há que deixar-se tocar

pela realidade e permitir

que ela nos fale. De facto,

só «na realidade concreta

que nos interpela, aparecem

vários sintomas que

mostram o erro, tais como

a degradação ambiental,

a ansiedade, a perda do

sentido da vida e da convivência

social. Assim se

demonstra uma vez mais

que “a realidade é superior

à ideia”» (Laudato Si’,

© cathopic

Para uma vida autêntica, não

podemos ficar surdos aos apelos

da realidade. Antes, há que deixar-

-se tocar pela realidade e permitir

que ela nos fale.

n.º 110). A apatia da indiferença

nunca é geradora

de vida. Antes, arranca-

-nos da realidade do que

somos e do que estamos

a viver. O mundo não é

obstáculo à realização da

nossa vocação. Ao contrário,

é aí que a vocação

se realiza, é nele que ela

se desenvolve e frutifica.

É certo que sozinhos não

chegamos a lado nenhum,

antes, somos engolidos

pela pressão social,

pelos desejos vãos que

nos chegam diariamente

através das redes sociais

e dos meios de comuni-

cação social. No entanto,

o caminho vocacional

não existe, nem pode ser

trilhado de modo individual

e isolado. Permitir

que outros nos ajudem

nesta descoberta é já, por

si só, sinal e resposta às

interpelações da realidade

– interpelações estas que

serão local privilegiado

para a realização vocacional.

Vocação: triunfo

da esperança

O desespero nunca é bom

conselheiro e… quantas

vezes somos tentados

por ele! Os desafios que

encontramos quando

olhamos para os nossos

sonhos de futuro, quando

pensamos seriamente

naquilo que gostaríamos

de fazer com a nossa vida,

tudo parece apelar a que

nos deixemos levar ao

sabor do vento, segundo

as correntes sociais ou

as vontades dos nossos

familiares. As forças

desvanecem e tudo, de

repente, ganha aparência

de impossível e de improvável.

Porém… nunca

estamos sós! Cristo é a

nossa esperança e d’Ele

vem o dom da vocação.

Então, porquê desanimar?

«A esperança convida-nos

a reconhecer que sempre

há uma saída, sempre

podemos mudar de rumo,

sempre podemos fazer

alguma coisa para resolver

os problemas» (Laudato

Si’, n.º 61). Sozinhos nada

somos e nada conseguimos,

mas com Cristo

– e com aqueles que Ele

coloca ao nosso lado neste

caminhar – tudo podemos

abraçar e vencer (cf.

Ap 4,13). am

Centro

Vocacional

Juvenil (CVJ)

Estão disponíveis para

acompanhamento espiritual

e vocacional:

O P. e Dário Chaves,

na Maia

Tlm: 916 656 857

Correio electrónico:

jovemissio@gmail.com;

www.jim.pt

O P. e Jorge Brites,

em Lisboa

Tel: 213 955 286

Correio electrónico:

jovemissiosul@gmail.com

2020 Outubro | além-mar


É vital que hoje a Igreja saia para

anunciar o Evangelho a todos,

em todos os lugares, em todas as ocasiões,

sem demora, sem repugnâncias e sem medo.

Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, 23

P. e Alexandre Ferreira,

missionário comboniano

no Quénia

PARA MAIS INFORMAÇÕES,

CONTACTE:

MISSIONÁRIOS COMBONIANOS

Calç. Eng. Miguel Pais, 9 | 1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286 | www.combonianos.pt


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