Revista Dr Plinio 271

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Outubro 2020

Há 25 anos, um

vitorioso holocausto


mapio.net

Imagem

eloquente

de Deus

E

ntre as razões pelas quais o ouro e a prata são

considerados metais nobres estão a de serem in-

corruptíveis e simbolizarem, por sua cor, certa

superexcelência das qualidades da alma. Essa incor-

ruptibilidade é uma imagem de uma propriedade do

espírito. Portanto, a nobreza desses metais está no fato

de apresentarem uma qualidade que lhes dá apa-

rência de pertencerem a uma categoria superior.

Isto que se diz do ouro e da prata pode-se

dizer de outras criaturas, na medida em que

atinjam uma sublimidade que faz delas uma

imagem particularmente próxima, expressiva

de Deus. Há uma nobreza inerente

ao jatobá, o qual vive duzentos, tre-

zentos anos, é grande, forte, esplêndido,

cuja madeira não pode ser quebrada; há

uma força dentro dessa longevidade e

dessa riqueza que é algo de sublime no

gênero, e uma imagem eloquente da-

quilo que é Deus. Nisto o jatobá é

nobre em relação a um simples ar-

busto.

(Extraído de conferência de 31/7/1961)


Sumário

Vol. XXIII - Nº 271 Outubro de 2020

Há 25 anos, um

vitorioso holocausto

Na capa, Dr. Plinio

em abril de 1995.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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Editorial

4 Um holocausto que comprou

a realização das promessas!

A sociedade analisada por Dr. Plinio

7 Originalidade da ordem medieval

Dona Lucilia

16 Divagando e refletindo

Gesta marial de um varão católico

18 A Revolução tendenciosa se

difunde como o lodo - II

Eco fidelíssimo da Igreja

23 Perfeições que nascem da dor

Calendário dos Santos

26 Santos de Outubro

Hagiografia

28 Vítima expiatória

Luzes da Civilização Cristã

32 Geometria e assimetrias harmônicas

Última página

36 Maria Santíssima é em tudo

o oposto da Revolução

3


Editorial

Um holocausto que comprou

a realização das promessas!

Arquivo Revista

Lendo a autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, pareceu-me que seria muito mais

útil para a Causa Católica se eu me oferecesse como vítima expiatória, a exemplo dela. Oferecer

um sacrifício imediato que, enquanto tal, fosse de utilidade também imediata para a Igreja,

e por efeito do qual, em poucos anos, a Contra-Revolução estaria senhora do terreno. Eu jazeria no

Cemitério da Consolação 1 , quiçá inteiramente ignorado pelas gerações seguintes, mas sobre a minha

sepultura teria brotado a árvore grandiosa do Reino de Maria e da Civilização Cristã.

Nessa perspectiva, eu me punha a questão de se isso não valeria mais do que todo o esforço que estava

fazendo. Não seria melhor eu silenciar completamente as vozes interiores que me falavam de grandes lutas

por Deus, por Nossa Senhora, pela Igreja, não dar atenção a elas, oferecer-me e caminhar para morte?

Pareceu-me que, estando em dúvida entre os dois caminhos, deveria preferir o mais desagradável.

Ora, eu admirava profundamente a via de Santa Teresinha, mas tinha horror de segui-la. Todo o meu

feitio se opunha a isso, sobretudo porque implicava na renúncia às vozes interiores nas quais eu encontrava

o meu gáudio, meu amparo, minha consolação. Bastava me colocar na perspectiva da vítima

expiatória, que tudo secava. Eu pensava: “Está bem, você deve trilhar o caminho de Santa Teresinha.

Se tiver coragem, ofereça-se como vítima expiatória e vamos ver no que dá.”

De outro lado, o apelo das vozes interiores se fazia ainda mais premente, atraente e acariciante.

Donde concluí: “Pois é isso mesmo que eu não escolho. Quero o caminho pior, mais triste, mais horroroso,

porém mais fecundo. Eu prefiro este.”

Resolvi então entrar por uma via, ensinada por Santa Teresinha, de nunca pedir e nunca negar nada

a Deus nosso Senhor, aceitar tudo o que acontecesse sem fazer sequer o pedido divino: “Pai, se

for possível, afaste-se de Mim este cálice…” (Mt 26, 39). Não teria “se for possível”, o cálice não se

afastaria; eu o beberia até o fim, logo que ele se apresentasse, e consumaria o meu sacrifício.

Essa resolução me produzia um efeito tão prodigiosamente antinatural que

era um verdadeiro tormento. Entretanto, cessei de pedir a Nosso Senhor e

a Nossa Senhora qualquer coisa para mim, a não ser a santidade.

Em certa ocasião, eu estava na Igreja de Santa Cecília e o coro paroquial

entoou um cântico em latim que, em determinado momento,

continha esta frase: “Sanctifica nos in veritate”. Sem entender

bem o latim, eu pensei: “É esse o meu único pedido! Que Nossa

Senhora me santifique de verdade! Que eu fique um santo no

sentido próprio da palavra. O resto não me incomoda.”

Algum tempo depois, fui a uma exposição de obras católicas

e encontrei O Livro da Confiança. Qual não foi a minha

surpresa ao me deparar com as palavras iniciais 2 e descobrir

nelas uma espécie de justificação teórica a uma via que, embora

não fosse contrária à de Santa Teresinha, sob certo ângulo

lhe era simetricamente oposta.

Mantive minha posição de não pedir nem recusar nada,

mas surgiu no horizonte uma luz que me levava a esperar que

algum dia Nossa Senhora me faria adotar outro caminho.

Dr. Plinio durante a ação de graças E, assim, andei por vales e montes até o momento em que so-

de uma Missa na Igreja de fri a crise de diabetes, com sério perigo de morte. Eu estava pron-

Santa Cecília, em 13 de to para morrer quando houve a graça de Genazzano 3 , a qual como

dezembro de 1992 que me dizia: “Siga as vozes interiores!” Essa graça infundiu em mim a

4


Divulgação

Arquivo Revista

Corpo de Santa Teresinha do Menino Jesus, recém-falecida,

exposto no Carmelo de Lisieux. À direita, estampa de Mater

Boni Consilii, recebida por Dr. Plinio como presente

confiança de que Nossa Senhora maternalmente me levaria a cumprir

minha missão.

Sempre tive como meta aquilo que a minha vocação indicava, ou

seja, a plena realização das promessas que Nossa Senhora tornou conhecidas em Fátima: o castigo

restaurador e o Reino de Maria.

Contudo, o fato de eu esperar esses acontecimentos com desejos veementíssimos não evitava o seguinte:

Deus continua Senhor de todas as coisas, e pode ser que Ele queira submeter-me à prova de

passar a vida inteira à espera de algo que eu não veja se realizar.

Como a minha alma se portaria diante dessa decepção? Porque morrer sem ver realizada a grande

esperança da vida constitui evidentemente uma decepção. Não haveria nisso um desmentido à fé?

Com efeito, por diversas disposições interiores inteiramente razoáveis, que produziam em minha

alma efeitos dos mais animadores e convenientes à santificação, eu esperava a vinda dos acontecimentos

preditos em Fátima. De maneira que tudo quanto me levava a Deus conduzia-me a essas

promessas, e tudo nelas me levava a Deus.

Pode-se então calcular a dureza extrema da prova de chegar ao fim da vida e Ele me dizer: “Não

verás a realização das promessas!” Quantos trabalhos perdidos, quantos esforços inutilizados, quantas

dores sofridas em vão, quantas esperanças anuladas… Tudo jogado ao chão, como um lacaio que

tem por missão junto ao rei carregar um jarro precioso, mas que de repente tropeça, cai e o jarro se

desfaz em pedaços; o próprio lacaio se machuca e morre. No meu caso, esse “jarro precioso” era a

conservação entre os homens da esperança nas promessas de Nossa Senhora.

Diante dessa perplexidade, tomei a seguinte deliberação: se Deus, por uma razão que ignoro, submete-me

à monumental frustração de morrer sem que meus olhos, exaustos pela extensão da caminhada

da minha vida, vejam o amanhecer das promessas, eu devo reconhecer que Ele quis me provar

e que minha morte se parecerá com a do Divino Redentor, o qual, do alto da Cruz, proferiu aquele

brado terrível: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mc 15, 34).

Aos pés da Cruz, Jesus via sua Mãe que chorava, mas tanto Ele quanto Ela Se mantiveram na perfeita

obediência ao Pai Eterno: “Deus quis, Deus fez. Ainda que tudo tenha acontecido ao contrário

do que esperávamos, seja Ele bendito.” Logo, bendito seja também o momento em que a meu respeito

Deus decidiu: “Este homem vai sofrer o tormento do revés!”

Porque do fato de eu morrer sem ver as promessas se realizarem, dessa decepção aceita com integridade

de amor e de obediência, pode resultar, para logo depois da minha morte, no começo do

cumprimento das promessas.

Portanto, se eu morrer sem ver implantado o Reino de Maria, morrerei em face dele como São

Francisco Xavier diante da China. A graça o convidava a conquistá-la para a Fé Católica, e Deus lhe

impôs esta frustração: morrer numa ilha a caminho dela, olhando-a e rezando por ela. Pois bem, se

for da vontade de Deus, morrerei antevendo o Reino de Maria e rezando por ele. Assim terei salvado

a minha alma!

É possível que a fidelidade à vocação nos peça o sacrifício de termos a impressão de que toda a

nossa vida foi em vão e que a Providência não atenderá a nossos anseios.

5


Arquivo Revista

Da esquerda para a direita: a 15 de outubro de 1988, em Saint-Laurentsur-Sèvre,

França, Dr. Plinio oscula uma imagem esculpida por São

Luís Maria Grignion de Montfort; em 13 de maio de 1973, durante a

cerimônia de consagração de sua Obra a Nossa Senhora; recebendo

o Sacramento da Unção dos Enfermos, em 2 de setembro de 1995

Samuel Moraes

Não será que, para entrarmos no Reino de Maria, teremos de passar

por provas como essa, que nos imporão, ademais, uma longa separação?

Estou certo de que, nas grandes provas de nossas vidas, Nossa Senhora

intervirá como Mãe de um modo incomparável, dando, por exemplo, a possibilidade de nos comunicarmos,

mesmo à distância, em todos os momentos. Para tais ocasiões, sugiro esta oração:

“Mãe minha, dai-me a graça de nunca me sentir longe de Vós. Porque, se é verdade que muitos

estão longe, Vós, Senhora, estais sempre perto. Convencei-me de que estais ao alcance, não de mãos

que se estendem, mas de mãos que se juntam para rezar seriamente.

“Fazei-me compreender esta verdade: se nunca se ouviu dizer

Quando, na eternidade,

que alguém que tenha recorrido à vossa proteção e reclama-

Dr. Plinio compreendeu que sua

missão seria cumprida, no corpo já do vosso socorro fosse por Vós desamparado, não serei

inerte floresceu um sorriso

eu o primeiro a não ser atendido. Assim, pois, régia Senhora,

fazei com que sempre me volte a Vós com confiança.

Assim seja.”

A Providência poderá dispor que meus filhos espirituais

se sintam longe de mim, como tantos religiosos

sentiram-se longe de seus fundadores, e tenham de

passar por essa sensação de abandono. Nossa Senhora,

porém, nos dá esta garantia: Ela estará presente ou, pelo

menos, lhes fará sentir a minha presença. De maneira que

tenham a certeza: na hora decisiva, estarei junto à cama de

doente de cada um, apertando-lhe a mão. 4

1) Necrópole da cidade de São Paulo, localizada no Bairro da Consolação.

2) “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das

nossas consciências palavras de doçura e da paz” (SAINT-LAURENT, Thomas de. O Livro da Confiança.

São Paulo: Retornarei, 2019, p.13).

3) Estando convalescente da crise de diabetes que o acometeu no ano de 1967, Dr. Plinio recebeu de presente

uma estampa do milagroso afresco da Mãe do Bom Conselho venerado na cidade de Genazzano, Itália.

Ao fitar a imagem, ele recebeu uma insigne graça mística pela qual, sem que houvesse qualquer modificação

nos traços da fisionomia, Nossa Senhora com que lhe sorriu, incutindo-lhe uma profunda confiança em seu

auxílio maternal.

4) Cf. Conferências de 31/5/1989, 9/10/1991, 23/1/1994 e 16/7/1994.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

6


A sociedade analisada por Dr. Plinio

xorge (CC3.0)

Originalidade da

ordem medieval

Castelo de

Saumur, França

Analisando a sociedade medieval, notamos que ela se encontra

muito mais em ordem do que a moderna, apesar de não estar

sempre tranquila. Cada classe, quando ferida ou pisada, reage;

e o rei sabe disso. Onde todo mundo se defende, se acotovela,

acaba havendo lugar para todos. É o caráter contratual da

sociedade medieval que explica a sua própria organização.

V

ínhamos tratando a respeito

das leis da Idade Média, o

papel dos costumes, sua definição,

como se constituíam e sua

legitimidade 1 .

Um costume só tinha

valor se fosse conforme à

justiça e à ordem natural

Já falei sobre a posição do rei

diante do costume e demonstrei como

o monarca, ou em certos casos

o senhor feudal, tinha como tarefa

confirmar os costumes, quando havia

alguma dúvida a respeito; ou seja,

quando numa determinada cate-

goria ou classe social se discutia a

respeito da autenticidade ou do verdadeiro

sentido de um costume, o rei

intervinha para definir a questão.

Às vezes também, a pedido das

classes interessadas, os costumes

eram expostos por escrito pela própria

classe e o rei os confirmava. E a

última tarefa importante do monarca

a respeito do costume não era a

confirmação deste, mas a extirpação

dos maus costumes.

Com efeito, um costume só podia

ter valor na medida em que fosse

conforme à justiça e à ordem natural;

do contrário era nulo. A obrigação

do rei era extirpar o que eles

chamavam maus costumes. São Luís

IX, Rei de França, foi um insigne extirpador

de maus costumes.

Mas, além dessas leis não escritas,

que eram os costumes, na Idade Média

havia também leis escritas. Trata-

-se de saber como eram. Havia leis

do rei e outras dos senhores feudais.

Exemplo da dispensa

a um costume

O monarca, como supremo juiz do

reino – num sentido da palavra “juiz”

muito mais amplo do que se usa hoje

em dia –, que aprecia a equidade de

todas as situações, de todas as leis, ti-

7


A sociedade analisada por Dr. Plinio

R.M.N. / R.-G. Ojéda (CC3.0)

nha até o poder de dispensar do costume

determinadas pessoas em certos

casos excepcionais.

Por exemplo: há num determinado

lugar um costume, mas ali se assinala,

pelos seus serviços à pátria, pela elevação

de sua cultura, pela sua grandeza

financeira, pelo seu poder, pelo

esplendor de sua tradição, uma determinada

família. Nesta família floresce,

em certo momento, um ministro

de Estado ou um general. A família

adquire uma tal ilustração que para

ela passa a ser vergonhoso continuar

a obedecer a esse costume.

Isto porque a honra tinha um sentido

mais importante do que o dinheiro,

situação que se transformou singularmente

depois. Havia uma porção

de costumes que obrigavam juridicamente

a atos de caráter honorífico.

Por exemplo, todas as famílias da

redondeza de um determinado caste-

Além dos privilégios do rei, existiam

no Direito francês les établissements

nouveaux – os novos estabelecimentos.

Estabelecimentos porque

eram decretos do monarca que valiam

para todo o reino, os quais ele

promulgava apoiado em seus altos

barões e senhores feudais.

São, em geral, corretos, muito bonitos,

nos quais o rei declara, por exemplo,

que “ouvidos os seus fiéis vassalo,

todos os anos, no aniversário do

senhor daquele castelo, deviam oferecer-lhe

três rosas, cinco pães, quatro

peixes ou quaisquer outras coisas

assim, como uma homenagem.

Suponhamos que uma das famílias

do lugar, obrigada a isso pelo costume,

adquirisse uma ilustração muito

maior que a família à qual essa homenagem

era tributada. O rei tinha

o direito de, por meio de um privilégio,

dispensar aquela família daquele

costume. Não porque fosse constituir

uma situação odiosa, imerecida para

aquela família, mas pelo contrário,

para restabelecer a equidade lesada.

O costume não tinha tomado em

consideração uma situação nova que

se impôs depois. Para compensar a

iniquidade da aplicação do costume

antigo a um fato novo e diferente, o

rei podia intervir para constituir um

privilégio.

O cultivo do campo: Março, Les Très Riches Heures du Duc de

Berry - Coleção do Museu Condé, Castelo de Chantilly, França

Os privilégios: um modo

de restabelecer a justiça

Notem bem que a palavra “privilégio”

teve depois um sentido odioso

por causa da demagogia dos revolucionários.

Eles começaram a apontar

o privilégio como sendo uma coisa

gratuitamente dada pelo rei a uma pessoa

que não o merecia. Não existe nada

mais estúpido do que isso. É o contrário.

O privilégio é um modo de restabelecer

a justiça. Como a lei é cega, sendo

uma regra geral que comporta uma

porção de situações excepcionais, o rei,

no seu alto arbítrio, nos seus elevados

desígnios de equidade e sabedoria, pode

acomodar a lei às situações concretas,

constituindo privilégios.

Esta é uma das mais altas atribuições

do rei. Privilégios a favor de

igrejas, por exemplo. Em certo lugar

existe o costume de pagar a balsa ou

o pedágio de uma estrada que conduz

a uma igreja, em favor de um determinado

senhor feudal. Mas nesta

igreja se opera um milagre insigne;

torna-se um lugar de romaria.

É justo que todos os romeiros

continuem a pagar este imposto?

Não, por causa do milagre que houve

ali, e da veneração popular. O rei

constitui um privilégio em favor daquela

igreja com base no costume.

Ato de justiça, de equidade, nunca

de iniquidade.

Imprecisões e erros

cometidos por tratadistas

de Direito medieval

8


los, o Duque da Bretanha, o Duque

d’Anjou, etc., reunidos na sua corte

no dia tanto, resolveu em união com

eles estatuir o decreto que segue”. E lá

iam, então, as disposições do decreto.

O rei precisava, para medidas

dessa natureza, da aprovação dos senhores

feudais?

Os tratadistas de Direito medieval

costumam afirmar que o monarca

não precisava, e dão como prova

o fato de que muitas vezes os reis

baixavam um decreto, de cuja promulgação

não constavam os senhores

e grandes nobres.

E eles deduzem daí que o rei podia

baixar decretos sem autorização

dos grandes nobres. A meu ver, eles

não compreenderam que há diferenças

de situações. Existiam algumas

medidas as quais eram de interesse

coletivo do reino, e que ficavam no

âmbito exclusivo do rei; então o monarca

podia decretá-las sem autorização

dos senhores feudais. Mas outras

vezes havia determinadas medidas

que estavam no âmbito próprio

do senhor feudal, e era de vantagem

para o reino que todos os senhores

feudais legislassem juntos.

Então o rei, com todos os senhores

feudais, decretava um determinado

ato legislativo. Tenho a impressão

que se os tratadistas de Direito medieval

conhecessem um pouco de Direito

Canônico, evitariam muitas imprecisões

e muitos erros neste ponto.

Na Igreja existe isto também. Há

decretos que o papa lança sozinho,

mas existem outros que estão dentro

das atribuições de um bispo; o papa

normalmente podia legislar a respeito

daquilo, mas ele não legisla. Os

bispos se reúnem, fazem os decretos

relativos às suas dioceses, em conjunto,

e depois o papa aprova aquelas

decisões e manda pôr em prática.

É uma situação parecida.

Nós deveríamos, portanto, nas

leis do rei feitas para o bem geral do

reino, distinguir as que estão dentro

do âmbito da autoridade exclusiva

O Rei Luís XIV junto ao seu Conselho - Palácio de Versailles, França

do rei e aquelas que estão no âmbito

da autoridade dos senhores feudais.

Quando convém que legislem juntos

em determinado sentido, então o rei

implora a autoridade dos senhores a

legislarem com ele.

Limitações do poder

legislativo do rei

Quando se tratava de uma questão

em que o monarca não tinha o

encargo de legislar com os outros,

então ele agia sozinho. Na França,

o ato mais antigo que se conhece de

établissements nouveaux é de 1144,

pelo qual o Rei Luís VII ordenou a

expulsão do reino da França de todos

os judeus relapsos.

Eles entendiam como judeu relapso

o que tinha abraçado a Religião

católica apenas por fraude, para

obter alguma vantagem, e depois

a abandonava.

Mais tarde, no ano de 1150, há um

decreto baixado também para toda

a França instituindo uma paz de dez

anos no reino em favor de três categorias:

as igrejas, os comerciantes

e os cultivadores, a fim de que, nas

guerras privadas, fossem respeitadas.

No antigo Direito medieval, essas

leis escritas do rei eram extremamente

raras. Com o tempo, elas foram

se tornando mais frequentes.

No fim da Idade Média, os monarcas

legislavam muito a respeito de inúmeras

matérias.

A lei do rei não podia destruir a

autoridade dos senhores feudais,

nem a diminuir; não podia suprimir

os costumes ou modificá-los, a não

ser nos casos que já mencionei: os

contrários à Moral, à ordem pública,

à dignidade dos particulares, à Doutrina

católica.

Além disso, o poder legislativo do

rei tinha as seguintes limitações: para

que uma lei do monarca fosse válida

era necessário, antes de tudo, que

fosse para o bem geral. Em segundo

lugar, que fosse razoável. Em terceiro

lugar, que não atentasse contra os

direitos de Deus, nem contra os bons

costumes. Em quarto lugar, que não

lesasse os direitos de ninguém. Em

quinto lugar, que o rei pedisse o conselho

dos outros.

Divulgação (CC3.0)

9


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Divulgação (CC3.0)

Esses cinco elementos eram indispensáveis

para que uma lei do monarca

entrasse em vigor no consenso

de todos. Isso levanta o problema

do direito de resistência à lei, que

existia na Idade Média. É uma coisa

muito curiosa e que assombra os

próprios liberais de nossos dias.

Evidentemente o rei tinha uma

autoridade muito maior nas terras

em que ele era diretamente senhor

feudal. Para essas terras os établissements

nouveaux são extremamente

numerosos. O rei tinha ali a plenitude

da autoridade e ele então legislava

copiosamente.

O que se pode dizer do monarca,

afirma-se também dos senhores feudais.

O senhor feudal tem, analogamente

ao rei, os mesmos direitos de

fazer leis dentro de seu feudo.

Assim, temos definido: as leis escritas

precisam ser conformes à justiça

e à Doutrina católica e devem

abranger, quando se trata do rei, os

interesses gerais do reino; quando se

Luís VII e alguns de seus decretos

Arquivo Nacional da França

refere aos senhores feudais, os interesses

do feudo. Ao lado das leis escritas

do rei e as do feudo colocam-se

os costumes, para completar o edifício

legislativo de um país medieval.

O Direito Canônico e

o Direito Romano

Além disso havia duas categorias

de leis sobre as quais vou falar muito

sumariamente, para completar o quadro

que estou apresentando. São as

leis decorrentes da aplicação do Direito

Canônico: ou é o próprio Direito

Canônico, ou o Direito Romano.

Já vimos que tudo quanto diz respeito

à Igreja é regulado pelo Direito

Canônico. A Igreja era extremamente

florescente naquele tempo, com

dezenas de milhares de clérigos em

cada país, com instituições religiosas

em quantidade incontável, feudos colocados

dentro do próprio âmbito do

governo temporal da Igreja. Ela mesma

legislava sobre uma porção de

matérias nas quais hoje o Estado legisla:

o casamento, o registro civil, a

sucessão testamentária, etc.

Todos esses assuntos caíam

debaixo da alçada do Direito

Canônico, e a capacidade para

legislar sobre eles pertencia

à própria Igreja, representada

ora pela Santa Sé,

ora pelos bispos. De maneira

que era mais uma

outra categoria enorme de

pessoas que ficava fora do

âmbito da lei do Estado.

Temos, por fim, o Direito

Romano. Pelo seu prestígio,

tornou-se costume aplicá-lo

em certos lugares do Sul

da França. Como o costume fazia

a lei, o Direito Romano nesses

lugares serviu de lei.

Na Idade Média não se compreendia

que o Direito Romano estivesse

em vigor em alguns lugares. O Império

Romano estava morto e sepultado

havia mil anos. O que se encontrava

em vigor era apenas o costume de

resolverem, em certos locais, as questões

segundo o Direito Romano, como

sendo uma lei aplicável aos interesses

de diversas regiões.

Vamos então resumir. Temos leis

civis de duas categorias: as elaboradas

pelos próprios particulares, os

costumes; as feitas pelo Estado, leis

escritas ou établissements. Estes são

de duas espécies: os do rei e os dos

senhores feudais.

Os établissements do rei podem se

considerar uma terceira categoria.

Existem os établissements visando

o bem geral do reino, em que o monarca

legisla sem necessidade do concurso

dos outros senhores; e os établissements

em que o rei precisa desse

concurso porque a matéria legislativa

interessa a todo o reino, mas está

no âmbito de cada senhor feudal. Em

terceiro lugar, há os établissements do

rei para as terras das quais só ele é senhor

direto. E, por fim, temos os établissements

dos senhores feudais.

Jean Du Tillet (CC3.0)

10


Como se constituíam

as associações

Creio que isto nos conduz naturalmente

para o estudo da vida dentro

do feudo e da autoridade que o

senhor feudal exercia sobre os seus

súditos, para compreendermos bem

a lei feudal.

Na Idade Média, o princípio associativo

era extraordinariamente enérgico.

De maneira que a três por dois se

faziam associações, e todas elas eram

chamadas universidades. Quer dizer,

não eram apenas uma universidade de

estudos como se diz hoje, um conjunto

de faculdades superiores, mas toda

corporação, toda associação, toda pessoa

jurídica era uma universidade. Essas

universidades como se formavam?

Hoje em dia cria-se uma sociedade

lavrando e registrando uma ata. Naquele

tempo formava-se por um ato

do rei ou do senhor feudal, declarando

que aquela pessoa jurídica estava

constituída. Como segundo o Direito

medieval as funções do Estado podem

e devem ser delegadas a particulares,

logo que o monarca ou um senhor feudal

constituía uma universidade, ele

delegava uma parte dos poderes

políticos que possuía

para o próprio organismo

chamado universidade.

De maneira que as corporações

ou universidades

de profissionais faziam leis

para os seus próprios membros.

Assim, grande parte

da matéria da legislação do

trabalho, que hoje é feita

pelo Estado, naquele tempo

era realizada pelos particulares.

Temos aqui uma

outra forma de leis muito

restrita, para grupos pequenos,

e que era feita por

autoridades pequenas também.

Vemos então os vários

fios legislativos, cujo conjunto

formava o tecido legislativo

de uma nação.

O crime de felonia

A ideia da resistência contra a

injustiça está claramente colocada

dentro do Direito e da sociedade

medievais, sob a seguinte forma:

toda a sociedade medieval é construída

à maneira de um conjunto de

contratos. É por meio de um contrato

que o rei desmembra do seu patrimônio,

de sua coroa, uma terra para

entregá-la a alguém. Esse contrato

estipula as obrigações e os direitos

do monarca, e as obrigações e os

direitos do vassalo. O vassalo nobre,

munido desse contrato, desmembra

novos feudos do seu próprio contrato,

o subvassalo divide por sua vez

outras terras do outro contrato. Assim,

por meio de uma cadeia de contratos,

cada um deles constituindo

um elo, se chega a englobar toda a

hierarquia feudal.

O mesmo faz o rei com as cidades.

O monarca e os senhores feudais,

muito frequentemente, constituem

cartas forais a favor das cidades às

quais eles dão autonomia. Essa autonomia

é contratual. A cidade recebe

do rei tal coisa e lhe fornece tanto;

obriga-se a fazer algo e tem direito

também a tal privilégio ao qual o

monarca se obriga.

Qual é o resultado? O rei, os vassalos,

as cidades, todo mundo tem suas

armas, suas tropas e seus meios de

fazer executar o contrato em face do

outro contratante. Qual é a lógica tremenda

dos contratos? Todo contrato,

por sua natureza, estabelecendo direitos

e deveres, violadas as obrigações

de uma parte, a outra parte está

isenta de seus deveres também.

Portanto, não há crime que a moralidade

medieval tenha censurado

com mais energia do que o de felonia.

A felonia era a atitude do nobre

que, tendo recebido do seu rei

terras, honras e vantagens, na hora

do cumprimento do dever não se

apresenta. Era, por excelência, o crime

do vassalo. As histórias medievais

enxameiam de casos de reis que

mandam destituir, degradar e depois

matar vassalos, por felonia. O povo

assiste aliviado essas execuções; um

fidalgo felão foi punido e a honra

pública foi desagravada.

São igualmente numerosos, na

Idade Média, os casos de nobres os

quais, julgando que o rei os está que-

Universidade de Coimbra, fundada no século XIII

Elisardojm (CC3.0)

11


A sociedade analisada por Dr. Plinio

rendo oprimir, resistem de armas

na mão. Ninguém considera isso felonia,

mas uma coisa perfeitamente

natural. Porque havia o contrato, a

outra parte o violou, ele se defende.

O verdadeiro conceito

de ordem

Quando nos colocamos diante

dessa perspectiva, isso parece meio

apavorante. Imaginar corporações,

municípios, feudos, que podem resistir

ao rei de armas na mão... Então

vem imediatamente esta objeção:

mas isto cai no caos, porque se cada

um, quando tem direito, pode resistir

de armas na mão, amanhã resiste

quando não possui direito ou imagina

que o tem. E se cada um é juiz de

sua própria situação, precipitamo-

-nos dentro do caos.

O fundo de quadro desse argumento

realmente é muito pesado

na época atual. Dar a cada industrial,

comerciante, a faculdade de resistir

ao Estado de armas na mão...

De fato, eles fazem coisa melhor:

compram. Imaginem cada fazendeiro,

prefeito, governador resistindo

ao Estado de armas na mão; este se

desfaz. De fato, essa posição legítima,

em princípio, é cheia de perigos.

Porque sempre que um homem está

no caso de julgar os seus próprios direitos,

ele pode praticar um abuso.

Isto quer dizer que tal princípio

seja falso? Eu contesto. Suponhamos

um país onde haja a pena de

morte. Sou condenado injustamente

à morte. Se vem a polícia correndo

atrás de mim para me pegar, eu também

posso resistir de armas na mão.

Isto não é nenhum absurdo porque

estou sendo condenado injustamente.

É questão de legítima defesa.

Mais ainda: se o Estado faz uma

lei injusta, contrária ao Direito natural

e contra a qual eu quero resistir,

tenho direito de desobediência formal

em oposição ao Estado. Isto é

Doutrina católica.

De fato, pode haver abusos. Mas

um abuso proveniente de um Estado

que não tem esse controle da parte

dos súditos, não é muito maior? Vejamos

como correm as coisas num

Estado onde esse caráter contratual

da autoridade não existe, por exemplo,

dos Tempos Modernos. Isso é

mais caracteristicamente ainda num

Estado totalitário da Era Contemporânea.

O rei dos Tempos Modernos legisla;

os nobres, o clero, a burguesia

não têm outra coisa a fazer senão

inclinar-se diante dele. Há

verdadeiramente uma ordem esplêndida

dentro do reino, se entendemos

por ordem o fato de não

existirem turbulências materiais.

Ninguém se levanta. Nesse sentido

poder-se-ia dizer que onde há

mais ordem numa cidade é no cemitério,

porque ninguém se move,

ninguém faz desordem. E se no cemitério

não entrasse nenhum vivo,

ele seria um verdadeiro campo da

paz.

Se se entende por ordem essa

inércia absoluta das coisas, um Estado

como esse está em ordem. Mas a

ordem é a disposição das coisas segundo

a sua natureza e seu fim. Se o

Estado pode tudo e ninguém lhe resiste,

ele torce todas as coisas. Daí

surge uma sociedade contorcida, como

foi a existente na França antes da

Revolução.

A nobreza sem função definida,

sem razão de ser dentro do Estado,

o clero degradado pela ação do rei,

a plebe completamente em vias de se

desfazer e de se atomizar, por causa

do monarca. A “ordem” é absoluta;

ninguém se levantou, ninguém se

revoltou. Comparem isso com a aparente

turbulência medieval. Por “dá

cá aquela palha” o senhor feudal se

levanta e o rei tem que enfrentar a

cavalaria dele, e ambos discutem.

Em última análise, há mais agitação,

mas cada um sabe fazer respeitar os

seus direitos.

R.M.N. / R.-G. Ojéda (CC3.0)

Uma das características

mais originais da

organização medieval

Analisando a sociedade medieval,

notamos que ela se encontra

muito mais em ordem do que a moderna,

apesar de não estar sempre

tranquila, “penteada”. Embora seja

uma sociedade bem “despente-

O cultivo do campo: Outubro, Les

Très Riches Heures du Duc de

Berry - Coleção do Museu Condé,

Castelo de Chantilly, França

12


ada”, possui um movimento próprio

de um corpo vivo e sadio. Cada

classe, quando ferida ou pisada,

reage; e o rei sabe disso. Resultado:

lutas materiais, algumas bem

grandes. Lutas judiciárias enormes,

processos que às vezes duram cem

anos para liquidar um caso, mas

como todo mundo se defende, se

acotovela, acaba havendo lugar para

todos.

É o caráter contratual da sociedade

medieval que explica isso. Não se

trata do Direito Romano exclusivo

do Estado sobre todos os cidadãos,

mas de uma coisa toda ela constituída

de laços contratuais, em que cada

um pode se mover como entende.

É muito interessante lembrar um

pensamento de Pio XII que, em alguns

de seus documentos, diz uma

coisa curiosa: a Igreja Católica é

a mestra de todas as nações não só

porque ensina a verdadeira doutrina,

mas também porque ela mesma é

tão bem organizada que todo aquele

que quiser organizar-se bem deve

mirar-se nela para saber como se organiza.

Ora, dentro da Igreja Católica,

com toda a sua ordem, vemos a mesma

coisa. Encontramos determinados

direitos os quais são de tal maneira

radicais e eminentes, que são

definidos pelo papa, e que o próprio

pontífice não pode mudar. Por

exemplo, os bispos e os sete Sacramentos

dentro da Igreja são de instituição

divina. A instituição da infalibilidade

do papa é divina.

Ninguém pode mudar essas coisas.

São fundamentais, a favor das

quais todo mundo tem o direito de

reagir. Nunca um papa fará o erro de

querer suprimir a condição episcopal

dentro da Igreja, porque o papa

é infalível, mas pode suceder que um

alto prelado qualquer queira oprimir

um prelado de categoria inferior,

dando-lhe ordens que ele não tem

direito de dar.

Qual a defesa que tem um prelado

nessas condições? É responder

simplesmente: “Não, não e não. Eu

tenho o direito divino de governar

esse lugar, abaixo do papa. Respeito

muito a sua autoridade, mas tenha

a bondade de permitir-me que não

preste atenção ao que está dizendo.”

Quer dizer, há uma espécie de fundamento

dentro disso.

É o seu símile que se encontra na

organização medieval. Reconheço

que esse caráter contratual existente

na organização medieval tem riscos,

mas sua inexistência cria riscos ainda

maiores. Essa organização contratual

não tem sido bastante notada pelos

comentadores de assuntos medievais.

Entretanto, a meu ver, ela

é uma das características mais originais

da organização medieval.

Eis uma coisa característica nesse

ponto: Durante a Revolução Francesa,

o governo de Paris começou a alterar

a organização jurídica da França,

contrariamente ao que estava estabelecido

num contrato, pelo qual a

Bretanha tinha resolvido incorporar-

-se como feudo à coroa francesa. O

que faz a nobreza da Bretanha? Reúne-se

e manda uma ameaça: “Se

vocês continuarem nesse caminho,

nós proclamamos a independência

da Bretanha. Porque nós tínhamos

um contrato e vocês o violaram.”

A França do Ancien Régime 2 era

uma soma de contratos assim. Por

isso, morto o rei, toda a França fiel

se levantou. Três quartos dos departamentos

franceses pegaram em armas

porque os contratos estavam

violados. A França estava desfeita.

Era preciso recomeçar a fazer tudo

de novo.

Vê-se bem como essa noção contratual

era orgânica. Quando lemos

o “Contrato Social”, de Rousseau,

percebemos a bobagem existente

naquilo tudo, mas ficamos com

uma noção confusa de que existe ali

um certo grão de verdade. Num ponto

qualquer zumbe uma verdade, no

meio de todos aqueles erros.

Esse zumbido aparece transformado

em cântico neste ponto que

estamos considerando. Aqui a verdade

não zumbe, mas canta.

Os súditos do senhor feudal

Isto posto, consideremos o feudo.

Qual é a sua natureza e organização?

Que direitos tem um senhor

feudal sobre seus súditos e como ele

faz as suas leis? Os súditos de um se-

13


A sociedade analisada por Dr. Plinio

nhor feudal são de três categorias diferentes:

os vassalos nobres, os que

poderíamos chamar, até certo ponto,

arrendatários, os quais recebem determinadas

terras, e há a população

dos homens livres.

O que vinham a ser os vassalos nobres?

Consideremos um feudo que

tenha mais ou menos o formato de

uma mesa. O senhor feudal tem a sua

capital colocada no centro. Como sói

acontecer nas turbulências medievais,

em toda a orla da mesa há inimigos

que procuram entrar. Pelo mesmo

processo pelo qual o rei lhe fez o enfeudamento

daquelas terras para que

as defendesse, ele acaba constituindo

ao longo da orla senhores feudais os

quais fazem seus castelos que defendem

suas fronteiras.

De maneira que ele tem o miolo

do feudo, e a côdea é constituída por

castelos de senhores feudais. Mas esses

outros senhores feudais têm em

seus feudos certas posições que precisam

defender melhor. Então, dentro

de seu feudo, eles constituem

feudos menores e senhores feudais

menores.

Às vezes, não é um castelo porque

não defende uma posição tão importante,

mas uma casa na qual vai encastoada

uma torre onde todos se

defendem no caso de uma agressão

sumária.

Esses vassalos nobres são obrigados

a auxiliar seu senhor feudal no

governo e na defesa da castelania.

Existem também os vassalos plebeus,

que são de duas categorias: o

plebeu propriamente dito e o servo.

O vassalo plebeu tem terras que recebeu

do rei por um contrato, mas

ele não participa do governo do feudo.

Tem o direito de residir no feudo,

onde ele goza a condição que o

cidadão possui no país em que nasceu.

Ao lado disso há uma população

de homens livres, flutuante, que é

muito frequente na Idade Média. É

um paradoxo na Idade Média, quando

as vias de comunicação eram péssimas,

mas se viajava muito. Havia

uma fúria ambulatória inexplicável.

Encontram-se estrangeiros, por

exemplo lombardos, pela Europa inteira.

Qualquer feudo em que se vá

há um, dois, cinco lombardos. Eram

homens que ficavam vagueando, uns

vagos. Qual a posição deles no feudo?

A de súditos estrangeiros dentro

do país. Eles têm o direito de morar

lá, mas são obrigados a obedecer enquanto

estiverem ali. Entram e saem

quando querem.

Sobre as três categorias de súditos

o senhor feudal tem o direito genericamente

chamado de justiça, administração

e polícia. Ele faz muito

poucas leis. Cada um vive segundo

o Direito natural e a lei natural, e

o costume regula tudo entre eles. O

senhor feudal mantém a justiça nesses

lugares, precisamente como o rei

no reino.

Polícia. Quando alguém viola um

mandamento da Lei de Deus, um

Amos Cassioli (CC3.0)

Batalha de Legnano - Palazzo Pitti, Florença, Itália

14


costume, o senhor feudal

manda prender, colocar

na cadeia ou aplicar

as punições de estilo,

aliás muito pitorescas,

porque em geral afetam

a dignidade: pelourinhos,

ovos podres, vaias

do povo, cabeça de porco

colocada em cima da

cabeça, etc. Crimes contra

a honra são punidos

com penas infamantes.

O senhor feudal,

além disso, tem a administração,

e para tanto

ele de fato dá ordens.

Essas ordens podem ser

chamadas leis? É preciso

distinguir: nos feudos

pequenos isto nem é

escrito. Vai de viva voz:

“Chegou o dia de reparar

os muros do castelo.

Venham cá!” Nos feudos

grandes já toma o

caráter de ordens gerais,

que podem ser chamadas

leis. E recebe o aspecto

de leis estaduais

no âmbito de uma federação.

Serviço militar

Por fim, há também a questão do

serviço militar. O costume estabelecia

o serviço militar para o nobre, o

plebeu e havia também a mobilização

geral. O nobre era obrigado ao

serviço militar, em três modalidades.

A cavalgata era a primeira delas.

Quando se tratava de fazer uma

excursão em terras de um nobre vizinho,

o senhor feudal chamava seus

nobres e dizia: “Vamos fazer uma cavalgata

em tal lugar.” Depois, havia

uma campanha em grande estilo, na

qual se demorava bastante tempo,

invadindo um outro lugar. E a terceira

modalidade era a guarda. Em

tempo de paz, os senhores vassalos

nobres deviam guarnecer o castelo

Dr. Plinio com traje de professor universitário,

no início da década de 1940

Arquivo Revista

do senhor principal, para auxiliar na

defesa normal contra qualquer surpresa.

Ao lado disso havia o serviço militar

plebeu, que era subsidiário. Só

se pedia quando os nobres não eram

suficientes para garantir a integridade

do feudo, e assim mesmo era muito

limitado.

O plebeu só ia batalhar em determinados

dias do ano, e apenas tinha

obrigação de chegar até certa distância.

Fora desse limite, ele deixava

cair as armas e voltava. Era também

estritamente contratual esse

serviço. Em alguns feudos os senhores

feudais chegaram a fazer contratos

com camponeses ricos, bem nutridos,

com linho e ouro em suas casas,

os quais afirmavam:

“Nós pagamos ao senhor

feudal tanto por

ano e ele contrata tropas

mercenárias para

vir batalhar; nenhum de

nós combate.” O senhor

achava mais interessante

contratar bandidos

nas montanhas da Suíça,

que vinham cheios de

fome para lutar, do que

alistar burgueses pacifistas

para o combate.

Assim, todo mundo

se entendia bem e praticamente,

por uma quantia

de dinheiro, o serviço

militar plebeu ficava

abolido. Depois havia a

mobilização geral quando

o apuro era muito

grande e não tinha caráter

feudal.

Quando o rei ou o senhor

feudal precisava de

reforços diante de uma

invasão maciça ou algo

semelhante, ele decretava

que todo mundo devia

vir com as armas que

pudessem. Então se formavam

aqueles grandes

exércitos onde, na falta de outras armas,

alguns iam combater com utensílios

de cozinha. Quando chegava o

momento da grande interpenetração

das tropas, panela contra panela valia,

como valia espada contra espada.

Era o único vestígio da velha mobilização

romana, aliás de direito natural.


v

(Extraído de conferência de 1954)

1) Ver Revista Dr. Plinio n. 270, p. 9-15.

2) Do francês: Antigo Regime. Sistema

social e político em vigor na França

entre os séculos XVI e XVIII.

15


Dona Lucilia

Divagando e refletindo

Impressionantemente lógica e previdente, mas sem aquela forma de

raciocínio hirto, Da. Lucilia possuía também um espírito propenso

à divagação, passeando por temas muito altos. Ela refletia muito

sobre a vida em função de Deus, dos desígnios da Providência.

Arquivo Revista

Se me pedissem para definir

o espírito da Igreja do Coração

de Jesus, tão do agrado de

Dona Lucilia, eu não saberia exprimir

em palavras.

Passear do espírito por

temas muito altos

Aquela inegável seriedade do ambiente

tem um certo tempero com a

afabilidade e, coisa curiosa, um nexo

com o carinho, pelo qual convida

ao recolhimento, como quem diz:

“Preste atenção e veja quanto carinho

há em mim.”

Ora, há mil modalidades de carinho

que não convidam ao recolhimento,

porém existem outras que podem

instar a formas expansivas de alegria.

Aquela igreja é alegre? Segundo o

sentido corrente da palavra, não, mas

há uma grande alegria serena, de paz,

que toca a fina ponta da alma.

Além dessa seriedade e alegria serena,

há ali distensão, mas às torrentes.

Goethe 1 dizia que o frio do Norte

obrigava o indivíduo a prever muito

o dia de amanhã, e que nessa previsão

ele perdia algumas das horas mais

preciosas da existência, porque os melhores

momentos da vida são aqueles

em que a pessoa está despreocupada e

pode vaguear com o espírito.

Mamãe era eminentemente “vagueante”

com o espírito. Não obstante

ser ela uma senhora muito lógica e

previdente; até impressionantemente

lógica e previdente, mas de uma outra

maneira que não a do raciocínio hirto.

Se comparamos as duas fotos de

Dona Lucilia tiradas em Paris, notamos,

naquela em que ela está de pé,

como seu olhar está aplicado numa

coisa menos precisa, um pouquinho

vago. É propriamente uma divagação.

16


A divagação é o passear do espírito

por temas muito altos, um pouco

difíceis de atingir, sem muito método,

de acordo com as apetências da

alma e a atração ou a rejeição que o

assunto vai causando à medida que

é percorrido. Propriamente, a divagação

poderia ser comparada com a

movimentação das nuvens pelo céu.

Quando o pensamento caminha pelos

temas como as nuvens no firmamento

se faz uma divagação.

Portanto, o próprio do olhar de

quem está fazendo uma divagação é

não se deter fixamente em uma determinada

coisa, mas estar passeando

no indefinido.

Reflexões sobre a vida

em função dos desígnios

da Providência

Na outra foto não há nada de divagação.

É de uma pessoa que tirou suas

conclusões e está pensando num plano

para executar, com uma segurança de

quem vai passar para a ação. Por isso,

ela está com o olhar fixo num determinado

ponto, e a atitude do corpo é de

quem vai partir daí para uma resolução,

uma deliberação e uma ação. Isso

a divagação não tem, ela não parte

para uma resolução, nem mesmo para

uma conclusão definida, mas fica como

uma nuvem sujeita a que um vento

a toque e ela se espraie.

Poderíamos nos perguntar: Qual

das duas posições é a mais nobre, a

divagação ou a reflexão?

Em si, a divagação dispõe para a

reflexão. Ela voa sobre determinados

aspectos de um tema e prepara

as premissas. Depois as premissas

dão origem à conclusão. De maneira

que o modo de ser da divagação é

mais elevado e nobre do que o da reflexão

propriamente dito.

Por tudo quanto conheci de Dona

Lucilia, ela refletia muito sobre a

vida em função de Deus, dos desígnios

da Providência. Então, sucedendo

determinada coisa, estaria na natureza

dela divagar sobre esse acontecimento,

considerando seus vários

aspectos, e depois refletir e tirar as

conclusões a respeito do atuar divino

e da existência humana.

Por exemplo, a visita que ela fez com

sua mãe à Princesa Isabel, em Paris.

Mamãe contou-me essa visita com uma

porção de pormenores, porque ela possuía

um espírito muito minucioso. Porém,

os pormenores todos que ela citava

conduziam a um determinado conjunto

de reflexões. Por exemplo:

Como as condições da criatura humana

variam e como a Princesa Isabel,

de uma posição tão alta no Brasil,

acabou sendo colocada pela Revolução

republicana numa situação menos

elevada na Europa. Mas, de outro lado,

como na Europa ela recebeu uma

herança de uma parente do Conde

d’Eu e de repente ficou rica, passando

a possuir em Paris um embasamento e

uma espécie de projeção maiores do

que ela teria simplesmente enquanto

Princesa Imperial do Brasil. Portanto,

também como os altos e baixos da vida

humana são, e como Deus exige do

homem uma confiança e uma submissão

grandes a tudo quanto Ele queira.

Depois, como a Princesa estava tomando

isto. E no fim vinha uma avaliação

da Princesa enquanto pessoa e

como católica.

Aí estava estabelecida uma divagação

que chegava a algumas conclusões.

Era um processo inteiro de pensamento.

Dona Lucilia estará, com certeza,

fazendo divagações ou reflexões dessa

natureza no Céu. Porque no Paraíso

se divaga e se reflete também

em presença da perfeição infinita de

Deus, relacionando tudo com Ele.v

(Extraído de conferências de

5/4/1988 e 17/6/1992)

1) Johann Wolfgang von Goethe

(*1749 - †1832). Estadista e escritor

alemão.

Arquivo Revista

17


Gesta marial de um varão católico

A Revolução

tendenciosa se difunde

como o lodo - II

Quando ainda mocinho, Dr. Plinio tomou

conhecimento das primeiras manifestações

de “pacinismo” e nele encontrou logo o

mau odor da Revolução com sua farândola

imunda a que pretende chegar: acabar

com as nações, constituir uma só religião,

um só modo de viver, um só governo

universal. “Oh, que torpeza, que infâmia,

que maldade! Lodo, fora! Vou te expulsar

do santuário onde tu entraste!”

Flávio Lourenço

H

á quantos anos conheço

a fisionomia do “pacinismo”

1 ! Quando eu era mocinho,

tomei conhecimento de suas

primeiras manifestações, ainda muito

débeis para o mundo pouco preparado

para recebê-lo.

Meu primeiro encontro

com o “pacinismo”

Baile no Palácio - Museu Carmen Thyssen, Málaga, Espanha

A Primeira Guerra Mundial, com

seus horrores, impressionou mais o

orbe do que a Segunda, porque foi

uma surpresa para o mundo da Belle

Époque 2 , dos cafés-concertos, da

graça frívola, encantado com as fofas

delícias de um mundo belo. Quan-

18


Danilo I.

Flávio Lourenço

Algum tempo depois – eu já ingressara

no Movimento Católico –,

comecei a ler os livros antimodernisto

acabar com todas as guerras, de

modo que li aquilo desinteressado,

achando que era de um sentimentalismo

açucarado; fui pulando as páginas,

mas como uma certa curiosidade

de ver no que terminava.

Percebi qual era o sentido do romance:

todos os homens se amarem

uns aos outros. A personagem chamava

isso de cristianismo. Ora, é verdadeiro

Cristianismo quando se amam

por amor de Deus. Mas se amarem

em termos de nunca mais nenhum homem

combater outro homem... Senti

uma espécie de náusea como se me

oferecessem um doce feito de açúcar

podre, e um brado de indignação se

do estourou a Primeira Guerra de

repente, o confronto e as labaredas

conquistaram tudo, e as pessoas ficaram

horrorizadas. Terminada a guerra,

houve uma ofensiva “pacinista”.

Lembro-me de um romance que

li, chamado “Guerra à guerra”. Era

um romancinho, uma bobagem, o

qual narrava o caso de uma senhora

que perdera o marido e filhos na

guerra e resolveu, por causa do infortúnio

da solidão na qual ficou, declarar

guerra a todas as guerras. Então,

ela teria inaugurado um movimento

internacional contra a guerra.

Eu não tinha ainda as ideias formadas,

nunca me passara pela cabeça

um disparate tão grande quanformou

na minha alma. Joguei de lado

o livro e pensei: “E os cruzados? E

Carlos Magno, o incomparável? Num

mundo onde não haja mais elmos,

nem lanças, nem cavalaria, nem coisas

épicas, nem heróis, esse mundo é pior

do que a guerra. Acabe com ele.”

Tanto quanto me lembre, foi o

meu primeiro encontro com o “pacinismo”.

Eu cheirei logo nele o mau

odor da Revolução.

O lodo não argumenta,

mas insinua, amolece,

deteriora, apodrece

Danilo I.

Sagrado Coração Rei - Igreja

de São Carlos Borromeu,

Amberes, Bélgica

Esquadrão de execução da Primeira Guerra Mundial

UNDERWOOD & UNDERWOOD (CC3.0)

19


Gesta marial de um varão católico

Arquivo Revista

preendi: “O lodo está voltando.” E um

suspiro brotou do fundo de minha alma:

“Cavaleiros, onde estais?”

Em 1945, quando essas coisas se deram,

eu já era um homem feito. Lembro-me

de que o lodo me meteu medo,

porque pensei o seguinte: “Eu sou

todo feito para travar outro gênero de

combates, para enfrentar, de viseira erguida,

um batalhador que venha contra

mim montado no seu corcel, de lança

em riste. Mas isto?! Então, chego

praticamente ao meio de minha vida –

não sei se ela vai durar duas vezes trinta

e sete anos, mas não durará três vezes

isso –, quando eu sonhava com legiões

de cavalaria para combater, disposto

a enfrentá-las sozinho se fosse preciso,

ufano ainda quando fosse prostrado

por terra, e compreendendo e amando

o caminho que Nossa Senhora me deu

para trilhar... De repente vejo as legiões

de cavalaria se desfazerem, e é o lodo

que me cerca de todos os lados, é a confusão,

o sofisma baixo. O lodo não argumenta,

ele insinua, amolece, deteriora,

apodrece. É isso o que noto de todos

os lados. Oh, que horror!”

Mas se fosse só isso... Se eu

pudesse recolher-me ao santuário

e rezar! Porém de dentro

do santuário – que eu concebia,

devia conceber e conti-

tas, os quais, sem dúvida, já envelheceram

porque os males que denunciavam

foram superados pela avalanche

do lodo, o qual se tornou corrente em

nossos dias. No entanto, ao ler aquelas

obras tive uma certa ideia global

da farândola imunda a que se pretende

chegar: acabar com as nações, as

peculiaridades regionais, os idiomas,

para constituir um só idioma, uma

só nação, uma só raça, uma só religião,

um só modo de viver, um só governo

universal. Essa massificação visa

transformar tudo não em um lodo

medicinal, mas venenoso, abjeto.

Li aqueles livros e pensei: “Para

o mundo de hoje isso ainda não pega.

Por enquanto esse assunto não

vai me dar trabalho, não penso mais

nessa porcaria.”

Mais tarde, quando cessou a Segunda

Guerra Mundial e estabeleceu-

-se o que se chamou de paz – essa caricatura

que foi tudo menos paz, porque

se há algo que o lodo não nos deu

foi a paz –, e vi os sorrisos cúmplices

e otimistas dos chefes de Estado, comnuo

a conceber como sendo uma fortaleza

– eu via que o lodo começava

a escorrer entre as pedras, penetrava

pelos vitrais quebrados, entrava pela

soleira das portas, pelos buracos das

fechaduras, penetrava até no coração

dos sacerdotes, e ei-los que começam

a abrir as portas para que entre o lodo,

e me dizem: “Tu não ficas lodo também?

Não vais te misturar ao lodo?”

Eu odiei ainda mais o lodo e refleti:

“Imaginei que o lodo surgisse de

dentro dos pântanos, mas não do interior

do santuário. Oh, que torpeza,

que infâmia, que maldade! Lodo, fora!

Vou de te expulsar do santuário

onde tu entraste!”

Dois livros escritos para

denunciar e combater o lodo

Escrevi Em Defesa da Ação Católica.

Por que eu faço a relação entre esse

livro e o lodo? Porque a tática dos

que se infiltraram na Ação Católica

era a do lodo, ou seja, não combater

o adversário, nunca lutar contra ninguém;

aqueles que nos combatem só o

fazem por equívoco, se tivermos o cuidado

de agradá-los e nos deixarmos

agradar por eles, descobriremos de repente

que há um engano entre nós, e

que eles têm uma parte da razão, nós

Moterocolombia (CC3.0)

Dr. Plinio em 1973

20


Rodrigo C. B.

Jorge Castriota Skanderbeg

Praça Albânia, Roma, Itália

temos outra. Lodo é água misturada

com terra, mescla que avilta tanto a

água quanto a terra; assim também a

mistura que avilta até a própria heresia

quando se mescla com a verdadeira

Igreja, é esta a mistura que o lodo representa,

diante da qual todas as heresias

passam a ser arcaicas porque algo

pior aparece: é a síntese podre de todas

as religiões, mais nojenta do que a

própria irreligião.

Mas é evidente que quanto mais o

lodo me cercava de todos os lados e

eu sentia a ação dele, eu começava a

reunir os primeiros cavaleiros e lhes

perguntava:

— Trazeis “espadas”? – sempre

no sentido figurado da palavra.

— Sim – respondiam eles.

— Mostrai-as.

Mas eu via que esses “gládios” estavam

sujos de lodo e era preciso limpá-los.

Nessas condições, para separar os

terrenos, pondo de um lado a terra

e de outro a água – fazendo essa se-

paração o lodo acaba

–, escrevi o livro Revolução

e Contra-Revolução.

Quem examine

essa obra desse ponto

de vista a interpreta

pelo seu aspecto profundo:

guerra ao lodo.

Descrição de um

varão-gládio

De duas coisas eu

me dei conta pela minha

experiência: o lodo

tem as macias e imundas

delícias de ser lodo,

mas há uma linda e forte

delícia de ser gládio,

uma vigorosa e rija alegria

em tender para cima

com a sua ponta e

cortar os ares com o seu

gume, em erguer-se como

um jato de metal a

que nada resiste e que,

voltado para qualquer lado, resolve as

situações. Há uma satisfação da alma

nisso parecida com a da saúde do corpo.

O homem saudável confere em si

que tudo está funcionando bem, e percebe

que seu organismo se encontra

em ordem. O homem que se dá à combatividade

sente-se coerente, seguro e

forte, sente-se ele mesmo e diz: “Assim

Deus me queria. Louvada seja minha

Mãe, Maria Santíssima, cujo Coração

é comparado a um exército em ordem

de batalha, e cujos pés esmagam para

todo o sempre a serpente infernal!”

Como seria belo compor uma Ladainha

da combatividade de Nossa Senhora!

No ofício de Maria Santíssima

se reza: “Vós sois a Virgem florida, o

velo de Gedeão, divino portal fechado,

o favo do forte Sansão.” Como eu

amo isso! Mas como seria belo dizer:

“Vós já éreis prefigurada no irredutível

ódio de Judite quando ela cortou

a cabeça de Holofernes.” E tomando

todas as prefiguras de Nossa Senhora,

enquanto um exército em ordem de

batalha, compor uma ladainha e um

cântico para um desfile, que poderia

se chamar “o desfile dos gládios e das

alabardas mariais”. Que maravilha!

Sente-se que o gládio cresce na própria

medida em que a fumarada do lodo

se levanta, e há momentos em que

ele se espanta com sua própria estatura

e percebe que virou lança.

Essa é a descrição de um varão-

-gládio, que se julga com isso no direito

de representar, como todos os

varões nas mesmas condições, a verdadeira

civilização do amor. Porque

o autêntico católico nega o nome de

amor cristão àquilo que ama promiscuamente

a verdade e o erro, o bem e

o mal, o belo e o horrendo. Isso não

é amor, mas ambiguidade e prostituição.

O verdadeiro católico ama a verdade,

o bem e o belo, e por isso não

Judite - Basílica de São

Carlos, Roma, Itália

Gabriel K.

21


Gesta marial de um varão católico

Flávio Lourenço

Cristo do Apocalipse - Catedral de Bourges, França

pode deixar de ser um gládio vivo

contra o erro, o mal e o hediondo.

Costuma-se dizer: “Detesta o erro e

ama quem erra!” Como isto é verdade,

mas pode ser mal entendido... O que é

amar? É querer não golpear alguém?

Se amar é desejar não golpear alguém,

nem moral nem fisicamente, então se

deve entender que essa frase induz em

erro. Sabemos que um dos melhores símiles

do amor de Deus é o amor dos

pais para com seus filhos. E isto vai tão

longe que Nosso Senhor Jesus Cristo –

num desses auges de ternura dos quais

só seu Coração Divino era capaz –, antes

de ser abandonado pelos Apóstolos,

numa agonia insondável que iniciaria a

sua Paixão e depois a sua morte terrivelmente

triste, disse: “Jerusalém, Jerusalém,

que matas os profetas e apedrejas

os que te são enviados, quantas vezes

Eu quis reunir os teus filhos como a galinha

recolhe os seus pintinhos debaixo

das asas, o não o quisestes!” (Mt 23, 37).

Um homem comparar-se a uma

mãe e, mais ainda, a uma galinha para

mostrar a forma de sua ternura!

Não se pode levar mais longe a misericórdia

miúda, capaz de agradar,

gentil, afável, inebriante. Mas Nosso

Senhor também disse que o castigo

estava preparado para Jerusalém.

Catedral em louvor

de Cristo gladífero

Lembrado assim o esplendor do

amor paterno, eu me recordo da Escritura:

“O pai que poupa a vara ao

seu filho, odeia seu filho” (Pr 13, 24).

Alguém dirá:

Dr. Plinio, uma coisa é a vara

do pai, o qual, ao mesmo tempo

em que vergasta, sabe que não produz

ferimento profundo; outra coisa

é este gládio de que o senhor fala,

no qual há saudades das Cruzadas

e de todas as formas de resistência

animada pelo espírito religioso. Digamos

numa palavra, há fanatismo.

E eu afirmo:

— Lodo, embora! Porque há uma

frase da Escritura, a qual é o código

do amor, que diz: “Maldito seja o

homem que poupa a sua espada de

derramar o sangue” (Jr 48, 10).

Quer dizer, bem-aventurado o homem

que não usa a sua espada para

fins injustos, sabe contemporizar

e perdoar quando é o caso; maldito

o homem que não a utiliza quando

é necessário. São palavras do Divino

Espírito Santo.

Algum partidário do lodo objetará:

— É verdade, Dr. Plinio – o lodo

tem essas entoações de voz, meio

sentidas e roncando ameaças –, mas

o senhor não toma em consideração

que este é o Antigo Testamento

e nós estamos no Novo Testamento.

Respondo:

— Tu, lodo, mentes a ti próprio,

não és senão mentira, eu te conheço.

Entre o Antigo e o Novo Testamento

não pode haver colisão, porque

Deus não mente a Si mesmo.

Não adianta dizer isso para o lodo;

ele olha com uma cara quieta, como

quem diz: “Veja como eu sou doce!”

E com isso procura fomentar a indignação

de todos contra nós, ele que é a

paz, a paz de mentira.

Não posso deixar de mencionar

o trecho do Apocalipse que alude a

Nosso Senhor vindo num magnífico

corcel branco, no fim dos tempos, com

um gládio na boca para punir o mundo:

Cristo gladífero (cf. Ap 19, 11.15).

Oh! No Reino de Maria nós teremos

uma catedral a Cristo gladífero.v

(Extraído de conferência de

17/7/1982)

1) Neologismo criado por Dr. Plinio para

ressaltar a falácia do “pacifismo”,

indicando que a imposição de uma

falsa paz visa ocultar cinicamente

seus reais objetivos revolucionários.

Palavra que agrega “paci” a “cinismo”:

“pacinismo”.

2) Do francês: Bela Época. Período entre

1871 e 1914, durante o qual a Europa

experimentou profundas transformações

culturais, dentro de um clima

de alegria e brilho social.

22


Eco fidelíssimo da Igreja

Perfeições que

nascem da dor

J.P. Castro

Partindo da análise da tourada, Dr. Plinio

tece comentários sobre a virtude da audácia,

cujo reluzir contínuo só é possível quando

o homem vive à sombra do sacrifício, pois a

partir do momento em que o Homem-Deus

entregou seu espírito no alto do Calvário,

um aroma sacrifical embalsamou todo o

universo. Da Cruz nasceu tudo quanto houve

de sublime e belo na humanidade, e dela

surgirão os esplendores do Reino de Maria.

Ao pensarmos no Reino de

Maria, nós devemos imaginar

as almas sob o constante

influxo do Espírito Santo – do Qual

Nossa Senhora é Esposa – e, portanto,

continuamente à procura do ápice

de todas as coisas, mesmo das mais

modestas. Dessa impostação resultará

um acúmulo de perfeições insondável,

porque qualquer pequeno ato da vida

humana pode comportar um grau de

perfeição do qual não se tem ideia.

Um exemplo que me ocorre a esmo

é a tourada, que acaba sendo uma

obra-prima do espírito espanhol.

Na tourada, a

alegria do risco

Quando consideramos o toureiro

espanhol, notamos o seguinte estado

de espírito: ao fazer a tourada, ele deve

ser imaginado alegre e correndo o

risco com uma certa euforia. Se não

houver euforia no enfrentar o risco,

não é um verdadeiro toureiro. Não

tem nada da alegria hollywoodiana,

nem de algo que se lhe pareça. Basta

dizer que é a alegria do risco, enquanto

a hollywoodiana é securitária.

Trata-se de um júbilo autêntico,

que resulta desta circunstância: o toureiro

espera o touro que avança contra

ele, naquele passe – para mim é o mais

bonito de todos – em que está com a

espada no alto, pronto para cravá-la

no ponto acertado do animal.

O bom toureiro aguarda o touro na

posse tranquila de suas faculdades, percebendo

em si toda a possibilidade de

matá-lo, dependendo de uma agilidade

e de uma destreza que sabe possuir. Ele

está cônscio de que para fazer isso precisa

ter um ato de vontade firme e certa

ascese, de maneira a não perder a cabeça

e dar o golpe como deve. Mas o toureiro

se sente dono dessa ascese e dessa

força de vontade. Por esse motivo, compreende

o risco e tem a euforia da sua

própria posição. É uma alegria sui generis

que o risco dá, o gáudio do heroísmo

de quem sabe que vai vencer. O touro

cai, o toureiro tira o barrete e cumprimenta

o auditório que o aplaude de pé.

O resto é triunfo, porém já não é

a hora H, na qual o touro avançou

em cima dele e ele conservou inteiro

domínio de si, hauriu o néctar da

sua própria perfeição e venceu. O

aplauso popular, ao contrário do que

se pensa, não constitui o néctar, mas

o seu complemento. O auge é o momento

em que, na presença de Deus,

o toureiro teve aquela performance.

Para o espírito hollywoodiano o

auge é a hora em que ele está sendo

ovacionado. De maneira que, se ele

conseguisse os aplausos por meio de

uma fraude, seria o mesmo do que

conquistá-los por meio da posse autêntica

de qualidades. Ora, isso não

é assim! A fraude nunca dá à pessoa

uma verdadeira alegria.

Poder-se-ia objetar: “Não, o que

ele visou foi o aplauso.”

23


Eco fidelíssimo da Igreja

Samuel Holanda

Ele não visou o aplauso, e sim a hora

em que, no perigo supremo e desprovido

de qualquer outro recurso a não ser

a espada e o braço, ele soube reconhecer

que era capaz daquilo e fez.

Audácia: o pulchrum

do espírito espanhol

Entram nisso fatores psicológicos

diversos. O toureiro aplica nessa hora

muita força, mas feita de flexibilidade

e resultante de uma musculatura muito

elástica. Entra também a calma diante

do perigo da morte, que lhe faz dizer:

“Se eu morrer, morrerei realizando-me

e a minha vida terá sentido.”

Há uma ideia de que o toureiro

imerge numa espécie de estética da

morte, e a terá belíssima, o que absolutamente

não é a morte na UTI,

não tem nada de comum com isso.

Ele morrerá nesse gáudio, a bem

dizer, realizando-se. E, mais ainda,

achando que sua realização está

em estender para Deus um braço

por cima da morte, dizendo: “Senhor,

tomai-me, porque minha hora

chegou.” O que talvez o toureiro

não faça explicitamente, por falta de

formação religiosa, mas constitui o

pressuposto racional do ato dele.

Vemos, então, um elevado senso religioso

que passa por cima do instinto

de conservação, aliado a uma junção

de qualidades opostas – embora não

contraditórias – das quais o toureiro

tira uma linda síntese: ele se apresenta

duro como o aço, mas flexível como

um elástico. Em consequência, na

hora de o touro chegar, sem o mínimo

medo ele sorve o perigo e diz: “Perigo,

como tu és belo! Como és delicioso!”

Aparece aqui um aspecto para

o qual eu quero chamar a atenção,

pois constitui o ponto-chave da

mentalidade espanhola. Quer quando

o espanhol é muito diplomata

e dá jeitos e volteretas para conseguir

um determinado objetivo; quer

quando ele é muito arguto em matéria

de doutrina e lança com segurança

uma tese difícil de justificar e

que ninguém imaginava, semelhante

a um salto certeiro sobre o abismo

ou a um voo audacioso no céu da ortodoxia;

quer quando ele é orador e

se expõe a lances oratórios arrojadíssimos;

em tudo, o risco é o ambiente

dele e a elegância no risco, nascida

da contradição aparente entre elasticidade

e força, o exprime por inteiro.

O reluzir contínuo da audácia

equilibrada, da audácia de aço e de

elástico, da audácia que sabe ter ousadias

proporcionadas com o perigo,

porque tem consciência de possuir

recursos proporcionados com ele, da

audácia quase imprudente, cuja sublimidade

consiste em, sem jamais

ser imprudente, vertiginosamente

parecer-se com a imprudência, esse

é o pulchrum do espírito espanhol.

Como imaginar o pulchrum

do Reino de Maria?

Ora, de modo análogo há um certo

pulchrum que marcará o Reino de

Maria. Trata-se de uma virtude magnífica,

diametralmente contrária à

“heresia branca” 1 e que, vista pelo

prisma religioso, poderia chegar a extremos

de perfeição ainda ignorados.

Sendo uma virtude, essa forma

de pulchrum tem de existir em Nossa

Senhora de um modo inimaginável.

A Santíssima Virgem deve possuir,

no meio do firmamento de suas

virtudes, uma nota dominante que

está para as demais excelências d’Ela

como a audácia está para a Espanha.

O Reino de Maria se caracterizará

por essa nota altíssima, fabulosíssima

de Nossa Senhora. Trata-se, portanto,

de conhecer tal virtude n’Ela, para saber

como será o Reino de Maria.

Para chegar a esse ponto, um recurso

interessante

é lembrarmos que a

Revolução, com todos

os seus horrores,

tem algo disso:

há um certo horror

que excede em

baixeza os demais e

constitui o aspecto

pelo qual ela mais

atrai, o “visgo” dela

mais se exerce. E aí

se encontra a causa

da vitória dela. Se

nós compreendermos

esse aspecto

na Revolução, teremos

dado um passo

24


importante para saber, por antítese,

dizer como isso se verifica em Nossa

Senhora, porque a Revolução é o

contrário d’Ela.

Eu imagino o revolucionário perfeito

mais facilmente realizado – trata-se

de uma facilidade de imaginação,

não quer dizer que tenha sido

historicamente assim – por um arquétipo

da Revolução Francesa. Eu

o concebo como um indivíduo exuberante

de vitalidade e sensual, mas

no qual o pecado de espírito transbordou

o pecado da carne. O que ele

mais odeia não é o rei ou o nobre, e

sim uma certa visualização do nobre

enquanto transcendente, puro, piedoso,

combativo, limpo, ornado, digno

em todas as suas maneiras, agilíssimo

em seu espírito e como que vivendo

num mundo empíreo, que seria o

mundo atual, porém visto através de

um vidro de cor especial chamado

nobreza, que eleva e repõe o homem

numa atmosfera paradisíaca, na qual

ele está pronto a qualquer momento

para saltar o abismo do risco.

O revolucionário odeia essa manifestação

e esse modo de ser ao último

ponto. E, ao ver que isso é assim,

tem vontade de escarnecer, não com

desaforo leve, mas com injúria grossa,

que desfigura, joga ao chão, suja,

ultraja e depois liquida.

Agora, imaginem o contrário disso,

refulgindo na alma mais eleita

que houve entre as meras criaturas,

que foi Nossa Senhora, e expresso de

um modo inimaginável. Então podemos

compreender o que será a felicidade

do Reino de Maria, e também

a felicidade do Céu.

Há aí uma intensidade do ser que

nos deixa meio pasmos. No fundo,

a nossa felicidade consiste em procurar

as coisas que têm essa intensidade,

e não o prazerzinho, a “brincadeirota”,

o repouso numa cadeira

espreguiçadeira à beira-mar. Em

última análise, é algo que lembra a

Deus, o ser Absoluto, a Quem nós

procuramos miseravelmente extraviados

e aflitos quando não sabemos

o que buscamos. E o Reino de Maria

terá isso por inteiro.

A beleza suprema tem

origem na Cruz

Vamos chegar de uma vez ao fundo

da questão. Posto que Nosso Senhor

Jesus Cristo Se imolou por nós

e morreu na Cruz, uma nota sacrifical

predomina na atual vida, conferindo

maior nobreza até ao sorriso. Esse

aroma sacrifical que embalsamou

todo o Universo a partir do momento

em que o Redentor disse “Consummatum

est” e entregou seu espírito,

marca inclusive a Ele. Mesmo

nos quadros e esculturas em que Nosso

Senhor é representado triunfante,

Ele aparece com os estigmas e o flanco

aberto; correu o Sangue, houve a

tragédia. E o esplendor da glória só

se explica em função da tragédia.

Portanto, no centro de tudo está

presente uma nota sacrifical, superior

a todos os horrores da Revolução.

E aqui vemos a beleza de tudo

quanto eu disse. Essa beleza é um

mistério, no qual há uma seriedade,

uma gravidade e uma participação

em Deus inigualáveis. Minhas palavras

são incompreensíveis sem esse

amor à Cruz e esse perfume de sacrifício.

A vida de cada um de nós é

um holocausto, do qual temos de ser

vítimas. Para haver tudo quanto comentei,

faz-se necessário aceitar esse

holocausto, não tem remédio.

Entretanto, o homem foge dessa

nota de sacrifício o quanto pode, por

não querer viver à sombra dela. Ora,

pensemos um pouco no papel que a

Cruz tem na espiritualidade de São

Luís Maria Grignion de Montfort, a

ponto de ele escrever a Carta Circular

aos amigos da Cruz, e compreenderemos

como devemos ser.

Quer dizer, o sofrimento não desfigura,

não enfeia, não atrasa; pelo

contrário, dele vem tudo quanto há

de verdadeiramente belo e ordenado

na humanidade. E procurar ver essas

gotas do Sangue de Cristo faz parte

da piedade católica mais genuína.

A jaculatória “Sanguis Christi, inebria

me” exprime exatamente isso. A

ebriedade do Sangue de Cristo faz

contemplar a beleza da dor presente

em todas as coisas.

v

(Extraído de conferências de 14 e

19/2/1986)

1) Expressão metafórica criada por Dr.

Plinio para designar a mentalidade

sentimental que se manifesta na piedade,

na cultura, na arte, etc. As pessoas

por ela afetadas tornam-se moles,

medíocres e pouco propensas à fortaleza,

assim como a tudo quanto signifique

esplendor.

J. P. Braido

25


Gabriel K.

C

alendário

1. Santa Teresinha do Menino Jesus,

virgem e Doutora da Igreja

(†1897). Ver página 28.

2. Santos Anjos da Guarda.

São Beregiso, abade (†d. 725).

Fundou em Andage, atual Bélgica,

um mosteiro de cônegos regulares,

do qual foi abade.

dos Santos – ––––––

Samuel Holanda

3. Bem-aventurados André

de Soveral, Ambrósio Francisco

Ferro, presbíteros, e companheiros,

mártires (†1645).

São Maximiano, bispo (†c. 410).

Bispo de Bagai, atual Argélia. Foi repetidamente

torturado por hereges,

lançado do alto de uma torre e dado

por morto, mas recuperou-se e continuou

lutando pela Fé Católica.

4. XXVII Domingo do Tempo Comum.

São Francisco de Assis, religioso

(†1226).

São Petrônio, bispo (†c. 450). Renunciando

às honras que possuía no

Império Romano, fez-se sacerdote e

foi eleito Bispo de Bolonha, Itália.

5. São Benedito, o Negro, religioso

(†1589).

Santos João de Brébeuf, Isaac

Jogues e companheiros

Santo Evaristo

Santa Maria Faustina Kowalska,

virgem (†1938). Religiosa das Irmãs

da Bem-Aventurada Virgem Maria da

Misericórdia, em Cracóvia, Polônia,

trabalhou para anunciar o mistério da

divina misericórdia.

6. São Bruno, presbítero e eremita

(†1101).

Santa Maria Francisca das Cinco

Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo,

virgem (†1791). Terciária franciscana,

destacou-se por sua paciência nas

tribulações e adversidades, bem como

pelas penitências e pelo amor de Deus

e das almas, em Nápoles, Itália.

7. Nossa Senhora do Rosário.

São Marcos, Papa (†336). Instituiu

o pálio em seu curto pontificado, fez

o primeiro calendário das festas religiosas

e mandou construir as basílicas

de São Marcos e Santa Balbina.

8. São Félix, bispo (†s. IV). Ordenado

por Santo Ambrósio de Milão,

foi o primeiro Bispo de Como, Itália.

9. São Dionísio, bispo, e companheiros,

mártires (†s. III).

São João Leonardi, presbítero

(†1609).

Santa Públia, viúva (†c. séc. IV).

Foi esbofeteada por ordem do impe-

rador Juliano, por cantar salmos que

condenam a idolatria. Ingressou num

mosteiro após a morte do marido.

10. São Daniel Comboni, bispo

(†1881). Primeiro Bispo católico

da África Central, fundou o Instituto

dos Missionários Combonianos

do Coração de Jesus. Morreu

em Cartum, Sudão.

11. XXVIII Domingo do Tempo

Comum.

São Pedro Lê Tuy, presbítero e

mártir (†1833). Decapitado no tempo

do imperador Minh Mang, em Hanoi,

Vietnã.

12. Solenidade de Nossa Senhora

da Conceição Aparecida.

Beato Romão Sitko, presbítero e

mártir (†1942). Reitor do seminário

de Tarnów, Polônia, foi preso e torturado

no campo de concentração de

Auschwitz.

13. Beata Alexandrina Maria da

Costa (†1955). Por defender sua castidade,

ficou paraplégica aos 14 anos,

em Balasar, Portugal. Viveu confinada

no leito o resto da vida, oferecendo-se

como vítima pela conversão dos

pecadores.

14. São Calisto I, Papa e mártir

(†c. 222).

São Domingos Loricato, presbítero

(†1060). Religioso da Ordem dos Camaldulenses

que, após ter sido sacerdote

simoniacamente, fez-se eremita e

discípulo de São Pedro Damião, levando

uma vida de austeridade e rigorosa

observância em San Severino, Itália.

15. Santa Teresa de Jesus, virgem e

Doutora da Igreja (†1582).

Santa Tecla, abadessa (†c. 790).

Enviada da Inglaterra à Alemanha

para auxiliar São Bonifácio, dirigiu o

mosteiro de Ochsenfurt e depois o de

Kitzingen.

26


––––––––––––––– * Outubro * ––––

Flávio Lourenço

16. Santa Edwiges, religiosa (†1243).

Santa Margarida Maria Alacoque,

virgem (†1690).

São Galo, presbítero e monge

(†645). Educado por São Columbano

no mosteiro de Bangor, Irlanda, propagou

o Evangelho nesta região.

17. Santo Inácio de Antioquia, bispo

e mártir (†107).

Santo Oseias, Profeta. Com suas

palavras e exemplo de vida, anunciou

ao infiel povo de Israel o Senhor

como Esposo sempre fiel e de infinita

misericórdia.

Beato Tomás Hélye, presbítero

(†1595). Exercia seu ministério durante

o dia e dedicava à oração e à penitência

à noite, na Diocese de Coutances,

na Normandia, França.

20. Beato Tiago Strepa, bispo

(†1409). Prior do convento franciscano

de Lviv, Ucrânia, nomeado Bispo

de Halicz, estimulou a vida religiosa,

a devoção a Jesus Eucarístico e a Nossa

Senhora.

21. Santa Laura de Santa Catarina

de Sena Montoya e Upeguí, virgem

(†1949). Fundadora da Congregação

das Irmãs Missionárias de Maria Imaculada

e Santa Catarina de Sena, em

Dabeida, Colômbia.

22. São Marcos, bispo (†s. II). Primeiro

Bispo procedente dos gentios a

ocupar a Sé de Jerusalém.

23. São João de Capistrano, presbítero

(†1456).

Beato Arnaldo, religioso (†1890).

Religioso da Congregação dos Irmãos

das Escolas Cristãs falecido em Reims,

França.

Ressurreição de Nosso Senhor Jesus

Cristo.

27. Santo Evaristo, Papa (†108).

Dirigiu a Igreja Romana, como quarto

sucessor de São Pedro, no tempo

do imperador Trajano.

28. São Simão e São Judas Tadeu,

Apóstolos.

São Germano, abade (†s. XI). Insigne

pelo seu amor à solidão, fundou

e dirigiu o priorato de Talloires, França.

29. São Narciso, bispo (†c. 222).

Eleito Bispo de Jerusalém quando tinha

quase 100 anos de idade, foi modelo

de paciência e fé. Faleceu aos

116 anos.

30. Beato Aleixo Zaryckyj, presbítero

e mártir (†1963). Sob um regime

hostil a Deus, foi deportado para um

campo de concentração em Dolinka,

Cazaquistão, onde encontrou a vida

eterna.

31. Santo Afonso Rodríguez, religioso

(†1617).

São Petrônio

18. XXIX Domingo do Tempo Comum.

São Lucas, Evangelista.

Santo Amável, presbítero (†s. V).

Pároco de Riom, França, conhecido

como “varão de admirável santidade”,

por suas virtudes e dons de milagres.

19. Santos João de Brébeuf, Isaac

Jogues, presbíteros, e companheiros,

mártires (†1642-1649).

São Paulo da Cruz, presbítero

(†1775).

24. Santo Antônio Maria Claret,

bispo (†1870).

São Fromundo, bispo (†s. VII).

Fundou o mosteiro de monjas de

Ham e exerceu o ministério pastoral

em Coutances, atual França.

25. XXX Domingo do Tempo Comum.

Santo Antônio de Sant’Ana Galvão,

presbítero (†1822).

Beato Tadeu Machar, bispo

(†1492). Nobre irlandês, eleito Bispo

de Cork e Cloyne, teve que sair de sua

pátria pela hostilidade dos poderosos.

Faleceu em Borgo Sant’Antonio, Itália,

durante a viagem para Roma.

26. Beata Celina Chludzinska Borzecka,

religiosa (†1913). Fundou em

Roma a Congregação das Irmãs da

São Daniel Comboni

Pessani - Gallieni (CC3.0)

27


Hagiografia

Vítima

expiatória

Office de Lisieux (CC3.0)

Santa Teresinha era singularmente bela,

de traços regulares, olhar luminoso e

vasto, porte firme e semblante resoluto;

sua fisionomia deixa transparecer

qualidades que parecem opostas –

ao menos segundo a mentalidade

revolucionária –, como a bondade e a

firmeza, a distinção e a simplicidade,

o perfeito e absoluto domínio de si

e a mais atraente naturalidade.

Santa Teresinha do Menino Jesus

é, a bem dizer, uma Santa

de nossos dias. Celebraremos

daqui a pouco o cinquentenário de

sua morte, e muitas das pessoas que

ainda temos a ventura de possuir entre

nós são absolutamente contemporâneas

da jovem carmelita que expirou

aos vinte e quatro anos.

Procuraram ocultar o

sentido profundo, admirável,

heroico de sua existência

Felizmente, a fotografia já estava

inventada em dias dela, pelo que

conservamos o retrato autêntico da

grande Santinha: singularmente bela,

de traços regulares, olhar luminoso e

vasto, porte firme e semblante resoluto,

sua fisionomia deixa transparecer

qualidades que parecem opostas entre

si – ao menos segundo a mentalidade

liberal –, como a bondade e a

firmeza, a distinção e a simplicidade,

o perfeito e absoluto domínio de si e

a mais atraente naturalidade.

Se não possuíssemos fotografias

da “Santa rosa do Carmelo”, que

ideia teríamos dela? A que nos apresentam

muitas de suas imagens: doce,

de uma doçura sentimental e

quase romântica; boa, de uma bondade

puramente humana e sem o

menor sopro de sobrenatural; enfim,

uma jovem de boas inclinações, em-

bora exageradamente sensível, nunca

uma autêntica e genuína Santa,

um luzeiro cintilante no firmamento

espiritual da Igreja do Deus Verdadeiro.

Certa iconografia, sem alterar

os traços da Santa, alterou, contudo,

sua fisionomia.

O mesmo se dá com sua biografia.

Certa literatura sentimental-religiosa,

sem adulterar propriamente

os dados biográficos de Santa Teresinha,

encontrou meios de interpretar

tão unilateral e superficialmente

determinados episódios de sua vida,

que chegou a desfigurar de algum

modo seu significado. As deformações

iconográficas e biográficas

se fizeram todas em uma mesma

28


Office de Lisieux (CC3.0)

Santa Teresinha,

em 1876, aos 3 anos

direção: ocultar o sentido profundo,

admirável, heroico da existência da

imortal Santinha.

No cinquentenário de sua morte

alguém que muito e muito lhe deve

procurará saldar com respeitoso

amor parte desta dívida, fazendo um

comentário doutrinário à sua vida.

O tesouro da Igreja

O pecado original cometido por

Adão e os pecados posteriormente

praticados pela humanidade constituem

ofensas a Deus. Para resgatar

essas ofensas e aplacar a ira divina

era preciso que a humanidade

expiasse. Esta expiação era como

que o pagamento de um preço que

compensasse a falta cometida. Há

nisto, de certo modo, uma restituição.

Pelo pecado, o homem como

que se apropriou indebitamente de

prazeres, vantagens, deleites a que

não tinha direito. Para reparar a

justiça, era preciso que ele abandonasse,

imolasse, sacrificasse tudo isto.

O sacrifício reparador toma, assim,

o aspecto de um preço de resgate

pelo qual se repara a falta cometida.

Para resgatar esses pecados,

a Santa Igreja dispõe de um tesouro.

Vejamos de que natureza ele é.

Office de Lisieux (CC3.0)

...em 1881, aos 8 anos

Evidentemente, não se trata de

um tesouro de riquezas materiais. É

moral e espiritual, como exige a natureza

moral das faltas que se trata

de resgatar. Ele se compõe, antes

de tudo e essencialmente, dos méritos

infinitamente preciosos de Nosso

Senhor Jesus Cristo, que no momento

da Santa Morte do Salvador

foram aceitos por Deus e produziram

a Redenção da humanidade. Os

...em 1886, aos 13 anos

Office de Lisieux (CC3.0)

sofrimentos, as virtudes, as expiações

dos homens pecadores seriam

totalmente incapazes de aplacar

a cólera divina. O Santo Sacrifício

do Homem-Deus bastaria plenamente

para tal. Mais ainda: uma

simples gota do precioso Sangue

bastaria para redimir a humanidade

inteira.

Contudo, por desígnios insondáveis

da Providência Divina, de fato

a Redenção não se operou no momento

em que se verteu o primeiro

Sangue do Redentor, mas só quando

ele expirou por nós na Cruz, depois

de um dilúvio de tormentos. Por

uma disposição igualmente misteriosa,

Deus não Se contenta com o sacrifício

superabundantemente suficiente

do Redentor. A humanidade

está redimida, e em si mesma a obra

da Redenção está concluída, mas para

salvar os pecadores, para expiar

seus pecados atuais, para que as almas

transviadas aproveitem o Sacrifício

do Homem-Deus é necessário

que também nós alcancemos méritos.

Papel da graça divina

O tesouro da Igreja se compõe,

pois, de duas parcelas. Uma, infini-

...em 1888, aos 15 anos

Office de Lisieux (CC3.0)

29


Hagiografia

tamente preciosa, superabundantemente

suficiente e eficaz: é a dos méritos

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Outra pequeníssima, insignificante:

é a dos méritos dos

homens, adquiridos ao longo

da vida multissecular

da Igreja. A parte pequena

só vale em união com

a parte infinita. Mas

– mistério de Deus –,

apesar de perfeitamente

dispensável

em si mesma, esta

parte é indispensável

porque Deus o quis:

“Quem te criou sem

ti, não te salvará sem

Office de Lisieux (CC3.0)

ti”, diz Santo Agostinho.

Deus nos criou

sem nossa cooperação,

mas para nos salvar

Ele quer nossa cooperação.

Cooperação de

apostolado, sim, mas também

na prece e no sacrifício.

Sem os méritos dos homens,

o tesouro da Igreja não

estará completo e a humanidade

não aproveitará inteiramente os frutos

da Salvação.

Visto o assunto de outro ângulo,

devemos lembrar o papel da graça

para a salvação. Nenhum homem é

capaz do menor ato de virtude cristã

sem que seja chamado a isto pela

graça de Deus, e por ela ajudado.

Em outros termos, a primeira ideia,

o primeiro impulso, toda a realização

do ato de virtude sobrenatural

se faz com o auxílio da graça. Isto

de tal maneira que ninguém poderia

praticar o menor ato de virtude

cristã – nem sequer pronunciar

com piedade os Santíssimos Nomes

de Jesus e Maria – sem o auxílio

sobrenatural da graça. Tudo isto

é verdade de Fé, e quem o negasse

seria herege. Nossa vontade coopera

com a graça, e sem o concurso

dela não há virtude possível, mas

por si só, sem a graça, ela é absolutamente

incapaz de praticar a virtude

sobrenatural.

Ora, como sem virtude ninguém

agrada a Deus nem se salva, sendo a

graça necessária para a virtude, é fácil

perceber que ela é necessária para

a salvação.

Todos os homens recebem graças

suficientes para se salvar. Também

esta é uma verdade de Fé. Porém,

de fato, pela maldade humana,

que é imensa, muito poucos seriam

os homens que se salvariam só com a

graça suficiente. É preciso que a graça

seja abundante para vencer a maldade

do abuso do livre-arbítrio humano.

A abundância dessa graça, como

obtê-la de Deus, justamente irado

pelos pecados dos homens? Evidentemente

com o tesouro da Igreja.

Entretanto, como vimos, esse tesouro

se compõe de duas parcelas,

uma das quais perfeita e imutável,

a de Deus, e outra mutável

e imperfeita, a dos homens.

Quanto mais a parte humana

do tesouro da Igreja

for deficiente, tanto

menos abundantes serão

as graças. Quanto

menos abundantes

forem as graças, tanto

menos numerosas

serão as almas que

se salvam. De onde

decorre que um elemento

capital para

que as almas se salvem

é que o tesouro

da Igreja esteja sempre

cheio de méritos

produzidos pelos homens.

Os grandes pecadores

são filhos doentes

para cuja cura se

prodigalizam os tesouros

da Igreja. Os grandes Santos

são os filhos sadios e operosos,

que repõem a todo momento,

nesse tesouro, riquezas novas

que substituam as que se empregam

com os pecadores.

Tudo isto nos permite estabelecer

uma correlação: para grandes pecadores,

grandes gastos no tesouro da

Igreja. Ou estes grandes gastos são

supridos por novos lances de generosidade

de Deus e das almas santas,

ou as graças se vão tornando menos

abundantes, e o número de pecadores

aumenta.

Jamais fazer a

vontade própria

Daí se deduz que nada mais necessário

para a dilatação da Igreja

do que enriquecer, sempre e sempre,

seu tesouro sobrenatural com

novos méritos.

Evidentemente, podem-se adquirir

méritos praticando a virtu-

30


Office de Lisieux (CC3.0)

de por toda parte. Mas há no jardim

da Igreja almas que Deus destina

especialmente a este fim. São

as que Ele chama à vida contemplativa,

em conventos reclusos, onde

certas almas de escol se dedicam especialmente

em amar a Deus e a expiar

pelos homens. Estas almas corajosamente

pedem a Deus que lhes

mande todas as provações que quiser,

desde que com isso se salvem

numerosos pecadores. Deus as flagela

sem cessar, de um modo ou de

outro, colhendo delas a flor da piedade

e do sofrimento, para com estes

méritos salvar novas almas. Consagrar-se

à vocação de vítima expiatória

pelos pecadores: nada há de

mais admirável. E isto tanto mais

quanto muitos há que trabalham,

muitos que rezam; mas quem tem a

coragem de expiar?

Este é o sentido mais profundo da

vocação dos trapistas, das franciscanas,

dominicanas e carmelitas entre

as quais floriu a suave e heroica Teresinha.

Dr. Plinio na década de 1940

Seu método foi especial.

Praticando a

conformidade plena

com a vontade de

Deus, ela não pediu

sofrimentos, nem os

recusou. Deus fizesse

dela o que entendesse.

Jamais pediu a Deus

ou a suas superioras

que dela afastassem

qualquer dor, qualquer

mortificação. Submissão

plena era o seu caminho.

E, em matéria

de vida espiritual, plena

submissão equivale

à plena santificação.

Seu método se caracteriza

ainda por outra

nota importante.

Santa Teresinha não

praticou grandes mortificações

físicas. Ela

se limitou simplesmente

às prescrições de sua

Regra. Mas esmerou-se em outro tipo

de mortificação: fazer

a toda hora, a todo

instante, mil pequenos

sacrifícios. Jamais

a vontade própria. Jamais

o cômodo, o deleitável.

Sempre o contrário

do que os sentidos

pediam. E cada um

destes pequenos sacrifícios

era uma pequena

moeda no tesouro da

Igreja. Moeda pequena,

sim, mas de ouro

de lei: o valor de cada

pequeno ato consistia

no amor de Deus com

que era feito.

E que amor meritório!

Santa Teresinha

não tinha visões,

nem mesmo os movimentos

sensíveis e naturais

que tornam, por

vezes, tão amena a piedade.

Aridez interior absoluta, amor

árido, mas admiravelmente ardente,

da vontade dirigida pela Fé, aderindo

firme e heroicamente a Deus, na

atonia involuntária e irremediável

da sensibilidade. Amor árido e eficaz

é sinônimo, em vida de piedade, de

amor perfeito.

Grande caminho, caminho simples.

Não é simples fazer pequenos

sacrifícios? Não é mais simples não

ter visões, do que as ter? Não é mais

simples aceitar os sacrifícios em lugar

de os pedir?

Caminho simples, caminho para

todos. A missão de Santa Teresinha

foi de nos mostrar uma via em que

pudéssemos todos trilhar. Oxalá ela

nos auxilie a percorrer esta estrada

real que levará aos altares não apenas

uma ou outra alma, mas legiões

inteiras.

v

(Extraído de O Legionário

n. 790, 28/9/1947)

Arquivo Revista

31


Luzes da Civilização Cristã

ToucanWings (CC3.0)

Geometria e

assimetrias

Jardins do Palácio

de Versailles

harmônicas

No jardim francês há uma arte altamente geométrica no conjunto,

porém cheia de assimetrias harmônicas e encantadoras nas

suas minúcias, o que gera uma beleza expurgada de socialismo.

Como será o equilíbrio dos arrojos e das inimagináveis

serenidades da arquitetura do Reino de Maria?

Eu gosto muito do jardim francês, mas tenho reservas.

Em minha primeira visita a Versailles, sendo

já adulto, alguns dos que me acompanhavam começaram

a elogiar o palácio, dizendo que tinha superado a

Sainte-Chapelle. Passei todo o tempo discutindo com eles.

O princípio da pluralidade de perspectiva

Eu sustento, naturalmente um pouco na surdina, que

as grandes perspectivas tendem ao socialismo.

Nesse sentido, o Escorial um pouco desola, não tem o

calor da vida: há algo de absolutismo.

Champs-Élysées, por exemplo, tem uma única superperspectiva

e o resto não significa nada. Na construção

medieval, pelo contrário, uma coisinha tem sua perspectiva,

o que é a imagem da sociedade orgânica, sobretudo

composta de sociedades pequenas. Isso porque na arquitetura

medieval há uma figura do universo constituído

sobretudo de homens que valem por si, por Deus, e dos

quais cada um tem sua perspectiva individual. Quer dizer,

há um ensinamento muito grande, lúcido e luminoso

dentro disso, que não devemos perder de vista.

Uma arte que levou quase até ao delírio a exploração

das pequenas perspectivas, mas alcançou triunfos, é a

japonesa. Jardinzinho que tem uma pontezinha, embaixo

tem que criar só uma florzinha, onde passa um rio

que quase não se move, é um espelho. Aquilo pede que se

pare e veja. O jardim japonês não é como o francês que

você olha e… é inteiramente o contrário. Ele é feito de

recantinho e de surpresinhas, que é uma coisa diferente,

e isto é, a meu ver, um dos elementos mais felizes do ponto

de vista de refutação do renascentismo: é o princípio

da pluralidade de perspectiva. Deve haver também grandes

perspectivas, entretanto, é a Igreja Católica que indica

verdadeiramente como é uma perspectiva grandiosa,

mas orgânica.

Geometria como elemento de

beleza no jardim francês

Se formos nos ater até o fim ao princípio que eu acabei

de dar, chegamos à exclusão da geometria de dentro

da arte, e isto me pareceria um exagero. Seria preciso saber

entender qual a razão de ser do jardim francês, da

geometria como elemento de beleza expurgado de socialismo.

Eu estou falando da geometria dos todos geométricos.

O socialismo é geométrico.

32


Refiro-me à geometria dos conjuntos. Por que um

conjunto não pode ter uma grande geometria? É claro

que pode, eu formulo a pergunta com objeção.

Tomemos, por exemplo, o carro de gala dos Habsburgos.

Todo pintado, uma coisa fabulosa. Imaginemos este

carro andando numa cidadezinha medieval com aquelas

ruelas, não vai. Pelo contrário, imaginemos o carro

desfilando numa avenida de Versailles. Ali teríamos longo

tempo para vê-lo vir e para estudar todas as mil belezas

que ele tem. Vejam como a geometria exige um décor

geométrico.

Então, eu seria levado a perguntar se não poderíamos

pensar ao revés: uma arte com um conjunto nada geométrico

e cheia de pequenas perspectivas com geometria

própria; ou também uma arte altamente geométrica no

conjunto e dentro cheia de assimetrias harmônicas e encantadoras.

O espírito francês, até certo ponto, constituiu esta

síntese: o jardim é geométrico em tudo, mas o francês

introduziu formas curvas que o grego não admitia – já é

um elemento de progresso – e um jogo de cores que não

são simétricas, e esse colorido quebra a monotonia.

Nasce aqui um problema delicado: se um colorista de

gênio pintasse a fachada de Versailles, ela não ganharia

em beleza? Então nos perguntamos se naquilo se exprime

inteiramente o espírito francês ou se não há uma espécie

de imolação ao paganismo clássico. É um clássico

que está matando os católicos? Poderíamos imaginar

um clássico ressuscitado pelos católicos? O jardim de

Versailles depõe a favor.

Um ornamento de Versailles:

as pessoas que ali viviam

Para aquelas pessoas aquilo foi feito ao contrário da arte

grega. Esta foi elaborada por um especulador que, sentado,

inventou uma fórmula, e nem um pouco por um povo,

como o francês. A arte do Palácio de Versailles parece

brotada do chão.

Não é para qualquer povo que a arte grega ficaria

bem. Versailles fica bem para o francês, porque este é

um bibelô que dá vida e compensação ao palácio. Sem o

francês, aquilo tudo ficaria sem graça.

Imaginemos, por exemplo, uma série de Grandes de

Espanha saindo de Versailles em passo cadenciando,

vestidos de preto. Não teria graça. Aquilo é feito para o

sorriso francês, para uma porta daquelas estar aberta,

ouvir-se um cravo tocando dentro, minueto na Galeria

dos Espelhos; é feito para um povo que vive em guirlandas.

A definição de guirlanda é: grupo de franceses.

A ordem perfeita entre os homens exprime-se a partir

da pessoa e não das grandes construções, o que é pessoal

se exprime muito mais do que é coletivo, não tem dúvida.

Com efeito, em Versailles está presente um conceito

de bem comum diferente do conceito não expresso, mas

meio implícito nos tratadistas de Direito Natural daquele

tempo, segundo o qual o bem comum se refere mais a

um todo abstrato, não concebido em função dos indivíduos,

do que ao conjunto dos indivíduos.

O equilíbrio e a truculência

no Reino de Maria

Seria muito interessante pensarmos qual é o perfil

moral do homem que aderiu a tudo isso, o que daria um

pouquinho o perfil moral das pessoas no Reino de Maria.

Para resolvermos a questão devemos

considerar as pessoas que tinham

Versailles por quadro. Quer

dizer, as liteiras, as marquesas, as

reverências, os bibelôs, os tapetes, a

música, os cristais... Imaginem se de

Versailles saíssem gregas com aquelas

caras das cariátides! Eu pergunto

se as pessoas vestidas com roupas

coloridas, éclatantes sem serem berrantes,

não constituíam um ornamento

que dava vida à corte. Notamos

isso, por exemplo, em descrições

como esta: “Monseigneur le Duc d’Orléans

apareceu com traje azul claro e

alamares prateados…”

O jardim de Versailles, portanto,

não deveria ser menos geométrico.

Palácio de São Lourenço do Escorial, Espanha

Gabriel K.

33


Luzes da Civilização Cristã

Por exemplo, eu tenho uma teoria que mal ouso esboçar,

que é a da harmonia entre o equilíbrio e a truculência

no Reino de Maria. Primeiramente é preciso considerar

que a palavra truculência é empregada num sentido

tão pejorativo que eu preciso defini-la antes.

Tomemos a Catedral de São Basílio, na Rússia, como

exemplo. Não se pode negar que aquilo é uma coisa

truculenta. Em que sentido? Ela se levou a si própria às

últimas consequências de si mesma, com um arrojo no

qual ela não negou nada, porque não rompeu com nada

do que ela não deveria romper. Ela tomou algo e levou ao

último arrojo de si própria, à última radicalidade. Não é

uma exacerbação desequilibrada.

Tenho a impressão de que o Reino de Maria, por ser a

última época da História e por dever capitular todas as

perfeições anteriores – não à maneira de soma, mas com

qualquer coisa de novo –, precisará ter nesse sentido

uma afirmatividade superarrojada e superequilibrada.

Então, poder-se-ia perguntar, na linha do verum, do bonum

e do pulchrum, qual é essa luz especial do Reino de

Maria, feita de inimagináveis serenidades e borbulhâncias

à gêiser. Em outros termos, constituída de continuadores

fabulosos e de espírito de aventura como nunca ninguém

teve; de simetria de perspectivas individuais bem

calculadas e de conjuntos fabulosos, mas onde todos os

extremos das linhas são de uma riqueza tal que o indivíduo,

se não olhar para um outro extremo, desmaia.

Nossas almas precisavam ser dilatadas para isso a

fim de encontrarem completamente a sua expressão.

Tenho a impressão de que alguma coisa assim seria o

maior equilíbrio que se poderia imaginar, porque envolve,

dentro do mesmo conjunto, os equilíbrios mais arrojados,

os arrojos na aparência menos equilibrados.

Necessidade de varões com abertura

de alma para o infinito

Nessa linha, uma vez que o erro e o mal foram tão

grandes, ou o verum, o bonum e o pulchrum se reerguem

incomparavelmente maiores, ou falta qualquer coisa

nessa simetria.

Desceu-se mais fundo do que era alto o ponto onde se

tinha subido e, portanto, ou se subirá mais alto de onde

se tinha descido ou não tem nada feito. Deve ser o mais

alto grau, de modo que humilhe o mal na proporção em

que o ele humilhou o bem, pelo menos.

O resultado é abertura para o infinito, o epílogo grandioso

da História da Igreja. Então, dois mil anos de Santos,

Doutores, Mártires, de Confessores; também de

abandonos, de traições, ciladas, tudo chega a um determinado

momento em que Nossa Senhora intervém e

constrói o Reino d’Ela. Isto só se desata se houver varões

que sejam e pensem assim.

Tenho a impressão de que, a partir do momento em

que isto se desse, muita coisa se acertava, porque há

muitas almas que gemem e até encontram-se em crise

por não lhes ter sido dada ainda essa figura inteira. Toda

criatura geme e espera essa manifestação.

Claude-Guy Hallé (CC3.0)

Reparação feita a Luís XIV pelo Doge de Gênova

Francesco Maria Lercari Imperiale, 15 de maio

de 1685 - Coleção do Palácio de Versailles

34


Сергей Коровкин 89161230044 (CC3.0)

Catedral de São

Basílio, Rússia

O espírito católico está exausto de

ser apresentado como fraco

Por essa razão, parece-me que algo deveria vir, manifestar-se

de maneira a se abrirem as portas da era da

perfeição, mas daquela perfeição absoluta com uma nota

de força. O espírito católico está exausto de ser apresentado

como fraco. Ele tem uma nostalgia de sua própria

força, que é uma coisa do outro mundo. Ele geme encarcerado

em aspectos de debilidade, ele está nostálgico das

últimas consequências de si mesmo; é como a copa da espada

que tem nostalgia da ponta do florete.

A Igreja Católica está exausta de fraquezas, de condescendências

cúmplices, de delongas e contemporizações

sem sentido, de indecisões e vacilações que a nada

conduzem. Em nós borbulha uma vontade exuberante

de ser, de fazer, de contestar, de destruir e de implantar,

mas logo. É uma urgência de quem morre de sede, mas

de uma sede que não se limita com um copo d’água, quer

beber um rio, um mar! Esta é a nossa cruz diurna e noturna.

v

(Extraído de conferência de 2/10/1974)

35


João C. V. Villa

Nossa Senhora do

Carmo - Museu do Carmo

Alto, Quito, Equador

Maria Santíssima é em tudo

o oposto da Revolução

ARevolução tem como mentor o demônio, e por isso ela é o que há de mais vil na Terra; é um

movimento que se arrasta – como a diabólica serpente – em meio aos vícios e pecados humanos,

por entre aquilo que existe de sórdido, feio, torto e abjeto neste vale de lágrimas.

Nossa Senhora é Aquela que aterroriza esse perigoso e infame adversário, porque Ela é em tudo o oposto

da Revolução. Maria Santíssima é a Virgem Mãe do Salvador, com tudo quanto é digno, belo, nobre e

santo reunido para adorná-La. Ela possui graus de esplendor, de pureza e de perfeições inimagináveis! É o

contrário da maldita serpente, cuja cabeça Ela traz, continuamente, esmagada sob seus pés.

(Extraído de conferência de 31/1/1989)

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