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A Revista Advir (edição 40) é uma publicação da Associação de Docentes da UERJ.
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Na Ilíada e na Odisseia de Homero o “presente de grego” faz referência
a um imenso cavalo de madeira em cujo interior se encontravam
vários soldados gregos que, por meio deste artifício, conseguiram entrar
na cidade fortificada de Tróia. A peça de beleza notável, talhada
com perfeição, foi entregue pelos gregos como símbolo de rendição
numa guerra que durou dez anos, mas significou um ataque cabal à
Tróia, destruindo-a completamente.
Numa
conjuntura
confusa e
conturbada,
ganhamos um
notável presente
de grego: o
aparentemente
inofensivo
ensino remoto
Nesses 70 anos de Uerj, uma data tão importante,
que representa décadas de existência de
uma universidade pública, gratuita, de qualidade,
socialmente referenciada e popular, a
metáfora do “Cavalo de Tróia” nos serve como
uma reflexão. Durante a pandemia da Covid-
19, numa conjuntura confusa e conturbada, ganhamos
um notável presente de grego: o aparentemente
inofensivo ensino remoto, que se inseriu
na universidade, impediu as nossas defesas
e se revelou como uma grande armadilha
que trouxe em seu interior consequências funestas,
inúmeros prejuízos, e cujo término ainda
parece distante, com surpresas presentes no seu
interior que ainda não se mostraram por inteiro.
O ensino remoto e a pedagogia do “novo normal”
Agências do Estado, a mídia, organizações da sociedade civil, empresários
e intelectuais de diferentes campos do conhecimento vêm
forjando o consenso de que a pandemia da Covid 19 trouxe a oportunidade
de reinventar o trabalho, de modernizar o ensino e de criar novas
formas de se relacionar. Esta romantização da crise encobre a estreita
relação entre a pandemia e o sistema destrutivo que gere as nossas
vidas. A adoção por décadas do receituário neoliberal, somada à crise
sanitária, agudizou o histórico desmonte dos serviços públicos, a destruição
do ecossistema, o aumento da exploração dos trabalhadores e
o extermínio em massa das populações indígenas, quilombolas, negras
e periféricas.
Em recente live organizada pela TV Boitempo no Youtube, o professor
e pesquisador Ricardo Antunes, referência no campo da sociologia
do trabalho, citou dados do IBGE que revelam a trágica situação dos
trabalhadores às vésperas da pandemia. Como nos informa o sociólogo,
em fevereiro de 2020, tínhamos 40 milhões de homens e mulheres
brasileiros na informalidade e 13 milhões compondo a massa de desempregados.
Ou seja, antes mesmo desta tragédia globalizada afetar
o Brasil, já vivíamos um quadro caótico de depreciação de nossa força
de trabalho.
Advir • dezembro de 2020 • 6