Revista Dr Plinio 275

revistadp
  • No tags were found...

Fevereiro de 2021

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 275 Fevereiro de 2021

Revelando as intenções

de muitos corações


Flávio Lourenço

Pedra de escândalo

Q

uando o Profeta Simeão

teve nos braços o Menino

Jesus e entoou o seu famoso

cântico Nunc dimittis servum

tuum, Domine... – Senhor,

agora envia em paz o teu servo...

–, ele disse que Nosso Senhor foi

enviado como pedra de escândalo

para a perdição e salvação de

muitos, e para que se conhecessem

as cogitações ocultas dos corações.

Portanto, Nosso Senhor foi mandado

para salvar a todos, mas a

perdição daqueles que O recusassem

não significava o fracasso

d’Ele, e sim um elemento intrínseco

à sua Missão, ou seja, criar

condições para os justos conhecerem

a verdade e se salvarem, para

os ímpios manifestarem a sua

impiedade e, não se arrependendo,

irem para o Inferno.

Christianus alter Christus – o

cristão é um outro Cristo. Também

nós somos pedra de escândalo

posta para a salvação e a perdição

de muitos, e para que se revelem

as cogitações dos ímpios. A

nossa missão é, pois, suscitar nas

pessoas a definição, para a salvação

dos bons.

Apresentação do Menino

Jesus no Templo - Catedral de

Notre-Dame, Anvers, Bélgica

(Extraído de conferência de

31/1/1966)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 275 Fevereiro de 2021

Vol. XXIV - Nº 275 Fevereiro de 2021

Revelando as intenções

de muitos corações

Na capa, Nossa Senhora

do Bom Sucesso - Real

Convento da Imaculada

Conceição, Quito, Equador.

Foto: Gabriel K.

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Roberto Kasuo Takayanagi

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Virgílio Rodrigues, 66 - Tremembé

02372-020 São Paulo - SP

E-mail: editoraretornarei@gmail.com

Impressão e acabamento:

Northgraph Gráfica e Editora Ltda.

Rua Enéias Luís Carlos Barbanti, 423

02911-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 3932-1955

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 200,00

Colaborador........... R$ 300,00

Propulsor.............. R$ 500,00

Grande Propulsor....... R$ 700,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Segunda página

2 Pedra de escândalo

Editorial

4 Revelando as cogitações de muitos corações

Piedade pliniana

5 Prece para fazer bem uma meditação

Dona Lucilia

6 Lição de confiança

Eco fidelíssimo da Igreja

10 A importância do apostolado

leigo na “consecratio mundi” - II

Denúncia profética

16 As portas do Inferno não

prevalecerão contra a Igreja

Revolução Industrial

19 RevoluçãoIndustrial e intemperança

Perspectiva pliniana da História

22 Amor, obediência e veneração

pela Cátedra de São Pedro

Calendário dos Santos

26 Santos de Fevereiro

Hagiografia

28 A justiça e a misericórdia

se oscularam

Luzes da Civilização Cristã

31 Como um voo angélico

Última página

36 Admirável lição de confiança

3


Editorial

Revelando as cogitações de muitos corações

A

s revelações de Nossa Senhora do Bom Sucesso a Sóror Mariana de Jesús Torres tratam muito sobre

o papel do Equador e da América do Sul sob o ponto de vista da Contra-Revolução. A Santíssima

Virgem faz profecias muito precisas a respeito da Revolução na América do Sul, da batalha entre

revolucionários e contrarrevolucionários, e da vitória que Ela assegurará para estes últimos.

A Mãe de Deus quis aparecer e fazer-Se venerar ali sob a invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso,

da Candelária ou da Purificação, apelativos referentes a um mesmo episódio narrado no Evangelho e

contemplado no quarto mistério gozoso do Rosário.

Que relação há entre a Purificação e tudo quanto Nossa Senhora predisse a propósito da Revolução e

Contra-Revolução na história da América do Sul, do papel deste Continente no mundo e, afinal, da vitória

dos contrarrevolucionários?

Nessa passagem do Evangelho Nosso Senhor é chamado pelo Profeta Simeão de pedra de escândalo,

ou seja, de divisão, para que se revelem as cogitações de muitos corações.

Ora, não há dúvida de que a Contra-Revolução constitui uma pedra de escândalo contínua nesta nossa

época em que mais nenhuma aberração escandaliza. Entretanto, que aplicação haveria para estas palavras:

“para que se revelem as cogitações de muitos corações”?

Consideremos que Simeão esperou a vida inteira para ver o Messias e, quando O encontrou, discerniu

n’Ele a pedra de escândalo e anunciou isto com amor e entusiasmo, como sendo uma das missões específicas

d’Aquele Menino.

Nosso Senhor manifestou tudo quanto está no Evangelho a respeito dos desígnios de Deus relativos à

salvação dos homens. Entretanto, quem são aqueles cujas cogitações Ele revelou?

Particularmente os fariseus.

E como Ele o fez?

Denunciando e desmascarando as intenções daqueles hipócritas que, embora se desagradassem com a

pregação e a Pessoa do Divino Mestre, evitavam atacá-Lo publicamente, porque não queriam revelar as

suas cogitações. Por isso, vinham com perguntas capciosas, tentando conservar oculta a própria posição.

Em nossos dias, aqueles que lutam pela Contra-Revolução são chamados a imitar o Divino Redentor

especialmente a este título de pedra de escândalo e a assumir, mutatis mutandis, todas as lutas e sofrimentos

que, em Nosso Senhor, culminaram na Paixão, Morte e Ressurreição.

A meu ver, aqui está o nexo entre nós e a devoção a Nossa Senhora do Bom Sucesso, que explica para

onde devem se orientar nossos passos e projeta uma luz sobre nossa piedade.

Com efeito, nos vários episódios da vida do Salvador, devemos procurar contemplar como Ele foi obrigando

as cogitações a se revelarem. Por exemplo, um dos fatos mais marcantes foi a ressurreição de Lázaro.

Após este milagre espetacular, tornaram-se manifestas as intenções dos fariseus que comentaram entre

si: “É preciso matá-Lo.”

Também quando o populacho, instigado pelos agentes do Sinédrio, preferiu Barrabás a Nosso Senhor,

revelaram-se quais eram as cogitações dessa gente. E, por fim, na Crucifixão de Jesus, uma vez mais foram

elas reveladas.

Assim, do início ao fim, continuamente, Nosso Senhor Jesus Cristo apresentou-Se como pedra de escândalo.

Então, nós podemos orar ao Homem-Deus, por meio de sua Mãe Santíssima, dizendo: “Ó Divina Pedra de

Escândalo, posta para a revelação das cogitações de muitos corações, dos hipócritas e fariseus, tende piedade

de nós e dai-nos, pelos vossos méritos infinitos, a força que mostrastes nesses lances de vossa vida terrena.” *

* Cf. Conferência de 12/2/1982.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Luis Samuel

A Virgem e o

Menino (acervo

particular)

Prece para fazer bem

uma meditação

Ave, Maria, Filha bem-amada do Padre Eterno, Mãe admirável de Deus Filho,

Esposa fidelíssima do Espírito Santo!

Ave, ó minha Mãe e Senhora, soberana do mundo, Rainha dos Corações

e auxílio onipotente de todos os que a Vós recorrem e em Vós confiam!

Coloco-me mais especialmente neste momento em vossa presença, pedindo-Vos

vossa assistência e que me obtenhais a graça para, em união convosco, fazer bem esta

meditação.

Vós bem conheceis as dificuldades que terei, em consequência de minha dissipação

constante, de minha preguiça mental, de meu relaxamento interior.

Suplico-Vos, portanto, ó Esposa sem mácula do Divino Espírito Santo, vossas luzes,

vossos favores, vossa misericórdia, enfim, para que eu possa tirar todo proveito

desta meditação, para vossa maior honra, glória e serviço. Assim seja.

5


Dona Lucilia

Arquivo Revista

Lição de

confiança

Considerando

os exemplos

de ilustres

antepassados, Dona

Lucilia hauria os

princípios que

lhe serviam de

fundamento para a

prática da virtude

da confiança.

Arquivo Revista

Dr. Gabriel José Rodrigues

dos Santos

Para compreender o papel da

confiança na minha vida é

preciso considerar esta virtude

na história de Dona Lucilia.

Ancestrais exemplos

de confiança

Minha mãe pertencia a uma

das antigas famílias de São Paulo,

às quais se costumam chamar de

“paulistas de quatrocentos anos”,

e estava habituada à ideia de que

6


Joaquim José Insley Pacheco (CC3.0)

poderia ocorrer com ela o mesmo

que se dera com alguns de seus antepassados,

os quais, embora fossem

pessoas de muita projeção e

importância, capazes de realizar

grandes esforços e se tornarem célebres

por praticarem ações insignes

para cumprir seu dever e a vontade

de Deus, estiveram por vezes

sujeitos a riscos de sofrerem terríveis

fracassos. Foi o que se deu

com o avô dela, a quem não cheguei

a conhecer, Dr. Gabriel José

Rodrigues dos Santos.

Ele era um homem alto, com porte

muito nobre, dotado de uma capacidade

oratória digna de nota. Ao

mesmo tempo, um político exímio e

capaz de se impor com firmeza. Entretanto,

compreendia os “azares”,

as dificuldades da política e, por causa

disso, também as derrotas que

não raras vezes ela impunha.

Dom Pedro II

Joaquim José Insley Pacheco (CC3.0)

Brigadeiro Tobias de Aguiar

A narração de um episódio de sua

história pode nos dar uma ideia de

como era a mentalidade dele e qual

o papel da confiança

em sua vida.

Passando do brejo

para o forno,

de Secretário de

Estado a tropeiro

Duque de Caxias

Sendo muito bom

político e orador, esse

meu bisavô tornou-

-se logo Secretário de

Estado – uma espécie

de ministro – do Governador

de São Paulo

daquele tempo, Rafael

Tobias de Aguiar 1 .

Houve em São Paulo

uma revolução contra

o Imperador, à qual

Tobias de Aguiar aderiu,

e Dr. Gabriel acabou

“embarcando nessa

canoa”.

As tropas comandadas

pelo Duque de

Caxias 2 invadiram São

Paulo e meu bisavô teve

de fugir, de noite, escondendo-se

no atual Parque Dom Pedro II, que

era então um pântano enorme onde

havia muita vegetação. Ali passou

a noite inteira, metido no charco, o

grande político e orador que dançara

com a Imperatriz, causando sensação

na corte.

Depois, com o auxílio de correligionários,

conseguiu partir para Sorocaba,

uma das cidades mais próximas

de São Paulo.

Porém, não tardou para que os soldados

do Duque de Caxias chegassem

àquele lugar. Ao ouvir a notícia

da entrada das tropas na então pequena

Sorocaba, e vendo que facilmente

o encontrariam, procurou refúgio

na casa de um padeiro conhecido

e simpatizante seu. Este lhe disse:

— Minha casa é pequena e qualquer

pessoa nota que o senhor está

aqui. Só vejo uma solução: o meu

forno está apagado e é enorme; o senhor

entra nele e fica aí até a tropa

passar adiante.

Assim, o Secretário de Estado

passou do brejo para o forno. Mas

vendo que se continuasse naquela cidade

por mais tempo seria capturado,

disfarçou-se de tropeiro e, com a

intenção de se refugiar na Argenti-

Sébastien Auguste Sisson (CC3.0)

7


Dona Lucilia

Divulgação (CC3.0)

na, engajou-se numa tropa que conduzia

gado rumo ao Sul do Brasil.

Dr. Gabriel é descoberto

pela esposa de seu patrão

Tendo partido de Sorocaba e estando

já a caminho do Rio Grande

do Sul, seu patrão resolveu vender

algumas cabeças de gado a um sujeito

interessado em comprá-las. Contudo,

na hora do pagamento começou

uma discussão intérmina e não

havia meio de entrarem em acordo.

Dr. Gabriel, que tinha pressa em

partir dali porque corria grande risco

de ser preso, notou que o problema

estava nos cálculos matemáticos

errados, pois ambos não sabiam fazer

as contas. Então, interferiu na

negociação e, com muita destreza,

apresentou-lhes a solução. Os negociantes

ficaram muito satisfeitos, e

assim puderam continuar a viagem.

Ora, a esposa do chefe da tropa

presenciara a cena e, estando a sós

Duque de Caxias na Guerra do Paraguai

le apuro, vendo o dinheiro acabar, de

repente ele ouviu uma voz conhecida

que cantava em português. Ele prestou

mais atenção e reconheceu ser

uma negra escrava da mãe dele.

Ele foi correndo à janela e chamou

a mulher. Ao entrar onde ele

estava, a primeira coisa que ela fez

foi tirar um xale que a cobria e desamarrar

uma espécie de colete no

qual estavam costuradas, por dentro,

uma grande quantidade de moedas

de ouro. Então contou sua aventura.

Preocupada com a situação do filho,

a mãe de meu bisavô mandara

essa escrava de confiança viajar de

São Paulo para a Argentina à procura

do Dr. Gabriel José Rodrigues

dos Santos para lhe entregar essas

moedas.

Chegando à fronteira, ela precisava

atravessar a ponte limítrofe entre

Brasil e Argentina, guarnecida por

soldados brasileiros e que ninguém

podia atravessar sem permissão. Como

essa mulher não tinha autorizacom

seu marido, disse-lhe:

— Você não percebeu

que esse homem

que está trabalhando

para você

não é tropeiro?

— Mas por que

você diz isto?

— Veja com que

facilidade ele fez as

contas. Você acha

que um simples tropeiro

é capaz disso?

— Hum, é verdade...

— Para evitar encrencas

para nós, vá

e pergunte quem é

ele. De repente é um

fugitivo político...

O chefe dos tropeiros

seguiu o conselho

da mulher e

interrogou meu bisavô,

o qual acabou

por revelar sua identidade.

Surpreso, o patrão

tirou o chapéu

e disse:

Dr. Gabriel

José Rodrigues dos

Santos! Pois saiba

que sou um grande

admirador do senhor.

Conte comigo

para o que precisar.

Na Argentina,

recebendo o

socorro materno

Por fim, ele conseguiu

chegar até a

fronteira com a Argentina

e ingressar

nesse país. Mas ali

não tardou a que lhe

faltassem os meios de

subsistência. Quando

se encontrava naque-

Conselheiro Crispiniano

Divulgação (CC3.0)

8


ção e nem meios de obtê-la, começou

a produzir doces que ora vendia,

ora dava de graça para os soldados

brasileiros.

Certo dia ela quis atravessar a

ponte, mas os guardas suspeitaram

do pedido dela e disseram:

— Nós deixamos passar, mas temos

que revistar você antes.

Ela respondeu:

— Isso não! Ninguém toca em

mim, eu proíbo absolutamente.

Declarou isso com tal dignidade

que não ousaram revistá-la, e deixaram-na

passar. E lá foi ela com o coletezinho

repleto de ouro.

Já em terras argentinas, ela começou

a perguntar por um exilado brasileiro,

mas ninguém sabia informar.

Então ela resolveu ir andando pela

cidade, cantando uma canção que

meu bisavô conhecia, confiando que

ele ouviria e viria à janela. E assim

aconteceu. Ele a reconheceu e se encheu

de dinheiro.

A vitória da confiança

Dr. Gabriel José ficou ainda morando

algum tempo na Argentina,

até receber o recado de que o Governo

imperial estava disposto a dar

anistia aos revoltosos caso não se levantassem

mais em armas. Ele aceitou

e voltou para o Brasil. Mas a

anistia não tinha sido concedida e,

vindo a São Paulo, ele foi preso.

No julgamento dele, o advogado de

defesa foi o Conselheiro Crispiniano 3 ,

muito amigo de meu bisavô, e era um

famoso Conselheiro de Estado.

O discurso de defesa feito pelo

Conselheiro Crispiniano se tornou

célebre pela ostentação do orador,

cujas primeiras palavras ao subir à

tribuna foram:

— Egrégios membros do tribunal,

a minha simples presença nesta tribuna

prova a importância da causa

que vou defender.

Isso, na vida pacata da São Paulo

daquele tempo, marcava muito:

“Olhe o vaidoso!”

Afinal, meu bisavô foi julgado e

absolvido.

Quando ele saiu do tribunal, os

alunos da Faculdade de Direito e

as moças da sociedade de São Paulo

formaram uma ala ininterrupta

da Praça João Mendes até a casa

dele, na esquina da Rua 15 de Novembro

com a Praça da Sé. À medida

que meu bisavô passava, as

moças iam jogando flores. Essa fase

de carreira política dele estava

encerrada.

Aí está a vida desse antepassado

de Dona Lucilia, feita de diversas

tensões e situações difíceis, mas

Dr. Plinio em agosto de 1995

da qual mamãe tirava a lição de que,

tendo confiança, ele vencia tudo.v

(Extraído de conferências de

29/6/1977 e 19/8/1995)

1) Político e militar, um dos líderes

da Revolução Liberal de 1842

(*4/10/1794 - †7/10/1857).

2) Luís Alves de Lima e Silva

(*25/8/1803 - †7/5/1880).

3) João Crispiniano Soares. Jurista

e político paulista (*24/7/1809 -

†15/8/1876).

Arquivo Revista

9


Eco fidelíssimo da Igreja

A importância do apostolado

leigo na “consecratio mundi” - II

Cabe aos leigos tornar sagrada a própria sociedade temporal,

tarefa que exige grande dedicação e a generosa disposição de

a ela consagrar toda a existência. A quem seguir esta via de

renúncia e entrega está prometida uma grande glória: viver

nos braços de Maria Santíssima e sob a proteção d’Ela.

Arquivo Nacional (CC3.0)

Oque vem a ser a consecratio

mundi?

A sociedade temporal,

como todas as coisas criadas, deve

ser consagrada a Deus, oferecida

a Ele e ordenada segundo os desígnios

divinos, para assim colaborar

em sua obra. Nisto consiste a consecratio

mundi: tornar sagrada a própria

sociedade temporal, tarefa que

Pio XII 1 afirma ser especificamente

dos leigos.

Apostolado próprio

e insubstituível

Às vezes ouço pessoas elogiarem

certos sacerdotes nos seguintes termos:

“Fulano é formidável. Tem-se

a impressão de que ele não é padre.

É divertido, camarada, conversa sobre

tudo, sabe quem ganhou a última

competição, anda de lambreta.

Ninguém imaginaria o que ele faz.

De padre assim é que eu gosto: bem

moderno e igual a nós.” E o pobre

Pe. Fulano pensa do mesmo modo…

Trata-se de uma concepção errada

da condição sacerdotal. O padre

é um ministro do Senhor. Ele

faz parte do clero, daqueles chamados

a viver numa atmosfera sagrada

e não na que se move o comum dos

homens. A sacristia e o Altar constituem

o lugar próprio do padre e, se

ele não está ali, tudo fica deserto e

a igreja não funciona. Se há alguém

que não deve levar a vida de um leigo

é o padre.

Então quem vai levar aos diferentes

meios sociais a Palavra de Deus?

Nós, os leigos. E, por isso, no discurso

ao Segundo Congresso Mundial

do Apostolado dos Leigos o Santo

Padre Pio XII mostra bem que a

Igreja está constituída de tal maneira

que nunca haverá padres em número

suficiente para atender às necessidades

do apostolado. Para entrar

nas faculdades, nas oficinas, nos

bondes, nos ônibus, em qualquer

parte, é preciso que haja leigos e que

estes sejam portadores habituais da

Palavra de Deus.

Por uma razão de número e de

missão própria, o apostolado leigo

não é substituído pela ação do sacerdote.

E, portanto, a principal tarefa

do sacerdote não consiste em fazer

tudo, mas em formar grupos de

bons leigos, que por toda parte entrem,

atuem e produzam aquela par-

Papa Pio XII


Flávio Lourenço

cela de bem que cabe à sociedade

temporal realizar para a santificação

das almas.

Conta-se que, em certa ocasião,

Pio XII perguntou a um grupo de

cardeais com os quais conversava:

“Eminências, o que é mais necessário

para a santificação do mundo

nos dias atuais?” Um cardeal pensou

um pouco e respondeu que faltavam

igrejas grandes, porque com igrejas

tão pequenas ninguém ia à Missa.

Outro disse que seria preciso desenvolver

a imprensa católica, pois

por meio dela todos ouviriam a Palavra

de Deus. E um terceiro levantou

o tema das missões. O Papa ouviu a

todos e concluiu: “Nada disso é verdade.

O mais necessário hoje é que

em cada paróquia exista um punhado

de leigos realmente católicos, que

levem a Palavra de Deus à sociedade

temporal. Se houvesse isto, a crise

do mundo contemporâneo estaria

conjurada.”

Eu não apresento esse fato como

argumento, porque não gosto de jogar

com palavras pronunciadas pelos

Papas em conversas particulares.

Mas, si non è vero, è bene trovato 2 .

Ainda que ele não as tenha dito, isso

é verdade e eu estou inteiramente de

acordo com o inventor dessa fábula,

se foi inventada.

Doação especial a Deus

no estado laical

Peregrinação a Saint-Josse-sur-Mer

Museu de Belas Artes, Arras, França

A Santa Missa - Museu J. Paul Getty, Califórnia

Ora, se o apostolado dos leigos é

tão necessário, percebe-se sem dificuldade

que ele exige uma grande dedicação.

Essa ação jamais será suficientemente

desenvolvida se um certo

número de leigos generosos não

for além de um simples apostolado

comum e não consagrar a ela sua vida,

dentro do seu ambiente próprio.

Compreendem-se, então, as diretrizes

do Santo Padre Pio XII na Encíclica

Sacra Virginitas, na qual ele

afirma que o celibato representa o

estado ideal, ainda que não se trate

de padre nem de freira, porque, em

si mesma considerada, a castidade

perfeita significa uma doação maior

a Deus nosso Senhor e proporciona

mais tempo para servir à Igreja.

Quer dizer, um movimento leigo

não pode manter-se sem muitas pessoas

que dediquem a vida inteira a

ele, quase como um sacerdote, embora

continuem nas fileiras do laicato.

E essa doação especial a Deus, no es-

GCI (CC3.0)

11


Eco fidelíssimo da Igreja

Arquivo Revista

tado leigo, é tão agradável a Ele que

atualmente a Igreja conta com associações

só de leigos, que continuam

a morar em suas casas, mas praticam

a pobreza, a castidade e a obediência

para melhor atuarem no apostolado.

Vê-se aí a importância que a Igreja

dá a essa ideia do leigo que se conserva

no mundo, nele trabalha para a

salvação das almas e liga-se ao serviço

de Deus pelo celibato, à semelhança

do sacerdote. Trata-se de um apostolado

em que muitos – intencionalmente

não digo todos – consagram-se

inteiramente, de tal maneira que renunciem

a todas as coisas da Terra.

Entretanto, cabe ressaltar que

aqueles que constituem família devem

continuar servindo a esse apostolado

na medida em que os laços

matrimoniais o permitam, sem deixar-se

dominar pelo seguinte estado

de espírito: “Faço apostolado porque

quero, não sou obrigado a fazê-lo.”

O Santo Padre Pio XII nos ensina

o contrário: o leigo também está obrigado

a fazer apostolado porque é fi-

Dr. Plinio com o uniforme da Linha de Tiro, em 1929

lho da Igreja. A vida

foi-lhe dada não

para gozar, mas para

ele carregar a

Cruz de Nosso Senhor

Jesus Cristo

e santificar-se. Todos

os problemas

de carreira e outros

desse teor são completamente

secundários

ante a santificação

das nossas

almas e a do

próximo. Nesse esforço

que os leigos

desenvolvem, ninguém

tem o direito

de dizer que devem

se sacrificar apenas

aqueles que são

muito inteligentes,

organizadores e capazes.

Não é assim.

Aqui se aplica a parábola

dos talentos:

cada um deve prestar contas a Deus

ainda que seja por

um só talento recebido.

Ai de nós se deixarmos

o talento enterrado,

sem fruto!

Dois caminhos,

uma escolha

Lembro-me de

uma série de problemas

que se apresentaram

a mim quando

eu contava entre dezenove

e vinte anos.

Eu tinha muita vontade

de fazer carreira

e dispunha dos

meios para isto. Por

outro lado, vinha-me

a ideia de dedicar-

-me ao apostolado

e a sensação viva do

que eu poderia realizar

pela Igreja.

Parábola dos Talentos - Catedral de

St. Colman, Cork, Irlanda

Eu imaginava os dois caminhos. O

primeiro, sem fazer apostolado: via-

-me homem provecto, rico, bem colocado,

usufruindo de todos os deleites

que a vida pode dar. Depois imaginava-me

fazendo apostolado e sentia

que, neste caso, o mundo não me

receberia bem e minha carreira ficaria

gravemente prejudicada. Ademais,

percebia que, se quisesse me

conservar um homem reto, jamais

conseguiria os cargos que desejava.

Contudo, ao pensar na primeira hipótese,

via-me com as mãos vazias de

méritos e contemplando a Igreja, minha

Mãe, esbofeteada, pisoteada, negada,

abandonada, servida com negligência

e ininteligência, por covardes

que fugiam quando ela era seriamente

atacada, enquanto eu me empanturrava

do que a vida oferece, com o peito

coberto de medalhas, sentado num

palacete ou num automóvel de luxo,

confesso que sentia náusea destas coisas,

náusea de mim mesmo, náusea de

tudo quanto não fosse o cumprimento

Andreas F. Borchert (CC3.0)

12


de meu dever. A visão de Jesus Cristo

no Horto das Oliveiras e sendo crucificado,

numa renovação de sua Paixão,

fazia-me compreender que esta

via não só me conduziria à perdição,

mas também me daria um constante

asco de mim mesmo.

E hoje eu percebo que, se houvesse

morrido nesse caminho, Deus teria

me pedido contas das almas de todos

aqueles que pertencem ao nosso

Movimento. Eu Lhe responderia que

não os conhecia e nada sabia a respeito

deles. Então o Divino Juiz me diria:

“Segundo os planos eternos de minha

Providência, você deveria ter estabelecido

relação com eles. Entretanto,

na hora em que eles precisaram de

sua ação direta ou indireta, você, pela

sua covardia, pela sua ambição, pela

sua falta de senso moral, pela sua

fundamental indiferença em relação

a Mim, pela sua vergonhosa adoração

a si mesmo, você não sabia que essas

pessoas existiam. Agora você será

medido, pesado e julgado. E irá para

o Inferno, porque todas as vezes que

um daqueles que Me personificavam –

pois todo católico é membro do meu

Corpo Místico – precisou de você, era

Eu que tinha sede de um bom conselho

e você não Me deu, Eu que estava

nu de forças para resistir ao adversário

e você não Me vestiu. Eu lhe dei recursos

para agir como devia, e você o que

fez? Empanturrou-se de comida, inebriou-se

de bebida, cobriu-se de condecorações

e gloríolas, tornou-se um

homem importante e se refestelou em

palácios e cadillacs, mas a Mim deixou

só.” Se isso me acontecesse, teria sido

merecido.

Responsabilidade do

apóstolo, mesmo sendo leigo

Recordo-me que, algum tempo

depois de ter resolvido entrar para a

Congregação Mariana e intencionalmente

não fazer carreira, li um fato

da vida de São João Bosco que muito

me impressionou. Ele era menino e

sonhou que homens de todas as raças

cercavam sua cama, de mãos postas,

pedindo-lhe que fosse logo até eles.

Muito anos depois Deus lhe deu a interpretação

do sonho. Os Salesianos

são missionários e se espalharam pela

Terra, e eram essas almas que eles

deveriam evangelizar que estavam ao

lado da cama de Dom Bosco pedindo

que ele se apressasse, porque precisavam

ser salvas.

Se eu, aos vinte anos, houvesse tido

um sonho assim, certamente veria

os Anjos da Guarda de muitos dos

que entraram e ainda entrarão em

nosso Movimento pedindo que me

apressasse.

Mas o que vale para mim, vale para

qualquer batizado. Se cada um pudesse

ver as almas que deve edificar e salvar,

veria também, ao lado do próprio

leito, os Anjos da Guarda dessas almas

pedindo que se apressasse. Porque os

acontecimentos correm, o Inferno não

dorme, o demônio trabalha constantemente

e a todo momento almas se pre-

Flávio Lourenço

Jesus sendo cravado na Cruz - Museu Nacional de Port-Royal-des-Champs, França

13


Eco fidelíssimo da Igreja

Flávio Lourenço

cipitam no Inferno. Compreende-se

então a tremenda responsabilidade de

um apóstolo, mesmo quando leigo. Devemos

nos dedicar ao apostolado de alma

e coração, como o bom sacerdote

que vive para o seu ministério com toda

a dedicação, pois sabemos quantas

contas Deus nos pedirá do imenso bem

que podemos fazer.

Uma recompensa

demasiadamente grande

Deus bate no coração de cada um

de nós dizendo: “Filho, vem e segue-

-Me.” Houve um pintor alemão que

fez um quadro representando Nosso

Senhor batendo numa porta, como

símbolo do Bom Pastor que bate

à porta do coração humano. Quando

foi exposta, a tela causou sensação.

Então certa pessoa se aproximou

do pintor e disse: “O quadro é

muito bonito, mas falta uma coisa.

O senhor se esqueceu de colocar fechadura

na porta.” O pintor respondeu:

“Fiz isso de propósito. A porta

do coração não tem fechadura do lado

de fora; ela só abre por dentro.”

De modo análogo, o Divino Espírito

Santo nos pede que Lhe abramos

a porta. Dar-Lhe tudo, consagrar-

-Lhe tudo é o que Deus pede de nós.

E consagrar tudo não é consagrar

muito, mas consagrar aquilo que dói

mais. Aquele que tem mania de ser

orgulhoso, que seja humilde. Aquele

que tem tendência para a impureza,

procure ser casto. Aquele que tem

desejo de fazer carreira, procure apagar-se.

Cada um dê a Nosso Senhor

aquilo que lhe custa mais, porque Ele

realmente o merece.

Agora cabe uma palavra sobre a

recompensa.

Deus prometeu: “Eu mesmo serei

a vossa recompensa demasiadamente

grande” (cf. Gn 15, 1). Ou seja,

Ele não dá uma recompensa, mas

Ele é a recompensa! E nisso Se assemelha

a um rei que diz aos seus soldados:

“Não os condecorarei, não

lhes concederei o título de duque,

nem mesmo lhes entregarei meu trono;

darei a Mim mesmo aos soldados

que tiverem combatido por Mim.”

Trata-se de uma recompensa verdadeiramente

demasiada.

Sebastião C.

Jesus salva São Pedro

enquanto caminha sobre as

águas - Convento de Santa

Maria Novella, Florença

Essa recompensa não consiste apenas

na salvação eterna, mas se inicia

na Terra. Uma imagem pode ajudar a

compreendê-lo. Imaginemos dois barcos

que singram o Lago de Tiberíades.

Um deles leva pescadores comuns, sobre

os quais paira a proteção divina,

segundo a Providência geral que Deus

tem para com todos. No outro barco a

situação é diferente... Os ventos soprarão

sobre esta embarcação. Mas Nosso

Senhor Se levantará e, como narra

o Evangelho (cf. Mt 8, 26-27), os ventos

e os mares Lhe obedecerão e a tormenta

será aplacada. Às vezes Ele pedirá

aos tripulantes do barco que andem

sobre as águas, como São Pedro,

e os sustentará.

De mesmo modo, quem foi chamado

por uma providência especial

de Deus, tem direito e obrigação a

uma confiança especial n’Ele.

Deus exige muito daqueles

aos quais deseja dar muito

O sacrifício de Isaac - Igreja dos Clérigos, Porto, Portugal

Quando tivermos problemas de

vida interior sobremaneira difíceis e

14


nebulosos, rezemos a Nossa Senhora,

certos de que Ela nos ajudará a

progredir. Quando nosso apostolado

estiver em crise, rezemos a Nossa

Senhora, certos de que sobre nós

paira uma providência especialíssima.

Quando surgirem dificuldades financeiras,

lembremos que Deus ama

aqueles que trilham a via da incerteza.

Quando notarmos que as coisas

se encrencam com facilidade, firmemo-nos

na certeza de que somos do

número daqueles a quem Deus protege.

Quando ficarmos numa dependura,

sem ter ninguém a quem apelar,

e nos conservarmos em inteira

paz, certos de que Deus nos ajudará,

aí seremos verdadeiros filhos d’Ele.

Então teremos o que Deus nos

prometeu, isto é, a recompensa demasiadamente

grande: após atravessarmos

muitas dificuldades, nós O

sentiremos ao nosso lado, constantemente

nos protegendo e apoiando.

Esta é a via da confiança especial na

Providência, mas confiança em cada

caso concreto, que tem direito de seguir

aqueles que se entregam a Deus

nesta vida.

É bem conhecida a história de

Abraão. Deus lhe prometera que seria

pai de uma numerosa descendência,

da qual nasceria o Messias. No

entanto, este homem que daria origem

a uma prole fecunda permanece

estéril até velhice e, quando tem

um filho, o Senhor lhe pede que o

imole. Com uma confiança cega na

Providência, ele não discute nem raciocina.

E só no momento em que o

sacrifício está interiormente realizado,

a ponto de ele levantar o braço

para o golpe, que o Anjo aparece e

o detém. Diante desta prova de confiança

o mensageiro celeste lhe diz

que sua descendência seria mais numerosa

que as estrelas do céu e as

areias do mar.

Às vezes Deus exige muito de

nós, para dar muito também. A raça

dos que vivem na dependura é a raça

daqueles a quem Deus nunca faltará.

Desejemos a graça de ficar, pelo

menos algumas vezes, neste estado,

de renunciar a todas as coisas da

Terra para só almejar as do Céu, de

compreender essa vocação especial,

da qual teremos de prestar contas

severíssimas. Mas compreendamos

tudo isso à luz do amor de Nossa Senhora,

que tem um amor inexprimível

por cada um de seus filhos e os

ampara sempre.

A vida de renúncia e de dedicação

completa do leigo tem esta grande

glória: é uma vida nos braços de

Maria e sob a proteção d’Ela. v

(Extraído de conferência de

21/1/1958)

1) Cf. Alocução ao Segundo

Congresso Mundial do

Apostolado dos Leigos,

5/10/1957.

2) Do italiano: “Se não é

verdadeiro, está bem

achado.”

Daniel A.

15


Teodoro Reis / Walterpeitz (CC3.0)

Denúncia profética

As portas do Inferno

não prevalecerão

contra a Igreja

Em meio às ondas encapeladas do mal que investem contra a Igreja

Católica, tenhamos a coragem de remar contra a maré, seguindo

os exemplos dos Santos. Façamos violência aos Céus por orações,

sacrifícios, zelo e combatividade para que em torno de nós as portas do

Inferno não prevaleçam contra a ação vivificadora da Esposa de Cristo.

Apromessa divina do Salvador,

de que as portas do Inferno

não prevalecerão contra a Santa

Igreja, não equivale a dizer que em

uma dada região ou em um determinado

país esteja livre o Catolicismo de ser

completamente banido e extirpado.

Não deixemos nos levar

por um estado eufórico

de vazio otimismo

É indestrutível a Igreja. A malícia

dos homens, porém, transformou em

deserto pagão, herético ou cismático,

muitos lugares em que a Esposa

de Cristo antes espargia o leite e o

mel de sua Doutrina e de sua missão

salvadora.

O Oriente cristão em grande parte

foi assim esmagado pela infidelidade

do Islã. Para citar exemplos

mais recentes, temos a Suécia, antes

cristianíssima, e onde o desenvolvimento

da heresia protestante acarretou

a extirpação completa da Igreja

Católica em uma determinada época.

Na Inglaterra, durante os reina-

dos de Henrique VIII e de Isabel,

o culto católico foi quase completamente

extinto, passando a ter uma

existência clandestina, e a Ilha dos

Santos, como era chamada, veio a

ser país de missão, ficando a cura de

almas ali confiada a sacerdotes que,

para desempenhar o sagrado ministério,

tinham de usar disfarces a fim

de ocultar sua identidade. Do mesmo

modo, nestes trinta anos de bolchevismo,

sabemos a que frangalhos

foi reduzido o trabalho apostólico da

Santa Sé na Rússia soviética.

16


É indefectível a Igreja, mas esta

certeza não nos deve levar a um estado

eufórico de vazio otimismo idêntico

ao dos habitantes de Bizâncio –

da Bizâncio dominada pela política

do Baixo Império –, os quais porfiavam

em fechar os olhos à realidade

dos muçulmanos acampados a poucas

léguas de suas portas.

Nossa atitude em relação a esta

verdade consoladora deve ser pautada

pelo exemplo dos Santos que a

Igreja suscitou.

Jansenismo, a heresia mais

sutil que o diabo engendrou

Ao ensejo da canonização de São

Luís Maria Grignion

de Montfort, vem a

propósito lembrar seu

exemplo e o de São

Vicente de Paulo, no

tocante a este ponto.

Viveram estes dois

Santos em uma época

e em um lugar dominado

por dois perniciosos

inimigos da unidade

católica. Embora

emergindo vitoriosa

de uma luta encarniçada

contra a heresia

protestante, achava-se

a França subjugada

pelo galicanismo

e pelo jansenismo.

O galicanismo, que

transferia para César

os direitos de Deus,

abria as portas ao erro

religioso do jansenismo,

entre outras

razões por dificultar a

aceitação do pronunciamento

da Santa Sé

em matéria de doutrina.

João Duvergier de

Hauranne 1 , Abade de

Saint-Cyran e um dos

mais destacados che-

A França, porém, providencialmente

encontrou em São Vicente

de Paulo e em São Luís de Montfort

dois articuladores seguros

do movimento

de resistência contra

tal investida heterodoxa,

os quais se conduziram

nesse emaranhado

cipoal de insidias

como verdadeiros

campeões da Fé

e da sã Doutrina, não

temendo nem a perseguição

dos maus

nem a incompreensão

dos bons no desempenho

da missão que

lhes reservara a Providência,

de combate

a tão terrível e perniciosa

heresia. Para

eles a crença na indefectibilidade

da Igreja

serviu de incentivo,

não para uma atitude

cômoda de complacência

com o erro

pelo temor de atiçar

o ódio dos maus e

de criar inimigos, mas

para conclamar os fiéis

a se abrigarem sob

o estandarte do Rei

invencível a que alude

Santo Inácio, visto

que as portas do Infes

jansenistas, assim se abria a São

Vicente de Paulo, quando tentava

“catequizá-lo” para a sua seita: “Calvino

não havia sido partidário de uma

causa assim tão má, apenas a havia

defendido mal.”

Não fosse o jansenismo a heresia

mais sutil que o diabo engendrou,

como diz Fleury… “Vendo que os

protestantes, separando-se da Igreja,

se condenaram a si próprios, e

que haviam sido censurados por esta

separação, tomaram os jansenistas

por máxima fundamental de sua

conduta não se separarem jamais exteriormente

do Catolicismo, protestando,

pelo contrário, sua submissão

às decisões da Igreja, com o cuida-

Prédica de São Vicente de Paulo - Museu

Nacional do Palácio Mansi, Lucca, Itália

do de achar todos os dias novas sutilezas

para explicá-las, de modo que

parecessem submissos sem mudar de

sentimentos.”

Insistindo, assim, em permanecer

dentro da Igreja e tudo fazendo para

impedir ou protelar uma condenação

de seus erros pérfidos e sutis,

tornavam os jansenistas assaz delicada

a situação de seus adversários.

A finalidade dessa heresia

era trabalhar pela completa

ruína da Religião Católica

Flávio Lourenço

17


Denúncia profética

ferno não prevalecem contra a Igreja,

mas se acham escancaradas para tragar

as almas dos infelizes transviados

e para estreitar e restringir os espaços

da caridade de Cristo.

A nenhum dos dois se pode aplicar

o terrível epiteto de cães mudos,

a que se referia o Profeta Isaías. São

Vicente, diante dos erros do jansenismo,

desejava, segundo Rohrbacher 2 ,

que os membros de sua Congregação,

embora evitando discussões estéreis,

“falassem claramente quando as circunstâncias

o exigissem, sem receio

de criarem inimigos”.

“Que Deus não permita, dizia São

Vicente, que esses fracos motivos, que

enchem o Inferno, impeçam os missionários

de defender os interesses de

Deus e de sua Igreja!” Foi à luz deste

princípio que ele rejeitou o conselho

de um seu irmão de hábito, de deixar

cada um crer nessas matérias controversas

o que julgasse a propósito.

“É preciso, adverte o Santo, que

tenhamos todos unius labii 3 , de outro

modo nós nos dilaceraremos

uns aos outros. Obedecer

neste ponto não é submeter-

-se a um superior, mas a Deus

e ao sentimento dos papas,

dos concílios e dos Santos. E

se qualquer um dos nossos assim

não agir, será melhor retirar-se,

a convite mesmo de

seus companheiros.”

Não parou, porém, aí o zelo

de São Vicente. Além de

batalhar pela obtenção de um

rescrito apostólico contra os

erros jansenistas, tudo fez para

que essa decisão pontifícia

fosse aceita por toda a França,

tão convencido estava do

perigo por que passava a filha

primogênita da Igreja diante

das maquinações da cabala,

que tinha João Duvergier de

Hauranne e Jansênio por chefes

e cuja finalidade era trabalhar

pela completa ruína da

Religião Católica.

Arquivo Revista

“Tenhamos a coragem de

remar contra a maré”

Seguindo as pegadas de São Vicente

de Paulo, São Luís de Montfort

haveria de ser alvo do ódio dos

sectários jansenistas por toda a sua

vida de apóstolo da sã Doutrina.

A um amigo de sacerdócio que o

censurava por provocar contradição,

crítica e perseguição por toda parte,

assim respondia Grignion de Montfort:

“Se a sabedoria consistisse em

não fazer falar de si, os Apóstolos fizeram

muito mal em sair de Jerusalém;

São Paulo, pelo menos, não devia

fazer tantas viagens, nem São Pedro

arvorar a Cruz sobre o Capitólio.

Semelhante sabedoria, sem dúvida,

não teria assustado a sinagoga,

que teria deixado em paz os primeiros

discípulos do Salvador; mas, então,

estes não teriam jamais conquistado

o mundo.”

Era de outra natureza a sabedoria

de São Luís de Montfort. “O que me

Dr. Plinio em 1947

faz dizer que obterei a divina sabedoria,

diz ele em carta dirigida à Irmã

Maria Luísa de Jesus, são as perseguições

que sofri e que estou sofrendo

todos os dias.”

Não é o discípulo maior que o Mestre,

e todo aquele que combate pela

boa causa pode estar certo de que o

“homem inimigo” não o poupará.

Dizia o jansenista de Saint-Cyran

a São Vicente de Paulo que Deus se

achava cansado com os pecados dos

homens em certos países, e por isso

lhes queria tirar a Fé, da qual se haviam

tornado indignos, sendo uma temeridade,

portanto, ir-se contra os desígnios

do Alto, defendendo a Igreja, quando o

próprio Deus resolvera perdê-la.

Não copiemos, por nossa fraqueza

e conivência com o espírito do

mundo, esse triste exemplo de derrotismo

jansenista, nem o vazio otimismo

dos bizantinos.

Em meio às ondas encapeladas do

mal, que hoje ameaçam a Civilização

Católica, tenhamos a coragem de remar

contra a maré, seguindo

o exemplo de São Vicente de

Paulo, o apóstolo da caridade,

e de São Luís de Montfort, o

apóstolo da verdadeira devoção

à Santa Mãe de Deus: fazendo

violência aos Céus por

nossas orações, por nossos

sacrifícios, por nosso zelo e

combatividade, para que em

torno de nós as portas do Inferno

não prevaleçam contra

a ação vivificadora da Santa

Igreja.

v

(Extraído de O Legionário

n. 781, 27/7/1947)

1) Jean-Ambroise Duvergier de

Hauranne (*1581 - †1643).

2) René François Rohrbacher

(*1789 - †1856), sacerdote e historiador

francês.

3) Do latim: uma só língua (cf.

Gn 11, 1).

18


Divulgação (CC3.0)

Revolução Industrial

Revolução

Industrial e

intemperança

A temperança é uma virtude cardeal cujo

efeito próprio é auxiliar cada uma das demais

virtudes a exercer-se perfeitamente. O vício

oposto, a intemperança, foi especialmente

desencadeada na sociedade em fins da

Idade Média, mas a Revolução Industrial

imprimiu-lhe um ritmo vertiginoso.

Devemos considerar os elementos

constitutivos da intemperança,

enquanto produzida

artificialmente pela Revolução

Industrial.

Um processo lento que

se torna vertiginoso no

início do século XX

O papel da Revolução Industrial,

como desencadeadora de todas as intemperanças,

fica mais claro se tomarmos

em consideração que a temperança

é uma virtude cardeal cujo

efeito próprio, conjugada com as demais

virtudes, é auxiliar cada uma de-

las a exercer-se perfeitamente. Por

exemplo, a fortaleza, em certo sentido,

pode existir em um homem sem

a temperança: um grande batalhador,

um corajoso, um Ferrabrás, tem elementos

muito característicos da virtude

da fortaleza; porém só a praticará

com perfeição se for temperante.

A intemperança foi especialmente

desencadeada em fins da Idade

Média. Portanto, quando a Revolução

Industrial arrebentou já havia

séculos de intemperança estabelecidos.

Apesar disso, ela imprimiu,

à sua maneira, um ritmo vertiginoso

àquilo que já vinha mar alto. A análise

de algumas fotografias dos Estados

Unidos, no início do século XX,

pode nos ajudar a compreender o

modo pelo qual a Revolução Industrial

produziu esse efeito.

Em termos de História francesa,

poderíamos situar o início da Revolução

Industrial no reinado de Luís

Filipe 1 . A máquina a vapor e coisas

congêneres tiveram uma expansão

muito lenta no começo, não sendo

suficiente para desatarraxar logo

os costumes. Este fenômeno verificou-se

também nos Estados Unidos.

A partir de certo momento essa

Revolução foi tomando intensidade

e, em 1850, já estavam postas todas

as condições para seu amplo cres-

19


Revolução Industrial

Divulgação (CC3.0)

Passeios pela praia em Soabreeze, Flórida, no início do século XX

A humanidade preparava-se para

os efeitos da Primeira Guerra Mundial.

Porém, quando eclodiu a Segunda

Guerra Mundial, os maiôs já

tinham invadido as praias e as pessoas

se preparavam para os efeitos do

comunismo.

É interessante considerar que essa

presença junto ao mar e esses prazeres

campestres têm um bisneto: a

ecologia. Não quer dizer que a pessoa

seja ecologista por passear no campo.

Contudo, trata-se de uma reação contra

o costume das pessoas, no século

XIX, de ficarem todo o tempo em

casa, fechadas, com horror às excursões.

Essa reação, feita de um modo

intemperante, provoca uma explosão

cujo bisneto é a ecologia.

E pelo modo como eles viam a natureza,

os trajes tinham que dar no

nudismo. Por exemplo, o traje campestre

de uma alemã de tempos anteriores

que faz um passeio no mato

é adequado a essa finalidade. Mas

a mulher que passeia no mato sem a

indumentária apropriada, de repente

quer encolher a saia ou qualquer

outra coisa, etc. É forçoso.

Eu acho que a vida social é, talvez,

dos vários aspectos de uma sociedade,

o mais indicativo de uma

psicologia, de uma mentalidade. E

como tal tem uma importância hiscimento.

E meio século mais tarde,

ao despontar o século XX, ela já tivera

tempo à vontade para se desenvolver.

Entrada dos Estados

Unidos na Primeira

Guerra Mundial

É muito pitoresco notar, pelos trajes

desse período, como a velha Europa

mantinha ainda “acorrentados”

os Estados Unidos que, por si, queriam

ir muito mais longe. Um exemplo

característico é o passeio das famílias

pela praia. Embora já indicasse

um desejo de entrar no mar, os

vestidos lembram as senhoras nas

ruas de Berlim, na mesma época.

Percebe-se, no contexto histórico

geral, que a psicologia americana era

louca para avançar muito mais nesse

tempo, mas como as senhoras de

Berlim, e também as de São Petersburgo,

Viena, Paris, Londres, andavam

todas assim, as norte-americanas

não ousavam ir além.

Quando este prestígio da Europa,

que funcionava como freio da intemperança,

se rompeu? Com a entrada

dos Estados Unidos na Primeira

Guerra, como grande potência mundial.

De maneira que, se quiséssemos

classificar as consequências his-

tóricas desse conflito, sob o ponto de

vista de ambientes e costumes, diríamos

que o grande acontecimento,

com a queda da Áustria, do último

Sacro Império, foi, em certo sentido,

a ruína da Europa inteira diante do

poderio norte-americano.

Comunismo, ecologia, nudismo

Notem a contradição entre os trajes

e as atitudes das mulheres nesse

ambiente campestre. Esse jogo já

cheira ao esporte, ao estádio, a tudo

quanto conduz à masculinização da

mulher. Entretanto, nas roupas a influência

da velha Europa se impõe.

Mulheres numa partida de golfe nas Olimpíadas de 1900

Divulgação (CC3.0)

20


tórica enorme, mais como documento

do que como acontecimento. Mas

como acontecimento também tem

muita importância.

Saudação de um

mundo sem tradição

Divulgação (CC3.0)

Banda americana entre os anos 1900-1909 - Minesota, Estados Unidos

Então chegou o automóvel! É interessante

nas primeiras corridas de

carro notar o estado de espírito do

triunfo. Estão todos triunfantes e

querendo se mostrar, como se participassem

um pouco da proeza dos

competidores. Não havia heroísmo

nenhum dentro disso. Não arriscaram

a vida em nada.

É a alegria vivaz de quem saúda

o advento de uma era nova, como

que dizendo “Viva o progresso!”

É a despedida do passado, a ruptura

com a tradição e a saudação de um

mundo sem tradição.

As pessoas saúdam nisso um estado

de espírito despreocupado, prático,

libertado de considerações sentimentais

ou metafísicas do século passado,

livre dos vínculos tradicionais

que ainda amarravam o homem às regras

de educação difíceis, complexas,

às normas de agir subtis, etc. É a técnica

se libertando do pensamento.

Outro efeito da Revolução Industrial,

que não aparece nessas fotografias,

é a arte moderna. A arte

procurou adaptar-se à Revolução

Industrial, e nessa adaptação ela encontrou

um modo sofismado de se

reduzir ao caixotão e às formas simplicíssimas.

Isso ainda não havia surgido

no tempo em que foram tiradas

essas fotografias.

Na foto do concerto de banda, nota-se

a seriedade ainda existente antes

da Primeira Guerra Mundial,

misturada com os costumes futuros.

Tudo isto iria desaparecer. Não

devemos transformar essas considerações

num histórico da alma norte-americana,

mas procurar os efeitos

da Revolução Industrial sobre tudo

isso.

Esses trajes, que as pessoas usavam

só no campo, tornaram-se depois

a indumentária para viajar em

trem, ônibus, automóvel a toda velocidade,

em suma viver no regime de

negócios americano. Todos os ritmos

da Revolução Industrial convidavam

para isso.

v

(Extraído de conferência de

10/9/1986)

1) Reinou de 1830 a 1848.

La Vie au Grand Air (CC3.0)

Gordon Bennett Cup, em 1904

21


Perspectiva pliniana da História

Richard (CC3.0)

Amor,

obediência

e veneração

pela Cátedra

de São Pedro

Cátedra de São Pedro

Basílica do Vaticano

A Cátedra de São Pedro lembra o supremo

governo da Igreja Católica Apostólica Romana.

Se as vicissitudes humanas podem dar a essa

Cátedra brilho maior ou menor, ou até rodeá-la

de trevas, ela é sempre a mesma. Nosso amor

à Santa Igreja é absolutamente sem limites

e acima de todas as coisas da Terra, e deve

incidir de modo especial sobre a Cátedra de

São Pedro, qualquer que seja o seu ocupante.

Vatican Museums (CC3.0)

Arespeito da festa da Cátedra

de São Pedro, Dom Guéranger,

em sua obra L’Année

Liturgique, cita um trecho do Sermão

82 de São Leão Magno. Eis os dizeres

deste Santo Pontífice:

A Providência preparou o

Império Romano para a

pregação do Evangelho

O Deus bom, justo e todo-poderoso,

que jamais negou sua misericórdia

22

São Leão Magno

Museu do Vaticano


ao gênero humano, e que pela abundância

de seus dons forneceu a todos

os mortais os meios de conhecermos

o seu Nome, nos secretos desígnios

de seu imenso amor, teve piedade da

cegueira voluntária dos homens e da

malícia que os precipitava na degradação,

enviou o seu Verbo, que Lhe é

igual e coeterno.

Ora, esse Verbo, tendo-Se feito carne,

tão estritamente uniu a natureza

divina à natureza humana que o abaixamento

da primeira até nossa abjeção

tornou-se para nós o princípio da

elevação mais sublime.

Mas, a fim de difundir no mundo

inteiro os efeitos desse favor, a Providência

preparou o Império Romano

e deu-lhe tão grandes limites que

ele abarcava em seu vasto meio a universalidade

das nações. Foi feita uma

coisa muito útil à realização da obra

projetada, que os diversos reinos formassem

uma confederação de um império

único, a fim de que a pregação

geral chegasse mais rapidamente aos

povos, unidos que já estavam sob o regime

de uma só cidade.

Roma, dominada

pelo demônio, foi

conquistada por Cristo

Esta cidade, desconhecendo o divino

Autor de seus destinos, fizera-se escrava

dos erros de todos os povos, no

instante mesmo em que ela os tinha

sob suas leis e acreditava possuir uma

grande religião, porque não rejeitava

nenhuma mentira. Mas quanto mais

duramente foi dominada pelo demônio,

mais maravilhosamente foi conquistada

por Cristo.

Com efeito, quando os doze Apóstolos,

após terem recebido do Espírito

Santo o dom de falar todas as línguas,

espalhados pelos quatro cantos

da Terra, e que tomaram conta deste

mundo onde deviam difundir o Evangelho,

o Bem-aventurado Pedro, príncipe

dos Apóstolos, recebeu como herança

a cidadela do Império Romano,

a fim de que a luz da verdade que se

manifestava para a salvação de todas

as nações se propagasse mais eficazmente,

difundindo-se no centro desse

Império sobre o mundo inteiro.

Qual a nação, com efeito, que não

contava com numerosos representantes

nessa cidade? Qual povo ignorava

o que Roma ensinava? Era lá que deviam

ser esmagadas as opiniões de Filosofia,

dissipadas as vaidades da sabedoria

terrestre, o culto dos demônios

seria confundido, destruída enfim

a impiedade de todos os sacrifícios, no

mesmo lugar onde uma superstição

hábil reunira tudo o que os diversos

erros haviam produzido.

A unidade civil do

Império Romano

preparou a aceitação

da unidade religiosa

A primeira ideia que aparece neste

texto é de que a humanidade estava

extremamente degradada, e Nosso

Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa

da Santíssima Trindade, encarnou-Se,

realizando por esta forma uma descida

que era imensa – porque do mais

alto dos Céus, do infinito, para uma

condição degradada –, mas há uma

correspondência entre o enorme dessa

descida e a extraordinária ascensão

que o gênero humano teve. Porque,

assim como Deus Se humilhou imensamente

encarnando-Se, nós fomos

incomensuravelmente elevados pela

Encarnação d’Ele.

Há uma expressão que diz:

“Quanto maior a altura, tanto maior

o tombo.” Aqui se poderia afirmar,

salvadas as proporções: “Quanto

maior o tombo, maior a altura.”

Quanto mais Deus Se humilhou,

tanto mais nós fomos prodigiosamente

levantados por Ele. Então,

vem acentuada aqui a imensa misericórdia

do dia de Natal, que patenteia

aos homens a elevação sublime e incompreensível

da natureza humana

pela união hipostática na Segunda

Pessoa da Santíssima Trindade.

O segundo pensamento é o seguinte:

esse favor da Providência só

daria todos os seus resultados pela

constituição do Império Romano.

Porque era um Império enorme que

continha, dentro de seu bojo, todas

as nações da orla do Mediterrâneo e

muitas outras ainda. Como se sabe,

o Império Romano estendeu-se até

o atual território da Inglaterra e um

Maquete representando Roma durante o

reinado de Constantino (306-337)

Jean-Pierre Dalbéra (CC3.0)

23


Perspectiva pliniana da História

Gabriel K.

Triunfo de Constantino na Ponte Mílvia

Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque

pouco o da Escócia; e que na linha

sul ele tocou as lindes da Etiópia.

A África do Norte era povoada,

fértil e intensamente latina no tempo

dos romanos, e o poder destes afundou

pela Pérsia adentro, tocando

quase até na Índia. De algum modo,

se podia dizer que o mundo conhecido

era todo romano. Ou seja, houve

uma unificação de incontáveis nações

sob um só Império, e São Leão Magno

mostra porque esta unificação serviu

para a difusão do enorme benefício

que houve, em que Cristo se Encarnasse

e elevasse a natureza humana.

Ele, então, dá algumas razões.

Uma razão, muito rapidamente

mencionada, é ligada ao fato de que

onde há um só Estado, sem fronteiras,

cabe mais facilmente a ideia de

uma só religião. E por causa disso

a unidade civil do Império Romano

preparava as mentes para a aceitação

de uma unidade religiosa.

A Roma dos Papas

Depois ele desenvolve uma ideia

mais viva, que é a seguinte: a cidade

de Roma era como que um coração

mantendo dentro de si, com movimentos

de sístole e diástole, um sangue

que circulava por todo o Império.

Em Roma havia habitantes de

todas as partes do Império, que ou

ali moravam e exerciam influência

sobre suas respectivas províncias, ou

estavam sempre em viagem e assim

levavam a influência de Roma para

os últimos recantos.

De um modo ou de outro, Roma

era como um coração que havia

atraído para si pessoas de todo o Império,

e depois mandava para longe

funcionários, legionários e todo

o aparelho administrativo e militar

romano. De maneira que, cristianizando

a cidade de Roma, estava conquistado

o ponto estratégico para a

cristianização do Império. Feita a

cristianização do Império, estava potencialmente

cristianizado o mundo.

Então ele explica que, por um desígnio

soberano de Deus, Roma foi

escolhida para ser a cidade do Papa

porque era uma cidade estratégica,

onde este benefício da salvação podia

se tornar mais geralmente conhecido.

Daí vem a Cátedra de São Pedro,

a qual se trata de venerar, posta no

centro de influência do mundo inteiro,

e que inoculou em todo o orbe a

regeneração católica, a verdadeira

Fé, disseminou a Igreja.

É bonito verificar como a Providência

age de um modo político interessante.

E eu não recuo diante da palavra

“político”. Enquanto a Igreja era

pequena e fraca, tornava-se necessário

que a sede d’Ela fosse na mais importante

cidade do mundo, para poder espalhar

a sua influência. Mas depois

que a Igreja se difundiu por todo o orbe,

convinha que o Papa, tornado personagem

humanamente poderosíssimo,

não convivesse na mais importante

cidade do mundo com o maior poder

temporal, porque sairia fricção. E

em certo momento, tornou-se necessário

que Roma não fosse mais a capital

política do mundo.

Então, Constantino deixou Roma

e se transladou para Bizâncio. Atribuem

alguns esta ideia a que exatamente

o Imperador não incomodasse

o papa, mas isso é um pouco discutido,

porque Roma já não era capital

do Império. A capital do Império

era Milão, Ravena, e nunca mais Roma

veio a ser a capital de um país que

fosse uma potência internacional.

Nós tivemos a Roma dos Papas,

que foi sempre um pequeno Estado

temporal. Depois a carnavalesca

Roma dos Saboias, capital do reino

da Itália. Esta Roma foi capital de

um Estado de alguma importância na

Europa, mas não de um poder político

e militar mundial. De uma influência

cultural mundial, sim; de um poder

político e militar mundial, não.

24


Vitold Muratov (CC3.0)

Amor sem limites ao papado

e à Cátedra de São Pedro

Poderia começar a aparecer, então,

uma espécie de opressão da Roma

civil, poderosa, sobre a Roma religiosa.

O que se passou? Ocorreu a

coisa mais inesperada do mundo. Para

tocar para a frente a obra de humilhação

do Papa, a Roma dos Saboias

foi uma Roma constitucional e depois

se transformou numa república. Mas

quando se fizeram as eleições, verificou-se

que a maior influência eleitoral

da Itália era o Papa. E hoje em

dia, por detrás do governo democrata-cristão,

é o Papa que governa.

De maneira que os papéis se inverteram

e, em vez de ser a Roma

civil que governa a Roma religiosa,

nós temos, até certo ponto, a Roma

religiosa que governa a Roma civil.

E assim, o desígnio de que o papado

fosse opresso pelo poder civil não

ser realizou.

Será o melhor possível esse governo

democrata-cristão? Uma coisa é

verdadeira: se São Pio X estivesse no

Sólio Pontifício, a Itália seria a nação

mais bem governada do mundo.

Quanto a isto não há dúvida!

Quando se fala da

Cátedra de São Pedro,

refere-se naturalmente

ao móvel da cátedra.

No fundo da Igreja de

São Pedro há uma cátedra

em bronze, feita por

Bernini 1 , cercada de resplendores,

recebendo

por isso o nome de “a

glória de Bernini.” Essa

cátedra é oca e dentro

se encontra o pequeno

trono de madeira, que

São Pedro usava em Roma,

o qual até hoje se

conserva para veneração

dos fiéis e é exposto

em certas ocasiões.

A cátedra simbolicamente

lembra o poder, o

papado, o pontificado, a

continuidade dessa instituição,

através de todos

os homens tão diferentes

que a têm ocupado. Recorda, então,

o supremo governo da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana.

Se as vicissitudes humanas podem

dar brilho maior ou menor, ou até

rodear de trevas essa Cátedra, ela é

Dr. Plinio em 1966

sempre a mesma. O supremo governo

da Igreja é a cabeça da Igreja. Quando

se ama alguém, se ama sobretudo

sua face, sua cabeça. Portanto, nosso

amor à Santa Igreja Católica Apostólica

Romana, que é um amor absolutamente

sem limites e acima de todas

as coisas da Terra, deve incidir especialmente

sobre o papado e a Cátedra

de São Pedro, qualquer que seja o

seu ocupante. Porque esse é Pedro, a

quem foram dadas as chaves dourada

e prateada, a do Céu e a do poder indireto

na Terra.

E a este Pedro nós osculamos, em

espírito, os pés, como expressão de homenagem

e de adesão. Porque em relação

à Cátedra de São Pedro, nosso

amor, nossa obediência, nossa veneração

absolutamente não têm limites.v

Arquivo Revista

(Extraído de conferência de

17/1/1966)

Altar da Cátedra de São Pedro, Vaticano

1) Gian Lorenzo Bernini (*1598 -

†1680), arquiteto e escultor italiano.

25


WGA (CC3.0)

C

alendário

Beato João de Fiesole

1. Beato Reginaldo de Orleans,

presbítero (†1220). Passando por Roma

e animado pela pregação de São

Domingos, fez-se dominicano, fundou

o grande convento de Bolonha e

deu novo vigor ao de Paris.

2. Apresentação do Senhor. Ver página

2.

Beato Luís Brisson, presbítero

(†1908). Sacerdote da diocese de

Troyes, fundou as congregações das

Irmãs Oblatas e dos Oblatos de São

Francisco de Sales.

3. São Brás, bispo e mártir (†c. 320).

Santo Oscar, bispo (†865).

Beata Maria Helena Stollenwerk,

virgem (†1900). Junto com Santo Arnaldo

Janssen, fundou a Congregação

das Servas Missionárias do Espírito

Santo, em Steyl, Holanda. Após deixar

a função de superiora, se entregou

à Adoração Perpétua.

4. São Nicolau Studita, monge

(†868). Abade do Mosteiro de Studion,

em Constantinopla, hoje Istambul,

Turquia. Foi exilado várias vezes

por defender o culto às imagens.

dos Santos – ––––––

Divulgação (CC3.0)

5. Santa Águeda, virgem e mártir

(†c. 251).

Santo Avito, bispo (†518). Converteu

ao Catolicismo São Segismundo, rei da

Borgonha. Defendeu as Gálias da heresia

ariana. Faleceu em Vienne, França.

6. São Paulo Miki e companheiros,

mártires (†1597).

São Mateus Correa, presbítero e

mártir (†1927). Durante a perseguição

contra a Igreja, se recusou a revelar

um segredo de Confissão e por isso

foi fuzilado em Durango, México.

7. V Domingo do Tempo Comum.

São Ricardo, leigo (†c. 720). Pai dos

santos Vinebaldo e Valburges, morreu

quando ia com seus filhos em peregrinação

da Inglaterra para Roma.

8. São Jerônimo Emiliani, presbítero

(†1537).

Santa Josefina Bakhita, virgem

(†1947).

Santo Estêvão, abade (†1124).

Fundador da Ordem de Grandmont,

perto de Limoges, França. Com sua

vida austera atraiu numerosos discípulos.

Beato Leopoldo de Alpandeire

9. Beato Leopoldo de Alpandeire,

religioso (†1956). Irmão leigo capuchinho,

que exerceu o ofício de hortelão,

porteiro, sacristão e esmoler. Faleceu

em Granada, Espanha.

10. Santa Escolástica, virgem

(†c. 547).

Beata Eusébia Palomino Yenes,

virgem (†1935). Trabalhou em diversas

casas de família até se tornar religiosa

salesiana, onde deu testemunho

de humildade, em Valverde del Camino,

Espanha.

11. Nossa Senhora de Lourdes.

12. São Ludano, peregrino (†1202).

Natural da Escócia, filho do príncipe

Hildebold, dedicou-se ao serviço dos

doentes e construiu hospitais e orfanatos.

Morreu em Northeim, Alemanha,

quando ia em peregrinação às

basílicas dos Apóstolos.

13. São Paulo Lê-Văn-Lôc, presbítero

e mártir (†1859). No tempo do imperador

Tu Ðúc, foi decapitado às portas

da cidade vietnamita de Thi-Nghè.

14. VI Domingo do Tempo Comum.

São Cirilo, monge (†869) e São

Metódio, bispo (†885).

Beato Vicente Vilar David, mártir

(†1937). Durante a perseguição religiosa,

acolheu sacerdotes e religiosas em

sua casa e por recusar-se a renegar a

Fé, foi fuzilado em Valência, Espanha.

15. São Cláudio de La Colombière,

presbítero (†1682). Sacerdote jesuíta,

superior do Colégio de Paray-

-le-Monial, França, que com seus retos

conselhos, conduziu muitas pessoas

ao amor de Deus.

16. São Maruta, bispo (†a. 420).

Presidiu o Concílio de Selêucia, restaurou

as Igrejas arruinadas na perseguição

do rei Sapor e recolheu as relíquias

dos mártires da Pérsia para serem

veneradas na cidade de sua sede

26


––––––––––––––– * Fevereiro * ––––

episcopal, a atual Silvan, Turquia, que

passou a chamar-se Martirópolis.

17. Sete Santos Fundadores dos

Servitas (†1310).

18. Beato João de Fiesole, presbítero

(†1455). Religioso dominicano e

pintor de fama mundial, mais conhecido

como Fra Angelico, possuía uma

alma profundamente contemplativa.

Morreu no convento de Santa Maria

sopra Minerva, em Roma.

19. Beato José Zaplata, religioso e

mártir (†1945). Religioso da Congregação

do Sagrado Coração de Jesus,

deportado da Polônia para o campo de

concentração de Dachau, Alemanha,

onde morreu vítima dos maus tratos.

Divulgação (CC3.0)

20. São Leão, bispo (†c. 787). Religioso

beneditino eleito Bispo de Catânia,

Itália. Dedicou com grande diligência

ao cuidado dos pobres e lutou

contra os iconoclastas.

21. I Domingo da Quaresma.

São Pedro Damião, bispo e Doutor

da Igreja (†1072).

Beato Reinaldo de Orleans

dou o Instituto das irmãs dos Anjos

da Guarda, em Bilbao, Espanha.

Butinone Bernardino (CC3.0)

Gachepi (CC3.0)

24. Beata Josefa Naval Girbés, virgem

(†1510). Consagrada a Deus no

mundo, dedicou-se em Algemesí, Espanha,

à catequese das crianças.

Santo Avito

Beato Vicente Vilar David

São Germano, abade (†c. 667).

Procurando defender com diálogos

pacíficos os habitantes vizinhos do

mosteiro de Grandfelt, Suíça, foi atacado

por ladrões e morto atravessado

por uma lança.

22. Festa da Cátedra de São Pedro

Apóstolo. Ver página 22.

São Papias, bispo (†séc. II). Bispo

de Hierápolis, Frígia (atual Turquia).

Foi companheiro de São Policarpo,

recolheu fatos narrados por testemunhas

dos Apóstolos e escreveu vários

comentários sobre os Evangelhos.

23. São Policarpo, bispo e mártir

(†c. 155).

Beata Rafaela Ybarra de Vilallonga,

fundadora (†1900). Mãe de sete

filhos, que com o assentimento do esposo,

emitiu os votos religiosos e fun-

25. Beato Ciríaco María Sancha y

Hervás, bispo (†1909). Bispo de Toledo

e Valência, Patriarca das Índias e

fundador da Congregação das Irmãs

da Caridade do Cardeal Sancha, em

Toledo, Espanha.

26. Santa Paula de São José Calasanz,

virgem (†1889). Fundadora do

Instituto das Filhas de Maria das Escolas

Pias, em Barcelona, Espanha.

Tinha como lema: Piedade e letras.

27. Beata Maria da Caridade Brader

do Amor do Espírito Santo, virgem

(†1943). Religiosa franciscana enviada

da Suíça para Pasto, Colômbia,

onde fundou a Congregação das Irmãs

Franciscanas de Maria Imaculada.

28. II Domingo da Quaresma.

São Romão, abade (†463). Seguindo

o exemplo dos antigos anacoretas, foi

viver como eremita na região do Jura,

França, e depois se tornou pai espiritual

de muitos monges. Ver página 28.

27


Hagiografia

A justiça e a misericórdia

se oscularam

Há espíritos que fazem admiravelmente o bem por meio

da severidade, e outros que o realizam, dentro da medida

do razoável, pela brandura e suavidade. Uns imitam mais

Nosso Senhor enquanto expulsava os vendilhões do Templo;

outros, enquanto Ele perdoava Santa Maria Madalena.

Flávio Aliança

A28 de fevereiro a Igreja comemora

a festa de São Romão,

abade. Temos a comentar

uma ficha biográfica tirada da

obra de Daras, Les Vies des Saints.

Lutar corajosamente

contra o demônio

São Romão, nascido em 399, na

Borgonha, foi fundador de um famoso

convento na região do Franco Condado.

Desde jovem retirou-se para a

solidão, sendo mais tarde seguido por

seu irmão, São Licínio. Conta-se que

levavam uma vida que consideravam

de paz e felicidade, quando o demônio

resolveu interrompê-la. Cada vez

que se punham de joelhos para rezar,

o demônio fazia cair sobre eles uma

chuva de pedras cortantes, que os feriam

e impediam de continuar. Ambos

resistiram por algum tempo, mas,

vendo que nada conseguiam, decidiram

abandonar o retiro. Ao chegarem

a uma aldeia, foram hospedados por

uma pobre mulher que lhes perguntou

de onde vinham. Não sem alguma

vergonha, narraram toda a verdade.

— Vós deveríeis, disse a mulher, lutar

corajosamente contra o demônio e

não temer os embustes e ódio daquele

que tão frequentemente foi vencido

pelos amigos de Deus. Se ele ataca os

homens, é por medo de que eles, por

suas virtudes, subam ao lugar de onde

a perfídia diabólica o fez cair.

Ao saírem dessa casa, consideraram

a sua fraqueza e quão pouco haviam

combatido. Voltaram sobre seus passos

e, com orações e paciência, venceram

o inimigo.

São Licínio era severíssimo

e São Romão agia

com brandura

Mais tarde, tendo já fundado numerosos

mosteiros, os dois irmãos visitavam

essas fundações com frequência. São Licínio

era severíssimo, não perdoando o

menor deslize. São Romão, ao contrário,

era bem mais misericordioso.

Aconteceu que São Licínio, visitando

um convento na Alemanha, encontrou

na cozinha excessiva quantidade

de legumes e peixes. Escandalizado

com aquilo, fez cozinhar tudo

junto para castigo dos monges. A comida

saiu tão repugnante que doze religiosos

deixaram a casa, não suportando

a penitência. São Romão teve

28

Cristo expulsa mercadores do Templo

Museu Palazzo Rosso, Gênova


Flávio Lourenço

Jesus comendo na casa do fariseu Simão - Museu de Belas Artes, Rennes, França

Divulgação (CC3.0)

uma visão sobre esse acontecimento e,

quando Licínio voltou, disse-lhe:

— Meu irmão, é melhor não visitar

as ovelhas do que ir vê-las para dispersá-las.

Resposta de São Licínio:

— Não tenhais pena, meu caro irmão!

Não é preciso purificar o campo do

Senhor e separar a palha do bom grão?

Os que se foram eram doze orgulhosos

em quem o Senhor não mais habitava.

São Romão concordou. Mas daí em

diante chorava tão profundamente, magoado

com a partida dos monges, que

Deus, atendendo suas preces, reconduziu

mais tarde os doze recalcitrantes ao

convento. A ele se apresentaram voluntariamente

para fazer penitência.

São Romão e São Licínio

Combatentes varonis

Nesta narração há uma série de

fatos interessantes para considerar.

Em primeiro lugar, encontramo-

-nos em face da admirável floração

de Santos ocorrida depois da queda

do Império Romano do Ocidente.

Vemos dois irmãos que levam uma

vida de grande santidade, num lugar

ermo, em meio a uma natureza

amena, bucólica, felizes sem os

atrativos das coisas da cidade, nem

do mundo.

Podemos imaginar, nas horas de

oração, esses irmãos ajoelhados, rezando

um ao lado do outro – assim

os representaria uma iluminura –,

Nossa Senhora aparecendo no alto e

sorrindo para eles.

Então, um primeiro ato é o da felicidade

eremítica e bucólica desses

dois irmãos, que vivem numa atmosfera

terrena encimada por um céu

parecido com o ar diáfano daqueles

firmamentos azuis de Fra Angelico.

Em seguida, vem a provação. O

demônio, que lhes tem ódio, emprega

um modo de castigá-los muito interessante:

uma chuva de pedras cortantes.

Eles, tão bonzinhos, tão direitinhos...

vem uma chuva medonha

de pedras cortantes e os molesta.

Procuram, então, rezar direito, mas

afinal de contas as pedras são muito

sérias e eles resolvem sair.

Encontram, por fim, uma boa mulher

que habita uma choupana no

campo. Ela perdeu o marido, tem

um filho que mora longe e de quem

apenas recebe, de vez em quando,

uma carta; com uma perna inchada,

doente, reumática, reza o tempo inteiro

e vive só para Deus.

Essa mulher, provada por sofrimentos

e cheia de sabedoria, recebe

os dois e, naturalmente, primeiro

lhes oferece algo para comer, ajuda

a curar alguma ferida causada pelas

pedras e depois pergunta o que há.

Fora está chovendo torrencialmente,

eles estão abrigados na casinha

da mulher e lhe contam o ocorrido.

Ela suspira, põe os olhos num crucifixo

e afirma:

29


Hagiografia

— Irmãos, andastes mal...

E lhes diz a verdade.

Eles, compungidos, passam a noite

em prece. Na manhã seguinte, voltam

para o ermo e vão lutar contra o demônio.

São dois guerreiros contra o

maligno que emergem dessa atmosfera

azul e rosa-claro, ouro rutilante, os

quais, a partir desse momento, transformam-se

em lutadores varonis. É a

formação deles que assim se enuncia.

Esse era o ambiente e o modo pelo

qual a graça operava nessa época. Portanto,

não se trata de lenda, mas é o

estilo da ação de Deus nesse período.

Os diferentes métodos devem

ser utilizados de acordo

com o sopro da graça

Arquivo Revista

Depois – na ficha saltam-se vários

anéis intermediários –, eles nos aparecem

numa posição pomposa, majestosa.

São dois Santos veneráveis, cuja fama

de santidade reuniu em torno deles

vários conventos que lhes

obedecem. Tornaram-se patriarcas,

provavelmente já de

barbas brancas, mais sábios,

mais provados na vida do que

aquela mulher, derrotaram os

demônios, enfrentaram os adversários,

fizeram viagens perigosas

passando por lugares

onde havia feras, pontes mal

construídas, bandidos, tempestades,

tudo enfrentaram

por causa de Deus Nosso Senhor.

Estão no zênite de suas

vidas, porém mais uma vez um

episódio entre eles se dará.

Há uma certa medida de severidade

e de brandura que deve

ser utilizada de acordo com

o sopro da graça e com o modo

pelo qual o Divino Salvador

quer conduzir os espíritos.

Existem espíritos que só sabem

fazer bem por meio da severidade

suma, e realizam um bem

admirável. Há outros espíritos

que, dentro da medida do razoável,

quase se diria que estão no extremo

oposto: são muito brandos, muito

suaves, e fazem bem pela sua brandura

e suavidade. Uns imitam mais Nosso

Senhor enquanto expulsava os vendilhões

do Templo; outros enquanto Ele

perdoava Santa Maria Madalena.

Começam a governar esses mosteiros.

São Licínio visita um deles e,

encontrando irregularidades, aplica

uma correção severa. Entretanto a

Igreja é multíplice, e São Romão tinha

o espírito diverso de seu irmão.

Notem a sutileza e o conteúdo teológico

interessantíssimo do fato: São

Romão lamentou tal atitude e censurou

São Licínio. Este deu-lhe uma

resposta esplêndida, explicando tudo.

São Romão, suspirando, concordou.

Severidade e doçura

aliadas à força da oração

Dr. Plinio em 1967

Mas a Providência quis que a misericórdia

não saísse derrotada. Onde

São Licínio tinha feito bem em

expulsar, São Romão fez bem em

pedir que voltassem. Este se pôs a

chorar, e vê-se então o velho com

as barbas brancas, numa atitude enternecida,

pensando naquelas almas,

as lágrimas cristalinas de olhos

cristalinos, que correm ao longo de

uma face alva e emaciada e chegam

a cair no chão, enternecem o Anjo

da Guarda e encontram eco diante

de Nossa Senhora, a Qual, por

sua vez, tem sempre audiência diante

de Deus. Maria Santíssima pede.

Resultado: os monges, que São

Licínio com tão boa vassoura varrera,

voltam. Não regressam como

ele tinha varrido, mas emendados

por uma ação que está para além

das vias normais da graça: não é o

corretivo de São Licínio, mas uma

bela superação dele. A graça conseguiu

a conversão daqueles que a

justiça, a tão bom título e tão oportunamente,

tinha castigado. Iustitia

et pax osculatæ sunt, diz o

Salmo (85, 11) – a justiça e

a paz se oscularam. Aqui se

poderia afirmar que a justiça

e a misericórdia se oscularam.

E termina assim, num

encantador happy end, esta

ficha.

Que São Romão nos consiga

essa candura de alma, tão

extraordinariamente agradável,

para praticarmos a virtude.

Mas que tenhamos também

a compreensão dos métodos

de São Licínio, e não

apenas a ternura empregada

por São Romão. E nos façam

parecidos com eles: São Licínio

nos dê toda a sua severidade;

e São Romão, a sua doçura

com sua força de oração,

pois sem esta de nada lhe valeria

a doçura. v

(Extraído de conferência de

28/2/1967)

30


Luzes da Civilização Cristã

Como um voo

Alberto Luccaroni (CC3.0)

angélico

Assim como o gótico, no seu início, manifestava uma força muito

grande, com riquezas de graça, delicadeza e leveza que só depois

se exprimiram, do mesmo modo, olhando para ele, no fundo de

nossas almas católicas há um anseio de que algo novo, realmente

magnífico ainda apareça. Nas obras do Espírito Santo não pode haver

contradição. Tudo é lógica por mais que o passo seja enorme.

ACatedral de Ravena, na Itália, é um edifício octogonal

construído num estilo bizantino muito

característico, com aquelas figuras em mosaico,

típicas da arte bizantina, postas numa espécie de estado

contemplativo, desligadas das circunstâncias concretas

de tudo, sobre um fundo dourado.

Os diversos estilos ao sopro do Espírito Santo

Passar desse estilo para o românico constitui, sem dúvida,

um salto. Não se deve confundir o românico com o greco-

-romano. Este último é o estilo grego com pequenas adaptações

feitas pelos romanos. O românico é uma adaptação que

os bárbaros fizeram do estilo romano a algo existente na alma

deles e que não havia no espírito da civilização romana.

Quando consideramos um estilo mais próximo do românico,

como é o da época de Ravena, não é fácil perceber

que de lá surgirá o românico. Entretanto, ao ver o

românico e depois o gótico, percebemos que o gótico estava

nascendo no românico.

Então, podemos dizer que o espírito de Ravena correspondia

a alguma coisa do gótico, mas com interferência

de algo violentamente diferente ligado ao romano antigo.

Já do românico para o gótico, pelo contrário, continua

em linha reta.

Assim como o gótico, no seu início, manifestava uma força

muito grande, com riquezas de graça, delicadeza e leveza

que só depois se exprimiram, mas que já estavam presentes

no gótico originário, poderíamos perguntar o seguinte:

quando o gótico chegou a exprimir a sua delicadeza, a par

de sua força, ele estava esgotado ou tinha mais algo?

A força e a graça são posições ou valores harmônicos,

mas tão diversos entre si que se diria, à primeira vista,

31


Luzes da Civilização Cristã

Marie Thérèse Hébert & Jean Robert Thibault (CC3.0)

Fachada e detalhes

da Catedral de

Ravena, Itália

tratar-se de uma contradição. Mas, de fato, dentro das

coisas da Igreja, como nas obras do Espírito Santo, não

pode haver contradição. Tudo é lógica por mais que o

passo seja enorme.

Algo de novo ainda poderá surgir do gótico

Tomado esse conjunto de força e de graça, qual é a nova

perfeição contida potencialmente no espírito católico

e que viria a se exprimir no Reino de Maria?

Poder-se-ia conjeturar que fosse uma coisa muito ousadamente

diversa e profundamente afim, mais ou menos

como a capa leve e graciosa de uma rainha, capaz de

tremular ao vento de tal maneira que uma pessoa pensasse

ter sido a capa dilacerada pela ventania. Mas, na

realidade, ela nunca se rasgou; voltou-se de um lado e

de outro e deu, por vezes, uma impressão de fragmentação,

porém um olhar bem exercitado perceberia a unidade

que nunca se rompeu. Assim, nós poderíamos conjeturar

o que seria o estilo do Reino de Maria.

Algo, portanto, que seria uma continuação do gótico

surpreendentemente descontínua na aparência, compensando,

por assim dizer, a sensação de fim de caminho,

de perfeição que não há como acrescer ao que o gótico

trazia consigo.

Há como crescer! Com um salto prodigioso, mas um

salto de Anjo. Um voo, não um salto, numa direção inteiramente

diversa, que apareceria e começaria a bri-

Isatz (CC3.0)

Darkugo (CC3.0)

32


lhar de um modo superior à conjetura do espírito humano.

Uma beleza que a graça faria ver em determinado

momento. Então, a nossa exclamação de entusiastas

do gótico, que quereríamos vê-lo conservado com veneração

no esplendor do Reino de Maria, seria: “Ah, era isso

mesmo que faltava!”

Porque, embora olhando para o gótico tenhamos a

impressão de não lhe faltar nada, no fundo de nossas almas

católicas há um anseio de que algo novo, realmente

magnífico, ainda apareça.

Um golpe de gênio

Dou um exemplo que pode chocar alguns rigoristas do

gótico. Bernini 1 foi um artista muito marcado pela Renascença;

entretanto, ele teve um golpe de gênio construindo

aquela colunata do lado de fora da Basílica de

São Pedro. Após ter visto essa colunata

com olhos de homem maduro

capaz de fazer uma análise, ficaram

dois efeitos no meu espírito.

Em primeiro lugar, um conjunto

de colunas coberto, tendo, portanto,

algo em comum com uma igreja

ou casa, mas muito mais arejado

do que qualquer destes ambientes;

uma colunata fora da igreja,

mas continuando o edifício sagrado,

constitui uma espécie de meio-

-termo harmônico entre o templo e o

mundo profano, que agrada ao espírito

conceber.

O próprio traçado da colunata da

Basílica de São Pedro é firme, lógico;

neste ponto pouco renascentista

por ser um traçado forte e sério, não

tendo aquele aspecto trêmulo das

coisas renascentistas.

Ademais, a colunata é majestosa.

Dir-se-ia que cada coluna é como

um soldado invisível prestando armas

e continência ao rei que passa.

Neste caso é o mais alto Rei da Terra,

o Papa, não considerado apenas

como soberano dos Estados Pontifícios,

mas como Rei deste Reino de

tamanho mais do que cesáreo, que é

Igreja Católica Apostólica Romana,

a qual se estende sobre toda a Terra,

penetra em todos os povos e abriga

em si todas as raças.

Outro efeito causado pela colunata

em meu espírito é a ideia

de que, depois de Bernini ter descoberto essa fórmula,

ninguém construiu uma igreja tão magnífica que

merecesse uma colunata, e se fizesse ficaria uma cópia

desagradável porque pretensiosa. Por outro lado,

mais ninguém teve talento para conceber um conjunto

de colunas e dar-lhe um desenho novo, que não seja

uma repetição da colunata de São Pedro. Ficou, portanto,

uma coisa encalhada. Mas vejo na colunata de

Bernini algo no qual talvez se pudesse vislumbrar um

prenúncio falho, abortivo, de um elemento para o Reino

de Maria.

É uma hipótese que eu carrego de incertezas; mas fica-me

uma impressão meio conjectural na alma de que,

para o exterior de igrejas, alguma coisa assim se inventará

no Reino de Maria, e para cuja elaboração essa

obra de Bernini foi apenas um esboço.

Igreja da Abadia de Maria Laach (estilo românico)

Renânia-Palatinado, Alemanha

Nikanos (CC3.0)

33


Luzes da Civilização Cristã

Deus deverá suscitar, a

pedido de Nossa Senhora,

um homem com talento

Dentro da Basílica de São Pedro encontramos

o Altar da Confissão, encimado por

um dossel sustentado por quatro colunas

também esculpidas por Bernini. Como todas

as obras de arquitetura da grande épo-

MarkusMark (CC3.0)

Jean-Pol GRANDMONT (CC3.0)

Colunata de Bernini - Praça de São Pedro, Vaticano

Mathieu_Pinto (CC3.0)

Altar da Confissão - Basílica de São Pedro, Vaticano

ca da Itália, são feitas de mármore. Os mármores italianos

são lindíssimos, e a pedra de que é construído aquele

conjunto é muito bonita. Entretanto, as colunas não

me agradam, por serem esculpidas num formato espiral

grossão e mole.

Mas está ali uma tentativa de representar algo que

correspondesse à seguinte pergunta do espírito humano

diante de uma coluna: “Esta coluna não poderia ter um

traçado em que ela, sem deixar de ser coluna, sugeriria a

ideia de um movimento mais elegante, mais leve?”

O artista tentou dar a resposta com aquela fórmula.

A meu ver, ele fracassou. Mas não haveria uma solução?

Nesta procura de algo que fizesse com que a coluna, sem

deixar de ser majestosa, alta e forte, apresentasse algo

de ligeiro, que é quase a antítese da coluna? Admito a

possibilidade de que seja assim, mas é uma incógnita.

Deus deverá suscitar, a pedido de Nossa Senhora, um

homem com talento igual ou talvez muito maior do que

o de Bernini para apresentar uma fórmula nessa linha.

Simplesmente em torno desses dois elementos – a colunata

externa da Basílica de São Pedro e o sonho que

as colunas do Altar da Confissão não realizaram – quiçá

nascesse um estilo novo.

34

Visão Geral da Praça de São Pedro, Vaticano


Hipóteses que não se podem perder de vista

Na Basílica de São Paulo, situada fora dos muros de

Roma, há também elementos artísticos muito bonitos

que apontam para um novo estilo, e cuja história conto

resumidamente.

No século XIX, aquela Basílica sofreu um incêndio que

danificou gravemente os vitrais. Quando o Papa Pio IX

mandou reconstruir a igreja, surgiu o problema de

substituir os vitrais perdidos, por outros que estivesse

à altura da beleza da Basílica. Às vezes, Deus Se

compraz em ser glorificado pelos seus adversários. O

Sultão da Turquia, maometano, ofereceu ao Pontífice

chapas de alabastro muito finas e bonitas, que davam

cada uma para encher o vácuo de uma janela.

Assim, por presente desse filho de Maomé, apareceu

uma forma de “vitral” muito bonita, porque

tinha o indeciso da luz que penetra através de certo

tipo de alabastro, com a delicadeza dos veios

discretos, mas imaginosos, que as pedras por vezes

apresentam.

Pio IX não teve dúvida nenhuma e mandou colocar

os alabastros.

Em viagem a Roma, pude ver algumas dessas

peças detidamente, e me veio ao espírito esta pergunta:

“Será que matérias homogêneas e não mais

com aquela riqueza cromática dos vitrais, mas com

um colorido homogêneo e discreto, não representariam

a nova fórmula de vitral no Reino de Maria?”

Diz-se com entusiasmo o que eu vou afirmar

sem entusiasmo: a indústria está muito avançada,

e por isso se fabricam joias falsas com toda espécie

de matérias levadas a altas temperaturas. Não haveria

algum grande artista capaz de fabricar matérias

mais bonitas do que o alabastro, e que, entretanto,

representassem uma fórmula nova para os vitrais

de uma igreja, de um palácio ou de um castelo?

São hipóteses que não podemos perder de vista,

compreendendo que se deve sentir nisto sempre

o espírito gótico, e nunca o repúdio desse espírito.

O espírito gótico presente, completado por

mais uma ogiva, que seria o elemento novo por ele

explicitado.

Se pudéssemos imaginar como será um Santo no Reino

de Maria, então conseguiríamos vislumbrar alguma

coisa da arte nesse Reino.

v

(Extraído de conferência de 28/7/1989)

1) Gian Lorenzo Bernini (*1598 - †1680), arquiteto e escultor

italiano.

Fachada da Basílica de São Paulo Extramuros, Roma

Interior da Basílica de São Paulo Extramuros, Roma

Berthold Werner (CC3.0)

Tango7174 (CC3.0)

35


Luis C.R. Abreu

Admirável lição de confiança

Estamos vivendo uma terrível hora

de castigos, mas também uma

admirável hora de misericórdia. A

condição para isto é olharmos para Maria,

a Estrela do Mar, que nos guia em

meio às tempestades.

Durante mais de cem anos, movida de

compaixão para com a humanidade pecadora,

a Santíssima Virgem, em Lourdes,

tem nos alcançado os mais estupendos

milagres. Esta piedade se terá extinguido?

Têm fim as misericórdias de uma Mãe, e

da melhor das mães? Quem ousaria afirmá-lo?

Se alguém duvidasse, Lourdes lhe

serviria de admirável lição de confiança.

Nossa Senhora há de nos socorrer.

(Extraído de Catolicismo n. 86,

fevereiro de 1958)

Nossa Senhora de Lourdes

Capela a Ela dedicada,

Mairiporã, Brasil

More magazines by this user
Similar magazines