Folha de Sala Digital transmissão online 28 fevereiro 2021 LA Traviata gravado14jun2018

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Notas de programa: Bárbara Villalobos Transmissão online de 28 de fevereiro de 2021

#SÃO

CARLOS

VOLTA A

SUA CASA

EDIÇÃO ARQUIVO 2017-18

TRANSMISSÃO ONLINE

28 FEV 2021 às 16H

Ópera

LA TRAVIATA

de GIUSEPPE

VERDI

SAOCARLOS.PT

#CULTURAÉIMAGINAÇÃO

Récita

gravada a

14 JUN 2018


04

FICHA ARTÍSTICA

06

DE RELANCE

08

A IMPORTÂNCIA

DE SER VIOLETTA

Bárbara Villalobos

20

LIBRETO

117

BIOGRAFIAS


LA TRAVIATA

Giuseppe Verdi

[1813–1901]

Ópera em três atos

Música de GIUSEPPE VERDI

Libreto de FRANCESCO MARIA PIAVE [1810 – 1876]


DIREÇÃO MUSICAL

Michele Gamba

ENCENAÇÃO, CENOGRAFIA E FIGURINOS

Pier Luigi Pizzi

REPOSIÇÃO DA ENCENAÇÃO E DESENHO DE LUZ

Massimo Gasparon

REMONTAGEM COREOGRÁFICA

Teresa Alves da Silva

VIOLETTA VALÉRY

Ekaterina Bakanova

FLORA BERVOIX

Joana Seara

ANNINA

Carolina Figueiredo

ALFREDO GERMONT

Luís Gomes

GIORGIO GERMONT

Alan Opie

GASTONE

João Cipriano

BARÃO DOUPHOL

Mário Redondo

MARQUÊS D’OBIGNY

João Merino

DR. GRENVIL

João Oliveira

GIUSEPPE, CRIADO DE VIOLETTA

Diocleciano Pereira

CRIADO DE FLORA

Costa Campos

COMISSÁRIO

João Rosa

Coro do

Teatro Nacional

de São Carlos

MAESTRO TITULAR

Giovanni Andreoli

Orquestra

Sinfónica

Portuguesa

MAESTRINA TITULAR

Joana Carneiro

ASSISTENTE DE ENCENAÇÃO

Matteo Mazzoni

ASSISTENTE DE DESENHO DE LUZ

Paulo Godinho

ASSISTENTE DE FIGURINOS

Sara Lopes

RESPONSÁVEL PELA REPOSIÇÃO DE GUARDA-ROUPA

Anabela Vicente

DIRETOR MUSICAL DE CENA

João Paulo Santos

MAESTROS CORREPETIDORES

Joana David

Nuno Margarido Lopes

CENÁRIOS, ADEREÇOS E GUARDA-ROUPA

Teatro Nacional de São Carlos

CARACTERIZAÇÃO

Fátima Sousa

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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BAILARINOS

Ana Moreno

Carlota Rodrigues

Catarina Casqueiro

Francisca Pinto

Marta Almeida

Michelle Luterbach

Elson Ferreira

Daniel Cascão

Pedro Carvalho

FIGURAÇÃO

Alexandre Quintas

Bruno Parreira

Pedro Sousa

Miguel Taborda

Ricardo Teixeira

Ricardo Silva

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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LA TRAVIATA

De Relance


ATO I

PRELÚDIO

VIOLETTA

Ah no, severo scritto mi

lasciava

CENA

CORO

Dell’invito tracorsa à già l’ora

INTRODUÇÃO

GERMONT

Di Provenza il mar, il suol…

CENA E ÁRIA

ALFREDO / VIOLETTA / FLORA /

BARONE /CORO

Libiamo, libiamo ne’ lieti

calici…

CENA

VIOLETTA

È strano, è strano… Sempre

libera…

CENA E ÁRIA

ATO II

ATO III

VIOLETTA

Addio, del passato bei sogni

ridente

PRELÚDIO, CENA E ÁRIA

CORO

Largo al quadrupede

BACCANALE

ALFREDO

De’ miei bollenti spiriti…

CENA E ÁRIA

VIOLETTA / ALFREDO

Parigi, o cara, noi lascieremo

CENA E DUETO

VIOLETTA / GERMONT

Pura siccome un angelo

CENA E DUETO

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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A IMPORTÂNCIA

DE SER VIOLETTA

Bárbara Villalobos

MUSICÓLOGA


No alvor da década de 1850, Verdi havia alcançado

um estatuto inabalável como compositor

sedimentado com o êxito estrondoso

de Nabucco (1842) mas, ainda, com a escrita

regular e sólida de mais uma dezena

de óperas bem como com a supervisão de

reposições e revisões de algumas delas entre

esse marco incontornável da história da

ópera e La traviata (1853).

Os proventos pelas encomendas operáticas eram elevados

e a eles juntavam-se-lhe os da publicação e venda

das suas partituras pela Ricordi. Essa condição económica

excecional permitiu-lhe a paulatina aquisição de

terrenos na Busseto natal. Aí – sem prejuízo de viagens

e estadas no estrangeiro, como Paris –, viria a estabelecer-se

em 1849 quando para lá se muda com Giuseppina

Strepponi, o soprano com quem formou uma ligação duradoura

vivendo com ela numa união de facto só oficializada

quando casaram, discretamente, em 1859, causando

entretanto escândalo.

Não obstante, a posição de Verdi como referência no

contexto musical e político da época permitia-lhe uma

situação anómala face às normativas sociais contemporâneas.

E a relação com Strepponi, que antes havia

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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tido uma vida profissional e pessoal agitada, terá sido

um dos motores que conduziu o compositor à escrita

de La traviata. Esta baseou-se na adaptação teatral

do romance autobiográfico de Alexandre Dumas, filho

(1848) e na sua relação com a cortesã Marie Duplessis,

estreada em fevereiro de 1852, altura em que Verdi a

viu em Paris e regressou a Itália motivado para escrever

uma versão operática dessa peça, encontrando em

Francesco Maria Piave a sensibilidade para a escrita

do libreto e apresentando-a em Veneza no Teatro La

Fenice em 1853. A estreia foi um fiasco, e Verdi só repôs

a obra em 1854, de novo em Veneza mas no Teatro San

Benedetto, com várias alterações à partitura, nomeadamente

ao dueto de Violetta e Germont no Ato II.

Pela inicial censura veneziana não passou a busca de

ambientação da obra na contemporaneidade. Ao contrário

do habitual até então, Verdi, que seguia a tendência

romântica para colocar as suas óperas em épocas

passadas, procurou uma abordagem à vida atual que

pretendia espelhar as suas contradições e hipocrisias.

Mas a obra só pôde ser estreada na condição de ser ambientada

no início do século XVIII por causa do tema:

a protagonista é uma cortesã, temática provocadora

e disruptiva que colocava em causa o falso moralismo

burguês em que homens casados e ricos mantinham

amantes com ou sem o conhecimento ou tolerância das

esposas; ou homens solteiros e também de posses, se

envolviam com essas mulheres, consideradas meros ornamentos

e objetificadas, não poucas vezes a troco da

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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oferta de presentes caros e aceites ou preteridos pelas

mesmas em função dessa capacidade de retorno. No

romance inicial, são referidos os prejuízos financeiros

e as dívidas constantes dessa vida com elevadas «despesas

de representação», bem menos fácil do que se

poderia inferir. Aliás, no início do Ato II de La traviata,

Alfredo apercebe-se no meio do seu idílio de que as

finanças são uma questão a ter em conta e apressa-se

a procurar resolver o problema após a sua cabaletta

«Oh mio remorso», por vezes omitida nas apresentações

hodiernas. E são estas as feridas sociais e pessoais nas

quais esta ópera coloca, de forma implacável, franca e

direta, o dedo.

O libreto de Piave modificou os nomes dos protagonistas,

com destaque para a mudança do da cortesã para

Violetta Valéry. Ao fazê-lo, talvez tanto Piave como Verdi

quisessem atenuar a relação direta com a obra de

Dumas, filho, escandalosa à época, mas também seriam

conhecedores da multiplicidade simbólica da violeta,

essa flor tão comum na cultura oitocentista, bem como

do seu potencial onomástico na construção psicológica

da personagem ao longo da ópera e da dicotomia

existencial da mesma.

Um nome fica para a vida, identifica-nos enquanto sujeito

e estabelece sentidos de pertença a vários níveis,

entre os quais o cultural, o histórico e o social que resultam

com frequência de homenagens a figuras de referência;

de questões de diferenciação social ou tradição

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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familiar – neste último caso habitualmente associada à

linhagem, verdadeira também para os nomes próprios

tanto quanto para os apelidos. Os nomes eram ou são

ainda frequentemente atribuídos a partir de santos, sob

cuja proteção e qualidades alegadamente fica a pessoa

que os leva.

Em La traviata, Verdi faz jus a essa complexidade e agitação

emocional por vezes contraditória e paradoxal

das personagens românticas e à multiplicidade simbólica

do nome da protagonista. Inicialmente, Violetta

tem uma vida de liberdade pessoal e sexual em nada

modesta ou discreta, como poderia sugerir à partida

o seu nome, pois pela sua pequena estatura essa flor

é símbolo de modéstia e discrição. Porém, enquanto

cortesã, pode ser nesse contexto assumida também

como uma panaceia para a vida aborrecida que muitos

homens tinham, atendendo a que as violetas eram

usadas na farmacopeia, pelo menos na antiguidade, e

logo no início do Ato I Violetta refere a vida mundana

como tal: «al piacere m’affido (...) soglio con tal farmaco

i mali sopir». Esta postura é fisicamente exigente e em

muito contribui para deteriorar a sua saúde – Violetta

é tísica e por isso frágil: tal como as flores homónimas,

é bela e atraente, mas capaz de murchar com facilidade.

A doença torna a sua vida efémera e também fútil

e desprovida de significado, alheada das questões

mais profundas do sentido da existência, o divertimento

e as múltiplas ligações sociais e sexuais sobrepondo-se

à reflexão, até se apaixonar por Alfredo e

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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encontrar um outro tipo de preenchimento com o qual

apenas havia ousado sonhar remotamente. A sombra

da morte paira sobre ela desde o início da ópera e

virá, de facto, a falecer nos braços do amado após a

resolução do equívoco que os separou, mas sem que

tenha, tragicamente, havido o tempo necessário para

viver em pleno o seu amor, revelado ele próprio efémero,

como a pequena flor, entre os romanos dedicada

aos defuntos podendo ser usada como ornamento

fúnebre. No século XIX, as violetas estavam ainda associadas

aos que morrem jovens, como é o caso, e a

sua morte no final assume contornos redentores. Se

considerarmos que a cor violeta é aquela mediante a

qual se realiza a transformação [Chevalier & Gheerbrant,

s.d.: 697] verificamos que a Violetta verdiana

será, efetivamente, alvo de uma transmutação espiritual

e quase alquímica (nigredo, rubedo e albedo para

os três atos respetivos, ou exposição, peripécia e catástrofe)

porque observamos que acaba por assumir

uma relação amorosa e afetuosa, embora com custos

sociais e financeiros, passando a vivenciar uma existência

mais consentânea com o seu nome. E, quando

abdica de Alfredo, Violetta assume um sentimento de

penitência interior no regresso à anterior existência

levando o segredo da sua renúncia ao amor como uma

cruz, pois a violeta é ainda a cor da quaresma e do sacrifício.

Como o retomar da sua antiga vida não durará

muito, parece forçada a viver a sua condição onomástica

em todas as dimensões simbólicas.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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A ópera é atravessada por vários duetos como impulsionadores

da ação e não apenas como peças líricas.

O eixo da obra é aquele entre Germont e Violetta no

qual esta é persuadida ao sacrifício de se afastar de Alfredo

determinando a sua ascensão moral e espiritual

interior e o declínio social e da saúde, conduzindo-a à

redenção pelo sacrifício e morte inevitáveis. Encontramos

pois nesta obra temas base na produção verdiana,

como a oposição entre indivíduos – Violetta e Alfredo –

e o coletivo patriarcal e parental simbolizado por Germont,

refletindo a sociedade da época. A vontade de

independência e felicidade de Alfredo colidem com a

opinião e necessidades paternas – Germont pretende

o melhor para si e para os seus, mas procura-o à custa

do sacrifício não apenas do filho como da figura que de

alguma maneira simboliza um universo que despreza

apesar de conviver hipocritamente com ele e da penitência

final e inútil pela dor causada.

A oposição entre o indivíduo e o social são aqui

também contrastados pelo binómio entre espaços

públicos e privados em que a ópera se ambienta. Há

um contraste vincado entre os espaços reservados

à intimidade nos quais a maioria do enredo decorre

desde que Alfredo e Violetta ficam a sós na casa

desta quando é acometida de um ataque de tosse e é

ajudada pelo futuro amante que lhe confessa o seu

amor; a vivência da sua paixão remete-os para o campo,

para longe do escrutínio social e para a discrição.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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A morte de Violetta também ocorre dentro das portas

do seu domicílio sem prejuízo de encontrarmos

vários momentos sociais, em particular aqueles no

início do Ato I e na Cena II do Ato II. Aí, decorrem festas,

respetivamente em casa de Violetta e de Flora, e

o ambiente é inequivocamente contemporâneo pela

presença das valsas ou galopes com que Verdi contornou

a censura veneziana. A valsa, em particular,

ritmo que atravessa o famoso «Brindisi» mas também

o dueto do Ato III «Parigi, o cara», verdadeira fuga

para a frente face à drástica realidade, uma dança de

pares muito popular no século XIX mas não no século

XVIII, e ainda habitual como peça pianística para entretenimento

amador nas reuniões ou espaços íntimos

oitocentistas, como bem nos demonstra o legado

de Chopin. Esse género é aqui um símbolo da

cultura mundana, do divertimento rodopiante e fútil

e todas as peças ligeiras de divertimento que Verdi

coloca nestes momentos – como no Ato II aquela em

duas partes em que surgem ciganos e, depois, figuras

mascaradas de toureiros –, oferecem a inequívoca

cor local de um código partilhado por qualquer

frequentador dos teatros da época. Todo este tipo de

música, na qual participa ativamente o coro sempre

bem concatenado com a trama, enfatiza, com as suas

explosões orquestrais acompanhadas de percussão,

a dimensão social e pública da obra, parecendo inicialmente

desvalorizar e fazer esquecer a doença de

Violetta, embora no Ato III o desfile carnavalesco que

se ouve em fundo o realce.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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Entretanto, a evolução musical e psicológica da personagem

observa-se nas suas linhas vocais que,

inicialmente em estilo de bel canto atravessando duas

oitavas, vão sendo cada vez menos ornamentadas e sóbrias:

das estonteantes piruetas vocais do Ato I atinge-

-se uma simplificação e depuração que chega aos contornos

recitados e realistas, quase veristas, da leitura

da carta de Germont no Ato III. Essa recitação é o símbolo

da sua doença e da sua impotência; e o regresso

de um canto mais sóbrio, com tentativas infrutíferas de

maior elaboração e extensão vocal, na continuação do

Ato III, pode entender-se como um desesperado «canto

do cisne» da moribunda.

Se, para Violetta, Verdi foi modificando as linhas melódicas,

tanto Alfredo como Germont mantêm um estilo

mais tradicional e esquemático na escolha das vozes

e na consistência do seu uso, com menos matizes que

Violetta e, também por isso, acabam por enfatizar o trajeto

musical da personagem: Alfredo é a típica personagem

romântica e apaixonada para a qual era inevitável

escolher a tradicional voz de tenor, aqui também

símbolo da elevação da sua paixão com frases elegantes

e coerentes, transbordante de sinceridade no seu

amor e mesmo, no Ato II, na linha fragmentada pela sua

mágoa e arrependimento por ter atirado a Violetta o

valor ganho ao jogo. Já Germont é um barítono, registo

característico do poder social e económico bem enraizado

na esfera do coletivo. As restantes personagens

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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e mesmo o coro servem sobretudo como elos de ligação

ou pano de fundo numa trama que assenta de facto

praticamente sobre este trio a quem são atribuídos os

momentos musicais realmente importantes: o dueto

com coro do «Brindisi» ao qual se sucede o dueto de

Violetta e Alfredo; depois, o belíssimo monólogo/cabaletta

«Sempre Libera» – pontuada por Alfredo a repetir

a melodia do seu amor em pano de fundo – com as suas

incertezas sobre a escolha da vida mundana ou uma

hipótese nunca realmente ponderada: a do verdadeiro

amor. O Ato II destaca-se pelo dueto entre Violetta

e Germont, bastante longo e por isso pouco usual, no

qual observamos, numa espécie de diálogo lírico, as várias

fases da procura de persuasão e contestação das

duas personagens até à rendição de Violetta perante

a figura patriarcal na segunda metade do dueto. Estas

etapas são sublinhadas por melodias, ritmos e matizes

orquestrais líricos, intimistas ou trágicos, numa fluidez e

coesão musical e dramática assombrosa. A Cena I conclui-se

com o belíssimo e desesperado «Amami Alfredo»

de Violetta antes da sua saída e posterior entrega

da carta de renúncia à vida a dois e da vã tentativa de

consolo de Alfredo pelo pai. A Cena II apresenta um

novo momento público e festivo no qual, contudo, um

Alfredo magoado atira a Violetta o dinheiro ganho ao

jogo, com reprovação geral. Por fim, no Ato III o maravilhoso

«Addio del passato» de Violetta, acompanhado

por um oboé lamentoso que se faz ouvir com frequência

ligado à personagem, desde logo quando Gastone a

informa no Ato I de que Alfredo pensa constantemen-

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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te nela; o dueto dos amantes «Parigi, o cara» no qual o

acompanhamento em estilo de valsa parece negar a

evidência da fatalidade através da afirmação de que

haverá um futuro e, por fim, a cabaletta conclusiva

de ambos «Gran Dio, morir si giovane» O final, «Prendi,

quest’immagine», assume os contornos pesados de

uma marcha fúnebre com toda a orquestra insistindo

num motivo homorrítmico percussivo e em pianíssimo

até ao desenlace final.

Várias são as formas como Verdi unifica esta obra musicalmente:

desde o prelúdio discreto que retrograda

os acontecimentos através de melodias-chave respetivamente

dos Atos III, II e I: a orquestra em pianissimo

entrecortada por pausas, insinuação da doença de

Violetta no Ato III; o momento do adeus ao seu amante

(melodia lírica mas descendente, de queda) no Ato II, e

uma caracterização ornamentada da mesma melodia

simbolizando a Violetta mundana e superficial do Ato

I. Tal como no prelúdio, toda a ópera será conduzida

primordialmente pelas cordas, conferindo-lhe, em vários

momentos, uma aura camarística consentânea com

o intimismo espacial e psicológico em que em grande

parte se desenvolve. E, da mesma maneira que o prelúdio

apresenta temas-chave, vários motivos ou melodias

reminiscentes se repetem ao longo da obra, dotando-a

de unidade e coesão. Mas é o momento mais conhecido

da ópera, o «Brindisi» do Ato I que, ao colocar nas palavras

de Violetta «divertamo-nos, pois fugaz e passageiro/é

o gozo do amor/é uma flor que nasce e morre/não

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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mais se podedesfrutar» nos demonstra que a vida e

o nome da personagem são um paradoxo que o final da

narrativa se encarrega de explicar.

A Violetta prostituta, cuja maior parte da sua vida assentou

no perene distanciamento das emoções, é

substituída pela Violetta apaixonada e envolvida por

um amor aparentemente perene. Essa passagem e essa

transformação são anuladas pelo peso do destino, desde

o início contido no nome, simbólico na sua determinística

inevitabilidade.

BIBLIOGRAFIA

Chevalier, Jean & Gheerbrandt, Alain, “Violeta”,

in Dicionário dos Símbolos. s.d.Teorema: 697-698.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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LA TRAVIATA

Libreto

O presente programa foi editado em junho de 2018 e, aquando da respetiva impressão,

a personagem Alfredo Germont seria interpretada pelo tenor Ivan Magri, que consta das fotografias

intercaladas pelo libreto. Contudo, por motivos pessoais, Ivan Magri não pôde participar na produção,

tendo sido substituído por Luís Gomes.


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

21 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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ATTO I

ATO I

Salotto in casa di Violetta.

Nel fondo è la porta che mette

ad altra sala; a sinistra,

un caminetto con sopra uno

specchio. Nel mezzo è una tavola

riccamente imbandita. Violetta,

seduta sopra un divano, sta

discorrendo col Dottore e con

alcuni amici, mentre altri

vanno ad incontrare quelli che

sopraggiungono, tra i quali

sono il Barone e Flora al

braccio del Marchese.

Salão em casa de Violetta

que comunica com uma outra

sala; à esquerda uma lareira

com um espelho em cima.

Ao meio uma mesa ricamente

posta. Violetta, sentada num

divã, conversa com o médico

e com alguns amigos, enquanto

outros convidados vão ao

encontro dos que acabam

de chegar, entre eles

o Barão e Flora dando

o braço ao Marquês.

CORO

Dell’invito trascorsa è già’ l’ora

Voi tardaste...

Giocammo da Flora.

E giocando quell’ore volar.

CORO

Passou já a hora do convite.

Chegais atrasados.

Estivemos a jogar em casa de Flora

e o tempo, jogando, voou!

VIOLETTA (andando loro incontro)

Flora, amici, la notte che resta

d’altre gioie qui fate brillar

fra le tazze

è più viva la festa...

VIOLETTA (indo ao encontro destes)

Flora, amigos, com outras alegrias

abrilhantai a noite que ainda resta.

Por entre as taças

a festa é mais viva!

FLORA, MARCHESE

E goder voi potrete?

FLORA, MARQUÊS

E vós podeis gozá-la?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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VIOLETTA

Lo voglio;

al piacere m’affido,

ed io soglio

col tal farmaco i mali sopir.

VIOLETTA

Desejo-o!

Confio-me ao prazer,

pois costumo adormecer

os meus males com tal medicina.

TUTTI

Sì, la vita s’addoppia al gioir...

TODOS

Sim, a vida redobra com o prazer.

GASTONE (entrando con Alfredo)

In Alfredo Germont,

o signora,

ecco un altro che molto vi onora;

pochi amici a lui simili sono.

GASTONE (entrando com Alfredo)

Minha Senhora, em Alfredo Germont

encontrareis um homem

que muito vos honra.

Poucos amigos há como ele.

VIOLETTA (dà la mano ad Alfredo,

che gliela bacia)

Mio Visconte,

merce’ di tal dono.

VIOLETTA (estende a mão a Alfredo,

que a beija)

Visconde,

obrigada por tal mercê.

MARCHESE

Caro Alfredo...

MARQUÊS

Caro Alfredo!

ALFREDO

Marchese...

ALFREDO

Marquês!

GASTONE (AD ALFREDO)

T’ho detto:

l’amistà qui s’intreccia al diletto.

GASTONE (para Alfredo)

Eu disse-te:

aqui a amizade alia-se ao prazer.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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VIOLETTA (ai servi)

Pronto è il tutto?

(un servo accenna di sì)

Miei cari sedete:

è al convito

che s’apre ogni cor.

VIOLETTA (aos criados)

Está tudo pronto?

(um criado acena afirmativamente)

Meus caros, sentai-vos;

que todos os corações

se abram ao convite.

TUTTI

Ben diceste!

Le cure segrete

fuga sempre l’amico licor.

(siedono in modo che Violetta resti tra

Alfredo e Gastone, di fronte vi sarà

Flora, tra il marchese ed il barone, gli

altri siedono a piacere. V’ha un momento

di silenzio; frattanto passano

i piatti, e Violetta e Gastone parlano

sottovoce tra loro)

TODOS

Bem dito!

O licor amigo afugenta sempre as

preocupações secretas.

(sentam-se de modo a que Violetta fique

entre Alfredo e Gastone; à sua frente

está Flora, entre o marquês e o barão,e

os outros sentam-se à sua vontade.

Faz-se um momento de silêncio.

Entretanto servem-se os pratos. Violetta

e Gastone falam baixo entre si)

GASTONE (piano, a Violetta)

Sempre Alfredo a voi pensa.

GASTONE (baixo, a Violetta)

Alfredo está sempre a pensar em vós.

VIOLETTA

Scherzate?

VIOLETTA

Brincais!

GASTONE

Egra foste, e ogni dì con affanno

qui volò, di voi chiese.

GASTONE

Durante a vossa doença ele veio aqui

todos os dias para saber notícias.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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VIOLETTA

Cessate.

Nulla son io per lui.

VIOLETTA

Calai-vos.

Não sou nada para ele!

GASTONE

Non v’inganno.

GASTONE

Não vos engano.

VIOLETTA (ad Alfredo)

Vero è dunque? Onde è ciò?

Nol comprendo.

VIOLETTA (para Alfredo)

Será então verdade? Como é possível?

Não compreendo!

ALFREDO (sospirando)

Si, egli è ver.

ALFREDO (suspirando)

Sim, é verdade.

VIOLETTA (ad Alfredo)

Le mie grazie vi rendo.

Voi barone, feste altrettanto.

VIOLETTA (para Alfredo)

Agradeço-vos.

Barão, não fizestes o mesmo.

BARONE

Vi conosco da un anno soltanto.

BARÃO

Conheço-vos há apenas um ano!

VIOLETTA

Ed ei solo da qualche minuto.

VIOLETTA

E ele há apenas um minuto!

FLORA (piano al barone)

Meglio fora se aveste taciuto.

FLORA (baixo, para o barão)

Melhor fora que vos tivesses calado!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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BARONE (piano a Flora)

Mi è increscioso quel giovin!

BARÃO (baixo, para Flora)

Irrita-me este rapaz!

FLORA

Perchè?

A me invece

simpatico egli è.

FLORA

Porquê?

A mim, pelo contrário,

até é simpático.

GASTONE (ad Alfredo)

E tu dunque non apri più bocca?

GASTONE (para Alfredo)

Então tu não abres mais a boca?

MARCHESE (a Violetta)

È a madama che scuoterlo tocca.

MARQUÊS (para Violetta)

É à senhora que cabe afirmá-lo.

VIOLETTA (mesce ad Alfredo)

Sarò l’Ebe che versa.

VIOLETTA (servindo Alfredo)

Serei como a Hebe que deita.

ALFREDO (con galanteria)

E ch’io bramo

immortal come quella.

ALFREDO (galante)

E que eu desejaria

ser imortal como ela.

TUTTI

Beviamo.

TODOS

Bebamos!

GASTONE

O barone, nè un verso,

nè un viva

troverete in quest’ora giuliva?

(il barone accenna di no)

Dunque a te!

GASTONE

Barão, nesta hora de alegria

não nos oferece um verso?

Um brinde?

(o barão recusa; para Alfredo)

Pois então, cabe a ti!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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TUTTI

Sì, sì,!

Un brindisi!

TODOS

Sim, sim!

Um brinde!

ALFREDO

L’estro non m’arride.

ALFREDO

A inspiração não me sorri!

GASTONE

E non sè tu maestro?

GASTONE

Mas então não és um poeta?

ALFREDO (a Violetta)

Vi fia grato?

ALFREDO (para Violetta)

Isso agradar-vos-ia?

VIOLETTA

Sì.

VIOLETTA

Sim!

ALFREDO (s’alza)

Sì?

L’ho già in cor.

ALFREDO (levanta-se)

Sim?

Já o tenho no coração!

MARCHESE

Dunque attenti

MARQUÊS

Então, atenção!

TUTTI

Sì, attenti al cantor!

TODOS

Sim, atenção ao cantor!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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ALFREDO

Libiam nè lieti calici

che la bellezza infiora,

e la fuggevol ora

s’inebri a voluttà.

Libiam nè dolci fremiti

che suscita l’amore,

poichè quell’occhio al core.

(indicando Violetta)

Onnipotente va.

Libiamo!

Amor fra i calici

più caldi baci avrà.

ALFREDO

Bebamos nos alegres cálices

que a beleza faz florescer,

e a fugitiva hora

embriagar-se-á com volúpia.

Bebamos aos doces arrepios

que o amor suscita, pois que esses

olhos vão diretos ao coração.

(indicando Violetta)

Bebamos!

O amor por

entre os cálices

recolhe beijos mais quentes.

TUTTI

Libiamo!

Amor fra i calici

Più caldi baci avrà.

TODOS

Bebamos!

O amor por entre os cálices

recolhe beijos mais quentes.

VIOLETTA (s’alza)

Tra voi saprò dividere

il tempo mio giocondo;

tutto è follia nel mondo

ciò che non è piacer.

Godiam, fugace e rapido

è il gaudio dell’amore;

è un fior che nasce e muore,

nè più si può goder.

Godiam!

c’invita un fervido

accento lusinghier.

VIOLETTA (levanta-se)

Convosco saberei compartilhar

o meu tempo de alegria;

tudo é loucura no mundo

quando não é prazer.

Gozemos, fugaz e rápida

é a alegria do amor;

é uma flor que nasce e morre

e que nunca mais se pode fruir!

Gozemos!

A tal nos convida

um vibrante e agradável som.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

29


TUTTI

Godiam!

La tazza e il cantico

la notte abbella e il riso;

in questo paradiso

ne scopra il nuovo dì.

TODOS

Gozemos!

A taça, o canto e o riso

a noite embelezam.

O novo dia vai encontrar-nos

neste paraíso!

VIOLETTA (ad Alfredo)

La vita è nel tripudio.

VIOLETTA (para Alfredo)

A vida é uma festa!

ALFREDO (a Violetta)

Quando non s’ami ancora.

ALFREDO (para Violetta)

Quando ainda não se ama!

VIOLETTA (ad Alfredo)

Nol dite a chi l’ignora.

VIOLETTA (para Alfredo)

Não o digais a quem o ignora.

ALFREDO (a Violetta)

È il mio destin così.

ALFREDO (para Violetta)

É este o meu destino!

TUTTI

Godiam!

La tazza e il cantico

la notte abbella e il riso;

in questo paradiso

ne scopra il nuovo dì.

(s’ode musica dal’altra sala)

Che è ciò?

TODOS

Gozemos!

A taça, o canto e o riso

a noite embelezam.

O novo dia vai encontrar-nos

neste paraíso!

(ouve-se música na sala contígua)

Que ruído é este?

VIOLETTA

Non gradireste ora le danze?

VIOLETTA

Não vos apeteceria agora dançar?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

30


TUTTI

Oh, il gentil pensier!

Tutti accettiamo.

TODOS

Que ideia simpática!

Aceitamos todos!

VIOLETTA

Usciamo dunque!

(s’avviano alla porta di mezzo, ma

Violetta è colta da subito pallore)

Ohimè!

VIOLETTA

Saiamos então!

(saem pela porta do meio, mas

Violetta empalidece subitamente)

Ai, eu!

TUTTI

Che avete?

TODOS

Que tendes?

VIOLETTA

Nulla, nulla.

VIOLETTA

Nada, nada.

TUTTI

Che mai v’arresta?

TODOS

Que vos detém?

VIOLETTA

Usciamo...

(fa qualche passo, ma è obbligata a

nuovamente fermarsi e sedere)

Oh Dio!

VIOLETTA

Saiamos.

(dá poucos passos, mas é obrigada a

sentar-se novamente)

Meu Deus!

TUTTI

Ancora!

TODOS

Outra vez!

ALFREDO

Voi soffrite?

ALFREDO

Estais a sofrer?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

31


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

32


TUTTI

O ciel! ch’è questo?

TODOS

Céus! Que se passará?

VIOLETTA

Un tremito che provo..

Or là passate...

(indica l’altra sala)

Tra poco anch’io sarò.

VIOLETTA

Senti um tremor.

Ide para dentro,

(aponta para outra sala)

em breve irei ter convosco.

TUTTI

Come bramate.

TODOS

Como desejais.

(tutti passano all’altra sala, meno Alfredo

che resta indietro)

(passam todos para a outra sala, menos

Alfredo,que fica para trás)

VIOLETTA (guardandosi allo specchio)

Oh qual pallor!

(volgendosi, s’accorge d’Alfredo)

Voi qui!

VIOLETTA (olhando-se ao espelho)

Oh, que palidez!

(voltando-se, repara em Alfredo)

Vós aqui?

ALFREDO

Cessata è l’ansia

che vi turbò?

ALFREDO

Já passou a ânsia

que vos atormentou?

VIOLETTA

Sto meglio.

VIOLETTA

Estou melhor.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

33


ALFREDO

Ah, in cotal guisa

v’ucciderete aver v’è d’uopo curadell’esser

vostro.

ALFREDO

Com a vida que levais

acabareis por vos matar!

Deveríeis ter mais cuidado.

VIOLETTA

E lo potrei?

VIOLETTA

Como poderei fazê-lo?

ALFREDO

Se mia foste,

custode io veglierei pe’vostri

soavi dì.

ALFREDO

Oh, se fosses minha,

eu velaria, qual guardião,

pela suavidade dos vossos dias.

VIOLETTA

Che dite?

Ha forse alcuno

cura di me?

VIOLETTA

Que estais dizendo?

Acaso há no mundo

alguém que se preocupe comigo?

ALFREDO (con fuoco)

Perchè nessuno

al mondo v’ama.

ALFREDO (fogosamente)

Porque não há ninguém

no mundo que vos ame.

VIOLETTA

Nessun?

VIOLETTA

Ninguém?

ALFREDO

Tranne sol io.

ALFREDO

Exceto eu!

VIOLETTA (ridendo)

Gli è vero!

Sì grande amor dimenticato avea.

VIOLETTA (rindo)

É verdade!

Tinha já esquecido esse grande amor!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

34


ALFREDO

Ridete?

E in voi v’ha un core?

ALFREDO

Ride-vos?

Existirá um coração dentro de vós?

VIOLETTA

Un cor?

Sì forse...

e a che lo richiedete?

VIOLETTA

Um coração?

Sim, talvez...

Para que o quereis?

ALFREDO

Oh, se ciò fosse,

non potreste allora celiar.

ALFREDO

Ah, se o tivesses,

não poderíeis assim troçar.

VIOLETTA

Dite davvero?

VIOLETTA

Falais verdade?

ALFREDO

Io non v’inganno...

ALFREDO

Não vos minto...

VIOLETTA

Da molto è che mi amate?

VIOLETTA

Amais-me há muito?

ALFREDO

Ah sì, da un anno!

Un dì, felice, eterea,

mi balenaste innante,

e da quel dì tremante

vissi d’ignoto amor.

Di quell’amor ch’è palpito

dell’universo intero,

misterioso, altero,

croce e delizia al cor.

ALFREDO

Ah sim, há um ano!

Um dia, feliz, etérea,

brilhastes diante de mim

e, desde esse dia, tremendo,

tenho vivido este secreto amor.

Este amor que é como o palpitar

de todo o universo,

amor misterioso, altivo,

cruz e delícia para o coração.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

35


VIOLETTA

Ah, se ciò è ver, fuggitemi

solo amistade io v’offro:

amar non so, nè soffro

un così eroico amor.

Io sono franca, ingenua;

altra cercar dovete;

non arduo troverete

dimenticarmi allor.

VIOLETTA

Se isso é verdade, fugi de mim!

Apenas vos posso oferecer amizade!

Não sei amar,

nem suporto um amor tão heroico.

Eu sou franca e ingénua,

deveis procurar outra.

Não será difícil

esquecer-me então.

GASTONE (si presenta sulla porta

di mezzo)

Ebben? Che diavol fate?

GASTONE (surge na porta

do meio)

Então? Que diabo fazeis?

VIOLETTA

Si folleggiava.

VIOLETTA

Dizíamos disparates.

GASTONE

Ah! ah!

Sta ben restate.

(rientra)

GASTONE

Está bem!

Podem continuar!

(reentra)

VIOLETTA (ad Alfredo)

Amor dunque non più

vi garba il patto?

VIOLETTA (para Alfredo)

Então... não se fala mais de amor!

Agrada-vos o pacto?

ALFREDO

Io v’obbedisco.

Parto.

(per andarsene)

ALFREDO

Obedeço-vos.

Parto.

(faz menção de partir)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

36


VIOLETTA

A tal giungeste?

(si toglie un fiore dal seno)

Prendete questo fiore.

VIOLETTA

Chegastes a tal ponto?

(tira uma das flores do decote)

Tomai esta flor!

ALFREDO

Perchè?

ALFREDO

Para quê?

VIOLETTA

Per riportarlo.

VIOLETTA

Para ma devolverdes.

ALFREDO

Quando?

ALFREDO

Quando?

VIOLETTA

Quando sarà appassito.

VIOLETTA

Quando tiver murchado.

ALFREDO

O ciel!

Domani!

ALFREDO

Céus!

Então, amanhã!

VIOLETTA

Ebben, domani.

VIOLETTA

Pois bem, amanhã!

ALFREDO (prende con trasporto il fiore)

Io son felice!

ALFREDO (enlevado, aceita a flor)

Estou feliz!

VIOLETTA

D’amarmi dite ancora?

VIOLETTA

Continuais a afirmar que me amais?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

37


ALFREDO (per partire)

Oh, quanto v’amo!

ALFREDO (saindo)

Oh, quanto vos amo!

VIOLETTA

Partite?

VIOLETTA

Partis?

ALFREDO (tornando a lei baciandole

la mano)

Parto.

ALFREDO (regressando para junto

dela, beijando-lhe a mão)

Parto.

VIOLETTA

Addio.

VIOLETTA

Adeus.

ALFREDO

Di più non bramo.

(esce. Tutti gli altri che

tornano dalla sala riscaldati

dalle danze)

ALFREDO

Nada mais desejo.

(sai. Entretanto regressam da outra

sala os convidados afogueados

pela dança)

TUTTI

Si ridesta in ciel l’aurora,

e n’è forza di partir;

merce’ a voi, gentil signora,

di sì splendido gioir.

La città di feste è piena,

volge il tempo dei piacer;

nel riposo ancor la lena

si ritempri per goder.

(partono)

TODOS

Desperta no céu a aurora

e é tempo de partirmos;

agradecemo-vos, gentil senhora,

esta esplêndida festa.

A cidade está cheia de festas.

É a época do prazer;

no repouso acharemos alento

para voltar a folgar brevemente.

(partem)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

38


VIOLETTA (sola)

È strano!

È strano...

In core scolpiti ho quegli accenti!

Saria per me sventura

un serio amore?

Che risolvi, o turbata anima mia?

Null’uomo ancora t’accendeva

o gioia ch’io non conobbi,

essere amata amando!

E sdegnarla poss’io

per l’aride follie del viver mio?

Ah, fors’è lui che l’anima

solinga nè tumulti

godea sovente pingere

de’ suoi colori occulti!

Lui che modesto e vigile

all’egre soglie ascese,

e nuova febbre accese,

destandomi all’amor.

A quell’amor ch’è palpito

dell’universo intero,

misterioso, altero,

croce e delizia al cor.

A me fanciulla, un candido

e trepido desire

questi effigiò dolcissimo

signor dell’avvenire,

Quando nè cieli il raggio

di sua beltà vedea,

e tutta me pascea

di quel divino error.

VIOLETTA (sozinha)

É estranho!

É estranho…

As suas palavras permanecem

esculpidas no meu coração!

Um verdadeiro amor

seria uma infelicidade

para mim?

Que resolves,

oh alma minha perturbada?

Nenhum homem

conseguiu ainda

incendiar-te!

Oh, alegria que nunca conheci:

ser amada, amando!

E poderei desdenhá-la

pela árida loucura

do meu viver?

Ah, talvez seja ele aquele

que a alma,

sozinha no tumulto,

se comprazia a imaginar

em cores ocultas.

Ele, que modesto e atencioso,

subiu as febris escadas

e acendeu em mim

uma outra febre,

despertando-me

para o amor!

Para esse amor

que é como o palpitar

de todo o universo.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

39


Sentia che amore è palpito

dell’universo intero,

misterioso, altero,

croce e delizia al cor!

Amor misterioso,

altivo, cruz e delícia

para o coração.

(resta concentrata un istante,

poi dice)

(concentra-se por uns instantes

e depois diz)

Follie!

Follie delirio vano è questo!

Povera donna, sola

abbandonata in questo

popoloso deserto

che appellano Parigi!

Che spero or più?

Che far degg’io!

Gioire!

Di voluttà nei vortici perire.

Sempre libera degg’io

folleggiar di gioia in gioia,

vò che scorra il viver mio

pei sentieri del piacer,

nasca il giorno, o il giorno muoia,

sempre lieta nè ritrovi

a diletti sempre nuovi

dee volare il mio pensier.

Loucuras!

Delírio sem consequência!

Pobre mulher, sozinha,

abandonada neste

populoso deserto

a que chamam Paris!

Que mais posso esperar?

Que devo fazer?

Gozar!

No vórtice da volúpia

morrer de volúpia! Gozar!

Sempre livre, devo saltitar de prazer

em prazer. Quero que a minha vida

decorra pelos caminhos do prazer.

Que nasça ou que morra o dia,

quero que sempre alegre me

encontre! O meu pensamento deve

voar para prazeres sempre novos.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

41 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

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LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

43 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

44


ATTO II

ATO II

Casa di campagna presso Parigi.

Salotto terreno. Nel fondo è

un camino, sopra il quale uno

specchio ed un orologio, fra

due porte chiuse da cristalli

che mettono ad un giardino. Al

primo piano, due altre porte,

una di fronte all’altra.

Sedie, tavolini, qualche libro,

l’occorrente per scrivere.

Casa de campo perto de Paris.

Salão térreo. Ao fundo, há uma

lareira, sobre a qual estão um

espelho e um relógio, entre

duas portas envidraçadas que

dão para um jardim. No primeiro

plano, duas outras portas, uma

em frente da outra. Cadeiras,

mesinhas, alguns livros e o

necessário para escrever.

ALFREDO (deponendo il fucile)

Lunge da lei per me non

v’ha diletto!

Volaron già tre lune

dacchè la mia Violetta

agi per me lasciò, dovizie, onori,

e le pompose feste

ove, agli omaggi avvezza,

vedea schiavo ciascun di sua bellezza

ed or contenta in questi ameni luoghi

tutto scorda per me.

Qui presso a lei

io rinascer mi sento,

e dal soffio d’amor rigenerato

scordo nè gaudi suoi

tutto il passato.

ALFREDO (arrumando uma espingarda)

Para mim, não existe prazer

longe dela!

Voaram já três meses

desde que a minha Violetta

deixou por mim, rapidamente,

as riquezas, os amores,

e as pomposas festas nas quais,

habituada a homenagens,

via todos escravizados à sua beleza.

E, agora, contente neste ameno lugar,

tudo esquece por mim.

Aqui, junto a ela, sinto-me renascer

e, ao contacto com este amor

regenerado, esqueço, na alegria,

todo o passado.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

45


De’ miei bollenti spiriti

il giovanile ardore

ella temprò col placido

sorriso dell’amore!

Dal dì che disse:

“vivere io voglio a te fedel”

dell’universo immemore

io vivo quasi in ciel.

(entra Annina in arnese da viaggio)

O juvenil ardor do meu

tumultuoso espírito

ela temperou com

o plácido sorriso do amor.

Desde o dia em que me disse:

«Quero viver fiel a ti!»

eu vivo quase no céu,

completamente alheado do universo.

(entra Annina em trajes de viagem)

ALFREDO

Annina, donde vieni?

ALFREDO

Annina, de onde vens?

ANNINA

Da Parigi.

ANNINA

De Paris.

ALFREDO

Chi tel commise?

ALFREDO

Quem te mandou ir lá?

ANNINA

Fu la mia signora.

ANNINA

Foi a senhora!

ALFREDO

Perchè?

ALFREDO

Para quê?

ANNINA

Per alienar cavalli, cocchi,

E quanto ancor possiede.

ANNINA

Para se desfazer dos cavalos, das

carruagens, e de tudo o que possui!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

46


ALFREDO

Che mai sento!

ALFREDO

Que ouço?

ANNINA

Lo spendio è grande

a viver qui solinghi.

ANNINA

É muito dispendioso

viverem aqui sozinhos.

ALFREDO

E tacevi?

ALFREDO

E não me dizias nada?

ANNINA

Mi fu il silenzio imposto.

ANNINA

Foi-me imposto silêncio!

ALFREDO

Imposto!

Or v’abbisogna?

ALFREDO

Imposto!

E quanto é preciso?

ANNINA

Mille luigi.

ANNINA

Mil luíses!

ALFREDO

Or vanne.

Andrò a Parigi.

Questo colloquio ignori la signora.

Il tutto valgo a riparare ancora.

(Annina parte)

ALFREDO

Agora vai-te embora. Eu vou a Paris.

Que a senhora não saiba desta

conversa. Ainda estou a tempo de

reparar tudo.

(Annina sai)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

47


ALFREDO

O mio rimorso!

O infamia!

E vissi in tale errore?

Ma il turpe sogno a frangere

il ver mi balenò.

Per poco in seno acquetati,

o grido dell’onore;

m’avrai securo vindice;

quest’onta laverò.

ALFREDO

Oh, remorsos!

Oh, infâmia!

E vivi eu em tal erro!

Mas a verdade despertou-me do

meu vergonhoso sono.

Acalma-te um pouco,

apelo da honra!

Terás em mim um certeiro vingador!

Eu lavarei esta mancha!

(esce. Violetta ch’entra con alcune

carte, parlando con Annina, poi Giuseppe

a tempo)

(sai. Violetta entra com algumas cartas

na mão, conversando com Annina. Depois

entra Giuseppe)

VIOLETTA

Alfredo?

VIOLETTA

Alfredo?

ANNINA

Per Parigi or or partiva.

ANNINA

Acabou de partir para Paris.

VIOLETTA

E tornerà?

VIOLETTA

E vai voltar?

ANNINA

Pria che tramonti il giorno...

Dirvel m’impose.

ANNINA

Antes do pôr do sol.

Mandou-me informar-vos.

VIOLETTA

È strano!

VIOLETTA

Que estranho!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

48


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

49


ANNINA (presentandole una lettera)

Per voi.

ANNINA (entregando-lhe uma carta)

É para vós.

VIOLETTA (la prende)

Sta bene. In breve

Giungerà un uom d’affari...

entri all’istante.

(Annina e Giuseppe escono)

VIOLETTA (pegando na carta)

Muito bem. Deve estar a chegar um

homem de negócios.

Façam-no entrar imediatamente.

(Annina e Giuseppe saem)

VIOLETTA (leggendo la lettera)

Ah, ah, scopriva Flora il mio ritiro!

E m’invita a danzar per questa sera!

Invan m’aspetterà.

(getta il foglio sul tavolino

e siede)

VIOLETTA (lendo a carta)

Ah, ah! Flora descobriu o meu

esconderijo e convida-me para o baile

desta noite. Vai esperar-me em vão.

(lança a carta para cima da mesa

e senta-se)

GIUSEPPE

È qui un signore.

GIUSEPPE

Está aqui um senhor!

VIOLETTA

Sarà lui che attendo.

(accenna a Giuseppe d’introdurlo)

VIOLETTA

Deve ser quem espero.

(dá sinal a Giuseppe para o fazer entrar)

GERMONT

Madamigella Valéry?

GERMONT

Menina Valéry?

VIOLETTA

Son io.

VIOLETTA

Sou eu!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

50


GERMONT

D’Alfredo il padre in me vedete!

GERMONT

Sou o pai de Alfredo!

VIOLETTA (sorpresa, gli accenna

di sedere)

Voi!

VIOLETTA (surpresa, convida-o

a sentar-se)

Vós?

GERMONT (sedendo)

Sì, dell’incauto, che a ruina corre,

ammaliato da voi.

GERMONT (sentando-se)

Sim, pai do incauto que corre para a

ruína enfeitiçado por vós.

VIOLETTA (alzandosi risentita)

Donna son io, signore,

ed in mia casa;

ch’io vi lasci assentite,

più per voi che per me.

(per uscire)

VIOLETTA (levantando-se, ofendida)

Eu sou uma senhora

e estou em minha casa.

Permita que me retire,

mais por vós do que por mim!

(como se saísse)

GERMONT

Quai modi!

Pure...

GERMONT

(Que maneiras!)

Contudo...

VIOLETTA

Tratto in error voi foste.

(toma a sedere)

VIOLETTA

Alguém vos induziu em erro.

(volta a sentar-se)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

51


GERMONT

De’ suoi beni

dono vuol farvi.

GERMONT

Ele quer doar-vos

todos os seus bens.

VIOLETTA

Non l’osò finora.

Rifiuterei.

VIOLETTA

Não ousou ainda fazê-lo.

Eu recusaria.

GERMONT (guardandosi intorno)

Pur tanto lusso...

GERMONT (olhando em seu redor)

Mas… e todo este luxo?

VIOLETTA

A tutti è mistero quest’atto.

A voi nol sia.

(gli dà le carte)

VIOLETTA

Este facto é um mistério para todos.

Que o não seja para vós.

(dá-lhe a ler alguns documentos)

GERMONT (dopo averle scorse

coll’occhio)

Ciel! Che discopro!

D’ogni vostro avere

or volete spogliarvi?

Ah, il passato perchè,

perchè v’accusa?

GERMONT (depois de os ter percorrido

com o olhar)

Céus! Que descubro!

Quereis despojar-vos

de todos os vossos bens?

Por que vos acusa

o passado?

VIOLETTA (con entusiasmo)

Più non esiste.

Or amo Alfredo, e Dio

lo cancellò col pentimento mio.

VIOLETTA (com entusiasmo)

O passado já não existe.

Deus apagou-o com o meu

arrependimento, agora que amo

Alfredo.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

52


GERMONT

Nobili sensi invero!

GERMONT

Na verdade, nobres sentimentos.

VIOLETTA

Oh, come dolce

mi suona il vostro accento!

VIOLETTA

Como soam doces

as vossas palavras!

GERMONT (alzandosi)

Ed a tai sensi

un sacrificio chieggo.

GERMONT (levantando-se)

Venho pedir-vos

um sacrifício.

VIOLETTA (alzandosi)

Ah no...

... tacete!

Terribil cosa

chiedereste certo

il previdi.

V’attesi era felice

troppo!

VIOLETTA (levantando-se)

Ah, não...

… calai-vos!

Pedir-me-eis por certo algo de

terrível!

Tinha-o previsto.

Esperava-vos…

Eu era demasiado feliz!

GERMONT

D’Alfredo il padre

la sorte, l’avvenir domanda or qui

de’ suoi due figli.

GERMONT

O pai de Alfredo

pede-vos pelo destino

e pelo futuro dos seus dois filhos.

VIOLETTA

Di due figli?

VIOLETTA

Dos dois filhos?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

53


GERMONT

Sì.

Pura siccome un angelo

Iddio mi diè una figlia;

se Alfredo nega riedere

in seno alla famiglia,

l’amato e amante giovane,

cui sposa andar dovea,

or si ricusa al vincolo

che lieti ne rendea...

deh, non mutate in triboli

le rose dell’amor.

Ai preghi miei resistere

non voglia il vostro cor.

GERMONT

Sim.

Deus deu-me uma filha

pura como um anjo;

se Alfredo se negar

a voltar ao seio da família

o amado e amante jovem

de quem ela iria ser esposa

nega-se agora a aceitar o vínculo

que os tornaria felizes.

Não transformeis em espinhos

as rosas do amor.

Que às minhas súplicas

não queira resistir o vosso coração.

VIOLETTA

Ah, comprendo...

dovrò per alcun tempo

da Alfredo allontanarmi doloroso

fora per me pur...

VIOLETTA

Compreendo…

Deverei afastar-me

de Alfredo por um tempo.

Ser-me-á muito doloroso, mas...

GERMONT

Non è ciò che chiedo.

GERMONT

Não é isso que vos peço.

VIOLETTA

Cielo!

Che più cercate?

Offersi assai!

VIOLETTA

Céus!

Que mais quereis?

Ofereci já bastante!

GERMONT

Pur non basta!

GERMONT

Mas não é suficiente!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

54


VIOLETTA

Volete che per sempre

a lui rinunzi?

VIOLETTA

Quereis que renuncie a ele

para sempre?

GERMONT

È d’uopo!

GERMONT

É necessário que assim seja!

VIOLETTA

Ah, no giammai!

Non sapete

quale affetto

vivo, immenso m’arda in petto?

Che nè amici, nè parenti

io non conto tra i viventi?

E che Alfredo m’ha giurato

che in lui tutto io troverò?

Non sapete che colpita

d’altro morbo è la mia vita?

Che già presso il fin ne vedo?

Ch’io mi separi da Alfredo?

Ah, il supplizio è si spietato,

che morir preferirò.

VIOLETTA

Ah, não!

Nunca! Jamais!

Não sabeis que vivo e imenso afeto

me arde no peito?

Que eu não tenho, entre os vivos,

nem amigos nem parentes?

E que Alfredo me prometeu

que eu encontraria nele tudo isso?

Não sabeis que a minha vida

está condenada por uma atroz

enfermidade?

Que eu já vejo próximo o fim?

Que eu me separe de Alfredo?

Suplício tão cruel! Preferirei morrer!

GERMONT

È grave il sacrifizio,

ma pur tranquilla udite...

Bella voi siete e giovane...

Col tempo...

GERMONT

O sacrifício é grave.

Contudo, ouvi-me tranquila.

Sois bela e jovem…

com o tempo...

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

55


VIOLETTA

Ah, più non dite

v’intendo m’è impossibile

lui solo amar vogl’io.

VIOLETTA

Não digais mais, já vos entendi.

Mas é-me impossível.

Só a ele quero amar.

GERMONT

Sia pure ma volubile

Sovente è l’uom.

GERMONT

Assim seja. Mas o homem é

frequentemente volúvel.

VIOLETTA

Gran Dio!

VIOLETTA

Meu Deus!

GERMONT

Un dì, quando le veneri

il tempo avrà fugate,

fia presto il tedio a sorgere

che sarà allor?

Pensate!

Per voi non avran balsamo

i più soavi affetti

poichè dal ciel non furono

tai nodi benedetti.

GERMONT

Um dia, quando o tempo

tiver afastado as primaveras

surgirá depressa o enfado.

Que sucederá então?...

Pensai!

Para vós não servirão de bálsamo

os mais suaves afetos,

pois os vossos laços

não foram abençoados pelo céu.

VIOLETTA

È vero!

VIOLETTA

É verdade!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

56


GERMONT

Ah, dunque sperdasi

tal sogno seduttore.

Siate di mia famiglia

l’angiol consolatore.

Violetta, deh, pensateci,

ne siete in tempo ancor.

È Dio che ispira, o giovine

tai detti a un genitor.

GERMONT

Termine-se então

um sonho tão sedutor!

Tornai-vos no anjo benfeitor

da minha família.

Violetta, por favor, pensai!

Ainda estais a tempo!

É Deus quem inspira, oh jovem,

tais palavras a um pai.

VIOLETTA (fra sè, con estremo dolore)

Così alla misera ch’è un dì caduta,

di più risorgere speranza è muta!

Se pur beneficio

le indulga Iddio,

l’uomo implacabile per lei sarà.

(a Germont, piangendo)

Dite alla giovine sì bella e pura

ch’avvi una vittima della sventura,

cui resta un unico

raggio di bene

che a lei il sacrifica

e che morrà!

VIOLETTA (para si com extrema dor)

A miserável que caiu uma vez

não tem esperança de se reerguer!

Mesmo quando Deus perdoa,

benevolente o homem será

implacável para ela.

(para Germont, chorando)

Dizei à jovem tão bela e pura

que há uma vítima da desventura

a quem já só resta

um único raio de felicidade.

E que a ela o sacrifica,

morrendo em seguida.

GERMONT

Sì, piangi, o misera!

Supremo, il veggo,

è il sacrificio ch’ora io ti chieggo.

Sento nell’anima già le tue pene;

coraggio!

E il nobile cor vincerà.

(silenzio)

GERMONT

Chora, infeliz, chora!

É incomensurável, constato-o agora,

o sacrifício que te peço.

Sinto na minha alma a tua dor.

Coragem!

O teu nobre coração vencerá.

(silêncio)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

57


VIOLETTA

Or imponete.

VIOLETTA

Ordenai o que fazer!

GERMONT

Non amarlo ditegli.

GERMONT

Dizei-lhe que não o amais!

VIOLETTA

Nol crederà.

VIOLETTA

Não acreditará.

GERMONT

Partite.

GERMONT

Parti.

VIOLETTA

Seguirammi.

VIOLETTA

Seguir-me-á.

GERMONT

Allor...

GERMONT

Então...

VIOLETTA

Qual figlia m’abbracciate

forte così sarò!

(s’abbracciano)

Tra breve ei vi fia reso,

ma afflitto oltre ogni dire.

A suo conforto di colà volerete.

VIOLETTA

Abraçai-me como a uma filha.

Assim serei forte!

(abraçam-se)

Em breve vos devolverei Alfredo,

embora mais triste do que se possa

dizer. Apressai-vos depois a consolá-lo.

(indicandogli il giardino, va

per scrivere)

(indicando-lhe o jardim, prepara-se

para escrever)

GERMONT

Che pensate?

GERMONT

Que pensais fazer?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

58


VIOLETTA

Sapendol,

v’opporreste al pensier mio.

VIOLETTA

Sabendo-o,

opor-vos-íeis ao meu plano.

GERMONT

Generosa!

e per voi che far poss’io?

GERMONT

Generosa!

Que posso fazer por vós?

VIOLETTA

Morrò!

La mia memoria

non fia ch’ei maledica,

se le mie pene orribili

vi sia chi almen gli dica.

VIOLETTA

Morrerei!

Fazei com que ele

não amaldiçoe a minha memória.

Que haja alguém que lhe conte

os meus horríveis sofrimentos.

GERMONT

No, generosa, vivere,

e lieta voi dovrete,

merce’ di queste lagrime

dal cielo un giorno avrete.

GERMONT

Não, generosa, deves viver,

e viver feliz!

O céu um dia pagar-vos-á estas

lágrimas com o perdão.

VIOLETTA

Conosca il sacrifizio

ch’io consumai d’amor

che sarà suo fin l’ultimo

sospiro del mio cor.

VIOLETTA

Que ele conheça o sacrifício

que eu realizei por amor;

e que saiba que o último suspiro

do meu coração irá para ele!

GERMONT

Premiato il sacrifizio

sarà del vostro amor;

d’un opra così nobile

sarete fiera allor.

GERMONT

O sacrifício do vosso amor

será premiado.

Ficareis orgulhosa

de um gesto tão nobre.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

59


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

60 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

61


VIOLETTA

Qui giunge alcun:

partite!

VIOLETTA

Está alguém a chegar!

Ide-vos!

GERMONT

Ah, grato v’è il cor mio!

GERMONT

Como vos está grato o meu coração!

VIOLETTA

Non ci vedrem più forse.

(s’abbracciano)

VIOLETTA

Talvez não nos tornemos a ver!

(abraçam-se)

A DUE

Siate felice!

Addio!

(Germont esce per la porta del giardino)

OS DOIS

Sede feliz!

Adeus!

(Germont sai pela porta do jardim)

VIOLETTA

Dammi tu forza, o cielo!

(siede, scrive, poi suona il campanello.

Annina entra)

VIOLETTA

Céus! Dai-me forças!

(senta-se, escreve, e toca a campainha.

Entra Annina)

ANNINA

Mi richiedeste?

ANNINA

A senhora chamou?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

62


VIOLETTA

Sì!

Reca tu stessa questo foglio!

(Annina ne guarda la direzione e se

ne mostra sorpresa)

Silenzio va all’istante!

(Annina parte)

Ed ora si scriva a lui.

Che gli dirò?

Chi men darà il coraggio?

(scrive e poi suggella)

VIOLETTA

Sim!

Entrega tu mesma esta carta!

(Annina lê o endereço e demonstra

surpresa)

Silêncio! Vai imediatamente!

(Annina sai)

E agora tenho de escrever-lhe.

Que lhe vou dizer?

Quem me dará coragem?

(escreve uma carta e lacra-a)

ALFREDO (entrando)

Che fai?

ALFREDO (entrando)

Que fazes?

VIOLETTA (nascondendo la lettera)

Nulla.

VIOLETTA (escondendo a carta)

Nada.

ALFREDO

Scrivevi?

ALFREDO

Escrevias?

VIOLETTA (confusa)

Sì... no...

VIOLETTA (confusa)

Sim... não...

ALFREDO

Qual turbamento!

A chi scrivevi?

ALFREDO

Que perturbação!

A quem escrevias?

VIOLETTA

A te...

VIOLETTA

A ti…

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

63


ALFREDO

Dammi quel foglio.

ALFREDO

Dá-me essa folha!

VIOLETTA

No, per ora.

VIOLETTA

Ainda não.

ALFREDO

Mi perdona son io preoccupato.

ALFREDO

Perdoa-me. Estou preocupado…

VIOLETTA

Che fu?

VIOLETTA

Que aconteceu?

ALFREDO

Giunse mio padre.

ALFREDO

Chegou o meu pai.

VIOLETTA

Lo vedesti?

VIOLETTA

Viste-o?

ALFREDO

Ah no:

severo scritto mi lasciava.

Però l’attendo,

t’amerà in vederti.

ALFREDO

Não; deixou-me uma mensagem

muito severa.

Estou à espera dele.

Assim que te vir vai gostar de ti.

VIOLETTA (molto agitata)

Ch’ei qui non mi sorprenda.

Lascia che m’allontani...

... tu lo calma.

(mal frenato il pianto)

VIOLETTA (muito agitada)

Não quero que ele me surpreenda

aqui. Deixa que eu me afaste.

Tu acalma-o.

(contendo a custo as lágrimas)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

64


Ai piedi suoi mi getterò divisi

ei più non ne vorrà sarem felici

perchè tu m’ami,

Alfredo,

non è vero?

Lançar-me-ei aos seus pés.

Ele não quererá separar-nos.

Seremos felizes!

Porque tu amas-me, Alfredo,

não é verdade?

ALFREDO

O, quanto!

Perchè piangi?

ALFREDO

Oh, quanto te amo!

Porque choras?

VIOLETTA

Di lagrime avea d’uopo

or son tranquilla.

(sforzandosi)

Lo vedi? Ti sorrido

sarò là, tra quei fior

presso a te sempre.

Amami, Alfredo,

quant’io t’amo!

Addio.

(corre in giardino)

VIOLETTA

Precisava de chorar,

agora estou mais calma.

(com esforço)

Vês? Estou a sorrir-te.

Estarei ali, entre as flores,

sempre, junto a ti!

Ama-me, Alfredo,

como eu te amo!

Adeus!

(corre para o jardim)

ALFREDO

Ah, vive sol quel core

all’amor mio!

(siede, prende a caso un libro, legge

alquanto, quindi si alza guarda l’ora

ssull’orologio ovrapposto al camino)

ALFREDO

Ah, aquele coração

vive apenas para o meu amor!

(senta-se, pega num livro ao acaso, lê

algo, depois levanta-se e olha para o

relógio em cima da lareira)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

65


È tardi: ed oggi forse

più non verrà mio padre.

Já é tarde e o meu pai

provavelmente já não chegará hoje.

GIUSEPPE (entrando frettoloso)

La signora è partita

l’attendeva un calesse, e sulla via

già corre di Parigi Annina pure

prima di lei spariva.

GIUSEPPE (entrando, apressado)

A senhora partiu.

Esperava-a um coche

que vai já a caminho de Paris.

Annina partiu também, antes dela.

ALFREDO

Il so, ti calma.

ALFREDO

Eu sei, acalma-te.

GIUSEPPE (fra sè)

Che vuol dir ciò?

(parte)

GIUSEPPE (para si)

Que significará tudo isto?

(sai)

ALFREDO

Va forse d’ogni avere

ad affrettar la perdita.

Ma Annina lo impedirà.

(si vede il padre attraversare in

lontananza il giardino)

Qualcuno è nel giardino!

Chi è là?

(per uscire)

ALFREDO

Talvez vá apressar

a venda de todos os seus bens.

Mas, vai impedi-la disso.

(ao longe, vê-se o pai passar no jardim

ao fundo)

Está alguém no jardim...

Quem está aí?

(preparando-se para sair)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

66


COMMISSARIO (alla porta)

Il signor Germont?

MENSAGEIRO (à porta)

O senhor Germont?

ALFREDO

Son io.

ALFREDO

Sou eu!

COMMISSARIO

Una dama

da un cocchio, per voi,

di qua non lunge,

mi diede questo scritto.

(dà una lettera ad Alfredo, ne riceve

qualche moneta e parte)

MENSAGEIRO

Uma dama

num coche, perto daqui,

deu-me esta mensagem para vos

entregar.

(entrega uma carta a Alfredo, recebe

algumas moedas e parte)

ALFREDO

Di Violetta!

Perchè son io commosso!

A raggiungerla forse ella m’invita.

Io tremo!

Oh ciel! Coraggio!

(apre e legge)

“Alfredo, al giungervi di questo foglio”

(come fulminato grida)

Ah!

(volgendosi si trova a fronte del padre,

nelle cui braccia si abbandona)

Padre mio!

ALFREDO

De Violetta!

Que estranho, estou emocionado!

Talvez ela me convide a ir juntar-me

a ela. Estou a tremer!

Céus! Coragem!

(abre a carta e lê)

«Alfredo, quando receberes esta

mensagem...»

(como que fulminado, solta um grito)

Ah!

(voltando-se, encontra seu pai, em

cujos braços se lança, exclamando)

Meu pai!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

67


GERMONT

Mio figlio!

Oh, quanto soffri!

Tergi, ah, tergi il pianto.

Ritorna di tuo padre orgoglio

e vanto!

(Alfredo disperato, siede presso il tavolino

col volto tra le mani)

Di Provenza il mar, il suol

chi dal cor ti cancello?

Al natio fulgente sol

qual destino ti furò?

Oh, rammenta pur nel duol

ch’ivi gioia a te brillò;

e che pace colà sol

su te splendere ancor può.

Dio mi guidò!

Ah! il tuo vecchio genitor

tu non sai quanto soffrì

te lontano,

di squallor il suo tetto si coprì.

Ma se alfin ti trovo ancor,

se in me speme non fallì,

se la voce dell’onor

in te appien non ammuti,

Dio m’esaudì!

(abbracciandolo)

Nè rispondi d’un padre

all’affetto?

GERMONT

Meu filho!

Oh, quanto sofres!

Reprime o desgosto.

Volta a ser o orgulho e a honra do teu

pai!

(Alfredo desesperado senta-se perto

da mesinha com a face entre as mãos)

Quem apagou do teu coração

o mar e a terra da Provença?

Que destino te terá afastado

do brilhante sol do teu país natal?

Recorda, mesmo na tristeza,

que ali a alegria brilhou para ti

e que só ali poderá ainda

resplandecer para ti a paz.

Deus guiou-me!

Tu não sabes quanto sofreu o teu

velho pai!

A sua casa, longe de ti, cobriu-se de

tristeza.

Mas, se, por fim te encontro ainda,

se em mim não esmoreceu a fé

e se a voz da honra

não se calou de todo em ti,

Deus ouviu-me!

(abraçando-o)

Não respondes sequer ao amor de um

pai?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

68


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

69


ALFREDO

Mille serpi divoranmi il petto...

Mi lasciate.

ALFREDO

O meu peito é devorado por mil

serpentes. Deixai-me!

GERMONT

Lasciarti?

GERMONT

Deixar-te?

ALFREDO (risoluto)

Oh vendetta!

ALFREDO (decidido)

(Oh, vingança!)

GERMONT

Non più indugi;

partiamo t’affretta!

GERMONT

Não esperes mais, partamos!

Depressa!

ALFREDO (fra sè)

Ah, fu Douphol!

ALFREDO (para si)

(Ah, foi Douphol!)

GERMONT

M’ascolti tu?

GERMONT

Ouviste-me?

ALFREDO

No.

ALFREDO

Não!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

70


GERMONT

Dunque invano trovato t’avrò!

No, non udrai rimproveri;

copriam d’oblio il passato;

l’amor che m’ha guidato,

sa tutto perdonar.

Vieni, i tuoi cari in giubilo

con me rivedi ancora:

a chi penò finora

tal gioia non negar.

Un padre ed una suora

t’affretta a consolar.

GERMONT

Foi então inútil o facto de te ter

encontrado? Não, não ouvirás

censuras! Cubramos o passado com

o esquecimento.

O amor que me guiou aqui saberá

tudo perdoar. Vem, que eu e os que

te são queridos te possamos rever

ainda com alegria! Não queiras negar

essa felicidade a quem tem sofrido

até agora. Apressa-te a consolar um

pai e uma irmã.

ALFREDO (scuotendosi, getta a caso

gli occhi sulla tavola, vede la lettera di

Flora)

Ah! Ell’è alla festa!

Volisi l’offesa a vendicar.

(fugge precipitoso)

ALFREDO (afastando-se, repara na

carta de Flora em cima da mesa e

exclama)

Ah! Ela foi à festa!

Vou vingar-me desta afronta!

(sai precipitadamente)

GERMONT

Che dici? Ah, ferma!

(lo insegue)

GERMONT

Que dizes? Detém-te!

(segue-o)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

71


Galleria nel palazzo di

Flora, riccamente addobbata

ed illuminata. A destra,

più avanti, un tavoliere con

quanto occorre pel giuoco;

a sinistra, ricco tavolino

con fiori e rinfreschi, varie

sedie e un divano.

Galeria em casa de Flora,

ricamente decorada e

iluminada. À direita,

mais à frente, uma mesa

de jogo, à esquerda,

uma mesa com flores

e refrescos, várias

cadeiras e um divã.

FLORA

Avrem lieta

di maschere la notte:

n’è duce il viscontino

Violetta ed Alfredo anco invitai.

FLORA

Teremos uma alegre noite de

máscaras. A organização é do jovem

visconde. Convidei também Violetta

e Alfredo.

MARCHESE

La novità ignorate?

Violetta e Germont sono disgiunti.

MARQUÊS

Ignorais a novidade?

Violetta e Germont separaram-se.

DOTTORE, FLORA

Fia vero?

MÉDICO, FLORA

Será verdade?

MARCHESE

Ella verrà qui col barone.

MARQUÊS

Ela virá aqui acompanhada pelo barão.

DOTTORE

Li vidi ieri ancor parean felici.

(s’ode rumore a destra)

MÉDICO

Ainda ontem os vi! Pareciam felizes.

(ouve-se um burburinho à direita)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

72


FLORA

Silenzio...

... udite?

FLORA

Silêncio...

Ouvis?

TUTTI

Giungono gli amici.

TODOS

Chegam os amigos.

ZINGARE

Noi siamo zingarelle

venute da lontano;

d’ognuno sulla mano

leggiamo l’avvenir.

Se consultiam le stelle

null’avvi a noi d’oscuro,

e i casi del futuro

possiamo altrui predir.

Vediamo! Voi, signora,

(prendono la mano di Flora

e l’osservano)

rivali alquante avete.

(fanno lo stesso al marchese)

Marchese, voi non siete

model di fedeltà.

CIGANAS

Somos jovens ciganas

vindas de longe;

lemos o futuro

nas mãos de cada um.

Nada é obscuro para nós

quando consultamos as estrelas.

Podemos predizer aos outros

os acontecimentos futuros.

Vejamos! Vós, senhora,

(leem a mão

de Flora)

tendes bastantes rivais.

(fazem o mesmo ao marquês)

Marquês, não sois

um modelo de fidelidade.

FLORA (al marchese)

Fate il galante ancora?

Ben, vo’ me la paghiate.

FLORA (para o marquês)

Fazeis ainda de galante?

Pois, bem, quero que mo pagueis.

MARCHESE (a Flora)

Che dianzi vi pensate?

L’accusa è falsità.

MARQUÊS (para Flora)

Que diabo pensais?

É uma acusação falsa.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

73


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

74 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

75


FLORA

La volpe lascia il pelo,

non abbandona il vizio...

Marchese mio, giudizio

o vi farò pentir.

FLORA

A raposa deixa o pelo,

mas não abandona o vício...

Marquês, tende juízo,

ou far-vos-ei arrepender.

TUTTI

Su via, si stenda un velo

sui fatti del passato;

già quel ch’è stato è stato,

badate/badiamo all’avvenir.

(Flora ed il marchese si stringono

la mano)

TODOS

Vá lá, estenda-se um véu

sobre os acontecimentos passados;

o que passou, passou,

ocupemo-nos do futuro.

(Flora e o marquês apertam

as mãos)

GASTONE, MATTADORI

Di Madride noi siam mattadori,

siamo i prodi del circo de’ tori,

testè giunti a godere del chiasso

che a Parigi si fa pel bue grasso;

e una storia, se udire

vorrete, quali amanti noi

siamo saprete.

GASTONE, TOUREIROS

Somos matadores de Madrid,

os valentes das praças de touros,

juntos viemos gozar dos

divertimentos que em Paris se fazem

pelo Carnaval. E, se vos agrada ouvir

uma história, dir-vos-emos que

espécie de amantes somos.

GLI ALTRI

Sì, sì, bravi: narrate, narrate!

Con piacere l’udremo.

OS OUTROS

Sim, bravos, contai, contai!

Escutar-vos-emos com prazer.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

76


GASTONE, MATTADORI

Ascoltate!

È Piquillo un bel gagliardo

biscaglino mattador,

forte il braccio, fiero il guardo,

delle giostre egli è signor.

D’andalusa giovinetta

follemente innamorò;

ma la bella ritrosetta

così al giovane parlò:

cinque tori in un sol giorno

vò vederti ad atterrar;

e, se vinci, al tuo ritorno

mano e cor ti vo’ donar.

Sì, gli disse, e il mattadore,

alle giostre mosse il piè;

cinque tori, vincitore

sull’arena egli stende.

GASTONE, TOUREIROS

Ouvi!

Piquillo‚ um belo e galhardo

matador biscainho, forte o braço,

orgulhoso o olhar,

ele é o senhor das corridas.

Apaixonou-se perdidamente

por uma jovem andaluza,

mas, a bela, esquiva, assim

falou ao rapaz:

«Quero ver-te lançar por terra

cinco touros num só dia;

quando regressares, se venceres,

dar-te-ei a minha mão e o meu

coração.» «Sim» – ele disse-lhe.

O matador encaminhou-se então para

as corridas. Conseguiu então, como

vencedor, prostrar cinco touros na

arena!

GLI ALTRI

Bravo, bravo il mattadore!

Ben gagliardo si mostrò

se alla giovane l’amore

in tal guisa egli provò.

OS OUTROS

Bravo, bravo o matador!

Mostrou-se bem galhardo,

pois soube demonstrar o seu amor

à jovem do seu coração.

GASTONE, MATTADORI

Poi, tra plausi, ritornato

alla bella del suo cor,

colse il premio desiato

tra le braccia dell’amor.

GASTONE, TOUREIROS

Depois, regressado à bela do seu

coração, por entre os aplausos,

colheu o prémio desejado

nos braços do amor.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

77


GLI ALTRI

Con tai prove i mattadori

san le belle conquistar!

OS OUTROS

Com tais provas, os matadores

sabem conquistar as jovens.

GASTONE, MATTADORI

Ma qui son più miti i cori;

a noi basta folleggiar...

GASTONE, TOUREIROS

Mas aqui os corações são mais

dóceis. A nós, basta-nos brincar.

TUTTI

Sì, sì, allegri Or pria tentiamo

della sorte il vario umor;

la palestra dischiudiamo

agli audaci giuocator.

(gli uomini si tolgono la maschera, chi

passeggia e chi si accinge a giuocare.

Alfredo entra)

TODOS

Sim, sim, felizes, tentaremos agora

o variável humor da sorte.

Abramos a sessão

aos jogadores audazes.

(os homens retiram as máscaras. Uns

deambulam, outros vão jogar. Entra

Alfredo)

TUTTI

Alfredo! Voi!

TODOS

Alfredo! Vós!

ALFREDO

Sì, amici.

ALFREDO

Sim, amigos.

FLORA

Violetta?

FLORA

Violetta?

ALFREDO

Non ne so.

ALFREDO

Não sei dela.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

78


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

79


TUTTI

Ben disinvolto!

Bravo!

Or via, giuocar si può.

(Gastone si pone a tagliare, Alfredo ed

altri puntano. Violetta entra al braccio

del barone)

TODOS

Que desenvolto!

É assim mesmo!

Vamos, já se pode jogar.

(Gastone parte as cartas, Alfredo e os

outros recebem-nas. Violetta entra de

braço dado com o barão)

FLORA (andandole incontro)

Qui desiata giungi.

FLORA (indo ao encontro de Violetta)

Como desejávamos que viesses.

VIOLETTA

Cessi al cortese invito.

VIOLETTA

Aceitei o teu amável convite.

FLORA

Grata vi son, barone,

d’averlo pur gradito.

FLORA

Barão, estou-vos muito grata

por terdes também vindo.

BARONE (piano a Violetta)

Germont è qui! Il vedete?

BARÃO (baixinho, a Violetta)

Germont está aqui. Estais a vê-lo?

VIOLETTA (fra sè)

Ciel! gli è vero.

Il vedo...

VIOLETTA

Céus! É verdade!

Estou a vê-lo…

BARONE (cupo)

Da voi non un sol detto si volga

A questo Alfredo.

BARÃO (ameaçador)

Que não saia uma palavra da vossa

boca dirigida a esse Alfredo!

VIOLETTA

(Ah, perchè venni, incauta!

Pietà di me, gran Dio!)

VIOLETTA

(Ah, como fui incauta em ter vindo!

Meu Deus, tem piedade de mim!)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

80


FLORA (a Violetta, facendola sedere

presso di sè sul divano)

Meco t’assidi:

narrami quai novità vegg’io?

(il Dottore si avvicina ad esse, che

sommessamente conversano. Il marchese

si trattiene a parte col barone,

Gastone taglia, Alfredo ed altn puntano,

altri passeggiano)

FLORA (para Violetta, fazendo-a sentar-se

junto a si no divã)

Senta-te junto a mim e conta-me

tudo. Que novidades são estas?

(o Médico aproxima-se delas, que continuam

a conversar. O marquês conversa

à parte com o barão. Gastone

continua a partir as cartas, Alfredo e

outros jogam, outros deambulam)

ALFREDO

Un quattro!

ALFREDO

Um quatro!

GASTONE

Ancora hai vinto.

GASTONE

Voltaste a ganhar!

ALFREDO (punta e vince)

Sfortuna nell’amore

vale fortuna al giuoco!

ALFREDO (joga e ganha)

Azar no amor

traz sorte ao jogo.

TUTTI

È sempre vincitore!

TODOS

Voltou a ganhar!

ALFREDO

Oh, vincerò stasera!

E l’oro guadagnato

poscia a goder tra’ campi

ritornerò beato.

ALFREDO

Esta noite ganharei!

E com o ouro ganho

voltarei logo para o campo

para o gozar descansado.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

81


FLORA

Solo?

FLORA

Sozinho?

ALFREDO

No, no, con tale che vi fu meco ancor,

poi mi sfuggia!

ALFREDO

Não. Com aquela que já esteve

comigo e depois fugiu!

VIOLETTA

(Mio Dio!)

VIOLETTA

(Meu Deus!)

GASTONE (ad Alfredo, indicando

Violetta)

Pietà di lei!

GASTONE (para Alfredo, indicando

Violetta)

Tem piedade dela!

BARONE (ad Alfredo, con mal

frenata ira)

Signor!

BARÃO (para Alfredo, com ira mal

disfarçada)

Senhor!

VIOLETTA (al barone)

Frenatevi, o vi lascio.

VIOLETTA (para o barão)

Acalmai-vos ou deixo-vos.

ALFREDO (disinvolto)

Barone, m’appellaste?

ALFREDO (descontraído)

Barão, chamastes?

BARONE

Siete in sì gran fortuna,

che al giuoco mi tentaste.

BARÃO

Estais com tanta sorte

que me haveis tentado ao jogo.

ALFREDO (ironico)

Sì?

La disfida accetto.

ALFREDO (irónico)

Sim?

Aceito o desafio.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

82


VIOLETTA

Che fia?

Morir mi sento.

VIOLETTA

Que se passa?

Sinto-me morrer!

BARONE (puntando)

Cento luigi a destra.

BARÃO (vendo o jogo)

Cem luíses à direita.

ALFREDO (puntando)

Ed alla manca cento.

ALFREDO (vendo o jogo)

Cem à esquerda.

GASTONE

Un asse... un fante...

Hai vinto!

GASTONE

Um às... um valete...

Ganhaste!

BARONE

Il doppio?

BARÃO

O dobro?

ALFREDO

Il doppio sia.

ALFREDO

Seja! O dobro!

GASTONE (tagliando)

Un quattro... un sette...

GASTONE (dando o jogo)

Um quatro... um sete...

TUTTI

Ancora!

TODOS

Outra vez!

ALFREDO

Pur la vittoria è mia!

ALFREDO

A vitória é outra vez minha!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

83


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

84 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

85


CORO

Bravo!

Davver!

La sorte è tutta per Alfredo!

CORO

Felicitações!

De verdade!

A sorte está toda com Alfredo!

FLORA

Del villeggiar la spesa

farà il baron,

già il vedo.

FLORA

Estou a ver que as despesas da

vilegiatura vão ser pagas

pelo barão.

ALFREDO (al barone)

Seguite pur!

ALFREDO (para o barão)

Continuai!

SERVO

La cena è pronta.

CRIADO

O jantar está servido!

FLORA

Andiamo.

FLORA

Vamos.

CORO

Andiamo.

CORO

Vamos.

ALFREDO

Se continuar v’aggrada...

ALFREDO

Se quereis continuar...

BARONE

Per ora nol possiamo:

più tardi la rivincita.

BARÃO

Agora não podemos.

Mais tarde far-se-á a desforra.

ALFREDO

Al gioco che vorrete.

ALFREDO

Ao jogo que escolherdes.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

86


BARONE

Seguiam gli amici; poscia.

BARÃO

Sigamos os amigos. Mais tarde...

ALFREDO

Sarò qual bramerete.

(tutti entrano nella porta di mezzo:

la scena rimane un istante vuota.

Violetta che ritorna affannata)

ALFREDO

Estarei à vossa disposição.

(entram todos pela porta do meio. A

cena fica por um instante vazia. Violetta

regressa perturbada, e depois Alfredo)

VIOLETTA

Invitato a qui seguirmi,

Verrà desso? Vorrà udirmi?

Ei verrà, che l’odio atroce

puote in lui più di mia voce

VIOLETTA

Pedi-lhe que viesse aqui!

Será que vem? Quererá ouvir-me?

Sim, virá! Nele, o ódio atroz

pode mais do que a minha voz.

ALFREDO

Mi chiamaste?

Che bramate?

ALFREDO

Chamaste-me?

Que queres?

VIOLETTA

Questi luoghi abbandonate.

Un periglio vi sovrasta.

VIOLETTA

Abandona estes lugares.

Ameaça-te um perigo.

ALFREDO

Ah, comprendo! Basta!

E sì vile mi credete?

ALFREDO

Ah, compreendo. Basta!

E julgas-me assim tão vil?

VIOLETTA

Ah no, mai!

VIOLETTA

Não. Isso nunca!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

87


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

88


ALFREDO

Ma che temete?

ALFREDO

Mas então que receias?

VIOLETTA

Temo sempre del barone...

VIOLETTA

Temo sempre que o barão...

ALFREDO

È tra noi mortal quistione

s’ei cadrà per mano mia

un sol colpo vi torria

coll’amante il protettore

v’atterrisce tal sciagura?

ALFREDO

Existe entre nós uma questão mortal.

Se ele cair às minhas mãos,

de uma só vez serás privada

do amante e do protetor.

Apavora-te semelhante desgraça?

VIOLETTA

Ma s’ei fosse l’uccisore?

Ecco l’unica sventura

ch’io pavento a me fatale!

VIOLETTA

Mas se for ele a matar-te?

Eis a única desventura que eu temo

e que me poderia ser fatal.

ALFREDO

La mia morte!

Che ven cale?

ALFREDO

A minha morte?

Que te importa?

VIOLETTA

Deh, partite, e sull’istante.

VIOLETTA

Parte, e imediatamente!

ALFREDO

Partirò, ma giura innante

che dovunque seguirai

i miei passi.

ALFREDO

Partirei, mas antes jura-me

que seguirás

os meus passos.

VIOLETTA

Ah, no, giammai.

VIOLETTA

Ah, não, isso nunca!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

89


ALFREDO

Giammai?

ALFREDO

Nunca?

VIOLETTA

Va, sciagurato.

Scorda un nome ch’è infamato.

Va mi lascia sul momento

di fuggirti un giuramento

sacro io feci!

VIOLETTA

Vai-te, desventurado!

Esquece um nome infame.

Vai, deixa-me imediatamente!

Jurei fugir de ti!

Fiz um juramento sagrado!

ALFREDO

E chi potea?

ALFREDO

A quem? A quem pudeste fazê-lo?

VIOLETTA

Chi diritto pien ne avea.

VIOLETTA

A quem tinha esse direito.

ALFREDO

Fu Douphol?

ALFREDO

Foi a Douphol?

VIOLETTA (con supremo sforzo)

Sì.

VIOLETTA (com grande esforço)

Sim.

ALFREDO

Dunque l’ami?

ALFREDO

Então, ama-lo.

VIOLETTA

Ebben...

... l’amo!

VIOLETTA

Pois bem...

… amo-o!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

90


ALFREDO (corre furente alla porta e

grida)

Or tutti a me.

ALFREDO (corre furioso para a porta e

grita)

Vinde cá todos!

TUTTI

Ne appellaste?

Che volete?

TODOS

Haveis chamado?

Que quereis?

ALFREDO (additando Violetta che abbattuta

si appoggia al tavolino)

Questa donna conoscete?

ALFREDO (apontando Violetta que, abatida,

se apoia na mesa)

Conheceis esta mulher?

TUTTI

Chi? Violetta?

TODOS

Quem? Violetta?

ALFREDO

Che facesse non sapete?

ALFREDO

Sabeis o que ela fez?

VIOLETTA

Ah, taci!

VIOLETTA

Cala-te!

TUTTI

No.

TODOS

Não!

ALFREDO

Ogni suo aver tal femmina

per amor mio sperdea

io cieco, vile, misero,

tutto accettar potea,

ma è tempo ancora!

Tergermi da tanta macchia bramo

qui testimoni vi chiamo

che qui pagata io l’ho.

ALFREDO

Esta mulher perdeu todos os seus bens

devido ao seu amor por mim.

Eu, cego, vil e miserável,

tudo pude aceitar! Mas, ainda estou a

tempo e quero limpar essa tão grande

mancha. Chamo-vos aqui como

testemunhas

de que lhe paguei!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

91


(getta con furente sprezzo una borsa

ai piedi di Violetta, che sviene tra le

braccia di Flora e del Dottore.

In tal momento entra il padre)

(lança com desprezo e fúria uma bolsa

de dinheiro aos pés de Violetta. Esta

desfalece nos braços de Flora e do

médico. Nesse momento entra o pai)

TUTTI

Oh, infamia orribile

tu commettesti!

Un cor sensibile

così uccidesti!

Di donne ignobile insultator,

di qui allontanati,

ne desti orror.

TODOS

Oh, cometeste

uma infâmia horrível

e magoaste

um coração sensível!

És um ignóbil ofensor de senhoras!

Afasta-te daqui,

pois causas-nos horror!

GERMONT (con dignitoso fuoco)

Di sprezzo degno se stesso rende

chi pur nell’ira

la donna offende.

Dov’è mio figlio?

Più non lo vedo!

In te più Alfredo trovar non so.

(Io sol fra tanti so qual virtude

di quella misera il sen racchiude

io so che l’ama, che gli è fedele,

eppur, crudele, tacer dovrò!)

GERMONT (com dignidade orgulhosa)

Torna-se digno de desprezo

quem ofende uma senhora,

ainda que levado pelo desespero.

Onde está o meu filho?

Já não o vejo! Em ti não encontro

Alfredo. Não o consigo encontrar!

(Só eu sei quanta virtude

esta infeliz esconde no seu coração.

Sei que o ama, e lhe é fiel,

porém, cruel, devo calar-me!)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

92


ALFREDO (da sè)

Ah sì, che feci!

Ne sento orrore.

Gelosa smania, deluso amore

mi strazia l’alma

più non ragiono.

Da lei perdono più non avrò.

Volea fuggirla non ho potuto!

Dall’ira spinto son qui venuto!

Or che lo sdegno ho disfogato,

me sciagurato!

Rimorso n’ho.

ALFREDO (para si)

Ah, sim! Que fiz eu?

Horrorizo-me com a minha ação.

Delírio de ciúme, amor enganado

dilaceram-me a alma

não consigo pensar!

Nunca mais terei o perdão dela!

Quis fugir-lhe e não consegui;

vim aqui acossado pela ira.

Agora que desafoguei a minha raiva,

infeliz de mim!

Sinto remorsos!

VIOLETTA (riavendosi)

Alfredo, Alfredo, di questo core

non puoi comprendere tutto l’amore;

tu non conosci che fino a prezzo

del tuo disprezzo

provato io l’ho!

Ma verrà giorno in che il saprai

com’io t’amassi confesserai

Dio dai rimorsi ti salvi allora;

io spenta ancora

pur t’amerò.

VIOLETTA (um tanto recuperada)

Alfredo, Alfredo,

não podes compreender

todo o amor do meu coração.

Tu não sabes até que ponto

paguei o preço e senti o teu

desprezo. Mas chegará um dia

em que tudo saberás

e confessarás o quanto te amei!

Que Deus te livre então dos

remorsos! Mesmo morta, continuarei

a amar-te.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

93


BARONE (piano ad Alfredo)

A questa donna l’atroce insulto

qui tutti offese, ma non inulto

fia tanto oltraggio provar vi voglio

che tanto orgoglio fiaccar saprò.

BARÃO (baixo, para Alfredo)

O atroz insulto feito a esta senhora

ofendeu-nos a todos nós!

Tal ultraje não poderá ficar impune.

Rebaixarei o vosso orgulho!

TUTTI

Ah, quanto peni!

Ma pur fa core!

Qui soffre ognuno del tuo dolore;

fra cari amici qui sei soltanto;

rasciuga il pianto - che t’inondò.

TODOS

Oh, quanto sofres!

Mas, tem coragem!

Aqui, todos sofremos com a tua dor.

Estás rodeada apenas por amigos.

Seca o pranto que te inunda o rosto.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

94


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

95


ATTO III

ATO III

Camera da letto di Violetta.

Nel fondo è un letto con cortine

mezze tirate; una finestra

chiusa da imposte interne;

presso il letto uno sgabello

su cui una bottiglia di acqua,

una tazza di cristallo, diverse

medicine. A metà della scena

una toilette, vicino un canapè;

più distante un altro mobile,

sui cui arde un lume da notte;

varie sedie ed altri mobili. La

porta è a sinistra; di fronte’è

un caminetto con fuoco acceso.

Violetta dorme. Annina, seduta

presso il caminetto, è pure

addormentata.

Quarto de Violetta. Ao fundo

está uma cama com dossel, com

os cortinados entreabertos;

uma janela fechada. Junto

à cama, uma mesinha com uma

garrafa com água, uma taça de

cristal, vários medicamentos.

A meio da cena uma mesinha

com um espelho e, junto, um

canapé. Um pouco afastado um

outro móvel onde está uma vela

acesa; várias cadeiras e outros

móveis. A porta é à esquerda.

De frente uma lareira acesa.

Violetta dorme. Annina, também

adormecida, está sentada junto

à lareira.

VIOLETTA (destandosi)

Annina?

VIOLETTA (acordando)

Annina?

ANNINA (svegliandosi confusa)

Comandate?

ANNINA (acordando, confusa)

Às suas ordens!

VIOLETTA

Dormivi, poveretta?

VIOLETTA

Dormias, pobrezinha?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

96


ANNINA

Sì, perdonate.

ANNINA

Sim, perdoai!

VIOLETTA

Dammi d’acqua un sorso.

(Annina eseguisce)

Osserva, è pieno il giorno?

VIOLETTA

Dá-me um golo de água.

(Annina obedece)

Vê, já é dia!

ANNINA

Son sett’ore.

ANNINA

São sete horas.

VIOLETTA

Dà accesso a un po’ di luce.

VIOLETTA

Deixa entrar um pouco de luz.

(apre le imposte e guarda nella via)

(abre as portadas da janela e olha para

a rua)

ANNINA

Il signor di Grenvil!

ANNINA

O senhor de Grenvil.

VIOLETTA

Oh, il vero amico!

Alzar mi vo’ m’aita.

(si rialza e ricade; poi, sostenuta da

Annina, va lentamente verso il canapè,

ed il Dottore entra in tempo per

assisterla ad adagiarsi. Annina vi aggiunge

dei cuscini)

VIOLETTA

Ah, um verdadeiro amigo!

Quero levantar-me. Ajuda-me.

(tenta levantar-se e cai; depois, ajudada

por Annina, dirige-se lentamente para

o canapé, e o Médico entra a tempo de

assistir. Annina ajeita as almofadas)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

97


VIOLETTA

Quanta bontà

pensaste a me per tempo!

VIOLETTA

Quanta bondade!

Não me haveis esquecido!

DOTTORE (le tocca il polso)

Or, come vi sentite?

MÉDICO (tomando-lhe o pulso)

Sim, como vos sentis?

VIOLETTA

Soffre il mio corpo,

ma tranquilla ho l’alma.

Mi confortò iersera

un pio ministro.

Religione è sollievo

à sofferenti.

VIOLETTA

O meu corpo sofre, mas tenho a alma

tranquila.

Ontem à tarde um bom sacerdote

veio aqui confortar-me.

A religião é um bálsamo para os que

sofrem.

DOTTORE

E questa notte?

MÉDICO

E esta noite?

VIOLETTA

Ebbi tranquillo il sonno.

VIOLETTA

Tive o sono tranquilo.

DOTTORE

Coraggio adunque la convalescenza

non è lontana.

MÉDICO

Então coragem.

A convalescença não está longe.

VIOLETTA

Oh, la bugia pietosa

à medici è concessa.

VIOLETTA

A mentira piedosa

é concedida aos médicos.

DOTTORE (stringendole la mano)

Addio... a più tardi.

MÉDICO (apertando-lhe as mãos)

Adeus... até mais tarde.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

98


VIOLETTA

Non mi scordate.

VIOLETTA

Não me esqueça nunca!

ANNINA (piano al Dottore accompagnandolo)

Come va, signore?

ANNINA (baixinho ao Médico, acompanhando-o)

Como vai ela, senhor?

DOTTORE (piano a parte)

La tisi non le accorda che

poche ore.

MÉDICO (baixinho, à parte)

A tísica já só lhe concede poucas horas

mais.

ANNINA

Or fate cor.

ANNINA

Agora, animai-vos.

VIOLETTA

Giorno di festa è questo?

VIOLETTA

Hoje é dia de festa?

ANNINA

Tutta Parigi impazza.

È carnevale.

ANNINA

Toda Paris enlouquece.

É carnaval.

VIOLETTA

Ah, nel comun tripudio,

sallo il cielo quanti infelici soffron!

Quale somma v’ha in quello stipo?

(indicandolo)

VIOLETTA

No meio da alegria, só Deus sabe

quantos infelizes sofrem. Quanto

dinheiro há nesse cofre?

(indicando o cofre)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

99


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

100


ANNINA (l’apre e conta)

Venti luigi.

ANNINA (abre o cofre e conta o dinheiro)

Vinte luíses.

VIOLETTA

Dieci ne reca

ai poveri tu stessa.

VIOLETTA

Tira dedez

e vai dá-los tu mesma aos pobres.

ANNINA

Poco rimanvi allora.

ANNINA

Vão restar-vos poucos.

VIOLETTA

Oh, mi sarà bastante;

cerca poscia mie lettere.

VIOLETTA

Ser-me-ão suficientes.

Depois, procura as minhas cartas.

ANNINA

Ma voi?

ANNINA

Mas vós?

VIOLETTA

Nulla’occorrà

sollecita, se puoi...

(trae dal seno una lettera)

“Teneste la promessa.

La disfida ebbe luogo!

Il barone fu ferito,

però migliora.

Alfredo è in stranio suolo;

il vostro sacrifizio

io stesso gli ho svelato;

egli a voi tornerà pel suo perdono;

io pur verrò.

Curatevi.

Meritate un avvenir migliore.

Giorgio Germont”.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

VIOLETTA

Nada mais me fará falta.

Sê rápida, se puderes…

(tira uma carta do decote)

«Mantivestes o prometido.

Realizou-se o duelo;

o barão foi ferido,

mas está a melhorar.

Alfredo está no estrangeiro.

Eu próprio lhe revelei o vosso

sacrifício. Ele voltará para junto de vós

para receber o perdão;

eu também irei.

Curai-vos.

Mereceis um futuro melhor!

Giorgio Germont.»

101


(desolata)

È tardi!

(si alza)

Attendo, attendo nè a me giungon

mai!...

(si guarda allo specchio)

Oh, come son mutata!

Ma il dottore a sperar pure m’esorta!

Ah, con tal morbo ogni speranza è

morta. Addio, del passato

bei sogni ridenti, Le rose del volto

già son pallenti; l’amore d’Alfredo pur

esso mi manca, conforto, sostegno

dell’anima stanca ah, della traviata

sorridi al desio; a lei, deh, perdona; tu

accoglila, o Dio, or tutto finì. Le gioie,

i dolori tra poco avran fine, la tomba

ai mortali di tutto è confine! Non lagrima

o fiore avrà la mia fossa, non

croce col nome

che copra quest’ossa!

Ah, della traviata sorridi al desio;

a lei, deh, perdona;

tu accoglila, o Dio.

Or tutto finì!

(desolada)

É tarde!

(levanta-se)

Espero, espero, mas eles nunca mais

chegam!...

(olha-se ao espelho)

Como estou mudada!

Mas o médico, contudo,

exorta-me a ter esperança.

Ah, com tal doença,

todas as esperanças

morrem.

Adeus ao passado,

aos sonhos belos

e risonhos.

As rosas das minhas faces

estão já a empalidecer;

por fim, até o amor

de Alfredo me falta!

Conforto e apoio

da alma cansada.

Sorri aos desejos da transviada,

perdoa-lhe e acolhe-a,

oh Deus!

Agora, tudo acabou!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

102


CORO DI MASCHERE (all’esterno)

Largo al quadrupede

sir della festa,

di fiori e pampini

cinto la testa

largo al più docile

d’ogni cornuto.

Di corni e pifferi

abbia il saluto.

Parigini, date passo

al trionfo del Bue grasso.

L’Asia, nè l’Africa

vide il più bello,

vanto ed orgoglio

d’ogni macello

allegre maschere,

pazzi garzoni,

tutti plauditelo

con canti e suoni!

Parigini, date passo

al trionfo del Bue grasso.

CORO DE MASCARADOS (da rua)

Passagem ao quadrúpede,

senhor da festa,

com a cabeça

coroada de flores.

Passagem ao mais dócil

de todos os cornudos.

Que lhe prestem homenagem

as trompas e os pífaros.

Parisienses, dai passagem

ao triunfo do Boi-Gordo.

Nem a Ásia, nem a África

viram outro mais belo.

É o orgulho e a vaidade

de qualquer talhante.

Alegres máscaras,

rapaziada louca,

aplaudi-o com

cantos e música.

Parisienses, dai passagem

ao triunfo do Boi-Gordo.

ANNINA (esitando)

Signora!

ANNINA (hesitando)

Senhora?

VIOLETTA

Che t’accade?

VIOLETTA

Que te aconteceu?

ANNINA

Quest’oggi, è vero?

Vi sentite meglio?

ANNINA

É verdade que hoje

vos sentis melhor?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

103


VIOLETTA

Sì, perchè?

VIOLETTA

Sim, e porquê?

ANNINA

D’esser calma promettete?

ANNINA

Prometeis manter-vos calma?

VIOLETTA

Sì, che vuoi dirmi?

VIOLETTA

Sim, que me queres dizer?

ANNINA

Prevenir vi volli

una gioia improvvisa...

ANNINA

Quis prevenir-vos

de uma alegria imprevista...

VIOLETTA

Una gioia! Dicesti?

VIOLETTA

Uma alegria, disseste?

ANNINA

Sì, o signora.

ANNINA

Sim, senhora.

VIOLETTA

Alfredo!

Ah, tu il vedesti?

Ei vien!

t’affretta.

(Annina afferma col capo, e va ad

aprire la porta)

VIOLETTA

Alfredo!

Ah, tu viste-o!

Ele vem aí!

Despacha-te!

(Annina confirma com um gesto de

cabeça e vai abrir a porta)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

104


VIOLETTA (andando verso l’uscio)

Alfredo!

(Alfredo comparisce pallido per la

commozione, ed ambedue, gettandosi

le braccia al collo, esclamano)

Amato Alfredo!

VIOLETTA (encaminhando-se para a

saída)

Alfredo!

(Alfredo surge pálido com a comoção,

e ambos se lançam nos braços

um do outro)

Amado Alfredo!

ALFREDO

Mia Violetta!

Colpevol sono...

So tutto, o cara.

ALFREDO

Minha Violetta!

Sou o culpado.

Já sei de tudo.

VIOLETTA

Io so che

alfine reso mi sei!

VIOLETTA

Eu apenas sei

que me foste devolvido.

ALFREDO

Da questo palpito

s’io t’ami impara,

senza te esistere più non potrei.

ALFREDO

Pela minha agitação

podes saber como te amo!

Sem ti não poderia viver.

VIOLETTA

Ah, s’anco in vita m’hai ritrovata,

credi che uccidere non può il dolor.

VIOLETTA

Se ainda me encontraste com vida

é porque a dor não pode matar.

ALFREDO

Scorda l’affanno, donna adorata,

a me perdona

e al genitor.

ALFREDO

Esquece a infelicidade, mulher amada,

perdoa-me a mim

e perdoa a meu pai.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

105


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

106


VIOLETTA

Ch’io ti perdoni?

La rea son io:

ma solo amore tal mi rende...

VIOLETTA

Eu? Perdoar-te?

A culpada sou eu!

Embora só o seja por amar-te tanto.

A DUE

Null’uomo o demone, angelo mio,

mai più staccarti potrà da me.

Parigi, o cara/o noi lasceremo,

la vita uniti trascorreremo:

de’ corsi affanni

compenso avrai,

la mia/tua salute rifiorirà.

Sospiro e luce tu mi sarai,

tutto il futuro ne arriderà.

AMBOS

Nem homem, nem diabo, meu anjo,

vão poder voltar a separar-nos!

Deixaremos Paris, querida/o

e passaremos a vida unidos.

Terás a compensação

dos desgostos que sofreste,

e a tua/minha saúde voltará a florir.

Serás a minha luz e o meu apoio,

e o futuro sorrirá para nós.

VIOLETTA

Ah, non più, a un tempio

Alfredo, andiamo,

del tuo ritorno grazie rendiamo.

(vacilla)

VIOLETTA

Ah, basta!

Alfredo, vamos a uma igreja

dar graças pelo teu regresso.

(vacila)

ALFREDO

Tu impallidisci!

ALFREDO

Estás a empalidecer!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

107


VIOLETTA

È nulla, sai!

Gioia improvvisa non entra mai

senza turbarlo in mesto core.

(si abbandona come sfinita sopra una

sedia col capo cadente all’indietro)

VIOLETTA

Não é nada. Uma alegria nunca entra

de improviso

num coração triste sem o perturbar.

(cai como que desmaiada numa cadeira,

com a cabeça lançada para trás)

ALFREDO (spaventato, sorreggendola)

Gran Dio!

Violetta!

ALFREDO (aterrorizado, ajudando-a)

Meu Deus!

Violetta!

VIOLETTA (sforzandosi)

È il mio malore!

Fu debolezza!

Ora son forte!

(sforzandosi)

Vedi? Sorrido!

VIOLETTA (com esforço)

É a minha doença!

Foi uma tontura!

Agora sinto-me mais forte!

(esforçando-se)

Vês? Estou a sorrir-te!

ALFREDO (desolato, fra sè)

Ahi, cruda sorte!

ALFREDO (desolado)

(Ah, destino cruel!)

VIOLETTA

Fu nulla Annina, dammi

a vestire.

VIOLETTA

Não foi nada. Annina, ajuda-me

a vestir.

ALFREDO

Adesso? Attendi!

ALFREDO

Agora? Espera!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

108


VIOLETTA (alzandosi)

No! Voglio uscire.

(Annina le presenta una veste ch’ella

fa per indossare e impedita dalla debolezza,

esclama:)

Gran Dio! Non posso!

(getta con dispetto la veste e ricade

sulla sedia)

VIOLETTA (levantando-se)

Não! Quero sair!

(Annina traz roupa, que Violetta se

esforça por vestir. Impedida pela

fraqueza, exclama:)

Meu Deus, não consigo!

(desesperada, atira a roupa e torna a

cair na cadeira)

ALFREDO

(Cielo! Che vedo!)

(ad Annina)

Va pel dottor.

ALFREDO

(Céus! Que vejo?)

(para Annina)

Chama já um médico.

VIOLETTA (ad Annina)

Digli che Alfredo

è ritornato all’amor mio.

Digli che vivere ancor vogl’io!

(Annina parte. Ad Alfredo)

Ma se tornando non m’hai

salvato, A niuno in terra salvarmi

è dato.

(sorgendo impetuosa)

VIOLETTA (para Annina)

Diz-lhe que Alfredo

regressou ao meu amor.

Diz-lhe que eu ainda quero viver!

(Annina sai. Para Alfredo)

Mas, se, com o teu regresso, tu não me

salvaste, não há ninguém na terra que

me possa salvar.

(erguendo-se com ímpeto)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

109


Gran Dio! morir sì giovane,

Io che penato ho tanto!

Morir sì presso a tergere

il mio sì lungo pianto!

Ah, dunque fu delirio

la cruda mia speranza;

invano di costanza

armato avrò il mio cor!

Alfredo! oh, il crudo termine

serbato al nostro amor!

Ah! Meu Deus! Morrer tão jovem,

eu, que tanto sofri!

Morrer tão perto do momento

de poder secar as lágrimas!

Foi então um sonho

a minha crédula esperança!

Em vão terei armado

o meu coração

com fidelidade?

ALFREDO

Oh mio sospiro, oh palpito,

diletto del cor mio!

Le mie colle tue lagrime

confondere degg’io!

Ma più che mai, deh, credilo,

m’è d’uopo di costanza,

ah! tutto alla speranza

non chiudere il tuo cor.

ALFREDO

Suspiro e palpitação

gratos ao meu coração!

Quero confundir

as minhas lágrimas com as tuas!

Mais do que nunca, acredita,

preciso de fidelidade.

Ah, não feches o teu coração

à esperança!

GERMONT

Ah, Violetta!

GERMONT

Violetta!

VIOLETTA

Voi, Signor!

VIOLETTA

Vós, senhor?

ALFREDO

Mio padre!

ALFREDO

Meu pai!

VIOLETTA

Non mi scordaste?

VIOLETTA

Não me esquecestes?

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

110


GERMONT

La promessa adempio

a stringervi qual figlia vengo al seno,

o generosa!

GERMONT

Cumpro a minha promessa.

Venho abraçar-vos como a uma filha,

generosa mulher!

VIOLETTA

Ahimè,

tardi giungeste!

Pure, grata ven sono!

Grenvil, vedete?

Tra le braccia io spiro

di quanti ho cari al mondo.

VIOLETTA

Ai de mim!

Chegastes tarde!

Mesmo assim estou-vos grata!

Grenvil, vedes?

Vou morrer nos braços

de todos os que amo no mundo.

GERMONT

Che mai dite!

(osservando Violetta, fra sè)

(Oh cielo, è ver!)

GERMONT

Que dizeis?

(observando Violetta)

(Céus! É verdade!)

ALFREDO

La vedi, padre mio?

ALFREDO

Vedes o seu estado, meu pai?

GERMONT

Di più non lacerarmi

troppo rimorso

l’alma mi divora.

Quasi fulmin m’atterra

ogni suo detto.

Oh, malcauto vegliardo!

Ah, tutto il mal ch’io feci

ora sol vedo!

GERMONT

Não me tortures mais.

O remorso devora-me

suficientemente a alma.

Cada palavra sua aterroriza-me

como se fosse uma maldição.

Velho imprevidente!

Só agora vejo o mal

que fiz!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

111


VIOLETTA (frattanto avrà aperto a

stento un ripostiglio della toilette, e

toltone un medaglione dice:)

Più a me t’appressa ascolta,

amato Alfredo.

Prendi: quest’è l’immagine

de’ miei passati giorni;

a rammentar ti torni

colei che sì t’amò.

Se una pudica vergine

degli anni suoi nel fiore

a te donasse il core

sposa ti sia lo vo’.

Le porgi questa effigie:

dille che dono ell’è

di chi nel ciel tra gli angeli

prega per lei, per te.

VIOLETTA (que entretanto abrira uma

gaveta da cómoda e tirara de lá um medalhão)

Aproxima-te de mim

e ouve, amado Alfredo.

Toma, este é o retrato

dos meus dias passados;

ele te fará recordar

aquela que tanto te amou.

Se uma virgem pudica

na flor da sua idade...

te entregasse o coração...

casa com ela... É o meu desejo!

Entrega-lhe então este retrato,

diz-lhe que é um presente

de quem, por entre os anjos,

reza por ela e por ti.

ALFREDO

No, non morrai, non dirmelo...

Dei viver, amor mio

a strazio sì terribile

qui non mi trasse Iddio

sì presto, ah no, dividerti

morte non può da me.

Ah, vivi, o un solo feretro

m’accoglierà con te.

ALFREDO

Não, não morrerás, não o afirmes,

tu deves viver, meu amor.

Deus não me trouxe aqui

para um sofrimento tão terrível.

A morte não pode, tão depressa,

afastar-te de mim.

Ah, vive, ou um único caixão

servirá para nós dois.

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

112


GERMONT

Cara, sublime vittima

d’un disperato amore,

perdonami lo strazio

recato al tuo bel core.

GERMONT

Querida e sublime vítima

de um amor desesperado,

perdoa-me a mágoa

que causei ao teu coração.

GERMONT, DOTTORE, ANNINA

Finchè avrà il ciglio lacrime

io piangerò per te

vola à beati spiriti;

Iddio ti chiama a sè.

GERMONT, MÉDICO, ANNINA

Enquanto os meus olhos não secarem

eu chorarei lágrimas por ti.

Voa até aos bem-aventurados.

Deus chama-te para junto de Si.

VIOLETTA (rialzandosi animata)

È strano!

VIOLETTA (reerguendo-se, animada)

É estranho!

TUTTI

Che!

TODOS

O quê?

VIOLETTA

Cessarono

gli spasmi del dolore.

In me rinasce, m’agita

insolito vigore!

Ma...

ah! io ritorno a vivere!

(trasalendo)

Oh gioia!

(ricade sul canapè)

VIOLETTA

Desapareceram

os espasmos da dor.

Em mim renasce, agita-se,

um vigor insólito!

Mas ...

… eu regresso à vida!

(levanta-se com os braços abertos)

Oh, alegria!

(cai de novo no canapé)

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

113


TUTTI

O cielo! Muor!

TODOS

Céus! Está a morrer!

ALFREDO

Violetta!

ALFREDO

Violetta!

ANNINA, GERMONT

Oh Dio, soccorrasi...

ANNINA, GERMONT

Socorram-na!

DOTTORE

È spenta!

MÉDICO

Morreu!

TUTTI

Oh mio dolor!

TODOS

Que grande tristeza!

LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

114


LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

115 LA TRAVIATA – GIUSEPPE VERDI

116


BIOGRAFIAS


MICHELE GAMBA

< DIREÇÃO MUSICAL

PIER LUIGI PIZZI

< ENCENAÇÃO, CENOGRAFIA E FIGURINOS

Natural de Milão onde estudou piano e composição

no Conservatório Giuseppe Verdi e onde

aperfeiçoou técnica de piano com Maria Tipo.

Estreou-se em 2009 como maestro no Royal Festival

Hall. Em 2012, iniciou a sua colaboração

com a Royal Opera House, Covent Garden,

primeiro como maestro e, posteriormente, como

repetidor do Jette Parker Young Artists Programme,

onde dirigiu Bastien und Bastienne,

Folk Songs, de Berio, Eugene Onegin, Così fan

tutte e Les pêcheurs de perles. Colaborou em

outras produções de ópera e em concertos. Em

2015 foi convidado por Daniel Barenboim a juntar-se

à Berlin Staatsoper como Kapellmeister

e seu assistente. Em março de 2016, estreou-se

no Teatro alla Scala dirigindo I due Foscari e

foi convidado na temporada seguinte a dirigir

Die Entführung aus dem Serail e Le nozze di Figaro.

Compromissos recentes e futuros incluem

Norma, Rigoletto, Le nozze di Figaro, Armida,

L’occasione fa il ladro, La sonnambula, Andrea

Chénier, Il barbiere di Siviglia, Alceste e

L’elisir d’amore, bem como concertos em Klagenfurt,

Milão, Palermo, Florença e Duisburg.

Inicia a atividade como cenógrafo em 1951.

Presente nos mais importantes teatros e festivais

do mundo, obtém prestigiantes reconhecimentos

internacionais, entre os quais a

Legião de Honra, o título de Oficial das Artes

e das Letras em França, Cavaleiro da Grande

Cruz da Ordem ao mérito da República Italiana

e Cavaleiro da Ordem de Mérito Cultural no

Principado do Mónaco. Entre as muitas encenações

importantes que fez destacam-se no

Teatro Rossini em Pesaro Mosè in Egitto,

Maometto II, Bianca e Faliero, Otello e Le

comte Ory. Levou também à cena Rinaldo, Der

Rosenkavalier, Un giorno di regno e Il capello

di paglia. No Teatro Real de Madrid, encenou

uma nova produção de L’Orfeo de Monteverdi em

2008, numa colaboração com William Christie

e Les Arts Florissants, com quem colaborou

posteriormente, em 2009, em Il ritorno d’Ulisse

in patria e, em 2010, em L’incoronazione

di Poppea. Na Arena de Verona encenou Aida,

Macbeth e Gioconda. Colaborou regularmente com

o Teatro dell’Opera de Roma em produções como

I due Foscari, Macbeth, Alceste, Faust, Mosè

in Egitto, Parisina e La battaglia di Legnano

e com o Maggio Musicale Fiorentino em Maria

Stuarda, Orfeo ed Euridice, Nabucco e O Anel

do Nibelungo. Mais recentemente, encenou La

sonnambula no Teatro Bolshoi e Il trovatore no

Teatro Mariinsky. Das encenações em São Carlos

destacam-se Rinaldo de Händel, La traviata e

Il trovatore. Dedica-se também à preparação de

importantes exposições de arte.

118


MASSIMO GASPARON

< REPOSIÇÃO DA ENCENAÇÃO E DESENHO DE LUZ

TERESA ALVES DA SILVA

< REMONTAGEM COREOGRÁFICA

Natural de Veneza, formou-se em Arquitetura.

Colaborou com Pier Luigi Pizzi em várias

produções de ópera e exposições de arte em

Florença, Nápoles, Parma, Paris e Versalhes,

Los Angeles e Munique. Encenou, cenografou e

desenhou figurinos para mais de 100 produções

em todo o mundo, como, por exemplo, La sonnambula

em Moscovo, Guillaume Tell em Lima,

Madama Butterfly em Minorca, Norma em Toulon,

Il trovatore em São Petersburgo, Elegy for

Young Lovers de Henze em Veneza, La traviata

em Minorca, Tosca em Jesi, La Grande-Duchesse

de Gérolstein de Offenbach em Madrid e Valladolid,

Un ballo in maschera em Palermo, La

sonnambula em Bilbau, Nabucco em Minorca, La

traviata em Taormina, Turandot na Catânia, La

leggenda di Sakùntala de Alfano e Salomé na

Catânia, La traviata em Lima, Il barbiere di

Siviglia em Rovigo, Un ballo in maschera em

Tian Jing, Nabucco em Xangai, Rigoletto em Minorca,

entre tantas. Projetos futuros incluem

Tancredi em Bari, Un giorno di regno em Parma,

Le nozze di Figaro em Rovigo e Madama Butterfly

na China.

Fez formação na Academia de Dança Contemporânea

de Setúbal. Bailarina fundadora da CeDeCe. Integrou

o Ballet Gulbenkian entre 1997 e 2005 e

a Companhia Atterbaletto em 2003. Dançou obras

de Mats Ek, Jiri Kylián, Angelin Preljocaj,

Didy Veldman, Mauro Bigonzetti, Stijn Celis,

Ohad Naharin, Rui Horta, Itzik Galili, Paulo

Ribeiro, Olga Roriz, Rodrigo Pederneiras e Vera

Mantero. Integrou de 2005 a 2007 a Companhia

Portuguesa de Bailado Contemporâneo. Fundou com

André Mesquita a TOK’ART. Foi intérprete nas

peças: A Parede de Miguel Moreira, Estado de

Exceção de Rui Horta, Jim, A Festa (da Insignificância)

e Walking With Kylián-Neverstop

Searching de Paulo Ribeiro, Uníssuno de Victor

Hugo Pontes e Salto de André Mesquita, prémio

melhor coreografia SPA 2014. Em março de 2009

conquistou o 1.º prémio de interpretação com o

solo Lake – coreografia de André Mesquita, no 13.º

International Solo –Tanz –Theater – Stuttgart. Remontou

a peça See Blue Through para a Phoenix

Dance Theatre e para o Ballet da Ópera de Leipzig.

A crítica tem inscrito o seu trabalho

de interpretação como uma referência de grande

expressão poética, sensibilidade e exímio rigor

técnico.

119


EKATERINA BAKANOVA

< SOPRANO

JOANA SEARA

< SOPRANO

De nacionalidade russa, Ekaterina Bakanova

diplomou-se em acordeão, piano e canto em

Moscovo. Ganhou diversos primeiros prémios em

importantes concursos de canto, tais como Hans

Gabor Belvedere, AsLiCo, Bella Voce, Giuseppe

di Stefano e Maria Caniglia. É vencedora

do «Giulietta Prize» por ter sido a melhor

intérprete feminina na Arena de Verona. É

convidada habitual em teatros como Arena de

Verona, La Fenice em Veneza, Teatro Regio em

Turim, Teatro Massimo di Palermo, NCPA em

Pequim, Semperoper Dresden e Royal Opera House,

colaborando com maestros como Maurizio Benini,

Jean-Christophe Spinosi, Stefano Montanari,

Nello Santi, Placido Domingo, Karel Marc

Chichon, Jan Latham Koenig, Mung Wung Chung

e Yutako Sado. Tem trabalhado com encenadores

como Franco Zeffirelli, Robert Carsen, Calixto

Bieto, Richard Eyre, Henning Brockhaus, Hugo

de Ana e Roberto Andó. Recentemente participou

em La traviata, La Rondine (nova produção),

numa versão de concerto de Carmen, Don

Giovanni (Donna Anna), Le nozze di Figaro

(Susanna), Les pêcheurs de perles, Il Bravo

(Violetta), Rinaldo, Les contes d’Hoffmann,

Turandot e Manon. Compromissos futuros incluem

La traviata em Tel Aviv, Madrid e Génova,

Roméo et Juliette em Pequim, Les pêcheurs

de perles em Oviedo, Manon em Tel Aviv, Les

contes d’Hoffmann e Pagliacci em Zurique e a

4.ª Sinfonia de Mahler em Turim.

Em ópera, tem interpretado papéis de Monteverdi

a Puccini, de Verdi a Francisco António de

Almeida. Destacam-se Margery com a Akademie

für Alte Musik Berlin, Damigella com a English

National Opera, Gretel e Despina para a Opera

Holland Park e Dorinda para a Independent

Opera no Sadler’s Wells. Outros papéis incluem

Zerlina na Holanda, Inglaterra e Irlanda e Galatea

em França. No Teatro de São Carlos, foi

Susanna, Tebaldo/Voce dal Cielo, Flora, Ines

e Frasquita. Sob a direção de maestros como

Ton Koopman, Lawrence Foster, Simone Young,

Julia Jones, Donato Renzetti, Mathew Halls,

Enrico Onofri, Christoph König, Nicholas Kraemer,

Carlos Mena, Jorge Matta, Miguel Jalôto,

Massimo Mazzeo. Tem cantado nos grandes palcos

nacionais bem como na Alemanha, Bulgária,

Espanha, Inglaterra, Índia e Brasil. Trabalha

regularmente nas produções dos Músicos do Tejo

(dir. Marcos Magalhães) e, com este grupo,

lançou vários projetos discográficos de música

antiga portuguesa: Il Trionfo d’Amore,

La Spinalba e As Árias de Luísa Todi. Outra

discografia inclui a gravação dos CD 18th-Century

Portuguese Love Songs com o agrupamento

L’Avventura London, sob direção de Zak Ozmo,

e L’Angelica, de João Sousa Carvalho, com os

Concerto Campestre de Pedro Castro.

120


CAROLINA FIGUEIREDO

< SOPRANO

Formou-se em Canto na Escola de Música do Conservatório

Nacional de Lisboa em 2005, trabalhando

hoje regularmente com Manuela de

e sendo acompanhada por Susan Waters e Lucia

Mazzaria. Colabora em concerto com grandes coros

e orquestras nacionais, tendo-se apresentado

em obras como Paixão segundo S. João (J.

S. Bach), Messiah (Händel), Requiem (Mozart),

Petite Messe Solennelle (Rossini), Les nuits

d’été (Berlioz), Manfred (Schumann), Les Béatitudes

(Franck), Il Tramonto (Respighi). Integrou

o elenco de L’enfant et les sortilèges

(Ravel) – A Mamã, A Chávena Chinesa e Libélula,

L’Angelica (Sousa Carvalho) – Licori, Beaumarchais

(Pedro Amaral) – Condessa Rosina, Der

Zwerg (Zemlinsky) – 3ª Camareira, Dialogues des

Carmélites (Poulenc) – Mère Jeanne, Madama Butterfly

(Puccini) – Kate Pinkerton, Ester (Leal

Moreira) – Assuero e Bastien und Bastienne (Mozart)

– Bastien. Apresenta-se também em recital

de música romântica, acompanhada por Adriano

Jordão, Olga Prats, João Paulo Santos, José

Manuel Brandão e Anna Tomasik. Estreou e gravou

obras de música contemporânea (Carlos Marecos,

Jorge Salgueiro). Licenciada em Direito e com o

Diploma Internacional de Tradução do Chartered

Institute of Linguists, dedica-se em paralelo

à área da tradução jurídico-legal.

LUÍS GOMES

< TENOR

Graduado pelo National Opera Studio e pela

Guildhall School of Music and Drama em Londres,

foi membro do Jette Parker Young Artists

Programme em Covent Garden e é bolseiro da

Samling. De papéis que já interpretou na Royal

Opera House destacam-se Pong em Turandot, Gastone

em La traviata, Um acendedor de lampiões

em Manon Lescaut, Chevalier de la Force em

Dialogues des Carmélites, Fenton em Falstaff

e Edmondo em Manon Lescaut. Já cantou Don

Ottavio em Don Giovanni, Fenton e Nemorino

em L’elisir d’amore, Tebaldo em I Capuleti

e i Montecchi e Rodolfo em La bohème para a

Scottish Opera. Em concerto já se apresentou

em Roma com o maestro Antonio Pappano, no De

Doelen Rotterdam com o maestro Mandemaker, no

Barbican Centre sob a batuta de Wigglesworth,

na Gulbenkian com Michel Corboz e em recital

no Wigmore Hall com o soprano Ekaterina Siurina.

Compromissos para esta temporada incluem

um regresso à Royal Opera House como Beppe em

Pagliacci e como Borsa em Rigoletto, bem como

concertos com a Orchestre National de Lyon.

121


ALAN OPIE

< BARÍTONO

Colaborou com os mais importantes teatros de

ópera do Reino Unido, bem como com os Festivais

de Bayreuth e de Saito Kinen no Japão, e em

cidades como Paris, Amesterdão, Chicago,

Milão, Munique, Berlim, Viena, Los Angeles,

Oslo, Bruxelas, Nova Iorque, Tóquio, Pequim,

Estrasburgo, Florença, Toronto, Washington,

Filadélfia e San Diego. A nível concertístico

já se apresentou em Nova Iorque, Paris, Chicago,

Dallas, Sidney, Madrid, Lisboa, Colónia,

Istambul, Israel, Turim, Boston, Gotemburgo

e Helsínquia. Foi vencedor de dois «Grammy

Awards» pelas suas gravações de Capitão Balstrode

em Peter Grimes e de Sixtus Beckmesser

em Die Meistersinger von Nürnberg (dirigido

por Georg Solti com a Chicago Symphony Orchestra),

tendo também gravado a solo árias de

bel canto. Foi nomeado para o «Olivier Awards»

pela sua interpretação de Falstaff na English

National Opera. Compromissos recentes incluem

o Guarda de Caça em Rusalka, Arbace em Idomeneo

(Metropolitan Opera) e Dr. Bartolo em Il

barbiere di Siviglia (English National Opera).

Em 2013, foi condecorado com a «Order of the

British Empire» pelo aniversário da rainha de

Inglaterra.

JOÃO CIPRIANO

< TENOR

Natural da ilha de São Miguel, é licenciado em

Ensino de Música – Canto, pela Universidade

de Aveiro onde estudou com Isabel Alcobia e

João Lourenço. Como solista, do seu repertório

destacam-se, em oratória: Messiah de Händel,

Requiem de Mozart, Die Jahreszeiten de Haydn,

9.ª Sinfonia de Beethoven, Messa di Gloria de

Puccini, Stabat Mater e Requiem de Dvořák; em

ópera: Tamino em Die Zauberflöte, Ferrando em

Così fan tutte, Don José em Carmen, Cassio em

Otello, Professor de Música em A Floresta de

Eurico Carrapatoso, Carlos em Suzana, Nemorino

em L’elisir d’amore e Rodolfo em La bohème.

Estreou-se no palco do Teatro Nacional de São

Carlos em 2010 com o papel de Conte Alberto

na ópera L’occasione fa il ladro de Rossini.

Tem vindo a trabalhar com as principais orquestras

nacionais, sob a direção de grandes maestros

nacionais e internacionais. É atualmente

membro integrante do Coro do Teatro Nacional

de São Carlos.

122


MÁRIO REDONDO

< BARÍTONO

Ator e cantor formado pela ESTC e pela EMCN.

Na ópera, destacam-se as suas criações de Geronimo

em Il matrimonio segreto, de Cimarosa

(S.Carlos, 2000); Sid em Albert Herring,

de Britten (T. Aberto, 2002); Sam em Trouble

in Tahiti, de Bernstein (França, 2003); Ivan

Iakovlevitch em O Nariz, de Shostakovich (S.

Carlos, 2006); Conde em Le nozze di Figaro, de

Mozart (T.Trindade, 2006); Angelotti em Tosca,

de Puccini (S. Carlos, 2008); Kuligin em Katya

Kabanova, de Janáček (S. Carlos, 2011); Frate

em Don Carlo, de Verdi (S. Carlos, 2011);

Monterone em Rigoletto, de Verdi (S. Carlos,

2013); e Pangloss em Candide, de Bernstein

(S. Carlos, 2013). No teatro, destacam-se os

espetáculos Ópera de Três Vinténs, como Mack

da Naifa; Os Sonhos de Einstein; Sweeney Todd,

como Sweeney Todd; Evil Machines, e O Misantropo.

Em 2008 foi nomeado para o Globo de Ouro

de Melhor Ator de Teatro pelo seu trabalho em

Sweeney Todd.

JOÃO MERINO

< BARÍTONO

Licenciado em Canto pela ESMAE, trabalhou com

Francisco Lázaro, em Barcelona. Apresentou-se

nas óperas: Die Zauberflöte, Le nozze di Figaro,

Così fan tutte; Don Giovanni; Il barbiere

di Siviglia; L’occasione fa il ladro; Il Viaggio

a Reims; Carmen; La traviata; Rigoletto;

Tosca; Gianni Schicchi; Eugene Onegin; Hänsel

und Gretel; Werther; Œdipus Rex; El Gato Montés;

Maria de Buenos Aires; Il capello di paglia di

Firenze; e Evil Machines. Em concerto: Messiah

de Händel; Magnificat e Oratória de Natal;

Criação de Haydn; a integral das Missas e o

Requiem de Mozart; 9.ª Sinfonia de Beethoven;

Requiem de Fauré; Missa n.º 3 de Bruckner; e

Aventures de Ligeti, entre outros. Apresentou-

-se como solista em Portugal, Espanha e Itália,

sob a direção de maestros como C. Costa,

C. Soler, E. Nielsen, G. Andreoli, G. Bühl,

I. Cruz, J. Jones, J. P. Santos, F. Lobo, J.

Lombana, L. Koenigs, M. André, M. Jurowski, M.

Ortega, R. Massena, P. Herreweghe e X. Poncette,

e de encenadores como A. Teodósio, A. H. Lopes,

C. Avilez, C. Gruber, E. Sagi, F. Gomes, G.

Vick, G. Joosten, J. C. Soler, L. M. Cintra, N.

M. Cardoso, P. Matos, P. Konwitschny, R. Pais,

R. Carsen, S. Medcalf, entre outros.

123


JOÃO OLIVEIRA

< BAIXO

Iniciou os estudos de canto no Instituto Gregoriano

de Lisboa com Helena Afonso. Na Escola

de Música do Conservatório Nacional estudou com

António Wagner Diniz e José Manuel Araújo. Participou

nos cursos de aperfeiçoamento, «Opera

Plus» em 2002 e 2003 na Bélgica, e masterclasses

com Tom Krause, Sarah Walker, Rudolf Knoll,

Elisabete Matos, Mara Zampieri e Ildebrando

D’Arcangelo. Em 2001, estreia-se na ópera Rigoletto

de G. Verdi, no papel de Sparafucile.

Desde então tem colaborado com as principais

salas de espetáculo e companhias nacionais em

que se destaca o Teatro Nacional de São Carlos

com o qual colabora regularmente. Em janeiro de

2008 participa na estreia mundial da fantasia

musical Evil Machines, no Teatro São Luiz em

Lisboa, com música de Luís Tinoco e encenação

de Terry Jones (Monty Python).

DIOCLECIANO PEREIRA

< TENOR

Natural de Espinho. Frequentou o curso de Canto

do Conservatório Nacional de Lisboa. Colaborador

artístico das temporadas do TNSC

desde 1994. Participou em várias produções

como solista: Peter Grimes, La traviata, Il

trovatore, Carmen, Street Scene, A Raposinha

Matreira, La bohème, Il tabarro, Sweeney Todd,

Orphée aux Enfers, La Borghesina, Lady, be

Good e A Hand of Bridge.

124


COSTA CAMPOS

< BAIXO

Convocado à vida musical por força de uma

vocação imprescritível e de uma inesgotável

paixão estética, Costa Campos assume-se hoje

como um homem e um artista curvado em preito

de grata veneração perante as duas máximas e

tutelares figuras da sua vida e da sua carreira:

sua Mãe; e a incomparável Grace Bumbry.

JOÃO ROSA

< BARÍTONO

Licenciado em Música na variante de Canto pela

Escola Superior de Música de Lisboa. É membro

do Coro do Teatro Nacional de São Carlos desde

1985, tendo participado em gravações para a

RTP e RDP nomeadamente em Petite Messe Solennelle

de Rossini, Dez Madrigais de Luís

de Freitas Branco, peças para pequeno coro de

Webern e Schönberg, bem como em vários concertos

de Natal. Interpretou pequenos papéis

como solista em concertos e diversas óperas no

Teatro Nacional de São Carlos, nomeadamente em

Moralities, Der Rosenkavalier, La traviata,

Carmen, Lohengrin, Le Grand Macabre, Don Giovanni

e Peter Grimes, entre outras.

125


CORO DO TEATRO NACIONAL

DE SÃO CARLOS

O Coro do Teatro Nacional de São Carlos, criado

em 1943 sob a titularidade de Mario Pellegrini,

tem atuado sob a direção de importantes

maestros (Pedro de Freitas Branco, Votto,

Serafin, Gui, Giulini, Klemperer, Zedda,

Solti, Santi, Rescigno, Navarro, Rennert,

Burgos, Conlon, Christophers, Plasson,

Minkowski, entre outros) e colaborado com

marcantes encenadores (Pountney, Carsen,

Vick). Entre 1962 e 1975, o Coro colaborou nas

temporadas da Companhia Portuguesa de Ópera

(Teatro da Trindade), tendo-se deslocado com

a mesma à Madeira, aos Açores, a Angola e a

Oviedo. O conjunto tem regularmente abordado

o repertório de compositores nacionais

(Alfredo Keil, Augusto Machado) e tem

participado em estreias mundiais de óperas

de Fernando Lopes-Graça, António Victorino

d’Almeida, António Chagas Rosa, Nuno Côrte-

-Real. Em 1980 formou-se um primeiro núcleo

coral a tempo inteiro e três anos depois

assumiu-se a profissionalização plena, sob

a direção de Antonio Brainovitch. A partir

de 1985 a afirmação artística do conjunto

foi creditada a Gianni Beltrami e o titular

seguinte foi João Paulo Santos. Sob a

responsabilidade destes dois maestros o Coro

registou marcantes êxitos internacionais:

Grande Messe des morts de Berlioz (1989 –

Turim); Requiem de Verdi (1991 – Bruxelas);

Concerto Henze/Corghi (1997 – Festival de

Granada). Giovanni Andreoli assumiu o cargo

em 2004. Sob a sua direção, o Coro averbou

êxitos num vasto e variado repertório:

Iphigénie en Tauride, Alceste, Trilogia

Popular verdiana, Don Carlo, Macbeth, La

forza del destino, Turandot, The Rake’s

Progress, Dialogues des Carmélites. Sucessos

foram ainda as incursões no repertório lírico

espanhol: El gato montés; Los diamantes de la

corona. Em 2005, o coro foi convidado pela

Ópera de Génova para participar em récitas

da ópera Billy Budd de Britten, convite que

se repetiu em 2015.

GIOVANNI ANDREOLI

< MAESTRO TITULAR DO CORO DO TNSC

Estudou Piano, Composição e Direção Coral

e de Orquestra. Colaborou com a RAI de Milão,

Arena de Verona e Teatros La Fenice de

Veneza e Carlo Felice de Génova. Trabalhou

com os maestros Delman, Muti, Chailly,

Arena, Santi, Campori, R. Abbado e Renzetti.

Na Bienal de Música de Veneza, estreou obras

de Guarnieri, De Pablo, Clementi e Manzoni.

Dirigiu os Carmina Burana e a Petite Messe

Solennelle, L’esperienza corale nel ‘900

italiano (Dallapiccola, Rota e Petrassi),

L’elisir d’amore, Missa da coroação (Mozart)

e Missa n.º 9 (Haydn), em São Paulo, Via

crucis (Liszt), Les Noces (Stravinski), Otello

(Rossini), a primeira audição moderna da Missa

amabilis e Missa dolorosa de Caldara, Il

barbiere di Siviglia (Teatro dei Vittoriale,

Gardone-Riviera), La traviata (Teatro Real de

Copenhaga), Una cosa rara de Soler (Teatro

Goldoni) e produções de La bohème (Teatro

Grande de Brescia com Giuseppe Sabbatini,

e em Lanciano com a Orquestra Giovanile

Internazionale). Gravou para a BMG Ricordi,

Fonit Cetra e Mondo Musica München. De 1994

a 2004, foi o responsável artístico pela

temporada lírica do Teatro Grande de Brescia.

Em 2006, iniciou a sua colaboração com a

Companhia de Ópera Portuguesa. Em janeiro de

2011 retomou o cargo de maestro titular do

Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que

já ocupara entre 2004 e 2008.

126


ORQUESTRA SINFÓNICA

PORTUGUESA

Criada em 1993, a Orquestra Sinfónica

Portuguesa (OSP) é um dos corpos artísticos do

Teatro Nacional de São Carlos e tem vindo a

desenvolver uma atividade sinfónica própria,

incluindo uma programação regular de concertos,

participações em festivais de música nacionais e

internacionais. No âmbito de outras colaborações,

destaque-se também a sua presença nos seguintes

acontecimentos: 8.º Torneio Eurovisão de Jovens

Músicos transmitido pela Eurovisão para cerca de

quinze países (1996); concerto de encerramento

do 47. o Festival Internacional de Música e Dança

de Granada (1997); concerto de gala da Abertura

da Feira do Livro de Frankfurt; concerto de

encerramento da Expo’98; Festival de Música

Contemporânea de Alicante (2000) e Festival

de Teatro Clássico de Mérida (2003). Colabora

regularmente com a Rádio e Televisão de Portugal

através da transmissão dos seus concertos e

óperas pela Antena 2, designadamente a realização

da tetralogia O Anel do Nibelungo, transmitida

na RTP2, e da participação em iniciativas da

própria RTP, como no Prémio Pedro de Freitas

Branco para Jovens Chefes de Orquestra,

no Prémio Jovens Músicos-RDP e na Tribuna

Internacional de Jovens Intérpretes. No âmbito

das temporadas líricas e sinfónicas, a OSP tem-se

apresentado sob a direção de notáveis maestros,

como Rafael Frühbeck de Burgos, Alain Lombard,

Nello Santi, Alberto Zedda, Harry Christophers,

George Pehlivanian, Michel Plasson, Krzysztof

Penderecki, Djansug Kakhidze, Milán Horvat,

Jeffrey Tate e Iuri Ahronovitch, entre outros.

A discografia da OSP conta com dois CD para

a etiqueta Marco Polo, com as Sinfonias n. os 1, 3,

5 e 6 de Joly Braga Santos, que gravou sob a

direção do seu primeiro maestro titular, Álvaro

Cassuto, e Crossing borders (obras de Wagner,

Gershwin e Mendelssohn), sob a direção de Julia

Jones, numa gravação ao vivo pela Antena 2. No

cargo de maestro titular, seguiram-se José Ramón

Encinar (1999-2001), Zoltán Peskó (2001-2004)

e Julia Jones (2008-2011); Donato Renzetti

desempenhou funções de primeiro maestro convidado

entre 2005 e 2007. Atualmente, a direção musical

está a cargo de Joana Carneiro.

JOANA CARNEIRO

< MAESTRINA TITULAR DA OSP

É maestrina titular da Orquestra Sinfónica

Portuguesa desde 2014 e diretora artística

do Estágio Gulbenkian para Orquestra.

Compromissos recentes e futuros incluem

a Philharmonia Orchestra, BBC Philharmonic, BBC

Symphony, Royal Stockholm Philharmonic, Swedish

Radio Symphony, Helsinki Philharmonic, RTE

Symphony, Hong Kong Philharmonic e Gothenburg

Symphony, Óperas de Estocolmo, Copenhaga,

Escócia e Inglaterra. Colaborou com a Royal

Liverpool Philharmonic, Royal Philharmonic

Orchestra, Orchestre Philharmonique de

Radio France, Ensemble Orchestral de Paris,

Orchestre de Bretagne, Norrköping Symphony,

Norrlands Opera Orchestra, Residentie Orkest/

Hague, Malmo Symphony, Orquestra Nacional de

Espanha e Orquestra Sinfónica do Teatro La

Fenice na Bienal de Veneza. Na América dirigiu

a Los Angeles Philharmonic, Toronto Symphony,

Saint Paul Chamber Orchestra,Detroit Symphony,

Colorado Symphony, Indianapolis Symphony,

Los Angeles Chamber Orchestra, entre outras.

Dirigiu em 2010 Œdipus Rex/Symphony of Psalms,

com encenação de Peter Sellars, premiada com

um «Helpmann Award». Entre 2009 e 2018 foi

diretora musical da Orquestra Sinfónica de

Berkeley.

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FOTOGRAFIAS DE ENSAIO

©BRUNO SIMÃO

FOTOGRAFIAS BIOGRAFIAS

Ekaterina Bakanova por ©GIACOMO ORLANDO

João Oliveira por ©ALFREDO ROCHA

Diocleciano Pereira por ©ALFREDO ROCHA

Costa Campos por ©ALFREDO ROCHA

Giovanni Andreoli por ©DAVID RODRIGUES

Joana Carneiro por ©BRUNO SIMÃO

FOTOGRAFIA NESTA PÁGINA (VIOLETTA VALÉRY)

Ekaterina Bakanova por ©BRUNO SIMÃO

TRADUÇÃO DO LIBRETO

Catarina Latino

/

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DO OPART

Presidente CONCEIÇÃO AMARAL

Vogais ANNE VICTORINO D’ALMEIDA E ALEXANDRE SANTOS

Diretora Artística do TNSC ELISABETE MATOS


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