NOREVISTA MARÇO 2021

norevistadigital

REPORTAGEM

NOMAR21

01


PUB PUB.

REPORTAGEM

REPORTAGEM

SUMÁRIO

MARÇO

2021

05

17

26

38

48

58

ENTREVISTA

À MESA COM MANUEL LIMA

OPINIÃO

JUVENTUDES PARTIDÁRIAS

REPORTAGEM

A CIÊNCIA AINDA TEM GÉNERO?

REPORTAGEM

VACINAÇÃO COVID-19: A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

REPORTAGEM

PROJETO REGIN: INTEGRAÇÃO E INCLUSÃO DE

IMIGRANTES E REFUGIADOS NA EUROPA

REPORTAGEM

PENSAR NO SERVIÇO REGIONAL DE SAÚDE PARA

ALÉM DA COVID-19

100

108

24

112

122

144

146

ARTIGO DE ESPECIALIDADE

ANÁLISE INTEGRADA DE RISCO AMBIENTAL DE

LOCAIS CONTAMINADOS

PROJETO “CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA

IMPRENSA” | CIÊNCIA

O EXCITANTE FUTURO DA EXPLORAÇÃO ESPACIAL

PROJETO “CULTURA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA

IMPRENSA” | SAÚDE

UMA VACINA CONTRA A DESINFORMAÇÃO

CRÓNICAS

DESTAQUE

FRASES DO MÊS

SÁTIRA POLÍTICA

O TEU COMPANHEIRO DE ESCOLA!

A PARTIR DE 19 DE OUTUBRO

RTP MEMÓRIA | RTP.PT/ESTUDOEMCASA | ESTUDOEMCASA.DGE.MEC.PT | APP #ESTUDOEMCASA

Horário Ensino Básico 2020/2021

09

: 00

- 09

: 30

09

: 30

- 10:

00

10:

00

- 10:

30

10:

30

- 1 1 : 00

1 1 : 00

- 1 1 : 30

1 1 : 30

- 12

: 00

12

: 00

- 12

: 30

12

: 30

- 13

: 00

segunda-feira

ESTUDO DO MEIO

E CIDADANIA

HORA DA LEITURA 1.º ciclo

PORTUGUÊS 2.º ano

ESTUDO DO MEIO

E CIDADANIA

MATEMÁTICA 3.º e 4.º anos

CIDADANIA E

DESENVOLVIMENTO

PORTUGUÊS 5.º e 6.º anos

CIÊNCIAS NATURAIS

E CIDADANIA

1.º ano

2.º ano

5.º e 6.º anos

5.º e 6.º anos

terça-feira

PORTUGUÊS 1.º ano

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA 1.º ciclo

MATEMÁTICA 2.º ano

PORTUGUÊS 3.º e 4.º anos

ESTUDO DO MEIO

3.º e 4.º anos

E CIDADANIA

HISTÓRIA E GEOGRAFIA

5.º e 6.º anos

DE PORTUGAL

MATEMÁTICA 5.º e 6.º anos

EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA 5.º e 6.º anos

quarta-feira

ESTUDO DO MEIO 1.º ano

E CIDADANIA

MATEMÁTICA 1.º ano

EDUCAÇÃO FÍSICA 1.º ciclo

PORTUGUÊS 2.º ano

MATEMÁTICA 3.º e 4.º anos

PORTUGUÊS 5.º e 6.º anos

INGLÊS 5.º e 6.º anos

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA 2.º e 3.º ciclos

quinta-feira

PORTUGUÊS 1.º ano

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA 1.º ciclo

MATEMÁTICA 2.º ano

ESTUDO DO MEIO

2.º ano

E CIDADANIA

PORTUGUÊS 3.º e 4.º anos

CIÊNCIAS NATURAIS

5.º e 6.º anos

E CIDADANIA

LEITURA E ESCRITA 5.º e 6.º anos

EDUCAÇÃO FÍSICA 5.º e 6.º anos

sexta-feira

MATEMÁTICA 1.º ano

ORIENTAÇÃO PARA 1.º ciclo

TRABALHO AUTÓNOMO

EDUCAÇÃO FÍSICA 1.º ciclo

ESTUDO DO MEIO 3.º e 4.º anos

E CIDADANIA

INGLÊS 3.º e 4.º anos

MATEMÁTICA 5.º e 6.º anos

HISTÓRIA E GEOGRAFIA

5.º e 6.º anos

DE PORTUGAL

ORIENTAÇÃO PARA

5.º e 6.º anos

TRABALHO AUTÓNOMO

A CIÊNCIA AINDA

TEM GÉNERO?

28

VACINAÇÃO

COVID-19: A LUZ AO

FUNDO DO TÚNEL 40

PROJETO REGIN

50

PENSAR NO SRS

PARA ALÉM DA

COVID-19 60

13:

00

- 13

: 30

PORTUGUÊS

LÍNGUA NÃO MATERNA 1.º ao 9.º anos

(INICIAÇÃO)

PORTUGUÊS

LÍNGUA NÃO MATERNA 1.º ao 9.º anos

(INTERMÉDIO)

PORTUGUÊS

LÍNGUA NÃO MATERNA 1.º ao 9.º anos

(INICIAÇÃO)

PORTUGUÊS

LÍNGUA NÃO MATERNA 1.º ao 9.º anos

(INTERMÉDIO)

EDUCAÇÃO ARTÍSTICA

2.º e 3.º ciclos

13:

30

- 14

: 00

MATEMÁTICA 7.º e 8.º anos

FÍSICO-QUÍMICA 7.º e 8.º anos

INGLÊS 7.º e 8.º anos

GEOGRAFIA 7.º e 8.º anos

CIÊNCIAS NATURAIS

E CIDADANIA

7.º e 8.º anos

14:

00

- 14

: 30

INGLÊS 7.º e 8.º anos

PORTUGUÊS 7.º e 8.º anos

MATEMÁTICA 7.º e 8.º anos

HISTÓRIA 7.º e 8.º anos

PORTUGUÊS

7.º e 8.º anos

14:

30

- 15

: 00

15:

00

- 15

: 30

CIDADANIA E

3.º ciclo

DESENVOLVIMENTO

ORIENTAÇÃO PARA

3.º ciclo

TRABALHO AUTÓNOMO

LÍNGUA ESTRANGEIRA II

3.º ciclo

FRANCÊS

EDUCAÇÃO FÍSICA 3.º ciclo

LEITURA E ESCRITA

LÍNGUA ESTRANGEIRA II

ESPANHOL

3.º ciclo

3.º ciclo

LÍNGUA ESTRANGEIRA II

FRANCÊS

LINGUA ESTRANGEIRA II

ALEMÃO

3.º ciclo

3.º ciclo

EDUCAÇÃO FÍSICA

LÍNGUA ESTRANGEIRA II

ESPANHOL

3.º ciclo

3.º ciclo

15:

30

- 16

: 00

16:

00

- 16

: 30

PORTUGUÊS 9.º ano

HISTÓRIA 9.º ano

LÍNGUA ESTRANGEIRA II

3.º ciclo

ALEMÃO

EDUCAÇÃO FÍSICA 9.º ano

GEOGRAFIA 9.º ano

CIÊNCIAS NATURAIS

E CIDADANIA

9.º ano

PORTUGUÊS 9.º ano

INGLÊS 9.º ano

MATEMÁTICA

FÍSICO-QUÍMICA

9.º ano

9.º ano

COM O APOIO

NOMAR21

03


EDITORIAL

O APROVEITAMENTO POLÍTICO

Tudo o que mexe e o que

não mexe é alvo de opinião

diversa, construindo um ruído

comunicacional conducente

ao vazio na razão nuclear do

propósito.

Opina-se nas melhores vontades

e credos sobre os efeitos do

diagnóstico sem perceberem o

poder da terapia.

Todos já perceberam e sentiram

na pele o estado de confinado,

de não poder circular livremente

e ficar privado da vida normal

que sempre apreciamos.

Neste quadro de confinamento

de acordo com a prevenção no

combate ao vírus Covid muitas

foram as vozes contra e a favor,

muitos especialistas disseram

uma coisa e o seu contrário,

muitas medidas foram aplicadas

e outras omitidas e tudo no

sentido de preservar a saúde

pública. Ou assim deveria ter

sido.

Absolvendo os negacionistas, a

comunicação neste ambiente de

pandemia deveria ter tido um

único pilar. A saúde pública.

Respeitar as orientações

e medidas emanadas das

entidades de saúde pública teria

sido o exercício democrático

mais elevado de qualquer

comunidade. Esse respeito

naturalmente plasmado numa

via transversal a todos sem

exceção.

Muito difícil será aferir sobre

os resultados na aplicação de

restrições e mesmo na ausência

delas se observarmos as demais

variáveis que se assacam nestes

modelos, mas importa perceber

no contexto global o que

resultou e o que não resultou.

A nós parece-nos óbvio e pelos

resultados tornados públicos

que o não confinamento e a falta

de implementação de medidas

restritivas revelaram que o vírus

não deu tréguas.

Numa demanda simples

pergunta-se o que será mais

importante. A saúde ou as

restrições impostas para conter

a transmissão do vírus? Se

bem que a segunda preserva a

primeira e sem a primeira não

existe a segunda.

A discussão pública sobre

esta matéria é salutar e até se

percebe algum desencantamento

por parte das populações

visadas pela imposição de

restrições. O que não se entende

é a classe política aproveitar-se

da desinformação para ganhar

afetos e alguns votos com a

agravante de ser através do

sofrimento alheio.

Quem decide sustenta-se em

factos e no conhecimento real

no terreno e quando decide

é para o bem comum. Quem

assim não entende é porque

seria bem capaz de fazer o

contrário.

Atravessamos uma crise

pandémica que nos obriga a

sacrifícios e acima de tudo

obriga-nos a mitigar o fator

emocional sem que este interfira

na disseminação de prosas e

de atos detratores que possam

influenciar uma opinião pública

menos preparada.

Cláudia Carvalho

FICHA TÉCNICA:

ISSN 2183-4768

PROPRIETÁRIO ASSOCIAÇÃO AGENDA DE NOVIDADES

NIF 510570356

SEDE DE REDAÇÃO RUA DA MISERICÓRDIA, 42, 2º ANDAR,

9500-093 PONTA DELGADA

SEDE DO EDITOR RUA DA MISERICÓRDIA, 42, 2º ANDAR,

9500-093 PONTA DELGADA

DIRETORA ADJUNTA CLÁUDIA CARVALHO TPE-288A

REDAÇÃO CHEFE REDAÇÃO RUI SANTOS TPE-288 A,

CLÁUDIA CARVALHO TPE-288 A, SARA BORGES, ANA SOFIA

MASSA, ANA SOFIA CORDEIRO

REVISÃO ANA SOFIA MASSA

PAGINAÇÃO CARINA COELHO

CAPTAÇÃO E EDIÇÃO DE IMAGEM RODRIGO RAPOSO E

MIGUEL CÂMARA

DEPARTAMENTO DE MARKETING, COMUNICAÇÃO E IMAGEM

CILA SIMAS E RAQUEL AMARAL

PUBLICIDADE RAQUEL AMARAL E TÂNIA MACHADO

MULTIMÉDIA RODRIGO RAPOSO, RAFAEL ARAÚJO E MÁRIO

CORRÊA

INFORMÁTICA JOÃO BOTELHO

RELAÇÕES PÚBLICAS CILA SIMAS

Nº REGISTO ERC 126 641

COLABORADORES ANTÓNIO VENTURA, JOÃO CASTRO,

RICARDO SILVA

CONTACTOS MARKETING@AGENDADENOVIDADES.COM

ESTATUTO EDITORIAL:

A NO É UMA REVISTA DE ÂMBITO REGIONAL (NÃO FICANDO

EXCLUÍDOS OS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA E

COMUNIDADES PORTUGUESAS ESPALHADAS PELO MUNDO).

A NO DISPONIBILIZA INFORMAÇÃO INDEPENDENTE E

PLURALISTA RELACIONADA COM A POLÍTICA, CULTURA

E SOCIEDADE NUM CONTEXTO REGIONAL, NACIONAL E

INTERNACIONAL.

A NO É UMA REVISTA AUTÓNOMA, SEM QUALQUER

DEPENDÊNCIA DE NATUREZA POLÍTICA, IDEOLÓGICA E

ECONÓMICA, ORIENTADA POR CRITÉRIOS DE RIGOR, ISENÇÃO,

TRANSPARÊNCIA E HONESTIDADE.

A NO É PRODUZIDA POR UMA EQUIPA QUE SE COMPROMETE

A RESPEITAR OS DIREITOS E DEVERES PREVISTOS NA

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA; NA LEI DE

IMPRENSA E NO CÓDIGO DEONTOLÓGICO DOS JORNALISTAS.

A NO VISA COMBATER A ILITERACIA, INCENTIVAR O GOSTO

PELA LEITURA E PELA ESCRITA, MAS ACIMA DE TUDO,

PROMOVER A CIDADANIA E O CONHECIMENTO.

A NO REGE-SE PELO CUMPRIMENTO RIGOROSO DAS NORMAS

ÉTICAS E DEONTOLÓGICAS DO JORNALISMO E PELOS

PRINCÍPIOS DE INDEPENDÊNCIA E PLURALISMO.

À MESA COM

REPORTAGEM

REPORTAGEM

Manuel lima

designer, autor, mentor e speaker

04 NOMAR21 NOMAR21 05


ENTREVISTA

ENTREVISTA EM

VÍDEO NA VERSÃO

DIGITAL

Sejam bem-vindos ao À Mesa

Com deste mês, no restaurante

da Associação Agrícola. Eu tenho

o prazer de ter comigo Manuel

Lima, ele que é muitas coisas

ao mesmo tempo, mas não vou

desvendar tudo ainda porque é

isso que ele nos vai contar. Quem

é Manuel Lima?

Quem sou eu? Isso é uma

pergunta difícil. Eu penso que

sou, acima de tudo, uma pessoa

sonhadora e curiosa, em geral, e

um pouco apaixonada pela vida.

O Manuel foi descrito há alguns

anos como o homem que

transforma informação em arte.

Eu estou, nesse momento, a dizer

uma citação da revista Wired.

É assim que o Manuel se vê?

Como o homem que transforma

informação em arte?

Antes de mais, eu admiro essa

descrição da revista Wired. Não

sei, eu sou um pouco apaixonado

pelas coisas no geral, um pouco

curioso por vários temas e esse

meu interesse e a minha paixão

por transformar a informação

em conhecimento levou-me, em

parte, em vários projetos que

desenvolvi na minha carreira

e, subsequentemente, levou à

produção de três livros nessa

área e acho que foi por isso que

a Wired me descreveu dessa

maneira. Mas eu detesto labels,

detesto descrições, detesto

citações, porque eu acho que

as pessoas, como entidade, são

sempre extremamente mais

complexas do que dizer que eu sou

designer, de que eu transformo

informação em conhecimento ou

qualquer tipo de descrição. Eu sou

contra este tipo de labels, esse tipo

de etiquetas porque, lá está, eu

acho que sou uma pessoa única,

como todos nós somos, como

você é, como outras pessoas são

e que temos um sem número de

interesses, um sem número de

valências que vão muito mais além

do que qualquer tipo de título nos

possa transmitir.

Manuel, falava ainda há pouco

sobre o lançamento do primeiro

livro, ou seja, vou meter o cenário

em cima da mesa. Acabei de me

despedir, o que é que eu vou

fazer? Vou escrever um livro.

Como é que surge e como é que

foi escrever o primeiro livro? Foi

desafiante, sentia-se à vontade

para falar sobre o assunto? O que

é que fala o primeiro livro e os

restantes?

06 NOMAR21 07

NOMAR21


ENTREVISTA

Eu acho que é um enorme desafio fazer um livro. É

extremamente desafiante. Para já, porque nós ficamos

muito ansiosos. Há uma enorme incerteza sobre quem

sou eu para falar sobre este tema, mas é importante

seguir em frente e acima de tudo acho que é nós

ficarmos vulneráveis e isso é sempre muito difícil para

um perfecionista

como eu, porque a

partir do momento

em que se escreve

um livro, nós

ficamos vulneráveis,

vulneráveis a ataques,

há pessoas que

discordam daquilo

que escrevemos e

o livro fica lá, está

sempre lá, não é

uma coisa que nós

possamos voltar

atrás e repensar,

não, está lá, fica

para sempre e isso

é bom e mau não é?

Agora, como é que

foi o processo do

livro em si. Eu na

altura, enquanto trabalhava na Nokia, já tinha contactado uma

data de editoras, recebi inúmeros nãos e quando me despedi

do emprego eu já tinha um contrato assinado com a editora

Princeton Architectural Press, nos Estados Unidos, para fazer

o livro, ou seja, não foi completamente às escuras, já tinha um

contrato, aliás, vivia com uma certa ansiedade e pressão porque

era muito difícil coordenar o meu emprego full-time na Nokia,

com tempo suficiente, ainda que não tivesse crianças nessa

altura, tempo suficiente para escrever o livro e foi um processo

complicado, porque

na altura as editoras,

sendo a primeira vez,

sendo o meu primeiro

livro, muitas disseram

que não, mas a

Princeton ficou bastante

interessada e assinámos

contrato, um contrato

miserável. Depois

vim-me a aperceber

que, naquela ânsia de

querer escrever o meu

primeiro livro, assinei

um contrato miserável

a nível monetário. São

sempre miseráveis, mas

o meu foi extremamente

miserável. Mas pronto,

estava contente com o

meu primeiro contrato,

assinei, comecei a

escrever o livro, então,

depois de sair da Nokia

e foi difícil. Eu digo,

foram seis meses, e

a minha mulher, a

Joana, sabe em detalhe

o quão difícil foi essa

fase porque enchemonos

de incertezas, não

só “será que eu sei o

suficientemente dessa

temática ou não” depois

sem temas muito

complexos e é sempre o

mais complexo de fazer

um livro, onde é que

nós parámos, porque

podemos escrever

dez livros sobre esta

temática e pensas que

nunca é suficiente, até

onde é que vais parar,

onde é que é o limite e

depois o momento mais

difícil foi quando eu

também, muito naive,

muito ingénuo da minha

parte, quando enviei

o manuscrito para a

editora e pensei que era

esse o meu trabalho,

que tava feito, agora

tratem do resto, mas

não, ainda há um sem

número de revisões e

então ela envia-me o

manuscrito todo editado,

com anotações aqui e

aqui tudo a vermelho.

Eu fiquei quase com um

esgotamento nervoso, eu

pensava que já tinha tudo

feito, mas não, ainda

falta um sem número de

revisões, depois ainda

tinha a revisão do design,

a revisão da capa, revisão

disso e isso, mas foi uma

curva de aprendizagem

muito importante.

O tema era sobre algo

que eu já tinha criado,

um site sobre redes

complexas, a visualização

de redes, das redes

computacionais, redes

sociais, um sem número

de redes, um trabalho

que começou já no meu

mestrado, da Parsons

School of Design, em

Nova Iorque. Tinha

criado o site, eu sabia

que de alguma maneira

essa grande coleção de

exemplos que eu tinha

reunido à volta desta

temática da visualização

da informação, mas em

particular da visualização

de redes era demasiado

interessante para não

ir parar a um livro, um

dia. E, no fundo, foi essa

a proposta deste meu

primeiro livro, um livro

sobre a visualização de

redes que, na altura, era

completamente novo e

que estava em grande

ebulição.

08 NOMAR21 09

NOMAR21


ENTREVISTA

Edepois

sai o segundo e sai o terceiro.

Novamente, o aspeto da curiosidade, o querer saber sempre

mais, ir mais além. O meu primeiro livro era sobre redes,

mas o primeiro capítulo desse livro chamava-se The Tree

of Life, porquê? Porque as árvores, vim eu a descobrir,

as árvores são no fundo o arquétipo visual mais antigo

das redes, ou seja, antes de o ser humano fazer redes,

visualizar ou desenhar mapas em

rede, as primeiras tentativas nesse

sentido são os diagramas de árvore.

De formas hierárquicas, de estruturas

hierárquicas, sejam de árvores da vida,

de árvores genealógicas, etc. Então,

o primeiro capítulo deste livro, da

Visual Complexity, tenta um pouco ir

atrás e dar a conhecer essas primeiras

tentativas de diagramatizar

as estruturas hierárquicas.

Só que eu apaixonei-me de

tal maneira pelas árvores, eu

disse “bem eu tenho de fazer

um livro só sobre árvores”,

então o meu segundo livro

foi só sobre árvores e já

o terceiro livro foi uma

tentativa de ir ainda mais

atrás, ou seja, quais foram os

primeiros diagramas criados

pelo ser humano e levoume

a quarentena mil anos

atrás, a vários hieróglifos,

marcações em pedra à volta

do monte sobre formas

circulares, desde o diagrama

de anéis concêntricos à

forma da roda concêntrica,

círculos concêntricos e

círculos seccionados, levoume

a alguma dessas formas

ancestrais criadas pelo ser

humano à volta do mundo e

foi no fundo a génese do meu

terceiro e último livro que é

o livro dos círculos, The Book

of Circles, que explora cerca

de mil anos da forma circular

como uma ferramenta para

fazer sentido da informação.

Para além disso, Manuel, é

muitas outras coisas, daí que

não goste de meter rótulos.

Eu sei que não gosta, mas

não posso deixar de dizer

que foi considerado uma

das cinquenta mentes mais

brilhantes do mundo, quer

dizer, eu não consigo ignorar

isso, peço imensa desculpa.

O Manuel já aprendeu a lidar

bem com esses elogios ou é

uma coisa que lhe passa um

bocado ao lado?

Eu acho que é impossível

passar ao lado, eu sintome

sempre extremamente

lisonjeado, não é? Por esses

elogios, pelas pessoas,

acima de tudo, gostarem do

meu trabalho, mas acima

de tudo, mais do que esses

elogios, mais do que essas

classificações, para mim o

que me enche realmente

de orgulho e de prazer é

saber que posso tocar a

vida de alguém de uma

maneira substancial, ou

seja, quando alguém me

encontra numa conferência

e diz “olha, eu mudei de

010 NOMAR21 011

NOMAR21


ENTREVISTA

carreira pelo teu livro, pelo que

li” ou “transformaste a minha

vida”, isso para mim … (Faz valer

a pena) Exatamente, é esse um

dos motivos, sem dúvida, que as

pessoas escrevem livros. Claro

que, hoje em dia, há uma série

de outras maneiras de chegar à

volta do mundo, não é? Estávamos

a falar de webinars e hoje eu

também adoro dar webinars.

Também gosto de dar aulas, já

dei aulas na Parsons, agora dou

aulas no IADE, aqui em Portugal, e

adoro essa componente de ensinar,

de transmitir conhecimento, de

transmitir informação aos outros

e o webinar é uma ferramenta

extremamente interessante por

causa disso, porque podemos

chegar a todo o mundo, em

que não há nenhuma barreira

geográfica ou monetária para

isso acontecer, mas os livros

realmente continuam a ser esse

intermediário tão interessante e

para mim é isso, no fundo, tocar

a vida das pessoas, saber que elas

podem influenciar de alguma

maneira a sua maneira de encarar

os problemas até a sua carreira,

não é? De seguir uma carreira em

prol de outra e para mim isso é

que me enche realmente de uma

grande satisfação. É poder chegar

a essas pessoas e poder ajudá-las

de alguma maneira.

Webinars, podcasts e também eu

não posso deixar de falar que o

Manuel participou, tinham-me

falado que tinha participado no

TED, mas participou há cerca

de cinco anos, se eu não estou

em erro, no palco principal e é

precisamente sobre aquilo que

fala, sobre a complexidade das

árvores que se interligam que,

aliás, dão imagem agora às redes

e também o que eu perguntava se

calhar vai um pouco de encontro.

Como é que, hoje em dia, com o

caos todo de informação que há,

como é que o Manuel consegue

transformar este caos naquela arte

que a gente falava no início?

Esta pergunta é uma cebola que

dá para desvendar de várias

maneiras, mas é assim, para já o

TED foi uma experiência incrível.

O palco principal, eu já tinha

falado na TED, em Oxford, na TED

Global, eles têm vários programas,

uma é a TED Global, eu diria que

é o segundo maior palco da TED.

Eles faziam TED Global que era

sempre num ponto diferente do

planeta. No ano em que eu falei,

isto já foi em 2009, em Oxford,

no Reino Unido, falei também na

TEDx em Buenos Aires. Penso que

falei também numa outra TEDx

no Porto, mas realmente quando

recebi o convite para o palco foi

extremamente desafiante.

Para começar, porque na plateia, olhamos a plateia e então é como se tivéssemos

a ver televisão, vemos o Jeff Bezos, vês a Cameron Diaz, vês mesmo as pessoas,

vês as celebridades, vês verdadeiramente celebridades que fazem parte da plateia

de modo recorrente. E depois toda a experiência em si é extremamente como se

diria em inglês, nerve wrecking, cria uma grande ansiedade ainda que ganhes

muitos anos de experiência em palestras é sempre uma experiência bastante

desafiante, mas foi muito bom, foi ótimo, foi excelente e o que é que eu falava?

012 NOMAR21 013

NOMAR21


ENTREVISTA

Era desse grande desafio

da visualização de dados,

da transformação entre

árvores e redes. No fundo, o

tema da minha conversa era

esta transição importante

que estamos a passar

agora em que, até hoje,

vivíamos muito em bases e

estruturas hierárquicas da

maneira como organizamos

a sociedade, organizamos

as empresas, organizamos

o próprio conhecimento

humano e isso tende a

mudar e estamos cada vez

mais a adotar a metáfora

da rede, da teia e a rede é

por si uma estrutura não

centralizada, uma estrutura

que é distribuída, uma

estrutura que não tem

alguém no comando central

e por isso, para mim, no meu

entender, é bastante mais

aliciante e mais interessante.

Só que não significa

necessariamente o caos,

como falavas, não é?

Do caos, da desorganização

ao volume

avassalador de

dados, continua

e continuará

a aumentar.

Em parte,

isso é

uma coisa que eu estou

agora a escrever para

o meu novo livro, essa

necessidade de quantificar

o inquantificável, de gerar

dados sobre tudo e mais

alguma coisa, é algo que já

vai até ao século XIV e no

século XIV existem vários

testemunhos de pessoas a

descreverem como é que

estudiosos nessa altura

tiveram de criar escalas

para medir coisas que

não eram quantificáveis

anteriormente, ou seja, já

é uma ansiedade que se

gera no ser humano há

muito tempo, só que hoje em

dia nós temos um volume

perfeitamente avassalador de

árvores e a nossa capacidade

de fazer sentido desses dados

não é a mesma da nossa

capacidade de gerar esses

dados, o que eles chamam

de data collection ganhou a

batalha indiscutivelmente.

Hoje em dia, no nosso

bolso, no nosso telemóvel,

temos todo o conhecimento

humano alguma vez criado.

O desafio é fazer sentido

desses dados e eu acho que

é realmente aí que quer o

design quer a visualização da

informação ou a visualização

de dados pode entrar como

uma ferramenta possível

de clarificar os mesmos,

ou seja, é quase um filtro

ao sentimento de que

temos de ser inundados

por todos esses dados, esse

volume avassalador de

dados, o design pode ser

um filtro e torná-los mais

claros, mais percetíveis e

transformar esses dados em

informação relevante,

em conhecimento e

em sabedoria, esse

é o ultimate goal. É

realmente chegar à

sabedoria.

Este é o Manuel de hoje, do presente. O que é que nós podemos esperar

de um Manuel para um futuro, daqui a cinco, dez anos? Ou isso será

impensável pensar neste momento, tendo em conta que o Manuel é

curioso e está sempre à procura de novas formas de viver e também de

estar na vida. E também o seu próximo livro, sem querer descortinar

muito, também é um pouco isso.

O meu novo livro é muito

interessante, na minha ótica,

como é óbvio, é extremamente

interessante, mas é um pouco

diferente dos livros anteriores,

não é tanto sobre a visualização

de dados, é mais sobre o design

e mais sobre a responsabilidade

ética do design hoje em dia.

Eu acho que é uma temática

extremamente interessante,

cada vez mais importante,

aliás, na medida em que as

redes sociais estão realmente a

transformar as sociedades, nem

sempre do modo mais benéfico

e os designers têm uma grande

responsabilidade nesse sentido.

Agora, eu não sei, eu tenho

outras ideias para livros para

além desse, tenho pelo menos

duas ideias para livros, um

deles um livro de crianças que

eu gostava um dia de escrever.

Eu não sei exatamente onde é

que eu vou estar, o que é que eu

vou estar a fazer daqui a cinco

anos, é muito difícil.

Eu se estiver como estou hoje,

ao lado da minha mulher, que

eu adoro e que me tem apoiado

em todos esses anos e em todas

essas aventuras e desventuras,

a sair da zona de conforto e

tudo isso, se tiver ao lado dela,

ao lado das minhas filhas, da

Chloe e da Camila, bem perto

do mar, com sol e boa comida

e alguns livros por trás eu acho

que estou feliz, eu acho que

estou bem e esse realmente é

um bocadinho a minha visão da

minha felicidade. Eu acho que

é realmente a proximidade do

mar, o sol, a comida, a família,

os amigos, o estar com a minha

mulher e as minhas filhas,

aquele núcleo familiar. Onde

será isso, não sei, pode ser

aqui, pode ser em Lisboa, mas

não sei realmente o que estarei

a fazer daqui a cinco anos. É

muito complicado.

Poderá acompanhar a

entrevista na íntegra no vídeo.

014 NOMAR21 015

NOMAR21


PUB.

REPORTAGEM

REPORTAGEM

OPINIÃO

JUVENTUDES

PARTIDÁRIAS

A NO Revista,

consciente da importância

dos jovens para o contributo

de uma sociedade mais plural, dá a

oportunidade, mais um mês, de dar voz

aos jovens dos oito partidos com assento

parlamentar no parlamento açoriano.

Assim, os jovens têm oportunidade

de expressarem as suas opiniões e

pensamentos sobre as políticas de

desenvolvimento na região e

não só.

016 NOMAR21 017

NOMAR21


OPINIÃO

Quando perguntamos às pessoas, qual é a sua

principal preocupação ou o seu maior receio,

estas respondem que é o desemprego e têm

razão. Em 2020, a taxa de desemprego em

Portugal foi de 6,8%, mas se analisarmos

pormenorizadamente vemos que a taxa de

desemprego jovem atingiu 22,6%.

Quando falamos em desemprego jovem,

estamos a falar de indivíduos entre os 15 e os

24 anos que estão disponíveis para trabalhar

e ativamente à procura de trabalho. Estamos

a falar de uma percentagem da população que

acabou a sua formação e que provavelmente

está à procura do seu primeiro emprego

e é aí que falha a ligação entre a escola e

as empresas. Infelizmente em Portugal, a

escola não prepara os jovens para muitos

desafios que a vida adulta irá trazer. Não se

aprende a fazer o IRS, não se estuda finanças

pessoais e talvez por isso, Portugal seja dos

países mais iletrados financeiramente da

Europa. Também o modelo de ensino atual

prejudica os alunos que tiraram os cursos

DIOGO PIMENTEL

MUDANÇA VS

MAIS DO MESMO

cientifico-humanísticos no secundário, se

não forem para a faculdade, pois vão estar

completamente impreparados para o mercado

laboral. Aquilo que aprenderam na escola,

não vai de acordo para o que as empresas

necessitam. Provavelmente, esses alunos já

não queriam ir para a faculdade à primeira

opção, então porque escolheram em tirar

esses cursos? Devido à estigmatização que

há para com as escolas profissionais? Por

isso, para reduzir o desemprego é necessário

mudar o nosso método de ensino, de uma

educação puramente baseada na escola

(teórico) para um sistema dual de ensino

profissional, como é feito na Alemanha. Na

Alemanha, a taxa de desemprego jovem foi

6,2% em 2020, o 2ºmais baixo na OCDE.

O que fizeram para ter uma taxa tão baixa?

Têm um ensino caracterizado por uma forte

ligação entre o treino de base laboral e

aprendizagem com a educação baseado com

a escola. O que esse sistema tem de positivo

passa por haver uma forte participação das

empresas que têm o poder de influenciar

o conteúdo do programa, de forma que

os formandos quando terminarem a sua

formação, obtiveram as skill’s necessárias

que as empresas precisam, tornando

mais fácil o processo de contratação dos

indivíduos.

Mas não é só através da formação que

se consegue baixar o desemprego, é

preciso mudar os impostos, a regulação

laboral e políticas ativas de emprego.

Ao nível de impostos, já existe uma

redução de 50% da taxa contributiva para

a Segurança Social da entidade patronal

para a contratação de jovens à procura

do primeiro emprego, devia passar por

uma isenção total, baixando os custos dos

jovens trabalhadores. Também ao nível da

lei laboral, existe uma dualidade enorme

entre os contratos dos trabalhadores com

termo em relação aos de sem termo,

onde os trabalhadores com contratos

permanentes têm uma rigidez muito

grande enquanto os contratos a prazo é

precisamente o oposto, sendo uma das

razões para que em Portugal tenha uma

das maiores proporções de trabalhadores

com contratos a prazo. Na minha opinião,

devia de deixar de existir distinção entre

contratos permanentes e temporários

passando a ser um único tipo de contrato,

em que a proteção laboral do trabalhador

vai aumentando consoante o número de

anos na mesma empresa. Finalmente,

é preciso que haja políticas ativas de

emprego, considero o estagiar L e U,

dentro das possíveis boas medidas, no

entanto, é preciso corrigir. Em relação

ao L, a duração do estágio já passa

largamente o desejável. 9 meses é um

espaço temporal que dá mais que tempo

suficiente para uma empresa decidir ficar

com o estagiário, mais que isso é “dar”

um trabalhador de “borla” para a empresa

e começa a haver distorção no mercado

laboral. No U, a duração atual que são

80h são manifestamente poucas para

que um estudante possa aprender. Uma

política ativa de emprego que considero

positiva para a região, foi o projeto

Terceira Tech Island, que com incentivos

para a criação ou deslocalização de

empresas e com formações especializadas

(bootcamps) naquilo que as empresas

precisavam (o tal ensino dual que

mencionei em cima), já houve a criação

de 200 empregos. É preciso passar esse

projeto para a região toda.

De nada vale estas medidas todas, se

a economia não crescer… e isso só é

possível com menos impostos (IVA,

IRS e IRC), menos burocracia e com

prioridades bem definidas, porque não há

dinheiro ilimitado. Prefere-se gastar 4.000

milhões de euros numa companhia pouco

rentável e de duvidoso serviço publico ou

em medidas para reduzir o desemprego?

Prefere-se gastar milhões em obras

públicas de duvidosa eficácia ou nas

pessoas? É preciso que se pare de pensar

no curto prazo, eleições, e mais a médio e

longo prazo, mas é como se diz, a longo

prazo, já estamos todos mortos.

018 NOMAR21 019

NOMAR21


OPINIÃO

NA

É provável que muitos

jovens açorianos não

acompanhem o trabalho

desenvolvido pelo

Conselho da sua respetiva

Ilha ou, arrisco mesmo

dizer, não tenham sequer

ideia da função deste

órgão, de quem o integra

e quem o preside. O

certo é que os Conselhos

de Ilha são órgãos

consultivos com um

papel importantíssimo

no desenvolvimento

rodrigo pereira

JUVENTUDE ATIVA

DEFESA

DAS SUAS ILHAS

de cada ilha da Região

Autónoma dos Açores,

tendo como funções, por

exemplo, incentivar e

fomentar a cooperação

entre as autarquias,

apreciar os planos de

atividades dos municípios,

pronunciar-se sobre temas

fundamentais para a

ilha ou emitir pareceres

e recomendações à

Assembleia Regional e ao

Governo Regional.

Todos os Conselhos de Ilha dos

Açores são compostos pelos

presidentes das respetivas

Câmaras Municipais e

Assembleias Municipais, bem

como movimentos sindicais,

associações agrícolas, associações

ligadas ao ambiente, bem

como um outro conjunto de

representantes que variam de ilha

para ilha. O certo é que nenhum

Conselho de Ilha contempla no

seu regimento um único lugar

para a juventude, o que explica a

distância entre estes órgãos e os

jovens e que deve e tem de ser

uma reivindicação por parte destes

(nós).

Nesse sentido, os Conselhos

de Ilha dos Açores devem

fundamental e urgentemente

contemplar uma representação

de cada Conselho Municipal

de Juventude ativo na sua

composição. Parte significativa

do exercício político passa por

preparar o melhor futuro possível

para o concelho, ilha ou região

onde se atua e são, por isso,

indispensáveis a auscultação e

contributos daqueles que herdarão

esse projeto.

Os jovens não podem apenas

receber a informação das decisões

que são tomadas, mas também

ter uma palavra a dizer e fazer

parte da construção do futuro da

sua terra. A juventude não pode

continuar de fora de discussões

e pareceres sobre áreas como o

emprego, economia, igualdade,

ambiente, entre muitas outras nas

suas respetivas ilhas.

Praia da Vitória, 20 de fevereiro

de 2021

020 NOMAR21


OPINIÃO

Ainda na sombra das celebrações

do Natal e da Passagem de Ano,

assistimos a um crescimento

exponencial do número de casos

positivos ativos no nosso país – a

esperada, mas não desejada - terceira

vaga. De norte a sul, às ilhas sem

exceção.

E

LUÍS RAPOSO

AGORA

3.0?

No contexto da nossa Região

Autónoma, atingimos,

aproximadamente, 900 casos positivos

ativos. Face à situação epidemiológica

descontrolada o Governo Regional

dos Açores decretou, e bem, novas

medidas de contenção de acordo

com o nível de risco de transmissão

da Covid-19. A obrigatoriedade

do teletrabalho, a limitação de

ajuntamentos na via pública, o

encerramento dos cafés e restaurantes,

o ensino à distância são alguns

exemplos de medidas restritivas

aplicadas, que se traduziram numa

situação mais controlada e tranquila

no arquipélago. No entanto, o trabalho

a fazer ainda é muito e depende,

também, de cada um de nós, enquanto

cidadão, e da nossa responsabilidade

cívica.

Consequentemente, durante este

período, inúmeras pessoas viram

ser adiados os seus projetos de

sonho e de futuro. Várias empresas

tiveram de se reajustar e readaptar

ao momento. Inúmeros agregados

familiares, por alguns membros

terem contraído a doença ou pela

necessidade de acompanhamento

escola (ensino à distância) dos

seus filhos, tiveram de ficar ou

em isolamento profilático ou em

casa, respetivamente, com cortes

nas suas remunerações mensais.

Os Jovens estudantes que viram

os seus momentos de avaliação a

passar do presencial para o remoto.

E agora? Agora, é tempo de uma

vez mais, incentivar e apoiar! É

tempo de começar ou recomeçar!

É tempo de recuperar! É tempo

de conquistar e reconquistar! De

forma consciente, responsável,

empenhada e motivada! Os

tempos são desafiantes. Contudo, a

vontade de vencer é maior.

O XVIII Governo Regional dos

Açores, prontamente, apoiou as

famílias, apoiou as empresas e

os empresários com uma injeção

de liquidez no valor de 9 milhões

para cerca de 1875 empresas

açorianas; apoiou o setor do

turismo; apoiou, também, a

restauração e a hotelaria; ainda

a cultura e os profissionais de

pesca. Mais recentemente, criou

o Programa APOIAR.PT Açores,

que se destina às Micro, Pequenas

e Médias Empresas (PME) com

sede ou estabelecimento na região.

Um Governo que demonstra que a

política pode e deve ser praticada

com as pessoas para as pessoas.

Desafio os atuais quadros políticos

governativos, que vão adquirir

4000 computadores portáteis e

1000 tablets para todas as escolas

dos Açores, a serem responsáveis

e promotores de um projeto piloto

de Escola de Futuro – proposta da

JSD – por uma melhor educação,

motivando professores e cativando

alunos.

Numa mensagem de esperança,

apelo a que todos cumpram as

regras da Direção Regional de

Saúde e que respeitem o Serviço

Regional de Saúde. Assim,

estaremos a proteger e a salvar

vidas.

Juntos venceremos!

022 NOMAR21 023

NOMAR21


TENTANDO

No passado mês, foi aprovada na Assembleia

da República a despenalização da morte

medicamente assistida, uma discussão recheada

de opiniões e posicionamentos políticos e sociais

completamente díspares ou mesmo polémicos.

A polarização das opiniões não pode ser

desligada da ausência de debate público em

torno de um assunto tão complexo como a morte

medicamente assistida. A falta de debates – que,

em contexto de pandemia, poderiam ter sido

realizados em fóruns digitais e de participação

alargada –, contribuiu para a veiculação de

mensagens confusas e mesmo incorretas sobre

o que significa, de facto, despenalizar este

procedimento.

Penso que este é um assunto simples de

entender. Mas ao mesmo tempo não é simplista:

compreendo que haja pessoas contra e outras a

favor, pois o posicionamento tem muito a ver

com as vivências das pessoas, os seus valores e a

sua percepção sobre a vida.

No entanto, humildemente, gostaria de tentar

esclarecer vários pontos:

O PAN sempre mostrou interesse em discutir

o tema: esta proposta constava do nosso

programa eleitoral às eleições legislativas de

ALEXANDRE DIAS

DEsMITIFICAR A

MORTE MEDICAMENTE

ASSISTIDA

2015; conseguimos a criação de um Grupo de

Trabalho que permitisse o debate na Assembleia

da República, no qual tivemos uma participação

ativa; e apresentámos duas iniciativas: uma

rejeitada na passada Legislatura nacional, outra

recentemente aprovada.

Como se pode ler na nossa iniciativa, e numa

breve definição de morte medicamente assistida,

concordo e considero que a mesma se pode

tomar como o ato de antecipar a morte, em

resposta a pedido consciente e reiterado, de uma

pessoa doente em situação de grande sofrimento

e numa situação clínica grave e irreversível, sem

quaisquer perspetivas de cura.

Desta definição resulta claramente qual o

objetivo do recurso à morte medicamente

assistida. A motivação não será certamente

matar alguém, mas sim usar a morte como meio

para atingir um fim, nomeadamente o de acabar

com a situação de sofrimento em que alguém se

encontra.

Então, tal como o PAN, acredito que a

intenção de qualquer doente que pretenda

recorrer à morte medicamente assistida, tal

como a de qualquer médico que a pratique,

seja unicamente a vontade em acabar com o

sofrimento, dado que o paciente se encontra

numa situação clínica da qual não se

vislumbra qualquer esperança de melhora.

É uma outra perspetiva sobre a vida e a

dignidade no ato de morrer!

Assim, sabendo aqueles doentes qual o

seu destino, aquilo que no fundo estão a

escolher, quando formulam um pedido de

morte medicamente assistida, é entre duas

formas de morrer, isto é, entre uma morte

digna e uma morte decorrente da doença,

a qual acabará por ocorrer em situação de

sofrimento.

Lembro-me de ter lido um livro muito

interessante que aborda a morte de

uma forma tão peculiar: o “Bushido”.

Traduzindo para português, “O código

de honra do Samurai”. Nesta história, o

samurai tem sempre presente a morte.

Nunca sabe como vai morrer, pois passa o

tempo a desempenhar funções de alto risco,

tanto em tempo de guerra como em tempo

de paz.

Permitam-me que cite uma passagem do

livro para melhor explicar a minha posição:

“A primeira preocupação de quem pretende

tornar-se um guerreiro é ter a morte sempre

presente no seu espírito, dia e noite, desde

a manhã do primeiro dia do ano até à noite

do Ano Novo. Quanto mais continuamente

a morte estiver presente no teu espírito,

tanto mais hás-de viver de acordo com as

normas da honestidade e dedicação filial.

Evitarás assim uma miríade de moléstias

e calamidades; Disporás de um corpo são,

gozarás de boa saúde e longa será a tua

vida; Além disso, refrearás os teus impulsos

e o teu mérito aumentará. Eis o porquê: a

vida humana é como o orvalho e o gelo da

manhã; São frágeis e efémeros.

A vida de qualquer homem é precária, mas

a do guerreiro é-o particularmente. Se as

pessoas se acomodarem à ideia de uma vida

longa, e porque acreditam que hão-de ter

muito tempo para trabalhar, deixando para

depois a dedicação ao país, eis o risco em

OPINIÃO

que incorrem: deixarão efetivamente de

agradar ao senhor e falharão nos cuidados

para com os pais. Mas se te convenceres

que a vida de que desfrutas cá em baixo

talvez amanhã já não exista, então quando

acatares as ordens do senhor e te dedicares

aos teus pais, compreenderás que podia

ser a última vez, e não te furtarás a prestar

verdadeira atenção ao teu senhor e aos teus

pais.

Este é o motivo que me leva a acrescentar

que quando manténs a morte presente no

teu espírito, ages segundo as normas da

lealdade e do amor filial.”

De facto, é uma maneira diferente de ver a

vida. Enquanto cidadão, não saberei dizer

se é a mais correta. Mas sei e sinto que

deveríamos dar-nos a possibilidade de olhar

tanto para a vida como para a morte de

maneira diferente. E longe de mim ter uma

postura moralista, pois não me cabe decidir

como cada um de nós vive ou pensa!

Gostaria que fizéssemos uma introspecção

sobre como estamos a viver. E desejo

que no futuro os jovens se permitam

debater mais sobre temas como a Morte

Medicamente Assistida, entre outros,

evitando moralismos, sem críticas

constantes, sem tentar rebaixar o outro. A

nossa opinião sobre temas como a vida e

a morte advém das nossas vivências e dos

nossos valores, no entanto não existem

verdades absolutas.

Questiono-me e questiono-vos: será

correcto tentar manter alguém vivo só por

causa das nossas crenças ou seria mais

nobre da nossa parte terminar com o seu

sofrimento?

Penso que não existe uma resposta tão

linear para essa questão, mas acredito que

deva ser eu a decidir como quero viver a

minha vida e a decidir como quero partir.

024 NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

REPORTAGEM

CLÁUDIA CARVALHO

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas

(ONU) instituiu, em setembro de 2015, o dia 11 de fevereiro

como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na

Ciência como forma de reconhecer o importante papel que

as mulheres desempenham nas comunidades de ciência e

tecnologia em todo o Mundo.

Como forma de comemorar a data, a Escola de Medicina

da Universidade do Minho (EMUM) organizou, no passado

dia 11 de fevereiro, uma conversa informal com o tema “A

ciência ainda tem género?”, a incidir na importância do

género na ciência nos dias de hoje.

026 NOMAR21 027

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

A iniciativa contou com a participação de

Elvira Fortunato, Engenheira de Materiais e

vice-reitora da Universidade Nova de Lisboa,

Ana João Rodrigues, neurocientista na Escola

de Medicina na Universidade do Minho e

Isabel Estrada Carvalhais, eurodeputada

desde 2019, doutorada em Sociologia e

professora na Escola de Economia e Gestão

da Universidade do Minho, com a moderação

de Inês Pinto Ferreira, estudante da EMUM.

Isabel Carvalhais começou por referir, antes

de iniciar o debate sobre o género na ciência

que, muitas vezes, na própria alusão ao

conceito de ciência, tende a existir alguma

tensão entre as ciências exatas e as ciências

qualitativas, podendo originar uma sensação

“de maior legitimidade” das ditas ciências

exatas junto das outras.

De facto, conforme explicou, é frequente

falar-se da ciência e ilustrar-se, de forma

errada, os ícones associados a ela –

“são microscópios, são

telescópios, são ampulhetas,

são bisturis, enfim, nunca

são livros, nunca é a

arqueologia”

e referiu que “é esse tal mundo de ciências

valorizadas nesta perspetiva muito

masculina na ciência”.

A eurodeputada, sobre a presença da mulher

no mundo das ciências, começou por

explicar que, do ponto de vista cultural,

estamos erradamente

habituados a ver a sua

presença como se se

tratassem de supermulheres

que tivessem a habilidade de conciliar a

sua profissão com a sua vida familiar, por

isso comentou: “sou professora e, enquanto

professora, sinto também essa obrigação de

passar uma mensagem que as [mulheres]

liberte, que reconheça como elas são

importantes na ciência, mas que as liberte

deste peso, desta carga tremenda de termos

todas de ser supermulheres, com prémios,

com três e quatro filhos e que ainda nos

preparamos para a meia-maratona. Nós

somos pessoas e, portanto, se isso não se

pede aos homens, não tem que se pedir

também às mulheres”.

Elvira Fortunato, que também participou no

debate, lembrou que, há alguns anos atrás, a

ciência era dominada pelo género masculino

e, nessa altura, as mulheres estavam

proibidas de frequentar a universidade –

“quer dizer, o próprio Einstein achava que as

mulheres eram um ser inferior” – e apontou

para a importância do número de prémios

Nobel ganhos por mulheres versus homens.

“A quantidade de prémios Nobel que

existem, e devem existir já perto de 900, só

2% é que foram atribuídos a mulheres”. Na

verdade, de acordo com um artigo do Jornal

Económico datado de 2018, foram laureados,

desde 1901, 844 homens e 48 mulheres.

“A CIÊNCIA ESTAVA MUITO

MASCULINIZADA”

O mesmo jornal aponta que a disparidade é

ainda mais acentuada nos prémios relativos

às áreas científicas da Física, Química e

Medicina, na medida em que 30 dessas 48

mulheres receberam o Prémio Nobel da

Literatura ou da Paz.

“A ciência estava muito masculinizada”,

referiu Elvira Fortunato. Na verdade, sem

acesso das mulheres ao ensino superior, não

podiam existir cientistas, já que não lhes

era dada essa possibilidade de formação. A

cientista, que foi distinguida em setembro

pela Comissão Europeia com o Prémio

Impacto Horizonte 2020, pela criação do

primeiro ecrã transparente com materiais

ecossustentáveis, explicou que, nas áreas em

que está inserida (Física e Química), nunca

sentiu, pessoalmente, qualquer tipo de

preconceito ou marginalização:

028 NOMAR21 029

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

sexo masculino” e, para além da assimetria

em contexto profissional, menos de 30%

na atribuição de prémios Nobel entre

dos investigadores a nível mundial são

homens e mulheres, recordou que existiram

mulheres. “Para além desta percentagem

muitos desses prémios que foram mal

baixa, daquela que é a inclusão da mulher

atribuídos, onde as mulheres desenvolveram

no Mundo da ciência, estes números vão

todo o trabalho de campo e, posteriormente,

decrescendo à medida que vai existindo

os homens é que ficaram reconhecidos, “não

uma progressão na carreira e relativamente

“sei e concordo que existe noutras

áreas, mas no meu caso

em particular, mesmo

na minha progressão

académica, nunca fui

confrontada com algum

tipo de injustiça”.

Não obstante a nunca ter vivenciado

qualquer tipo de injustiça, Elvira

Fortunato entende que

“não somos iguais nem

temos que ser”,

mas é importante que se dê, a todas

as pessoas, as mesmas oportunidades,

embora confesse que nem sempre isso

aconteça, por isso coloca, de certa forma,

o ónus numa “história pesada” no Mundo

da ciência: “ainda temos que fazer muito

mais”.

A este respeito, lembrou que, se já

tivéssemos progredido tanto quanto

queríamos de forma a esbater o

preconceito da presença do sexo feminino

no Mundo da ciência, não se celebraria,

todos os anos, o Dia Internacional da

Mulher, por exemplo – “isto é uma peça

de LEGO, é passo por passo, eu não

quero mudar o Mundo, mas posso mudar

a forma de quem está à minha volta”.

Ana João Rodrigues reiterou as

considerações feitas por Elvira Fortunato

e referiu que anseia pelo dia em que

não seja necessário este dia: “ainda é

importante celebrá-lo, porque temos um

histórico de uma ciência dominada pelo

só no Nobel, muitos outros prémios”. Por

isso, considera que “há um viés para

o sexo masculino que temos

que começar a desconstruir”.

Enquanto bióloga, constatou que existem

diferenças inegáveis entre homens e

mulheres do ponto de vista biológico,

mas considera que essa diferença tem

de assentar numa oportunidade e nunca

como forma de atribuir fraquezas e/ou

forças a um dos sexos: “do ponto de

vista biológico não acho que

sejamos iguais, agora acho

que devemos ser avaliados

não pelo nosso sexo, mas sim

pelas nossas competências,

pelas nossas capacidades”.

A moderadora do evento, Inês Pinto

Ferreira, lembrou os últimos dados da

Unesco sobre o tema que dizem que cerca

de 60% dos alunos do ensino superior

são mulheres, mas dessa amostra perto

de 30% decide seguir uma formação nas

áreas das ciências e da tecnologia e, já

àqueles que são os cargos de chefia”,

assinalou a estudante de Medicina.

Os últimos estudos demonstram ainda

que as mulheres publicam menos porque

têm menos oportunidades, são pagas

em menor valor e não progridem tanto

na carreira. Sobre estes estudos, Isabel

Carvalhais acrescentou algumas estatísticas

do EUROSTAT, de 2018, que dão a Portugal

um ranking vantajoso e que davam conta de

que cerca de 57% das mulheres estariam,

no país, a estudar ciências, tecnologias,

engenharias e matemática.

Conforme explicou, ao olharmos para

estas estatísticas, podemos ficar um pouco

“inebriados”, mas conforme atentou, tornase

depois importante tentar perceber o que

é que acontece a estas mulheres “e o que nós

vemos em termos gerais é que em Portugal,

por exemplo, ainda persiste, pese embora

todas as políticas públicas que têm sido

implementadas e que são muito importantes

nesse setor, mas ainda persiste um gap

salarial” que não é muito sentido ao nível do

setor público.

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NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

“É por isso que eu digo que isto é algo

davam conta de que havia muito menos

que vai demorar muitos anos a conseguir

mulheres autoras, quer como primeiras

combater”, explica, apontando como solução

ou últimas autoras de artigos científicos, a

a educação das meninas e meninos a

fazerem a submissão no primeiro mês de

olharem para os dois géneros como sendo

confinamento.

diferentes, solução que Isabel Carvalhais

Ao invés, os artigos cujo primeiro autor e

também subscreveu e acrescentou: “a

último autor eram homens, duplicaram em

educação é fundamental para ajudar a

algumas dessas revistas, estamos a falar de

desconstruir a violência estrutural a que nós

ciências e engenharias. “Isto é um pouco o

mesmas [mulheres] nos sujeitamos”.

reflexo do papel que a mulher ainda tem em

Do ponto de vista estrutural, a socióloga

casa”, avançou.

considera que o sentimento da mulher de

Durante o debate, a questão das quotas na

não querer, muitas vezes, que o elemento

política foi levantada. A lei da paridade em

masculino também ajude e participe em

titulares de cargos políticos estabelece uma

Isabel Carvalhais, de forma a ilustrar

aqueles que são os casos um pouco por todo

o Mundo, deu o exemplo de uma mulher

que tinha sido selecionada para diretora de

docente, “uma coisa fantástica”, sendo mãe

de três filhos muito novos que requeriam

ainda muita atenção. A socióloga comentava

o caso com um colega seu e, conforme lhe

transmitiu, disse que aquela oportunidade

seria fantástica, de reconhecimento do seu

trabalho, apesar de ter três filhos, mas

rapidamente o seu colega, da Noruega,

explicou que “apesar não, também porque

tem três filhos”, ou seja, porque é utilizado

o elemento de discriminação positiva e, na

avaliação dos CVs, esses elementos também

são tidos em consideração.

existe e não há igualdade entre géneros”,

referiu Ana João, que também dava conta

de alguns estudos recentes que teve

oportunidade de ler e que lhe permitiram

concluir que os estereótipos associados à

mulher enquanto cientista não são apenas

vistos pelos indivíduos do sexo masculino,

mas também do sexo feminino.

“Muitas vezes, são as próprias mulheres que

têm uma perceção muito inferior àquilo que

elas são, isto é, é muito menos provável as

mulheres, do ponto de vista percentual, se

candidatarem a cargos de poder” e isto não

acontece, segundo a bióloga, porque não

sejam capazes, mas porque têm incutido

que, se calhar, não serão capazes de conciliar

o elemento familiar e profissional e pelas

todas as tarefas por ela desempenhadas

prende-se com o argumento de o espaço

da família ter sido, durante anos, “o único

espaço onde nós claramente brilhamos, onde

nos deixavam ser quem éramos” e, se lhes

é tirado esse espaço, a mulher pode cair

no pensamento “se me tiram também este

espaço, fico com o quê?”.

Depois de Elvira Fortunato ter considerado

que o período pandémico em que vivemos

e por ter, como última consequência,

estarmos confinados em casa, seria fator

contribuidor para esbater essa diferença

entre as tarefas desempenhadas por homens

e mulheres, Ana João Rodrigues explicou

que, a nível de artigos científicos, existiram

algumas revistas que publicaram dados que

representação mínima de 40% de cada

género e Isabel Carvalhais defendeu que

“as quotas são uma forma de tentar educar,

de cima para baixo, a sociedade, até ao

momento em que ela não precise mais de

ter a quota, porque ela mesmo interiorizou a

importância desse processo”.

A este respeito, Elvira Fortunato explicou

que, durante muitos anos, era contra as

quotas e, atualmente, é “perfeitamente” a

favor das mesmas: “eu sempre achei que as

mulheres deveriam chegar pelo seu próprio

mérito, só o facto de ouvir quotas era

negativo, tinha uma conotação negativa, mas

eu já vivi alguns anos e as coisas continuam

na mesma, portanto, nesta altura da minha

vida, eu sou a favor das quotas”.

“Olhemos para os números da forma como

suas dúvidas de conseguirem fazer ouvir a

quisermos olhar, há um fenómeno que

sua voz.

032 NOMAR21 033

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

A eurodeputada Isabel Carvalhais também

adiantou que entende a utilidade da quota

como um instrumento – “é quase como

tentar educar determinado comportamento

por aquela via impositiva”, sendo que

defende que esse instrumento deixe de

ser preciso “a partir do momento em que

já não faça sentido”, onde as pessoas já

estejam educadas de forma a que não seja

preciso recorrer às quotas.

A moderadora do evento lembrou,

durante o debate, um estudo de 2015

que demonstrava que, a nível daquilo

que é a visibilidade em ecrã, ou seja, em

todas as plataformas, todos os projetos

demonstrados em ecrã, a profissão do

cientista é representada por homens

em cerca de 88% das vezes. “É uma

percentagem que se aproxima dos 90%

e nós não teremos uma mudança se a

representação da ciência continuar a

ser vista no género masculino”, por isso

questionou as participantes sobre que

mecanismos é que deverão existir para

a imagem da mulher na sociedade ir

mudando ao longo dos tempos.

A engenheira Elvira Fortunato considerou

que a solução passa por dar destaque

a quem trabalha em todas estas áreas,

sensibilizando as universidades e os

restantes círculos para valorizar e mostrar

o papel das cientistas, “que também

conseguem chegar onde os cientistas

masculinos chegam”.

Ana João reiterou as palavras da sua colega

de painel e avançou que existem, em

Portugal, cientistas de renome que fizeram

descobertas incríveis em todas as áreas

do saber. A solução passa, para a bióloga,

por dar-lhes voz nos meios

de comunicação: “acredito que as

mulheres modelo, as cientistas modelo, vão

fazer a diferença” e continuou, explicando

que “precisamos de usar estas mulheres

modelo, que são pessoas que conseguem

conciliar a vida pessoal e profissional

e atingir feitos espetaculares e devem

ser estes os modelos que nós queremos

mostrar às meninas e raparigas”.

A voz que os meios de comunicação social

têm proporcionado a diversas pessoas

e áreas do saber foi uma questão que

mereceu a análise de Isabel Carvalhais, que

tem notado, ao longo dos anos, “um papel

muito positivo e relevante” dos media na

promoção de novas imagens, por exemplo,

da presença do homem em determinadas

expressões artísticas – “um esforço muito

importante em desmistificar a ideia do

homem que é bailarino e tentando desligar

isso da sua identidade sexual”.

034 NOMAR21 035

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Conforme teve oportunidade de explicar,

os media têm tido, felizmente, esse papel

importante de desmistificar e também

de naturalizar algumas dessas questões,

como são os estereótipos dos desportos

associados ao sexo masculino e feminino

– “esses programas são investimentos

que se estão a fazer no longo prazo da

educação das pessoas e devem existir mais

programas desses e existir, por parte dos

media”, mas também de valorizar mulheres

“como a professora Elvira, mulheres como a

professora Ana, como tantas outras, como a

Inês, daqui a uns anos”.

Enquanto socióloga, lembrou ainda que,

quando se trata de discriminação de género,

das mulheres, é preciso não esquecer

que elas acumulam, muitas vezes, outras

layers – a cor da sua pele, as suas condições

socioeconómicas e que, todas adicionadas à

condição de mulher, “são muito difíceis de

ultrapassar”.

Depois de a professora Ana João ter

levantado o tema sobre a sororidade entre as

mulheres, Isabel Carvalhais lembrou aquele

que foi o exemplo histórico das sufragistas,

onde as mulheres consideradas de elite, de

elevado estatuto social lutaram pelo direito

ao voto – “não estavam a fazer só para si,

estavam a fazê-lo para todas as mulheres,

para as mulheres que trabalhavam nas

fábricas, que tinham os filhos em casa (…)

foi um dos momentos de solidariedade do

género feminino muito importante”.

Por isso, defendeu que as mulheres devem e

podem assumir esta missão no sentido de o

fazerem em todas as mulheres, “sobretudo

daquelas que acumulam essas camadas

(…) por vezes, as pessoas não sentem a

discriminação do ponto de vista da sua

identidade de género, não sentem que são

discriminadas por serem mulheres, porque

aquilo que elas vivem com mais intensidade

no seu dia a dia é uma discriminação que

elas associam a uma outra condição delas”,

como é o caso da condição social dos pais, o

meio socioeconómico de onde vêm ou a sua

entidade étnica, por isso pensam: “eu sou

discriminada, mas não foi por ser mulher,

foi por outra razão”, mas, conforme explicou,

“tudo está compactado e a luta da mulher

deve ser uma luta pelo empoderamento de

todos estes outros que são subalternizados”.

No final, Isabel Carvalhais considerou que

“a vida é demasiado efémera e demasiado

preciosa para estarmos a fazer esse tipo de

considerandos e a pressionarmos as meninas

e os meninos a seguirem determinadas

carreiras onde, por vezes, não se vão sentir

nada realizados” e alertou, uma vez mais,

para os estereótipos que podem existir

dentro da própria ciência, que é constituída

por meninas na biologia, na astrofísica, na

sociologia, na economia –

“SE NÃO QUISERMOS SER

VÍTIMAS DE ESTEREÓTIPO,

NÃO LEVEMOS TAMBÉM PARA

DENTRO DA PRÓPRIA CIÊNCIA.”

“se não quisermos ser vítimas de estereótipo, não

levemos também para dentro da própria ciência. A

ciência é muito plural, é esse mundo de diversidade”.

“Que não admitam que ninguém lhes

diga não. Elas estarão certamente na ciência se

assim o desejarem e é assim que eu espero”, concluiu a

socióloga.

Para assinalar o dia, o Secretário-Geral da ONU, António

Guterres, lembrou que “promover a igualdade de

género no mundo científico e tecnológico é essencial

para a construção de um futuro melhor”. De acordo

com o Secretário-Geral, isso foi visível na luta contra a

pandemia, sendo que as mulheres, que representam 70%

de todos os profissionais de saúde, estão entre as mais

afetadas pela pandemia e os que lideram a resposta à

pandemia.

Segundo Guterres, “as mulheres e as meninas pertencem

à ciência”, mas “os estereótipos afastaram as mulheres

e as meninas de campos relacionados com a ciência”,

por isso defende que “é hora de reconhecer que mais

diversidade promove mais inovação.”

036 NOMAR21 037

NOMAR21


REPORTAGEM

VACINAÇÃO

COVID- 19:

A LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

Esta conversa foi organizada pela

Escola de Medicina com o apoio da

Alumni Medicina, Núcleo de Estudantes

de Medicina da UMinho, ACES Braga e

ARS-Norte.

Alexandre Carvalho começou por referir

que depois da evolução da pandemia,

“nós chegámos a uma

altura em que pensámos

ter atingido um ponto de

viragem e começámos a ver

a famosa luz ao fundo do

túnel”.

ANA MASSA

No final do mês de janeiro, foi

promovido um webinar sobre

vacinação contra a COVID-19 que

contou com a participação de

Cátia Ferreira, da Global Medical

Affairs Leader da Astrazeneca, e

Alexandre Carvalho, internista no

Hospital de Braga e docente da

Escola de Medicina.

De facto, já há cerca de dois meses

que Portugal começou a implementar o

seu programa de inoculação da vacina.

“As vacinas, pelo menos em Portugal,

têm um longo historial de segurança

e eficácia” e, por isso, Alexandre crê

que o programa nacional de vacinação

é um exemplo para o mundo, devido

à excelência da taxa de cobertura.

É certo que estamos agora a entrar

num mundo novo e Alexandre afirma

compreender o ceticismo das pessoas

quando lhes falamos de vacinas que

foram desenvolvidas em tão pouco

tempo. Claro que esta rapidez é fruto de

alguma abreviação nas aprovações, “já

houve uma espécie de fast-track para

aprovar estas vacinas o mais depressa

possível uma vez que se trata de uma

emergência sanitária.” Neste contexto,

Alexandre questionou Cátia sobre quais

as tecnologias que estão a ser a utilizadas

nessas vacinas e se este tempo recorde foi

realmente um tempo recorde ou se

NOMAR21

039


REPORTAGEM

este tipo de tecnologia já estava em

desenvolvimento e foi só uma questão

de adaptar o que estava já em estudo

para poder haver estes resultados tão

rápidos. Em resposta, Cátia referiu

que normalmente estamos habituados

a ouvir falar em desenvolvimento de

vacinas que demoram cerca de cinco a

dez anos. No entanto, em contexto de

pandemia,

“claro que teve que haver um

espírito mais colaborativo, um

espírito de rapidez e, de início,

as tecnologias que estavam

à nossa mão e permitiram

realmente ter essa rapidez.

Quando estou a dizer que conseguimos

desenhar uma vacina ou o conceito da

vacina, isto só é permitido porque as

tecnologias já estão ali, já estavam a

ser estudadas, já vários laboratórios

estavam a desenvolver e então aí foi

possível utilizar todo esse know-how e

transformá-lo em vacinas”.

Desde o início da vacina até à

produção registou-se uma alteração,

no que concerne à realização de uma

metodologia de adaptação em vez

de sequencial, como é habitual, isto

é, foi implementado um sistema, os

adaptive clinical trials, que já existia,

de facto, em vários estudos clínicos.

Cátia reforça novamente o facto de

muitos desses estudos terem sido

fast-tracked para que “conseguíssemos

trazer estes dados com segurança, com

suficiente participação dos voluntários

para percebermos bem se a vacina iria

ser bem aceite e bem tolerada e se iria

ter eficácia”. Segundo Cátia Ferreira,

os estudos de eficácia não foram

apenas os únicos a serem aplicados

rapidamente, também os processos

regulatórios foram feitos com várias

conversas ao longo do tempo que,

normalmente, seriam feitas no final

do processo, o chamado rolling

process. Portanto, “não houve aquele

período de espera entre o desenhar

o estudo e saber os resultados, isso

foi também um processo colaborativo

entre empresas, cientistas e clínicos

para desenvolver uma vacina mais

rápida e acho que ficámos todos

impressionados com o que podemos

fazer quando colaboramos”.

Alexandre concordou com esta

última afirmação, pois “nós todos

estávamos no escuro, era uma

doença nova (…) começámos a ter

os relatos das primeiras pneumonias

e não havia tratamentos clínicos

eficazes para as pessoas que já estavam

doentes e, portanto, a nível mundial


foi uma partilha impressionante de

conhecimentos sem nenhum tipo


de reserva para que realmente se

conseguisse começar a pensar no fim

da pandemia”. Em termos de eficácia,

Alexandre questionou se Cátia Ferreira

acredita que poderá haver diferenças

entre as várias estratégias, ou seja,

se alguma das vacinas será mais

adequada para uma determinada

população ou se podemos usar

indiferentemente todas conforme elas

se forem tornando disponíveis, ao que

a oradora respondeu que existem, de

facto, quatro plataformas principais: o

mRNA, os adeno viral vectors, as mais

tradicionais, que são as subunit e as

que são live atenuated, isto é, um vírus

com capacidade de reprodução mas não

muito alta. “Todas elas têm o mesmo

princípio que é criar imunidade contra a

spike-protein, que se agarra às células,

fazendo o contacto e depois

040 NOMAR21 041

NOMAR21


REPORTAGEM

transmitindo o seu próprio DNA para se

poder multiplicar”, explicou.

Este processo é idêntico em quase todas as

vacinas, usando a sequência que veio de

Wuhan que permitiu introduzir esse tipo de

informação na vacina, de forma a ser possível

replicar a proteína para o sistema imunitário

aprender a defender-se.

Todavia, como são encapsuladas

ou entregues ao sistema imunitário

“aí é que variam um bocadinho.

No caso do mRNA, usam-se umas

bolhas de gordura que fazem a

entrega do mRNA dentro das células,

porque o mRNA é um produto que

é bastante sensível, portanto, podese

partir rapidamente, pode-se

estragar rapidamente e então essas

bolhas de lípidos deixam entrar esse

mRNA e ele aí tem uma capacidade

de reprodução e de produzir essa

proteína que depois é libertada e

reconhecida pelo sistema imunitário.

As outras plataformas praticamente

fazem a mesma coisa, entregam essa

informação à produção de proteínas,

o sistema imunitário consegue

reconhecer e cria as então chamadas

células B e cria anticorpos para nos

proteger”.

Entretanto, Alexandre acrescentou

que “aquilo que toda a gente fala

é a produção de anticorpos que é

aquilo que nós, eventualmente, se

quisermos, conseguimos medir e que

poderá ser uma estimativa grosseira

se a pessoa está ou não está imune,

mas há esse efeito de memória que

perdurará provavelmente após a

integralidade dos anticorpos que

poderá de certa forma garantir

alguma proteção imunitária de

longa duração”. No que concerne às

variantes que estão recentemente a

ser identificadas, Alexandre questiona

Cátia sobre as mesmas, relativamente

se acha que estas vacinas, baseadas na

sequência original do vírus, poderão ou

não conferir proteção adequada contra

estas variantes.

A oradora considera que esse “sistema

de escape” entre mutantes era algo

expectável. “Os próprios vírus têm uma

capacidade de mutação e aliás o próprio

sistema cria erros que permitem formar

vírus com capacidades melhores e

piores, portanto, muitas vezes perdem

funções, outras vezes ganham funções,

portanto, não é nada de estranho, é uma

coisa que a gente estava à espera”. Cátia

não coloca de parte o facto de

NOMAR21

043


REPORTAGEM

haver uma pressão ambiental,

ou seja, cada vez que se

descobrem mais tratamentos

e mais vacinas irá haver uma

pressão sobre aquele vírus para

tentar escapar, sendo que o seu

único objetivo é tentar replicarse

e continuar. Assim, reforça

a importância de um bom

programa de vacinação, isto é,

quantas mais pessoas estiverem

vacinadas e quanto mais houver

proteção, o chamado herd

immunity, menos indivíduos

há para transmitir um para

o outro “e para ter essa

capacidade de mutar.

Daí a importante aceitação de

programas de imunização”.

Alexandre, por sua vez, crê

que esta estratégia das vacinas

contra o covid poderá ser

uma realidade, isto é, de se tornar

“relativamente fácil modificar a vacina

ligeiramente de acordo com aquilo

que for a estirpe prevalente em cada

momento”, tal como acontece com

as vacinas da gripe. Cátia concorda

também que este cenário poderá ser

possível no futuro, afirmando que

“este processo todo é continuado, não

há paragem de evolução da ciência,

temos que continuar a procurar e tentar

entender o que será o futuro.

A preparação para o futuro

não passa só por fazer vacinas,

passa também por criar

mecanismos governamentais

e nacionais de qual será a

estratégia”.

NOMAR21

045


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Relativamente aos sistemas de vigilância,

Alexandre acredita que existem à

disposição do ser humano as ferramentas

necessárias, dando o exemplo de

Inglaterra, onde detetaram rapidamente

a variante porque fazem whole

genome sequencing, uma ferramenta

“absolutamente formidável. Só que temos

aqui um problema logístico. Se for preciso

modificar a vacina de tal forma que seja

preciso revacinar o pessoal todo outra vez,

voltamos quase à estaca zero. Alexandre

crê que a vacina, todavia, veio dificultar

as expetativas, levando, pelo menos em

Portugal, a “um baixar da guarda. Em

relação a todas essas expetativas, o pessoal

tem uma motivação que é a autoproteção

e a proteção dos seus familiares, tem

também a preocupação com a segurança

das vacinas. Ainda há gente que acha

estranho que em poucos meses haja uma

vacina com tanta eficácia”. Neste sentido,

questiona se Cátia considera que se devam

moderar as expetativas e demonstrar

uma certa transparência dos critérios de

vacinação.

“Acho que é importante dizer que

nenhuma vacina é 100% eficaz.

É impossível saber quem responde e não

responde a uma vacina, portanto, só o

ser vacinado não quer dizer que

está protegido. Os sistemas que temos

hoje como o usar a máscara, o lavar as

mãos, o manter o distanciamento vai ter

de continuar até termos um certo controlo

sobre esta doença e isto não vai ser do dia

para a noite, vai demorar vários meses.

Como disse, um programa de vacinação

não é uma coisa que se faz rapidamente,

é preciso haver primeiro vacinas em

termos de produção. No momento em que

chegarmos a uma altura em que temos

produção suficiente, aí sim se pode avançar

para outros grupos para tentar conter

o número de pessoas infetadas de uma

maneira diferente”, afirma Cátia.

Relativamente à transmissão, Alexandre

questiona se irá também prevenir a

transmissão, prevenir a infeção ou só

diminuir a infeção. Cátia considera esta

uma pergunta para a qual “ainda não

temos resposta. Estamos a ver através dos

estudos clínicos se realmente não há só uma

estancação de transmissão de pessoas que

são sintomáticas, mas também daqueles que

são assintomáticos. Claro que com a redução

de pessoas infetadas vai haver uma natural

redução de transmissão, portanto sim, isso é

expectável”.

046 NOMAR21 047

NOMAR21


REPORTAGEM

SARA BORGES

PROJETO REGIN

integração e inclusão de imigrantes e refugiados na Europa

Nos últimos anos, com a chegada em

número elevado de migrantes e de

refugiados à Europa, algumas regiões têm

enfrentado novos desafios relacionados

com diferentes áreas da integração, como

educação, habitação, saúde ou inclusão no

mercado de trabalho. Assim,

o projeto Regiões para a

Integração de Migrantes

e Refugiados (REGIN)

foi criado para incluir a

integração de migrantes e

de refugiados nas políticas

de coesão social ao nível

regional, com a definição

de um quadro comum, para

facilitar, orientar e melhorar

o desempenho das regiões

através de ferramentas

inovadoras.

No dia 3 de fevereiro, a Vice-Presidência

do Governo apresentou este projeto. A

iniciativa, promovida através da Direção

Regional das Comunidades numa sessão

online, contou com a presença de Artur

Lima, Vice-Presidente do Governo dos

Açores e com José Andrade, Diretor Regional

das Comunidades.

A Direção Regional das Comunidades

integra este programa em representação da

Região Autónoma dos Açores, juntamente

com a Conferência das Regiões Periféricas

Marítimas (CRPM), a Migration Policy

Group, a Instrategies e o Centro de

Barcelona para Assuntos Internacionais

(CIDOB) e com outras entidades

governamentais das regiões de Campônia

e Apúlia (Itália), Catalunha e Múrcia

(Espanha), e Skåne (Suécia).

Aprovado no âmbito do Fundo Asilo,

Migração e Integração (FAMI), o projeto,

com uma duração de dois anos, é liderado

pela Conferência das Regiões Periféricas

Marítimas, instituição que agrupa cerca de

150 regiões de 28 países, representando

aproximadamente 200 milhões de

habitantes.

Claire Street, Técnica de Políticas e de

Projetos da Conferência das Regiões

Periféricas Marítimas, na apresentação

do projeto REGIN aos dirigentes e

técnicos da administração pública e de

organizações não-governamentais e aos

órgãos de comunicação social explicou que

a CRPM começou a trabalhar na temática

da migração com o início da crise dos

refugiados em 2015, acrescentando que isto

derivou do facto que muitas das regiões

que fazem parte da CRPM localizam-se no

Sul da Europa e enfrentaram uma situação

onde tiveram de providenciar uma resposta

de emergência para uma crise humanitária,

tendo poucos recursos à sua disposição.

Segundo Claire Street, o principal contributo

do projeto é “possibilitar, aos decisores

regionais, o uso de investigação de ponta,

NOMAR21

049


REPORTAGEM

REPORTAGEM

baseada em evidências e com aplicabilidade

testada, para fundamentar a definição de políticas

sobre integração”, referindo que para impulsionar

as atividades de transferência e capitalização, o

REGIN pretende construir uma rede externa de

parceiros de apoio, com o envolvimento ativo da

filiação na CPMR, grupo de trabalho da CPMR

para as migrações e parceiros associados.

Deste modo, a ideia de criar

essas ferramentas para as

regiões não é só limitada a

esse projeto, “nós queremos

que estas ferramentas sejam

sustentáveis e que possam

ser adotadas por um número

alargado de regiões”, adiantou

Claire Street.

Contudo, antes de se proceder à explicação do

projeto REGIN e os seus objetivos, num primeiro

momento se irá enquadrar a integração de

imigrantes na Região Autónoma dos Açores de

modo a perceber quem são e de onde provêm os

indivíduos a que se destina o projeto europeu.

Neste sentido, José Andrade, Diretor Regional

das Comunidades, refere que “a imigração não

é e não será um parente pobre da nossa ação”.

E que devemos perspetivar “o projeto europeu

REGIN como mais um passo no caminho da

consciencialização e da consolidação dessa

sociedade multicultural que já somos também nos

Açores”.

Assim, segundo os dados mais

recentes do Serviço Estrangeiro

e Fronteiras e do Serviço

Regional de Estatística dos

Açores, residem oficialmente na

região cerca de 3900 cidadãos

imigrantes, em geral a evolução desse

número apresenta uma tendência crescente ao

longo das últimas duas décadas. Para além disso,

denota-se que esta imigração é maioritariamente

masculina. Deste modo, os cidadãos imigrantes

representam 1,6% da população reside nos

Açores e são provenientes de 95 diferentes

nacionalidades dos cinco continentes.

De acordo com o Quadro 1, podemos verificar que o Brasil lidera os países de proveniência com 18%

da imigração para os Açores, correspondente a mais de 700 cidadãos brasileiros, seguem-se Alemanha,

China, E.U.A, Reino Unido, Espanha, entre outros.

050 NOMAR21 051

NOMAR21


REPORTAGEM

No entanto, se olharmos o número de imigrantes

Nacionais de Países Terceiros (NPT), que

constituem o público alvo do Projeto REGIN,

verificamos que Cabo Verde e Canadá passam

a figurar entre os principais países emissores,

respetivamente com 198 e com 103 imigrantes

residentes.

Por outro lado, verificamos que os 4 milhares

de imigrantes estão distribuídos

pelas nove ilhas e até pelos

19 concelhos dos Açores, com

destaque para São Miguel com

1684 cidadãos estrangeiros,

mas também Faial, Terceira e

Pico cada qual com mais de 500.

Proporcionalmente, é curioso constatar que o

peso relativo da população imigrante por ilha

atinge o seu valor máximo nas Flores com mais

de 5% e que regista expressões superiores a 2%

no Faial, Pico, Santa Maria e Corvo.

Deste modo, segundo José Andrade, “é neste

contexto que assume importância crescente a

intervenção do Governo dos Açores relativa à

imigração e à interculturalidade, neste âmbito

a ação desenvolvida pela Direção Regional das

Comunidades assenta cada vez mais numa

dupla vertente, por um lado a preservação e a

valorização da identidade cultural dos nossos

imigrantes, por outro a sua natural integração na

sociedade açoriana”.

Segundo o Diretor Regional das Comunidades,

as comunidades imigradas

debatem-se em geral com

cinco grandes desafios:

o domínio da língua

portuguesa; a integração

social, especialmente no

plano laboral; o respeito pela

diversidade; a promoção

da identidade cultural

e a participação cívica

e política. Deste modo,

“importa, portanto, facilitar

a integração e valorizar a

interculturalidade. Para

tanto, a Direção Regional

das Comunidades procura

cumprir essa missão com a

implementação de políticas

estratégicas essencialmente

em quatro domínios: a

cooperação institucional, o

apoio formal a atividades

privadas; o apoio direto

ao cidadão imigrante e a

educação intercultural”,

esclareceu José Andrade.

Por último, o Diretor Regional

das Comunidades, em

relação ao projeto europeu

REGIN (projeto europeu de

cooperação inter-regional),

refere que os Açores estão

“empenhados na efetiva e

proveitosa implementação

desse projeto” e finaliza

afirmando que “nos Açores

respeitámos e valorizámos as

diferenças, construímos uma

sociedade plural, queremos

que todos sejam felizes”.

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

inovadoras, através do envolvimento das partes

interessadas multilaterais, da aquisição e desenvolvimento

de capacidades, da formação e da divulgação.

Sendo assim, o que oferece o REGIN?

Este projeto está assente em várias iniciativas, tais como:

indicadores regionais de integração, ferramentas regionais,

ações de integração, estudo de caso sobre saúde e inclusão,

laboratório de integração (com base de dados e mapa

interativo) e rede externa. Com estas iniciativas procurase

estabelecer um diálogo e cooperação ao nível da União

Assim, para obter um impacto a longo

prazo, devido à cobertura geográfica do

projeto, e tendo em conta as competências

regionais e os desafios de governança

multinível, o REGIN visa definir

uma rede com autoridades

regionais, para cooperar na

integração de migrantes,

através da criação de um

fórum, para discutir,

aprender reciprocamente e

partilhar políticas e práticas

de integração.

Pretende também dar voz às regiões e

salientar o seu papel crucial na inclusão

social, bem como na promoção de interações

entre pessoas recém-chegadas e sociedades

de acolhimento. Tem como objetivo também

identificar indicadores de integração, que

serão utilizados para melhorar o rigor, a

responsabilidade, a solidez e a inovação das

políticas e dos resultados das autoridades

regionais, através de investigação,

com base em dados comprovados, e

de uma abordagem comparativa e por

último, desenvolver um conjunto de

ferramentas, que facilite a adaptabilidade

e a sustentabilidade de ações de integração

Europeia, construindo uma rede de

Regiões para a integração dos migrantes

e a difusão e capitalização.

Em relação aos indicadores regionais

de integração, o projeto constitui uma

oportunidade para adaptar o Índex de

Políticas de Integração de Migrantes

(MIPEX), elaborado anteriormente pelo

CIDOB e pelo MPG, ao nível regional,

como MIPEX-R – que corresponde a

MIPEX-Regiões – para avaliar a eficácia

das políticas de integração ao nível

regional, e os respetivos resultados.

Claire Street elucida que há dois tipos de

indicadores, o primeiro sobre as políticas,

que contém um sistema de pontuação

de 0/100 para indicar a atuação. E

o outro indicador, um indicador de

resultado, que incide basicamente em

dados demográficos sobre imigrantes nas

diversas regiões.

Seguidamente, o projeto irá proporcionar

054 NOMAR21 055

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

o desenvolvimento das competências dos

atores-chave nas comunidades de acolhimento

e a realização de formação específica destinada

à administração pública, visando apoiar a

consolidação dos serviços de integração.

Deste modo, o projeto REGIN

está a desenvolver para as

regiões sessões de diagnóstico

e sessões de acompanhamento,

como também formações para

a administração pública, com

o intuito de sensibilizar para a

integração imigrante e questões

de inclusão no dia a dia,

tornando-os mais percetivos a

outras diversidades culturais.

No caso concreto dos Açores, as primeiras

sessões de diagnóstico tiveram lugar

durante o mês de fevereiro com diversos

trabalhadores da administração pública.

Posteriormente, serão desenvolvidas ações

de integração inovadoras e adaptadas às

necessidades, com base nos indicadores sobre

políticas e nos resultados regionais obtidos

no âmbito do MIPEX-R. Será desenvolvido

e testado um quadro de avaliação para estas

ações. Neste contexto, Claire Street menciona

a Partnership Skåne, que enfrenta os desafios

de integração, prestando apoio holístico a

pessoas recém-chegadas à Suécia e refere

que irá por em prática um projeto piloto no

âmbito da saúde e inclusão social.

Desta forma, o projeto pretende aproveitar e

melhorar uma ferramenta de mapeamento

visual de migração existente, desenvolvida

anteriormente pela CRPM, para criar uma

base de dados de práticas de integração

inovadoras, e será utilizada para

aprendizagem recíproca entre regiões através

da análise de práticas com e sem sucesso,

bem como para promoção de ações regionais

de integração, criação de redes e identificação

de conhecimento especializado em áreas

específicas.

Assim, através de parcerias sólidas dentro

e fora das regiões participantes, o projeto

facilita o intercâmbio entre territórios com

diferentes níveis de experiência, com vista

à extração de aprendizagens e respetiva

disseminação junto de atores-chave.

Atividades de comunicação, eventos de

divulgação e promoção através de outros

canais, como a iniciativa “Municípios e

Regiões para a Integração”, dirigida pelo

Comité das Regiões Europeu, e o European

Web Site on Integration (EWSI) (Website

Europeu sobre Integração), também estão

previstas para divulgar as conclusões do

projeto a um público mais alargado.

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NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

PENSAR

NO SERVIÇO REGIONAL DE SAÚDE

Temos, de facto, menos acessos aos cuidados por

dificuldades de respostas ao nível dos próprios recursos

humanos e também de recursos materiais e da análise que

fazemos durante este período, que houve atos existenciais

que foram prejudicados pela pandemia, sobretudo, os meses

de março, abril, maio e um pouco de junho sentiu-se que, de

facto, houve aqui um prejuízo na resposta existencial”.

PARA ALÉM

DA COVID-19

SOFIA CORDEIRO

A pandemia que vivemos hoje afeta a

vida de todos de forma intensa. Afeta

a economia, a cultura, o desporto,

as relações sociais, as relações

familiares e toda a nossa vivência.

A pandemia “tem este efeito

transversal na sociedade, mas é,

sobretudo, e desde logo a essência

da saúde, em geral, que sofre muito

com a pandemia.

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NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Os rastreios oncológicos dispararam e

se sentiu uma diminuição intensa dos

fazia referência aqui a alguns números que

cuidados existenciais e sobretudo nas

dizem respeito a esta matéria. Ao nível das

consultas de enfermagem, nas consultas

cirurgias houve aqui um decréscimo nos

de nutrição, psicologia e nas consultas

meses já referidos como, por um exemplo,

de medicina dentária foram as áreas

“em janeiro de 2020 ouvia-se falar muito

mais afetadas dos cuidados em termos

longe na pandemia na China e houve 2 235

de consultas”. As consultas passaram a

cirurgias, em fevereiro 1 946, em março

funcionar por telefone, principalmente,

baixaram para 1 257 e em abril baixaram

as consultas de seguimento. Acrescentou

para 542, em maio 959, isto é, há aqui um

ainda que “também há um decréscimo

decréscimo intenso e evidente naqueles

significativo dos exames complementares

meses iniciais da pandemia que não

de diagnóstico no que diz respeito, por

estávamos preparados para aquilo que veio

exemplo, a TAC, endoscopias, isto é, um

a acontecer e é evidente este decréscimo

conjunto de áreas que sentiram este

de cirurgias dos hospitais”. O secretário

decréscimo de forma muito significativa,

afirmou também que “as cirurgias em

dado que vive por um lado, da alimentação

ambulatório decresceram de forma intensa,

dos recursos para os cuidados COVID, por

por exemplo, em janeiro nos Açores foram

339, em fevereiro, 374, em março baixam

para menos de metade, 158, em abril, 17,

em maio, 34, isto é, houve um decréscimo

intenso ao nível das cirurgias. Isto faz-se

sobretudo em algumas especialidades”.

Ao nível das consultas também se “sentiu

isto de forma intensa durante estes meses,

por exemplo, no mês de janeiro de 2020,

tivemos 88 257 consultas nos Açores,

em fevereiro, 79 668. Estamos aqui na

casa dos 80 mil, em março baixa para 65

mil, em abril para 50 mil, em maio nos

60 mil, em junho ainda está nos 67 mil,

isto é, em termos de consultas também

outro lado também e para cancelamento

de consultas e cirurgias e também por algo

que se foi sentindo e foi-se percebendo

aquele receio das pessoas para se deslocar

aos locais de cuidados de saúde e sentimos

de facto que há muitas situações que se

agravaram, muitas situações que tiveram

consequências complexas, as pessoas

passaram a ter receio de sair de casa e ter

receio no sentido de ir ao hospital e às

unidades de saúde de ilha são sítios onde

há pessoas doentes que poderiam contrair

a doença e reservavam-se e confinavam-se

que também foi um facto que fez crescer os

cuidados assistenciais”.

Clélio Meneses refere que “para além

deste impacto direto nos números das

consultas, cirurgias também temos um

impacto grande que se vai sentindo já e

que ainda se vai sentir mais que tem a ver

com algumas áreas da saúde que é o caso

particular da saúde mental”.

Com o decorrer da pandemia, é necessário

ter atenção à saúde mental, assim como

a diminuição da atividade motora e da

atividade física. As pessoas confinaram-se,

estão fechadas em casa “e isto é transversal

na sociedade de uma forma muito

intensa”. Relativamente aos mais jovens

“tem a questão do ensino à distância,

da necessidade sanitária da pandemia

e dos hábitos das crianças que se vão

criando com os atrativos que são as novas

tecnologias, os jogos, os computadores, os

tablets e todas estas questões informáticas

que faz com que as crianças e os mais

jovens se desabituem de ter atividade

física e atividade motora “e tudo isto é

também motivo de preocupação, porque

para além da pandemia sanitária, temos

tido uma pandemia física, uma pandemia

motora com falta de hábitos de saúde

com competências imprevisíveis, mas

certamente muito nefastas”.

060 NOMAR21 061

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

E perante este diagnóstico, a visão da

Secretaria Regional da Saúde é construir

“um sistema integrado onde todos fazem

parte à medida das suas responsabilidades

e competências, ninguém está

desresponsabilizado a participar, todos

são realmente importantes” para alcance

de melhores resultados e das melhores

respostas aos utentes.

Foi também referida a dualidade do

privado e do público onde há, muitas

vezes, “um preconceito ideológico que a

saúde só deve ser paga com a parte pública

da saúde” e é “como que uma fronteira, um

obstáculo entre a parte pública e privada”.

Clélio Meneses, Secretário Regional da

Saúde e Desporto, adianta que o seu

entendimento

“é que todos podem ser uma

resposta e devem ser uma

resposta capaz de qualificar

para uns melhores

resultados para melhores

condições de saúde das

populações”.

“O Serviço Regional de

Saúde está a esquecer-se

que o que fez esta visão foi

introduzir dentro do serviço

público de saúde o serviço

privado através de empresas

privadas, prestação de

serviços que colocam

médicos tarefeiros a prestar

serviços,

isto é, meteu-se o privado dentro do

público com os recursos do público em

termos de meios, de recursos, de energias,

equipamentos e sem a estabilização que

deve ter a resposta de saúde a dar, e o que

é importante é que se complementem e o

Serviço Nacional de Saúde forte com gente

capaz, cativada, mobilizada com certeza

que vai dar uma melhor resposta e vai

ser um parceiro essencial como todas as

iniciativas privadas que possam surgir

como da mesma forma o serviço privado

também será um estímulo e uma forma

de intensificar a resposta para a parte

pública ter um serviço cada vez melhor e

é nesta dualidade do sistema integrado de

todos que penso que dá uma das principais

respostas”.

Uma visão de saúde moderna

no sistema, no entender

do secretário, “parece ser

essencial”, isto é, que ao nível dos

cuidados primários e os cuidados de

segunda e terceira linha “haja uma

interligação clara, funcional e eficaz” e os

centros de saúde, as unidades de saúde

de ilha, os hospitais “têm de funcionar

sempre, como disse no início, ‘enfrentar e

encarar’, em termos de lidar ‘cara a cara’

temos de enfrentar e não estar de costas

voltadas.

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

O que sinto é que temos aqui um conjunto

de serviços que funcionam de costas

voltadas, em que cada um cuida de si

e muitas vezes criando rivalidade com

outros serviços com outras entidades”

e o que é necessário é que “haja uma

interligação, um entendimento, uma lógica

coerente onde todos se entendam e todos

se percebam qual é o papel de cada um na

medida da responsabilidade de cada um”.

Para resolução do problema

geral da saúde da região, a

mesma passa pela intervenção

e pela retoma intensa da atividade

existencial para além daquilo que são

os planos e estratégias das unidades

de saúde que já estão implementadas

e que o anterior governo deixou que

várias unidades de saúde já tivessem

definido e implementado estes planos

de retoma dos hospitais, das unidades

de saúde e que para além disso há aqui

um conjunto de outras matérias que o

governo regional atual já implementou.

Desde logo, em primeiro lugar, a retoma

dos rastreios de oncológicos, entendendo

que nos Açores existe um serviço de

ponta que é considerado a nível nacional

e internacional abrangente a 100% da

população em vários tipos de rastreio

“e isto é importante que se mantenha

e, sobretudo, que se valorize ao ponto

de ter um incremento da ação que faça

e que no rastreio tenhamos melhores

respostas, melhores condições de saúde

dos açorianos”.

Para além disso, o Governo tem também

uma perspetiva de reforço, de prevenção,

ao nível da literacia na saúde que

também tem a ver com esta perspetiva da

intervenção. “É essencial que haja aqui

uma proposta clara, não pode ser um

discurso de conferência ou de congresso

tem de ser uma prática efetiva e sentida

por todas as pessoas ligadas à saúde desde

os profissionais aos utentes”.

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NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

E nesta literacia da saúde, no

conhecimento, nesta intervenção, nos

hábitos de vida saudáveis, quer ao nível da

habilitação, do exercício físico também tem

de haver uma aposta “muito clara”.

Estas apostas são de médio e longo prazo

e não de efeito imediato. São apostas que

vão ter efeitos daqui a décadas ou gerações

na forma como se incutem na mente das

pessoas estes novos atos, estas novas

formas de vida e de se relacionar com a

saúde. Clélio Meneses afirma que “isto

tem muito a ver com a atividade física”,

acrescentou também que a secretaria dá

importância à atividade física “como forma

de prevenir e salvaguardar a saúde e é na

nossa perspetiva, como disse, necessária

e urgente a retoma da atividade física, da

atividade motora através de um conjunto

que está a ser delimitado pela secretaria

no sentido de conseguirmos relatos de

vida saudável, envolvendo sobretudo os

mais jovens, isto tem de começar muito

pelas crianças”, dado que “as crianças são

aquelas que recebem melhor a informação

e têm mais capacidade de dar resposta

àquilo que lhes transmitem e é do mais

definido que se consegue introduzir estes

novos métodos de literacia na saúde

e garantir a saúde também através da

atividade física e dos hábitos saudáveis”.

Também está a ser trabalhada

a fixação de médicos,

enfermeiros e técnicos de

diagnóstico nos Açores, pois

“nós não podemos continuar a

depender de médicos que vêm

casuisticamente.

Temos que encontrar é médicos em termos

de estrutura de carreira que incentivem

para ficarem cá a trabalhar”.

Por outro lado, a Secretaria Regional

da Saúde pretende implementar o

denominado “hospital digital” que garante,

até 2025, melhor acesso ao Serviço

Regional de Saúde de todos os utentes por

via da fiscalização da saúde reforçando

competências fiscais aos profissionais

de saúde, dotando de infraestruturas

tecnológicas, equipamentos, bens

informáticos necessários à resolução

deste investimento, através de duas ações

fundamentais.

Por um lado, a digitalização do setor da

saúde, do sistema de saúde de modo a

fiscalizar o registo eletrónico de saúde de

cada cidadão que prometa a partilha de

informação clínica de todos os níveis de

cuidados de saúde e criar condições iguais

de acessibilidade das ilhas mais isoladas

e sem hospital e potenciando informação

não só para a cura, mas também para a

prevenção e da melhoria da performance

do sistema informático de saúde.

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NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Clélio Meneses idealiza e defende um

sistema de um hospital de Estado no

qual toda a informação ficaria ligada ao

nível das unidades de saúde e ao nível de

todas as linhas de resposta de saúde, mas

também privada através de uma prestação

de serviços de modo a destribalizar a

informação “fiável, pública e transparente”

sobre toda a atividade de vida do Serviço

Regional de Saúde compreendendo

indicadores de produção, financeiros,

qualidade e satisfação.

Quando se encontra um sistema onde

reina um sentimento de desânimo, o

secretário tenta transmitir o seu ânimo

e determinação a todos aqueles que

estão ligados ao setor e de uma forma

“convicta e consciente” e que estas têm

solução. E o caminho e a solução têm a

ver com a identificação dos problemas,

a identificação daquilo que pode trazer

dificuldade e sobretudo encontrar

respostas incutidas nas pessoas. “Ninguém

anda sem acreditar” e é preciso que as

pessoas acreditem que de facto há um

caminho e que pode funcionar com que

todos façam parte envolvendo as pessoas

com proximidade, isto é, “todos têm de

se sentir envolvidos no processo e o que

tenho sentido é o desânimo e as pessoas

não se sentem envolvidas no processo,

não se sentem participantes naquilo que

é a resposta, porque há sempre alguém

que é responsável por eles e alguém pior

que é irresponsável por eles e quando

assim é fica tudo mais difícil, cortas estes

laços de irresponsabilidade no sentido de

não assumirem a sua responsabilidade”.

É na perspetiva da liberdade, da

responsabilidade e sem discursos que o

Governo determina uma solução a longo

prazo para acabar com o subfinanciamento

na saúde que faz com que ninguém

acredite nisto. “E parece que um dos

primeiros passos para mudar o sistema é

que as pessoas sintam que isto faz sentido

e que faz sentido que tenha a minha

participação e que me envolva nisso.”

Sobre todo este processo, o secretário

afirma: “não garanto que se faça um

orçamento, porque estamos a falar de

valores muito elevados, mas o que digo é

que é uma das prioridades do Governo,

através dos recursos, criar meios para

que as palavras não sejam vãs”, isto é,

através dos recursos financeiros e de

equipamentos também se tenha recursos

humanos que são essenciais de todo o

processo capaz e motivados e, por isso, as

tais palavras de determinação do secretário

poderão fazer algum sentido.

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

Para manter a sustentabilidade do

Serviço Regional de Saúde é necessário

“acabar com os problemas, com o

subfinanciamento, mas não é atirando

dinheiro para o sistema que os problemas

se resolvem. Se fosse simplesmente

atirar dinheiro aos problemas eles só

aumentam”. Resolve-se com determinação

política e com a otimização dos recursos,

nomeadamente, recursos financeiros

quer dos equipamentos quer dos recursos

humanos e “não faz qualquer sentido o

custo de um equipamento que não seja

utilizado de forma a ser rentabilizado, é

preciso rentabilizar os equipamentos, é

preciso otimizar toda a capacidade que

temos e a que viermos a ter, mas também é

importante que se rentabilizem os recursos

humanos de forma a que todos trabalhem

de acordo com aquilo que são as suas

responsabilidades, as suas capacidades,

competências e qualificações e que podem

fazer muitos mais e que não fazem porque

ou não estão motivados ou porque não

têm os equipamentos ou os horários ou

organização em termos de blocos”.

Os doentes “são parte integrante do

sistema e, se associados, se organizados,

conseguem transmitir contributos

positivos para a governação. Obviamente

que ainda deve ser mais valorizado e todas

as matérias são essenciais ao nível da

construção deste sistema que começa nas

pessoas e acaba nas pessoas e é por isto

essencial que haja esta participação que

vejo como algo muito útil”.

O maior hospital da Região, o Hospital de

Ponta Delgada, que serve mais de metade

da população foi vítima de um maior

desinvestimento nos últimos anos e que

tem um défice mensal de dois milhões de

euros, isto é, todos os meses tem sempre

menos dois milhões do que aquilo que

precisa para satisfazer as respostas. E

sendo um problema estrutural é que

“todos os meses fica tudo mais difícil de

resolver e no sentido da tal motivação,

da tal resposta, da tal eficácia e, por

isso, é com esta atenção assumida que

enfrentamos todas as questões ligadas à

Região de forma muito particular e intensa

à medida da dimensão do Hospital de

Ponta Delgada”.

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PUBLIREPORTAGEM

4 RAZÕES PORQUE DEVE INVESTIR EM

ANÚNCIOS

As redes sociais

quando bem

trabalhadas são

uma ferramenta

muito poderosa, que

agrega reputação

e autoridade, mas

que, hoje em dia,

não pode prescindir

de anúncios pagos.

No entanto, muitas

das empresas

açorianas ainda não

veem isto como um

investimento, mas

sim como um gasto.

Assim, este artigo

serve precisamente

para esclarecer e

mostrar as enormes

potencialidades

e o retorno dos

anúncios. Veja 4

razões por que deve

começar a investir

em anúncios já:

UMA PÁGINA DE

FACEBOOK NÃO É

SUFICIENTE

Hoje, uma página de

Facebook não é de todo

suficiente. Já lhe aconteceu

ter uma página que tem

muito pouca interação? Isto

acontece porque o alcance

orgânico (não pago) está a

ser, cada vez mais reduzido,

dando assim preferência

aos anúncios. Estes sim

conseguem impactar

milhares de pessoas, com

base em estratégias bem

definidas, como público

alvo, localização, frequência

e mais.

MEDIR O

RETORNO SOBRE O

INVESTIMENTO

Alguém disse: “Em Deus

eu creio, os demais tragam

números”. Nas meios

tradicionais como jornais,

televisão ou revistas, não se

consegue medir o retorno

sobre o investimento.

Já quanto a investir aos

anúncios, temos várias

métricas, que nos mostram

o que está ou não a trazer

resultados. Para isso, podese

realizar um teste A/B,

que permite-nos testar duas

variações de um mesmo

anúncio. Com este teste,

sabemos qual o anúncio que

deverá ser desativado e em

qual devemos investir mais.

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PUBLIREPORTAGEM

PUBLIREPORTAGEM

RESULTADOS MUITO

MAIS RÁPIDOS

Sabia que com anúncios

é possível alcançar

1000 pessoas com

aproximadamente 1.50€?

Pense no tempo e custo

implicados no uso dos

meios tradicionais de

promoção? Por exemplo,

usar flyers para comunicar

o seu novo produto ou

abertura de loja. Quanto

precisa de investir em

flyers? Quem os vai

distribuir? Quanto tempo

precisa para organizar tudo

isto?

Com anúncios é possível

atingir resultados muito

mais rápidos e alcançar

muitas mais pessoas (e as

pessoas certas).

REMARKETING

Imagine que a sua empresa

tem um empregado que

anota todos os clientes que

entram na sua loja e todas

as ações que eles lá fazem,

como pegar em artigos,

comprar ou abandonar um

carrinho, etc.

No mundo online, este

“empregado” é o Pixel!

Instalado no seu website,

é capaz de registar todas

as pessoas que fazem

determinadas ações

no seu site. Com estas

informações, conseguimos

fazer remarketing, ou seja,

criar anúncios direcionados,

de acordo com o estado de

compra ou ações dessas

pessoas no seu site.

Não há como negar que, de uma forma ou outra, todos os

negócios terão de ter alguma presença online e, para aqueles

que querem ter mesmo sucesso e sair à frente da concorrência,

devem aproveitar ao máximo todas as potencialidades

do marketing digital, que passa, em grande parte, por um

investimento em anúncios.

Pode ler mais sobre este e outros temas no nosso blog em

https://acorespro.com/blog/.

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

BIOGRAFIA

EX-ALUNO DA UMINHO

CRIA PROJETOS PARA

REVITALIZAR O INTERIOR

Sérgio F. Godinho

Sérgio F. Godinho lançou o primeiro

TEDx numa vila ibérica, livros e

um novo ciclo de entrevistas, que já

incluiu a ministra Ana Abrunhosa

Sérgio F. Godinho, formado em

Psicologia na Universidade do

Minho, está a realizar um conjunto

de projetos para afirmar o interior de

Portugal. Lançou o primeiro festival

TEDx numa vila ibérica (em Figueiró

dos Vinhos, Leiria), seguindo-se

livros de ficção como “7 Factos” e,

desde dezembro, o canal Interiorizar

no YouTube, que mostra “quem faz

a diferença” em regiões de baixa

densidade. A ministra da Coesão

Territorial, Ana Abrunhosa, já foi

uma das entrevistadas no canal, que

assinala a sua 10ª sessão este sábado,

às 10h00, com o autor açoriano e

criador do “Faz Acontecer”, André

Leonardo.

“Preocupa-me muito a ‘morte lenta’

do interior do país e tento combatêla

ativamente”, diz Sérgio Godinho.

“Sou de Figueiró dos Vinhos, que foi

afetado pelos incêndios em 2017, e

como muitos jovens do interior fui

‘forçado’ a sair para tirar um curso

e, agora, a ir trabalhar em Lisboa,

pois mal há perspetivas de futuro.” O

consultor de recursos humanos crê

que seja uma fase, para depois poder

regressar e aplicar o seu know-how

em regiões deprimidas.

Para já, as conversas online em

“Interiorizar” contaram, além da

ministra, com o gestor de ensino à

distância do Instituto CRIAP, Luís

Rocha Graça, o secretário-geral

da UGT, Carlos Silva, a fundadora

da rede artística Mistaker Maker,

Lara Seixo Rodrigues, a curadora

do Festival Literário Internacional

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BIOGRAFIA

REPORTAGEM

PUB.

do Interior, Ana Filomena Amaral,

o presidente do Município do

Fundão, Paulo Fernandes, o criador

da empresa Piranha Global, Pedro

Miguel Dias, o futebolista do Almería

João Carvalho e o diretor-geral

da agência Rural Move, Fernando

Belezas.

As conversas vão prosseguir e

são “apenas o início” do canal

“Interiorizar”. “Estou a formalizar

parcerias com entidades que

defendem valores semelhantes,

para gerar mais impacto na real

transformação que perseguimos”,

defende Sérgio Godinho. “Deve ser

possível ter sonhos no interior. Temos

que combater o despovoamento e o

envelhecimento que afeta a maioria

do território português, o que exige

empenho efetivo das organizações

e dos políticos e, também, o

envolvimento e a solidariedade das

populações”, defende.

Sérgio Godinho tem 27 anos e ligouse

desde cedo a várias atividades,

como ator amador, futebolista e

escritor. Criou depois as conferências

“Futuro Y” para jovens artistas e

empresários, colaborando ainda

na Associação de Estudantes de

Psicologia da UMinho, na Associação

Nacional de Estudantes de Psicologia,

em três grupos de investigação, no

Município de Guimarães e, como

voluntário, na Liga das Nações,

no TEDxVerona (Itália) e na Web

Summit, entre outros.

Sérgio F. Godinho

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REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS:

ESTUDO DO MARE-ISPA DETETA

MECANISMOS DE ADAPTAÇÃO

NA SARDINHA IBÉRICA

MARE-ISPA

Baltazar-Soares sublinha que “é

importante percebermos o potencial

adaptativo da sardinha de modo a

fazer face às alterações climáticas.

Os seus stocks têm sido explorados

intensivamente nas últimas décadas e,

mais recentemente, têm estado abaixo

do limite sustentável de captura.”

Gonçalo Silva conclui com uma nota

otimista: “Têm sido encontradas

assinaturas moleculares de diversas

adaptações noutras espécies de

pequenos peixes pelágicos (que

vivem na coluna de água, como a

sardinha): temos o caso do biqueirão,

do arenque ou até mesmo em

sardinhas de outras espécies, noutras

latitudes. Ao compreendermos

melhor os mecanismos de adaptação

às alterações climáticas conseguimos

estar mais perto de prever os impactos

que estas terão na distribuição

dos recursos marinhos, e assim,

contribuirmos para uma melhor

gestão desses mesmos recursos”.

Estima-se que o aumento global da

temperatura média da água do mar

previsto até ao final do século tenha

múltiplos impactos na biodiversidade,

dinâmica e distribuição dos

diferentes recursos marinhos, e

por consequência na economia

e sobrevivência das populações

costeiras – que é justamente o caso da

sardinha ibérica.

A investigação do projeto SardiTemp,

liderado pelo MARE-ISPA, demonstra

que a sardinha ibérica tem potenciais

vantagens na adaptação às alterações

climáticas, mas ainda assim a subida

da temperatura do mar pode levar

a uma migração desta espécie para

norte.

“Devido ao aumento da temperatura

da água, o que se espera é que as

sardinhas acelerem o metabolismo

e consequentemente o consumo de

oxigénio. Decidimos analisar o DNA

de genes envolvidos na produção de

energia para ver se encontrávamos

alguma ligação”, explica Miguel

Baltazar-Soares, autor principal do

artigo publicado na revista Genes no

início deste mês. “Descobrimos que a

variação a nível molecular encontrada

entre amostras analisadas à volta da

Península Ibérica é explicada por uma

relação com a temperatura mínima da

água do mar e do oxigénio dissolvido

na mesma”, conclui.

Isto abre a possibilidade de um

mecanismo de adaptação, mas isso

pode não ser suficiente para manter a

sardinha ibérica em áreas de pesca no

nosso território. Gonçalo Silva, líder

do projeto SardiTemp, diz que “esta

adaptação poderá estar relacionada

com eventos de afloramento,

frequentes na costa portuguesa.”

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REPORTAGEM

COMÉRCIO DE MODA E

VESTUÁRIO: RECLAMAÇÕES

DISPARAM 146%

Assim, observa-se que os principais

motivos de reclamação dos

consumidores portugueses contra

as marcas de vestuário e moda, são

ARTIGO TEMÁTICO | COMÉRCIO

referentes ao Comércio Eletrónico.

O atraso nas entregas foi a queixa

principal reportada em 2020, gerando

42,8% das reclamações.

Principais motivos das reclamações de 2020:

Principais motivos das queixas dos

consumidores relacionam-se com as

compras feitas online. MO Online foi

a marca mais reclamada em 2020. La

Redoute conquista melhor Índice de

Satisfação.

Uma análise do Portal da

Queixa permitiu constatar que a

categoria Comércio de Moda e

Vestuário foi a que registou a maior

subida de reclamações em 2020. A

tendência de crescimento é verificada

também, em 2021, com um total

de 2197 reclamações já registadas

entre janeiro e 16 de fevereiro. Um

aumento de 146% face ao período

homólogo. As lojas físicas fechadas

impulsionaram as compras online,

por isso, o atraso nas entregas é o

principal motivo de reclamação dos

consumidores.

De acordo com os dados do Portal

da Queixa, de 1 de janeiro até 31 de

dezembro de 2020, os portugueses

apresentaram um total de 9442

reclamações dirigidas a marcas

inseridas na categoria Comércio

de Moda e Vestuário. Um aumento

de 197% comparativamente com o

ano de 2019, onde foram registadas,

durante o mesmo período, 3179

queixas.

A tendência de crescimento do

volume de reclamações nesta

categoria é significativa quando se

analisa os dados de 2021: desde

o início do ano, até ao dia 16 de

fevereiro, já foram registadas 2197

reclamações relacionadas com o

Comércio de Moda e Vestuário, um

aumento de 146% quando comparado

com igual período de 2020, onde

foram recebidas 895 reclamações.

Um facto que a equipa do Portal da

Queixa atribui ao confinamento geral

imposto pelo Estado de Emergência

em vigor e o consequente aumento

das compras online.

Segundo indica a análise da equipa

do Portal da Queixa, as cinco marcas

com o maior volume de reclamações

em 2020, foram: a MO Online (508

queixas), a Seaside (438 queixas)

e Stradivarius (295 queixas), o

Clubefashion (276 queixas) e a Zara

(248 queixas).

Relativamente à variação face a 2019,

as cinco marcas que assistiram ao

disparar de reclamações em 2020

foram: a Lefties, as Havaianas, a

Stradivaruis, a Seaside e a Pull&Bear.

Nesta variação, destaca-se a marca

Clubefashion ao ter sido a única que

registou, em 2020, um decréscimo

das reclamações (-12% do que em

2019).

No que se refere

ao Índice de Satisfação - que expressa

de forma objetiva o desempenho

das marcas no Portal da Queixa com

base na interação com os utilizadores

que efetuaram reclamações -, ganha

destaque - pela elevada Taxa de

Resposta e Taxa de Solução junto dos

clientes -, a marca La Redoute com

um Índice de Satisfação de 89,7 (em

100 pontos).

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NOMAR21


REPORTAGEM

Marcas de Comércio de Moda e Vestuário com maior número de

reclamações em 2020 e sua variação face a 2019:

Na opinião de Sónia Lage

Lourenço, COO do Portal da

Queixa by Consumers Trust, a falta

de preparação das marcas para uma

presença digital robusta e para uma

resposta logística eficaz, esteve na

origem do aumento das reclamações

verificado no setor: “O vestuário

sempre foi um dos principais setores

no retalho que, até à pandemia, ainda

estava a dar os primeiros passos no

sentido da digitalização. Com este

novo contexto pandémico, verificouse

um crescimento exponencial de

compras online no comércio de

moda e vestuário que colocou à

prova a resistência das equipas e dos

processos de venda, até então, muito

tradicionais e assentes nos pontos de

venda físicos. Esta enorme pressão

a que as marcas foram sujeitas,

refletiu-se num elevado número de

ARTIGO TEMÁTICO | COMÉRCIO

reclamações, que têm em comum a

falta de preparação do setor para

uma eventual presença em massa nos

canais digitais.

Nos últimos anos, algumas marcas

já vinham a fazer o processo

de transição digital, que foi

preponderante para os elevados

resultados de satisfação que

registam atualmente, nas suas

operações comerciais junto dos

consumidores online. Como exemplo

desse sucesso digital, podemos

apontar marcas como a La Redoute,

que sempre priorizou o contacto com

o consumidor, independentemente

do canal escolhido, demonstrando,

claramente, que estavam melhor

preparadas, conseguindo apresentar

soluções ágeis junto dos seus clientes

e garantir satisfação e confiança na

experiência de consumo.”

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | SAÚDE

DORES NAS COSTAS

PODEM SER SINTOMAS DE

ESPONDILARTROSE

Campanha alerta para causas e formas de

prevenção de doença

A Sociedade Portuguesa de Patologia

da Coluna Vertebral (SPPCV)

está a promover uma campanha

de consciencialização para a

espondilartrose, uma doença que afeta

mais de 80 por cento da população

após os 40 anos.

Esta iniciativa está disponível nas

redes sociais através de um vídeo

informativo e tem como principal

objetivo alertar para a importância de

se conhecerem os sinais e as medidas

preventivas desta doença.

Para Nuno Neves, ortopedista e

presidente da SPPCV, “esta campanha

digital pretende informar a população

sobre os sintomas, os fatores de

risco e as formas de prevenção

desta doença, que apesar de surgir

devido a uma predisposição genética

individual, pode ter outros fatores que

para ela contribuem. A obesidade, o

tabagismo, a ocupação profissional

(vibração provocada em trabalhadores

que usam martelos pneumáticos ou

uma sobrecarga mantida no transporte

de pesos) e a falta de exercício físico

são os principais.”

E acrescenta: “esta doença resulta

do processo de desgaste entre as

vértebras da coluna. Um dos sintomas

mais comuns são as dores nas costas,

especialmente na parte inferior, e a

redução da capacidade de realizar

movimentos básicos do dia-a-dia,

tais como caminhar e sentar-se.

A probabilidade dos sintomas se

intensificarem aumenta com a

realização dos esforços físicos e a

permanência na mesma posição por

longos períodos. Em casos mais

graves podem provocar dores tipo

ciática, formigueiros e dificuldade em

andar”.

A espondilartrose, também conhecida

por espondilose, está intimamente

associada ao envelhecimento,

9600-549 Ribeira Grande

geral@grupoideal.pt

estimando-se que após os 40 anos

mais de 80 por cento da população

evidencie algum grau de desgaste dos

discos intervertebrais e de artrose nos

exames radiológicos. Para atenuar

os sintomas, recomenda-se que seja

controlado o peso, mantendo um

estilo de vida saudável e ativo, com

exercício físico regular e que sejam

evitados esforços desnecessários.

GRUPO

PUB.

086 NOMAR21 087

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | RECICLAGEM

Reciclagem cresce 13%

em ano de pandemia

409 mil toneladas de embalagens recolhidas em 2020

SPV evita emissão de 158 mil toneladas de dióxido de carbono

A recolha seletiva de embalagens em

2020, em Portugal, aumentou 13%,

face a 2019, tendo sido encaminhadas

para reciclagem mais de 409 mil

toneladas de embalagens.

Com o contributo da Sociedade

Ponto Verde (SPV) nestes resultados

de reciclagem, foi possível evitar

a emissão de 158 mil toneladas

de CO2e. A SPV consolida assim

o seu papel junto das empresas e

cidadãos e numa altura em que a

neutralidade carbónica é um dos

eixos da transformação verde que

está em curso em Portugal e na União

Europeia.

Dos resultados obtidos destaque

para a recolha de 132 mil toneladas

de papel e cartão, que equivale a

um aumento de 39,7% face ao ano

anterior. As embalagens de plástico

colocadas nos ecopontos aumentaram

em 7,6% e as embalagens de vidro

cresceram 1,3%.

Para a SPV os dados agora divulgados

revelam que os comportamentos de

reciclagem continuam a fazer parte

do dia-a-dia dos portugueses, mesmo

num ano em que os seus estilos de

vida foram inevitavelmente alterados.

Os números vêm também confirmar

as conclusões apresentadas pelo Radar

da Reciclagem da SPV que mostra

que 9 em cada 10 portugueses fazem

reciclagem de embalagens e que

este é o comportamento que mais

consideram contribuir para a proteção

ambiental.

“Num ano caracterizado pelos fortes

impactos da pandemia, os portugueses

continuaram comprometidos com a

causa da reciclagem e podemos por

PUB.

isso afirmar que a recolha seletiva

não abrandou com o confinamento.

Existem novos desafios a superar

após mais um confinamento e um

futuro incerto, porém, o compromisso

com a reciclagem e com a cidadania

ambiental deverá fazer sempre parte

do dia-a-dia de cada um.”, assinala

Ana Isabel Trigo Morais, CEO da

Sociedade Ponto Verde.

“Além do nosso papel na

sensibilização para a separação

das embalagens pelos cidadãos, a

SPV continua também a ter um

papel ativo juntos dos seus clientes,

procurando impulsionar novas e

melhores soluções de embalagens e de

reciclagem, acelerando a inovação e

o I&D, diminuindo assim o impacto

ambiental e consolidando o caminho

para a neutralidade carbónica”,

acrescenta a CEO da SPV.

088 NOMAR21 089

NOMAR21


ARTIGO TEMÁTICO | ESTUDO

NEGÓCIOS

Atual confinamento agrava em

mais 30% as quebras de faturação

já registadas em Portugal

Valor faturado pelos negócios volta a descer com o

novo confinamento, mas menos que no anterior

Três semanas após o período préconfinamento

geral, os negócios

portugueses obtiveram uma nova

redução da sua faturação, que se junta

ao impacto transacional já sentido nos

confinamentos parciais anteriores.

Neste novo lockdown, a moda, as

perfumarias e os cabeleireiros voltam

a ser das categorias mais afetadas pelo

encerramento dos seus pontos de

venda, tendo registado uma quebra de

92%, 86% e 79%, respetivamente.

O REDUNIQ Insights indica ainda

uma quebra de 55% na faturação

estrangeira e de 6% na faturação

proveniente de cartões nacionais.

No total, a faturação global do

sistema de retalho português desceu

16% face a 2019, resultado para o

qual contribuiu, significativamente,

a quebra homóloga de 36,1% no

segundo trimestre de 2020.

O novo confinamento geral volta

a impactar o comportamento

transacional dos negócios

portugueses, que no final de janeiro

registaram uma quebra de faturação

de 30% face à semana anterior ao

novo encerramento da economia (de 3

a 9 de janeiro), descida que representa

um agravamento das quebras

resultantes dos confinamentos parciais

ocorridos em 2020 e início de 2021.

Apesar deste cenário, o REDUNIQ

Insights – solução de conhecimento

da REDUNIQ responsável por

analisar a evolução transacional do

sistema de retalho em Portugal –

demonstra que o impacto na atividade

económica está a ser menor agora que

no primeiro confinamento, em que

as perdas ascenderam 44% ao fim de

três semanas do primeiro Estado de

Emergência.

Outra diferença observada

na comparação entre os dois

confinamentos gerais verificase

na performance conseguida

pelas várias categorias do sistema

retalhista, a começar pela saúde e

pelas gasolineiras que obtiveram

uma menor quebra de consumo três

semanas após o novo lockdown,

tendo estas reduzido em 7% e 27%

a sua faturação, respetivamente, em

comparação com o período das três

primeiras semanas do confinamento

iniciado em março, altura em que

diminuíram o total faturado em

81% e 51%, respetivamente. Estes

resultados justificam-se, em primeiro

lugar, pelo não encerramento de

algumas áreas do setor da saúde que

foram obrigadas a fechar no primeiro

confinamento, e, em segundo

lugar, pela maior mobilidade dos

portugueses neste novo confinamento,

menos restritivo que o anterior.

A restauração e os cafés

demonstraram também uma

resposta mais estruturada face ao

novo confinamento, nomeadamente

através de soluções de delivery e

take-away, que permitiram uma

quebra de faturação menos acentuada

(60%, dados de janeiro de 2021),

face ao primeiro confinamento

(83% de queda em março de 2020).

Devemos ainda considerar que a estes

60% de queda acumulam negócios

que fecharam já em 2020 sem ter

reaberto, representando então uma

redução ainda mais significativa.

Em contrapartida, as categorias de

moda (- 92%), perfumarias (- 86%)

e cabeleireiros (- 79%) voltaram a ter

quebras bastante elevadas, devido ao

total encerramento dos seus pontos de

venda físicos.

Já as categorias dos eletrodomésticos

090 NOMAR21


ARTIGO TEMÁTICO | ESTUDO

NEGÓCIOS

e tecnologias e do retalho alimentar

(hiper e supermercados) não

alcançaram neste novo confinamento

um pico de faturação como tinha

acontecido em março, quando as

famílias procuraram equipar os seus

lares para o trabalho e ensino remoto

e abastecer as suas dispensas. Desta

vez, a categoria eletrónica registou

uma quebra de 23% e o retalho

alimentar menos 6% três semanas

após o período de 3 a 9 de janeiro.

Sobre os resultados apresentados,

Tiago Oom, Diretor da REDUNIQ,

comenta:

Após uma primeira quinzena do

mês de janeiro, que refletiu um

comportamento de consumo

praticamente normalizado, e que

seguia uma linha de recuperação

já registada em dezembro de 2020,

o país voltou a deparar-se com

um novo confinamento geral que,

apesar do impacto negativo nos

negócios, teve as suas particularidades

quando comparado com o primeiro

confinamento. Desde logo a própria

composição deste lockdown, que

implicou o encerramento de menos

atividades e a manutenção da rotina

de trabalho de diversos portugueses.

Para além disso, o comportamento

dos consumidores também mudou,

agora mais conhecedores do cenário

de pandemia, no qual passaram a

utilizar soluções de pagamentos

mais diversificadas – desde os

formatos físicos até ao e-commerce

– chegando mesmo a alterar os seus

tradicionais hábitos de consumo

aquando do confinamento parcial

aos fins-de-semana, onde as sextasfeiras

se tornaram o dia da semana

com maiores níveis de consumo,

substituindo o fim de semana nas

tradicionais compras e idas ao

supermercado.

Quando efetuada uma análise

regional, verifica-se que todos

os distritos, sem exceção, caíram

menos agora do que há 10 meses.

Apesar disso, os distritos que tinham

maior atividade turística foram

novamente os mais afetados pelo

novo encerramento da atividade

económica: Lisboa, Faro e Porto são

os três exemplos mais prementes,

tendo registado quebras de faturação

de 32%, 31% e 30%, respetivamente.

Já os distritos do interior e/ou com

menor população sentiram menos

este impacto, nomeadamente os

Açores, Beja e Portalegre, que viram

a sua faturação cair 10%, 12% e 13%,

respetivamente.

Negócios portugueses fecham 2020

com uma quebra de 55% na faturação

estrangeira

Neste novo relatório do REDUNIQ

Insights foi ainda analisada a variação

homóloga da faturação obtida em

2020 que, no total, reduziu 16% em

comparação com o ano de 2019,

tendo existido um maior impacto

na faturação feita com cartões

estrangeiros, que desceu 55%,

092 NOMAR21 093

NOMAR21


REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | ESTUDO

NEGÓCIOS

mais sentiram o impacto da pandemia

nos seus negócios, com uma quebra

de 26% em Faro, 24% em Lisboa,

20% na Madeira, e 15% no Porto.

Já nas diferentes categorias, as mais

resilientes foram as farmácias e o

retalho alimentar tradicional, que

cresceram 56% e 41%, respetivamente.

Pelo contrário, a hotelaria e

atividades turísticas tiveram uma

descida abrupta da sua faturação em

65%, seguida da moda (33%), das

perfumarias (28%), e da restauração

(26%).

Tiago Oom recorda duas dinâmicas

que influenciaram em grande medida

o que foi o ano de 2020:

Por um lado, vimos a número de

transações estrangeiras a diminuir

vertiginosamente em Portugal

perante as restrições de deslocações

entre países e o receio de contágio,

o que levou a um forte impacto no

setor turístico e, na verdade, em

todas as atividades que estão direta

ou indiretamente relacionados com

estadias de estrangeiros, desde a

hotelaria, à moda, passando pela

restauração, etc. Consequentemente,

nas regiões do país que mais

dependem destas atividades as

quebras foram enormes. Por outro

lado, vimos diversos negócios

a reinventarem-se e a procurar

digitalizar a sua atividade para

responder às novas tendências de

consumo que dispararam com a

pandemia, facto que se justifica com

o aumento dos pontos de venda

contratados, bem como o crescimento

da utilização do contactless, cada vez

mais presente no nosso quotidiano,

sendo que definitivamente veio

mesmo para ficar e tornar-se a

principal forma de pagamento.

enquanto que a faturação originada

por cartões de pagamento nacionais

baixou 6%.

Para este resultado contribuíram

de forma significativa as quebras

registadas no segundo trimestre

de 2020 – marcado pelo primeiro

confinamento geral – tendo estas

atingido 36,1% face ao mesmo

trimestre do ano anterior. Já os dois

trimestres seguintes mantiveram

quebras expressivas, apesar de

menores que a anterior, com o

terceiro trimestre a encerrar com uma

variação homóloga de menos 14,5%, e

o quarto trimestre de menos 8,4%. Já

os primeiros três meses de 2020 foram

os que registaram quebras homólogas

mais baixas (- 5,1%), uma vez que o

impacto da pandemia só se começou a

sentir em março.

A nível regional, tal como está a

acontecer neste novo confinamento,

os distritos turísticos foram os que

094 NOMAR21 095

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | ESTUDO SAÚDE

Portadores de doença rara

devem ser considerados grupo

prioritário para vacinação

A doença rara (DR) é aquela que tem

uma incidência de 1 caso em cada

2000 pessoas. Estão identificadas cerca

de sete mil doenças, cerca de 80% tem

carater genético, existe capacidade de

confirmação diagnóstica laboratorial

precisa para cerca de 3.600 e

terapêutica específica para 10% das

entidades.

Existem 300 milhões de pessoas no

mundo com estas doenças, 36 milhões

de Europeus e estima-se que em

Portugal existam cerca de 800,000

pessoas portadoras destas patologias.

A carga epidemiológica destas

doenças constitui um problema

sério para a saúde pública. De

elevada complexidade e muitas

vezes incapacitantes são um desafio

assistencial e para as ciências

Biomédicas com necessidades ainda

não atingidas a vários níveis.

Atualmente o enquadramento desta

subpopulação de pacientes em

Portugal está protegida por uma

Estratégia Integrada para as Doenças

Raras em implementação através

de uma abordagem integrada dos

Ministérios da Saúde, Segurança

Social e Educação, que pretende

responder as necessidades sanitárias,

sociais e educativas destes doentes.

Do ponto de vista sanitário a

espinha dorsal assistencial assenta

no estabelecimento de uma Rede

de Referenciação (RR) eficaz e

da consolidação de Centros de

Referência (CR) que prestem

cuidados diferenciados, de elevada

especialização, dispensa de

medicamentos órfãos, capacidade

formativa específica de profissionais

de saúde, organização de registos e

Investigação médica, e integração

em redes de conhecimento europeias

(ERN – European Reference

Network).

Todo este processo está em curso

e estão já designados no País CR

para 8 áreas de DR pelo Ministério

da Saúde (MS). Ainda um número

restrito de intervenção, mas que

abrange já algumas centenas de

DR. Estes CR são necessariamente

Unidades Hospitalares Centrais

da Carta Hospitalar portuguesa

e são constituídos por equipes

pluridisciplinares certificadas pelo

MS, algumas delas também já

integradas em ERN.

A estratégia organizativa de uma

Rede de referenciação beneficia já de

Normas de referenciação estabelecidas

pela Direção Geral da Saude (DGS)

para vários CR que estão publicadas e

em divulgação nos serviços de saúde,

desde os cuidados primários.

Na outra face desta estratégia

estão os cuidados de proximidade,

a articulação adequada com

os cuidados primários, o

desenvolvimento da hospitalização e

terapêuticas domiciliárias, a prestação

de cuidados continuados apropriados

a estas patologias.

Os apoios ao cuidador, o

096 NOMAR21 NOMAR21 097

NOFEV21 097


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ARTIGO TEMÁTICO | ESTUDO SAÚDE

empoderamento do doente no

processo da decisão clínicoterapêutica

e a literacia sanitária

da população, a colaboração do

doente na investigação clínica

e farmacológica são áreas em

que as Associações de Doentes

desempenham um papel fundamental

sendo fulcral o seu empenho em todo

o processo assistencial.

Foram estabelecidos pela Comissão

Europeia e IRDIRC (Consórcio

Internacional de caracter mundial

para as DR) que até 2020 se

conseguissem testes de diagnóstico

para grande parte das DR conhecidas

– atualmente já possível para cerca de

3.600, e terapêutica específica para 200

DR – objetivos que foram atingidos.

Até 2027 pretende-se o diagnóstico no

espaço de 1 ano para a totalidade das

DR que estiverem descritas e

terapêuticas para 1000 DR.

Considerando-se a saúde como

um estado de pleno bem-estar para

além da ausência de doença, as

políticas de apoio social quer nos

suportes económicos, integração

socioprofissional e emprego, quer

no reconhecimento do estatuto de

cuidador informal são pedras basilares

na estratégia de apoio a doentes e

famílias. É também fundamental

atender a necessidades de integração

escolar e ensino especial assim

como de ocupação de tempos livres,

particularmente para as camadas mais

jovens.

Numa época de Pandemia em que

o acesso aos cuidados de saúde

atravessa dificuldades verificaram-se

atrasos nas consultas, procedimentos,

exames complementares e até

na dispensa de terapêuticas. Foi

necessário readaptar a orgânica

de Hospitais de dia e recurso á

telemedicina para repor eficácia na

prestação de cuidados. O NEDR/

SPMI publicou um Guia informativo

para Pessoas com Doença Rara e

seus Cuidadores – COVID 19, e

recomenda-se que os portadores

de doença rara com deficiência

significativa, sejam considerados

grupo prioritário para a vacinação em

curso.

Numa época de evolução das ciências

biomédicas, em que a Medicina de

precisão, personalizada, centrada no

doente em todas as suas vertentes

biopsicossociais, em que a relação

médico – doente, associada a uma

extraordinária evolução tecnológica

da intervenção biomédica, volta a

ser pedra angular no sucesso dos

cuidados de saúde, a posição da

medicina interna gestora do doente

e da utilização criteriosa dos meios

complementares e terapêuticos detém

enorme responsabilidade na prestação

dos cuidados de saúde, incluído na

área das DR.

Luís Brito Avô - Internista do

Hospital de Santa Maria e membro

da equipe do Centro de Referência de

Doenças Hereditárias Metabólicas;

Coordenador do Núcleo de Estudos

de Doenças Raras da Sociedade

Portuguesa de Medicina Interna.

098 NOMAR21 099

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

Análise Integrada de

Risco Ambiental de

Locais Contaminados

José Paulo Sousa

Álvaro Nunes de Sousa

José Paulo Sousa

Doutorado em Ecologia pela

Univ. de Coimbra (UC) e Univ.

Livre de Berlim. Professor

Associado do

Dep. de Ciências da Vida e

investigador do Centro de

Ecologia Funcional (UC).

Coordena o Laboratório de

Ecologia e Ecotoxicologia de

Solos do CFE-UC.

Experiência profissional:

Docente no Departamento de Ciências da

Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia

da Universidade de Coimbra e membro do

Concelho Executivo do Centro de Ecologia

Funcional da UC. Coordena o Laboratório

de Ecologia e Ecotoxicologia de Solos do

CEF-UC, onde desenvolve desde 2003

investigação aplicada (com financiamento

nacional, Europeu e da América Latina)

na área de avaliação de qualidade de solo

utilizando indicadores biológicos e nas áreas

de avaliação de risco prospetivo (vocacionada

para o registro de compostos fitossanitários

e sua colocação no mercado) e de avaliação

de risco retrospetivo em locais contaminados

(essencialmente vocacionado para ações

de recuperação de áreas degradadas). É

responsável pela prestação de serviços nestas

áreas a clientes como a THE NAVIGATOR

COMPANY, ALTRI FLORESTAL, SHELL

e UBA (German Federal Environmental

Agency). Desde 2007 é perito externo da

EFSA (European Food Safety Authority)

ligado ao desenvolvimento de opiniões

científicas e documentos guia utilizados

pelos diferentes Estados Membros da

União Europeia na avaliação de risco

de produtos fitossanitários (entre 2009

e 2015 foi membro do Painel Científico

PPR da EFSA). Em 2013 prestou

consultoria à PETROBRÁS (Brasil) na

avaliação de risco de áreas de exploração

de petróleo na região da Amazónia e

Álvaro Nunes de Sousa

Licenciado em Química

Industrial pela Universidade de

Coimbra. Auditor ISO 14000 e

Especialista em

Análise de Risco e Remediação

de Áreas Contaminadas (Univ.

Tecn. da Dinamarca).

ÁREA TEMÁTICA | AMBIENTE

é consultor da CETESB (Companhia

Ambiental do Estado de São Paulo,

Brasil) e FEAM (Fundação Estadual

do Meio Ambiente, Minas Gerais,

Brasil), para o desenvolvimento de

esquemas de avaliação de risco em locais

contaminados. Desde 2014 é presidente

do Painel Temático para Fitossanidade e

OGMs da ASAE (Portugal).

Experiência profissional:

Ligado desde 1990 ao sector do Meio

Ambiente, Álvaro Nunes de Sousa

resume a sua abordagem profissional

como uma integração e coordenação

de disciplinas tão díspares como a

química analítica e reacional, a acústica,

a microbiologia, a biologia molecular,

desenho de programas de amostragem, a

modelação hidrodinâmica de transporte

e reação de contaminantes. Tem uma

grande experiência em estudos de

locais contaminados, em programas de

gestão integrada de recursos hídricos,

em programas e redes de monitorização

ambiental, na análise de risco ambiental

e humana, bem como na conceção de

processos de tratamento de água, de

tratamento de efluentes líquidos e gasosos

e de processos de remediação ambiental.

A sua atividade empresarial iniciou-se

em 1994, destacando-se a sua experiência

internacional e a participação em diversos

projetos de I&D.

0100 NOMAR21 0101

NOMAR21


ÁREA TEMÁTICA | AMBIENTE

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| AMBIENTE

revelado como uma boa aposta em

termos económicos, permitindo

identificar áreas específicas de actuação,

optimizando o investimento em termos

de remediação, com a consequente

diminuição de custos.

Neste contexto, é justo reconhecer

a progressiva consciencialização

dos legisladores para a necessidade

de adaptar as normas ambientais

às condições regionais ou locais

dos cenários de avaliação de risco e

que podem conduzir à optimização

da compatibilidade dos interesses

da actividade humana com a da

salvaguarda da saúde humana, dos

receptores ecológicos e dos recursos

naturais.

- Os ecossistemas não são mais

complexos do que o que pensamos, são

mais complexos

do que o que conseguimos pensar.

(Egler, 1977)

A análise integrada de risco ecológico,

combinando linhas de evidência de

natureza química, ecotoxicológica e

ecológica, com análise de mecanismos

de transporte, reacção, exposição e

efeitos nos diversos receptores é hoje

a abordagem mais promissora, em

A pressão exercida pela actividade

humana sobre meio ambiente reflectese,

actualmente, na existência de 2,8M

de locais contaminados só na Europa

— locais afectados por alterações que

restringem a sua ocupação, para fins

urbanísticos, de lazer, actividades

industriais, agrícolas ou pecuárias,

ou simplesmente como áreas de

preservação ecológica. Deste número,

14% (390 000) requerem acções de

remediação. No entanto, em 2018

apenas 65 000 tinham sido sujeitos a

acções de remediação. A eliminação

total de poluentes do solo não é técnica

ou economicamente viável. Neste

contexto, as actuais estratégias de

gestão de solos contaminados baseiamse

no princípio da adequação ao uso,

onde os níveis de risco aceitáveis são

definidos de acordo com o tipo de uso

pretendido para a área, sendo menos

restritivo no caso de áreas industriais e

mais restritivo para áreas de protecção.

Esta realidade fez com que diversos

países tenham adoptado estratégias

nacionais de avaliação de risco de

locais contaminados (“site specific

risk assessment”), contemplando não

apenas receptores ecológicos (Avaliação

de Risco Ecológico - ARE), mas também

os potenciais receptores humanos.

Estas estratégias têm vindo a ganhar

um papel fundamental na elaboração

da legislação ambiental na análise

retrospectiva de áreas contaminadas e

na definição das acções de remediação

necessárias.

Neste último aspecto, a realização

de uma avaliação de risco tem-se

0102 NOMAR21 0103

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| AMBIENTE

termos de risco retrospectivo, e a que

melhor se adequa à caracterização de

riscos específicos de locais concretos e

de cenários específicos de contaminação

e de exposição, por oposição a

regulamentações generalistas de

objectivos de qualidade ambientais.

A Avaliação Retrospectiva de Risco

Ecológico é, assim, o processo que

visa determinar a probabilidade

de ocorrerem efeitos adversos no

ambiente como resultado da exposição

a agentes perturbadores resultantes

de contaminação histórica. A ARE é

um instrumento fundamental dos

processos de decisão sobre a gestão de

locais poluídos, permitindo avaliação

mais precisa dos riscos reais para os

receptores ecológicos potencialmente

afectados pelos contaminantes. A par

com a linha de evidência química,

que contempla a avaliação das

concentrações de contaminantes nos

diversos compartimentos ambientais

e seus mecanismos de transporte, a

realização de ensaios ecotoxicológicos

com organismos representativos dos

receptores ecológicos potencialmente

em risco (linha de evidência

ecotoxicológica) e o estudo funcional

das comunidades locais (linha de

evidência ecológica) permitem

o estabelecimento de relações de

causa-efeito com as concentrações

de contaminantes observadas. A

conjugação da informação destas

três linhas de evidência (a TRÍADE)

encontra-se já regulamentada pela ISO

como uma abordagem a aplicar na ARE

de locais contaminados.

Funcionando por etapas, e utilizando

um sistema de suporte à decisão que

optimiza a necessidade de obtenção de

informação com o objectivo de diminuir

incertezas relativas ao risco real, com

a consequente optimização de custos,

a ARE permite aos avaliadores de risco

e promotores tomarem decisões mais

assertivas sobre as acções a desenvolver

dependendo dos objectivos de protecção

estabelecidos para o local em estudo e

dependentes do tipo de uso pretendido.

Toda esta estratégia, além de garantir

uma avaliação precisa e realista do

risco colocado pela carga poluente de

um determinado local, vai fornecer

indicações fundamentais para a

necessidade de medidas específicas de

remediação, permitindo optimizar o

investimento em termos de remediação

com a consequente diminuição de

custos.

De forma similar, a Análise Específica do

Local de Risco a Receptores Humanos

tem vindo a ganhar uma importância

crescente na definição das estratégias

de recuperação de locais contaminados,

destacando-se a normalização da

abordagem estabelecida pela ASTM

(American Society for Testing

Materials) na sua Norma E2081:

Standard Guide for RBCA (Risk-Based

Corrective Action) (Acção Correctiva

Fundamentada no Risco).

Esta abordagem foca-se na proteção

da saúde humana em cenários

0104 NOMAR21 0105

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

| AMBIENTE

de exposição específicos do local,

permitindo a análise prospectiva e

comparativa de diferentes soluções para

a intervenção correctiva, permitindo

a selecção de processos optimizados

quanto a benefícios e custos.

A modelação de fenómenos de

transporte, reacção, exposição e efeitos

tóxicos e carcinogénicos é feita com

base nas características locais (clima,

hidrogeologia, distribuição espaçotemporal

dos contaminantes nos solos,

águas subterrâneas e superficiais, ar e

biota, actividade e características dos

receptores humanos), reflectidas num

Modelo Conceptual.

A caracterização da distribuição dos

contaminates é hoje facilitada pela

disponibilidade de técnicas analíticas

de mapeamento in situ, com tempos de

resposta e custos muito inferiores

aos que decorreriam da utilização

exclusiva de análises químicas

laboratoriais. Nestas áreas, destaca-se

a crescente utilização de técnicas como

a análise elementar por Fluorescência

de Raios-X (XRF), a detecção de

compostos orgânicos voláteis (COV)

por por Ionização por Chama (FID) ou

por FotoIonização (PID), a utilização

de testes bioquímicos imunológicos

capazes de detectarem e quantificarem

em minutos e em campo contaminantes

como hidrocarbonetos, pesticidas,

explosivos, solventes, entre outros. A

capacidade de investigação da presença

e do comportamento de contaminantes

em fase líquida nãoaquoasa (NAPL)

nos solos e nos aquíferos é hoje

facilitada pela disponibilidade de sondas

intrusivas capazes de traçarem perfis

de variação com a profundidade por

recurso a técnicas como a cromatografia

gasosa (GC) ou a Fluorescêcia do

Ultra-Violeta. (UVF). A investigação do

regime das águas superficiais é também

facilitada pela disponibilidade de sondas

submersíveis, instaláveis em furos

de observação de pequeno diâmetro,

capazes de registarem e transmitirem,

continuamente, parâmetros essenciais

para a modelação do comportamento

dos aquíferos, como a temperatura, o

nível freático, o pH e a condutividade

eléctrica. A avaliação da transferência de

contaminantes entre fases é facilitada

pelo uso de lisímetros de baixo custo,

simulação em mesocosmos, ou a

instalação de câmaras respirométricas.

A disponibilidade do crescente número

de técnicas de ensaio e dos métodos de

tratamento, em contínuo refinamento,

permite uma constante redução dos

factores de incerteza na Análise de

Risco de Locais Contaminados, para

receptores ecológicos e humanos,

justificando a abordagem específica

como uma alternativa preferencial

às abordagens por regulamentação

generalista, permitindo uma

gestão mais económica das opções

de remediação e permitindo o

estabelecimento de ambientes

adequados à ocupação de cada local.

0106 NOMAR21 0107

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|CIÊNCIA

O Excitante futuro da

exploração espacial

Rui Barbosa

para explorar a superfície do nosso

satélite natural em colaboração com

parceiros comerciais e internacionais.

Estabelecendo uma exploração

sustentável até ao final da década,

pretende-se assim abrir as portas

para o próximo passo que será a

exploração tripulada de Marte.

A estação Gateway é uma parte vital

dos planos da NASA de exploração do

espaço profundo juntamente com o

foguetão Space Launch System (SLS),

com o veículo espacial tripulado

Orion, e o sistema de alunagem que

irá enviar os astronautas para a Lua.

Ao adquirir novas experiências na Lua

e ao redor dela irá preparar a agência

espacial Norte-americana e outras

agências para enviar os primeiros

humanos a Marte nos próximos anos.

A Gateway terá um papel vital neste

processo. A estação em órbita lunar

Nascido em Maio de 1971 e licenciado

em Física Aplicada, desde cedo Rui

Barbosa se interessou pela temática

espacial. A 3 de Maio de 2001 inicia

o Boletim Em Órbita, dedicado à

Astronáutica e Conquista do Espaço, o

qual comemora o seu 20º aniversário.

Actualmente, Rui Barbosa partilha a

sua paixão pela Conquista do Espaço

com as actividades de montanha.

Nos últimos anos, a exploração

espacial saiu da esfera puramente

governamental, abrindo as portas à

comercialização do espaço ao mesmo

tempo que as grandes agências

espaciais avançam, ou pelo menos

tentam avançar, para os ambiciosos

objectivos de chegar a Marte e

estabelecer bases lunares nas próximas

décadas.

Depois de explorada a órbita terrestre

e com o fim da utilização da estação

espacial internacional já ao virar

da esquina, é tempo de iniciar de

forma concisa a exploração humana

do Sistema Solar. Não veremos nos

próximos anos missões tripuladas

aos planetas exteriores, mas os planos

para a permanência da Lua estão aí

com o Programa Artemis e a Gateway,

numa colaboração internacional

semelhante à que levou à criação da

ISS.

Com as missões Artemis, a NASA

pretende levar a primeira mulher e

o próximo homem para a superfície

lunar em 2024. O programa pretende

utilizar tecnologias inovadoras

Rui Barbosa

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NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|CIÊNCIA

será um destino para astronautas e

investigações científicas, bem como

um porto para a exploração do

espaço profundo tais como veículos

tendo por destino a superfície lunar

ou veículos em viagem para outros

destinos para lá da Lua.

Por seu lado, a Rússia continua

«presa» na órbita terrestre e são

incertos os seus planos de futuro

que orbitam entre a exploração

tripulada da Lua e a construção

de uma nova estação espacial. No

entanto, e com sérios problemas

de financiamento da exploração

espacial, não se espera que venha

a avançar de forma independente,

podendo haver uma associação aos

programas de exploração espacial

internacionais. Entretanto, prossegue

nos estudos para o desenvolvimento

de uma cápsula espacial parcialmente

reutilizável, a Orel, e de novos vectores

de lançamento, tais como o foguetão

Soyuz-5, preparando-se para lançar

novos módulos para a ISS.

A Índia também prepara um

programa espacial tripulado, o

Gaganyaan, que pretende desenvolver

uma cápsula espacial com capacidade

de dois ou três tripulantes e que possa

permanecer em órbita durante sete

dias.

Ao mesmo tempo que os Estados

Unidos e os seus parceiros dão os

passos em direcção à Lua, a China

inicia a construção da sua estação

orbital modular, a Tiangong, tendo

também já iniciado os estudos para

viagens tripuladas à Lua. Com os

preparativos a decorrer em Wenchang,

o primeiro módulo da estação espacial

chinesa Tiangong, o Tianhe-1, será

colocado em órbita em Março ou

Abril de 2021, pelo segundo foguetão

Chang Zheng-5B. Com uma massa

de cerca de 20.000 kg, o módulo

irá ser colocado numa órbita com

uma altitude média de 393 km e irá

servir de núcleo da estação espacial

Tiangong. Os módulos Wentian e

Mengtian serão módulos científicos

com uma massa de cerca de 20.000

kg e que serão utilizados para levar

a cabo experiências nas áreas das

ciências da vida, biotecnologia,

física, ciências dos materiais,

microgravidade, etc. Um outro

módulo experimental, o Xuntian,

será um telescópio espacial com um

espelho de dois metros de diâmetro.

Após o lançamento do módulo

Tianhe-1, a China irá lançar o veículo

de carga Tianzhou-2 em Abril e que

irá acoplar com o Tianhe-1 de forma

automática.

A cápsula espacial tripulada

Shenzhou-12 será então lançada pelo

foguetão Chang Zheng-2F/G a partir

do Centro de Lançamento de Satélites

de Jiuquan para uma missão de vários

meses em órbita a bordo da nova

estação espacial. O lançamento da

Shenzhou-12 está previsto para Junho

e deverá transportar três tripulantes.

Por outro lado, várias missões se

perfilam no horizonte cósmico para

captar a nossa atenção, tal como é o

lançamento do telescópio espacial

James Webb que irá procurar pelas

primeiras galáxias que se formaram

após o Big Bang, ou a missão JUICE

(Jupiter Icy Moons Explorer) da ESA,

que irá obter mais informações sobre

Júpiter e sobre as suas grandes luas.

Ainda as novas missões de chegar a

Marte: a Tianwen-1 (China), a Mars

2020 Preseverance (EUA) e a Al-

Amal (Emiratos Árabes Unidos), irão

certamente abrir novos capítulos de

exploração do planeta vermelho.

Finalmente, a nova corrida espacial

protagonizada pelas empresas

privadas, tais como a Blue Origin,

a Virgin Galactic e a SpaceX, numa

tentativa de abrir o acesso ao espaço

aos cidadãos «comuns».

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|SAÚDE

Paralelamente à implementação do programa de vacinação para o vírus

SARS-CoV-2, investigadores das Ciências Psicológicas têm desenvolvido

pesquisas acerca da possibilidade de conferir imunidade à população contra

a desinformação e notícias falsas. Obtenha neste artigo a sua “vacina para a

desinformação”.

Uma vacina contra

a desinformação

Nuno de Sá Teixeira

Nuno Alexandre de Sá Teixeira formouse

em Psicologia pela Faculdade de

Psicologia e de Ciências da Educação da

Universidade de Coimbra, e doutorou-se

em Psicologia Experimental pela mesma

instituição. Trabalhou como investigador

doutorado no Departamento de

Psicologia Experimental Geral da

Universidade Johannes-Gutenberg,

Mainz, Alemanha, no Instituto de

Psicologia Cognitiva da Universidade de

Coimbra e no Centro de Biomedicina

Espacial da Universidade de Roma ‘Tor

Vergata’, Itália. É actualmente Professor

Auxiliar Convidado no Departamento de

Educação e Psicologia da Universidade

de Aveiro. Os seus trabalhos científicos

têm-se centrado no estudo da forma

como variáveis físicas (em particular,

a gravidade) são instanciadas pelo

cérebro, como “modelos internos”,

para suportar funções perceptivas e

motoras na interacção com o mundo.

Assim, os seus interesses partem da

charneira entre áreas temáticas como

a Psicologia da Percepção, Psicofísica e

Neurociências.

Nuno de Sá Teixeira

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|SAÚDE

Não obstante esforços em contrário,

implementados a diferentes níveis na

população, continua a propagar-se e,

diariamente, assistimos a novos focos

um pouco por todo o lado. Poderíamos

estar a falar do vírus SARS-CoV-2,

cujo súbito aparecimento há pouco

menos de um ano resultou na actual

pandemia. Contudo, a frase de abertura

do presente texto aplica-se igualmente

à desinformação e notícias falsas, que

encontraram na dinâmica subjacente às

modernas redes sociais uma “ecologia”

adequada à sua emergência, propagação

e efeitos adversos. Surpreendentemente,

a analogia entre o SARS-CoV-2 e a

desinformação nas redes sociais pode ir

mais além do que o mero paralelismo

superficial ensaiado nestas linhas:

num momento em que vacinas para o

vírus SARS-CoV-2 foram recentemente

desenvolvidas e implementados

programas de vacinação, investigadores

das Ciências Psicológicas têm estudado

formas de implementar estratégias

similares no combate à desinformação.

A ideia de fomentar resistência

psicológica, a nível individual, a

informações falsas, não é recente,

antes remontando à década de 1960.

Na altura, psicólogos sociais envolvidos

no Programa de Atitude e Persuasão

da Universidade de Yale conduziram

alguns estudos na tentativa de

responder aos receios de “lavagens

cerebrais” (brainwash) e persuasão

a soldados americanos capturado no

Extremo Oriente. É neste contexto que

William McGuire vem a desenvolver

a chamada Teoria da Inoculação

(1970), a qual tem ressurgido como

alvo de vários estudos recentes como

potencial estratégia no combate às

modernas versões de desinformação.

Uma “vacina para a desinformação”

mostra-se particularmente promissora

pois soluções alternativas têm-se

mostrado ineficazes (como por exemplo,

iniciativas de correcção de notícias

falsas que, por necessariamente se

focarem em peças de informação

particulares, mostram-se mais

demoradas e com menos alcance que

a própria desinformação) ou mesmo

resultado em efeitos adversos (como

a implementação de algoritmos

informáticos que filtrem notícias falsas

ou iniciativas legislativas e reguladoras).

A noção de inoculação psicológica segue

de perto a ideia de base do análogo

biomédico: Se uma pessoa for exposta a

pequenas amostras de informação falsa,

relativamente “enfraquecidas”, isso

espoletará processos de raciocínio que,

quais “anticorpos mentais”, poderão

vir a ser reactivados aquando da futura

exposição a desinformação, resultando

num equivalente de “imunização

psicológica”. Na sua versão clássica,

uma “vacinação psicológica” envolve

geralmente dois componentes de

base, um afectivo e outro cognitivo:

(i) a pessoa é avisada de que vai ser

exposta a uma peça de informação

enviesada e falsa, similar àquelas que

poderá encontrar no seu dia-a-dia – o

propósito é aqui espoletar uma resposta

emocional a uma possível “ameaça” e

consequente activação de processos de

raciocínio de resistência (componente

afectivo); (ii) a informação é

apresentada, podendo ser acompanhada

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|SAÚDE

de contra-argumentos e respostas

possíveis (componente cognitiva). Uma

meta-análise de 54 estudos clássicos

acerca da “inoculação psicológica”

revelou que esta se mostra mais eficaz

na resistência a desinformação do que

o mero fornecimento de informação

fidedigna e que o efeito de “imunização”

se mantém por pelo menos duas

semanas.

Obviamente, e tal como acontece com

o seu análogo imunológico, o sucesso

da inoculação psicológica depende

criticamente de uma compreensão

clara não só dos mecanismos e

processos subjacentes às principais

formas de desinformação para as

quais se deseja uma imunização, mas

também os fenómenos psicológicos

associados à respectiva vulnerabilidade.

Curiosamente, alguns estudos recentes

(e.g., Pennycook e colaboradores, 2020)

evidenciaram que, de uma forma geral

e pese embora diferenças individuais,

a capacidade de discernir notícias e

informações falsas não é comensurável

como a intenção de partilhar as

mesmas nas redes sociais. Com efeito,

quando foi pedido a participantes de

um estudo que indicassem o grau em

que acreditavam ou o grau em que

partilhariam nas redes sociais conteúdos

desinformativos, as respostas divergiam

entre si. Dito de outra forma, o que

motiva uma qualquer pessoa a partilhar

desinformação não é necessariamente

o grau em que a mesma acredita na

veracidade da mesma, mas antes o grau

em que concorda com parte do conteúdo

ou o grau em que esse é consonante

com a afiliação sociocultural, o que

facilmente é compreensível se se notar

que tendemos a ser positivamente

reforçados (e a reforçarmos nós

mesmos, com likes e interacções sociais,

sob a forma de comentários) pela

partilha de conteúdo congruente com o

grupo social ao qual nos identificamos, e

não necessariamente pela veracidade e

precisão do mesmo. Simultaneamente,

quando indagadas a esse respeito,

a maioria das pessoas indica que é

relevante para elas partilhar somente

informação credível e precisa nas

redes sociais. Acresce que, no mesmo

estudo, quando era pedido às pessoas

que indicassem o grau em que uma

única notícia lhes parecia verosímil

ou credível, relatos posteriores de

intenções de partilha nas redes sociais

para peças de desinformação, mesmo

com conteúdo distinto, tendiam

a correlacionar-se com juízos de

credibilidade. Aparentemente, o mero

facto de lhes ter sido previamente

pedido que indicassem “até que ponto

acreditavam” numa qualquer notícia

foi suficiente para tornar saliente

essa dimensão e, consequentemente,

espoletar os mesmos processos

cognitivos associados ao discernimento

de notícias falsas. Este resultado

encapsula as condições mínimas

para uma “inoculação psicológica”

– apresentação de uma amostra de

desinformação acompanhada de um

aviso de que a mesma pode não ser

fidedigna, implicitamente presente na

questão colocada ao participante.

Na mesma linha, outros autores têm

procurado implementar a lógica da

Teoria da Inoculação em pequenos jogos

interactivos, os quais se apresentam

como “vacinas de largo espectro” (ainda

sem versões em Português) para a

desinformação nas redes sociais: Bad

News (focado em Notícias Falsas, de

uma forma geral), Harmony Square

(com um contexto declaradamente

político) e Go Viral (com um foco

na actual pandemia e respectiva

desinformação). Todos estes partilham

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|SAÚDE

da mesma mecânica de jogo: o jogador

é convidado a personificar um agente

de desinformação com o objectivo de

semear discórdia, confusão e cisões na

“população”, implementando estratégias

similares àquelas usadas para a

propagação de notícias e informação

falsa nas redes sociais. O desempenho

do jogador é traduzido em likes virtuais

(similares a uma pontuação) e na

conquista de insígnias (badges) quando

domina uma de várias estratégias

comuns.

O primeiro destes, Bad News,

desenvolvido em colaboração

com Sander van der Linden e Jon

Roozenbeek, investigadores na

Universidade de Cambridge do

Reino Unido e líderes na pesquisa

contemporânea sobre a Teoria da

Inoculação, mostrou-se eficaz na

melhoria da capacidade de discernir e

resistir a desinformação, num estudo de

larga escala com 15000 participantes.

Ainda que o componente activo, tal

como implementado no jogo, seja

um aspecto relevante na “inoculação

psicológica”, é o seu aspecto informativo,

instanciado no jogo sob a forma de

insígnias, que fornece imunidade a

notícias falsas e conteúdo enviesado.

O leitor poderá, pois, e ainda que sem

o aspecto lúdico, beneficiar de imediato

da sua “vacina para a desinformação”

ao apreender as seguintes estratégias

comummente usadas em notícias falsas.

Note que, ainda que cada uma possa

parecer inócua em isolamento, uma

campanha de desinformação bemsucedida

tende a usá-las em conjunto.

Consegue identificar uma ou mais

destas estratégias de desinformação no

feed de notícias das suas redes sociais?

Falsificação da fonte: Actualmente,

na internet e redes sociais, é

particularmente fácil e barato adoptar

um perfil ou criar uma página “de

notícias” que simule superficialmente

um perito ou uma instituição

profissional e legítima, ao mimetizar a

sua aparência, pela adopção de logótipos

e/ou nomes aparentados. As pessoas,

ao partilharem informação online,

raramente prestam a devida atenção à

fonte, bastando a alguém que apenas

mimetize superficialmente alguém

legítimo ou de confiança para que possa

disseminar e propagar desinformação.

Emoção: Emoções como o medo,

raiva e empatia são intrinsecamente

motivantes e compelam as pessoas a

agir – seja partilhando material que

activou esses estados emocionais, seja

a reagir (sob a forma de comentários)

a esse material. Obviamente, nem todo

o conteúdo emocional das redes sociais

é necessariamente falso. Contudo,

e sabendo que as pessoas tendem

a suprimir uma reflexão analítica

quando emocionalmente activadas,

é relativamente fácil incutir medo,

raiva ou empatia na desinformação

– consequentemente, as pessoas irão

reflectir menos sob a veracidade da

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

ÁREA TEMÁTICA REPORTAGEM

|SAÚDE

informação e agir com base na forma

como essa as faz sentir, especialmente

se as emoções implicarem alguma

urgência.

Polarização e falsa amplificação:

Agentes de desinformação, seja

impelidos por uma qualquer agenda

específica, ou tão-somente para

com o objectivo em si mesmo de

disseminar informações falsas,

nem sempre precisam sequer de

criar conteúdo original. A sociedade

contemporânea e as redes sociais

são ricas em clivagens entre grupos

sociais e perspectivas sobre inúmeros

assuntos. Frequentemente, estas

cisões e oposições são relativamente

subtis e manejáveis no dia-a-dia.

Contudo, é também relativamente

fácil explorar essas para polarizar

opiniões ao extremo e manufacturar

conflitos. Uma boa metáfora é o caso

de uma tábua de madeira que, quando

sujeita a pressão, quebra no seu ponto

mais fraco. É comum que o conteúdo

de desinformação explore essas

linhas de ruptura amplificando-as e,

frequentemente, forjando opiniões e

notícias que suportem ambos os lados.

Uma estratégia típica consiste no uso

de bots – programas informáticos

autónomos que “partilham” informação

nas redes sociais simulando utilizadores

legítimos. Um pequeno exército de bots

pode ser suficiente para que um assunto

ganhe tracção nas redes sociais e pareça

bem mais relevante e prevalente do que

realmente é.

Conspiração: Teorias da conspiração

são sedutoras – fornecem uma

perspectiva sob o mundo que dota

os seus seguidores de uma sensação

de compreensão e domínio sob o

mesmo. A ideia de que sabemos ou nos

apercebemos de algo que a maioria das

pessoas ignora pode ser inebriante e

fazer alguém sentir-se superior e/ou

mais capaz. A internet e as redes sociais

fornecem uma base de interacções e

partilha de informação que facilmente

alimenta teorias conspiratórias. Quando

orquestradas de forma a se oporem ou

lançarem dúvidas sobre uma “narrativa

oficial” podem ser propositadamente

usadas como veículo de desinformação.

Descredibilização: Inevitavelmente,

qualquer peça de desinformação que

ganhe destaque e relevo na sociedade

e redes sociais virá a ser alvo de

refutação, seja por esforços colectivos de

verificação de factos, seja por cidadãos

individuais. Quando tal ocorre, a

estratégia típica consiste na tentativa

de descredibilizar ou questionar a

legitimidade desses. Note-se que,

para manutenção e amplificação de

desinformação, não é necessário (e até

é contraprodutivo) responder às vozes

críticas ou aos respectivos argumentos

– basta deflectir a atenção para a

credibilidade dessas, modificando assim

o foco e preservando a desinformação

que se pretende disseminar. A

descredibilização não precisa sequer de

ser fidedigna – a lógica consiste antes

em fomentar uma ideia de “onde há

fumo, há fogo”.

Trolling: Este termo anglófono

descreve a técnica apelidada em

Português de “Pesca Corrico”, em que

uma amostra de isco é arrastada por

um barco em movimento lento para

atrair peixes. Veio a ser adaptado e

amplamente utilizado na internet e

redes sociais para designar comentários

que deliberadamente provocatórios

ou controversos, com o intuito de

espoletar respostas emocionais e

ludibriar as pessoas a encetarem uma

discussão. Frequente em virtualmente

qualquer rede social, o trolling pode ser

facilmente explorado por campanhas

de desinformação para minar a

credibilidade de vozes opostas, mudar

o foco da discussão como distracção ou

para atrair seguidores e comentários

para um dado tópico que pretende

amplificar.

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CRÓNICA

Enfermeira, Vânia Gonçalves

Vogal do Conselho de Enfermagem

Regional

Enfermeira Especialista em

Enfermagem de Reabilitação

Mestre em Ciências de Enfermagem

Foi das primeiras palavras que

ouvi quando entrei para a Escola

Superior de Enfermagem de Angra

do Heroísmo: CUIDAR! Duas sílabas

apenas… mas uma infinidade de

manifestações!

Todos nos revimos outrora na

definição de cuidar proposta por

Collière, em que se torna importante

realçar que existem dois sujeitos: o

cuidador e quem é cuidado, e apenas

um verbo, uma ação completa e

dignificante para com o outro!

Numa perspetiva holística o ato de

um “olhar”

sobre o cuidar

cuidar implica colocar-se no lugar

do outro, geralmente em situações

distintas, quer na dimensão pessoal,

quer na social.

Entendido como modo de ser, ou

um modo de agir, o cuidado impõese

face ao confronto da fragilidade

e vulnerabilidade do ser humano,

que necessita de ser acompanhado

e auxiliado de forma a cumprir

a sua condição de pessoa única e

incomparável, numa crescente relação

de reciprocidade e aprendizagem.

O cuidado que se recebe do outro

reflete pensamentos e emoções

simples e torna os humanos capazes

de se interessarem ativamente uns

pelos outros, porque o cuidar tem,

implícita, uma maneira de estar e

de se relacionar que compreende a

ajuda do outro, mas no sentido do

seu crescimento. Desta forma, prestar

cuidados, em qualquer das dimensões

holísticas dos utentes, revela-se uma

virtude que integra os valores que

definem a profissão de Enfermagem.

Posto isto, quando o ano de 2020

começou… cheio de sonhos, projetos,

promessas e ideais, ninguém se

encontrava preparado para o maior

e mais desafiante acontecimento que

marcaria o Ano Internacional do

Enfermeiro, de uma forma tão íntima

e pessoal que nunca nenhum ser

humano se esquecerá, muito menos

aqueles a que se dão o nome de

ENFERMEIROS.

Estou a falar do vírus SARS COV-2,

conhecido mundialmente por Covid

19, e é assim que o passarei a chamar.

Sim, tenho essa confiança para o

fazer, não que tenha tido alguma vez

que cuidar de alguém infetado, mas

sim por toda a panóplia de alterações

que fez na minha vida, pessoal e

profissional e dos meus colegas de

trabalho.

Desde o início da minha vida

profissional sempre tive presente

o dever de CUIDAR do próximo

com toda a complexidade e

individualidade que a profissão me

exige, mas nunca até então senti

uma opressão, nas atividades a

desempenhar, como agora.

Numa fase inicial todos nos sentimos

receosos pois conhecemos as

fragilidades do Serviço Regional de

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NOMAR21


CRÓNICA

CRÓNICA

Saúde, o deficit de recursos humanos

e materiais, a situação arquipelágica

que nos rodeia e o desconhecimento

do comportamento deste vírus. Muito

se leu, muito se procurou informação

e muito se perguntou… mas tudo isto

já com a máscara posta… tapamos o

rosto!

Tapamos o rosto…talvez para

esconder o medo que nos fazia

definhar o sorriso, para abafar os

suspiros dados de desalento. Parámos

de tossir e de espirrar. Houve dias

e dias que não se ouvia ninguém

tossir nos serviços. Passámos a

estar distantes uns dos outros com

medo do desconhecido. Falávamos

o essencial… com essa voz rouca

de quem está a falar atrás de uma

máscara.

Só os olhos sobressaem! Olhos que

procuravam ávidos uma resposta

para as intermináveis perguntas que

fazíamos a nós mesmos… e que nos

faziam e para as quais não tínhamos

respostas imediatas.

E os utentes? Assustados com

o aparato que se desencadeou

nos serviços de internamento, as

atividades suspensas, as visitas dos

familiares que deixaram de surgir,

os exames de protocolo… e estavam

sós nos quartos. Sentia-se o frio nas

enfermarias e o medo andava a pairar.

Deixaram de nos ver o rosto

sorridente no início do turno. As

vozes estavam adormecidas por baixo

do tecido de TNT das máscaras. E

os olhos sorriam, o que podiam,

e transmitiam a calma que, por

réstias de segundos, conseguíamos

transparecer. Nunca ficou um olhar

por dar, num longo e contínuo

desabafo da alma.

Passámos a olhar dentro dos olhos do

outro, a acompanhar a sua alegria com

um olhar mais rasgado, ou sofrimento

perante um diagnóstico com o olhar

mais compreensivo e muitas vezes

com o toque. Nunca deixamos de

sentir! Passámos a olhar mais e a

apaziguar a dor alheia de olhos bem

abertos e a consentir a alegria com

um piscar de olho.

As máscaras foram a resposta

adequada à situação que o vírus nos

obrigou, e obriga, a viver.

Fomos rapidamente reorganizados,

de forma interna, da melhor forma…

à espera do pior. Refizeram-se

os horários, redistribuíram-se as

atividades e repensou-se, em equipa, a

melhor estratégia para os outros, sim

os utentes “não Covid”.

Além das alterações estruturais e

dinâmicas nos serviços, acima de

tudo, pelo que observo e ouço de

comentários de colegas, existiram

alterações pessoais e nas géneses

individuais que demorarão tempo

a desaparecer. Houve mães e pais

que deixaram de ver os seus filhos,

netos que ficaram por beijar, velas

de aniversário que serão sopradas

com tios, primos e avós numa outra

oportunidade e jantares de Natal

suspensos na névoa da situação

vivida. Reviu-se e reviveu-se, num

curto espaço de tempo, emoções

muito intensas.

Hoje, passado sensivelmente um

ano sobre a avalanche de situações

vivenciadas consegue-se perceber

que apesar de todas as restrições

que foram impostas, de toda a

aprendizagem que teve de ser feita,

de todos os desesperos sentidos

por não conseguir saber mais, fazer

mais, assume-se que o Cuidar, por

todo e qualquer enfermeiro, foi

assegurado na sua mais forma mais

pura. Conseguiu-se chegar mais além

das “rotinas” diárias, conseguiu-se

compreender melhor as vivências dos

utentes, analisar as preocupações dos

familiares, quebrar algumas barreiras

físicas com o uso das tecnologias, para

que o longe se tornasse mais perto,

e conseguiu-se harmonizar toda

uma forma de cuidar com a equipa

interdisciplinar.

O telefone toca, a pergunta impera:

“Quantas vagas temos?” “O utente

que está na Unidade de Cuidados

0124 NOMAR21 0125

NOMAR21


CRÓNICA

PUB.

REPORTAGEM

Intensivos já pode vir para o

serviço?”, “Na hemodiálise está um

senhor para vir para internamento

para continuidade de cuidados”…

e lidamos e gerimos necessidades

que não são nossas, são do outro!…

Mas ao entrar no nosso serviço, a

melhoria do seu estado de saúde

passa a ser o nosso maior objetivo.

Cuidar, para que a promoção e

recuperação do bem-estar físico,

psicológico, social e espiritual

aconteça, passa a ser a nossa meta.

O ato de cuidar renasceu como

o ideal moral da enfermagem,

tendo como principais objetivos

a proteção e a preservação da

dignidade humana, envolvendo

valores, vontade e conhecimento

e desprendeu-se da pujança

médico-cirúrgica imposta pelas

necessidades atuais.

Os enfermeiros, a fazer

enfermagem, conseguem

desenvolver duas vertentes

distintas: uma objetiva, que

se refere ao desenvolvimento

e aplicabilidade de técnicas e

conhecimentos específicos, e

outra subjetiva, que abraça toda a

sensibilidade, criatividade, intuição

no jeito e forma de cuidar o outro.

E é, todos os dias, com esta

sensibilidade, com esta

disponibilidade e autenticidade que

entramos ao serviço, com vontade

de no turno que nos espera, de

oito ou dezasseis horas, colocamos

a máscara no rosto e deixamos os

olhos transparecer a missão de

cooperar, disponibilizar, envolver,

interagir, respeitar, confiar,

valorizar e aceitar a essência do

outro no grande gesto que nos

define, que é CUIDAR!

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NOMAR21


CRÓNICA

CRÓNICA

Por Ricardo Silva

Chimamanda Ngozi Adichie – Todos devemos

ser feministas, D. Quixote, 2015

Este ensaio da nigeriana Chimamanda Adichie

- hoje um nome reconhecido no panorama da

literatura africana e não só – muito contribuiu

para mostrar que há vozes inconformadas

sobre a situação de África. Aqui sobre o difícil

papel da mulher africana, se bem que podemos

generalizar com mais ou menos cor consoante

o continente em que nos encontramos. Existem

vozes que lutam contra a manutenção de

preconceitos e ideias seculares de discriminação.

Ela é uma delas.

Anualmente, a Fundação Sapling, sedeada nos

EUA, promove as chamadas conferências TED –

Tecnologia, Entretenimento e Design – que têm

um modelo de grande projeção das boas ideias

e visões inspiradoras para um futuro diferente

num mundo melhor. São conferências feitas

na Europa, Ásia e Américas, realizadas por

pensadores, escritores, cientistas, entre outros,

portadores de uma mensagem minimamente

mobilizadora para a sociedade atual.

E foi neste contexto que, em 2012, Chimamanda

Adichie realizou uma palestra da qual brotou

um pequeno livro, onde com leveza e bom

humor tentou mostrar que o

Feminismo é mais uma luta pela

igualdade entre a humanidade do

que propriamente uma questão

de género (esta conferência pode

ser vista no YouTube com o

encanto da presença humorada

da autora).

Aliás, será melhor começar

pela conclusão ou definição

daquilo que a autora considera

Feminismo:” são todos aqueles

que acreditam na igualdade

social, política e económica entre

os sexos.” É, porventura, a forma

mais simples e bonita que alguém

definiu a ideia e a prática daquilo

que é hoje um movimento

social com pujança diferenciada

conforme a latitude em que nos

encontramos. Movimento com

cambiantes e interpretações

diversas, mas se nos ativermos à

boa definição enunciada muita

coisa fica clara.

Em África, por exemplo, donde

Chimamanda é natural (embora

viva também nos Estados

Unidos), a caminhada tem sido

longa, sofrida e lenta, mas tem

dado passos. Chimamanda com

a sua experiência pessoal e com

pequenos exemplos ao longo da

palestra retrata exactamente isso.

Uma das questões abordadas

é a dificuldade dos homens

conversarem sobre a questão

do género. Citando. “As pessoas

sentem-se desconfortáveis,

por vezes até irritadas. Tanto

homens como mulheres não

gostam de falar sobre o assunto,

e contornam-no rapidamente.

Porque a ideia de mudar o status

quo é sempre penosa.” Uma

outra ideia explorada é a da

relação entre o feminismo e a

situação económica da pessoa

e dos grupos sociais a que

pertencem. Será que a pobreza

tem a ver com as questões do

género? Claro que não! Género

0128 NOMAR21 0129

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

e classe ou grupo social são questões

distintas. A discriminação não é

exclusiva da pobreza! O problema

reside na ameaça que muitos homens

sentem pela ideia do feminismo.

Muitos não fazem nada, de forma

propositada, para mudar a situação.

Outros refugiam-se nos hábitos

culturais e em ancestralidades fora de

tempo.

A ideia, então, de preservação cultural

dos bons e tradicionais costumes é

risível, mas não deixa de ser arreigada.

Vemos em muitos países situações de

submissão, exploração e dependência

verdadeiramente atrozes. A cultura

pode influenciar as pessoas, mas não as

determina em absoluto.

É claro que a educação, não só a

académica ou mais formal, mas a

geral interiorizadora de experiências

positivas da vida, é o coração e o

motor de uma transformação. Temos,

na minha ótica, de colocar a questão

do feminismo no Respeito pelo

Outro, enquanto nosso semelhante,

com o Mérito que possua e com a

Competência que traga assente na

aceitação reconhecida do seu talento.

A palavra Feminista tem ainda hoje

uma carga negativa para cunhar a

mulher que odeia os homens, rasga

e queima sutiãs, que quer mandar

e que normalmente parece zangada

com o mundo para além de outras

alusões não muito positivas. Penso,

como Chimamanda, que estamos ao

lado do problema: se o feminismo for

uma luta contra a opressão, contra

a discriminação, pela liberdade,

pela igualdade de oportunidades

que se façam materializar no campo

económico, político e social, então,

Todos Devemos Ser Feministas!

Reconhecendo o problema – embora

muitos não o queiram fazer – e

esforçando-nos todos por melhorar,

deixaremos uma humanidade diferente

e com menos sofrimento. Estamos

longe? Já estivemos mais. Estamos

perto? Já estivemos mais longe. Um

caminho difícil está a ser feito com

paisagens diferentes para melhor a cada

dia que passa.

É um ensaio que merece ser lido e

visto porque ele traz-nos a vontade

de sermos mais solidários. Para mim,

como homem, foi importante lê-lo!

A leitura vale a pena!

Ricardo Silva

Ribeira Grande, 25 de fevereiro de 2021

TIAGO MATIAS

EDITOR

Normalmente não gosto de me

debruçar sobre a Pandemia, por

diversas razões. Porque há gente

bem mais entendida sobre o

assunto, porque não se fala de

outra coisa e porque a vida tem

de continuar.

Fala-se muito – e já estamos a

perceber – que o mundo póspandemia

será coisa diferente.

Como gosto de me focar nos

aspetos positivos, há pelo

menos um em que saímos

melhorados, em que entrámos

definitivamente no século XXI: a

formação online.

Antes da Pandemia havia

uma espécie de estigma ou

de preconceito acerca do

ensino à distância. Havia já

diversas entidades e mesmo

Formação Online:

o Mundo depois DA

Pandemia

universidades a apostar

neste modelo, mas nunca

ninguém tinha acreditado,

verdadeiramente, que a

formação online, síncrona ou

assíncrona, pudesse ser “uma

coisa a sério”. Hoje, porventura,

já será mais credível. Porque nos

entrou pela casa dentro, porque

já a experienciámos e, até,

porque já vamos gostando.

A formação online veio para

ficar. Por várias ordens de razões.

É conveniente para formadores e

formandos, é pedagogicamente

aliciante, apresenta a

possibilidade de partilhar uma

vasta gama de recursos, esbate

restrições geográficas e talvez

a mais decisiva: porque é mais

barata.

NOMAR21

0131


CRÓNICA

REPORTAGEM

PUB.

Com a formação online

eliminam-se os custos de

manutenção de instalações, de

limpeza e vigilância das mesmas.

Eliminam-se as necessidades

de imprimir formulários de

inscrição e materiais didáticos,

que podem ser disponibilizados

digitalmente. As aulas podem

ser gravadas e revisitadas por

alunos e professores, tantas vezes

quanto necessário, assim se

entenda.

Reduzem-se as deslocações e

seus custos, um fator decisivo

para uma Região Arquipelágica

como os Açores. Por outro lado,

como vimos também no último

ano, fazer menos deslocações

tem sido um contributo positivo

para a redução da nossa pegada

ecológica.

De uma situação desafiante,

muito frustrante, que nos

obrigou a reinventarmo-nos,

saiu algo de positivo. Demos

mais um passo em frente, rumo

à crescente digitalização que se

tem vindo a implementar no

nosso mundo.

A formação Online veio acabar

com o ensino presencial? Não

creio. Mas veio para ficar.

Haja Saúde, que é o mais

importante. E reconheçamos

que, afinal de contas, nem tudo

foi mau.

Tiago Matias,

Editor

empregonosacores.blogspot.pt

tasmatias@gmail.com

0132 NOMAR21 0133

NOMAR21


CRÓNICA

JOÃO AZEVEDO CASTRO

joaocastro@sapo.pt

PROFESSOR

MESTRADO EM GESTÃO PORTUÁRIA

O Grupo de Observação da

Terra (GEO – Group on Earth

Observation), constituído em

2005 na Cimeira da Terra, criou

uma parceria entre diversos

países e organizações, visando

coordenar estratégias de

recolha e tratamento de dados

de Observação da Terra, bem

como o desenvolvimento de um

sistema global de observação e

deteção remota.

O programa Copernicus faz da

Europa uma potência mundial

em termos de capacidade de

Observação da Terra e de política

de dados para o desenvolvimento

de aplicações, integrando os

satélites da constelação Sentinel,

que monitorizam o planeta, sob

copernicus

a responsabilidade da Agência

Espacial Europeia (AEE).

O Copernicus constitui um

contributo, da União Europeia

(UE), para a Rede Mundial dos

Sistemas de Observação da

Terra (GEOSS - Global Earth

Observation System of Systems).

É implementado em parceria

com os Estados-Membros, a

Agência Espacial Europeia, a

Organização Europeia para

a Exploração de Satélites

Meteorológicos (EUMETSAT),

o Centro Europeu de Previsões

Meteorológicas de Médio Prazo

(CEMWF) e diversas outras

agências da UE. Desenvolve

um conjunto de informações e

serviços, baseados na observação

da Terra, cruzando dados

obtidos por satélite e in situ

(não espaciais), abrangendo

áreas como: a atmosfera; o meio

marinho; o meio terrestre; as

alterações climáticas; a segurança

e emergência.

O serviço ‘Copernicussegurança’

visa fornecer

informação aos desafios

de segurança Europeus,

nomeadamente na prevenção

e preparação de respostas a

crises. Desenvolve capacidades

nas áreas de: Apoio às ações

externas da UE (implementado

em parceria com o Centro de

Satélites da União Europeia

e o Serviço de Gestão de

Emergências); Vigilância

marítima (implementada

em parceria com a Agência

Marítima de Segurança Europeia

- EMSA); Vigilância de fronteira

(implementada em parceria com

a FRONTEX).

A UE tem uma extensão

assinalável de áreas marítimas

sob a jurisdição dos diferentes

Estados-Membros, sendo que 23

dos 28 tem fronteiras marítimas,

o que representa um enorme

desafio para as operações de

vigilância. Acresce que existem

atividades exercidas à escala

global, como o transporte

marítimo ou as pescas. Assim o

objetivo global da UE é apoiar os

diferentes estados, na persecução

de assegurar a segurança

marítima da Europa e atividade

relacionadas com o meio

marítimo. Fundamentalmente,

centrada: na segurança da

navegação; apoio ao controlo

das pescas; combate à poluição

0134 NOMAR21 0135

NOMAR21


CRÓNICA

CRÓNICA

marinha; e, aplicação da lei no

mar (Convenção das Nações

Unidas sobre o Direito do Mar).

O programa Copernicus

Marítimo é sobretudo um

serviço de vigilância, gerido

pela EMSA, que visa apoiar os

seus utilizadores, fornecendo

uma melhor compreensão e

monitorização dos interesses e

atividades no mar, que possam

ter impacto na segurança

marítima, segurança e controle

da pesca, poluição marinha e

aplicação da lei, num contexto

em que a atividade no mar é

intrinsecamente dinâmica,

necessitando de informação

oportuna e relevante.

A EMSA transmite informações

pormenorizadas e em tempo

real sobre o que acontece no

mar dotando os governos, e as

entidades competentes, com

informação adequada para

implementar medidas de política

marítima. Simultaneamente,

a EMSA é uma agência

prestadora de serviços, os quais

se encontram intrinsecamente

ligados às áreas da vigilância e

segurança marítima, adaptados

às necessidades evidenciadas

por parte dos utilizadores

europeus, mais especificamente

nas áreas de notificação

de navios, observação da

Terra, informação marítima,

combate à poluição e controlos

portuários e de fronteiras. A

vigilância marítima garantida

pelo programa Copernicus é

concretizada por dois serviços

disponibilizados à comunidade:

o Serviço de Segurança,

e; o Serviço de Vigilância

Marítima.O primeiro suporta

as políticas da UE ao fornecer

informações e dados como

resposta a desafios de segurança

Europeus, traz melhoramentos

perante questões de prevenção

de crises e ajuda a preparar e

a responder atempadamente

em situações de: vigilância

marítima (implementada pela

EMSA); controlo de fronteiras

(marítimas e terrestres) e apoio à

UE em missões de ação externa

(EMSA). Relativamente ao

segundo serviço enunciado,

o de vigilância marítima, este

monitoriza a atividade humana

no mar. Ou seja, o objetivo

principal deste serviço é o de

apoiar todos os seus utilizadores

fornecendo uma melhor

compreensão e monitorização

das atividades desenvolvidas

no mar, principalmente as que

causem impacto em áreas como:

a proteção marinha e segurança

marítima; controlo de zonas

de pesca; monitorização da

poluição marítima; aplicação da

lei nos espaços sob jurisdição

marítima de um Estado e em

outras atividades que coloquem

em causa os interesses marítimos

da UE, permitindo melhorar a

eficácia na gestão dos espaços

marítimos.

0136 NOMAR21 0137

NOMAR21


REPORTAGEM

REPORTAGEM

PUB.

Ao observar uma imagem do

tráfego marítimo no atlântico

norte, facilmente se identifica

a importância estratégica dos

programas relacionados com a

observação da Terra a partir do

espaço, nomeadamente na sua

monitorização, onde Portugal se

assume com posição privilegiada

sendo mesmo o segundo maior

país da Europa com o maior

território marítimo, logo com um

forte potencial a desenvolver. Face

a uma perspetiva de exploração do

Atlântico torna-se fundamental

conhecer, para transformar

e rentabilizar, percebendo a

cadeia de valor. Tal só é possível

com dados, que permitam ter

conhecimento e previsibilidade

que permitam monitorizar as

diferentes dinâmicas terrestres e

marítimas.

Em relação aos Açores,

estamos na presença de novas

oportunidades, geradas, por

exemplo, pela localização

geográfica privilegiada do

porto espacial de Santa Maria,

sobretudo face a um potencial

de funcionamento em rede, com

outros portos espaciais, como da

Escócia, da Noruega e da Suécia.

Estamos na presença de um

salto tecnológico de alcance

assinalável, com os Açores,

enquanto parte relevante,

num processo de globalização

espacial e de oportunidades

por explorar. Precisamos de

envolvimento de interlocutores

regionais! Precisamos de

capacidade de assimilar e produzir

conhecimento! Precisamos de

propriedade na ação! Na presença

de uma (nova) “visão” para o Mar!

0138 NOMAR21 0139

NOMAR21


OPINIÃO

no | www.norevista.pt

Modelação dos

www.iroa.pt

facebook.com/iroaazores

Paulo Filipe Silva Borges

Licenciado em Geologia

Mestre em Geociências,

ramo do Ambiente e

Ordenamento

recursos hídricos

Água. Ribeiras, lagoas e aquíferos. Nascentes, poços

e furos. Hipóteses, teorias, modelos conceptuais

e modelos numéricos. Para que servem? São

necessários? Como a comunidade em geral

beneficia com tais projeções?

A razão para estes trabalhos, estudos e projeções

tem a ver com a importância da água. Um bem

essencial para a comunidade e para a vida, para

o desenvolvimento da economia. Assegurar a

quantidade, qualidade deste recurso, mantendo

baixo custo e em conformidade com o ambiente é o

objetivo de qualquer sociedade prosperante, embora

nada fácil.

Para conseguir atingir estes objetivos é

necessário conhecer como funcionam os

recursos hídricos na natureza, formando

hipóteses segundo a ocorrência de água

nos seus cursos, lagoas e nascentes. Com o

tempo formou-se teorias que possibilitaram

a abertura de poços e furos seguindo a

possível ocorrência de água, uns com

sucesso, outros nem tanto. Com mais

conhecimentos do ambiente e da geologia,

com o avanço das tecnologias e análises

à água extraída nos vários pontos já foi

possível formar os modelos conceptuais,

ou seja, uma conceituação e generalização

do comportamento da água. E é neste

ponto onde nos encontramos em termos de

conhecimento dos recursos hídricos e águas

subterrâneas, nos Açores.

Temos o conhecimento

de onde e como ocorre

a água, sabemos

genericamente os

compartimentos

hidrogeológicos

subterrâneos - massas

de água (onde se

armazenam) e

conceituamos como

circula no meio rochoso.

O próximo passo do

desenvolvimento, tendo por

base os modelos conceptuais,

é a formulação de modelos

numéricos, isto é, uma

representação matemática

do fluxo hídrico subterrâneo,

assumindo os processos

físicos que governam a

hidrogeologia local. Embora

estes modelos não possam

representar com total detalhe

a complexidade do sistema

real no ambiente, pelo menos

é útil de quatro formas:

- O modelo apresenta

consistência nas propriedades

aquíferas, recarga, descarga e

variação dos níveis de água;

- Podem ser utilizados para

estimar o fluxo de água e

características aquíferos onde

não temos contacto direto

com estes reservatórios (locais

com ausência de nascentes,

poços e furos);

- Modelos podem ser

utilizados para simular a

resposta dos reservatórios

hídricos a hipotéticas

condições;

- É possível ainda

identificar áreas sensíveis a

contaminações ou à alteração/

sazonalidade climática.

Apenas pela listagem da

utilidade destes modelos

é possível imaginar como

0140 NOMAR21 0141

NOMAR21


OPINIÃO

no | www.norevista.pt

REPORTAGEM

no | www.norevista.pt

REPORTAGEM

PUB.

poderia ser utilizado nos

Açores, prevenção de futuras

contaminações ou mitigação

das mesmas, projetar

impactos das alterações

climáticas na quantidade

de água disponível para a

distribuição, determinar

potenciais pontos de

captação para futuras

necessidades.

Esta tarefa de modelar

as águas subterrâneas

é complexa, sendo

da competência dos

hidrogeólogos este tipo de

trabalho, porque é o técnico

que se dedica aos estudos

deste tipo de ambientes,

tendo presente as suas

condicionantes geológicas.

Qualquer outro técnico na

tentativa de realizar estes

modelos enfrentará algumas

lacunas e o resultado poderá

não refletir a aproximação

à realidade, eventualmente

resultará num modelo

conceptual com números.

0142 NOMAR21 0143

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FRASES DO MÊS

REPORTAGEM

PUB.

“Requalificação da Calheta Pêro de

Teive tem de passar pela sua devolução à

população”

Maria José Lemos Duarte,

presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada

“O investimento nos cursos profissionais é uma aposta

ganha e deve manter-se como prioridade estratégica

regional”

Vílson Ponte Gomes, presidente da JS/Açores

“A cerca sanitária tem vindo a afetar a população não

só ao nível económico, mas também ao nível social e

psicológico”

Jaime Vieira,

presidente da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe

“Qualquer descuido pode fazer com que aquilo que

está a ser o bom resultado do comportamento da

generalidade dos açorianos fique prejudicado”

Clélio Meneses, Secretário Regional da Saúde e Desporto

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REPORTAGEM

REPORTAGEM

PUB.

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REPORTAGEM

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