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Edição 20- Revista Aquaculture Brasil

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aquaculturebrasil.com

REVISTA

AQUACULTURE

BRASIL

EDIÇÃO

20

SETEMBRO/OUTUBRO

2019

PISCICULTURA

MARINHA:

FURG obtém sucesso

na eclosão e produz os

primeiros juvenis de

MAR/ABR 2018

miragaia Pogonias sp.

ISSN 2525-3379

Coluna: Afinal,

produzimos peixe

conforme a demanda

do nosso mercado?

Entrevista: Ilce Santos

Oliveira - coordenadora

das atividades aquícolas

do estado de RO

Eles fazem a diferença:

Eric Arthur Bastos

Routledge

Espaço empresa:

Beraqua

1




AQUACULTURE BRASIL

O MAIOR PORTAL DA AQUICULTURA

BRASILEIRA!

EDITOR-CHEFE:

Giovanni Lemos de Mello

redacao@aquaculturebrasil.com

EDITORES-ASSISTENTES:

Alex Augusto Gonçalves

Artur Nishioka Rombenso

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano

Roberto Bianchini Derner

Rodolfo Luís Petersen

DIREÇÃO DE ARTE:

Syllas Mariz

Jéssica Brol

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO:

Adolfo Jatobá, Aline Horodesky, Amanda Amaral,

Antonio Ostrensky, Artur de Lima Preto, Björn Vinnerås,

Bruno Honda, Cecilia Lalander, Daniel Fuziki, Daniel

Martignago, Delano Dias Schleder, Eric Arthur Bastos

Routledge, Fernanda Guimarães de Carvalho, Giorgi Dal

Pont, Ilce Santos Oliveira, Ivã Guidini Lopes, Jaqueline

Inês Alves de Andrade, Laura Rafaela da Silva, Leandro

Godoy, Leonardo Mantovani Favero, Mariana Nagata,

Marina de Oliveira Pereira, Nathieli Cozer, Nayara Cruz,

Robilson Antonio Weber, Rose Meire Vidotti, Tales Chaves,

Tiago Fernandes Farias, Ulisses de Pádua Pereira,

Verônica Krein, Wanderson Santos e Yugo Pastrana.

Os artigos assinados e imagens são de

responsabilidade dos autores.

COLUNISTAS:

Andre Muniz Afonso

Artur Nishioka Rombenso

Diego Maia Rocha

Eduardo Gomes Sanches

Fábio Rosa Sussel

Giovanni Lemos de Mello

Juliana Antunes Galvão

Marcelo Roberto Shei

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano

Ricardo Vieira Rodrigues

Roberto Bianchini Derner

Rodolfo Luís Petersen

As colunas assinadas e imagens são de

responsabilidade dos autores.

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A revista AQUACULTURE BRASIL é uma publicação

bimestral da EDITORA

AQUACULTURE BRASIL LTDA ME.

(ISSN 2525-3379).

www.aquaculturebrasil.com

Av. Senador Galotti, 329/503, Mar Grosso, Laguna/SC,

88790-000.

A AQUACULTURE BRASIL não se

responsabiliza pelo conteúdo dos anúncios de

terceiros.

Tenho que admitir que é um orgulho particular

estampar na capa da Aquaculture Brasil uma notícia

sobre piscicultura marinha.

Não recordava quantas capas já havíamos publicado

sobre o tema. Tive que agora mesmo recorrer

rapidamente às edições anteriores e conferir.

E para a minha surpresa, esta é apenas a segunda...

e já fazia tempo!

Na terceira edição (nov/dez de 2016) publicamos

um atum fazendo referência ao artigo

“Exemplo para o Brasil: integração universidade e

empresa impulsiona a criação de atum”. Direto do

México, escrito pelas mãos do brilhante pesquisador, amigo e colunista Artur

Rombenso, que agora integra a equipe de pesquisadores do CSIRO-Austrália,

juntamente com o mestre Maurício Emerenciano.

Aliás, dois brasileiros muito acima da média que o CSIRO absorveu em seu

quadro permanente de cientistas. Ponto para os Australianos e mais dois revezes

para o Brasil. Por sorte, as “fronteiras científicas” estão cada vez mais abertas

e muitas figurinhas podem ser trocadas com estes dois, mesmo que estejam do

outro lado do mundo.

O Brasil perdendo seus talentos e relembrei deste artigo de 2016 sobre a

parceria universidade e empresa no México, algo que também faz falta ao Brasil.

Discuti há poucos dias com outro grande amigo e colunista da Aquaculture

Brasil, o “Gringo”, Rodolfo Luís Petersen, exatamente este assunto. O pesquisador

brasileiro precisa entender que têm que estar alinhado com as dores

da iniciativa privada. Igualmente, o empresário e aquicultor brasileiro necessita

compreender o quanto é positivo abrir suas “porteiras” para a pesquisa científica

e investir recursos na ciência e desenvolvimento tecnológico!

Os tempos de vacas gordas de recursos para pesquisas se foram... ainda

mais na área de piscicultura marinha.

E aí temos uma super novidade publicada em nossa capa. Mais uma espécie

à disposição da aquicultura brasileira. Um peixe que come e cresce bem em

uma ampla faixa de temperatura e salinidade. Eurihalino e euritérmico, rústico e

com crescimento rápido!

A FURG fazendo a parte dela a todo vapor... e então, pela milésima vez eu

pergunto, quando a iniciativa privada vai apoiar e se juntar a eles?

Já passou de um ano as pesquisas com as miraguaias e nem rações os pesquisadores

conseguem comprar para alimentar os peixes.

Que falta de visão e solidariedade de muita gente do nosso setor que poderia

estar apoiando...

Ótima leitura a todos!

Giovanni Lemos de Mello,

Editor-chefe.


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AQUACULTURE BRASIL

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no maior portal da aquicultura brasileira

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SUMÁRIO

AQUACULTURE BRASIL - edição 20 set/out 2019

08 FOTO DO LEITOR

»»

p.10

10 TRATAMENTO DE RESÍDUOS ANIMAIS DA

AQUICULTURA COM LARVAS DA MOSCA

SOLDADO-NEGRO

16 UTILIZAÇÃO DA OXITETRACICLINA DIIDRATADA NO

TRATAMENTO DA FRANCISELOSE EM TILÁPIAS DO

NILO

24 ESTRATÉGIAS TECNOLÓGICAS PARA CONSERVAÇÃO

DE CORAIS

»»

p.16

32 A PRODUÇÃO INTEGRADA NA CARCINICULTURA

BRASILEIRA: DESAFIOS E POTENCIALIDADES

38 USO DE HIDROLATOS COMO ADITIVO ALIMENTAR E

ANTIPARASITÁRIO NA PISCICULTURA

44 COMEÇA A INOVAÇÃO NO PROJETO AQUAVITAE COM

O LANÇAMENTO DOS PRIMEIROS PROTÓTIPOS DE

AQUICULTURA ENVOLVENDO COOPERAÇÃO ENTRE

PAÍSES DO ATLÂNTICO

50 ESPAÇO EMPRESA - BERAQUA

52 ARTIGOS PARA CURTIR E COMPARTILHAR

»»

p.24

53 CHARGES

6


»»

p.74

»»

p.76

54 ATUALIDADES E TENDÊNCIAS NA AQUICULTURA

56 GREEN TECHNOLOGIES

59 NUTRIÇÃO AQUÍCOLA

»»

p.32

60 PISCICULTURA MARINHA

62 VISÃO AQUÍCOLA

64 RECIRCULATING AQUACULTURE SYSTEMS

66 GENÉTICA

68 AQUICULTURA ORNAMENTAL

70 ATUALIDADES DA CARCINICULTURA

»»

p.38

72 RANICULTURA

70 TECNOLOGIA DO PESCADO

74 DEFENDEU

76 ENTREVISTA - ILCE SANTOS OLIVEIRA

78 ELES FAZEM A DIFERENÇA

86 DESPESCOU

»»

p.78

7


Larva “sana” de linguado

(Huarmey, Perú)

Cesar Augusto Vargas Tacuri

@esar_vargas13s

Cultivo das microalgas Nannochloropsis oculata,

Chlorella vulgaris e Chaetoceros muelleri

(Fortaleza, CE)

Giancarlo Lavor

Arraçoamento - Piscicultura em Jatobá

(Jatobá, PE)

Joiciane Cruz

@joicianecruz

SET/OUT 2019

Entardecer na Estação Marinha de Aquacultura - EMA

(Rio Grande, RG)

Naísa Passos

@naisapassos

8


Guppy do laboratório de aquicultura da EEEP J. I. Nocrato

(Guaiúba, CE)

Thiago Andrade

Cérebro de Mugil cephalus - Centro Nayarita de Innovación y Transferencia de Tecnología (CENIT)

(Tepic, México)

Joel Fitzgerald Linares Cordova

@joelin30

SET/OUT 2019

>>

Envie suas fotos mostrando a aquicultura no seu dia a dia

e participe desta seção.

redacao@aquaculturebrasil.com

9


© Viktoria Wiklicky

SET/OUT 2019

10

PARCEIROS NA 20° ED:


Tratamento de resíduos animais

da aquicultura com larvas da

mosca soldado-negro

Ivã Guidini Lopes 1* , Cecilia Lalander 2 , Björn Vinnerås 2 e Rose Meire Vidotti 1,3

¹Centro de Aquicultura da Unesp (Caunesp)

Jaboticabal/SP

*ivanguid@gmail.com

3

Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios

Polo Regional Centro-Norte

Pindorama/SP

²Swedish University of Agricultural Sciences

Uppsala, Suécia

Pouco se fala sobre

resíduos animais

gerados na aquicultura

brasileira e os impactos sociais,

econômicos e ambientais por

estes causados. Grande parte

proveniente de frigoríficos é

utilizado na fabricação de óleos e

farinhas, mas o que dizer sobre

os resíduos de mortalidade

causados por doenças na

produção ou outros fatores?

Kubitza et al. (2013) estimou

perdas na piscicultura de 15%,

o que segundo Tavares-Dias e

Martins (2017) pode chegar a

representar perdas anuais na

faixa de 460 milhões de reais,

somente para a piscicultura no

país. Com isso em mente, fica

claro que devemos dar atenção

especial para esse tipo de resíduo

Grande parte

proveniente de

frigoríficos é utilizado

na fabricação de óleos

e farinhas, mas o que

dizer sobre os resíduos

de mortalidade causados

por doenças na produção

ou outros fatores?

no Brasil, uma vez que métodos

de tratamento podem auxiliar

na reciclagem e na reintrodução

desses materiais em ciclos

produtivos, aumentando a

sustentabilidade do setor. Nesse

artigo, vamos conceituar um

método promissor para esse

propósito: o tratamento com

larvas de mosca soldado negro

(Hermetia illucens - BSF) (Fig.

1). Os dados apresentados aqui

foram obtidos pela parceria

estabelecida entre o Centro

de Aquicultura da Unesp

em Jaboticabal e a Swedish

University of Agricultural

Sciences na Suécia, onde os

estudos foram desenvolvidos.

Para detalhes sobre o estudo

consulte Lopes et al. (2020) ** .

SET/OUT 2019

** Lopes, I.G., C. Lalander, et al. Using Hermetia illucens larvae to process biowaste from aquacultura production. Journal of Cleaner

Production. v. 251, 119753. 2020

11


Figura 1. Mosca soldado negro (Hermetia illucens) adulta.

© Viktoria Wiklicky

Funcionamento e benefícios do processo

O passo inicial para o tratamento de resíduos com

larvas de BSF é obter as larvas. Isso é possível graças

à produção em massa desses organismos em colônias.

Nessas colônias, moscas adultas se reproduzem em

gaiolas com umidade e luminosidade específicas (Figura

2) e depositam seus ovos em pequenas estruturas

(Figura 3). Os ovos são incubados e quando as larvas

eclodem, são alimentadas por aproximadamente cinco

dias para então serem utilizadas no tratamento dos

resíduos orgânicos.

O tratamento dos resíduos é na maioria das vezes

realizado em caixas plásticas (60 x 40 cm) empilhadas

em suportes de alumínio (Figura 4), visando a otimização

do uso da área disponível. Entre 10 e 15 mil larvas

são colocadas nas caixas junto aos resíduos (Figura 5),

sendo que a quantidade de resíduo a ser tratada varia de

acordo com características dos resíduos como umidade,

teor de fibras, relação C/N, dentre outras. De maneira

geral, até 15 kg de resíduos podem ser tratados

por caixa, parcelados em duas ou três alimentações.

O tratamento é encerrado em aproximadamente

12 - 15 dias, quando o aspecto dos resíduos do tratamento

(composto por fezes das larvas e resíduos

não digeridos) está seco e passível de ser separado

das larvas por peneiramento (Figura 6), obtendo-se

assim dois produtos a serem processados e comercializados:

a biomassa de larvas contendo 40% de

proteína bruta (PB) e 15 - 35% de lipídeos em base

seca (Lalander et al., 2019; Ewald et al., 2020), e esse

resíduo seco considerado como fertilizante, que pode

apresentar 5% de nitrogênio em sua composição, po-

A.

Figura 2. Gaiolas

de acasalamento

(a); e larvas da

mosca soldado

negro (Hermetia

illucens).

© Viktoria Wiklicky

SET/OUT 2019

B.

12

PARCEIROS NA 20° ED:


dendo variar de acordo com os resíduos dos quais

as larvas estão se alimentando (Setti et al., 2019). O

rendimento deste processo pode ser bastante variável,

mas de maneira geral podemos considerar que a

cada tonelada de resíduos orgânicos fornecida como

substrato para as larvas de BSF, são obtidos 200 kg de

larvas e 180 kg de biofertilizante (Figura 7).

Figura 5. Larvas jovens dispostas sobre carcaças de peixe

moídas. © Ivã Guidini Lopes

Figura 3. Moscas adultas depositando ovos em estruturas

específicas. © Viktoria Wiklicky

Figura 4. Caixas utilizadas no tratamento de resíduos orgânicos

com larvas de BSF. © Ivã Guidini Lopes

Figura 6. Aspecto dos resíduos do tratamento após consumo

por larvas de BSF. © Ivã Guidini Lopes

SET/OUT 2019

13


Figura 7. Índices do processo de tratamento com larvas de BSF, com diferentes níveis de inclusão de resíduos da aquicultura.

60

50

0% resíduo

5% resíduo

10% resíduo 15% resíduo

40

30

20

10

0

Redução da Biomassa

(%)

Proteína Bruta Larval

(%)

N total do resíduo

(g/kg)

Bioconversão

(%)

SET/OUT 2019

Resíduos da aquicultura e larvas de BSF

Considerando o fato de que diferentes espécies de

moscas colonizam carcaças em decomposição na natureza,

nós levantamos a hipótese de que os resíduos

da aquicultura poderiam servir como substrato para

o crescimento de larvas de BSF, visando solucionar

o problema do descarte inadequado de carcaças de

peixes e seu reaproveitamento. Para testar essa hipótese,

foi elaborado um experimento no qual carcaças

de peixes foram misturadas com outro resíduo já estabelecido

para o crescimento de larvas (restos de pães),

em vinte e uma diferentes proporções dispostas em

caixas de tratamento como mostrado na figura 4. A

primeira caixa possuía apenas pães (sem carcaças) e a

última caixa apenas carcaças de peixe, enquanto as caixas

intermediárias tiveram acréscimos de 5% em 5%,

em ordem crescente de carcaças em cada. Além dos

resíduos (aproximadamente 7,5 kg), cada tratamento

recebeu 10 mil larvas e o experimento foi conduzido

até que os resíduos dos tratamentos estivessem secos

e peneiráveis.

O primeiro resultado verificado foi que as larvas de

BSF foram incapazes de consumir as carcaças de peixe

nas proporções de carcaças acima de 30% (70% de

pães e 30% de carcaças). No entanto, as carcaças utilizadas

nesse experimento eram de trutas e salmões,

peixes com alto teor de óleos e gorduras em sua composição

corporal, o que certamente afetou as larvas,

pois grandes camadas de óleo foram formadas nas caixas,

comprometendo o consumo dos resíduos. Nas

caixas com quantidades de carcaças variando entre 5

- 25%, as larvas consumiram os resíduos normalmente

e apresentaram crescimento satisfatório.

Os melhores resultados em relação ao processo e

crescimento das larvas foram obtidos nos tratamentos

em que 5 - 15% de carcaças foram incluídas. Em 11

- 12 dias de tratamento, as larvas de BSF consumiram

todos os resíduos das caixas, reduzindo a biomassa inicial

em até 65%, mostrando que quase 20% dos resíduos

foram convertidos em biomassa larval (bioconversão).

Além disso, quanto mais carcaças nas caixas,

mais proteína as larvas acumularam, atingindo 45% PB

quando 15% de carcaças foram incluídas. Os resíduos

do tratamento obtidos ao final do processo também

apresentaram alta concentração de nitrogênio, característica

interessante visando sua aplicação em atividades

agrícolas.

As baixas inclusões de carcaças de peixes poderiam

nos levar a pensar que este método não parece ser

eficiente no tratamento de resíduos da aquicultura, porém

vamos considerar o cenário brasileiro: 85 milhões

de toneladas de resíduos sólidos urbanos são gerados

14

PARCEIROS NA 20° ED:


Figura 8. Resíduos da aquicultura em diferentes formas para tratamento com larvas de BSF. © Ivã Guidini Lopes

anualmente, sendo 50% deste total é representado por

orgânicos (ABRELPE, 2019), e a produção da piscicultura

brasileira de 2019 foi de 750 mil toneladas (PeixeBR,

2020). Assumindo hipoteticamente que 50% dos resíduos

da piscicultura é descartado como resíduo, isso representa

menos de 1% de todos os resíduos gerados no

Brasil, fazendo com que seja possível seu tratamento com

larvas de BSF em combinação a outros resíduos. Então

este método poderia auxiliar no tratamento dos resíduos

da aquicultura? Com certeza!

Possibilidades para o Brasil

O Brasil possui enorme potencial para essa tecnologia,

pois apresenta clima favorável em diversas regiões ao

longo de todo o ano (25-30 °C é a faixa ideal para as

BSF), tornando o processo menos dispendioso economicamente;

a espécie está presente naturalmente no país,

não correndo risco de introdução de espécies invasoras;

grandes volumes de resíduos orgânicos são gerados, garantindo

o fornecimento contínuo para unidades de tratamento.

Por ser um país com forte caráter agropecuário,

ambos os produtos gerados por meio deste processo

podem ter mercado garantido. O fertilizante orgânico

obtido possui grande apelo ambiental, podendo ser aplicado

em substituição à produtos químicos, aumentando

a sustentabilidade da produção, enquanto a biomassa de

larvas pode substituir parcial ou totalmente o uso de outros

ingredientes proteicos em rações animais. Já existem

empresas brasileiras apostando nessa tecnologia! Você

também apostaria?

Consulte as referências bibliográficas em

www.aquaculturebrasil.com/artigos

SET/OUT 2019

15


SET/OUT 2019

© Jéssica Brol | Aquaculture Brasil

16

PARCEIROS NA 20° ED:


Utilização da Oxitetraciclina

diidratada no tratamento da

franciselose em tilápias do Nilo

Leonardo Mantovani Favero

Mariana Nagata

Bruno Honda

Ulisses de Pádua Pereira

Daniel Fuziki

Laboratório de Bacteriologia em Peixes

Universidade Estadual de Londrina - UEL

Londrina, PR

*Phibro.SAC@pahc.com

A

alta resistência de microrganismos

patógenos

a antimicrobianos

é um dos principais preocupantes

à saúde, tanto animal, quanto

humana e ambiental. Dentre

os mecanismos que aceleram o

surgimento e estabelecimento

destes patógenos multirresistentes

está o uso inadequado

de antibióticos, seja por uso sem

indicação ou por uso de doses

e vias não indicadas. O ideal é

empregar medicamentos comprovadamente

eficazes para o

tratamento de uma determinada

enfermidade em uma espécie

específica. Para peixes, os antibacterianos

registrados ainda

não foram validados para todas

as diferentes bacterioses existentes

e nem tampouco para todas

as espécies de peixes produzidas

comercialmente.

Apesar do contínuo crescimento

da tilapicultura brasileira

e grande contribuição do setor

à economia nacional, ainda há

O Laboratório de

Bacteriologia em Peixes

da UEL coordenado pelo

prof. Dr. Ulisses de Pádua

Pereira, em parceria com

a Phibro, realizou um

estudo com a molécula

Oxitetraciclina diidratada

no tratamento da

franciselose em tilápias

do Nilo. Com satisfação

os resultados são aqui

divulgados.

uma carência de produtos

antimicrobianos licenciados

pelo Ministério da Agricultura,

Pecuária e Abastecimento

para uso nesta espécie. Há

também a falta de medicamentos

comprovadamente

eficazes contra uma doença já

instalada no país e que pode

causar grande mortalidade: a

franciselose.

A franciselose é uma

doença com tendência sazonal

(outono-inverno) causada

pela bactéria Francisella noatunensis

subespécie orientalis.

Atualmente este patógeno

bacteriano foi renomeado

para Francisella orientalis (Fo),

sem o nome de subspécie,

ou seja, a espécie bacteriana

é homogênea e atualmente

não tem variações que justifique

ter diferentes subspécies

e é distante suficiente

da espécie de Francisella

noatunensis, conforme Ramirez-Paredes

et al. (2020).

SET/OUT 2019

17


SET/OUT 2019

Costuma manifestar-se de maneira aguda, com surtos

nos meses mais frios do ano. Além da alta mortalidade,

é caracterizada por causar melanose e doença

granulomatosa em baço e rim de tilápias.

O Laboratório de Bacteriologia em Peixes da Universidade

Estadual de Londrina (LABBEP), em parceria

com a Phibro, avaliou os efeitos in vitro e in vivo da oxitetraciclina

diidratada frente a franciselose.

Tanto para os testes in vitro, quanto para os in vivo,

foi utilizada a cepa F1 de Fo. A cepa F1 foi isolada pelo

LABBEP de um surto que ocorreu na região sudeste

brasileira em 2015. É importante utilizar bactérias autóctones

(isoladas de surtos brasileiros da doença em

tilápias) para estes testes, para garantir que o produto

se aplica à realidade nacional.

Material e Métodos

1. Testes in vitro

Os testes in vitro foram empregados para avaliar os

efeitos da oxitetraciclina diidratada no crescimento e

morfologia da bactéria. Para isso, foram utilizadas as técnicas

de ágar-difusão, concentração bactericida mínima

(CBM) e microscopia eletrônica de varredura (MEV).

Para a realização destas três técnicas, uma solução de

Oxitetraciclina diidratada inicialmente a 77,8 mg.mL -1

foi serialmente diluída 17 vezes em base 2, a cepa F1

foi suspendida a uma concentração de aproximadamente

108 UFC.mL -1 e subsequentemente exposta a

estas diferentes concentrações do produto.

Para realizar o teste de ágar-difusão, a suspensão

de F1 foi semeada na superfície de placas contendo

ágar cistina-coração suplementado com hemoglobina

bovina (ACH). Em seguida, 10 µL de cada diluição

de oxitetraciclina diidratada foi depositado, em duplicata,

no centro de uma das placas de ACH contendo

F1. As placas, então, foram incubadas a 28ºC por 96

horas e observadas em busca de halos de inibição de

crescimento da bactéria. A menor concentração capaz

de produzir um halo inibitório satisfatório (30 mm) foi

0,303 mg.mL -1 (Figura 1).

Para determinar a CBM (Concentração Bactericida

Mínima - menor concentração capaz de inativar o crescimento

da bactéria quando cultivada, após exposição à

molécula em um novo meio de cultura), volumes iguais

da suspensão de F1 e das diluições de Oxitetraciclina

diidratada foram incubadas a 28ºC por 48 horas em

placas de 96 poços e, em seguida, 1 µL de cada poça

foi semeado em ACH e incubado a 28ºC por 96 horas.

A CBM obtida para a Oxitetraciclina diidratada foi

0,037344 mg.mL -1 .

A.

B.

Figura 1. Teste de

difusão em ágar -

10 µL de

Oxitetraciclina

diidratada

em diferentes

concentrações foram

depositados no centro

de uma placa inoculada

com F. noatunensis.

A) Halo de 30mm

de inibição do

crescimento de F.

noatunensis obtido

com 0,303 mg.mL -1

de Oxitetraciclina

diidratada.

B) Nenhuma inibição

do crescimento

de F. noatunensis

na concentração

0,024 mg.mL -1

de Oxitetraciclina

diidratada.

A MEV foi utilizada para avaliar os efeitos da Oxitetraciclina

diidratada na morfologia celular da Fo. Para a

realização desta técnica, a suspensão de F1 foi incubada

a 28ºC por 6 horas com três soluções:

a) sem produto, como controle da morfologia normal;

b) 1,167 mg.mL -1 de Oxitetracilina diidratada;

c) 0,037344 mg.mL -1 de Oxitetraciclina diidratada

(CBM).

Após o tempo de contato, as suspensões foram

submetidas a protocolos-padrão de fixação para MEV.

Na Figura 2A é possível observar as células de Fo sem

tratamento algum com sua morfologia normal de cocobacilos.

As Figuras 2B e 2C mostram a bactéria tratada

com 1,5 mg.mL -1 e 0,048 mg.mL -1 de Oxitetraciclina

diidratada, respectivamente.

Resultados teste in vitro

Em ambas as concentrações de Oxitetracilina diidratada

elegidas para a técnica de MEV não foi possível

notar uma diminuição no número de células quando

comparadas com a bactéria sem tratamento. Contudo,

é possível observar que, nas duas concentrações

de tratamento, há alterações na morfologia das células

(com aspecto rugoso ou inchadas). Isso se explica uma

vez que a oxitetraciclina é um antimicrobiano bacteriostático,

que atua impedindo a síntese de proteínas

18

PARCEIROS NA 20° ED:


Figura 2. Fotomicroscopias obtidas por microscopia eletrônica de varredura em aumento de 12000 vezes. A) Células de F.

noatunensis sem tratamento e com morfologia normal. Setas brancas: células com formato cocoide. Seta com contorno preto:

células com formato cocobacilar. B) Células de F. noatunensis tratadas com 1,167 mg.mL -1 de Oxitetraciclina diidratada. Setas

brancas: células que mantém formato cocoide, mas apresentam com aspecto aumentado. Setas pretas: células bacterianas

com morfologia alterada, de aspecto murcho. C) Células de F. noatunensis tratada com 0,037344 mg.mL -1 de Oxitetraciclina

diidratada. Seta branca: célula com aspecto cocóide normal. Setas pretas: células com morfologia alterada e aspecto murcho.

A. B. C.

das bactérias, prejudicando seu metabolismo e inviabilizando/matando

a célula bacteriana. Além disso, Fo

possui um tempo de geração longo e o tempo de exposição

à droga para este teste (6 horas) pode ter sido

curto para observar diminuição no número de células.

2. Testes in vivo

O teste in vivo foi conduzido para avaliar o efeito de

duas doses da molécula de Oxitetraciclina diidratada

em tilápias submetidas a infecção experimental por Fo:

100 mg.kg -1 de peso vivo e 200 mg.kg -1 de peso vivo.

A primeira dose é a comumente utilizada de modo

empírico para o tratamento da franciselose e a segunda

foi utilizada para avaliar os efeitos de uma sobredose

nos peixes. O produto também foi testado em dois

momentos: antes da infecção (como estratégia profilática)

e após a infecção (como estratégia de tratamento

nos primeiros momentos de infecção).

Assim, os grupos experimentais foram montados

da seguinte forma:

• G1: peixes tratados com 100 mg.kg -1 de Oxitetraciclina

diidratada, com início um dia antes da infecção e

duração de 16 dias.

• G2: peixes tratados com 100 mg.kg -1 de Oxitetraciclina

diidratada, com início um dia após a infecção

e duração de 15 dias.

• G3: peixes tratados com 200 mg.kg -1 de Oxitetraciclina

diidratada, com início um dia antes da infecção

e duração de 16 dias.

• G4: peixes tratados com 200 mg.kg -1 de Oxitetraciclina

diidratada, com início um dia após a infecção

e duração de 15 dias.

• CP: controle positivo. Peixes sem tratamento e

infectados.

• CN: controle negativo. Peixes sem tratamento e

sem infecção.

• CN-Oxitetracilina diidratada: controle da Oxitetraciclina

diidratada. Peixes tratados por 15 dias com 200

mg.kg -1 de Oxitetraciclina diidratada e sem infecção.

Cinquenta alevinos de tilápia de aproximadamente

15 g de peso vivo foram distribuídos em cada grupo,

sendo os controles executados em duplicata e os

grupos, em triplicata. Os peixes foram mantidos em

fotoperíodo de 12 horas, em fluxo contínuo de renovação

de água e, durante os 15 dias de aclimatação,

receberam ração comercial contendo 32% de proteína

bruta em quatro frações diárias, até a saciedade.

O volume de Oxitetraciclina diidratada adicionado

na ração foi determinado levando-se em conta a dose

de cada grupo (100 ou 200 mg.kg -1 ), a concentração

de antimicrobiano no produto (77,8%), um consumo

diário de 4% do peso vivo e perda de 15% de produto

por lixiviação. O produto foi homogeneamente

incorporado à mesma ração utilizada no período de

aclimatação e, em seguida, adicionado veículo universal

aglutinante (caboximetilcelulose) a 5% do volume

total de ração. Após homogeneização, a ração prepa-

SET/OUT 2019

19


rada foi mantida em ambiente a 18ºC, durante toda a

noite, para secagem.

A dose bacteriana de F1 utilizada para infecção

foi determinada previamente em um experimento

de DL50 para determinar qual dose causaria morte

de 50% dos peixes. Com base nisto, para este experimento

foi utilizado um inóculo de F1 a 1,2 x 108

UFC.mL -1 , via imersão.

Após 4 e 7 dias de tratamento, amostras de soro

foram coletadas de 5 peixes dos grupos G1, G3 e CN

para dosagem das enzimas aspartato amino transferase

(AST), alanina amino transferase (ALT) e fosfatase

alcalina (FA), indicadoras de lesão em fígado. Após o

fim do tratamento com Oxitetraciclina diidratada, os

grupos foram monitorados por 45 dias para observação

de sinais clínicos e mortalidade. Após o período

de monitoramento, 20 peixes de cada grupo foram

submetidos a eutanásia para coleta de baço para diagnósticos

microbiológicos (cultura em ágar e PCR) e

histopatológico, e fígado para PCR e histopatológico.

A cronologia do experimento, para maior esclarecimento,

pode ser observada na Figura 3.

Resultados do teste in vivo

Não houve diferença estatística para os valores de

ALT, AST e FA entre o Controle Negativo e os grupos

tratados, tanto com 100 mg.kg -1 (G1) quanto com 200

mg.kg -1 (G3), nos dois períodos de tratamento avaliados.

Isto indica que ambas as doses, no período de sete

dias, não induzem lesão nas células do fígado (Tabela 1).

Com relação a mortalidade, entre os grupos com

tratamento iniciado após a infecção não houve diferença

estatística e a mortalidade foi baixa, nenhuma

mortalidade no G4 e 1,3% no G2. Já nos grupos

com tratamento iniciado antes da infecção, no grupo

que recebeu 200 mg.kg -1 de Oxitetraciclina diidratada

(G3), observou-se 6,7% de mortalidade (ainda con-

siderada baixa quando comparada com o controle

positivo onde os peixes não receberam o Oxitetraciclina

diidratada), enquanto nenhuma mortalidade foi

observada no G1. Este resultado indica um possível

efeito deletério discreto da sobredose de oxitetraciclina

a longo prazo.

Na Tabela 2 é possível ver que, quando comparados

com o Controle Positivo, todos os grupos tratados

apresentaram menos lesões granulomatosas e

menores taxas de isolamento e positividade em PCR.

Isto indica que o medicamento é eficaz em reduzir a

bactéria viva nos tecidos e em prevenir o estado de

portador assintomático (peixes sem lesão, mas com

bactéria viável nos tecidos).

A análise histopatológica de fígado foi fragmentada

em três: escore de degeneração de hepatócitos,

presença de granulomas e presença de infiltrado inflamatório.

Em relação a degeneração de células do

fígado, o Controle Positivo teve uma alta frequência

do pior escore (3), enquanto o Controle Negativo e

o Controle-Oxitetraciclina diidratada tiveram todos os

fragmentos analisados classificados como normais (escore

1). Os grupos tratados com 100 mg.kg -1 (G1 e

G2), tiveram distribuição de escore similares, o mesmo

ocorreu para os grupos tratados com 200 mg.kg -1

(G3 e G4). No entanto, os grupos que receberam

a maior dose, apresentaram piores resultados, sem

nenhum fragmento classificado com escore 1.

Nos grupos que não foram infectados (CN e CN-

-Oxitetraciclina diidratada) não foram observados

granulomas em fígado. Os grupos com tratamento

iniciado antes da infecção (G1 e G3), a frequência observada

de granulomas foi baixa (<15%). No grupo

G2, tratado com 100 mg.kg -1 após a infecção, granulomas

focais foram observados em 40% dos fragmentos,

enquanto que o grupo tratado com 200 mg.kg -1

(G4) não apresentou granuloma em fragmentos de

SET/OUT 2019

Figura 3. Cronologia do experimento in vivo para validação do uso de Oxitetraciclina diidratada em juvenis de tilápia do Nilo.

D-16

Início da

aclimatação dos

peixes

D0:

Infecção com

1,2x10 8 UFC.ml -1

de F1

D-1: D1:

Início do

tratamento

nos grupos

com estratégia

profilática

G1 e G3

Início do

tratamento

nos grupos

com estratégia

terapêutica

G2 e G4

D4:

Primeira coleta de soro

para dosagem de enzimas

de lesão hepática

D7:

Segunda coleta de soro

para dosagem de enzimas

de lesão hepática

D15:

Fim do tratamento em

todos os grupos

D60:

Coleta de baço e

fígado para diagnóstico

microbiológico e

histopatológico

20

PARCEIROS NA 20° ED:


fígado. Nenhum infiltrado inflamatório foi observado

no Controle Negativo. Contudo no controle do produto

(CN-Oxitetraciclina diidratada), 20% das amostras

apresentaram infiltrado inflamatório discreto. Todas

as amostras do Controle Positivo apresentavam

infiltrado inflamatório.

Com relação aos grupos com tratamento preventivo,

45% e 25% das amostras dos grupos G1 e G3,

respectivamente, apresentaram infiltrado inflamatório

em fígado. Os grupos com início de tratamento após

a infecção, G2 e G4, apresentaram infiltrado inflamatório

em fígado em 60% e 20% das amostras, respectivamente.

A análise histopatológica das amostras de fígado,

comparando os grupos com o CP, permite afirmar

que a dose de 100 mg.kg -1 é capaz de reduzir as lesões

causadas pela Fo tanto profilática, como terapeuticamente,

sendo o primeiro, mais eficaz em diminuir

as lesões causadas diretamente pela presença da bactéria

(granulomas e inflamação). Apesar dos animais

tratados com 200 mg.kg -1 de Oxitetraciclina diidratada

apresentarem menos lesões ou lesões mais discretas

em relação aos tratados com 100 mg.kg -1 , e de não

haver diferenças entre o Controle Negativo e o Controle

da Oxitetraciclina diidratada em relação a degeneração

de hepatócitos, a dose elevada levou a presença

de infiltrado inflamatório em 20% das amostras

do CN-oxitetraciclina diidratada.

As enzimas hepáticas

são ótimos marcadores

de funcionalidade do

fígado. No presente

estudo a Oxitetraciclina

diidratada não alterou

a concentração destas

enzimas mesmo na maior

dose testada (200mg.kg -1 )

demonstrando ser um

nível seguro para os

peixes.

Tabela 1. Resultados da dosagem sérica das enzimas fosfatase alcalina (FA), aspartato aminotransferase (AST) e alanina

aminotransferase (ALT) em tilápias tratadas ou não com Oxitetraciclina diidratada por quatro ou sete dias.

FA (UI/L) AST (UI/L) ALT (UI/L)

Grupos 1ºQ M 3ºQ 1ºQ M 3ºQ 1ºQ M 3ºQ

CN

(sem tratamento)

G1 (100 mg.kg -1 )

4 dias de tratamento

G1 (100 mg.kg -1 )

7 dias de tratamento

G3 (200 mg.kg -1 )

4 dias de tratamento

G3 (200 mg.kg -1 )

7 dias de tratamento

15,0 17,0 19,0 0,0 2,0 6,0 86,0 106,0 415,0

15,0 17,0 19,0 0,0 1,0 3,0 88,0 184,0 242,0

13,0 17,0 19,0 0,0 0,0 1,0 31,0 34,0 43,0

14,0 19,0 26,0 1,0 4,0 4,0 81,0 149,0 186,0

16,0 17,0 18,0 2,0 3,0 3,0 61,0 104,0 109,0

SET/OUT 2019

21


Tabela 2. Resultados da análise microbiológica de tilápias após infecção experimental por F. noatunensis e tratamento

com Oxitetraciclina diidratada.

Grupos

Nº de

sobreviventes

Peixes

com lesões

macroscópicas

em baço (%)

Peixes com

isolamento

positivo (%)

Peixes com

detecção positiva

em PCR (%)

CN 100 0 0 0

CP 51 43,1 49,0 70,6

G1 150 18,0 16,0 18,7

G2 148 21,6 23,6 26,4

G3 140 17,9 19,3 20,7

G4 150 7,3 9,3 10,0

O escore para análise de baço foi definido como: 0)

sem alteração; 1) expansão da bainha perivascular de

macrófagos; 2) macrófagos vacuolizados e se estendendo

além da bainha perivascular; 3) granuloma incipiente

ao redor das bainhas perivasculares; e 4) granuloma multifocal

a coalescente substituindo a arquitetura esplênica

normal (Figura 4). Todos os grupos tiveram escores médios

abaixo de 2 e o Controle Positivo teve escore médio

de 3,8. Ainda, os grupos tratados com 100 mg.kg -1 , G1

e G2, tiveram escores médios melhores, 1,3 e 1,05 respectivamente,

que os grupos tratados com 200 mg.kg -1 ,

G3 e G4, com escores médios de 1,55 e 1,25.

De acordo com os resultados de histopatologia e

dosagem sérica de enzimas hepáticas, é possível inferir

que a Oxitetraciclina diidratada possui pouco ou

nenhum efeito hepatotóxico em alevinos de tilápia. O

antimicrobiano foi capaz de diminuir as lesões e a carga

bacteriana dos peixes tanto no uso profilático, quanto

no uso terapêutico, via ração. No uso profilático, em

momentos de manejo intenso (vacinação, classificação),

a dose de 100 mg.kg -1 mostrou-se eficaz. Já em

casos de surtos intensos, a dose de 200 mg.kg -1 mostrou-se

mais eficaz. É importante ressaltar a constante

monitoração dos lotes, principalmente em épocas de

queda de temperatura, para o início precoce do tratamento,

enquanto os peixes ainda tem apetite para

ingerir a ração medicada.

Figura 4. Fotomicroscopias digitais de baço de tilápias infectadas com Francisella noatunensis subsp orientalis e tratadas com

Oxitetraciclina diidratada. Aumento de 40x. Exemplos de escores de lesão esplênica. A: escore 0. Tecido sem alterações. B:

escore 1. As bainhas perivasculares de macrófagos estão expandidas. C: escore 2. Há macrófagos vacuolizados e se estendendo

além da bainha perivascular. D: escore 3. Possível visualizar granuloma incipiente ao redor das bainhas perivasculares. E: escore

4: presença de granulomas multifocais e coalescendo, há substituição da arquitetura esplênica normal.

A.

B. C.

SET/OUT 2019

D. E.

22

PARCEIROS NA 20° ED:


23

SET/OUT 2019


SET/OUT 2019

24

PARCEIROS NA 20° ED:


P a r t e

04

Estratégias tecnológicas

para conservação

de corais

Leandro Godoy 1,2,3 , Amanda Amaral 4 , Yugo Pastrana 4 Daniel Martignago 5 , Nayara Cruz 1 ,

Verônica Krein 2 , Wanderson Santos 1 e Tales Chaves 6

1

Programa de Pós-Graduação em Zootecnia

2

Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal

6

Graduado em Zootecnia

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS

3

Instituto Coral Vivo

4

Programa de Pós-Graduação em Aquicultura

Universidade Nilton Lins / INPA

5

Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução

da Biodiversidade

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

*projetoreefbank@gmail.com

Nos artigos anteriores

aprendemos o que

são corais e qual sua

importância para a existência

dos recifes, além dos benefícios

fornecidos por esses ecossistemas.

Vimos também como

esses animais estão ameaçados

por ações provocadas pela

humanidade, e qual o impacto

disso no planeta. Se fizermos

um somatório de tudo que

abordamos até aqui, perceberemos

que uma coisa é certa:

A situação é grave! O mundo

está passando por uma crise

climática, e eventos extremos

Os corais poderão

não ter tempo hábil

para se adaptarem, e

mortalidades em escala

global poderiam levar

ao desaparecimento

desse ecossistema.

estão colocando a vida dos corais

em risco. Pesquisas científicas

sobre o futuro dos recifes

mostram que os corais poderão

não ter tempo hábil para

se adaptarem, e mortalidades

em escala global poderiam levar

ao desaparecimento desse

ecossistema. Dessa forma,

cientistas de todo o mundo

estão “em uma corrida contra

o tempo” para buscar estratégias

que auxiliem na conservação

dos corais. Vamos juntos

conhecer um pouco dessas

iniciativas?

SET/OUT 2019

25


SET/OUT 2019

A fragmentação

acelera a taxa de

crescimento desses animais

em até 50 vezes, quando

comparada com colônias

não fragmentadas.

Microfragmentação de corais

Uma das estratégias mundialmente utilizadas é a

microfragmentação. Mas como funciona essa técnica?

A resposta é simples! Como já mencionado no artigo

“O mundo peculiar dos corais: ciclo de vida e formação

de recifes”, os corais são animais que, em sua maioria,

agrupam-se e formam colônias. Cada indivíduo que faz

parte de uma colônia é chamado de pólipo. A ideia

da microfragmentação, como o próprio nome sugere,

nada mais é do que fracionar uma colônia em pequenas

partes, com menos de 10 pólipos cada. Você deve

estar se perguntando: como “quebrar” uma colônia

em vários pedaços pode ser útil? Parece bem contraditório,

não é?! Mas, por incrível que pareça, essa

fragmentação acelera a taxa de crescimento desses

animais em até 50 vezes, quando comparada com colônias

não fragmentadas. Isso acontece porque esses

microfragmentos são estimulados a se recuperarem e

crescerem mais rapidamente, para assim repor os pólipos

perdidos.

O descobridor dessa técnica foi o Dr. David

Vaughan, biólogo marinho do programa de restauração

de recifes de coral do Mote Marine Laboratory

(Flórida, Estados Unidos). Frustrado com técnicas de

crescimento ineficientes, Vaughan decidiu mudar seus

corais para outro tanque, na esperança de ter alguma

melhora no crescimento. Nessa transferência, ele acidentalmente

acabou quebrando micro partes de uma

colônia, que afundaram no tanque. Ele as deixou lá,

acreditando que morreriam. Mas, para sua surpresa,

quando foi revisitar o tanque semanas depois, aqueles

microfragmentos além de sobrevirem, formaram uma

nova minicolônia. Foi observado também que, como

as minicolônias geradas a partir da microfragmentação

são clones umas das outras, pois vieram de uma mesma

matriz (colônia-mãe), elas têm a capacidade de se

reconhecerem geneticamente e se unirem. Com isso,

colônias que antes demorariam décadas para atingir

um tamanho relativamente grande, conseguem fazê-lo

em poucos anos (Figura 1).

Diversas instituições do mundo têm praticado a microfragmentação,

tais como: SECORE (México), Bonaire

Reef Renewal Foundation (Caribe), Coral Restoration

Foundation (Estados Unidos), Ocean Quest

(Tailândia), Tropical Research and Conservation Centre

(Malásia) e Gili Eco Trust (Indonésia). A técnica foi

inicialmente aplicada em espécies de corais ramificados

como Acropora cervicornis (coral-chifre-de-veado) e

Acropora palmata (coral-chifre-de-alce), e já mostra algum

sucesso também em corais maciços como

Orbicella faveolata (coral-estrela-de-montanha) e

Montastraea cavernosa (coral-casca-de-jaca).

Seja mantendo as colônias fragmentadas em laboratório,

onde se tem um ambiente controlado, ou diretamente

no mar, essa técnica possibilita uma produção

em massa de corais. Porém, por se tratar de clones, a

microfragmentação não introduz indivíduos geneticamente

mais resistentes as mudanças climáticas (principal

ameaça a sobrevivência dos corais). Dessa forma,

essa técnica por si só é extremamente frágil para a conservação,

uma vez que eventos climáticos podem continuar

dizimando recifes em larga escala. Contudo, é

uma alternativa para recuperar rapidamente ambientes

recifais degradados, nos ajudando a ganhar um pouco

mais de tempo nessa batalha contra a extinção.

Criopreservação de gametas

A criopreservação é outra iniciativa que vem sendo

explorada pelos cientistas. Criopreservar significa manter

viáveis sistemas vivos (células, tecidos) estocados

em baixas temperaturas. Essas temperaturas são tão

baixas (normalmente a -196 °C) que paralisam qualquer

atividade biológica, inclusive o envelhecimento,

degradação do material genético (DNA) e morte celular.

É, literalmente, como se as células parassem no

tempo (seja por um dia, um ano ou cem anos) e, após

retornarem à sua temperatura natural, “voltassem a viver

numa boa, como se nada tivesse acontecido”. Por essa

razão, a criopreservação é considerada uma das estra-

26

PARCEIROS NA 20° ED:


Figura 1. Técnica de

microfragmentação

de corais no Mote

Marine Laboratory

(Flórida, Estados

Unidos).

© Mote Marine

Laboratory

tégias mais eficientes para conservação da diversidade

biológica, tanto animal quanto vegetal.

Quando se pensa em criopreservação, sem sombra

de dúvidas, o exemplo mais frequente que vem à

mente é o congelamento de gametas (espermatozoides

e óvulos) e embriões utilizados pelas clínicas de

reprodução humana, para posteriormente formar o

famoso “bebê de proveta”. A ideia do uso dessa biotecnologia

para a conservação dos corais é exatamente

a mesma. “Ah! Então é bem simples: é só congelar os

gametas dos corais e pronto, problema resolvido?!” Infelizmente,

não! Para obter sucesso no congelamento é

necessário conhecer características básicas dos espermatozoides

e óvulos, como tamanho e formato dessas

células, e sua sensibilidade à baixas temperaturas

e aos agentes químicos que serão utilizados durante

o processo. Essas informações são importantes para

criar um meio de congelamento que atenda todas as

exigências específicas dessas células, garantindo que

esses gametas sejam armazenados de forma eficiente

e por tempo indeterminado. Conhecer esses detalhes

em nível celular e molecular é um dos grandes desafios

para criação de protocolos eficientes de criopreservação,

principalmente com relação ao gameta feminino

(óvulo), que biologicamente é muito mais complexo

que o espermatozoide. Dessa forma, embora seja

comprovada a eficácia da criopreservação para a conservação

de espécies, a utilização dessa biotecnologia

é escassa em corais.

Apenas dois grupos de pesquisa no mundo já conseguiram

desenvolver protocolos para criopreservação

de gametas de corais, sendo um deles coordenado

pela Dra. Mary Hagedorn (Smithsonian Institution, Havaí)

e outro pela Dra. Sujune Tsai (Mingdao University,

Taiwan). Atualmente, esses protocolos são utilizados

com sucesso para o congelamento de espermatozoides

de 31 espécies, das quais três estão localizadas no

Havaí, três no Caribe, quatro na Polinésia Francesa e

21 na Grande Barreira de Corais (Austrália). Além disso,

também estão sendo testados meios para o congelamento

de óvulos e larvas de coral. O Projeto ReefBank

é o primeiro em todo o Oceano Atlântico Sul

a testar protocolos de congelamento (Figura 2) para

gametas de três espécies de corais-cérebro (Mussismi-

SET/OUT 2019

27


Figura 2. Armazenamento de gametas de coral em nitrogênio líquido.© Mari Lopes | Projeto ReefBank.

SET/OUT 2019

lia harttii, Mussismilia hispida e Mussismilia braziliensis).

Essas espécies (Figura 3) são encontradas somente aqui

(são endêmicas) e estão entre as principais construtoras

dos recifes brasileiros. Se bem sucedida, essa tecnologia

permitirá que os gametas fiquem congelados

e armazenados por tempo indeterminado e, quando

desejado, esse material poderá ser descongelado e utilizado

para dar vida a novos corais, que poderão no

futuro auxiliar na restauração de recifes degradados.

Evolução assistida

Vamos conhecer outra estratégia que está sendo

testada para conservação dos corais: a evolução assistida.

Essa ferramenta é bastante empregada para

melhorar características de plantas e animais de interesse

comercial, como por exemplo: torná-los mais

tolerantes ao estresse ambiental, pragas e herbicidas.

Baseado nisso, os estudos pioneiros coordenados pela

pesquisadora que foi a principal referência no assunto,

Dra. Ruth Gates (1962-2018), do Instituto de Biologia

Marinha no Havaí, passaram a avaliar como a evolução

assistida pode ser uma eficiente estratégia para conservação

de recifes coralíneos, utilizando três principais

abordagens: formação de um “super coral”, experiência

prévia ao estresse e otimização da simbiose.

A primeira abordagem é baseada em uma característica

comum encontrada na natureza: o fato de alguns

organismos serem mais resistentes que outros.

No caso dos corais, existem aqueles que conseguem

sobreviver a águas mais quentes e ácidas, enquanto

outros morrem. Com isso, foi feito o seguinte questionamento:

“e se criarmos super corais”, que sejam mais

resistentes e que consigam repovoar recifes degradados?!

Diversas espécies foram expostas a diferentes

condições ambientais, de acordo com as projeções

climáticas para o futuro. Os gametas das espécies que

conseguiram sobreviver as condições extremas foram

então utilizados na reprodução in vitro (quando promovemos

o encontro do espermatozoide com o óvulo),

gerando corais que sejam “tão fortes quanto os seus

pais’’.

A segunda abordagem funciona como uma memória.

É como se você precisasse fazer pela primeira vez

algo que considere muito difícil. Essa certamente será

uma situação desconfortável e estressante para você.

Agora imagine que, passado essa primeira experiência,

você precise novamente realizar essa atividade.

Provavelmente o grau de dificuldade dela não será tão

grande quanto foi na primeira vez, pois você já passou

por essa situação antes, já sabe como lidar com

28

PARCEIROS NA 20° ED:


ela. A ideia é exatamente a mesma para os corais: ao

expor esses animais a uma série de condições estressantes

espera-se que, aqueles que consigam sobreviver,

quando passarem novamente por essa situação,

ela não seja mais tão estressante, “pois eles adquiriram

em sua memória um manual de como sobreviver a esse

estresse”. Como dizia Ruth Gates, “o que não te mata,

te fortalece! ”

A terceira e última abordagem da evolução assistida

para a conservação de corais está relacionada com a

otimização da simbiose. Como já discutido em artigos

anteriores, algumas espécies de corais vivem uma “relação

amorosa” (simbiose) com microalgas (zooxantelas).

Vimos também a importância desse relacionamento

para a saúde dos corais e o impacto que o “fim

desse romance” pode causar, fenômeno conhecido

como branqueamento. Outro detalhe importante é

que algumas dessas microalgas são mais resistentes a

elevadas temperaturas e a acidez da água do que outras,

e isso pode ter uma relação direta com a própria

capacidade de resistência dos corais à essas condições.

Dessa forma, otimizar a simbiose é como ‘’fazer um

jantar especial para quem amamos: queremos oferecer

para essa pessoa a melhor refeição”. A ideia é a mesma

para os corais: “ofertar” a eles as “melhores e mais

fortes zooxantelas”, que consigam suportar condições

que outras não suportariam, fortalecendo o “laço de

amor entre eles e dando a essa história um final feliz”.

Figura 3. Colônia do coral Mussismilia harttii. © Mari Lopes | Projeto ReefBank

SET/OUT 2019

29


SET/OUT 2019

Figura 4. Colônia de Acropora sp. em aquário marinho. © iStock

Aquicultura de corais

Seja por suas cores exuberantes, suas diferentes

formas e beleza que fascina, os corais atraem a atenção

de aquaristas, tornando-se um mercado de interesse

na área de aquicultura (criação de organismos aquáticos).

Além da criação daqueles corais de alto valor

comercial, a aquicultura também pode ser uma forma

de conservação de espécies. Em um local controlado

e seguro (longe de possíveis catástrofes ambientais), a

aquicultura pode manter viva a diversidade genética de

muitas espécies, que poderiam, em situação oportuna

e com critérios científicos, serem utilizadas em programas

de restauração de ambientes degradados.

Atualmente, as espécies mais produzidas são as do

gênero Acropora, Montipora, Sarcophyton e Discosoma,

sendo Indonésia, Filipinas e os Estados Unidos os

maiores produtores. No mercado de aquarismo marinho

brasileiro é comum os hobbistas iniciarem com

a criação de espécies que demandam baixa manutenção,

que sejam menos exigentes em qualidade da água

e de baixo custo, os chamados corais soft (moles).

Entre os corais moles mais buscados e criados estão

Mushrooms, Leathers, Zoanthus, Palythoas, Carpets,

Xenias e Green Star Polyps (Briareum sp). São facilmente

encontrados em lojas de aquarismo por valores

variando entre R$ 25,00 a R$ 400,00. A medida

em que o aquarista ganha mais experiência, inicia-se

a busca pelos corais chamados “Large Polyp Stony –

LPS” (corais pétreos de grandes pólipos) e “Small Polyp

Stony – SPS” (corais pétreos de pequenos pólipos). Estes

corais (Figura 4) exigem cuidados minuciosos, pois

até mesmo uma variação de 2 ºC na temperatura do

aquário pode levá-los a morte, assim como acontece

nos oceanos. Luminosidade, pH e dureza são outros

parâmetros que precisam ser monitorados e controlados

na água. As famosas e desejadas Acróporas e

Montíporas se classificam como SPS, por possuírem

pequenos pólipos sobre uma grande base de esqueleto

calcário. Estes corais precisam de fotoperíodo e movimentação

da água controlados. Os corais LPS e SPS

possuem grande variação de valor no mercado, partindo

de R$ 80,00 e chegando a ultrapassar R$ 3.000,00.

No Brasil, a aquicultura de corais ainda é pequena

e restrita. As principais empresas produzem

aproximadamente 200 espécies, as quais são

importadas do Mar Vermelho, Austrália e Indonésia.

É importante destacar que a retirada, comercialização

e criação de espécies da costa brasileira

é proibida, sendo considerada crime ambiental.

Educação ambiental

Todas as iniciativas que buscam conservar os recifes

de coral são bem-vindas. No entanto, para que se

tenha uma máxima eficiência, é importante que a sociedade

esteja alinhada com essas estratégias. Por isso,

a educação ambiental é peça fundamental na conscientização

das pessoas. É preciso que a população como

um todo, e não apenas o meio científico, se identifique

e se aproxime do meio ambiente que a cerca e

a protege. Só assim será possível ter a compreensão

e identificar hábitos de vida e consumo que impactam

negativamente os recursos naturais.

Só é possível preservar aquilo que se conhece! Os

recifes de coral são ecossistemas “invisíveis” aos olhos

de grande parte da população, mas impactam direta

ou indiretamente a vida de milhões de pessoas. Assim,

aproximar e informar a sociedade sobre a importância

desse ecossistema é um importante desafio para quem

trabalha com conscientização e educação ambiental: primeiro

pelo fato de que a grande maioria não sabe que

corais são animais e não rochas ou vegetais, segundo

porque demonstrar a importância de algo tão distante

do dia-a-dia já é por si só desafiador. Por essas razões,

uma das preocupações do Projeto ReefBank é aliar a

pesquisa científica com a educação ambiental, informando

e educando, de modo acessível, consciente e eficaz.

A natureza, e tudo o que ela possui, é nossa casa.

É dela que obtemos tudo que precisamos para viver.

Mas, para que as coisas funcionem em sua perfeita totalidade,

é preciso que a casa esteja em ordem. Que

esse período de quarentena sirva para refletirmos sobre

o impacto dos nossos atos no planeta, e qual o

futuro que queremos como humanidade.

Os estudos do ReefBank estão sendo desenvolvidos

no âmbito da Rede de Pesquisas Coral Vivo (patrocinado

pela Petrobras) com a parceria do Instituto

Coral Vivo, e conta com o apoio financeiro da Fundação

Grupo Boticário e do Fundo Brasileiro para a

Biodiversidade (Funbio).

Consulte as referências bibliográficas em

www.aquaculturebrasil.com/artigos

30

PARCEIROS NA 20° ED:


31

SET/OUT 2019


© Nathieli Cozer

SET/OUT 2019

32

PARCEIROS NA 20° ED:


A produção integrada na

carcinicultura brasileira:

desafios e potencialidades

Nathieli Cozer*; Giorgi Dal Pont; Aline Horodesky e Antonio Ostrensky

Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA)

Departamento de Zootecnia, Setor de Ciências Agrárias

Universidade Federal do Paraná

Curitiba, PR

*nathielicozer@gmail.com

Nas últimas décadas,

a carcinicultura

brasileira tem vivido

momentos desafiadores.

Entre 2003 e 2005, o Brasil

se destacava como um dos

principais produtores e exportadores

de camarão marinho

da América do Sul. Aí veio a

ação antidumping promovida

por produtores norte-americanos

e, de uma hora para outra,

os produtores brasileiros

foram forçados a despejar no

mercado interno 98% de toda

a sua produção. Mais de uma

década depois, os efeitos daquela

ação antidumping ainda

se fazem sentir.

Como se isso não bastasse,

a carcinicultura brasileira

tem historicamente enfrentado uma série de problemas

que dificultam a regularização dos empreendimentos,

afastando novos investidores e limitando o

A Produção Integrada

(PI) se apresenta como

uma alternativa para

auxiliar os produtores

a superar os gargalos

enfrentados nos últimos

anos.

desenvolvimento da atividade,

tais como: i) lentidão e burocracia

no licenciamento ambiental;

ii) conflitos com outros usuários

de áreas costeiras; iii) denúncias

quanto ao potencial poluidor

da atividade; e iv) surtos epidêmicos,

como o da Síndrome

da Mancha Branca (WSSV).

Em tal cenário, ser mais eficiente

não pode e não deve

ser encarado como algo utópico,

mas como objetivos bem

definidos a serem alcançados,

entre eles, o uso ordenado e

mais eficiente de recursos e

insumos, melhorias no processo

de comercialização da

produção e redução de impactos

e de conflitos socioambientais.

Neste contexto,

a Produção Integrada (PI) se apresenta como

uma alternativa para auxiliar os produtores a superar

os gargalos enfrentados nos últimos anos.


A PI é um conceito relativamente novo que envolve

um regime sistêmico de produção agropecuária

que tem como princípios a minimização dos desperdícios

e impactos (ambientais, sociais ou econômicos)

ambientais associados, visando a maximização dos lucros

(Figura 1). Este regime já vem sendo empregado

em diferentes áreas da agropecuária brasileira e mundial

(fruticultura, bovinocultura, avicultura e outras).

Figura 1. Princípios fundamentais da Produção Integrada a

serem aplicados na Carcinicultura marinha brasileira.

Rastreabilidade

Excelência

Estabilidade

ambiental

PI

Redução de perdas

e desperdícios

Capacitação

A PI é um processo de produção voluntário e de

livre adesão. Mas, se quiser obter a certificação do seu

empreendimento segundo os princípios da PI, o carcinicultor

precisará seguir um conjunto de NTE (Normas

Técnicas Específicas), cuja aplicação será auditada periodicamente

na propriedade. No Brasil, essa certificação

é realizada por empresas acreditadas pelo Inmetro

e a sua gestão e fomento são realizados pelo Ministério

da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Cultivar camarões marinhos de acordo com os

princípios da PI não implica na mudança radical de técnicas

e métodos de cultivo de camarões, mas sim em

uma administração produtiva mais rigorosa, controlada,

integrada e sistêmica. Isso obviamente exigirá um

grau de profissionalismo em toda a cadeia produtiva

da carcinicultura, demandando planejamento, organização,

rigor com os processos técnicos e operacionais,

padronização, capacitação e qualificação.

SET/OUT 2019

Diversidade

biológica

Manejo

integrado

Seu uso específico na carcinicultura foi amplamente

discutido e estudado na obra “A Produção Integrada

na Carcinicultura Brasileira” (Figura 2), publicado em

dois volumes, pelo Grupo Integrado de Aquicultura e

Estudos Ambientais (GIA) da Universidade Federal do

Paraná e disponibilizado gratuitamente no site: www.gia.

org.br/portal.

Figura 2. Volume I e II da obra “A Produção Integrada na

Carcinicultura Brasileira”.

Cultivar camarões

marinhos de acordo com

os princípios da PI não

implica na mudança radical

de técnicas e métodos de

cultivo de camarões, mas

sim em uma administração

produtiva

mais rigorosa,

controlada,

integrada e

sistêmica.

34

PARCEIROS NA 20° ED:


Material e métodos

Para avaliar os potenciais e os desafios para fazer da

PI uma alternativa para promoção do desenvolvimento

da carcinicultura marinha no Brasil, foi realizada uma

análise de Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças

(SWOT), comparando-se a produção integrada

com a produção convencional (PC).

As componentes da SWOT foram estabelecidas

com base em pesquisa bibliográfica sistemática (seguindo

a metodologia PRISMA) e, posteriormente, agrupadas

em oito “áreas temáticas” (Técnica, Organizacional,

Econômica, Mercadológica, Social, Ambiental,

Sanitária e Institucional).

Resultados

Quando essas áreas temáticas são representadas

na forma de gráfico radar (Figura 3), pode-se observar

que, em relação ao conjunto de fraquezas, oportunidades

e ameaças não há uma diferenciação tão evidente

entre a PC e a PI. As maiores diferenças entre

os regimes estão relacionadas às forças em potencial

apresentadas por empreendimentos estruturados e

gerenciados segundo as normas da PI. Entre elas, destaca-se

a possibilidade de redução dos danos causados

por doenças e dos riscos de introdução e disseminação

de patógenos. Isso se deve à adoção obrigatória de

boas práticas de manejo, biossegurança e bem-estar

animal na PI. A adoção de tais práticas, por sua vez, ajuda

a evitar a proliferação e a disseminação de doenças.

Figura 3. Comparação, na forma de gráfico radar, das áreas temáticas (Técnica, Organizacional, Econômica, Mercadológica,

Social, Ambiental, Sanitária e Institucional) entre a Produção Convencional (linha contínua) e Produção Integrada (linha

pontilhada). (A) Forças; (B) Fraquezas; (C) Oportunidades; (D) Ameaças.

Técnica

Técnica

Institucional

Organizacional

Institucional

Organizacional

Sanitária

Econômica

Sanitário

Econômica

Ambiental

Marketing

Ambiental

Marketing

Social

Técnica

Social

A. B.

Técnica

Institucional

Organizacional

Institucional

Organizacional

Sanitária

Econômica

Sanitária

Econômica

SET/OUT 2019

Ambiental

Marketing

Ambiental

Marketing

Social

C.

Social

D.

35


© Nathieli Cozer

SET/OUT 2019

O foco da PI na redução do uso de energia e na otimização

de recursos e insumos também chama a atenção.

Para que isso seja possível, os produtores precisam

estabelecer objetivos e os passos necessários para garantir

a eficiência energética por meio da: minimização

de perdas; planejamento de instalações e de obras; uso

de combustível e maquinários; práticas de trabalho e,

ainda, um cronograma de manutenção e revisão de

equipamentos e das instalações utilizadas na fazenda.

A consequência natural do processo de otimização no

uso de recursos é a redução de impactos e de desperdícios,

que, por sua vez, podem levar ao aumento da

viabilidade econômica do empreendimento.

Outro aspecto a ser considerado é que grande

parte dos princípios da PI estão relacionados à qualidade

ambiental, por meio da menor perturbação dos

ecossistemas. A PI não proíbe, por exemplo, o uso de

fertilizantes, pesticidas, antibióticos, entre outros, mas

determina que os mesmos devem sempre ser utilizados

como último recurso e apenas nos casos em que

as perdas forem economicamente inaceitáveis e não

puderem ser impedidas por mecanismos reguladores

naturais.

Outra vantagem da PI está relacionada ao maior

controle e padronização de dados, processos produtivos,

administrativos e de gestão ao longo da cadeia

produtiva. Tais procedimentos facilitam a identificação

de problemas, a correção de técnicas empregadas, a

prevenção de riscos e a redução de perdas e de desperdícios

que podem ocorrer ao longo do processo

produtivo. Além disso, servem de base para o cumprimento

de outra exigência comum da certificação: a

rastreabilidade de produtos e processos.

Entre os principais entraves relacionados

à adoção da PI destaca-se o fato

de que esse regime é uma forma ainda

inédita de se produzir camarões e, por

esse motivo, ainda é necessário que as

NTE sejam definidas e validadas pelo

MAPA para a certificação dos empreendimentos.

Outro desafio associado ao regime

de PI diz respeito ao mercado e, mais

especificamente às possíveis dificuldades

para a diferenciação dos produtos oriundos

da PC e da PI junto ao consumidor.

O argumento de que esse regime de

produção valoriza a saúde do ambiente,

do produtor e do consumidor é válido

e verdadeiro, mas talvez insuficiente para fazer

com que o consumidor aceite pagar mais por um

produto certificado.

Conclusões

Não se espera que uma certificação de adesão voluntária

e que exige uma administração sistêmica e altamente

profissional dos empreendimentos e dos processos produtivos

venha, em curto prazo, ser incorporada e que

revolucione um setor tão diverso em sistemas, tecnologias

de produção e capacidade de investimento como é a

carcinicultura brasileira. Ainda assim, a PI apresenta forças

potencialmente superiores às da PC e, a médio e longo

prazo, é quase certo que muitos de seus conceitos serão

inevitavelmente incorporados à rotina dos empreendimentos

de carcinicultura no Brasil, mesmo naqueles empreendimentos

não certificados.

No mercado internacional de camarões três tendências

se destacam atualmente:

1) o combate às fraudes, especialmente aquelas relacionadas

à rotulagem incorreta de produtos à base de

camarão;

2) a exigência de qualidade, rastreabilidade e certificação

do produto comercializado;

3) a tendência de redução de preços.

Quem pensa em investir ou já investe na produção

de camarões precisa estar atento a tais tendências, pois

elas podem vir a afetar o seu negócio um dia. É justamente

nesse cenário que a produção integrada pode,

aos poucos, conquistar importantes espaços na carcinicultura

brasileira.

36

PARCEIROS NA 20° ED:


37

SET/OUT 2019


SET/OUT 2019

© Jéssica Brol | Aquacultue Brasil

38

PARCEIROS NA 20° ED:


Uso de hidrolatos como

aditivo alimentar e

antiparasitário na piscicultura

Adolfo Jatobá 1 *, Laura Rafaela da Silva 1 , Delano Dias Schleder 1 , Artur de Lima

Preto 1 , Fernanda Guimarães de Carvalho 1 , Jaqueline Inês Alves de Andrade 1 ,

Robilson Antonio Weber 1 e Marina de Oliveira Pereira 2

1

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Catarinense - IFC

Campus Araquari

Laboratório de Aquicultura

Araquari, SC

*jatobaadolfo@gmail.com

2

Médica Veterinária

Geneseas Aquacultura

São Paulo, SP

O

uso de produtos

de origem natural

pelos homens é

uma prática antiga. As plantas

produzem metabólitos secundários

voláteis para suas

necessidades não nutricionais,

com fins de proteção ou

atratividade alimentar (Kéïta;

Traore-Keita et al., 2000),

além disto, grande parte desses

metabólitos possuem atividades

farmacológicas com

fins medicinais (Koehn; Koehn

e Carter, 2005).

Atualmente o uso de

óleos essenciais é amplamente

estudado pelas instituições

de pesquisa, por apresentarem

diversas funções bioativas

como: promotor de crescimento,

aprimorar atividade antimicrobiana, agente

antiparasitários, antioxidantes, imunoestimulantes,

adjuvantes na preparação de vacinas, anestésicos,

Recomenda-se

fortemente a otimização

da dosagem em termos

de dose ideal, duração e

modo de administração

para ser estudada.

entre outras (Silva et al., 2019;

Syahidah, A. et al., 2015).

Em geral, os produtos naturais

são considerados menos

tóxicos e mais seguros do que

os sintéticos e alopáticos, além

de demonstrarem ser uma alternativa

efetiva ao controle de

doenças e promoção do crescimento

na aquicultura, uma vez

que por muitas vezes as drogas

sintéticas demonstram efeitos

colaterais negativos. Entretanto,

seus efeitos às vezes são dependentes

da dose e existe um

potencial de sub ou superdosagem,

esses efeitos negativos

podem ser evitados por meio

de melhorias no método. Portanto,

recomenda-se fortemente

a otimização da dosagem em

termos de dose ideal, duração e modo de administração

para ser estudada (Syahidah, A. et al., 2015).


SET/OUT 2019

As substâncias das plantas medicinais podem ser retiradas

das folhas, caule, raiz, ramos, sementes e até

de algumas flores. Um dos métodos mais comuns é a

hidrodestilação com o uso do Aparelho Tipo Clevenger,

em que a água, em elevada temperatura, atravessa

o tecido da biomassa levando consigo os metabólitos

contidos nas plantas (Stangarlin e Pascholati, 1994).

O óleo liberado é vaporizado com o choque térmico

e conduzido ao condensador formando a mistura

de óleo essencial e hidrolato (subproduto) para então

serem resfriados, voltando à fase líquida (Souza et al.,

2007).

Geralmente o hidrolato (caracterizado como fração

aquosa contendo o óleo essencial emulsionado) obtido

da hidrodestilação é descartado. Porém, muitos

estudos comprovaram a eficácia desse subproduto.

Falque et al. (2013), utilizaram hidrolato de Artemisia

annua como fármaco para malária. Enquanto o estudo

do subproduto da extração de Laurus nobilis (loureiro)

mostrou a presença de álcoois terpênicos e fenóis,

apresentou-se rico em fibra e foi utilizado na alimentação

de ruminantes (Di Leo Lira et al., 2009).

Hidrolatos na piscicultura

Em 2016 o Laboratório de Aquicultura do Instituto

Federal Catarinense (IFC), campus Araquari, iniciou

suas pesquisas com os hidrolatos de hortelã-comum

(Mentha villosa) e açafrão-da-terra (Curcuma longa),

com intuito de avaliar a atividade antiparasitária e melhoria

da imunidade, respectivamente.

• Menta

A menta ou hortelã-comum (Mentha villosa) é uma

planta originária da Europa, pertencente à família Labiatae.

É utilizada na fitoterapia por ter propriedades

anti-inflamatórias, anti-hepatotóxica, anti-helmíntica

e de imunoestimulação, além de também ser consumida

in natura, como condimento, e contribuir com

sua essência para a fabricação de perfumes, bebidas e

doces (Arruda et al., 2006). Os constituintes químicos

principais do óleo essencial desta planta são o mentol,

mentofurona, pineno, limoneno e cânfora, possuindo

também tanino, ácidos orgânicos, flavonoides, heterosídios

(De Matos et al., 1999).

• Curcuma

O açafrão-da-terra (Curcuma longa) é uma planta

herbácea da família Zingiberaceae. Possui folhas grandes

e flores amareladas dispostas em espiga. No Brasil

o rizoma dessa planta é utilizado como tempero na

culinária, pois possui grande quantidade de curcumina

no seu rizoma (Marchi et al., 2016).

Os principais componentes dos óleos essenciais

são turmerona, dehidroturmerona e cetonas aromáticas

(zingibereno, alfa-felandreno, sabineno, cineol e

borneol) em menores proporções (Mata et al., 2004).

Além disso, a curcuma é utilizada na fitoterapia por ter

propriedades anti-inflamatórias, anti-hepatotóxica, anti-

-helmíntica (Lorenzi et al., 2008) e de imunoestimulação

(Ferreira et al., 2010).

C

U

R

C

U

M

A

Resultados e pesquisas em

andamento

A descoberta recente do hidrolato como potencial

produto terapêutico emerge a necessidade de avaliar

a concentração e tempo ideais para otimizar a ação

destes produtos, incluindo em animais. A importância

de se avaliar a dose já foi demostrada em estudos na

medicina humana. O sistema implantado pelo Food and

Drugs Administration, no período de 1993 a 1998, detectou

5.307 casos de erros relacionados ao uso de

medicamentos, dentre os erros que induziram a morte

dos pacientes, 40,9% foram causados por dose imprópria

(Cohen et al., 1996). Assim, foram realizados

trabalhos com intuito de definir um protocolo de uso

do hidrolato de menta (M. villosa) para tilápia-do-nilo

(Oreochromis niloticus), como agente antiparasitário.

M

E

N

T

A

40

PARCEIROS NA 20° ED:


O trabalho foi dividido em duas etapas:1ª) para definição

da concentração; e 2ª) para definição do tempo.

Após a determinação de tempo e dose (Pereira et al.,

2020), foi possível observar uma eficácia antiparasitária

para brânquias e muco, superior a 80% (Figura 1).

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária

e Abastecimento (MAPA), Portaria n° 48, de

12/05/1997, o registro de produtos antiparasitários

para mamíferos domésticos só é possível se sua eficácia

estiver acima de 90%. Estudos demonstraram que

o hidrolato de M. villosa apresenta o efeito ovicida sobre

nematóides gastrintestinais de bovinos no teste in

vitro. As concentrações de hidrolato a 80% e 100%

mostraram eficácia acima de 98% (98,40% e 100%,

respectivamente), valor considerado altamente efetivo

(Nascimento et al., 2009).

Entretanto para peixes e organismos aquáticos, não

há uma legislação que defina a eficácia de um medicamento

para estes animais. Isto pode prejudicar a avaliação

de medicamentos para peixes, pois o objetivo dos

tratamentos é o controle de parasitos de maneira significativa,

e não, necessariamente, sua eliminação acima

de 90% (ONAKA et al., 2018).

Já com o açafrão-da-terra (C. longa) foram realizadas

pesquisas para definir dose a ser incorporada a ração,

assim como, trabalhos para avaliar o uso em conjunto

com probiótico.

Na análise de atividade antimicrobiana de tilápias-

-do-nilo alimentadas com dietas suplementadas com

diferentes doses de hidrolato de curcuma, foi observado

uma redução significativa na capacidade antimicrobiana

no soro dos peixes alimentados com as maiores

TILÁPIA-DO-NILO

doses (Pereira et al., 2020) de hidrolato de C. longa

conforme é observado com a regressão polinomial

(Figura 2). Essa redução pode ser associada a atividade

das substâncias bioativas da C. longa já descritas na

literatura como possíveis agentes antimicrobianos (Zorofchian

et al. 2014). Além disto, a suplementação com

o hidrolato de Curcuma longa não alterou a homeostasia

da tilápia-do-nilo (O. niloticus), demonstrando o

seu potencial para uso na alimentação desses peixes

em doses baixas (2,5% ou menos).

O óleo essencial da curcuma apresentou atividades

antibacterianas para Staphylococcus aureus e Bacillus

typhosus (Majolo et al., 2014) e Caroccia (2013) comprovou

a eficácia do açafrão da terra contra larvas de

Toxocara canis. Fato que corrobora com os dados obtidos,

demonstrando o potencial farmacêutico da planta

à piscicultura.

Figura 1. Eficácia (%) nos diferentes tempos de hidrolato de Mentha villosa como agente antiparasitário para monogêneas para tilápia-do-nilo

(Oreochromis niloticus).

Muco

Brânquia

Eficácia do hidrolato (%)

100

80

60

40

20

0

89,29

83,93

83,93

80,19

66,07

63,06

51,59

33,12

15 30 45 60

Tempo de banho terapêutico (minutos)

SET/OUT 2019

41


Figura 2. Atividade antimicrobiana do soro da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) alimentadas com diferentes concentrações

de Curcuma longa.

2,50

2,0

1,50

Log 2 (x+1)

1,00

0,50

y = -0,1981x 2 +0,5944x +1,1887

R 2 = 1

0,00

-0,50

-1,00

0,0 2,5 7,5

Dose de hidrolato de C. longa

10,0

SET/OUT 2019

Considerações finais

Atualmente o uso dos óleos essenciais já é

uma realidade implantada em diversas áreas da

saúde humana e animal, entretanto o uso (pesquisa

e comercial) dos hidrolatos ainda está em

fase incipiente. Este subproduto da extração

dos óleos essenciais possui propriedades

farmacológicas com diversas aplicações,

entretanto, há necessidade de se

definir estratégias de uso quanto: dose,

tempo e via de aplicação. Trata-se de

uma matéria prima de baixo custo

com grande potencial de uso, em

especial para tratamentos preventivos,

por normalmente não deixar

resíduos nos animais e na água, (poderia

ser utilizado) permitindo seu

uso com periodicidade.

Este trata-se de

uma matéria prima

de baixo custo com

grande potencial de

uso, em especial para

tratamentos preventivos,

por normalmente não

deixar resíduos nos

animais e na água.

Consulte as referências

bibliográficas em

www.aquaculturebrasil.com/artigos

42

PARCEIROS NA 20° ED:



SET/OUT 2019

44

PARCEIROS NA 20° ED:


Começa a inovação no projeto

AquaVitae com o lançamento

dos primeiros protótipos

de aquicultura envolvendo

cooperação entre países do

Atlântico

Mais de 100 novos

protótipos para

cadeias de valor da

aquicultura foram apresentados

em uma recente reunião

anual do projeto, realizada

no final de abril, quando pesquisadores

e produtores do

setor aquícola ao redor do

Atlântico se reuniram online

para compartilhar os resultados

do primeiro ano do projeto

AquaVitae. Os protótipos

são os primeiros resultados

da colaboração entre empresas

e pesquisadores do setor

aquícola no projeto AquaVitae,

com financiamento de €

AquaVitae é um

projeto Horizon 2020

que desenvolve soluções

sustentáveis para

aquicultura em países

banhados pelo oceano

Atlântico.

8 milhões de Euros pela União

Europeia.

Pesquisadores participantes

do projeto estão desenvolvendo

novas soluções na produção de

espécies de baixo nível trófico,

incluindo macroalgas, moluscos,

equinodermos, camarões e

peixes. Os protótipos incluem

desde novos métodos de

produção de algas a novas

combinações de Aquicultura

Multitrófica Integrada (AMTI).

Além disso, também inclui a

produção de espécies de nível

trófico elevado, como peixes

de água doce (tambaqui e

pirarucu) e marinhos (linguado).

SET/OUT 2019

45


SET/OUT 2019

“Essas soluções serão melhor desenvolvidas ao longo

do projeto, mas esse é um ponto de partida excelente,”

diz Philip James, coordenador do projeto e cientista

sênior no centro de pesquisa norueguês Norwegian

Institute of Food, Fisheries and Aquaculture Research

(Nofima).

Inovação na aquicultura

A missão do projeto AquaVitae é introduzir novas

espécies, além de novos produtos e processos

nas cadeias de valor da aquicultura marinha e de água

doce nos países banhados pelo oceano Atlântico.

São 35 parceiros da indústria e da pesquisa de 15

diferentes países espalhados por 4 continentes, que

fazem parte do projeto. Além de países europeus,

protótipos para a indústria estão sendo desenvolvidos

em outros países, como Brasil e África do Sul.

“Ao longo dos próximos 24 meses, os protótipos serão

avaliados quanto a sua capacidade de satisfazer as

necessidades, demandas e segurança dos consumidores,

além de critérios como sustentabilidade ambiental

e viabilidade econômica,” diz Philip James, coordenador

geral do projeto.

Ele acredita que este processo ajudará a garantir a

viabilidade e sucesso de novas espécies, processos e

produtos que constituirão os resultados do projeto.

Uma conferência virtual ao redor do

Atlântico

A reunião anual iria ocorrer originalmente em Florianópolis,

Brasil. Contudo, devido à pandemia do

Covid-19, os 80 participantes tiveram que se reunir

virtualmente.

A conferência durou 3 dias e incluiu um workshop

com stakeholders brasileiros, cujo objetivo era apoiar

um aumento nas colaborações de pesquisa entre Europa

e Brasil.

“Tivemos uma excelente discussão e destacamos tópicos

importantes para serem tomados como base para

desenvolver relações mais próximas entre as indústrias

aquícolas do Brasil e da Europa” disse Eric Routledge,

Chefe de Pesquisa na Embrapa Pesca e Aquicultura.

Os participantes foram a Associação Brasileira

de Piscicultura (PeixeBR), a Associação Brasileira

de Criadores de Camarão (ABCC), a Secretaria de

Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura (SAP/

MAPA), o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações

e Comunicações (MCTIC), a Comissão Nacional

de Agricultura (CNA), a Federação das Indústrias

do Estado de São Paulo (FIESP) a Associação Brasileira

de Aquicultura e Biologia Aquática (Aquabio), que representou

os pesquisadores em aquicultura do Brasil,

representante das empresas produtoras de rações e

vários produtores aquícolas.

Pela Europa, participaram tomadores de decisão,

membros da DG Research and Innovation, European

Aquaculture Technology and Innovation Platform (EA-

TiP), Innovation Norway e dos projetos AANChOR,

BlueEco Net; que apresentaram como diferentes soluções

para apoiar a colaboração entre a comunidade

científica e o setor produtivo vem sendo desenvolvidas

na Europa. A reunião também contou com representantes

do setor aquícola da África do Sul.

Cooperação brasileira e estudos de

caso

O AquaVitae possui vários estudos de caso conduzidos

no Brasil, incluindo AMTI em sistemas de

viveiros e de bioflocos, espécies de peixes de água

doce (pirarucu e tambaqui) e marinhas (linguado).

Além disso, outros estudos de caso utilizando ostras,

rações e algas também têm parte de suas etapas realizadas

no Brasil. A colaboração é apoiada pelos centros

de pesquisa brasileiros, universidades e empresas

participantes do consórcio AquaVitae listados a seguir:

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),

Universidade Federal do Rio Grande (FURG),

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),

Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

(UNESP) e a empresa de aquicultura orgânica Primar

Aquacultura Ltda.

O AquaVitae possui

vários estudos de caso

conduzidos no Brasil,

incluindo AMTI em

sistemas de viveiros e de

bioflocos, espécies de

peixes de água doce e

marinhas.

46

PARCEIROS NA 20° ED:


A EMBRAPA participa do projeto AquaVitae com

quatro centros de pesquisa: Pesca e Aquicultura (Palmas-TO),

Tabuleros Costeiros (Aracajú-SE), Meio Norte

(Teresina-PI) e Amazônia Ocidental (Manaus-AM).

Nesse projeto, atua em pesquisas com duas espécies

de peixes de água doce (tambaqui e pirarucu), ostras e

cultivo multitrófico integrado, além de temas transversais

como: política e governança, economia e marketing,

sensores e gestão de dados.

A Universidade Federal do Rio Grande (FURG),

através do seu Núcleo de Aquicultura e Biotecnologia

Marinha do Instituto de Oceanografia, está participando

do projeto AquaVitae em quatro frentes de pesquisa:

1) Estudo de Bioflocos (Biofloc Technology – BFT) em

sistemas intensivos de produção do camarão-branco

Litopenaeus vannamei; 2) Pesquisa de Aquicultura Multitrófica

Integrada envolvendo o camarão L. vannamei e a

tainha (Mugil sp.) em sistemas BFT; 3) Desenvolvimento

de modelo de aquicultura orgânica integrada com camarões,

macroalgas e ostras nativas (em parceria com

a UNESP e Primar Aquacultura) e 4) Estudo do peixe

marinho Paralicthys orbignyanus (Linguado) em sistemas

de aquicultura de circulação fechada. Todos os trabalhos

de pesquisa contam com a participação de docentes

e professores do Programa de Pós-Graduação em

Aquicultura da FURG.

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

atua em 3 frentes dentro do projeto: 1) Cultivo integrado

de camarões e macroalgas (Ulva sp.) em sistema de

bioflocos, 2) em um pacote tecnológico para reprodução

e cultivo de espécies do gênero Ulva nativas do Brasil

e 3) no desenvolvimento de rações com ingredientes

de baixo nível trófico para aquicultura, avaliando a substituição

de óleo de peixe na dieta de camarões por uma

farinha de microalga. Estão sendo avaliadas duas microalgas

Aurantiochytrium (rica em DHA) e Nannochloropsis

(rica em EPA) como substituto ao óleo de peixe.

A Universidade Estadual Paulista (Unesp) está

atuando basicamente em três tópicos principais: 1)

Desenvolvimento de um modelo de cultivo integrado

orgânico envolvendo algas, camarões marinhos e ostras

para aumentar a eficiência, produtividade e lucratividade

da maricultura no Brasil. 2) Desenvolvimento

de tecnologia de produção de pirarucu e tambaqui, 3)

Desenvolvimento de metodologia para avaliação da

sustentabilidade e serviços ambientais da aquicultura no

âmbito dos países banhados pelo Oceano Atlântico.

FACT BOX: O projeto AquaVitae

• AquaVitae é um projeto de pesquisa e inovação

financiado pelo programa da União Europeia

(UE) Horizon 2020.

• O objetivo do projeto é introduzir novas espécies,

além de novos processos e produtos nas cadeias

de valor da aquicultura ao redor do Atlântico.

• As cadeias de valor estudadas incluem macroalgas,

Aquicultura Multitrófica Integrada (AMTI),

equinodermos (ex. pepino-do-mar), moluscos e peixes.

AMTI é um sistema de produção no qual espécies

de diferentes níveis tróficos são cultivadas utilizando

os resíduos de uma espécie como fonte de

nutrientes para outras espécies.

• O projeto inclui 13 estudos de caso que visam

soluções para diferentes espécies, processos e

problemas transversais.

• AquaVitae apoia a implementação do Acordo

de Belém (Belém Statment) para permitir colaborações

internacionais em pesquisa ao redor do oceano

Atlântico. Este é um acordo trilateral entre a UE,

o Brasil e a África do Sul.

SET/OUT 2019

Imagens: © Jefferson C. Christofoletti; Sylvain Huchette; ALGAplus.

47


Consórcio do Projeto AquaVitae:

SET/OUT 2019

1. Nofima (Norway)

2. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuaria- Embrapa (Brazil)

3. Universidade Federal do Rio Grande- FURG (Brazil)

4. Universidade Federal de Santa Catarina (Brazil)

5. Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Brazil)

6. Danmarsk Tekniske Universitet (Denmark)

7. Sjókovin (Faroe Islands)

8. SPF Ocean Rainforest (Faroe Islands)

9. PF Fiskaaling (Faroe Islands)

10. Alfred- Wegener-Institut Helmholtz-Zentrum fur Polar-Und Meeresforschung

(Germany)

11. Verein Zur Forderung des Technologietrasfers an der Hochschule Bremerhaven

EV (Germany)

12. Matis OHF (Iceland)

13. Galway-Mayo Institute of Technology (GMIT)

14. University of Namibia (Namibia)

15. Miljostiftelsen Bellona (Norway)

16. Norut Northern Research Institute AS (Norway)

17. Universitet I Tromsoe – Norges Arktiske Universitet (Norway)

18. Universidade do Porto – CIIMAR (Portugal)

19. Centro de Ciencias do Mar do Algarve (Portugal)

20. Rhodes University (South Africa)

21. Stellenbosch University (South Africa)

22. Biolan Microbiosensores SL (Spain)

23. Centro Tecnológico del Mar – Fundación CETMAR (Spain)

24. Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas – CSIC (Spain)

25. Universidad de Las Palmas de Gran Canaria (Spain)

26. IVL Svenska Miljoeinstitutet AB (Sweden)

27. The Scottish Association for Marine Science LBG (United Kingdom)

28. University of New England (United States)

29. Primar Aquacultura Ltda (Brazil)

30. Scea France Haliotis (France)

31. Cartron Point Shellfish LTD (Ireland)

32. Algaplus Producao e Comercializacao de Algas e Seus

Derivados LDA (Portugal)

33. Marifeed PTY LTD (South Africa)

34. Wild Coast Abalone (South Africa)

35. Bohus Havsbruk AB (Sweden)

Contatos:

• Eric A.B. Routledge

eric.routledge@embrapa.br

Embrapa

• Patricia Moraes Valenti

moraesvalenti@gmail.com

UNESP

• Luis André Sampaio

sampaio@mikrus.com.br

FURG

• Felipe do Nascimento Vieira

felipe.vieira@ufsc.br

UFSC

• Marcia Kafensztok

primarorganica@gmail.com

PRIMAR Aquacultura

Site do projeto:

https://aquavitaeproject.eu/

Vídeo explicativo sobre

o projeto AquaVitae:

Clique na imagem para ser direcionado

ao vídeo.

48

PARCEIROS NA 20° ED:


49

SET/OUT 2019


Empresa:

Beraqua

Mais de 25 anos de experiência

Sempre ao lado dos produtores, e neste momento de

pandemia não poderia ser diferente

SET/OUT 2019

Líder nacional do mercado de soluções para

o manuseio e produção de equipamentos

para criação de peixes e camarões, a Beraqua

(também conhecida como Bernauer Aquacultura)

possui uma linha que atende aos mais exigentes

desafios da atividade. Pioneira no desenvolvimento

e distribuição de equipamentos e acessórios voltados

para a criação em cativeiro de várias espécies

aquáticas, tanto de água doce como de água salgada.

Possui ampla linha de produtos cujo foco sempre

foi a otimização da produção, excelência em

resultados e redução de custos. Entre os produtos

destacam-se aeradores, alimentadores automáticos,

medidores de oxigênio (da renomada marca

americana YSI) e caixas para transporte de peixes

vivos. Recentemente a empresa lançou um redesign

dos aeradores Aquamix e Aquapá, melhorando

a proteção dos motores e otimizando sua estabilidade

na superfície da água. Também lançou um

sistema integrado de alimentação e aeração com

controle a distância que pode ser programado e

acompanhado no celular. Um sistema revolucionário

e inteligente já implementado em algumas das

maiores fazendas de camarão do Equador. Projeto

esse em constante expansão e que vem ao encontro

à tendência da indústria 4.0.

Os aeradores Beraqua têm como vantagem a

maior taxa de transferência de oxigênio do mercado,

além da consagrada qualidade e durabilidade.

Estes equipamentos passam por inovações constantes,

como por exemplo, a adequação ao padrão

IR3 de alto rendimento dos motores bem como

implementação dos rolamentos mais resistentes do

mercado. Junto com a marca Beraqua vem uma

tradição e segurança de mais de 25 anos de experiência.

Durante este momento complicado da Pandemia

e luta contra a Covid-19, a empresa continua

sua produção normal, mas tomando as medidas

de segurança recomendadas. Entende seu papel

na indústria alimentícia como suporte para que os

produtores rurais tenham condições de atender

a população. Com isso em mente e com a ajuda

de parceiros, está flexibilizando as formas de pagamento

reduzindo preços de um lote de aeradores

Aquamix aos produtores rurais, neste momento. O

intuito também é incentivar a solidariedade de seus

clientes aonde sugere que parte do benefício seja

repassada a comunidades carentes através de doações

de alimentos. Confira condições e vigência da

promoção no site www.beraqua.com.br ou através

do telefone 47 3334 0089.

50

Espaço empresa


Esp

ço empresa

CLIQUE AQUI

Recentemente

a empresa lançou

um redesign dos

aeradores Aquamix e

Aquapá, melhorando

a proteção dos

motores e otimizando

sua estabilidade na

superfície

da água.

www

*CONTATO: www.beraqua.com.br

(47) 3334 0089

@beraquaacuicultura

/Beraqua Acuicultura

SET/OUT 2019

*Painel Interativo (clique para acessar cada um dos meios de contato).

Espaço empresa

51


Potential of indigenous Bacillus spp. as probiotic feed

supplements in an extruded low fish meal diet for juvenile

olive flounder, Paralichthys olivaceus

Autores: Kai‐Min Niu, Sanaz Khosravi, Damini Kothari, Woo‐Do Lee, Bong‐Joo Lee, Sang‐Gu Lim,

Sang‐Woo Hur, Sang‐Min Lee e Soo‐Ki Kim

Os probióticos têm sido usados como aditivos para rações, melhorando aspectos do

desempenho zootécnico, resposta imune e resistência a doenças em várias espécies de

peixes de cultivo. Diante dos benefícios, juvenis de linguado foram alimentados por 12

semanas para avaliar o potencial probiótico de diferentes Bacillus adicionados a dietas

extrusadas com baixa inclusão de farinha de peixe (30% de uma mistura de proteína

alternativa). Uma dieta rica em farinha de peixe serviu como controle.

Entre os principais pontos destacados na manuscrito, estão:

Os resultados indicaram que a dieta com baixa inclusão de farinha de peixe

foi bem tolerada pelo linguado e o desempenho geral não foi afetado

pelos tratamentos dietéticos;

Os aditivos Bacillus testados não enriqueceram a abundância relativa

do Bacillus correspondente na microbiota intestinal do linguado,

nem demonstraram diferença significativa na promoção do

crescimento.

SET/OUT 2019

Houve um efeito de aumento positivo sobre os parâmetros

relacionados à resposta imune humoral dos linguados alimentados

com dietas contendo Bacillus.

Embora a inclusão dietética de probiótico não promoveu melhora

no desempenho zootécnico, ainda podem ser economicamente viáveis ​

para uso como imunoestimulantes em dietas comerciais de linguado com

substituição parcial de farinha de peixe.

Quer saber mais? Confira no Journal World Aquaculture Society

https://doi.org/10.1111/jwas.12724

52

PARCEIROS NA 20° ED:


Home office de aquicultor

Cadê a máscara?

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

53


SET/OUT 2019

Fábio Sussel

Pesquisador Científico em Aquicultura e Apresentador Canal #VaiAqua

Pirassununga, SP

fabiosussel@hotmail.com

Afinal, produzimos peixe conforme a

demanda do nosso mercado?

Posso dizer que vi nossa aquicultura nascer, crescer

e hoje ser uma realidade no agronegócio

brasileiro. Já estamos na aquicultura mecanizada e

migrando rapidamente para a aquicultura automatizada.

E tenho muito orgulho e satisfação por, de certa

forma, ter deixado alguma contribuição para este desenvolvimento

nos últimos anos.

Por conta deste íntimo envolvimento com a atividade,

seja peixe ou camarão, tenho muita convicção

para dizer: “Nascemos com a intenção de produzir espécies

nobres para as classes A e B e ainda não conseguimos

nos desvencilhar disso”. Exceto no caso das

Carpas no sul do Brasil, onde se via uma produção

mais voltada para a agricultura familiar, historicamente

sempre se buscou o aperfeiçoamento de tecnologias

para espécies nobres: Pacu e Tilápia, depois os híbridos

de pintados e híbridos de redondos, Matrinxã, Piraputanga,

aí veio o Pirarucu, enfim, várias espécies e

cruzamentos com um mesmo objetivo: produzir uma

espécie de qualidade “top” para agradar aos paladares

mais aguçadas.

Além de saboroso, de preferência que este peixe

fosse apresentado na forma de filé. Sem sombra

de dúvidas algo sensacional. Inclusive reconheço que

também pactuei por muito tempo desta visão de

mercado. Acontece que, se um por um lado desenvolvemos

um lindo trabalho no campo, por outro

creio que tenha faltado uma melhor leitura, um melhor

entendimento do mercado.

Outro fato interessante. Ou nosso foco foi produzir

filé de espécie nobre ou exportar. Exportar, exportar,

exportar... O melhor negócio do mundo! Se não

damos conta nem de atender a todas as demandas

internas, para que olhar para o mercado externo?

Pensando no brasileiro da classe E até a classe A,

quais tipos de pescado podemos produzir para atender

nossa demanda em sua plenitude? De forma simplista,

o cenário atual da oferta de pescado no Brasil

por classes e algo do tipo:

1) Nossa aquicultura produzindo para atender

as classes A e B, porém, concorrendo com salmão e

bacalhau importado;

2) Pesca comercial com uma pequena participação

nas classes A e B e com expressiva participação

das classes C, D e E;

3) Mas quem realmente tá deitando e rolando

nas classes C, D e E é a merluza da Argentina, a Polaca

do Alaska e o Panga do Vietnam.

Cabe ressaltar que em termos de volume financeiro,

estas classes menos favorecidas movimentam

mais dinheiro que a classe elitizada. E aí que simplesmente

não temos qualquer participação nestas

classes.

Fundamental registrar que recentemente tivemos

um forte trabalho com o PangaBR visando atender

a estas classes menos favorecidas. Continuo torcendo

pra que esta iniciativa emplaque, mas ... ainda não

se firmou. E é justamente aí que talvez tenhamos a

grande falha do setor: ainda estamos à procura da ES-

PÉCIE MARAVILHA, parafraseando aqui meu amigo

Sérgio Tamassia.

Os principais produtores mundiais de pescado

trabalham com uma ou duas espécies e nós aqui tentando

trabalhar com pelo menos 10 espécies! Não

precisamos ficar pesquisando e querendo reinventar

a roda atrás de novas espécies. A tal “espécie maravilha”

NÃO EXISTE! O que existe é uma melhor leitura

do mercado e novas estratégias em cima daquilo que

já temos pacote tecnológico formatado, que já temos

cadeia produtiva estabelecida e que nossos consumidores

já conhecem.

Tilápia de 900 gramas inteira eviscerada, posta de

tilápia, tilápia de 400 gramas inteira eviscerada, posta

54

PARCEIROS NA 20° ED:


de tambaqui, tambaqui “curumim”, que é o tambaqui de

400 – 500 gramas retalhado, são apenas alguns exemplos

de espécies que já criamos com alta eficiência e que

poderiam ser apresentadas de forma diferente e então

atender a diferentes classes de consumidores que estão

ávidos para comer peixe, mas não tem condições financeiras

de comprar filé.

Talvez, ao invés de pensar em qual espécie devemos

produzir, deveríamos pensar em como vamos

fornecer aos consumidores proteína aquática! Sem vaidades

e, acima de tudo, rentável para quem produz.

Em tempo, é simplesmente mágico poder atuar em

uma indústria tão dinâmica, com tantos desafios a serem

superados e que o mundo aguarda ansiosamente por novas

soluções vindas do universo aquático. É por isto que a

aquicultura é tão apaixonante.

Figura 1. Filé

de tilápia e

costelinha de

tambaqui.

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

55


Um pouco da história e uma breve reflexão sobre

o uso dos substratos verticais em sistemas

intensivos é o tema da coluna Green Technologies

desta edição. Afinal, quando o assunto é substratos,

ainda pairam dúvidas sobre essa ferramenta. Em termos

históricos países como Índia, China, Bangladesh,

entre outros, há centenas de anos já utilizam essa

prática no cultivo extensivo de peixes e crustáceos,

utilizando materiais simples como o bambu. Na América

Latina esse método foi popular nos anos 90 e

início dos anos 2000, principalmente se tratando de

cultivo de camarões marinhos. Nesta época diversos

materiais foram utilizados desde malhas especializadas

(famosos AquaMats®), telas tipo mosquiteiro, sacos

de ráfia e bambus. Nos sistemas de bioflocos, os primeiros

trabalhos foram realizados no início dos anos

2000 nos EUA e Austrália utilizando os AquaMats.

No Brasil, o uso se popularizou principalmente para

berçários intensivos, no entanto, utilizando geotêxtis

da construção civil (famoso Bidim® e similares). Mas

quais são as principais vantagens e desvantagens dos

substratos verticais? A Tabela 1 sumariza para nós.

Maurício Gustavo Coelho Emerenciano

CSIRO - Austrália

Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

mauricioemerenciano@hotmail.com

*As opiniões citadas abaixo do primeiro autor são exclusivamente pessoais e não necessariamente remetem as

opiniões das instituições vinculadas ao mesmo.

Bioflocos e os substratos verticais:

um casamento pra lá de sustentável

Recentemente pesquisadores da Universidade

do Estado de Santa Catarina (UDESC)* publicaram

um artigo na revista Aquaculture International sobre

a utilização dos substratos verticais e o desempenho

de camarões Litopenaeus vannamei ao utilizar rações

contendo 30 ou 35% de proteína bruta. Os resultados

demonstraram a possibilidade de reduzir os níveis

proteicos das rações utilizando os substratos, sem afetar

o crescimento e a sobrevivência dos crustáceos e

ainda diminuir a conversão alimentar. Segundo os autores,

isso representou uma redução nos custos com

rações na ordem de 15%.

Mas qual é a situação atual quanto ao uso dos

substratos? Infelizmente poucas fazendas aplicam esse

conceito, seja pelas desvantagens citadas na Tabela 1

ou por mero desconhecimento. Desde os anos 2000,

a ciência já vem demonstrando os benefícios no uso

dos substratos para diversas espécies. Fica a dica! Até

a próxima.

O artigo completo citado acima está disponível

em: https://link.springer.com/article/10.1007/s10499-

020-00521-4.

Tabela I. Vantagens e desvantagens dos substratos verticais

SET/OUT 2019

Vantagens

Aumento da superfície e área relativa

Proteção e aumento da sobrevivência

(camarões marinhos)

Maior controle dos compostos

nitrogenados (agregação microbiana)

Disponibilidade de alimento natural aderido

(diminuição das conversões alimentares)

Desvantagens

Custo de aquisição e reposição

Manejo (substituição, limpeza e

desinfecção, caso necessários)

Alguns materiais podem entupir as

mangueiras porosas de aeração

-

*Artigo: Olier, B.S.,

Tubin, J.S.B., de Mello,

G.L. et al. Does vertical

substrate could influence

the dietary protein

level and zootechnical

performance of the

Pacific white shrimp

Litopenaeus vannamei

reared in a biofloc system?

Aquaculture International

(2020).

56

PARCEIROS NA 20° ED:


Green

TECHNOLOGIES

Figura I. Uso dos substratos verticais na América Latina e EUA em unidades intensivas de camarões marinhos. © Maurício

Coelho Emerenciano

Figura 2. Detalhe de camarões marinhos se alimentado do alimento natural aderido. © Maurício Coelho Emerenciano

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

57


SET/OUT 2019

58

PARCEIROS NA 20° ED:


NUTRIÇÃO AQUÍCOLA

Artur Nishioka Rombenso

R

ecentemente escrevemos o artigo “Ácidos graxos

essenciais em peixes, introdutório a uma seção especial”

* , publicado na North American Journal of Aquaculture.

Essa seção especial é o resultado de uma série de estudos

com cinco espécies-chave da aquacultura mundial, incluindo

a truta arco-íris, o bagre, a tilápia, o pampo e o híbrido

striped bass.

Definir as exigências nutricionais de ácidos graxos na

nutrição de peixes é uma tarefa complexa devido ao grande

número e diversidade de espécies de peixes criadas

mundialmente, às preferências biológicas em relação a

salinidade, temperatura e nível de carnivoria, aos diferentes

sistemas de criação e à flexibilidade na formulação das

rações. Até o presente, o conceito de exigência de ácidos

graxos mais utilizado na literatura se resume nas preferências

biológicas de salinidade e temperatura nas quais

se encontram a espécie em questão. Em outras palavras,

as espécies de água doce e tropicais não exigem os ácidos

graxos poliinsaturados de cadeia longa (em inglês LC-PU-

FA, como DHA - ácido docosahexaenóico, EPA - ácido

eicosapentaenóico, e ARA - ácido aracdônico) pois são

capazes de sintetizar os LC-PUFA através dos precursores

C18 PUFA, 18:3n-6 (ácido linoleico) e 18:3n-3 (ácido

linolénico). Por outro lado, as espécies de água salgada e

frias necessitam a suplementação de LC-PUFA nas dietas

por não sintetizarem esses nutrientes a partir dos C18

PUFA. Apesar de bem aceito, esse conceito não é muito

preciso e adequado para várias espécies.

Nesse contexto, introduzimos o nível trófico ou nível

de carnivoria, que classifica os organismos em relação à posição

que ocupam dentro da cadeia alimentar que varia de

1 a 5, onde 1 é o produtor primário e 5 é o predador mais

elevado, como um conceito mais preciso para prever as

exigências nutricionais de peixes. Também defendemos a

hipótese dos C18 PUFA possuírem limitadas funções fisiológicas

servindo estritamente como precursores dos LC-PU-

FA, enquanto que os LC-PUFA são os ácidos graxos mais

relevantes fisiologicamente.

CSIRO – Austrália

IPEMAR – Brasil

artur.rombenso@csiro.au

*As opiniões citadas abaixo são exclusivamente pessoais do autor e não necessariamente remetem as opiniões das instituições

vinculadas ao mesmo.

Nível trófico prevê a essencialidade

nutricional de ácidos graxos em peixes

Combinando esses fatores com a literatura existente e

os cinco estudos com as espécies anteriormente mencionadas

chegamos aos seguintes resultados e conclusões:

1.Tilápia e bagre - espécies com baixo nível trófico que

não exigem LC-PUFA; rações contendo C18 PUFA nas

proporções e concentrações corretas já são suficientes para

atender as exigências nutricionais de ácidos graxos dessas

espécies;

2.Truta arco-íris e pampo - espécies de médio nível trófico

que podem ou não exigir LC-PUFA, ou seja, elas têm

capacidade de sintetizar LC-PUFA através dos C18 PUFA,

porém dependendo das espécies a suplementação de LC-

-PUFA nas rações pode resultar em uma economia energética

e, consequentemente, maior crescimento;

3.Híbrido striped bass - espécie de nível trófico elevado

que exige LC-PUFA nas dietas para atender suas exigências

de ácidos graxos;

4.Espécies menos carnívoras não exigem LC-PUFA enquanto

que em espécies mais carnívoras há exigência dos

LC-PUFA nas rações.

Como toda regra, esse conceito também pode apresentar

exceções. Porém, com base na atual literatura e conhecimento

nessa área, podemos afirmar que o conceito

de nível trófico como previsor da essencialidade de ácidos

graxos em peixes é atualmente o conceito mais preciso que

existe e serve de base para profissionais no campo da aquacultura

e manejo pesqueiro.

Você sabe o nível trófico da(s) espécie(s) com que você

trabalha? Caso não saiba, acesse sites como o fishbase.com

e coloque o nome comum ou científico do seu peixe e descubra

o nível trófico. Uma vez com essa informação você já

terá uma ideia sobre a essencialidade de ácidos graxos da(s)

espécie(s).

Para mais detalhes e informações, recomendo a leitura

do nosso artigo bem como de todos os outros artigos que

compõem a seção especial da revista acima mencionada.

Espero ter trazido algo novo e útil para todos.

*Trushenski, J.T., & Rombenso, A.N. 2020. DOI: 10.1002/naaq.10137

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

59


Ricardo Vieira Rodrigues

Estação Marinha de Aquacultura - EMA

Universidade Federal do Rio Grande - FURG

Rio Grande, RS

vr.ricardo@gmail.com

SET/OUT 2019

FURG produz os primeiros juvenis de

miragaia Pogonias sp.

Em julho de 2019 o Laboratório de Piscicultura

Estuarina e Marinha da FURG começou a

formar um plantel de reprodutores de miragaia Pogonias

sp. a partir de projetos financiados pelo CNPq e

FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado

do Rio Grande do Sul). Os peixes capturados por

pescadores artesanais na praia do Cassino possuíam

entre 500 g e 2,5 kg (exemplares relativamente pequenos

para uma espécie onde os espécimes podem

ultrapassar os 30 kg). O objetivo era obter desovas

induzidas a partir de janeiro de 2020 ou no próximo

verão, a partir de dezembro de 2020 / janeiro de

2021. Surpreendentemente, no dia 02 de janeiro de

2020 foi observada a primeira desova natural e fertilizada

da espécie no laboratório e mais 4 eventos

de desova natural foram observados. As desovas não

foram grandes (afinal, os reprodutores também eram

pequenos e certamente foi o primeiro ciclo reprodutivo

desses peixes) e foram realizadas 4 larviculturas

no laboratório.

Os resultados até o momento são animadores. As

larvas eclodem com aproximadamente 2mm, começam

a se alimentar no segundo dia de vida e a partir

do 24-25° dia após eclosão já estão aptas a consumirem

exclusivamente ração. É uma larvicultura muito

rápida quando comparada a maioria das espécies de

peixes marinhos que possuem pacote de produção

de juvenis no Brasil, como linguado, robalo ou a garoupa.

A sobrevivência da larvicultura também foi bastante

elevada, sendo superior a 50% em todas as 4

larviculturas realizadas até o momento, o que proporcionou

uma produção superior a 50 mil juvenis. Até

o momento foi possível juntar informações sobre o

desenvolvimento das larvas, protocolo inicial de larvicultura

e com os juvenis realizar os primeiros estudos

para determinação dos principais parâmetros abióticos

que influenciam a produção dessa espécie.

Nos experimentos iniciais foi possível acompanhar

uma excelente taxa de crescimento dos

peixes em laboratório.

E por que apostar na produção da miragaia?

A miragaia é um cianídeo e em termos gerais

outras espécies já produzidas de cianídeo

apresentam fácil reprodução e larvicultura, a

miragaia apresenta exemplares capturados com

peso superior a 50 Kg e consequentemente,

grande porte potencial de crescimento. É uma

espécie eurialina (utiliza regiões estuarinas com

baixas salinidades) e euritérmica (grande distribuição

geográfica) e principalmente por ser

uma espécie com grande potencial para ser utilizada

em viveiros. Falo principalmente da questão

de sua produção em viveiros, pois temos

um grande número de viveiros ociosos no Brasil

em regiões costeiras e estuarina decorrentes

das fazendas de camarão que foram afetadas

por doenças e encerraram suas atividades.

Quais são os próximos passos para avaliar o potencial

aquícola da espécie?

Infelizmente a pandemia decorrente do Covid-19

a partir de março atrapalhou o desenvolvimento dos

estudos, mas mesmo assim, um total de mais de 10

mil juvenis foram distribuídos para produtores avaliarem

o crescimento da espécie em viveiros. O crescimento

também será avaliado em laboratório em

sistema de recirculação de água. Estudos de otimização

da larvicultura, aspectos nutricionais básicos, possibilidade

da produção dessa espécie em sistema de

bioflocos e avaliação do potencial de crescimento da

espécie, serão avaliados futuramente.

60

PARCEIROS NA 20° ED:


Figura 1. Ovos de Pogonias sp. © Marcelo Okamoto

Figura 2. Larva de Pogonias sp. recém eclodida. © Marcelo Okamoto

Figura 3. Dia 02 - larva de Pogonias sp. © Marcelo Okamoto

Figura 4. Juvenil de Pogonias sp. © Marcelo Okamoto

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

61


SET/OUT 2019

Visão

aquícola

Giovanni Lemos de Mello

Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

Editor-chefe da Revista Aquaculture Brasil

Laguna, SC

giovanni@aquaculturebrasil.com

Aquicultura: paixão e profissão

caminhando juntas!

Ilustríssimo leitor, espero que você compreenda

que, algumas vezes, seções como esta têm que

prestar um papel mais reflexivo e menos “informativo”.

Quem sabe uma “autoajuda”, ou qualquer outro

adjetivo que você queira dar, quando o assunto não é

aquicultura propriamente dita, como aeradores, bombas,

ou algum novo aditivo para alimentação de peixes.

Esses dias, um professor que tenho grande admiração

falou para mim “-Pois é, tenho que começar a

pensar nessa coisa de ganhar dinheiro... estive sempre

focado na carreira acadêmica, na universidade, na estabilidade

do emprego público, mas os tempos mudaram e

preciso repensar isto”...

“Essa coisa de ganhar dinheiro”... fiquei por semanas

com isso na cabeça...

Sentamos, tomamos um café e argumentei um

pouco sobre o que é o empreendedorismo... aliás, se

você tem alguma dúvida de que empreender não é

uma questão de dinheiro, indico assistir ao Day 1 do

Nizan Guanaes... basta digitar no Youtube: “Day 1 – Eu

ganhei muita coisa perdendo – Nizan Guanaes, Grupo

ABC”.

Eu já havia dito para uma professora que admiro

bastante, e que tem uma visão política completamente

antagônica a minha, que ela era a maior empreendedora

do campus da universidade onde trabalhamos...

empreender é criar oportunidades para pessoas, ajudar

o próximo, encurtar as distâncias, inovar oferecendo

serviços, produtos, facilitando processos. É pensar

fora da caixa, fazer surgir o novo!

Lamentavelmente os termos “empreendedorismo”,

“empresas”, “empresários” não soam muito bem

para algumas pessoas, principalmente aquelas que

acreditam que o dinheiro público nasce em árvores,

mas eu creio que é tudo questão de conversar e discutir

os diferentes pontos de vista.

Voltando à frase que me deixou perplexo, mas sei

que é um pensamento corriqueiro no País, “essa história

de ganhar dinheiro”, versus uma outra história, “a

história da estabilidade dos concursos públicos”.

Engraçado que as pessoas que têm perfil empreendedor

e que apostam suas fichas em abrir negócios,

são consideradas “dinheiristas”... algo muito controverso!

Na maioria das vezes, as ideias colocadas em prática

pelos empreendedores dão errado e muito dinheiro

se perde. Aliás, não tem quem perca mais dinheiro

tentando inovar ou montar um novo negócio do que

os empreendedores.

E se eu fizesse uma provocação? Dinheirista é

aquele que estuda anos para passar num concurso público

e depois “ficar de boa”, recebendo uma remuneração

mensal (dinheiro!), garantido por toda a vida (até

a aposentadoria!!), independente da sua produtividade.

Independente de o seu trabalho valer a remuneração

que recebe! Calma amigo leitor. Voltemos ao início da

frase. É apenas uma provocação.

Existe até o termo “concurseiros”. Muitos não estão

nem aí para qual será seu cargo ou função. Ficam

aguardando abrir os editais de concursos públicos. Não

fazem ideia de como será o trabalho, a cadeira que vão

ocupar por 30 ou 40 anos. E no final das contas, não

gostam do cargo para o qual “passaram”.

É uma busca frenética e cega pela estabilidade, pela

remuneração (dinheiro!)... Em troca, você passa a vida

inteira num local que talvez não seria ideal para você!

Você poderia ter chegado mais longe!!

Já ouvi esta frase centenas de vezes... “vou passar

num concurso para ficar tranquilo”... Já ouvi também

“Ah Giovanni, eu não sou igual a você que gosta dessa

coisa de trabalhar no sábado”...

Os empreendedores, como dezenas que eu poderia

citar e que fazem a aquicultura brasileira acontecer

de verdade, querem produzir peixes, camarões,

moluscos, algas, alimentos! Num país onde a maior

parte das empresas fecha nos primeiros dois anos de

62

PARCEIROS NA 20° ED:


existência, como achar fácil ou vantajosa “essa coisa de

ganhar dinheiro”?

Que fique claro que este não é um texto para falar de

ideologias e óbvio, também não é para generalizar, nem

criticar ninguém!

Existem milhares de servidores públicos que dedicam

sua vida ao seu trabalho... eu conheci dezenas

que me inspiraram demais em minha formação profissional,

como meus professores, meus grandes mestres

da UFSC, por exemplo. Vidas dedicadas a aquicultura

e que já inspiraram centenas de profissionais egressos

espalhados pelo Brasil e no exterior.

Este texto não é uma crítica ao servidor público, aliás,

eu também sou servidor público, ora bolas!

O objetivo é uma reflexão. Tentar demonstrar que as

pessoas devem lutar pela sua felicidade. Trabalhar a vida

inteira num local onde você não é feliz, apenas para garantir

um salário que você depois vai gastar integralmente

com várias despesas mensais (algumas supérfluas),

entre elas, estimulantes para ficar disposto durante o dia

e ansiolíticos para relaxar e conseguir dormir a noite.

A aquicultura é muito mais que isso!

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

63


Marcelo Shei

Fundador da Altamar Sistemas Aquáticos

Santos, SP

shei@altamar.com.br

SET/OUT 2019

Trocas de água em RAS

A

principal característica de um sistema de Aquicultura

em Recirculação (RAS) está na reciclagem

do efluente dos tanques de cultivo, resultando na

diminuição da demanda de água nova. Apesar de remeter

a ideia de que toda a água é reciclada, um RAS

é idealizado para diminuir a necessidade de trocas, mas

não a sua ausência.

Figura 1. Trocas de água em: (a) fluxo contínuo; (b) em batelada.© Altamar

A.

B.

Independentemente do motivo pelo qual decidimos

reciclar a água, trocas parciais são necessárias

para remover principalmente o nitrato e outros

contaminantes que tendem a se acumular na água.

De forma geral, quanto menor for a entrada de água

nova, mais complexo (e mais caro) será o sistema de

tratamento.

A quantidade de

água que é renovada é

definida pelo grau de

reuso (R), estabelecendo

a quantidade de

água reciclada e adicionada

ao sistema. A

estratégia da troca de

água pode ser realizada

de formas variadas,

baseada em trocas de

bateladas ou de fluxo

contínuo.

Assim, a porcentagem

de troca de água

é relacionada ao total

do fluxo do sistema em

um período de tempo

ou pelo total de água

trocada em relação do

volume do sistema.

Com o R podemos

definir a porcentagem

de água nova (Qn) em

relação ao volume total

(Qt) entrando no sistema.

Assim podemos

definir R da seguinte

forma:

64

PARCEIROS NA 20° ED:


R = [1 − (Qn /Qt)] * 100

Assim, se tivermos um fluxo de entrada de 120 L/

min em um sistema de 1000 L/min, o R será definido

dessa forma:

R = [1 − (120/1000)] * 100

R = 88%

A performance de um sistema não é baseada somente

no grau de reciclagem de água, uma vez que

existem variações baseadas na demanda da espécie,

densidade de estocagem e regime de alimentação.

Para a definição da performance, o mais adequado seria

o fluxo de troca de água em relação a densidade

de estocagem (volume utilizado por kg de animais), ou

a quantidade de ração adicionada ao sistema (volume

por kg de ração).

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

65


SET/OUT 2019

Diego Maia Rocha

Sócio-Diretor Synbiaqua Cultivos Aquáticos

Natal, RN

diegomaiarocha@synbiaqua.com.br

Em tempos de crise, a meta é: focar

no hoje, lembrando do ontem, sem esquecer

do amanhã

Imaginando uma narrativa para tentar explicar o

que está acontecendo em 2020, até o momento,

começamos assim: de um lado, a carcinicultura

brasileira, que caminhava para o ano recorde de

produção, com uma ascensão forte para os próximos

meses, refletidos pelos aumentos significativos de

produtividades, e do outro, a partir do mês de março,

para o Brasil, o encontro assustador com a COVID-19,

trazendo impactos alarmantes para o bem-estar da vida

humana e incertezas futuras com economia nacional

e mundial, levando a transformações no modelo de

comercialização em todos os segmentos.

A melhor temporada de produção do ano é o verão,

período em que a influência das variações climáticas

é menor, pois há mais estabilidade. Esse ano, devido

ao reflexo de melhoramento genético promovido

pelas larviculturas, pode-se considerar que esta temporada

foi um sucesso, inclusive, animadora pela estabilidade

de resultados. Exemplificando, em relação ao ano

passado foi possível constatar que a produtividade saiu

de 400-600 kg/ha em 2019 para o atual momento de

800-1000 kg/ha, então, dependendo das conjunturas

de mercado e da liquidez dos produtores, essa tendência

provavelmente poderá se manter ou aumentar para

a próxima temporada.

Naturalmente, com o respectivo cenário, já se

esperaria um ano de maior desafio para a comercialização

de camarão, pois em qualquer segmento em que a

oferta de um produto aumenta, a tendência do preço

médio é de diminuição, apesar do consumo de camarão

ser relativamente baixo no Brasil (580 g per capita

2019). Sem contar que, quando falamos de comercialização

do pescado, e o camarão não foge à regra, esse

fato fica ainda mais agravado pelo comportamento da

curva de sazonalidade de consumo e pela ainda pouca

capilaridade de comercialização.

Somado a esse cenário, a COVID-19, assim

como em outros segmentos, trouxe uma pressão ainda

maior no mercado do camarão, tanto no preço quanto

no fluxo de vendas, com alguns setores da indústria

alimentícia praticamente fechados ou com fluxos

de compra drasticamente reduzidos, como foi o caso

do food service e o varejo. O impacto foi duramente

sentido para os produtores que tiraram camarão nesse

período, além de expor a fragilidade de dependência

histórica que o setor produtivo tem dos atravessadores

e da venda majoritária do camarão fresco.

O momento para a carcinicultura, assim como

para toda a economia brasileira, é dramático, ao menos

pelos próximos 6-8 meses, refletidos no aumento do

desemprego, redução de salários e, claro, diminuição

do poder de compra da população. É de se esperar

que a retomada desses impactos seja progressiva e que

possa trazer mudanças em alguns modelos de comercialização.

Ao menos assim esperamos com a carcinicultura,

que nesse pouco tempo, mas que parece ser

eterno, está tendo algumas experiências, expectativas e

perspectivas que podem ser aproveitadas como herança

ou oportunidades para momentos futuros, especialmente

relacionadas a comercialização, como apontaremos

a seguir.

Experiências de comercialização:

mercado interno

Com a lentidão das despescas e preços de comercializações

impraticáveis por atravessadores, produtores

de vários estados, buscaram como alternativas: (1)

vendas diretas ao consumidor, (2) parcerias com supermercados

locais e (3) vendas de filé a preços acessíveis.

Essas experiências não resolveram o problema

da indústria, mas amenizaram e trouxeram uma esperança

positiva, principalmente porque aumentaram a

66

PARCEIROS NA 20° ED:


viabilidade de comercialização do camarão para o consumidor

final, aumentando também o acesso direto ao

produto.

Experiências de comercialização:

mercado externo

Com a política de valorização cambial do Brasil,

somada à crise provocada pela COVID-19 (o dólar

entre janeiro e abril de 2020 valorizou-se mais de

40% frente ao real), o cenário para exportações

seria uma saída natural, visto à queda de preços do

camarão no mercado interno. Isso, se a epidemia

não afetasse também os principais mercados

importadores de camarão no mundo: EUA, EU e AS.

Contudo, é preciso compreender a evolução ou

involução da COVID-19 nesses mercados, e o poder

de recuperação que cada um vai ter, mas já se pode

adiantar que Ásia, frente aos outros continentes já dá

sinais positivos de recuperação, e como mensagem

positiva, o MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária

e Abastecimento), por intermédio da Ministra Tereza

Cristina, anunciou no mês de abril que o Brasil

conseguiu habilitar 3 plantas de processamento de

camarão para a Coreia do Sul, uma excelente e

animadora notícia para o setor. Fica a expectativa que

para os próximos meses o Brasil comece a exportar.

Perspectivas futuras para

comercialização:

Grandes desafios podem trazer oportunidades

pela frente. Até o ano passado o Brasil era o mercado

consumidor em que todos os países produtores

de camarão gostariam de colocar seu produto, e

vão continuar querendo assim que o dólar baixar.

Afinal, somos 210 milhões de habitantes, de um país

emergente, que antes dessa crise tinha uma perspectiva

de crescimento da economia de 2% a.a. Não dá para

não pensar em oportunidades, somente fora do Brasil.

A título de comparação, o México com índices

parecidos em 2019, chegou a uma produção de

165.500 toneladas para 2019, para uma população

de 126,2 milhões de habitantes, adicionando a pesca

extrativa, o consumo per capita chegou a 1,68/kg/

habitantes. Se o Brasil tivesse o mesmo consumo, teria

que produzir mais de 350.000 toneladas, para atender

apenas ao mercado interno.

Os exemplos e modelos de comercialização

que estamos vivenciando durante essa epidemia,

demonstram que, melhorando a acessibilidade e

relação de custo benefício entre o produtor e o

consumidor, o potencial de consumo no mercado

interno poderá crescer exponencialmente. Muitos

consumidores ainda têm desconfiança na qualidade

do camarão, devido aos preços praticados, tamanhas

margens dos atravessadores, um desafio com que

certamente a indústria terá que se preocupar. Imagem

e marketing de organização setorial poderão ajudar,

assim como vemos em outras atividades.

Em relação ao mercado externo, o grande desafio

para os próximos meses é conseguir a abertura para

exportar para o mercado chinês, que hoje é o maior

importador mundial de camarão, e cuja demanda,

devido aos problemas de produção, tende a crescer

para os próximos meses. Outro ponto importante

é a liberação para retornar a exportar para Europa.

Assim, o Brasil, estaria habilitado para exportar para

os principais mercados importadores de camarão no

mundo.

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

67


Eduardo Gomes Sanches

Instituto de Pesca / APTA

Ubatuba, SP

esanches@pesca.sp.gov.br

SET/OUT 2019

Aquicultura ornamental - em tempos

de COVID-19

Covid-19. Um nome pequeno para um

organismo menor ainda que foi capaz de

provocar um estrago de proporções mundiais. Um

vírus que fez com que a ciência, na ausência de uma

vacina, orientasse o mundo a praticar o isolamento

social. A quarentena.

E o que isto tem a ver com a aquicultura ornamental?

Tudo. O fechamento das lojas de aquarismo, o risco

do desemprego e a redução do poder aquisitivo da

população levou a aquicultura ornamental a enfrentar

um dos seus maiores desafios. O segmento está sendo

duramente atingido. Muitos produtores de peixes

ornamentais não têm a quem vender, amargando

perdas econômicas significativas. As dificuldades em

adquirir insumos (ração, equipamentos) tem piorado

ainda mais o dia a dia dos empreendedores. Analistas

econômicos indicam que a recuperação econômica

do Brasil será lenta, não trazendo expectativas favoráveis

a esta cadeia produtiva. O desânimo toma conta

da aquicultura ornamental.

Dizem que aprendemos muito mais com nossos

erros do que com nossos acertos. E o que podemos

aprender com tudo isto? A primeira coisa é que as

cadeias produtivas precisam buscar novos canais de

comunicação. Empreendimentos que dispunham de

lojas virtuais e utilizavam mídias sociais para atingir o

mercado estão obtendo bons retornos. Mais do que

nunca a comunicação com o público alvo se tornou

uma vantagem competitiva. Abordagens inovativas,

tais como “lives” nas criações, câmeras “online” e tantas

outras ferramentas têm sido utilizadas para atenuar

este momento difícil. Mas ainda é muito pouco.

Relembramos também o que já sabíamos: o crescimento

da aquicultura ornamental está diretamente

relacionado com o desenvolvimento econômico do

país. Uma boa maneira de demonstrar isto, é falando

do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Este

índice é divulgado pelo Programa das Nações Unidas

para o Desenvolvimento (Pnud). O IDH é medido

em uma escala de 0 a 1. Leva em consideração três

pilares: saúde, conhecimento e padrão de vida. Quanto

mais próximo de 1 mais desenvolvido o país. Em

2019 obtivemos 0,761 ocupando a posição 79°!!!!

Estados Unidos, Japão, países europeus e a Austrália

ocupam as primeiras posições. Não é coincidência,

portanto, que nestes países a aquicultura ornamental

seja uma sólida cadeia produtiva. Por outro lado, o

relatório apontou que quase um terço de todas as

riquezas do Brasil estão concentradas nas mãos dos

1% mais ricos. O Brasil tem a segunda maior concentração

de renda do mundo, ficando atrás apenas do

Catar (este país faz fronteira com a Arábia Saudita). Já

deu para imaginar o problema da aquicultura ornamental

no Brasil? Quanto menor a base de público

que um segmento atua, mais dificuldades ele enfrenta

para atravessar crises. Ao longo dos próximos anos

deveremos observar uma piora dos indicadores econômicos

e uma maior concentração de renda, com

agravamento das desigualdades sociais. Nada disto

contribui para o crescimento da aquicultura ornamental

no Brasil. Certamente precisaremos de muito esforço

do setor produtivo, das instituições de pesquisa

e fomento e de ações governamentais para emergir

desta crise.

Mas tudo isto está em um plano mais macro, a

nível nacional. Individualmente como podemos contribuir

para modificar estas expectativas sombrias? A

primeira coisa a se fazer é contribuir para a divulgação

do hobby. O aquarismo é uma forma de se ligar a

natureza, de trazer paz interior pela oportunidade da

contemplação de habitats aquáticos dentro de nossas

próprias casas e de ampliar a compreensão da

importância da valorização da vida. Os aquários, de

diferentes tamanhos e propósitos, querem sejam de

68

PARCEIROS NA 20° ED:


água doce ou marinhos, podem ser uma extraordinária

ferramenta de agregação familiar (ainda mais

em tempos de quarentena) e utilizados para despertar

valores que tanto fazem falta na sociedade brasileira

em dias atuais.

Devemos também desmistificar o aquarismo.

Não é um hobby caro. Existem aquários para todos

os públicos. Pelo mesmo lado, este isolamento social

também nos mostrou como o investimento em “saúde

mental” pode ser vantajoso. Invista em sua tranquilidade,

invista em algo para ser praticado por toda

sua família, invista em objeto de decoração, um “quadro

vivo”, contribua com uma atividade produtiva que

traz renda e progresso social a inúmeras pessoas em

nosso Brasil. Tenha um aquário em casa!!!! Mesmo

que pequeno, simples e com peixes de água doce

de baixo custo. Envolva seus filhos, sua família. Tenho

certeza, você ficará impressionado em como uma

ação tão simbólica pode modificar nossa realidade.

Espero que esta crise passe logo. Espero que em

breve as coisas retornem a padrões mais sociáveis.

Mas acima de tudo, espero que você, amigo leitor,

monte um aquário. Nem que seja pela experiência.

Mas tenho certeza de que se você contrair o “vírus”

da aquicultura ornamental (para o qual, assim como

o covid-19, também não existe cura!!!), encontrará

inúmeros momentos de felicidade na mágica oportunidade

de recriar a natureza em pequenos espaços.

Até a próxima coluna. E não esqueça de montar seu

aquário (tem muitas lojas virtuais funcionando...).

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

69


Genética

SET/OUT 2019

Rodolfo Luis Petersen

Na última coluna publicada na 19° edição, abordei

o tema das diferenças entre caraterísticas

(crescimento e sobrevivência) de importância econômica

na aquicultura mundial e a estratégia de melhoramento

adotada em cada caso. Em um dos parágrafos

da mencionada coluna coloquei: “Outro fator

desmotivador é que os dados existentes da correlação

genética entre resistência a doenças e crescimento é

negativa, resultando que as famílias que mais crescem

são as menos resistentes”. Sendo assim, o que significa

“correlação genética negativa”?

1. O que é uma correlação?

No campo da estatística e da matemática a correlação

se refere a uma medida entre duas ou mais

variáveis que se relacionam, e é calculada através

do produto da soma dos desvios das medições de

cada caraterística com relação a sua média aritmética

(você pode consultar a fórmula completa na internet).

Essa relação pode ser positiva ou negativa porque

o somatório dos desvios com relação à média

pode resultar em um número positivo ou negativo.

Definimos como correlação positiva quando uma das

variáveis aumenta e a outra também aumenta, e vice-versa.

Correlação negativa quando uma variável

aumenta e a outra diminui. Na estatística é definido

como o coeficiente de correlação de Pearson e pode

variar entre o valor máximo de correlação positiva

(+ 1) ou o máximo valor negativo (-1). Quanto mais

o “r” (correlação) se aproxima de r= -1, maior será a

correlação negativa, ou seja, quanto maior esse valor

de uma variável, menor será o valor da outra que

estejamos analisando. Por outro lado, quanto mais

próximo de r= +1, maior será a correlação positiva,

ou seja, quanto maior o valor de uma variável, maior

será o valor da outra. Após esta compreensão, dentro

dos parâmetros genéticos que são calculados em

Laboratório de Melhoramento Genético de Organismos Aquáticos - GECEMar

Universidade Federal do Paraná - UFPR

Pontal do Paraná, PR

rodolfopetersen@hotmail.com

Correlações genéticas e fenotípicas

um programa de melhoramento genético, podemos

incluir as correlações genéticas e fenotípicas.

2. O que é uma correlação fenotípica?

Uma correção fenotípica é a relação existente entre

duas variáveis fenotípicas de interesse zootécnico.

Por exemplo: crescimento:sobrevivência; peso:comprimento

total; sobrevivência a determinado vírus:-

crescimento; largura de camada de gordura:peso total.

2.1 Qual o seu interesse prático?

Poderia citar inúmeras correlações fenotípicas de

interesse zootécnico e prático. A mais comum é a correlação

existente entre Peso Total e o Comprimento

Total. Se esta correlação é alta e muito significativa, podemos

optar por medir o indivíduo sem a necessidade

de pesarmos. Na prática, esta correlação é muito alta

e utilizada nos programas de melhoramento de camarões

marinhos com o objetivo de diminuir o erro da

pesagem devido a um excesso de água extracorpórea

que o indivíduo carrega no momento da biometria,

evitando a necessidade de um mecanismo de secagem

rápida. Outra utilidade é evitar o excesso de manipulação

e estresse, assim como, a diminuição do tempo

necessário para os processos de biometrias e seleção

(uma vez que depois desses manejos esse indivíduo

pode ser selecionado e formar parte de nosso futuro

plantel de reprodutores). Em resumo: uma correlação

fenotípica nos permite MEDIR uma variável sem

a necessidade de medir a outra, em nosso exemplo,

podemos medir o comprimento total do camarão individualmente

e estimar o peso total estatisticamente.

É importante ressaltar que as correlações precisam

ser muito altas e significativas, do contrário estaríamos

colocando um erro importante em nosso valor fenotípico,

levando ao erro do que mais nos interessa: o

valor genético.

70

PARCEIROS NA 20° ED:


3. O que é uma correlação genética?

Uma correlação genética é a correlação

existente entre os valores genéticos das caraterísticas

incluídas no programa. Igualmente

às correlações fenotípicas, podem ser negativas

ou positivas, entre os valores -1 e +1.

3.1 Para que se utiliza seu cálculo?

Vamos supor que temos uma correlação

genética alta, positiva e significativa entre a

caraterística “crescimento” e “sobrevivência”

a desafios frente ao Vírus da Mancha Branca

(WSSV) em camarões marinhos. Isto quer

dizer que, quanto maior for o valor genético

de uma família para a caraterística “crescimento”,

maior será o valor genético da família

para a caraterística “sobrevivência” frente

a uma determinada patologia (no exemplo,

resistência ao WSSV). Este resultado nos

permitiria selecionar os indivíduos ou famílias

com maior peso (g) em um determinado

tempo de cultivo, nos garantindo que serão

os indivíduos ou famílias mais tolerantes à

doença em questão. BINGO! Não preciso

gastar dinheiro com testes de desafios. Outra

aplicação interessante é para a seleção de

caraterísticas onde precisamos sacrificar o

indivíduo para poder mensurá-la, como por

exemplo, a textura do músculo (filé). Se o

comprimento da cabeça está correlacionado

geneticamente com a textura do músculo,

poderemos desenvolver uma população

com uma textura de músculo ideal exigida

pelo mercado, medindo e selecionando o

comprimento da cabeça.

SET/OUT 2019

Onde mais se usa o conceito de correlação?

Deixamos isso para a próxima coluna.

PARCEIROS NA 20° ED:

71


Ranicultura

Andre Muniz Afonso

Universidade Federal do Paraná - UFPR

Palotina, PR

andremunizafonso@gmail.com

SET/OUT 2019

A comunicação na Cadeia Ranícola em

momentos de Pandemia

o escrever a coluna passada abordamos o

A avanço da tecnologia voltado à comunicação

com o campo, claro, dando exemplos da ação

da extensão rural na cadeia ranícola na era das

tecnologias de comunicação em tempo real... parece

que estávamos adivinhando, pois nesse momento

de isolamento social por conta da Pandemia de

Covid-19, esse virou o principal meio de troca de

informações, orientações, aconselhamentos e afins.

Ninguém gostaria de estar vivenciando esta mudança

num momento tão delicado, mas ela chegou e nós

tivemos que nos adaptar sem demora. Apesar do desconforto

imposto pelo isolamento, já que somos seres

sociáveis, coisas boas também estão acontecendo,

como a enorme possibilidade de ver e ouvir pessoas

das mais diversas áreas proferindo palestras e cursos,

ensinamentos estes muitas vezes restritos ao ensino

presencial. Não estamos aqui para tecer comparações

entre os dois tipos de ensino (Online e Presencial), o

fato é que essa é a única forma de permanecer estudando

novos assuntos com o auxílio de um tutor, professor,

instrutor... Diante deste quadro, por que não

realizar um evento de ranicultura? O que nos impede?

Nada. E é exatamente sobre isso que falaremos aqui,

já que demos o pontapé inicial para que isso saísse do

campo das ideias e se tornasse realidade.

O ano de 2020 será, portanto, o primeiro em que

o tradicional Encontro Nacional de Ranicultura (ENAR)

ocorrerá exclusivamente no formato online. Sua primeira

edição ocorreu em 1978, em Brasília, e contou

com o apoio do governo brasileiro, representado pelo

Ministério da Agricultura. Desde então, o evento passou

a ser realizado a cada dois anos, mais ou menos.

Após o 11° ENAR, realizado em Bragança Paulista (SP)

em 2001, o que se viu foi uma lacuna de 10 anos entre

encontros, uma vez que o 12° encontro ocorreu apenas

em 2011, na Universidade Federal de Uberlândia,

que já havia sediado um dos primeiros eventos. E agora,

novamente, quase completando 10 anos, estamos

organizando o 13° ENAR, esse totalmente à distância,

aproveitando o momento e a oportunidade.

Para que não se perca a tradição, o evento contará

com ciclos de palestras de pesquisadores, professores

e técnicos, apresentações de trabalhos científicos nas

diversas áreas que compõem a ranicultura, como manejo,

instalações e ambiência, nutrição, genética, sanidade,

processamento, mercado e inovações e relatos

e mesas-redondas envolvendo produtores. Pela 4ª vez

o evento contará com seu sobrenome internacional,

“Technofrog”, que significa “International Meeting on

Frog Research and Technology”, pois vários palestrantes

de fora do país já estão confirmados. Espera-se que

o público internacional também seja maior e desde já

começamos a lançar os primeiros avisos do evento em

várias mídias sociais, como o Facebook, por exemplo,

que conta hoje com uma comunidade de ranicultura

com mais de 1.000 membros (Figura 1). A Revista

Aquaculture Brasil, que já possui experiência por ter

organizado dois eventos neste formato, AquaOnlines

1 e 2 , participará da organização do ENAR, além de

outras instituições, como centros de pesquisa, empresas

de assistência técnica e extensão rural e universidades,

já confirmadas nas comissões de organização

geral, científica, de divulgação e financeira.

Na certeza de que, em breve, estaremos aqui discutindo

as maravilhas deste encontro único, nos despedimos

com o otimismo e a animação de sempre...

bons ventos hão de nos brindar com uma humanidade

transformada para melhor. Fiquem todos em

Paz...

Saudações ranícolas!

Figura 1. Grupo de Ranicultura do Facebook.

Clique na imagem para acessar a página.

72

PARCEIROS NA 20° ED:


Juliana Antunes Galvão

Coordenadora do Grupo de Estudos e Extensão em Inovação Tecnológica

e Qualidade do Pescado

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – ESALQ/USP

Piracicaba - SP

jugalvao@usp.br

O Pescado como alimento em tempos de

COVID 19

pandemia causada pelo vírus SARS COV 2

A (COVID 19) desencadeou uma crise de saúde

pública, seguida de crise econômica, devido as medidas

tomadas pelos países afetados. Temos vivido tempos

difíceis, pois pouco conhecimento temos sobre o

agente causador da doença, gerando diversos questionamentos

quanto as possíveis formas de contágio,

métodos eficientes de tratamento, e onde faltam informações,

as incertezas permeiam nosso imaginário,

fazendo com que dúvidas surjam a todo tempo.

Até o momento, há um consenso entre os especialistas

da área, quanto ao fato de que a transmissão do SARS

CoV2 ocorre, principalmente, quando um indivíduo

entra em contato com o vírus presente nas gotículas expelidas

pelo nariz ou boca de indivíduos contaminados.

Por conta disto, temos vivenciado uma mudança

de comportamento a nível global quanto a isolamento

social, novos hábitos de comportamento, redobrando

cuidados quanto a higiene.

Em tempos de tantas mudanças e dúvidas, bem

como disseminação de informações equivocadas,

uma pergunta que nos vem à mente é: Posso contrair

o vírus SARS CoV2 consumindo pescado?

Sabe-se que o coronavírus é um vírus RNA, que por

si só não possui a habilidade de se multiplicar, necessitando

portanto de outra célula viva de um hospedeiro,

no caso nós seres humanos, para se desenvolver.

O SARS CoV2 também pode permanecer viável

em superfícies inanimadas por um determinado

período de tempo, reforçando a obrigatoriedade da

adoção de medidas profiláticas de limpeza das mãos,

bem como de toda e qualquer superfície.

O alimento de origem animal é composto por células

mortas, pois o animal foi previamente abatido

antes ser consumido, portanto o vírus em questão

não consegue se multiplicar neste tipo de alimento.

Segundo a literatura, os organismos

aquáticos não são fontes de infecção

do vírus causador da COVID-19.

O problema que pode ocorrer

de forma geral com qualquer alimento,

é que este pode ser contaminado

pelo vírus SARS CoV2 ou

qualquer outro microrganismo através

de um manipulador de alimentos que

seja portador assintomático ou não de um

determinado patógeno, sendo que, até o momento,

não há notificação quanto a veiculação do

SARS CoV2 através de alimentos.

É essencial que todos os estabelecimentos que

comercializam e manipulem alimentos tenham implementadas

as Boas Práticas de Manipulação de Alimentos,

bem como treinamento específico aos manipuladores

de alimentos. Sendo importante também

seguir todas as orientações do Ministério da Saúde e

da Organização Mundial da Saúde (OMS) para minimizar

os riscos de infecção pelo SARS CoV2.

A cadeia produtiva do pescado está entre os setores

considerados essenciais, pois provê suprimento

de proteína animal de alta qualidade para o mundo.

Segundo a literatura disponível na área, a importância

do consumo de pescado está na quantidade e qualidade

de aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e minerais,

compostos estes que auxiliam o sistema imunológico,

prevenindo diversas patologias, reduzindo

processos inflamatórios, estresse, ansiedade, entre

tantos outros benefícios. Em tempos de pandemia

há de se ter cuidado redobrado com a alimentação,

pois esta é essencial para um bom funcionamento do

nosso corpo, ajudando-nos na manutenção da nossa

saúde, sendo o consumo do pescado, excelente aliado

nesta batalha.

SET/OUT 2019

PARCEIROS NA 20° ED:

73


Defendeu!

Em algum lugar do mundo, um acadêmico de graduação ou pós-graduação contribui com

novas informações para nossa aquicultura.

Nome do acadêmico: Tiago Fernandes Farias

(Universidad Politécnica de Madrid –

Orientador: Miguel Ángel Toro Ibáñez

UPM) Instituto Nacional de Investigación y Tecnología

e Jesús Fernández Martin

Agraria y Alimentaria – INIA)

Instituição: Programa de Ciências e tecnologias Marinhas, da

Universidade de Cádiz (UCA) – Cádiz – Andaluzia – Espanha

Título da tese:

Otimização de Programas de Seleção em aquicultura

SET/OUT 2019

Introdução: O presente trabalho foi desenvolvido

nas instalações Aquicultura Balear, o maior hatchery

da Espanha e um dos maiores do Mediterrâneo, responsável

pelo fornecimento de alevinos e juvenis de

todas as empresas do Grupo CULMAREX, um dos

principais produtores de piscicultura marinha na Europa.

A pesquisa foi realizada durante o andamento de um

programa de melhoramento genético em Dorada (Sparus

aurata), que é a principal espécie marinha cultivada

na região mediterrânea. O objetivo principal do trabalho

foi de otimizar a resposta da seleção e elaborar estratégias

capazes de viabilizar a implementação de programas

de melhoramento genético por seleção na aquicultura.

Material e Métodos:

• Foram analisados um total de 7.959 indivíduos

(494 reprodutores e 7.645 alevinos), distribuídos em 5 ciclos

reprodutivos, cada um com 2 tanques de reprodução.

• A construção da genealogia foi feita por exclusão

mendeliana, utilizando 2 rondas de multiplexes cada

uma com 4 microssatélites. Sendo que a segunda multiplex

seria utilizada apenas naqueles indivíduos que apresentaram

parentesco duvidosos, apenas os indivíduos

com país identificados estarão disponíveis para avaliação.

• Os componentes da variância foram calculados

por máxima verossimilhança restrita (REML) e por inferência

bayesiana utilizando métodos de MCMC. Os

valores genéticos de cada animal foram estimados pela

metodologia BLUP (Best Linear Unbiased Prediction), utilizando

um modelo animal de efeitos fixos e aleatórios.

• A otimização foi feita por OCS (Optimal

Contribution Selective), utilizando um algoritmo da

meta-heurística que consiste numa técnica de busca

probabilística, fundamentada numa analogia da

termodinâmica denominado Simulated Annealing.

Figura 1. Exemplares de Dorada (Sparus aurata).

Figura 2. As11 empresas que compõe o grupo Culmarex na

região mediterrânea da Espanha. © Culmarex

74

PARCEIROS NA 20° ED:


Principais resultados :

• Foi possível atribuir o parentesco molecular

a aproximadamente 86% dos descendentes.

• A utilização da multiplex sequencial economizou

a analises de 25.796 amostras de DNA,

representando quase 45% do total.

• A utilização da segunda multiplex possibilitou

a identificação de mais 679 novos indivíduos

disponíveis para a avaliação genética. Entretanto,

esse incremento de novos descendentes identificados

não aumentou significativamente a formação

de novas famílias. Portanto, o investimento

financeiro em novas análises de DNA não seria

rentável.

• A utilização do algoritmo de otimização

em programas de seleção demostrou grande eficácia

em aumentar a resposta a seleção, mantendo

restrito os níveis de consanguinidade.

• A nova geração foi formada por indivíduos

que tinham 97,72% sem nenhum parentesco, 2,03%

meios-irmãos e de 0,25% de irmãos-completos.

• Nessas condições, a população selecionada

aumentou em mais de 20 % no peso médio.

mais difusa e o produtor poderá finalmente se beneficiar do

potencial genético dos seus animais. A técnica praticada nesse

trabalho fui suficiente para reduzir os custos com análises

moleculares (quase 50%) e formar uma nova geração superior

a anterior (>20%) com quase 98% dos indivíduos sem

nenhuma relação de parentesco. Essa ferramenta tem um

grande potencial para ser desenvolvida na prática e disponibilizada

ao setor aquícola nacional.

Figura 3. Tanques circulares para juvenis. © Culmarex

Considerações finais: O melhoramento genético

é uma importante ferramenta tecnológica

capaz de contribuir com o aumento da eficiência

produtiva e sustentabilidade da atividade. Entretanto,

na aquicultura, os resultados ainda são levianos

quando comparados aos alcançados em outros setores

da produção animal. Isso se deve em parte

as dificuldades de manter o registro genealógico

desses animais. A grande maioria dos animais cultivados

possuem fecundação e desenvolvimento externo,

alta prolificidade e tamanhos reduzidos nas

fases iniciais da vida que impossibilitam a marcação.

Portanto, a aplicação dessa tecnologia em organismos

aquáticos demanda altos custos iniciais e o

retorno financeiro somente será obtido no decorrer

das gerações, limitando sua viabilidade no setor

produtivo apenas a grandes empresas e países desenvolvidos.

Nesse sentido, é fundamental que sejam

feitos esforços para buscar estratégias capazes

de diminuir os custos de execução e/ou acelerar a

o retorno financeiro obtido pela melhora genética.

Dessa forma, podemos viabilizar a utilização dessas

técnicas diretamente no setor produtivo de forma

O trabalho foi defendido em:

março/2020

SET/OUT 2019

75


SET/OUT 2019

76

PARCEIROS NA 20° ED:


Ilce

Santos

Oliveira

Bióloga, piscicultora, consultora e representante

do estado de Rondônia na Comissão Nacional de

Aquicultura - CNA.

Enquanto a aquicultura brasileira

ainda engatinhava na década de 90,

Ilce já tomava gosto pela atividade,

foi quando começou com uma

piscicultura no estado de Goiás.

Em 2011 mudou-se para Rondônia

onde assumiu a coordenação das

atividades de Aquicultura do estado.

Com uma vasta bagagem, Ilce nos

conta um pouco sobre o sucesso da

produção aquícola deste estado!

AQUACULTURE BRASIL: Conte-nos um pouco sobre a

sua tragetória profissional na aquicultura.

Ilce Santos Oliveira: Sou Bióloga e iniciei minhas atividades

na Aquicultura como piscicultora, na década de

90, no Estado de Goiás. Entre 2003 e 2005 fui instrutora

de Piscicultura pelo SENAR/Goiás. Em 2005 iniciei

minhas atividades na Secretaria de Estado da Agricultura,

Pecuária e Irrigação/SEAGRI – GO, como Assessora

Especial de Aquicultura e Pesca,

onde permaneci até 2010. Em 2011

assumi a coordenação das atividades

de Aquicultura no Governo

do Estado de Rondônia. Assumi o

cargo de Superintendente Federal

de Aquicultura e Pesca, no extinto

Ministério da Pesca e Aquicultura

em 2015 onde permaneci até sua

extinção, retornando então para

minhas atividades no governo do

Estado de Rondônia, onde permaneço

até hoje. Sou representante de

Rondônia, indicada pela Federação

da Agricultura e Pecuária do Estado

de Rondônia/Faperon, na Comissão

Nacional de Aquicultura da Confederação

da Agricultura e Pecuária

do Brasil /CNA. Atualmente sou

também piscicultora e consultora.

As características

do clima, regime hídrico,

solo e topografia viáveis,

aliadas às experiências

exitosas dos pioneiros e

aos incentivos do governo

do Estado, contribuíram

para o sucesso da

piscicultura em

Rondônia.

AQUACULTURE BRASIL: Dentre os estados brasileiros

Rondônia é, com “folga”, o que mais produz peixes nativos

segundo dados da Associação Brasileira de Piscicultura

(PeixeBR). Comente um pouco sobre quais fatores

contribuíram para essa evolução?

Ilce Santos Oliveira: O Estado de Rondônia está localizado

na região Norte e mais de 90% do seu território

tem altitude entre 100 e 600m, com relevo levemente

ondulado. Está também inserido no Bioma Amazônico.

O clima predominante é do tipo Equatorial Quente

Úmido com apenas três meses

secos. Prevalecem os solos do tipo

Latossolo. Essas características de

clima, regime hídrico, solo e topografia

viáveis, aliadas às experiências

exitosas dos pioneiros e aos incentivos

do governo do Estado contribuíram

para o sucesso. Investir na

piscicultura em Rondônia é um ótimo

negócio.

AQUACULTURE BRASIL: Qual o

grande diferencial de Rondônia que

o fez se tornar o maior produtor de

peixes nativos do País e estar atualmente

entre os três maiores produtores

nacionais de peixes?

Ilce Santos Oliveira: Podemos mencionar

três condições favoráveis que

contribuíram para que Rondônia

obtivesse êxito na atividade de Piscicultura: Empreendedorismo,

foco e apoio governamental. Quanto ao empreendedorismo,

o piscicultor rondoniense é conhece-

SET/OUT 2019

77


SET/OUT 2019

dor dos gargalos que a cadeia produtiva da piscicultura

possui. Assim sendo, aplica técnicas e tecnologias inovadoras,

transformadoras, desde inovações nas estruturas

de cultivo até a busca de novos mercados. Posso citar

o exemplo de um pequeno produtor que desenvolveu

um sistema de condução de água da fonte abastecedora

até os viveiros (esses estavam em um nível um pouco

mais elevado que a fonte) sem o uso da energia elétrica,

apenas manipulando a pressão d’água. Automação

no arraçoamento, no monitoramento da qualidade da

água, aeração e uso de probióticos e biorremediadores

são rotina nos empreendimentos aquícolas. E quem

não se lembra do evento “Tambaqui na Esplanada”,

quando produtores e o governo de Rondônia em parceria

com o governo federal, realizaram um churrasco

de Tambaqui em plena Esplanada dos Ministérios? O

governo do Estado também inovou na busca de novos

mercados, realizando “Rodadas de Negócios e Missões

Empresariais”.

Quanto ao segundo ponto, foco, o tambaqui é a espécie

símbolo das águas amazônicas. Por isso, pelo seu

excepcional desempenho e pela já estabelecida tradição

do seu cultivo, foi escolhido para ser o carro chefe

da piscicultura em Rondônia. Todos os incentivos, governamentais,

acadêmicos e da iniciativa privada foram

direcionados para essa espécie. O “Foco” governamental

está também no empreendedor/piscicultor. O Governo

tem o compromisso, no que lhe compete, de

criar o ambiente favorável em todos os elos das cadeias

produtivas. E o terceiro ponto, apoio governamental,

em 2010, o então governador Confúcio Moura inseriu

a piscicultura entre os projetos prioritários da sua gestão.

Criou também o “GT da Piscicultura”, um grupo

de trabalho formado por vários órgãos e instituições,

do âmbito estadual, municipal, federal e iniciativa privada,

onde eram discutidos os assuntos relacionados

ao setor. O grupo se reunia mensalmente com o Governador

para deliberações. As ações ali propostas e

deferidas eram executadas com a chancela do governador,

o que dava celeridade aos processos. Ações como

revisão da tributação do pescado nativo, adequação da

legislação ambiental, incentivos tributários para investidores

no setor da indústria e comércio, rodadas de

negócios para acesso a novos mercados consumidores,

missões empresariais, inserção do peixe na merenda

escolar, dentre outras, foram relevantes para a evolução

da cadeia produtiva da piscicultura no Estado.

AQUACULTURE BRASIL: Como está estruturada a produção

de peixes em Rondônia quanto aos principais

polos de produção, porte dos empreendimentos e sistema

de cultivo. Há algum sistema de cooperativismo,

a exemplo da Copacol no Paraná?

Ilce Santos Oliveira: Vale do Jamari, composto por nove

municípios (Ariquemes, Monte Negro, Campo Novo,

Buritis, Cujubim, Alto Paraiso, Rio Crespo, Machadinho

do Oeste e Cacaulândia), é o principal polo produtor.

Apesar da diversidade quanto ao porte, é lá que estão

os empreendimentos de maior dimensão. Existem desde

projetos que se enquadram na agricultura familiar,

até projetos de grande extensão (até 600 hectares de

lâmina d’água). No Vale do Jamari, município de Ariquemes,

está sediada a Acripar – Associação de Criadores

de Peixes de Ariquemes e Região. No município de

Monte Negro temos a Coopmon, Cooperativa de pequenos

e médios piscicultores. Ainda não há iniciativas

de integração. A produção está estabelecida em todo o

Estado, com destaque também para as regiões Madei-

78

PARCEIROS NA 20° ED:


ra Mamoré, Região Central, Zona da Mata e Região do

Café. Todas elas com pequenos e médios produtores.

Há também pequenas associações e cooperativas estabelecidas.

O sistema de cultivo praticado em Rondônia

é o de Viveiros Escavados e Tanques Suspensos. Apesar

do grande potencial para a produção em Tanques Rede,

esse sistema ainda não é explorado.

AQUACULTURE BRASIL: Cresce a cada ano o número de

híbridos que são produzidos no país, como por exemplo

a tambatinga, um híbrido do tambaqui com a pirapitinga.

Como está esse cenário da produção de híbridos em

Rondônia? Os nativos podem perder ritmo de crescimento

em virtude dos híbridos?

Ilce Santos Oliveira: Existe a produção de híbridos em

Rondônia, principalmente Tambatinga e Pintado, para

atender mercados específicos,

porém o foco da produção

continua sendo o Tambaqui.

É improvável que a produção

dessa espécie perca o ritmo

de crescimento. Afinal, o termo

“Tambaqui de Rondônia”

é quase uma marca. Em breve

teremos um selo com a marca

“Tambaqui”.

Ilce Santos Oliveira: Por intermédio

do Decreto 20.690,

de 21 de março de 2016, revogado

pelo Decreto 22.179,

de 08 de agosto de 2017, o

governo do Estado determinou

a inclusão do peixe produzido

em Rondônia (tambaqui,

pirarucu e pintado) na

merenda escolar das instituições

públicas de ensino. Para

isso, o governo repassa R$

2,00 por aluno/mês, como

complementação de recursos.

O peixe deve ser adquirido

preferencialmente de piscicultores da agricultura

familiar e processados nas agroindústrias regionais.

AQUACULTURE BRASIL: Como a dispensa da Licitação

das Águas da União irá beneficiar Rondônia? Há

espaço para crescimento em águas de reservatório?

Ilce Santos Oliveira: Sou uma defensora ferrenha da

produção em tanques-rede. É eficiente, prático e inteligente.

O País inteiro se beneficia muito com a dispensa

de licitação. Era um assunto polêmico que felizmente

não mais estará presente nas nossas mesas de discussões

Brasil afora. Na Comissão de Aquicultura da CNA foi

amplamente debatido durante muito tempo. Eduardo

Ono tem muito mérito nessa questão, assim como toda

a Comissão. Rondônia tem um potencial fabuloso para

esse sistema de produção. Só os reservatórios das UHE

AQUACULTURE BRASIL: Rondônia

conseguiu inserir o peixe

na merenda escolar. Como e a

partir de quando isso foi possível?

Como é esse fluxo até o

peixe chegar na merenda para

as crianças?

SET/OUT 2019

79


de Santo Antônio e UHE de Jirau têm capacidade de suporte

para produzir aproximadamente 800 mil toneladas

de peixes ao ano, segundo a ANA (Agência Nacional de

Águas).Mas... Ainda não produzimos em tanques-rede...

AQUACULTURE BRASIL: Pontue três principais pontos

que ainda podem e devem ser melhorados para a

produção do estado continuar crescendo.

Ilce Santos Oliveira: Industrialização, Marketing e organização

da cadeia produtiva (associações e cooperativas).

AQUACULTURE BRASIL: Nesse momento de isolamento

social provocado pelo Covid-19, uma alternativa

para as pessoas continuarem se comunicando sobre diversos

assuntos, incluindo aquicultura, é através de lives.

E você já foi uma das convidadas, por diversas vezes, a

participar desse bate papo ao vivo, seja no Instagram

ou Youtube. Qual a tua opinião a respeito das lives? É

uma alternativa interessante somente para o momento

atual ou terá espaço mesmo após esse período de

pandemia?

Ilce Santos Oliveira: A comunicação online é uma

estratégia inteligente de disponibilizar informações de

forma rápida e eficaz, e de promover networking entre

profissionais de uma maneira jamais utilizada. A pandemia

contribuiu para o aceleramento da evolução do setor.

Todos tiveram que se reinventar para continuarem

competitivos. Promoveu desenvolvimento. Creio que

esse tipo de comunicação está só começando. Ainda

vem muita coisa boa por aí.

Ilce Santos Oliveira: Com certeza

a oferta de mão de obra

habilitada e capacitada é carente

em muitas regiões do País.

Isso é lastimável. Mas me preocupam

duas questões específicas:

A primeira, profissionais

“habilitados”, mas que não têm

formação nas áreas afins. Isso

acontece muito, principalmente

em regiões mais remotas. Perdem o produtor, com

prejuízos financeiros, e o setor, que fica desacreditado

por falta de orientação adequada. E a segunda questão,

a demanda dos piscicultores à assistência técnica qualificada.

Não raro o piscicultor aprende pela tentativa

do erro e acerto, o que acarreta grandes prejuízos e

desestimula a continuidade da atividade.

Só os reservatórios

das UHE de Santo

Antônio e UHE de Jirau

têm capacidade de

suporte para produzir

aproximadamente 800

mil toneladas de peixes

ao ano, segundo a

ANA. Mas... ainda não

produzimos em tanquesrede...

SET/OUT 2019

AQUACULTURE BRASIL: Por

fim, o país tem um bom quadro

de pessoas formadas nas áreas

de Aquicultura, Engenharia de

Pesca e afins. Mas como você vê

a oferta de mão de obra desses

profissionais no interior do país?

Faltam profissionais capacitados

para atuarem nessas regiões?

80

PARCEIROS NA 20° ED:


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SET/OUT 2019


Eric Arthur Bastos Routledge

A seção “Eles fazem a diferença” desta edição tráz uma figura que sem dúvida, é

apaixonada pela aquicultura nacional e quer vê-lá cada vez mais consolidada. Atualmente

Eric trabalha em prol da pesquisa e desenvolvimento do setor, como chefe de P&D da

Embrapa Pesca e Aquicultura em Palmas, TO.

“No meu último ano de graduação do curso de

Ciências Biológicas, iniciei um estágio na FIPERJ

para trabalhar com cultivo de mexilhão na região

de Niterói e Jurujuba, sob orientação do Prof. Marcos

Bastos, da UERJ. Foi ali que eu me encontrei

com a aquicultura e decidi direcionar minha carreira

para essa área, tomando a decisão de fazer

mestrado em Santa Catarina, que para mim até

hoje é uma das “mecas” da aquicultura brasileira e

uma grande referência.”

Português de nascimento, ora pois!

“Nasci em Coimbra, Portugal. Meu pai era inglês

e minha mãe é carioca. Meu pai trabalhava no

Conselho Britânico e foi uma “coincidência”, uma

situação de trabalho do meu pai, eu ter nascido lá.

Com dois anos vim para o Brasil, mais especificamente

para o Rio de Janeiro, onde fui criado. Sou

casado com a minha “xará ” Erika, e tenho duas

filhas, a Sofia e a Julia. Duas japas!”

SET/OUT 2019

Mestrado em Aquicultura na UFSC: uma turma

de “estrangeiros”

“Sem dúvida foi uma das grandes decisões de

minha vida, difícil, mas acertada. Um fato curioso é

que na minha turma de mestrado (1996) não havia

ninguém de Santa Catarina, todos eram de foram

do estado! Hoje muitos são referências da aquicultura

brasileira, como Felipe Suplicy (Epagri/SC),

Jaqueline de Medeiros Gastelú (Larvi Aquicultura/

RN), Flávia Couto (produtora de ostras/SC), entre

outros.”

82

PARCEIROS NA 20° ED:


Viagens para aperfeiçoamento e networking

“Sempre gostei muito de viajar e investir em

minha formação profissional. Mesmo nas viagens

pessoais, sempre tentava embutir uma “agenda

da aquicultura”, seja na Inglaterra, Estados Unidos

entre outros países. Morei por um tempo nestes

dois países e sempre busquei visitar centros de referência,

conhecendo outras experiências, e estando

aberto ao diálogo com pessoas de outros países, o

que contribuiu com meu networking”.

O início na Embrapa

“Defendi o mestrado em aquicultura em fevereiro

de 1999, logo após o carnaval. Era um ano de crise

econômica no País. Dei aulas de inglês, bem como

no Instituto Federal de Educação em Florianópolis/

SC, mas realmente estava difícil. Em 2000 fui para

os EUA participar de um congresso e tentar alguma

oportunidade por lá. Voltei para o Brasil em outubro

do mesmo ano e o concurso da Embrapa abriu inscrições

no mês seguinte. Optei pela área de biologia

e reprodução aquícola, optando pelo Nordeste. Em

outubro de 2001 fui chamado, e tomei posse em

novembro, no município de Parnaíba, no Piauí.”

“Convocação” para Brasília

“Em 2003 eu estava trabalhando normalmente

quando em um certo dia recebemos um oficio

do governo do estado de que o então Ministro da

Pesca, José Fritsch, estaria visitando a cidade e

daria uma palestra no domingo, em Parnaíba. Eu

e toda a equipe, claro, fomos acompanhar e após

a palestra recebi o convite por parte da equipe

do ministro, para compor a equipe e ir para em

Brasília. Acabei aceitando o desafio! O começo na

então Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca

(SEAP) foi difícil, pois não havia nenhuma estrutura,

mas acabou sendo muito motivador! Trabalhei em

diferentes funções, mas a mais marcante foi como

coordenador de fomento à pesquisa, por cerca de

8 anos.”

O mais importante para mim na SEAP/

MPA foi incluir a aquicultura (e a pesca)

dentro da agenda de políticas nacionais de

ciência e tecnologia, especialmente no âmbito

de parcerias com o Ministério da Ciência

e Tecnologia e de suas agências, CNPq e

FINEP. Nestes 10 anos, tivemos 11 editais, que

somaram mais de 60 milhões de reais com

quase 600 bolsas oferecidas em diferentes

níveis, sem contar todo o investimento em

custeio, pesquisas e na própria infraestrutura

de diferentes universidades e institutos de

pesquisa, espalhados por todo o País. Essa

talvez tenha sido a maior conquista do meu

trabalho e minha equipe em todos estes anos. A

continuidade neste cargo foi um dos diferenciais

para conseguir o estreitamento com os diferentes

órgãos. Aprendi muito sobre gestão pública

nesses anos todos, o que não aprendi quando

estava na graduação universitária.”

SET/OUT 2019

83


Eric Arthur Bastos Routledge

Maiores projetos da carreira

“Não é bem um projeto... não são os meus

projetos, são os nossos! Eu sempre coloquei a

aquicultura como prioridade máxima. Meu maior

projeto e propósito de vida é fazer a aquicultura

no Brasil se desenvolver e se tornar referência, sair

do teórico e sair do potencial. Meu projeto é fazer

com que a Embrapa se torne uma referência na

área de aquicultura. Naturalmente não de forma

isolada, mas em parceria com outras instituições

que são referência hoje”.

Hora de voltar aos estudos!

“A minha intenção é voltar a estudar e se possível

fazer um doutorado e “me divertir”. Escolhendo

um tema de vanguarda para contribuir, seja

na área de gestão ou de pesquisa mais técnica/

biológica em aquicultura”

SET/OUT 2019

Aquicultura brasileira daqui há 30 anos

“Gostaria muito de ver mais investimentos.

Mais tecnificação! Sem depender do governo e

ser um exemplo de sustentabilidade. Vê-la com

bastante eficiência e que demonstre que todo o

investimento lá atrás, todo nosso esforço do ponto

de vista da criação das políticas públicas, foi correto.

Que todo nosso esforço valeu a pena! Além

disso, outras espécies aparecendo, não só a tilápia,

espécies determinadas pelo mercado, até em

função da carência cada vez maior dos produtos

de origem pesqueira e a consequente substituição

gradual pelos produtos aquícola”

Eric daqui há 30 anos

“Eu espero estar na praia, com alguma fazenda,

produzindo ostras, vieiras e mexilhões. Tentando

aproveitar a vida e voltar às minhas origens,

voltar ao porquê da minha decisão em trabalhar

com aquicultura.”

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PARCEIROS NA 20° ED:


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SET/OUT 2019


Chegou a hora de conferir os dados de despesca do Pirarucu!

E o mais interessante é que esse cultivo não é na região Amazônica, de onde a espécie é

nativa. O cultivo é realizado em São Paulo, mais especificamente na cidade de Marapoama.

O sistema biotecnológico utiliza bactérias benéficas para trabalhar a qualidade de água,

eliminando filtros tradicionais e trabalha com reposição mínima de água.

Fazenda Ecofish

SET/OUT 2019

Cultivo: Tanques suspensos - 30.000 litros

Data do povoamento: 25/01/2020

Número de alevinos estocadas: 270/tanque

Peso inicial: 20 g

Densidade: 9 peixes / m 3

Data da despesca: 30/01/2021

Tempo de cultivo: 371 dias

Peso final médio: 11 kg

Biomassa final: 2.970 kg

Produtividade: 99 kg/m³

Sobrevivência: 99%

Conversão alimentar: 2,3:1

@ecofish.superintensiva

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SET/OUT 2019


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