HISTORIAS DE ADOÇAO

ricardoribeiro7


DIA 1 - PREPARAÇÃO PARA ADOÇÃO

Olá! Me chamo J. sou casada com M. há 13 anos. Quando casamos, eu já era mãe

do M. que, na época, tinha 5 anos (hoje tem 18 anos) e ele, pai do J. L., que tinha 6 anos

(hoje tem 19 anos). M. sempre morou conosco, já J. L. sempre morou com a mãe e apenas

passava férias e feriados conosco.Eu e meu marido sempre desejamos ter mais filhos;

com 5 anos de casados tivemos nosso anjinho S., que ficou conosco por lindos 3 dias e

voltou para o céu. Durante o período de luto, não fizemos terapia, mas encontrei forças em

Jesus. Frequentei muito grupo de oração, onde sentia Deus curando meu coração e

reconstruindo minha família. Meu filho e meu esposo sempre estiveram ao meu lado, e o

cuidado e carinho deles me ajudaram muito. Após 5 anos de luto, superando toda a dor da

perda e amadurecendo nossos corações, decidimos que nosso sonho era ser pais e que

havia muitas crianças à procura de mãe e pai e que nosso amor era tão grande que não

precisaria crescer a barriga, pois o coração já estava gestando nossos filhos.Demos então

entrada no processo de adoção e fizemos um vídeo contando a novidade e que, desta vez,

nossos filhos viriam através da adoção. Divulgamos em nossas redes sociais e recebemos

muito apoio e carinho de amigos e familiares.Conforme o processo avançava, vivenciamos

uma linda gestação do coração. Ahh, e com direito a tudo: sessões de fotos, chá da espera

e desejos de grávida. Sim, tive muitos desejos! Afinal, estávamos esperando assim como

toda gestação. Tanto eu, meu esposo e nossos filhos, quanto nossas famílias extensas

vivenciamos essa espera com muito amor. Minha mãe e minha irmã com meus sobrinhos

também participaram de tudo, foi um momento de muita união e amor e todos nós

estávamos ansiosos e muito felizes pela chegada de mais um ou dois membros em nossa

família.O perfil escolhido por nós era de até duas crianças até 6 anos, sexo e etnia

indiferentes, aceitando também qualquer tipo de deficiência e sem restrição de doenças.

Pelo fato do nosso perfil ser muito amplo, sabíamos que eles chegariam rápido, mas não

por isso que optamos por este. Na verdade, foi uma escolha consciente entre eu e meu

marido. Eu também me sentia segura com a escolha deste perfil, pois sempre trabalhei

com educação especial e minha família, tanto nuclear quanto extensa, sempre foi muito

participativa, acompanhou meu trabalho de perto participando de festas e apresentações

da escola, interagindo com meus alunos com muita naturalidade. De certa forma, nunca

vimos nenhuma barreira ou limitações para amar; ao contrário, sempre vimos o quanto o

amor supera todas as barreiras e limitações. Quando recebemos a sentença de habilitação

(05/12/2017), sentiamo-nos ainda mais perto de nossos futuros filhos, era como se

tivéssemos recebido um mapa do tesouro. A felicidade tomou conta de toda nossa família

nuclear e extensa!Com dois dias de habilitada, visualizei uma Busca Ativa em um grupo do

Facebook. Na postagem havia poucas informações: "menina com paralisia cerebral, 2

anos e meio, que gostaria de passar o natal com sua família". Não havia foto, mas na

mesma hora falei para meu marido: encontramos nossa filha!


DIA 2 - APROXIMAÇÃO

No mesmo instante entramos em contato com a cegonha responsável pela busca

ativa e no dia seguinte ela encaminhou nosso contato para a vara responsável. Para nossa

surpresa, no outro dia a técnica da Vara me ligou. Eu estava trabalhando, mas atendi a

ligação e a assistente social me passou várias informações sobre o diagnóstico, quadro de

saúde, médicos, terapias e medicamentos e agendou uma visita ao fórum e abrigo para

dali uma semana. Após a ligação, ela me enviou uma foto linda; foi a primeira vez que vi o

rostinho da minha filha. Compartilhei a notícia e a foto com meu esposo e minha família. Foi

amor à primeira “foto”.Nesta uma semana entre o telefone tocar e irmos conhecer M.,

mobiliamos o quarto e compramos o que faltava e era essencial. Mas a organização do

quarto ficou por conta da minha irmã, pois não tínhamos tempo suficiente para fazê-lo.No

dia combinado, eu, meu marido e meu filho M. (tinha 15 anos) viajamos 350 km até a cidade

de M. Comparecemos ao fórum e conversamos mais detalhadamente com a assistente

social sobre as questões de saúde da minha filha. Não tivemos nenhum problema em ouvir

sobre aqueles laudos intermináveis, pois tanto eu quanto meu esposo e nossos filhos

estávamos muito preparados para todas as demandas dela. No entanto, enquanto ela

falava, meu coração parecia que ia explodir. Eu já não aguentava mais, até que perguntei

para ela: como são os cachinhos do cabelo dela? Pois para mim, a deficiência e tudo aquilo

eram detalhes, assim como seu sorriso, seus olhinhos e seus cílios enormes. Nós já

estávamos loucos para pegá-la no colo.Depois dessa longa conversa no fórum, partimos

para o abrigo e fomos recebidos por uma equipe maravilhosa que cuidou e amou a nossa

pequena desde sua chegada ali. Elas carinhosamente nos disseram: “aqui é um abrigo

para os dias chuvosos, hoje chegou o sol na vida da M., hora de ir para casa”. Peguei M. no

colo, chorei e disse em seu ouvido: “desculpa a demora, chegamos! Você já lutou muito

sozinha, agora tem uma família inteira para lutar com você e por você. Mamãe está aqui”.

Ela, em meu colo, cheirava meu pescoço como quem reconhece o cheirinho da mãe. Foi o

melhor momento de nossas vidas, ver ela pela primeira vez; a identificação foi imediata

com todos nós.Na mesma cidade de M. morava uma tia minha e nos hospedamos na casa

dela. Durante uma semana, eu, meu marido e meu filho íamos ao abrigo pela manhã,

passávamos o dia e voltávamos para casa da minha tia à noite.Desde o primeiro dia de

aproximação, nós como família tomávamos conta da rotina e demandas da nossa bebê.

Meu filho se revelou um super irmão, sempre interessado, aprendeu os horários dos

remédios, a dar comida, dar banho, trocar fralda, montar e desmontar cadeira de rodas e

tantas outras coisas. O filho do meu marido J. L. (tinha 16 anos) também participou da

nossa aproximação através de vídeo chamadas diárias. No sábado pudemos levar M. para

a casa da minha tia e no domingo passeamos e almoçamos no shopping. Toda essa

aproximação foi essencial para fortalecer nossos vínculos e nos preparar para a

maternidade atípica (especial) e todos os desafios que viriam.


DIA 3 - CHEGADA EM CASA

Durante a aproximação, como era em outra cidade, minha irmã havia ficado responsável por organizar e

decorar o quarto com os móveis, roupas e tudo mais que tínhamos comprado para M. E claro que ela e

minha mãe estavam curiosas para conhecê-la, por isso fizemos algumas vídeos chamadas e foi muito

emocionante.

Após a aproximação de 7 dias na cidade de origem da minha filha, recebemos a guarda para fins de

adoção e senti um misto de sensações. O que mais sentia era vontade de ir para casa logo e viver todo

aquele amor que estávamos sentindo.

Importante dizer que, junto com a guarda, recebi também todo o prontuário médico dela. Nada nos foi

omitido. Além disso, o abrigo nos cedeu a cadeira de rodas, cadeira de alimentação e remédios para o

primeiro mês. Também fizeram uma compra grande de roupas e fraldas. E para ajudar ainda mais, era

véspera de Natal, então vários voluntários a presentearam. Então, com o carro cheio de amor e pertences,

pegamos a estrada. Não sentimos medo, pelo contrário, estávamos seguros e muito preparados para este

momento.Para a viagem de volta para casa, não precisei comprar cadeirinha de carro. Minha cunhada

havia me dado uma da minha sobrinha e é essa que usamos até hoje. Bem, saímos de lá por volta das 8

horas da manhã. A viagem durou 5 horas, paramos para almoçar e deu tudo certo, tivemos uma viagem

tranquila.Quando chegamos em casa, minha mãe, irmã, cunhada e sobrinhos estavam nos aguardando

com muito amor. Foi lindo sentir o carinho delas transbordando em minha filha. E o quarto estava lindo e

prontinho para receber nossa princesa.

Na ocasião eu não sabia sobre a orientação de cumprir a quarentena da adoção, mas como tivemos uma

adaptação tranquila, penso que, no nosso caso em especifico, não atrapalhou em nada.As primeiras

semanas foram um sonho, parecia que M. sempre esteve ali. Não tivemos nenhuma dificuldade em lidar

com ela ou com as demandas diárias. Enfim, minha filha tão desejada e aguardada estava em casa. Tirei

licença maternidade e aproveitei esse período para ajustar nossas rotinas. Busquei uma rede de apoio na

APAE, onde nos receberam de forma muito carinhosa e dispostos a auxiliar M. em seu desenvolvimento.

Lá, ela recebeu estimulação precoce e desde então, 3 vezes na semana ela faz lá todas as terapias

(fisioterapia, terapia ocupacional, psicóloga e fonoterapia).Os nossos gastos obviamente aumentaram

com fraldas e remédios como de qualquer pais que recebem os filhos. Nós não tínhamos reserva

financeira, mas fomos nos ajustando e adaptando o orçamento familiar.


DIA 4 - CONVIVÊNCIA

Quando minha licença maternidade acabou, eu voltei a trabalhar, mas tinha folga nas tardes

em que M. tinha as terapias na APAE, que ocorriam 3x na semana. Enquanto eu trabalhava, ela

ficava aos cuidados da minha Nora. Depois de alguns meses, a APAE alterou as terapias de M. para

o período da manhã e, como minha Nora arrumou um emprego no período da tarde, optei por

matricular M. numa escola regular de educação infantil particular, onde foi super acolhida. A

escola atendeu todas as demandas. Com uma semana na escola, começou a sentar sozinha (claro

que tinha as terapias e os estímulos conosco em casa), porém o principal foi ver e conviver com

outras crianças.Meu marido sempre foi parceiro e nosso relacionamento, ao contrário do que

muitos podem imaginar, se fortificou ainda mais.

A chegada de M. trouxe união ao nosso casamento. Por isso, avaliamos não ser necessário

fazermos psicoterapia.No dia a dia em casa não enfrentamos nenhuma dificuldade na convivência

com nossa filha. Ela nunca teve crises e ficou doente somente uma vez em 3 anos. Tanto nós

quanto ela nos adaptamos super bem. M. apresentou uma evolução gigantesca em pouco tempo.

Quando chegou, tomava 8 remédios diferentes, mal segurava o tronco, não sentava e seu olhar era

sempre perdido. Em poucos dias em casa seu olhar já estava mais vivo; nas primeiras consultas

médicas começamos a diminuir os remédios (hoje são apenas 3). Em alguns meses ela começou a

sentar e interagir com os brinquedos, bem como a reconhecer todos da família e sorrir sempre que

cantávamos para ela. E nós, que a amamos muito, nos sentimos realizados com cada conquista e

vitória de nossa menininha.

Inclusive os irmãos, que nunca sentiram ciúmes dela, pelo contrário, são apaixonados pela irmã.

Mas como nem tudo são flores... Com a sociedade em geral, enfrentamos preconceitos devido à

deficiência dela. É comum observarmos olhares de pena ou falas do tipo “Nossa, vocês são

anjos!”. Embora essas situações nos incomodem, sempre respondemos com muito carinho.Além

do amor e estímulos recebidos em casa, M. continua a fazer várias terapias na APAE que são

fundamentais para a evolução dela. Costumo dizer que sou a voz dela, as pernas, então não posso

cansar de querer o melhor para ela. Antes não tínhamos um parque adaptado na cidade para ela

brincar, não tínhamos acessibilidade para cadeira de rodas nas calçadas e tínhamos dificuldade

com o transporte da prefeitura para consultas em outra cidade. Lutamos por essas dificuldades e

para que políticas públicas sejam inclusivas, junto à câmara municipal, prefeitura, APAE e

sociedade mostrando que M. não é coitadinha, nem doente. Ela é criança e ponto, e como toda

criança tem direitos e que não somos anjos, somos somente pais. Pais que lutam pelos direitos da

filha!

Além do apoio que recebi em casa e das nossas famílias extensas, também tive os

acompanhamentos da APAE e do grupo de apoio a adoção especial online do qual participo. Esse

grupo sempre me ajudou muito. Trocamos experiências, compartilhamos alegrias, conquistas,

alguns pais relatam os medos e dificuldades e vamos nos ajudando, somos hoje uma grande

família.


DIA 5 - DIAS ATUAIS

Em dezembro de 2020, comemoramos 3 anos do nosso encontro e M. já está com 6 anos de idade.

Sei que ela sempre foi nossa e eu nunca imaginaria uma vida longe dela. Ela é a luz, a alegria, “o cor

de rosa” de nossas vidas. M. faz jus realmente ao seu nome, é uma vitoriosa, surpreende

diariamente todos com sua evolução e sempre estaremos do seu lado para aplaudir todas as suas

conquistas.

Nossa vida e nossa rotina é como de qualquer outra família: M. vai as terapias e escola, papai e

mamãe e os irmãos trabalham, brincamos muito, assistimos muitos vídeos de musiquinhas,

fazemos os acompanhamentos médicos, mas o mais importante é que somos muito felizes. Tenho

certeza que a adoção especial foi nosso melhor sim na vida, pois dissemos sim ao amor mais puro,

verdadeiro e maravilhoso que possa existir.

Minha principal dica a quem está nessa espera é: abram seus corações, o amor pode estar onde

menos esperam e para esse amor não existem limitações nem barreiras. Mas existem muitos

pontos importantes nos quais o pretendente deve ter atenção na hora da escolha do perfil atípico

(especial), como por exemplo: não romantizar a adoção, estudar sobre as deficiências e suas

respectivas demandas, conversar com famílias que fizeram adoção especial, avaliar se sua casa

está adaptada ou se precisará adaptá-la para receber seu filho (a).

Procure saber qual rede de apoio você tem em sua cidade pelo SUS e/ou no seu convênio e se

informe sobre leis que facilitaram a inclusão em todos os lugares.

Quando o telefone tocar, antes de dizer sim, procure saber do histórico de saúde da criança e tire

todas as suas dúvidas com médicos e terapeutas sobre a deficiência informada. Avalie novamente

a rede de saúde de sua cidade ou do plano de saúde, agora de forma específica sobre as

necessidades da criança. Se informe sobre quais equipamentos serão necessários para a

reabilitação do seu filho (a), estude meios para adquiri-los (ação entre amigos, vaquinhas, seja

pelo SUS ou convênio, e se necessário for, buscar por vias judiciais). É importante saber que uma

criança com deficiência tem direitos e vai caber a você lutar por eles.

Com relação à família extensa e aos amigos, prepare-os e se prepare também, porque por mais

ajuda que você receba, o filho sempre será seu!

Se você será pai /mãe solo ou casado, não importa.

Conheço famílias com todas as configurações familiares e todas elas dão muitooooo certo na

adoção especial.

E como meu marido costuma dizer, o que mais nos ajudou foi o nosso conhecimento sobre

deficiências, as terapias e equipamentos que proporcionamos a M. e, claro, principalmente o

amor!

FIM

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