AM_Abril_2021

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Revista mensal | N.º 712 | Ano LXIV | Preço 1,50 € (IVA incluído)

além-mar

Abril 2021 | www.alem-mar.org

Perspectiva Missionária

JOVENS

MOVIMENTO

PARA A MUDANÇA


MISSIONÁRIOS COMBONIANOS

ao serviço do evangelho no mundo

CASAS EM PORTUGAL

P. e David Domingues

missionário comboniano, nas Filipinas


Perspectiva Missionária

além-mar

Ano LXV | Nº 712

sumário

Propriedade:

Missionários Combonianos

do Coração de Jesus

Pessoa Colectiva nº 500139989

Redacção

Director: Bernardino Frutuoso (CP 6411 A)

Redacção: Carlos Reis (CP 2790 A);

Fernando Félix (CP 1902 A)

Correspondentes: Arlindo Pinto (Roma);

Feliz Martins (Sudão); Jairo García

(Colômbia); António Carlos Ferreira

(Filipinas)

Colaboradores: Ana Glória Lucas;

António Marujo; Fernando Domingues;

Fernando Sousa; Filipe Messeder;

Francisco Sarsfield Cabral; José Vieira;

Manuel Augusto Ferreira; Marco Bello;

Margarida Santos Lopes; Paolo Moiola;

Susana Vilas Boas

Revisão: Helder Guégués

Paginação: Luís Ferreira

Arquivo: Amélia Maria Neves

Redacção:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286

E-mail: alem-mar@netcabo.pt

Estatuto Editorial: www.alem-mar.org

ADMINISTRAÇÃO

Administrador: Jorge Brites

Sede do editor e Administração:

Calçada Eng. Miguel Pais, 9

1249-120 LISBOA

Tel. 213 955 286 | Fax 213 900 246

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Assinaturas

Edição em papel: € 15,00

Edição digital: € 10,00

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Pagamento por multibanco:

Entidade: 20105

Referência: o número de assinante

(por cima do nome na folha com a sua

direcção)

Produção gráfica e impressão:

Jorge Fernandes, Lda.

Quinta Conde Mascarenhas, L 9

2825-259 CHARNECA DA CAPARICA

Registo na ERC com o n. o 100668

Depósito legal: 7934/85

ISSN 0871 – 5661

Tiragem do número anterior:

14 100 exemplares

além-mar tem o exclusivo para Portugal dos

serviços das seguintes revistas estrangeiras:

Nigrizia (Verona) | Mundo Negro (Madrid)

| Esquila Misional (México) | Misión sin

Fronteras (Lima) | Iglesia Sinfronteras

(Bogotá) | World Mission (Manila) | New

People (Nairobi) | Worldwide (Pretória)|

| Afriquespoir (Kinshasa).

A nossa página

na Internet:

www.alem-mar.org

16

30

45

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

O planeta está ameaçado pela crise

climática. As previsões são sombrias,

até assustadoras, mas há quem não

desista de lutar por um futuro melhor.

A Além-Mar ouviu as histórias de duas

jovens activistas, Marinel Ubaldo, das

Filipinas, e Evelyn Acham, do Uganda.

FRANCISCO NO IRAQUE

O Papa Francisco foi ao Iraque dizer

que é preciso pôr fim à violência, pacificar

a sociedade e reconstruir a alma

do país. Uma peregrinação histórica à

pátria dos três monoteísmos, que já

começou a ter consequências.

GENTE SOLIDÁRIA

Em Kinshasa, capital da República Democrática

do Congo, a Casa Social Daniel

Comboni e o Centro de Formação

Integral Santíssima Trindade são duas

estruturas destinadas a pôr as jovens

de pé e ajudá-las a viver.

Foto de capa: © iStock

04 Fórum

05 Editorial

06 Actualidades

11 África minha

12 Igreja em missão

13 Contraponto

14 Do alto dos Andes

28 Género musical

34 Jovens

38 Colômbia

50 Livros

51 Discos

52 Povos e Culturas

55 Apontamentos

56 Vocação & Vida

além-mar | Abril 2021


fórum

Leitura proveitosa

Assino a revista Além-Mar há

mais de uma década e sempre

acompanhei a informação actual e

fundamentada do Sul global através

da vossa publicação.

Leitora desde os anos 1990 da

jornalista Margarida Santos Lopes,

quando era redactora principal e editora

da secção internacional no meu

jornal de referência, é com muito

agrado que posso ter acesso às matérias

com que, regularmente, colabora

com a revista Além-Mar. São sempre

artigos muito desenvolvidos e aprofundados

e acompanhados com uma

entrevista. […] São leituras longas e

sempre compensadoras, que nos dão

uma visão equilibrada, por alguém

que domina os temas, especialmente

os relacionados com o Médio Oriente.

Todos os meses, são das páginas

mais proveitosas da revista dos Missionários

Combonianos.

Escrevo esta nota no momento

em que renovo a minha assinatura

da publicação na versão impressa.

Conto com mais um ano de grandes

leituras e estendo os agradecimentos

a toda a redacção pelo bom trabalho

que estão a desenvolver.

Sandra Canelas | Bragança

Bem editada

Sou um leitor recente da Além-

-Mar e começo agora a aperceber-me

do grande interesse da vossa

revista missionária. No último número

pude ler sobre os mais pertinentes

temas, da viagem histórica

do Papa Francisco ao Iraque, às desigualdades

de género e raciais, e as

páginas de opinião e sobre povos,

culturas e vocações. […] A revista

é muito bem editada, sabe antecipar

temas da actualidade e ao mesmo

tempo apresentar perspectivas e

enquadramentos históricos. Continuem

o vosso excelente trabalho que

eu continuarei como leitor.

Carlos Carvalho | Sintra

agenda de abril

4 Dia Internacional de Consciencialização sobre os

Perigos das Minas Terrestres

6 Dia Internacional do Desporto para o Desenvolvimento

e a Paz

7 Dia Internacional para Reflexão do Genocídio de 1994

no Ruanda

Dia Mundial da Saúde

21 Dia Mundial da Criatividade e Inovação

22 Dia Internacional da Terra

23 Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

24 Dia Internacional do Multilateralismo e da Diplomacia

para a Paz

25 Dia Mundial da Malária

Dia Internacional das Jovens Mulheres nas TIC

30 Dia Internacional do Jazz

Abril

Rezemos por aqueles que arriscam

a vida lutando pelos direitos fundamentais

nas ditaduras, nos regimes

autoritários e também nas democracias

em crise.

Veja o comentário do Papa Francisco em:

www.apostoladodaoracao.pt/o-video-do-papa

RETRATOS

intenção do papa

© 123RF

2021 Abril | além-mar


© Vatican Media

Bernardino Frutuoso

Director

O Papa Francisco foi

ao Iraque como

um peregrino da paz,

um filho de Deus,

um irmão entre irmãos,

que quer partilhar

com todos os crentes

o sonho de uma nova

ordem mundial.

editorial

PONTES DE PAZ

E FRATERNIDADE

A

histórica viagem do Papa Francisco ao Iraque – que destacamos

nesta e na anterior edição da Além-Mar – não teve grande

repercussão mediática, seja pela pandemia, seja porque

não se realizaram grandes eventos multitudinários. Neste

país, a comunidade cristã é uma minoria, pois foi duplamente castigada:

primeiro pela guerra e, posteriormente, pelo acossamento do autodenominado

Estado Islâmico, que originou martírio e exílio.

Nas ruínas de Mossul, o Santo Padre, pastor próximo e solidário, deu

visibilidade ao drama deste povo e abraçou a dor desses cristãos perseguidos

que, não obstante as dificuldades, continuam a viver com esperança

e alegria, acreditando que um futuro melhor é possível. O papa

encorajou-os a serem promotores da concórdia, mas também defendeu o

seu direito a confessar a fé em Jesus Cristo, em segurança e sem que por

isso sejam considerados cidadãos de segunda classe.

O pontífice foi ao Iraque como um peregrino da paz, um filho de

Deus, um irmão entre irmãos, que quer partilhar com todos os crentes

o sonho de uma nova ordem mundial, estabelecendo relações de fraternidade

e fazendo florescer a comunhão, a paz e a tolerância. Por isso,

esta viagem foi também uma aposta no fortalecimento do diálogo inter-

-religioso, hoje uma tarefa urgente e imprescindível.

No encontro inter-religioso, na planície de Ur, o papa sublinhou:

«Nós, descendência de Abraão e representantes de várias religiões, sentimos

que a nossa função primeira é esta: ajudar os nossos irmãos e irmãs

a elevarem o olhar e a oração para o Céu. […] No mundo actual, que

muitas vezes se esquece do Altíssimo ou oferece uma imagem distorcida

d’Ele, os crentes são chamados a testemunhar a sua bondade, mostrar

a sua paternidade através da nossa fraternidade.» E o papa acrescentou

que a prática da fraternidade religiosa implica o serviço da fraternidade

universal, na linha do que escreve na encíclica Fratelli Tutti: «O culto

sincero e humilde a Deus […] leva ao respeito pela sacralidade da vida,

ao respeito pela dignidade e a liberdade dos outros e a um solícito compromisso

em prol do bem-estar de todos» (cf. FT, 283).

Recordemos que para relançar o diálogo inter-religioso foi muito importante

a aliança que, no ano de 2019, o papa selou com o maior representante

do mundo muçulmano sunita, Ahmed el-Tayeb, o grão-imã

de Al-Azhar. Os dois guias religiosos e espirituais comprometeram-se a

adoptar a cultura do diálogo, a crescer na colaboração e no conhecimento

mútuo, convidando os crentes a participarem activamente na construção

de uma cultura de paz, tolerância e sã convivência. No Iraque, Francisco

deu mais um passo nessa rota ao reunir-se com o grande aiatola Ali

al-Sistani, o líder mais influente dos xiitas.

Estamos cada vez mais conscientes da relevância das religiões no mundo

e do seu papel na construção da paz. Nesse sentido, estas duas pontes

estabelecidas por Francisco são passos notáveis no caminho da fraterna

comunhão com o Islão, comprometendo as duas religiões – e cada um

dos seus crentes – na defesa da paz e da dignidade da vida, no respeito

dos direitos humanos, na luta pela justiça social e pelo bem comum. am

além-mar | Abril 2021


foto do mês

Foto: © UNICEF/Chris Farber

2021 Abril | além-mar


&

pessoas factos

u

u

u

A Comissão Europeia prepara

o Digital Green Certificate, um

passaporte para facilitar a livre

circulação segura dos cidadãos

na União Europeia durante a

pandemia. Em formato digital

ou impresso, o certificado é uma

prova de que o titular foi vacinado

contra a covid-19, recebeu

um resultado de teste negativo

ou se recuperou do coronavírus.

O principal opositor político no

Chade, Saleh Kebzabo, retirou a

sua candidatura às presidenciais

de Abril. O líder do partido socialista

UNDR alerta que «o clima

de insegurança manchará a eleição»,

acusando o presidente cessante,

Idriss Déby, do partido nacionalista

MPS e no poder desde

1990, de intimidar os rivais com

o uso da força.

As negociações sob a égide das

Nações Unidas entre o governo

central da Somália e os Estados

federais, com vista a acertar uma

data para as presidenciais de

2021, terminaram sem acordo.

O presidente Mohamed Farmajo,

que tenta outro mandato, acusa

duas das cinco regiões semiautónomas,

Puntland e Jubbaland, de

«não quererem realizar eleições,

optando por permanecerem ao

lado do grupo extremista islâmico

al-Shabab».

u Sala de aula pandémica

P

ara alertar o mundo para a grave crise na educação causada

pela covid-19, a Unicef instalou uma «Sala de aula pandémica»

na sede da ONU, em Nova Iorque, EUA. As 168 secretárias

vazias e 168 mochilas por estrear representam os 168 milhões

de crianças que, no último ano, em todo o mundo, não tiveram

aulas, porque as suas escolas estiveram completamente encerradas.

«A cada dia que passa, as crianças que não têm acesso

à escola presencial ficam cada vez mais para trás, com os mais

marginalizados a pagar um preço mais alto», assinala a Unicef.

u

O ministro dos Negócios Estrangeiros

da Etiópia, Demeke Hassen,

garante que o acesso humanitário

à região de Tigré está a

melhorar, mas que a segurança

continua a ser «um trabalho em

andamento». A ONU alerta para

uma «situação de desnutrição

muito crítica», na sequência do

conflito que começou em Novembro,

depois de forças leais

à frente de libertação TPLF, no

poder em Tigré, atacarem acampamentos

locais do exército federal.

além-mar | Abril 2021


actualidades

© 123RF

© Lusa

SÍRIA

Década destruidora

guerra na Síria cumpre uma década. Causou mais de 388 mil mortos,

A incluindo 22 mil crianças, e obrigou mais de 12 milhões de pessoas a

fugir (6,7 milhões deslocados no país e 5,6 milhões de refugiados no estrangeiro).

Num país devastado pela guerra civil, as crianças são dos grupos que

mais sofrem. Segundo a Unicef, quase 90 % das crianças na Síria precisam

de assistência humanitária e 2,45 milhões não vão à escola, enquanto nos

países vizinhos outras 750 mil não conseguem estudar.

MIANMAR

Revolução restauradora

chefe interino do governo civil de Mianmar, deposto pela Junta Militar

O após o golpe de Estado de Fevereiro, pede uma «revolução para formar

uma democracia federal». Escondido dos militares, Mahn Than está

à frente do governo civil após a prisão da conselheira estatal Suu Kyi e do

presidente Win Myint.

A junta militar birmanesa, que tomou o poder por um golpe de Estado

a 1 de Fevereiro, mantém-se firme e violenta apesar da pressão internacional.

Os violentos protestos já fizeram mais de seis dezenas de mortos e

1700 detenções.

Entretanto, a União Europeia aplicou sanções a onze dirigentes birmaneses,

que entende serem os principais responsáveis pelo golpe de Estado. É a

primeira resposta diplomática europeia contra a junta militar que controla

o país asiático.

© Lusa/Rayner Pena © 123RF

AMÉRICA CENTRAL

Falta de alimentos

nível de insegurança alimentar

O está a aumentar na América

Central. El Salvador, Honduras,

Guatemala e Nicarágua confrontam-se

com crises económicas motivadas

pela pandemia e catástrofes

climáticas, adverte o Programa

Alimentar Mundial (WFP). Desde

2018, «o número de pessoas em

situação de insegurança alimentar

quase quadruplicou, para atingir

oito milhões», alerta Miguel

Barreto, chefe do programa para a

América Latina.

VENEZUELA

Dinheiro para vacinas

presidente da Venezuela,

O Nicolás Maduro, chegou a

acordo com a oposição do país

para conseguir que o dinheiro

bloqueado nas suas contas em

bancos norte-americanos pela

Administração dos EUA, por causa

das sanções contra o Governo,

possa ser usado para adquirir 12

milhões de doses de vacinas para

a covid-19 na plataforma Covax,

promovida pela Organização Mundial

de Saúde para fazer chegar

vacinas aos países mais pobres.

2021 Abril | além-mar


© 123RF

UNIÃO EUROPEIA

Migração mortífera

alta-comissária das Nações Unidas para

A os Direitos Humanos, Michelle Bachelet,

denuncia que os governos da UE estão a restringir

judicialmente a actividade das organizações que

resgatam migrantes no Mediterrâneo, o que

classifica como «preocupante». Apenas quatro

navios humanitários estão operacionais na rota

migratória do Mediterrâneo Central, que sai da

Líbia, Argélia e Tunísia em direcção a Itália e Malta.

CHINA

Pluralismo político

Cinco dezenas de activistas políticos

de Hong Kong estão acusados

de actos de subversão. «Todas as

principais vozes do movimento pró-

-democracia estão agora na prisão,

no exílio ou acusadas de subversão»,

denuncia Sophie Mak, activista da

Milk Tea Alliance. As acusações a ex-

-deputados, professores universitários,

advogados, trabalhadores sociais e

jovens activistas podem resultar em

condenações a prisão perpétua pela

lei de Segurança Nacional da China.

© Lusa/Francis R. Malasig

© Lusa/Jerome Favre

TANZÂNIA

Vice avança

vice-presidente da Tanzânia,

A Samia Suluhu (na foto), assume

a presidência até final do

mandato, em 2024, depois da

morte do chefe de Estado, por

doença cardíaca. John Magufuli,

de 61 anos, foi um negacionista

da existência de covid-19

no país da África Oriental que

estava «livre da pandemia, em

virtude das orações». As autoridades

não publicam quaisquer

números oficiais sobre a doença

desde o final de Abril de 2020.

© Lusa/Anthony Siame

FILIPINAS

Violência contra activistas

Alto Comissariado das Nações

O Unidas para os Direitos Humanos

(ACNUR) afirma estar «chocado com

as mortes arbitrárias de activistas

defensores dos direitos humanos»,

nas Filipinas. O presidente Rodrigo

Duterte pediu às autoridades

que «ignorassem os direitos

humanos e matassem os rebeldes

comunistas», como se refere aos

activistas que defendem os direitos

das comunidades pesqueiras, dos

trabalhadores e das populações

indígenas no país do Sudeste

Asiático.

além-mar | Abril 2021


actualidades

© Lusa/Souleymane Ag Anara

NÍGER

Próximo presidente

presidente eleito no Níger, Mohamed

Bazoum (na foto), do

O

partido socialista PNDS, no poder,

é investido no início de Abril.

«Como professor, darei prioridade

à educação», promete o ex-ministro

do presidente cessante, Mahamadou

Issoufou, que não se candidatou

à reeleição, depois de cumprir

dois mandatos. O país debate-se

com a insurgência jiadista no Oeste,

enquanto militantes islâmicos

do movimento Boko Haram perpetram

ataques no Sudeste. Desde

2010, a violência já provocou centenas

de mortos e 500 mil deslocados.

ÁFRICA

Previsões positivas

Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA) estima

A para 2021 um crescimento económico entre 0,4 % e 3,1 % para o continente.

«Depois da recessão no ano passado, há riscos que o continente enfrentou

e que vai enfrentar este ano, como a segunda vaga da pandemia, os

preços baixos e os conflitos em muitos países, mas as previsões para 2021

são mais positivas», assegura Hopestone Chavula, responsável pelo departamento.

Desde o início da pandemia, África regista mais de quatro milhões de

infectados e 110 mil mortes associadas à covid-19.

© Lusa/ZIPI

© 123RF

REPÚBLICA DO CONGO

Estado policial

actual presidente da República

do Congo, Denis Sassou

O

Nguesso (na foto), prepara-se para

um quarto mandato, depois das

presidenciais de Março, e para se

manter no lugar que ocupa há trinta

e sete anos. O maior grupo de

oposição do país, o partido UPA-

DS, boicotou as eleições. Também

a Igreja Católica do Congo coloca

«sérias reservas» a estas eleições, já

que as restrições impostas pela pandemia

e um sistema eleitoral instável

minam a confiança no voto.

MOÇAMBIQUE

Violência sem fim

Save the Children pede ajuda humanitária para os deslocados em Cabo

A Delgado, no Norte de Moçambique. De acordo com a organização não-

-governamental, «quase um milhão de pessoas enfrenta fome severa» como

resultado directo da onda de violência armada que persiste na região há mais

de três anos e causou mais de duas mil mortes e 670 mil pessoas deslocadas,

sem habitação e alimentos. Cerca de metade das pessoas afectadas pela

violência são menores de 18 anos e, denuncia a ONG, há crianças a serem

decapitadas.

© UNICEF/Bisol

2021 Abril | além-mar


áfrica minha

VOZES PROFÉTICAS

P. e José Vieira

Missionário comboniano

Bispos africanos estão

a dar voz a posições

arrojadas.

O

episcopado africano pode ser considerado conservador na

teologia, pastoral e liturgia. Contudo, tanto as conferências

episcopais como bispos em particular estão a dar voz a posições

arrojadas por todo o continente.

A SECAM – o Simpósio das Conferências Episcopais da África e

Madagáscar – apresentou no fim de Janeiro o chamado «Documento

de Campala», uma exortação pastoral de uma centena de páginas que

nasceu das celebrações dos 50 anos da instituição. Pretende resolver as

«dicotomias entre fé e política, Reino de Deus e transformação da Terra,

salvação das almas e vidas terrenais, contemplação e acção». Alerta ainda

para os perigos das espiritualidades de salvação e de prosperidade baseadas

no sucesso e em soluções milagrosas.

As eleições são ocasiões em que muitas conferências episcopais fazem

sentir as suas vozes e os seus reparos. Os bispos do Uganda, por exemplo,

antes das presidenciais de Janeiro passado, recordaram que o «não roubarás»

também se aplica aos votos e alertaram para a comercialização do

acto eleitoral através de campanhas cada vez mais dispendiosas.

Os bispos da República Centro-Africana, no rescaldo das eleições de

Dezembro, que deixaram o país a ferro e fogo, pediram diálogo sincero,

franco, fraterno e construtivo para resolver a grave crise de violência que

afecta o país. Denunciaram o sistema de uma minoria que beneficia das

riquezas do país por causa da filiação partidária e afinidades tribais, e as

conspirações externas com cumplicidades locais, que deixam o país à

mercê de predadores e mercenários bem armados.

A Conferência Episcopal do Congo-Brazzaville também se pronunciou

sobre a eleição presidencial marcada para 21 de Março: «Temos reservas

sérias que uma eleição presidencial pacífica, participada, transparente, livre

e credível possa acontecer nas condições actuais», escreveram.

Os bispos do Benim pediram diálogo forte e aberto entre os partidos

e as instituições envolvidos nas presidenciais de Abril.

A pandemia de covid-19 – que a 15 de Março tinha matado no continente

108 064 pessoas (África CDC) e infectado 4 041 835 – também

levou os bispos a tomar posições fortes de liderança. Por exemplo, a Conferência

Episcopal da Tanzânia alertou para os perigos da segunda vaga

da pandemia, porque «o nosso país não é uma ilha». Pede aos Tanzanianos

que voltem a usar máscaras e a lavar as mãos com água e sabão, práticas

que haviam abandonado. Os bispos do Senegal também expressaram

a sua preocupação com as novas estirpes mais mortíferas da segunda

vaga da doença.

Há ainda as vozes proféticas do bispo Dom Luiz Fernando Lisboa, de

Pemba (Moçambique), que colocou o drama de Cabo Delgado na agenda

internacional e que entretanto tomou conta de uma diocese no Brasil

natal, de Dom Agapitus Nfon, de Kumba (Camarões), que tenta mediar

a crise anglófona, que já fez três mil mortos desde 2016, ou Dom Stephen

Dami Mamza (na foto), bispo de Yola, na Nigéria, que construiu

um bairro para alojar 86 famílias deslocadas pela violência do Boko Haram,

com escola e mesquita incluídas. am

além-mar | Abril 2021


igreja em missão

© Vatican News

BANGLADESH

«Um católico,

uma árvore»

Igreja do Bangladesh lançou

A uma iniciativa audaciosa para

celebrar o quinto aniversário da

encíclica do Papa Francisco Laudato

Si’ sobre os cuidados da Casa

Comum. A campanha pretende

mobilizar os católicos a plantar

400 mil árvores. O cardeal Patrick

D’Rozario explica que «cada católico

do Bangladesh plantará uma

árvore para se identificar como um

leal cidadão do mundo: de facto,

devemos cuidar muito bem da nossa

Casa Comum, mas também do

nosso país».

MÉXICO

Assembleia Eclesial da América Latina

Vai decorrer de 21 a 28 de Novembro, no santuário de Nossa Senhora de

Guadalupe (na foto), na Cidade do México, a primeira Assembleia Eclesial

da América Latina e das Caraíbas, com o tema “Somos todos discípulos

missionários em saída”. Na convocatória da assembleia, o Papa Francisco

definiu-a como «um encontro do Povo de Deus», que visa fazer memória do

encontro da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano – que

se realizou em Aparecida (Brasil) em 2007 – e que continua a apresentar desafios

para a Igreja hoje. D. Miguel Cabrejos, arcebispo de Trujillo (Peru) e

presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), refere que

o encontro, organizado numa perspectiva sinodal, quer dar relevância ao

nosso ser e estar no mundo, respondendo «aos gritos dos empobrecidos e da

mãe Terra neste tempo de pandemia».

© 123RF

© Lusa/Brais Lorenzo

ESPANHA

Sempre em missão

irmã Otilia tem 95 anos. Vive

A em Ourense, na Galiza, Espanha.

Apesar da sua idade, ela considera-se

sempre em missão. Por

isso, há 15 anos, quer faça chuva ou

sol, ela sai todos os dias à rua para

ajudar as pessoas sem-abrigo e os

mais necessitados, distribuindo

alimentos e palavras de consolo.

É um exemplo admirável da «Igreja

em saída» a que nos convida o

Papa Francisco.

AMÉRICA LATINA

Acabar com a violência contra os defensores

dos direitos humanos

América Latina confirma-se como a região com o maior número de vítimas

entre os defensores dos direitos humanos, especialmente entre os

A

povos indígenas.

Os bispos da Amazónia peruana pedem, por isso, uma reacção do Estado,

considerando que só no último ano sete activistas comprometidos na defesa

dos territórios indígenas foram mortos.

A violência na Colômbia, a criminalidade e a exploração das terras ameaçam

a sobrevivência dos indígenas. Desde 2016, mais de 400 defensores dos

direitos humanos foram assassinados no país, o número mais elevado da

América Latina, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os

Direitos Humanos.

© 123RF

2021 Abril | além-mar


contraponto

DESAFIO ECOLÓGICO DE

FRAGMENTAR PARA INTEGRAR

© 123RF

Miguel Oliveira Panão

Professor universitário

À crise ambiental sempre

estiveram associadas

as crises antropológica

e espiritual, mas

reconhece-se pouco que

o relacionamento entre

nós e a Natureza esteja

fragmentado.

O

Papa Francisco propôs a ecologia integral como uma visão

global que abrange os ecossistemas, os relacionamentos

humanos e a sensibilidade a dois gritos, o da Terra e o dos

pobres. Interessante que tenha usado a palavra «integral»,

porque essa estrutura matemática – o integral ∫ – poderá ir mais longe no

seu significado do que poderíamos pensar.

Um integral matemático une o que está dividido em ínfimas partes.

Nesta metáfora, a dificuldade que temos em compreender as reais implicações

de um colapso ambiental causado pelos nossos estilos de vida

poderá estar numa vida cada vez mais fragmentada, sobretudo no tempo,

na atenção e na espiritualidade.

Elizabeth Bennett, vice-presidente para a conservação das espécies da

Wildlife Conservation Society, afirmou, recentemente, a necessidade de

restabelecer a integridade ecológica, reparando o relacionamento entre

nós e o mundo natural. Nada de novo. Mas, curiosamente, especifica a

conservação e restauro dos valores culturas e espirituais dos povos indígenas,

sem generalizar a todos os povos do mundo. Será que a cultura e

a espiritualidade deixaram de ter valor para o mundo tecnologicamente

avançado? Talvez.

À crise ambiental sempre estiveram associadas as crises antropológica

e espiritual, mas reconhece-se pouco que o relacionamento entre nós e

a Natureza esteja fragmentado. E as soluções tecnológicas resolvem parte

do problema, mas como argumenta extensivamente Bill Gates no seu

recente livro Como Evitar um Desastre Climático, será preciso fazer as

escolhas difíceis se quisermos reduzir para zero o nível de emissões de

CO 2

equivalente para a atmosfera. São passos gigantes. E, num mundo

permeado pela gratificação instantânea, uma inversão cultural a este nível

pode tornar-se hercúlea.

Diante de uma tarefa complexa e enorme, uma pessoa sente-se cansada

antes de ter dado o primeiro passo. O segredo será partir o que temos

para fazer em pedaços tão pequenos que o nosso cérebro não consiga

recusar. Ou seja, para enfrentar alguns dos maiores e mais urgentes desafios

ambientais será necessário fragmentar, parecendo um paradoxo em

relação ao espírito da ecologia integral do Papa Francisco.

Talvez as metáforas matemáticas ajudem a encontrar o sentido dos

passos a dar. Se o integral une, a derivada fragmenta. Mas o que a estrutura

matemática da derivada permite saber é o grau de sensibilidade de

algo em relação a qualquer coisa. E as questões ambientais exigem um

equilíbrio sensível entre fragmentar ideias para as tornar realizáveis, e

integrar os relacionamentos para sermos mais fortes e firmes nas escolhas

difíceis.

Creio que um primeiro passo seria unir as dimensões física, mental

e espiritual no nosso interior. Algo ao alcance de todos. E perceber que

passar tempo com a Natureza realiza essa união. O aprofundamento espiritual

é um ponto esquecido neste esforço humano para equilibrar o

relacionamento com o mundo natural, mas é talvez o pequeno passo que

pode fazer a grande diferença. am

além-mar | Abril 2021


do alto dos andes

Fernando Sousa | Jornalista

© Lusa/Miguel Gutierrez

ONU TRAÇA UM QUADRO SOMBRIO DOS

DIREITOS HUMANOS NA VENEZUELA

Nicolás Maduro diz que os direitos humanos são um pilar fundamental

da política do regime bolivariano da Venezuela. Mas a ONU tem

uma opinião muito diferente.

Caracas e o Alto Comissariado

da ONU para os Direitos Humanos

estão em rota de colisão.

Motivo: um alto ralhete da organização

sobre a muito degradada

situação dos direitos fundamentais

na Venezuela.

O balanço é do ano passado, de

Setembro de 2020, e já então foi motivo

de azedumes, mas foi actualizado

com base em novas informações

e cifras. O panorama é desolador:

violência policial, degradação dos

serviços básicos, perseguição dos

jornalistas, salários tão baixos que

custa acreditar, a fuga contínua do

país de pessoas desesperadas que se

fazem ao mar das Caraíbas em pañeros

(botes de madeira sem quaisquer

condições).

Dois mil mortos

Apresentado em Genebra, sede do

Conselho de Direitos Humanos da

ONU, pela alta-comissária, Michelle

Bachelet, o relato não poupa nem nas

expressões nem nos apelos. A polícia

matou mais de duas mil pessoas em

menos de um ano, é problemático o

acesso a serviços e produtos essenciais

como água, gás, electricidade,

combustíveis, assistência médica,

isto em plena pandemia, e alimentos

– o cabaz de compras aumentou

1800 por cento apenas num ano no

quadro de uma inflação astronómica.

Noutro relatório, também apresentado

em Genebra, a advogada portuguesa

Marta Valiñas, presidente da

Missão Internacional Independente

de Determinação dos Factos na Venezuela,

reportou a execução extrajudicial

de pelo menos 200 pessoas já

este ano.

2021 Abril | além-mar


lula da silva

libertado

© Lusa/Rayner Peña

p O ministro das Relações Exteriores

da Venezuela, Jorge Arreaza, entrega a

carta em que o Governo da Venezuela

desacredita a embaixadora da União

Europeia, Isabel Brilhante, em Caracas,

no passado dia 24 de Fevereiro de 2021.

Ao lado, vendedor ambulante oferece

três quilos de tangerinas por um dólar,

em Caracas

Também não há dinheiro. O salário

mínimo está abaixo de um dólar

americano ao mês, um trabalhador

com sorte, segundo economistas citados

pela IPS, poderá ganhar entre

20 e 30 dólares mensais. Um terço da

população estará em situação de “insegurança

alimentar”.

Intimidação

Bachelet saudou algum esforço do

regime de Nicolás Maduro para reduzir

os atrasos dos meandros judiciais,

mas disse ter recebido informações

sobre mortes em regime de

detenção por tuberculose, desnutrição

e outras doenças, manifestou-se

preocupada com restrições à actuação

das organizações internacionais

e a «redução do espaço cívico» – intimidação,

acosso, inabilitação e criminalização

de jornalistas, meios de

comunicação e defensores dos direitos

humanos, num total de 66 casos

– um total que continua a aumentar.

E, além destes, dirigentes sindicais

e membros da oposição, incluindo os

membros eleitos da Assembleia Nacional

de 2015, e seus familiares.

«Isto não contribui para apaziguar

as tensões, pelo contrário», disse a

alta-comissária, apelando a um «diálogo

inclusivo para abordar as causas

profundas dos actuais desafios».

O regime venezuelano tem sobre

tudo isto outra opinião. Dias antes,

Maduro dissera ao Conselho de

Genebra que os direitos humanos

são um «pilar» fundamental da sua

política. E o representante venezuelano

na cidade suíça declarou que

Caracas daria à ONU «uma resposta

detalhada na devida oportunidade».

Mas a realidade ia toda ao contrário.

O diário El Nacional anunciava o salvamento

de 18 pessoas encontradas

à deriva e desidratadas num barco de

pesca no mar das Caraíbas – pretendiam

chegar a Curaçau. E o Governo

dava 72 horas à representante da

União Europeia, outra portuguesa,

Isabel Brilhante Pedrosa, para deixar

o país, por a UE ter posto na sua lista

negra mais 19 personalidades do

Governo venezuelano – no total são

agora 55.

Cinco milhões de pessoas abandonaram

a Venezuela nos últimos seis

anos para os países vizinhos e até

mais longe. am

O

que ainda há um mês era difícil

de acreditar tornou-se,

entretanto, realidade: Lula da

Silva, o antigo presidente brasileiro

condenado por corrupção na sequência

de um processo muito criticado,

foi libertado.

A libertação do líder histórico do

Partido dos Trabalhadores (PT) deveu-se

à anulação, por um juiz do

Supremo, Edson Fachin, do julgamento

do Tribunal Federal de Curitiba,

a instância que o condenou,

por incompetência legal. Não era o

juiz natural dos casos, na expressão

usada.

Lula da Silva, cuja libertação não

significa absolvição do processo conduzido

pelo ex-juiz Sergio Moro, que

se tornou depois ministro do presidente

Bolsonaro, recupera assim direitos

políticos perdidos e pode agora,

se assim o decidir, concorrer às

presidenciais de 2022, hipótese que

está a agitar a política brasileira.

jeanine añez

foi detida

A

polícia boliviana deteve em

sua casa a ex-presidente Jeanine

Añez, acusada de envolvimento

num golpe para impedir que

Evo Morales fosse reconduzido no

topo do Estado na sequência das

eleições de 2019.

Com Jeanine Añez foram detidos

vários antigos ministros e altos comandos

das Forças Armadas.

© Lusa/Fernando Bizerra Jr.

© Lusa

além-mar | Abril 2021


ap alterações climáticas

© UNICEF/Chakma

2021 Abril | além-mar


DOIS CONTINENTES

EM CRISE

Todo o planeta está ameaçado, mas os habitantes da Ásia

e da África são os que enfrentam os maiores riscos.

As previsões são sombrias, até assustadoras, mas

há quem não desista de lutar por um futuro melhor.

A Além-Mar ouviu as histórias de duas jovens activistas,

Marinel Ubaldo, das Filipinas, e Evelyn Acham, do Uganda.

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

além-mar | Abril 2021


alterações climáticas

© 123RF

A

concentração de dióxido de

carbono (CO 2

) na atmosfera

atingiu, em 2020, níveis

sem precedentes, segundo

os dados mais recentes, divulgados

pela Administração Oceânica

e Atmosférica Nacional dos Estados

Unidos (NOAA) e da Universidade

da Califórnia.

Em Maio do ano passado, o pico

no observatório de Mauna Loa, no

Havai, atingiu 417,1 partes por milhão

(ppm), mais do que as 414,7

registadas no mesmo mês de 2019.

E isto apesar de o confinamento exigido

pela pandemia de covid-19 ter

diminuído «só muito ligeiramente»

as emissões poluentes.

A última vez que os níveis de CO 2

excederam as 400 ppm foi há cerca

de quatro milhões de anos, durante

a era de Pliocénico, quando as temperaturas

globais eram 2-4 graus

Celsius mais altas e os níveis do mar

eram 10-25 metros mais elevados do

que agora.

«Adicionámos 1000 ppm de CO 2

à atmosfera nos últimos sessenta

anos», disse à BBC Martin Siegert,

co-director do Grantham Institute

for Climate Change and the Environment

do Imperial College, em

Londres. «Se o pior cenário se mantiver,

os níveis de CO 2

serão, no final

deste século, de 800 ppm – o que

não acontece há 55 milhões de anos,

quando não havia gelo no planeta.»

Dos continentes que enfrentam as

consequências mais graves das alterações

climáticas estão a Ásia e a África.

Segundo um relatório elaborado

pela firma de consultoria McKinsey

e citado pela revista Forbes, é previsível

que, até 2050, algumas regiões

asiáticas enfrentem «subidas de temperatura,

ondas mortíferas de calor,

precipitação extrema, furacões severos,

seca e redução no abastecimento

de água».

Na Ásia, o aquecimento global já

afecta de forma dramática o capital

natural – o conjunto dos recursos

renováveis e não renováveis (plantas,

animais, ar, água, solos, minerais)

que beneficiam a humanidade.

A massa glacial, acrescenta a McKinsey,

deverá diminuir em cerca de

40 %; as receitas da pesca poderão

p A concentração de dióxido de carbono

(CO2) na atmosfera atingiu, em

2020, níveis sem precedentes. No Havai,

atingiu 417,1 partes por milhão (ppm)

cair para metade; e 90 % dos recifes

de coral irão degradar-se acentuadamente

até 2050.

O ano de 2019 já tinha sido terrível,

como anotou o site Eco-Business,

de Singapura. No Paquistão e na Índia,

«vagas de calor tão intenso capazes

de derreter o asfalto» afectaram

milhões de pessoas no subcontinente.

Com 51 ºC, a cidade paquistanesa

de Jacobabad, na província de Sindh,

foi o lugar mais quente da Terra em

2019. O Estado indiano do Rajastão,

no Norte, chegou aos 50,8 ºC.

Em Chennai, capital do Estado indiano

de Tamil Nadu, uma seca que

se prolongou durante 193 dias deixou

sem água, fosse para cozinhar

ou tomar banho, os dez milhões de

habitantes da cidade. Os mais prejudicados

foram mulheres e crianças

das comunidades pobres. Muitos

passaram horas em filas à espera de

2021 Abril | além-mar


p As inundações causadas pelo ciclone Nirav em Tamil Nadu, Índia, no passado dia

26 de Novembro, deixaram muita destruição. Em baixo, uma criança brinca na praia

em frente das casas severamente danificadas por uma tempestade na Ilha de Galoa,

Bua, Ilhas Fiji. Na Ásia do Sul, «catastróficas chuvas torrenciais» inundaram aldeias e

desalojaram milhões de pessoas

© UNICEF/Akash

© UNICEF/Stephen/Infi

encherem os seus recipientes. Por

causa disso, muitos adoeceram ou

perderam os empregos.

Na Ásia do Sul, «catastróficas chuvas

torrenciais» inundaram aldeias

e desalojaram milhões de pessoas.

Centenas desapareceram e dezenas

morreram. O nível dos rios subiu

assustadoramente da noite para o

dia. As cheias danificaram estradas,

pontes e linhas férreas. Muitas zonas

ficaram intransitáveis, deixando comunidades

ao abandono. Numerosas

habitações foram arrastadas neste

dilúvio ou ficaram soterradas.

O Mekong, o maior rio do Sudeste

Asiático, que se estende ao longo

de 4500 km, da nascente, no Tibete,

através da Birmânia, Tailândia, Laos

e Camboja até à foz, no Vietname,

enfrentou pressões sem precedentes,

como uma seca extrema e a construção

desenfreada de centrais hidroeléctricas.

O caudal do rio desceu ao

nível mais baixo num século, ameaçando

a cadeia alimentar dos seis

países e 60 milhões de pessoas que

dependem da sua água, observou o

Eco-Business.

Sérias preocupações

No Sudeste Asiático, as temperaturas

médias têm aumentado todas as

décadas desde 1960. A Birmânia, as

Filipinas e a Tailândia estão entre os

dez países do mundo mais atingidos

pelas alterações climáticas nos

últimos vinte anos, segundo o Global

Climate Risk Index, do grupo ambientalista

Germanwatch. O Banco

Mundial coloca o Vietname na lista

dos cinco países que mais sofrerão

com o aquecimento global.

O Banco de Desenvolvimento

Asiático prevê, para o Sudeste Asiático,

até ao final do século xxi, uma

queda de 11 % do PIB, com a agricultura,

o turismo e as pescas a serem

os sectores mais duramente sacrificados.

Isto sem incluir as perdas na

saúde humana e na produtividade

laboral.

Num “novo regime climático”, em

que os meses mais frescos do Verão u

além-mar | Abril 2021


alterações climáticas

serão os mais quentes, se não houver

respostas tecnológicas, as colheitas

de trigo nas Filipinas, na Indonésia,

na Tailândia e no Vietname poderão

diminuir 50 % até 2100. Com a

subida das temperaturas, ressurgirão

doenças como a malária ou a febre

de dengue.

A procura de carvão, abundante e

de baixo preço, porque mais barato

de financiar, em comparação com o

petróleo, o gás e as energias renováveis,

tem contribuído para o aumento

dos gases com efeito de estufa na Ásia.

Outra fonte perniciosa é a desflorestação

(na Indonésia representa quase

metade das emissões). Muitas árvores

são abatidas para alimentar populações,

produzir celulose, papel e óleo

de palma, principais exportações.

Um rápido crescimento económico

e uma crescente urbanização

também exacerbam o impacto das

alterações climáticas. Migrantes das

zonas rurais mudam-se para as cidades,

e estas emitem mais calor. Novas

construções em planícies bloqueiam

cursos de água, deixando as urbes

expostas a inundações.

A urgência de Moçambique

Em África, a situação é igualmente

desoladora. Em todos os cenários

em que a temperatura sobe acima

dos 1,5 ºC, este continente é sempre

o mais vulnerável, refere o Banco de

Desenvolvimento Africano.

«África enfrenta danos colaterais

exponenciais que colocam riscos

às suas economias, infra-estruturas

e investimentos, abastecimento de

água e alimentos, saúde pública, agricultura

e outros meios de subsistência»,

adverte o banco num relatório.

Sete dos dez países mais vulneráveis

às alterações climáticas situam-se em

África, e no topo da tabela está Moçambique,

seguindo-se o Maláui (3.ª

posição), o Gana e Madagáscar (8.ª).

Em Março, num vídeo assinalando

o segundo aniversário da passagem

do ciclone Idai, que só em Moçambique

afectou 1,5 milhões de pessoas

e causou 603 mortos, além de mais

© UNICEF/Franco

de 4000 casos de cólera, o secretário-

-geral da ONU, António Guterres,

implorou ajuda urgente da comunidade

internacional para enfrentar «a

tripla ameaça resultante da violência

[na província de Cabo Delgado] das

crises climáticas e da pandemia de

covid-19».

Moçambique precisa do equivalente

a 212,5 milhões de euros para

responder às suas necessidades, especificou

Guterres, lamentando que

o país esteja a ser sujeito a «catástrofes

atrás de catástrofes». Em Janeiro

deste ano, um outro ciclone, Eloise,

deixou mais um rasto de destruição e

morte na mártir cidade da Beira.

«Há regiões em África que estão a

aquecer a um ritmo duas vezes superior

face à média global do planeta»,

realçou Guterres. «Na verdade, o

continente africano, sendo dos que

tem menores responsabilidades na

p Área inundada no Centro de Relocação

de Tica, a 80 quilómetros da cidade

da Beira. O ciclone Eloise provocou

milhares de desalojados nas províncias

de Manica, Sofala e Zambézia no

passado mês de Janeiro. Ao lado, pastor

numa região afectada pela seca no Sul

da Somália

crise climática, é dos que mais sofre

as suas consequências.» É, pois, obrigatório

«apoiar as nações que estão

na linha da frente», para que consigam

reforçar a sua «resiliência e capacidade

de adaptação».

O ano de 2019 foi um dos três mais

quentes em África e os cientistas

admitem que esta tendência irá continuar.

Extensas áreas do continente

irão exceder os 2 ºC acima dos níveis

pré-industriais, segundo previsões

do Painel Intergovernamental para o

Clima. Mais ondas de calor e menos

2021 Abril | além-mar


© UNICEF/Franco

números do clima

45,6%

percentagem em que

aumentou o número

de pessoas desnutridas

nos países subsarianos

desde 2012

1,5

milhões

número de pessoas que a

passagem do ciclone Idai

afectou em Moçambique

50%

percentagem em que

poderão diminuir as

colheitas de trigo nas

Filipinas, Indonésia,

Tailândia e Vietname

até 2100

Fontes: ONU, FAO, Banco Mundial

precipitação vão ser particularmente

penosas, até ao final deste século,

no Norte de África e no Sudoeste da

África Austral.

Preocupação e esperança

Nos países subsarianos, o número

de pessoas desnutridas aumentou

45,6 % desde 2012, informa a Organização

para a Alimentação e Agricultura,

agência especializada das

Nações Unidas. Se as colheitas diminuem,

aumentam as doenças, porque

temperaturas mais elevadas e maior

precipitação atraem mosquitos, vectores

de transmissão, por exemplo,

do paludismo. Mais de 400 mil pessoas

morrem todos os anos de malária

e 94 % dessas mortes ocorrem

na região africana, de acordo com

a OMS. As crianças com menos de

cinco anos são o grupo mais vulnerável:

constituem 67 % dos óbitos.

Um outro problema climático é a

erosão costeira, que foi de 56 % em

2019 e não deverá abrandar, sobretudo

em países da África Ocidental,

como o Benim, a Costa do Marfim, o

Senegal e o Togo.

As calamidades não a poupam,

mas África tem feito esforços para

cumprir a sua agenda climática: 90 %

dos países do continente ratificaram

o Acordo de Paris e muitos comprometeram-se

a fazer a transição para

energias verdes num curto espaço

temporal.

Marrocos construiu a maior instalação

solar concentrada do mundo,

visando cumprir o objectivo de ter

52 % de energias renováveis até 2030.

Este projecto beneficia dois milhões

de cidadãos, e oferece empregos e

formação profissional no sector agrícola

a homens e mulheres.

Em Junho de 2019, a África do Sul

impôs uma taxa às emissões de carbono,

esperando reduzi-las em 33 %

até 2035. Também baixou os preços

da energia solar e eólica, agora

inferiores aos da energia a carvão.

O continente vê o país de Nelson

Mandela como um exemplo.

A transição para uma economia

amiga do ambiente parece estar em

marcha num continente onde abundam

recursos. A questão, como escreveu

num ensaio publicado pelo

think-tank Brookings Institution a

nova directora-geral da Organização

Mundial do Trabalho, a nigero-

-americana Ngozi Okonjo-Iewala,

é saber se os países industrializados

vão criar «um vento a favor ou um

vento contrário».

A resposta a esta questão será determinante.

«Pode não ser educado

dizer isto, mas os países africanos

necessitam de dinheiro – quer para

construírem um futuro mais limpo e

próspero para si próprios como para

evitar os piores impactos das alterações

climáticas criadas, em larga medida,

por outros. Os países africanos

não podem, nem devem, fazer isto

sozinhos», sublinha Ngozi Okonjo-

-Iewala. am

além-mar | Abril 2021


alterações climáticas

MARINEL SUMOOK UBALDO – FILIPINAS-SUDESTE ASIÁTICO

NÃO DEVEMOS TER MEDO

DE FAZER A DIFERENÇA

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

A

vida de Marinel Sumook

Ubaldo mudou para sempre

quando o tufão Hayan/

/Yolanda, que ela descreve

como «o mais devastador jamais registado

na história humana», atingiu

a sua pacata cidade, cem quilómetros

a sudoeste de Manila, a capital das

Filipinas.

Não faltavam sinais a anunciar

uma tragédia. Às 7 da manhã, as temperaturas

exteriores já eram elevadas

e o seu pai, que era pescador, havia

muito que se queixava da escassez

de cardumes. No dia 3 de Novembro

de 2013, tinha Marinel 16 anos,

o tufão de categoria 5, a mais elevada

na escala de Saffr-Simpson, arrasou

praticamente tudo à sua passagem,

com ventos superiores a 370 km/h e

ondas de 15 metros de altura. Mais

de 6300 pessoas morreram. Marinel

não se esquece dos corpos que viu a

boiar no mar.

Seis anos depois, segundo a Amnistia

Internacional, milhares de filipinos

ainda não tinham sido realojados

em áreas residenciais seguras,

com acesso a água, alimentos, electricidade,

casas de banho ou fontes

de rendimento. Muitos foram transferidos

para as proximidades de um

aterro tóxico, onde pelo menos 11

morreram de doenças várias.

«O tufão destruiu a minha comunidade,

destruiu a minha casa e a

minha escola, matou milhares de

pessoas e meios de subsistência»,

afirma Marinel, numa entrevista,

por correio electrónico, à Além-Mar.

O que pensava ser um porto seguro

desapareceu num ápice, mas ela recusou

ser tratada como apenas «mais

uma vítima, mais um dado estatístico».

Em 2015, juntou-se a cerca de 31

mil sobreviventes numa investigação

histórica iniciada pela Comissão

de Direitos Humanos das Filipinas,

para apurar a responsabilidade de 47

empresas produtoras de carvão, cimento

e combustíveis fósseis.

Hoje, aos 24 anos, a assistente social

Marinel Ubaldo é uma das mais

importantes activistas globais pelo

q Marinel Ubaldo é uma das mais importantes

activistas globais pelo clima.

A jovem filipina é a coordenadora da

Campanha de Justiça Ecológica da Living

Laudato Si’ Philippines (LLS)

clima. Fundou a Youth Leaders Environmental

Action Federation (Federação

de Líderes Juvenis para a

Acção Ambiental) e é coordenadora

da Campanha de Justiça Ecológica

da Living Laudato Si’ Philippines

(LLS), um movimento interconfessional

iniciado por leigos católicos*.

Em nome do seu povo, discursou

em duas cimeiras mundiais do clima

organizadas pelas Nações Unidas,

a COP 21, em 2011 em Paris, e

a COP 25, em 2019 em Madrid. Em

Setembro de 2018, durante a Semana

do Clima em Nova Iorque, foi testemunha

na Audiência Pública de Responsabilidade

pela Justiça Climática,

onde declarou que as emissões de

gases de estufa produzidas por com-

© Foto cedida por Marinel Sumook Ubaldo

2021 Abril | além-mar


© Lusa/Ahmed © Lusa/Arcel Jalil Valderrama

s O tufão Vamco assolou as Filipinas

em Novembro de 2020, afectando mais

de 1,1 milhões de pessoas. Foi o 21.º

ciclone a assolar o país nesse ano. As

Filipinas, a Birmânia e a Tailândia estão

entre os dez países do mundo mais

atingidos pelas alterações climáticas

panhias poderosas, como a Shell Oil

Manila, «põem em risco o direito à

vida e à autodeterminação».

Recentemente, Marinel recebeu

treino da equipa do ex-vice-presidente

americano Al Gore como Climate

Reality Leader (Líder da Realidade

Climática), para continuar

a contar a sua história por todo o

mundo. «Estou activamente envolvida

na educação de crianças e jovens

sobre as alterações climáticas e o papel

que podem desempenhar para

se adaptarem e mitigarem os seus

efeitos», explica-nos. «Pretendo chamar

a atenção para a urgência de os

dirigentes mundiais respeitarem os

compromissos assumidos.» Ela não

quer piedade. Quer acção.

Ameaças e assassínios

O tufão Hayan/Yolanda fez de Marinel

uma “guerreira espiritual”, mas o

seu despertar para as ameaças ao planeta

acontecera um ano antes. «Em

2012, a minha escola enviou-me para

um seminário de formação profissional

da Plan International», organização

humanitária independente que

trabalha em 71 países da Ásia, África

e Américas, no sentido de promover

os direitos das crianças e a igualdade

das meninas. «Desde então, tornei-

-me animadora/facilitadora, visitando

outras escolas e comunidades

remotas, para falar sobre alterações

climáticas e como devemos agir para

nos prepararmos.»

Nessas comunidades longínquas,

onde muitos habitantes são analfabetos,

Marinel recorre a peças de teatro

ou emissões radiofónicas para transmitir

a sua mensagem. A pandemia

de covid-19 afectou este apoio presencial.

«De início, foi difícil ajustar-me às

novas regras, porque tudo passou a

ser online», admitiu. «O desafio agora

está em identificar as campanhas

mais eficazes e com maior impacto

que ainda podem chegar ao nosso

público-alvo.»

Nenhuma contrariedade parece

desencorajar Marinel: «Devemos

amplificar as nossas acções e influência,

nos sectores público e privado,

para que todos ajam em prol do clima.

Foi assim que me tornei lobista

junto do Governo filipino e me mantive

activa no movimento climático

nacional e internacional. Quis levar

a história da minha comunidade a

uma plataforma internacional, para

que soubessem que as alterações

climáticas são uma realidade diária

para numerosas pessoas em países

vulneráveis.»

u

além-mar | Abril 2021


alterações climáticas

Marinel está orgulhosa do seu activismo:

«A Youth Leaders for Environmental

Action Federation é a

principal organização ecologista,

não-governamental e dirigida por

jovens, em defesa da conservação do

ambiente, de um desenvolvimento

sustentável e da resiliência face às

alterações climáticas nas [ilhas] Visaias

Orientais. Organizámos a primeira

greve estudantil pelo clima nas

Filipinas, com o objectivo de forçar

a Câmara Municipal de Tacloban a

proibir os plásticos não recicláveis e

a declarar emergência climática na

cidade. Queremos promover reformas

através da criação de redes de

associações de jovens e voluntários, a

nível comunitário e regional.»

A celebridade de Marinel não é

garantia de segurança. As Filipinas

ultrapassaram o Brasil como o país

mais violento do mundo para as pessoas

que defendem as suas terras e

o ambiente, segundo um relatório

da organização independente Global

Witness. Em 2018 e 2017, foram

mortos um total de 78 activistas – o

número mais elevado registado na

Ásia. Um terço das mortes registou-

-se na ilha de Mindanau, onde o governo

do presidente Rodrigo Duterte

planeia atribuir milhares de hectares

de terras para fins industriais. Metade

das mortes estão relacionadas

com negócios de extracção de madeira

e mineração.

Em 2019, furioso por o Conselho

de Direitos Humanos da ONU ter

decidido investigar os crimes da sua

“guerra às drogas”, que já matou mais

de 600 pessoas, Duterte suspendeu

um empréstimo da Alemanha, de 36

milhões de dólares, para financiar

um estudo sobre mudanças climáticas

nas Filipinas – o quarto país do

mundo mais ameaçado pelo impacto

do aquecimento global.

Marinel, que confessa ter ficado

«alarmada» com a recente detenção

da activista Disha Ravi, 22 anos, por

se ter solidarizado com os camponeses

da sua Índia natal que protestam

contra novas leis de regulamentação

p Família dirige-se para um abrigo num

centro de evacuação em Aplaya, Baseco,

Manila, devido à ameaça do supertufão

Goni, no passado mês de Novembro

da indústria agrícola, confirma os

perigos que enfrentam também muitos

activistas filipinos. «Infelizmente,

têm sido silenciados, quer através de

ameaças quer de assassínio.» Mas,

frisa ela, «não nos podemos deixar

intimidar pelos que usam o seu poder

em benefício próprio, por muito

que sejamos oprimidos, sobretudo

os mais pobres».

«Temos de proteger os nossos direitos

humanos. Não devemos ter

medo de fazer a diferença. Nós importamos

e, juntos, seremos capazes

de tornar o mundo melhor.». am

(*) Inspirada pela segunda carta encíclica

do Papa Francisco sobre “o cuidado

da casa comum”, Laudato Si’ [Louvado

Sejas], o movimento LLS foi formalmente

criado em 7 de Novembro de 2018,

na Catedral de Manila, na véspera do

quinto aniversário do desastre causado

pelo tufão Yolanda nas Filipinas. «Encorajamos

as pessoas, sobretudo a comunidade

católica, a erguer com orgulho a

bandeira verde pelo ambiente e a viver

segundo os ensinamentos sociais da

Igreja», lê-se no site da LLS. «Uma via

estratégica para encarar esta realidade

triste é dizer aos administradores nomeados

dos nossos recursos financeiros

que retenham os depósitos, os investimentos

e os empréstimos» às empresas

cujas actividades económicas prejudicam

o ambiente. O apelo estende-se às

instituições católicas – «as nossas paróquias,

dioceses, institutos religiosos,

escolas, comunidades» – para que se

unam e façam ouvir a sua voz da maneira

mais poderosa possível».

© UNICEF/Piojo

2021 Abril | além-mar


EVELYN ACHAM – UGANDA-ÁFRICA

NÃO PODEMOS COMER CARVÃO

E NÃO PODEMOS BEBER PETRÓLEO!

Texto: Margarida Santos Lopes, jornalista

© 123RF

Nascida num país tropical

«com apenas duas estações,

a das chuvas e a da seca»,

Evelyn Acham, 29 anos,

pensou durante muito tempo ser este

o padrão no resto do mundo. Mas

não. No Uganda, «secas prolongadas,

desabamentos de terras e cheias

devastadoras» ameaçam a existência

e sobrevivência da população, e esta

jovem formada em Economia da

Terra na Universidade de Makerere,

a maior e mais antiga instituição de

ensino superior em Campala, percebeu

que tinha de se tornar uma

«activista pela justiça climática».

Evelyn é hoje a coordenadora nacional

ugandesa do Rise Up Climate

Movement, fundado pela compatriota

Vanessa Nakate, para amplificar

as vozes dos activistas africanos em

© Foto cortesia de Evelyn Acham

p Evelyn Acham é a coordenadora

nacional ugandesa do Rise Up Climate

Movement. Em baixo, rua num dos bairros

de Campala, capital do Uganda

defesa do clima. É também membro

do movimento estudantil Fridays

For Future, criado pela sueca Greta

Thunberg, e do grupo de direitos

humanos Defend the Defenders, que

luta pela protecção da floresta de

Zika.

«Apesar de alguns esforços do

nosso Governo, preocupa-me que a

lei no Uganda não dê a devida importância

às alterações climáticas, o

maior obstáculo ao desenvolvimento

sustentável e aos planos para pôr fim

à pobreza no país», confessa Evelyn

Acham, em entrevista à Além-Mar

por correio electrónico.

O activismo de Evelyn, iniciado

em 2019, foi inspirado por Vanessa

Nakate, que a revista americana

TIME acaba de incluir entre os 100

nomes da sua lista Next Generation

Leaders (Líderes da Próxima Geração).

«Ao ver a minha amiga e colega

de universidade fazer greve sozinha

nas ruas de Campala, ao ver a sua

paixão e o seu empenhamento pela

salvação do planeta, despertou-me o

interesse pelas alterações climáticas.»

A situação no Uganda é muito

preocupante. Evelyn, que diz ter feito

a sua própria investigação para colmatar

o que não aprendeu com um

sistema educativo deficitário, conta

o que está a acontecer no distrito de

Kasese [no Ocidente], onde «vidas

humanas e colheitas têm sido destruídas

desde 2013, devido a inundações

que fazem transbordar as

margens do rio». «O ano passado

– adianta –, o Lago Vitória atingiu

níveis alarmantes, as águas subindo

de 12 metros cúbicos para 13,32. Isto u

além-mar | Abril 2021


alterações climáticas

fez com que algumas casas ficassem

submersas, deixando milhares de

pessoas sem abrigo.»

Não é apenas a abundância de

chuva que exacerba os problemas

ambientais, mas também a rápida

desflorestação. Árvores são cortadas

para produzir combustível. Anualmente,

a taxa de perda de cobertura

florestal no Uganda é de 2,6 % – uma

das mais elevadas do mundo. Mais

de 80 % dos ugandeses ainda usam

lenha para cozinhar, porque não têm

energias alternativas.

Outro dos grandes desafios que se

colocam aos activistas ugandeses é o

East African Crude Oil Pipeline, um

oleoduto que irá transportar petróleo

do Ocidente do Uganda para um

porto na costa norte da Tanzânia,

ao longo de 1445 quilómetros. «O

EACOP vai resultar em mais emissões

de carbono, em mais destruição

da biodiversidade, em mais destruição

de vidas humanas e propriedades»,

condena Evelyn. «Não podemos

comer carvão e não podemos

beber petróleo!»

Em Março, 260 organizações não

governamentais, nacionais e internacionais,

assinaram uma carta aberta

a mais de uma dúzia de bancos para

não financiarem este projecto avaliado

em 3500 milhões de dólares. Os

empréstimos pedidos totalizam 2500

milhões. Porque a construção do

EACOP, a cargo do gigante francês

Total e de um conglomerado chinês,

representa «riscos inaceitáveis» para

as comunidades e o clima no Uganda,

na Tanzânia e em toda a região, as

ONG recomendam aos responsáveis

governamentais que deixem de investir

em infra-estruturas com base

em combustíveis fósseis e apostem

em energia renovável.

A pior experiência

«Em África, as raparigas e as mulheres

são as mais afectadas pelas

alterações climáticas, porque são as

mais marginalizadas», sublinha Evelyn

Acham. «Quando acontece um

desastre climático, as mulheres, porque

são elas que andam a pé longas

distâncias para pôr comida e água na

mesa, deixam de poder alimentar as

suas famílias.» Outro drama relacionado

com a insegurança alimentar

é o das «meninas que são oferecidas

em casamento em troca de dinheiro».

É por isso que, nos seus protestos,

Evelyn não reivindica apenas que as

autoridades acabem com os combustíveis

fósseis e transitem para a energia

renovável, mas também que as

raparigas tenham acesso à educação

sobre o clima «para ajudar a preservar

os nossos ecossistemas».

Sem a protecção política de que beneficiam

os mais privilegiados congéneres

na Europa ou nos Estados

Unidos, a activista ugandesa enfrentou,

em 26 de Fevereiro, o que qualifica

de «a pior experiência» da sua

vida. Na companhia da amiga Abitimo

Becca e do amigo Paphras Ayebale,

Evelyn decidiu manifestar-se

junto ao Parlamento em Campala,

erguendo cartazes com a inscrição «I

can’t breath, the air is polluted» (Não

consigo respirar, o ar está poluído).

Era um local movimentado, «perfeito

para despertar consciências», explicou

posteriormente Ayebale.

«Subitamente, fomos cercados por

sete agentes da polícia, a maioria deles

homens», relata Evelyn. «O meu

2021 Abril | além-mar


p Menina recolhe água numa aldeia do Uganda. Em África, as meninas e as mulheres

são as que andam a pé longas distâncias para pôr comida e água na mesa.

Em baixo, ramal do East African Crude Oil Pipeline, oleoduto que irá transportar petróleo

do Ocidente do Uganda para a costa norte da Tanzânia

© Oxfam © 123RF

coração batia tão rápido. Fiquei assustadíssima.

Fomos colocados numa

pequena cela e ordenaram-nos que

nos sentássemos no chão. Os agentes

pronunciavam palavras ameaçadoras:

“Podemos torturar-vos, podemos

fazer com que desapareçam e

ninguém saberá o que vos aconteceu

nem vos encontrará.” Temi que a minha

família não mais me visse. Fiquei

em estado de choque, traumatizada.

Só consegui manter-me firme porque

não estava sozinha.»

«Fomos libertados na condição de

não voltarmos a fazer greve em público»,

informa Evelyn. «Os nossos

cartazes e telemóveis foram confiscados.

Obrigaram-nos a apagar todas

as fotos da greve daquela sexta-feira.

Que experiência tão dolorosa! Não

desejo isto a ninguém, mas não é isto

que vai terminar o meu activismo,

porque as alterações climáticas não

acabaram na cela onde fui detida.

Vou continuar a protestar, nas ruas

ou em casa.»

As greves já haviam sido afectadas

por causa do confinamento imposto

para travar a covid-19. «A pandemia

limitou a nossa audiência, porque

as greves online chegam apenas aos

mais jovens e não às gerações ausentes

das redes sociais. Temos de chegar

a estas presencialmente», constata

Evelyn. A crise sanitária actual

«mostrou que é possível aplicar soluções

o mais rapidamente possível.

Basta ver como, perante o coronavírus,

os líderes entraram em pânico e

aceitaram adaptar-se a todas as medidas

desconfortáveis. As alterações

climáticas devem também ser tratadas

como uma emergência».

«Porque são um problema de saúde,

de género, de educação, racial e

social, as alterações climáticas devem

preocupar toda a gente», conclui Evelyn.

«Todos devem participar nesta

luta. Não interessa a nossa idade ou a

nossa cor. Pequeno ou grande, o nosso

contributo é importante. Todos os

activistas têm uma história e todas as

histórias têm uma solução. E cada solução

tem uma vida para mudar.» am

além-mar | Abril 2021


género apo musical

O PODER DO JAZZ

A história do jazz confunde-se com a luta pelos direitos fundamentais

do indivíduo, nomeadamente contra o racismo e discriminação,

em prol da dignidade humana e da democracia. O género musical

liga pessoas, culturas e o mundo.

Texto: Carlos Reis, jornalista

© 123RF

«Enquanto o mundo

enfrenta a pandemia, a

música está a unir as

pessoas e a ajudar a

manter viva a esperança.

A Unesco acredita no poder

do jazz como uma força

para a paz, o diálogo e a

compreensão mútua.»

Audrey Azoulay, directora-geral da Unesco

«O poder da música

afecta o ritmo universal

da vida. Queremos viver

num mundo do jazz onde

todos trabalhemos juntos,

improvisemos juntos, não

tenhamos medo de arriscar

e de nos expressar.»

Herbie Hancock, pianista e compositor

e embaixador da Unesco para o Diálogo

Intercultural

2021 Abril | além-mar


ORIGENS DO JAZZ

© 123RF

O jazz teve origem nas comunidades

negras de Nova Orleães, nos Estados

Unidos, no início do século xx. O género

musical é o resultado da fusão de

elementos de diversas tradições musicais

(bases rítmicas africanas, estruturas

harmónicas europeias, vocalizações do

gospel), tendo dado origem a diferentes

estilos que partilham a improvisação, a

polirritmia e a polifonia.

VIRTUDES DO JAZZ

Em 2011, a Unesco designou o Dia Internacional do Jazz (30 de Abril), para destacar o género

musical e o seu papel diplomático de unir as pessoas em todo o mundo

Quebra barreiras

Reduz as tensões

entre indivíduos,

grupos e

comunidades

Estimula

a inovação artística

e improvisação

Incentiva novas

formas de expressão

Incita à inclusão

de formas musicais

tradicionais

Diálogo contínuo

Estimula o diálogo

intercultural

Cria oportunidades

para compreensão e

tolerância mútuas

Capacita jovens

de sociedades

marginalizadas

Vector de liberdade

de expressão

CATEGORIAS DE EXCELÊNCIA

A Jazz Journalists Association celebra

anualmente a excelência na música e no

jornalismo musical nos prémios JJA Jazz

Awards. A edição de 2020 distinguiu The

Secret Between the Shadow and the Soul,

do Branford Marsalis Quartet, como melhor

álbum do ano. A revista mensal JazzTimes

foi eleita a publicação do ano.

© 123RF

além-mar | Abril 2021


ap francisco no iraque

© Lusa/Vatican Media

CONSTRUIR PONTES DE PAZ,

JUSTIÇA E FRATERNIDADE

Três dias, três ideias diferentes, o mesmo objectivo. O Papa Francisco

foi ao Iraque dizer que é preciso pôr fim à violência, pacificar a

sociedade e reconstruir a alma do país. Uma peregrinação histórica à

pátria dos três monoteísmos, que já começou a ter consequências.

Texto: António Marujo, jornalista do setemargens.com

A

imagem do Aiatola Ali al- Não houve declarações públicas desta viagem única ao Iraque que decorreu

entre 5 e 8 de Março.

-Sistani, líder espiritual nem sequer a assinatura de nenhum

dos xiitas, ao lado do Papa documento conjunto, como sucedeu Já no voo de regresso a Roma, o

Francisco, não podia ser há dois anos, com o líder da maior papa classificaria o encontro como

mais simbólica: um de negro, outro autoridade sunita, o outro ramo do «uma peregrinação de fé e de penitência».

de branco, eles foram as vozes de um islão. Nessa altura, em Abu Dhabi,

«É um homem sábio, um

mesmo desejo: «Que o Iraque supere Francisco e o xeque Al Tayyeb, imã homem de Deus», disse, referindo-se

a violência, manifestando a esperança

de Al-Azhar (Cairo), assinaram o ao aiatola. E acrescentou: «Senti-me

de que os cristãos vivam como to-

Documento sobre a Fraternidade muito honrado» por ser recebido.

dos os iraquianos, em segurança e na Humana, que estaria depois na base «No momento dos cumprimentos,

paz, e com pleno respeito pelos seus da encíclica Fratelli Tutti (Todos irmãos),

ele nunca se levanta, mas levantoudireitos

constitucionais», expressava

publicada pelo papa em Ou-

-se para me cumprimentar, por duas

no final um comunicado do gabinete tubro. Mas o encontro com Sistani vezes. É um homem humilde e sábio,

de Sistani.

falou por si e ficaria como a imagem fez-me bem este encontro.»

2021 Abril | além-mar


Primeiras consequências desses

45 minutos para a história inter-

-religiosa (e do encontro que, pouco

depois, o papa presidiria em Ur, com

representantes de várias religiões e

confissões cristãs): Sistani reafirmava

a importância de os cristãos fazerem

parte de um Iraque pacificado, tratados

por igual com todos os outros

cidadãos; o papa revelou que a aproximação

ao islão continuará com

«novos passos»; disse que está a ponderar

a possibilidade de uma viagem

ao Líbano; e o primeiro-ministro do

Iraque, Mustafa Al-Khadimi, anunciou

a instituição de um Dia Nacional

da Tolerância e Coexistência, a 6

de Março.

p Francisco e o líder xiita do Iraque, o Aiatola Ali Al-Sistani, em Najaf, durante a viagem

do papa ao Iraque. Na pág. anterior, celebração inter-religiosa na antiga cidade

de Ur, de onde terá saído Abraão, o “pai” dos três monoteísmos; depois do encontro,

foi anunciado que o Iraque passará a ter um Dia Nacional da Tolerância e Coexistência,

a 6 de Março. Em baixo, o presidente iraquiano, Barham Salih (centro), dá as

boas-vindas ao Papa Francisco durante uma cerimónia oficial no palácio presidencial

em Bagdade, Iraque

© Lusa/Vatican Media

© Lusa/Vatican Media

«Uma viagem que mudaria

a História»

Pouco depois, o papa estava no encontro

em Ur, num regresso a casa:

«Deus é misericordioso e a ofensa

mais blasfema é profanar o seu nome

odiando o irmão. Hostilidade, extremismo

e violência não nascem dum

ânimo religioso: são traições da religião.

E nós, crentes, não podemos

ficar calados, quando o terrorismo

abusa da religião.»

Há duas décadas, possivelmente

João Paulo II teria dito coisas semelhantes.

O papa polaco chegou a

desejar fazer a mesma viagem, mas

o então ditador iraquiano Saddam

Hussein não o autorizou e os Estados

Unidos da América desaconselharam-na

vivamente, também por causa

das críticas que o papa fazia à política

americana em relação ao país.

As palavras de Francisco em Ur

marcam a viagem. O papa começou

por se referir ao «lugar abençoado»

onde os líderes de diferentes religiões

se encontravam: «Faz-nos pensar

nas origens, nos primórdios da obra

de Deus, no nascimento das nossas

religiões. Aqui, onde viveu o nosso

pai Abraão, temos a impressão de regressar

a casa.» E ali teve início «uma

viagem que mudaria a História».

Os descendentes de Abraão são,

hoje, «chamados a testemunhar» a

u

além-mar | Abril 2021


francisco no iraque

bondade de Deus, disse o papa, que

enalteceu o exemplo dos jovens cristãos

e muçulmanos que se juntam

para a reconstrução, e pedindo que

o dinheiro das armas seja gasto em

alimentos ou apelando a que se dê

voz aos «oprimidos e descartados

no planeta: muitos estão privados

de pão, remédios, instrução, direitos

e dignidade». Só a fragilidade e a

mansidão são caminhos para chegar

às bem-aventuranças do Evangelho,

disse aos cristãos: «Jesus mudou a

História. Como? Com a força humilde

do amor, com o seu paciente

testemunho. O mesmo somos nós

chamados a fazer; assim Deus realiza

as suas promessas.»

Estas mensagens seriam repetidas

no dia seguinte, passado no Curdistão

– Mossul, Qaraqosh, Erbil – e

dedicado aos cristãos, à memória

das vítimas da guerra e ao tema da

reconstrução.

«Olhamos ao nosso redor e vemos

[...] os sinais do poder destruidor da

violência, do ódio e da guerra. Quantas

coisas foram destruídas! E quanto

deve ser reconstruído! Este nosso encontro

demonstra que o terrorismo

e a morte nunca têm a última palavra»,

disse Francisco, na Catedral da

Imaculada Conceição, que tinha sido

destruída pelo Daesh (e usada como

campo de tiro) e foi, entretanto, reconstruída.

Perdoar, reconciliar e resistir

à tentação da vingança

Nem apenas de paredes se faz o recomeço:

«Este é o momento de restaurar

não só os edifícios, mas também,

e em primeiro lugar, os laços

que unem comunidades e famílias,

jovens e idosos.»

Para reconstruir, há um caminho:

«O perdão é necessário por parte daqueles

que sobreviveram aos ataques

terroristas. Perdão: esta é uma palavra-chave.»

Doha Sabah Abdallah,

que falara momentos antes, e que

vira o filho, um primo e uma vizinha

morrerem na sequência de um

ataque terrorista, disso mesmo dera

© Lusa/Vatican Media

© Lusa/Alessandro Di Meo

p O Papa Francisco preside em Mossul, na Praça das Igrejas, nome que se refere

aos quatro edifícios das igrejas Siro-católica, Arménio-ortodoxa, Siro-ortodoxa e Caldeia

(católica) a uma oração pelas vítimas da guerra. Em baixo, o papa vê a destruição

na Praça da Igreja Hosh al-Bieaa, após a oração. «Quando parei diante da igreja

[siro-ortodoxa] destruída, fiquei sem palavras», disse o papa

testemunho. Doha, afirmou o papa,

foi capaz de «perdoar ao agressor» e

por isso é importante dizer «não ao

terrorismo e à instrumentalização da

religião».

Na tarde desse dia, no seu último

acto público da viagem, a missa no

Estádio Franso Hariri, em Erbil, viria

a insistência nas mesmas ideias,

dirigindo-se especificamente aos

cristãos: é preciso resistir à «tentação

da vingança», que leva a uma «espiral

de retaliações sem fim». Antes, os

cristãos devem «construir uma Igreja

e uma sociedade abertas a todos».

Em Mossul, na oração pelas vítimas

da guerra, mais dois parágrafos

centrais nos seus discursos: «Se Deus

é o Deus da vida – e é-O –, não nos é

lícito matar os irmãos em seu nome.

Se Deus é o Deus da paz – e é-O –,

não nos é lícito fazer a guerra em seu

nome. Se Deus é o Deus do amor

– e é-O –, não nos é lícito odiar os irmãos»,

afirmou, na introdução. Para

insistir depois em que a «fraternidade

é mais forte do que o fratricídio,

que a esperança é mais forte do que a

morte, que a paz é mais forte do que

a guerra». E essa convicção «fala com

2021 Abril | além-mar


p A multidão em festa recebe o Papa Francisco no Estádio Franso Hariri em Erbil,

onde celebrou a missa. Em baixo, o Papa Francisco na Catedral da Imaculada Conceição,

em Qaraqosh, no Norte do Iraque. Esta que é a maior igreja do Iraque, tinha sido

destruída pelo Daesh (e usada como campo de tiro), mas foi, entretanto, reconstruída

uma voz mais eloquente do que a do

ódio e da violência e jamais poderá

ser sufocada no sangue derramado

por aqueles que pervertem o nome

de Deus ao percorrer caminhos de

destruição».

«Depois de uma

crise, não basta

reconstruir; é

preciso fazê-lo

bem, de modo que

todos possam ter

uma vida digna»,

disse o Papa

Francisco no Iraque.

© Lusa/Gailan Haji

© Lusa/Vatican Media

Calar as armas, dar direitos

a todos os cidadãos

Caminho de destruição e «dano incalculável»

foi também o êxodo de

milhares e milhares de cristãos: eram

um milhão e meio antes da invasão

do Iraque pelos EUA e aliados, hoje

são cerca de 250-300 mil. Mas Francisco

também recordou, por várias

vezes, o «cruel» aniquilamento dos

yazidis, cuja fé é de origem zoroastriana.

Outro gesto simbolicamente importante

também se realizou em Erbil:

o papa conversou durante alguns

minutos com Abdullah Kurdi, o pai

de Alan Kurdi, o menino que morreu

no Mediterrâneo em 2015 e cujo

corpo foi encontrado numa praia da

Turquia e se tornou uma imagem

icónica da tragédia dos refugiados

que procuram salvação fugindo para

a Europa – e cuja mãe e irmão também

morreram na travessia.

Mensagens claras do Papa Francisco,

sintetizadas logo na primeira

tarde iraquiana, quando se dirigiu às

autoridades políticas e civis e corpo

diplomático: «Calem-se as armas!

Limite-se a sua difusão, aqui e em

toda a parte! Cessem os interesses

de grupo, os interesses externos que

se desinteressam da população local.

Dê-se voz aos construtores, aos

artífices da paz; aos humildes, aos

pobres, ao povo simples que quer

viver, trabalhar, rezar em paz! Chega

de violências, extremismos, facções,

intolerâncias!»

O futuro? Além da reconstrução

das vidas e das almas – onde não faltaram

apelos à «justa distribuição»

de vacinas contra a covid-19 –, é

preciso dar «espaço a todos os cidadãos

que querem construir juntos» o

Iraque, continuar a «lançar as bases

para uma sociedade democrática»,

«assegurar a participação de todos os

grupos políticos, sociais e religiosos

e garantir os direitos fundamentais

de todos os cidadãos» e não considerar

ninguém «cidadão de segunda

classe.»

Pouco depois, aos responsáveis

eclesiásticos – bispos, clero, religiosos,

seminaristas e catequistas – diria:

«Depois de uma crise, não basta

reconstruir; é preciso fazê-lo bem,

de modo que todos possam ter uma

vida digna. [...] De uma crise, não se

sai igual ao que se era antes: sai-se ou

melhor ou pior.» am

além-mar | Abril 2021


ap jovens

MOVIMENTO

PARA A MUDANÇA

Os jovens adultos, dos 15 aos 24 anos, enfrentam a sua

segunda grande crise global. A nova geração, que já havia

sido diminuída pela degradação ambiental e aumento da

desigualdade e da precariedade do emprego, enfrenta agora

sérios desafios e a urgência da mudança.

Texto: Carlos Reis, jornalista

© 123RF

2021 Abril | além-mar


Os efeitos directos da pandemia

na saúde têm sido

geralmente menos graves

para os jovens, embora os

impactos de longo prazo os estejam a

afectar desproporcionalmente. Essas

repercussões incluem a desorganização

do ensino, a incerteza económica,

a perda ou falta de oportunidades

de emprego, os efeitos na saúde física

e mental ou as consequências da violência

doméstica.

A Organização Mundial de Saúde

(OMS) observa que quase 90 % dos

jovens têm ansiedade como resultado

da pandemia, mais de mil milhões

de estudantes em quase todos

os países sofreram as consequências

do fecho dos estabelecimentos de

ensino e um em cada seis jovens no

mundo perdeu o emprego durante a

pandemia.

Esta crise tem exacerbado a desconexão

dos jovens do mercado de

trabalho. A taxa de ocupação dos

jovens entre os 15 e os 24 anos diminuiu

8,7 por cento, «manifestando o

risco demasiado real de uma geração

perdida», regista o relatório Covid-19

and the World of Work 2021, da Organização

Internacional do Trabalho.

«Os jovens correm menos risco

de doenças graves e morte por covid-19,

mas serão os mais afectados

pelas consequências de longo prazo

da pandemia, que moldará o mundo

em que vivem e trabalham nas próximas

décadas», pondera Tedros Ghebreyesus,

director-geral da OMS.

As mulheres jovens, em particular,

arcam com uma parcela desproporcional

das consequências sociais e

económicas da pandemia. Meninas

e mulheres estão a assumir a maior

parte do trabalho de cuidados não

remunerado. As Nações Unidas prevêem

que os casamentos infantis, a

gravidez indesejada e a mutilação

genital feminina aumentem. E, no

que é chamado “pandemia de sombras”,

a violência de género disparou.

Em resposta, a OMS criou o Youth

Council, um conselho de juventude

que reúne jovens de todas as partes

p Daniel Akuei Garang, 16 anos, olha para o campo de basquetebol fechado devido

à pandemia, onde treinava muitas vezes por semana, em Juba, capital do Sudão do

Sul. Está no último ano do ensino secundário, mas, com o encerramento das escolas,

o seu futuro é incerto. Em baixo, Ramata Coulibaly, 20 anos, do Mali. Numa iniciativa

de escrita sobre paz, covid-19 e saúde mental organizada pela Unicef, escreveu: «Na

minha região, Koulikoro, muitas meninas casam-se antes dos 18 anos; durante os

meses de fecho da escola, algumas meninas, que conheço pessoalmente, casaram-se

e outras mudaram-se para a capital, Bamaco, para trabalhar como domésticas»

do mundo com experiências para

aconselhar sobre questões de saúde e

desenvolvimento global.

Pandemials em risco

A desilusão juvenil é um dos principais

riscos negligenciados que se

tornará uma ameaça crítica para o

mundo nos próximos dois anos, já

que as conquistas podem ser destruídas

se a «geração com cicatrizes»

não tiver caminhos adequados para

oportunidades educacionais e de tra-

balho, antecipa o Fórum Económico

Mundial, que no estudo Covid-19

Risks Outlook 2020 alerta para uma

«próxima geração perdida».

Os conflitos de uma década prejudicaram

as perspectivas dos jovens

na Ásia Central, América Latina,

Médio Oriente e África Ocidental e

Central. Esse descontentamento foi

evidenciado pelo número crescente

de movimentos empreendidos por

jovens que surgiram na última década,

entre eles a Primavera Árabe, as

© UNI336488/Wilson

© UNICEF/UN0422834/Dicko

u

além-mar | Abril 2021


jovens

greves climáticas globais e os movimentos

pelos direitos civis que buscam

mais igualdade social e racial.

Um mais recente documento do

Fórum Económico Mundial, o relatório

The Global Risks Report 2021,

aponta que «o fecho de escolas agravou

as desigualdades entre os jovens

e dentro das sociedades, porque as

mulheres jovens e mais desfavorecidas

foram as mais afectadas».

A violência de género cresceu globalmente

durante a pandemia, e os

estupros agravaram-se em países desenvolvidos

e em desenvolvimento.

Espera-se que a gravidez na adolescência

aumente, da América Latina

ao Leste Asiático e África, com algumas

dessas meninas a serem impedidas

de voltar à escola.

As economias mais afectadas pela

Grande Recessão (2008-2012) nunca

recuperaram totalmente. Como

resultado, o desemprego juvenil aumentou,

especialmente no Médio

Oriente e Norte de África. «Os jovens

trabalhadores alternam entre empregos

de curto prazo mal remunerados»,

constata a organização de líderes

mundiais. «Ao todo, o número

de jovens que não estão empregados,

não estudam ou não estão em formação

já era de 21 % no início de 2020, e

provavelmente aumentará», assinala

o Fórum Económico Mundial, para

deixar o alerta para o caminho turbulento

dos designados pandemials.

Perante a gravidade da crise sanitária,

económica e social, o Papa Francisco

pede que a juventude mundial

faça um pacto por um novo modelo

económico. «Precisamos de uma

narrativa económica diferente. Precisamos

agir com responsabilidade

porque o sistema mundial actual é

insustentável. A política e a economia

não se devem submeter às regras

e ao paradigma da eficiência da

tecnocracia», preconiza. Através do

movimento Economia de Francisco,

o pontífice desafia todos os jovens

a serem uma presença concreta nas

cidades e universidades, no trabalho

e nos sindicatos, nas empresas e nos

© UNICEF/UN0422802/Dicko

© 123RF

p Aichata Diarra tem 23 anos e é do Mali. Numa iniciativa de escrita sobre paz, covid-19

e saúde mental organizada pela Unicef, escreveu: «Nasci num Mali unido, forte

e rico com a sua diversidade. Hoje, sinto-me perdida, tantos mortos, crianças órfãs,

ou simplesmente mortas e até alistadas como soldados. O meu único desejo é que

a paz volte e que vivamos em harmonia como dantes». Em baixo, jovem vendedora

em Guerrero, México. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, esta crise tem

exacerbado a desconexão dos jovens do mercado de trabalho. Ao lado, um jovem

desinfecta as mãos antes de entrar num edifício estatal em Phnom Penh, Camboja

2021 Abril | além-mar


A FORÇA DOS JOVENS

aliança Big 6 Youth Organizations, que reúne as maiores organizações

A juvenis do mundo, com mais de 250 milhões de membros, em conjunto

com a Organização Mundial de Saúde e a United Nations Foundation, lançam

a Global Youth Mobilization for Generation Disrupted, uma mobilização

global para responder ao choque causado pela pandemia nos jovens.

O financiamento de programas comunitários, a participação da juventude

nas soluções de combate à pandemia e a convocação, para Abril, da cimeira

Global Youth Summit são as principais acções da iniciativa.

«Juntamo-nos a esta dinâmica global emocionante e poderosa para mobilizar

e capacitar os jovens em todo o mundo para se tornarem a força

motriz para nos ajudar a recuperar da pandemia», afirma Tedros Ghebreyesus,

director-geral da OMS.

«Acreditamos que os jovens têm as soluções para resolver os seus próprios

problemas. Podemos libertar competências, entusiasmo e desejo dos

jovens, para que se tornem uma “força do bem” na sua comunidade»,

avançam os líderes da Big 6, que engloba a Organização Mundial do Movimento

Escotista (WOSM), a Associação Cristã da Mocidade (YMCA), a Associação

Cristã de Mulheres Jovens (YWCA), a Associação Mundial de Guias

e Escoteiras (WAGGGS) e ainda a Federação Internacional das Sociedades

da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC) e o Prémio Internacional

Duque de Edimburgo (DofE).

© Lusa/Mak Remissa

movimentos, nos cargos públicos e

privados.

Manifestação mental

À medida que a pandemia confunde

a vida de jovens em todo o mundo,

uma crise de saúde mental latente

ameaça transbordar. Antes da crise

pandémica, um em cada cinco adolescentes

já vivia com problemas de

saúde mental e o suicídio era a terceira

principal causa de morte de

adolescentes entre os 15 e os 19 anos.

A covid-19 apenas acelerou e agravou

o problema. «É difícil aos jovens

conseguirem empregos e a segurança

financeira é ainda mais difícil. Os

laços sociais e comunitários são totalmente

rompidos. O uso de álcool

e drogas está em alta, junto com a

ansiedade e a depressão», observa

Kate Dodson, vice-presidente para

a saúde global da United Nations

Foundation.

Para aqueles que vivem em países

de baixo e médio rendimento e

marcados por conflitos, a situação é

especialmente preocupante. A OMS

avalia que 72 por cento dos serviços

de saúde mental para crianças e adolescentes

foram interrompidos devido

à pandemia.

«A infância e a adolescência são

períodos críticos para cuidados e intervenção

em saúde mental. Os cuidados

de saúde mental são um direito,

não um privilégio. Se a pandemia

excluir esses serviços, estamos a plantar

as sementes de danos emocionais

irrevogáveis para as gerações mais

jovens», alerta a agência da ONU.

Embora quase 90 % dos países tenham

incorporado serviços de saúde

mental nos planos nacionais de resposta

à covid-19, apenas uma fracção

disponibilizou efectivamente o

financiamento necessário para cobrir

esses serviços. Ao mesmo tempo, os

jovens estão também a impulsionar

a mudança e as soluções de resposta

à pandemia, empenhando-se no trabalho

voluntário e em intervenções

comunitárias. Serão sempre parte da

solução, não parte do problema. am

além-mar | Abril 2021


colômbia ap

o interminável conflito colombiano

PALAVRAS DE PAZ,

FACTOS DE GUERRA

Mais de quatro anos se passaram desde os acordos de paz

assinados em 2016. O longo conflito colombiano mudou,

mas não terminou. E as causas que o produziram

ainda estão por resolver.

Texto: Paolo Moiola, jornalista

As palavras são importantes,

mas muitas vezes insuficientes,

sobrestimadas ou

inúteis. A Constituição colombiana,

promulgada em Julho de

1991, fala da paz em três circunstâncias:

no preâmbulo, no artigo 22 e no

artigo 95. No seu preâmbulo, afirma-

-se que o poder soberano garante aos

cidadãos «a vida, convivência, trabalho,

justiça, igualdade, educação,

liberdade e paz». O artigo 22 afirma

que «a paz é um direito e um dever de

realização obrigatória». Por fim, de

acordo com o artigo 95.º, são deveres

da pessoa e do cidadão «promover a

realização e manutenção da paz». No

entanto, apesar das palavras solenes

escritas na carta constitucional, a paz

na Colômbia está largamente inacabada.

Ainda hoje continua a ser uma

promessa de muitos e uma esperança

de tantos.

Os números do conflito podem

mudar dependendo dos assuntos e

da forma como os dados são coligidos.

Em qualquer caso, são números

impressionantes. O Centro Nacional

de Memória Histórica, por meio do

Observatório de Memória e Conflito,

conta as vítimas do conflito, distinguindo

entre onze modalidades de

violência (acções de guerra, danos a

bens civis, mortes selectivas, ataques

à população, ataques terroristas, desaparecimentos,

chacinas, minas

antipessoal, artefactos explosivos

improvisados e artefactos não detonados,

recrutamento e uso ilícito de

meninas, meninos e adolescentes,

sequestros, violência sexual).

As informações, recolhidas e meticulosamente

catalogadas pela instituição,

traçam um quadro minucioso

do que o conflito interno significou e

PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS OCORRIDOS NA COLÔMBIA ENTRE 1980 E 2020

(Infografia: Abel Gil Lobo em elordenmundial.com, actualizado e adaptado pela Além-Mar)

2021 Abril | além-mar


© Lusa/Carlos Ortega

p Desmobilizados das FARC e vítimas

do conflito participam num evento pela

paz em Bogotá, Novembro de 2020

significa para os Colombianos. Segundo

esta fonte, no período 1958-

-2020, foram 266 988 as vítimas fatais

da guerra.

Os principais actores são os conhecidos:

guerrilheiros (politicamente

de esquerda), grupos paramilitares

(politicamente de direita), agentes do

Estado, bandidos, grupos não identificados.

Lendo os dados do Observatório

da Memória e Conflito, no entanto,

não faltam surpresas. Por exemplo,

a teoria prevalecente, tanto na Colômbia

como no estrangeiro, sempre

atribuiu a maior responsabilidade

pelo conflito às guerrilhas (FARC,

em primeiro lugar). Contudo, os

principais culpados foram os grupos

paramilitares. Estes são os primeiros

(supostamente) responsáveis pelos

assassínios selectivos, desaparecimentos

forçados, violência sexual e

chacinas. Os grupos guerrilheiros

(FARC, ELN, M-19, EPL, CGSB) são

responsáveis pelos sequestros, ata- u

além-mar | Abril 2021


colômbia

© Lusa/ Mauricio Duenas Castaneda

© 123RF © 123RF

ques a áreas urbanas, destruição de

infra-estruturas públicas e incorporação

de menores nas suas fileiras.

Precisamente no passado dia 2 de

Março, o exército atacou um grupo

de ex-guerrillheiros das FARC, causando

a morte a uma adolescente.

O ministro da Defesa, Diego Molano,

justificou o facto dizendo que os

menores recrutados são «máquinas

de guerra». Nestes anos, os agentes

do Estado foram os protagonistas da

maioria das acções de guerra.

Após a assinatura do acordo de paz

de 2016 (primeiro rejeitado pelo referendo,

depois alterado e aprovado

pelo Congresso), a situação no terreno

mudou, mas não os resultados.

Em algumas áreas, as FARC voltaram

com grupos de dissidentes, enquanto

vários actores ligados ao narcotráfico

ampliaram o seu próprio domínio.

Então, porque é que, após décadas

de luto e devastação, a guerra ainda

não acabou? Uma das principais causas

é a persistência das condições de

pobreza e desigualdade no país. Para

citar apenas um dado, em 2019, a pobreza

afectava 35,7 % dos Colombianos

(Departamento Administrativo

Nacional de Estatística). Com percentagens

bem maiores em algumas

regiões (com o máximo de 68,4 % no

departamento do Chocó) e nas áreas

rurais e amazónicas.

Estas últimas também acolhem

as zonas de produção de coca. De

acordo com o Offce of National

Drug Control Policy da Casa Branca

(ONDCP, Março de 2020), em 2019,

foram plantados com coca 212 000

hectares, para uma produção de 951

toneladas de cocaína. Contudo, de

acordo com o United Nations Offce

on Drugs and Crime (UNODC), são

menos os hectares cultivados (154

mil), mas a produção é maior (1136

toneladas em 2019). Quaisquer que

sejam os dados correctos, a realidade

mostra uma enorme produção

de cocaína com o envolvimento de

milhares de famílias de camponeses

obrigadas a cultivar plantas de coca

não para enriquecer, mas para sobreviver.

Segundo a organização não governamental

Planeta Paz, a paz deve ser

construída e pressupõe a criação de

p O Supremo Tribunal de Justiça e a

catedral primaz da Colômbia na Praça

Bolivar, no centro histórico de Bogotá.

Em cima (esq.), ataque aéreo do exército

colombiano a grupo de dissidentes

das FARC, no passado dia 2 de Março,

na província de Guaviare, que causou

a morte de uma adolescente e vários

feridos. Em cima (dir.), um dos bairros

de Soacha, município da periferia de

Bogotá, a capital da Colômbia. Uma das

principais causas do conflito no país é a

persistência das condições de pobreza

e desigualdade. Em 2019, a pobreza

afectava 35,7 % dos Colombianos

condições políticas, sociais e económicas.

Não significa simplesmente

superar o conflito armado. É necessário

«erradicar da vida social colombiana

o estado de guerra em que

vive grande parte dos seus habitantes

devido à incerteza de obter os meios

necessários para garantir a vida biológica

e uma vida digna».

Neste contexto, no último ano,

também chegou a pandemia do coronavírus.

Mais uma peça para encaixar

no complicado quebra-cabeças

colombiano. am

2021 Abril | além-mar


DIÁLOGO COM MAURICIO MONTOYA

PERDÃO, RECONCILIAÇÃO

E... INDIFERENÇA

No conflito e no processo de paz colombiano, são muitas as

variáveis envolvidas. Vamos tentar ordená-las com Mauricio A.

Montoya Vásquez, professor e estudioso colombiano.

Texto: Paolo Moiola, jornalista

Para aqueles que pagaram na

pele as consequências de um

conflito, esquecer e talvez

perdoar são etapas complicadas

ou talvez impossíveis. «Em

primeiro lugar», explica Mauricio

Montoya, professor colombiano e estudioso

do conflito, «é preciso diferenciar

entre perdão e reconciliação.

O perdão é uma coisa mais pessoal,

que também pode incluir características

religiosas. A reconciliação é

algo mais amplo, que inclui o estabelecimento

de laços de confiança.

É melhor não iniciar um processo de

paz com a palavra “perdão” e, em vez

disso, usar a palavra “reconciliação”.»

Queremos saber se a sociedade

colombiana consegue esquecer mais

de sessenta anos de conflito interno.

Mauricio Montoya tem uma opinião

particular. «Não creio que o problema

seja o esquecimento, que às vezes

pode ser, até certo ponto, um elemento

salvífico. Acredito que, para

a maioria dos colombianos, o grande

problema seja o da indiferença, como

bem vimos no plebiscito de 2016. Os

eleitores eram mais de 30 milhões

de pessoas, mas apenas 13 milhões

votaram. Além disso, as pessoas que

votaram no “sim” foram aquelas que

viviam nos territórios mais afectados

pela violência. Foi aqui que se decidiu

virar a página.»

© Foto cedida por Mauricio A. Montoya Vásquez

Dissidentes e homicídios

«Já no início havia pessoas que não

estavam dispostas a aceitar o processo

de paz. Posteriormente, outros

[ex-guerrilheiros das FARC] – como

Iván Márquez, Jesús Santrich, El Paisa

[Hernán Darío Velásquez] e Romaña

[Henry Castellanos Garzón] –

retiraram-se, alegando que não havia

garantias suficientes e que o acordado

não estava a ser cumprido.

Na minha opinião, isso foi um

erro. Eles deviam ter sido pacientes,

pois o nosso sistema é lento e requer

paciência. Eles, portanto, voltaram

às armas formando a dissidência que

está a tentar ocupar o território anteriormente

das FARC. Em muitos lugares,

eles estão a lutar com bandos

criminosos envolvidos no tráfico de

drogas. Acho que os dissidentes têm

um projecto político cada vez menos

visível e estão a aproximar-se das

Bactrim [acrónimo de «bandas criminales

como los Urabeños», ndr],

ou seja, os grupos paramilitares que

não aceitaram o processo de desmobilização.

No entanto, não há apenas dissidência.

Também há notícias animadoras:

«Setenta por cento dos exp

Mauricio A. Montoya Vásquez, professor

e estudioso colombiano do conflito

Mauricio Montoya lembra Tzvetan

Todorov. «Segundo o filósofo búlgaro»,

explica, «existem duas memórias:

uma literal e outra exemplar. Há

sociedades que se querem manter

amarradas a uma memória literal,

que é aquela que lembra, comemora

e – infelizmente – tenta pôr o dedo

na ferida e em todas as ocasiões busca

a vingança. Na memória exemplar,

por outro lado, comemora-se e

lembra-se. As pessoas não esquecem,

mas estão dispostas a virar a página

para que a sociedade do futuro não

sofra e não repita essas situações.

Para que a velha sociedade seja um

exemplo para a nova.»

u

além-mar | Abril 2021


península colômbia arábica

© Lusa/Alvaro Ballesteros

-combatentes das FARC», ressalta

Mauricio, «apostam na paz, até com

diversos projectos produtivos: os

cem ex-guerrilheiros e suas famílias

que se mudaram para uma terra de

Mutatá, turismo ecológico, confecções

(Marca “Manifiesta-Hecho en

Colombia”), fábricas de cerveja artesanal

(La Roja).»

Projectos de inserção na sociedade

civil a serem estimulados, mas também

a serem defendidos, visto que,

até 7 de Janeiro de 2021, pelo menos

252 ex-integrantes das FARC já

haviam sido assassinados (cenas já

vistas na década de 1980, quando os

paramilitares mataram membros do

partido União Patriótica). Os números

de assassínios de líderes sociais

(defensores dos direitos humanos,

ambientalistas, activistas indígenas

e afro-colombianos) são ainda maiores.

Nos últimos quatro anos, teria

havido 421, segundo o Alto Comissariado

das Nações Unidas para os

Direitos Humanos. Já a Provedoria

de Justiça relata mais de 700 mortes.

«Ainda», especifica Mauricio, «segundo

alguns, estes líderes sociais foram

mortos por causa de problemas

de saias, como se fossem problemas

de amor que nada têm que ver com o

contexto político.»

p Indígenas da etnia Embera Katio,

autoridades do município de Dabeibae,

em Antioquia, e ex-combatentes das

FARC participam numa cerimónia de

perdão e reconciliação pelos actos de

violência ocorridos durante o conflito

armado nesta região da Colômbia

Quem quer o fracasso?

Além dos dissidentes das FARC e

grupos paramilitares, há muitos que

trabalham para fazer o processo de

paz fracassar. O nosso interlocutor

não tem dúvidas sobre isso.

«Desde os anos 80», explica, «a paz

é um tema eleitoral. Nesse sentido,

muitos manipularam-no para chegar

à presidência. É claro que há pessoas

que não querem que os acordos sejam

cumpridos da forma como foram

subscritos em Havana e, depois

da derrota no plebiscito, no Congresso.

O problema é dos oportunistas,

dos mercenários que procuram confundir

e preservar os seus interesses

particulares. Eles trabalham para que

as coisas não sejam conhecidas e daí

os ataques às instituições que trabalham

pelo processo de paz.»

Do acordo de paz assinado pelo

então presidente Manuel Santos e

pelos dirigentes das FARC-EP nasceu

o «Sistema Integral da Verdade,

Justiça, Reparação e Não Repetição»

(SIVJRNR). Incorporado na Constituição

por meio do decreto legislativo

1 de 2017, o sistema baseia-se

em três componentes: a «Comissão

de esclarecimento da verdade, convivência

e não repetição» (CEV); a

«Unidade de Busca de Pessoas desaparecidas»

(UBPD) e a «Jurisdição

Especial para a Paz» (JEP).

Entre os principais opositores do

processo de paz está Álvaro Uribe, o

homem-forte da Colômbia, fundador

do partido Centro Democrático

(cujo lema é «Mano firme. Corazón

grande» – Mão firme. Coração

grande), do qual o actual presidente,

Iván Duque, também é militante. «É

óbvio», confirma Mauricio Montoya,

«que o ex-presidente Uribe teve e

ainda tem influência. Ganhou apoio

e popularidade entre uma parte importante

da população pela sua oposição

aos grupos armados, pela sua

disposição de não negociar com eles.

2021 Abril | além-mar


© Lusa/Mauricio Duenas Castaneda

Como fazer justiça?

Após os acordos de 2016, as FARC

tornaram-se um partido político,

mantendo o nome, mas com um

significado diferente: de «Fuerzas

Armadas Revolucionarias de Colombia»

para «Fuerza Alternativa

Revolucionaria del Común». No dia

24 de Janeiro, os dirigentes anunciaram

que mudaram o nome para «Comunes»

para não confundir o grupo

que assinou os acordos de paz com

o grupo de dissidentes. O líder Rop

Modelos apresentam roupas desenhadas

e confeccionadas por ex-

-guerrilheiros das FARC (Marca “Manifiesta-Hecho

en Colombia”), na sede

do Congresso Colombiano, em Bogotá,

Colômbia, 2 de Dezembro de 2019.

Ao lado, produção da cerveja artesanal

(La Roja) em Bogotá, Colômbia

© Lusa/Carlos Ortega

A sua escolha militar, no entanto,

também levou a violações e excessos

como “falsos positivos” [civis inocentes

assassinados pelo Exército,

que os fez passar por guerrilheiros

para ampliar os seus êxitos militares,

ndr]. Uribe continua a ser muito influente

na esfera política, o que lhe

permite eleger senadores, governadores,

presidentes de câmara. Hoje

continua popular entre a população

mais velha, mas não entre os jovens

colombianos.»

drigo Londoño, vulgo Timochenko,

admitiu que manter o nome FARC

não era uma boa ideia e que o novo

nome do partido se refere a pessoas

comuns.

Isso não significa, porém, que os

ex-guerrilheiros não serão julgados.

Os acordos de paz não são, de facto,

uma licença de impunidade, uma

renúncia à justiça para punir os responsáveis.

«Os meios de comunicação social

e as redes sociais», explica Montoya,

«criaram um ambiente negativo em

torno da Jurisdição Especial para a

Paz. Dizendo que é uma justiça de

guerrilha e que é contra os militares.

Argumentos que, paulatinamente,

foram perdendo força.» De facto,

em 29 de Janeiro, o tribunal especial

criado com os acordos de paz (a já

citada Jurisdição Especial para a Paz) u

além-mar | Abril 2021


colômbia

apresenta níveis de violência muito

elevados, tendo-se tornado uma plataforma

de tráfico com os Estados

Unidos e a Europa. Ao lado dessas

rotas, existe também o microtráfico

nas cidades colombianas, onde os

gangues competem com as armas

pelo tráfico não só de drogas, mas

também de pessoas.»

acusou a antiga cúpula da guerrilha

de crimes de guerra e contra a humanidade

pelos sequestros cometidos

durante décadas. Oito integrantes

das ex-FARC foram indiciados, incluindo

o próprio Rodrigo Londoño

e dois senadores.

«Como demonstração», afirma

Montoya, «de que a tarefa que a Jurisdição

Especial para a Paz está a

realizar é real.»

Terra, a questão por resolver

Na Colômbia, a desigualdade é visível

e confirmada por todos os índices.

Perguntamos ao Professor Montaya

sobre o peso da questão da terra.

«Durante as conversações e o processo

de paz», responde, «a questão

da terra foi um tema recorrente. Porquê

mais uma vez o tema da terra?,

perguntaram muitas pessoas. A resposta

é simples: porque, na realidade,

o problema fundiário nunca foi

resolvido. Está escrito nos acordos,

mas a solução ainda não se vê. Uma

etapa fundamental é a transformação

e actualização do cadastro rural,

o que significa poder saber quantos

hectares de terra o povo possui,

quanto pagam de imposto e se estão

p Eliminação de cultivos ilegais de coca

em Tumaco, Pacífico colombiano. O cultivo

da coca continua debaixo da alçada

de grupos armados, ilegais e legais

de acordo com as terras que possuem,

pois há territórios baldios que

não foram entregues aos camponeses

e às comunidades agrícolas que deles

necessitam. Muitos acreditam que o

problema da desigualdade e da terra

não é a causa da guerra. Talvez não

seja o único, mas é fundamental.»

O narcotráfico

Ligada ao tema da terra está a questão

das plantações de coca e o seu

comércio. «O narcotráfico», explica

o professor, «está associado ao conflito

desde os anos 1970. O cultivo da

coca continua debaixo da alçada de

grupos armados, ilegais e legais. De

facto, está provado que também existem

políticos neste lucrativo negócio.

Em muitos territórios, há combates

entre vários grupos armados

para controlar as rotas das drogas.

Um exemplo entre muitos possíveis:

o antigo paraíso do arquipélago de

San Andrés, Providencia e Santa Catalina

[na costa da Nicarágua, ndr]

© Lusa/Dennis M. Sabangan

© Lusa/ Mauricio Duenas Castaneda

Com a Venezuela

e os Estados Unidos

Em Fevereiro passado, o presidente

Iván Duque anunciou a regularização

(por meio do novo Estatuto Nacional

de Protecção) por dez anos de

mais de dois milhões de imigrantes

venezuelanos, o que lhes permitirá

ter acesso aos sistemas públicos de

saúde e educação e trabalhar regularmente.

O presidente colombiano

sempre usou (astuciosamente) a luta

de Maduro contra a Venezuela como

um instrumento de luta política interna

e internacional.

«Duque usa aquele país», explica

Mauricio Montoya, «em termos

eleitorais para assustar a população

sobre certos candidatos, modelos

políticos ou ideias de suposta afinidade

com a Venezuela ou, como se

costuma dizer, com o castrochavismo.

Portanto, acredito que as relações

entre os dois países continuarão

tensas, instáveis e polarizadas.»

Entretanto, nos Estados Unidos,

aliado histórico do país, a presidência

passou de Donald Trump para

Joe Biden. «Não vai mudar muito»,

observa Montoya. «Alguns meios

de comunicação afirmam que, tendo

o Governo colombiano apoiado

Trump, Biden apresentará a conta.

Acho que não vai ser assim. A Colômbia

não perderá o apoio dos EUA,

seja em termos económicos, seja na

luta contra o narcotráfico. Acredito,

em vez disso, que os EUA terão um

papel na próxima presidência, cuja

campanha terá início este ano.»

Com efeito, o ex-presidente e ex-

-senador Álvaro Uribe já iniciou as

conversações para seleccionar os

seus candidatos. am

2021 Abril | além-mar


gente solidária

A IGREJA CATÓLICA PROMOVE PROJECTOS DE PROMOÇÃO PARA JOVENS CONGOLESAS

METER MÃOS À OBRA

A Casa Social Daniel Comboni e o Centro de Formação Integral

Santíssima Trindade são duas estruturas destinadas a pôr

as jovens de pé e ajudá-las a viver.

Texto e fotos: Enrique Bayo, missionário comboniano, de Kinshasa (RDC)

A

pandemia parece não existir

em Kinshasa, capital da

República Democrática do

Congo, porque quase ninguém

usa máscara e os mercados, as

ruas e os milhares de igrejas com as

suas múltiplas denominações estão a

transbordar de gente. Tudo continua

igual nesta imensa cidade que não se

sabe ao certo quantas pessoas abriga:

11 milhões para uns, mais de 13

para outros. Para tentar amenizar os

endémicos engarrafamentos, em alguns

cruzamentos, estão a ser construídos

viadutos – os famosos saut-

-de-mouton – cujas obras estavam

previstas para serem concluídas em

três meses, que já se transformaram

em dois anos, e a certas horas o trânsito

é o caos completo.

A instabilidade política e a difícil

realidade socioeconómica fazem

com que quase não haja trabalho

estável e remunerado, o que obriga a

maioria das pessoas a lutar, de manhã

à noite, para obter o seu sustento

diário. Neste contexto de pobreza, as

mulheres estão sempre mais expostas

a abusos de todos os tipos.

Entre as múltiplas iniciativas da

Igreja Católica a favor da promoção

da mulher em Kinshasa, visitámos

duas estruturas que animam duas

dedicadas missionárias: a irmã comboniana

Giovanna Valbusa e Rejette

de Winter, uma leiga missionária belga.

A Ir. Giovanna chegou ao Congo

em 1977, embora antes de chegar a

Kinshasa tenha trabalhado noutras u

além-mar | Abril 2021


gente solidária

comunidades do país: Dakwa, Mungbere,

Isiro e Kisangani; Rejette, porém,

sempre viveu, ininterruptamente,

na capital, desde a sua chegada ao

país em 1961.

Casa Social Daniel Comboni

A comunidade de Kimbondo das

Missionárias Combonianas encontra-se

nos arredores de Kinshasa,

junto à estrada de Matadi, que vai até

ao oceano Atlântico. Antes era uma

casa de formação para jovens aspirantes

a missionárias, mas quando

esta etapa formativa foi mudada para

Kisangani, as Irmãs Combonianas

decidiram usar a casa num projecto

que respondesse a uma das suas prioridades

missionárias: a promoção da

mulher.

No início, queriam abrir um centro

de acolhimento para mulheres

que saíam da prisão, oferecendo-lhes

alojamento durante algum tempo e

ajudando-as na sua reinserção social,

mas acabaram por decidir abrir

a casa a todo o tipo de mulheres

marginalizadas. Em Maio de 2018,

p Jovens durante uma aula de corte e

costura no jardim da Casa Social Daniel

Comboni, em Kimbondo, na República

Democrática do Congo

começaram com um primeiro grupo

na baptizada Casa Social Daniel

Comboni. «Não queríamos chamá-la

centro porque desejamos que as mulheres

se sintam como uma família

e que esta seja a sua casa enquanto

morarem aqui», diz a Ir. Giovanna.

Durante a nossa visita, eram oito

as mulheres acolhidas, embora sejam

mais de 26 as que passaram pela casa,

na sua maioria jovens entre os 20 e os

26 anos. «O nosso único objectivo»,

sublinha a missionária comboniana,

«é ajudar estas mulheres a erguerem-

-se e a assumirem o domínio da sua

vida, por isso, a única exigência que

lhes fazemos é que queiram vir e trabalhar,

porque nada é dado. Oferecemos-lhes

uma oportunidade, mas

elas têm a última palavra. Se deixam

de vir, se não se ajudam, não há nada

a fazer.»

As jovens vivem em regime de

internato pelo período máximo de

um ano. As que já são mães devem

deixar os filhos com um membro da

família para aproveitar bem o tempo.

Esta decisão deve ser contextualizada

na cultura local, onde as crianças

não sofrem nenhum trauma se ficarem

com uma irmã mais velha ou tia.

Na Europa seria diferente.

Formação e convivência

A Casa Social Daniel Comboni oferece

duas possibilidades de formação:

corte e costura ou estética e cabeleireiro.

As alunas frequentam um

curso de seis meses, de segunda a

sexta durante a manhã, no Centro de

Aprendizagem de Ofícios Especializados,

localizado não muito longe

da casa. Segundo a Ir. Valbusa, este

lugar oferece muitas vantagens. «Em

primeiro lugar, tem qualidade e dá

certificado oficial se passarem nos

exames finais; além disso, aceita inscrever

novas alunas a cada início do

mês, o que dá uma certa flexibilidade

para incorporar uma jovem ao lon-

2021 Abril | além-mar


p Pormenores dos trabalhos que as jovens

fazem nas aulas de corte e costura

na Casa Social Daniel Comboni, em Kimbondo.

Ao lado, a Ir. Giovanna Valbusa,

missionária comboniana, responsável da

Casa Social Daniel Comboni

No contexto

de pobreza, as

mulheres estão

sempre mais

expostas a abusos

de todos os tipos.

A Casa Comboni

ajuda estas

mulheres em risco

de exclusão

«a erguerem-se

e a assumirem

o domínio

da sua vida».

go do ano. E, por último, preferimos

que elas saiam de casa e encontrem

outras pessoas para socializarem.

Caso contrário, seria muito difícil ficarem

sempre encerradas em casa.»

Durante a nossa visita, encontramos

as jovens no jardim, trabalhando

à volta de uma mesa. Nota-se o entusiasmo

e o optimismo ao vislumbrarem

o futuro. Uma delas, Joelle, está

no sexto mês de formação: «O curso

de corte e confecção ajudou-me

muito. Um dia gostaria de ter uma

casa grande como esta para acolher

outras pessoas e ajudá-las também.»

Sara exprime-se quase com as mesmas

palavras: «Estou muito feliz porque

poderei ajudar a minha família,

os meus filhos e também outras mulheres.»

Hoje, as jovens dedicam-se a

fazer pequenos trabalhos, como bolsas

e porta-moedas, cuja venda ajuda

a custear as despesas da casa. Outras

tardes são passadas no jardim,

aprendendo a cozinhar ou ouvindo

palestras sobre educação para a vida

ou prevenção de doenças. Além disso,

três vezes por semana, dependendo

do nível escolar, frequentam um

curso de alfabetização ou de francês.

A professora é Ruth, que nota que

«há muitas diferenças entre elas, por

isso trabalhamos em dois grupos.

Algumas não sabem ler, mal conseguem

segurar uma caneta e precisam

de atenção especial, mas sinto que a

maioria tem sede de aprender e de se

responsabilizar pela sua vida. Costumo

ajudá-las também a prepararem-

-se para os exames finais do curso.

Colaboro neste projecto desde o início

e vejo um enorme progresso nas

meninas nestes meses. Isto deixa-me

muito feliz.»

Nos fins-de-semana, uma jovem

missionária comboniana congolesa,

a irmã Henriette Mfutu, apoia a

comunidade, e todos os domingos,

embora a maioria não seja católica,

todas participam na Eucaristia na

paróquia de Mater Dei, a 500 metros

da casa. Também não faltam momentos

de oração, de assistir a um

filme juntos ou outros momentos

de lazer, mas – como frisa a Ir. Giovanna

– «a mensagem que passamos

u

além-mar | Abril 2021


Centro de capacitação

No coração de Kinshasa, no Bairro

de Matete, visitámos outro centro

de promoção da mulher semelhante

em alguns aspectos ao de Kimbondo,

mas diferente noutros. A sua

fundadora e promotora é Rejette de

Winter, uma missionária leiga de 85

anos que mantém toda a força e entusiasmo

da juventude. Chegámos

numa sexta-feira e fomos encontrar

Rejette na sala paroquial a falar às

vinte alunas de um curso centrado

na importância de reflectir bem antes

de tomar decisões na vida. É um

prazer ouvir a força que ela põe nas

suas palavras e os gestos e olhares

com que as acompanha.

O Centro de Formação Integral

Santíssima Trindade nasceu em 2005

na paróquia do mesmo nome, e este

curso 2020-2021 acolhe a sua décima

sexta formação. Centenas de menigente

solidária

sempre é a de que não há tempo a

perder. Elas têm de se organizar para

realizar a sua formação com responsabilidade».

Voltar para a sociedade

A missionária comboniana tem

consciência da importância de se

prepararem para o «regresso à sociedade»,

pelo que visita todos os

meses as famílias das raparigas para

garantir que terão o seu apoio. Também

procura oficinas de confecção

e salões de beleza onde as raparigas

possam fazer estágios profissionais,

por três meses, antes de abrirem o

seu próprio negócio. Finalmente, as

irmãs dão-lhes uma certa quantia de

dinheiro para começarem uma vida

independente. «Os resultados são

animadores», afirma a Ir. Giovanna,

que acrescenta: «Temos várias jovens

que abriram os seus pequenos

negócios e sabemos que tudo o que

aprenderam aqui vão passar para

uma irmã, para uma vizinha e terão

um efeito multiplicador. Como missionária,

ver a vida de alguém florescer

dá-me grande satisfação e recompensa

todos os nossos esforços.»

nas e jovens mulheres formaram-se

ali e, de acordo com Rejette, «nenhuma

se arrependeu. Quando passam

por aqui, a sua visão do mundo

muda e elas ficam mais bem adaptadas

para a vida. Cada aluna contribui

com cinco dólares por semana para

despesas de material e manutenção,

enquanto uma amiga belga de Rejette

de Winter paga o salário das professoras.

Por sua vez, a arquidiocese

de Kinshasa oferece os espaços utilizados

pelo centro.

A formação tem a duração de sete

meses, três manhãs por semana, e

oferece cursos de corte e costura e

informática. Tem uma sala com dez

máquinas de costura e outra com dez

computadores, pelo que às segundas

e quartas-feiras as raparigas, divididas

em dois grupos, se revezam nos

dois cursos. Sexta-feira é dia de formação

humana, religiosa e de educação

para a vida, e todas as jovens

acompanham as palestras juntas.

Ao contrário da Casa Social Daniel

Comboni, o centro «não visa ajudar

as mulheres em risco de exclusão,

mas é um centro de formação que

desenvolve as potencialidades das

mulheres», afirma a missionária belga.

Aqui, acrescenta, «só aceitamos

meninas que obtiveram um diploma

oficial depois de concluírem o ensino

secundário. Quando chegam as

candidatas, atentamos nas suas motivações,

mas também fazemos uma

prova escrita e uma curta entrevista.

Se não tiverem um certo domínio da

língua francesa, não podemos ins-

2021 Abril | além-mar


p Rejette de Winter, missionária

leiga de 85 anos, durante

uma aula no Centro de Formação

Integral Santíssima Trindade no

Bairro de Matete, no centro de

Kinshasa

crevê-las. Acolher meninas

que não têm uma formação

básica suficiente atrasaria

muito a aprendizagem das outras e

– nisto concorda com a Ir. Giovanna –

não há tempo a perder aqui.»

Uma vida para o Congo

Ouvir o testemunho missionário

de Rejette de Winter é fascinante.

Em 1959, preparava-se para ir para

a Indonésia, mas mudou de rumo.

«Alguém me disse: “Temos de ficar

«Este país era um

paraíso e tenho

testemunhado

nestes sessenta

anos como se

degradou».

no Congo, em breve alcançará a independência

e os Belgas vão-se embora.”

Assim, pensei: “Certamente

evangelizámos este povo, e agora não

podemos abandoná-lo. Têm de saber

que não lhes mentimos e que o

Evangelho anunciado tem todo o seu

valor.” Cheguei aqui no dia 14 de Outubro

de 1961 e essa ideia continua a

sustentar a minha missão».

Embora Rejette pertença à associação

de Leigos Auxiliares de Apostolado,

cada membro deve procurar o

seu próprio sustento financeiro. Não

recebe auxílio de nenhuma instituição,

apenas de amigos. Licenciada

em Ciências Domésticas, quando a

missionária chegou a Kinshasa, nos

tempos do Cardeal Malula, tornou-

-se professora de Religião. Estudou

Ciências Religiosas por três anos e

começou a leccionar numa escola secundária

católica. No 1.º de Janeiro

de 1975, o presidente Mobutu suspendeu

as aulas de religião nas escolas

e Rejette teve de começar a dar

aulas de corte e costura num centro

em Matete para ganhar a vida. Ponderou

então voltar para a Bélgica.

Mas não o fez. Quando atingiu a idade

da reforma e começou a receber

uma pequena pensão, decidiu ficar

na República Democrática do Congo

para o resto da vida.

Quando perguntamos a Rejette se

ela se sentia congolesa, a sua resposta

foi surpreendente e taxativa: «Não,

estou aqui e adoro fazer o que Deus

me mandou fazer, mas as condições

das pessoas são tão terríveis que não

é uma questão de sentimento, é questão

de vontade.» E, após uma breve

pausa, continua: «Este país era um

paraíso e tenho testemunhado nestes

sessenta anos como se degradou.

A miséria em que vivemos é causada,

os próprios dirigentes não quiseram

desenvolver este país. Estou aqui para

ajudar estas raparigas, para melhorar

as suas vidas, para que cresçam como

pessoas e como mulheres, e faço isso

apenas pela minha fé e com força de

vontade. Não, não é uma questão de

sentimentos.» am

além-mar | Abril 2021


livros

Palavra viva

obra intitulada Liturgia da Palavra – Ano B, da autoria

do Papa Francisco, constitui-se como um conjunto

A

de catequeses e comentários proferidos pelo Santo Padre

com base nas palavras do Evangelho dos domingos e solenidades

de todo o tempo litúrgico.

É importante referir que, logo na introdução, o Papa

Francisco estabelece um diálogo de profunda e gentil proximidade

com o leitor. Mostra-nos que a palavra de Deus

está viva e que foi escrita para cada um de nós, para que

nos deixássemos interpelar: «É Deus quem, através da

pessoa que lê, nos fala e nos interpela, a nós que ouvimos

com fé.»

O Santo Padre pede-nos que olhemos para a liturgia da

palavra com humildade e confiança, procurando ter sempre

espaço para Deus e para a oração. A sua linguagem,

ao longo de todas as catequeses, é directa, promotora da

paz do coração, familiar e simples, mas sem deixar de ser

sustentada teologicamente.

A referida obra está dividida nos diferentes tempos do

ano litúrgico: o Tempo do Advento e do Natal, o Tempo da

Quaresma e do Tríduo Pascal, o Tempo Comum.

Talvez seja pertinente que nos debrucemos num destes

tempos específicos, para que possamos analisar de

forma mais particular as páginas que compõem este livro.

Vejamos o que nos diz o Santo Padre sobre o tempo

da Quaresma, por exemplo: ajuda-nos a compreender que

este não é um tempo de luto nem de escuridão, mas sim

um tempo de despojamento; a altura certa para deixarmos

para trás o que não é essencial. Na verdade, Deus quer

preparar-nos para a Paixão, para o que encontraremos de

difícil e penoso nas nossas vidas, tal como Jesus preparou

Pedro, Tiago e João.

Ao longo dos textos reunidos neste livro, conseguimos

perceber que o Papa Francisco encontra sempre espaço

para o rosto de Maria, para a recordar por meio das suas

palavras.

Este é um livro que se afigura como um roteiro de

acompanhamento espiritual muito completo, e escrito

Título: «Liturgia da Palavra – Evangelho do Ano B»

Autor: Papa Francisco

Editor: Paulinas

www.paulinas.pt | Tel. 219 405 645

pelo Santo Padre, com recurso a uma linguagem acessível

a todos... Tão ao jeito de Jesus.

Em conclusão, o leitor encontrará nesta obra um espaço

privilegiado e potenciador de um tempo forte de oração

e de amadurecimento da sua fé. Como nos diz o Santo

Padre: não devemos rezar como papagaios, sem prestar

atenção ao que nos é dado a contemplar.

Na verdade, não será, de todo, difícil para cada leitor

compreender que o Papa Francisco quer ser instrumento

para colocar, no coração de cada um, a verdade do maior

amor de todos: o do Pai.

Marta Arrais

Título: Filhos da Luz em Tempos de Prova

Autor: Samuel Lauras

Editor: Frente e Verso

www.frenteeverso.pt | Tel.: 253 689 443

A obra apresenta as reflexões

de Samuel Lauras – monge

cisterciense de naturalidade

francesa e abade no mosteiro

de Nový Dvur, na República

Checa – para nos mantermos

unidos na adversidade. O autor

aponta a humildade, a escuta,

a atenção e a disponibilidade

interior como as atitudes fundamentais

para uma vida em

comunhão.

Título: Lusofonias – de Roma para o mundo

Autor: Tony Neves

Editor: Espiritanos

liam@espiritanos.pt | Tel.: 213 933 000

Esta obra reúne as crónicas semanais

que o padre Tony Neves

escreveu nos últimos dois anos,

depois que foi nomeado para

o serviço de coordenador do

gabinete de Justiça e Paz dos

Missionários do Espírito Santo

(Espiritanos) em Roma. Nos textos,

o autor comenta um acontecimento,

um livro, uma intervenção

do papa, uma encíclica,

um momento litúrgico.

2021 Abril | além-mar


discos

António Marujo

Título: Carnage

Autores: Nick Cave & Warren Ellis

Na canção «Hand of God» (“Mão

de Deus”) do disco Carnage

(“Carnificina”), Nick Cave canta: «Há

algumas pessoas a tentar descobrir

quem / Há algumas pessoas a tentar

descobrir porquê / Há algumas pessoas

que não estão a tentar encontrar

nada / Mas esse reino no céu, no

céu... Mão de Deus vinda do céu...»

A resposta vem depois, em «Lavender

Fields» (“Campos de alfazema”), canto

melodioso e quase litúrgico: «Não

perguntamos quem/ Não perguntamos

porquê / Há um reino no céu /

Caminhamos e caminhamos...»

Carnage, escrito com o seu companheiro

Warren Ellis, é o último acto

de uma trilogia iniciada em 2020,

à conta da pandemia, com os discos

Idiot Prayer (“Oração idiota”) e

L.I.T.A.N.I.E.S. Neste caso, Cave escreveu

as palavras para uma paixão de

Cristo composta por Nicholas Lens

– e diria a propósito: «Durante toda a

minha vida escrevi litanias...»

Título: L.I.T.A.N.I.E.S

Autores: Nick Cave e Nicholas Lens

Entre drama e meditação, os três

discos são, embora com diferentes

movimentos e ritmos, um mesmo refrão

ou litania – ou jaculatória – que

se recria. Como em muitos temas ao

longo da sua carreira, sobretudo nos

últimos discos, revelam de novo um

criador que toma as buscas humanas

para inquirir o mistério da vida através

da música.

Porque é da vida que se trata. Desde

que lhe morreu um filho, em 2016, o

australiano Nick Cave assume o debate

interior entre a gravidade e a graça,

na expressão de Simone Weil. O tom

pode parecer, à primeira, demasiado

melancólico, mas isso é só porque a

voz se vai buscar ao mais interior de

si mesmo. E à medida que a escuta,

sonda-se também cada vez mais a intensidade

que atravessa esta música

– e nos atravessa a todos.

Skeleton Tree e Ghosteen, os discos

editados a seguir à tragédia familiar,

já escavavam até ao fundo o universo

gesto solidário

Título: Idiot Prayer

Autor e Intérprete: Nick Cave

da “noite” de S. João da Cruz, entre a

fé, a dúvida e a esperança, herdeiro da

ideia da redenção. E que já se expressava

em «Foi na Cruz» (cantado em

português, a partir de um hino protestante

ouvido por Cave no Brasil),

do disco The Good Son (“O Bom Filho”,

1990).

L.I.T.A.N.I.E.S começa com a “Litania

da ausência divina”, sussurrada

com um “Onde estás?” e termina com

a “Litania da presença divina” (“Vejo-

-te, estás a surgir...”). Com Idiot Prayer

e Carnage, frutos da mesma gravidez

pandémica, esses movimentos consolidam-se

em diferentes expressões

e movimentos musicais. Como na

“Litania do encontro”: “Fui refeito, ó

Senhor / Eu já não era eu/ Eu era o

mundo / O mundo inteiro.”

Três discos que nos refazem a vida.

Como que meditações pascais.

Edição: https://www.nickcave.com/music/

Todos os discos estão disponíveis nas

plataformas digitais

APOIAR PROJECTOS MISSIONÁRIOS NAS FILIPINAS

Em Manila, capital das Filipinas, desenvolvem

a sua missão os padres combonianos

portugueses David Domingues

(superior da delegação) e António Carlos

Ferreira (director da revista World Mission).

Devido à situação de pandemia e ao confinamento,

muitos dos projectos de evangelização

e animação missionária que

efectuavam (nomeadamente a difusão da

revista missionária nas paróquias) ficaram

suspensos. Assim, neste contexto, têm

dificuldade em encontrar meios para continuar

as suas actividades missionárias e

pedem o nosso apoio.

A revista Além-Mar, com o Projecto 3/2021,

contando com a generosidade dos seus

leitores, quer contribuir com 5000 euros.

Pode mandar a sua contribuição por cheque, vale postal, transferência bancária para o IBAN

PT50 0007 0059 0000 0030 0070 9 (neste caso deve indicar-nos – editalemmar@netcabo.pt

ou 213 955 286 – que a transferência se destina ao Gesto Solidário), ou online (www.combonianos.pt/doar)

seleccionando a opção “projecto solidariedade Além-Mar”.

além-mar | Abril 2021


povos e culturas

DANÇA E AFECTOS

os kuduristas da caparica combatem solidão

dos idosos com dança e afectos

Texto: Rosa Cotter Paiva (jornalista da Lusa) | Fotos: Tiago Petinga (Lusa)

À

janela, na hora marcada,

surge o “Capitão” acenando

aos “netos” kuduristas

que chegaram para dançar

e dar dois dedos de conversa. Juntam-se

os vizinhos, nas varandas, e

durante meia hora não há solidão: há

sorrisos e esquece-se a pandemia.

Combater a solidão

Cinco jovens entre os 24 e os 34

anos são os Kuduristas da Caparica,

que três dias por semana, através da

dança, promovem o envelhecimento

activo dos utentes, agora em confinamento,

do Centro Social da Trafaria,

no âmbito do projecto “Não estamos

sós”, da Santa Casa da Misericórdia

de Almada, no distrito de Setúbal.

Os sons de kuduro e afrohouse são

projectados através de uma pequena

coluna suficientemente potente para

pôr a mexer os “vovós”, como são carinhosamente

tratados pelos voluntários,

que fazem uma espécie de terapia

aos menos jovens, com idades

entre os 80 e os 99 anos.

A ideia começou com oito utentes,

mas já se espalhou aos vizinhos e, na

rua do “Capitão” – que apesar de não

frequentar o centro é um dos “vovós”

do projecto –, são vários aqueles que

se assomam à janela ou varanda para

participar na serenata.

Os mais atrevidos, se bem que com

todas as regras de segurança, vêm até

à rua para dançar.

“Capitão”, como é conhecido Carlos

Santos, dono de uns olhos de

azul-mar, usa um chapéu que o denuncia

a quem passa e lhe vale a alcunha.

Para ele, estes “netos” «deviam vir

mais vezes». «O grupo veio cá para

me desencantar e acabou a encantar

os vizinhos todos. Está muito bem,

que seja por muitas vezes», diz, revelando

que as pessoas «estão sozinhas»

e que os jovens chegam e as

divertem.

Reconhece que já não dança como

antigamente. Uma operação à coluna

deixou-o com um problema na

perna: «Ensinei muitas meninas a

dançar, fui músico, tive bandas, fazia

bailaricos, era uma beleza», conta.

«Ah, hoje é o dia da dança», graceja

Dona Odete, que passa na rua,

com um saco de compras vazio no

braço, e por lá fica entretida a dançar

com o grupo.

«É sempre uma animação», desabafa.

2021 Abril | além-mar


p Uma popular dança à janela durante uma visita de Os Kuduristas da Caparica.

Em baixo, Manuel, acompanhado pela sua mulher Alzira, dançam com os Kuduristas

da Caparica, durante uma das suas visitas na Quinta da Corvina, Trafaria, Costa da

Caparica, Almada

p Os Kuduristas da Caparica dançam

para a sua “vovó” Clarisse, durante uma

das suas visitas na Trafaria, Costa da

Caparica, Almada

A tarde começa na Costa da Caparica,

junto ao ex-líbris arquitectónico

Torre das Argolas, onde vive a “vóvó”

Maria Domingues. Os jovens estão

expectantes com a visita, pois já não

estão com a “avó” há algum tempo

por esta ter estado hospitalizada.

São recebidos com um ramo de

flores de papel colorido, um passatempo

que tinha no centro de dia e

que mantém em casa.

Ninguém diria que esteve internada

– a genica com que dança pela

janela, canta e ri não lhe denunciam

os 80 anos.

«São muito especiais e divertidos,

tenho o coração cheio», diz Maria

Domingues, num entra e sai da janela

para mostrar aos “netos” aquilo

com que se tem entretido. Joana Silva

pede-lhe que não traga laranjas ou

rebuçados, mas a “avó” traz nas mãos

duas bolas cor-de-rosa que anda a

decorar.

«A valorização da pessoa idosa é

claramente uma das nossas metas,

objectivos, e combater o isolamento,

claro», começa por explicar Joana

Silva, uma das kuduristas e dinamizadora

do grupo, no qual todos adoram

trabalhar com idosos.

Houve uma altura, lembra, em que

foram estas pessoas a cuidar dos outros,

chegando agora o tempo de serem

cuidadas: «Não há maior riqueza

do que eles e ter a possibilidade e

privilégio de dizer “és especial”, porque

o são, é devolver qualquer coisa,

aprendemos todos os dias.»

Energia positiva e auto-

-estima

Joana Dias reconhece que uma visita,

um dedo de conversa, um telefonema,

fazem «toda a diferença» a estas

pessoas. E, agora, «ter alguém que

dança, que os faz ficar conhecidos,

mexe com a auto-estima e fá-los sentir

superimportantes».

De alguma forma, estes cinco voluntários

já lidavam com projectos

sociais. Joana e Gonçalo Silvestre,

guia das Avós do Mar, já trabalhavam

com alguns destes idosos no projecto

Varina, sobretudo com turistas, mas

com a pandemia a iniciativa teve de

ficar suspensa.

u

além-mar | Abril 2021


povos e culturas

«É mais o que levamos do que o

que damos aqui», confessa Miguel

Graça, professor de dança e coreógrafo,

reconhecendo que a partilha

do ritmo do kuduro e da «energia

positiva» resulta numa experiência

«muito positiva».

Com emoção, reconhece que é

com «uma gratidão enorme» que

vê a entrega dos «avós» e o seu

feedback positivo a um ritmo que

não é propriamente conhecido destas

gerações.

«Está a ser brutal», sintetiza, admitindo

que alguma coreografia e passos

de kuduro ou afrohouse são

adaptados para os alunos “vovós”.

Diana Ramos, Gonçalo Silvestre,

Joana Silva, Miguel Graça e Rafaela

Schneider são os Kuduristas da Caparica

e pretendem desenvolver um

projecto-piloto no concelho de Almada,

para que se espalhe depois a

outros locais do país.

Os jovens estão a ter vários pedidos

de escolas de dança e de voluntários

que querem juntar-se à ideia de

levar a dança aos idosos, remetendo

para as redes sociais as próximas novidades

do projecto e a forma como

a sociedade poderá ajudar.

Na Quinta da Corvina, o senhor

Manuel e a dona Alzira recebem os

p Os Kuduristas da Caparica durante

uma das suas visitas na Trafaria, Costa

da Caparica, Almada

kuduristas com cantigas, versos e

rimas, sendo visível o carinho mútuo.

A energia do “vovô” de 88 anos

é comparável à da sua mulher, três

anos mais nova. Os dois, lado a

lado, cada um com a sua canadiana,

dançam conforme podem, acompanhando

os jovens.

«Hoje está muito animado. Até a

dona Alzira veio cá fora ter connosco,

nem sempre é assim. Estão a ficar

famosos estes “vovós”», diz Joana.

A união entre todos é também evidenciada

quando o grupo entrega a

cada idoso uma das flores de papel

feitas por Clarisse.

A memória, que às vezes já falha,

mas aguçada pelos jovens com a pergunta

«sabe quem lhe manda esta

flor?», não deixa esquecer a companheira

que não vêem desde que estão

confinados.

Não é só dança e música que os kuduristas

levam aos “vovós”: são também

afectos, atenção, uma palavra

amiga, um sorriso, num todo conjugado

para evitar a solidão. am

INTRODUÇÃO

AO KUDURO

Kalaf Epalanga, músico, escritor

e embaixador do kuduro, nasceu

em Angola, mas desenvolveu

a sua carreira profissional em Portugal,

no bairro da Damaia, concelho

da Amadora, nos arredores de

Lisboa. Deu voz à banda Buraka

Som Sistema, responsável pela

internacionalização do kuduro,

que pode ser definido como um

estilo de música electrónica nascido

nas periferias de Luanda na

década de 1990.

No romance Também os Brancos

Sabem Dançar (Caminho, 2018),

Kalaf Epalanga conta a história do

kuduro e o seu processo de internacionalização,

ficcionando para

isso a trajectória da banda.

O autor descreve episódios, influências

musicais e nomes que o

associaram à história do kuduro.

Epalanga explica que o kuduro

nasceu da vontade dos jovens angolanos

de expressar com os seus

corpos, por meio de movimentos

rápidos e ritmados, que são bailados

tanto em grupo como individualmente,

a energia acumulada,

o luto, a alegria negada a quem

quer ser como os outros, «livre

para existir para além da esperança

de vida, para além do serviço

militar, para além da malária e

tantas outras privações das quais

muitos nem estão cientes». O kuduro

é entendido como uma possibilidade

de ascensão social, de

sair do círculo vicioso da pobreza

em que se nasce e de criar algo

próprio, de que se orgulhar.

2021 Abril | além-mar


apontamentos

© 123RF

P. e Fernando Domingues

Missionário comboniano

O Cristo que passou da

morte para a vida agora

caminha sempre connosco,

para fazer da nossa vida

um caminho de páscoa-

-passagem à vida nova

que Ele oferece.

PÁSCOA É PASSAGEM

A

Páscoa é a grande festa dos cristãos, o dia da ressurreição de

Jesus Cristo. Naquela mesma sexta-feira, ali a poucos metros

da cruz onde Jesus acabava de morrer, alguns amigos sepultaram-no

à pressa, antes do cair da noite, pois já estavam para

começar os rituais do sábado, o dia santo. Passado o sábado, ao nascer do

primeiro dia dessa semana Maria de Magdala (Madalena) foi ao sepulcro

e encontrou-o vazio. Logo depois, o próprio Jesus apareceu-lhe vivo e

falou com ela. Depois foi aparecendo também aos outros discípulos.

Quando lhes apareceu pela última vez, no dia da Ascensão, enviou-os

a anunciar a sua mensagem por todo o mundo com a promessa: «E eu

estarei sempre convosco...» (Mt 28, 20).

Sabemos que os primeiros grupos de discípulos, em Jerusalém e também

ao Norte, na Galileia, onde Jesus tinha vivido mais tempo, continuaram

a ir à sinagoga ao sábado, mas encontravam-se também entre eles no

primeiro dia da semana para o rito do «partir o pão», como Jesus tinha

feito com os primeiros discípulos na última Ceia, antes de morrer. A cada

primeiro dia da semana, “partiam o pão” celebrando a ressurreição e a

presença de Jesus. Nascia assim a nossa Eucaristia e o nosso domingo!

Com o passar dos anos, os Hebreus celebravam a Páscoa, no dia 14 do

mês de Nisã, e os cristãos celebravam a ressurreição de Jesus no primeiro

dia da semana logo a seguir. Só alguns séculos mais tarde é que esse dia

passou a ser chamado domingo (dia do Senhor), em Roma.

Sabemos que, por volta do ano 155, São Policarpo, bispo de Esmirna

(Turquia), viajou até Roma para aí discutir com o bispo Aniceto a melhor

data para celebrar a Páscoa. Policarpo, com os cristãos no Oriente,

continuavam a fazer a festa no domingo a seguir à Páscoa judaica, que

começava no equinócio da Primavera. A data da Páscoa judaica estava

ligada aos antigos ritos da Primavera – passagem dos rebanhos para as

pastagens mais altas, mas celebrava sobretudo a grande passagem dos

antigos Hebreus que saíram da escravidão do Egipto, passaram o mar

Vermelho, e o deserto, até conseguirem passar o rio Jordão, para chegarem,

livres, à Terra Prometida, a Palestina.

Cristo foi crucificado quase certamente na sexta-feira antes da Páscoa

dos Hebreus. E os cristãos começaram logo a ver na morte e ressurreição

de Cristo uma dupla passagem (Páscoa) ainda mais importante: ressuscitando,

Cristo passou da morte para a vida, e nós cristãos, pelo Baptismo,

participamos na sua morte e ressurreição e passamos, também nós, para

a vida nova que Ele nos oferece.

Notemos que a nossa festa da Páscoa continua associada à Primavera:

é sempre no domingo que se segue à primeira lua cheia da Primavera no

hemisfério norte. E por isso os símbolos da vida nova típica da Primavera

foram-se associando às festas da Páscoa: as flores na cruz da visita pascal,

os ovos (vida que se transforma e cresce).

Esta associação da Páscoa com a Primavera ajuda-nos a entender

como o Cristo que passou da morte para a vida agora caminha sempre

connosco, para fazer da nossa vida um caminho de páscoa-passagem à

vida nova que Ele oferece. am

além-mar | Abril 2021


vocação e vida

Susana Vilas Boas | Investigadora e leiga comboniana

© 123RF

2021 Abril | além-mar


Susana Vilas Boas | Investigadora e leiga comboniana

VOCAÇÃO: UMA REALIDADE

INTEGRAL E INTEGRANTE

A vocação é um dom que se discerne e realiza pouco a pouco, procurando

dar a mão a quem ajude na autodescoberta, nas opções e no compromisso

de amar e ser gerador de vida em favor da Humanidade.

Por estes dias, todos

se mostram mais

atarefados que o

habitual. A pandemia, que

trouxe tanto isolamento e

tantas restrições à circulação,

parece ter arrastado

consigo uma avalancha de

afazeres e uma azáfama à

qual ninguém está imune.

Um dos problemas reside

no facto de, ao fazer-se

tanta coisa “a partir de

casa”, tudo ser exigido

como prioritário, urgente,

importante. No meio

de tantas coisas (escola,

trabalhos, família e, muitas

vezes, doença), não

conseguimos abarcar tudo

nem fazer uma gestão

equilibrada de prioridades.

Simplesmente, parece

que não conseguimos

dizer que não a nada, nem

conseguimos encarar os

afazeres de um modo saudável,

dando prioridade

ao prioritário.

Esta situação fez-me

pensar sobre a realidade

vocacional. Talvez

o discernimento vocacional

esteja, também

ele, assombrado por

algo semelhante ao que

vivem hoje nestes tempos

pandémicos: parece que

há dificuldade em gerir

os nossos sonhos (destingindo-os

das ilusões) e

em dar prioridade ao que

é prioritário. Além disso,

mantém-se a dificuldade

de dizer que não ao que

quer que seja. Assombra-

-nos a possibilidade de

estarmos a rejeitar algo e

que, com isso, estejamos

a comprometer o nosso

futuro. Ora, a questão

deveria ser inversa. De

facto, sendo a vida feita de

escolhas, o «não-escolher/

/não-optar» é já uma

escolha. Escolha, esta, que

também compromete irremediavelmente

o futuro:

o futuro torna-se sempre

um “adiamento” daquilo

que somos e daquilo que

desejamos ser. Não seria

antes o caso de priorizar e

fazer opções consonantes

com os nossos maiores

anseios de vida, para que

fosse isso a comprometer

o futuro? Não queremos

todos comprometer o

futuro para que ele vá

na direcção do que mais

desejamos?

Dito desta maneira, as

coisas até parecem simples.

Em alguns casos até

são (por exemplo, quando

temos de dizer que não

a um “mau caminho”),

mas, na maioria das vezes,

as coisas não são simples

(por exemplo, quando

temos de optar entre vários

caminhos, todos eles

“bons”). É relativamente a

este último ponto que as

coisas se complicam, mas

isso não é justificação para

ficar a marcar passo, sem

avançar. Antes, existindo

vários caminhos que

gostaríamos de percorrer,

há que procurar a ajuda

certa para um discernimento

autêntico que seja

capaz de nos ajudar a ver

a realidade do que somos

de maneira mais autêntica

e integral.

Um caminho a dois,

a três ou a mais...

A vocação não é apenas

um dom pessoal, é

também um dom para o

mundo em que vivemos

(mesmo para aqueles que

nem conhecemos!); neste

sentido, a vocação «inclui

a preocupação de unir

toda a família humana

na busca de um desenvolvimento

sustentável e

integral. O Criador não

nos abandona» (Laudato

Si’, n.º 13).

Sendo uma realidade

com impacto universal, a

vocação é sempre sinónimo

de descoberta e

caminho conjunto. Aliás,

se quando olhamos os

caminhos que se apresentam

diante de nós e só

vemos o nosso próprio

bem-estar, então, algo

está errado: não estamos a

ver os caminhos relativos

àquilo que somos e

que queremos ser, mas

os caminhos que dizem

respeito ao que temos e ao

que queremos ter! Todos

queremos progredir e

crescer aos mais diferentes

níveis – e nada há de

errado nisso – antes, importa

ter presente que «é

possível ampliar o olhar,

e a liberdade humana é

capaz de limitar a técnica,

orientá-la e colocá-la ao

serviço doutro tipo de

progresso, mais saudável,

mais humano, mais social,

mais integral» (Laudato

Si’, n.º 112). Não somos

escravos do que temos,

nem podemos olhar o futuro

colocando-nos numa

posição de escravos relativamente

ao que queremos

ter! Integrando na nossa

vida – no discernimento

e vivência vocacional –

pessoas que nos ajudam

a ver o que verdadeiramente

somos e, consequentemente,

o caminho

que mais nos realiza e

faz felizes, será possível,

u

além-mar | Abril 2021


vocação e vida

optar/escolher sem medo

de comprometer o futuro

de maneira errada.

Lembro-me de, certa

vez, ouvir um cirurgião

falar do modo como teve

de tratar a esposa quando

esta teve cancro na mama.

Dizia ele que quando

pegou no bisturi para

remover o tumor maligno,

sentiu no olhar dos

colegas como que a frase

«vai mutilar a própria

mulher!». Esses olhares

fizeram-no dizer em alta

voz: «Vou cortar o que

não interessa. O amor

exige cortes, mas são

sempre em vista a salvar,

nunca a mutilar.» Voltando

à questão vocacional, é

mais ou menos o mesmo

que se passa quando nos

colocamos num caminho

de discernimento. Alguém

nos ajudará a “tirar o que

não interessa”. No final,

não seremos pessoas mutiladas,

mas vivas!

Comprometer o futuro

Todos sairemos a ganhar

com um bom discernimento

vocacional! A vida

de alguém, quando feliz

e realizada com autenticidade,

é sempre dom

e mais-valia para toda a

Humanidade. Por isso

mesmo, a vocação nunca

mutila ninguém, antes

«pressupõe o respeito pela

pessoa humana enquanto

tal, com direitos fundamentais

e inalienáveis

orientados para o seu

desenvolvimento integral»

(Laudato Si’, n.º 157).

Como efeito bola de

neve, trilhar os caminhos

da vocação leva sempre a

um maior crescimento e

ao alcance de um número

© 123RF

maior de pessoas: pessoas

que caminham connosco

no discernimento, pessoas

com quem partilhamos o

dia-a-dia da nossa vocação,

pessoas que ajudamos

a discernir a sua vocação...

pessoas que encontraram

uma vida mais autêntica e

feliz, graças à nossa autenticidade

de vida.

Muitas vezes, em

termos profissionais,

deparamos com pessoas

muito capazes e competentes.

Quando isso acontece,

quase sem darmos

por isso, acabamos por

comentar: «Vê-se mesmo

que nasceu para isto. Não

está só nesta profissão

para ganhar dinheiro.» De

alguma maneira, o nosso

desempenho profissional

é revelador, não só das

nossas aptidões naturais,

mas também da vocação

maior que nos habita.

Não é por acaso que

também olhamos para

certas pessoas e dizemos:

«Vê-se que é uma pessoa

realizada!» Ora, estas

pessoas não tiveram um

caminho facilitado nem

receberam de bandeja

uma carta divina a dizer

quais as escolhas que

deveriam fazer em cada

momento das suas vidas.

Antes, tiveram de ir caminhando

e, pouco a pouco,

procurando dar a mão a

quem as ajudou a descobrirem-se

a si mesmas

P. e Filipe Resende,

na Maia

Tlm: 968 107 616

Correio electrónico:

jovemissio@gmail.com

e a seguir em frente. De

certeza que estas pessoas

também tiveram momentos

de dúvida e de desejo

de não abandonar certos

caminhos. No entanto,

quanto mais foram descobrindo

e vivendo a sua

vocação, mais certas das

suas escolhas foram ficando.

Contudo, importa ter

em conta que a vocação

– por ser da natureza do

amor – é sempre exigente.

Assim, não se pense que

«estando o discernimento

feito, está tudo garantido».

Ao contrário, a vocação

exige um sim constante

ao caminho escolhido e

uma fidelidade às escolhas

que nos mantêm na rota

da autenticidade do nosso

ser. Não é, por exemplo,

isto que acontece com

as mães? A exigência do

amor move-as e faz com

que, por mais cansadas

que estejam, não deixem

de fazer opções de vida

para o bem dos seus

filhos. Esta vocação pode

ser, em certa medida, ícone

de todas as vocações,

uma vez que todas elas

implicam amar, optar e

ser gerador de vida/

/serviço permanente em

favor de outros. Comprometer

o futuro não é

«afunilamento da vida»,

é a sua ampliação para

uma esfera de felicidade

autêntica em que todos

participam. am

Centro Vocacional Juvenil (CVJ)

www.jim.pt

P. e Jorge Brites,

em Lisboa

Tel: 213 955 286

Correio electrónico:

jovemissiosul@gmail.com

jovensinmissio

jimmissio

2021 Abril | além-mar


Ao doar 0,5% do seu IRS, sem custos acrescidos para si, estará a apoiar a missão e os projetos dos

Missionários Combonianos, em Portugal e em mais de 40 países da África, América, Ásia e Europa.


CAMPANHA PASSAR OS MARES 2021

Os Missionários Combonianos propõem-lhe, com a campanha Passar os Mares, uma modalidade

simples de cooperação e ajuda na obra de evangelização. Para isso, chegou à sua caixa de correio

um desdobrável com 13 fichas. Propomos que:

• Divulgue essas fichas entre os seus familiares, colegas, amigos e conhecidos;

• Preencha as fichas com o nome e direcção integrais de quem colaborou e registe

a oferta que deu;

• Nos envie as fichas até 25 de Junho;

• Mande junto as respectivas ofertas, através de cheque

– em nome de Missionários Combonianos –, vale postal ou

por multibanco (veja como no desdobrável).

Há 200 prémios para os melhores angariadores.

E serão atribuídos outros 200 prémios por sorteio.

Por cada oferta de 1 euro é atribuído um número, que entrará no

sorteio. Este realiza-se na sede da Além-Mar a 2 de Julho.

Editorial Além-Mar | Calç. Eng. Miguel Pais, 9 | 1249-120 LISBOA

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