Revista Biosfera - 7ª Edição

petbioufscar2020

Bem-vindos(as) à 7ª edição da Revista Biosfera! Como parte das atividades de extensão do grupo PET Biologia da UFSCar, a revista vem sendo feita desde 2017 e você pode encontrar cada uma das produções em versão digital aqui na plataforma Yumpu! A publicação deste semestre traz a temática de Aves Brasileiras e é dedicada à divulgação científica e discussão de tópicos atuais. Entre os assuntos abordados, você irá encontrar informações sobre as corujas-buraqueiras e seu nicho ecológico; a prática do “birdwatching” com várias dicas para a “passarinhada”; os beija-flores e suas relações mutualísticas com plantas; e a biodiversidade acreana. Além disso, nesta edição entrevistamos os ornitólogos Augusto Batisteli e Carolline Fieker, ambos doutores pela UFSCar. E não para por aí, também conversamos com alguns professores, de diferentes localidades do país, que coordenam Laboratórios de Ornitologia, trazendo um pouco sobre suas linhas de pesquisa. A revista também conta com um especial de registros fotográficos de biólogos que unem duas paixões: a fotografia e a fauna brasileira. Confira, ainda nesta edição, curiosidades científicas e iniciativas que merecem destaque! Ficou curioso(a)? Não deixe de conferir! Boa leitura e bom retorno, biólogos(as) e estudantes!

MARÇO DE 2021

BIOSFERA

BOM RETORNO,

ESTUDANTE!

Divulgação Científica

Aves brasileiras em foco

Entrevistas

Conheça mais sobre os

ornitólogos Augusto Batisteli

e Carolline Fieker

Pelas Lentes

A natureza capturada por meio

da fotografia de aves


"A arte busca representar a

diversidade das aves com suas cores

chamativas e contrates únicos.

Além da grande diversidade, as aves

são os seres que tem a possibilidade

de explorar o céu, sem amarras ao

chão. Essa liberdade traz junto de si a

sensação de paz, um tipo de paz

inalcançável para nós."

Paz e liberdade

Essa foi a descrição da arte da capa

dada pela artista Vitória Faria. Ela

apresenta seu trabalho nas redes

sociais de seu estúdio.

@v.castudio


A Revista Biosfera

1




BURACOS FORA

DO ASFALTO

Texto por:

Beatriz Montanari

e Larissa Broggio

⠀⠀⠀⠀Em algum momento andando pela sua

cidade, você pode ter notado um buraco no chão

(Imagem 1). 1

Naquele terreno baldio ao lado da sua

casa, no estacionamento da empresa ou até

mesmo no campo de futebol da universidade. No

primeiro momento você pode ter imaginado que

aquela toca pertencia a algum animal terrestre,

quem sabe um Tatu - o que é provável, já que o

dono desta toca por vezes se aproveita de buracos

abandonados - mas desta vez não.

⠀⠀⠀⠀Os animais fantásticos que habitam estes

buracos são corujas-buraqueira (Athene(

cunicularia) ) (Imagem(

3). 3

Esta ave de rapina mede

cerca de 22 cm, pesa entre 147-250g [10] e

pertence à ordem Strigiformes e família Strigidae.

De hábitos diurnos e crepusculares, apresenta uma

dieta generalista baseada em pequenos animais,

destes, 95.1% são invertebrados como insetos e

crustáceos, já o restante é composto por pequenos

anfíbios, répteis, aves e mamíferos [2;11].

Imagem 1. Típico buraco utilizado pela ave. Foto

registrada no campo de futebol do Campus I da USP

em São Carlos - SP. Acervo próprio.

⠀⠀⠀⠀Costumam viver em pares e durante seu

período reprodutivo (setembro a fevereiro) cavam

ou ocupam tocas abandonadas por outros animais.

Essas tocas consistem em um túnel, ou buraco

(Imagem 2) - por isso o nome popular coruja-

buraqueira, que termina em uma câmara onde de

6 a 9 ovos são depositados e incubados pela

fêmea por cerca de 28 dias [3;10].⠀⠀⠀⠀

4

Imagem 2. Túnel habitado por coruja-buraqueira. Foto

registrada no Campus II da USP em São Carlos - SP.

Acervo próprio.

⠀⠀⠀⠀É uma espécie amplamente distribuída,

sendo encontrada do oeste da América do Norte

ao sul da América do Sul [1;4]. Habita desde

campos abertos com arbustos ou árvores

espalhadas, áreas semi-desérticas, desertos,

encostas de montanhas e pastagens com manchas

de vegetação rasteira. No entanto, com a

destruição de seus habitats naturais e o avanço

antrópico, esta espécie tem sido comumente

encontrada na área urbana, ocupando até terrenos

baldios [4]. Essa mudança tornou a espécie

bastante tolerante a ambientes antrópicos,

podendo explorar diferentes ambientes urbanos,

aproveitando-se da diminuição do número de

predadores naturais [4;7;9].

⠀⠀⠀⠀Apesar de toda essa adaptação, há indícios

de um declínio populacional devido à aproximação

aos humanos. Este fato contribui negativamente

para a população de animais pela destruição ou

alteração de habitat, pela predação por animais

domésticos, colisão por veículos, contaminação por

inseticidas e perseguição por humanos [7;8]. Além

disso, a aproximação das corujas aos humanos

pode refletir em alterações de seu comportamento.

Como apontado por Carrete e Tella (2017) [9], uma

vez que o número de predadores diminui, as

corujas podem “relaxar” ou até mesmo

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀


contra-selecionar comportamentos anti-

predadores, perdendo uma proteção fundamental

para a espécie. Em áreas com maior perturbação

humana, estudos sugerem que comportamentos

responsivos de alerta são mais frequentes,

enquanto comportamentos de medo são menos

frequentes [12].

Imagem 3. Coruja-buraqueira. Foto registrada no

Campus II da USP em São Carlos - SP.

Acervo próprio.

⠀⠀⠀⠀Recentemente foi registrada a presença da

coruja em regiões da Amazônia brasileira, fato que

não era comum. Isso porque, segundo Gomes,

Barreiros e Santana (2013), ações antrópicas

como a exploração madeireira e o desmatamento

aumentam regiões de área aberta, o que prejudica

espécies locais mais especialistas, mas favorece

as generalistas como a Athene cunicularia que

passou a ocupar tais espaços [5].

⠀⠀⠀⠀Sendo assim, a coruja-buraqueira não é

uma espécie naturalmente encontrada em áreas

urbanas ou florestais, mas tem se adaptado cada

vez mais à destruição de seu habitat e as

consequentes intervenções antrópicas, ocupando

áreas onde por vezes não era encontrada. O

contato tão próximo com esses animais pode

parecer interessante à primeira vista, mas é o

reflexo da destruição ambiental e a busca pela

sobrevivência. Estudos sobre a ecologia da

espécie são indispensáveis para a sua

conservação, bem como dos animais que com ela

interagem.

Referências

(

1- MARTINS, M.; EGLER, S.G. (1990). Comportamento de caça em um casal de Corujas buraqueiras (Athene cunicularia) ) na região de

São Paulo, Brasil. Revista Brasil Biologia, 50 (3): 579-584. 1990.

Campinas,

Campinas, São Paulo, Brasil.

, 50 (3): 579-584. 1990.

2- VIEIRA, L. A.; TEIXEIRA, R. L. (2008). Diet of Athene cunicularia (Molina, 1782) from a sandy coastal plain in southeast Brazil. Boletim

do Museu de Biologia Mello Leitão, 23(5), 5-14.

(

3- JACOBUCCI, G. B. (2007). Comportamento de alarme em corujas buraqueiras (Athene cunicularia) ) durante o período reprodutivo

Revista Brasileira de Zoociências, 9(2).

no sudeste do Brasil. Revista Brasileira de Zoociências

no sudeste do Brasil.

, 9(2).

4- KONIG, C.; WEICK, F. (2008). Owls of the world. A&C Black Publishers Ltd, London.

5- GOMES, F. B. R.; BARREIROS, M. M.; SANTANA, T. K. (2013). Novos registros da expansão geográfica de Athene cunicularia na

central com especial referência as atividades humanas. Atualidades Ornitológicas, 172, 12-14.

Amazônia

Amazônia central com especial referência as atividades humanas.

, 172, 12-14.

(

6- SALAZAR, R. S. M. (2007). Registro del Chiñi (Athene cunicularia) ) para la Amazônia boliviana. Kempffiana, 3(2), 23-24.

7- FRANCO, F. F.; MARÇAL-JUNIOR, O. (2018). Influence of urbanization on the distribution and defense strategies of the Burrowing

Owl Athene cunicularia in the city of Uberlândia, southeastern Brazil. Revista Brasileira de Ornitologia, 26(1), 1-8.

(

8- SHEIFFIELD, S. R. (1997). Current status, distribution, and conservation of the burrowing owl (Speotyto cunicularia) ) in midwestern

and western North America. United States Department of Agriculture Forest Service General Technical Report NC, 399-408.

9- CARRETE, M.; & TELLA, J. L. (2017). Behavioral correlations associated with fear of humans differ between rural and urban burrowing

owls.

, 5, 54.

Frontiers in Ecology and Evolution, 5, 54.

owls. Frontiers in Ecology and Evolution

10- ROCHA, A. D. Ecologia de Athene cunicularia (Molina 1782) (Aves, Strigidae) no litoral centro-norte de Santa Catarina, Brasil.

2020.

11- ZILIO, F. Dieta de Falco sparverius (Aves: Falconidae) e Athene cunicularia (Aves: Strigidae) em uma região de dunas no sul do

Brasil.

, v. 14, n. 4, p. 379-392, 2006.

Revista Brasileira de Ornitologia, v. 14, n. 4, p. 379-392, 2006.

Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia

Increased behavioural responses to human disturbance in breeding Burrowing Owls Athene cunicularia. Ibis

12- MORONI, E. et al. Increased behavioural responses to human disturbance in breeding Burrowing Owls Athene cunicularia.

Ibis, v.

, v.

159, n. 4, p. 854-859, 2017.

Sobre as Autoras:

Ambas são graduandas em Ciências

Biológicas pela Universidade Federal de São

Carlos e integram o grupo PET Biologia.

Larissa Broggio

@badgallare

Beatriz Montanari

@biamontanari_

5


BirdWatching

Texto produzido por

⠀⠀⠀⠀Há muito tempo, as aves produzem grande

fascínio ao homem. Elas chamam atenção devido

a diversidade de formas, cores, belíssimos cantos

e comportamentos. Assim, naturalmente, alguns

grupos foram formados para observar as aves. O

primeiro grupo de observação realmente

organizado foi criado em 1873, no estado de

Massachusetts: o Nuttall Ornithological Club. Ele

era composto por nomes conceituados no mundo

da ornitologia, como William Brewster, Ludlow

Griscom e Roger Tory Peterson. Além de

observações e estudos, este primeiro grupo

trabalhou na publicação de literatura ornitológica

[5].

⠀⠀⠀⠀O clube foi o primeiro a fazer observações

organizadas e estruturadas. Contudo, a criação

oficial da prática do birdwatching começa na

década de 40, com a National Audubon Society. A

ideia nasceu de uma preocupação que o então

presidente John Baker tinha com algumas

espécies ameaçadas da Florida [4]. No Brasil, a

prática de observação de aves surgiu oficialmente

em 1974, com a criação do Clube de Observação

de Aves (COA). Este foi formado após uma

segunda edição de um curso de extensão

ministrado pelo biólogo Flávio Silva e auxiliado por

Walter A. Voss. Walter foi um dos fundadores do

COA [2].

⠀⠀⠀⠀Com o passar do tempo, a notícia da

criação do COA se espalhou por todo o Brasil e

assim, foram surgindo novos clubes (organizados

dentro dos estados, como o COA-MG, COA-RJ e

COA-PR). Pouco tempo depois, em 1984, formou-

se o ⠀⠀⠀⠀

6

COA Nacional com o intuito de coordenar todas

as atividades dos clubes regionais, tendo como

seu primeiro presidente Pedro Scherer Neto [2].

Atualmente, com o crescimento do birdwatching,

temos catalogadas 1919 espécies de aves no

Brasil [6]. Isso nos posiciona entre os países com

maior biodiversidade de avifauna do mundo e

demonstra o potencial brasileiro para tal

atividade.

⠀⠀⠀⠀Segundo Benites e colaboradores (2020),

os interessados na prática de observação de aves

são divididos em quatro perfis. O primeiro perfil

seria composto por pessoas envolvidas com

pesquisas ornitológicas, nas quais são

desenvolvidos estudos técnicos-acadêmicos

sobre as espécies, descrição de comportamentos

e hábitos e outros aspectos relacionados à

biologia das aves. O segundo perfil envolve o seu

uso como hobby cultural, no qual a observação é

feita por lazer e pela experiência em avistar as

aves em seu habitat natural. As pessoas com

esse tipo de perfil têm interesse na conservação

de espécies para que todos possam conhecer

cada uma dessas aves. O terceiro perfil envolve

os observadores de aves profissionais

(birdwatchers), no qual o intuito é ter a maior

quantidade de registro de ocorrência de novas

espécies ou fazer melhorias na descrição de suas

características. Nesse perfil, inclusive, há

competições entre colecionadores de imagens.

⠀⠀⠀⠀Há ainda o quarto perfil, que seria

composto por interessados em ecoturismo, no

qual são organizadas expedições com o intuito de

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Jefferson Camargo


observação das aves. Nesse perfil, podem ser

trabalhadas atividades pedagógicas e de

educação ambiental, visando a ampliação da

consciência do papel ecológico das aves e da

importância de estarem livres [1].

⠀⠀⠀⠀As passarinhadas (ato de sair para

obversar aves) são eventos interessantes com a

presença de pessoas de vários perfis. Estas são

realizadas de manhãzinha, por volta das 6 horas e

podem ter duração variada de acordo com o clima,

a abundância de aves e alguns outros fatores. Os

participantes são instruídos ao uso de roupas

leves, com calçados fechados e uma camisa de

manga longa, sempre em tons mais escuros.

Afinal, cores chamativas podem espantar as aves.

Há bastante atenção à preparação dos

equipamentos de registro, câmeras, baterias,

cartões de memória e guias de identificação. Os

participantes sabem que oportunidades de registro

de algumas espécies não devem ser

desperdiçadas. Alguns observadores gostam de

fazer a prática do birdwatching levando apenas

binóculo e caderneta. Assim, eles avistam a ave e

imediatamente anotam para, posteriormente,

identificá-la ou catalogá-la em um banco de

dados. Essa forma de observação é a de menor

custo, mas exige mais atenção do praticante.

⠀⠀⠀⠀Para iniciar o birdwatching com qualidade

de registro de imagem, sugiro câmeras DSLR

(imagem 1) que possuem a vantagem de permitir

a troca da lente e o ajuste manual. Assim, você

pode adequar seu equipamento para o local em

que estiver "passarinhando". A escolha da lente

utilizada também é de grande importância. O ideal

para iniciar seria uma objetiva 55-250mm

(imagem 2) para uma boa experiência,

possibilitando melhor observação das aves,

mesmo a certa distância. A desvantagem desses

equipamentos é o custo elevado e a quantidade

de acessórios que devem ser levados para o local

de observação. A observação também pode ser

feita com câmeras do tipo "Coolpix", "Cyber-shot"

ou "Powershot". Tais câmeras não apresentam a

opção da troca de lente, mas geralmente possuem

zoom para grandes distâncias. Isto facilita a vida

do observador, uma vez que ele não precisa levar

conjuntos de lentes a mais para o local de

observação. A desvantagem fica por conta da

limitação em suas configurações que podem gerar

fotos mais escuras e lentidão no foco.

7

Imagem 1. Canon T7. Acervo próprio.

Imagem 2. Lente 55-25mm. Acervo próprio.


4.

Imagem

Rabo-brancoacanelado

pretrei)

(Phaethornis

crop e tratamento

com

registro - Arthur

pós

- SP. Acervo

Nogueira

Próprio.

3.

Imagem

Rabo-brancoacanelado

pretrei)

(Phaethornis

crop e tratamento

sem

registro - Arthur

pós

- SP. Acervo

Nogueira

Próprio.

⠀⠀⠀⠀Como esperado, a maioria das aves não

ficam paradas esperando para serem

fotografadas. Por isso, depois da "passarinhada",

o ideal é que se faça um tratamento nas imagens

para corrigir pequenos detalhes, como excesso de

luminosidade, realizar eventuais “crops” (cortes na

imagem) para melhor enquadramento (imagem(

3

e 4) e retirar elementos que estejam atrapalhando

a visualização da ave. Vale ressaltar que esse

tratamento tem o objetivo de melhorar a qualidade

do registro. Ele nunca deve ser utilizado para fazer

montagens ou colagens na imagem, apenas

correções.

⠀⠀⠀⠀O birdwatching é uma tendência mundial e

vem crescendo. Recentemente, estima-se que o

número de observadores chegou a quase 50 mil

no Brasil [3] e esse mercado vem servindo de

fonte de renda para algumas famílias que

possuem locais apropriados para a prática segura

da observação. Somado a isso, considerando o

importante papel ecológico das aves, atividades

como o birdwatching podem ter a função de

conscientizar a população sobre as espécies

avistadas e, desta forma, ajudar a promover sua

preservação.

8


Referências:

BENEDITES, M; MAMEDE, S; CARDOSO, M, A; VARGAS, I, A. Observação de aves e da biodiversidade durante a

[1] BENEDITES, M; MAMEDE, S; CARDOSO, M, A; VARGAS, I, A. Observação de aves e da biodiversidade durante a

pelo sars-cov-2: uma ressignificação? Revbea, , São Paulo, v. 15, nº4:589-609, 2020.

pandemia

pandemia pelo sars-cov-2: uma ressignificação? Revbea

COAPOA, 2019. Disponível em: https://www.coapoa.org/sobre-o-coa/historia-do-coa. Acesso em: 11 de fevereiro de

[2] COAPOA, 2019. Disponível em: https://www.coapoa.org/sobre-o-coa/historia-do-coa. Acesso em: 11 de fevereiro de

2021.

[3] G1, 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2019/12/29/observacao-

G1, 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2019/12/29/observacao-

de-passaros-vira-fonte-de-renda-para-fazendas-e-ajuda-a-aproximar-pessoas-da-natureza.ghtml. Acesso em: 11 de

fevereiro de 2021.

MOURÃO, R, M, F, Ecobrasil. Observação de Aves. Ecobrasil, 2021. Disponível em: www.ecobrasil.eco.br. Acesso em: 11

[4] MOURÃO, R, M, F, Ecobrasil. Observação de Aves. Ecobrasil, 2021. Disponível em: www.ecobrasil.eco.br. Acesso em: 11

de fevereiro de 2021.

[5] NUTTALLCLUB, 2019. Disponível em: https://www.nuttallclub.org/history/. Acesso em: 11 de fevereiro de 2021.

[6] PIACENTINI, V, de Q et al. Lista comentada das aves do Brasil pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos. Revista

Revista

, São Paulo, v. 23, nº2: 91-298, 2015.

Brasileira de Ornitologia, São Paulo, v. 23, nº2: 91-298, 2015.

SOBRE O AUTOR:

Jefferson Camargo

Jefferson Camargo

Está no último ano do curso de Ciências Biológicas na Fundação

Hermínio Ometto (FHO) - Uniararas. No primeiro ano da faculdade,

começou a estudar um pouco sobre aves e se apaixonou. No meio

de 2018, então, passou a se dedicar a aprender mais sobre elas e

em 2020, deu inicio ao seu hobby como fotógrafo de avifauna em

vida livre. A partir dessa prática, consolidou seu TCC: um guia

fotográfico das aves de quatro pontos da cidade de Araras.

@jefferson.biologia

9


Texto por: Luca Buffo

@olegaldasplantas

⠀⠀⠀⠀Apesar de seu tamanho diminuto, que

varia dos 6 aos 16 centímetros, os beija-flores

são algumas das aves mais notáveis de nossa

fauna. Chamam muita atenção devido à

agilidade de seu voo e a uma habilidade que

nenhuma outra ave possui: a capacidade de

ficar parado no ar, enquanto bate suas asas,

cerca de 80 vezes por segundo [1].

⠀⠀⠀⠀Mas não é só o beija-flor que sai

ganhando nessa história. Ele e as plantas

possuem uma interessante relação mutualística,

ou seja, uma relação que traz benefícios para

ambos: o alimento para a ave e a polinização

para a flor, visto que junto com o néctar, o beija-

flor acaba carregando o pólen de uma flor a

outra [3].

⠀⠀⠀⠀Por serem aves tão pequenas e com

tamanha agilidade, os beija-flores possuem um

alto metabolismo, logo, necessitam de muita

energia. Essa energia toda vem justamente do

néctar das flores e, por essa razão, eles visitam

cerca de duas mil flores diferentes por dia, o

que os torna ótimos polinizadores. Eles chegam

a consumir, inclusive, uma quantidade de néctar

maior do que seu próprio peso [4].

Figura 1. Beija-flor se alimentando em uma flor.

(Fonte: Canva)

⠀⠀⠀⠀Essa habilidade é evolutiva e auxilia na

alimentação dos beija-flores. Eles se alimentam

de pequenos insetos e de néctar, uma

substância açucarada que fica na base das

flores, e como nem toda planta oferece um

suporte para a ave pousar e se alimentar, a

habilidade de pairar no ar, permite que o beija-

flor desfrute dos melhores néctares [2].

Figura 2. Beija-flor com o bico sujo de pólen. (Fonte:

Canva)

10


⠀⠀⠀⠀Os beija-flores, também chamados de

colibris, pertencem a uma família de aves

chamada Trochilidae e estão distribuídos em

cerca de 322 espécies, 83 delas encontradas no

Brasil. Apesar de tamanha variedade, tanto os

colibris, quanto as plantas sofrem com a perda

de habitat e o uso de certos químicos, por esse

motivo algumas espécies estão ameaçadas de

extinção.

Figura 3. Beija-flor se hidratando em bebedouro

domestico. (Fonte: Canva)

⠀⠀⠀⠀A preservação e a criação de áreas

verdes são uma boa estratégia para manter

essas aves sempre presentes. Inclusive, quem

tem jardim em casa, pode moldar esse jardim de

forma que ele fique atrativo para os belíssimos

beija-flores, e algumas flores podem ajudar você

nesse processo.

⠀⠀⠀⠀A Lantana camara, , popularmente

conhecida por Cambará, é um arbusto nativo

das américas e bastante colorido, que vai

definitivamente atrair alguns beija-flores para o

seu jardim. As helicônias, como a Heliconia

rostrata, , é outro arbusto nativo muito bonito e

muito chamativo para os colibris.

boa ideia é sempre escolher aquelas espécies

que são nativas da região em que você mora

porque, além de atrair estas aves incríveis,

você auxilia na conservação da flora local.

⠀⠀⠀⠀Diante de todo esse contexto, é

extremamente necessário termos ciência de

como funciona um ecossistema e a importância

de se manter o equilíbrio. Existe um projeto no

México que cria jardins com o objetivo de salvar

espécies de beija-flor, ao mesmo tempo que

somente no sul do Brasil, existem cerca de 200

espécies de plantas, cujas flores são

polinizadas exclusivamente pelos beija-flores.

⠀⠀⠀⠀Em casos assim, se o polinizador

desaparecer, a planta desaparece também.

Uma árvore pode viver anos sem seu

polinizador, mas se ela não se propagar, a

espécie não sobrevive. E isso pode acontecer

tão discretamente que talvez a gente nem

perceba.

Referências:

[1] Bebedouros para beija-flores precisam de água, açúcar e

cuidado. Terra da Gente, G1. 2015. Disponível em:

[2] Beija-flor visita cerca de duas mil flores por dia. Globo

Repórter (Augusto Ruschi e Piero Ruschi), 2012. Disponível em

[3] Flores podem atrair e salvar espécies de beija-flor, disponível

em Ciclo Vivo, por María del Coro Arizmendi, professora da

UNAM, no México. 2020. Disponível em

< https://ciclovivo.com.br/planeta/meio-ambiente/flores-podematrair-e-salvar-especies-de-beija-flor/>

[4] José Francisco Haydu & Verônica Bender Haydu.

Hummingbirds and their flowers. Disponível em <

https://www.jfhaydu.com/>

[5] Raquel Patro. 24 Plantas para atrair borboletas e beija-flores

no jardim. Jardineiro.net, 2019. Disponível em:

< https://www.jardineiro.net>

⠀⠀⠀⠀Tantas outras espécies podem fazer esse

papel, como a verbena, a petúnia, o hibisco, o

mulungu, a caliandra e a estrelítzia. Mas uma

⠀⠀⠀⠀

11


O Acre está presente

Talvez a biodiversidade acreana, que "

aos poucos

desvendamos, seja em si mais impressionante do que

as mais malucas suposições do nosso

imaginário tupiniquim.

Texto "

por

Victor Castanho

⠀⠀⠀⠀Com toda a sua recente e turbulenta história, o

estado do Acre, no noroeste da Amazônia, ainda é

muito pouco conhecido dos brasileiros. A impressão

que emerge deste desconhecimento é a de que se

trataria de um local onde a natureza impera soberana e

inconteste, com bosques compostos por árvores

centenárias ocupadas por criaturas retiradas

diretamente de livros de contos fantásticos.

A biodiversidade acreana, que aos poucos

desvendamos, parece ser ainda mais impressionante

do que as mais audaciosas suposições do nosso

imaginário tupiniquim. Este é um fato interessante pois

ela já se demonstra ameaçada e, se não tivermos

cuidado e observarmos bem o que vem acontecendo,

talvez percamos tal biodiversidade antes mesmo de

termos ciência da sua grandeza.

⠀⠀⠀⠀Em meio ao oeste amazônico, a região ocupada

pelo Acre corresponde ao âmago de uma unidade

biogeográfica extremamente peculiar: o centro de

endemismo do Inambari. Para aqueles que não estão

familiarizados com o termo, um centro de endemismo

basicamente consiste em uma região na qual se

concentra um grupo de espécies cuja distribuição no

território é restrita em razão de barreiras geográficas

que as separam do resto do mundo.

Imagem 1.

Centros de

endemismo da

Amazônia (Fonte:

Conservação

Internacional –

Belém, PA).

⠀⠀⠀⠀O centro do Inambari (imagem(

1), 1

encontra-se

blindado de outras regiões da Amazônia pelo rio

Solimões ao norte, pelos rios Guaporé/Madeira ao leste

e pela cordilheira Andina e o rio Ucayali ao sudoeste [1].

Dessa forma, as comunidades ecológicas do Inambari e

consequentemente toda a biota acreana ficaram

isoladas por numerosas gerações. Dessa forma,

espécies únicas com adaptações interessantes foram

selecionadas, proporcionando-nos uma conveniente

janela para o entendimento das interações da fauna,

flora e geologia locais e os seus resultados evolutivos.

⠀⠀⠀⠀Há uma peculiaridade que talvez tenha

contribuído para determinar os padrões estruturais e

comportamentais das comunidades ecológicas do

Inambari ao longo dos últimos milênios. Esta seria sua

enorme mancha de bambuzais, que está estimada em

161.000 quilômetros quadrados [2] (imagem(

2), 2

e que

se estabeleceu no local devido à propícias

características edáficas, climáticas e geológicas.

Imagem 2. 2

Mancha de

bambu vista por

satélite (Fonte:

Bianchini, M.C.

2005)

⠀⠀⠀⠀Chamadas de “tabocais” no Brasil e “pacales” no

Peru, as florestas abertas com bambus que, no Acre,

estendem-se até onde os olhos podem ver,

compreendem uma fitofisionomia totalmente única em

meio à vegetação amazônica. Elas são diferentes de

outras florestas estáveis e estáticas, pois a cada três

décadas todo o bambuzal morre simultaneamente. Isso

se deve ao fato de a espécie predominante dessa

fitofisionomia, o bambu Guadua weberbaueri, , ser uma

⠀⠀⠀

12


planta semélpara e monocárpica, ou seja, ser uma

espécie vegetal cujos indivíduos apresentam um

único evento reprodutivo após o qual definham

juntamente a todos os outros ao seu redor [3]. ⠀⠀⠀

Logo, sempre que as florestas de bambu no

estado do Acre completam seu ciclo de vida,

florescendo e frutificando, uma mortandade em

massa ocorre, deixando um enorme vácuo ecológico

local e promovendo uma acelerada sucessão

biológica. Assim, de forma direta ou indireta, a fauna

acreana recebe grande influencia dos ciclos dos

bambus.

⠀⠀⠀⠀Diretamente, pelo menos 19 espécies de aves

são comprovadamente especializadas na utilização

dos recursos oferecidos pelos tabocais. Dessas, 6

são encontradas exclusivamente em associação com

Guadua weberbaueri em toda sua ocorrência

(usuárias obrigatórias de bambu), 7 são encontradas

ocasionalmente nas matas secundárias ocasionadas

pela morte do bambu (usuárias quase obrigatórias) e

6 podem ser encontradas em menor número,

habitando outras fitofisionomias (usuárias

facultativas) [4].

⠀⠀⠀⠀Entre as usuárias quase obrigatórias da

floresta aberta com bambus, está o pouco conhecido

e esguio limpa-folha-de-bico-virado (Syndactyla(

ucayalae), uma ave insetívora cujas adaptações

comportamentais e morfológicas são fascinantes,

apesar de, ainda ser pouco conhecida, sabe-se que

ela realiza movimentos acrobáticos. O limpa-folha-

de-bico-virado faz uso de seus tarsos e dedos

avantajados para se movimentar pelos tabocais,

buscando suas presas no oco dos caules do bambu.

Ao localizar algo que lhe apetece, essa ave utiliza

seu bico ligeiramente curvado para cima no intuito de

abrir o oco do bambu e inserir seu bico como uma

sonda para capturar artrópodes desavisados.

Imagem 3. 3

Syndactyla ucayale,

um usuário quase

obrigatório do

bambu. Foto por

Victor Castanho.

⠀⠀⠀⠀Diferentemente, o pica-pau-lindo (Celeus(

spectabilis), um usuário obrigatório de bambu, dispõe

de uma estratégia de aforrageio mais sofisticada,

⠀⠀⠀⠀

porém também realizada nos caules de Guadua

weberbaueri. . Utilizando-se de sua zigodactilia para se

manter equilibrado em troncos inclinados, o pica-pau-

lindo martela a região internodal de caules mortos de

bambus, abrindo um grande buraco para alcançar o oco

em que ovos e indivíduos maduros de grandes formigas

estão presentes. Meticulosamente, assim que abre uma

cavidade, o pica-pau intercala os momentos em que

insere seu bico dentro do buraco para pegar os insetos e

os momentos em que espera que mais formigas

cheguem até ele. Dessa forma, o pica-pau-lindo otimiza

o uso de sua energia e pode continuar se alimentando

por vários minutos sem sequer se mexer. Esse processo

foi descrito inicialmente por Andrew Kratter em 1956,

que também teorizou que o pica-pau-lindo retorna

constantemente aos locais onde fizera buracos para

conferir se alguma nova espécie de artrópode lá se

instalou, como se a ave estivesse cultivando novos

insetos para si.

⠀⠀⠀⠀Outros dois táxons de uma peculiaridade ímpar e

exclusivos do centro de endemismo do Inambari são a

sovela-vermelha (Galbalcyrhynchus(

purusianus) ) e a

agulha-de-garganta-branca (Brachygalba(

albogularis).

Frequentemente chamadas de "beija-flores gigantes" por

leigos que observam seus compridos bicos. Na,

realidade, essas duas aves pertencem à família dos

galbulídeos e fascinam ornitólogos por conta de sua área

de ocorrência diminuta, seu gregarismo e sua estratégia

de construção de ninhos em cavidades que escavam.

⠀⠀⠀⠀No caso da agulha, embora essa não seja

associada diretamente a bambuzais, seu habitat de

preferência – florestas secundárias com a presença de

embaúbas (Cecropia(

sp.) ) na imediata vizinhança de

corpos d'água – é o resultado direto da mortandade dos

bambus do gênero Guadua, , explicitando uma relação

indireta entre ambos que ainda é pouco estudada. Em

seus territórios, essas aves vivem em pequenos grupos

que variam de 3 a 6 indivíduos que se estabelecem

sedentariamente em uma área e lá constroem seus

ninhos, escavando-os em barrancos entre os meses de

agosto e setembro. O fascinante sobre a agulha é o fato

de se acreditar que essa ave exibe um comportamento

de reprodução cooperativa semelhante ao observado no

pássaro africano Lamprotornis superbus. Durante D

o

período reprodutivo, esta espécie forma múltiplos casais

que se unem para cuidar dos filhotes [5].

13


⠀⠀⠀⠀Uma evidência que fortemente sugere esse

modelo de reprodução, trata-se do fato de, em 2001,

terem sido observados todos os adultos de um grupo

de agulhas carregando alimento em seus bicos e se

enfileirando em frente ao ninho, esperando

pacientemente por sua vez de alimentar os filhotes

[6].

⠀⠀⠀⠀Embora a regra de Hamilton [7] deixe claro os

benefícios do apoio familiar na criação de indivíduos

geneticamente relacionados, as formas como esse

processo evolui variam profundamente e ainda mal

foi explorado como esse comportamento de

cooperação pôde convergir em ambientes tão

diversos quanto as planícies africanas e as matas

acreanas.

⠀⠀⠀⠀Diferentemente da agulha, pouco se publicou

sobre os hábitos da sovela-vermelha. Como a

agulha, a sovela vive em grupos que variam de 4 a 6

indivíduos em matas secundárias próximas a corpos

d'água com muitas embaúbas (Cecropia(

sp.).

Especula-se também que a sovela usufrua de uma

dinâmica de reprodução coletiva [8], porém

carecemos de fortes evidências documentais desse

comportamento. O mais próximo de dados empíricos

que temos são observações superficiais realizadas

no Peru, onde um grupo de sovelas nidificou e

dormiu coletivamente dentro de uma única cavidade

escavada em meio a um cupinzeiro de Nasutitermes

corniger [9].

⠀⠀⠀⠀Algo que difere a sovela da agulha é seu

comprimento maior e seu bico mais robusto. Devido a

esse tamanho mais avantajado e maior robustez no

bico, a sovela pode usufruir de uma dieta que inclui

presas maiores do que a da agulha que, por sua vez,

geralmente se alimenta apenas de borboletas

(Lepidoptera) e vespas e abelhas (Hymenoptera). Em

uma oportunidade em novembro de 2020, pude

dispor de 30 minutos observando o forrageio de dois

indivíduos de sovela-vermelha e incrivelmente uma

das aves, cujo tamanho era de aproximadamente 20

cm, capturou uma cigarra (Cicadidae) de cerca de

5cm em voo e a engoliu. O animal passou cerca de

um minuto rebatendo a presa em um galho para se

certificar de que estava morta. Isoladas na região do

Inambari, a sovela-vermelha e a agulha-de-garganta-

branca de fato adquiriram características únicas, as

quais estamos apenas agora começando a entender.

⠀⠀⠀⠀Embora mal tenhamos arranhado a superfície

⠀⠀⠀⠀

dos estudos sobre as complexas relações ecológicas

presentes na biodiversidade do Acre, é clara a

fragilidade dos ecossistemas desse estado. A presença

dos enormes bambuzais e a dinâmica cíclica de

constante transformação causada pela sua morte regem

o ritmo de toda a biota do centro do Inambari e qualquer

desarmonia pode trazer consigo consequências

imprevisíveis para o local como um todo.

⠀⠀⠀⠀A respeito disso, no ano de 2020, foram

constatados 9193 focos de incêndio no Acre, um

aumento de 35% em relação a 2019 e o maior número

de incêndios desde 2005 [10]. Além disso, de acordo

com os últimos dados da Unidade Central de

Geoprocessamento do Estado do Acre (UCEGEO), de

2018 para 2019 houve um aumento de 54% na taxa de

desmatamento no estado. Tal fato é surpreendente, pois

deve ser considerado que os desmatamentos que

ocorreram em 2019 foram os maiores já registrados nos

últimos 11 anos [11].

⠀⠀⠀⠀Infelizmente, esses números indicam que o Acre

atualmente se encontra na ponta do arco do

desmatamento que avança rumo ao norte através de

Rondônia. Essa expansão da fronteira agrícola no oeste

da Amazônia traz consigo uma brusca transformação da

paisagem e, assim, espécies típicas de ambientes

antrópicos e desgastados passam a colonizar locais

onde antes uma floresta úmida existia. Assim,

bioindicadores de clareiras e campos tomados por

gramíneas exóticas já são observados com frequência

no leste do Acre: casais de quiriri (Falco(

sparverius),

caminheiros-zumbidores (Anthus(

lutescens), corujas-

buraqueiras (Athene(

cunicularia), garças-vaqueiras

(Bubulcus ibis), quero-queros (Vanellus(

chillensis),

carcáras (Caracara(

plancus) ) [12] e até mesmo gaviões-

peneira (Elanus(

leucurus) ) hoje habitam as enormes

áreas abertas pela pecuária e fazem com que uma área

com vegetação equatorial pareça um campo antropizado

no interior de São Paulo.

⠀⠀⠀⠀A destruição de bambuzais já deixou suas vítimas

na Mata Atlântica do Brasil. A famosa pararu-espelho

(Claravis geoffroyi) ) era uma usuária obrigatória dos

bambuzais atlânticos. De hábitos nomádicos, sua vida

consistia na realização constante de movimentos

acompanhando o ciclo reprodutivo semélparo dos

bambuzais para se alimentar de suas sementes. Assim,

quando uma área completava seu ciclo e morria, ocorria

⠀⠀⠀⠀

14


um deslocamento em massa de pararus buscando

outra área ainda frutificando. No entanto, essa ave

que até os anos 90 era considerada abundante, hoje

é considerada criticamente ameaçada pela IUCN e

nenhum indivíduo foi visto desde 2007 [13]. A

destruição dos bambuzais e dos corredores que os

conectam para satisfazer as demandas

agropecuárias e imobiliárias [14] condenou essa

espécie à extinção.

⠀⠀⠀⠀Se não frearmos o desmatamento no Acre,

talvez o mesmo resultado ocorra às inúmeras

espécies das quais pouquíssimo compreendemos.

Um exemplo dessas é o flautim-rufo (Cnipodectes(

superrufus), uma ave que fora descrita apenas em

2007 e já se encontra ameaçada de extinção por

conta da expansão desorganizada e frenética da

agricultura [15].

⠀⠀⠀⠀Como humanistas, cremos que ser humano é

ser capaz de observar o passado e aprender com ele

para evitar futuros desastres. No entanto, parece que

pouco aprendemos com a destruição gargantuesca

da Mata Atlântica e seguimos perpetuando o mesmo

ciclo destrutivo. Cabe a nós uma organização para

evitar que os bambuzais do Acre e toda sua

biodiversidade sofram do mesmo destino que sofreu

a pararu-espelho.

Referências:

[1] SILVA, J. M. C. da; RYLANDS, A. B.; FONSECA, GAB da. O

destino das áreas de endemismo da Amazônia.

Megadiversidade, v. 1, n. 1, p. 124-131, 2005.

[2] BIANCHINI, M. C. Florestas dominadas por bambu (gênero

Guadua) no sudoeste da Amazônia: Extensão, comportamento

espectral e associação com o relevo. Master's Thesis. Manaus:

Universidade Federal do Amazonas, 2005.

[3] SILVEIRA, Marcos et al. Ambientes físicos e coberturas

vegetais do Acre. Primeiro Catálogo da flora do Acre, Brasil. Rio

Branco, AC: EDUFAC, p. 36-63, 2008.

[4] KRATTER, Andrew W. Bamboo Specialization by Amazonian

Birds 1. Biotropica, v. 29, n. 1, p. 100-110, 1997.

[5] RUBENSTEIN, Dustin R. Spatiotemporal environmental

variation, risk aversion, and the evolution of cooperative

breeding as a bet-hedging strategy. Proceedings of the

National Academy of Sciences, v. 108, n. Supplement 2, p.

10816-10822, 2011.

[6] TOBIAS, Joseph A.; SEDDON, Nathalie. Breeding, foraging,

and vocal behavior of the white-throated jacamar

(Brachygalba albogularis). The Wilson Bulletin, p. 237-240,

2003.

[7] FOSTER, Kevin R.; WENSELEERS, Tom; RATNIEKS, Francis

LW. Kin selection is the key to altruism. Trends in ecology &

evolution, v. 21, n. 2, p. 57-60, 2006.

[8] TOBIAS, J., T. ZÜCHNER, T.A. de MELO JÚNIOR, e G. M.

KIRWAN. Purus Jacamar (Galbalcyrhynchus purusianus). Birds

of the World. Cornell Lab of Ornithology, Ithaca, NY, USA. Versão

0.1, mar. 2020. DOI: https://doi.org/10.2173/bow.purjac2.01

[9] BRIGHTSMITH, Donald J. Nest sites of termitarium nesting

birds in SE Peru. Ornitologia Neotropical, v. 15, p. 319-330, 2004.

[10] INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Portal do

Monitoramento de Queimadas e Incêndios. Disponível em

http://www.inpe.br/queimadas. Acesso em: 04/02/2021.

[11] UCEGEO - Unidade Central de Geoprocessamento do Estado

do Acre. Situação de queimadas e desmatamento na Amazônia e

no Acre em 2019 e 2020. Disponível em

http://sema.acre.gov.br/wpcontent/uploads/sites/20/2020/08/Nota_03

_Desmatamento-e-Queimadas_FINAL_202008011.pdf. Acesso em:

04/02/2021

[12] GUILHERME, Edson; CZABAN, Robson Esteves. First record

of the Yellowish Pipit in Acre with notes on other grassland birds

in southwestern Amazônia. Neotropical Biology and Conservation,

v. 10, n. 3, p. 169-176, 2015.

[13] LEES, Alexander C.; PIMM, Stuart L. Species, extinct before

we know them?. Current Biology, v. 25, n. 5, p. R177-R180, 2015.

[14] BIRDLIFE INTERNATIONAL. Claravis geoffroyi (amended

version of 2016 assessment). The IUCN Red List of Threatened

Species 2018: e.T22690819A125046717. 2018. DOI:

https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2016-

3.RLTS.T22690819A125046717.

[15] BIRDLIFE INTERNATIONAL. Cnipodectes superrufus. The IUCN

Red List of Threatened Species 2017: e.T22735464A118904437.

2017. DOI: https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2017-

3.RLTS.T22735464A118904437.

Sobre o autor:

⠀⠀⠀⠀Victor Castanho é, atualmente, graduando do

curso Enviromental Biology na Columbia University

(EUA). Possui ênfase no estudo de aves da Mata

Atlântica, apesar de estar cada vez mais envolvido com o

Oeste Amazônico.

@victorbirdphotography

15


AUGUSTO BATISTELI

BIOSFESRA.

Augusto, inicialmente gostaríamos de

saber um pouco sobre a sua jornada. Ecologia sempre

foi sua área de maior interesse?

R.⠀⠀⠀A atração por bichos já é uma coisa familiar, veio

muito dos meus pais e da liberdade que me deram para

brincar e aprender com os animais, estava sempre

levando algum animalzinho para casa para ver como ele

se desenvolvia, se alimentava, sempre tive essa

curiosidade. Uma vez que decidi fazer biologia, eu não

tinha bagagem e conhecimento das grandes áreas da

biologia, mas na disciplina de Conceitos e Métodos em

Ecologia, dos professores Peret e Odete, já comecei a me

interessar pelo assunto, pois já gostava de estudar como

os indivíduos se comportavam e interagiam entre eles e

com o ambiente. Então, ecologia sempre foi mesmo

minha área de preferência.

BIOSFESRA. De onde veio o interesse de trabalhar com

aves? Por que especificamente a ordem Passeriformes?

R.⠀⠀⠀Dentro da ecologia você se apega mais às teorias do

que aos objetos de estudo. Basicamente, você consegue

replicar as teorias de estudo com qualquer grupo de ser

vivo, considerando as peculiaridades de cada um, como

ocorre com a teoria da biogeografia de ilhas que sempre

pode ser testada independentemente de qual grupo você

esteja falando. Eu escolhi aves porque sempre tive

interesse e por influência familiar, mas também porque as

aves são um dos grupos mais bem estudados. ⠀⠀

⠀⠀⠀E por que passeriformes? Talvez porque seja a ordem

mais abundante. Para se ter uma ideia da proporção

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

16

entre a ordem Passeriformes, que são os conhecidos

como passarinhos, e as outras ordens de aves: existem

cerca de 10 mil espécies de aves, e quase 6 mil delas são

Passeriformes, ou seja, é uma ordem muito grande.

Então, pode ter sido ao acaso estudar os passarinhos

porque se eu fosse escolher ao acaso um grupo de aves

para estudar, a chance de ser Passeriformes seria enorme.

BIOSFESRA. Quais são as pessoas que mais lhe

influenciaram em seu estudo?

R.⠀⠀⠀Dentro da academia, penso no professor Manoel

que é uma grande referência na ornitologia, mas tive

também a sorte de conviver com dois ornitólogos muito

competentes que eram meus veteranos diretos: o

Matheus Reis e a Carol Fieker, ambos alunos do Manoel.

Então eu tive muita influência e muito suporte da parte

deles, me ajudaram demais. Faz total diferença ter

contato com alguém que já tenha uma visão mais

madura para nos direcionar um pouco. Agora, fora da

academia, sem dúvida meu pais. Meu pai sempre foi

apaixonado por aves, por passarinhos, e minha mãe

também. Além da família, voltando para dentro da

academia, tive muitas pessoas que pude conhecer lá no

comecinho, na verdade ainda estou no comecinho da

carreira, mas eu digo bem lá no começo, que me deram

um enorme suporte, um grande incentivo.

BIOSFESRA. Sabemos que as pesquisas científicas são

sempre multidisciplinares. Quais as principais áreas

de estudo envolvidas em seus trabalhos?


R.⠀⠀⠀Eu trabalho com ecologia e com algumas ciências

aplicadas às aves como evolução, genética e fisiologia. A

ecologia comportamental, na verdade, é o principal foco

do meu trabalho que é descobrir o porquê das aves ou

das espécies se comportarem da maneira como se

comportam. É diferente da etologia clássica que descreve

como os animais se comportam. Na ecologia

comportamental, a gente estuda porque eles se

comportam como se comportam. No doutorado, tentei

trabalhar com genética de forma aplicada também, mas

não foi possível, fiquei restrito à ecologia comportamental,

mas, como eu disse, ela já é uma ciência multidisciplinar

porque envolve a etologia, ecologia e evolução.

BIOSFESRA. Em sua opinião, há informação

substancial sobre a avifauna? Haveria alguma região,

em especial, menos desprovida de informações? Por

que você acredita que isso acontece?

R.⠀⠀⠀Mesmo as aves sendo um dos grupos de animais

mais bem estudados, quando falamos de aves tropicais,

principalmente de neotropicais, há uma grande lacuna

no conhecimento. Não temos descrição formal do

comportamento reprodutivo da maioria das espécies

comuns, em muitas não se sabe nem informações básicas

como: quem cuida do ninho; por quanto tempo eles

realizam determinadas tarefas; quantos dias os filhotes

demoram para nascer ou para saírem do ninho. Para a

maioria das aves do Hemisfério Norte, esse conhecimento

já é bastante consolidado, primeiro porque lá há muito

menos espécies do que aqui e, segundo, porque existem

mais investimentos em pesquisas. Desse modo, é visível

uma grande barreira entre os Hemisférios Norte e Sul.

⠀⠀⠀ Por isso, nosso conhecimento sobre aves é um

grande paradoxo, nós sabemos muito sobre elas em

geral, mas ao mesmo tempo sabemos pouquíssimo.

Existem espécies de aves que serão extintas antes de as

descobrirmos e antes de podermos estudar qualquer

característica do seu comportamento. Então, em resumo,

acredito que isso aconteça, principalmente com as aves

neotropicais, primeiro porque elas existem em um

grande número de espécies, segundo pois a ciência aqui

é mais recente e, por último, por conta do baixo volume

de investimentos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

BIOSFESRA.

Nos dias atuais as áreas ambientais

impactadas seja pela agropecuária ou pela

urbanização aumentam de forma exponencial. Com

isso, muitas espécies de aves são afetadas. O que este

impacto pode causar em um pássaro ou em populações?

R.⠀⠀⠀Diferentemente da maioria dos ornitólogos, cujas

áreas de estudo são reservas ecológicas, áreas protegidas

ou aves em extinção, eu tenho um interesse muito grande

por espécies comuns em áreas impactadas. Essa

curiosidade pode ser explicada pela grande contribuição

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

17

dessas espécies nas funções ecossistêmicas, por exemplo,

o sanhaço, um pássaro comum que é o primeiro

frugívoro a chegar em uma área de pastagem

abandonada com o potencial de colaborar para

recuperá-la. É por isso que eu gosto de estudar essas

espécies e também os fenômenos antrópicos que as

atingem, uma vez que, se formos nos questionar: quais

áreas estão isentas de impactos antrópicos hoje, serão

pouquíssimas. Com relação ao impacto que as ações

antrópicas podem ter, o efeito mais marcante para as

aves é a exclusão de espécies.

⠀⠀⠀Do ponto de vista das comunidades, uma grande

falácia que ouvimos é “as espécies estão perdendo

habitat e estão vindo para a cidade”, quando na verdade,

as espécies que vêm para a cidade toleram de alguma

forma aquele ambiente, enquanto as que não toleram

jamais irão viver em cidades por conta da perda do

habitat. Elas vão simplesmente desaparecer. Já do ponto

de vista de populações, é muito comum ocorrer a

redução de sua abundância. Ou seja, espécies que

eventualmente tolerem áreas naturais, agrícolas e

urbanas, podem, por exemplo, ser mais abundantes no

primeiro ambiente, enquanto no segundo terão uma

abundância média e, no terceiro, pequena.

BIOSFESRA. O que este impacto nas espécies de aves

podem gerar para o equilíbrio de um ecossistema? É

possível apontar o bioma que tenha sido mais

afetado?

R.⠀⠀⠀Os impactos estão diretamente ligados às funções

que as aves desempenham, e que dependem das suas

características biológicas. Por exemplo, do ponto de vista

de habitat de uma ave, existem aves aquáticas, sendo

que algumas mergulham, outras vivem em zonas

brejosas, ou na transição entre terrestre e aquático. Há

também aves terrestres, algumas que nunca saem do

chão, outras aves terrestres que usam estratos mais

baixos ou mais altos da vegetação, e há ainda aves que

ficam a maior parte do tempo no ar. Do ponto de vista de

alimento, tem-se aves frugívoras, nectarívoras,

insectívoras, carnívoras, detritívoras e piscívoras. Ou seja,

quando se combina tudo isso, nota-se como as aves são

um grupo altamente diverso em relação as suas funções

ecossistemas. As funções ecossistêmicas são as

atividades que os organismos desempenham e que

refletem de alguma forma no equilíbrio ecossistêmico,

seja pelo controle de populações de presas, seja na

polinização ou na dispersão de sementes. Então, a

principal consequência disso (desse aumento ou

diminuição populacional) é o imediato desequilíbrio dos

ecossistemas e do seu funcionamento.

⠀⠀⠀Quando se fala em funcionamento dos ecossistemas,

fala-se de fenômenos importantes como ciclagem de

nutrientes, sucessão ecológica e equilíbrio de

populações. Quando a gente fala do impacto nas

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀


comunidades, imagine o filtro biológico das cidades

incluindo um grande número de espécies que nunca

iriam pisar na cidade, de imediato já se tem um

rompimento abrupto das redes tróficas e das relações

entre as espécies: entre polinizadores e plantas, entre

frugívoros e plantas que consomem e assim por diante.

Então, tem esses dois grandes impactos: o primeiro é o

rompimento das redes de interações, e o segundo é a

superabundância de algumas espécies e o

desaparecimento de outras em consequência do

crescimento desordenado de algumas populações. Você

tem algumas populações que crescem demais e às vezes

competem com outras e as excluem, ou o contrário, em

que populações que se retraem por algum fator e deixam

de consumir suas presas, levando a um aumento no

número de presas.

⠀⠀⠀Sintetizando, tanto a perda de espécies quanto

alterações na abundância de espécies causadas pelas

áreas antrópicas geram consequências muito importantes

do ponto de vista de funções ecossistêmicas e da

manutenção ao longo do tempo dos ecossistemas como

eles são. Eu acho que os biomas mais afetados são os que

são mais degradados, no caso de biomas brasileiros eu

destacaria Mata Atlântica que é quase totalmente

suprimida, com alguns poucos remanescentes, e o

Cerrado, os dois mais ameaçados. Eu mencionaria

também os Pampas, dentro daquilo que citei

anteriormente: nem conhecemos por completo a

biodiversidade dos Pampas a ponto de poder dizer o

quanto é afetado, então talvez o bioma merecesse ainda

mais destaque que o Cerrado, por exemplo, mas, como a

gente conhece menos… Mata Atlântica e Cerrado são na

minha opinião os dois principais biomas mais afetados.

BIOSFESRA. Qual o lugar que mais lhe marcou em seus

estudos com aves? E qual lugar pretende conhecer e

estudar?

R.⠀⠀⠀Eu sou meio biólogo Nutella eu diria (ri). Eu chegava

de carro e ficava olhando meus ninhos lá na área urbana.

Parece totalmente Nutella né? Mas tô brincando. Muita

gente eu tenho certeza que me vê assim, mas isso tudo

possibilitou que eu tivesse um esforço amostral muito

maior do que se eu tivesse trabalhado em áreas naturais,

então foi uma escolha.

⠀⠀⠀Eu poderia ter feito meus estudos em áreas mais

naturais, como alguma unidade de conservação, mas o

número de ninhos que eu conseguiria encontrar seria

muito reduzido. Digo tudo isso para introduzir que não

tem como esconder a minha paixão pelo campus da

UFSCar. Do ponto de vista de riqueza de espécies, o

campus da UFSCar conta com um terço das aves do

estado de São Paulo, mesmo não tendo as aves endêmicas

de Mata Atlântica (não temos aqui) e as endêmicas de

áreas litorâneas. Mas, considerando todas as aves de

⠀⠀⠀⠀⠀

18

São Paulo, há um terço no campus. Bom, algumas foram

registradas muito pontualmente, mas essa lista

acumulada chega a um terço, um pouco mais de

trezentas espécies. Nós somos muito privilegiados,

privilegiados por termos um laboratório desses ao

alcance das mãos.

⠀⠀⠀Para complementar a informação de um terço das

aves de São Paulo: o estado tem 789 espécies de aves e o

Brasil tem 1919, então o estado de SP tem cerca de 1/3 das

espécies de aves do Brasil, e a Federal tem 1/3 das

espécies de aves de SP, então a UFSCar tem 1/9 das aves

do Brasil, mais ou menos. É muito bicho e é muito bicho

que você vê ao mesmo tempo, é muita abundância,

então tudo isso fez com que eu gostasse muito dali.

⠀⠀⠀Um lugar que eu queria ter a oportunidade para

trabalhar mais é o Cerrado, na verdade algumas

fitofisionomias específicas de Cerrado, principalmente

fisionomias mais abertas que o Cerrado sensu strictu. O

Cerrado tende a se adensar na maior parte da sua área

remanescente, como ocorre no Cerrado da Federal de

alguns anos para cá. Aliás, faço um convite: quando

puder, abra o Google Earth e veja as transformações que

aconteceram ao longo do tempo no Cerrado e no lago da

Federal. Então, eu gostaria de ter a oportunidade de

trabalhar mais com essas áreas mais abertas de Cerrado,

onde há espécies que só ocorrem ali. Nos locais onde o

Cerrado começa a se adensar, esses bichos de áreas

abertas deixam de ocorrer. Seria muito bacana poder

trabalhar na Serra da Canastra, ou na estação ecológica

de Itirapina.

BIOSFESRA.

Você poderia falar um pouco sobre o

equipamento e as ferramentas que normalmente usa

em campo?

R.⠀⠀⠀Quem me via andando pelo campus me via

sempre fantasiado com chapéu, caderno, câmera,

binóculo, redes e uma adaptação fundamental que é o

pau de nest: em muitos estudos se fala que a checagem

dos ninhos era feita com um espelho anexado a uma

vara, comecei tentando usar com um espelho laranja

colado com durex em uma vara, mas foi uma tragédia, foi

então que eu aprimorei com um cabo de pintura e um

espelho de bike, e como ninho em inglês é nest eu

chamei de pau de nest, primo do pau de selfie.

⠀⠀⠀Com isso, conseguia ver a maioria dos ninhos de

sabiá que eu encontrava, mas como não dá pra saber se

os ovos nos ninhos eram de chupim ou sabiá, eu sempre

tirava fotos e depois analisava. Também anotava tudo no

caderno e usava o binóculo identificar, principalmente

porque a gente colocava anéis coloridos nas aves e isso

promovia uma identidade individual. Outro item que

usava bastante eram as redes de neblina para fazer a

captura.


BIOSFESRA. Os estudos de campo possuem

características próprias e interessantes. Você poderia

contar alguma situação inusitada?

R.⠀⠀⠀Aconteceram muitas situações, a rede de neblina é

uma prática que exige muita atenção e cuidado porque a

captura de um animal tem um estresse associado. Muitas

pessoas não entendem e acham que isso vai matar os

animais, o que é mentira porque a gente quer observar

eles vivos. Então, às vezes acontecia de pessoas rasgarem

as redes por revolta ou inocência. Eu sempre tentava

colocar as redes de final de semana por ter menos pessoas,

mas mesmo assim acabava acontecendo. Algumas vezes

eu até encontrava a pessoa destruindo a rede. Houve uma

vez em que eu estava tentando pegar um casal, mas uma

outra ave acabou caindo na rede, em 30 segundos de

distração, uma senhora já se aproximou e cortou a rede, só

que ela nem conseguiu cortar tudo e deixou o passarinho

com as asas presas. Felizmente, consegui correr atrás dele

e tirar a rede. Mas, já teve até mesmo biólogos que fizeram

uma comoção para conseguir uma tesoura pra tirar o

passarinho, já teve também casos que eu acabei pegando

ciclistas e motociclistas, apesar de colocar a rede em

lugares onde eles provavelmente nunca passariam.

BIOSFESRA.

Quais são as métricas e ferramentas

usadas para medir, exatamente, o impacto ambiental?

Ou esse seria, no caso, um processo mais qualitativo?

R.⠀⠀⠀Do ponto de vista de comunidades, a métrica mais

promissora é a diversidade funcional que é obtida ao

cruzar as características que compõem certa ave, como

seus hábitos alimentares, tamanho e tipo de habitat,

porque esses aspectos indicam com maior precisão qual

sua função no ecossistema. Devemos entender o

ecossistema como se fosse um motor: embora em um

motor existam vários parafusos de diferentes tamanhos,

isso não quer dizer que um parafuso possa ocupar o local

de outro, desempenhando a mesma função. Então, se uma

espécie com determinadas características é perdida, uma

outra espécie com características similares pode não repor

àquela perdida. Do ponto de vista de populações, trabalhase

com abundância das espécies. Abundância é a métrica

com mais avanços na compreensão dos impactos

antrópicos: há um predomínio de estudos sobre mudanças

na abundância das espécies ao longo de gradientes de

perturbação.

⠀⠀⠀Do ponto de vista de indivíduos, visa-se mostrar como

os indivíduos de áreas urbanas são diferentes dos outros

indivíduos de áreas naturais em vários aspectos genéticos,

morfológicos e comportamentais. Tenho trabalhos sobre

isso, em meu doutorado, por exemplo, um dos capítulos

foi direcionado a investigar se existiam diferenças entre as

fêmeas que fazem ninhos nos prédios e nas árvores, do

ponto de vista de suas personalidades. Pense: uma fêmea

está acostumada a fazer ninhos em troncos de árvores,

mas é encontrado um ninho dentro do banheiro de um

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

19

departamento do campus. Por que isso pode ter

ocorrido? Será que é a mesma fêmea que fez o ninho na

árvore, mas em algum momento ela decidiu migrar para

dentro do departamento? Ou talvez seja uma fêmea que

a mãe procriou naquele local e aquele ambiente se

tornou mais familiar para ela? Esse tipo de estudo é

muito importante. Primeiro para mostrar que existem

essas diferenças entre áreas naturais e urbanas e,

posteriormente, para mostrar como isso acontece.

⠀⠀⠀No meu caso, tentei focar em desvendar como isso

ocorre. O que eu encontrei foi que as fêmeas que fazem

ninhos em prédios são menos medrosas que aquelas que

fazem ninhos em árvores. Então, esse seria justamente o

ponto de passagem pelo qual as populações urbanas

podem se tornar diferentes, em termos de

comportamento, em relação às populações de áreas

naturais. Ou seja, alguns indivíduos se mostram dispostos

a explorarem alguns recursos e se submetem a algumas

circunstâncias que alteram de alguma forma o seu

sucesso reprodutivo (aptidão). Em meu estudo

especificamente, as fêmeas com ninhos em prédios

apresentaram maiores chances de sobrevivência de seus

ovos. A partir disso, analisando a população daquela

espécie, caso seja identificado uma maior descendência

de fêmeas que tiveram ninhos em prédios, então a

tendência é que continuem sendo menos medrosas,

fazendo seus ninhos em prédios.

BIOSFESRA. Se você pudesse dar um conselho ao seu

eu do passado, no início da graduação, qual conselho

você daria?

R. Eu ouvi muito: “aproveite as oportunidades” e acredito

que ainda seja algo amplamente dito. Mas, no momento

da caminhada em que me encontro hoje, eu diria que

isso não é o suficiente porque as pessoas não chegarão

em você lhe convidando para algo. Por isso, se eu

pudesse dizer algo para mim, eu diria: “crie as suas

oportunidades”. Você precisa não só aproveitar as

oportunidades que você tem, mas principalmente criar

essas oportunidades.

⠀⠀⠀Converse com pessoas mais experientes, até mesmo

bata na porta de um professor que você considera

simpático e diga: “oi, tem alguma coisa no seu laboratório

que eu poderia fazer?”. É importante ouvir até mesmo

aqueles conselhos mais chatos sobre algo que a gente

reluta em fazer, como ler os artigos em inglês e estudar

estatística, porque esses comportamentos é que lhe

abrirão portas. No mundo competitivo em que vivemos

hoje, saber criar nossas oportunidades é o diferencial. O

bacana é que muitas vezes você cria oportunidades na

hora do café, no caminho de volta pra casa, no pátio do

seu curso, na mesa do bar. Saiba fazer contatos. Saiba

explorar!


PELAS LENTES

A fotografia de aves é uma das mais belas formas de se registrar a natureza.

Confira alguns cliques feitos por biólogos que unem duas paixões: a fotografia e

a fauna brasileira.

Seriema (Cariama(

cristata)

Razoavelmente comum, ocorre em áreas amplas de

cerrado e de cultivo. É uma ave inconfundível, muito

grande e de hábito terrícola. Suas pernas e bicos são

vermelhas enquanto suas penas são de uma coloração

pardo-cinzenta. Possui também uma crista bastante

vistosa e despenteada. Os indivíduos jovens possuem

o bico de cor mais escura. São aves muito

interessantes e até lembram dinossauros enquanto

estão correndo. Esses animais vivem sozinhos ou em

casais. Sua alimentação consiste em insetos grandes,

roedores, lagartos e anfíbios.

Coleirinho (Sporophila(

caerulescens)

Ave abundante e de ocorrência ampla em áreas

abertas, naturais, agrícolas e urbanas. É uma ave

muito popular no Brasil, o macho (ave da foto) é cinza

por cima e branco na região da barriga, possui

também um uma inconfundível coleira preta abaixo da

cabeça. Já a fêmea possui um bico escuro e sua

coloração é totalmente marrom. Esse animal prefere

capins altos e pode viver em grandes bandos.

Alimenta-se de grãos.

Coruja-buraqueira (Athene(

cunicularia)

Comum e de ocorrência ampla em áreas abertas

naturais, agropecuárias e até mesmo em cidades.

Sendo uma das espécies de coruja mais fáceis de se

avistar devido ao seus hábitos diurnos. É marrom por

cima e nas costas com o topo da cabeça com estrias

brancas. Suas asas também são marrons com manchas

brancas. Por baixo é de uma coloração branca e

barrada de marrom. Esta ave vivem em casal ou em

grupos familiares, criam seus ninhos no chão e as

vezes em cupinzeiros. Encara intrusos movendo sua

cabeça para cima e para baixo. Possui uma diane

carnivoro-insetívoro, sendo considerada generalista.

R E G I S T R O S E D E S C R I Ç Õ E S P O R :

Graduado em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade

Federal de São Carlos. Recentemente, deu início ao seu mestrado no

Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais

(PPGERN). Durante a graduação, foi membro do grupo Trilha da

Natureza que lhe proporcionou muitos aprendizados e a oportunidade

de melhorar a técnica da fotografia de animais silvestres,

em especial as aves.

@enzo_manzoli 20

Enzo

Coletti

Manzoli


A V E S E M F R E N T E E V E R S O

A C E S S E O E - B O O K G R Á T I S !

O livro, produzido por

Confira também, no

Reinaldo Feres, exibe aves

WikiAves, os registros

registradas no Campus da

feitos por Reinaldo

UNESP em São José do Rio

Feres.

Preto e as informações

resumidas a respeito de cada

P E R F I L N O

espécie.

W I K I A V E S

Corrupião (Icterus(

jamaicaii)

Também conhecida como sofrê, tem a habilidade de

imitar o canto de outras aves e sons diversos. Mede

de 23 a 26 cm de comprimento e o contraste das cores

de sua plumagem chama muito a atenção. O indivíduo

jovem é semelhante ao adulto, mas com penas

amarelas nas áreas alaranjadas quando adulto. É

onívora, se alimentando de frutos e sementes,

invertebrados, pequenos vertebrados, além do néctar

e flores de algumas espécies de plantas. Ocorre

somente no território brasileiro, nos biomas de

Cerrado e Caatinga, preferindo áreas abertas e secas.

Distribui-se pelo Nordeste, Centro- Oeste, Sudeste e

leste do Pará, e para oeste até Goiás e Tocantins.

Gaturamo-bandeira (Chlorophonia(

cyanea)

Conhecida também como bandeirinha, por apresentar

as cores da bandeira do Brasil, é um pequeno pássaro

com cerca de 10 cm de comprimento. O macho difere

da fêmea pela coloração mais intensa. Na fêmea, além

da cor da plumagem ser esmaecida, a região ventral é

amarela esverdeada. Ocorrem principalmente em

áreas serranas, como as Serras do Mar e da

Mantiqueira, da Bahia e Minas Gerais até o Rio

Grande do Sul e o Paraguai. Se alimenta de pequenos

frutos, especialmente os da erva-de-passarinho,

folhas, néctar e larvas de insetos.

Udu-de-coroa-azul (Momotus(

momota)

Uma das mais belas e grandes aves tropicais,

chegando a cerca de 46 cm de comprimento. Ocorre

em florestas densas ou abertas, matas de galeria e

cerradões, preferencialmente em locais sombreados.

O nome popular, como para grande parte das espécies

de aves, foi inspirado no seu canto (onomatopaico:

“udu”), ouvido mais frequentemente no crepúsculo

matutino ou vespertino. Sua cauda é longa e chama a

atenção pelas duas penas centrais, mais compridas

que o corpo e com pontas em forma de raquete. É

onívoro, consumindo principalmente frutos,

minhocas, artrópodes e pequenos vertebrados,

incluindo passarinhos e seus filhotes.

R E G I S T R O S E D E S C R I Ç Õ E S P O R :

Reinaldo

José

Fazzio

Feres

Graduado em Ciências Biológicas, com mestrado em Artropodologia e

doutorado em Zoologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de

Mesquita Filho, na qual foi Professor Adjunto com livre docência em

Invertebrados: Arthropoda a Hemichordata. Atuou como Prof. do

núcleo permanente junto ao Programa de Pós-graduação em Biologia

Animal, IBILCE-UNESP, de 2002 a 2016, e como Professor

Aposentado Voluntário de 2016 a 2018.

21

@reinaldojfferes


Uirapuru-azul (Thamnomanes(

schistogynus)

Ocorre no sudoeste do Amazonas e no Acre em

fragmentos florestais de terra firme e de várzea. É

uma ave que lidera bandos mistos, sendo encontrada

somente no centro de endemismo do Inambari. Mede

cerca de 15 cm de comprimento. Nessa espécie, o

macho difere da fêmea por ser cinza-escuro, enquanto

a fêmea apresenta uma plumagem vermelha-laranja

na barriga.

Gavião-peneira (Elanus(

leucurus)

É uma ave de áreas abertas que se distribui por todo o

Brasil. A espécie é capaz de pairar no ar por longos

períodos em busca do alimento que pode ser avistado

até em uma altura de cerca de 30 metros. Por ocupar

campos abertos, o gavião-peneira é um bioindicador

de áreas desmatadas. Nos últimos anos, observou-se

que sua ocorrência acompanha os locais desmatados.

Na foto, o rapinante leva em suas garras uma sanã-do-

capim (Laterallus(

exilis). Suas majestosas asas e cauda

longas chamam atenção, além do peito branco e olhos

em coloração vermelha (no indivíduo adulto).

Ariramba-da-capoeira (Galbula(

cyanescens)

Mede pouco mais de 20 cm de comprimento. É uma

ave galbulidae endêmica do Inambari. Alimenta-se

predominantemente de insetos e é encontrada no

estrato médio de áreas com vegetação mais densa.

R E G I S T R OE S GE I SDT ER SO CS RF I ÇE IÕ TEO S P O R ::

Graduado em Environmental Biology pela Columbia

University (EUA). Seus estudos são voltados às aves

da Mata Atlântica, mas tem grande

interesse pelo Oeste Amazônico.

@victorbirdphotography

22

Victor

Castanho


P E R F I L N O

W I K I A V E S

Acesse o portfólio, no

WikiAves, dos cliques

feitos pelo Davi Perez.

Garça-branca-grande (Ardea(

alba)

Ave de grande porte da ordem dos Pelicaniformes,

encontrada em praticamente todo o Brasil,

geralmente em lagos, rios e áreas alagadas. Excelente

pescadora, mas se alimenta também de roedores,

anfíbios e de outras aves, especialmente filhotes.

É a ave da nota de cinco reais.

Papagaio-verdadeiro (Amazona(

aestiva)

Pertencente à família dos Psittaciformes, o papagaio-

verdadeiro é um dos maiores e mais populares

papagaios do Brasil, infelizmente muito caçado para

viver em gaiolas devido à sua capacidade de "falar".

Alimenta-se de sementes e frutos.

Gavião-caramujeiro (Rostrhamus(

sociabilis)

Ave grande e majestosa pertencente à família

Accipitriformes, pode ser encontrada em quase todo

Brasil, sempre perto de lagos e rios, de onde tira sua

principal fonte de alimento, os caramujos (origem de

seu nome popular). Costuma se reunir em grupos que

variam de alguns indivíduos até centenas deles.

R E G I S T R O S E D E S C R I Ç Õ E S P O R :

Davi

Perez

Silva

Graduado em Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas

pela Fundação Hermínio Ometto (Uniararas). Logo no começo do

curso, desenvolveu interesse por fotografar a natureza.

Seu primeiro registro de uma ave foi de um bem-te-vi (Pitangus(

sulphuratus) ) no Zoológico de Americana.

23

@daviperezsilva


CAROL FIEKER

BIOSFESRA.

Carol, quando você percebeu que seria

possível trabalhar nesta área?

R.⠀⠀⠀Entrei na biologia e segui para a ornitologia por uma

questão de gosto mesmo. Eu costumo dizer que tive esse

privilégio: fui favorecida pela oportunidade de poder escolher a

função que eu já queria seguir. Somado a isso, tive muito apoio

dos meus familiares desde o início e isso é muito importante para

a escolha da profissão quando se entra na graduação. No

começo, eu não pensava muito como seria a inserção no

mercado de trabalho, mas acabei recebendo alguns comentários

lamentáveis a respeito da escolha da profissão. Mesmo assim,

sempre acreditei que seria possível trabalhar na área, ficava

bastante inspirada pelos documentários que assistia na

televisão, principalmente os da BBC do Sir David Attenborough.

Porém, uma coisa é verdade: é necessário um esforço bem

grande para conseguir uma posição e se estabelecer na área.

BIOSFESRA. Quais aspectos você considera mais

interessantes em seu trabalho?

R.⠀⠀⠀Todos têm a sua importância, mas, se eu pudesse

escolher, acho que escolheria o fato de poder estar no campo,

no meio do mato quase que o tempo todo. Isso de longe é o que

mais gosto de fazer. O contato com a natureza já é agradável

por si só, desde de que a gente se esqueça um pouco do calor e

dos mosquitos [ri] e lembre apenas daquela sensação de frescor

do raiar do dia, com aquela cantoria das aves, lembrando das

auroras e dos poentes de sol. O que eu acho interessante

nesse aspecto do meu trabalho é que estar no meio do mato

com os bichos e com a natureza é onde levantamos nossas

perguntas para as pesquisas. Esse aspecto pra mim é o

24

mais interessante: a oportunidade de estar em contato direto

com a natureza e ter vivências que são bastante enriquecedoras.

Muitas pessoas não têm essa oportunidade ou nem vislumbram

isso porque estão longe de uma realidade da biologia de campo.

BIOSFESRA. Quais os principais desafios em trabalhar

como ornitóloga no Brasil hoje em dia?

R.⠀⠀⠀O O primeiro desafio é o reconhecimento da profissão.

Infelizmente a profissão não é tão conhecida e nem tão

valorizada, principalmente no campo da pesquisa. Atualmente,

percebemos que está havendo uma valorização maior, mas até

pouco tempo atrás era totalmente desconhecida. Hoje em dia

vemos crescer a atividade de Birdwatching (observação de

aves), mas no campo de pesquisa não é tão grande o

reconhecimento. É um pouco difícil você se colocar no mercado

de trabalho na área da ornitologia, o empenho deve ser muito

grande, mas é possível sim atuar, hoje eu estou estabelecida na

área por meio da consultoria ambiental, mas não tenho deixado

de fazer pesquisa.

⠀⠀⠀O outro desafio é o preconceito por ser uma mulher

ornitóloga. Fui questionada se daria conta e se conseguiria

enfrentar o trabalho de campo, fora isso, tem toda aquela coisa

machista de “ah, mas você é mulher... você vai pro meio do

mato?”. É lógico que a gente sabe que tem o perigo associado

porque vivemos em uma sociedade machista. Já passei por

algumas situações em campo em que tive muito medo de

encontrar caçadores, extratores de palmito ilegalmente, na

verdade isso se torna um risco para todos, não é só por ser

mulher. Enfim, sofri um pouco de preconceito e isso foi um

desafio. ⠀⠀⠀


BIOSFESRA.

que você diria para quem está pensando

em entrar nessa área de estudo?

R.⠀⠀⠀É É uma área maravilhosa, com muitas possibilidades de

atuação, mas é preciso uma dedicação grande. É necessário um

esforço para se estabelecer e ter noção de limitações próprias.

Por exemplo, tem pessoas que não conseguem acordar cedo,

mas pra trabalhar com aves em campo é preciso. Nesse caso,

quem ainda tem interesse em trabalhar com aves, poderia

pensar em alternativas que não envolvem estar em campo com

tanta frequência. O Trabalho em campo também tem alguns

detalhes não muito agradáveis como mosquitos o tempo todo,

mas existem acontecimentos incríveis que fazem você ser muito

grato por ter seguido por essa área e por poder vivenciar. Não

tenha medo de conseguir se colocar no mercado de trabalho,

quando se gosta de algo e está disposto a se esforçar e

aprender, tudo dará certo.

BIOSFESRA.

Quais as possíveis áreas de atuação para

um ornitólogo?

R.⠀⠀⠀As principais seriam pesquisa, consultoria e

licenciamento ambiental, educação e áreas de gestão,

conservação e fiscalização ambiental. Delas, derivam diversas

outras possibilidades. Na pesquisa com aves, por exemplo,

pode-se trabalhar desde a história natural desses animais até

partes específicas de genética. Outra possibilidade interessante

é dentro da área de ecoturismo para observação de aves, algo

que tem crescido muito no Brasil. Inclusive, vem muita gente de

fora para ver as aves brasileiras. Portanto, o campo de atuação

é grande. É também possível trabalhar em mais de uma área ao

mesmo tempo. No meu caso, trabalho com a consultoria e com

a pesquisa.

BIOSFESRA.

As aves sempre despertaram o interesse

do homem pelo seu canto, comportamento, beleza,

cores e, principalmente, pela capacidade de voo. Um

dos fenômenos mais extraordinários é o processo de

migração. Por que ele acontece?

R.⠀⠀⠀A A explicação básica se deve ao histórico evolutivo de

cada uma das espécies que realizam migração, ressalto aqui

que não são todas as aves. Esse comportamento se

estabeleceu nas espécies que o fazem, provavelmente porque

os indivíduos dessas espécies que começaram a fazer

deslocamentos foram beneficiados de alguma forma, talvez por

encontrarem melhores condições e mais recursos. Assim,

tinham mais chances de sobrevivência e, consequentemente, de

reprodução. Com a reprodução, conseguiam repassar seus

genes aos descendentes. Conforme isso se repetia, o

comportamento era reforçado, ao ponto de acabar sendo fixado

nas populações a partir, portanto, desses indivíduos que

conseguiam melhor sucesso reprodutivo por se deslocarem.

⠀⠀⠀A migração é definida como um movimento que

25

acontece sazonalmente que as aves fazem de um ponto de

reprodução até um ponto de invernagem que é uma região de

descanso reprodutivo. Porém, existem diversos motivos para

essas movimentações e há muitos tipos de deslocamentos que

não se encaixam como uma migração. Há, por exemplo, os

deslocamentos nomádicos caracterizados por aves que se

movimentam aleatoriamente em busca de alguma condição ou

recurso. Além deste, pode-se citar também o movimento de

dispersão que é atrelado às aves com uma predisposição maior

a se deslocarem para áreas mais distantes.

⠀⠀⠀Tratando-se da migração, a gente comumente escuta a

pergunta: como é que elas sabem que chegou o momento de

migrar? Existem diversos estímulos, mas o principal se deve à

mudança no ritmo circadiano. As alterações na duração do dia e

da noite ao longo do ano desencadeiam um processo fisiológico

nas aves que respondem à migração. A partir disso, há um

estímulo que as levam a perceber que chegou a hora de migrar.

Esse é o principal estímulo.

⠀⠀⠀Há aves que migram entre os hemisférios, mas também

existem aves que migram internamente no nosso continente.

Espécies que migram dentro da América do Sul têm seu

processo migratório menos conhecido do que essas espécies

que vem do hemisfério norte. Bem recentemente, um estudo, se

não me engano na UNESP de Rio Claro, tem investigado a

migração dessas aves dentro da América do Sul, como o

pássaro tesourinha (Tyrannus(

savana) ) que é uma ave migratória

que chega em meado de agosto aqui na região de São Carlos,

mas neste mês de março começará sua subida ao norte do

Brasil porque nos próximos meses estaremos no inverno.

BIOSFESRA. Como as alterações causadas pelo homem

podem afetar o comportamento das aves? O que você

poderia destacar como ação antrópica mais danosa?

R.⠀⠀⠀Começarei pela última pergunta. O que eu acho mais

danoso e que tem sido indicado por várias pesquisas é a

destruição dos habitats com a eliminação da vegetação. Quando

o habitat é eliminado, não há mais estrutura, não se tem mais

condições e recursos necessários à sobrevivência daquelas

espécies. Essa é de longe a ação antrópica mais danosa.

Com relação à mudança, supondo que as aves continuem no

ambiente, qual será o impacto causado pela ação antrópica?

Quais as respostas comportamentais à mudança? Isso depende

de quais espécies estão envolvidas e quais espécies foram

impactadas. Tem espécies que pouco vão mudar o

comportamento porque são mais generalistas e exploram mais

de um ambiente. Por isso, conseguem se adaptar melhor às

mudanças e não sofrem tanto. Em contrapartida, há espécies

que não possuem essa capacidade e, dependendo da alteração

causada pelo homem, são perdidas.

⠀⠀⠀Colocando alguns exemplos, quando se tem


alteração por introdução de espécies exóticas, como gramíneas

ou o javaporco, certos impactos são causados no ambiente e a

resposta das aves varia bastante. Na Serra da Canastra,

recentemente começou a ter uma invasão e aumento da

população de javaporco. Esses animais causam uma certa

degradação dos habitats porque eles fuçam, andam em grupos

grandes e reviram o chão da floresta, detonando a vegetação e

destruindo nascentes. Assim, algumas matas de galeria

começaram a sofrer muitas alterações em sua estrutura do solo,

justamente porque os javaporcos cavam para formar poças de

lama, destruindo o solo.

⠀⠀⠀Pensando nisso, um estudo recente passou a investigar o

efeito da invasão de javaporco no comportamento do tapaculo-

de-brasília, uma ave ameaçada de extinção que só ocorre nas

matas-galerias de cerrado. Essa ave forrageia bastante o chão

buscando alimento, embora também fique explorando os troncos

das árvores. O javaporco, portanto, acaba alterando o micro-

habitat de forrageio dessa espécie de ave e, no estudo, foi visto

que a ave diminui o uso das áreas onde o solo fica muito

alterado pelos javaporcos. Então, houve uma modificação do

comportamento da ave em relação ao uso do ambiente em que

ela vive, um exemplo de uma mudança comportamental

derivada da introdução de uma espécie exótica.

⠀⠀⠀A curto prazo, infelizmente o único jeito de controle

populacional é a eliminação desses animais. No caso do

javaporco, é inclusive permitida sua caça porque eles perderam

o controle e fazem um estrago grande nos ambientes naturais.

⠀⠀⠀

BIOSFESRA.

Nos conte um pouco mais sobre suas

pesquisas. Onde e quais você já desenvolveu? Que

questões tem investigado atualmente?

R.⠀⠀⠀Eu gostei dessa pergunta, me fez buscar na memória

meu começo da graduação e minhas primeiras pesquisas. Eu

comecei atrás de uma espécie bem comum de rapinante, o

gavião-carijó, que pode ser vista dentro da cidade. Eu fui estudar

esse rapinante na beira da rodovia BR-277 no Paraná, entre as

cidades de Santa Tereza e Céu Azul, ficava procurando os

indivíduos que pousavam nos fios e nas árvores nesse trecho da

rodovia que pega pedaços do Parque Nacional do Iguaçu, um

dos mais famosos por ter as cataratas. Então eu comecei ali,

indo atrás de descobrir e descrever o comportamento e a dieta

do Rupornis magnirostris, , que é o carijó, nas margens da BR-

277.

⠀⠀⠀Acho que tive muita sorte porque eu já sabia que queria

trabalhar com aves quando entrei na graduação, sempre gostei,

e logo no primeiro ano na universidade já encontrei um professor

que foi meu primeiro orientador, o José Flávio, que é um

ornitólogo. Também pude participar junto dele de algumas

pesquisas no Parque Nacional do Iguaçu (PNI), onde eu comecei

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

26

a ter mais contato ainda com as aves porque um dos projetos

envolvia o uso de redes de neblina para um levantamento das

aves do parque, foi quando comecei a aprender a identificar.

⠀⠀⠀Depois, eu vim parar aqui em São Carlos para fazer um

estágio com o professor Manoel e descobri o Cerrado. Decidi,

então, que queria tentar o mestrado na UFSCar para continuar

trabalhando no Cerrado. Desisti da ideia da Amazônia [ri].

Durante o mestrado, que desenvolvi na cidade de Itirapina na

estação ecológica, busquei investigar como era a distribuição

das aves e da comunidade como um todo nas diferentes

fitofisionomias do Cerrado.

⠀⠀⠀Depois do mestrado, segui para a Serra da Canastra.

Trabalhei com boa parte da comunidade de aves de lá, mas para

o doutorado foquei na pesquisa do titco-tico-de-máscara-negra

(Coryphaspiza melanotis) ) e algumas espécies do gênero

Sporophila, que são aves migratórias, e também no pintassilgo

(Spinus magellanicus). Com essas espécies, tentei ver como

elas usam os ambientes e quais eram suas dietas.

⠀⠀⠀Dessa pesquisa surgiram várias outras perguntas que

estimularam outras pesquisas, por exemplo relacionadas ao

fogo. O fogo é uma realidade no Cerrado e no Parque da Serra

da Canastra acontece praticamente todos os anos, seja de

origem natural ou não-natural. Passamos a investigar os efeitos

do fogo sobre as comunidades de aves e isso foi levando a

outras coisas: acabei indo parar nas plantas. O efeito mais direto

do fogo é na estrutura da vegetação. Então, eu acabei entrando

em uma linha de pesquisa para ver como o fogo afetava o

alimento das aves, principalmente do componente herbáceo do

Cerrado, as gramíneas.

⠀⠀⠀Também tive envolvimento em diversas outras pesquisas e

até hoje trabalho colaborativamente com o laboratório de aves

neotropicais do professor Manoel e ajudo na coorientação de

alguns alunos. Adicionalmente, participo de um projeto de

extensão junto ao laboratório de genética de aves.

BIOSFESRA. Um de seus projetos de extensão envolve o

Cerrado como ponto de escala ou de invernagem para

aves migratórias neárticas. De que forma isso

acontece? Como isso foi observado na UFSCar?

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

R.⠀⠀⠀Então, este projeto está relacionado à educação

ambiental e a sua concepção já foi fundamentada no

conhecimento de que essas aves ocorriam na região, seja como

área de invernagem ou como apenas um ponto de parado ao

longo de sua rota. O projeto tem apoio financeiro de um órgão

ambiental dos Estados Unidos chamado U.S. Fish and Wildlife

Service e envolve duas partes: um curso dado aos professores

das escolas públicas estaduais e municipais, além de um

programa de rádio e dois livros infantis.

⠀⠀⠀Com relação às espécies que já foram registradas na

⠀⠀⠀⠀⠀⠀


região são: Maçarico-de-perna-amarela, Maçarico-grande-de-

perna-amarela, Maçarico-solitário, Maçarico-do-campo, Falcão-

peregrino, Águia-pescadora e Andorinhas. Essas aves vêm do

Alasca, da Tundra do Ártico, das Pradarias do Canadá e dos

Estados Unidos.⠀⠀⠀⠀

BIOSFESRA.

Qual a importância do Cerrado para a

biodiversidade local e global?

R.⠀⠀⠀O O Cerrado é o segundo maior domínio morfoclimático e

fitogeográfico do Brasil, perdendo somente em extensão para a

Amazônia. O domínio abriga a terceira maior riqueza de aves,

são mais de 850 espécies o habitam. Além disso, ele também é

a savana mais rica e biodiversa do mundo.

⠀⠀⠀É interessante perceber que ele está localizado em uma

região de transição entre outros biomas, tendo interface com a

Amazônia, a Caatinga e a Mata Atlântica. Dessa forma, por ter

uma formação vegetal muito grande e variada, ele sustenta não

só espécies características da sua distribuição, mas também

espécies de outros domínios com os quais faz interface.

⠀⠀⠀No entanto, a importância do Cerrado não está restrita à

diversidade e riqueza de espécies, o domínio também é berço de

vários rios brasileiros como o Rio São Francisco. Voltando a

pensar no fenômeno da migração, o Cerrado é uma das

principais rotas migratórias, conhecida como a Rota do Brasil

Central, por onde passam inúmeras espécies.

BIOSFESRA. Estudos de campo possuem características

e desafios interessantes. Você destacaria alguma

experiência marcante em seus estudos em campo?

R.⠀⠀⠀Acho que o mais marcante foi ter descoberto espécies de

gramíneas novas estudando aves. As aves, de certa forma, me

mostraram uma outra espécie ainda desconhecida pela ciência.

Agora, em campo, tive várias situações, é até difícil escolher uma.

Houve uma vez, na Serra da Canastra, com um parceiro de

doutorado, o Matheus Reis, em que estávamos no campo atrás

de um tico-tico-de-máscara-negra, quando no alto do morro vimos

surgir um veado campeiro. Lá é comum esse tipo de cervídeo.

Quando se queimas os campos de lá, os capins rebrotam e eles

aparecem para a aproveitar o capim novo e fresquinho.

⠀⠀⠀Esse veado começou a se aproximar cada vez mais,

percebemos que ele estava curioso com nossa presença, chegou

muito perto e começou a testar a gente. Ele tem um

comportamento de bater as patas dianteiras contra o chão, não

sei ao certo o que significa, mas parecia com isso, nos testar, por

fezes buscava nos cheirar. Ao perceber que não havia perigo, ele

resolveu se aproximar. Ficamos abismados! Ele veio pertinho e

deitou. Juro, ficamos mais de 1 hora e meia ao lado do veado, só

não ficamos mais porque

o sol começou ficar muito forte e

naquele campo não havia nenhuma árvore próxima. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀

27

⠀⠀⠀Então, levantamos e começamos a sair devagar… E não foi

que o bicho levantou e começou a nos seguir?! O porquê disso,

não sabemos, mas a hipótese que levantamos é a de que ele

tenha decidido se aproximar por segurança. Queria descansar e

talvez tentar contar com nossa ajuda para monitorar o ambiente

ao redor, protegento-o contra possíveis predadores. Quis formar

um tipo de bando misto conosco. Pensamos nisso, porque esse

comportamento de formação de bandos mistos é bem conhecido

no no mundo das aves. Sabe-se que diferentes espécies se

unem para buscar alimentos juntas, existindo uma certa

organização desses grupos: algumas espécies fazem papéis de

sentinelas, outras ficam comendo e outros são os batedores que

vão guiando o grupo. Esse comportamento acontece porque

aumenta a chance de encontrar alimentos juntos e diminui o

risco de serem predados. Foi sem dúvidas uma experiência

muito agradável e marcante.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀

BIOSFESRA. Se você pudesse dar um conselho ao seu eu

do passado, no início da graduação, qual conselho

você daria?

R.⠀⠀⠀Eu diria para ter um empenho ainda maior do que eu tive,

me dedicar a tudo que eu queria fazer, não só sobre a ornitologia,

mas também a outras áreas complementares que são coisas que

poderiam me ajudar a desenvolver melhor minhas pesquisas de

doutorado, por exemplo.

⠀⠀⠀Outra coisa, que é um problema pessoal meu, é que eu

sempre tive muita vergonha. Vergonha de perguntar, vergonha de

errar. E isso prejudica, seja na hora de falar com pessoas, ou dar

uma palestra. É uma coisa particular minha, mas sei que também

tem muita gente que passa por isso. Então, uma das coisas que

eu falaria é: conserta isso! Conserta isso agora porque lá na

frente vai fazer muita diferença.

⠀⠀⠀A última coisa que falaria e que considero muito importante

é: faça estágio! Fazer estágio na área em que você quer trabalhar

é muito importante, abre seu horizonte, ajuda a pensar na sua

pesquisa, ajuda no mercado de trabalho. É uma experiência que

só a graduação não vai lhe proporcionar. Faça estágios!






CURIOSIDADES

posso colocar

água com

açúcar para

atrair beija-

flores?

CIENTÍFICAS

⠀⠀⠀⠀⠀Sim, você pode. Só precisa tomar

alguns cuidados. O ideal é colocar umas

duas colheres rasas de açúcar para a

quantidade de água que cabe na garrafinha.

Essa solução deve ser trocada todos os dias

e o bebedouro higienizado diariamente com

água limpa e um pouco de água sanitária.

Depois que estiver bem seco, pode-se

colocar outra solução de água com açúcar.

⠀⠀⠀⠀⠀A limpeza diária deve ser feita

porque a água com açúcar fermenta e junta

fungos e bactérias. Os furos na garrafinha

também devem ser higienizados. Mas

lembre-se, se tiver um canteirinho em casa,

dê preferência às plantinhas que interessam

as aves, e recorra ao bebedouro somente

quando isso não for possível.

⠀⠀⠀⠀⠀Esse texto foi produzido pelo Luca

Buffo que tem uma página de divulgação

científica no Instagram chamada Plantas

São Legais, , na qual ele fala sobre o

universo criativo das plantas. Se você quiser

saber mais ou deseja entrar em contato com

ele a página é @olegaldasplantas!

32

o parasita

⠀⠀⠀⠀⠀Você já ouviu falar de

comportamento parasita em aves? A espécie

Molothrus bonariensis, , conhecida

popularmente como Chupim, é um

Passeriforme icônico quando o assunto é

parasitismo de ninhos: esses indivíduos são

mestres na arte de se apropriar dos ninhos

alheios como estratégia reprodutiva.

⠀⠀⠀⠀⠀A fêmea do Chupim, diferente da

grande maioria das mamães aves que vemos

por aí, não desenvolve seu próprio ninho,

ela deposita seus ovos em ninhos de outras

espécies. Existem dezenas de espécies que

servem como hospedeiras para os ovos do

nosso querido parasita Chupim (como

Sabiás e Tico-ticos).

⠀⠀⠀⠀⠀Grande parte dos indivíduos dessas

espécies hospedeiras não reconhece o

filhote de Chupim como um intruso e cria

esse pequeno parasita como se fosse sua

⠀⠀⠀⠀⠀


própria prole. Em muitos casos, inclusive, o

filhote de Chupim possui um

desenvolvimento mais rápido do que os

filhotes legítimos, de forma que podem ser

maiores que os companheiros de ninho e,

portanto, apresentam vantagem sobre eles

na hora da alimentação. E você, já

presenciou alguma mamãe criando um

filhotão meio diferenciado por aí?

⠀⠀⠀⠀⠀Esse texto foi produzido pela Isadora

Santieff que é integrante de uma página no

Instagram (e podcast) de divulgação

científica chamada Sério, Sapiens?, , na qual

falam sobre o universo das ciências

biológicas. Se você quiser saber mais ou

deseja entrar em contato a página é

@seriosapiens!

encontrei

um filhote!

E agora?

⠀⠀⠀⠀⠀Se você nunca segurou um filhote de

ave na mão e ficou olhando pra ele sem

saber o que fazer, pode ser que um dia

chegue sua vez! Por isso, é muito importante

nos mantermos informados para saber lidar

com a situação da melhor maneira possível.

Existem muitas atitudes que são tomadas

por impulso e que acabam prejudicando

muito mais do que ajudando. Mas, antes de

te explicar passo a passo como agir nesse

tipo de situação, é importante que você

saiba um pouco mais sobre as aves em

ambiente urbano.

Chupim

Refeências

Sabiá

1.REBOREDA, J. C. et al. Impacto del parasitismo de cría

del Tordo Renegrido (Molothrus bonariensis) sobre el éxito

reproductivo de sus hospedadores. El hornero, v. 18, n. 2,

p. 77-88, 2003.

2.DE OLIVEIRA, M. W. M.; DE OLIVEIRA, L. W.; FRANCO,

V. B. Identificação das espécies parasitadas por Molothrus

bonariensis no campus II da universidade do oeste paulista

- UNOESTE. Periódico Eletrônico Fórum Ambiental da

Alta Paulista, v. 10, n. 3, 2014.

⠀⠀⠀⠀⠀Os diferentes tipos de ambientes

urbanos, desde parques arborizados até ruas

asfaltadas com grandes prédios, apresentam

diferentes vantagens e desvantagens às

aves que neles vivem [1;2;3]. Segundo o

CRAS (Centro de Reabilitação de Animais

Silvestres), apenas no mês de fevereiro de

2021, 100 filhotes de maritacas tiveram de

ser resgatados. Isso porque as maritacas

têm o costume de adentrar o forro e telhado

das casas, perturbar os moradores com os

barulhos e sujeira, e utilizar fios elétricos

para construção de seus ninhos [4]. Esses

conflitos, que também acontecem com outras

espécies, acabam por levar à remoção dos

ninhos e o filhote passa a necessitar do

cuidado humano. Além disso, muitas

pessoas confundem filhotes que já saíram do

ninho e estão aprendendo a sobreviver

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

33


com filhotes que ainda precisam de

cuidados, levando-os para casa e quebrando

o seu ciclo natural, além do risco de

contraírem doenças [5]. Nada disso é

positivo, nem para a espécie em questão,

nem para os centros de reabilitação que

ficam sobrecarregados.

⠀⠀⠀⠀⠀Tendo tudo isso em mente, bora

pensar em formas de evitar esses conflitos?

Se a construção de ninhos em sua casa está

te prejudicando de alguma forma, procure

maneiras de impedir que as aves construam

seus ninhos ali! Coloque forros e barreiras

⠀⠀⠀

físicas, de forma que você resolva o

problema antes de acabar com um filhote em

mãos sem saber o que fazer com ele. Se

esse não for o caso e você simplesmente

encontrou um filhote que caiu do ninho, o

esquema abaixo pode te ajudar a resolver

esse problema!

⠀⠀⠀⠀⠀Esse texto foi produzido pela Camila

Rodrigues que tem uma página de

divulgação científica no Instagram chamada

Ecolíbrio, , na qual ela fala sobre o combate

à fake news e incentiva a sustentabilidade.

Se você quiser saber mais ou deseja entrar

em contato com ela a página é @eco.librio!

Refeências

1.MULHOLLAND, T.I.; FERRARO, D.M.; BOLAND, K.C.; IVEY, K.N.; LE, M.L.; LARICCIA, C.A.; VIGIANELLI, J.M.; FRANCIS,

C.D. “Effects of Experimental Anthropogenic Noise Exposure on the Reproductive Success of Secondary Cavity Nesting Birds”.

Oxford University Press, 2018

2. SAÂD HANANE. “Effects of human disturbance on nest placement of the woodpigeon (Columba palumbus): A case study from

the Middle Atlas, Morocco”. Integrative Zoology, v. 9(3), p. 349-359, 2014

3. MORELLI, F.; MIKULA, P.; BENEDETT, Y.; BUSSIÈRE, R.; JERZAK, L.; TRYJANOWSK, P. “Escape behaviour of birds in

urban parks and cemeteries across Europe: Evidence of behavioural adaptation to human activity”. Science of the Total

Environment, v. 631-632, p. 803-810, 2018.

4. periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus) | WikiAves - A Enciclopédia das Aves do Brasil. Disponível em:

. Acesso em: 2 Mar. 2021.

5. TSIODRAS, S.; KELESIDIS, T.; KELESIDIS, I.; BAUCHINGER, U.; FALAGAS, M.E.;“Human infections associated with wild

birds”. Journal of Infection, v. 56, p. 83-98, 2009.

Referências esquema:

6. Polícia Ambiental de São Carlos.

34





O

⠀⠀⠀⠀⠀projeto Bem-te-ouvi surgiu como uma proposta para reaproximar as pessoas

da natureza por meio das diversas aves encontradas nas atividades de observação e

identificação das espécies, uma prática aliada no combate da depressão, como

ferramenta de educação e que também contribui para a ciência. Ao pensar nesse tipo

de atividade, automaticamente se pensa em dois sentidos humanos: a visão e a

audição. Com esses sentidos é possível identificar espécies por sua vocalização e

por suas cores e padrões.

⠀⠀⠀⠀Bom, uma atividade multissensorial, com potenciais educacionais, de lazer e

de saúde, deve ser inclusiva para todas as pessoas. É então que o Bem-te-ouvi entra

com o objetivo de incluir pessoas com deficiência visual nas práticas de observação

de aves e/ou de educação ambiental. O objetivo do projeto é fazer com que todos

possam participar das passarinhadas e fornecer um material paradidático para

professores de educação ambiental, o aplicativo Bem-te-ouvi: guia de aves urbanas.

⠀⠀⠀⠀

⠀⠀⠀ "Tivemos o cuidado de descrever cada

detalhe de cada ave individualmente. Essa

descrição da ave foi adicionada dentro do

código da imagem e só é reproduzida ⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀

quando o usuário utiliza o leitor de

tela (o Talkback). Quando finalizado, fizemos uma passarinhada com

integrantes da ASAC (Associação Sorocabana de Atividades com

Deficientes Visuais) em um parque urbano de Sorocaba. No parque,

utilizamos o aplicativo para identificação das espécies presentes no local e

aves taxidermizadas para instigar o tato dos alunos e discutir questões

relacionadas à ecologia e conservação das espécies", , contam.

⠀⠀⠀⠀⠀Hoje, o aplicativo conta com 56 espécies de aves urbanas da

cidade de Sorocaba/SP e está disponível para download gratuito no Google

Play. Os próximos passos do projeto são ampliar as espécies a fim de

incluir outras cidades e produzir cartilhas com planos de aulas inclusivas,

utilizando as aves como ferramenta de ensino.⠀⠀⠀⠀

Conheça também a

lojinha do projeto!

Lá você pode adquirir canecas de

porcelana com ilustrações

exclusivas de aves da Mata

Atlântica, Cerrado, Pantanal,

entre outros modelos.

@bemteouviapp

⠀⠀⠀⠀O projeto é fruto do Trabalho de Conclusão de Curso de Lic. em Ciências Biológicas da Bianca Ribeiro, sob

orientação da Prof.ª Dr.ª Teresa Cristina Leança, em parceria com o aluno de Ciências da Computação Daniel

Davoli, ambos da UFSCar Sorocaba. ⠀⠀⠀⠀

Bianca Ribeiro

A Bianca é bióloga pela UFSCar,

trabalha com ecologia de aves,

conservação da natureza

e com educação ambiental

inclusiva. Acredita que quando

a ciência, a educação e a inclusão

social andam de mãos

dadas, caminhamos para

um mundo melhor.

38

O Daniel é graduando em

Bacharelado em Ciências da

Computação e realizou trabalhos

com tecnologias assistivas e

aplicadas à acessibilidade. Seu

principal interesse é em pesquisas

que investiguem tecnologias

aplicada à solução de problemas

sociais e ambientais.

Daniel Davoli




Dicas de

filmes e livros

Ensaio sobre a

cegueira

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o

romance de José Saramago é um clássico da

literatura portuguesa, sendo descrito pelo próprio

autor como “brutal e violento”. A obra retrata a

história de uma sociedade que vivia em sua rotina

comum, até que uma epidemia de cegueira branca

contagiosa se alastra pela cidade. Todos os

contagiados são isolados e se encontram diante de

péssimas condições de saneamento e de

alimentação, as quais despertam o caráter mais

primitivo do homem. A narrativa aborda desde brigas

por comida até assassinatos e estupros, tudo de

forma profundamente detalhada e minuciosa. Ensaio

sobre a cegueira é um livro extremamente forte e

angustiante, cuja narrativa é uma longa tortura e uma

constante aflição.

O show de truman

Lançado em 1998, o filme é uma daquelas produções

cinematográficas que sempre parece mais relevante

na atualidade do que quando foi estreada. Em resumo,

a história envolve Jim Carrey como Truman Burbank:

um homem que não sabe que sua vida é filmada e

transmitida ao vivo como um reality show. Todas as

pessoas em sua vida são atores e sua cidade é um

cenário. Tudo é uma mentira. Dessa forma, a produção

é um convite à reflexão acerca de como a vida na

virada do século XXI se altera em função da

tecnologia e da mídia.

O tigre branco

Lançamento de 2021 na Netflix, o filme ambientado na

Índia traz várias reflexões sobre as castas, relação

entre patrão e empregado e até mesmo como o sistema

econômico social atual é frágil. Com um protagonista

que luta para conseguir sair da pobreza, usando até de

crimes para alcançar a tão sonhada liberdade, enquanto

seu patrão sempre manipula as situações para manter

seus privilégios e posição.

41


Cem dias entre

céu e mar

O terror

Uma mini-série de suspense psicológico de 2018,

produzida pela AMC, que reconstrói com elementos

sobrenaturais a malfadada Expedição Franklin de

1845 dos navios Erebus e Terror na busca de uma

passagem marítima no Ártico entre os oceanos

Atlântico e Pacífico. Presos no gelo, hostis à

população nativa, cegados pelo orgulho do Império

Britânico em seu auge e rondados por uma ameaça

sobrenatural, a tripulação cada vez mais desesperada

passa por uma trama de suspense, arrogância,

camaradagem e sobrevivência em um dos ambientes

mais extremos do planeta.

Cem dias entre céu e mar, é relato do brasileiro

Amyr Klink de sua travessia do oceano Atlântico a

bordo da “lâmpada flutuante” (o apelido que deu ao

minúsculo barco a remo). É bem mais do que o

registro de uma façanha esportiva. Uma intensa

poesia atravessa todo livro: nas conversas do autor

com os objetos a bordo e com os dourados e

tubarões que lhe fazem companhia, ou ainda na

forma como procura enxergar o tempo, e manter-se

no seu foco de chegar ao Brasil. Forma mais de 3500

milhas (cerca de 6500 quilômetros) desde o porto de

Luderitz na Namíbia, até a praia da Espera no litoral

baiano, a bordo de um minúsculo barco a remo.

Amyr Klink irá transportá-lo para a superfície ora

cinzenta, ora azulada do Atlântico Sul, tornando-o

cúmplice de suas alegrias e seus temores, ao

mesmo tempo em que narra, passo a passo, os

preparativos, as lutas, os obstáculos e os

presságios que cercaram a extraordinária viagem.

Princesa Mononoke

Lançado em 1997, é um filme de animação japonês

produzido pelo Studio Ghibli e o primeiro longametragem

de animação a ganhar o Prêmio da

Academia Japonesa de Melhor Filme. A história segue

o envolvimento do jovem príncipe Emishi Ashitaka em

uma luta entre os deuses, a guardiã de uma floresta e

os humanos que consomem seus recursos.

42


PETIANA

e PETIÃO

em...

ENPErrados

43


Caro(a) estudante,

Boa volta às aulas!

COMISSÃO REVISTA BIOSFERA

Produção, Edição & Revisão:

Laura Ferreira dos Santos

Lucas Tomazella Moraes

Marianna Pravatti Barcellos de Oliveira

Milena Rossales Castro

Théo de Freitas Neto

Vitória Carolina Silveira da Silva

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