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E & M MZ Edição_35 MARÇO 2021

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ESPECIAL GARIMPO<br />

POPULAÇÃO DE MANICA DESAFIA<br />

O PERIGO EM BUSCA DO OURO<br />

BANCO CENTRAL<br />

OS PONTOS FORTES E FRACOS DA<br />

GESTÃO DE POLÍTICA MONETÁRIA<br />

INOVAÇÃO<br />

COMO AS MEGA-CIDADES AFRICANAS<br />

LIDAM COM AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS<br />

LÁ FORA<br />

COVID-19 DESEMPREGOU 13 MILHÕES<br />

DE MULHERES NA AMÉRICA LATINA<br />

MOÇAMBIQUE<br />

AS PROFISSÕES<br />

EDIÇÃO MARÇO - ABRIL<br />

15/03 a 15/04 • Ano 04 • Nº <strong>35</strong><br />

<strong>2021</strong> • Preço 250<strong>MZ</strong>N<br />

DO FUTURO<br />

A E&M analisa a rápida evolução no tipo de competências<br />

que a revolução tecnológica exige do capital humano<br />

no País e no mundo


SUMÁRIO<br />

6 OBSERVAÇÃO<br />

RD CONGO<br />

A imagem de um país que enfrenta uma crise<br />

humanitária grave: ataques, covid-19 e ébola<br />

8 RADAR<br />

Panorama Economia, Banca, Finanças,<br />

Infra-estruturas, Investimento, País<br />

12 ESPECIAL GARIMPO<br />

Ouro<br />

Garimpeiros ignoram o perigo dos túneis precários<br />

numa actividade inglória, que os mantém pobres<br />

57 ÓCIO<br />

58 Escape À descoberta das várias faces e fascínios da cidade<br />

de Maputo 60 Gourmet Como a indústria da restauração se<br />

está a reinventar perante a pandemia 61 Adega A nova linha<br />

de vinhos que, mesmo sem álcool, tem mais adeptos 63 Arte<br />

“Liturgia do Silêncio”, a obra inspirada nos momentos de<br />

introspecção de Salvador Muchidão 64 Ao volante A Honda<br />

lançou o Legend, o primeiro veículo com autonomia de nível 3<br />

20 NAÇÃO<br />

PROFISSÕES DO FUTURO<br />

20 Revolução tecnológica Especialistas avisam que é<br />

preciso investir em infra-estruturas e mudar o ensino<br />

30 Entrevista Jorge Ferrão fala do caminho a ser<br />

trilhado pela academia para não perder o barco da<br />

digitalização<br />

34 Futuro da África Muitas pesquisas prevêem uma<br />

rápida evolução do trabalho apesar da elevada pobreza<br />

38 MERCADO E FINANÇAS<br />

44<br />

Política monetária<br />

Especialistas divergem quanto à eficácia das medidas<br />

de gestão do Banco Central em tempos de crise<br />

ESPECIAL INOVAÇÃO<br />

Tecnologia<br />

As grandes tendências da Inovação em<br />

Moçambique, no continente africano e no mundo<br />

54<br />

LÁ FORA<br />

América Latina<br />

Relatórios de organizações multilaterais falam de 13 milhões<br />

de mulheres que ficaram sem emprego devido à pandemia<br />

www.economiaemercado.co.mz | Julho 2020<br />

3


EDITORIAL<br />

As profissões do futuro<br />

e as que vão acabar<br />

Celso Chambisso • Editor da Economia & Mercado<br />

arevolução tecnológica já está a impor mudanças estruturais<br />

no mercado de trabalho e com tendência a acelerar com<br />

o tempo. O que está em voga, hoje, vai muito além da velha<br />

questão de os homens serem substituídos pelas máquinas,<br />

que, por muito tempo, alimentou temores de um crescimento<br />

exponencial do exército de desempregados pelo mundo. Sem<br />

significar que tal temor não faça sentido, a grande preocupação da actualidade<br />

está em preparar o caminho para conferir outro tipo de competências<br />

ao capital humano, competências estas que estão completamente fora<br />

dos padrões tradicionais de formação já instituídos.<br />

Hoje, o mundo anda a duas velocidades: a dos países desenvolvidos, onde a<br />

disponibilidade de infra-estrutura tecnológica já possibilita a visualização<br />

do futuro das profissões, e a dos países pobres que, mesmo sem recursos<br />

para fazerem tanto por essa migração, são forçados a criar mecanismos<br />

de avanço para não sucumbirem num mundo que será cada vez mais dominado<br />

por processos produtivos muito mais rápidos e eficientes.<br />

Nesta edição, o prezado leitor tem a possibilidade de fazer o update das<br />

profissões que começam a entrar em cena, das que terão de ser esquecidas,<br />

das que vão evoluir e das que se vão ajustar aos tempos da 4ª Revolução<br />

Industrial. Tem também a possibilidade de conhecer mais a fundo o<br />

que, de facto, está a mudar à escala global e o que deve ou deveria acontecer<br />

em Moçambique – país que enfrenta uma série de obstáculos que vão<br />

desde o elevado índice de analfabetismo até ao relativamente fraco investimento<br />

em infra-estrutura tecnológica – para causar a disrupção que se<br />

pretende a este nível. Académicos, especialistas em tecnologia e em Recursos<br />

Humanos ajudam a desvendar os mistérios e a traçar cenários em torno<br />

do futuro do trabalho… ou será do trabalho do futuro?<br />

É igualmente tema de relevo desta edição a postura do Banco de Moçambique<br />

na condução da política monetária, mesmo a propósito dos questionamentos<br />

que os entendidos em ciência económica e empresários têm levantado<br />

acerca da eficácia das suas intervenções.<br />

Trata-se de um assunto oportuno, na medida em que é abordado a propósito<br />

da última revisão em alta da taxa de juro de política, denominada por<br />

taxa MIMO, em Janeiro último, e que terá servido como barril de pólvora<br />

para desencadear novas críticas e acesos debates.<br />

No artigo “Especial” que habitualmente trazemos com assuntos “fora da caixa”,<br />

a E&M leva o leitor uma viagem pelas minas de ouro da província de<br />

Manica, onde irá percorrer os corredores por onde se move o garimpo ilegal,<br />

prática que ignora todos os riscos associados, mata, não alivia os elevados<br />

índices de pobreza, mas, mesmo assim, não desencoraja as populações<br />

de ali permanecerem. O perigo vai coabitando com a pobreza mesmo perante<br />

o olhar inconformado das autoridades.<br />

MÊS ANO • Nº 01<br />

15 MARÇO | 15 ABRIL <strong>2021</strong> • Nº <strong>35</strong><br />

propriedade Executive Mocambique<br />

Liquatis DIRECTOR nienis EXECUTIVO doluptae velit Pedro et Cativelos magnis<br />

enis pedro.cativelos@media4development.com<br />

necatin nam fuga. Henet exceatem<br />

seque EDITOR cus, EXECUTIVO sum nis nam Celso iu Qui Chambisso te nullant<br />

adis JORNALISTAS destiosse iusci Cármen re in Rodrigo, prae voles Cristina<br />

sant Freire, laborendae Elmano Madaíl, nihilib Ricardo uscius David sinusam Lopes,<br />

rehentius Rogério Macambize, eos resti dolumqui Rui Trindade, dolorep Yana de<br />

reprem Almeidavendipid que ea et eumque non<br />

nonsent PAGINAÇÃO qui officiasi José Mundundo, Gerson Quive<br />

lorem FOTOGRAFIA ipsum Mariano Executive Silva Mocambique<br />

Liquatis REVISÃO nienis Manuela doluptae Rodrigues velit et dos magnis Santos<br />

enis ÁREA necatin COMERCIAL nam fuga. Nádia Henet Pene exceatem<br />

seque nadia.pene@media4development.com<br />

cus, sum nis nam iu Qui te nullant<br />

adis CONSELHO destiosse CONSULTIVO<br />

iusci re in prae voles<br />

sant Alda laborendae Salomão, Andreia nihilib Narigão, uscius sinusam António<br />

rehentius Souto; Bernardo eos resti Aparício, dolumqui Denise dolorep Branco,<br />

reprem Fabrícia vendipid de Almeida que Henriques, ea et eumque Frederico non<br />

nonsent Silva, Hermano qui officiasi Juvane, Iacumba Ali Aiuba,<br />

lorem João Gomes, ipsum Liquatis Narciso Matos, nienis doluptae Rogério Samo<br />

velit Gudo, et Salim magnis Cripton enis necatin Valá, Sérgio nam Nicolini fuga.<br />

Henet ADMINISTRAÇÃO, exceatem seque REDACÇÃO cus, sum nis nam<br />

iu E PUBLICIDADE Qui te nullant adis Media4Development<br />

destiosse iusci re in<br />

prae Rua Ângelo voles sant Azarias laborendae Chichava nihilib nº 311 uscius A —<br />

sinusam Sommerschield, rehentius Maputo eos resti – Moçambique;<br />

dolumqui<br />

dolorep marketing@media4development.com<br />

reprem vendipid que ea eumque IMPRESSÃO non nonsent E ACABAMENTO qui officiasi<br />

lorem Minerva ipsum Print - Maputo Liquatis - nienis Moçambique doluptae<br />

velit TIRAGEM et magnis 4 500 enis exemplares necatin nam fuga.<br />

Henet PROPRIEDADE exceatem DO seque REGISTO cus, sum nis nam<br />

iu Executive Qui te nullant Moçambique adis destiosse iusci re in<br />

prae EXPLORAÇÃO voles sant EDITORIAL laborendae E nihilib COMERCIAL uscius<br />

sinusam EM MOÇAMBIQUE rehentius eos resti dolumqui<br />

dolorep Media4Development<br />

reprem vendipid que ea et<br />

eumque NÚMERO non DE nonsent REGISTO qui officiasi<br />

lorem 01/GABINFO-DEPC/2018<br />

ipsum Liquatis nienis doluptae<br />

velit et magnis enis necatin nam fuga.<br />

Henet exceatem seque cus, sum nis nam<br />

iu Qui te nullant adis destiosse iusci re in<br />

prae voles sant laborendae nihilib uscius<br />

sinusam rehentius eos resti dolumqui<br />

dolorep reprem vendipid que ea et<br />

eumque non nonsent qui officiasi<br />

4<br />

www.economiaemercado.co.mz | Abril 2019


OBSERVAÇÃO<br />

RDC, <strong>2021</strong><br />

UM PAÍS, TRÊS<br />

INIMIGOS LETAIS<br />

Corre o mundo a notícia do assassinato<br />

de Luca Attanasio, embaixador italiano<br />

na República Democrática do Congo<br />

(RDC), num ataque terrorista durante<br />

uma missão do Programa Alimentar<br />

Mundial. Mas este incidente é apenas<br />

uma das várias questões que alertam<br />

a comunidade internacional sobre a<br />

gravidade da instabilidade naquele país,<br />

há muito visto como um dos territórios<br />

menos habitáveis do mundo. Além da já<br />

conhecida instabilidade, a convergência<br />

de grupos terroristas que protagonizam<br />

prolongados conflitos militares e que<br />

fazem, todos os dias, dezenas de mortes<br />

e milhares de deslocados, os congoleses<br />

também estão expostos, obviamente, aos<br />

efeitos da pandemia do novo coronavírus,<br />

o segundo inimigo, embora de âmbito<br />

global. Na RDC, o vírus já tinha matado<br />

mais de 700 pessoas em pouco mais de<br />

26 mil casos em meados de Março.<br />

Mas os maus ventos que sopram em<br />

direcção àquela nação da África Central<br />

não dão tréguas: ressuscitaram o vírus<br />

do ébola, que tinha sido erradicado em<br />

Novembro do ano passado e que, em<br />

concorrência com o coronavírus, vai<br />

matando e adicionando pressão ao já<br />

frágil sector da saúde, tendo<br />

levado a OMS a elevar a incidência do<br />

ébola para o nível de emergência sanitária<br />

internacional.<br />

Se o acesso à vacina do covid-19 é uma<br />

batalha difícil, imagine-se a busca pela<br />

solução de duas epidemias! Sem contar<br />

que todos estes problemas trazem<br />

resultados catastróficos ao nível da<br />

estabilidade macroeconómica hoje<br />

testemunhados pela RDC.<br />

6<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />

7


RADAR<br />

BANCO MUNDIAL DIZ QUE <strong>2021</strong> SERÁ<br />

DE “RECESSÃO”<br />

O Banco Mundial considera que a economia moçambicana<br />

deve continuar em recessão este ano, caindo 0,8%<br />

do PIB, depois de no ano passado ter sofrido uma queda<br />

de 1,3%, e depois apresentar uma forte recuperação<br />

apenas a partir do próximo ano.<br />

“A economia de Moçambique deve continuar a recuperar<br />

gradualmente, mas continua a haver riscos substanciais<br />

devido à incerteza sobre o rumo da pandemia<br />

do covid-19”, lê-se na mais recente análise do Banco<br />

Mundial à economia moçambicana, divulgada em<br />

Washington.<br />

Nesta 6ª edição do relatório, designado por “World Bank<br />

Mozambique Economic Update: Setting the Stage for<br />

Recovery”, aponta-se que a pandemia que atingiu a<br />

economia de Moçambique terá retrocedido substancialmente<br />

os esforços de recuperação da crise da dívida<br />

e dos efeitos dos ciclones tropicais de 2019. Refere-se<br />

também que a queda do PIB real em 1,3% no ano passado<br />

está bastante longe da estimativa pré-covid de 4,3%,<br />

o que se terá verificado devido à redução da procura<br />

agregada das medidas de bloqueio necessárias para<br />

conter o vírus que “perturbaram as cadeias de abastecimento”.<br />

No entanto, o relatório observa que as perdas<br />

de postos de trabalho e o encerramento de empresas,<br />

embora significativas, “foram comparativamente<br />

mais baixas do que noutros países de contexto económico<br />

similar”.<br />

“Apesar dos esforços concertados para conter a sua<br />

propagação e mitigar os seus efeitos, a covid-19 continua<br />

a afectar negativamente as famílias e empresas,<br />

atrasando o progresso do País em direcção aos Objectivos<br />

de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, observou<br />

Idah Pswarayi-Riddihough, Directora do Banco Mundial<br />

para Moçambique, Madagáscar, Ilhas Maurícias,<br />

Seicheles, Comores.<br />

ECONOMIA<br />

Financiamento. A Société Générale,<br />

instituição financeira<br />

que opera há cinco anos<br />

no mercado moçambicano<br />

e a Proparco - uma agência<br />

francesa de desenvolvimento,<br />

rubricaram, a 16 de Março,<br />

um acordo de partilha de<br />

risco para o financiamento<br />

das Micro Pequenas e Médias<br />

Empresas (MPME) nacionais,<br />

tendo como prioridade<br />

as do ramo do agro-negócio<br />

e o empreendedorismo<br />

feminino.<br />

O valor envolvido é de três<br />

milhões de euros (equivalentes<br />

a mais de 260 milhões de<br />

meticais ao câmbio actual).<br />

O risco será também partilhado<br />

pela União Europeia,<br />

pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento<br />

e pelo Grupo<br />

de Estados de África, Caraíbas<br />

e Pacífico (ACP).<br />

Taxas de juro. O economista-<br />

-chefe do Standard Bank -<br />

Moçambique, Fáusio Mussá,<br />

considera que o Banco Central<br />

poderá preparar outro<br />

aumento da taxa de política<br />

monetária (taxa MIMO),<br />

caso as pressões inflacionárias<br />

se mantenham. Trata-<br />

-se de uma notícia desagradável<br />

para o sector privado<br />

que, mesmo protestando,<br />

ainda procura refazer-se<br />

da última subida desta taxa<br />

em Janeiro passado, em 300<br />

pontos base, para 13,25%.<br />

Comentando os resultados<br />

do mais recente inquérito do<br />

Standard Bank, denominado<br />

Purchasing Managers’ Index<br />

(PMI), Fáusio Mussá<br />

lembrou que, segundo a última<br />

publicação do Instituto<br />

Nacional de Estatística, a inflação<br />

anual aumentou para<br />

4,1% em Janeiro, face aos<br />

3,5% de Dezembro.<br />

“Os temporais e chuvas intensas<br />

ocorridos em certas<br />

regiões do País desde o início<br />

do ano poderão afectar<br />

negativamente a produção<br />

de alimentos e, por esta<br />

via, gerarão uma pressão<br />

adicional sobre a inflação”,<br />

afirmou.<br />

Negócios. A empresa Nacala<br />

Logistics fechou o ano de<br />

2020 com um prejuízo de 31<br />

milhões de dólares, no resultado<br />

líquido. O resultado<br />

financeiro foi demasiadamente<br />

afectado pela redução<br />

das receitas resultantes<br />

do baixo volume de transporte<br />

e manuseio de carvão<br />

e de carga geral no Corredor<br />

de Nacala. O Relatório de<br />

Produção e Financeiro do 4º<br />

trimestre de 2020 indica que<br />

o transporte de carga geral<br />

diminuiu em cerca de 40%,<br />

enquanto o transporte e embarque<br />

de carvão teve um<br />

decréscimo de cerca de 20%<br />

em relação ao ano anterior.<br />

No mesmo período, a Nacala<br />

Logistics registou um resultado<br />

operacional de 84 milhões<br />

de dólares, menos 27%,<br />

em relação a igual período<br />

de 2019.<br />

Dívida privada. O Instituto Financeiro<br />

Internacional (IFI),<br />

que representa os credores<br />

privados, considera que<br />

Moçambique está entre os<br />

países que mais provavelmente<br />

poderão aderir ao<br />

Enquadramento Comum do<br />

G20 para reestruturar a dívida<br />

privada.<br />

“Os países que já participaram<br />

na Iniciativa de Suspensão<br />

do Serviço da Dívida<br />

(DSSI) e têm necessidades<br />

elevadas em termos de<br />

serviço da dívida são os que<br />

mais provavelmente poderão<br />

aderir ao Enquadramento<br />

Comum” para o trata-<br />

8<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


mento da dívida para além<br />

da DSSI, lê-se numa nota de<br />

análise escrita pelo departamento<br />

de estudos económicos<br />

do fórum que juntou<br />

os credores privados a nível<br />

mundial.<br />

EXTRACTIVAS<br />

Conteúdo local. A LAM (Linhas<br />

Aéreas de Moçambique)<br />

assinou um acordo com<br />

a petrolífera francesa Total<br />

para prestar transporte na<br />

rota Maputo-Pemba-Afungi,<br />

anunciou recentemente<br />

a companhia.<br />

O contrato de três anos, cuja<br />

efectividade teve início a 1<br />

de Março, reflecte o princípio<br />

de valorização do conteúdo<br />

local e, com base no<br />

mesmo, a LAM dedica à TO-<br />

TAL uma aeronave do modelo<br />

Bombardier Q400. O<br />

entendimento entre as duas<br />

empresas ocorreu depois<br />

de uma série de auditorias<br />

que a multinacional fez à<br />

companhia aérea para aferir<br />

o grau de cumprimento<br />

dos requisitos exigidos aos<br />

operadores de voos para<br />

projectos desta natureza.<br />

Carvão. As principais minas<br />

de carvão de Moçambique<br />

perderam um terço da produção<br />

e mais de metade das<br />

receitas de venda, agravando<br />

o prejuízo em 2020, face<br />

ao ano anterior, segundo dados<br />

divulgados pela empresa<br />

brasileira Vale em Maputo.<br />

A produção total do ano “situa-se<br />

em 5,9 milhões de toneladas,<br />

reflectindo os impactos<br />

da pandemia do covid-19”<br />

após uma produção de 8,8 milhões<br />

de toneladas em 2019,<br />

lê-se em comunicado.<br />

Segundo os resultados financeiros<br />

da Vale relativos<br />

a 2020, a receita líquida de<br />

vendas de carvão caiu 54%,<br />

de mil milhões de dólares em<br />

2019 para 473 milhões de dólares.<br />

O prejuízo do segmento<br />

de carvão agravou-se em<br />

74%, de 533 milhões de dólares<br />

em 2019 para 931 milhões<br />

de dólares em 2020.<br />

Estas perdas afectam em<br />

grande medida as exportações<br />

do País.<br />

Exxon Mobil. A petrolífera<br />

norte-americana Exxon Mobil<br />

adiou, pelo terceiro ano<br />

consecutivo, a Decisão Final<br />

de Investimento (DFI) sobre o<br />

projecto de exploração de gás<br />

natural em Moçambique, colocando<br />

em dúvida o investimento<br />

de 30 mil milhões de<br />

dólares.<br />

De acordo com a agência de<br />

informação Bloomberg, que<br />

cita o vice-presidente da empresa,<br />

Neil Chapman, durante<br />

uma conversa com analistas,<br />

não há previsão sobre quando<br />

será tomada a DFI, já que a<br />

petrolífera precisa de garantir<br />

o fornecimento de energia<br />

por parte da fábrica vizinha,<br />

operada pela francesa Total.<br />

Recursos minerais. Os produtos<br />

minerais extraídos em<br />

Moçambique passarão a<br />

ostentar, a partir do próximo<br />

mês de Abril, um certificado<br />

de origem para a sua<br />

exportação.<br />

Para o efeito, o Governo vai<br />

lançar em breve a embalagem<br />

e o respectivo certificado.<br />

“Já temos a embalagem<br />

e o certificado aprovados,<br />

sendo que o seu lançamento<br />

é uma questão<br />

de datas”, garantiu Castro<br />

Elias, secretário executivo<br />

do processo Kimberley (um<br />

procedimento internacional<br />

para a certificação de<br />

origem de alguns produtos<br />

para evitar fluxos financeiros<br />

ilícitos com destaque para<br />

o diamante).<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


OPINIÃO<br />

A disrupção pelo e-commerce<br />

Bruno Dias • Partner – Business Consulting EY<br />

Omercado e-commerce apresentava fortes taxas<br />

de crescimento em vários relatórios de<br />

analistas elaborados no período pré-pandemia,<br />

muitos deles apontando taxas anuais de<br />

crescimento composto superiores a 30% no<br />

período entre 2019 a 2024.<br />

Este facto foi acelerado pela pandemia e a penetração do<br />

comércio electrónico registou um crescimento súbito e extremamente<br />

rápido em 2020. A título de exemplo, nos EUA,<br />

em apenas 8 semanas, foi registado +11% de crescimento<br />

absoluto do comércio electrónico, elevando a penetração<br />

das vendas de e-commerce até 27% em comparação com o<br />

total das vendas no retalho tradicional.<br />

Espera-se que um crescimento tão significativo das vendas<br />

de e-commerce tenha um impacto duradouro mesmo após<br />

o fim da pandemia, uma vez que irá mudar os hábitos de<br />

consumo e, consequentemente, o comportamento dos consumidores.<br />

Mesmo que se tenha feito compras tradicionalmente<br />

em lojas de retalho físico, um novo hábito está a ser<br />

formado de compras de e-commerce e, uma vez ultrapassado<br />

o obstáculo inicial da “barreira digital”, as contas online<br />

e os meios de pagamento ficam configurados bastando<br />

clicar num botão para fazer compras repetidas, 24*7 e sem<br />

ter de esperar na fila carregando sacos e desfrutando de<br />

conveniência. A migração de consumidores cada vez mais<br />

para os canais digitais está para ficar.<br />

Em Moçambique é de salientar a elevada taxa de crescimento<br />

de utilizadores de internet – 25,5% no último ano.<br />

Este crescimento, aliado à crescente bancarização, actua<br />

positivamente na penetração do e-commerce e tenderá a<br />

elevar os actuais 9,5% da população que faz compras e/ou<br />

paga contas online para mais próximo da média mundial<br />

que se situa nos 29%.<br />

As plataformas de e-commerce têm evoluído de arquitecturas<br />

básicas, que permitem navegar catálogos de produtos,<br />

executar self-service, manter contas personalizadas<br />

e ter uma experiência unificada em vários canais, para<br />

novos paradigmas de interacção e novos modelos de experiência<br />

do consumidor.<br />

De facto, a experiência do cliente é neste momento a prioridade,<br />

transversalmente a marcas, produtos e canais. A<br />

utilização da inteligência artificial neste desígnio é uma<br />

realidade permitindo o conhecimento de padrões de comportamento<br />

e necessidades do consumidor e o match optimizado<br />

da oferta com a procura.<br />

A tecnologia dá poder aos consumidores uma vez que faculta<br />

maior transparência nos preços. Isto força os retalhistas<br />

a uma maior competição pelo preço, com consequente<br />

impacto nas margens. Aqueles retalhistas que não são<br />

competitivos no preço no online arriscam-se a ter fortes<br />

impactos nas vendas.<br />

A emergência de novos modelos de negócio e canais que<br />

melhor se encaixam nas necessidades dos consumidores<br />

têm-nos feito divergir dos conceitos tradicionais. Esta mudança<br />

tem pressionado o retalho físico e muitos players<br />

têm optado pelo fecho de lojas.<br />

Um movimento interessante que se tem visto recentemente<br />

são parcerias e aquisições para ocupar um espectro<br />

maior na cadeia de valor. Por exemplo, a Walmart associou-se<br />

à Instacart para fornecer entregas mais rápidas<br />

A emergência de novos modelos negócio e canais que melhor se encaixam nas necessidades<br />

dos consumidores têm-nos feito divergir dos conceitos tradicionais. Esta mudança tem<br />

pressionado bastante o retalho físico e muitos players têm optado pelo encerramento de lojas<br />

10<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


A fusão da Walmart com a Instacart é um exemplo de eficiência no serviço ao cliente<br />

aos seus clientes e a competir com a divisão Whole Foods da<br />

Amazon que faz entregas no mesmo dia. O retalhista tradicional<br />

aliou-se assim a um operador logístico numa lógica<br />

“win-win” no online.<br />

Outro movimento observado prende-se com o facto dos disruptores<br />

teram transformado produtos em serviços que<br />

podem atender às maiores necessidades dos consumidores.<br />

Todos temos a experiência de entrar em lojas de centros<br />

comerciais onde a roupa está espalhada, tornando muito<br />

difícil montar uma combinação adequada de artigos. Este<br />

tipo de ambiente oferece muito pouco valor aos consumidores,<br />

uma vez que é difícil e frustrante de navegar.<br />

Em contraste, a stylist digital “Stitch Fix“ reúne combinações<br />

de roupas na sua plataforma online, emparelhadas<br />

por algoritmos e dados do cliente para prever que roupa<br />

vão querer usar.<br />

Com base em combinações de cores, padrões e têxteis favoritos<br />

dos consumidores, novos produtos são então sugeridos<br />

para aprovação de designers humanos. Como resultado<br />

deste processo, os clientes economizam tempo na selecção<br />

de uma roupa e têm maior agilidade e eficácia na escolha.<br />

Enquanto alguns retalhistas têm conseguido aumentar<br />

a sua penetração online, outros têm tido dificuldades por<br />

um conjunto de razões, como cadeias de distribuição e sistemas<br />

de IT não adaptados às novas realidades digitais e<br />

dificuldade na adaptação do modelo de negócio aos novos<br />

paradigmas.<br />

Um exemplo de sucesso é o Walmart cujo preço por acção<br />

caiu 10% inicialmente, em Outubro de 2015, quando a sua<br />

gestão anunciou uma mudança de paradigma para modelos<br />

de negócio digitais numa perpectiva de desenvolvimento<br />

do negócio de longo prazo. Os investidores que decidiram<br />

permanecer com acções foram compensados já que estas<br />

aumentaram 138% até Agosto de 2020. Durantes este período,<br />

a Walmart viu algumas das suas decisões mais ousadas<br />

de mudança de paradigma darem frutos.<br />

O retalho está, assim, numa encruzilhada e os retalhistas<br />

tradicionais estão sob pressão de disruptores que conseguem<br />

satisfazer as necessidades dos consumidores de forma<br />

rápida e eficiente.<br />

Pense bem – imagino que queira estar do lado dos disruptores<br />

nesta nova realidade.<br />

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ESPECIAL<br />

GARIMPO DESCONTROLADO: O ELO MAIS<br />

FRACO DOS MINÉRIOS MOÇAMBICANOS<br />

Há garimpeiros de todas as idades que aceitam trabalhar em túneis precários. Dizem não ter alternativas para se sustentar<br />

a si e às famílias. Veteranos dizem que há formas de minimizar os riscos, mas as mortes sucedem-se<br />

Texto André Catueira * Serviço especial da agência Lusa para a Economia & Mercado • Fotografia André Catueira<br />

achuva cai forte e ainda<br />

não passaram três dias<br />

desde o último acidente<br />

mortal com um garimpeiro<br />

em Fenda, distrito de<br />

Manica, no centro de Moçambique.<br />

“Não ouvem nada quando a<br />

gente fala em prevenção. Quando dizemos<br />

para não trabalharem em zonas<br />

perigosas”, queixa-se Manuel Pedro, 69<br />

anos, o garimpeiro mais velho daquela<br />

zona de extracção ilegal de ouro. “Eles<br />

entram, a maioria de noite, sozinhos,<br />

com alavanca, pá e um saco. Vão para<br />

garimpar sozinhos” explica, sem aprofundar<br />

mais detalhes sobre o mais recente<br />

infortúnio. Uma morte a coberto<br />

de uma actividade informal e ilegal e<br />

que por isso não vai constar de estatísticas,<br />

nem aparecer nas notícias. A época<br />

ciclónica tem sido muito activa, os riscos<br />

aumentam, mas nem isso demove os<br />

garimpeiros, que dizem não ter outra<br />

forma de sustentar as famílias. Mesmo<br />

quando encaram a morte. Para as empresas<br />

que operam no sector, eles são<br />

vistos como um risco para a segurança<br />

dos terrenos, promovendo a erosão.<br />

São também apontados como um risco<br />

para transacções financeiras ilícitas,<br />

dada a informalidade em que vivem.<br />

Mas entre umas análises e outras, o garimpo<br />

está no terreno. Nem a forte precipitação<br />

da actual época das chuvas<br />

o tem parado. Porque é que persiste?<br />

Manuel Pedro, o escavador mais antigo<br />

de Fenda, trabalha na mineração há 33<br />

anos e gaba-se de ter sustentado “muitos<br />

filhos” graças à venda de ouro, numa<br />

área com um grande contraste entre a<br />

intensidade da exploração e a pobreza<br />

que caracteriza a região. Hoje, diz que<br />

tem ensinado aos jovens formas de “ter<br />

cuidado” no garimpo. Mas os acidentes<br />

são inevitáveis. “Já assisti a muitos acidentes.<br />

Nem dá para contar. Foram vários<br />

e eu a ver mortos entre amigos, encarregados<br />

do garimpo ou outros colegas”,<br />

relata Belito Paulino, 29 anos, há<br />

dois no garimpo em Fenda. O risco é<br />

grande, mas “se ficar em casa não tenho<br />

como sustentar a família. Por isso,<br />

arrisco”. É difícil perceber como se pode<br />

ter cuidado perante a paisagem caó-<br />

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GARIMPO<br />

em grupos, pequenos ou maiores. Tudo<br />

escorado por tábuas, pás, pedras e uma<br />

boa dose de instinto. Tira-se a terra para<br />

o exterior, peneira-se para procurar<br />

ouro. Ou remexe-se o leito do rio<br />

com um prato ou outra base, sacode-<br />

-se a água e outras areias para tentar<br />

encontrar o mineral no fundo. São condições<br />

impiedosas, garantem, daquelas<br />

que “provocam febres”. Este revirar<br />

a terra com ferramentas manuais<br />

em busca de prosperidade é frequente<br />

em Moçambique, em muitas regiões de<br />

abundância de minerais e nas imediações<br />

de unidades de extracção de ouro,<br />

turmalinas, rubis ou outros recursos.<br />

As condições precárias de segurança<br />

tornam a actividade mineira artesanal<br />

arriscada em vários túneis, alguns com<br />

60 metros de comprimento, sustentados<br />

por estacas de plantas nativas e galhos<br />

de restos de eucaliptos coloniais. Ao largo<br />

da agitação das escavações, um representante<br />

de compradores estrangeiros<br />

tem a sua banca com uma pequena<br />

balança electrónica onde pesa e<br />

avalia as pequenas partículas de ouro<br />

recolhidas por cada grupo – outros vão<br />

até à sede de distrito vendê-las, depois<br />

de se abastecerem com alguns bens essenciais.<br />

Essas trocas estão à distância<br />

de uma caminhada desde os campos de<br />

extracção. Entramos numa área de alojamento.<br />

Um bairro de lata onde tudo é<br />

precário e impróprio - mas onde uma<br />

mesa de ‘snooker’ atrai os garimpeiros.<br />

nível mundial é outra: o ouro subiu até<br />

2011, depois recuou, e teve nova subida<br />

a partir de 2019 para atingir máximos<br />

históricos durante a pandemia de covid-19,<br />

em 2020, superando os 2000 dólares<br />

por onça (cada onça equivale a 31<br />

gramas) – cerca de dez vezes mais do<br />

que valia no início do século. A fatia de<br />

leão do dinheiro que se ganha com o ouro<br />

parece não ficar por estas paragens.<br />

O governo de Moçambique desenvolveu,<br />

em 2017, um programa-piloto de<br />

cooperativas minerais de pequena escala,<br />

numa tentativa de organizar o garimpo<br />

artesanal que é feito junto das zonas<br />

de extracção. O projecto encontrou<br />

resistência em muitas áreas de extracção<br />

artesanal ilegal, mas noutros locais<br />

o cenário é diferente.<br />

Oito quilómetros a norte de Fenda, percorrendo<br />

uma estrada lamacenta, chegamos<br />

a Munhena, onde os garimpeiros<br />

se associaram há 21 anos. Hoje são quase<br />

200 a operar numa área legalizada<br />

de 200 hectares. “Estamos a trabalhar<br />

em grupos de dez pessoas” que não fazem<br />

mais do que “20 a 25 gramas” de ouro<br />

por semana, por grupo. “Mas quando<br />

estávamos bem organizados, com maquinaria”,<br />

cada grupo tirava “800 gramas<br />

por semana”, explica Noé Bernardo,<br />

o secretário da associação. A maquinaria<br />

pertencia a um sócio sul-africano,<br />

entre 2006 e 2012, mas que se retirou,<br />

queixando-se das taxas que tinha de<br />

pagar. Seja como for, Noé acredita que a<br />

“Já assisti a muitos acidentes. Nem dá para contar. Foram<br />

vários e eu a ver mortos e feridos entre pessoas próximas:<br />

amigos, familiares, encarregados do garimpo ou colegas”<br />

tica que se vislumbra nestas terras do<br />

distrito de Manica. Eram ‘machambas’,<br />

hortas, cujos proprietários foram cedendo<br />

a pouco e pouco a grupos interessados<br />

em abrir poços e túneis. Em troca,<br />

dão uma parte das receitas do minério<br />

ao dono do terreno. Tudo em modo informal,<br />

à margem da lei, mas perfeitamente<br />

legítimo aos olhos de quem precisa<br />

de um ganha-pão. E assim surgem<br />

terras de Fenda onde já não se vêem<br />

hortas. Mais parece uma paisagem<br />

lunar, cravada de crateras, buracos<br />

fundos de onde entram e saem baldes<br />

presos por cordas. Entram e saem pessoas<br />

da cor da argila. Tudo fervilha de<br />

vida, sem sorrisos e sem parar, como na<br />

rotina de um formigueiro. Trabalham<br />

Muitos moram por ali, outros montam<br />

cabanas no mato. Mas é no bairro de lata<br />

que trocam pequenas partículas de<br />

ouro por farinha, peixe seco salgado ou<br />

“boss”, uma bebida espirituosa tão artesanal<br />

como o garimpo. Hoje dá para trocar<br />

cinco copos de farinha por ‘um ponto’,<br />

que corresponde a 300 meticais, sendo<br />

que dez pontos equivalem a um grama<br />

de ouro. Depois de se abastecerem,<br />

os garimpeiros enviam o resto da receita<br />

para a família, que geralmente vive<br />

noutras paragens. A “ajuda” para a família<br />

é a expressão que mais se ouve<br />

entre os testemunhos. Os homens que<br />

reviram a terra queixam-se de uma<br />

queda, que já dura há muito, do preço local<br />

do ouro, mas a verdade da cotação a<br />

organização é o caminho a seguir. Muitos<br />

garimpeiros são vítimas da sazonalidade<br />

das oportunidades. Empurrados<br />

para uma actividade arriscada porque<br />

as mais básicas necessidades o impõem.<br />

Constância Caruru, 28 anos, largou o comércio<br />

informal numa banca. O garimpo<br />

é hoje o seu único ‘ganha-pão’, relata,<br />

sacudindo os ombros quando confrontada<br />

com a sucessão de notícias de<br />

acidentes mortais com garimpeiros em<br />

Moçambique. “Quais são as alternativas?”,<br />

contrapõe. “Já estou aqui há uma<br />

semana. Ganhei coragem de vir para o<br />

garimpo para sustentar os meus filhos,<br />

porque ficando em casa não tinha como<br />

sustentar a família”, diz Constância, falando<br />

em shona, a língua local. Já hou-<br />

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ESPECIAL<br />

MORTES, UM RETRATO CRUEL<br />

Muitos acidentes e mortes de<br />

garimpeiros não chegam a ser<br />

registados, dada a forma fortuita<br />

como a actividade é feita em muitos<br />

locais. Noutros há registos que<br />

mostram a cruel realidade do garimpo<br />

artesanal. As mais recentes mortes<br />

de garimpeiros em Moçambique<br />

aconteceram a 17 e 20 de Janeiro no<br />

norte do País, numa mina ilegal da<br />

área de concessão da Montepuez<br />

Ruby Mining (MRM), em Cabo<br />

Delgado. A mineradora alerta para<br />

os perigos da exploração ilegal e<br />

refere que o problema matou pelo<br />

menos 25 pessoas em 2020 na<br />

sua área de concessão, na maioria<br />

homens jovens de outros países ou<br />

de aldeias distantes. “As práticas<br />

inseguras por parte dos mineiros<br />

ilegais, que são normalmente<br />

supervisionados ou coagidos por<br />

sindicatos de contrabando ilegal de<br />

pedras preciosas, financiados por<br />

comerciantes estrangeiros que operam<br />

na região, continuam a resultar na<br />

perda desnecessária de vidas”, alertou<br />

a empresa.<br />

“O homem que faz o garimpo é apenas o elo mais fraco de<br />

toda uma cadeia. O ouro acaba nas mãos de homens de fato<br />

e gravata, metidos em actividades pouco recomendáveis”<br />

ve épocas em que vendia refrescos e<br />

bolos, mas, “com a chuva, o negócio não<br />

tem dado lucro. Por aqui a agricultura<br />

é negligenciada, e as poucas plantações<br />

nos antigos e férteis campos agrícolas,<br />

emprestados agora para o garimpo,<br />

têm o milho esquálido por falta de<br />

húmus. Muitos jovens justificam a entrada<br />

para o garimpo com esta pobreza<br />

que se reflecte na produção agrícola.<br />

Faltam oportunidades de emprego e<br />

de outras actividades e agora até no garimpo<br />

receiam que a entrada massiva<br />

de operadores chineses lhes possa tirar<br />

o pão. “Eles querem os mesmos lugares<br />

onde estão a trabalhar os garimpeiros<br />

e nem estradas estão a arranjar. Só<br />

estão a levar produtos”, desabafa, Isac<br />

Watimanarero, <strong>35</strong> anos. Mesmo sendo<br />

garimpeiro ilegal, isso não o impede de<br />

pedir uma intervenção das autoridades<br />

face à chegada de estrangeiros.<br />

Trama Daniel, garimpeiro há sete anos,<br />

trabalha assustado em túneis que po-<br />

dem ser invadidos a qualquer altura<br />

por máquinas que roncam ao lado,<br />

pertencentes a uma empresa chinesa.<br />

O futuro de muitos garimpeiros e seus<br />

filhos, dizem eles, “está comprometido”.<br />

Além do ouro, também a bauxite é muito<br />

explorada na região, tanto por empresas<br />

nacionais como estrangeiras.<br />

Uma ameaça às empresas e ao sector<br />

O garimpo ilegal, visto como uma necessidade<br />

para sustentar famílias pelos<br />

garimpeiros, é também encarado<br />

como um problema pelas empresas<br />

licenciadas. Como exemplo, a Mozambique<br />

Mining Resources (MMC) - uma<br />

“joint-venture” entre investidores moçambicanos<br />

e chineses - extrai ouro na<br />

única mina subterrânea activa do País<br />

com galerias entre 120 e 160 metros de<br />

profundidade em Tete e onde é normal<br />

encontrar “intrusos”. “Os garimpeiros<br />

eram e são uma forte ameaça à nossa<br />

actividade. Além de terem faro para<br />

o ouro, porque têm excelentes conhecimentos<br />

de geologia – são mesmo<br />

`geólogos empíricos´ –, usam técnicas<br />

nocivas ao ambiente”, disse à Lusa o director-geral<br />

da MMC, Dingane Mamadhusen,<br />

durante uma visita à mina em<br />

Outubro de 2020. Pouco tempo depois<br />

de a companhia ter iniciado actividade,<br />

em finais de 2018, teve de interromper<br />

porque a montanha que cobre uma<br />

das galerias ameaçava ruir, devido à<br />

erosão provocada pela mineração ilegal.<br />

A segurança na mina é apertada:<br />

uma força combinada da polícia moçambicana<br />

e de uma empresa privada<br />

garantem a protecção das instalações<br />

para impedir que o precioso minério<br />

chegue a mãos impróprias.<br />

O garimpo sem regras implica outros<br />

riscos: se o ouro passar de mão em<br />

mão, a partir de garimpeiros ilegais,<br />

pode acabar por financiar actividades<br />

ilícitas, incluindo o terrorismo. “O homem<br />

de tronco nu e ensopado que faz<br />

o garimpo é apenas o elo mais fraco<br />

de toda uma cadeia. O ouro acaba nas<br />

mãos de homens de fato e gravata que<br />

andam metidos em actividades pouco<br />

recomendáveis”, afirma o diretor-geral<br />

do MCC.<br />

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NÚMEROS EM CONTA<br />

COMO OS MAIS RICOS FICARAM... MAIS RICOS<br />

EM 2020. E QUEM SÃO?<br />

mais de 567 mil milhões de dólares foram acumulados pelas<br />

dez pessoas mais ricas do mundo em menos de um ano. E<br />

que ano, o de 2020. Para colocar o valor em perspectiva, isso é<br />

mais do que sete vezes a riqueza acumulada pelos dez maiores<br />

empresários no período de tempo anterior e 37 vezes a riqueza<br />

anual produzida em Moçambique se a estimarmos em 15 mil<br />

milhões de dólares, valor do PIB.<br />

E basta um exemplo do que falamos: Elon Musk, da Tesla, testemunhou<br />

um aumento da sua riqueza de, pelo menos, 500%<br />

no último ano. Já Jeff Bezos, da Amazon, ganhou uns ‘interessantes’<br />

68,6 mil milhões de dólares a mais.<br />

Com dados da Forbes Real-Time Billionaires List, verificamos<br />

como a riqueza de vários grupos uber-affluent mudou desde o<br />

início da pandemia.<br />

A fortuna de Bezos tem crescido quase<br />

70% desde Março de 2020. Após<br />

26 anos, o CEO da Amazon anunciou<br />

que se tornaria presidente executivo.<br />

Elon Musk testemunhou a sua riqueza<br />

crescer mais de cinco vezes no último<br />

ano. Em 2020, Tesla relatou o seu<br />

primeiro ano lucrativo.<br />

Com uma participação de 33% na L’Oréal,<br />

cujas acções saltaram 25% em 2020, a<br />

fortuna da mulher mais rica do mundo<br />

aumentou 14 mil milhões.<br />

Aos 39 anos, Yang Huiyan detém uma<br />

participação de 57% na imobiliária<br />

Country Garden Holding na China.<br />

Zhong Shanshan viu a sua riqueza<br />

crescer mais de 15 mil milhões depois<br />

da sua empresa de água engarrafada<br />

Nongfu Spring se ter tornado pública.<br />

Anteriormente o mais rico da China,<br />

Jack Ma desapareceu durante três<br />

meses após o IPO do Grupo Ant ter<br />

sido bloqueado pelos reguladores.<br />

O mais rico da Índia atraiu financiamento<br />

do Facebook (5,7 mil milhões)<br />

e da Google (4,5 mil milhões) para<br />

criar a rede móvel da Jio Platforms.<br />

Gautam Adani controla o maior porto<br />

da Índia.<br />

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Durante o covid-19, a riqueza<br />

do CEO do Facebook disparou<br />

com as acções a subirem 70%.<br />

Depois de passar pela Google,<br />

fundou a Pinduoduo, uma<br />

plataforma de comércio<br />

electrónico em rápido crescimento.<br />

Sábio de Omaha, Warren tem<br />

90 anos de idade.<br />

Petr Kellner, nascido na República<br />

Checa, 56 anos, dirige<br />

o grupo de investimento PPF<br />

que opera em 25 países a nível<br />

mundial.<br />

O magnata do petróleo Jerry<br />

Jones é o proprietário dos<br />

Dallas Cowboys. A equipa da<br />

NFL vale 5,7 mil milhões.<br />

Arthur Blank, cofundador da<br />

Home Depot, é proprietário<br />

das Falcões de Atlanta da<br />

NFL.<br />

Três dos dez mais<br />

ricos do mundo (excluindo<br />

os Estados<br />

Unidos e a China)<br />

são de França.<br />

Fonte Visual Capitalist<br />

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OPINIÃO<br />

A importância dos derivativos no mercado<br />

Sérgio Maciel • Head of Trading Absa Bank Mozambique - CIB Markets<br />

Quando o banco de moçambique, surpreendentemente,<br />

decidiu, através do aviso nº. 5/GBM/2019<br />

de 22 de Março, proibir transacções com recurso<br />

a taxa de câmbio à prazo, fê-lo com a<br />

nítida convicção de que havia necessidade de<br />

regulamentar este mercado, definir regras<br />

claras de actuação para os vários intervenientes e fazedores<br />

de preço e ainda pôr balizas na precificação destes<br />

instrumentos. De certa forma estavam certos. Não há mercado<br />

que funcione sem regras, sem controlo e sem clareza.<br />

Por parte do regulador, havia ainda a crença de que estas<br />

operações estariam a criar pressão adicional ao nosso<br />

metical, acelerando a desvalorização da moeda, pois as<br />

mesmas estavam a ocorrer num mercado a prazo que dificilmente<br />

se conseguia distinguir do mercado à vista. Portanto,<br />

a clara falta de transparência foi o motivo principal<br />

desta decisão que, na altura, criou grande insatisfação por<br />

parte dos agentes financeiros e do sector privado, que estavam<br />

habituados a ter estas soluções para cobertura dos<br />

seus riscos cambiais. A revolta prendia-se ao facto de o<br />

banco central estar a limitar o desenvolvimento do mercado<br />

e deixando as empresas à mercê da volatilidade da<br />

moeda. Essa ausência de regulamentação apropriada deu<br />

origem a que as diversas variáveis usadas para estipular<br />

a taxa de câmbio futura fossem feitas ao bel-prazer de<br />

cada operador, muitos ignorando as regras internacionais<br />

de conduta de mercado e precificação destes instrumentos,<br />

que constituem a bíblia de qualquer mercado financeiro.<br />

Com a recente aprovação do Aviso nº. 1/GBM/<strong>2021</strong> de 4 de Fevereiro,<br />

sobre os derivativos financeiros, é oportuno colocar<br />

sob os holofotes os impactos destes instrumentos no mercado<br />

financeiro moçambicano. Os derivativos são negociados<br />

sob a forma de um contrato, no qual estão especificados as<br />

moedas envolvidas, os montantes, os prazos de liquidação e<br />

forma de cotação do activo sobre os quais se efectua a respectiva<br />

negociação. Assim, seja qual for a tendência dos preços<br />

no mercado à vista, os intervenientes têm a garantia de<br />

que na data futura terão o preço acordado previamente. Os<br />

derivativos classificam-se em contratos Futuros, Opções de<br />

compra e venda, operações de Swaps, entre outros, tendo<br />

cada um dos instrumentos as suas características e especificidades.<br />

Como todos os mercados, o dos derivativos, também<br />

será constituído por normativos e de certeza algumas intervenções<br />

do regulador que, de certa forma, determinarão<br />

o modo pelo qual os intervenientes poderão se comportar,<br />

ficando por saber se o mercado de derivativos terá um controlo<br />

rígido tal e qual é imposto no mercado à vista. Se não<br />

houver diferenças regulatórias entre eles, provavelmente<br />

não teremos o mesmo cenário vivido em 2019, que obrigou<br />

o banco central a cancelar transacções com recurso a taxa<br />

de câmbio a prazo. Portanto, a acção do banco central vai ser<br />

relevante, não só do ponto de supervisão e fiscalização, mas<br />

sobretudo no seu papel de interveniente no mercado.<br />

Não tenho dúvidas de que estes instrumentos representam<br />

uma tema complexo, com muito ainda por ser estudado. Mas,<br />

também, tenho a certeza que os derivativos vão de certa<br />

maneira proteger os nossos agentes económicos contra as<br />

variações adversas na moeda e na taxa de juro, vão permitir<br />

a transferência dos riscos oriundos dessas flutuações e,<br />

ao mesmo tempo, vão permitir que todos os intervenientes<br />

tenham um fluxo de liquidez mais previsível e, consequentemente,<br />

com um melhor planeamento de gestão de tesouraria.<br />

Paralelamente, veremos ainda um aumento considerável<br />

do número de negócios, resultando, assim, numa maior<br />

liquidez no mercado. Não menos importante vai ser o facto<br />

de o nosso mercado passar a dispor de mais instrumentos<br />

financeiros para oferecer aos seus clientes, sobretudo para<br />

as grandes empresas e investidores que nos sectores de<br />

mineração, petróleo e gás, agrícola, entre outros, já estavam<br />

habituados a ter estes instrumentos para sua gestão.<br />

Por fim, uma boa nova que este normativo traz é a necessidade<br />

de uniformização dos contratos entre as partes e ainda<br />

o facto de podermos recorrer às regras e princípios da<br />

Associação Internacional de Swaps e Derivativos (ISDA, na<br />

sigla em inglês), o que vai promover a confiança dos investidores,<br />

sobretudo os externos, pelo facto de reconhecermos<br />

os padrões legais internacionalmente aceites, o que criará<br />

um ambiente de investimento mais atraente. No entanto, há<br />

necessidade de cada instituição participante no mercado<br />

reforçar competências e conhecimentos para interpretar<br />

e aplicar as normas internacionais do mercado financeiro,<br />

pois acredito que, à medida que vamos desenvolvendo, aplicaremos<br />

outros master agreements que estão em uso nos<br />

mercados internacionais.<br />

Inovações financeiras como os derivativos impulsionarão o desenvolvimento do nosso mercado,<br />

vão garantir maior eficiência, integridade, segurança, transparência e solidez do mercado<br />

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NAÇÃO<br />

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PROFISSÕES DO FUTURO<br />

QUANDO O TRABALHO DO FUTURO<br />

É O FUTURO DO TRABALHO. E JÁ CHEGOU<br />

Em breve, se perguntarmos a uma criança o que quer ser quando crescer, a resposta não será,<br />

provavelmente, a que nos habituámos a ouvir. Não só porque muitas profissões deixarão de existir,<br />

mas porque as que resistirem à revolução tecnológica em curso serão executadas de maneira diferente,<br />

exigirão outro tipo de competências e, por isso, terão outra designação. O mundo já se move nesta<br />

direcção, uns mais rápidos que os outros. E em Moçambique, até onde já conseguimos chegar?<br />

o<br />

mundo atravessa mais uma revolução, a tecnológica,<br />

que poderá custar o fim de um grande<br />

número de empregos. Dados de diferentes<br />

organizações internacionais das áreas de trabalho<br />

e comércio, como o Fórum Económico<br />

Mundial e a UNCTAD, apontam para a destruição<br />

de mais de 47% dos empregos na indústria no mundo,<br />

sobretudo como consequência da robótica e da inteligência<br />

artificial. Igualmente, as áreas de segurança cibernética<br />

já têm um défice de mais de 1,5 milhões de peritos, todos<br />

substituídos pelas novas tecnologias. Só a robótica tem<br />

substituído a presença humana na indústria automóvel,<br />

aviação civil e em outras indústrias de força de trabalho<br />

intensiva. Por conseguinte, a inteligência artificial, a<br />

informatização e a robótica podem substituir, em breve,<br />

milhares de postos de trabalho que dependem do ser humano<br />

de forma directa.<br />

Alguns relatórios sobre o futuro das profissões prevêem<br />

que 85% dos empregos até 2030 ainda nem sequer foram<br />

inventados, pelo que, o facto de Moçambique ter de seguir<br />

as tendências digitais e tecnológicas actuais, fará com que<br />

fique ainda mais na periferia do mundo. A combinação das<br />

ciências, matemáticas e engenharias, mesmo sem produzirem<br />

bens ou serviços directos, serão a base para que se<br />

atinjam níveis de desenvolvimento económico e humano<br />

mais competitivos. “Precisaremos todos de assumir o alerta<br />

sobre as mudanças na estrutura económica de forma mais<br />

séria e ousada. Os recentes dados do censo de 2017 atesta<br />

bem a tipologia da população que mais sofrerá os efeitos<br />

dos ajustes das futuras profissões. Estes jovens, nunca co-<br />

Texto Celso Chambisso • Fotografia Shutterstock & D.R.<br />

mo agora, estiveram tão carentes de empregos. O campo e<br />

a agricultura, ainda tipificada pelos baixos níveis de rendimento<br />

e produtividade, não asseguram a continuidade<br />

dos jovens nas regiões rurais e, consequentemente, serão<br />

forçados à migração para as periferias das cidades”, descreve<br />

o Reitor da Universidade Pedagógica, Jorge Ferrão,<br />

numa breve abordagem do panorama do futuro do trabalho<br />

no País.<br />

Mas de que profissões estamos a falar?<br />

Há uma fileira gigante de profissões novas que vão trazer<br />

o futuro, como data cientists, data analists, data quality controler,<br />

data arquitect, etc., tudo ligado ao que podemos chamar de<br />

′nova moeda‛ – a data.<br />

Ou seja, as profissões do futuro são as que estão muito mais<br />

próximas de manipular esta moeda. Por outro lado, as profissões<br />

que vão desaparecer são as que estão agarradas<br />

aos factores tradicionais de produção. Na área de serviços,<br />

tudo o que tem que ver a com a interacção, isto é, profissões<br />

que envolvam assistência ou atendimento ao cliente e<br />

que exijam grande exposição física com parceiros de negócio<br />

vão sofrer um arraso gigante, também acelerado pela<br />

pandemia do novo coronavírus.<br />

Há que não perder de vista o conjunto de profissões em<br />

que a inteligência artificial e a internet das coisas não<br />

chega, como tomar conta de idosos ou o trabalho de personal<br />

trainer, dactilógrafo, atendimento ao cliente,<br />

impressor offset e funcionário de gráfica, etc., até que se<br />

transformem em virtuais, já que são profissões do futuro<br />

aquelas que têm menos interacção física entre as pessoas.<br />

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21


NAÇÃO<br />

Há uma fileira gigante de profissões novas que<br />

vão trazer o futuro, como data cientists, data<br />

analists, data quality controler, data arquitect...<br />

Em termos concretos, a lista mais consensual, no mundo, de<br />

algumas profissões do futuro inclui Desenvolvedores de<br />

softwares, Gestor de Conteúdos, Creators (Digital Influencers),<br />

Assessor de creators (profissionais que cuidam das carreiras<br />

de influenciadores digitais), Professor online, Coaching<br />

(profissional que ajuda outras pessoas a evoluírem em diversas<br />

áreas de suas vidas), Marketeer Digital, Engenheiro<br />

Ambiental, Designer 3D, Especialista em Energias Renováveis,<br />

Desenvolvedor Web, Piloto de Drone, etc. A infografia<br />

das páginas 24 e 25 traz alguns detalhes destas e de outras<br />

profissões, ainda que muito aquém do grande volume das<br />

que já se projectam.<br />

Já temos alguns… mas muito pucos!<br />

Há moçambicanos que já estão no futuro. São escassos ainda,<br />

mas existem. A E&M falou com dois. Em comum, o facto<br />

serem autodidactas. Ou seja, foi por curiosidade e esforço<br />

próprio que migraram para o futuro. Não foram inspirados<br />

pela escola. O primeiro é Guidione Machava, desenvolvedor<br />

de softwares. Ele prefere chamar software designer, ou<br />

seja, o profissional que planeia estruturas digitais que depois<br />

são implementadas pelos engenheiros digitais para<br />

diferentes finalidades da actividade empresarial, tal como<br />

faz o arquitecto, que prepara as estruturas físicas que são<br />

implementadas pelos engenheiros de construção civil.<br />

Economista de formação, Guidione é co-fundador de uma<br />

empresa que desenvolve sistemas informáticos, a Moz Devs.<br />

Foi lá onde descobriu que o que fazia tinha um nome e<br />

uma estrutura de organização de trabalho fora do comum.<br />

Então, decidiu seguir e estudou. Felizmente, a disponibilidade<br />

de internet possibilitou a auto-formação.<br />

Guidione, que presta serviços a qualquer empresa que se<br />

queira digitalizar, considera que os jovens têm pouca orientação<br />

para as profissões do futuro por falta de divulgação<br />

das competências deste género de trabalho. “É cansativo<br />

ter de descobrir e perseguir uma profissão por iniciativa<br />

própria. O sistema de educação tem de ser revisto para resolver<br />

o desfasamento entre o que o mercado quer e o que<br />

a indústria nos prepara para fazer”, sugeriu.<br />

Outro é Simião Júnior. É digital marketing manager, tarefa<br />

que inclui uma série de utilidades como desenhar e executar<br />

todo o digital marketing incluindo marketing database,<br />

e-mail, SEM (Search Engine Marketing), social media e campanhas<br />

de display advertising; desenhar, construir e manter a<br />

presença de uma organização nas redes sociais; mensurar<br />

e reportar a performance de todas as campanhas do digital,<br />

etc. Para transitar para o futuro “tive a oportunidade de<br />

fazer parte de uma das comunidades de jovens do mundo<br />

(AIESEC) que permite que os jovens universitários possam<br />

fazer intercâmbios nacionais e internacionais. Ingressei<br />

como coordenador de RH mas queria mais e decidi aplicar-me,<br />

tendo chegado à posição de team leader da mesma<br />

área”, conta o jovem de 23 anos, que diz ter descoberto uma<br />

paixão pelo mundo digital.<br />

Simião Júnior trabalha, hoje, como digital marketing manager<br />

de marcas em áreas como a banca e investimento, Oil & Gas,<br />

energia, mineração, etc. Um dos obstáculos que este jovem<br />

aponta no contexto interno é a relutância das organizações<br />

em migrar para o ambiente digital. “Ainda é muito difícil<br />

convencer um cliente a ir para o digital. Acredito que<br />

umas das coisas que podemos fazer é incutir na cabeça das<br />

pessoas a importância que esta área tem”, concluiu.<br />

22<br />

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PROFISSÕES DO FUTURO<br />

Mudança muito lenta<br />

João Gomes, partner da Jason Moçambique, tem feito vários<br />

estudos que abordam questões da área do trabalho, skills,<br />

e tecnologia, e confirma que o movimento está só a começar,<br />

e de forma tímida. Ou seja, há pouquíssimas empresas<br />

e pessoas que já têm noção do que está a acontecer, muito<br />

menos as que estão a investir na migração para o trabalho<br />

do futuro. Estas poucas resumem-se apenas nas entidades<br />

que dão suporte a todas as redes de pagamentos, assim como<br />

as empresas de telefonia móvel e o sistema financeiro.<br />

Mas todos estes “estão numa fronteira muito distante da robotização,<br />

embora haja informação suficiente para tentar<br />

trazer o futuro para agora”, explicou o responsável.<br />

Esta linha é partilhada por outros especialistas. Para Samuel<br />

Maputso, Director de Capital Humano do BancABC,<br />

com participação em várias iniciativas como o Fórum dos<br />

Recursos Humanos de Moçambique, “olhando para os resultados<br />

das pesquisas feitas fora, arrisco-me a dizer que se<br />

estivermos a ganhar alguma consciência da mudança, que<br />

será inevitável, ainda estamos tímidos. Quando converso<br />

com a maior parte dos meus colegas dos Recursos Humanos<br />

(RH) não sinto grande nível de consciência em relação<br />

a este tema. Já falámos sobre o assunto em algumas conferências,<br />

mas ainda estamos numa fase de curiosidade com<br />

alguma descrença”. Também Paulo Santos, líder da Heading,<br />

empresa que estabelece a ponte entre quem procura<br />

e quem oferece mão-de-obra qualificada, entende que “do<br />

lado dos nossos (seus) clientes, ainda não há sinais de que tenham<br />

começado a equacionar essa nova lógica no perfil dos<br />

Recursos Humanos, mas vai começar a acontecer e terá de<br />

ser liderada por pessoas mais autónomas, com maior capacidade<br />

de decisão, de auto-motivanção e perfis que vão ser<br />

cada vez mais adaptadas às novas tecnologias”, observou.<br />

Já a Contact, uma das mais destacadas empresas de recrutamento<br />

do mercado, mesmo sem ser específica, assume<br />

ser “racional afirmarmos que já começa a haver algumas<br />

profissões que estão a cair em desuso em Moçambique por<br />

conta das novas exigências do mercado forçadas pelo avanço<br />

tecnológico e, recentemente, pela pandemia do covid-19”.<br />

Pobreza e o risco de “ver o comboio passar”<br />

João Gomes deu grande ênfase às características socioeconómicas<br />

do País ao prever o futuro do trabalho. Para o<br />

especialista, uma questão fundamental a ter em consideração<br />

é que o processo de transição para as novas profissões<br />

será selectivo.<br />

As pessoas que terão maior facilidade de mudar de carreira<br />

não são as que estarão, necessariamente, em busca de<br />

trabalho, e sim as profissional e economicamente bem-sucedidas<br />

e que, com bons salários, buscarão novas carreiras<br />

por estarem emocionalmente esgotadas de fazerem as<br />

mesmas coisas.


NAÇÃO<br />

AS 13 PROFISSÕES QUE SERÃO IMPULSIONADAS PELO AMBIENTE DIGITAL<br />

Um relatório do Center for the Future of Work, estabelecido pela Cognizant Technology Solutions – uma das maiores empresas de<br />

tecnologia de informação do mundo –, é mais específico em apostar em profissões do futuro. Da maior parte delas nunca se ouviu falar.<br />

Algumas até já existem, mas conhecerão um upgrade que as transformará profundamente. Outras estão a surgir por aqui. Conheça-as.<br />

1<br />

DETECTIVE<br />

DE DADOS<br />

O que faz?<br />

Investiga mistérios em Big Data. “O que<br />

estão os nossos dados a contar-nos? Que<br />

segredos contêm?”, questionam os autores<br />

da pesquisa sobre o assunto.<br />

O que é preciso?<br />

Saber sobre finanças, matemática e data<br />

science, sem ser necessário ser um cientista<br />

de dados. Conhecimentos de leis são uma<br />

vantagem.<br />

2<br />

FACILITADOR<br />

DE TI<br />

O que faz?<br />

Explora tendências digitais e cria uma<br />

plataforma self-service automatizada<br />

para que os usuários construam os seus<br />

próprios ambientes colaborativos, incluindo<br />

assistentes virtuais.<br />

O que é preciso?<br />

Ter formação em TI, ciências da<br />

computação, engenharia, ciências naturais<br />

ou administração de empresas. Habilidades<br />

de comunicação e liderança também são<br />

necessárias.<br />

3<br />

OFICIAL DE ÉTICA DE<br />

SOURCING<br />

O que faz?<br />

Investiga, acompanha, negoceia acordos<br />

de bens e serviços para garantir que gastos<br />

indirectos da empresa (em energia e<br />

relações sociais) estejam alinhados com os<br />

padrões de ética dos seus stakeholders.<br />

O que é preciso?<br />

Ter experiência com ética em ambientes<br />

corporativos, habilidades interpessoais e<br />

de comunicação, capacidade de trabalhar<br />

em grupo. Conhecimentos de negócios, leis,<br />

gestão pública ou filosofia são diferenciais.<br />

13<br />

OFICIAL DE<br />

DIVERSIDADE GENÉTICA<br />

O que faz?<br />

Facilita a lucratividade e a produtividade da<br />

organização e, ao mesmo tempo, cria um<br />

ambiente de inclusão genética, operando de<br />

acordo com as leis e guias relacionados com<br />

a força de trabalho geneticamente aprimorada.<br />

O que é preciso?<br />

Na última das profissões do futuro, é<br />

necessário um grau avançado de estudos em<br />

biologia ou genómica, anos de experiência<br />

com igualdade genética ou similares.<br />

Habilidades interpessoais, de gestão e de<br />

comunicação também são essenciais.<br />

12<br />

CONTROLADOR DE<br />

ESTRADAS<br />

O que faz?<br />

Monitora, regula, planeia e manipula<br />

espaços aéreos e estradas, programando<br />

plataformas automatizadas de Inteligência<br />

Artificial usadas para gerenciar espaços de<br />

carros e drones autónomos.<br />

O que é preciso?<br />

Aptidão para o trabalho é mais importante<br />

que qualificações ou experiências anteriores.<br />

É preciso ter habilidades de comunicação,<br />

tomada de decisão, organização e resolução<br />

de problemas. Saber trabalhar sob pressão<br />

também é essencial<br />

11<br />

ANALISTA DE QUANTUM<br />

MACHINE LEARNING<br />

O que faz?<br />

Pesquisa e desenvolve soluções de ponta<br />

que aumentam a velocidade e performance<br />

de algoritmos e sistemas, ao integrar as duas<br />

disciplinas.<br />

O que é preciso?<br />

Ter um perfil criativo e uma pós-graduação<br />

na área, além de anos de experiência com<br />

machine learning, computação quântica ou<br />

data science.<br />

24<br />

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PROFISSÕES DO FUTURO<br />

4<br />

GESTOR DE NEGÓCIOS<br />

DE INTELIGÊNCIA<br />

ARTIFICIAL<br />

O que faz?<br />

Na quarta das profissões do futuro, o<br />

profissional define, desenvolve e implementa<br />

programas eficazes para acelerar vendas e<br />

negócios de inteligência artificial.<br />

O que é preciso?<br />

Ter experiência com vendas e<br />

desenvolvimento de negócios em grandes<br />

organizações, além de experiência<br />

corporativa com plataformas de Inteligência<br />

Artificial, machine learning e computação<br />

em nuvem.<br />

10<br />

CHIEF TRUST OFFICER<br />

O que faz?<br />

Trabalha com equipas de relações públicas<br />

e finanças para construir relações de<br />

confiança no sector financeiro e encorajar<br />

transparência e responsabilidade no<br />

mercado de criptmoedas.<br />

O que é preciso?<br />

Ter anos de experiência relevante com<br />

criptomoedas, blockchain e/ou bolsa de<br />

valores, mestrado na área, conhecimentos<br />

regulatórios e perfil analítico.<br />

5<br />

MESTRE DE EDGE<br />

COMPUTING<br />

O que faz?<br />

Cria, mantém e protege o ambiente de<br />

edge computing ou computação na “borda”<br />

(trata-se do limite da rede de computação<br />

em nuvem, perto da fonte de dados).<br />

O que é preciso?<br />

Doutoramento na área ou em áreas<br />

relacionadas, experiência com segurança<br />

e protocolo de internet das coisas, entre<br />

outros assuntos. Capacidade de arquitectar<br />

e projectar ambientes de computação em<br />

nuvem ou edge computing.<br />

9<br />

GERENTE DE EQUIPA<br />

HUMANOS-MÁQUINAS<br />

O que faz?<br />

Desenvolve um sistema de interacção para<br />

que seres humanos e máquinas conversem<br />

melhor, o que aprimora essa equipa híbrida.<br />

O que é preciso?<br />

Ter formação em psicologia ou neurociência<br />

e qualificação posterior em ciência da<br />

computação, engenharia ou recursos<br />

humanos. É preciso ter experiência em áreas<br />

relacionadas, como machine learning ou<br />

interação entre humanos e robots.<br />

6<br />

WALKER/TALKER<br />

O que faz?<br />

Profissional autónomo. Passa tempo com<br />

clientes idosos através de uma plataforma<br />

online para escutá-los e conversar com eles.<br />

A sua principal tarefa é ‘prestar atenção’.<br />

O que é preciso?<br />

Qualquer background será considerado. É<br />

preciso ter mobilidade para visitar clientes<br />

em casa quando for necessário.<br />

7<br />

CONSELHEIRO DE<br />

COMPROMISSO DE SAÚDE<br />

O que faz?<br />

Trabalha remotamente para oferecer<br />

coaching individual e conselhos de bemestar<br />

e saúde para usuários de pulseiras<br />

inteligentes, que monitoram as suas<br />

actividades e sinais físicos.<br />

O que é preciso?<br />

Ter experiência com nutrição ou educação<br />

física e credenciais (obtidas em cursos<br />

online) em modalidades desportivas<br />

como CrossFit ou Ioga. Saber lidar com<br />

ambientes culturalmente diversos também<br />

é necessário.<br />

8<br />

ANALISTA DE<br />

CYBERCIDADE<br />

O que faz?<br />

Garante a segurança e funcionalidade da<br />

cidade ao assegurar o fluxo saudável de<br />

dados (ambientais, populacionais, etc.) pelo<br />

sistema.<br />

O que é preciso?<br />

Ter qualificações em engenharia digital,<br />

conhecimentos sobre circuitos electrónicos<br />

e metodologias de startup enxuta e<br />

experiência com impressão 3-D. É preciso<br />

saber ler e interpretar dados em analytics.<br />

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25


NAÇÃO<br />

O outro pólo é o de pessoas sem poder de transitar para o<br />

futuro, nomeadamente as mulheres e todas as pessoas de<br />

baixo rendimento e de fraco nível de qualificação escolar,<br />

pelo que o tema do género acabará por estar em voga neste<br />

processo, já que trazer a mulher para as profissões do<br />

futuro será um enorme desafio.<br />

“Outra questão é: quais são as profissões que conseguirão<br />

fazer a transição para o futuro (lembrar que algumas vão<br />

se transformar e outras vão nascer naturalmente por<br />

estarem ao pé da moeda do futuro)? Estes vão enfrentar<br />

um problema dramático. É que só agora, com a questão do<br />

trabalho remoto, se nota que a maioria das pessoas não domina<br />

os fundamentos da tecnologia, não sabem nada e nem<br />

sabem usar os canais digitais para dizerem o pouco que sabem”,<br />

lamentou.<br />

E Jorge Ferrão acrescenta: “Uma educação digital intermediária<br />

permitirá nivelar as competências e fazer que<br />

avancemos como país e não como um espaço fragmentado<br />

e numa tentativa de ′salve-se quem puder‛”.<br />

Males pelas aldeias<br />

Toda a sociedade tem um papel neste processo. Desde o Estado<br />

à academia, passando pelo sector privado. A experiência<br />

internacional já o provou. No caso de Moçambique, a iniciativa<br />

privada é que tem estado na vanguarda, basta olhar<br />

para a rápida proliferação de ideias que resultam em startups<br />

inovadoras de grande alcance no processo produtivo.<br />

O papel da academia e das empresas<br />

Com ′muita estrada‛ na área da academia, o Reitor da UP,<br />

Jorge Ferrão, considera que as universidades, públicas ou<br />

privadas, terão de passar por um processo de migração digital,<br />

que levará tempo, mas será irreversível. Recorrendo<br />

aos dados do censo de 2017, Ferrão utilizou estatísticas para<br />

26<br />

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PROFISSÕES DO FUTURO<br />

do mundo actual e das tecnologias. Muitos programas desenvolvidos<br />

pelas universidades estão desactualizados e<br />

demoram muito tempo a serem actualizados, mas as empresas<br />

apresentam melhor capacidade de se adaptarem<br />

à nova realidade, podendo fazê-lo de um dia para o outro<br />

quando são desafiadas. O responsável defende que terá de<br />

ser um esforço conjunto, em que as empresas procurarão<br />

fazer o seu papel na formação do seu quadro de profissionais<br />

do futuro e as instituições de ensino vão ter de fazer<br />

o mesmo, sendo que o próprio cidadão também tem a responsabilidade<br />

de desenvolver a consciência disso já que,<br />

hoje em dia, há uma imensidão de cursos online, até gratuitos,<br />

que necessitam apenas de iniciativa por parte de quem<br />

procura esses conhecimentos.<br />

Samuel Maputso acrescenta que as universidades têm de<br />

reorganizar os seus currículos tendo em conta as profissões<br />

do futuro e atribui às empresas 60% da responsabilidade<br />

neste domínio. Ou seja, será necessário harmonizar os<br />

métodos de formação das empresas e das universidades a<br />

partir do próprio desenho de cursos.<br />

… O Papel dos Recursos Humanos<br />

“O ponto de partida é a reconfiguração dos profissionais dos<br />

RH”, sugere Samuel Maputso, e acrescenta: “o que se observa<br />

é que a maior parte dos directores de RH nas empresas<br />

moçambicanas foi formada há muito tempo e não está preparada<br />

para lidar com as exigências da tecnologia nos dias<br />

que correm. Nas empresas, a maior parte dos processos de<br />

RH é manual e onde existe alguma automatização os processos<br />

estão desintegrados, sem ligação coerente entre si.<br />

Os processos nesta área ainda são dominados por esta geração<br />

de profissionais de RH sem Data and Analitic skills”.<br />

“As universidades têm de reorganizar os seus<br />

currículos tendo em conta as profissões do futuro<br />

e as empresas têm 60% de responsabilidade...”<br />

mostrar o quanto Moçambique está pressionado pela nova<br />

realidade: tem uma baixa percentagem de cidadãos com<br />

acesso a computador, apenas 8,9%; de acesso a internet,<br />

com 13,4%; de acesso à telefonia móvel, com 53,2% (o indicador<br />

menos mau). Mesmo assim, Jorge Ferrão acredita que<br />

“o uso de tecnologia móvel ganhou corpo nos últimos anos,<br />

pelo que as plataformas criarão novas oportunidades, sobretudo<br />

para os jovens e mulheres e para uma população<br />

que se manteve excluída de modelos formais de emprego<br />

em décadas recentes”.<br />

Também Paulo Santos, da Heading, vê um sistema de ensino<br />

que tem levado algum tempo a adaptar-se à realidade<br />

A responsabilidade do Estado<br />

É consensual, entre todos os intervenientes, a necessidade<br />

de criar a ′auto-estrada‛ que são os meios necessários para<br />

facilitar a migração para as profissões do futuro. “Em<br />

Moçambique, há gente a fazer trabalho sério. Por exemplo,<br />

o INCM ao nível da regulação faz um bom trabalho. Mas<br />

precisamos de investimentos em infra-estruturas e o que<br />

está a acontecer é que estas estão a ser resultado do investimento<br />

privado, como acontece no caso das companhias<br />

privadas de telefonia móvel e da banca. Para que as profissões<br />

do futuro encontrem terreno fértil era importante<br />

que se começasse a intervir no ensino primário, a qualificar<br />

as pessoas para usarem ferramentas tecnológicas,<br />

depois criar uma rede de infra-estruturas de Norte a Sul<br />

do País e que se ramifiquem e facilitem a acção do sector<br />

privado”, defende João Gomes.<br />

O medo de formar... e depois perder<br />

Entretanto, a era tecnológica reserva outros desafios que<br />

não estão a ser muito equacionados. É que as competências<br />

do futuro são tecnicamente transferíveis. E o problema da<br />

transferibilidade é que ela não pára. Ou seja, as empresas<br />

podem investir em RH que podem sair porque a velocidade<br />

de circulação fica muito mais rápida com a tecnologia.<br />

São competências que permitem que as pessoas sejam nómadas<br />

digitais e passam a não trabalhar apenas para a<br />

organização que as formou. Assim, os investidores ficam<br />

desmotivados em investir na formação de capital humano.<br />

“Este é um dos problemas do futuro”, alerta João Gomes”.<br />

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OPINIÃO<br />

“Jobar” no Futuro<br />

João Gomes • Partner @ JASON Moçambique<br />

vem este artigo - “Jobar”, expressão Moçambicana<br />

que significa “trabalhar” - a propósito de um<br />

estudo 1 partilhado por um bom amigo, o qual<br />

referia que até 2030 cerca de 100 milhões de<br />

trabalhadores (principalmente jovens, mulheres,<br />

migrantes e indiferenciados) ficarão sem<br />

emprego, se não fizerem a transição para empregos que<br />

apelido do, e com FUTURO!<br />

A boa notícia 2 é que a Quarta Revolução Industrial criará,<br />

no mesmo período, 133 milhões de novos empregos.<br />

É clássica a pergunta: o que queres ser quando fores<br />

grande?<br />

Menos clássicas, porque ainda inesperadas, são as respostas<br />

do género:<br />

- “Eu quero ser cientista de dados”, diz o Faizal.<br />

- “Eu vou ser programadora de cobots bio-médicos”, diz a Yara.<br />

- “E eu vou ser designer de drones industriais”, atalha o Wilson.<br />

- “Eu vou ser Youtuber”, diz a Ayana convictamente.<br />

O que podemos dizer HOJE ao Faizal, à Yara, ao Wilson e à Ayana<br />

sobre o Trabalho do, e com FUTURO? E aos 100 milhões de trabalhadores<br />

que até 2030 ficarão sem emprego, se não fizerem a necessária<br />

transição?<br />

Neste artigo convido-vos a fazermos um exercício de antecipação<br />

no qual veremos sucessivamente:<br />

1) Quais são os padrões do trabalho do, e com FUTURO<br />

que estão a emergir, que apresentam potencial para<br />

perdurar e que, entretanto, foram bastante acelerados<br />

pela ocorrência da pandemia do COVID19.<br />

2) E, bem assim, como nos podemos preparar HOJE, para<br />

não ficarmos…sem trabalho, e sem futuro!<br />

1) Destaco 5 padrões emergentes do Trabalho do, e com<br />

FUTURO!<br />

Padrão 1 - Aumento do trabalho sem contacto físico:<br />

Trabalhos que hoje requerem frequente interacção e exposição<br />

com o público em viagem, de negócios, e efectuados<br />

cara-a-cara estão a ser descontinuados. De acordo<br />

com a revista Economist 3 50% dos hotéis de negócio irão<br />

desaparecer. Por exemplo, serão negativamente impactadas<br />

profissões nos sectores da hotelaria de negócio, da<br />

restauração, em centros de congressos, em aeroportos,<br />

entre outros.<br />

Padrão 2 - Aumento da hibridização do trabalho: Trabalhos<br />

que hoje não requerem frequente interacção e exposição<br />

com os clientes, que são intermitentemente efectuados<br />

cara-a-cara, e que se baseiam em ferramentas de IT, estão<br />

a optar por entregar de forma rotativa, quer em modo<br />

presencial, quer remotamente (modelo híbrido). De acordo<br />

com o já citado estudo, 1/3 das economias avançadas já se<br />

encontra neste estádio. Por exemplo, serão negativamente<br />

impactadas profissões nos sectores legal, contabilístico, na<br />

administração pública, entre outros.<br />

Padrão 3 - Aumento da desmaterialização do posto de trabalho:<br />

Trabalhos que hoje requerem frequente interacção<br />

e exposição com o público, e são efectuados “on-site” estão a<br />

migrar para a arena electrónica. Prevê-se o encerramento,<br />

até 2024, de 50% das lojas físicas de cadeias globais que<br />

entretanto aderiram ao e-commerce. Por exemplo, serão negativamente<br />

impactadas profissões em lojas de retalho e<br />

de conveniência, em serviços financeiros, entre outros.<br />

Padrão 4 - Aumento exponencial da datificação (Big Data):<br />

Consequência do Padrão 3, yottabites 4 de dados são acumulados<br />

diariamente, a par da servicificação das economias<br />

(já aqui escrevemos sobre este tema “Servicificar, um passo<br />

de Gigante”) fazendo emergir um novo factor de produção,<br />

a par da terra, do capital e do trabalho: Data. E à volta<br />

deste novo “factor de produção”, perfila-se uma lista longa<br />

de “novos operários”: por exemplo, cientistas de dados; business<br />

intelligence analysts; especialistas em IoT (Internet das<br />

Coisas), entre outros.<br />

Padrão 5 – Cobotização do trabalho em ambiente industrial:<br />

noutra arena na qual não é requerida frequente interacção<br />

e exposição com o público, e sem possibilidade de<br />

Trabalhos que hoje requerem frequente interacção e exposição com o público em viagem,<br />

de negócios, e efectuados cara-a-cara estão a ser descontinuados. De acordo com a<br />

revista britânica Economist, metade das unidades hoteleitas de negócio irão desaparecer<br />

28<br />

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O futuro vai impor uma ruptura no padrão de competências profissionais e passar a exigir habilidades ligadas aos novos meios tecnológicos<br />

hibridização do trabalho (não é possível levar a fábrica<br />

para casa!) emerge, como um dos traços distintivos do trabalho<br />

do, e com Futuro, a coexistência, a colaboração e<br />

a cooperação entre Humanos e Robots Sensíveis (cobotização)<br />

5 . Por exemplo, muitas das tarefas repetitivas e arriscadas<br />

já estão a ser realizadas pelos cobots abrindo, deste<br />

modo, espaço para os Humanos realizarem tarefas mais<br />

criativas e intelectualmente desafiantes.<br />

2) Ora, já que trabalhar de sol a sol (tal como o fizeram os<br />

nossos antepassados na Revolução 1.0: Agrícola); ou trabalhar<br />

das 9h00 às 17h00 (tal como ocorreu nas Revolução<br />

2.0: Industrial e na Revolução 3.0: da Informação)<br />

não parece ser suficiente, como nos podemos preparar<br />

antecipadamente para a Revolução 4.0: da Automação<br />

e Inteligência Artificial e assim evitarmos ficar<br />

sem trabalho, e sem futuro?<br />

Pessoalmente tenho seguido muito de perto, e convido vivamente<br />

o meu caro leitor@ a analisar um dos mais profundos<br />

estudos feitos no sentido de capturar aquelas que<br />

são as competências críticas para o Trabalho do, e com Futuro<br />

6 . Apesar da já provecta idade do estudo (realizado em<br />

2020), o SCANS Report mantém-se absolutamente actual. E<br />

são oito as competências críticas que deverão equipar as<br />

nossas mochilas de modo a acelerarmos a transição e que<br />

se desmultiplicam em 36 sub-competências, organizadas<br />

em dois grupos (Fundacionais [Ser]; e do Posto de Trabalho<br />

[Saber e Saber-Fazer]). Permito-me apenas destacar o grupo<br />

de competências críticas para o Posto de Trabalho do<br />

Futuro:<br />

- Gestão de Recursos: identificar, organizar, planear e alocar<br />

Recursos Escassos.<br />

- Gestão Interpessoal: trabalhar com os Outros.<br />

- Gestão da Informação: adquirir e utilizar a Informação.<br />

- Gestão da Tecnologia: trabalhar com uma variedade de<br />

Tecnologias.<br />

Em conclusão<br />

Preparar o Faizal, a Yara, o Wilson e a Ayana para o Trabalho<br />

do, e com Futuro é um imperativo para HOJE.<br />

Até 2030, 100 milhões de trabalhadores pertencentes a grupos<br />

frágeis (jovens, mulheres, indiferenciados, migrantes)<br />

ficarão sem emprego e terão de transitar para a economia<br />

da Revolução 4.0: da Automação e Inteligência Artificial.<br />

Trazer o Futuro para Hoje implica que sejamos capazes de<br />

perceber os padrões emergentes que desconfigurarão/<br />

reconfigurarão o trabalho, a saber: trabalho sem contacto<br />

físico, híbrido entre presencial e remoto, desmaterializado,<br />

datificado e cobotizado. Asseguremos a prontidão e preparemo-nos,<br />

equipando as nossas mochilas com as oito competências<br />

críticas para o Trabalho do, e com Futuro.<br />

Pois que Jobar é preciso, hoje, e no Futuro.<br />

1<br />

The Future of Work after COVID-19 - Makinsey Global Institut.<br />

2<br />

Jobs of Tomorrow – Mapping Opportunity in the New Economy – World Economic Forum - http://www3.weforum.org/<br />

docs/WEF_Jobs_of_Tomorrow_2020.pdf.<br />

3<br />

Visão do Futuro - The Economist.<br />

4<br />

O yottabyte é uma unidade de medida da área da informática, equivale a 10 elevado a 24 bytes.<br />

5<br />

Para mais detalhes sobre o tema dos Cobots conferir https://www.youtube.com/watch?v=IQyj9OkdbSg<br />

6<br />

Skills and Tasks for Jobs “A SCANS Report for America 2000”. https://wdr.doleta.gov/opr/FULLTEXT/1999_<strong>35</strong>.pdf<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />

29


NAÇÃO<br />

“VAMOS AJUSTAR OS ORÇAMENTOS<br />

E MUDAR A BASE DE APRENDIZAGEM”<br />

O Reitor da Universidade Pedagógica e antigo Ministro da Educação e Desenvolvimento Humano,<br />

Jorge Ferrão, tem publicado reflexões sobre as profissões do futuro e sabe onde estão os pontos<br />

críticos da transformação. Defende mudanças na academia e na postura de toda a sociedade<br />

Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.<br />

não haverá volta a dar<br />

que não inclua encarar a<br />

educação de uma forma<br />

diferente da actual, com<br />

novos investimentos em<br />

tecnologia e colocando<br />

os jovens na vanguarda do processo<br />

de mudança. Jorge Ferrão é uma das<br />

figuras de consenso para falar dos<br />

processos e modelos de formação de<br />

pessoas em Moçambique, e está convencido<br />

de que é possível acelerar a<br />

migração para as profissões do futuro,<br />

mas avisa que não nos será barato.<br />

A 4ª Revolução Industrial está a<br />

mudar a forma de estar da sociedade<br />

global. No trabalho, com a evolução<br />

tecnológica, assiste-se ao surgimento<br />

de profissões que eram há<br />

pouco tempo impensáveis. Que posição<br />

atribui a Moçambique no contexto<br />

global em relação a esta nova<br />

tendência?<br />

O impacto das sociedades de conhecimento<br />

coloca as competências tecnológicas<br />

e digitais como os activos mais<br />

importantes. Seguir as novas tecnologias<br />

e os efeitos da revolução científica<br />

e tecnológica evitará que sejamos<br />

marginalizados e esquecidos pelo tempo.<br />

Os nexos que se estabelecem sobre<br />

as profissões do futuro e a 4ª Revolução<br />

Científica e Tecnológica assumem, na<br />

contemporaneidade, proporções que<br />

se estendem muito para lá de visões<br />

futuristas ou profecias. A segunda metade<br />

do século XXI aponta para cenários<br />

verdadeiramente desafiadores,<br />

e que obrigarão as sociedades a um<br />

posicionamento geoestratégico. A Inteligência<br />

Artificial e a robótica associadas<br />

à tecnologia 5G e 6G vão, em definitivo,<br />

alterar o mundo e teremos de<br />

nos preparar para entrar para esse<br />

mercado de trabalho tão competitivo.<br />

Um pouco pelo mundo, novas profissões<br />

têm ganhado espaço. Muito brevemente,<br />

serão os postos de trabalho<br />

mais disponíveis, com salários mais<br />

competitivos e preferenciais.<br />

As competências necessárias para estas<br />

novas funções podem ser radicalmente<br />

diferentes daquelas que vão desaparecer<br />

e das quais os investimentos<br />

actuais deverão ser realizados.<br />

Se, por um lado, não existem dúvidas<br />

sobre determinadas profissões tradicionais<br />

e, até as mais regulamentadas,<br />

como economia, veterinária, direito,<br />

engenharias, medicinas, etc., por<br />

outro observam-se novas e inovadoras<br />

categorias, tais como segurança<br />

cibernética, técnicos de impressoras<br />

3D, gestores de nuvens (icloud), produtores<br />

de blogs e até pilotos de drones.<br />

Há muito que se fala da necessidade<br />

de melhorar a qualidade de formação<br />

de pessoas em Moçambique,<br />

a todos os níveis, desde o primário<br />

ao superior. Mas o País tem uma<br />

longa estrada por percorrer para<br />

ser capaz de formar os chamados<br />

profissionais do futuro. Por onde<br />

começar?<br />

Estas profissões do futuro impõem novos<br />

desafios às instituições de ensino<br />

Admitamos que os progressos e as reformas curriculares nas instituições<br />

de ensino em Moçambique registaram mudanças significativas, porém,<br />

estas têm acontecido de uma forma lenta, hesitante e pouco ousada<br />

e às universidades, em particular.<br />

Evidentemente que as universidades<br />

precisam de se reajustar e definir<br />

cursos que priorizem competências<br />

para as áreas tecnológicas e, em consonância<br />

com os novos empregos que<br />

serão gerados, com requisitos muito<br />

mais exigentes, terão de manter a<br />

sua função de investigação e docência<br />

que, na prática, são a sua essência. Porém,<br />

sem optarem apenas pelo modelo<br />

de diplomas, como se tem verificado<br />

em diferentes situações. Será um<br />

risco fatal, porém, se vivermos alterando<br />

cursos a cada instante, quer pelo<br />

surgimento de uma nova indústria,<br />

quer por um novo recurso. Formar capital<br />

humano exige algum tempo e a<br />

garantia de que estaremos a prover<br />

uma base de raciocínio e questionamento.<br />

Esse é o nosso papel. Ensinar a<br />

pensar, a ter opções e a questionar. Isto<br />

representa mais de 75% do futuro trabalho<br />

profissional.<br />

Que modelos de formação há no<br />

mundo que melhor podem servir a<br />

Moçambique e provocar uma mudança<br />

efectiva?<br />

Os modelos de formação não são standards.<br />

Eles respondem à demanda nacional<br />

e a capacidades locais. Portanto,<br />

não nos serve de nada copiar, copiar<br />

e repetir aquilo que os outros já fizeram.<br />

O surgimento da indústria de gás<br />

e petróleo já obrigou a criação de novos<br />

cursos e formação técnico-profissional.<br />

Ainda assim, teremos de aprender<br />

destas tecnologias e aperfeiçoar<br />

a formação que provemos aos nossos<br />

graduados.<br />

A 4ª Revolução Industrial é impulsionada<br />

por três categorias distintas: a física,<br />

a digital e a biológica. Na categoria<br />

física terá os veículos autónomos e<br />

30<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


ENTREVISTA<br />

as impressões em 3D. Recentemente, o<br />

Hospital Central de Maputo recebeu<br />

uma impressão e estão já a produzir<br />

viseiras para reduzir os riscos de infecção<br />

pela covid-19. A Robótica avançada<br />

e outros materiais essenciais que<br />

a tecnologia 5G e 6G vão disponibilizar<br />

farão algum tipo de trabalho que apenas<br />

os robots poderão realizar, devido<br />

à natureza do mesmo. Na área digital<br />

teremos a internet das coisas, a<br />

relação entre as coisas, serviços e pessoas<br />

através de redes digitais. Na categoria<br />

biológica teremos inovações<br />

no campo da biologia, particularmente<br />

na genética. Teremos, igualmente, a<br />

biologia sintética, que consiste em modificar<br />

organismos já existentes, alterando<br />

a sua resistência às adversidades<br />

e capacidade de regeneração<br />

em quantidades nunca antes verificadas.<br />

Um pouco por todos os países, incluindo<br />

o nosso, já observamos estas<br />

mudanças.<br />

De Moçambique, que exemplos práticos<br />

pode citar?<br />

Veja na cidade do Maputo a quantidade<br />

de técnicos reparando telefones celulares.<br />

Isto acontece em cada esquina<br />

e mercado. Igualmente, observe os<br />

clientes usando plataformas digitais<br />

para as transacções financeiras. O M-<br />

-pesa, M-kesh, e-mola e etc., são uma<br />

prova evidente de que os clientes da<br />

banca convencional já foram, de forma<br />

irreversível, superados por estes<br />

novos usuários e a inclusão financeira<br />

será inevitável. Os dados do último<br />

censo provam que a banca comercial<br />

só responde por 6,7% da população,<br />

sendo 4,5% homens e 2,2% mulheres,<br />

contra um total de 52,2% de cidadãos<br />

moçambicanos já integrados<br />

nas diferentes plataformas financeiras<br />

anteriormente mencionadas. Diga-se<br />

de passagem, que estes têm sido<br />

os melhores exemplos da revolução<br />

digital no nosso país, pois facilitaram<br />

a banca e ampliaram vários serviços<br />

financeiros.<br />

Sem perder de vista o facto de estarmos<br />

num País com orçamento<br />

deficitário, nota-se que a disrupção<br />

que se pretende tem, neste aspecto,<br />

um dos maiores obstáculos. É uma<br />

equação difícil…<br />

Ao longo de anos, a formação foi feita<br />

com os mesmos recursos e com os<br />

apoios da comunidade internacional.<br />

Somos signatários do Acordo de Dakar<br />

e temos de ter a consciência que devemos<br />

pautar pela inclusão e não pela<br />

exclusão. Mas a questão que coloca<br />

tem um sentido mais restrito. Teremos<br />

como embarcar para um novo modelo<br />

de formação, sobretudo, desfrutamos<br />

das tecnologias 5G e 6G? Então, a<br />

resposta tem de ser: vamos ajustar os<br />

orçamentos e transformar a base de<br />

aprendizagem.<br />

Deixar que os jovens possam ter acesso<br />

a tecnologias fará deles pessoas<br />

responsáveis pela disrupção no sistema.<br />

Temos de acreditar mais nos jovens<br />

e dar-lhes mais oportunidades.<br />

O ensino superior técnico-profissional,<br />

nos últimos anos, não recebeu novos<br />

ingressos. Este ano, a perspectiva<br />

será de receberem um pouco menos<br />

que 300 jovens em cada sub-sector e<br />

isso será irrisório para essa disrupção<br />

que almejamos.<br />

No nível superior também já se<br />

vem discutindo a transformação<br />

dos modelos de formação introduzindo<br />

rigor na pesquisa científica,<br />

mas a mudança parece lenta…<br />

Admitamos que os progressos e as reformas<br />

curriculares nas instituições<br />

de ensino registaram mudanças significativas.<br />

Porém, estas têm acontecido<br />

de uma forma lenta, hesitante e pouco<br />

ousada. As crises globais de educação,<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />

31


NAÇÃO<br />

“Muitas das universidades moçambicanas ainda formam nos<br />

modelos convencionais. Os grandes desafios assentam na mudança<br />

e na sua adaptação a um ensino mais prático e programático”<br />

com níveis de aprendizagem também<br />

sofridos e a redução nos orçamentos<br />

para o ensino, explicam, em parte,<br />

a lentidão das instituições de ensino<br />

se ajustarem de forma mais rápida e<br />

progressiva às mudanças. No entanto,<br />

a incapacidade financeira dos Estados<br />

e o controlo que exercem sobre a autonomia<br />

das instituições de ensino não<br />

facilitará que este ajuste aconteça como<br />

seria de prever e desejar.<br />

Muitas das nossas universidades ainda<br />

formam nos modelos convencionais.<br />

Os grandes desafios assentam<br />

na mudança e na sua adaptação a um<br />

ensino mais prático e programático.<br />

Uma formação para aquisição de competências<br />

digitais e tecnológicas, mas,<br />

igualmente, humanas.<br />

Dentro da própria academia, o trabalho<br />

também está a sofrer transformações<br />

profundas, muito por<br />

força da pandemia…<br />

O covid-19 tem impactado de formas<br />

diferentes nas várias esferas da economia,<br />

educação e até na nossa postura<br />

familiar e profissional. Vivemos<br />

apavorados e sem certezas do futuro.<br />

Isto aconteceu no mundo com muito<br />

mais vigor do que em Moçambique.<br />

Na academia e na educação, de forma<br />

geral, poderemos concluir que de-<br />

pois de anos de crescimento significativo,<br />

tanto no acesso como no ingresso,<br />

nos diferentes subsistemas de educação,<br />

hoje, vivemos uma era de muitas<br />

incertezas. Verifique que, em pelo menos<br />

160 países do mundo, o sector da<br />

Educação paralisou as suas escolas e<br />

universidades e foi estimado em cerca<br />

de 1,6 biliões, o número de estudantes<br />

que ficou sem a possibilidade de seguir<br />

com as suas lições, como estavam<br />

habituados. A acrescer este número,<br />

tivemos outros seis milhões de professores<br />

que ficaram impossibilitados<br />

de dar a sua contribuição. Em Moçambique,<br />

foram mais de sete milhões de<br />

alunos, de 13 850 escolas paralisadas e<br />

um total de 140 000 professores.<br />

O que vai acontecer?<br />

Afirmar que estamos a reverter este<br />

quadro seria demasiado pomposo.<br />

Afirmar, também, que o ensino à distância<br />

passará a ser o modelo único<br />

não corresponde à verdade. Por um<br />

lado, porque não temos essa educação<br />

visual, por outro, pelo facto de nem todos<br />

terem essa disponibilidade tecnológica.<br />

Mas há ainda um elemento que<br />

não pode ser negligenciado: o custo<br />

das transacções da internet. Em Moçambique<br />

são excessivamente caras e<br />

proibitivas.<br />

Dizer que ocorrem mudanças e que<br />

elas vão pautar-se pela exclusão seria<br />

criminal e irresponsável da nossa<br />

parte.<br />

O que tem de acontecer a curto prazo<br />

é investirmos para que os equipamentos<br />

digitais possam ser montados<br />

ou fabricados no País. As operadoras<br />

precisam de entender que o lucro se<br />

faz com escala, e quantos mais estiverem<br />

a usar os seus serviços, menores<br />

serão os preços e os resultados da facturação<br />

duplicarão.<br />

Mas existem já instituições preocupadas<br />

em alterar o cenário. Da preocupação<br />

até à concretização dos sonhos<br />

vai um longo e árduo caminho e muita<br />

responsabilidade social e corporativa.<br />

Olhando para Moçambique de hoje<br />

e para a velocidade com que o mundo<br />

caminha rumo à 4ª Revolução Industrial,<br />

o que nos reserva o futuro<br />

enquanto país?<br />

Entre os fantasmas do passado e as incertezas<br />

do amanhã, precisamos de<br />

contar com os nossos recursos e saber<br />

dar espaço e oportunidades para<br />

as vozes que melhor conhecem e<br />

entendem.<br />

Precisaremos de hierarquias flexíveis<br />

a todos os níveis, sobretudo nas<br />

posições políticas. Estas lideranças<br />

permitirão outra forma de fazer política,<br />

mobilizar eleitores, etc. Na economia,<br />

elas serão responsáveis pelas novas<br />

estratégias para atrair e reter os<br />

talentos competentes.<br />

32<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


NAÇÃO<br />

ÁFRICA, UM CAMPO DE BATALHA ENTRE<br />

A DIFICULDADE E A OPORTUNIDADE<br />

A experiência africana com rápida disseminação de meios tecnológicos e startups confere vantagens<br />

que animam os analistas, mesmo com a prevalência de problemas estruturais ao nível das economias<br />

Texto Celso Chambisso • Fotografia Shutterstock<br />

l<br />

á fora, nos países desenvolvidos,<br />

a velocidade de mudança<br />

é brutal. As profissões que<br />

mais cresceram – e que já se<br />

previa que crescessem, mas<br />

que foram aceleradas pela<br />

pandemia do novo coronavírus – são<br />

as ′datificadas‛. Os gráficos das pessoas<br />

que estão a ficar fora do mercado de<br />

trabalho indicam que são as que não<br />

estão no contexto tecnológico e que exigem<br />

exposição física.<br />

João Gomes, partner da Jason Moçambique,<br />

não avança números<br />

definitivos, mas observa que o mercado<br />

evoluiu de tal modo que “nas<br />

principais cidades dos Estados Unidos,<br />

por exemplo, o metro quadrado de<br />

escritórios, que há poucos anos era extremamente<br />

caro, já está barato. Isto<br />

porque os escritórios foram literalmente<br />

abandonados e estão vazios.<br />

Isto significa que o elemento físico do<br />

trabalho está a desaparecer”. Esta é<br />

uma lógica comum às economias mais<br />

desenvolvidas e capazes de prover infra-estrutura<br />

tecnológica que permite<br />

a transição (digital) para o trabalho do<br />

futuro. E em África, como estamos?<br />

A pobreza como trampolim<br />

“Fazer das fraquezas forças”. Eis um<br />

lugar comum que encontra, no actual<br />

contexto, um lugar bem particular,<br />

premissa que fica literalmente subentendida<br />

no relatório do Banco Mundial<br />

sobre “O Futuro do Trabalho em África”,<br />

desenvolvido em meados de 2019<br />

por Mark Dutz, Jieun Choi e Zainab Usman.<br />

Ou seja, não obstante o facto de<br />

quase todos os países africanos atravessarem<br />

verdadeiros “desertos” que<br />

os separam deste novo mundo digital,<br />

há condições, e aliás “boas condições”,<br />

para os poder ultrapassar. Será? Vejamos:<br />

No documento, os especialistas<br />

começam por descrever as condições<br />

do continente, obviamente desfavoráveis<br />

à possibilidade de sonhar com<br />

progressos rápidos rumo ao trabalho<br />

do futuro. Caracterizam a África<br />

Subsaariana por uma diversidade de<br />

factores limitativos e, até, impeditivos<br />

da adopção das tecnologias digitais:<br />

Níveis baixos de capital humano para<br />

uma população jovem e em rápido<br />

crescimento; mais de 60% da força de<br />

trabalho composta por adultos mal<br />

equipados; sector informal particularmente<br />

vasto e distinto do de outras regiões<br />

em desenvolvimento em termos<br />

de dimensão e composição; sistemas<br />

de protecção social insuficientes e ineficazes,<br />

com oito em cada dez africanos<br />

sem cobertura por qualquer rede de<br />

segurança social.<br />

Tudo isto, num cenário de disrupção<br />

repentina provocado pela pandemia,<br />

a que se juntam os choques climáticos,<br />

a aceleração da integração económica<br />

e as transições demográficas, criará<br />

necessidades acrescidas de protecção<br />

social.<br />

E o contexto não fica selado sem referir<br />

a fraca rede de infra-estrutura de<br />

34<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


PROFISSÕES DO FUTURO<br />

PREÇO DE INTERNET É FACTOR CRÍTICO<br />

Estudo feito em 2020 mostra que a África Subsaariana está entre as regiões<br />

onde a internet é cara, o que dificulta investimento em iniciativas inovadoras<br />

Preço médio de 1GB/USD<br />

14,71<br />

7,85<br />

7,19 6,91<br />

3,42 3,24 3,13<br />

2,28<br />

2,81<br />

2,06<br />

América<br />

do Norte<br />

Austrália Caribe África Europa<br />

subsaariana Oriental<br />

América<br />

Central<br />

Europa<br />

Ocidental<br />

Ásia Bálticos África do<br />

Norte<br />

suporte tecnológico, que coloca grande<br />

parte do continente entre as zonas do<br />

mundo com a internet mais cara e de<br />

menor qualidade (ver infografia).<br />

…Todo o mérito?<br />

É questionável que, com todos os travões<br />

ao desenvolvimento sobejamente<br />

conhecidos, África possa estar em<br />

condições de dar passos visíveis no<br />

uso dos meios tecnológicos no trabalho,<br />

como sugerem os especialistas do<br />

Banco Mundial, que acreditam num<br />

“futuro do trabalho brilhante”. Como<br />

chegar a este (quase) milagre?<br />

Argumentam que, como a África tem<br />

um menor sector transformador do<br />

que outras regiões, a automação não<br />

é susceptível de deslocar muitos trabalhadores<br />

durante os próximos anos;<br />

a maioria das economias africanas<br />

ainda tem baixos níveis de procura<br />

de produtos que são comuns noutras<br />

partes do mundo, como televisores e<br />

frigoríficos. Por isso, a reduções dos<br />

ÁFRICA TEM INTERNET CARA...<br />

Analisados caso a caso, os países africanos<br />

estão entre os que enfrentam custos altos<br />

de internet (não é o caso de Moçambique).<br />

Cinco estão no ‘Top 10’ de um total de 228<br />

Preço médio de 1GB/USD<br />

MOÇAMBIQUE<br />

CHIPRE<br />

BOTSUANA<br />

YEMEN<br />

Preço médio de 1GB/USD<br />

(Em Megabites/segundo)v<br />

Só dois país africano, a Somália (apesar de<br />

muito pobre) e a Nigéria estão com o custo<br />

de internet que os coloca entre os países<br />

que estão em vantagem neste contexto<br />

Preço médio de 1GB/USD<br />

VELOCIDADE DA INTERNET TAMBÉM CONCORRE NA COMPETITIVIDADE<br />

A qualidade da internet é outra vantagem a ter em conta na corrida às profissões do<br />

futuro. Mais um desafio para África, que carece de mais investimentos neste domínio<br />

RAPIDEZ DA BANDA LARGA…<br />

170,99<br />

Singapura Islândia<br />

Hong<br />

Kong<br />

Coreia<br />

do Sul<br />

Roménia<br />

… OUTROS GOZAM DE VANTAGENS<br />

3,33 23,33 0,09 0,46<br />

13,56 27,22 0,11 0,50<br />

23,87 27,41 0,21<br />

15,98 28,26 0,43<br />

17,75 28,75 0,46<br />

155,25<br />

CHAD<br />

BENIN<br />

MALÁUI<br />

S. TOMÉ E PRÍNCIPE<br />

141,43<br />

117,62<br />

FONTE Cable.co.uk, empresa britânica vocacionada em estudos de internet de banda larga,<br />

109,26<br />

ÍNDIA<br />

ISRAEL<br />

QUIRQUISTÃO<br />

ITÁLIA<br />

… E DA INTERNET MÓVEL<br />

(Em Megabites/segundo)<br />

62,7<br />

Noruega<br />

59,81<br />

Qatar<br />

58,57<br />

CAZAQUISTÃO<br />

SOMÁLIA<br />

SRI LANKA<br />

AUSTRÁLIA BERMUDA<br />

UCRÂNIA NIGÉRIA<br />

FEDERAÇÃO RUSSA<br />

Islândia Singapura<br />

0,51<br />

0,52<br />

2,22<br />

54,94 54,18<br />

Emirados<br />

Árabes<br />

FONTE Site Speedtest (realiza pesquisas periódicas sobre a conexão de dados no mundo)<br />

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<strong>35</strong>


NAÇÃO<br />

As cidades mais importantes da África já receberam investimentos<br />

tecnológicos substanciais, incluindo maior acesso à banda larga móvel<br />

conexões de fibra ótica e ampliação do fornecimento de energia elétrica<br />

preços decorrentes da adopção das<br />

tecnologias são mais susceptíveis de<br />

ajudar as empresas a crescer, criar<br />

mais empregos e produzir produtos<br />

mais acessíveis, na medida em que<br />

possam ser feitos por africanos. Por<br />

fim, as tecnologias concebidas para<br />

satisfazer as necessidades produtivas<br />

dos trabalhadores africanos com uma<br />

educação limitada têm o potencial para<br />

os ajudar a aprender mais e a ganhar<br />

mais.<br />

O Banco Mundial também faz menção<br />

a um estudo recente que mostrou que,<br />

na sequência da chegada da internet<br />

mais rápida à África Subsaariana no<br />

final dos anos 2000 e início dos anos<br />

2010, o aumento da taxa de emprego<br />

foi semelhante para os trabalhadores<br />

com apenas o ensino primário e para os<br />

que tinham um nível de ensino secundário<br />

e superior. “Esta é uma descoberta<br />

optimista”, refere o Banco Mundial.<br />

Optimista é, também, o Fórum Económico<br />

Mundial<br />

Outra pesquisa, a do Fórum Económico<br />

Mundial, aponta África como potencial<br />

beneficiário da 4ª Revolução Industrial.<br />

“As cidades mais importantes<br />

da África já receberam investimentos<br />

tecnológicos substanciais, incluindo<br />

maior acesso à banda larga móvel,<br />

conexões de fibra óptica nas residências<br />

e ampliação do fornecimento de<br />

energia eléctrica. Isso, combinado com<br />

a rápida disseminação dos smartphones<br />

e tablets de baixo custo, permitiu<br />

que milhões de africanos se conectassem<br />

pela primeira vez… E, conforme a<br />

4ª Revolução Industrial se desenrola, a<br />

África está preparada para desenvolver<br />

novos padrões de trabalho”.avança<br />

a organização.<br />

Também introduz o conceito de “trabalho<br />

flexível” (que se executa virtualmente)<br />

como um modelo perfeito<br />

para um continente com uma população<br />

geograficamente diversa e pronta<br />

para trabalhar, uma rede de comunicação<br />

móvel sólida e carência de<br />

infrae-strutura para sustentar os padrões<br />

de trabalho urbano. “Porquê insistir<br />

em grandes escritórios centrais<br />

e trajectos longos se há uma maneira<br />

de aproveitar os talentos do outro lado<br />

do continente? Como alternativa, a<br />

solução pode ser um quadro de colaboradores<br />

distribuído e virtual, com<br />

empresas que integram freelancers<br />

virtuais”, sugere o Fórum Económico<br />

Mundia, sublinhando que “isso já está<br />

a acontecer. Um relatório sobre as<br />

tendências de profissões em África,<br />

nos últimos cinco anos, mostra que o<br />

número de empreendedores aumentou<br />

20%. E o trabalho em plataformas<br />

on-line está a aumentar, permitindo<br />

que muitos desses empreendedores<br />

lancem startups inovadoras que solucionam<br />

problemas do mundo real e<br />

criam empregos”.<br />

Projecções globais são ambiciosas<br />

O tema sobre trabalho futuro carece<br />

de estatísticas actualizadas, mas as<br />

disponíveis podem ajudar, de alguma<br />

forma, a perceber a dimensão do fenómeno.<br />

O relatório com o título “The Future<br />

of Jobs”, publicado em Setembro<br />

de 2018 pelo Fórum Económico Mundial,<br />

dizia que até 2025 as máquinas<br />

desempenharão mais funções do que<br />

os seres humanos no mundo do trabalho.<br />

Porém, não há motivo para alarme,<br />

já que a mesma revolução tecnológica<br />

que colocará os robots em tarefas,<br />

que antes pertenciam a pessoas, criará<br />

58 milhões de novos empregos.<br />

Hoje, com a pandemia do novo coronavírus,<br />

estes números seguramente<br />

carecem de actualização, mas não<br />

deixam dúvidas sobre a grande mudança<br />

que o mundo está prestes a<br />

testemunhar.<br />

36<br />

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MERCADO E FINANÇAS<br />

BANCO CENTRAL.<br />

HERÓI OU VILÃO<br />

DA ESTABILIDADE?<br />

A recente subida das taxas directoras levou o<br />

Banco Central ao “banco dos réus” onde se expõem<br />

os méritos e fragilidades das suas políticas. Uns<br />

condenam, outros ilibam. De que lado está a razão?<br />

o<br />

banco de moçambique tem estado debaixo de<br />

′fogo cruzado‛ depois da crise de 2016 que se<br />

seguiu à descoberta das dívidas que viriam<br />

a ser declaradas soberanas. Com a responsabilidade<br />

de estabilizar o valor do metical e<br />

das taxas de juro, manter a inflação baixa e<br />

estável, entre outros, as suas intervenções nem sempre<br />

geraram consenso entre os bem-entendidos em economia<br />

enquanto ciência. A principal queixa é a de que o Banco<br />

Central é excessivamente perseguidor da inflação baixa,<br />

que até deixa escapar do seu controlo outras variáveis como<br />

as taxas de câmbio e de juro do mercado.<br />

Em finais de Fevereiro passado, a postura do banco regulador<br />

voltaria a estar no centro de um debate sob o lema<br />

“Política Monetária em Moçambique no Contexto de Crise”,<br />

no qual participaram economistas nacionais de renome.<br />

O pretexto para a realização do debate não foi revelado,<br />

mas não será demasiado ousado imaginar, e até afirmar,<br />

que se prende com o mais recente aumento da taxa de juro<br />

de política, a taxa MIMO, em 300 pontos base, de 10,25% para<br />

13,25%. Embora devidamente justificada pelo Banco de<br />

Moçambique, a medida está a gerar protestos do empresariado,<br />

que verá a sua dívida no sector financeiro a aumentar<br />

num cenário de abrandamento da actividade económica<br />

imposto pela pandemia. A maior parte dos economistas<br />

também acredita haver erros na postura do Banco de Moçambique<br />

(BM), mas há quem defenda haver sobriedade<br />

na forma como este escolhe e mexe nos instrumentos de<br />

gestão da política monetária. Comecemos mesmo por aqui.<br />

Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.<br />

BM pode estar no bom caminho<br />

O economista Fáusio Mussá, especialista na leitura dos indicadores<br />

macroeconómicos e suas tendências, recorre à<br />

experiência das crises anteriores para concordar com o<br />

agravamento das taxas de juro, medida que considera que<br />

pode contribuir para ajustar a inflação. Como?<br />

Lembra que, em 2016, quando o País vivia a crise das dívidas<br />

ocultas, “o BM elevou de imediato as taxas de juro porque<br />

se antecipava um choque da balança de pagamentos<br />

em resposta à redução do apoio externo. Embora a medida<br />

tenha levado à redução do crescimento económico, houve<br />

uma diminuição substancial das importações de modo<br />

que, em 2017, a balança de pagamentos se estabilizou, traduzindo-se<br />

numa relativa estabilidade cambial e da inflação.<br />

Em resultado disso, a taxa MIMO baixou de 21,75% em<br />

2017 para 10,25% em 2020. Ou seja, o Banco Central adoptou<br />

uma política monetária menos restritiva em resposta<br />

a uma situação em que as pressões à economia quase que<br />

se tinham dissipado e era possível viver num ambiente de<br />

inflação mais ou menos previsível”, explicou o economista.<br />

E acrescentou: “acredito que desta vez o BM está a olhar<br />

para algumas dinâmicas próprias da economia moçambicana.<br />

Por exemplo, sempre que há uma depreciação cambial<br />

(como aconteceu nos últimos meses), há um aumento<br />

da inflação, e quando o metical recupera a inflação também<br />

baixa”, argumentou. Ou seja, o BM procura, no fim das<br />

contas, travar a escalada do nível geral de preços limitan-<br />

38<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


POLÍTICA MONETÁRIA<br />

JUROS, A ORIGEM DA CRÍTICA<br />

O primeiro agravamento que o Banco Central efectua na taxa MIMO<br />

acaba por desencadear debates acesos sobre a eficácia da medida<br />

Em %<br />

21,75<br />

15,75<br />

15<br />

14,25<br />

13,25<br />

11,25 10,25<br />

13,25<br />

Abr<br />

2017<br />

Jun<br />

2018<br />

Ago<br />

2018<br />

Dez<br />

2018<br />

Jun<br />

2019<br />

Abr<br />

2020<br />

Jun<br />

2020<br />

Jan<br />

<strong>2021</strong><br />

RESERVAS ACUMULADAS. QUE PAPEL?<br />

O aumento das Reservas Internacionais vai deixando dúvidas quanto<br />

aos seus efeitos: afinal, vai travar a inflação ou depreciar o metical?<br />

Em milhões USD<br />

3921<br />

3900<br />

4000<br />

3912<br />

3893<br />

4081<br />

Fev<br />

2020<br />

Mai<br />

2020<br />

Jul<br />

2020<br />

Set<br />

2020<br />

Nov<br />

2020<br />

Jan<br />

<strong>2021</strong><br />

BAIXA INFLAÇÃO. QUAL É A ESSÊNCIA?<br />

A inflação média anual segue baixa desde 2020, o que para alguns<br />

economistas não justifica que se tenha agravado a taxa MIMO. Será?<br />

Em %<br />

3,02<br />

2,75<br />

2,98<br />

3,2<br />

3,27<br />

3,52<br />

2,19<br />

Mai<br />

2020<br />

Ago<br />

2020<br />

Set<br />

2020<br />

Out<br />

2020<br />

Nov<br />

2020<br />

Dez<br />

2020<br />

Jan<br />

<strong>2021</strong><br />

FONTE Banco de Moçambique e INE<br />

do a quantidade de dinheiro no sistema (política restritiva).<br />

Mussá explicou ainda que, no ano passado, a inflação se<br />

manteve baixa apesar da depreciação cambial, o que se<br />

explica pelo facto de o preço do petróleo se ter mantido baixo<br />

evitando o agravamento do custo dos combustíveis em<br />

Moçambique, além do facto de o Governo ter tomado um<br />

conjunto de medidas para aliviar o aumento do custo de alimentos<br />

e electricidade, levando a que o ano fechasse com<br />

uma inflação anual de 3,5%.<br />

“Em Janeiro deste ano, a inflação subiu para 4,1% e, olhando<br />

para os vários elementos que compõem o Índice de Preços<br />

ao Consumidor, o preço do cabaz dos alimentos aumentou<br />

mais de 9%, o que pode estar a indicar que brevemente<br />

pode registar uma subida acima de um dígito, constituindo<br />

uma preocupação para o Banco Central e eu posso compreender,<br />

por isso, a razão do aumento das taxas de juro”,<br />

reiterou, revelando estar alinhado com os princípios do BM.<br />

O outro lado… o dos erros do BM<br />

Afinal, a postura do regulador é questionável! A maioria<br />

dos economistas faz um levantamento infindável de imprecisões<br />

na sua política. Tal como os empresários, este grupo<br />

de economistas não encontra fundamento válido para<br />

que o BM tenha agravado a taxa MIMO em 300 pontos base,<br />

e acaba por colocar em causa os resultados que se pretendem,<br />

não só em relação à variação das taxas de juro, como<br />

sobre todos os instrumentos que o BM mexe no exercício<br />

das suas competências.<br />

A (in)utilidade da taxa MIMO<br />

O economista Roberto Tibana, pesquisador com larga experiência<br />

em assuntos de política monetária, é das vozes que<br />

criticam o BM. Tibana começa por questionar a utilidade da<br />

taxa MIMO enquanto instrumento com mérito para emitir<br />

sinais à economia. “Tenho dúvidas sobre isso, embora<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />

39


MERCADO E FINANÇA<br />

“A acumulação das Reservas Internacionais<br />

pode ser resultado de uma postura mais<br />

cautelosa por parte do BM”, Fáusio Mussá<br />

esteja ainda a fazer um trabalho de casa para verificar este<br />

aspecto”, disse Tibana, para quem há pelo menos um instrumento<br />

que tem sido muito sério no conjunto dos instrumentos<br />

de política monetária, e que alimenta a sua dúvida:<br />

a taxa de Reservas Obrigatórias (RO), actualmente fixada<br />

em cerca de 37%. Segundo o economista, o papel das RO<br />

é o de diminuir a quantidade de dinheiro que os bancos comerciais<br />

podem dar por empréstimo (ou seja, os bancos são<br />

obrigados a reservar 37% dos depósitos diários de clientes<br />

no Banco Central) o que, para Roberto Tibana, “é extremamente<br />

duro para a economia, já que Moçambique é um dos<br />

países que tem a taxa de Reservas Obrigatórias mais altas<br />

em África e no mundo. Dos pouquíssimos países que usam<br />

este instrumento com tanta violência”.<br />

Segundo o economista, mais do que a taxa MIMO, “as RO são<br />

o instrumento de política que tem impacto mais directo na<br />

capacidade de os bancos comerciais oferecerem crédito à<br />

economia porque estes têm de mobilizar grandes volumes<br />

de depósitos a uma certa taxa de juros de depósitos (junto<br />

ao Banco Central). E quanto menos puderem emprestar<br />

o volume de crédito que mobilizam, maior é a taxa de juro<br />

que têm de aplicar para com os seus clientes para compensar<br />

os custos”, observou o economista, sublinhando que<br />

o instrumento que obriga os bancos comerciais a praticarem<br />

certo nível de taxas de juro do mercado é a taxa de<br />

Reservas Obrigatórias e não a taxa MIMO. Tibana suspeita<br />

ser esta contradição que está na origem da lentidão na redução<br />

das taxas de retalho quando o BM reduz a taxa MI-<br />

MO e outros sinais da política monetária.<br />

Regras contraditórias<br />

Tratava-se, na verdade, de um webinar moderado pelo<br />

economista João Mosca, conhecido pela sua postura crítica<br />

sobre como os decisores, sejam quais forem, têm estado<br />

a conduzir os destinos do País. Por um instante, Mosca<br />

não se conformou em apenas passar a palavra e tomou-<br />

-a ele próprio.<br />

Na sua intervenção, o economista revelou haver fortes incongruências<br />

na utilização dos instrumentos da política<br />

monetária. “Por exemplo, ao mesmo tempo que se elevam<br />

as taxas de juro, faz-se depreciar a moeda nacional sabendo-se<br />

que uma parte significativa da inflação é provocada<br />

pelas importações, sobretudo de bens alimentares. Por um<br />

lado, procura-se travar a inflação através do aumento das<br />

taxas de juro e, por outro, faz-se deslizar o câmbio provocando<br />

inflação”, observou.<br />

João Mosca também considera discutível tentar travar a<br />

inflação ao nível em que está actualmente (baixa), numa<br />

economia em recessão. Ou seja, o Banco Central faz exactamente<br />

o contrário do que a teoria económica recomenda,<br />

e que defende que, em situação de recessão, a política monetária<br />

deve ser expansiva, e vice-versa. “Deixar subir a<br />

inflação até ao nível de 8% a 10% em situação de crise não<br />

me parece tão grave, mesmo por se tratar de uma inflação<br />

localizada em alguns sectores da economia sobre os quais<br />

é possível aplicar medidas monetárias que façam reduzir<br />

a inflação quando se restabelecer a estabilidade económica”,<br />

concluiu.<br />

Interpretação distorcida dos fenómenos<br />

Incidindo sobre a relação entre a política monetária e a<br />

dinâmica da exploração da indústria extractiva, a economista<br />

Inocência Mapisse começou por lembrar que, apesar<br />

do desempenho negativo do sector extractivo no ano<br />

passado, verificaram-se alguns eventos positivos, nomeadamente<br />

a retoma das perfurações de pesquisa em<br />

mar pela ENI, após uma paralisação de oito meses – a Decisão<br />

Final de Investimento (DFI) para o projecto da Sasol<br />

em Inhambane avaliado em 760 milhões de dólares.<br />

A economista entende que tais eventos seriam a oportunidade<br />

que o BM deveria aproveitar para cortar a taxa<br />

MIMO, e não para fazer o contrário. Ou seja, poder-se-<br />

40<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


RESERVAS, O OUTRO PONTO DA DISCÓRDIA<br />

No ano passado, o Banco Central foi acumulando Reservas<br />

Internacionais e neste momento estão ao nível de 4 mil<br />

milhões de dólares, um máximo histórico. Enquanto<br />

Fáusio Mussá defende que a acumulação das Reservas<br />

Internacionais pode ser resultado de uma postura mais<br />

cautelosa na gestão da política monetária por parte do BM<br />

(face aos riscos impostos pelo covid-19, a insegurança e<br />

o aumento do preço das commodities), Roberto Tibana<br />

entende que os manuais de política cambial ensinam que<br />

ao acumular reservas internacionais retira-se a quantidade<br />

de moeda estrangeira que se oferece à economia e, por<br />

isso, cria-se uma situação de aumento das taxas de cambio<br />

de moeda nacional. “A política de Reservas Internacionais é,<br />

provavelmente, um dos factores que está a levar a uma mais<br />

acelerada depreciação do metical”, indicou, para depois<br />

questionar: “quais são os parâmetros tomados em conta<br />

para determinar o nível de Reservas Internacionais? Temos,<br />

antes, de ver a capacidade de importação por salvaguardar<br />

com esta política, lembrando que a necessidade de<br />

importações das PME é muito menor do que as dos grandes<br />

projectos”, explicou. Tibana defende que é preciso tentar<br />

perceber se não haverá espaço para aprimorar a gestão das<br />

reservas internacionais.<br />

-ia entender que, por exemplo, com a DFI a economia terá<br />

maior disponibilidade de divisas que podem reduzir a<br />

procura de divisas e, consequentemente, o seu repasse para<br />

a inflação. Mas ocorre o contrário: por exemplo, o Banco<br />

Central refere que uma das razões para o aumento da taxa<br />

MIMO é a contenção da inflação, sem se dar conta que os<br />

eventos do sector extractivo (já citados) podem ajudar a conter<br />

a inflação sem ser necessário aumentar as taxas de juro.<br />

Além disso, avançou a economista, o BM acaba por ser contraditório<br />

quando assume que é preciso trazer instrumentos<br />

para garantir bom ambiente de negócios numa altura<br />

em que ele mesmo decide aumentar as taxas de juro de política<br />

monetária. “Assim, estamos a caminhar para uma situação<br />

em que não se está a proteger o ambiente de negócios,<br />

de um modo geral, e não se está a dotar o sector privado<br />

de capacidade para responder a demanda do sector extractivo”,<br />

criticou Inocência Mapisse.<br />

Nem os resultados geram consenso!<br />

Também interveio Roque Magaia, economista da Confederação<br />

das Associações Económicas (CTA), a defender que eso<br />

Banco Central tem tomado medidas imprevisíveis, mesmo<br />

sendo gestor de instrumentos que sinalizam o mercado,<br />

acabando por agredir os agentes económicos. Por exemplo,<br />

no caso da taxa MIMO, os sinais emitidos pelas perspectivas<br />

de uma inflação baixa e estável não faziam antever<br />

um agravamento na dimensão de 300 pontos base.<br />

Em resposta, Fáusio Mussá, reiterando haver mérito do BM,<br />

informou que a decisão do Banco de Moçambique já começou<br />

a produzir pelo menos um efeito do ponto de vista cambial:<br />

na última quinzena de Fevereiro, o Standard Bank recebeu<br />

várias chamadas de investidores externos que, ao<br />

se aperceberem que as taxas de juro da dívida moçambicana<br />

se tornaram atractivas, fizeram aplicações nesta dívida.<br />

E a entrada de divisas na compra da dívida melhorou<br />

a liquidez levando à apreciação da moeda.<br />

Mas Tibana rebateu: “As políticas do Banco Central acomodam<br />

a indisciplina fiscal, pelo elevado grau de desconexão<br />

com as do Ministério das Finanças”.<br />

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41


OPINIÃO<br />

Depois do aumento das taxa de juro,<br />

o metical começa a dar sinais de retoma<br />

Líria Nhavotso • Directora da Tesouraria e Mercado de Capitais do Banco BIG<br />

no final do passado mês de janeiro, o Banco de<br />

Moçambique (BdM) surpreendeu o mercado<br />

com a decisão de subida das principais taxas de<br />

referência em 300 pontos base (pb), alterando<br />

a estratégia de política monetária que vinha<br />

a ser implementada desde meados de 2017.<br />

Recuando uns anos, desde finais de 2016, o BdM tem vindo a<br />

implementar um conjunto de alterações e reformas, com o<br />

intuito de modernizar os instrumentos de política monetária<br />

utilizados para atingir os seus objectivos primários, de preservação<br />

do valor da moeda nacional e o controlo da inflação.<br />

No quadro destas reformas, foi adoptada, em Abril de 2017,<br />

uma taxa de juro de política monetária (MIMO), que serve<br />

de referência para os empréstimos no mercado interbancário.<br />

A introdução da MIMO, para além de sinalizar ao mercado,<br />

de forma clara, a política monetária do Banco Central,<br />

promove também uma maior transparência no processo de<br />

fixação das taxas de juros de mercado. A MIMO “nasceu” a<br />

21,75% e desde então, com a estabilização do câmbio, o BdM<br />

foi reduzindo esta taxa de forma progressiva e controlada,<br />

acompanhando a queda da inflação, e contribuindo assim<br />

para os esforços de retoma do crescimento económico do País.<br />

Esta tendência de descida da MIMO atingiu o seu nível mais<br />

baixo em Junho de 2020, na sequência das medidas tomadas<br />

para combater os efeitos da pandemia, com o CPMO a reduzir<br />

esta taxa em 150 pb em Abril e 100 pb em Junho, passando de<br />

12,75% para 10,25%.<br />

O ano de 2020 ficará certamente na memória de todos. Nesta<br />

altura, há sensivelmente dois anos, Moçambique era atingido<br />

por um dos maiores desastres naturais ocorridos recentemente<br />

em África, e, numa altura em que o País se preparava<br />

para uma retoma económica, começavam a conhecer-se<br />

as consequências reais de uma pandemia que rapidamente<br />

se alastrou por todo o Mundo. O abrandamento severo e generalizado<br />

da actividade económica, como consequência das<br />

medidas de contenção para mitigar a propagação da pandemia<br />

da Covid-19, motivou a adopção de políticas monetárias<br />

expansionistas por praticamente todos os bancos centrais a<br />

nível global, quer através de cortes nas suas taxas directoras<br />

quer através de intervenções directas no mercado de capitais.<br />

Estas medidas foram acompanhadas por pacotes de estímulos<br />

e alívios fiscais por parte dos Governos, com o objectivo<br />

de assegurar a sobrevivência das empresas e dos empregos,<br />

e estimular economias que começavam a entrar em recessões<br />

profundas. Moçambique não foi excepção e o Banco de<br />

Moçambique optou por cortar as suas taxas de juro de referência,<br />

criando um estímulo monetário e tentando evitar a<br />

deterioração das condições do sistema financeiro...<br />

Contudo, estas medidas tiveram alguns impactos colaterais,<br />

sendo de destacar a evolução do Metical, que encerrou 2020<br />

com fortes desvalorizações contra as principais moedas internacionais.<br />

Com efeito, este movimento foi semelhante ao<br />

de outras economias emergentes, motivado pela descida da<br />

procura e do preço das commodities, e o efeito adicional em<br />

Moçambique de redução da entrada de divisas resultante de<br />

um menor fluxo de investimento estrangeiro.<br />

Esta desvalorização significativa da moeda nacional, com<br />

principal incidência na segunda metade do ano passado, rapidamente<br />

se reflectiu numa tendência de subida dos preços,<br />

principalmente nos bens importados. Segundo o INE, a inflação<br />

homóloga, em Fevereiro, já atingiu os 5,1%, com os preços<br />

dos alimentos e bebidas não alcoólicas a observarem uma variação<br />

homóloga de 11,5%. Com esta sequência de eventos, e<br />

procurando mitigar os efeitos nefastos da desvalorização nos<br />

preços, bem como acautelar os riscos e incertezas associados<br />

com a propagação da pandemia, dos desastres naturais e a<br />

instabilidade militar no norte do País, o Banco de Moçambique<br />

tomou uma decisão arrojada de subida das taxas de juro.<br />

Com esta decisão, o Banco de Moçambique tornou-se o primeiro<br />

Banco Central, a nível mundial, a aumentar as taxas de juro<br />

desde a eclosão da pandemia. Esta medida, em conjunto com<br />

uma gestão flexível das reservas internacionais, teve um impacto<br />

quase imediato no Metical, que começa a mostrar sinais<br />

de recuperação face às principais moedas internacionais. É<br />

expectável que o Banco Central mantenha uma postura restritiva,<br />

com a manutenção das taxas aos níveis actuais, podendo<br />

ainda decidir novos aumentos, caso necessário, de modo a<br />

controlar e alcançar os objectivos de inflação.<br />

Para mitigar os efeitos nefastos da desvalorização nos preços, acautelar os riscos associados<br />

com a pandemia, etc., o Banco Central tomou a decisão arrojada de subida das taxas de juro<br />

42<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


17


POWERD BY<br />

EspecialInovação<br />

46 CLIMA<br />

África é dos pontos do mundo<br />

mais expostos aos efeitos das<br />

mudanças climáticas, que<br />

se sobrepõem ao deficiente<br />

saneamento do meio. Conheça<br />

interessantes iniciativas<br />

inovadoras em curso para<br />

tentar resolver a situação.<br />

51 53<br />

PERTENCE<br />

A iniciativa que indica onde<br />

buscar finanças para investir<br />

52 OPINIÃO<br />

Um olhar sobre a importância<br />

do design nos negócios<br />

PANORAMA<br />

As notícias da inovação em<br />

Moçambique, África e no Mundo


HEALTH-TECHS<br />

46<br />

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POWERED BY<br />

Os desafios das Megacidades<br />

de África<br />

Face às Mudanças<br />

Climáticas<br />

Com sérios problemas de saneamento do meio, as cidades africanas têm se<br />

debatido com enormes dificuldades de os solucionar. Afinal, quando foram<br />

projectadas não se equacionavam eventos que hoje experimentam, desde a<br />

pressão populacional até às mudaças climáticas<br />

TEXTO Rui Trindade • FOTOGRAFIA D.R.<br />

Com os seus 24 milhões de habitantes,<br />

Lagos, na Nigéria, é<br />

uma das grandes mega-cidades<br />

de África. E as projecções<br />

mais recentes indicam que essa<br />

população irá continuar a crescer até<br />

ao final deste século. Se a gestão urbana já<br />

hoje é considerada caótica e disfuncional<br />

ao extremo, os especialistas temem que a<br />

contínua pressão demográfica que se perspectiva<br />

venha a tornar a cidade ingovernável.<br />

A não ser que medidas radicais venham<br />

a ser implementadas.<br />

Durante a epóca das chuvas, a cidade fica<br />

praticamente intransitável. Isso deve-<br />

-se, em grande parte, à incapacidade para<br />

lidar, de forma eficiente, com as 10 mil<br />

toneladas de lixo produzidas todos os dias<br />

Um exemplo do tipo de projectos que estão a ser<br />

avaliados... designa-se “arquitectura flutuante”<br />

e que acabam por impedir o escoamento<br />

das águas inundando vastas zonas de Lagos.<br />

Este problema crónico pode vir a agravar-se<br />

substancialmente com o processo<br />

da mudança climática em curso. Embora<br />

os estudos indiquem que as chuvas tenderão<br />

a ser menos frequentes nas próximas<br />

décadas, a sua intensidade, porém, será<br />

muito mais elevada e violenta. Para complicar<br />

ainda mais a situação, os mesmos<br />

estudos sublinham que, se o aquecimento<br />

global for além dos dois graus centígrados,<br />

a subida das águas costeiras ultrapassará,<br />

em 2100, os 90 centímetros inundando<br />

partes da cidade de forma definitiva<br />

(uma situação que ameaça igualmente,<br />

entre outras, cidades como Accra, no Gana,<br />

Durban, na África do Sul, Luanda, em<br />

Angola, e Maputo, em Moçambique).<br />

Antecipando a possibilidade de um cenário<br />

deste tipo se materializar, as autoridades<br />

têm vindo a considerar vários tipos<br />

de soluções cujo foco se centra sobretudo<br />

em encontrar formas de mitigar o impacto<br />

das mudanças climáticas e adaptar<br />

o território à nova realidade em perspectiva.<br />

Um exemplo do tipo de projectos<br />

que estão a ser avaliados enquadra-<br />

-se no que se pode designar de “arquitectura<br />

flutuante”e tem tomado, como ponto<br />

de partida, o bairro de Makoko. Conhecido<br />

como a “Veneza de África”, o Makoko<br />

é uma gigantesca e labiríntica favela flutuante<br />

cujas habitações assentam em palafitas,<br />

sendo que a circulação se faz usando<br />

canoas. Foi no Makoko que, há alguns<br />

anos, o arquitecto Kunlé Adeyemi concebeu<br />

o protótipo de uma “escola flutuante”<br />

(The Makoko Floating School) cujo design,<br />

original e inovador, se tornou rapidamente<br />

num modelo de referência enquanto solução<br />

para outras cidades costeiras. Réplicas<br />

foram testadas inclusive em cidades europeias<br />

como Veneza (Itália) e Brugges (Bélgica).<br />

E, mais recentemente, em Cabo Verde,<br />

no Mindelo, Kunlé Adeyemi concebeu,<br />

no âmbito da iniciativa African Water Cities<br />

Project, desenvolvida pelo seu atelier<br />

de arquitectura, uma estrutura flutuante<br />

semelhante à projectada no Makoko. Apesar<br />

de a “escola flutuante” do Makoko ter<br />

sido afectada gravemente pelos temporais<br />

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AGRITECHS<br />

de 2016, obrigando a uma revisão do modelo,<br />

o conceito está a servir de base para<br />

imaginar outras aplicações similares. E<br />

levou a que, na sua esteira, as autoridades<br />

tenham dado prioridade à dinamização de<br />

projectos de circulação fluvial enquanto<br />

alternativa à rodoviária. Nos últimos anos<br />

foram criadas 42 “linhas urbanas” de embarcações<br />

ligando várias zonas da cidade.<br />

Mas, para além desta iniciativa municipal,<br />

as autoridades incentivaram também<br />

os privados a intervir. Assim, por exemplo,<br />

em 2019, a Uber arrancou com um serviço,<br />

o Uber Boats, constituído por embarcações<br />

velozes, que permitem um acesso rápido<br />

a vários pontos de Lagos.<br />

Outras iniciativas – desde o combate à erosão<br />

e a construção de protecções costeiras<br />

ao desenvolvimento de apps, como a<br />

Flood Mobile App, que dá informação em<br />

tempo real sobre a iminência de possíveis<br />

inundações – fazem parte de um conjunto<br />

alargado de projectos que procuram não<br />

apenas evitar que Lagos se “afunde”, mas<br />

que sejam capazes de dotar a cidade de estratégias<br />

de resiliência face à mudança climática<br />

e abram caminho a modelos de desenvolvimento<br />

sustentável.<br />

A maior transformação do<br />

século XXI<br />

O caso de Lagos ilustra bem os grandes<br />

desafios que se colocam ao continente<br />

africano. De acordo com o Banco Mundial,<br />

a urbanização será “a transformação<br />

mais importante que o continente africano<br />

passará neste século”, estimando que,<br />

até 2040, mais de metade da população viverá<br />

em cidades. Uma das consequências<br />

desta evolução é que mais nove mega-cidades<br />

irão surgir (cada uma com mais de<br />

dez milhões de habitantes). Por seu turno,<br />

as maiores cidades continuarão a crescer<br />

prevendo-se que as três maiores serão<br />

Kinshasa, com <strong>35</strong> milhões de habitantes,<br />

Lagos, com 32 milhões e o Cairo com<br />

24 milhões.<br />

Esta realidade coloca desafios de uma escala<br />

sem precedentes e obrigará todos os<br />

actores envolvidos (governos, investidores,<br />

planeadores urbanos, designers, arquitectos,<br />

etc.) a encontrar não só respostas<br />

aos problemas já existentes como a encontrar<br />

soluções inovadoras que levem em<br />

conta as mudanças climáticas. De acordo<br />

com o Fórum Económico Mundial, África<br />

precisará de investir, até 2050, entre 130<br />

48<br />

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POWERED BY<br />

a 170 biliões de dólares anualmente para<br />

resolver as suas necessidades básicas em<br />

termos de infra-estruturas. Só assim será<br />

possível garantir aos 1,3 biliões de cidadãos,<br />

que viverão em zonas urbanas, condições<br />

mínimas de dignidade (recorde-se<br />

que, de acordo com dados recentes, 60%<br />

da população urbana no continente vive<br />

ainda em favelas sem condições mínimas<br />

de salubridade e acesso a água potável).<br />

Mas a intervenção ao nível das infra-estruturas<br />

não dispensa, desde já, uma ponderação<br />

sobre o efeito das mudanças climáticas<br />

de modo a que esta intervenção esteja<br />

em linha com as necessidades de resiliência<br />

e sustentabilidade indispensáveis.<br />

Nesta perspectiva, as múltiplas iniciativas<br />

actualmente em curso podem ser divididas,<br />

genericamente, entre aquelas que estão<br />

apostadas em intervir no contexto das<br />

mega-cidades existentes e as que procuram<br />

desenvolver, de raiz, novos espaços<br />

urbanos. No que toca a este último tipo<br />

de opção, um dos casos mais referidos é o<br />

da “eco-cidade” de Zenata, em Marrocos,<br />

que deverá estar operacional em 2023. No<br />

mesmo sentido, o projecto Future Cities<br />

Africa - criado no âmbito do programa Cities<br />

Alliance que junta, entre outras entidades,<br />

a agência das Nações Unidas, UNOPS,<br />

a multinacional Arup, especializada em<br />

consultoria urbana estratégica, e o Departamento<br />

para o Desenvolvimento Internacional,<br />

do Reino Unido – tem estado a estudar<br />

o desenvolvimento de “cidades secundárias<br />

estratégicas e regionais” em vários<br />

países africanos (Gana, Etiópia, Uganda,<br />

etc.) que funcionem como modelos de<br />

zonas urbanas resilientes e sustentáveis.<br />

Em contraste com intervenções deste tipo,<br />

o Instituto de Arquitectura Experimental<br />

da Bauhaus Universitat Weimer tem vindo<br />

a trabalhar com o Instituto Etíope de Construção<br />

de Edifícios e Desenvolvimento de<br />

Cidades sobre o problema da hiperurbanização<br />

da capital etíope e procurado um<br />

outro ângulo de abordagem.<br />

O programa em desenvolvimento passa,<br />

para já, pela construção de três protótipos<br />

residenciais em Addis Ababa. Em vez<br />

de seguir os modelos dominantes na Europa<br />

e no Norte Global, estes protótipos procuram<br />

tirar proveito dos métodos de construção<br />

indígenas, de tecnologias de construção<br />

e uso de materiais tradicionais para<br />

criar estruturas espaciais social e ambien-<br />

retêm o calor, elevam a temperatura nas cidades<br />

e reduzem o lençol freático. O tratamento<br />

dos resíduos urbanos é outro dos<br />

grandes problemas. A falta de gestão eficaz<br />

dos resíduos, na maioria das cidades,<br />

ajuda a gerar emissões de gases de efeito<br />

estufa nos aterros existentes. Com a crescente<br />

urbanização, o volume de lixo aumentará<br />

e as emissões de gases de efeito<br />

de estufa também. Apesar deste quadro, e<br />

independemente da urgência na adopção<br />

de soluções estruturantes, um relatório<br />

da FAO sublinhava, recentemente, a necessidade,<br />

por exemplo, de apoiar a horticultura<br />

urbana e periurbana como forma<br />

de contribuír para “criar cidades mais<br />

verdes na África”.<br />

Para além de sublinhar a importância desta<br />

tradição “local” no que toca à “segurança<br />

alimentar” das populações (sobretudo<br />

tendo em atenção as futuras “pandemias<br />

climáticas” que se perspectivam), “a horticultura<br />

cria cinturões verdes, que protegem<br />

áreas frágeis, contêm a expansão urbana<br />

e aumentam a resiliência à mudança<br />

climática”. E refere também que “ao reduzir<br />

a necessidade de transportar produtos das<br />

áreas rurais, gera poupança de combustível<br />

e menos poluição do ar”.<br />

O relatório da FAO faz um levantamento<br />

exaustivo da situação no continente mostrando<br />

como a “agricultura urbana”, que<br />

tem uma expressão significativa em todos<br />

os países do continente, pode constituír<br />

uma “base” relevante para fazer mitigar<br />

muitos problemas ambientais. Esta abordagem<br />

está, de algum modo, em linha com os<br />

A falta de gestão eficaz dos resíduos ajuda a gerar<br />

emissões de gases de efeito estufa<br />

talmente robustas, abertas e flexíveis. Embora<br />

projectado para Addis Abeba, onde<br />

80% da população urbana vive em favelas,<br />

o exercício arquitectónico tem um desígnio<br />

mais amplo: o de dar corpo a uma tipologia<br />

de construção que sirva de referência<br />

para todo o continente e tenha como linha<br />

mestra a recuperação de um saber-fazer<br />

e de um tipo de materiais, que podem<br />

vir a demonstrar ser mais apropriados às<br />

necessidades do continente.<br />

Cidades Inteligentes e Cidades<br />

Ecológicas<br />

Um grande números de cidades africanas<br />

tem configurações “ecologicamente incorrectas”<br />

que comprometem a sua resiliência<br />

à mudança do clima. A falta de vegetação<br />

e o uso de materiais de construção que<br />

que defendem, em alternativa às “cidades<br />

inteligentes” (smart cities), modelos de “cidades<br />

ecológicas” que se inspiram no modo<br />

de funcionamento da natureza e apostam<br />

na utilização da vegetação como elemento<br />

principal (fachadas verdes, jardins de chuvas,<br />

hortas urbanas, etc.). Os benefícios são<br />

claros: regulação hídrica e drenagem urbana,<br />

melhoria do conforto térmico e do microclima<br />

urbano, aumento da biodiversidade,<br />

sequestro de CO2 e outros poluentes,<br />

etc. Mas, como notam vários especialistas,<br />

os dois tipos de abordagens (cidades inteligentes/cidades<br />

ecológicas) não são concorrentes,<br />

mas sim complementares. Face<br />

ao desafio monumental que as mudanças<br />

climáticas implicam haverá, acima de tudo,<br />

de fazer as melhores escolhas perante cada<br />

contexto específico.<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />

49


anking<br />

50<br />

www.economiaemercado.co.mz | Fevereiro <strong>2021</strong>


POWERED BY<br />

pertence<br />

Fazer Negócio<br />

Facilitando Finanças<br />

a Outros Negócios<br />

A Pertence é uma solução digital que pretende divulgar e agregar várias<br />

iniciativas tecnológicas ao mercado para despertar o interesse dos<br />

investidores em apostar nelas<br />

TEXTO Hermenegildo Langa • FOTOGRAFIA Mariano Silva<br />

Há pouco tempo, Moçambique<br />

era um país onde falar<br />

de fintech ou start-up<br />

não era tão comum quanto<br />

acontece actualmente, visto<br />

que o sucesso das iniciativas de investimentos<br />

não dependia, essencialmente, de<br />

meios tecnológicos. Hoje, a inovação tecnológica<br />

e o empreendedorismo fazem o<br />

par perfeito que cria condições para uma<br />

resposta efectiva à necessidade de conferir<br />

eficiência aos processos produtivos. Trata-<br />

-se de uma tendência que veio a ser acelerada<br />

pela pandemia do covid-19, que ocasionou<br />

um aumento sem precedentes da<br />

procura por serviços financeiros online.<br />

A oportunidade de negócio neste campo,<br />

também cresceu e conta com um número<br />

cada vez maior de operadores. Mas, nesta<br />

edição, vamos falar da Pertence, uma empresa<br />

moçambicana provedora de soluções<br />

digitais e que pretende impulsionar o<br />

mercado das fintech.<br />

Com apenas um ano no mercado, o projecto<br />

veio dar resposta a uma forma alternativa<br />

de financiamento às outras soluções<br />

tecnológicas que estejam em fase<br />

inicial. “A Pertence é uma plataforma online<br />

e digital de financiamento colectivo,<br />

um financiamento em que qualquer pessoa<br />

ou empresa pode comparticipar financeiramente<br />

para apoiar o seu projecto. Como?<br />

De várias maneiras, mas a principal<br />

é a participação no capital da empresa ou<br />

do projecto em causa através de empréstimos<br />

de várias pessoas”, explicaram os co-<br />

-fundadores da Pertence, Yara Melo e Ian<br />

Zaqueu. “Queremos impulsionar as várias<br />

formas de apoio às start-ups de modo a<br />

permitir a diversificação do financiamento<br />

para além das formas tradicionais”, argumentaram.<br />

Como solução digital, os gestores contam<br />

que o aspecto inovador deste projecto está<br />

no uso da internet e de uma plataforma<br />

para que várias empresas ou iniciativas estejam<br />

expostas aos potenciais investidores.<br />

Por exemplo, “através de uma aplicação<br />

no telefone podemos expor os nossos<br />

projectos e encontrar investidores. Queremos,<br />

essencialmente, explorar muito mais<br />

esta área digital no País”.<br />

Mas porquê o nome “Pertence”? É por<br />

transmitir um sentimento de inclusão e<br />

de pertença. “Queremos que todos se sintam<br />

parte deste processo de transformação<br />

económica do País, e que todos possam,<br />

quer por via de projectos ou de investimentos,<br />

pertencer a esta nova era”, explicaram<br />

os gestores.<br />

A avaliar pela sua forma de actuação, a<br />

plataforma Pertence pode confundir-se<br />

um pouco com uma bolsa de valores. Porém,<br />

os seus co-fundadores asseguram ser<br />

longe disso, embora reconheçam algumas<br />

similaridades. Estando ainda em fase de<br />

amadurecimento, o projecto conta com o<br />

apoio do Banco de Moçambique através<br />

de uma iniciativa que esta instituição presta<br />

às fintech no seu Sandbox. Ainda assim,<br />

as aspirações para esta start-up são grandes,<br />

e uma delas passa por torná-la num<br />

negócio rentável dentro de quatro anos.<br />

“A Pertence é uma fintech e start-up que<br />

funciona na base do volume de transacções,<br />

então quanto maior for o volume<br />

de transacção, maior será a nossa comissão.<br />

Estamos agora numa fase embrionária,<br />

mas dentro de três a quatro anos prevemos<br />

ganhar algum lucro”, reiteram.<br />

A iniciativa já conta com três projectos,<br />

sendo um da área do comércio, outro<br />

da agricultura e o último voltado para<br />

a área social.<br />

BEMPRESA<br />

Pertence<br />

FUNDADORES<br />

Yara Melo e Ian Zaqueu<br />

ANO DE FUNDAÇÃO<br />

2020<br />

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51


panorama<br />

POWERED BY<br />

Infra-estruturas<br />

Manica testa tecnologia japonesa na reparação<br />

de estradas<br />

O Centro de Formação Profissional de Estradas<br />

de Chimoio (CFE), na província de<br />

Manica, está a melhorar algumas vias de<br />

acesso de terra batida por meio de uma<br />

tecnologia japonesa denominada Do-<br />

-Nou, no distrito de Vandúzi. As vias em<br />

melhoramento ficaram esburacadas e<br />

com grandes fendas em consequência das<br />

chuvas intensas que têm estado a cair desde<br />

finais do ano passado. Segundo David<br />

Charles, chefe do Departamento Pedagógico<br />

do CFE e engenheiro responsável pelo<br />

programa, o trabalho prático de manutenção<br />

das referidas estradas seguiu-se a<br />

uma formação envolvendo 50 jovens do<br />

distrito de Vandúzi durante duas semanas.<br />

No entanto, David Charles disse que a tecnologia<br />

Do-Nou, após a sua aprovação,<br />

poderá ser usada pela primeira vez no País<br />

e por meio do seu impacto o Governo poderá<br />

definir outras vias intransitáveis a serem<br />

intervencionadas.<br />

Saúde<br />

Gana usa drones para entregar vacinas para Covid-19<br />

“Mesh” é o nome da plataforma apresentada<br />

pela multinacional de tecnologia<br />

norte-americana e vai proporcionar o<br />

primeiro ‘mergulho’ na “realidade mista”,<br />

ou seja, uma tecnologia entre a realidade<br />

aumentada e a virtual.<br />

A realidade aumentada pressupõe elementos<br />

físicos como, por exemplo, a reprodução<br />

digital de uma pessoa, enquanto<br />

a virtual supõe a criação de um<br />

ambiente totalmente artificial.<br />

A Zipline, uma startup com sede em São<br />

Francisco (EUA), encontrou uma solução<br />

para facilitar a distribuição de vacinas<br />

contra o covid-19 nos países menos<br />

desenvolvidos e em zonas mais remotas.<br />

O objectivo da parceria entre o Governo<br />

do Gana e a Zipline, anunciada no dia<br />

26 de Fevereiro – dois dias após a chegada<br />

das vacinas a Accra (capital do Gana),<br />

é melhorar a agilidade e o acesso das vacinas<br />

por meio da entrega sob demanda,<br />

mesmo nas mais difíceis áreas de alcance<br />

naquele país.<br />

Até ao momento, a Zipline Gana distribuiu<br />

mais de um milhão de doses de vacinas,<br />

muitas em partes do país que são<br />

difíceis de alcançar por terra. Ao fornecer<br />

entrega por meio de drones, o Governo<br />

não só é capaz de alcançar mais pessoas,<br />

como também de o fazer com eficiência.<br />

Computação<br />

Microsoft apresenta primeira versão de reuniões com<br />

hologramas<br />

Deste modo, a empresa fundada por Bill<br />

Gates disse que vai ser possível uma pessoa<br />

participar numa reunião virtual e<br />

conseguir ver os participantes como se<br />

estivessem lado a lado, ainda que estejam<br />

em diferentes regiões do planeta.<br />

A plataforma vai estar disponível nos dispositivos<br />

de realidade aumentada da Microsoft<br />

e também em computadores, tablets,<br />

smartphones e óculos de realidade<br />

virtual, entre outros.<br />

Ambiente<br />

Niassa quer produzir<br />

plástico biodegradável<br />

hologramas<br />

Estão a ser testadas diferentes variedades<br />

de semente de rícino na localidade<br />

de Titimane, distrito de Cuamba,<br />

no Niassa, para apurar o nível de adaptabilidade<br />

dos solos e clima desta região<br />

para a produção de um novo tipo<br />

de plástico biodegradável, um produto<br />

considerado ambientalmente saudável<br />

feito a partir do óleo extraído da<br />

semente de rícino.<br />

Judite Massengele, governadora do<br />

Niassa, visitou recentemente aquela<br />

região do distrito de Cuamba e, na<br />

ocasião, disse que, caso os ensaios das<br />

diferentes variedades de rícino produzam<br />

resultados positivos, a província<br />

avançará para uma produção em regime<br />

comercial. Niassa tem, de resto,<br />

uma longa tradição de produção desta<br />

planta, mas o seu uso tem-se resumido<br />

a fins cosméticos, algo que poderá<br />

mudar se os resultados dos ensaios<br />

concluírem a sua efectividade em regiões<br />

com temperaturas elevadas.<br />

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53


LÁ FORA<br />

COVID DESEMPREGA 13<br />

MILHÕES DE MULHERES<br />

NA AMÉRICA LATINA<br />

O dia internacional da mulher, assinalado a 8 de Março, foi um bom pretexto<br />

para que instituições multilaterais como a OIT e a ONU divulgassem dados<br />

sobre os quais vale a pena reflectir para empreender mudanças efectivas<br />

a<br />

Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.<br />

crise<br />

económica que<br />

decorre da pandemia<br />

do covid-19 agravou as<br />

disparidades de género<br />

na força de trabalho e<br />

gerou um retrocesso de<br />

pelo menos uma década na América<br />

Latina e no Caribe, onde 13 milhões<br />

de mulheres perderam os seus empregos,<br />

de acordo com o último Panorama<br />

Laboral da Organização Internacional<br />

do Trabalho (OIT), divulgado<br />

recentemente. A taxa de participação<br />

da mão-de-obra feminina em 2020 sofreu<br />

uma queda histórica de 5,4 pontos<br />

percentuais, para 46,4%, o que significa<br />

que 12 milhões de mulheres deixaram<br />

a força de trabalho na América<br />

Latina e no Caribe devido à perda<br />

dos seus empregos. De acordo com os<br />

dados da OIT, uma taxa tão baixa de<br />

participação feminina no mercado de<br />

trabalho não é registada há mais de<br />

15 anos. Além disso, a taxa de desemprego<br />

regional das mulheres subiu de<br />

10,3% para 12,1%, acima da taxa de desemprego<br />

global, que aumentou para<br />

10,6%, o que significa que aproximadamente<br />

1,1 milhão de mulheres ficaram<br />

desempregadas (totalizando 13,1<br />

milhões). O declínio na taxa de participação<br />

da força de trabalho feminina<br />

reflecte a percentagem de mulheres<br />

que ficaram sem emprego por causa<br />

da pandemia, mas não está à procura<br />

de novo trabalho por não haver em-<br />

pregos ou porque tiveram de atender<br />

a outras responsabilidades familiares.<br />

Já o aumento da taxa de desemprego<br />

representa a percentagem de mulheres<br />

que estão à procura de trabalho,<br />

mas não conseguem encontrá-lo. Estes<br />

13,1 milhões de mulheres que perderam<br />

emprego somam-se a cerca de<br />

12 milhões que já eram afectadas pelo<br />

desemprego antes da pandemia.<br />

Desemprego chega a 25 milhões<br />

Cerca de 25 milhões de mulheres estão<br />

desempregadas ou fora da força de<br />

trabalho neste momento, diz o relatório<br />

da OIT. “Esta crise sem precedentes<br />

agravou as disparidades de género nos<br />

mercados de trabalho da região, empurrando<br />

milhões de mulheres para<br />

fora da força de trabalho e revertendo<br />

ganhos anteriores”, disse o director da<br />

OIT para a América Latina e o Caribe,<br />

Vinícius Pinheiro. “Retrocedemos mais<br />

de uma década num ano, e agora precisamos<br />

de recuperar esses empregos<br />

e pisar no acelerador da igualdade de<br />

género”, acrescentou. Pinheiro salientou<br />

que “neste Dia Internacional da Mulher<br />

(8 de março), é crucial reafirmar o<br />

compromisso de recuperar o terreno<br />

perdido durante o desastre económico<br />

e social nos nossos países”.<br />

Trabalhos em serviço e comércio<br />

O grave impacto da pandemia no trabalho<br />

feminino deve-se ao facto de as<br />

“Retrocedemos mais de uma década num ano, e agora<br />

precisamos de recuperar esses empregos e acelerador a<br />

igualdade de género... é crucial refirmarmos compromissos”<br />

mulheres estarem empregadas principalmente<br />

nos sectores económicos<br />

mais afectados pelas restrições estabelecidas<br />

para evitar a propagação<br />

da pandemia. De acordo com o Panorama<br />

Laboral do Trabalho da OIT para<br />

a América Latina e o Caribe, a retracção<br />

no universo de empregos em 2020<br />

foi particularmente significativa nos<br />

sectores de serviços como a hotelaria<br />

(-17,6%) e comércio (-12%).<br />

Outro factor que tem afectado e pode<br />

condicionar as perspectivas de recuperação<br />

de empregos das mulheres é<br />

a dificuldade de conciliar o trabalho<br />

remunerado com as obrigações em<br />

casa. “A tudo isso deve ser acrescentado<br />

o aumento do teletrabalho e do<br />

trabalho em casa num contexto de encerramento<br />

ou suspensão dos espaços<br />

de cuidados associados às medidas de<br />

54<br />

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AMERICA LATINA<br />

confinamento e distanciamento social”,<br />

disse a especialista regional de emprego<br />

da OIT, Roxana Maurizio.<br />

A organização propôs políticas sociolaborais<br />

relevantes para evitar que<br />

a crise regional se torne permanente<br />

e para evitar a retirada da força de<br />

trabalho feminina da região. “É necessário<br />

apoiar, ainda mais fortemente,<br />

um processo que garanta às mulheres<br />

maiores oportunidades de emprego<br />

de qualidade, treinamento e acesso a<br />

novas tecnologias, redução de lacunas<br />

e pleno cumprimento dos direitos trabalhistas”,<br />

disse Maurizio.<br />

ONU não ficou indiferente<br />

Ciente do papel das empresas para<br />

o crescimento das economias e para<br />

o desenvolvimento humano, a ONU<br />

Mulheres e o Pacto Global criaram os<br />

Princípios de Empoderamento das Mulheres.<br />

Os Princípios são um conjunto<br />

de considerações que ajudam a comunidade<br />

empresarial a incorporar, nos<br />

seus negócios, valores e práticas que<br />

visem a equidade de género e equiparação<br />

salarial, nomeadamente no estabelecimento<br />

de liderança corporativa<br />

sensível à igualdade do género, no<br />

mais alto nível; tratar todas as mulheres<br />

e homens de forma justa no trabalho,<br />

respeitando e apoiando os direitos<br />

humanos e a não-discriminação;<br />

garantir a saúde, segurança e bem-<br />

-estar de todas as mulheres e homens<br />

que trabalham na empresa; promover<br />

a educação, capacitação e desenvolvimento<br />

profissional para as mulheres;<br />

apoiar o empreendedorismo<br />

feminino e promover políticas de empoderamento<br />

das mulheres através<br />

das cadeias de suprimentos e marketing;<br />

promover a igualdade de género<br />

através de iniciativas voltadas para<br />

a comunidade e ao activismo social e;<br />

medir, documentar e publicar os progressos<br />

da empresa na promoção da<br />

igualdade de género.<br />

“Queremos construir um mundo de<br />

trabalho distinto para as mulheres”,<br />

concluiu Phumzile Mlambo-Ngcuka,<br />

subsecretária geral das Nações Unidas<br />

e diretora executiva da ONU<br />

Mulheres.<br />

No mundo, de acordo com a ONU, é necessária<br />

uma mudança significativa<br />

na educação de meninas. Estima ainda<br />

que se a igualdade de género avançasse<br />

seria capaz de impulsionar progressos<br />

assinaláveis, adicionando 12<br />

mil milhões de dólares no PIB mundial<br />

de agora até 2025”.<br />

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55


ócio<br />

(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio<br />

58<br />

Nesta edição<br />

vamos<br />

conhecer as<br />

várias faces da<br />

cidade capital,<br />

Maputo<br />

e<br />

g<br />

Como a<br />

60<br />

pandemia<br />

poderá inspirar<br />

mudanças na<br />

indústria de<br />

restauração<br />

61<br />

As variedades<br />

dos vinhos<br />

sem álcool,<br />

que ganham<br />

cada vez mais<br />

adeptos pelo<br />

mundo


O encontro com a diversidade<br />

CIDADE<br />

DAS<br />

ACÁCIAS<br />

e<br />

MAPUTO, A CIDADE<br />

os meus lugares de maputo<br />

não são os novos malls à beira-mar<br />

nem os centros co-<br />

DA SERENDIPIDADE<br />

merciais com luzes violetas.<br />

Ainda gosto de ir à Baixa da<br />

cidade, ao Mercado Central<br />

na Avenida 25 de Setembro.<br />

As cores são vibrantes e a<br />

atmosfera é sempre alegre.<br />

Legumes, frutas, peixe, carne,<br />

quinquilharia e mechas<br />

para cabelo e uma enorme<br />

secção de artesanato. Dou<br />

sempre um salto à Casa Elefante,<br />

mesmo em frente ao<br />

bazar, para apreciar as últimas<br />

capulanas.<br />

Também gosto de ir ao<br />

mercado Janete, ao fundo<br />

da Avenida Mao Tse Tung,<br />

porque oferece uma enorme<br />

variedade de produtos<br />

frescos e uma grande secção<br />

de vestuário e calçado<br />

em segunda mão. Dali vou<br />

à FEIMA, o espaço dedicado<br />

ao artesanato no Parque<br />

que, tal como o país, resulta<br />

de múltiplos relacionamentos<br />

culturais. Malangatana,<br />

Chissano, Bertina Lopes, Shikani,<br />

e tantos outros, continuam<br />

símbolos imortais e<br />

fontes de inspiração.<br />

Actualmente, a arte em<br />

Moçambique vive um momento<br />

de transição com artistas<br />

a explorarem outras<br />

expressões e direcções na<br />

arte contemporânea: diversidade<br />

e complexidade dos<br />

estilos e sons presentes, resultantes<br />

da mistura de influências<br />

tanto tradicionais<br />

como globais, enquanto o<br />

sentido de colaboração que<br />

parece estar em constante<br />

crescimento, finalmente,<br />

está a ajudar a mostrar os<br />

meandros da cena fora da<br />

cidade. Mostrar-vos-ia toda<br />

co em Maputo, em 1989, na<br />

antiga Câmara Municipal,<br />

por iniciativa de Malangatana.<br />

No espaço atrás do museu,<br />

encontramos os escultores<br />

Makonde que fazem algumas<br />

das máscaras mais<br />

invulgares e apelativas de<br />

África: toda a cabeça é esculpida<br />

e não apenas o rosto.<br />

E enquanto a maioria das<br />

máscaras africanas são abstractas,<br />

o requinte da talha<br />

Makonde permite-lhes uma<br />

qualidade quase realista.<br />

Daríamos um salto ao Núcleo<br />

de Arte, que mantém<br />

o espírito de oficina de arte<br />

e de espaço expositivo. Foi<br />

aqui que começou Gonçalo<br />

Mabunda, o escultor mundialmente<br />

conhecido com as<br />

suas cadeiras e crucifixos<br />

feitos de armas. As suas esculturas<br />

dos Continuadores, onde a beleza dos murais de Naguib<br />

há muito deixaram<br />

posso comer a rica e variada<br />

comida moçambicana –<br />

que não é feita apenas de<br />

camarão grelhado! Se eu<br />

fosse vosso guia, falar-vos-<br />

-ia da arte de Moçambique<br />

e outros artistas em<br />

vários pontos da cidade e<br />

iríamos juntos visitar as exposições<br />

de arte. Em primeiro<br />

lugar, o Museu Nacional<br />

de Arte, que abriu ao públide<br />

integrar apenas as armas.<br />

Mas não resiste a uma<br />

AK47! Abriu as portas da<br />

sua residência e, juntamente<br />

com o fotógrafo Mauro<br />

Pinto, criou o projecto “Karl<br />

58<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


Marx 1834”, para mostrar<br />

as mais diversificadas manifestações<br />

artísticas da<br />

cidade de Maputo. Depois<br />

iríamos até à Universidade<br />

Eduardo Mondlane para<br />

visitar a sua colecção de<br />

arte nacional. Passaríamos<br />

pela Mediateca do BCI e<br />

depois iríamos até à Kulungwana<br />

- Associação para o<br />

Desenvolvimento Cultural<br />

que, entre outras actividades,<br />

possui um espaço-<br />

-galeria com um programa<br />

regular de exposições.<br />

Certamente há algo na Fundação<br />

Fernando Leite Couto<br />

que, semanalmente, além<br />

dos encontros com jovens<br />

escritores, organiza exposições<br />

de todas as expressões<br />

artísticas, pintura, escultura,<br />

fotografia, traçando a<br />

agenda cultural da capital<br />

moçambicana.<br />

Depois seria a volta à 16Neto,<br />

um espaço único de trabalho<br />

conjunto, criativo e cultural.<br />

No dia seguinte, convidar-<br />

-vos-ia para uma caminhada<br />

matinal no “calçadão” da<br />

Marginal porque, ainda que<br />

Maputo seja uma cidade que<br />

oferece um vasto leque de<br />

actividades, instalações e<br />

espaços para praticar diversas<br />

disciplinas, eu gosto<br />

do “calçadão” até ao novo<br />

Mercado do Peixe e de ver<br />

a ilha da Xefina ao fundo. Faríamos<br />

o roteiro de três horas<br />

a pé no bairro histórico<br />

da Mafalala, onde moraram<br />

grandes personalidades da<br />

História do País: Samora Machel,<br />

Noémia de Sousa, José<br />

Craveirinha, Eusébio… e comeríamos<br />

pão com badjias.<br />

Desafiava-vos ainda a comer<br />

deliciosos gulabos na<br />

loja do Templo Hindú, da<br />

Avenida Guerra Popular, e<br />

depois convidar-vos-ia para<br />

tomar um copo no Dhow ou<br />

no Hotel Cardoso para apreciar<br />

o pôr-de-sol de Maputo<br />

que, apesar de todas as tentativas,<br />

é sempre mais “alto”<br />

do que os novos edifícios que<br />

querem chegar até ao céu.<br />

TEXTO CRISTIANA PEREIRA<br />

FOTOGRAFIA D.R.<br />

GOSTO DE IR À BAIXA DA CIDADE DE MAPUTO, AO MERCADO<br />

CENTRAL, NA AVENIDA 25 DE SETEMBRO. AS CORES SÃO MAIS<br />

VIBRANTES E A ATMOSFERA É SEMPRE MUITO ALEGRE<br />

ROTEIRO<br />

COMO IR<br />

Através da Linhas Aéreas de<br />

Moçambique (LAM) que voa<br />

para Maputo a partir de Lisboa,<br />

Dar-es-Salaam, Nairobi e<br />

Joanesburgo.<br />

ONDE COMER<br />

A Figtree Guesthouse, no<br />

coração da Sommerschield,<br />

é um bed&breakfast elegante<br />

e acolhedor. O Polana Serena<br />

Hotel, na Avenida Julius Nyerere<br />

1380, é o hotel mais antigo da<br />

capital moçambicana.<br />

ONDE COMER<br />

O Campo di Mare, na Marginal,<br />

tem uma maravilhosa varanda<br />

que se debruça sobre a baía<br />

e serve massas frescas feitas<br />

à mão, salada de caranguejo,<br />

carpaccio de polvo, etc. O<br />

Zambi, na Avenida 10 de<br />

Novembro, é considerado um<br />

dos melhores restaurantes de<br />

Maputo. Com grande história e<br />

tradição, serve atum e mariscos<br />

e uma picanha superlativa,<br />

entre outros pratos da rica<br />

ementa. O Lugar e Meio, na<br />

Avenida Francisco Orlando<br />

Magumbwe, serve falafel, o<br />

atum braseado, etc.<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />

59


DIVERSOS<br />

RESTAURANTES<br />

NO MUNDO ESTÃO<br />

AGORA A REUNIR-SE<br />

COM UM ESPÍRITO<br />

DE LUTA CONTRA<br />

O COVID-19<br />

RESTAURANTES<br />

g<br />

com a crise instaurada pelo<br />

coronavírus, todos os tipos<br />

de restaurantes tiveram<br />

de fechar abruptamente as<br />

suas salas de jantar e abrir<br />

rapidamente novas formas<br />

de fazer negócios para sobreviver,<br />

proteger os seus<br />

empregados e servir as rápidas<br />

mudanças de necessidades<br />

dos seus clientes.<br />

Ver a indústria da restauração<br />

a cair em tempos de<br />

pandemia é difícil de controlar,<br />

considerando que, antes<br />

desta realidade, a indústria<br />

de 899 mil milhões de dólares<br />

em receitas contribuiu<br />

com 4% para o PIB dos Estados<br />

Unidos. Os consumidores<br />

gastavam normalmente<br />

perto de 50% do seu orçamento<br />

alimentar mensal<br />

em restaurantes até que o<br />

covid-19 os forçou a quebrar<br />

o hábito.<br />

A empresa norte-americana<br />

de recolocação, designada<br />

por Challenger, Gray &<br />

Christmas (voltada para a<br />

reintegração de profissionais<br />

que, por alguma razão,<br />

NA RESTAURAÇÃO,<br />

saem do mercado de trabalho),<br />

relatou que mais de 600 O NOVO NORMAL CHEGARÁ MAIS RÁPIDO!<br />

postos de trabalho na indústria<br />

alimentar foram cortados<br />

ser atempado e reactivo<br />

dar prioridade à saúde<br />

devido à pandemia, e Sempre que alterar os Estabeleça medidas de se-<br />

outros 7,4 milhões poderão seus serviços de restauração,<br />

gurança e mencione-as com<br />

em breve ser cortados ou<br />

menus ou horários, regularidade para aliviar<br />

severamente afectados. mantenha os seus clientes os receios dos clientes.<br />

Diversos restaurantes no informados.<br />

As mensagens de espírito<br />

mundo estão agora a reunir-se<br />

Actualize o seu website, os de serviço devem ser infor-<br />

rapidamente com um meios de comunicação social madas de igual modo, como<br />

espírito de luta contra o covid-19,<br />

e os directórios. Assegure- a entrega sem contacto ou o<br />

a mudar completa-<br />

-se que as suas linhas tele-<br />

pagamento. .<br />

mente os seus negócios para<br />

acomodar a recepção e a e treine rapidamente o seu fónicas estejam disponíveis<br />

concentração nos melhores<br />

entrega. Alguns estabelecimentos<br />

pessoal para realizar, sem clientes<br />

voltaram-se para os problemas, novos processos Pesquise e descubra quem<br />

serviços de entrega de alimentos<br />

para manter os seus clien-<br />

são os seus melhores clien-<br />

como Caviar, Door- tes satisfeitos. Agora é o tes e depois ligue para eles<br />

Dash e Seamless para ajudar<br />

momento de inovar. Conhe-<br />

regularmente. Modele no-<br />

a satisfazer a procura. ça e sirva os seus clientes vos públicos a partir dos<br />

Mas o que devem os investidores<br />

e comunidades onde eles se seus próprios clientes para<br />

fazer para man-<br />

encontram agora. Considere alargar o seu alcance para<br />

ter a sua marca e fortificá- apresentar ofertas especiais<br />

obter o maior ganho.<br />

-la? Especialistas em publicidade<br />

de refeições e kits de Reequipe o seu negócio e<br />

digital recomendam refeições para que os clientes<br />

oriente as suas acções com<br />

concentração nas seguintes<br />

possam preparar em base nas necessidades dos<br />

(três) áreas:<br />

casa.<br />

seus clientes.<br />

60<br />

www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>


A SCHATZI IMPORTA A SÉRIE EINS-ZWEI-ZERO DE VINHOS<br />

SEM ÁLCOOL DE LEITZ, UM EXCELENTE E INOVADOR<br />

ESPECIALISTA EM RIESLING EM RHEINGAU, ALEMANHA<br />

VINHO SEM ÁLCOOL<br />

AINDA É VINHO? É.<br />

E O CONSUMO ESTÁ A AUMENTAR<br />

os vinhos sem álcool preenchem<br />

uma necessidade para os sóbrios, seguidores<br />

de uma determinada religião<br />

ou ocasionalmente abstinentes,<br />

e há uma nova geração de vinhos<br />

sem álcool que é promissora.<br />

No entanto, é difícil de imaginar vinho<br />

sem o álcool. Porque é parte integrante<br />

da sua textura, sabor e complexidade,<br />

apesar de o interesse pelo<br />

vinho sem álcool ter vindo a crescer<br />

rapidamente nos últimos dois anos.<br />

Segundo dados da consultora Nielsen<br />

global Media, as vendas a retalho de<br />

vinhos sem álcool nos Estados Unidos<br />

dispararam durante o ano que terminou<br />

em 20 de Fevereiro, subindo<br />

34% ao longo dessas 52 semanas após<br />

se terem mantido relativamente estáveis<br />

de 2016 a 2019.<br />

As vendas anuais, no valor aproximado<br />

de 36 milhões de dólares ao longo<br />

do último ano, são apenas uma pequena<br />

fracção de toda a categoria de vinhos,<br />

que registou mais de 21 mil milhões<br />

de dólares nesse período. Apenas<br />

sete marcas de vinhos sem álcool<br />

tiveram mais de $1 milhão de dólares<br />

em vendas, pode ler-se na pesquisa.<br />

Isto não é muito, comparado com outras<br />

categorias de bebidas não alcoólicas,<br />

como a cerveja e a sidra, que<br />

oferecem uma selecção muito maior<br />

do que o vinho.<br />

Mas o interesse cresceu suficientemente<br />

rápido no último ano para que<br />

alguns no comércio do vinho vejam<br />

agora uma oportunidade excitante.<br />

“É a categoria de crescimento mais<br />

rápido na nossa carteira neste momento”,<br />

disse Kevin Pike, proprietário<br />

da Schatzi Wines, um pequeno<br />

importador e distribuidor em Milão.<br />

“Sobe 1 000 por cento e cresce todos<br />

os dias”.<br />

A Schatzi importa a série Eins-Zwei-<br />

-Zero de vinhos sem álcool de Leitz,<br />

um excelente e inovador especialista<br />

em riesling na região de Rheingau,<br />

na Alemanha. Vende agora três variedades:<br />

um riesling, um espumante<br />

riesling e um espumante rosé. Os<br />

dois espumantes também vêm em latas<br />

de 250 mililitros, e o Sr. Pike disse<br />

que espera adicionar um pinot noir<br />

sem álcool no próximo ano.<br />

Outro importador, Victor O. Schwartz<br />

da VOS Selections, traz um chardonnay<br />

sem álcool da Thomson & Scott,<br />

um comerciante mais conhecido por<br />

vender o Skinny Prosecco. As garrafas<br />

destinam-se a uma dieta consciente,<br />

e o Sr. Schwartz disse que a<br />

resposta aos vinhos tem sido óptima.<br />

Um bom sumo de uva pode ser maravilhoso,<br />

mas não passa disso. O vinho<br />

não alcoólico é produzido pela primeira<br />

vez ao fazer vinho. A levedura<br />

fermenta todo ou quase todo o açúcar<br />

da uva em álcool. Depois, o álcool<br />

é retirado. O resultado não é mais intoxicante<br />

do que o sumo de uva, mas<br />

geralmente não é tão doce e é fundamentalmente<br />

alterado.<br />

Qual é o apelo? Não é difícil de entender<br />

que, num mundo pandémico, os<br />

cuidados com a saúde tenham emergido.<br />

Mas as razões práticas são, no<br />

entanto, tão importantes como qualquer<br />

outra motivada por tendências<br />

sociais. “Estou a pensar em pessoas<br />

que estão em forma e acordam super<br />

cedo para correr ou fazer exercício,<br />

pessoas que querem festejar<br />

mas são o motorista designado, pessoas<br />

que querem tirar uma noite<br />

de folga da sua garrafa habitual, ou<br />

que têm de trabalhar depois do jantar”,<br />

disse Schwartz. “Todas estas pessoas<br />

gostam de beber vinho e não<br />

querem desistir disso, mas estão felizes<br />

por não terem álcool a interferir<br />

nestas alturas com as suas vidas ocupadas<br />

e activas”.<br />

EINS-ZWEI-ZERO<br />

SPARKLING RIESLING<br />

O álcool do vinho ferve<br />

a 28°C, preservando os<br />

aromas e as características<br />

“enológicas”: citrinos de<br />

laranja, ruibarbo e estragão.<br />

O CO2 nesta versão<br />

espumante do Riesling faz<br />

com que pareça mais seco<br />

do que é, uma vez que o<br />

limão e outras especiarias<br />

encontram-se ainda mais<br />

fortes! Este borbulhante<br />

sem álcool é perfeito para<br />

as férias, ou para qualquer<br />

dia, na realidade.<br />

PERFIL<br />

Citrinos cor-de-laranja,<br />

ruibarbo e estragão<br />

ÁLCOOL<br />

Zero<br />

PREÇO<br />

10$<br />

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61


LITURGIA<br />

DO SILÊNCIO<br />

AUTOR<br />

Salvador<br />

Muchidão<br />

Editora<br />

Oleba<br />

O SILÊNCIO PREGADO<br />

as madrugadas ganhavam<br />

vida e o silêncio protagonizava<br />

desafios poéticos convidando<br />

o jovem escritor, Salvador<br />

Muchidão, a deixar-<br />

-se embalar pela calmaria<br />

daquele período do dia em<br />

que o sono se recusava a dele<br />

se aproximar.<br />

Em resposta ao convite poético,<br />

Muchidão não viu outra<br />

alternativa senão escrever…<br />

e escreveu… até dar vida<br />

à “Liturgia do Silêncio”,<br />

uma obra que reúne mais<br />

de 50 poemas que, de uma<br />

forma ensurdecedora, mostram<br />

a vivência do homem<br />

por meio de diferentes temáticas<br />

onde o sujeito poético<br />

dialoga com quatro entidades:<br />

Deus, a natureza,<br />

a mulher amada e a figura<br />

materna.<br />

“Liturgia é um conjunto de<br />

procedimentos pré-definidos<br />

para a celebração de um<br />

culto religioso. É um momento<br />

de contacto com o divino e,<br />

ao escolher o título “Liturgia<br />

do Silêncio”, quero fazer alu-<br />

EM RITUAL POÉTICO<br />

são ao momento em que estamos<br />

connosco mesmos fazendo<br />

grandes reflexões da<br />

nossa vida no silêncio da noite<br />

ou durante a madrugada”,<br />

disse.<br />

De “imortal” à “indiferença”,<br />

a cada página, “vivências”<br />

são partilhadas. Exemplo<br />

claro é o poema que deu<br />

título à obra, que fora escrito<br />

após o episódio de 29 de<br />

Julho de 2019, quando um homem<br />

cansado de acumular<br />

silêncios e procurando ser<br />

entendido sem sequer dizer<br />

uma palavra subiu ao topo<br />

da estátua da Praça dos Trabalhadores,<br />

localizada na<br />

baixa da Cidade de Maputo,<br />

acabando por preocupar<br />

a quem por lá passava, pois<br />

temia-se que este cometesse<br />

suicídio.<br />

“Aquele jovem concentrou<br />

uma multidão sem dizer<br />

uma palavra. Ele pregou em<br />

silêncio e despertou a cons-<br />

ciência sobre a atenção para<br />

os problemas da juventude.<br />

Foi uma verdadeira liturgia<br />

do silêncio”, acrescentou.<br />

Lançada a 12 de Fevereiro<br />

na cidade de Quelimane, terra<br />

natal de Salvador Murchidão,<br />

“Liturgia do Silêncio”<br />

é a primeira obra do escritor<br />

de 27 anos, que fez do isolamento<br />

de 2020 o momento<br />

ideal para deixar o silêncio<br />

falar através da arte que<br />

nele habita.<br />

“O ano de 2020 foi um ano em<br />

que tive um crescimento literário<br />

significativo. Aprendi<br />

a ter um grau de escrita<br />

mais exigente e procurei<br />

(e ainda procuro) aprender<br />

de escritores conceituados”,<br />

concluiu.<br />

Com a “Liturgia o Silêncio”, os<br />

amantes da literatura em<br />

versos podem ouvir o silêncio<br />

por meio de estrofes que<br />

embalam a quem se deixa<br />

contagiar pela magia da<br />

poesia.<br />

“LITURGIA DO SILÊNCIO” É A PRIMEIRA<br />

OBRA DO ESCRITOR DE 27 ANOS<br />

TEXTO YANA DE ALMEIDA<br />

FOTOGRAFIA MARIANO SILVA<br />

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63


HONDA<br />

LEGEND<br />

Tem um<br />

sistema<br />

“Traffic Jam<br />

Pilot”, que<br />

é capaz de<br />

controlar a<br />

travagem e<br />

aceleração<br />

v<br />

HONDA LANÇA O LEGEND,<br />

a honda apresentou no início<br />

de Março, no Japão, um<br />

Sedan Legend que integra<br />

condução autónoma parcial.<br />

A marca nipónica torna-se,<br />

assim, no primeiro<br />

fabricante automóvel a comercializar<br />

(apenas em leasing)<br />

um veículo equipado<br />

com tecnologia de automação<br />

de nível 3. Segundo a<br />

agência Reuters, apesar de<br />

arrecadar o título de ter sido<br />

a primeira a lançar um<br />

modelo com este tipo de tecnologia,<br />

a Honda vai lançar<br />

o Legend com um número limitado<br />

de apenas 100 unidades<br />

no Japão, e cada um destes<br />

veículos custará 11 milhões<br />

de ienes, ou seja, mais<br />

O PRIMEIRO AUTÓNOMO<br />

DE NÍVEL 3<br />

de 85 mil euros. O Legend<br />

está equipado com o sistema<br />

“Traffic Jam Pilot”, que<br />

tem a capacidade de controlar<br />

a aceleração, a travagem<br />

e o volante mediante<br />

determinadas condições.<br />

Em comunicado, a Honda diz<br />

que, com o sistema activado,<br />

o condutor pode mesmo<br />

ver um filme ou utilizar outras<br />

funcionalidades do sistema<br />

para ajudar a mitigar<br />

o stress numa situação de<br />

trânsito intenso. Um grande<br />

passo para eliminar os acidentes<br />

induzidos por erro<br />

humano, segundo afirmou<br />

Yoichi Sugimoto, engenheiro<br />

da Honda. Em condições<br />

muito específicas, com cruise<br />

control adaptativo (ACC)<br />

ligado e sistemas de seguimento<br />

de baixa velocidade<br />

e manutenção (LKAS) também<br />

em funcionamento, o<br />

Legend pode mesmo assumir<br />

o controlo da direcção<br />

e é capaz de ligar o pisca<br />

e mudar de faixa, embora<br />

ainda precise da confirmação<br />

do condutor de que o pode<br />

fazer em segurança.<br />

O LEGEND ESTÁ EQUIPADO COM O SISTEMA “TRAFFIC JAM PILOT”,<br />

QUE TEM A CAPACIDADE DE CONTROLAR A ACELERAÇÃO, A<br />

TRAVAGEM E O VOLANTE MEDIANTE DETERMINADAS CONDIÇÕES<br />

64<br />

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