E & M MZ Edição_35 MARÇO 2021
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ESPECIAL GARIMPO<br />
POPULAÇÃO DE MANICA DESAFIA<br />
O PERIGO EM BUSCA DO OURO<br />
BANCO CENTRAL<br />
OS PONTOS FORTES E FRACOS DA<br />
GESTÃO DE POLÍTICA MONETÁRIA<br />
INOVAÇÃO<br />
COMO AS MEGA-CIDADES AFRICANAS<br />
LIDAM COM AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS<br />
LÁ FORA<br />
COVID-19 DESEMPREGOU 13 MILHÕES<br />
DE MULHERES NA AMÉRICA LATINA<br />
MOÇAMBIQUE<br />
AS PROFISSÕES<br />
EDIÇÃO MARÇO - ABRIL<br />
15/03 a 15/04 • Ano 04 • Nº <strong>35</strong><br />
<strong>2021</strong> • Preço 250<strong>MZ</strong>N<br />
DO FUTURO<br />
A E&M analisa a rápida evolução no tipo de competências<br />
que a revolução tecnológica exige do capital humano<br />
no País e no mundo
SUMÁRIO<br />
6 OBSERVAÇÃO<br />
RD CONGO<br />
A imagem de um país que enfrenta uma crise<br />
humanitária grave: ataques, covid-19 e ébola<br />
8 RADAR<br />
Panorama Economia, Banca, Finanças,<br />
Infra-estruturas, Investimento, País<br />
12 ESPECIAL GARIMPO<br />
Ouro<br />
Garimpeiros ignoram o perigo dos túneis precários<br />
numa actividade inglória, que os mantém pobres<br />
57 ÓCIO<br />
58 Escape À descoberta das várias faces e fascínios da cidade<br />
de Maputo 60 Gourmet Como a indústria da restauração se<br />
está a reinventar perante a pandemia 61 Adega A nova linha<br />
de vinhos que, mesmo sem álcool, tem mais adeptos 63 Arte<br />
“Liturgia do Silêncio”, a obra inspirada nos momentos de<br />
introspecção de Salvador Muchidão 64 Ao volante A Honda<br />
lançou o Legend, o primeiro veículo com autonomia de nível 3<br />
20 NAÇÃO<br />
PROFISSÕES DO FUTURO<br />
20 Revolução tecnológica Especialistas avisam que é<br />
preciso investir em infra-estruturas e mudar o ensino<br />
30 Entrevista Jorge Ferrão fala do caminho a ser<br />
trilhado pela academia para não perder o barco da<br />
digitalização<br />
34 Futuro da África Muitas pesquisas prevêem uma<br />
rápida evolução do trabalho apesar da elevada pobreza<br />
38 MERCADO E FINANÇAS<br />
44<br />
Política monetária<br />
Especialistas divergem quanto à eficácia das medidas<br />
de gestão do Banco Central em tempos de crise<br />
ESPECIAL INOVAÇÃO<br />
Tecnologia<br />
As grandes tendências da Inovação em<br />
Moçambique, no continente africano e no mundo<br />
54<br />
LÁ FORA<br />
América Latina<br />
Relatórios de organizações multilaterais falam de 13 milhões<br />
de mulheres que ficaram sem emprego devido à pandemia<br />
www.economiaemercado.co.mz | Julho 2020<br />
3
EDITORIAL<br />
As profissões do futuro<br />
e as que vão acabar<br />
Celso Chambisso • Editor da Economia & Mercado<br />
arevolução tecnológica já está a impor mudanças estruturais<br />
no mercado de trabalho e com tendência a acelerar com<br />
o tempo. O que está em voga, hoje, vai muito além da velha<br />
questão de os homens serem substituídos pelas máquinas,<br />
que, por muito tempo, alimentou temores de um crescimento<br />
exponencial do exército de desempregados pelo mundo. Sem<br />
significar que tal temor não faça sentido, a grande preocupação da actualidade<br />
está em preparar o caminho para conferir outro tipo de competências<br />
ao capital humano, competências estas que estão completamente fora<br />
dos padrões tradicionais de formação já instituídos.<br />
Hoje, o mundo anda a duas velocidades: a dos países desenvolvidos, onde a<br />
disponibilidade de infra-estrutura tecnológica já possibilita a visualização<br />
do futuro das profissões, e a dos países pobres que, mesmo sem recursos<br />
para fazerem tanto por essa migração, são forçados a criar mecanismos<br />
de avanço para não sucumbirem num mundo que será cada vez mais dominado<br />
por processos produtivos muito mais rápidos e eficientes.<br />
Nesta edição, o prezado leitor tem a possibilidade de fazer o update das<br />
profissões que começam a entrar em cena, das que terão de ser esquecidas,<br />
das que vão evoluir e das que se vão ajustar aos tempos da 4ª Revolução<br />
Industrial. Tem também a possibilidade de conhecer mais a fundo o<br />
que, de facto, está a mudar à escala global e o que deve ou deveria acontecer<br />
em Moçambique – país que enfrenta uma série de obstáculos que vão<br />
desde o elevado índice de analfabetismo até ao relativamente fraco investimento<br />
em infra-estrutura tecnológica – para causar a disrupção que se<br />
pretende a este nível. Académicos, especialistas em tecnologia e em Recursos<br />
Humanos ajudam a desvendar os mistérios e a traçar cenários em torno<br />
do futuro do trabalho… ou será do trabalho do futuro?<br />
É igualmente tema de relevo desta edição a postura do Banco de Moçambique<br />
na condução da política monetária, mesmo a propósito dos questionamentos<br />
que os entendidos em ciência económica e empresários têm levantado<br />
acerca da eficácia das suas intervenções.<br />
Trata-se de um assunto oportuno, na medida em que é abordado a propósito<br />
da última revisão em alta da taxa de juro de política, denominada por<br />
taxa MIMO, em Janeiro último, e que terá servido como barril de pólvora<br />
para desencadear novas críticas e acesos debates.<br />
No artigo “Especial” que habitualmente trazemos com assuntos “fora da caixa”,<br />
a E&M leva o leitor uma viagem pelas minas de ouro da província de<br />
Manica, onde irá percorrer os corredores por onde se move o garimpo ilegal,<br />
prática que ignora todos os riscos associados, mata, não alivia os elevados<br />
índices de pobreza, mas, mesmo assim, não desencoraja as populações<br />
de ali permanecerem. O perigo vai coabitando com a pobreza mesmo perante<br />
o olhar inconformado das autoridades.<br />
MÊS ANO • Nº 01<br />
15 MARÇO | 15 ABRIL <strong>2021</strong> • Nº <strong>35</strong><br />
propriedade Executive Mocambique<br />
Liquatis DIRECTOR nienis EXECUTIVO doluptae velit Pedro et Cativelos magnis<br />
enis pedro.cativelos@media4development.com<br />
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seque EDITOR cus, EXECUTIVO sum nis nam Celso iu Qui Chambisso te nullant<br />
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lorem FOTOGRAFIA ipsum Mariano Executive Silva Mocambique<br />
Liquatis REVISÃO nienis Manuela doluptae Rodrigues velit et dos magnis Santos<br />
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adis CONSELHO destiosse CONSULTIVO<br />
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rehentius Souto; Bernardo eos resti Aparício, dolumqui Denise dolorep Branco,<br />
reprem Fabrícia vendipid de Almeida que Henriques, ea et eumque Frederico non<br />
nonsent Silva, Hermano qui officiasi Juvane, Iacumba Ali Aiuba,<br />
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velit Gudo, et Salim magnis Cripton enis necatin Valá, Sérgio nam Nicolini fuga.<br />
Henet ADMINISTRAÇÃO, exceatem seque REDACÇÃO cus, sum nis nam<br />
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prae Rua Ângelo voles sant Azarias laborendae Chichava nihilib nº 311 uscius A —<br />
sinusam Sommerschield, rehentius Maputo eos resti – Moçambique;<br />
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iu Executive Qui te nullant Moçambique adis destiosse iusci re in<br />
prae EXPLORAÇÃO voles sant EDITORIAL laborendae E nihilib COMERCIAL uscius<br />
sinusam EM MOÇAMBIQUE rehentius eos resti dolumqui<br />
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reprem vendipid que ea et<br />
eumque NÚMERO non DE nonsent REGISTO qui officiasi<br />
lorem 01/GABINFO-DEPC/2018<br />
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velit et magnis enis necatin nam fuga.<br />
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prae voles sant laborendae nihilib uscius<br />
sinusam rehentius eos resti dolumqui<br />
dolorep reprem vendipid que ea et<br />
eumque non nonsent qui officiasi<br />
4<br />
www.economiaemercado.co.mz | Abril 2019
OBSERVAÇÃO<br />
RDC, <strong>2021</strong><br />
UM PAÍS, TRÊS<br />
INIMIGOS LETAIS<br />
Corre o mundo a notícia do assassinato<br />
de Luca Attanasio, embaixador italiano<br />
na República Democrática do Congo<br />
(RDC), num ataque terrorista durante<br />
uma missão do Programa Alimentar<br />
Mundial. Mas este incidente é apenas<br />
uma das várias questões que alertam<br />
a comunidade internacional sobre a<br />
gravidade da instabilidade naquele país,<br />
há muito visto como um dos territórios<br />
menos habitáveis do mundo. Além da já<br />
conhecida instabilidade, a convergência<br />
de grupos terroristas que protagonizam<br />
prolongados conflitos militares e que<br />
fazem, todos os dias, dezenas de mortes<br />
e milhares de deslocados, os congoleses<br />
também estão expostos, obviamente, aos<br />
efeitos da pandemia do novo coronavírus,<br />
o segundo inimigo, embora de âmbito<br />
global. Na RDC, o vírus já tinha matado<br />
mais de 700 pessoas em pouco mais de<br />
26 mil casos em meados de Março.<br />
Mas os maus ventos que sopram em<br />
direcção àquela nação da África Central<br />
não dão tréguas: ressuscitaram o vírus<br />
do ébola, que tinha sido erradicado em<br />
Novembro do ano passado e que, em<br />
concorrência com o coronavírus, vai<br />
matando e adicionando pressão ao já<br />
frágil sector da saúde, tendo<br />
levado a OMS a elevar a incidência do<br />
ébola para o nível de emergência sanitária<br />
internacional.<br />
Se o acesso à vacina do covid-19 é uma<br />
batalha difícil, imagine-se a busca pela<br />
solução de duas epidemias! Sem contar<br />
que todos estes problemas trazem<br />
resultados catastróficos ao nível da<br />
estabilidade macroeconómica hoje<br />
testemunhados pela RDC.<br />
6<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
7
RADAR<br />
BANCO MUNDIAL DIZ QUE <strong>2021</strong> SERÁ<br />
DE “RECESSÃO”<br />
O Banco Mundial considera que a economia moçambicana<br />
deve continuar em recessão este ano, caindo 0,8%<br />
do PIB, depois de no ano passado ter sofrido uma queda<br />
de 1,3%, e depois apresentar uma forte recuperação<br />
apenas a partir do próximo ano.<br />
“A economia de Moçambique deve continuar a recuperar<br />
gradualmente, mas continua a haver riscos substanciais<br />
devido à incerteza sobre o rumo da pandemia<br />
do covid-19”, lê-se na mais recente análise do Banco<br />
Mundial à economia moçambicana, divulgada em<br />
Washington.<br />
Nesta 6ª edição do relatório, designado por “World Bank<br />
Mozambique Economic Update: Setting the Stage for<br />
Recovery”, aponta-se que a pandemia que atingiu a<br />
economia de Moçambique terá retrocedido substancialmente<br />
os esforços de recuperação da crise da dívida<br />
e dos efeitos dos ciclones tropicais de 2019. Refere-se<br />
também que a queda do PIB real em 1,3% no ano passado<br />
está bastante longe da estimativa pré-covid de 4,3%,<br />
o que se terá verificado devido à redução da procura<br />
agregada das medidas de bloqueio necessárias para<br />
conter o vírus que “perturbaram as cadeias de abastecimento”.<br />
No entanto, o relatório observa que as perdas<br />
de postos de trabalho e o encerramento de empresas,<br />
embora significativas, “foram comparativamente<br />
mais baixas do que noutros países de contexto económico<br />
similar”.<br />
“Apesar dos esforços concertados para conter a sua<br />
propagação e mitigar os seus efeitos, a covid-19 continua<br />
a afectar negativamente as famílias e empresas,<br />
atrasando o progresso do País em direcção aos Objectivos<br />
de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”, observou<br />
Idah Pswarayi-Riddihough, Directora do Banco Mundial<br />
para Moçambique, Madagáscar, Ilhas Maurícias,<br />
Seicheles, Comores.<br />
ECONOMIA<br />
Financiamento. A Société Générale,<br />
instituição financeira<br />
que opera há cinco anos<br />
no mercado moçambicano<br />
e a Proparco - uma agência<br />
francesa de desenvolvimento,<br />
rubricaram, a 16 de Março,<br />
um acordo de partilha de<br />
risco para o financiamento<br />
das Micro Pequenas e Médias<br />
Empresas (MPME) nacionais,<br />
tendo como prioridade<br />
as do ramo do agro-negócio<br />
e o empreendedorismo<br />
feminino.<br />
O valor envolvido é de três<br />
milhões de euros (equivalentes<br />
a mais de 260 milhões de<br />
meticais ao câmbio actual).<br />
O risco será também partilhado<br />
pela União Europeia,<br />
pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento<br />
e pelo Grupo<br />
de Estados de África, Caraíbas<br />
e Pacífico (ACP).<br />
Taxas de juro. O economista-<br />
-chefe do Standard Bank -<br />
Moçambique, Fáusio Mussá,<br />
considera que o Banco Central<br />
poderá preparar outro<br />
aumento da taxa de política<br />
monetária (taxa MIMO),<br />
caso as pressões inflacionárias<br />
se mantenham. Trata-<br />
-se de uma notícia desagradável<br />
para o sector privado<br />
que, mesmo protestando,<br />
ainda procura refazer-se<br />
da última subida desta taxa<br />
em Janeiro passado, em 300<br />
pontos base, para 13,25%.<br />
Comentando os resultados<br />
do mais recente inquérito do<br />
Standard Bank, denominado<br />
Purchasing Managers’ Index<br />
(PMI), Fáusio Mussá<br />
lembrou que, segundo a última<br />
publicação do Instituto<br />
Nacional de Estatística, a inflação<br />
anual aumentou para<br />
4,1% em Janeiro, face aos<br />
3,5% de Dezembro.<br />
“Os temporais e chuvas intensas<br />
ocorridos em certas<br />
regiões do País desde o início<br />
do ano poderão afectar<br />
negativamente a produção<br />
de alimentos e, por esta<br />
via, gerarão uma pressão<br />
adicional sobre a inflação”,<br />
afirmou.<br />
Negócios. A empresa Nacala<br />
Logistics fechou o ano de<br />
2020 com um prejuízo de 31<br />
milhões de dólares, no resultado<br />
líquido. O resultado<br />
financeiro foi demasiadamente<br />
afectado pela redução<br />
das receitas resultantes<br />
do baixo volume de transporte<br />
e manuseio de carvão<br />
e de carga geral no Corredor<br />
de Nacala. O Relatório de<br />
Produção e Financeiro do 4º<br />
trimestre de 2020 indica que<br />
o transporte de carga geral<br />
diminuiu em cerca de 40%,<br />
enquanto o transporte e embarque<br />
de carvão teve um<br />
decréscimo de cerca de 20%<br />
em relação ao ano anterior.<br />
No mesmo período, a Nacala<br />
Logistics registou um resultado<br />
operacional de 84 milhões<br />
de dólares, menos 27%,<br />
em relação a igual período<br />
de 2019.<br />
Dívida privada. O Instituto Financeiro<br />
Internacional (IFI),<br />
que representa os credores<br />
privados, considera que<br />
Moçambique está entre os<br />
países que mais provavelmente<br />
poderão aderir ao<br />
Enquadramento Comum do<br />
G20 para reestruturar a dívida<br />
privada.<br />
“Os países que já participaram<br />
na Iniciativa de Suspensão<br />
do Serviço da Dívida<br />
(DSSI) e têm necessidades<br />
elevadas em termos de<br />
serviço da dívida são os que<br />
mais provavelmente poderão<br />
aderir ao Enquadramento<br />
Comum” para o trata-<br />
8<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
mento da dívida para além<br />
da DSSI, lê-se numa nota de<br />
análise escrita pelo departamento<br />
de estudos económicos<br />
do fórum que juntou<br />
os credores privados a nível<br />
mundial.<br />
EXTRACTIVAS<br />
Conteúdo local. A LAM (Linhas<br />
Aéreas de Moçambique)<br />
assinou um acordo com<br />
a petrolífera francesa Total<br />
para prestar transporte na<br />
rota Maputo-Pemba-Afungi,<br />
anunciou recentemente<br />
a companhia.<br />
O contrato de três anos, cuja<br />
efectividade teve início a 1<br />
de Março, reflecte o princípio<br />
de valorização do conteúdo<br />
local e, com base no<br />
mesmo, a LAM dedica à TO-<br />
TAL uma aeronave do modelo<br />
Bombardier Q400. O<br />
entendimento entre as duas<br />
empresas ocorreu depois<br />
de uma série de auditorias<br />
que a multinacional fez à<br />
companhia aérea para aferir<br />
o grau de cumprimento<br />
dos requisitos exigidos aos<br />
operadores de voos para<br />
projectos desta natureza.<br />
Carvão. As principais minas<br />
de carvão de Moçambique<br />
perderam um terço da produção<br />
e mais de metade das<br />
receitas de venda, agravando<br />
o prejuízo em 2020, face<br />
ao ano anterior, segundo dados<br />
divulgados pela empresa<br />
brasileira Vale em Maputo.<br />
A produção total do ano “situa-se<br />
em 5,9 milhões de toneladas,<br />
reflectindo os impactos<br />
da pandemia do covid-19”<br />
após uma produção de 8,8 milhões<br />
de toneladas em 2019,<br />
lê-se em comunicado.<br />
Segundo os resultados financeiros<br />
da Vale relativos<br />
a 2020, a receita líquida de<br />
vendas de carvão caiu 54%,<br />
de mil milhões de dólares em<br />
2019 para 473 milhões de dólares.<br />
O prejuízo do segmento<br />
de carvão agravou-se em<br />
74%, de 533 milhões de dólares<br />
em 2019 para 931 milhões<br />
de dólares em 2020.<br />
Estas perdas afectam em<br />
grande medida as exportações<br />
do País.<br />
Exxon Mobil. A petrolífera<br />
norte-americana Exxon Mobil<br />
adiou, pelo terceiro ano<br />
consecutivo, a Decisão Final<br />
de Investimento (DFI) sobre o<br />
projecto de exploração de gás<br />
natural em Moçambique, colocando<br />
em dúvida o investimento<br />
de 30 mil milhões de<br />
dólares.<br />
De acordo com a agência de<br />
informação Bloomberg, que<br />
cita o vice-presidente da empresa,<br />
Neil Chapman, durante<br />
uma conversa com analistas,<br />
não há previsão sobre quando<br />
será tomada a DFI, já que a<br />
petrolífera precisa de garantir<br />
o fornecimento de energia<br />
por parte da fábrica vizinha,<br />
operada pela francesa Total.<br />
Recursos minerais. Os produtos<br />
minerais extraídos em<br />
Moçambique passarão a<br />
ostentar, a partir do próximo<br />
mês de Abril, um certificado<br />
de origem para a sua<br />
exportação.<br />
Para o efeito, o Governo vai<br />
lançar em breve a embalagem<br />
e o respectivo certificado.<br />
“Já temos a embalagem<br />
e o certificado aprovados,<br />
sendo que o seu lançamento<br />
é uma questão<br />
de datas”, garantiu Castro<br />
Elias, secretário executivo<br />
do processo Kimberley (um<br />
procedimento internacional<br />
para a certificação de<br />
origem de alguns produtos<br />
para evitar fluxos financeiros<br />
ilícitos com destaque para<br />
o diamante).<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
OPINIÃO<br />
A disrupção pelo e-commerce<br />
Bruno Dias • Partner – Business Consulting EY<br />
Omercado e-commerce apresentava fortes taxas<br />
de crescimento em vários relatórios de<br />
analistas elaborados no período pré-pandemia,<br />
muitos deles apontando taxas anuais de<br />
crescimento composto superiores a 30% no<br />
período entre 2019 a 2024.<br />
Este facto foi acelerado pela pandemia e a penetração do<br />
comércio electrónico registou um crescimento súbito e extremamente<br />
rápido em 2020. A título de exemplo, nos EUA,<br />
em apenas 8 semanas, foi registado +11% de crescimento<br />
absoluto do comércio electrónico, elevando a penetração<br />
das vendas de e-commerce até 27% em comparação com o<br />
total das vendas no retalho tradicional.<br />
Espera-se que um crescimento tão significativo das vendas<br />
de e-commerce tenha um impacto duradouro mesmo após<br />
o fim da pandemia, uma vez que irá mudar os hábitos de<br />
consumo e, consequentemente, o comportamento dos consumidores.<br />
Mesmo que se tenha feito compras tradicionalmente<br />
em lojas de retalho físico, um novo hábito está a ser<br />
formado de compras de e-commerce e, uma vez ultrapassado<br />
o obstáculo inicial da “barreira digital”, as contas online<br />
e os meios de pagamento ficam configurados bastando<br />
clicar num botão para fazer compras repetidas, 24*7 e sem<br />
ter de esperar na fila carregando sacos e desfrutando de<br />
conveniência. A migração de consumidores cada vez mais<br />
para os canais digitais está para ficar.<br />
Em Moçambique é de salientar a elevada taxa de crescimento<br />
de utilizadores de internet – 25,5% no último ano.<br />
Este crescimento, aliado à crescente bancarização, actua<br />
positivamente na penetração do e-commerce e tenderá a<br />
elevar os actuais 9,5% da população que faz compras e/ou<br />
paga contas online para mais próximo da média mundial<br />
que se situa nos 29%.<br />
As plataformas de e-commerce têm evoluído de arquitecturas<br />
básicas, que permitem navegar catálogos de produtos,<br />
executar self-service, manter contas personalizadas<br />
e ter uma experiência unificada em vários canais, para<br />
novos paradigmas de interacção e novos modelos de experiência<br />
do consumidor.<br />
De facto, a experiência do cliente é neste momento a prioridade,<br />
transversalmente a marcas, produtos e canais. A<br />
utilização da inteligência artificial neste desígnio é uma<br />
realidade permitindo o conhecimento de padrões de comportamento<br />
e necessidades do consumidor e o match optimizado<br />
da oferta com a procura.<br />
A tecnologia dá poder aos consumidores uma vez que faculta<br />
maior transparência nos preços. Isto força os retalhistas<br />
a uma maior competição pelo preço, com consequente<br />
impacto nas margens. Aqueles retalhistas que não são<br />
competitivos no preço no online arriscam-se a ter fortes<br />
impactos nas vendas.<br />
A emergência de novos modelos de negócio e canais que<br />
melhor se encaixam nas necessidades dos consumidores<br />
têm-nos feito divergir dos conceitos tradicionais. Esta mudança<br />
tem pressionado o retalho físico e muitos players<br />
têm optado pelo fecho de lojas.<br />
Um movimento interessante que se tem visto recentemente<br />
são parcerias e aquisições para ocupar um espectro<br />
maior na cadeia de valor. Por exemplo, a Walmart associou-se<br />
à Instacart para fornecer entregas mais rápidas<br />
A emergência de novos modelos negócio e canais que melhor se encaixam nas necessidades<br />
dos consumidores têm-nos feito divergir dos conceitos tradicionais. Esta mudança tem<br />
pressionado bastante o retalho físico e muitos players têm optado pelo encerramento de lojas<br />
10<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
A fusão da Walmart com a Instacart é um exemplo de eficiência no serviço ao cliente<br />
aos seus clientes e a competir com a divisão Whole Foods da<br />
Amazon que faz entregas no mesmo dia. O retalhista tradicional<br />
aliou-se assim a um operador logístico numa lógica<br />
“win-win” no online.<br />
Outro movimento observado prende-se com o facto dos disruptores<br />
teram transformado produtos em serviços que<br />
podem atender às maiores necessidades dos consumidores.<br />
Todos temos a experiência de entrar em lojas de centros<br />
comerciais onde a roupa está espalhada, tornando muito<br />
difícil montar uma combinação adequada de artigos. Este<br />
tipo de ambiente oferece muito pouco valor aos consumidores,<br />
uma vez que é difícil e frustrante de navegar.<br />
Em contraste, a stylist digital “Stitch Fix“ reúne combinações<br />
de roupas na sua plataforma online, emparelhadas<br />
por algoritmos e dados do cliente para prever que roupa<br />
vão querer usar.<br />
Com base em combinações de cores, padrões e têxteis favoritos<br />
dos consumidores, novos produtos são então sugeridos<br />
para aprovação de designers humanos. Como resultado<br />
deste processo, os clientes economizam tempo na selecção<br />
de uma roupa e têm maior agilidade e eficácia na escolha.<br />
Enquanto alguns retalhistas têm conseguido aumentar<br />
a sua penetração online, outros têm tido dificuldades por<br />
um conjunto de razões, como cadeias de distribuição e sistemas<br />
de IT não adaptados às novas realidades digitais e<br />
dificuldade na adaptação do modelo de negócio aos novos<br />
paradigmas.<br />
Um exemplo de sucesso é o Walmart cujo preço por acção<br />
caiu 10% inicialmente, em Outubro de 2015, quando a sua<br />
gestão anunciou uma mudança de paradigma para modelos<br />
de negócio digitais numa perpectiva de desenvolvimento<br />
do negócio de longo prazo. Os investidores que decidiram<br />
permanecer com acções foram compensados já que estas<br />
aumentaram 138% até Agosto de 2020. Durantes este período,<br />
a Walmart viu algumas das suas decisões mais ousadas<br />
de mudança de paradigma darem frutos.<br />
O retalho está, assim, numa encruzilhada e os retalhistas<br />
tradicionais estão sob pressão de disruptores que conseguem<br />
satisfazer as necessidades dos consumidores de forma<br />
rápida e eficiente.<br />
Pense bem – imagino que queira estar do lado dos disruptores<br />
nesta nova realidade.<br />
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11
ESPECIAL<br />
GARIMPO DESCONTROLADO: O ELO MAIS<br />
FRACO DOS MINÉRIOS MOÇAMBICANOS<br />
Há garimpeiros de todas as idades que aceitam trabalhar em túneis precários. Dizem não ter alternativas para se sustentar<br />
a si e às famílias. Veteranos dizem que há formas de minimizar os riscos, mas as mortes sucedem-se<br />
Texto André Catueira * Serviço especial da agência Lusa para a Economia & Mercado • Fotografia André Catueira<br />
achuva cai forte e ainda<br />
não passaram três dias<br />
desde o último acidente<br />
mortal com um garimpeiro<br />
em Fenda, distrito de<br />
Manica, no centro de Moçambique.<br />
“Não ouvem nada quando a<br />
gente fala em prevenção. Quando dizemos<br />
para não trabalharem em zonas<br />
perigosas”, queixa-se Manuel Pedro, 69<br />
anos, o garimpeiro mais velho daquela<br />
zona de extracção ilegal de ouro. “Eles<br />
entram, a maioria de noite, sozinhos,<br />
com alavanca, pá e um saco. Vão para<br />
garimpar sozinhos” explica, sem aprofundar<br />
mais detalhes sobre o mais recente<br />
infortúnio. Uma morte a coberto<br />
de uma actividade informal e ilegal e<br />
que por isso não vai constar de estatísticas,<br />
nem aparecer nas notícias. A época<br />
ciclónica tem sido muito activa, os riscos<br />
aumentam, mas nem isso demove os<br />
garimpeiros, que dizem não ter outra<br />
forma de sustentar as famílias. Mesmo<br />
quando encaram a morte. Para as empresas<br />
que operam no sector, eles são<br />
vistos como um risco para a segurança<br />
dos terrenos, promovendo a erosão.<br />
São também apontados como um risco<br />
para transacções financeiras ilícitas,<br />
dada a informalidade em que vivem.<br />
Mas entre umas análises e outras, o garimpo<br />
está no terreno. Nem a forte precipitação<br />
da actual época das chuvas<br />
o tem parado. Porque é que persiste?<br />
Manuel Pedro, o escavador mais antigo<br />
de Fenda, trabalha na mineração há 33<br />
anos e gaba-se de ter sustentado “muitos<br />
filhos” graças à venda de ouro, numa<br />
área com um grande contraste entre a<br />
intensidade da exploração e a pobreza<br />
que caracteriza a região. Hoje, diz que<br />
tem ensinado aos jovens formas de “ter<br />
cuidado” no garimpo. Mas os acidentes<br />
são inevitáveis. “Já assisti a muitos acidentes.<br />
Nem dá para contar. Foram vários<br />
e eu a ver mortos entre amigos, encarregados<br />
do garimpo ou outros colegas”,<br />
relata Belito Paulino, 29 anos, há<br />
dois no garimpo em Fenda. O risco é<br />
grande, mas “se ficar em casa não tenho<br />
como sustentar a família. Por isso,<br />
arrisco”. É difícil perceber como se pode<br />
ter cuidado perante a paisagem caó-<br />
12<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
GARIMPO<br />
em grupos, pequenos ou maiores. Tudo<br />
escorado por tábuas, pás, pedras e uma<br />
boa dose de instinto. Tira-se a terra para<br />
o exterior, peneira-se para procurar<br />
ouro. Ou remexe-se o leito do rio<br />
com um prato ou outra base, sacode-<br />
-se a água e outras areias para tentar<br />
encontrar o mineral no fundo. São condições<br />
impiedosas, garantem, daquelas<br />
que “provocam febres”. Este revirar<br />
a terra com ferramentas manuais<br />
em busca de prosperidade é frequente<br />
em Moçambique, em muitas regiões de<br />
abundância de minerais e nas imediações<br />
de unidades de extracção de ouro,<br />
turmalinas, rubis ou outros recursos.<br />
As condições precárias de segurança<br />
tornam a actividade mineira artesanal<br />
arriscada em vários túneis, alguns com<br />
60 metros de comprimento, sustentados<br />
por estacas de plantas nativas e galhos<br />
de restos de eucaliptos coloniais. Ao largo<br />
da agitação das escavações, um representante<br />
de compradores estrangeiros<br />
tem a sua banca com uma pequena<br />
balança electrónica onde pesa e<br />
avalia as pequenas partículas de ouro<br />
recolhidas por cada grupo – outros vão<br />
até à sede de distrito vendê-las, depois<br />
de se abastecerem com alguns bens essenciais.<br />
Essas trocas estão à distância<br />
de uma caminhada desde os campos de<br />
extracção. Entramos numa área de alojamento.<br />
Um bairro de lata onde tudo é<br />
precário e impróprio - mas onde uma<br />
mesa de ‘snooker’ atrai os garimpeiros.<br />
nível mundial é outra: o ouro subiu até<br />
2011, depois recuou, e teve nova subida<br />
a partir de 2019 para atingir máximos<br />
históricos durante a pandemia de covid-19,<br />
em 2020, superando os 2000 dólares<br />
por onça (cada onça equivale a 31<br />
gramas) – cerca de dez vezes mais do<br />
que valia no início do século. A fatia de<br />
leão do dinheiro que se ganha com o ouro<br />
parece não ficar por estas paragens.<br />
O governo de Moçambique desenvolveu,<br />
em 2017, um programa-piloto de<br />
cooperativas minerais de pequena escala,<br />
numa tentativa de organizar o garimpo<br />
artesanal que é feito junto das zonas<br />
de extracção. O projecto encontrou<br />
resistência em muitas áreas de extracção<br />
artesanal ilegal, mas noutros locais<br />
o cenário é diferente.<br />
Oito quilómetros a norte de Fenda, percorrendo<br />
uma estrada lamacenta, chegamos<br />
a Munhena, onde os garimpeiros<br />
se associaram há 21 anos. Hoje são quase<br />
200 a operar numa área legalizada<br />
de 200 hectares. “Estamos a trabalhar<br />
em grupos de dez pessoas” que não fazem<br />
mais do que “20 a 25 gramas” de ouro<br />
por semana, por grupo. “Mas quando<br />
estávamos bem organizados, com maquinaria”,<br />
cada grupo tirava “800 gramas<br />
por semana”, explica Noé Bernardo,<br />
o secretário da associação. A maquinaria<br />
pertencia a um sócio sul-africano,<br />
entre 2006 e 2012, mas que se retirou,<br />
queixando-se das taxas que tinha de<br />
pagar. Seja como for, Noé acredita que a<br />
“Já assisti a muitos acidentes. Nem dá para contar. Foram<br />
vários e eu a ver mortos e feridos entre pessoas próximas:<br />
amigos, familiares, encarregados do garimpo ou colegas”<br />
tica que se vislumbra nestas terras do<br />
distrito de Manica. Eram ‘machambas’,<br />
hortas, cujos proprietários foram cedendo<br />
a pouco e pouco a grupos interessados<br />
em abrir poços e túneis. Em troca,<br />
dão uma parte das receitas do minério<br />
ao dono do terreno. Tudo em modo informal,<br />
à margem da lei, mas perfeitamente<br />
legítimo aos olhos de quem precisa<br />
de um ganha-pão. E assim surgem<br />
terras de Fenda onde já não se vêem<br />
hortas. Mais parece uma paisagem<br />
lunar, cravada de crateras, buracos<br />
fundos de onde entram e saem baldes<br />
presos por cordas. Entram e saem pessoas<br />
da cor da argila. Tudo fervilha de<br />
vida, sem sorrisos e sem parar, como na<br />
rotina de um formigueiro. Trabalham<br />
Muitos moram por ali, outros montam<br />
cabanas no mato. Mas é no bairro de lata<br />
que trocam pequenas partículas de<br />
ouro por farinha, peixe seco salgado ou<br />
“boss”, uma bebida espirituosa tão artesanal<br />
como o garimpo. Hoje dá para trocar<br />
cinco copos de farinha por ‘um ponto’,<br />
que corresponde a 300 meticais, sendo<br />
que dez pontos equivalem a um grama<br />
de ouro. Depois de se abastecerem,<br />
os garimpeiros enviam o resto da receita<br />
para a família, que geralmente vive<br />
noutras paragens. A “ajuda” para a família<br />
é a expressão que mais se ouve<br />
entre os testemunhos. Os homens que<br />
reviram a terra queixam-se de uma<br />
queda, que já dura há muito, do preço local<br />
do ouro, mas a verdade da cotação a<br />
organização é o caminho a seguir. Muitos<br />
garimpeiros são vítimas da sazonalidade<br />
das oportunidades. Empurrados<br />
para uma actividade arriscada porque<br />
as mais básicas necessidades o impõem.<br />
Constância Caruru, 28 anos, largou o comércio<br />
informal numa banca. O garimpo<br />
é hoje o seu único ‘ganha-pão’, relata,<br />
sacudindo os ombros quando confrontada<br />
com a sucessão de notícias de<br />
acidentes mortais com garimpeiros em<br />
Moçambique. “Quais são as alternativas?”,<br />
contrapõe. “Já estou aqui há uma<br />
semana. Ganhei coragem de vir para o<br />
garimpo para sustentar os meus filhos,<br />
porque ficando em casa não tinha como<br />
sustentar a família”, diz Constância, falando<br />
em shona, a língua local. Já hou-<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
13
ESPECIAL<br />
MORTES, UM RETRATO CRUEL<br />
Muitos acidentes e mortes de<br />
garimpeiros não chegam a ser<br />
registados, dada a forma fortuita<br />
como a actividade é feita em muitos<br />
locais. Noutros há registos que<br />
mostram a cruel realidade do garimpo<br />
artesanal. As mais recentes mortes<br />
de garimpeiros em Moçambique<br />
aconteceram a 17 e 20 de Janeiro no<br />
norte do País, numa mina ilegal da<br />
área de concessão da Montepuez<br />
Ruby Mining (MRM), em Cabo<br />
Delgado. A mineradora alerta para<br />
os perigos da exploração ilegal e<br />
refere que o problema matou pelo<br />
menos 25 pessoas em 2020 na<br />
sua área de concessão, na maioria<br />
homens jovens de outros países ou<br />
de aldeias distantes. “As práticas<br />
inseguras por parte dos mineiros<br />
ilegais, que são normalmente<br />
supervisionados ou coagidos por<br />
sindicatos de contrabando ilegal de<br />
pedras preciosas, financiados por<br />
comerciantes estrangeiros que operam<br />
na região, continuam a resultar na<br />
perda desnecessária de vidas”, alertou<br />
a empresa.<br />
“O homem que faz o garimpo é apenas o elo mais fraco de<br />
toda uma cadeia. O ouro acaba nas mãos de homens de fato<br />
e gravata, metidos em actividades pouco recomendáveis”<br />
ve épocas em que vendia refrescos e<br />
bolos, mas, “com a chuva, o negócio não<br />
tem dado lucro. Por aqui a agricultura<br />
é negligenciada, e as poucas plantações<br />
nos antigos e férteis campos agrícolas,<br />
emprestados agora para o garimpo,<br />
têm o milho esquálido por falta de<br />
húmus. Muitos jovens justificam a entrada<br />
para o garimpo com esta pobreza<br />
que se reflecte na produção agrícola.<br />
Faltam oportunidades de emprego e<br />
de outras actividades e agora até no garimpo<br />
receiam que a entrada massiva<br />
de operadores chineses lhes possa tirar<br />
o pão. “Eles querem os mesmos lugares<br />
onde estão a trabalhar os garimpeiros<br />
e nem estradas estão a arranjar. Só<br />
estão a levar produtos”, desabafa, Isac<br />
Watimanarero, <strong>35</strong> anos. Mesmo sendo<br />
garimpeiro ilegal, isso não o impede de<br />
pedir uma intervenção das autoridades<br />
face à chegada de estrangeiros.<br />
Trama Daniel, garimpeiro há sete anos,<br />
trabalha assustado em túneis que po-<br />
dem ser invadidos a qualquer altura<br />
por máquinas que roncam ao lado,<br />
pertencentes a uma empresa chinesa.<br />
O futuro de muitos garimpeiros e seus<br />
filhos, dizem eles, “está comprometido”.<br />
Além do ouro, também a bauxite é muito<br />
explorada na região, tanto por empresas<br />
nacionais como estrangeiras.<br />
Uma ameaça às empresas e ao sector<br />
O garimpo ilegal, visto como uma necessidade<br />
para sustentar famílias pelos<br />
garimpeiros, é também encarado<br />
como um problema pelas empresas<br />
licenciadas. Como exemplo, a Mozambique<br />
Mining Resources (MMC) - uma<br />
“joint-venture” entre investidores moçambicanos<br />
e chineses - extrai ouro na<br />
única mina subterrânea activa do País<br />
com galerias entre 120 e 160 metros de<br />
profundidade em Tete e onde é normal<br />
encontrar “intrusos”. “Os garimpeiros<br />
eram e são uma forte ameaça à nossa<br />
actividade. Além de terem faro para<br />
o ouro, porque têm excelentes conhecimentos<br />
de geologia – são mesmo<br />
`geólogos empíricos´ –, usam técnicas<br />
nocivas ao ambiente”, disse à Lusa o director-geral<br />
da MMC, Dingane Mamadhusen,<br />
durante uma visita à mina em<br />
Outubro de 2020. Pouco tempo depois<br />
de a companhia ter iniciado actividade,<br />
em finais de 2018, teve de interromper<br />
porque a montanha que cobre uma<br />
das galerias ameaçava ruir, devido à<br />
erosão provocada pela mineração ilegal.<br />
A segurança na mina é apertada:<br />
uma força combinada da polícia moçambicana<br />
e de uma empresa privada<br />
garantem a protecção das instalações<br />
para impedir que o precioso minério<br />
chegue a mãos impróprias.<br />
O garimpo sem regras implica outros<br />
riscos: se o ouro passar de mão em<br />
mão, a partir de garimpeiros ilegais,<br />
pode acabar por financiar actividades<br />
ilícitas, incluindo o terrorismo. “O homem<br />
de tronco nu e ensopado que faz<br />
o garimpo é apenas o elo mais fraco<br />
de toda uma cadeia. O ouro acaba nas<br />
mãos de homens de fato e gravata que<br />
andam metidos em actividades pouco<br />
recomendáveis”, afirma o diretor-geral<br />
do MCC.<br />
14<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
NÚMEROS EM CONTA<br />
COMO OS MAIS RICOS FICARAM... MAIS RICOS<br />
EM 2020. E QUEM SÃO?<br />
mais de 567 mil milhões de dólares foram acumulados pelas<br />
dez pessoas mais ricas do mundo em menos de um ano. E<br />
que ano, o de 2020. Para colocar o valor em perspectiva, isso é<br />
mais do que sete vezes a riqueza acumulada pelos dez maiores<br />
empresários no período de tempo anterior e 37 vezes a riqueza<br />
anual produzida em Moçambique se a estimarmos em 15 mil<br />
milhões de dólares, valor do PIB.<br />
E basta um exemplo do que falamos: Elon Musk, da Tesla, testemunhou<br />
um aumento da sua riqueza de, pelo menos, 500%<br />
no último ano. Já Jeff Bezos, da Amazon, ganhou uns ‘interessantes’<br />
68,6 mil milhões de dólares a mais.<br />
Com dados da Forbes Real-Time Billionaires List, verificamos<br />
como a riqueza de vários grupos uber-affluent mudou desde o<br />
início da pandemia.<br />
A fortuna de Bezos tem crescido quase<br />
70% desde Março de 2020. Após<br />
26 anos, o CEO da Amazon anunciou<br />
que se tornaria presidente executivo.<br />
Elon Musk testemunhou a sua riqueza<br />
crescer mais de cinco vezes no último<br />
ano. Em 2020, Tesla relatou o seu<br />
primeiro ano lucrativo.<br />
Com uma participação de 33% na L’Oréal,<br />
cujas acções saltaram 25% em 2020, a<br />
fortuna da mulher mais rica do mundo<br />
aumentou 14 mil milhões.<br />
Aos 39 anos, Yang Huiyan detém uma<br />
participação de 57% na imobiliária<br />
Country Garden Holding na China.<br />
Zhong Shanshan viu a sua riqueza<br />
crescer mais de 15 mil milhões depois<br />
da sua empresa de água engarrafada<br />
Nongfu Spring se ter tornado pública.<br />
Anteriormente o mais rico da China,<br />
Jack Ma desapareceu durante três<br />
meses após o IPO do Grupo Ant ter<br />
sido bloqueado pelos reguladores.<br />
O mais rico da Índia atraiu financiamento<br />
do Facebook (5,7 mil milhões)<br />
e da Google (4,5 mil milhões) para<br />
criar a rede móvel da Jio Platforms.<br />
Gautam Adani controla o maior porto<br />
da Índia.<br />
16<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
Durante o covid-19, a riqueza<br />
do CEO do Facebook disparou<br />
com as acções a subirem 70%.<br />
Depois de passar pela Google,<br />
fundou a Pinduoduo, uma<br />
plataforma de comércio<br />
electrónico em rápido crescimento.<br />
Sábio de Omaha, Warren tem<br />
90 anos de idade.<br />
Petr Kellner, nascido na República<br />
Checa, 56 anos, dirige<br />
o grupo de investimento PPF<br />
que opera em 25 países a nível<br />
mundial.<br />
O magnata do petróleo Jerry<br />
Jones é o proprietário dos<br />
Dallas Cowboys. A equipa da<br />
NFL vale 5,7 mil milhões.<br />
Arthur Blank, cofundador da<br />
Home Depot, é proprietário<br />
das Falcões de Atlanta da<br />
NFL.<br />
Três dos dez mais<br />
ricos do mundo (excluindo<br />
os Estados<br />
Unidos e a China)<br />
são de França.<br />
Fonte Visual Capitalist<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
17
OPINIÃO<br />
A importância dos derivativos no mercado<br />
Sérgio Maciel • Head of Trading Absa Bank Mozambique - CIB Markets<br />
Quando o banco de moçambique, surpreendentemente,<br />
decidiu, através do aviso nº. 5/GBM/2019<br />
de 22 de Março, proibir transacções com recurso<br />
a taxa de câmbio à prazo, fê-lo com a<br />
nítida convicção de que havia necessidade de<br />
regulamentar este mercado, definir regras<br />
claras de actuação para os vários intervenientes e fazedores<br />
de preço e ainda pôr balizas na precificação destes<br />
instrumentos. De certa forma estavam certos. Não há mercado<br />
que funcione sem regras, sem controlo e sem clareza.<br />
Por parte do regulador, havia ainda a crença de que estas<br />
operações estariam a criar pressão adicional ao nosso<br />
metical, acelerando a desvalorização da moeda, pois as<br />
mesmas estavam a ocorrer num mercado a prazo que dificilmente<br />
se conseguia distinguir do mercado à vista. Portanto,<br />
a clara falta de transparência foi o motivo principal<br />
desta decisão que, na altura, criou grande insatisfação por<br />
parte dos agentes financeiros e do sector privado, que estavam<br />
habituados a ter estas soluções para cobertura dos<br />
seus riscos cambiais. A revolta prendia-se ao facto de o<br />
banco central estar a limitar o desenvolvimento do mercado<br />
e deixando as empresas à mercê da volatilidade da<br />
moeda. Essa ausência de regulamentação apropriada deu<br />
origem a que as diversas variáveis usadas para estipular<br />
a taxa de câmbio futura fossem feitas ao bel-prazer de<br />
cada operador, muitos ignorando as regras internacionais<br />
de conduta de mercado e precificação destes instrumentos,<br />
que constituem a bíblia de qualquer mercado financeiro.<br />
Com a recente aprovação do Aviso nº. 1/GBM/<strong>2021</strong> de 4 de Fevereiro,<br />
sobre os derivativos financeiros, é oportuno colocar<br />
sob os holofotes os impactos destes instrumentos no mercado<br />
financeiro moçambicano. Os derivativos são negociados<br />
sob a forma de um contrato, no qual estão especificados as<br />
moedas envolvidas, os montantes, os prazos de liquidação e<br />
forma de cotação do activo sobre os quais se efectua a respectiva<br />
negociação. Assim, seja qual for a tendência dos preços<br />
no mercado à vista, os intervenientes têm a garantia de<br />
que na data futura terão o preço acordado previamente. Os<br />
derivativos classificam-se em contratos Futuros, Opções de<br />
compra e venda, operações de Swaps, entre outros, tendo<br />
cada um dos instrumentos as suas características e especificidades.<br />
Como todos os mercados, o dos derivativos, também<br />
será constituído por normativos e de certeza algumas intervenções<br />
do regulador que, de certa forma, determinarão<br />
o modo pelo qual os intervenientes poderão se comportar,<br />
ficando por saber se o mercado de derivativos terá um controlo<br />
rígido tal e qual é imposto no mercado à vista. Se não<br />
houver diferenças regulatórias entre eles, provavelmente<br />
não teremos o mesmo cenário vivido em 2019, que obrigou<br />
o banco central a cancelar transacções com recurso a taxa<br />
de câmbio a prazo. Portanto, a acção do banco central vai ser<br />
relevante, não só do ponto de supervisão e fiscalização, mas<br />
sobretudo no seu papel de interveniente no mercado.<br />
Não tenho dúvidas de que estes instrumentos representam<br />
uma tema complexo, com muito ainda por ser estudado. Mas,<br />
também, tenho a certeza que os derivativos vão de certa<br />
maneira proteger os nossos agentes económicos contra as<br />
variações adversas na moeda e na taxa de juro, vão permitir<br />
a transferência dos riscos oriundos dessas flutuações e,<br />
ao mesmo tempo, vão permitir que todos os intervenientes<br />
tenham um fluxo de liquidez mais previsível e, consequentemente,<br />
com um melhor planeamento de gestão de tesouraria.<br />
Paralelamente, veremos ainda um aumento considerável<br />
do número de negócios, resultando, assim, numa maior<br />
liquidez no mercado. Não menos importante vai ser o facto<br />
de o nosso mercado passar a dispor de mais instrumentos<br />
financeiros para oferecer aos seus clientes, sobretudo para<br />
as grandes empresas e investidores que nos sectores de<br />
mineração, petróleo e gás, agrícola, entre outros, já estavam<br />
habituados a ter estes instrumentos para sua gestão.<br />
Por fim, uma boa nova que este normativo traz é a necessidade<br />
de uniformização dos contratos entre as partes e ainda<br />
o facto de podermos recorrer às regras e princípios da<br />
Associação Internacional de Swaps e Derivativos (ISDA, na<br />
sigla em inglês), o que vai promover a confiança dos investidores,<br />
sobretudo os externos, pelo facto de reconhecermos<br />
os padrões legais internacionalmente aceites, o que criará<br />
um ambiente de investimento mais atraente. No entanto, há<br />
necessidade de cada instituição participante no mercado<br />
reforçar competências e conhecimentos para interpretar<br />
e aplicar as normas internacionais do mercado financeiro,<br />
pois acredito que, à medida que vamos desenvolvendo, aplicaremos<br />
outros master agreements que estão em uso nos<br />
mercados internacionais.<br />
Inovações financeiras como os derivativos impulsionarão o desenvolvimento do nosso mercado,<br />
vão garantir maior eficiência, integridade, segurança, transparência e solidez do mercado<br />
18<br />
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NAÇÃO<br />
20<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
PROFISSÕES DO FUTURO<br />
QUANDO O TRABALHO DO FUTURO<br />
É O FUTURO DO TRABALHO. E JÁ CHEGOU<br />
Em breve, se perguntarmos a uma criança o que quer ser quando crescer, a resposta não será,<br />
provavelmente, a que nos habituámos a ouvir. Não só porque muitas profissões deixarão de existir,<br />
mas porque as que resistirem à revolução tecnológica em curso serão executadas de maneira diferente,<br />
exigirão outro tipo de competências e, por isso, terão outra designação. O mundo já se move nesta<br />
direcção, uns mais rápidos que os outros. E em Moçambique, até onde já conseguimos chegar?<br />
o<br />
mundo atravessa mais uma revolução, a tecnológica,<br />
que poderá custar o fim de um grande<br />
número de empregos. Dados de diferentes<br />
organizações internacionais das áreas de trabalho<br />
e comércio, como o Fórum Económico<br />
Mundial e a UNCTAD, apontam para a destruição<br />
de mais de 47% dos empregos na indústria no mundo,<br />
sobretudo como consequência da robótica e da inteligência<br />
artificial. Igualmente, as áreas de segurança cibernética<br />
já têm um défice de mais de 1,5 milhões de peritos, todos<br />
substituídos pelas novas tecnologias. Só a robótica tem<br />
substituído a presença humana na indústria automóvel,<br />
aviação civil e em outras indústrias de força de trabalho<br />
intensiva. Por conseguinte, a inteligência artificial, a<br />
informatização e a robótica podem substituir, em breve,<br />
milhares de postos de trabalho que dependem do ser humano<br />
de forma directa.<br />
Alguns relatórios sobre o futuro das profissões prevêem<br />
que 85% dos empregos até 2030 ainda nem sequer foram<br />
inventados, pelo que, o facto de Moçambique ter de seguir<br />
as tendências digitais e tecnológicas actuais, fará com que<br />
fique ainda mais na periferia do mundo. A combinação das<br />
ciências, matemáticas e engenharias, mesmo sem produzirem<br />
bens ou serviços directos, serão a base para que se<br />
atinjam níveis de desenvolvimento económico e humano<br />
mais competitivos. “Precisaremos todos de assumir o alerta<br />
sobre as mudanças na estrutura económica de forma mais<br />
séria e ousada. Os recentes dados do censo de 2017 atesta<br />
bem a tipologia da população que mais sofrerá os efeitos<br />
dos ajustes das futuras profissões. Estes jovens, nunca co-<br />
Texto Celso Chambisso • Fotografia Shutterstock & D.R.<br />
mo agora, estiveram tão carentes de empregos. O campo e<br />
a agricultura, ainda tipificada pelos baixos níveis de rendimento<br />
e produtividade, não asseguram a continuidade<br />
dos jovens nas regiões rurais e, consequentemente, serão<br />
forçados à migração para as periferias das cidades”, descreve<br />
o Reitor da Universidade Pedagógica, Jorge Ferrão,<br />
numa breve abordagem do panorama do futuro do trabalho<br />
no País.<br />
Mas de que profissões estamos a falar?<br />
Há uma fileira gigante de profissões novas que vão trazer<br />
o futuro, como data cientists, data analists, data quality controler,<br />
data arquitect, etc., tudo ligado ao que podemos chamar de<br />
′nova moeda‛ – a data.<br />
Ou seja, as profissões do futuro são as que estão muito mais<br />
próximas de manipular esta moeda. Por outro lado, as profissões<br />
que vão desaparecer são as que estão agarradas<br />
aos factores tradicionais de produção. Na área de serviços,<br />
tudo o que tem que ver a com a interacção, isto é, profissões<br />
que envolvam assistência ou atendimento ao cliente e<br />
que exijam grande exposição física com parceiros de negócio<br />
vão sofrer um arraso gigante, também acelerado pela<br />
pandemia do novo coronavírus.<br />
Há que não perder de vista o conjunto de profissões em<br />
que a inteligência artificial e a internet das coisas não<br />
chega, como tomar conta de idosos ou o trabalho de personal<br />
trainer, dactilógrafo, atendimento ao cliente,<br />
impressor offset e funcionário de gráfica, etc., até que se<br />
transformem em virtuais, já que são profissões do futuro<br />
aquelas que têm menos interacção física entre as pessoas.<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
21
NAÇÃO<br />
Há uma fileira gigante de profissões novas que<br />
vão trazer o futuro, como data cientists, data<br />
analists, data quality controler, data arquitect...<br />
Em termos concretos, a lista mais consensual, no mundo, de<br />
algumas profissões do futuro inclui Desenvolvedores de<br />
softwares, Gestor de Conteúdos, Creators (Digital Influencers),<br />
Assessor de creators (profissionais que cuidam das carreiras<br />
de influenciadores digitais), Professor online, Coaching<br />
(profissional que ajuda outras pessoas a evoluírem em diversas<br />
áreas de suas vidas), Marketeer Digital, Engenheiro<br />
Ambiental, Designer 3D, Especialista em Energias Renováveis,<br />
Desenvolvedor Web, Piloto de Drone, etc. A infografia<br />
das páginas 24 e 25 traz alguns detalhes destas e de outras<br />
profissões, ainda que muito aquém do grande volume das<br />
que já se projectam.<br />
Já temos alguns… mas muito pucos!<br />
Há moçambicanos que já estão no futuro. São escassos ainda,<br />
mas existem. A E&M falou com dois. Em comum, o facto<br />
serem autodidactas. Ou seja, foi por curiosidade e esforço<br />
próprio que migraram para o futuro. Não foram inspirados<br />
pela escola. O primeiro é Guidione Machava, desenvolvedor<br />
de softwares. Ele prefere chamar software designer, ou<br />
seja, o profissional que planeia estruturas digitais que depois<br />
são implementadas pelos engenheiros digitais para<br />
diferentes finalidades da actividade empresarial, tal como<br />
faz o arquitecto, que prepara as estruturas físicas que são<br />
implementadas pelos engenheiros de construção civil.<br />
Economista de formação, Guidione é co-fundador de uma<br />
empresa que desenvolve sistemas informáticos, a Moz Devs.<br />
Foi lá onde descobriu que o que fazia tinha um nome e<br />
uma estrutura de organização de trabalho fora do comum.<br />
Então, decidiu seguir e estudou. Felizmente, a disponibilidade<br />
de internet possibilitou a auto-formação.<br />
Guidione, que presta serviços a qualquer empresa que se<br />
queira digitalizar, considera que os jovens têm pouca orientação<br />
para as profissões do futuro por falta de divulgação<br />
das competências deste género de trabalho. “É cansativo<br />
ter de descobrir e perseguir uma profissão por iniciativa<br />
própria. O sistema de educação tem de ser revisto para resolver<br />
o desfasamento entre o que o mercado quer e o que<br />
a indústria nos prepara para fazer”, sugeriu.<br />
Outro é Simião Júnior. É digital marketing manager, tarefa<br />
que inclui uma série de utilidades como desenhar e executar<br />
todo o digital marketing incluindo marketing database,<br />
e-mail, SEM (Search Engine Marketing), social media e campanhas<br />
de display advertising; desenhar, construir e manter a<br />
presença de uma organização nas redes sociais; mensurar<br />
e reportar a performance de todas as campanhas do digital,<br />
etc. Para transitar para o futuro “tive a oportunidade de<br />
fazer parte de uma das comunidades de jovens do mundo<br />
(AIESEC) que permite que os jovens universitários possam<br />
fazer intercâmbios nacionais e internacionais. Ingressei<br />
como coordenador de RH mas queria mais e decidi aplicar-me,<br />
tendo chegado à posição de team leader da mesma<br />
área”, conta o jovem de 23 anos, que diz ter descoberto uma<br />
paixão pelo mundo digital.<br />
Simião Júnior trabalha, hoje, como digital marketing manager<br />
de marcas em áreas como a banca e investimento, Oil & Gas,<br />
energia, mineração, etc. Um dos obstáculos que este jovem<br />
aponta no contexto interno é a relutância das organizações<br />
em migrar para o ambiente digital. “Ainda é muito difícil<br />
convencer um cliente a ir para o digital. Acredito que<br />
umas das coisas que podemos fazer é incutir na cabeça das<br />
pessoas a importância que esta área tem”, concluiu.<br />
22<br />
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PROFISSÕES DO FUTURO<br />
Mudança muito lenta<br />
João Gomes, partner da Jason Moçambique, tem feito vários<br />
estudos que abordam questões da área do trabalho, skills,<br />
e tecnologia, e confirma que o movimento está só a começar,<br />
e de forma tímida. Ou seja, há pouquíssimas empresas<br />
e pessoas que já têm noção do que está a acontecer, muito<br />
menos as que estão a investir na migração para o trabalho<br />
do futuro. Estas poucas resumem-se apenas nas entidades<br />
que dão suporte a todas as redes de pagamentos, assim como<br />
as empresas de telefonia móvel e o sistema financeiro.<br />
Mas todos estes “estão numa fronteira muito distante da robotização,<br />
embora haja informação suficiente para tentar<br />
trazer o futuro para agora”, explicou o responsável.<br />
Esta linha é partilhada por outros especialistas. Para Samuel<br />
Maputso, Director de Capital Humano do BancABC,<br />
com participação em várias iniciativas como o Fórum dos<br />
Recursos Humanos de Moçambique, “olhando para os resultados<br />
das pesquisas feitas fora, arrisco-me a dizer que se<br />
estivermos a ganhar alguma consciência da mudança, que<br />
será inevitável, ainda estamos tímidos. Quando converso<br />
com a maior parte dos meus colegas dos Recursos Humanos<br />
(RH) não sinto grande nível de consciência em relação<br />
a este tema. Já falámos sobre o assunto em algumas conferências,<br />
mas ainda estamos numa fase de curiosidade com<br />
alguma descrença”. Também Paulo Santos, líder da Heading,<br />
empresa que estabelece a ponte entre quem procura<br />
e quem oferece mão-de-obra qualificada, entende que “do<br />
lado dos nossos (seus) clientes, ainda não há sinais de que tenham<br />
começado a equacionar essa nova lógica no perfil dos<br />
Recursos Humanos, mas vai começar a acontecer e terá de<br />
ser liderada por pessoas mais autónomas, com maior capacidade<br />
de decisão, de auto-motivanção e perfis que vão ser<br />
cada vez mais adaptadas às novas tecnologias”, observou.<br />
Já a Contact, uma das mais destacadas empresas de recrutamento<br />
do mercado, mesmo sem ser específica, assume<br />
ser “racional afirmarmos que já começa a haver algumas<br />
profissões que estão a cair em desuso em Moçambique por<br />
conta das novas exigências do mercado forçadas pelo avanço<br />
tecnológico e, recentemente, pela pandemia do covid-19”.<br />
Pobreza e o risco de “ver o comboio passar”<br />
João Gomes deu grande ênfase às características socioeconómicas<br />
do País ao prever o futuro do trabalho. Para o<br />
especialista, uma questão fundamental a ter em consideração<br />
é que o processo de transição para as novas profissões<br />
será selectivo.<br />
As pessoas que terão maior facilidade de mudar de carreira<br />
não são as que estarão, necessariamente, em busca de<br />
trabalho, e sim as profissional e economicamente bem-sucedidas<br />
e que, com bons salários, buscarão novas carreiras<br />
por estarem emocionalmente esgotadas de fazerem as<br />
mesmas coisas.
NAÇÃO<br />
AS 13 PROFISSÕES QUE SERÃO IMPULSIONADAS PELO AMBIENTE DIGITAL<br />
Um relatório do Center for the Future of Work, estabelecido pela Cognizant Technology Solutions – uma das maiores empresas de<br />
tecnologia de informação do mundo –, é mais específico em apostar em profissões do futuro. Da maior parte delas nunca se ouviu falar.<br />
Algumas até já existem, mas conhecerão um upgrade que as transformará profundamente. Outras estão a surgir por aqui. Conheça-as.<br />
1<br />
DETECTIVE<br />
DE DADOS<br />
O que faz?<br />
Investiga mistérios em Big Data. “O que<br />
estão os nossos dados a contar-nos? Que<br />
segredos contêm?”, questionam os autores<br />
da pesquisa sobre o assunto.<br />
O que é preciso?<br />
Saber sobre finanças, matemática e data<br />
science, sem ser necessário ser um cientista<br />
de dados. Conhecimentos de leis são uma<br />
vantagem.<br />
2<br />
FACILITADOR<br />
DE TI<br />
O que faz?<br />
Explora tendências digitais e cria uma<br />
plataforma self-service automatizada<br />
para que os usuários construam os seus<br />
próprios ambientes colaborativos, incluindo<br />
assistentes virtuais.<br />
O que é preciso?<br />
Ter formação em TI, ciências da<br />
computação, engenharia, ciências naturais<br />
ou administração de empresas. Habilidades<br />
de comunicação e liderança também são<br />
necessárias.<br />
3<br />
OFICIAL DE ÉTICA DE<br />
SOURCING<br />
O que faz?<br />
Investiga, acompanha, negoceia acordos<br />
de bens e serviços para garantir que gastos<br />
indirectos da empresa (em energia e<br />
relações sociais) estejam alinhados com os<br />
padrões de ética dos seus stakeholders.<br />
O que é preciso?<br />
Ter experiência com ética em ambientes<br />
corporativos, habilidades interpessoais e<br />
de comunicação, capacidade de trabalhar<br />
em grupo. Conhecimentos de negócios, leis,<br />
gestão pública ou filosofia são diferenciais.<br />
13<br />
OFICIAL DE<br />
DIVERSIDADE GENÉTICA<br />
O que faz?<br />
Facilita a lucratividade e a produtividade da<br />
organização e, ao mesmo tempo, cria um<br />
ambiente de inclusão genética, operando de<br />
acordo com as leis e guias relacionados com<br />
a força de trabalho geneticamente aprimorada.<br />
O que é preciso?<br />
Na última das profissões do futuro, é<br />
necessário um grau avançado de estudos em<br />
biologia ou genómica, anos de experiência<br />
com igualdade genética ou similares.<br />
Habilidades interpessoais, de gestão e de<br />
comunicação também são essenciais.<br />
12<br />
CONTROLADOR DE<br />
ESTRADAS<br />
O que faz?<br />
Monitora, regula, planeia e manipula<br />
espaços aéreos e estradas, programando<br />
plataformas automatizadas de Inteligência<br />
Artificial usadas para gerenciar espaços de<br />
carros e drones autónomos.<br />
O que é preciso?<br />
Aptidão para o trabalho é mais importante<br />
que qualificações ou experiências anteriores.<br />
É preciso ter habilidades de comunicação,<br />
tomada de decisão, organização e resolução<br />
de problemas. Saber trabalhar sob pressão<br />
também é essencial<br />
11<br />
ANALISTA DE QUANTUM<br />
MACHINE LEARNING<br />
O que faz?<br />
Pesquisa e desenvolve soluções de ponta<br />
que aumentam a velocidade e performance<br />
de algoritmos e sistemas, ao integrar as duas<br />
disciplinas.<br />
O que é preciso?<br />
Ter um perfil criativo e uma pós-graduação<br />
na área, além de anos de experiência com<br />
machine learning, computação quântica ou<br />
data science.<br />
24<br />
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PROFISSÕES DO FUTURO<br />
4<br />
GESTOR DE NEGÓCIOS<br />
DE INTELIGÊNCIA<br />
ARTIFICIAL<br />
O que faz?<br />
Na quarta das profissões do futuro, o<br />
profissional define, desenvolve e implementa<br />
programas eficazes para acelerar vendas e<br />
negócios de inteligência artificial.<br />
O que é preciso?<br />
Ter experiência com vendas e<br />
desenvolvimento de negócios em grandes<br />
organizações, além de experiência<br />
corporativa com plataformas de Inteligência<br />
Artificial, machine learning e computação<br />
em nuvem.<br />
10<br />
CHIEF TRUST OFFICER<br />
O que faz?<br />
Trabalha com equipas de relações públicas<br />
e finanças para construir relações de<br />
confiança no sector financeiro e encorajar<br />
transparência e responsabilidade no<br />
mercado de criptmoedas.<br />
O que é preciso?<br />
Ter anos de experiência relevante com<br />
criptomoedas, blockchain e/ou bolsa de<br />
valores, mestrado na área, conhecimentos<br />
regulatórios e perfil analítico.<br />
5<br />
MESTRE DE EDGE<br />
COMPUTING<br />
O que faz?<br />
Cria, mantém e protege o ambiente de<br />
edge computing ou computação na “borda”<br />
(trata-se do limite da rede de computação<br />
em nuvem, perto da fonte de dados).<br />
O que é preciso?<br />
Doutoramento na área ou em áreas<br />
relacionadas, experiência com segurança<br />
e protocolo de internet das coisas, entre<br />
outros assuntos. Capacidade de arquitectar<br />
e projectar ambientes de computação em<br />
nuvem ou edge computing.<br />
9<br />
GERENTE DE EQUIPA<br />
HUMANOS-MÁQUINAS<br />
O que faz?<br />
Desenvolve um sistema de interacção para<br />
que seres humanos e máquinas conversem<br />
melhor, o que aprimora essa equipa híbrida.<br />
O que é preciso?<br />
Ter formação em psicologia ou neurociência<br />
e qualificação posterior em ciência da<br />
computação, engenharia ou recursos<br />
humanos. É preciso ter experiência em áreas<br />
relacionadas, como machine learning ou<br />
interação entre humanos e robots.<br />
6<br />
WALKER/TALKER<br />
O que faz?<br />
Profissional autónomo. Passa tempo com<br />
clientes idosos através de uma plataforma<br />
online para escutá-los e conversar com eles.<br />
A sua principal tarefa é ‘prestar atenção’.<br />
O que é preciso?<br />
Qualquer background será considerado. É<br />
preciso ter mobilidade para visitar clientes<br />
em casa quando for necessário.<br />
7<br />
CONSELHEIRO DE<br />
COMPROMISSO DE SAÚDE<br />
O que faz?<br />
Trabalha remotamente para oferecer<br />
coaching individual e conselhos de bemestar<br />
e saúde para usuários de pulseiras<br />
inteligentes, que monitoram as suas<br />
actividades e sinais físicos.<br />
O que é preciso?<br />
Ter experiência com nutrição ou educação<br />
física e credenciais (obtidas em cursos<br />
online) em modalidades desportivas<br />
como CrossFit ou Ioga. Saber lidar com<br />
ambientes culturalmente diversos também<br />
é necessário.<br />
8<br />
ANALISTA DE<br />
CYBERCIDADE<br />
O que faz?<br />
Garante a segurança e funcionalidade da<br />
cidade ao assegurar o fluxo saudável de<br />
dados (ambientais, populacionais, etc.) pelo<br />
sistema.<br />
O que é preciso?<br />
Ter qualificações em engenharia digital,<br />
conhecimentos sobre circuitos electrónicos<br />
e metodologias de startup enxuta e<br />
experiência com impressão 3-D. É preciso<br />
saber ler e interpretar dados em analytics.<br />
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25
NAÇÃO<br />
O outro pólo é o de pessoas sem poder de transitar para o<br />
futuro, nomeadamente as mulheres e todas as pessoas de<br />
baixo rendimento e de fraco nível de qualificação escolar,<br />
pelo que o tema do género acabará por estar em voga neste<br />
processo, já que trazer a mulher para as profissões do<br />
futuro será um enorme desafio.<br />
“Outra questão é: quais são as profissões que conseguirão<br />
fazer a transição para o futuro (lembrar que algumas vão<br />
se transformar e outras vão nascer naturalmente por<br />
estarem ao pé da moeda do futuro)? Estes vão enfrentar<br />
um problema dramático. É que só agora, com a questão do<br />
trabalho remoto, se nota que a maioria das pessoas não domina<br />
os fundamentos da tecnologia, não sabem nada e nem<br />
sabem usar os canais digitais para dizerem o pouco que sabem”,<br />
lamentou.<br />
E Jorge Ferrão acrescenta: “Uma educação digital intermediária<br />
permitirá nivelar as competências e fazer que<br />
avancemos como país e não como um espaço fragmentado<br />
e numa tentativa de ′salve-se quem puder‛”.<br />
Males pelas aldeias<br />
Toda a sociedade tem um papel neste processo. Desde o Estado<br />
à academia, passando pelo sector privado. A experiência<br />
internacional já o provou. No caso de Moçambique, a iniciativa<br />
privada é que tem estado na vanguarda, basta olhar<br />
para a rápida proliferação de ideias que resultam em startups<br />
inovadoras de grande alcance no processo produtivo.<br />
O papel da academia e das empresas<br />
Com ′muita estrada‛ na área da academia, o Reitor da UP,<br />
Jorge Ferrão, considera que as universidades, públicas ou<br />
privadas, terão de passar por um processo de migração digital,<br />
que levará tempo, mas será irreversível. Recorrendo<br />
aos dados do censo de 2017, Ferrão utilizou estatísticas para<br />
26<br />
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PROFISSÕES DO FUTURO<br />
do mundo actual e das tecnologias. Muitos programas desenvolvidos<br />
pelas universidades estão desactualizados e<br />
demoram muito tempo a serem actualizados, mas as empresas<br />
apresentam melhor capacidade de se adaptarem<br />
à nova realidade, podendo fazê-lo de um dia para o outro<br />
quando são desafiadas. O responsável defende que terá de<br />
ser um esforço conjunto, em que as empresas procurarão<br />
fazer o seu papel na formação do seu quadro de profissionais<br />
do futuro e as instituições de ensino vão ter de fazer<br />
o mesmo, sendo que o próprio cidadão também tem a responsabilidade<br />
de desenvolver a consciência disso já que,<br />
hoje em dia, há uma imensidão de cursos online, até gratuitos,<br />
que necessitam apenas de iniciativa por parte de quem<br />
procura esses conhecimentos.<br />
Samuel Maputso acrescenta que as universidades têm de<br />
reorganizar os seus currículos tendo em conta as profissões<br />
do futuro e atribui às empresas 60% da responsabilidade<br />
neste domínio. Ou seja, será necessário harmonizar os<br />
métodos de formação das empresas e das universidades a<br />
partir do próprio desenho de cursos.<br />
… O Papel dos Recursos Humanos<br />
“O ponto de partida é a reconfiguração dos profissionais dos<br />
RH”, sugere Samuel Maputso, e acrescenta: “o que se observa<br />
é que a maior parte dos directores de RH nas empresas<br />
moçambicanas foi formada há muito tempo e não está preparada<br />
para lidar com as exigências da tecnologia nos dias<br />
que correm. Nas empresas, a maior parte dos processos de<br />
RH é manual e onde existe alguma automatização os processos<br />
estão desintegrados, sem ligação coerente entre si.<br />
Os processos nesta área ainda são dominados por esta geração<br />
de profissionais de RH sem Data and Analitic skills”.<br />
“As universidades têm de reorganizar os seus<br />
currículos tendo em conta as profissões do futuro<br />
e as empresas têm 60% de responsabilidade...”<br />
mostrar o quanto Moçambique está pressionado pela nova<br />
realidade: tem uma baixa percentagem de cidadãos com<br />
acesso a computador, apenas 8,9%; de acesso a internet,<br />
com 13,4%; de acesso à telefonia móvel, com 53,2% (o indicador<br />
menos mau). Mesmo assim, Jorge Ferrão acredita que<br />
“o uso de tecnologia móvel ganhou corpo nos últimos anos,<br />
pelo que as plataformas criarão novas oportunidades, sobretudo<br />
para os jovens e mulheres e para uma população<br />
que se manteve excluída de modelos formais de emprego<br />
em décadas recentes”.<br />
Também Paulo Santos, da Heading, vê um sistema de ensino<br />
que tem levado algum tempo a adaptar-se à realidade<br />
A responsabilidade do Estado<br />
É consensual, entre todos os intervenientes, a necessidade<br />
de criar a ′auto-estrada‛ que são os meios necessários para<br />
facilitar a migração para as profissões do futuro. “Em<br />
Moçambique, há gente a fazer trabalho sério. Por exemplo,<br />
o INCM ao nível da regulação faz um bom trabalho. Mas<br />
precisamos de investimentos em infra-estruturas e o que<br />
está a acontecer é que estas estão a ser resultado do investimento<br />
privado, como acontece no caso das companhias<br />
privadas de telefonia móvel e da banca. Para que as profissões<br />
do futuro encontrem terreno fértil era importante<br />
que se começasse a intervir no ensino primário, a qualificar<br />
as pessoas para usarem ferramentas tecnológicas,<br />
depois criar uma rede de infra-estruturas de Norte a Sul<br />
do País e que se ramifiquem e facilitem a acção do sector<br />
privado”, defende João Gomes.<br />
O medo de formar... e depois perder<br />
Entretanto, a era tecnológica reserva outros desafios que<br />
não estão a ser muito equacionados. É que as competências<br />
do futuro são tecnicamente transferíveis. E o problema da<br />
transferibilidade é que ela não pára. Ou seja, as empresas<br />
podem investir em RH que podem sair porque a velocidade<br />
de circulação fica muito mais rápida com a tecnologia.<br />
São competências que permitem que as pessoas sejam nómadas<br />
digitais e passam a não trabalhar apenas para a<br />
organização que as formou. Assim, os investidores ficam<br />
desmotivados em investir na formação de capital humano.<br />
“Este é um dos problemas do futuro”, alerta João Gomes”.<br />
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27
OPINIÃO<br />
“Jobar” no Futuro<br />
João Gomes • Partner @ JASON Moçambique<br />
vem este artigo - “Jobar”, expressão Moçambicana<br />
que significa “trabalhar” - a propósito de um<br />
estudo 1 partilhado por um bom amigo, o qual<br />
referia que até 2030 cerca de 100 milhões de<br />
trabalhadores (principalmente jovens, mulheres,<br />
migrantes e indiferenciados) ficarão sem<br />
emprego, se não fizerem a transição para empregos que<br />
apelido do, e com FUTURO!<br />
A boa notícia 2 é que a Quarta Revolução Industrial criará,<br />
no mesmo período, 133 milhões de novos empregos.<br />
É clássica a pergunta: o que queres ser quando fores<br />
grande?<br />
Menos clássicas, porque ainda inesperadas, são as respostas<br />
do género:<br />
- “Eu quero ser cientista de dados”, diz o Faizal.<br />
- “Eu vou ser programadora de cobots bio-médicos”, diz a Yara.<br />
- “E eu vou ser designer de drones industriais”, atalha o Wilson.<br />
- “Eu vou ser Youtuber”, diz a Ayana convictamente.<br />
O que podemos dizer HOJE ao Faizal, à Yara, ao Wilson e à Ayana<br />
sobre o Trabalho do, e com FUTURO? E aos 100 milhões de trabalhadores<br />
que até 2030 ficarão sem emprego, se não fizerem a necessária<br />
transição?<br />
Neste artigo convido-vos a fazermos um exercício de antecipação<br />
no qual veremos sucessivamente:<br />
1) Quais são os padrões do trabalho do, e com FUTURO<br />
que estão a emergir, que apresentam potencial para<br />
perdurar e que, entretanto, foram bastante acelerados<br />
pela ocorrência da pandemia do COVID19.<br />
2) E, bem assim, como nos podemos preparar HOJE, para<br />
não ficarmos…sem trabalho, e sem futuro!<br />
1) Destaco 5 padrões emergentes do Trabalho do, e com<br />
FUTURO!<br />
Padrão 1 - Aumento do trabalho sem contacto físico:<br />
Trabalhos que hoje requerem frequente interacção e exposição<br />
com o público em viagem, de negócios, e efectuados<br />
cara-a-cara estão a ser descontinuados. De acordo<br />
com a revista Economist 3 50% dos hotéis de negócio irão<br />
desaparecer. Por exemplo, serão negativamente impactadas<br />
profissões nos sectores da hotelaria de negócio, da<br />
restauração, em centros de congressos, em aeroportos,<br />
entre outros.<br />
Padrão 2 - Aumento da hibridização do trabalho: Trabalhos<br />
que hoje não requerem frequente interacção e exposição<br />
com os clientes, que são intermitentemente efectuados<br />
cara-a-cara, e que se baseiam em ferramentas de IT, estão<br />
a optar por entregar de forma rotativa, quer em modo<br />
presencial, quer remotamente (modelo híbrido). De acordo<br />
com o já citado estudo, 1/3 das economias avançadas já se<br />
encontra neste estádio. Por exemplo, serão negativamente<br />
impactadas profissões nos sectores legal, contabilístico, na<br />
administração pública, entre outros.<br />
Padrão 3 - Aumento da desmaterialização do posto de trabalho:<br />
Trabalhos que hoje requerem frequente interacção<br />
e exposição com o público, e são efectuados “on-site” estão a<br />
migrar para a arena electrónica. Prevê-se o encerramento,<br />
até 2024, de 50% das lojas físicas de cadeias globais que<br />
entretanto aderiram ao e-commerce. Por exemplo, serão negativamente<br />
impactadas profissões em lojas de retalho e<br />
de conveniência, em serviços financeiros, entre outros.<br />
Padrão 4 - Aumento exponencial da datificação (Big Data):<br />
Consequência do Padrão 3, yottabites 4 de dados são acumulados<br />
diariamente, a par da servicificação das economias<br />
(já aqui escrevemos sobre este tema “Servicificar, um passo<br />
de Gigante”) fazendo emergir um novo factor de produção,<br />
a par da terra, do capital e do trabalho: Data. E à volta<br />
deste novo “factor de produção”, perfila-se uma lista longa<br />
de “novos operários”: por exemplo, cientistas de dados; business<br />
intelligence analysts; especialistas em IoT (Internet das<br />
Coisas), entre outros.<br />
Padrão 5 – Cobotização do trabalho em ambiente industrial:<br />
noutra arena na qual não é requerida frequente interacção<br />
e exposição com o público, e sem possibilidade de<br />
Trabalhos que hoje requerem frequente interacção e exposição com o público em viagem,<br />
de negócios, e efectuados cara-a-cara estão a ser descontinuados. De acordo com a<br />
revista britânica Economist, metade das unidades hoteleitas de negócio irão desaparecer<br />
28<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
O futuro vai impor uma ruptura no padrão de competências profissionais e passar a exigir habilidades ligadas aos novos meios tecnológicos<br />
hibridização do trabalho (não é possível levar a fábrica<br />
para casa!) emerge, como um dos traços distintivos do trabalho<br />
do, e com Futuro, a coexistência, a colaboração e<br />
a cooperação entre Humanos e Robots Sensíveis (cobotização)<br />
5 . Por exemplo, muitas das tarefas repetitivas e arriscadas<br />
já estão a ser realizadas pelos cobots abrindo, deste<br />
modo, espaço para os Humanos realizarem tarefas mais<br />
criativas e intelectualmente desafiantes.<br />
2) Ora, já que trabalhar de sol a sol (tal como o fizeram os<br />
nossos antepassados na Revolução 1.0: Agrícola); ou trabalhar<br />
das 9h00 às 17h00 (tal como ocorreu nas Revolução<br />
2.0: Industrial e na Revolução 3.0: da Informação)<br />
não parece ser suficiente, como nos podemos preparar<br />
antecipadamente para a Revolução 4.0: da Automação<br />
e Inteligência Artificial e assim evitarmos ficar<br />
sem trabalho, e sem futuro?<br />
Pessoalmente tenho seguido muito de perto, e convido vivamente<br />
o meu caro leitor@ a analisar um dos mais profundos<br />
estudos feitos no sentido de capturar aquelas que<br />
são as competências críticas para o Trabalho do, e com Futuro<br />
6 . Apesar da já provecta idade do estudo (realizado em<br />
2020), o SCANS Report mantém-se absolutamente actual. E<br />
são oito as competências críticas que deverão equipar as<br />
nossas mochilas de modo a acelerarmos a transição e que<br />
se desmultiplicam em 36 sub-competências, organizadas<br />
em dois grupos (Fundacionais [Ser]; e do Posto de Trabalho<br />
[Saber e Saber-Fazer]). Permito-me apenas destacar o grupo<br />
de competências críticas para o Posto de Trabalho do<br />
Futuro:<br />
- Gestão de Recursos: identificar, organizar, planear e alocar<br />
Recursos Escassos.<br />
- Gestão Interpessoal: trabalhar com os Outros.<br />
- Gestão da Informação: adquirir e utilizar a Informação.<br />
- Gestão da Tecnologia: trabalhar com uma variedade de<br />
Tecnologias.<br />
Em conclusão<br />
Preparar o Faizal, a Yara, o Wilson e a Ayana para o Trabalho<br />
do, e com Futuro é um imperativo para HOJE.<br />
Até 2030, 100 milhões de trabalhadores pertencentes a grupos<br />
frágeis (jovens, mulheres, indiferenciados, migrantes)<br />
ficarão sem emprego e terão de transitar para a economia<br />
da Revolução 4.0: da Automação e Inteligência Artificial.<br />
Trazer o Futuro para Hoje implica que sejamos capazes de<br />
perceber os padrões emergentes que desconfigurarão/<br />
reconfigurarão o trabalho, a saber: trabalho sem contacto<br />
físico, híbrido entre presencial e remoto, desmaterializado,<br />
datificado e cobotizado. Asseguremos a prontidão e preparemo-nos,<br />
equipando as nossas mochilas com as oito competências<br />
críticas para o Trabalho do, e com Futuro.<br />
Pois que Jobar é preciso, hoje, e no Futuro.<br />
1<br />
The Future of Work after COVID-19 - Makinsey Global Institut.<br />
2<br />
Jobs of Tomorrow – Mapping Opportunity in the New Economy – World Economic Forum - http://www3.weforum.org/<br />
docs/WEF_Jobs_of_Tomorrow_2020.pdf.<br />
3<br />
Visão do Futuro - The Economist.<br />
4<br />
O yottabyte é uma unidade de medida da área da informática, equivale a 10 elevado a 24 bytes.<br />
5<br />
Para mais detalhes sobre o tema dos Cobots conferir https://www.youtube.com/watch?v=IQyj9OkdbSg<br />
6<br />
Skills and Tasks for Jobs “A SCANS Report for America 2000”. https://wdr.doleta.gov/opr/FULLTEXT/1999_<strong>35</strong>.pdf<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
29
NAÇÃO<br />
“VAMOS AJUSTAR OS ORÇAMENTOS<br />
E MUDAR A BASE DE APRENDIZAGEM”<br />
O Reitor da Universidade Pedagógica e antigo Ministro da Educação e Desenvolvimento Humano,<br />
Jorge Ferrão, tem publicado reflexões sobre as profissões do futuro e sabe onde estão os pontos<br />
críticos da transformação. Defende mudanças na academia e na postura de toda a sociedade<br />
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.<br />
não haverá volta a dar<br />
que não inclua encarar a<br />
educação de uma forma<br />
diferente da actual, com<br />
novos investimentos em<br />
tecnologia e colocando<br />
os jovens na vanguarda do processo<br />
de mudança. Jorge Ferrão é uma das<br />
figuras de consenso para falar dos<br />
processos e modelos de formação de<br />
pessoas em Moçambique, e está convencido<br />
de que é possível acelerar a<br />
migração para as profissões do futuro,<br />
mas avisa que não nos será barato.<br />
A 4ª Revolução Industrial está a<br />
mudar a forma de estar da sociedade<br />
global. No trabalho, com a evolução<br />
tecnológica, assiste-se ao surgimento<br />
de profissões que eram há<br />
pouco tempo impensáveis. Que posição<br />
atribui a Moçambique no contexto<br />
global em relação a esta nova<br />
tendência?<br />
O impacto das sociedades de conhecimento<br />
coloca as competências tecnológicas<br />
e digitais como os activos mais<br />
importantes. Seguir as novas tecnologias<br />
e os efeitos da revolução científica<br />
e tecnológica evitará que sejamos<br />
marginalizados e esquecidos pelo tempo.<br />
Os nexos que se estabelecem sobre<br />
as profissões do futuro e a 4ª Revolução<br />
Científica e Tecnológica assumem, na<br />
contemporaneidade, proporções que<br />
se estendem muito para lá de visões<br />
futuristas ou profecias. A segunda metade<br />
do século XXI aponta para cenários<br />
verdadeiramente desafiadores,<br />
e que obrigarão as sociedades a um<br />
posicionamento geoestratégico. A Inteligência<br />
Artificial e a robótica associadas<br />
à tecnologia 5G e 6G vão, em definitivo,<br />
alterar o mundo e teremos de<br />
nos preparar para entrar para esse<br />
mercado de trabalho tão competitivo.<br />
Um pouco pelo mundo, novas profissões<br />
têm ganhado espaço. Muito brevemente,<br />
serão os postos de trabalho<br />
mais disponíveis, com salários mais<br />
competitivos e preferenciais.<br />
As competências necessárias para estas<br />
novas funções podem ser radicalmente<br />
diferentes daquelas que vão desaparecer<br />
e das quais os investimentos<br />
actuais deverão ser realizados.<br />
Se, por um lado, não existem dúvidas<br />
sobre determinadas profissões tradicionais<br />
e, até as mais regulamentadas,<br />
como economia, veterinária, direito,<br />
engenharias, medicinas, etc., por<br />
outro observam-se novas e inovadoras<br />
categorias, tais como segurança<br />
cibernética, técnicos de impressoras<br />
3D, gestores de nuvens (icloud), produtores<br />
de blogs e até pilotos de drones.<br />
Há muito que se fala da necessidade<br />
de melhorar a qualidade de formação<br />
de pessoas em Moçambique,<br />
a todos os níveis, desde o primário<br />
ao superior. Mas o País tem uma<br />
longa estrada por percorrer para<br />
ser capaz de formar os chamados<br />
profissionais do futuro. Por onde<br />
começar?<br />
Estas profissões do futuro impõem novos<br />
desafios às instituições de ensino<br />
Admitamos que os progressos e as reformas curriculares nas instituições<br />
de ensino em Moçambique registaram mudanças significativas, porém,<br />
estas têm acontecido de uma forma lenta, hesitante e pouco ousada<br />
e às universidades, em particular.<br />
Evidentemente que as universidades<br />
precisam de se reajustar e definir<br />
cursos que priorizem competências<br />
para as áreas tecnológicas e, em consonância<br />
com os novos empregos que<br />
serão gerados, com requisitos muito<br />
mais exigentes, terão de manter a<br />
sua função de investigação e docência<br />
que, na prática, são a sua essência. Porém,<br />
sem optarem apenas pelo modelo<br />
de diplomas, como se tem verificado<br />
em diferentes situações. Será um<br />
risco fatal, porém, se vivermos alterando<br />
cursos a cada instante, quer pelo<br />
surgimento de uma nova indústria,<br />
quer por um novo recurso. Formar capital<br />
humano exige algum tempo e a<br />
garantia de que estaremos a prover<br />
uma base de raciocínio e questionamento.<br />
Esse é o nosso papel. Ensinar a<br />
pensar, a ter opções e a questionar. Isto<br />
representa mais de 75% do futuro trabalho<br />
profissional.<br />
Que modelos de formação há no<br />
mundo que melhor podem servir a<br />
Moçambique e provocar uma mudança<br />
efectiva?<br />
Os modelos de formação não são standards.<br />
Eles respondem à demanda nacional<br />
e a capacidades locais. Portanto,<br />
não nos serve de nada copiar, copiar<br />
e repetir aquilo que os outros já fizeram.<br />
O surgimento da indústria de gás<br />
e petróleo já obrigou a criação de novos<br />
cursos e formação técnico-profissional.<br />
Ainda assim, teremos de aprender<br />
destas tecnologias e aperfeiçoar<br />
a formação que provemos aos nossos<br />
graduados.<br />
A 4ª Revolução Industrial é impulsionada<br />
por três categorias distintas: a física,<br />
a digital e a biológica. Na categoria<br />
física terá os veículos autónomos e<br />
30<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
ENTREVISTA<br />
as impressões em 3D. Recentemente, o<br />
Hospital Central de Maputo recebeu<br />
uma impressão e estão já a produzir<br />
viseiras para reduzir os riscos de infecção<br />
pela covid-19. A Robótica avançada<br />
e outros materiais essenciais que<br />
a tecnologia 5G e 6G vão disponibilizar<br />
farão algum tipo de trabalho que apenas<br />
os robots poderão realizar, devido<br />
à natureza do mesmo. Na área digital<br />
teremos a internet das coisas, a<br />
relação entre as coisas, serviços e pessoas<br />
através de redes digitais. Na categoria<br />
biológica teremos inovações<br />
no campo da biologia, particularmente<br />
na genética. Teremos, igualmente, a<br />
biologia sintética, que consiste em modificar<br />
organismos já existentes, alterando<br />
a sua resistência às adversidades<br />
e capacidade de regeneração<br />
em quantidades nunca antes verificadas.<br />
Um pouco por todos os países, incluindo<br />
o nosso, já observamos estas<br />
mudanças.<br />
De Moçambique, que exemplos práticos<br />
pode citar?<br />
Veja na cidade do Maputo a quantidade<br />
de técnicos reparando telefones celulares.<br />
Isto acontece em cada esquina<br />
e mercado. Igualmente, observe os<br />
clientes usando plataformas digitais<br />
para as transacções financeiras. O M-<br />
-pesa, M-kesh, e-mola e etc., são uma<br />
prova evidente de que os clientes da<br />
banca convencional já foram, de forma<br />
irreversível, superados por estes<br />
novos usuários e a inclusão financeira<br />
será inevitável. Os dados do último<br />
censo provam que a banca comercial<br />
só responde por 6,7% da população,<br />
sendo 4,5% homens e 2,2% mulheres,<br />
contra um total de 52,2% de cidadãos<br />
moçambicanos já integrados<br />
nas diferentes plataformas financeiras<br />
anteriormente mencionadas. Diga-se<br />
de passagem, que estes têm sido<br />
os melhores exemplos da revolução<br />
digital no nosso país, pois facilitaram<br />
a banca e ampliaram vários serviços<br />
financeiros.<br />
Sem perder de vista o facto de estarmos<br />
num País com orçamento<br />
deficitário, nota-se que a disrupção<br />
que se pretende tem, neste aspecto,<br />
um dos maiores obstáculos. É uma<br />
equação difícil…<br />
Ao longo de anos, a formação foi feita<br />
com os mesmos recursos e com os<br />
apoios da comunidade internacional.<br />
Somos signatários do Acordo de Dakar<br />
e temos de ter a consciência que devemos<br />
pautar pela inclusão e não pela<br />
exclusão. Mas a questão que coloca<br />
tem um sentido mais restrito. Teremos<br />
como embarcar para um novo modelo<br />
de formação, sobretudo, desfrutamos<br />
das tecnologias 5G e 6G? Então, a<br />
resposta tem de ser: vamos ajustar os<br />
orçamentos e transformar a base de<br />
aprendizagem.<br />
Deixar que os jovens possam ter acesso<br />
a tecnologias fará deles pessoas<br />
responsáveis pela disrupção no sistema.<br />
Temos de acreditar mais nos jovens<br />
e dar-lhes mais oportunidades.<br />
O ensino superior técnico-profissional,<br />
nos últimos anos, não recebeu novos<br />
ingressos. Este ano, a perspectiva<br />
será de receberem um pouco menos<br />
que 300 jovens em cada sub-sector e<br />
isso será irrisório para essa disrupção<br />
que almejamos.<br />
No nível superior também já se<br />
vem discutindo a transformação<br />
dos modelos de formação introduzindo<br />
rigor na pesquisa científica,<br />
mas a mudança parece lenta…<br />
Admitamos que os progressos e as reformas<br />
curriculares nas instituições<br />
de ensino registaram mudanças significativas.<br />
Porém, estas têm acontecido<br />
de uma forma lenta, hesitante e pouco<br />
ousada. As crises globais de educação,<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
31
NAÇÃO<br />
“Muitas das universidades moçambicanas ainda formam nos<br />
modelos convencionais. Os grandes desafios assentam na mudança<br />
e na sua adaptação a um ensino mais prático e programático”<br />
com níveis de aprendizagem também<br />
sofridos e a redução nos orçamentos<br />
para o ensino, explicam, em parte,<br />
a lentidão das instituições de ensino<br />
se ajustarem de forma mais rápida e<br />
progressiva às mudanças. No entanto,<br />
a incapacidade financeira dos Estados<br />
e o controlo que exercem sobre a autonomia<br />
das instituições de ensino não<br />
facilitará que este ajuste aconteça como<br />
seria de prever e desejar.<br />
Muitas das nossas universidades ainda<br />
formam nos modelos convencionais.<br />
Os grandes desafios assentam<br />
na mudança e na sua adaptação a um<br />
ensino mais prático e programático.<br />
Uma formação para aquisição de competências<br />
digitais e tecnológicas, mas,<br />
igualmente, humanas.<br />
Dentro da própria academia, o trabalho<br />
também está a sofrer transformações<br />
profundas, muito por<br />
força da pandemia…<br />
O covid-19 tem impactado de formas<br />
diferentes nas várias esferas da economia,<br />
educação e até na nossa postura<br />
familiar e profissional. Vivemos<br />
apavorados e sem certezas do futuro.<br />
Isto aconteceu no mundo com muito<br />
mais vigor do que em Moçambique.<br />
Na academia e na educação, de forma<br />
geral, poderemos concluir que de-<br />
pois de anos de crescimento significativo,<br />
tanto no acesso como no ingresso,<br />
nos diferentes subsistemas de educação,<br />
hoje, vivemos uma era de muitas<br />
incertezas. Verifique que, em pelo menos<br />
160 países do mundo, o sector da<br />
Educação paralisou as suas escolas e<br />
universidades e foi estimado em cerca<br />
de 1,6 biliões, o número de estudantes<br />
que ficou sem a possibilidade de seguir<br />
com as suas lições, como estavam<br />
habituados. A acrescer este número,<br />
tivemos outros seis milhões de professores<br />
que ficaram impossibilitados<br />
de dar a sua contribuição. Em Moçambique,<br />
foram mais de sete milhões de<br />
alunos, de 13 850 escolas paralisadas e<br />
um total de 140 000 professores.<br />
O que vai acontecer?<br />
Afirmar que estamos a reverter este<br />
quadro seria demasiado pomposo.<br />
Afirmar, também, que o ensino à distância<br />
passará a ser o modelo único<br />
não corresponde à verdade. Por um<br />
lado, porque não temos essa educação<br />
visual, por outro, pelo facto de nem todos<br />
terem essa disponibilidade tecnológica.<br />
Mas há ainda um elemento que<br />
não pode ser negligenciado: o custo<br />
das transacções da internet. Em Moçambique<br />
são excessivamente caras e<br />
proibitivas.<br />
Dizer que ocorrem mudanças e que<br />
elas vão pautar-se pela exclusão seria<br />
criminal e irresponsável da nossa<br />
parte.<br />
O que tem de acontecer a curto prazo<br />
é investirmos para que os equipamentos<br />
digitais possam ser montados<br />
ou fabricados no País. As operadoras<br />
precisam de entender que o lucro se<br />
faz com escala, e quantos mais estiverem<br />
a usar os seus serviços, menores<br />
serão os preços e os resultados da facturação<br />
duplicarão.<br />
Mas existem já instituições preocupadas<br />
em alterar o cenário. Da preocupação<br />
até à concretização dos sonhos<br />
vai um longo e árduo caminho e muita<br />
responsabilidade social e corporativa.<br />
Olhando para Moçambique de hoje<br />
e para a velocidade com que o mundo<br />
caminha rumo à 4ª Revolução Industrial,<br />
o que nos reserva o futuro<br />
enquanto país?<br />
Entre os fantasmas do passado e as incertezas<br />
do amanhã, precisamos de<br />
contar com os nossos recursos e saber<br />
dar espaço e oportunidades para<br />
as vozes que melhor conhecem e<br />
entendem.<br />
Precisaremos de hierarquias flexíveis<br />
a todos os níveis, sobretudo nas<br />
posições políticas. Estas lideranças<br />
permitirão outra forma de fazer política,<br />
mobilizar eleitores, etc. Na economia,<br />
elas serão responsáveis pelas novas<br />
estratégias para atrair e reter os<br />
talentos competentes.<br />
32<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
NAÇÃO<br />
ÁFRICA, UM CAMPO DE BATALHA ENTRE<br />
A DIFICULDADE E A OPORTUNIDADE<br />
A experiência africana com rápida disseminação de meios tecnológicos e startups confere vantagens<br />
que animam os analistas, mesmo com a prevalência de problemas estruturais ao nível das economias<br />
Texto Celso Chambisso • Fotografia Shutterstock<br />
l<br />
á fora, nos países desenvolvidos,<br />
a velocidade de mudança<br />
é brutal. As profissões que<br />
mais cresceram – e que já se<br />
previa que crescessem, mas<br />
que foram aceleradas pela<br />
pandemia do novo coronavírus – são<br />
as ′datificadas‛. Os gráficos das pessoas<br />
que estão a ficar fora do mercado de<br />
trabalho indicam que são as que não<br />
estão no contexto tecnológico e que exigem<br />
exposição física.<br />
João Gomes, partner da Jason Moçambique,<br />
não avança números<br />
definitivos, mas observa que o mercado<br />
evoluiu de tal modo que “nas<br />
principais cidades dos Estados Unidos,<br />
por exemplo, o metro quadrado de<br />
escritórios, que há poucos anos era extremamente<br />
caro, já está barato. Isto<br />
porque os escritórios foram literalmente<br />
abandonados e estão vazios.<br />
Isto significa que o elemento físico do<br />
trabalho está a desaparecer”. Esta é<br />
uma lógica comum às economias mais<br />
desenvolvidas e capazes de prover infra-estrutura<br />
tecnológica que permite<br />
a transição (digital) para o trabalho do<br />
futuro. E em África, como estamos?<br />
A pobreza como trampolim<br />
“Fazer das fraquezas forças”. Eis um<br />
lugar comum que encontra, no actual<br />
contexto, um lugar bem particular,<br />
premissa que fica literalmente subentendida<br />
no relatório do Banco Mundial<br />
sobre “O Futuro do Trabalho em África”,<br />
desenvolvido em meados de 2019<br />
por Mark Dutz, Jieun Choi e Zainab Usman.<br />
Ou seja, não obstante o facto de<br />
quase todos os países africanos atravessarem<br />
verdadeiros “desertos” que<br />
os separam deste novo mundo digital,<br />
há condições, e aliás “boas condições”,<br />
para os poder ultrapassar. Será? Vejamos:<br />
No documento, os especialistas<br />
começam por descrever as condições<br />
do continente, obviamente desfavoráveis<br />
à possibilidade de sonhar com<br />
progressos rápidos rumo ao trabalho<br />
do futuro. Caracterizam a África<br />
Subsaariana por uma diversidade de<br />
factores limitativos e, até, impeditivos<br />
da adopção das tecnologias digitais:<br />
Níveis baixos de capital humano para<br />
uma população jovem e em rápido<br />
crescimento; mais de 60% da força de<br />
trabalho composta por adultos mal<br />
equipados; sector informal particularmente<br />
vasto e distinto do de outras regiões<br />
em desenvolvimento em termos<br />
de dimensão e composição; sistemas<br />
de protecção social insuficientes e ineficazes,<br />
com oito em cada dez africanos<br />
sem cobertura por qualquer rede de<br />
segurança social.<br />
Tudo isto, num cenário de disrupção<br />
repentina provocado pela pandemia,<br />
a que se juntam os choques climáticos,<br />
a aceleração da integração económica<br />
e as transições demográficas, criará<br />
necessidades acrescidas de protecção<br />
social.<br />
E o contexto não fica selado sem referir<br />
a fraca rede de infra-estrutura de<br />
34<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
PROFISSÕES DO FUTURO<br />
PREÇO DE INTERNET É FACTOR CRÍTICO<br />
Estudo feito em 2020 mostra que a África Subsaariana está entre as regiões<br />
onde a internet é cara, o que dificulta investimento em iniciativas inovadoras<br />
Preço médio de 1GB/USD<br />
14,71<br />
7,85<br />
7,19 6,91<br />
3,42 3,24 3,13<br />
2,28<br />
2,81<br />
2,06<br />
América<br />
do Norte<br />
Austrália Caribe África Europa<br />
subsaariana Oriental<br />
América<br />
Central<br />
Europa<br />
Ocidental<br />
Ásia Bálticos África do<br />
Norte<br />
suporte tecnológico, que coloca grande<br />
parte do continente entre as zonas do<br />
mundo com a internet mais cara e de<br />
menor qualidade (ver infografia).<br />
…Todo o mérito?<br />
É questionável que, com todos os travões<br />
ao desenvolvimento sobejamente<br />
conhecidos, África possa estar em<br />
condições de dar passos visíveis no<br />
uso dos meios tecnológicos no trabalho,<br />
como sugerem os especialistas do<br />
Banco Mundial, que acreditam num<br />
“futuro do trabalho brilhante”. Como<br />
chegar a este (quase) milagre?<br />
Argumentam que, como a África tem<br />
um menor sector transformador do<br />
que outras regiões, a automação não<br />
é susceptível de deslocar muitos trabalhadores<br />
durante os próximos anos;<br />
a maioria das economias africanas<br />
ainda tem baixos níveis de procura<br />
de produtos que são comuns noutras<br />
partes do mundo, como televisores e<br />
frigoríficos. Por isso, a reduções dos<br />
ÁFRICA TEM INTERNET CARA...<br />
Analisados caso a caso, os países africanos<br />
estão entre os que enfrentam custos altos<br />
de internet (não é o caso de Moçambique).<br />
Cinco estão no ‘Top 10’ de um total de 228<br />
Preço médio de 1GB/USD<br />
MOÇAMBIQUE<br />
CHIPRE<br />
BOTSUANA<br />
YEMEN<br />
Preço médio de 1GB/USD<br />
(Em Megabites/segundo)v<br />
Só dois país africano, a Somália (apesar de<br />
muito pobre) e a Nigéria estão com o custo<br />
de internet que os coloca entre os países<br />
que estão em vantagem neste contexto<br />
Preço médio de 1GB/USD<br />
VELOCIDADE DA INTERNET TAMBÉM CONCORRE NA COMPETITIVIDADE<br />
A qualidade da internet é outra vantagem a ter em conta na corrida às profissões do<br />
futuro. Mais um desafio para África, que carece de mais investimentos neste domínio<br />
RAPIDEZ DA BANDA LARGA…<br />
170,99<br />
Singapura Islândia<br />
Hong<br />
Kong<br />
Coreia<br />
do Sul<br />
Roménia<br />
… OUTROS GOZAM DE VANTAGENS<br />
3,33 23,33 0,09 0,46<br />
13,56 27,22 0,11 0,50<br />
23,87 27,41 0,21<br />
15,98 28,26 0,43<br />
17,75 28,75 0,46<br />
155,25<br />
CHAD<br />
BENIN<br />
MALÁUI<br />
S. TOMÉ E PRÍNCIPE<br />
141,43<br />
117,62<br />
FONTE Cable.co.uk, empresa britânica vocacionada em estudos de internet de banda larga,<br />
109,26<br />
ÍNDIA<br />
ISRAEL<br />
QUIRQUISTÃO<br />
ITÁLIA<br />
… E DA INTERNET MÓVEL<br />
(Em Megabites/segundo)<br />
62,7<br />
Noruega<br />
59,81<br />
Qatar<br />
58,57<br />
CAZAQUISTÃO<br />
SOMÁLIA<br />
SRI LANKA<br />
AUSTRÁLIA BERMUDA<br />
UCRÂNIA NIGÉRIA<br />
FEDERAÇÃO RUSSA<br />
Islândia Singapura<br />
0,51<br />
0,52<br />
2,22<br />
54,94 54,18<br />
Emirados<br />
Árabes<br />
FONTE Site Speedtest (realiza pesquisas periódicas sobre a conexão de dados no mundo)<br />
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<strong>35</strong>
NAÇÃO<br />
As cidades mais importantes da África já receberam investimentos<br />
tecnológicos substanciais, incluindo maior acesso à banda larga móvel<br />
conexões de fibra ótica e ampliação do fornecimento de energia elétrica<br />
preços decorrentes da adopção das<br />
tecnologias são mais susceptíveis de<br />
ajudar as empresas a crescer, criar<br />
mais empregos e produzir produtos<br />
mais acessíveis, na medida em que<br />
possam ser feitos por africanos. Por<br />
fim, as tecnologias concebidas para<br />
satisfazer as necessidades produtivas<br />
dos trabalhadores africanos com uma<br />
educação limitada têm o potencial para<br />
os ajudar a aprender mais e a ganhar<br />
mais.<br />
O Banco Mundial também faz menção<br />
a um estudo recente que mostrou que,<br />
na sequência da chegada da internet<br />
mais rápida à África Subsaariana no<br />
final dos anos 2000 e início dos anos<br />
2010, o aumento da taxa de emprego<br />
foi semelhante para os trabalhadores<br />
com apenas o ensino primário e para os<br />
que tinham um nível de ensino secundário<br />
e superior. “Esta é uma descoberta<br />
optimista”, refere o Banco Mundial.<br />
Optimista é, também, o Fórum Económico<br />
Mundial<br />
Outra pesquisa, a do Fórum Económico<br />
Mundial, aponta África como potencial<br />
beneficiário da 4ª Revolução Industrial.<br />
“As cidades mais importantes<br />
da África já receberam investimentos<br />
tecnológicos substanciais, incluindo<br />
maior acesso à banda larga móvel,<br />
conexões de fibra óptica nas residências<br />
e ampliação do fornecimento de<br />
energia eléctrica. Isso, combinado com<br />
a rápida disseminação dos smartphones<br />
e tablets de baixo custo, permitiu<br />
que milhões de africanos se conectassem<br />
pela primeira vez… E, conforme a<br />
4ª Revolução Industrial se desenrola, a<br />
África está preparada para desenvolver<br />
novos padrões de trabalho”.avança<br />
a organização.<br />
Também introduz o conceito de “trabalho<br />
flexível” (que se executa virtualmente)<br />
como um modelo perfeito<br />
para um continente com uma população<br />
geograficamente diversa e pronta<br />
para trabalhar, uma rede de comunicação<br />
móvel sólida e carência de<br />
infrae-strutura para sustentar os padrões<br />
de trabalho urbano. “Porquê insistir<br />
em grandes escritórios centrais<br />
e trajectos longos se há uma maneira<br />
de aproveitar os talentos do outro lado<br />
do continente? Como alternativa, a<br />
solução pode ser um quadro de colaboradores<br />
distribuído e virtual, com<br />
empresas que integram freelancers<br />
virtuais”, sugere o Fórum Económico<br />
Mundia, sublinhando que “isso já está<br />
a acontecer. Um relatório sobre as<br />
tendências de profissões em África,<br />
nos últimos cinco anos, mostra que o<br />
número de empreendedores aumentou<br />
20%. E o trabalho em plataformas<br />
on-line está a aumentar, permitindo<br />
que muitos desses empreendedores<br />
lancem startups inovadoras que solucionam<br />
problemas do mundo real e<br />
criam empregos”.<br />
Projecções globais são ambiciosas<br />
O tema sobre trabalho futuro carece<br />
de estatísticas actualizadas, mas as<br />
disponíveis podem ajudar, de alguma<br />
forma, a perceber a dimensão do fenómeno.<br />
O relatório com o título “The Future<br />
of Jobs”, publicado em Setembro<br />
de 2018 pelo Fórum Económico Mundial,<br />
dizia que até 2025 as máquinas<br />
desempenharão mais funções do que<br />
os seres humanos no mundo do trabalho.<br />
Porém, não há motivo para alarme,<br />
já que a mesma revolução tecnológica<br />
que colocará os robots em tarefas,<br />
que antes pertenciam a pessoas, criará<br />
58 milhões de novos empregos.<br />
Hoje, com a pandemia do novo coronavírus,<br />
estes números seguramente<br />
carecem de actualização, mas não<br />
deixam dúvidas sobre a grande mudança<br />
que o mundo está prestes a<br />
testemunhar.<br />
36<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
MERCADO E FINANÇAS<br />
BANCO CENTRAL.<br />
HERÓI OU VILÃO<br />
DA ESTABILIDADE?<br />
A recente subida das taxas directoras levou o<br />
Banco Central ao “banco dos réus” onde se expõem<br />
os méritos e fragilidades das suas políticas. Uns<br />
condenam, outros ilibam. De que lado está a razão?<br />
o<br />
banco de moçambique tem estado debaixo de<br />
′fogo cruzado‛ depois da crise de 2016 que se<br />
seguiu à descoberta das dívidas que viriam<br />
a ser declaradas soberanas. Com a responsabilidade<br />
de estabilizar o valor do metical e<br />
das taxas de juro, manter a inflação baixa e<br />
estável, entre outros, as suas intervenções nem sempre<br />
geraram consenso entre os bem-entendidos em economia<br />
enquanto ciência. A principal queixa é a de que o Banco<br />
Central é excessivamente perseguidor da inflação baixa,<br />
que até deixa escapar do seu controlo outras variáveis como<br />
as taxas de câmbio e de juro do mercado.<br />
Em finais de Fevereiro passado, a postura do banco regulador<br />
voltaria a estar no centro de um debate sob o lema<br />
“Política Monetária em Moçambique no Contexto de Crise”,<br />
no qual participaram economistas nacionais de renome.<br />
O pretexto para a realização do debate não foi revelado,<br />
mas não será demasiado ousado imaginar, e até afirmar,<br />
que se prende com o mais recente aumento da taxa de juro<br />
de política, a taxa MIMO, em 300 pontos base, de 10,25% para<br />
13,25%. Embora devidamente justificada pelo Banco de<br />
Moçambique, a medida está a gerar protestos do empresariado,<br />
que verá a sua dívida no sector financeiro a aumentar<br />
num cenário de abrandamento da actividade económica<br />
imposto pela pandemia. A maior parte dos economistas<br />
também acredita haver erros na postura do Banco de Moçambique<br />
(BM), mas há quem defenda haver sobriedade<br />
na forma como este escolhe e mexe nos instrumentos de<br />
gestão da política monetária. Comecemos mesmo por aqui.<br />
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.<br />
BM pode estar no bom caminho<br />
O economista Fáusio Mussá, especialista na leitura dos indicadores<br />
macroeconómicos e suas tendências, recorre à<br />
experiência das crises anteriores para concordar com o<br />
agravamento das taxas de juro, medida que considera que<br />
pode contribuir para ajustar a inflação. Como?<br />
Lembra que, em 2016, quando o País vivia a crise das dívidas<br />
ocultas, “o BM elevou de imediato as taxas de juro porque<br />
se antecipava um choque da balança de pagamentos<br />
em resposta à redução do apoio externo. Embora a medida<br />
tenha levado à redução do crescimento económico, houve<br />
uma diminuição substancial das importações de modo<br />
que, em 2017, a balança de pagamentos se estabilizou, traduzindo-se<br />
numa relativa estabilidade cambial e da inflação.<br />
Em resultado disso, a taxa MIMO baixou de 21,75% em<br />
2017 para 10,25% em 2020. Ou seja, o Banco Central adoptou<br />
uma política monetária menos restritiva em resposta<br />
a uma situação em que as pressões à economia quase que<br />
se tinham dissipado e era possível viver num ambiente de<br />
inflação mais ou menos previsível”, explicou o economista.<br />
E acrescentou: “acredito que desta vez o BM está a olhar<br />
para algumas dinâmicas próprias da economia moçambicana.<br />
Por exemplo, sempre que há uma depreciação cambial<br />
(como aconteceu nos últimos meses), há um aumento<br />
da inflação, e quando o metical recupera a inflação também<br />
baixa”, argumentou. Ou seja, o BM procura, no fim das<br />
contas, travar a escalada do nível geral de preços limitan-<br />
38<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
POLÍTICA MONETÁRIA<br />
JUROS, A ORIGEM DA CRÍTICA<br />
O primeiro agravamento que o Banco Central efectua na taxa MIMO<br />
acaba por desencadear debates acesos sobre a eficácia da medida<br />
Em %<br />
21,75<br />
15,75<br />
15<br />
14,25<br />
13,25<br />
11,25 10,25<br />
13,25<br />
Abr<br />
2017<br />
Jun<br />
2018<br />
Ago<br />
2018<br />
Dez<br />
2018<br />
Jun<br />
2019<br />
Abr<br />
2020<br />
Jun<br />
2020<br />
Jan<br />
<strong>2021</strong><br />
RESERVAS ACUMULADAS. QUE PAPEL?<br />
O aumento das Reservas Internacionais vai deixando dúvidas quanto<br />
aos seus efeitos: afinal, vai travar a inflação ou depreciar o metical?<br />
Em milhões USD<br />
3921<br />
3900<br />
4000<br />
3912<br />
3893<br />
4081<br />
Fev<br />
2020<br />
Mai<br />
2020<br />
Jul<br />
2020<br />
Set<br />
2020<br />
Nov<br />
2020<br />
Jan<br />
<strong>2021</strong><br />
BAIXA INFLAÇÃO. QUAL É A ESSÊNCIA?<br />
A inflação média anual segue baixa desde 2020, o que para alguns<br />
economistas não justifica que se tenha agravado a taxa MIMO. Será?<br />
Em %<br />
3,02<br />
2,75<br />
2,98<br />
3,2<br />
3,27<br />
3,52<br />
2,19<br />
Mai<br />
2020<br />
Ago<br />
2020<br />
Set<br />
2020<br />
Out<br />
2020<br />
Nov<br />
2020<br />
Dez<br />
2020<br />
Jan<br />
<strong>2021</strong><br />
FONTE Banco de Moçambique e INE<br />
do a quantidade de dinheiro no sistema (política restritiva).<br />
Mussá explicou ainda que, no ano passado, a inflação se<br />
manteve baixa apesar da depreciação cambial, o que se<br />
explica pelo facto de o preço do petróleo se ter mantido baixo<br />
evitando o agravamento do custo dos combustíveis em<br />
Moçambique, além do facto de o Governo ter tomado um<br />
conjunto de medidas para aliviar o aumento do custo de alimentos<br />
e electricidade, levando a que o ano fechasse com<br />
uma inflação anual de 3,5%.<br />
“Em Janeiro deste ano, a inflação subiu para 4,1% e, olhando<br />
para os vários elementos que compõem o Índice de Preços<br />
ao Consumidor, o preço do cabaz dos alimentos aumentou<br />
mais de 9%, o que pode estar a indicar que brevemente<br />
pode registar uma subida acima de um dígito, constituindo<br />
uma preocupação para o Banco Central e eu posso compreender,<br />
por isso, a razão do aumento das taxas de juro”,<br />
reiterou, revelando estar alinhado com os princípios do BM.<br />
O outro lado… o dos erros do BM<br />
Afinal, a postura do regulador é questionável! A maioria<br />
dos economistas faz um levantamento infindável de imprecisões<br />
na sua política. Tal como os empresários, este grupo<br />
de economistas não encontra fundamento válido para<br />
que o BM tenha agravado a taxa MIMO em 300 pontos base,<br />
e acaba por colocar em causa os resultados que se pretendem,<br />
não só em relação à variação das taxas de juro, como<br />
sobre todos os instrumentos que o BM mexe no exercício<br />
das suas competências.<br />
A (in)utilidade da taxa MIMO<br />
O economista Roberto Tibana, pesquisador com larga experiência<br />
em assuntos de política monetária, é das vozes que<br />
criticam o BM. Tibana começa por questionar a utilidade da<br />
taxa MIMO enquanto instrumento com mérito para emitir<br />
sinais à economia. “Tenho dúvidas sobre isso, embora<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
39
MERCADO E FINANÇA<br />
“A acumulação das Reservas Internacionais<br />
pode ser resultado de uma postura mais<br />
cautelosa por parte do BM”, Fáusio Mussá<br />
esteja ainda a fazer um trabalho de casa para verificar este<br />
aspecto”, disse Tibana, para quem há pelo menos um instrumento<br />
que tem sido muito sério no conjunto dos instrumentos<br />
de política monetária, e que alimenta a sua dúvida:<br />
a taxa de Reservas Obrigatórias (RO), actualmente fixada<br />
em cerca de 37%. Segundo o economista, o papel das RO<br />
é o de diminuir a quantidade de dinheiro que os bancos comerciais<br />
podem dar por empréstimo (ou seja, os bancos são<br />
obrigados a reservar 37% dos depósitos diários de clientes<br />
no Banco Central) o que, para Roberto Tibana, “é extremamente<br />
duro para a economia, já que Moçambique é um dos<br />
países que tem a taxa de Reservas Obrigatórias mais altas<br />
em África e no mundo. Dos pouquíssimos países que usam<br />
este instrumento com tanta violência”.<br />
Segundo o economista, mais do que a taxa MIMO, “as RO são<br />
o instrumento de política que tem impacto mais directo na<br />
capacidade de os bancos comerciais oferecerem crédito à<br />
economia porque estes têm de mobilizar grandes volumes<br />
de depósitos a uma certa taxa de juros de depósitos (junto<br />
ao Banco Central). E quanto menos puderem emprestar<br />
o volume de crédito que mobilizam, maior é a taxa de juro<br />
que têm de aplicar para com os seus clientes para compensar<br />
os custos”, observou o economista, sublinhando que<br />
o instrumento que obriga os bancos comerciais a praticarem<br />
certo nível de taxas de juro do mercado é a taxa de<br />
Reservas Obrigatórias e não a taxa MIMO. Tibana suspeita<br />
ser esta contradição que está na origem da lentidão na redução<br />
das taxas de retalho quando o BM reduz a taxa MI-<br />
MO e outros sinais da política monetária.<br />
Regras contraditórias<br />
Tratava-se, na verdade, de um webinar moderado pelo<br />
economista João Mosca, conhecido pela sua postura crítica<br />
sobre como os decisores, sejam quais forem, têm estado<br />
a conduzir os destinos do País. Por um instante, Mosca<br />
não se conformou em apenas passar a palavra e tomou-<br />
-a ele próprio.<br />
Na sua intervenção, o economista revelou haver fortes incongruências<br />
na utilização dos instrumentos da política<br />
monetária. “Por exemplo, ao mesmo tempo que se elevam<br />
as taxas de juro, faz-se depreciar a moeda nacional sabendo-se<br />
que uma parte significativa da inflação é provocada<br />
pelas importações, sobretudo de bens alimentares. Por um<br />
lado, procura-se travar a inflação através do aumento das<br />
taxas de juro e, por outro, faz-se deslizar o câmbio provocando<br />
inflação”, observou.<br />
João Mosca também considera discutível tentar travar a<br />
inflação ao nível em que está actualmente (baixa), numa<br />
economia em recessão. Ou seja, o Banco Central faz exactamente<br />
o contrário do que a teoria económica recomenda,<br />
e que defende que, em situação de recessão, a política monetária<br />
deve ser expansiva, e vice-versa. “Deixar subir a<br />
inflação até ao nível de 8% a 10% em situação de crise não<br />
me parece tão grave, mesmo por se tratar de uma inflação<br />
localizada em alguns sectores da economia sobre os quais<br />
é possível aplicar medidas monetárias que façam reduzir<br />
a inflação quando se restabelecer a estabilidade económica”,<br />
concluiu.<br />
Interpretação distorcida dos fenómenos<br />
Incidindo sobre a relação entre a política monetária e a<br />
dinâmica da exploração da indústria extractiva, a economista<br />
Inocência Mapisse começou por lembrar que, apesar<br />
do desempenho negativo do sector extractivo no ano<br />
passado, verificaram-se alguns eventos positivos, nomeadamente<br />
a retoma das perfurações de pesquisa em<br />
mar pela ENI, após uma paralisação de oito meses – a Decisão<br />
Final de Investimento (DFI) para o projecto da Sasol<br />
em Inhambane avaliado em 760 milhões de dólares.<br />
A economista entende que tais eventos seriam a oportunidade<br />
que o BM deveria aproveitar para cortar a taxa<br />
MIMO, e não para fazer o contrário. Ou seja, poder-se-<br />
40<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
RESERVAS, O OUTRO PONTO DA DISCÓRDIA<br />
No ano passado, o Banco Central foi acumulando Reservas<br />
Internacionais e neste momento estão ao nível de 4 mil<br />
milhões de dólares, um máximo histórico. Enquanto<br />
Fáusio Mussá defende que a acumulação das Reservas<br />
Internacionais pode ser resultado de uma postura mais<br />
cautelosa na gestão da política monetária por parte do BM<br />
(face aos riscos impostos pelo covid-19, a insegurança e<br />
o aumento do preço das commodities), Roberto Tibana<br />
entende que os manuais de política cambial ensinam que<br />
ao acumular reservas internacionais retira-se a quantidade<br />
de moeda estrangeira que se oferece à economia e, por<br />
isso, cria-se uma situação de aumento das taxas de cambio<br />
de moeda nacional. “A política de Reservas Internacionais é,<br />
provavelmente, um dos factores que está a levar a uma mais<br />
acelerada depreciação do metical”, indicou, para depois<br />
questionar: “quais são os parâmetros tomados em conta<br />
para determinar o nível de Reservas Internacionais? Temos,<br />
antes, de ver a capacidade de importação por salvaguardar<br />
com esta política, lembrando que a necessidade de<br />
importações das PME é muito menor do que as dos grandes<br />
projectos”, explicou. Tibana defende que é preciso tentar<br />
perceber se não haverá espaço para aprimorar a gestão das<br />
reservas internacionais.<br />
-ia entender que, por exemplo, com a DFI a economia terá<br />
maior disponibilidade de divisas que podem reduzir a<br />
procura de divisas e, consequentemente, o seu repasse para<br />
a inflação. Mas ocorre o contrário: por exemplo, o Banco<br />
Central refere que uma das razões para o aumento da taxa<br />
MIMO é a contenção da inflação, sem se dar conta que os<br />
eventos do sector extractivo (já citados) podem ajudar a conter<br />
a inflação sem ser necessário aumentar as taxas de juro.<br />
Além disso, avançou a economista, o BM acaba por ser contraditório<br />
quando assume que é preciso trazer instrumentos<br />
para garantir bom ambiente de negócios numa altura<br />
em que ele mesmo decide aumentar as taxas de juro de política<br />
monetária. “Assim, estamos a caminhar para uma situação<br />
em que não se está a proteger o ambiente de negócios,<br />
de um modo geral, e não se está a dotar o sector privado<br />
de capacidade para responder a demanda do sector extractivo”,<br />
criticou Inocência Mapisse.<br />
Nem os resultados geram consenso!<br />
Também interveio Roque Magaia, economista da Confederação<br />
das Associações Económicas (CTA), a defender que eso<br />
Banco Central tem tomado medidas imprevisíveis, mesmo<br />
sendo gestor de instrumentos que sinalizam o mercado,<br />
acabando por agredir os agentes económicos. Por exemplo,<br />
no caso da taxa MIMO, os sinais emitidos pelas perspectivas<br />
de uma inflação baixa e estável não faziam antever<br />
um agravamento na dimensão de 300 pontos base.<br />
Em resposta, Fáusio Mussá, reiterando haver mérito do BM,<br />
informou que a decisão do Banco de Moçambique já começou<br />
a produzir pelo menos um efeito do ponto de vista cambial:<br />
na última quinzena de Fevereiro, o Standard Bank recebeu<br />
várias chamadas de investidores externos que, ao<br />
se aperceberem que as taxas de juro da dívida moçambicana<br />
se tornaram atractivas, fizeram aplicações nesta dívida.<br />
E a entrada de divisas na compra da dívida melhorou<br />
a liquidez levando à apreciação da moeda.<br />
Mas Tibana rebateu: “As políticas do Banco Central acomodam<br />
a indisciplina fiscal, pelo elevado grau de desconexão<br />
com as do Ministério das Finanças”.<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
41
OPINIÃO<br />
Depois do aumento das taxa de juro,<br />
o metical começa a dar sinais de retoma<br />
Líria Nhavotso • Directora da Tesouraria e Mercado de Capitais do Banco BIG<br />
no final do passado mês de janeiro, o Banco de<br />
Moçambique (BdM) surpreendeu o mercado<br />
com a decisão de subida das principais taxas de<br />
referência em 300 pontos base (pb), alterando<br />
a estratégia de política monetária que vinha<br />
a ser implementada desde meados de 2017.<br />
Recuando uns anos, desde finais de 2016, o BdM tem vindo a<br />
implementar um conjunto de alterações e reformas, com o<br />
intuito de modernizar os instrumentos de política monetária<br />
utilizados para atingir os seus objectivos primários, de preservação<br />
do valor da moeda nacional e o controlo da inflação.<br />
No quadro destas reformas, foi adoptada, em Abril de 2017,<br />
uma taxa de juro de política monetária (MIMO), que serve<br />
de referência para os empréstimos no mercado interbancário.<br />
A introdução da MIMO, para além de sinalizar ao mercado,<br />
de forma clara, a política monetária do Banco Central,<br />
promove também uma maior transparência no processo de<br />
fixação das taxas de juros de mercado. A MIMO “nasceu” a<br />
21,75% e desde então, com a estabilização do câmbio, o BdM<br />
foi reduzindo esta taxa de forma progressiva e controlada,<br />
acompanhando a queda da inflação, e contribuindo assim<br />
para os esforços de retoma do crescimento económico do País.<br />
Esta tendência de descida da MIMO atingiu o seu nível mais<br />
baixo em Junho de 2020, na sequência das medidas tomadas<br />
para combater os efeitos da pandemia, com o CPMO a reduzir<br />
esta taxa em 150 pb em Abril e 100 pb em Junho, passando de<br />
12,75% para 10,25%.<br />
O ano de 2020 ficará certamente na memória de todos. Nesta<br />
altura, há sensivelmente dois anos, Moçambique era atingido<br />
por um dos maiores desastres naturais ocorridos recentemente<br />
em África, e, numa altura em que o País se preparava<br />
para uma retoma económica, começavam a conhecer-se<br />
as consequências reais de uma pandemia que rapidamente<br />
se alastrou por todo o Mundo. O abrandamento severo e generalizado<br />
da actividade económica, como consequência das<br />
medidas de contenção para mitigar a propagação da pandemia<br />
da Covid-19, motivou a adopção de políticas monetárias<br />
expansionistas por praticamente todos os bancos centrais a<br />
nível global, quer através de cortes nas suas taxas directoras<br />
quer através de intervenções directas no mercado de capitais.<br />
Estas medidas foram acompanhadas por pacotes de estímulos<br />
e alívios fiscais por parte dos Governos, com o objectivo<br />
de assegurar a sobrevivência das empresas e dos empregos,<br />
e estimular economias que começavam a entrar em recessões<br />
profundas. Moçambique não foi excepção e o Banco de<br />
Moçambique optou por cortar as suas taxas de juro de referência,<br />
criando um estímulo monetário e tentando evitar a<br />
deterioração das condições do sistema financeiro...<br />
Contudo, estas medidas tiveram alguns impactos colaterais,<br />
sendo de destacar a evolução do Metical, que encerrou 2020<br />
com fortes desvalorizações contra as principais moedas internacionais.<br />
Com efeito, este movimento foi semelhante ao<br />
de outras economias emergentes, motivado pela descida da<br />
procura e do preço das commodities, e o efeito adicional em<br />
Moçambique de redução da entrada de divisas resultante de<br />
um menor fluxo de investimento estrangeiro.<br />
Esta desvalorização significativa da moeda nacional, com<br />
principal incidência na segunda metade do ano passado, rapidamente<br />
se reflectiu numa tendência de subida dos preços,<br />
principalmente nos bens importados. Segundo o INE, a inflação<br />
homóloga, em Fevereiro, já atingiu os 5,1%, com os preços<br />
dos alimentos e bebidas não alcoólicas a observarem uma variação<br />
homóloga de 11,5%. Com esta sequência de eventos, e<br />
procurando mitigar os efeitos nefastos da desvalorização nos<br />
preços, bem como acautelar os riscos e incertezas associados<br />
com a propagação da pandemia, dos desastres naturais e a<br />
instabilidade militar no norte do País, o Banco de Moçambique<br />
tomou uma decisão arrojada de subida das taxas de juro.<br />
Com esta decisão, o Banco de Moçambique tornou-se o primeiro<br />
Banco Central, a nível mundial, a aumentar as taxas de juro<br />
desde a eclosão da pandemia. Esta medida, em conjunto com<br />
uma gestão flexível das reservas internacionais, teve um impacto<br />
quase imediato no Metical, que começa a mostrar sinais<br />
de recuperação face às principais moedas internacionais. É<br />
expectável que o Banco Central mantenha uma postura restritiva,<br />
com a manutenção das taxas aos níveis actuais, podendo<br />
ainda decidir novos aumentos, caso necessário, de modo a<br />
controlar e alcançar os objectivos de inflação.<br />
Para mitigar os efeitos nefastos da desvalorização nos preços, acautelar os riscos associados<br />
com a pandemia, etc., o Banco Central tomou a decisão arrojada de subida das taxas de juro<br />
42<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
17
POWERD BY<br />
EspecialInovação<br />
46 CLIMA<br />
África é dos pontos do mundo<br />
mais expostos aos efeitos das<br />
mudanças climáticas, que<br />
se sobrepõem ao deficiente<br />
saneamento do meio. Conheça<br />
interessantes iniciativas<br />
inovadoras em curso para<br />
tentar resolver a situação.<br />
51 53<br />
PERTENCE<br />
A iniciativa que indica onde<br />
buscar finanças para investir<br />
52 OPINIÃO<br />
Um olhar sobre a importância<br />
do design nos negócios<br />
PANORAMA<br />
As notícias da inovação em<br />
Moçambique, África e no Mundo
HEALTH-TECHS<br />
46<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
POWERED BY<br />
Os desafios das Megacidades<br />
de África<br />
Face às Mudanças<br />
Climáticas<br />
Com sérios problemas de saneamento do meio, as cidades africanas têm se<br />
debatido com enormes dificuldades de os solucionar. Afinal, quando foram<br />
projectadas não se equacionavam eventos que hoje experimentam, desde a<br />
pressão populacional até às mudaças climáticas<br />
TEXTO Rui Trindade • FOTOGRAFIA D.R.<br />
Com os seus 24 milhões de habitantes,<br />
Lagos, na Nigéria, é<br />
uma das grandes mega-cidades<br />
de África. E as projecções<br />
mais recentes indicam que essa<br />
população irá continuar a crescer até<br />
ao final deste século. Se a gestão urbana já<br />
hoje é considerada caótica e disfuncional<br />
ao extremo, os especialistas temem que a<br />
contínua pressão demográfica que se perspectiva<br />
venha a tornar a cidade ingovernável.<br />
A não ser que medidas radicais venham<br />
a ser implementadas.<br />
Durante a epóca das chuvas, a cidade fica<br />
praticamente intransitável. Isso deve-<br />
-se, em grande parte, à incapacidade para<br />
lidar, de forma eficiente, com as 10 mil<br />
toneladas de lixo produzidas todos os dias<br />
Um exemplo do tipo de projectos que estão a ser<br />
avaliados... designa-se “arquitectura flutuante”<br />
e que acabam por impedir o escoamento<br />
das águas inundando vastas zonas de Lagos.<br />
Este problema crónico pode vir a agravar-se<br />
substancialmente com o processo<br />
da mudança climática em curso. Embora<br />
os estudos indiquem que as chuvas tenderão<br />
a ser menos frequentes nas próximas<br />
décadas, a sua intensidade, porém, será<br />
muito mais elevada e violenta. Para complicar<br />
ainda mais a situação, os mesmos<br />
estudos sublinham que, se o aquecimento<br />
global for além dos dois graus centígrados,<br />
a subida das águas costeiras ultrapassará,<br />
em 2100, os 90 centímetros inundando<br />
partes da cidade de forma definitiva<br />
(uma situação que ameaça igualmente,<br />
entre outras, cidades como Accra, no Gana,<br />
Durban, na África do Sul, Luanda, em<br />
Angola, e Maputo, em Moçambique).<br />
Antecipando a possibilidade de um cenário<br />
deste tipo se materializar, as autoridades<br />
têm vindo a considerar vários tipos<br />
de soluções cujo foco se centra sobretudo<br />
em encontrar formas de mitigar o impacto<br />
das mudanças climáticas e adaptar<br />
o território à nova realidade em perspectiva.<br />
Um exemplo do tipo de projectos<br />
que estão a ser avaliados enquadra-<br />
-se no que se pode designar de “arquitectura<br />
flutuante”e tem tomado, como ponto<br />
de partida, o bairro de Makoko. Conhecido<br />
como a “Veneza de África”, o Makoko<br />
é uma gigantesca e labiríntica favela flutuante<br />
cujas habitações assentam em palafitas,<br />
sendo que a circulação se faz usando<br />
canoas. Foi no Makoko que, há alguns<br />
anos, o arquitecto Kunlé Adeyemi concebeu<br />
o protótipo de uma “escola flutuante”<br />
(The Makoko Floating School) cujo design,<br />
original e inovador, se tornou rapidamente<br />
num modelo de referência enquanto solução<br />
para outras cidades costeiras. Réplicas<br />
foram testadas inclusive em cidades europeias<br />
como Veneza (Itália) e Brugges (Bélgica).<br />
E, mais recentemente, em Cabo Verde,<br />
no Mindelo, Kunlé Adeyemi concebeu,<br />
no âmbito da iniciativa African Water Cities<br />
Project, desenvolvida pelo seu atelier<br />
de arquitectura, uma estrutura flutuante<br />
semelhante à projectada no Makoko. Apesar<br />
de a “escola flutuante” do Makoko ter<br />
sido afectada gravemente pelos temporais<br />
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AGRITECHS<br />
de 2016, obrigando a uma revisão do modelo,<br />
o conceito está a servir de base para<br />
imaginar outras aplicações similares. E<br />
levou a que, na sua esteira, as autoridades<br />
tenham dado prioridade à dinamização de<br />
projectos de circulação fluvial enquanto<br />
alternativa à rodoviária. Nos últimos anos<br />
foram criadas 42 “linhas urbanas” de embarcações<br />
ligando várias zonas da cidade.<br />
Mas, para além desta iniciativa municipal,<br />
as autoridades incentivaram também<br />
os privados a intervir. Assim, por exemplo,<br />
em 2019, a Uber arrancou com um serviço,<br />
o Uber Boats, constituído por embarcações<br />
velozes, que permitem um acesso rápido<br />
a vários pontos de Lagos.<br />
Outras iniciativas – desde o combate à erosão<br />
e a construção de protecções costeiras<br />
ao desenvolvimento de apps, como a<br />
Flood Mobile App, que dá informação em<br />
tempo real sobre a iminência de possíveis<br />
inundações – fazem parte de um conjunto<br />
alargado de projectos que procuram não<br />
apenas evitar que Lagos se “afunde”, mas<br />
que sejam capazes de dotar a cidade de estratégias<br />
de resiliência face à mudança climática<br />
e abram caminho a modelos de desenvolvimento<br />
sustentável.<br />
A maior transformação do<br />
século XXI<br />
O caso de Lagos ilustra bem os grandes<br />
desafios que se colocam ao continente<br />
africano. De acordo com o Banco Mundial,<br />
a urbanização será “a transformação<br />
mais importante que o continente africano<br />
passará neste século”, estimando que,<br />
até 2040, mais de metade da população viverá<br />
em cidades. Uma das consequências<br />
desta evolução é que mais nove mega-cidades<br />
irão surgir (cada uma com mais de<br />
dez milhões de habitantes). Por seu turno,<br />
as maiores cidades continuarão a crescer<br />
prevendo-se que as três maiores serão<br />
Kinshasa, com <strong>35</strong> milhões de habitantes,<br />
Lagos, com 32 milhões e o Cairo com<br />
24 milhões.<br />
Esta realidade coloca desafios de uma escala<br />
sem precedentes e obrigará todos os<br />
actores envolvidos (governos, investidores,<br />
planeadores urbanos, designers, arquitectos,<br />
etc.) a encontrar não só respostas<br />
aos problemas já existentes como a encontrar<br />
soluções inovadoras que levem em<br />
conta as mudanças climáticas. De acordo<br />
com o Fórum Económico Mundial, África<br />
precisará de investir, até 2050, entre 130<br />
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a 170 biliões de dólares anualmente para<br />
resolver as suas necessidades básicas em<br />
termos de infra-estruturas. Só assim será<br />
possível garantir aos 1,3 biliões de cidadãos,<br />
que viverão em zonas urbanas, condições<br />
mínimas de dignidade (recorde-se<br />
que, de acordo com dados recentes, 60%<br />
da população urbana no continente vive<br />
ainda em favelas sem condições mínimas<br />
de salubridade e acesso a água potável).<br />
Mas a intervenção ao nível das infra-estruturas<br />
não dispensa, desde já, uma ponderação<br />
sobre o efeito das mudanças climáticas<br />
de modo a que esta intervenção esteja<br />
em linha com as necessidades de resiliência<br />
e sustentabilidade indispensáveis.<br />
Nesta perspectiva, as múltiplas iniciativas<br />
actualmente em curso podem ser divididas,<br />
genericamente, entre aquelas que estão<br />
apostadas em intervir no contexto das<br />
mega-cidades existentes e as que procuram<br />
desenvolver, de raiz, novos espaços<br />
urbanos. No que toca a este último tipo<br />
de opção, um dos casos mais referidos é o<br />
da “eco-cidade” de Zenata, em Marrocos,<br />
que deverá estar operacional em 2023. No<br />
mesmo sentido, o projecto Future Cities<br />
Africa - criado no âmbito do programa Cities<br />
Alliance que junta, entre outras entidades,<br />
a agência das Nações Unidas, UNOPS,<br />
a multinacional Arup, especializada em<br />
consultoria urbana estratégica, e o Departamento<br />
para o Desenvolvimento Internacional,<br />
do Reino Unido – tem estado a estudar<br />
o desenvolvimento de “cidades secundárias<br />
estratégicas e regionais” em vários<br />
países africanos (Gana, Etiópia, Uganda,<br />
etc.) que funcionem como modelos de<br />
zonas urbanas resilientes e sustentáveis.<br />
Em contraste com intervenções deste tipo,<br />
o Instituto de Arquitectura Experimental<br />
da Bauhaus Universitat Weimer tem vindo<br />
a trabalhar com o Instituto Etíope de Construção<br />
de Edifícios e Desenvolvimento de<br />
Cidades sobre o problema da hiperurbanização<br />
da capital etíope e procurado um<br />
outro ângulo de abordagem.<br />
O programa em desenvolvimento passa,<br />
para já, pela construção de três protótipos<br />
residenciais em Addis Ababa. Em vez<br />
de seguir os modelos dominantes na Europa<br />
e no Norte Global, estes protótipos procuram<br />
tirar proveito dos métodos de construção<br />
indígenas, de tecnologias de construção<br />
e uso de materiais tradicionais para<br />
criar estruturas espaciais social e ambien-<br />
retêm o calor, elevam a temperatura nas cidades<br />
e reduzem o lençol freático. O tratamento<br />
dos resíduos urbanos é outro dos<br />
grandes problemas. A falta de gestão eficaz<br />
dos resíduos, na maioria das cidades,<br />
ajuda a gerar emissões de gases de efeito<br />
estufa nos aterros existentes. Com a crescente<br />
urbanização, o volume de lixo aumentará<br />
e as emissões de gases de efeito<br />
de estufa também. Apesar deste quadro, e<br />
independemente da urgência na adopção<br />
de soluções estruturantes, um relatório<br />
da FAO sublinhava, recentemente, a necessidade,<br />
por exemplo, de apoiar a horticultura<br />
urbana e periurbana como forma<br />
de contribuír para “criar cidades mais<br />
verdes na África”.<br />
Para além de sublinhar a importância desta<br />
tradição “local” no que toca à “segurança<br />
alimentar” das populações (sobretudo<br />
tendo em atenção as futuras “pandemias<br />
climáticas” que se perspectivam), “a horticultura<br />
cria cinturões verdes, que protegem<br />
áreas frágeis, contêm a expansão urbana<br />
e aumentam a resiliência à mudança<br />
climática”. E refere também que “ao reduzir<br />
a necessidade de transportar produtos das<br />
áreas rurais, gera poupança de combustível<br />
e menos poluição do ar”.<br />
O relatório da FAO faz um levantamento<br />
exaustivo da situação no continente mostrando<br />
como a “agricultura urbana”, que<br />
tem uma expressão significativa em todos<br />
os países do continente, pode constituír<br />
uma “base” relevante para fazer mitigar<br />
muitos problemas ambientais. Esta abordagem<br />
está, de algum modo, em linha com os<br />
A falta de gestão eficaz dos resíduos ajuda a gerar<br />
emissões de gases de efeito estufa<br />
talmente robustas, abertas e flexíveis. Embora<br />
projectado para Addis Abeba, onde<br />
80% da população urbana vive em favelas,<br />
o exercício arquitectónico tem um desígnio<br />
mais amplo: o de dar corpo a uma tipologia<br />
de construção que sirva de referência<br />
para todo o continente e tenha como linha<br />
mestra a recuperação de um saber-fazer<br />
e de um tipo de materiais, que podem<br />
vir a demonstrar ser mais apropriados às<br />
necessidades do continente.<br />
Cidades Inteligentes e Cidades<br />
Ecológicas<br />
Um grande números de cidades africanas<br />
tem configurações “ecologicamente incorrectas”<br />
que comprometem a sua resiliência<br />
à mudança do clima. A falta de vegetação<br />
e o uso de materiais de construção que<br />
que defendem, em alternativa às “cidades<br />
inteligentes” (smart cities), modelos de “cidades<br />
ecológicas” que se inspiram no modo<br />
de funcionamento da natureza e apostam<br />
na utilização da vegetação como elemento<br />
principal (fachadas verdes, jardins de chuvas,<br />
hortas urbanas, etc.). Os benefícios são<br />
claros: regulação hídrica e drenagem urbana,<br />
melhoria do conforto térmico e do microclima<br />
urbano, aumento da biodiversidade,<br />
sequestro de CO2 e outros poluentes,<br />
etc. Mas, como notam vários especialistas,<br />
os dois tipos de abordagens (cidades inteligentes/cidades<br />
ecológicas) não são concorrentes,<br />
mas sim complementares. Face<br />
ao desafio monumental que as mudanças<br />
climáticas implicam haverá, acima de tudo,<br />
de fazer as melhores escolhas perante cada<br />
contexto específico.<br />
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anking<br />
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pertence<br />
Fazer Negócio<br />
Facilitando Finanças<br />
a Outros Negócios<br />
A Pertence é uma solução digital que pretende divulgar e agregar várias<br />
iniciativas tecnológicas ao mercado para despertar o interesse dos<br />
investidores em apostar nelas<br />
TEXTO Hermenegildo Langa • FOTOGRAFIA Mariano Silva<br />
Há pouco tempo, Moçambique<br />
era um país onde falar<br />
de fintech ou start-up<br />
não era tão comum quanto<br />
acontece actualmente, visto<br />
que o sucesso das iniciativas de investimentos<br />
não dependia, essencialmente, de<br />
meios tecnológicos. Hoje, a inovação tecnológica<br />
e o empreendedorismo fazem o<br />
par perfeito que cria condições para uma<br />
resposta efectiva à necessidade de conferir<br />
eficiência aos processos produtivos. Trata-<br />
-se de uma tendência que veio a ser acelerada<br />
pela pandemia do covid-19, que ocasionou<br />
um aumento sem precedentes da<br />
procura por serviços financeiros online.<br />
A oportunidade de negócio neste campo,<br />
também cresceu e conta com um número<br />
cada vez maior de operadores. Mas, nesta<br />
edição, vamos falar da Pertence, uma empresa<br />
moçambicana provedora de soluções<br />
digitais e que pretende impulsionar o<br />
mercado das fintech.<br />
Com apenas um ano no mercado, o projecto<br />
veio dar resposta a uma forma alternativa<br />
de financiamento às outras soluções<br />
tecnológicas que estejam em fase<br />
inicial. “A Pertence é uma plataforma online<br />
e digital de financiamento colectivo,<br />
um financiamento em que qualquer pessoa<br />
ou empresa pode comparticipar financeiramente<br />
para apoiar o seu projecto. Como?<br />
De várias maneiras, mas a principal<br />
é a participação no capital da empresa ou<br />
do projecto em causa através de empréstimos<br />
de várias pessoas”, explicaram os co-<br />
-fundadores da Pertence, Yara Melo e Ian<br />
Zaqueu. “Queremos impulsionar as várias<br />
formas de apoio às start-ups de modo a<br />
permitir a diversificação do financiamento<br />
para além das formas tradicionais”, argumentaram.<br />
Como solução digital, os gestores contam<br />
que o aspecto inovador deste projecto está<br />
no uso da internet e de uma plataforma<br />
para que várias empresas ou iniciativas estejam<br />
expostas aos potenciais investidores.<br />
Por exemplo, “através de uma aplicação<br />
no telefone podemos expor os nossos<br />
projectos e encontrar investidores. Queremos,<br />
essencialmente, explorar muito mais<br />
esta área digital no País”.<br />
Mas porquê o nome “Pertence”? É por<br />
transmitir um sentimento de inclusão e<br />
de pertença. “Queremos que todos se sintam<br />
parte deste processo de transformação<br />
económica do País, e que todos possam,<br />
quer por via de projectos ou de investimentos,<br />
pertencer a esta nova era”, explicaram<br />
os gestores.<br />
A avaliar pela sua forma de actuação, a<br />
plataforma Pertence pode confundir-se<br />
um pouco com uma bolsa de valores. Porém,<br />
os seus co-fundadores asseguram ser<br />
longe disso, embora reconheçam algumas<br />
similaridades. Estando ainda em fase de<br />
amadurecimento, o projecto conta com o<br />
apoio do Banco de Moçambique através<br />
de uma iniciativa que esta instituição presta<br />
às fintech no seu Sandbox. Ainda assim,<br />
as aspirações para esta start-up são grandes,<br />
e uma delas passa por torná-la num<br />
negócio rentável dentro de quatro anos.<br />
“A Pertence é uma fintech e start-up que<br />
funciona na base do volume de transacções,<br />
então quanto maior for o volume<br />
de transacção, maior será a nossa comissão.<br />
Estamos agora numa fase embrionária,<br />
mas dentro de três a quatro anos prevemos<br />
ganhar algum lucro”, reiteram.<br />
A iniciativa já conta com três projectos,<br />
sendo um da área do comércio, outro<br />
da agricultura e o último voltado para<br />
a área social.<br />
BEMPRESA<br />
Pertence<br />
FUNDADORES<br />
Yara Melo e Ian Zaqueu<br />
ANO DE FUNDAÇÃO<br />
2020<br />
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panorama<br />
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Infra-estruturas<br />
Manica testa tecnologia japonesa na reparação<br />
de estradas<br />
O Centro de Formação Profissional de Estradas<br />
de Chimoio (CFE), na província de<br />
Manica, está a melhorar algumas vias de<br />
acesso de terra batida por meio de uma<br />
tecnologia japonesa denominada Do-<br />
-Nou, no distrito de Vandúzi. As vias em<br />
melhoramento ficaram esburacadas e<br />
com grandes fendas em consequência das<br />
chuvas intensas que têm estado a cair desde<br />
finais do ano passado. Segundo David<br />
Charles, chefe do Departamento Pedagógico<br />
do CFE e engenheiro responsável pelo<br />
programa, o trabalho prático de manutenção<br />
das referidas estradas seguiu-se a<br />
uma formação envolvendo 50 jovens do<br />
distrito de Vandúzi durante duas semanas.<br />
No entanto, David Charles disse que a tecnologia<br />
Do-Nou, após a sua aprovação,<br />
poderá ser usada pela primeira vez no País<br />
e por meio do seu impacto o Governo poderá<br />
definir outras vias intransitáveis a serem<br />
intervencionadas.<br />
Saúde<br />
Gana usa drones para entregar vacinas para Covid-19<br />
“Mesh” é o nome da plataforma apresentada<br />
pela multinacional de tecnologia<br />
norte-americana e vai proporcionar o<br />
primeiro ‘mergulho’ na “realidade mista”,<br />
ou seja, uma tecnologia entre a realidade<br />
aumentada e a virtual.<br />
A realidade aumentada pressupõe elementos<br />
físicos como, por exemplo, a reprodução<br />
digital de uma pessoa, enquanto<br />
a virtual supõe a criação de um<br />
ambiente totalmente artificial.<br />
A Zipline, uma startup com sede em São<br />
Francisco (EUA), encontrou uma solução<br />
para facilitar a distribuição de vacinas<br />
contra o covid-19 nos países menos<br />
desenvolvidos e em zonas mais remotas.<br />
O objectivo da parceria entre o Governo<br />
do Gana e a Zipline, anunciada no dia<br />
26 de Fevereiro – dois dias após a chegada<br />
das vacinas a Accra (capital do Gana),<br />
é melhorar a agilidade e o acesso das vacinas<br />
por meio da entrega sob demanda,<br />
mesmo nas mais difíceis áreas de alcance<br />
naquele país.<br />
Até ao momento, a Zipline Gana distribuiu<br />
mais de um milhão de doses de vacinas,<br />
muitas em partes do país que são<br />
difíceis de alcançar por terra. Ao fornecer<br />
entrega por meio de drones, o Governo<br />
não só é capaz de alcançar mais pessoas,<br />
como também de o fazer com eficiência.<br />
Computação<br />
Microsoft apresenta primeira versão de reuniões com<br />
hologramas<br />
Deste modo, a empresa fundada por Bill<br />
Gates disse que vai ser possível uma pessoa<br />
participar numa reunião virtual e<br />
conseguir ver os participantes como se<br />
estivessem lado a lado, ainda que estejam<br />
em diferentes regiões do planeta.<br />
A plataforma vai estar disponível nos dispositivos<br />
de realidade aumentada da Microsoft<br />
e também em computadores, tablets,<br />
smartphones e óculos de realidade<br />
virtual, entre outros.<br />
Ambiente<br />
Niassa quer produzir<br />
plástico biodegradável<br />
hologramas<br />
Estão a ser testadas diferentes variedades<br />
de semente de rícino na localidade<br />
de Titimane, distrito de Cuamba,<br />
no Niassa, para apurar o nível de adaptabilidade<br />
dos solos e clima desta região<br />
para a produção de um novo tipo<br />
de plástico biodegradável, um produto<br />
considerado ambientalmente saudável<br />
feito a partir do óleo extraído da<br />
semente de rícino.<br />
Judite Massengele, governadora do<br />
Niassa, visitou recentemente aquela<br />
região do distrito de Cuamba e, na<br />
ocasião, disse que, caso os ensaios das<br />
diferentes variedades de rícino produzam<br />
resultados positivos, a província<br />
avançará para uma produção em regime<br />
comercial. Niassa tem, de resto,<br />
uma longa tradição de produção desta<br />
planta, mas o seu uso tem-se resumido<br />
a fins cosméticos, algo que poderá<br />
mudar se os resultados dos ensaios<br />
concluírem a sua efectividade em regiões<br />
com temperaturas elevadas.<br />
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LÁ FORA<br />
COVID DESEMPREGA 13<br />
MILHÕES DE MULHERES<br />
NA AMÉRICA LATINA<br />
O dia internacional da mulher, assinalado a 8 de Março, foi um bom pretexto<br />
para que instituições multilaterais como a OIT e a ONU divulgassem dados<br />
sobre os quais vale a pena reflectir para empreender mudanças efectivas<br />
a<br />
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.<br />
crise<br />
económica que<br />
decorre da pandemia<br />
do covid-19 agravou as<br />
disparidades de género<br />
na força de trabalho e<br />
gerou um retrocesso de<br />
pelo menos uma década na América<br />
Latina e no Caribe, onde 13 milhões<br />
de mulheres perderam os seus empregos,<br />
de acordo com o último Panorama<br />
Laboral da Organização Internacional<br />
do Trabalho (OIT), divulgado<br />
recentemente. A taxa de participação<br />
da mão-de-obra feminina em 2020 sofreu<br />
uma queda histórica de 5,4 pontos<br />
percentuais, para 46,4%, o que significa<br />
que 12 milhões de mulheres deixaram<br />
a força de trabalho na América<br />
Latina e no Caribe devido à perda<br />
dos seus empregos. De acordo com os<br />
dados da OIT, uma taxa tão baixa de<br />
participação feminina no mercado de<br />
trabalho não é registada há mais de<br />
15 anos. Além disso, a taxa de desemprego<br />
regional das mulheres subiu de<br />
10,3% para 12,1%, acima da taxa de desemprego<br />
global, que aumentou para<br />
10,6%, o que significa que aproximadamente<br />
1,1 milhão de mulheres ficaram<br />
desempregadas (totalizando 13,1<br />
milhões). O declínio na taxa de participação<br />
da força de trabalho feminina<br />
reflecte a percentagem de mulheres<br />
que ficaram sem emprego por causa<br />
da pandemia, mas não está à procura<br />
de novo trabalho por não haver em-<br />
pregos ou porque tiveram de atender<br />
a outras responsabilidades familiares.<br />
Já o aumento da taxa de desemprego<br />
representa a percentagem de mulheres<br />
que estão à procura de trabalho,<br />
mas não conseguem encontrá-lo. Estes<br />
13,1 milhões de mulheres que perderam<br />
emprego somam-se a cerca de<br />
12 milhões que já eram afectadas pelo<br />
desemprego antes da pandemia.<br />
Desemprego chega a 25 milhões<br />
Cerca de 25 milhões de mulheres estão<br />
desempregadas ou fora da força de<br />
trabalho neste momento, diz o relatório<br />
da OIT. “Esta crise sem precedentes<br />
agravou as disparidades de género nos<br />
mercados de trabalho da região, empurrando<br />
milhões de mulheres para<br />
fora da força de trabalho e revertendo<br />
ganhos anteriores”, disse o director da<br />
OIT para a América Latina e o Caribe,<br />
Vinícius Pinheiro. “Retrocedemos mais<br />
de uma década num ano, e agora precisamos<br />
de recuperar esses empregos<br />
e pisar no acelerador da igualdade de<br />
género”, acrescentou. Pinheiro salientou<br />
que “neste Dia Internacional da Mulher<br />
(8 de março), é crucial reafirmar o<br />
compromisso de recuperar o terreno<br />
perdido durante o desastre económico<br />
e social nos nossos países”.<br />
Trabalhos em serviço e comércio<br />
O grave impacto da pandemia no trabalho<br />
feminino deve-se ao facto de as<br />
“Retrocedemos mais de uma década num ano, e agora<br />
precisamos de recuperar esses empregos e acelerador a<br />
igualdade de género... é crucial refirmarmos compromissos”<br />
mulheres estarem empregadas principalmente<br />
nos sectores económicos<br />
mais afectados pelas restrições estabelecidas<br />
para evitar a propagação<br />
da pandemia. De acordo com o Panorama<br />
Laboral do Trabalho da OIT para<br />
a América Latina e o Caribe, a retracção<br />
no universo de empregos em 2020<br />
foi particularmente significativa nos<br />
sectores de serviços como a hotelaria<br />
(-17,6%) e comércio (-12%).<br />
Outro factor que tem afectado e pode<br />
condicionar as perspectivas de recuperação<br />
de empregos das mulheres é<br />
a dificuldade de conciliar o trabalho<br />
remunerado com as obrigações em<br />
casa. “A tudo isso deve ser acrescentado<br />
o aumento do teletrabalho e do<br />
trabalho em casa num contexto de encerramento<br />
ou suspensão dos espaços<br />
de cuidados associados às medidas de<br />
54<br />
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AMERICA LATINA<br />
confinamento e distanciamento social”,<br />
disse a especialista regional de emprego<br />
da OIT, Roxana Maurizio.<br />
A organização propôs políticas sociolaborais<br />
relevantes para evitar que<br />
a crise regional se torne permanente<br />
e para evitar a retirada da força de<br />
trabalho feminina da região. “É necessário<br />
apoiar, ainda mais fortemente,<br />
um processo que garanta às mulheres<br />
maiores oportunidades de emprego<br />
de qualidade, treinamento e acesso a<br />
novas tecnologias, redução de lacunas<br />
e pleno cumprimento dos direitos trabalhistas”,<br />
disse Maurizio.<br />
ONU não ficou indiferente<br />
Ciente do papel das empresas para<br />
o crescimento das economias e para<br />
o desenvolvimento humano, a ONU<br />
Mulheres e o Pacto Global criaram os<br />
Princípios de Empoderamento das Mulheres.<br />
Os Princípios são um conjunto<br />
de considerações que ajudam a comunidade<br />
empresarial a incorporar, nos<br />
seus negócios, valores e práticas que<br />
visem a equidade de género e equiparação<br />
salarial, nomeadamente no estabelecimento<br />
de liderança corporativa<br />
sensível à igualdade do género, no<br />
mais alto nível; tratar todas as mulheres<br />
e homens de forma justa no trabalho,<br />
respeitando e apoiando os direitos<br />
humanos e a não-discriminação;<br />
garantir a saúde, segurança e bem-<br />
-estar de todas as mulheres e homens<br />
que trabalham na empresa; promover<br />
a educação, capacitação e desenvolvimento<br />
profissional para as mulheres;<br />
apoiar o empreendedorismo<br />
feminino e promover políticas de empoderamento<br />
das mulheres através<br />
das cadeias de suprimentos e marketing;<br />
promover a igualdade de género<br />
através de iniciativas voltadas para<br />
a comunidade e ao activismo social e;<br />
medir, documentar e publicar os progressos<br />
da empresa na promoção da<br />
igualdade de género.<br />
“Queremos construir um mundo de<br />
trabalho distinto para as mulheres”,<br />
concluiu Phumzile Mlambo-Ngcuka,<br />
subsecretária geral das Nações Unidas<br />
e diretora executiva da ONU<br />
Mulheres.<br />
No mundo, de acordo com a ONU, é necessária<br />
uma mudança significativa<br />
na educação de meninas. Estima ainda<br />
que se a igualdade de género avançasse<br />
seria capaz de impulsionar progressos<br />
assinaláveis, adicionando 12<br />
mil milhões de dólares no PIB mundial<br />
de agora até 2025”.<br />
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55
ócio<br />
(neg)ócio s.m. do latim negação do ócio<br />
58<br />
Nesta edição<br />
vamos<br />
conhecer as<br />
várias faces da<br />
cidade capital,<br />
Maputo<br />
e<br />
g<br />
Como a<br />
60<br />
pandemia<br />
poderá inspirar<br />
mudanças na<br />
indústria de<br />
restauração<br />
61<br />
As variedades<br />
dos vinhos<br />
sem álcool,<br />
que ganham<br />
cada vez mais<br />
adeptos pelo<br />
mundo
O encontro com a diversidade<br />
CIDADE<br />
DAS<br />
ACÁCIAS<br />
e<br />
MAPUTO, A CIDADE<br />
os meus lugares de maputo<br />
não são os novos malls à beira-mar<br />
nem os centros co-<br />
DA SERENDIPIDADE<br />
merciais com luzes violetas.<br />
Ainda gosto de ir à Baixa da<br />
cidade, ao Mercado Central<br />
na Avenida 25 de Setembro.<br />
As cores são vibrantes e a<br />
atmosfera é sempre alegre.<br />
Legumes, frutas, peixe, carne,<br />
quinquilharia e mechas<br />
para cabelo e uma enorme<br />
secção de artesanato. Dou<br />
sempre um salto à Casa Elefante,<br />
mesmo em frente ao<br />
bazar, para apreciar as últimas<br />
capulanas.<br />
Também gosto de ir ao<br />
mercado Janete, ao fundo<br />
da Avenida Mao Tse Tung,<br />
porque oferece uma enorme<br />
variedade de produtos<br />
frescos e uma grande secção<br />
de vestuário e calçado<br />
em segunda mão. Dali vou<br />
à FEIMA, o espaço dedicado<br />
ao artesanato no Parque<br />
que, tal como o país, resulta<br />
de múltiplos relacionamentos<br />
culturais. Malangatana,<br />
Chissano, Bertina Lopes, Shikani,<br />
e tantos outros, continuam<br />
símbolos imortais e<br />
fontes de inspiração.<br />
Actualmente, a arte em<br />
Moçambique vive um momento<br />
de transição com artistas<br />
a explorarem outras<br />
expressões e direcções na<br />
arte contemporânea: diversidade<br />
e complexidade dos<br />
estilos e sons presentes, resultantes<br />
da mistura de influências<br />
tanto tradicionais<br />
como globais, enquanto o<br />
sentido de colaboração que<br />
parece estar em constante<br />
crescimento, finalmente,<br />
está a ajudar a mostrar os<br />
meandros da cena fora da<br />
cidade. Mostrar-vos-ia toda<br />
co em Maputo, em 1989, na<br />
antiga Câmara Municipal,<br />
por iniciativa de Malangatana.<br />
No espaço atrás do museu,<br />
encontramos os escultores<br />
Makonde que fazem algumas<br />
das máscaras mais<br />
invulgares e apelativas de<br />
África: toda a cabeça é esculpida<br />
e não apenas o rosto.<br />
E enquanto a maioria das<br />
máscaras africanas são abstractas,<br />
o requinte da talha<br />
Makonde permite-lhes uma<br />
qualidade quase realista.<br />
Daríamos um salto ao Núcleo<br />
de Arte, que mantém<br />
o espírito de oficina de arte<br />
e de espaço expositivo. Foi<br />
aqui que começou Gonçalo<br />
Mabunda, o escultor mundialmente<br />
conhecido com as<br />
suas cadeiras e crucifixos<br />
feitos de armas. As suas esculturas<br />
dos Continuadores, onde a beleza dos murais de Naguib<br />
há muito deixaram<br />
posso comer a rica e variada<br />
comida moçambicana –<br />
que não é feita apenas de<br />
camarão grelhado! Se eu<br />
fosse vosso guia, falar-vos-<br />
-ia da arte de Moçambique<br />
e outros artistas em<br />
vários pontos da cidade e<br />
iríamos juntos visitar as exposições<br />
de arte. Em primeiro<br />
lugar, o Museu Nacional<br />
de Arte, que abriu ao públide<br />
integrar apenas as armas.<br />
Mas não resiste a uma<br />
AK47! Abriu as portas da<br />
sua residência e, juntamente<br />
com o fotógrafo Mauro<br />
Pinto, criou o projecto “Karl<br />
58<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
Marx 1834”, para mostrar<br />
as mais diversificadas manifestações<br />
artísticas da<br />
cidade de Maputo. Depois<br />
iríamos até à Universidade<br />
Eduardo Mondlane para<br />
visitar a sua colecção de<br />
arte nacional. Passaríamos<br />
pela Mediateca do BCI e<br />
depois iríamos até à Kulungwana<br />
- Associação para o<br />
Desenvolvimento Cultural<br />
que, entre outras actividades,<br />
possui um espaço-<br />
-galeria com um programa<br />
regular de exposições.<br />
Certamente há algo na Fundação<br />
Fernando Leite Couto<br />
que, semanalmente, além<br />
dos encontros com jovens<br />
escritores, organiza exposições<br />
de todas as expressões<br />
artísticas, pintura, escultura,<br />
fotografia, traçando a<br />
agenda cultural da capital<br />
moçambicana.<br />
Depois seria a volta à 16Neto,<br />
um espaço único de trabalho<br />
conjunto, criativo e cultural.<br />
No dia seguinte, convidar-<br />
-vos-ia para uma caminhada<br />
matinal no “calçadão” da<br />
Marginal porque, ainda que<br />
Maputo seja uma cidade que<br />
oferece um vasto leque de<br />
actividades, instalações e<br />
espaços para praticar diversas<br />
disciplinas, eu gosto<br />
do “calçadão” até ao novo<br />
Mercado do Peixe e de ver<br />
a ilha da Xefina ao fundo. Faríamos<br />
o roteiro de três horas<br />
a pé no bairro histórico<br />
da Mafalala, onde moraram<br />
grandes personalidades da<br />
História do País: Samora Machel,<br />
Noémia de Sousa, José<br />
Craveirinha, Eusébio… e comeríamos<br />
pão com badjias.<br />
Desafiava-vos ainda a comer<br />
deliciosos gulabos na<br />
loja do Templo Hindú, da<br />
Avenida Guerra Popular, e<br />
depois convidar-vos-ia para<br />
tomar um copo no Dhow ou<br />
no Hotel Cardoso para apreciar<br />
o pôr-de-sol de Maputo<br />
que, apesar de todas as tentativas,<br />
é sempre mais “alto”<br />
do que os novos edifícios que<br />
querem chegar até ao céu.<br />
TEXTO CRISTIANA PEREIRA<br />
FOTOGRAFIA D.R.<br />
GOSTO DE IR À BAIXA DA CIDADE DE MAPUTO, AO MERCADO<br />
CENTRAL, NA AVENIDA 25 DE SETEMBRO. AS CORES SÃO MAIS<br />
VIBRANTES E A ATMOSFERA É SEMPRE MUITO ALEGRE<br />
ROTEIRO<br />
COMO IR<br />
Através da Linhas Aéreas de<br />
Moçambique (LAM) que voa<br />
para Maputo a partir de Lisboa,<br />
Dar-es-Salaam, Nairobi e<br />
Joanesburgo.<br />
ONDE COMER<br />
A Figtree Guesthouse, no<br />
coração da Sommerschield,<br />
é um bed&breakfast elegante<br />
e acolhedor. O Polana Serena<br />
Hotel, na Avenida Julius Nyerere<br />
1380, é o hotel mais antigo da<br />
capital moçambicana.<br />
ONDE COMER<br />
O Campo di Mare, na Marginal,<br />
tem uma maravilhosa varanda<br />
que se debruça sobre a baía<br />
e serve massas frescas feitas<br />
à mão, salada de caranguejo,<br />
carpaccio de polvo, etc. O<br />
Zambi, na Avenida 10 de<br />
Novembro, é considerado um<br />
dos melhores restaurantes de<br />
Maputo. Com grande história e<br />
tradição, serve atum e mariscos<br />
e uma picanha superlativa,<br />
entre outros pratos da rica<br />
ementa. O Lugar e Meio, na<br />
Avenida Francisco Orlando<br />
Magumbwe, serve falafel, o<br />
atum braseado, etc.<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
59
DIVERSOS<br />
RESTAURANTES<br />
NO MUNDO ESTÃO<br />
AGORA A REUNIR-SE<br />
COM UM ESPÍRITO<br />
DE LUTA CONTRA<br />
O COVID-19<br />
RESTAURANTES<br />
g<br />
com a crise instaurada pelo<br />
coronavírus, todos os tipos<br />
de restaurantes tiveram<br />
de fechar abruptamente as<br />
suas salas de jantar e abrir<br />
rapidamente novas formas<br />
de fazer negócios para sobreviver,<br />
proteger os seus<br />
empregados e servir as rápidas<br />
mudanças de necessidades<br />
dos seus clientes.<br />
Ver a indústria da restauração<br />
a cair em tempos de<br />
pandemia é difícil de controlar,<br />
considerando que, antes<br />
desta realidade, a indústria<br />
de 899 mil milhões de dólares<br />
em receitas contribuiu<br />
com 4% para o PIB dos Estados<br />
Unidos. Os consumidores<br />
gastavam normalmente<br />
perto de 50% do seu orçamento<br />
alimentar mensal<br />
em restaurantes até que o<br />
covid-19 os forçou a quebrar<br />
o hábito.<br />
A empresa norte-americana<br />
de recolocação, designada<br />
por Challenger, Gray &<br />
Christmas (voltada para a<br />
reintegração de profissionais<br />
que, por alguma razão,<br />
NA RESTAURAÇÃO,<br />
saem do mercado de trabalho),<br />
relatou que mais de 600 O NOVO NORMAL CHEGARÁ MAIS RÁPIDO!<br />
postos de trabalho na indústria<br />
alimentar foram cortados<br />
ser atempado e reactivo<br />
dar prioridade à saúde<br />
devido à pandemia, e Sempre que alterar os Estabeleça medidas de se-<br />
outros 7,4 milhões poderão seus serviços de restauração,<br />
gurança e mencione-as com<br />
em breve ser cortados ou<br />
menus ou horários, regularidade para aliviar<br />
severamente afectados. mantenha os seus clientes os receios dos clientes.<br />
Diversos restaurantes no informados.<br />
As mensagens de espírito<br />
mundo estão agora a reunir-se<br />
Actualize o seu website, os de serviço devem ser infor-<br />
rapidamente com um meios de comunicação social madas de igual modo, como<br />
espírito de luta contra o covid-19,<br />
e os directórios. Assegure- a entrega sem contacto ou o<br />
a mudar completa-<br />
-se que as suas linhas tele-<br />
pagamento. .<br />
mente os seus negócios para<br />
acomodar a recepção e a e treine rapidamente o seu fónicas estejam disponíveis<br />
concentração nos melhores<br />
entrega. Alguns estabelecimentos<br />
pessoal para realizar, sem clientes<br />
voltaram-se para os problemas, novos processos Pesquise e descubra quem<br />
serviços de entrega de alimentos<br />
para manter os seus clien-<br />
são os seus melhores clien-<br />
como Caviar, Door- tes satisfeitos. Agora é o tes e depois ligue para eles<br />
Dash e Seamless para ajudar<br />
momento de inovar. Conhe-<br />
regularmente. Modele no-<br />
a satisfazer a procura. ça e sirva os seus clientes vos públicos a partir dos<br />
Mas o que devem os investidores<br />
e comunidades onde eles se seus próprios clientes para<br />
fazer para man-<br />
encontram agora. Considere alargar o seu alcance para<br />
ter a sua marca e fortificá- apresentar ofertas especiais<br />
obter o maior ganho.<br />
-la? Especialistas em publicidade<br />
de refeições e kits de Reequipe o seu negócio e<br />
digital recomendam refeições para que os clientes<br />
oriente as suas acções com<br />
concentração nas seguintes<br />
possam preparar em base nas necessidades dos<br />
(três) áreas:<br />
casa.<br />
seus clientes.<br />
60<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong>
A SCHATZI IMPORTA A SÉRIE EINS-ZWEI-ZERO DE VINHOS<br />
SEM ÁLCOOL DE LEITZ, UM EXCELENTE E INOVADOR<br />
ESPECIALISTA EM RIESLING EM RHEINGAU, ALEMANHA<br />
VINHO SEM ÁLCOOL<br />
AINDA É VINHO? É.<br />
E O CONSUMO ESTÁ A AUMENTAR<br />
os vinhos sem álcool preenchem<br />
uma necessidade para os sóbrios, seguidores<br />
de uma determinada religião<br />
ou ocasionalmente abstinentes,<br />
e há uma nova geração de vinhos<br />
sem álcool que é promissora.<br />
No entanto, é difícil de imaginar vinho<br />
sem o álcool. Porque é parte integrante<br />
da sua textura, sabor e complexidade,<br />
apesar de o interesse pelo<br />
vinho sem álcool ter vindo a crescer<br />
rapidamente nos últimos dois anos.<br />
Segundo dados da consultora Nielsen<br />
global Media, as vendas a retalho de<br />
vinhos sem álcool nos Estados Unidos<br />
dispararam durante o ano que terminou<br />
em 20 de Fevereiro, subindo<br />
34% ao longo dessas 52 semanas após<br />
se terem mantido relativamente estáveis<br />
de 2016 a 2019.<br />
As vendas anuais, no valor aproximado<br />
de 36 milhões de dólares ao longo<br />
do último ano, são apenas uma pequena<br />
fracção de toda a categoria de vinhos,<br />
que registou mais de 21 mil milhões<br />
de dólares nesse período. Apenas<br />
sete marcas de vinhos sem álcool<br />
tiveram mais de $1 milhão de dólares<br />
em vendas, pode ler-se na pesquisa.<br />
Isto não é muito, comparado com outras<br />
categorias de bebidas não alcoólicas,<br />
como a cerveja e a sidra, que<br />
oferecem uma selecção muito maior<br />
do que o vinho.<br />
Mas o interesse cresceu suficientemente<br />
rápido no último ano para que<br />
alguns no comércio do vinho vejam<br />
agora uma oportunidade excitante.<br />
“É a categoria de crescimento mais<br />
rápido na nossa carteira neste momento”,<br />
disse Kevin Pike, proprietário<br />
da Schatzi Wines, um pequeno<br />
importador e distribuidor em Milão.<br />
“Sobe 1 000 por cento e cresce todos<br />
os dias”.<br />
A Schatzi importa a série Eins-Zwei-<br />
-Zero de vinhos sem álcool de Leitz,<br />
um excelente e inovador especialista<br />
em riesling na região de Rheingau,<br />
na Alemanha. Vende agora três variedades:<br />
um riesling, um espumante<br />
riesling e um espumante rosé. Os<br />
dois espumantes também vêm em latas<br />
de 250 mililitros, e o Sr. Pike disse<br />
que espera adicionar um pinot noir<br />
sem álcool no próximo ano.<br />
Outro importador, Victor O. Schwartz<br />
da VOS Selections, traz um chardonnay<br />
sem álcool da Thomson & Scott,<br />
um comerciante mais conhecido por<br />
vender o Skinny Prosecco. As garrafas<br />
destinam-se a uma dieta consciente,<br />
e o Sr. Schwartz disse que a<br />
resposta aos vinhos tem sido óptima.<br />
Um bom sumo de uva pode ser maravilhoso,<br />
mas não passa disso. O vinho<br />
não alcoólico é produzido pela primeira<br />
vez ao fazer vinho. A levedura<br />
fermenta todo ou quase todo o açúcar<br />
da uva em álcool. Depois, o álcool<br />
é retirado. O resultado não é mais intoxicante<br />
do que o sumo de uva, mas<br />
geralmente não é tão doce e é fundamentalmente<br />
alterado.<br />
Qual é o apelo? Não é difícil de entender<br />
que, num mundo pandémico, os<br />
cuidados com a saúde tenham emergido.<br />
Mas as razões práticas são, no<br />
entanto, tão importantes como qualquer<br />
outra motivada por tendências<br />
sociais. “Estou a pensar em pessoas<br />
que estão em forma e acordam super<br />
cedo para correr ou fazer exercício,<br />
pessoas que querem festejar<br />
mas são o motorista designado, pessoas<br />
que querem tirar uma noite<br />
de folga da sua garrafa habitual, ou<br />
que têm de trabalhar depois do jantar”,<br />
disse Schwartz. “Todas estas pessoas<br />
gostam de beber vinho e não<br />
querem desistir disso, mas estão felizes<br />
por não terem álcool a interferir<br />
nestas alturas com as suas vidas ocupadas<br />
e activas”.<br />
EINS-ZWEI-ZERO<br />
SPARKLING RIESLING<br />
O álcool do vinho ferve<br />
a 28°C, preservando os<br />
aromas e as características<br />
“enológicas”: citrinos de<br />
laranja, ruibarbo e estragão.<br />
O CO2 nesta versão<br />
espumante do Riesling faz<br />
com que pareça mais seco<br />
do que é, uma vez que o<br />
limão e outras especiarias<br />
encontram-se ainda mais<br />
fortes! Este borbulhante<br />
sem álcool é perfeito para<br />
as férias, ou para qualquer<br />
dia, na realidade.<br />
PERFIL<br />
Citrinos cor-de-laranja,<br />
ruibarbo e estragão<br />
ÁLCOOL<br />
Zero<br />
PREÇO<br />
10$<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
61
LITURGIA<br />
DO SILÊNCIO<br />
AUTOR<br />
Salvador<br />
Muchidão<br />
Editora<br />
Oleba<br />
O SILÊNCIO PREGADO<br />
as madrugadas ganhavam<br />
vida e o silêncio protagonizava<br />
desafios poéticos convidando<br />
o jovem escritor, Salvador<br />
Muchidão, a deixar-<br />
-se embalar pela calmaria<br />
daquele período do dia em<br />
que o sono se recusava a dele<br />
se aproximar.<br />
Em resposta ao convite poético,<br />
Muchidão não viu outra<br />
alternativa senão escrever…<br />
e escreveu… até dar vida<br />
à “Liturgia do Silêncio”,<br />
uma obra que reúne mais<br />
de 50 poemas que, de uma<br />
forma ensurdecedora, mostram<br />
a vivência do homem<br />
por meio de diferentes temáticas<br />
onde o sujeito poético<br />
dialoga com quatro entidades:<br />
Deus, a natureza,<br />
a mulher amada e a figura<br />
materna.<br />
“Liturgia é um conjunto de<br />
procedimentos pré-definidos<br />
para a celebração de um<br />
culto religioso. É um momento<br />
de contacto com o divino e,<br />
ao escolher o título “Liturgia<br />
do Silêncio”, quero fazer alu-<br />
EM RITUAL POÉTICO<br />
são ao momento em que estamos<br />
connosco mesmos fazendo<br />
grandes reflexões da<br />
nossa vida no silêncio da noite<br />
ou durante a madrugada”,<br />
disse.<br />
De “imortal” à “indiferença”,<br />
a cada página, “vivências”<br />
são partilhadas. Exemplo<br />
claro é o poema que deu<br />
título à obra, que fora escrito<br />
após o episódio de 29 de<br />
Julho de 2019, quando um homem<br />
cansado de acumular<br />
silêncios e procurando ser<br />
entendido sem sequer dizer<br />
uma palavra subiu ao topo<br />
da estátua da Praça dos Trabalhadores,<br />
localizada na<br />
baixa da Cidade de Maputo,<br />
acabando por preocupar<br />
a quem por lá passava, pois<br />
temia-se que este cometesse<br />
suicídio.<br />
“Aquele jovem concentrou<br />
uma multidão sem dizer<br />
uma palavra. Ele pregou em<br />
silêncio e despertou a cons-<br />
ciência sobre a atenção para<br />
os problemas da juventude.<br />
Foi uma verdadeira liturgia<br />
do silêncio”, acrescentou.<br />
Lançada a 12 de Fevereiro<br />
na cidade de Quelimane, terra<br />
natal de Salvador Murchidão,<br />
“Liturgia do Silêncio”<br />
é a primeira obra do escritor<br />
de 27 anos, que fez do isolamento<br />
de 2020 o momento<br />
ideal para deixar o silêncio<br />
falar através da arte que<br />
nele habita.<br />
“O ano de 2020 foi um ano em<br />
que tive um crescimento literário<br />
significativo. Aprendi<br />
a ter um grau de escrita<br />
mais exigente e procurei<br />
(e ainda procuro) aprender<br />
de escritores conceituados”,<br />
concluiu.<br />
Com a “Liturgia o Silêncio”, os<br />
amantes da literatura em<br />
versos podem ouvir o silêncio<br />
por meio de estrofes que<br />
embalam a quem se deixa<br />
contagiar pela magia da<br />
poesia.<br />
“LITURGIA DO SILÊNCIO” É A PRIMEIRA<br />
OBRA DO ESCRITOR DE 27 ANOS<br />
TEXTO YANA DE ALMEIDA<br />
FOTOGRAFIA MARIANO SILVA<br />
www.economiaemercado.co.mz | Março <strong>2021</strong><br />
63
HONDA<br />
LEGEND<br />
Tem um<br />
sistema<br />
“Traffic Jam<br />
Pilot”, que<br />
é capaz de<br />
controlar a<br />
travagem e<br />
aceleração<br />
v<br />
HONDA LANÇA O LEGEND,<br />
a honda apresentou no início<br />
de Março, no Japão, um<br />
Sedan Legend que integra<br />
condução autónoma parcial.<br />
A marca nipónica torna-se,<br />
assim, no primeiro<br />
fabricante automóvel a comercializar<br />
(apenas em leasing)<br />
um veículo equipado<br />
com tecnologia de automação<br />
de nível 3. Segundo a<br />
agência Reuters, apesar de<br />
arrecadar o título de ter sido<br />
a primeira a lançar um<br />
modelo com este tipo de tecnologia,<br />
a Honda vai lançar<br />
o Legend com um número limitado<br />
de apenas 100 unidades<br />
no Japão, e cada um destes<br />
veículos custará 11 milhões<br />
de ienes, ou seja, mais<br />
O PRIMEIRO AUTÓNOMO<br />
DE NÍVEL 3<br />
de 85 mil euros. O Legend<br />
está equipado com o sistema<br />
“Traffic Jam Pilot”, que<br />
tem a capacidade de controlar<br />
a aceleração, a travagem<br />
e o volante mediante<br />
determinadas condições.<br />
Em comunicado, a Honda diz<br />
que, com o sistema activado,<br />
o condutor pode mesmo<br />
ver um filme ou utilizar outras<br />
funcionalidades do sistema<br />
para ajudar a mitigar<br />
o stress numa situação de<br />
trânsito intenso. Um grande<br />
passo para eliminar os acidentes<br />
induzidos por erro<br />
humano, segundo afirmou<br />
Yoichi Sugimoto, engenheiro<br />
da Honda. Em condições<br />
muito específicas, com cruise<br />
control adaptativo (ACC)<br />
ligado e sistemas de seguimento<br />
de baixa velocidade<br />
e manutenção (LKAS) também<br />
em funcionamento, o<br />
Legend pode mesmo assumir<br />
o controlo da direcção<br />
e é capaz de ligar o pisca<br />
e mudar de faixa, embora<br />
ainda precise da confirmação<br />
do condutor de que o pode<br />
fazer em segurança.<br />
O LEGEND ESTÁ EQUIPADO COM O SISTEMA “TRAFFIC JAM PILOT”,<br />
QUE TEM A CAPACIDADE DE CONTROLAR A ACELERAÇÃO, A<br />
TRAVAGEM E O VOLANTE MEDIANTE DETERMINADAS CONDIÇÕES<br />
64<br />
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