SCMedia News | Revista | Maio 2021
A revista dos profissionais de logística e supply chain.
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<strong>Maio</strong> <strong>2021</strong><br />
4,60€<br />
Mensal<br />
22<br />
BOLLORÉ LOGISTICS<br />
AGILIDADE E<br />
RESILIÊNCIA<br />
AS NOVAS BUZZWORDS?<br />
DESCARBONIZAÇÃO:<br />
O FUTURO É JÁ<br />
DHL RESOURCE CENTER<br />
INOVAR NA FORMAÇÃO<br />
ZF Ponte de Lima<br />
“Queremos que o nosso produto<br />
funcione, mas de preferência<br />
que os clientes não o vejam”
SCM Supply Chain Magazine 3<br />
Dora Assis<br />
dora.assis@supplychainmagazine.pt<br />
EDITORIAL<br />
CHORAR OU VENDER LENÇOS?<br />
“Para chegar onde a maioria não chega, é preciso fazer algo que a maioria não faz.”<br />
Autor desconhecido<br />
Há sempre aqueles dias que parecem não ter<br />
fim, não é? Mas a verdade é que desde 2020<br />
praticamente tudo o que seria inimaginável<br />
tem acontecido na vida, nossa, das empresas<br />
e do planeta, com repercussões óbvias e<br />
também elas impensáveis nas cadeias de<br />
abastecimento.<br />
Pandemia, encerramento parcial da<br />
fábrica do mundo, disrupções várias, guerras<br />
comerciais, falta de contentores, escassez de<br />
matérias-primas, fenómenos naturais e até a<br />
um navio encalhado no Canal do Suez durante<br />
dias a fio tivemos direito! A Lei de Murphy não<br />
tem, de facto, conspirado a favor da logística e<br />
dos logísticos, provando-se que “Se algo pode<br />
correr mal, vai correr (mesmo) mal”.<br />
A crise provocada pela pandemia foi o<br />
“trigger” e uma das responsáveis por tudo<br />
o que se seguiu. Atrasos na produção,<br />
escassez de recursos humanos, demora nas<br />
entregas, congestionamento nos portos... e<br />
pelo subsequente aumento dos custos com<br />
transporte e logística a que temos vindo a<br />
assistir.<br />
E, de repente, tudo o que tínhamos como<br />
adquirido deixa de o ser.<br />
Planeamento? Tem sido, isso sim, um<br />
navegar à vista que obriga à tomada de<br />
decisões no momento, sob forte pressão, para<br />
encontrar uma solução viável e conseguir<br />
superar dificuldades que não estavam nos<br />
planos do mais prevenido dos gestores de<br />
logística.<br />
Toda esta volatilidade tem constituído um<br />
imenso desafio para quem se movimenta na<br />
supply chain, quer do lado dos fornecedores,<br />
quer do lado da procura.<br />
De repente, o just in time passou de<br />
herói a vilão da supply chain, cadeias de<br />
abastecimento longas começam a ser postas<br />
em causa; isto para não falar na crise dos<br />
chips, que são praticamente “o cérebro” das<br />
sociedades modernas e cuja falta é já uma dor<br />
de cabeça mundial.<br />
Enquanto questionamos o que é que<br />
desejavelmente deveria mudar no xadrez da<br />
economia mundial, é ponto assente que nada,<br />
na logística como na natureza, é linear ou<br />
simples.<br />
Por isso, a questão de fundo é mesmo saber<br />
como e onde queremos posicionar-nos. Vamos<br />
continuar a chorar ou vender lenços?<br />
Por vezes é no imprevisto e no improviso<br />
que o melhor de nós surge.
4<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
#14 #26 #38<br />
ÍNDICE<br />
FACTOS & NÚMEROS<br />
Top 25 da Gartner 6<br />
INTRALOGÍSTICA<br />
The wake-up call:<br />
Os requisitos para inovar<br />
no armazém 34<br />
LOGÍSTICA<br />
ZF Ponte de Lima 8<br />
Bolloré Logistics 14<br />
“O ultra-congelado<br />
é claramente o novo fresco” 20<br />
Parque Logístico Lisboa Park 22<br />
TECNOLOGIAS<br />
Construir uma supply chain<br />
à prova de pós-COVID-19 38<br />
A tecnologia na supply chain 44<br />
Intelligent procurement<br />
para a optimização das compras<br />
nas empresas 48<br />
PROCUREMENT<br />
Agilidade e Resiliência 26<br />
As compras nas empresas<br />
e a pandemia 30<br />
TRANSPORTES<br />
Entrevista a Álvaro Fonseca, Takargo 48<br />
Descarbonização: O futuro é já 54<br />
Carga Aérea 58
SCM Supply Chain Magazine 5<br />
CARREIRA<br />
Trabalho remoto - Parte 1 62<br />
DHL Resource Center 65<br />
Vontade de reinvenção 74<br />
DIÁRIO DE BORDO<br />
#58 #65<br />
Marco Morgado - Irá ser<br />
(mais) um novo recomeço.. 76<br />
O MUNDO É REDONDO<br />
TED Ideas worth spreading 2004,<br />
“Os hábitos da felicidade” 78<br />
FICHA TÉCNICA<br />
Sede, Administração e Redacção_<br />
Al. Júlio Dinis, n.º 68 – São Francisco<br />
2890-307 Alcochete<br />
T: 210 499 074<br />
Direcção Geral_<br />
Filipe Barros<br />
Directora_<br />
Dora Assis<br />
Redacção_<br />
Ana Paiva, Fábio Santos<br />
Projecto gráfico_<br />
Maria João Carvalho<br />
Paginação _<br />
Daniela Moço<br />
Events Support & Project Manager _<br />
Rita Pinto<br />
Direcção Comercial _<br />
Filipe Barros<br />
Sales & Marketing _<br />
Margarida Matildes<br />
Impressão _<br />
VASP DPS<br />
MLP – Quinta do Grajal,<br />
Venda Seca<br />
2739-511 Agualva Cacém<br />
Tiragem _<br />
3 mil exemplares<br />
Propriedade_<br />
SC Media Unipessoal, Lda.<br />
Al. Júlio Dinis, n.º 68 – São Francisco<br />
2890-307 Alcochete<br />
T: 210 499 074<br />
E: geral@supplychainmagazine.pt<br />
W: supplychainmagazine.pt<br />
NPC _<br />
514707143<br />
Capital Social_<br />
100,00€<br />
Participações sociais_<br />
Susana Silva<br />
Administração_<br />
Filipe Barros<br />
Registo na ERC n.º _<br />
127322<br />
Depósito Legal n.º _<br />
458604/19<br />
Os artigos assinados apenas veiculam<br />
a posição dos seus autores.<br />
Interdita a reprodução de textos e<br />
imagens sem autorização expressa.<br />
Esta revista é escrita respeitando a grafia<br />
anterior ao novo Acordo Ortográfico
6 MAIO <strong>2021</strong><br />
FACTOS<br />
& NÚMEROS<br />
Top 25 da Gartner<br />
As melhores 25<br />
supply ChAins de <strong>2021</strong><br />
A<br />
Gartner lançou o seu Top 25 das Supply<br />
Chains, que partilha anualmente, e tal<br />
como no ano passado, devido à pandemia,<br />
o evento em que as apresentou foi online, em<br />
formato webinar.<br />
Mais uma vez não se deram subidas à<br />
categoria Master, que permanece com as<br />
empresas Amazon, Apple, P&G, McDonald’s e<br />
Unilever. Para se atingir este nível no ranking<br />
é necessário estar presente no top 5 por sete<br />
vezes nos últimos 10 anos.<br />
Relativamente ao top 5, face ao ano passado<br />
não se verificaram alterações, permanecendo<br />
na liderança as empresas Cisco Systems,<br />
Colgate-Palmolive, Johnson & Johnson,<br />
Schneider Electric e Nestlé, por esta ordem.<br />
Destacam-se ainda as subidas das empresas<br />
Intel, Walmart, L’Oréal, AbbVie, Nike e British<br />
American Tobacco, e o surgimento de novas<br />
face ao ano passado: Dell Technologies, Pfizer,<br />
General Mills e Bristol Myers Squibb, sendo<br />
que as três últimas chegaram ao top 25 pela<br />
primeira vez. •<br />
CATeGoriA mAsTer<br />
1 2<br />
3<br />
4<br />
5<br />
6 7<br />
8<br />
9<br />
10<br />
11 12<br />
13<br />
14<br />
15<br />
16 17<br />
18<br />
19<br />
20<br />
21<br />
22<br />
23<br />
24 25<br />
Top 25
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8<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
LOGÍSTICA<br />
ZF<br />
Texto: Fábio Santos<br />
Fotos: ZF / Daniela Moço<br />
“Queremos Que o nosso produTo<br />
funCione, mAs de preferênCiA Que os<br />
nossos ClienTes não o vejAm”<br />
A ZF, uma das maiores produtoras mundiais<br />
de peças do sector automóvel, investiu<br />
recentemente 5,8 milhões de euros num novo<br />
centro logístico em Ponte de Lima, inaugurado<br />
no ano passado, e que se encontra a dar<br />
suporte às duas fábricas que têm na região.<br />
A convite da ZF fomos até Ponte de Lima<br />
conhecer esta nova unidade de 9.000 metros<br />
quadrados e 11 cais de carga.<br />
Em Portugal, as fábricas da ZF dedicam-se<br />
à produção de sacos de airbag, módulos<br />
de airbag e volantes de direcção, as<br />
duas primeiras em Ponte de Lima e a outra<br />
em Vila Nova de Cerveira. Com a criação<br />
desta nova unidade com capacidade para<br />
4.000 paletes e 2.300 metros quadrados de<br />
contentores, dedicada à armazenagem destes<br />
sacos e módulos de airbags, José Castro,<br />
administrador da ZF – Ponte de Lima, explica<br />
que o que os levou a investir neste novo<br />
centro foi a “visão estratégica do aumento de<br />
volume de negócios, com vista a aumentar a<br />
capacidade produtiva em Ponte de Lima”.
SCM Supply Chain Magazine 9<br />
A estratégia inicial previa como maiores<br />
eficiências conquistadas a melhoria da<br />
eficiência operacional e ambiental, ao<br />
reduzirem a distância de 54 para 11<br />
quilómetros, a redução de custos de<br />
armazenagem e trabalho operacional, através<br />
da subcontratação, e uma optimização dos<br />
recursos internos da empresa.<br />
O responsável também explica que para<br />
a ZF este novo centro logístico é uma<br />
“oportunidade de destaque dentro da<br />
organização com condições operacionais e<br />
de infra-estrutura, que de um ponto de vista<br />
estratégico podem trazer mais trabalho (novos<br />
projectos) para Ponte de Lima”, e explica-nos<br />
os processos.<br />
o iníCio dAs operAções<br />
Tudo começa com a recepção dos pedidos<br />
dos clientes, com cerca de três meses de<br />
antecedência, com actualizações diárias e<br />
semanais para os envios. Estes pedidos são<br />
processados em SAP, garantindo uma visão<br />
de planeamento a curto e longo prazo. Após<br />
a preparação do planeamento de produção,<br />
enviam as suas encomendas para os seus<br />
fornecedores por EDI, com as quantidades<br />
necessárias tanto a curto como a longo prazo.<br />
“Diariamente é feito um acompanhamento<br />
do planeamento de produção, do nível de<br />
inventário e dos envios a cliente”, explica José<br />
Castro.<br />
Em média carrEgamos cErca<br />
dE 500 volumEs (palETEs/<br />
conTEnTorEs) para diFErEnTEs<br />
dEsTinos, E rEcEbEmos cErca dE<br />
200 palETEs dE maTéria-prima,<br />
corrEspondEndo a um movimEnTo<br />
dE 40 camiõEs diariamEnTE<br />
José Castro, administrador<br />
ZF - Ponte de Lima<br />
A preparação dos envios é feita no dia<br />
anterior. Têm clientes que fazem as recolhas<br />
diariamente e em Just In Time, mas também<br />
contam com outros que recolhem uma a<br />
três vezes por semana. “Os transportes<br />
são geralmente em EXW, portanto, da<br />
responsabilidade do cliente, com horários<br />
definidos para as recolhas”, explica José<br />
Castro, sendo que após a recolha os clientes<br />
são informados via ASN das mercadorias<br />
enviadas. “Em média carregamos cerca de<br />
500 volumes (paletes/contentores) para<br />
diferentes destinos, e recebemos cerca de 200<br />
paletes de matéria-prima, correspondendo a<br />
um movimento de 40 camiões diariamente”,<br />
comenta ainda o responsável.
10<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
um novo espAço<br />
O novo espaço veio ajudar a optimizar<br />
estas operações, mantendo os materiais<br />
próximos dos espaços de produção da região,<br />
e passando também para ali o processo de<br />
recepção e armazenamento de contentores,<br />
fazendo 2.400 movimentos diários no espaço.<br />
As matérias-primas armazenadas vão saindo<br />
para a Safebag conforme os pedidos de<br />
encomenda, uma visível melhoria face à<br />
realidade anterior, pois até à construção deste<br />
edifício as matérias-primas vinham de Caleido,<br />
em Espanha. Estes pedidos são feitos por<br />
turnos e paletes, e para os transportar têm 10<br />
camiões internos dedicados a fazer a travessia<br />
Gemieira – Safelife – Fornelos, sendo feitas<br />
11.000 entradas e 11.000 saídas semanais<br />
entre as três unidades, contando ainda com<br />
dashboards para controlar as recepções e<br />
envios.<br />
Ao nível das exportações, dependem<br />
maioritariamente do transporte marítimo,<br />
também este organizado pelo cliente,<br />
podendo pontualmente ocorrer algum caso<br />
de transporte aéreo. “A nível nacional e outros<br />
países da Europa exportamos os materiais por<br />
via terrestre, por camião, seja FTL ou LTL”,<br />
explica José Castro.<br />
o nosso objEcTivo é sEmprE cumprir<br />
à primEira com o nosso cliEnTE,<br />
FazEndo bEm à primEira<br />
sAfelife<br />
José Castro, administrador<br />
ZF - Ponte de Lima<br />
A primeira fábrica que visitámos, a Safelife,<br />
já tem duas décadas, e é onde fabricam o<br />
interior dos airbags. O processo aqui começa<br />
pela compra de rolos de tecido e de todos os<br />
componentes necessários para costurar os<br />
airbags.<br />
O espaço divide-se em três processos:<br />
recobrimento, onde se recobre o tecido com<br />
silicone para que proteja o condutor e aguente<br />
o impacto térmico no momento da abertura;<br />
corte, onde são cortadas em várias camadas as<br />
peças para fazer o saco airbag; costura, onde<br />
o saco airbag é construído pela costura dos<br />
vários painéis e reforços.<br />
Finalmente todos os sacos são passados por<br />
um detector de metais para que se garanta a<br />
inexistência de partículas metálicas dentro
SCM Supply Chain Magazine 11<br />
dos mesmos, que seriam problemáticas no<br />
momento de abertura do módulo airbag.<br />
Neste momento, e devido à situação<br />
pandémica, existe ainda um processo de corte/<br />
costura de máscaras de protecção que garante<br />
a auto-suficiência e a segurança de todos os<br />
colaboradores.<br />
Em todos estes processos mantem-se a<br />
rotação de pessoas nos postos de trabalho de<br />
forma a que a repetição das acções de cada<br />
operador seja quebrada, evitando o risco de<br />
doenças de trabalho.<br />
José Castro comenta que “o nosso objectivo<br />
é sempre cumprir à primeira com o nosso<br />
cliente, fazendo bem à primeira”, e como tal o<br />
planeamento é feito para que tudo corra bem<br />
desde o primeiro momento.<br />
sAfebAG<br />
A outra unidade de produção da região é a<br />
Safebag, e destina-se à montagem de módulos<br />
de airbags, tendo sido criada quatro anos<br />
depois da Safelife. Estão a procurar reduzir<br />
o espaço de armazenagem neste local, e a<br />
criação da nova unidade de armazenagem<br />
veio ajudar nesse sentido, minimizando a<br />
armazenagem de que dispõem na fábrica.<br />
Nesta unidade fabril, são recepcionadas<br />
apenas alguns componentes de diferentes<br />
fornecedores, sendo os geradores um deles.<br />
Os geradores é o único tipo de material<br />
que pretendem recepcionar no futuro neste<br />
armazém devido ao volume de movimentos e<br />
tipo de material. Os geradores são fornecidos<br />
por outras unidades ZF, recepcionados e<br />
armazenados na Safebag e, reembalados com<br />
uma máquina para quantidades pequenas e<br />
colocados em supermercado. Sempre que é<br />
gerada uma necessidade Kanban o armazém<br />
fornece a linha de produção e ao consumir<br />
o último rolo de material disponível em<br />
supermercado é gerada nova necessidade de<br />
reembalar e abastecer o supermercado.<br />
Para o transporte em fábrica, tanto a<br />
Safelife como a Safebag contam ainda com<br />
comboios logísticos automáticos, e que fazem<br />
o percurso de recolha dentro dos respectivos<br />
espaços. Ainda ao nível da automação, a<br />
ZF também está a investir em robôs para<br />
processos repetitivos e menos complexos.<br />
Neste espaço, existe o processo de<br />
montagem do módulo airbag, onde os<br />
sacos produzidos na SafeLife, e não só, são<br />
montados nas carcaças (tampas) que se vê<br />
nos volantes e tabliês dos automóveis, bem<br />
como nos embutidos nos assentos, pilares<br />
e tectos dos mesmos, para serem enviados<br />
directamente às linhas de produção de<br />
automóveis, ou a empresas de pré-montagem.<br />
Neste processo é aplicado o mesmo<br />
procedimento de rotação de operários.<br />
Entre os muitos controlos de qualidade<br />
durante este processo, antes do envio<br />
ao cliente fazem-se rebentamentos em<br />
laboratório dos lotes produzidos de forma a<br />
garantir o bom funcionamento dos módulos.
12<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
umA pAndemiA de pAssAGem<br />
Com o anúncio da pandemia, houve uma<br />
grande instabilidade no mercado automóvel.<br />
Ora se dava uma paragem abrupta ora<br />
mais tarde um recomeço repentino e com<br />
um grande número de encomendas. 2020<br />
foi um ano complicado, que “veio provocar<br />
quedas no volume de vendas previsto”, e que<br />
trouxe novos desafios, mas apesar de tudo,<br />
“temos conseguido sempre corresponder às<br />
expectativas dos nossos clientes, fazendo os<br />
ajustes necessários”, comenta José Castro.<br />
Em <strong>2021</strong> deu-se uma nova crise, agora<br />
ao nível dos microchips, “que apesar de<br />
não afectar a produção de Ponte de Lima<br />
directamente, acaba por nos afectar<br />
indirectamente”, avança o responsável, “temos<br />
de nos ajustar face ao que o mercado permite<br />
comercializar”.<br />
“Outras crises começam a ter força a nível<br />
mundial, como o caso dos químicos e do<br />
aço, para as quais temos de estar atentos, e<br />
sobretudo reagir atempadamente”, antecipa<br />
ainda o administrador, “as crises emergentes<br />
como semicondutores, químicos ou<br />
metalúrgicos, trazem-nos o grande desafio de<br />
manter a cadeia de abastecimento a funcionar<br />
sem quebras/falhas. Será (é) necessário que<br />
o tempo de reacção seja curto/rápido, para<br />
manter os processos a funcionar e ao mesmo<br />
tempo flexibilizar o material e evitar os<br />
excessos de inventários”.<br />
na zF, aTé 2040, quErEmos sEr<br />
nEuTros no impacTo do clima<br />
visibilidAde dA CAdeiA<br />
De forma a conseguirem agir e antecipar<br />
crises, contam com as Tecnologias de<br />
Informação (TI) para lhes trazerem uma<br />
visibilidade em tempo real da situação,<br />
permitindo-lhes controlar a cada minuto<br />
que passa, por exemplo, “a nível de stock,<br />
pedidos de clientes ou acompanhamento<br />
geral de todos os pontos afectos à cadeia de<br />
abastecimento”.<br />
Para além disso, defende que as TI vieram<br />
“revolucionar uma outra forma de trabalho,<br />
não só para a logística como para todos os<br />
departamentos. É importante conseguirmos<br />
fazer todo o nosso trabalho estando<br />
fisicamente e longe, e fazê-lo com qualidade<br />
e mantendo as expectativas de gestão interna<br />
e externa”.<br />
por umA CAdeiA mAis<br />
susTenTável<br />
“Na ZF, até 2040, queremos ser neutros no<br />
impacto do clima”, afirma José Castro, e para<br />
que isso aconteça “pensamos activamente<br />
em maneiras de melhorar a sustentabilidade<br />
e descarbonizar dentro do nosso escopo de<br />
responsabilidade”.<br />
Passaram a controlar melhor os custos<br />
e reduzir as distâncias entre armazéns<br />
de logística e as fábricas, optimizando os<br />
milk-runs entre estas e os milk-runs de<br />
fornecedores. Exemplo disso, explica, é<br />
o caso do investimento que estão a fazer<br />
com os fornecedores, envolvendo o uso de<br />
embalagens retornáveis, evitando ao mesmo<br />
tempo o transporte de caixas vazias.<br />
José Castro, administrador<br />
ZF - Ponte de Lima
SCM Supply Chain Magazine 13<br />
é imporTanTE consEguirmos<br />
FazEr Todo o nosso<br />
Trabalho EsTando<br />
FisicamEnTE E longE, E<br />
Fazê-lo com qualidadE E<br />
manTEndo as ExpEcTaTivas<br />
dE gEsTão inTErna E<br />
ExTErna<br />
José Castro, administrador<br />
ZF - Ponte de Lima<br />
Estão ainda a rentabilizar os espaços<br />
disponíveis, por exemplo, com a minimalização<br />
dos espaços de armazenagem em fábrica,<br />
agora optimizados com o novo armazém de<br />
proximidade, podem “receber novos projectos<br />
e alugar o espaço para outras fábricas da ZF”,<br />
explica o administrador.<br />
Ao nível dos processos de negócio da ZF<br />
também procuraram optimizar os transportes,<br />
vender e reutilizar materiais como paletes<br />
de madeira ou reduzindo o uso de caixas<br />
de cartão. “Em Ponte de Lima estamos a<br />
contribuir para atingir estes ambiciosos<br />
objectivos”, conclui José Castro. •<br />
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A pallet is red, red is a pallet
14<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
LOGÍSTICA<br />
Bolloré Logistics<br />
“são As pessoAs<br />
Que ACresCenTAm<br />
vAlor à empresA<br />
e Ao seCTor”<br />
Por detrás da máscara, percebe-se o sorriso<br />
nos olhos e na voz que nos cumprimenta e dá<br />
as boas-vindas. Estamos no Paço do Lumiar,<br />
às portas de Lisboa e o nosso interlocutor é<br />
um homem que trocou uns costumeiros dias<br />
de férias em Portugal por uma vida aqui a<br />
tempo inteiro. É Roméo da Silva, o novo CEO da<br />
Bolloré Logistics Portugal.<br />
Texto: Dora Assis<br />
De pé, mãos apoiadas nas costas da cadeira,<br />
a silhueta recortada pela luz tímida de uma<br />
manhã que se esperava de sol e uma mesa<br />
de reuniões assegurando o distanciamento<br />
social. E também a única barreira entre nós,<br />
já que apesar do “accent” e de ainda pensar<br />
muitas vezes em francês, o português de<br />
Roméo da Silva é excelente. E a conversa<br />
também foi.<br />
Temos que começar por falar do que<br />
é a Bolloré Logistics em Portugal, já que<br />
raramente aparecem ou dão entrevistas. Como<br />
se posicionam, quais são os grandes desafios,<br />
investimentos realizados e os que estão<br />
previstos, para apoiar a vossa estratégia de<br />
crescimento em Portugal?<br />
Roméo da Silva > A Bolloré Logistics Portugal<br />
é parte integrante do Grupo Bolloré, um grupo<br />
francês, familiar, que está presente em 107<br />
países, com mais de 20 mil funcionários a nível<br />
mundial, com 2 milhões de metros quadrados<br />
de espaço logístico, movimentando 690 mil<br />
toneladas de frete aéreo por ano e 837 mil<br />
TEU’s por ano. Penso que estes números dão<br />
uma ideia do que é o grupo e a sua presença<br />
no universo da logística a nível mundial!<br />
Em Portugal, estamos estrategicamente<br />
localizados no norte, no Porto, e a sul
SCM Supply Chain Magazine 15<br />
em Lisboa, aqui, onde estamos, perto do<br />
Lumiar, uma localização estrategicamente<br />
escolhida, pois poderíamos estar fora de<br />
Lisboa mas realmente os 2.400 metros<br />
quadrados de armazenagem que aqui temos<br />
são estratégicos para nós; além de termos<br />
também instalações no aeroporto de Lisboa.<br />
Contamos actualmente com uma equipa<br />
composta por 94 pessoas nas três localizações<br />
e as actividades principais da empresa em<br />
Portugal - que têm um bom equilíbrio entre si<br />
- estão ligadas ao marítimo, aéreo, rodoviário<br />
e à logística.<br />
Em termos de desafios, nomeadamente<br />
desde 2020, o COVID-19 e o impacto<br />
importante nas capacidades aéreas e na<br />
supply chain marítima - que também foi<br />
afectada pela situação dos contentores que<br />
todos conhecemos, pelos altos níveis do custo<br />
dos fretes, pelos atrasos desencadeados<br />
pelo sucedido no Canal do Suez trouxeram<br />
uma certa instabilidade à supply chain dos<br />
nossos clientes - têm representado os maiores<br />
desafios da nossa actividade. Mas, perante<br />
tudo isto, a nossa empresa não necessitou<br />
improvisar pois, de facto, o envolvimento e<br />
resiliência não se iniciam durante uma crise.<br />
São isso, sim, o resultado de uma estratégia do<br />
management do Grupo Bolloré, que já estava<br />
bem estabelecida e que as nossas equipas têm<br />
mantido.<br />
A supply chain e os serviços logísticos<br />
associados não funcionam sem flexibilidade<br />
obviamente; sem disponibilidade; sem<br />
uma organização ágil e o know-how das<br />
nossas equipas. Sabe, a qualidade de<br />
serviço e de excelência operacional sempre<br />
foram objectivos do grupo e da Bolloré<br />
Logistics Portugal, muito graças às pessoas<br />
que compõem as nossas equipas e que<br />
acrescentam valor ao nosso serviço.<br />
E em termos de dificuldades sentidas?<br />
> Não vou falar de dificuldades ligadas ao<br />
mercado, mas sim de uma preocupação<br />
de todos os instantes, minha e nossa no<br />
grupo, que é a de conservar uma equipa<br />
experiente, flexível e que faça a diferença<br />
na nossa indústria. Identificámos há muitos<br />
anos, claramente, que são as pessoas<br />
que acrescentam valor à empresa e ao<br />
sector. Podemos ser óptimos em termos<br />
de digitalização, mas se o know-how e<br />
flexibilidade das equipas não estiver presente<br />
na empresa, de nada serve a digitalização.<br />
Obviamente que a digitalização é importante,<br />
mas são as pessoas que fazem a diferença. A<br />
tecnologia e a digitalização são fundamentais<br />
para proporcionar visibilidade e organizar a<br />
supply chain mas sem equipas competentes,<br />
disponíveis e flexíveis nada acontecerá. E,<br />
neste campo, gostaria de salientar que a<br />
Bolloré Logistics Portugal tem uma grande<br />
capacidade de retenção de talentos. As nossas<br />
equipas ficam por muitos anos na empresa,<br />
mais de 10 anos, e obviamente que essa é<br />
uma estratégia que quero prosseguir, com os<br />
nossos funcionários actuais e futuros. Para<br />
isso é fundamental que tenham perspectivas,<br />
bom ambiente de trabalho, condições de<br />
trabalho de qualidade, flexibilidade e, muito<br />
importante para mim, fácil acesso a todos os<br />
níveis de gestão da empresa, onde obviamente<br />
me incluo. Quando se reúnem estas condições,<br />
facilitamos e promovemos as interacções e<br />
quem ganha são obviamente os clientes. Por<br />
um lado, satisfazendo-os e, por outro, mais<br />
facilmente encontramos novas soluções.<br />
Penso que é muito importante criar condições<br />
para que se estabeleça um saudável equilíbrio<br />
entre vida pessoal e profissional, pois a<br />
logística é muito absorvente e os desafios são<br />
constantes.
16<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
Quanto a<br />
investimentos, o que é<br />
que está previsto?<br />
> O grupo continua<br />
a investir, em<br />
primeiro lugar nas<br />
nossas equipas, mas também nos sistemas<br />
de informação, através de um processo de<br />
renovação do nosso sistema informático. O<br />
e-commerce mostrou a importância do fluxo<br />
de informação tanto quanto do fluxo físico,<br />
pelo que o Grupo Bolloré está a implementar<br />
a nível mundial o CargoWise, da WiseTech<br />
Global, que irá substituir o nosso TMS,<br />
oferecendo maior visibilidade aos nossos<br />
clientes, quaisquer que sejam os seus volumes.<br />
Além disso, acabámos de aumentar a nossa<br />
presença nos países nórdicos com a aquisição<br />
de uma posição maioritária na empresa sueca<br />
Global Freight Solutions e a sua filial na<br />
Dinamarca. Como comecei por dizer, o grupo<br />
é um grupo familiar, com grande estabilidade<br />
financeira, e apesar de obviamente ter<br />
grandes ambições para o futuro e para os<br />
próximos anos terá, como habitualmente,<br />
muita precaução nos seus investimentos<br />
estratégicos.<br />
No que diz respeito à vossa actividade em<br />
Portugal, por onde passa a vossa estratégia de<br />
crescimento? Há segmentos de mercado que<br />
consideram “core business”?<br />
> A Bolloré Logistics Portugal beneficia<br />
de uma forte especialização na indústria<br />
aeronáutica e aeroespacial, de defesa,<br />
vestuário e calçado, cuidados de saúde,<br />
projectos industriais, telecomunicações e<br />
indústria alimentar e a nossa estratégia focase<br />
nestas indústrias.<br />
a supply chain E os sErviços logísTicos associados não<br />
Funcionam sEm FlExibilidadE; sEm disponibilidadE; sEm<br />
uma organização ágil E o know-how das nossas Equipas<br />
Roméo da Silva<br />
Mesmo em Portugal?<br />
> Isto é em Portugal! Se eu estivesse a falar<br />
a nível global teria incluído, por exemplo, o<br />
automotive. As que mencionei são de facto as<br />
nossas áreas de especialização no mercado<br />
português. A flexibilidade faz parte do ADN<br />
do nosso grupo. Exemplo disso mesmo é, por<br />
exemplo, o serviço rodoviário de grupagem<br />
exportação e importação para o “United<br />
Kingdom”, que operamos com sucesso,<br />
particularmente, ou ainda mais, desde o<br />
Brexit. Vamos abrir outras linhas, como<br />
Marrocos e, mais uma vez, o nosso armazém<br />
estrategicamente localizado perto de<br />
Lisboa, tem óptimas condições para soluções<br />
logísticas e, não menos importante, é a sua<br />
ligação estratégica associada a 100% ao nosso<br />
objectivo de redução das emissões de CO2 a<br />
nível mundial, que nos valeu recentemente a<br />
medalha de ouro da EcoVadis.<br />
A Bolloré Logistics está presente nos<br />
mercados do mundo lusófono mas também<br />
nos outros mercados de países africanos - o<br />
que é, realmente e historicamente, a grande<br />
força do nosso grupo -, não obstante também<br />
estarmos na Ásia, nas Américas e obviamente<br />
na Europa, oferecendo um serviço door-todoor,<br />
dentro da nossa rede própria. Ou seja,<br />
em África, não é um agente externo, é uma<br />
pessoa Bolloré Logistics, é um colega nosso<br />
que vai tratar de tudo no destino e isso é<br />
muito importante para facilitar o fluxo da<br />
supply chain.
SCM Supply Chain Magazine 17<br />
Outsourcing Logístico<br />
Serviços<br />
Descarga e receção de mercadorias Conferência e arrumação Manipulações e<br />
Recondicionamento Etiquetagem Co-packing Kitting Picking e Embalamento<br />
Cross-docking Carregamento e Expedição de Mercadorias Carga e Descarga de Contentores<br />
Operações “One-shot” (campanhas) Controlo de Qualidade Realização de inventários<br />
Gestão de Devoluções Controlo e Manutenção de Suportes de Manuseamento<br />
Tratamento de Vasilhame e Resíduos<br />
Um grande grupo.<br />
www.grupoconstant.com
18<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
E, obrigatoriamente, temos que falar da<br />
pandemia. Como é que a sentiram e viveram<br />
na vossa actividade e na dos clientes?<br />
Provavelmente com desaceleração nuns<br />
sectores, por oposição a outros que não<br />
pararam…<br />
> O facto das lojas terem fechado<br />
repentinamente e existirem elevados stocks<br />
de mercadoria fez com que no primeiro<br />
semestre de 2020 as importações marítimas<br />
baixassem em termos de volume, de maneira<br />
drástica no primeiro semestre de 2020,<br />
situação que ainda com algumas oscilações<br />
se manteve até <strong>2021</strong>. Em contrapartida,<br />
alguns dos nossos clientes necessitaram de<br />
muito mais capacidade aérea, nomeadamente<br />
os que actuam no sector farmacêutico e de<br />
cuidados de saúde, bem como no sector dos<br />
equipamentos de protecção individual, como<br />
as máscaras e afins. E o nosso grupo, Bolloré<br />
Logistics Portugal incluída, demonstrou ser<br />
uma organização resiliente. Encontrámos<br />
soluções para os nossos clientes oferecendolhes<br />
a continuidade operacional, que<br />
era obviamente fundamental, e também<br />
preservando a saúde dos membros das<br />
nossas equipas com medidas sanitárias<br />
adequadas, definidas a nível global, ainda<br />
que depois alinhadas localmente em função<br />
das leis, obviamente. Portanto, eu diria que<br />
soubemos adaptar-nos às alterações sentidas<br />
pelo lado da oferta e inovar, tanto no que<br />
diz respeito ao marítimo como em encontrar<br />
rapidamente capacidades aéreas - o que se<br />
revelou fundamental - e num tempo recorde!<br />
Realizámos grandes investimentos nos nossos<br />
hubs e capacidades aéreas e, mais uma vez,<br />
num tempo recorde. Estou a pensar, por<br />
exemplo, no caso do Luxemburgo, oferecendo<br />
a capacidade necessária face a estas<br />
modificações de oferta. Ou seja, decidimos<br />
investir realmente, contratar espaço, para<br />
termos backups e a capacidade de responder<br />
aos nossos clientes.<br />
Quanto ao Brexit, como se prepararam e<br />
que reflexos têm sentido?<br />
> Bem, a verdade é que já estávamos<br />
preparados para o Brexit e o nosso serviço<br />
rodoviário de grupagem in-out UK já existia.<br />
A flexibilidade que soubemos proporcionar<br />
ao mercado tem sido um óptimo exemplo e<br />
é um serviço que neste momento funciona<br />
muitíssimo bem.<br />
E a crise que a falta de contentores está a<br />
desencadear, como vê a situação?<br />
> É um cenário inédito. Eu diria que neste<br />
último ano tudo aquilo que era impensável<br />
acabou por acontecer às cadeias de<br />
abastecimento. A pandemia, a falta de<br />
contentores, mais recentemente o caso do<br />
navio encalhado no Canal do Suez… a nossa<br />
indústria nunca pensou passar por momentos<br />
como estes que se têm vivido. Ainda menos<br />
com os investimentos gigantescos que as<br />
companhias marítimas têm vindo a fazer de há<br />
uns anos a esta parte em navios de 20 mil TEU<br />
de capacidade. Era impensável o que se tem<br />
vivido!<br />
Mas, uma vez mais, a resiliência das<br />
nossas equipas, o conhecimento dos actores<br />
do mercado, a nossa posição global com o<br />
volume que movimentamos globalmente, 837<br />
mil TEU/ano, e a nossa devida organização<br />
permitiu, e permite-nos, encontrar soluções<br />
para os nossos clientes, com soluções de<br />
backup, que identificámos e que temos ao<br />
dispor. Ainda assim, e fechando este tópico,<br />
reconheço que era uma situação inimaginável<br />
e totalmente impensável. Por exemplo, quem<br />
diria que esta imensidão de contentores
SCM Supply Chain Magazine 19<br />
ficaria bloqueada nos Estados Unidos por não<br />
haver ninguém para descarregar os mesmos?!<br />
É impensável. Mesmo com planos de<br />
contingência, fomos todos colocados perante<br />
cenários que não eram equacionáveis.<br />
Face a este passado recente, ou ainda tão<br />
presente, o que é que acha que pode mudar ou<br />
deveria mudar nas cadeias de abastecimento?<br />
> Apesar de tudo, eu acho que a globalização<br />
não vai modificar-se a curto prazo. Existem<br />
temas de importância central, como a<br />
capacidade de produção da China - que<br />
ninguém pode discutir - e, obviamente, a<br />
competitividade dessa mesma produção. Este<br />
é um ponto central, embora já tenhamos<br />
notado que alguns actores industriais e do<br />
retalho identificaram durante este período o<br />
perigo que constitui para as suas cadeias de<br />
abastecimento um sourcing único, asiático, e<br />
é provável que no futuro, ou no médio prazo,<br />
aconteça uma reflexão por parte destes<br />
actores sobre a relocalização regional desse<br />
mesmo sourcing. Mas levará tempo. São<br />
muitas as indústrias dependentes dos países<br />
asiáticos e eu, pessoalmente, não vejo que no<br />
curto prazo se consiga alterar esta realidade.<br />
É um facto que alguns actores no período de<br />
pandemia alguns actores reconfiguraram as<br />
suas cadeias de produção, nomeadamente no<br />
sector têxtil, vindo para Portugal e até para<br />
Marrocos mas, por enquanto, ainda é uma gota<br />
de água.<br />
a rEsiliência das nossas Equipas,<br />
o conhEcimEnTo dos acTorEs do<br />
mErcado, a nossa posição global<br />
com o volumE quE movimEnTamos,<br />
837 mil TEu/ano, E a nossa dEvida<br />
organização pErmiTiu, E pErmiTE-nos,<br />
EnconTrar soluçõEs para os nossos<br />
cliEnTEs<br />
Roméo da Silva<br />
Como vê o cenário, no vosso caso em<br />
concreto, para os próximos tempos?<br />
> Voltando ao princípio, eu salientaria<br />
que a Bolloré Logistics é um grupo muito<br />
importante, com uma estratégia e organização<br />
muito bem definidas no que diz respeito<br />
ao desenvolvimento nos próximos anos,<br />
desenvolvimento esse que já acontece há<br />
algum tempo e que vai prosseguir, pois<br />
temos ambições. Pessoalmente aceitei o<br />
cargo enquanto CEO da Bolloré Logistics<br />
Portugal porque acho que ainda não<br />
temos no mercado nacional a posição que<br />
deveríamos ter face à qualidade operacional<br />
e humana da nossa equipa. E que merece ser<br />
conhecida! A disponibilidade, flexibilidade e<br />
profissionalismo das nossas pessoas é algo<br />
que os nossos clientes observam todos os<br />
dias e o meu objectivo passa por, por um<br />
lado, manter os nossos clientes em casa,<br />
mas também por desenvolver o negócio em<br />
Portugal e atingir o que realmente podemos<br />
proporcionar em termos de desenvolvimento<br />
no grupo. •
20<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
LOGÍSTICA<br />
Uma nova aposta<br />
impulsionada pela<br />
pandemia<br />
“o<br />
ulTrA-ConGelAdo<br />
é ClArAmenTe<br />
o novo fresCo”<br />
Fazer pão em casa foi uma das tendências que<br />
marcaram o início da pandemia em Portugal,<br />
bastou ver-se pela falta de fermento nas<br />
prateleiras dos supermercados. Tornámo-<br />
-nos verdadeiros padeiros a fazer pão, desde<br />
a confecção da massa até ao momento de a<br />
colocar no forno. A Panidor esteve atenta a esta<br />
tendência e decidiu facilitar a tarefa dos novos<br />
padeiros e pasteleiros: vender pão e pastelaria<br />
uơlňtƙrƄacýoŝnœgĤeċlňadĄa aoŝ cýoŝnœsƌuơmőiİdĄoŝrƄ fiǟnœalň.<br />
Texto: Ana Paiva<br />
Fotos: Panidor<br />
Os resultados da Panidor sofreram um<br />
grande abalo com a pandemia, dado que<br />
mais de 10% do seu negócio se destina<br />
a hotelaria, o turismo foi um dos sectores<br />
afectados pela crise. Mesmo o açambarque<br />
dos supermercados não resolveu o problema,<br />
apesar de a empresa ser a fornecedora de pão<br />
de muitas cadeias de retalho alimentar. Face<br />
a estas dificuldades, a Panidor viu mais além,<br />
e apostou num segmento que fez sucesso<br />
durante os meses mais duros da pandemia: a<br />
venda de congelados. Desta forma, tomaram a<br />
decisão estratégica de vender pão e pastelaria<br />
ultracongelada directamente ao consumidor<br />
final. “Habitualmente vendidos para serem<br />
terminados no ponto de venda pelas insígnias,<br />
o ponto frio é um conceito pensado para<br />
oferecer conveniência ao comercializar<br />
produtos congelados, a serem terminados
SCM Supply Chain Magazine 21<br />
em casa pelo consumidor”, explica-nos Marta<br />
Casimiro, administradora e responsável de<br />
inovação da Panidor.<br />
“A pandemia trouxe consigo profundas<br />
alterações de consumo, que levam as pessoas<br />
menos vezes aos supermercados. O ponto<br />
quente acaba por sentir esta alteração, uma<br />
vez que os produtos vendidos acabados de<br />
cozer têm também um prazo de consumo<br />
mais curto. Desta forma, os consumidores têm<br />
vindo a procurar produtos ultracongelados,<br />
de forma a terminar a sua confecção em casa<br />
e reduzir assim deslocações, desperdício, e<br />
permitir ter produtos frescos todos os dias, a<br />
qualquer hora”, afirma a responsável.<br />
A produção da Panidor inclui uma cozedura<br />
inicial de 70% no caso da padaria, seguida<br />
de um processo de ultra-congelação que,<br />
segundo a administradora, permite manter a<br />
integridade e qualidade do produto. A restante<br />
cozedura do produto é realizada em casa<br />
tendo assim “o sabor, a textura e o aroma<br />
de um pão acabado de fazer”, refere Marta<br />
Casimiro, acrescentando que “o ultracongelado<br />
é claramente o novo fresco”.<br />
Tendo em conta que todos os produtos<br />
da marca são ultracongelados, não foi<br />
necessário alterar ou ajustar a cadeia de frio<br />
ou de armazenamento para o novo modelo<br />
de negócio. A única alteração foi apenas no<br />
processo de embalamento “que teve de ser<br />
ajustado para ir ao encontro das necessidades<br />
dos consumidores”, salienta a responsável.<br />
No ano passado a empresa entrou na área<br />
das vendas online, nas quais registaram<br />
vendas “surpreendentes”, mas com diferentes<br />
contornos. “Tínhamos clientes muito<br />
desesperados e achámos que podíamos fazer<br />
vendas online e ao mesmo tempo ajudar as<br />
pastelarias e restaurantes encerrados. Criámos<br />
120 pontos de recolha em todo o país. Foi<br />
muito bom na altura, ajudámos os clientes –<br />
parte da venda era para eles – mas o futuro da<br />
venda online é a entrega em casa. É nisso que<br />
estamos a trabalhar”, afirma Marta Casimiro<br />
numa entrevista ao Dinheiro Vivo. •<br />
a pandEmia TrouxE consigo<br />
proFundas alTEraçõEs dE<br />
consumo, quE lEvam as pEssoas<br />
mEnos vEzEs aos supErmErcados<br />
(…) os consumidorEs Têm<br />
vindo a procurar produTos<br />
ulTracongElados, dE Forma a<br />
TErminar a sua conFEcção Em<br />
casa E rEduzir assim dEslocaçõEs,<br />
dEspErdício, E pErmiTir TEr<br />
produTos FrEscos Todos os dias, a<br />
qualquEr hora<br />
Marta Casimiro
22<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
Texto: Fábio Santos<br />
“o Que fAlTAvA<br />
erA vir pArA<br />
Cá A primeirA<br />
empresA”<br />
No dia 18 de <strong>Maio</strong> deu-se a inauguração do<br />
Parque Logístico “Lisboa Park”, um complexo<br />
de 224.864 metros quadrados que pretende<br />
vir a tornar-se no maior parque logístico<br />
de Portugal. Já pronta está também a sua<br />
primeira nave logística de 45.171 metros<br />
quadrados de superfície bruta locável, dividida<br />
em seis módulos.<br />
O<br />
Lisboa Park está localizado a 30<br />
quilómetros do centro de Lisboa, e conta<br />
com ligações directas às auto-estradas A1,<br />
A10 e A9, bem como a uma estação ferroviária<br />
para passageiros e mercadorias situada à<br />
entrada do parque, e com ligação directa à<br />
capital portuguesa. Para além disso, espera-se<br />
que para breve arranquem as obras para o cais<br />
fluvial de Castanheira do Ribatejo e que, para<br />
além de retirar carga das estradas, é também<br />
um modo de transporte ambientalmente mais<br />
ecológico.<br />
Sobre a nova nave, esta foi concebida<br />
“com os melhores padrões de qualidade para<br />
satisfazer as actuais exigências dos grandes<br />
operadores logísticos internacionais”, explica<br />
LOGÍSTICA<br />
Parque Logístico<br />
Lisboa Park<br />
a empresa promotora do projecto, a Merlin<br />
Properties. Na sua construção conta com<br />
uma estrutura e recinto em betão armado,<br />
iluminação LED, vias de grandes dimensões,<br />
uma altura de 14,7 metros, um grande número<br />
de docas (existindo uma por cada 500 metros<br />
quadrados), a possibilidade de operar pela<br />
parte traseira com carrinhas, amplas áreas de<br />
manobra e um grande número de lugares de<br />
estacionamento. Ao nível da sustentabilidade<br />
e auto-suficiência, contará em breve com uma<br />
instalação fotovoltaica de autoconsumo.<br />
“O parque tem flexibilidade para se<br />
adaptar às necessidades dos operadores e<br />
do mercado, com uma grande capacidade<br />
de desenvolvimento para executar projectos
SCM Supply Chain Magazine 23<br />
o parquE TEm FlExibilidadE para sE adapTar às nEcEssidadEs dos<br />
opEradorEs E do mErcado<br />
Merlin Properties<br />
chave-na-mão ou outros projectos de<br />
investimento”, diz a empresa, acrescentando<br />
que o seu objectivo é posicionar-se e<br />
consolidar-se como a referência logística em<br />
Portugal e reforçar a sua posição de liderança<br />
na Península Ibérica.<br />
Como primeiro anúncio, a Merlin Properties<br />
avança que está previsto arrancar em breve<br />
o futuro centro logístico do grupo Jerónimo<br />
Martins também naquele parque logístico.<br />
“O que faltava era vir para cá a primeira<br />
empresa”, destaca o presidente da Câmara<br />
de Vila Franca de Xira, Alberto Mesquita,<br />
em entrevista à Supply Chain Magazine,<br />
acrescentando que “este arranque da<br />
Plataforma Logística Lisboa Norte é um<br />
marco importante e um pólo essencial de<br />
desenvolvimento económico associado para<br />
o concelho de Vila Franca de Xira”. O autarca<br />
conta que acompanhou todo o processo e<br />
começa por explicar o longo percurso pelo qual<br />
a plataforma passou, desde logo a demora na<br />
sua aprovação, e de seguida o contexto que fez<br />
com que a plataforma não arrancasse, como o<br />
contexto de “contraciclo económico” em que se<br />
encontravam na altura.<br />
Apesar do medo de iniciarem este percurso<br />
ainda sem clientes, avançaram, e Ismael<br />
Clemente, CEO da Merlin Properties, conta<br />
que “tivemos muita sorte e já quase no final<br />
da obra a procura apareceu e agora está<br />
cheia”, acrescentando que “quando existe um
24<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
parque já consolidado, que conta com 20 ou<br />
30 operadores instalados, toda a gente quer<br />
trabalhar nesse parque porque é um sucesso”.<br />
Ao nível deste aumento da procura, Ismael<br />
Clemente destaca que “o e-commerce<br />
está agora a criar uma época dourada da<br />
logística e isso tem-nos ajudado em termos<br />
de comercialização do complexo”, e esta<br />
proximidade à metrópole é precisamente o que<br />
as empresas procuram: “proximidade, qualidade<br />
de conexão com a área da Grande Lisboa e<br />
multimodalidade”, esta última devido aos<br />
acessos rodoviários, ferroviários e, talvez para<br />
breve, também fluvial.<br />
o primeiro oCupAnTe do<br />
espAço: oliCArGo<br />
A Olicargo é o primeiro inquilino do Lisboa<br />
Park, contando com 16.000 metros quadrados<br />
dedicados à logística contratual numa primeira<br />
fase, que vêm complementar os 25.000<br />
metros quadrados que o prestador de serviços<br />
logísticos português já detinha na Póvoa de<br />
Santa Iria, e reforçar a capacidade de resposta<br />
da empresa às necessidades do mercado e dos<br />
seus clientes.<br />
Américo Ribeiro, board member e contract<br />
logistics manager da Olicargo, revelou em<br />
entrevista em primeira mão à SCM que “este<br />
é mais um importante passo na estratégia de<br />
desenvolvimento traçada pela Olicargo, que se<br />
mantém focada na criação de valor para os seus<br />
clientes, accionistas, colaboradores e parceiros.<br />
São eles que nos motivam sempre a ir mais<br />
além, avançando para novos espaços e novas<br />
geografias. É isto que temos feito nos últimos<br />
anos, antecipando necessidades, construindo<br />
novas soluções e tecnologias que nos permitem<br />
estar ao mais alto nível no panorama da<br />
logística nacional e internacional”.<br />
Foi neste contexto que no início do último<br />
trimestre de 2020, a empresa tomou a decisão<br />
estratégica de expandir os seus espaços<br />
dedicados à logística contratual na zona da<br />
Grande Lisboa e “o parque logístico da Merlin<br />
Properties era a solução para podermos dar<br />
continuidade ao nosso crescimento”, realça<br />
Américo Ribeiro.<br />
“Este local vem adequar-se à nossa<br />
estratégia. A sua localização, a superior<br />
qualidade das instalações, os modernos<br />
sistemas de segurança, essenciais para<br />
operações logísticas e de transporte avançadas,
SCM Supply Chain Magazine 25<br />
EsTas insTalaçõEs sErão<br />
complEmEnTarEs aos<br />
nossos cEnTros logísTicos<br />
dE póvoa dE sanTa iria,<br />
quE rEsulTaram dE um<br />
invEsTimEnTo dE mais dE<br />
10 milhõEs dE Euros nos<br />
úlTimos cinco anos<br />
Américo Ribeiro<br />
Board Member, Olicargo<br />
motivaram a nossa decisão”, salienta o contract<br />
logistics manager da Olicargo. Entre outros<br />
factores com peso na tomada de decisão está<br />
o crescimento do comércio electrónico e as<br />
suas necessidades logísticas muito específicas,<br />
o que “foi igualmente impulsionador do<br />
nosso crescimento para novos espaços com<br />
características e localização que favorecem a<br />
eficiência das operações e dos níveis de serviço<br />
aos nossos clientes. A aliança entre estes<br />
ganhos de eficiência e a nossa especialização<br />
em operações complexas, nomeadamente as<br />
ligadas ao comércio electrónico, resultam na<br />
nossa crescente expansão e reconhecimento do<br />
mercado”, sublinha Américo Ribeiro.<br />
Além do comércio electrónico, o novo<br />
centro logístico da Olicargo no Merlin Lisboa<br />
Park está orientado para os sectores do<br />
retalho, alimentação e bebidas, automóvel<br />
e aeronáutica, mas procurando igualmente<br />
“servir outros sectores que querem ver a sua<br />
logística robusta e como fonte de criação<br />
de valor para os seus produtos e marcas”,<br />
explica o porta-voz da Olicargo, lembrando<br />
que “estas instalações serão complementares<br />
aos nossos centros logísticos de Póvoa de<br />
Santa Iria, que resultaram de um investimento<br />
de mais de 10 milhões de euros nos últimos<br />
cinco anos. Simultaneamente, a Olicargo está<br />
a investir na zona Norte na ampliação do seu<br />
centro logístico da Trofa para 20.000 metros<br />
quadrados, com inauguração prevista para<br />
finais de Julho deste ano”.<br />
“Temos os meios, as pessoas e a tecnologia<br />
para o futuro. Temos a capacidade financeira e<br />
a reputação de uma marca que só sabe prestar<br />
serviços de qualidade superior. Temos a atitude<br />
de pessoas motivadas e empreendedoras. Para<br />
nós, este é apenas o primeiro passo do nosso<br />
projecto neste local. Com o desenvolvimento<br />
de novos espaços e projectos para o parque,<br />
avizinham-se, a curto e médio prazo, novas<br />
posições e investimentos por parte da Olicargo”<br />
no novo parque logístico de Castanheira do<br />
Ribatejo. Para já, os principais investimentos<br />
estão concentrados na aquisição de modernos<br />
equipamentos de handling, estruturas de<br />
armazenagem, sistemas de segurança de última<br />
geração, redes e sistemas de informação Tier 1.<br />
Apesar da importância crescente que a<br />
logística contratual tem vindo a ganhar<br />
para a empresa, o transporte internacional<br />
continua a ser um dos pontos fortes da<br />
Olicargo. “Continuamos a registar recordes de<br />
crescimento nos transportes internacionais. O<br />
segmento do transporte internacional marítimo,<br />
aéreo, terrestre e intermodal estão nas nossas<br />
origens e ainda hoje representam a maior fatia<br />
do volume de negócios do grupo”, salienta<br />
Américo Ribeiro, aproveitando para realçar que<br />
também neste âmbito as novas instalações no<br />
Lisboa Park são estratégicas: “com esta nova<br />
localização e a sua proximidade aos portos,<br />
aeroportos e principais vias rodoviárias do país,<br />
a Olicargo reforça a sua capacidade de oferta<br />
ao mercado e assegura o seu compromisso de<br />
crescimento”. •
26<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
PROCUREMENT<br />
Texto: Pedro Hugo Rocha<br />
disclaimer: as opiniões expressas neste artigo<br />
são pessoais e vinculam apenas e somente o autor.<br />
AGilidAde e<br />
resiliênCiA: As<br />
novAs “buZZWords”<br />
ou AlGo mAis?<br />
Agilidade e Resiliência<br />
Penso que não é necessário relembrar ao<br />
lňeċiİtƙoŝrƄ qƃuơeċ oŝ COVID-19 vƽeċiİoŝ rƄeċdĄeċfiǟnœiİrƄ a eċsƌcýalňa<br />
VUCA com a qual trabalhávamos. Quando<br />
pensávamos que o mundo já era VUCA q.b.<br />
antes de Fevereiro de 2020, com níveis altos<br />
de volatilidade, incerteza, complexidade e<br />
ambiguidade, vem uma pandemia global<br />
que levou o barómetro VUCA a níveis nunca<br />
antes vistos.
SCM Supply Chain Magazine 27<br />
Foi a partir de Março de 2020 que as<br />
palavras agilidade e resiliência começaram<br />
a ser usadas praticamente em todas<br />
as coisas que li e ouvi sobre procurement<br />
e supply chain. Não quero com isto dizer<br />
que os temas são novos em supply chain,<br />
pelo contrário. Acho que estiveram sempre<br />
presente nas mentes dos profissionais<br />
de supply chain: temos que ser ágeis e<br />
resilientes.<br />
Foi mais ou menos a partir de <strong>Maio</strong> de<br />
2020 que comecei a reflectir sobre as duas<br />
palavras. Será que querem dizer a mesma<br />
coisa? Será que são duas novas “buzzwords”<br />
que querem dizer apenas o que já dizíamos<br />
antes sobre as supply chains, isto é, que têm<br />
que ser flexíveis, rápidas a responder, que<br />
devem conseguir adaptar-se às mudanças de<br />
contexto na supply e na demand, e que devem<br />
estar preparadas para choques mais ou menos<br />
inesperados?<br />
Recentemente, numa conferência online,<br />
um dos speakers (o speaker era Gartner) que<br />
falava no contexto de supply chains globais<br />
e sobre o tema de nearshoring, isto é, falava<br />
na gestão estratégica do risco, partilhou um<br />
slide que cativou o meu interesse. Nesse slide,<br />
apresentava a sua proposta para definições de<br />
agilidade e de resiliência. Mantenho aqui as<br />
definições em inglês, para evitar que a tradução<br />
retire clareza ao que foi apresentado.<br />
AGILITY: the ability to sense and respond<br />
to unanticipated changes in demand or supply<br />
quickly and reliably, without sacrificing cost or<br />
quality.<br />
RESILIENCE: the ability to adapt to<br />
structural changes by modifying supply chain<br />
strategies, products and technologies.<br />
Pedro Hugo Rocha<br />
Foi um daqueles momentos em que<br />
muitas ideias que andavam soltas na minha<br />
mente encaixaram num desenho mental<br />
simples e pragmático. Não pretendo entrar<br />
numa discussão sobre se as definições estão<br />
correctas do ponto de vista académico. Para<br />
mim, elas funcionam, fazem uma separação<br />
lógica entre o que é ser ágil e o que é ser<br />
resiliente. O conceito de agilidade aponta<br />
para um nivel mais táctico, de curto ou médio<br />
prazo. Diz respeito à nossa capacidade de<br />
reagir rapidamente aos inputs que nos chegam<br />
do lado da supply ou da demand, inputs<br />
esses muitas vezes inesperados. O conceito<br />
de resiliência aponta para um nível mais<br />
estratégico, de médio ou longo prazo. Aponta<br />
para a nossa capacidade de ter perspectiva<br />
sobre o presente e de preparar o futuro da<br />
supply chain que operamos.
28<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
No reino animal, o paralelismo é o seguinte:<br />
um animal ágil acelera, desacelera e muda de<br />
direcção com facilidade, e desempenha essas<br />
tarefas sem ter que fazer grandes preparações<br />
e sem gastar muita energia; um animal<br />
resiliente é um animal que resiste aos choques<br />
da natureza, que se desloca para procurar<br />
alimento e água, que tem a capacidade de<br />
ajustar os seus hábitos ao contexto que vai<br />
mudando à sua volta.<br />
O nirvana das supply chain modernas é<br />
conseguir atingir altos níveis de agilidade e de<br />
resiliência simultaneamente. É possível, mas é<br />
difícil. Agilidade e resiliência complementamse,<br />
mas às vezes colidem. Dou um exemplo.<br />
Podemos desenhar uma supply chain ágil, com<br />
fornecedores localizados perto do ponto onde<br />
está a procura final dos produtos. Essa supply<br />
chain responderá rapidamente a mudanças<br />
na procura. No entanto, essa mesma supply<br />
chain poderá ficar exposta a riscos geopolíticos<br />
relacionados com a localização desses<br />
fornecedores, que poderão estar concentrados<br />
numa área geográfica relativamente pequena,<br />
um cluster.<br />
A missão do líder de supply chain é garantir<br />
que as suas equipas trabalham para alcançar<br />
altos níveis de desempenho nas dimensões de<br />
agilidade e resiliência. De seguida, proponho<br />
um framework simples que permitirá ao líder<br />
de supply chain fazer perguntas a si próprio e<br />
às suas equipas. Poderia incluir mais perguntas,<br />
mas penso que, para efeitos de explicação do<br />
framework, estas perguntas dão uma ideia<br />
do exercício que proponho que façam com as<br />
vossas equipas.<br />
Trata-se de um modelo qualitativo, por<br />
conseguinte, a qualidade dos resultados<br />
dependerá muito da forma “brutalmente<br />
honesta” como o leitor e a sua equipa<br />
responderem às perguntas e debaterem em<br />
conjunto. O resultado final dará pistas sobre o<br />
estado actual da sua supply chain em termos<br />
de agilidade e de resiliência, e permitirá<br />
abrir caminhos para fazer as coisas que são<br />
necessárias, para preparar a sua supply chain<br />
para um futuro que se adivinha pelo menos tão<br />
VUCA como o presente.<br />
Boa sorte. Vamos precisar dela. Mas como diz<br />
o outro: a sorte procura-se. •
SCM Supply Chain Magazine 29<br />
pEssoas<br />
Modelo<br />
organizativo e<br />
competências<br />
procEssos<br />
“escritos no<br />
papel” (não<br />
confundir com<br />
ferramentas)<br />
sisTEmas,<br />
TEcnologia,<br />
digiTal<br />
Ferramentas<br />
que ajudam<br />
a executar<br />
processos<br />
agilidadE<br />
A sua equipa de planeamento operacional<br />
tem a autonomia necessária para tomar<br />
decisões on the spot? Ou o processo de<br />
decisão é moroso, hierárquico e involve<br />
muitos decisores?<br />
As suas equipas estão treinadas em<br />
agile mindset? Tomam decisões, avaliam<br />
rapidamente os resultados, e corrigem<br />
opções tomadas com a rapidez que é<br />
necessária? decide-test-learn-decide again<br />
Tem as pessoas certas a participar no seu<br />
processo de S&OP? São pessoas que pensam<br />
rápido, experientes e sem receio de decidir?<br />
O seu processo de planeamento integra<br />
todas as variáveis importantes da sua<br />
supply chain? É possível ter uma visão em<br />
tempo real do que está a acontecer? A<br />
qualidade da “data” é boa?<br />
O seu processo de planeamento (S&OP)<br />
está a funcionar com a dinâmica necessária?<br />
O processo permite detectar mudanças<br />
rápidas na supply ou na demand? Quantas<br />
vƽeċzǎeċsƌ eċxǃeċcýuơtƙa oŝ pƁrƄoŝcýeċsƌsƌoŝ pƁoŝrƄ mőêĐsƌ?<br />
Teċmő alňgĤuơmő pƁrƄoŝcýeċsƌsƌoŝ dĄeċfiǟnœiİdĄoŝ pƁarƄa gĤeċsƌtƙãùoŝ<br />
de crise, caso algo inesperado ocorra do<br />
lado da supply ou da demand? As pessoas<br />
sabem o que fazer?<br />
A sua ferramenta de planeamento integra<br />
todas as fontes internas de “data” de supply<br />
e demand, e dá informação em tempo real?<br />
Os dashboards e relatórios disponíveis<br />
permitem às equipas terem uma visão<br />
simples e clara do que está a acontecer, que<br />
permite a tomada de decisão on the spot?<br />
As suas ferramentas incorporam algum<br />
tipo de analytics que permite antecipar<br />
mudanças na supply ou na demand? Por<br />
exemplo, acendendo luzes vermelhas e<br />
alňeċrƄtƙanœdĄoŝ qƃuơeċ sƌeċ vƽeċrƄiİfiǟcýamő tƙeċnœdĄêĐnœcýiİasƌ eċmő<br />
alguns indicadores, e que há probabilidade<br />
de algo acontecer no curto prazo.<br />
rEsiliência<br />
Na sua equipa, tem alguém responsável por mapear riscos<br />
na supply chain, upstream e downstream?<br />
Com base nos riscos mapeados, tem alguém na equipa que<br />
se focaliza em propor redesenhos da supply chain e criar<br />
pƁlňanœoŝsƌ dĄeċ cýoŝnœtƙiİnœgĤêĐnœcýiİa? PoŝrƄ eċxǃeċmőpƁlňoŝ, cýrƄiİanœdĄoŝ mőuơlňtƙiİ-sƌoŝuơrƄcýiİnœgĤ<br />
para materiais críticos, levando em consideração diferentes<br />
gĤeċoŝgĤrƄafiǟasƌ eċ tƙiİpƁoŝsƌ dĄeċ fģoŝrƄnœeċcýeċdĄoŝrƄeċsƌ.<br />
Teċmő nœa eċqƃuơiİpƁa asƌ cýoŝmőpƁeċtƙêĐnœcýiİasƌ adĄeċqƃuơadĄasƌ pƁarƄa pƁeċnœsƌarƄ oŝ<br />
fģuơtƙuơrƄoŝ, iİsƌtƙoŝ éČ, alňgĤuơéČmő cýoŝmő pƁeċrƄsƌpƁeċcýtƙiİvƽa sƌoŝbürƄeċ asƌ tƙeċnœdĄêĐnœcýiİasƌ<br />
actuais e emergentes, e como elas poderão impactar<br />
eċsƌpƁeċcýiİfiǟcýamőeċnœtƙeċ a sƌuơa sƌuơpƁpƁlňyDŽ cýhīaiİnœ?<br />
Tem algum processo de stress test da sua supply chain, que<br />
permite simular o que poderia acontecer se um dos elos da<br />
sƌuơpƁpƁlňyDŽ cýhīaiİnœ cýoŝlňapƁsƌa? É uơmő pƁrƄoŝcýeċsƌsƌoŝ qƃuơeċ vƽoŝcýêĐ pƁoŝdĄeċ rƄeċpƁeċtƙiİrƄ<br />
regularmente?<br />
Teċmő iİdĄeċnœtƙiİfiǟcýadĄoŝsƌ eċlňoŝsƌ cýrƄíIJtƙiİcýoŝsƌ nœa sƌuơa sƌuơpƁpƁlňyDŽ cýhīaiİnœ, eċlňoŝsƌ qƃuơeċ<br />
se falham, todo o sistema falha? Por exemplo, uma máquina<br />
nas suas fábricas da qual depende toda a sua capacidade<br />
pƁrƄoŝdĄuơtƙiİvƽa. Teċmő alňgĤuơmő pƁrƄoŝcýeċsƌsƌoŝ dĄeċ rƄeċcýuơpƁeċrƄaçĀãùoŝ dĄeċfiǟnœiİdĄoŝ<br />
para esses elos críticos? Por exemplo, uma máquina em<br />
backup, que pode ser accionada imediatamente.<br />
Teċmő alňgĤuơmő pƁrƄoŝcýeċsƌsƌoŝ dĄeċfiǟnœiİdĄoŝ pƁarƄa avƽalňiİarƄ a pƁeċrƄfģoŝrƄmőanœcýeċ dĄa<br />
sua supply chain e a sua adequação para o futuro? Os KPIs<br />
são normalmente backward- -looking (custo, on time in full,<br />
etc.)? Mas tem alguns KPIs forward-looking?<br />
DeċpƁoŝiİsƌ dĄeċ iİdĄeċnœtƙiİfiǟcýarƄ asƌ fģoŝnœtƙeċsƌ dĄeċ rƄiİsƌcýoŝ rƄeċlňeċvƽanœtƙeċsƌ pƁarƄa<br />
a sua supply chain, tem alguma ferramenta que permite<br />
monitorizar os riscos em tempo real? Por exemplo, riscos<br />
geo-politicos, risco de incumprimento ou reputacionais nos<br />
fornecedores, etc.<br />
Para os seus fornecedores mais críticos e estratégicos,<br />
tem alguma ferramenta que permite gerir essas relações<br />
de forma estratégica e estruturada, incluindo a avaliação<br />
integrada do risco desses fornecedores?<br />
Se a sua supply chain tem fábricas próprias, tem a tecnologia<br />
adequada nas suas fábricas para dar resposta aos novos<br />
produtos inovadores criados pelas equipas de marketing,<br />
fģazǎêĐ-lňoŝ dĄeċ fģoŝrƄmőa rƄápƁiİdĄa eċ fǕlňeċxǃíIJvƽeċlň, sƌeċmő cýoŝmőpƁrƄoŝmőeċtƙeċrƄ a<br />
competitividade dos seus custos e o tempo de resposta<br />
pƁrƄeċtƙeċnœdĄiİdĄoŝ pƁeċlňoŝ cýlňiİeċnœtƙeċ fiǟnœalň? Asƌ sƌuơasƌ fģábürƄiİcýasƌ eċsƌtƙãùoŝ<br />
preparadas para os produtos do futuro?
30<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
PROCUREMENT<br />
Estudo nacional
SCM Supply Chain Magazine 31<br />
As ComprAs nAs<br />
empresAs e A<br />
pAndemiA<br />
Os constrangimentos nas cadeias de<br />
abastecimento, causados pela pandemia,<br />
tiveram repercussões no ciclo de compra<br />
das empresas, com mais de 50% dos<br />
gĤeċsƌtƙoŝrƄeċsƌ a afiǟrƄmőarƄ qƃuơeċ a sƌuơa pƁoŝsƌtƙuơrƄa<br />
face a compras transnacionais mudou.<br />
Ainda assim, cerca de 60% continua a<br />
não considerar mudar para fornecedores<br />
locais. Estas são algumas das conclusões<br />
do estudo recentemente publicado pela<br />
Expense Reduction Analysts.<br />
Tendo como foco de actuação a optimização<br />
de custos e gestão de compras, a<br />
consultora Expense Reduction Analysts<br />
levou a cabo um inquérito no intuito de<br />
perceber de que forma os constrangimentos<br />
na cadeia de abastecimento e a incerteza que<br />
caracteriza a economia mundial afectaram o<br />
comportamento de compra B2B das empresas<br />
portuguesas. As principais conclusões são as<br />
que se seguem.<br />
No que diz respeito às alterações no<br />
comportamento de compra B2B das suas<br />
empresas, as opiniões dos gestores ouvidos<br />
para este trabalho dividem-se.<br />
Enquanto 51% das empresas inquiridas<br />
afirma que a pandemia afectou o seu ciclo de<br />
compra, a outra parte afirma que o contexto<br />
não teve influência. Segundo o estudo, mais<br />
de 78% dos gestores afirma dedicar tempo a<br />
avaliar diferentes opções, analisando vários<br />
aspectos, nomeadamente quando se trata de<br />
investimentos de grande valor, e três em cada<br />
dez afirmam que a duração do ciclo de compra<br />
aumentou desde o início da pandemia.
32<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
a ExpEriência prévia com<br />
dETErminado FornEcEdor é a chavE<br />
para cErca dE 80% dos gEsTorEs<br />
nacionais<br />
experiênCiA préviA<br />
é relevAnTe<br />
Quanto às fontes, mais de dois terços das<br />
empresas afirmam que, antes de comprar,<br />
procuram informações sobre os produtos em<br />
relatórios e recomendações dos analistas,<br />
sendo que a experiência prévia é um factor<br />
relevante para cerca de 80% dos gestores.<br />
Adicionalmente, a maioria das empresas<br />
presta também atenção às referências de<br />
clientes e às redes sociais, sendo estas mais<br />
utilizadas em compras de baixo valor.<br />
O que cerca de 70% das empresas<br />
portuguesas procura no fornecedor é o seu<br />
conhecimento profundo da solução e do<br />
contexto empresarial. Já no produto,<br />
o foco da maioria dos gestores<br />
(65%) são as características<br />
e funcionalidades do<br />
produto/serviço,<br />
sendo que dois em<br />
cada dez gestores<br />
indicam que o preço<br />
é o factor que mais<br />
valorizam.<br />
Quanto à duração<br />
do ciclo de compra,<br />
para cerca de 41% das<br />
empresas portuguesas o<br />
tempo desde a pesquisa até<br />
à finalização da compra não se alterou,<br />
enquanto para 40% aumentou e para mais de<br />
10% aumentou significativamente.<br />
forneCedores loCAis vs.<br />
GlobAis<br />
Segundo João Costa, country manager da<br />
Expense Reduction Analysts, “perante os<br />
constrangimentos da pandemia na logística<br />
internacional, as empresas portuguesas<br />
deveriam considerar fornecedores nacionais e<br />
optar por uma cadeia de abastecimento mais<br />
local”.<br />
O relatório, resultado de um inquérito<br />
conduzido durante o mês de <strong>Maio</strong>, analisa<br />
o comportamento de compra das empresas<br />
portuguesas, procurando identificar diferenças<br />
na gestão de compras desde o início da<br />
pandemia em Portugal.<br />
É de salientar que neste estudo participaram<br />
87 gestores, que se distribuem por diversos<br />
sectores de actividade - com destaque para a<br />
indústria, retalho e serviços -, cerca de 40%<br />
têm um volume de negócios acima dos 25<br />
milhões de euros, e, na sua generalidade,<br />
empregam, pelo menos, mais de 50 pessoas,<br />
indo até às 1000. •<br />
pEranTE os<br />
consTrangimEnTos da<br />
pandEmia na logísTica<br />
inTErnacional, as<br />
EmprEsas porTuguEsas<br />
dEvEriam considErar<br />
FornEcEdorEs nacionais<br />
E opTar por uma cadEia dE<br />
abasTEcimEnTo mais local<br />
João Costa, Country Manager<br />
Expense Reduction Analysts
SCM Supply Chain Magazine 33<br />
Outsourcing<br />
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34<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
INTRALOGÍSTICA<br />
Os armazéns do<br />
futuro<br />
os reQuisiTos<br />
pArA inovAr no<br />
ArmAZém<br />
Muitas empresas não estavam simplesmente<br />
preparadas para o aumento de pedidos online<br />
qƃuơeċ sƌeċ vƽeċrƄiİfiǟcýarƄamő eċmő 2020 dĄeċvƽiİdĄoŝ àò pƁanœdĄeċmőiİa<br />
dĄeċ COVID-19-19. À pƁarƄtƙeċ iİsƌsƌoŝ, oŝsƌ dĄeċsƌafiǟoŝsƌ<br />
apresentados às empresas nos últimos 12<br />
meses levantaram algumas questões em torno<br />
de estratégias a longo prazo como por exemplo<br />
como poderá ser o armazém do futuro e como<br />
pode gerir futuras interrupções inevitáveis.
SCM Supply Chain Magazine 35<br />
Texto: Georgia Leybourne,<br />
Manhattan Associates<br />
Quando se trata do futuro dos seus<br />
armazéns, as empresas devem considerar<br />
quatro áreas principais.<br />
é fulCrAl um CurTo e rápido<br />
ATendimenTo de pedidos<br />
online<br />
Agora que muitas empresas estão a emergir<br />
lentamente dos desafios do último ano, alguns<br />
temas estão a ganhar relevância, entre eles:<br />
como podem as supply chains se preparar para<br />
interrupções futuras? Quais os processos e<br />
sistemas necessários? Como é o armazém do<br />
futuro e qual o papel das pessoas?<br />
Um dos maiores desafios apresentados aos<br />
armazéns de hoje e do futuro é como processar<br />
pedidos online que geralmente consistem<br />
em apenas uma ou duas peças. A maioria dos<br />
armazéns está tradicionalmente acostumada<br />
a trabalhar ao nível das paletes ou caixas,<br />
mas picking, packaging e remessa de pedidos<br />
pequenos que resultaram do boom do comércio<br />
electrónico representam algo completamente<br />
diferente. Colocando na equação os horários<br />
limite do dia seguinte e do final do dia que<br />
muitos sites oferecem agora, e o desafio fica<br />
ainda mais acentuado.<br />
Já lá vai o tempo em que os armazéns tinham<br />
três dias para processar um pedido. Ao longo de<br />
2020, o envio no mesmo dia ou no dia seguinte<br />
tornou-se a expectativa-padrão para muitos<br />
consumidores, e armazéns que não ajustam<br />
os seus processos para atender a essa nova<br />
expectativa, o risco torna-se obsoleto.<br />
o homem e A máQuinA esTão A<br />
GAnhAr riTmo<br />
A automatização e robotização de processos<br />
oferecem aos armazéns capacidades extra de<br />
atendimento de pedidos e, possivelmente,<br />
extra capacidade de armazenamento. Estão a<br />
tornar-se cada vez mais importantes para um<br />
processo de preenchimento mais rápido, fiável<br />
e eficiente.<br />
Há grandes expectativas para o impacto<br />
positivo que os robôs e a automatização<br />
trarão aos ambientes em armazém. A grande<br />
vantagem dos robôs é que as empresas<br />
podem aumentar a capacidade do armazém<br />
de forma flexível sem ter de comprometer<br />
antecipadamente sistemas de automatização<br />
em grande escala com capacidade limitada e<br />
ROI questionável.<br />
Quer as empresas optem por maior<br />
automatização, mais robótica, ou ambos, as<br />
pessoas terão sempre um papel crucial no<br />
armazém do futuro, pois existem algumas<br />
operações que, simplesmente, não podem<br />
ser realizadas por máquinas ou robôs tão<br />
bem quanto pessoas. Por exemplo, o Homem<br />
fornece flexibilidade ao manusear produtos<br />
grandes ou frágeis e oferecem a capacidade de<br />
aumentar a força de trabalho rapidamente em<br />
caso de picos, o que significa que aumentos<br />
inesperados nos pedidos podem ser absorvidos<br />
rapidamente.<br />
podEr conTar com uma solução<br />
dE gEsTão dE armazéns FiávEl,<br />
complETa, comunicaTiva E dE rápida<br />
implEmEnTação, rEprEsEnTa uma<br />
vanTagEm signiFicaTiva para o<br />
nosso projEcTo
36<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
A ludifiCAção é um GrAnde<br />
moTivAdor<br />
Uma das principais questões para apresentar<br />
aos líderes de armazém e do centro de<br />
distribuição é como tornar as funções atraentes<br />
e envolventes para os funcionários e potenciais<br />
funcionários? A menos que seja o Wall-E, quão<br />
divertida é a tarefa de separação de pedidos<br />
quando um robô é o colega mais próximo?<br />
Enfileire o conceito de ludificação dentro<br />
do ambiente de armazém. De uma maneira<br />
semelhante ao RunKeeper ou Strava, agora é<br />
possível oferecer aos funcionários do armazém<br />
novos desafios e, assim como essas aplicações,<br />
recompensá-los conforme a taxa de sucesso<br />
desses desafios.<br />
Além disso, é possível comparar o<br />
desempenho dos funcionários em tempo-real<br />
e os gerentes também podem definir desafios<br />
de equipa, por exemplo: mover uma palete não<br />
se pode comparar a mover uma caixa ou um<br />
item solto. Se o desempenho for positivo, os<br />
funcionários e as equipas podem ganhar pontos<br />
para uma recompensa ou tempo extra de folga,<br />
enquanto, simultaneamente, se mantém o<br />
trabalho motivador e desafiante.<br />
‘AlWAys on’ em Termos de<br />
inovAção e AGilidAde<br />
Além da robotização e ludificação, a<br />
Inteligência Artificial (IA) e Machine Learning<br />
(ML) são outros componentes que irão<br />
desempenhar papéis importantes no armazém<br />
do futuro. Por exemplo, se desejar ser capaz<br />
de processar e enviar um determinado pedido<br />
de última hora dentro do prazo, os ganhos<br />
marginais que ambos podem fornecer dentro<br />
do ambiente de armazém podem fazer toda a<br />
diferença.<br />
É possível aumentar a densidade de picking<br />
num armazém incorporando pedidos em lotes,<br />
mas tem de se classificar os itens separados<br />
por pedidos novamente, e isso consome extra<br />
minutos valiosos. A IA e ML podem ajudar a<br />
simplificar esse processo e garantir que todos<br />
os pedidos são despachados dentro do prazo.<br />
Basicamente, IA e ML ajudam a aumentar a<br />
eficiência operacional. Outro exemplo disso<br />
é comparar o perfil do pedido de hoje-em-dia<br />
com os do passado. Sistemas inteligentes de<br />
auto-aprendizagem podem prever com maior<br />
precisão quais os produtos que serão pedidos,<br />
por que via, quando e quanto tempo será<br />
necessário para os processar.<br />
À medida que se avança em direcção a<br />
softwares sem versão e baseados na cloud,<br />
mais empresas terão a capacidade de ter acesso<br />
às mais recentes inovações. Num ambiente<br />
com arquitectura de micro-serviços ‘always<br />
on’, upgrades caros e lentos serão uma coisa<br />
do passado, mas isso também significa que as<br />
inovações em IA e ML estão mais acessíveis e<br />
disponíveis para uma empresa mais ampla e<br />
para um público vertical.<br />
Durante o ano passado testemunhou-se,<br />
em primeira mão, que a velocidade com que
SCM Supply Chain Magazine 37<br />
a grandE vanTagEm dos robôs é quE as EmprEsas podEm aumEnTar<br />
a capacidadE do armazém dE Forma FlExívEl sEm TEr dE<br />
compromETEr anTEcipadamEnTE com sisTEmas dE auTomaTização<br />
Em grandE Escala com capacidadE limiTada E roi quEsTionávEl<br />
as organizações implementam a inovação<br />
determina o seu nível de sucesso e a felicidade<br />
dos seus clientes directos. Se os processos<br />
e sistemas dentro de uma organização<br />
não puderem acompanhar a velocidade da<br />
mudança num nível macro-económico e ao<br />
nível do cliente, uma empresa ou armazém<br />
terá dificuldade em navegar nos ventos de<br />
mudanças futuras.<br />
Embora certamente desafiante, o ano de<br />
2020 acelerou o ritmo de mudança em muitas<br />
áreas de negócios também. Com as cadeias<br />
de abastecimento e armazéns em expansão<br />
a ocupar agora uma posição tão importante,<br />
é fulcral que as equipas de armazém de hoje<br />
estejam atentas aos armazéns do futuro. •<br />
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MAIO <strong>2021</strong><br />
Texto: Dora Assis<br />
ilustrações: Capgemini<br />
TECNOLOGIAS<br />
Grande Consumo e<br />
Retalho<br />
ConsTruir umA supply ChAin<br />
à provA de pós-Covid-19<br />
A pandemia COVID-19-19 atingiu as supply chains dos<br />
produtos de grande consumo e retalho com uma<br />
força que muitos especialistas consideram<br />
“sísmica”. Abalou tudo. As empresas devem<br />
estar alerta para o facto de este tipo de<br />
volatilidade poder voltar a repetir-se, seja<br />
sob a forma de calamidades naturais,<br />
questões geopolíticas ou até mesmo outras<br />
pandemias.<br />
A pergunta é: como estar preparado?<br />
Os sectores de grande consumo e retalho<br />
foram fortemente abalados pela pandemia:<br />
veja-se toda a aceleração digital e as<br />
vendas online, que apresentaram a sua maior<br />
taxa de crescimento dos últimos 12 anos,<br />
prevendo-se que continuem a crescer. E é a<br />
supply chain que está a sentir o real impacto<br />
de todas estas mudanças e disrupções.<br />
Para entender e conhecer melhor os desafios<br />
que se colocam a estas organizações e a<br />
forma como estão a responder, o Capgemini<br />
Research Institute levou a cabo um estudo<br />
(“The wake-up call: Building supply chain<br />
resilience in consumer products and retail for<br />
a post-COVID-19 world) junto de mais de 400<br />
executivos dos sectores de grande consumo e<br />
retalho de organizações em 11 países (China,<br />
França, Alemanha, Índia, Itália, Noruega,<br />
Holanda, Espanha, Suécia, Reino Unido e EUA).<br />
Vejamos algumas das conclusões e principais<br />
highlights.<br />
Por exemplo, 66% das organizações<br />
ouvidas para este trabalho dizem acreditar<br />
que a sua estratégia de supply chain mudará<br />
significativamente nos próximos três anos,<br />
enquanto se adaptam ao pós-pandemia e em<br />
termos de áreas-chave em que estão a focar<br />
os seus esforços é de salientar a procura de<br />
fornecedores regionais/locais e unidades de<br />
produção também elas mais próximas.
SCM Supply Chain Magazine 39<br />
imprevisibilidAde dA proCurA<br />
• A COVID-19-19 teve um impacto enorme<br />
nos padrões de procura do sector e nas<br />
cadeias de abastecimento. 85% das empresas<br />
de produtos de grande consumo e 88%<br />
dos retalhistas dizem que enfrentaram<br />
interrupções nos seus abastecimentos.<br />
• A Tesco, por exemplo, viu o seu stock<br />
de um mês de produtos essenciais, como<br />
desinfectante e papel higiénico, esgotar-se<br />
numa semana.<br />
• Várias empresas de FMCG enfrentaram<br />
uma quebra nas vendas, com algumas a<br />
chegar quase a zero em Março de 2020.<br />
• Flutuações na procura, como pedidos<br />
em massa, interromperam e deitaram por<br />
terra as melhores previsões das cadeias de<br />
abastecimento. Os analistas do Capgemini<br />
Research Institute ficaram a saber junto dos<br />
inquiridos que 69% dos retalhistas e 66% das<br />
empresas de produtos de consumo tiveram<br />
dificuldades no planeamento da procura<br />
devido à falta de informações precisas e<br />
actualizadas sobre a flutuação da procura e<br />
padrões de compra dos clientes.<br />
• A proporção de consumidores que<br />
preferem comprar com retalhistas que<br />
oferecem práticas de entrega seguras<br />
aumentou para 59% em Novembro de 2020,<br />
contra 49% em Abril de 2020.<br />
• Facto é que as organizações<br />
modificaram e ajustaram as suas cadeias de<br />
abastecimento em resposta à COVID-19.<br />
• No geral, tanto os retalhistas como<br />
as empresas de produtos de grande<br />
consumo planeiam reduzir a participação<br />
de fornecedores e fabricantes puramente<br />
globais para cerca de um quarto do seu<br />
actual portfólio.<br />
• 58% dos retalhistas e 61% das empresas<br />
de produtos de consumo afirmam também<br />
que aumentarão os investimentos na<br />
digitalização das respectivas cadeias de<br />
abastecimento. As principais áreas em que as<br />
organizações irão acelerar os investimentos<br />
incluem automação, robótica, AI e segurança<br />
cibernética.
40<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
fACTores CríTiCos pArA<br />
ACelerAr resiliênCiA<br />
De acordo com estes analistas são vários os<br />
factores críticos para acelerar a resiliência da<br />
cadeia de abastecimento. Com base na pesquisa<br />
levada a cabo, em exemplos de melhores<br />
práticas e na sua própria experiência de<br />
trabalho com alguns clientes, recomendam que<br />
as empresas se concentrem em três áreas:<br />
• Realinhar a estratégia da cadeia<br />
de abastecimento adaptando e<br />
adoptando novas maneiras de<br />
lidar com interrupções, avaliar a<br />
resiliência e ganhar visibilidade sobre<br />
a cadeia, como torres de controlo<br />
e diversificação e planeamento de<br />
contingência.<br />
• <strong>Maio</strong>r automação em toda a cadeia.<br />
• Rever a estratégia de última milha<br />
através de, por exemplo, uma rede<br />
de lojas optimizada, políticas<br />
flexíveis de recursos humanos e<br />
adopção de modelos colaborativos.<br />
Mark Schneider, CEO da Nestlé, por exemplo,<br />
descreveu como as organizações estão a<br />
lutar para responder à procura. “Quando se<br />
enfrentam restrições logísticas, às vezes<br />
temos que recorrer ao transporte aéreo;<br />
mas há momentos em que até essa opção é<br />
limitada, tanto em termos de tempo como de<br />
capacidade. É realmente tudo sobre como gerir,<br />
de forma muito coesa, esta crise e garantir<br />
flexibilidade. E é nisso que agora as nossas<br />
equipas estão focadas”.<br />
É que os desafios enfrentados tanto pelos<br />
retalhistas como pelas empresas de produtos<br />
de grande consumo durante a pandemia<br />
terão um efeito e reflexos de longo prazo<br />
na produção, na cadeia de fornecimento, na<br />
entrega e noutras operações.<br />
A Lowe’s, retalhista norte-americana de<br />
materiais de construção, tem vindo a instalar<br />
cacifos nas suas lojas para que os clientes<br />
façam as recolhas das compras realizadas<br />
online.<br />
O Walmart, por seu turno, introduziu a APP<br />
Scan & Go nos seus “supercentros” em 2019,<br />
mas sem grande êxito naquela altura. Durante a<br />
pandemia, no entanto, a procura pelo Walmart+<br />
aumentou devido ao acesso crescente à Scan<br />
& Go.<br />
A verdade é que os clientes estão a<br />
desenvolver novos hábitos, a reduzir o número<br />
de viagens à loja e a apostar mais na compra e<br />
entrega sem contacto, uma tendência que pode<br />
continuar após a pandemia.
SCM Supply Chain Magazine 41<br />
responder Ao Consumidor<br />
Aliás, de acordo com o mesmo estudo, os<br />
compradores/consumidores dos EUA (60%)<br />
tenderão a fazer a recolha das suas compras<br />
realizadas electronicamente em cacifos ou em<br />
pontos de recolha dentro da loja, o que terá<br />
reflexos nos retalhistas e nos seus recursos. Por<br />
isso, Walmart e Target já estão a trabalhar na<br />
formação e treino cruzados os seus funcionários<br />
para assim conseguirem ter equipas de trabalho<br />
mais flexíveis.<br />
O comportamento do consumidor mudou<br />
muito rapidamente, deixando as cadeias de<br />
abastecimento vulneráveis. Bloqueios, outras<br />
directrizes e proibições em vários países<br />
criaram ansiedade e também incerteza entre<br />
quem compra. Foi a ansiedade mas também<br />
“novidades” como o confinamento e trabalhar<br />
a partir de casa que levaram a uma compra<br />
massiva de alguns produtos e bens e, em<br />
muitos casos, a uma inevitável quebra de<br />
stocks.<br />
O Capgemini Research Institute descobriu,<br />
entre outros pontos, que 70% das empresas<br />
de produtos de consumo e 65% dos retalhistas<br />
perderam vendas devido a frequentes rupturas<br />
de stock. Ao mesmo tempo, as preferências<br />
do consumidor mudaram de forma abrupta<br />
e rápida. Por exemplo, em Novembro de<br />
2020, 43% dos consumidores disseram que<br />
comprariam mais produtos de higiene pessoal<br />
após o COVID-19, um aumento de 12% em<br />
relação ao valor de Abril. Da mesma forma, 29%<br />
dos consumidores disseram que comprariam<br />
mais produtos de luxo após o COVID-19, um<br />
aumento de 9% em relação a Abril. A mudança<br />
rápida e significativa nas preferências do<br />
consumidor em conjunto com a compra em<br />
pânico, está originar padrões flutuantes na<br />
procura um pouco por todo o mundo.
42<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
fAlTA de informAção<br />
difiCulTA deCisão<br />
Ao longo de alguns meses, o equilíbrio entre<br />
as vendas online e offline desviou-se para<br />
o online. No entanto, o planeamento eficaz<br />
da procura tornou-se cada vez mais difícil<br />
pela ausência de informações precisas e<br />
actualizadas sobre as lojas e demais pontos de<br />
venda. A Capgemini descobriu, por exemplo,<br />
que 69% dos retalhistas e 66% das empresas<br />
de produtos de grande consumo tinham<br />
dificuldades no planeamento da procura por<br />
falta de informações precisas e ausência de<br />
histórico.<br />
Doug McMillon, CEO do Walmart, diz:<br />
“Antes desta crise, já víamos uma adopção<br />
crescente da recolha e entregas provenientes<br />
do e-commerce. Como esta crise criou a<br />
necessidade de distanciamento social e exigiu<br />
que as pessoas ficassem em casa, os clientes<br />
abraçaram ainda mais esta experiência.”<br />
Outra alteração significativa a registar, é a<br />
maneira como os consumidores pensam sobre<br />
as embalagens, algo que também está a mudar<br />
sobretudo devido a questões de segurança e<br />
higiene:<br />
• Quarenta por cento dos consumidores<br />
preferem produtos em embalagens<br />
descartáveis devido a questões de saúde<br />
e segurança.<br />
• Aumentou a procura por embalagens<br />
descartáveis e uma escassez de<br />
materiais de embalagem. Por exemplo,<br />
em Singapura, a procura por produtos de<br />
embalagem de alimentos duplicou.<br />
Muito falada ao longo de todo este período<br />
de pandemia tem sido a explosão do comércio<br />
electrónico que, segundo este estudo, foi<br />
responsável por um quinto de todas as compras<br />
no retalho em 2020; onde acresce em muitos<br />
países o encerramento de lojas de produtos<br />
não essenciais por ordem dos governos. A<br />
consequência imediata foi o recurso ao online,<br />
com muitos retalhistas a apontarem aumentos<br />
exponenciais das suas vendas neste canal. Por<br />
exemplo, no Reino Unido, a percentagem das<br />
vendas pela Internet aumentou de 18,8% em<br />
<strong>Maio</strong> de 2019 para 32,8% em <strong>Maio</strong> de 2020.<br />
“Como todos pudemos viver, a Supply Chain<br />
das várias empresas foram alvo de importantes<br />
disrupções por variadas causas relacionadas<br />
com a pandemia a que assistimos. Os impactos<br />
principais fizeram-se sentir na capacidade de<br />
planear e na perda de vendas, estimando-se<br />
o tempo de recuperação das mesmas entre<br />
períodos curtos - inferiores a 2 semanas, e<br />
períodos de larga duração - entre 6 meses a<br />
1 ano”, comenta Francisco Rocha, da divisão<br />
portuguesa da Capgemini.
SCM Supply Chain Magazine 43<br />
O mesmo responsável lembra ainda que<br />
“como resposta a esta situação, 66% das<br />
empresas do sector de Consumo e Retalho,<br />
admitem que a sua estratégia para a Supply<br />
Chain está a mudar e vai mudar no pós-<br />
COVID-19, nomeadamente em dois pontos base:<br />
estratégias de globalização revistas para uma<br />
maior proximidade da produção e fornecedores<br />
e aceleração de investimentos em tecnologia<br />
de suporte à Supply Chain”.<br />
De modo a cimentar os investimentos e<br />
as transformações em curso, o estudo do<br />
Capgemini Research Institute recomenda três<br />
prioridades:<br />
1<br />
2<br />
Realinhar a estratégia para a Supply<br />
Chain aos desafios da pandemia<br />
Industrializar o End-2-End da Supply<br />
Chain através da automação<br />
3<br />
Visão de helicóptero da Supply Chain<br />
para gerir disrupções<br />
atempadamente •
44<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
Fonte: CIO from IDG<br />
TECNOLOGIAS<br />
A tecnologia na supply<br />
chain<br />
8 TeCnoloGiAs Que irão<br />
impACTAr A supply ChAin em<br />
<strong>2021</strong><br />
As cadeias de abastecimento foram altamente<br />
prejudicadas pelas paralisações causadas pela<br />
COVID-19-19. Em alguns casos, a aceleração da<br />
transformação digital foi urgente e essencial<br />
para a sobrevivência de indústrias de diferentes<br />
sectores. Com isso, acresceu a necessidade de<br />
as cadeias de abastecimento estarem ligadas<br />
a nível digital. Com base nisto, a Gartner<br />
iİdĄeċnœtƙiİfiǟcýoŝuơ oŝiİtƙoŝ tƙeċcýnœoŝlňoŝgĤiİasƌ qƃuơeċ pƁoŝdĄeċmő ajłuơdĄarƄ<br />
as empresas a alcançar este objectivo, em <strong>2021</strong>.<br />
“Este ano decidimos concentrar-nos em<br />
temas de tecnologia mais amplos e<br />
abrangentes, em vez de tecnologias<br />
individuais”, refere Christian Titze, da Gartner,<br />
explicando que as tecnologias inovadoras<br />
são frequentemente utilizadas para resolver<br />
problemas específicos dos negócios das<br />
cadeias de abastecimento.<br />
Os analistas seleccionaram então oito<br />
tecnologias que acreditam ter potencial<br />
transformacional e capacidade de promover<br />
resiliência operacional em funções de negócio,<br />
nas tecnologias e na prestação de serviços.
SCM Supply Chain Magazine 45<br />
1Hiper-automação<br />
A hiper-automação descreve a combinação<br />
de tecnologias como Machine Learning (ML),<br />
Inteligência Artificial (IA) e Automação de<br />
Processos Robóticos (RPA) que podem facilitar<br />
ou automatizar tarefas que originalmente<br />
exigiam intervenção humana.<br />
Nos próximos 10 anos, as pessoas e as<br />
empresas necessitarão de delegar cada<br />
vez mais autoridade na tomada de decisão<br />
a aplicações inteligentes, robôs físicos e<br />
assistentes de serviço de software. Espera-se<br />
que a hiper-automação ajude a automatizar<br />
processos transaccionais, bem como na<br />
tomada de decisões complexas.<br />
2Digital Supply Chain Twin (DSCT)<br />
O DSCT é uma representação digital da<br />
cadeia de abastecimento física. É a base para<br />
a tomada de decisão local e end-to-end para<br />
a cadeia de abastecimento, e garante que a<br />
tomada de decisão está alinhada e ligada a<br />
toda a rede. O DSCT deriva de todos os dados<br />
relevantes na cadeia de abastecimento e do<br />
seu ambiente operacional.<br />
“As tecnologias de experiência imersiva<br />
têm o potencial de influenciar radicalmente<br />
a trajectória da gestão da cadeia de<br />
abastecimento. Apresentam novos modelos<br />
de interacção ao longo do ciclo de vida do<br />
produto, não apenas com humanos, mas com<br />
outros processos, máquinas e aplicações”,<br />
diz o analista da Gartner, acrescentando<br />
que “as empresas pioneiras já beneficiam<br />
dos resultados, como ambientes de trabalho<br />
mais seguros, tempos de reparação mais<br />
rápidos, melhoria das taxas de erro, melhor<br />
colaboração e retenção de capacidades e<br />
conhecimento”.<br />
4Ecossistemas<br />
de ponta<br />
Estes ecossistemas consistem em edge<br />
computing e aplicações de processamento<br />
de dados de ponta, que permitem aos líderes<br />
de tecnologia da cadeia de abastecimento<br />
retribuir e replanear grandes áreas de<br />
capacidade de processamento de dados<br />
para as empresas. Estas tecnologias podem<br />
ser utilizadas para rastrear e monitorizar<br />
requisitos de temperatura em várias fases do<br />
ciclo de vida de um produto.<br />
3Experiência Imersiva e Aplicações<br />
A experiência imersiva redefine a experiência<br />
do utilizador, permitindo que percebam e<br />
interajam com o mundo virtual. Monitores<br />
como head-mounted display (HMDs), werables,<br />
smartglasses, 5G e até smartphones ou<br />
tablets fornecem infra-estrutura e melhorias<br />
para experiências imersivas, através de uma<br />
combinação do processamento gráfico, IA e<br />
outras aplicações de negócio individuais.
46<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
as TEcnologias dE ExpEriência imErsiva<br />
Têm o poTEncial dE inFluEnciar<br />
radicalmEnTE a TrajEcTória da gEsTão<br />
da cadEia dE abasTEcimEnTo<br />
Christian Titze<br />
5Segurança da cadeia de<br />
abastecimento<br />
A segurança da cadeia de abastecimento reúne<br />
uma abordagem mais abrangente para abraçar<br />
os riscos de segurança, como falsificações<br />
ou crimes cibernéticos de forma holística<br />
em toda a cadeia end-to-end. Com as redes<br />
end-to-end ligadas digitalmente como uma<br />
meta aspiracional para muitas empresas,<br />
deverá surgir uma nova geração de soluções<br />
escalonáveis de tecnologia de segurança.<br />
6Environmental Social<br />
Governance (ESG)<br />
As cadeias de abastecimento globais têm<br />
um papel fundamental na sua contribuição<br />
para mapear e avaliar riscos e oportunidades<br />
na ESG. As tecnologias actuais permitem<br />
rastrear as origens dos produtos e alinhá-los<br />
com a biodiversidade corporativa e metas de<br />
mudança climática. “A falta de investimento<br />
em ferramentas e soluções que governam,<br />
prevêem e se adaptam a novos impactos ESG<br />
pode ter uma influência significativa na marca<br />
ou imagem da empresa, na percepção do valor<br />
do cliente e no custo e disponibilidade dos<br />
produtos”, refere Christian Titze.<br />
7IA e Analytics Incorporados<br />
Estas tecnologias consistem em recursos de<br />
software que fornecem relatórios em temporeal,<br />
visualização de dados interactivos,<br />
e analytics e inteligência avançadas<br />
directamente numa aplicação de negócios<br />
corporativos. O controlo de robôs móveis ou<br />
sistemas de separação robótica inteligente<br />
aproveitam ferramentas de analytics para<br />
optimizar ainda mais as operações.<br />
8Inteligência de Dados Aumentada<br />
Esta é uma combinação de várias tecnologias<br />
que facilitam o processamento avançado<br />
de dados em cima de uma plataforma,<br />
e permitem a entrega de informações<br />
perspicazes, previsões e sugestões. “As<br />
organizações da cadeia de abastecimento<br />
geralmente não têm todas as informações<br />
de que precisam para uma boa tomada de<br />
decisão. Os líderes de tecnologia procuram<br />
uma solução que os ajude a aumentar a<br />
visibilidade e que gere insights a partir dos<br />
dados. É aqui que a inteligência de dados<br />
aumentada chega ao lado das principais<br />
aplicações de negócios. Essas soluções têm<br />
a capacidade de recolher, correlacionar e<br />
analisar vários pipelines de dados e fornecer<br />
aos líderes as informações de que precisam”,<br />
conclui Christian Titze. •
SCM Supply Chain Magazine 47
48<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
TRANSPORTE<br />
Entrevista a Álvaro<br />
Fonseca, Takargo<br />
“o invesTimenTo<br />
nos TerminAis<br />
ferroviários,<br />
ComplemenTAres<br />
à rede, é um<br />
fACTor CríTiCo de<br />
suCesso”<br />
Álvaro Fonseca, director-geral da Takargo,<br />
operador ferroviário de carga que<br />
actua na Península Ibérica, comenta os<br />
investimentos na ferrovia, previstos e em<br />
curso, por parte do Governo, mas também<br />
os constrangimentos que envolvem o<br />
transporte ferroviário em Portugal e que vão<br />
para além das linhas.
SCM Supply Chain Magazine 49<br />
Texto: Fábio Santos<br />
Quando pensamos em investimento para<br />
o transporte ferroviário pensamos logo<br />
em comboios e em linhas que facilitem<br />
acessos e encurtem distâncias. No entanto, as<br />
necessidades do sector são mais abrangentes,<br />
e através do caso específico da Takargo<br />
podemos identificar algumas delas que por<br />
vezes podem passar mais despercebidas, e é<br />
especialmente importante identificá-las numa<br />
altura em que se estão a fazer investimentos<br />
para a melhoria deste sector por todo o país,<br />
nomeadamente com o Plano Ferrovia 2020 e<br />
com o novo Plano Ferroviário Nacional ainda<br />
em debate.<br />
Apesar de considerar existirem outras<br />
necessidades, é igualmente necessário<br />
destacar algumas questões ao nível da<br />
linha. Visto já estarem a ocorrer alguns dos<br />
investimentos previstos no Ferrovia 2020, uma<br />
das questões abordadas é a apresentação de<br />
alternativas aos operadores, pois necessitam<br />
de transportar a carga e isso tem custos<br />
acrescidos.<br />
“A maior preocupação e o ponto mais<br />
sensível da perspectiva de um operador<br />
ferroviário como a Takargo é a questão de<br />
mitigar os impactos na operação ferroviária<br />
enquanto decorrem as obras”, comenta o<br />
responsável. “Temos consciência de que é<br />
uma necessidade e não podemos chegar<br />
a uma infra-estrutura reabilitada e com<br />
melhores condições sem termos de passar<br />
pelas obras”, mas “é muito importante que se<br />
consiga mitigar, seja encontrando soluções<br />
alternativas de circulação, seja até através de<br />
alguma compensação aos operadores”.<br />
Por muito importante que possa ser<br />
necessário o investimento numa boa linha,<br />
“não vale a pena ter uma grande rede se não<br />
temos depois terminais e, portanto, acho que<br />
estamos a pensar menos nesta área e mais na<br />
linha. Como operador de mercadorias preciso<br />
dos dois”, afirma Álvaro Fonseca.<br />
A imporTânCiA de Ter<br />
bons TerminAis<br />
“Estamos muito focados em construir linha e<br />
em reabilitar linha, mas manifestamos aqui a<br />
nossa preocupação em relação aos terminais”,<br />
aponta Álvaro Fonseca. Por um lado, considera<br />
que poderia ser uma vantagem para as<br />
mercadorias haver uma identificação de quais<br />
são as localizações estratégicas, seja por<br />
clusters industriais, seja por haver confluência<br />
de linhas, se faz sentido desenvolverem-<br />
-se terminais de mercadorias e que se<br />
identifiquem os espaços em que estes podem<br />
surgir. “É muito importante que se pense já<br />
quais são essas áreas e como é que a conexão<br />
à rede ferroviária pode ser feita, porque não é<br />
de ânimo leve que amanhã um privado decide<br />
promover um terminal e encontra um terreno<br />
adjacente à rede ferroviária nacional e com<br />
uma conexão”, explica.<br />
não valE a pEna TEr uma grandE<br />
rEdE sE não TEmos dEpois<br />
TErminais<br />
Álvaro Fonseca
50<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
Ao nível dos terminais, Álvaro Fonseca<br />
considera que “primeiro temos de pensar onde<br />
é que os queremos ter e depois perceber,<br />
dos que já temos, como é que os vamos<br />
trabalhar”, expressando a sua preocupação<br />
mais concretamente ao nível da gradual<br />
desactivação do terminal da Bobadela. “Para<br />
um operador ferroviário uma decisão de<br />
desactivar uma infra-estrutura daquelas é<br />
sempre algo que vemos não com muitos bons<br />
olhos, porque funciona e tem boas condições<br />
para a operação, mas aceitando isso o que<br />
queremos é que seja identificada uma solução<br />
alternativa com urgência”, defende ainda o<br />
responsável, esperando que essa solução vá<br />
ao encontro das necessidades, “quer de serviço<br />
a Lisboa, quer também a promover o apoio<br />
aos portos”, nomeadamente ao de Lisboa, que<br />
sofrerá um impacto maior com esta decisão.<br />
“Penso que faria sentido termos neste plano<br />
algo mais relativamente às conexões aos<br />
terminais, ou uma estratégia para terminais”,<br />
defende ainda o responsável, ou em formas de<br />
apoiar seja a indústria, seja os operadores, na<br />
melhoria de terminais existentes de fábricas<br />
para o acesso dos comboio a essas instalações,<br />
seja para o desenvolvimento de terminais<br />
multimodais.<br />
assim como não nos inTErEssa<br />
TEr uma muiTo boa rEdE sE não<br />
TEmos TErminais, Também não nos<br />
inTErEssa TEr uma muiTo boa rEdE<br />
sE não TEmos comboios<br />
mATeriAl CirCulAnTe<br />
e o Convel<br />
“Assim como não nos interessa ter uma muito<br />
boa rede se não temos terminais, também não<br />
nos interessa ter uma muito boa rede se não<br />
temos comboios”, afirma ainda Álvaro Fonseca,<br />
e explica os problemas do investimento em<br />
material circulante, entre os quais se encontra<br />
o Convel (Controlo Automático de Velocidade),<br />
e que em muito impede a recuperação de<br />
equipamentos.<br />
O responsável conta que “a realidade<br />
que temos hoje é que tendo o fornecedor<br />
declarado o fim de vida do Convel, neste<br />
momento não temos forma de investir em<br />
novo material circulante para Portugal a<br />
preços de mercado”, e como tal, o material que<br />
existe é apenas esse e que já tem o Convel<br />
instalado, mas cuja reparação é agora de<br />
difícil resolução, pois não existem unidades de<br />
Convel/peças sobressalentes que se possam<br />
adquirir, e já não podem ser produzidas. Ao<br />
mesmo tempo, já não existe a possibilidade<br />
de fazer um projecto de Convel para novas<br />
séries de material, e têm de recorrer ao ETCS,<br />
que não funciona sem haver um sistema que<br />
leia as balizas de Convel, e isso é preciso ser<br />
desenvolvido, e iria encarecer os sistemas.<br />
Como forma de desenvolver essa<br />
funcionalidade, Álvaro Fonseca defende<br />
a “criação de uma task-force entre IP e os<br />
operadores portugueses, e mesmo espanhóis<br />
que tenham interesse em introduzir material<br />
em Portugal”, pois sem isto “podemos estar a<br />
investir em infra-estrutura e no curto/médio<br />
prazo não temos capacidade de crescer em<br />
Portugal porque não há material circulante<br />
disponível”.
SCM Supply Chain Magazine 51<br />
imaginEm TEr um arranquE dE um projEcTo quE dEmorE dois mEsEs, sE Eu<br />
TivEr vagõEs parados duranTE dois mEsEs à EspEra quE o cliEnTE dê a<br />
aprovação, é um prEjuízo dE 30 a 40 mil Euros só Em EquipamEnTo parado<br />
“É mais fácil discutir-se rede, porque é uma<br />
coisa visível, do que depois se discutir as<br />
vicissitudes da operação, porque há menos<br />
gente que a conheça, e não têm uma noção da<br />
estrutura de custo e das dificuldades”, afirma<br />
ainda o responsável.<br />
Numa preocupação de curto prazo, o<br />
director geral da Takargo refere a preocupação<br />
dos apoios à ferrovia e na estratégia de<br />
descarbonização, por toda a Europa, no<br />
entanto sente que ao nível português ainda<br />
não se vê muito este tipo de iniciativas,<br />
mas sim “uma transferência de custo dos<br />
passageiros para as mercadorias e, portanto,<br />
uma tendência de incremento das tarifas nas<br />
infra-estruturas em Portugal, sustentada<br />
nos próximos anos para os operadores<br />
de mercadorias”. Considera que isso é um<br />
pouco contraditório face aos projectos<br />
de investimento, promoção da ferrovia e<br />
incentivo de transferência modal da rodovia<br />
para a ferrovia, e como tal “esta política<br />
de tarifação penso que vá um pouco em<br />
contraciclo do que é toda a estratégia quer<br />
de promoção da ferrovia de mercadorias,<br />
quer do investimento em linha para a ferrovia<br />
de mercadorias”, e como tal deveria ser<br />
repensado.<br />
Ao nível do transporte de passageiros, não<br />
têm apenas impactos negativos sobre esta<br />
questão das tarifas, mas também podem<br />
afectar positivamente a actividade ferroviária<br />
de mercadorias. Dos investimentos previstos,<br />
destaca a nova linha Porto-Lisboa e Braga-<br />
Valença, que apesar de serem mais focados<br />
na redução de tempo de trajecto para os<br />
passageiros, “vai trazer uma libertação de<br />
espaço-canal para as mercadorias nas linhas<br />
existentes”.<br />
Uma das grandes dificuldades envolve a<br />
resposta a novos projectos, pois enquanto um<br />
operador rodoviário facilmente se ajusta a<br />
vários projectos em simultâneo ou a um muito<br />
grande aluga ou compra camiões com muita<br />
facilidade, para um operador ferroviário é<br />
necessário antecipar com vários meses ou até<br />
poucos anos, de modo a que se consiga criar a<br />
capacidade necessária para responder a esse<br />
projecto, como “gerir os meus equipamentos<br />
melhor ou tentar alugar mais uma locomotiva<br />
ou comprar e reabilitá-la”.<br />
“Imaginem ter um arranque de um projecto<br />
que demore dois meses, se eu tiver vagões<br />
parados durante dois meses à espera que o<br />
cliente dê a aprovação, é um prejuízo de 30 a<br />
40 mil euros só em equipamento parado, por<br />
exemplo, e num negócio como é o ferroviário,<br />
que tem margens muito pequenas, vou<br />
precisar de anos para recuperar esse atraso”,<br />
revela ainda Álvaro Fonseca.
52<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
o grandE EnTravE TEm sido o<br />
prEço, Em comparação ao camião,<br />
E Também do ponTo dE visTa das<br />
condiçõEs opEracionais<br />
o reTorno dA lonGA disTânCiA<br />
“Acho que um futuro que pode estar aí e<br />
que terá um racional muito forte será a<br />
transferência modal de carga da rodovia<br />
para a ferrovia para as maiores distância,<br />
havendo condições de competitividade no<br />
além-Pirenéus”, antecipa Álvaro Fonseca,<br />
esperando novos investimentos a longa<br />
distância, com o retorno de comboios para<br />
países como França e Alemanha. “Isso pode vir<br />
a acontecer, seja pela pressão que temos do<br />
lado da rodovia, com o aumento de custos e<br />
com a falta de motoristas, seja pelo aumento<br />
da competitividade da ferrovia, com comboios<br />
maiores e com melhores condições de<br />
circulação”, especula.<br />
Para chegar além-Pirenéus, o responsável<br />
explica que “o grande entrave tem sido o<br />
preço, em comparação ao camião, e também<br />
do ponto de vista das condições operacionais,<br />
porque com o corredor atlântico alguns<br />
dos problemas de gestão de capacidade, de<br />
horários e de articulação de operadores tende<br />
agora a esbater-se”.<br />
Antecipa ainda a criação de terminais<br />
adaptados, seja à carga de serviço intermodal,<br />
seja inclusivamente à carga de camiões a<br />
bordo dos comboios. “Todo este tipo de<br />
terminais tem custos grandes e acho que<br />
era importante pensarmos em formas que<br />
nos permitam suportar investimentos muito<br />
significativos neste tipo de infra-estrutura”,<br />
realçando que não espera algo como<br />
subsidiação pura, mas sim “apoios ou linhas<br />
de financiamento que nos permitam e aos<br />
nosso clientes suportar investimentos muito<br />
significativos na reconversão de terminais<br />
e fábricas, adaptando-os à nova realidade<br />
dos comboios, que terão maiores dimensões,<br />
exigirão tempos mais reduzidos de rotação<br />
nas operações de carga e descarga e melhores<br />
conexões intermodais”.
SCM Supply Chain Magazine 53<br />
empresAs ferroviáriAs<br />
AssoCiAm-se<br />
Recentemente, a Takargo e a Medway uniram-<br />
-se para criar uma associação de direito<br />
privado sem fins lucrativos que representa<br />
a ferrovia em Portugal, e da qual Álvaro<br />
Fonseca é vice-presidente: a Associação<br />
Portuguesa de Empresas Ferroviárias (APEF).<br />
Esta nova associação tem como objectivo<br />
a defesa dos interesses dos operadores e<br />
empresas ferroviárias e pretende promover a<br />
cooperação e o intercâmbio de experiências<br />
entre associados, bem como defender o<br />
fortalecimento das condições estruturais<br />
favoráveis à utilização do transporte<br />
ferroviário de mercadorias.<br />
Miguel Lisboa, presidente da APEF e<br />
presidente da Takargo, comentava aquando<br />
do anúncio da criação da empresa que “era<br />
urgente a criação de uma entidade como<br />
a APEF, que promovesse a cooperação e a<br />
colaboração entre entidades ferroviárias,<br />
assim como a divulgação e defesa de todos<br />
os seus direitos. Acreditamos no valor que a<br />
APEF que irá acrescentar a todas as empresas<br />
ferroviárias, à cadeia logística e à economia<br />
nacionais”.<br />
Segundo a associação, a APEF irá<br />
envolver temas como a melhoria da posição<br />
competitiva do transporte ferroviário de<br />
mercadorias, a criação de melhores condições<br />
de funcionamento para o transporte<br />
ferroviário de mercadorias na rede ferroviária<br />
nacional, ibérica e europeia e a aposta na<br />
interoperabilidade na ferrovia, prestando<br />
ainda serviços como consultoria, cursos e<br />
formações. •
54<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
TRANSPORTE<br />
Hidrogénio<br />
Texto: Dora Assis<br />
desCArboniZAção: o fuTuro é já<br />
Quando se pensa nas questões da sustentabilidade associadas à logística e à gestão das<br />
cýadĄeċiİasƌ dĄeċ abüasƌtƙeċcýiİmőeċnœtƙoŝ, nœãùoŝ éČ eċxǃagĤeċrƄoŝ afiǟrƄmőarƄ qƃuơeċ, eċmő büoŝa mőeċdĄiİdĄa, oŝ fģuơtƙuơrƄoŝ éČ jłá. ParƄa<br />
atingir o objectivo estratégico de descarbonização previsto no European Green Deal, o sector<br />
está cada vez mais atento às questões relacionadas com os combustíveis. E, segundo os<br />
especialistas, o hidrogénio é uma solução promissora. Vamos tentar perceber onde, como e<br />
de que forma o futuro na supply chain passa por aí.
SCM Supply Chain Magazine 55<br />
Consegue imaginar um terminal portuário<br />
ou intermodal a operar sem reach stackers?<br />
Provavelmente não. Contudo, essa imagem<br />
vai mudar à medida que os veículos a diesel<br />
forem sendo substituídos no futuro por<br />
congéneres a hidrogénio. Ainda recentemente,<br />
a Hyster, anunciou que estava a desenvolver<br />
um reach stacker movido a hidrogénio no<br />
âmbito do projecto H2Ports para o Porto de<br />
Valência. O veículo terá características de<br />
capacidade e velocidade em tudo semelhantes<br />
à versão diesel, mas com uma diferença<br />
fundamental em termos de operação: emitirá<br />
apenas água e calor. A Hyster planeia testar<br />
a sua inovação em condições reais em duas<br />
instalações marítimas, a saber: no MSC<br />
Terminal Valencia e no Valencia Terminal<br />
Europa (parte do Grimaldi Group).<br />
O H2Ports é uma iniciativa criada para<br />
demonstrar e validar em operações portuárias<br />
reais soluções inovadoras baseadas na<br />
utilização de hidrogénio. Contudo, há outros<br />
projectos semelhantes na Europa destinados<br />
a desenvolver e promover a utilização do<br />
hidrogénio como combustível em navios e<br />
portos. O HyShip é um deles.<br />
Foi estabelecido em 2020, é liderado pelo<br />
operador marítimo norueguês Wilhelmsen<br />
e tem como missão desenvolver o conceito<br />
Topeka, um serviço de não emissão para operar<br />
entre as bases de abastecimento offshore na<br />
costa oeste norueguesa.<br />
Trata-se do primeiro protótipo de um navio<br />
ro-ro que funcionará com uma bateria e uma<br />
célula de combustível de hidrogénio com<br />
membrana de troca de protões especializada.<br />
O consórcio também desenvolve várias<br />
embarcações movidas a LH2, incluindo uma<br />
barcaça-tanque menor, uma balsa rápida e um<br />
navio de alto mar.<br />
ThE Flagships é um dos<br />
projEcTos sobrE os quais<br />
provavElmEnTE ouvirEmos<br />
Falar Em brEvE<br />
Outro projecto digno de realce neste<br />
âmbito é o MARANDA, que foi fundado em<br />
2017 para acelerar a introdução de células a<br />
combustível de hidrogénio no sector marítimo.<br />
Posteriormente, foi declarado que o navio de<br />
pesquisa Aranda se tornaria no seu navio de<br />
demonstração. A embarcação deveria ter um<br />
benefício duplo, já que se esperava que usasse<br />
o excesso de hidrogénio da indústria química da<br />
Finlândia. No entanto, desde 2020 que não se<br />
conhecem actualizações sobre este projecto.<br />
The Flagships é um dos projectos sobre<br />
os quais provavelmente ouviremos falar em<br />
breve. Os navios de demonstração incluem<br />
o primeiro navio comercial de transporte de<br />
carga do mundo a operar com hidrogénio no<br />
rio Sena, em Paris. O início das operações<br />
comerciais estava programado para <strong>2021</strong> e será<br />
operado pela Compagnie Fluvial de Transport, a<br />
empresa de navegação interior francesa focada<br />
no desenvolvimento da distribuição urbana em<br />
Paris e arredores, por navios de transporte.
56<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
Em invEsTigação EsTá Também a possibilidadE dE produção Em<br />
grandE Escala dE “hidrogénio vErdE“<br />
o porTo enerGéTiCo<br />
De Paris, vamos agora até Roterdão. O<br />
porto de Roterdão não é apenas o maior<br />
porto europeu de contentores; é também<br />
considerado o principal porto de energia do<br />
Noroeste da Europa. Actualmente, 13 por<br />
cento das necessidades totais de energia da<br />
União Europeia são entregues todos os anos<br />
via Roterdão. Estamos a falar sobretudo de<br />
petróleo bruto, sendo que aquela autoridade<br />
portuária está empenhada em manter esta<br />
valência no futuro, mas com outra base<br />
energética, que consistirá sobretudo em<br />
hidrogénio.<br />
De acordo com o Porto de Roterdão, é<br />
expectável que a procura por hidrogénio<br />
aumente significativamente, em particular no<br />
mercado holandês. Hoje, a necessidade anual é<br />
estimada em 0,4 milhões de toneladas anuais<br />
em Roterdão e 0,8 milhões de toneladas na<br />
Holanda, um número que se espera venha a<br />
aumentar para quase 14 milhões de toneladas<br />
em 2050. Aproximadamente metade dessa<br />
quantidade, 7 milhões de toneladas, será<br />
processada em Roterdão.<br />
A Alemanha poderá aumentar a procura<br />
em 8 milhões de toneladas adicionais,<br />
enquanto outros países do noroeste da Europa<br />
poderiam exigir 5 milhões de toneladas<br />
de hidrogénio. Resultado? Os volumes de<br />
hidrogénio transportados via Roterdão podem<br />
aumentar em 5.000 por cento até 2050! Para<br />
este propósito há uma série de projectos e<br />
iniciativas a serem desenvolvidas e lançadas<br />
até 2030.<br />
A Autoridade do Porto de Roterdão e a<br />
Gasunie estão a trabalhar em conjunto para ter<br />
o oleoduto Backbone adaptado para hidrogénio<br />
e a passar pelo porto já em 2023, com o<br />
propósito de fornecer hidrogénio às empresas<br />
instaladas naquela infra-estrutura portuária.<br />
Posteriormente, o Backbone será ligado à<br />
infra-estrutura nacional da Gasunie em toda a<br />
Holanda.<br />
Em investigação está também a possibilidade<br />
de produção em grande escala de “hidrogénio<br />
verde” na área de Maasvlakte recorrendo<br />
aos parques eólicos offshore. O estudo de<br />
viabilidade será concluído durante este Verão.<br />
Quanto ao “hidrogénio azul”, a sua produção de<br />
baixo carbono deve ser alcançada pela captura<br />
e armazenamento de CO2 abaixo do fundo do<br />
mar em campos de gás esgotados no Mar do<br />
Norte. O novo combustível e a infra-estrutura<br />
serão parcialmente usados para 500 novos<br />
camiões movidos a hidrogénio que deverão<br />
estar baseados e operar na área do Porto de<br />
Roterdão até 2025.<br />
na américa do norTE, a primEira<br />
locomoTiva para TransporTE dE<br />
mErcadorias E carga a hidrogénio<br />
podE sEr consTruída pEla<br />
canadian paciFic railway
SCM Supply Chain Magazine 57<br />
o hidroGénio no TrAnsporTe<br />
TerresTre<br />
A verdade é que o hidrogénio tem vindo a<br />
ganhar popularidade entre os fabricantes de<br />
camiões. Várias empresas globais apresentaram<br />
o ano passado os seus veículos pesados<br />
movidos a hidrogénio. A Hyundai vai lançar<br />
1.600 veículos a hidrogénio do tipo XCIENT<br />
Fuel Cell até 2025. O modelo foi apresentado<br />
em Julho de 2020 e é considerado o primeiro<br />
camião pesado de célula de combustível do<br />
mundo. Em Setembro de 2020, a Daimler Truck<br />
celebrou a estreia do seu camião com o mesmo<br />
conceito, o Mercedes-Benz GenH2 Truck e, já<br />
em Dezembro, a Toyota anunciou a entrega<br />
para os Estados Unidos dos seus dois primeiros<br />
camiões pesados movidos a hidrogénio do tipo<br />
Kenworth.<br />
No sector ferroviário, o hidrogénio tem<br />
vindo a ser utilizado principalmente para o<br />
transporte de passageiros (comboios Coradia<br />
iLint da Alstom e Mireo da Siemens). Contudo,<br />
já há alguns projectos dedicados ao transporte<br />
de mercadorias. A fabricante polaca de<br />
material rolante Pesa Bydgoszcz anunciou que<br />
está a concluir os trabalhos da sua primeira<br />
locomotiva a hidrogénio. De acordo com o CEO<br />
da empresa, Krzysztof Zdziarski, deverá ser<br />
lançada em <strong>2021</strong> e em 2022 o veículo deve<br />
estar certificado e totalmente operacional.<br />
Na América do Norte, a primeira locomotiva<br />
para transporte de mercadorias e carga a<br />
hidrogénio pode ser construída pela Canadian<br />
Pacific Railway, pois a empresa começou a<br />
desenvolver uma locomotiva a hidrogénio<br />
baseada num veículo diesel convencional.<br />
Seis módulos de células de combustível com<br />
capacidade de 200 quilowatts serão instalados<br />
no lugar de um motor a diesel e um gerador.<br />
Se o teste for bem sucedido, a Canadian Pacific<br />
colocará esta tecnologia em prática. •
58<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
TRANSPORTE<br />
Carga Aérea<br />
“<strong>2021</strong> será<br />
ouTro Ano<br />
difíCil”<br />
Saindo do pior ano para a procura de carga<br />
aérea desde que a Associação Internacional<br />
de Transporte Aéreo (IATA) começou a<br />
rastrear as tendências, em 1990, esta<br />
indústria começa a procurar levantar voo<br />
dĄoŝ “dĄeċsƌasƌtƙrƄeċ nœatƙuơrƄalň” qƃuơeċ sƌiİgĤnœiİfiǟcýoŝuơ 2020<br />
e encontrar um caminho para o seu “novo<br />
ambiente operacional normal”.
SCM Supply Chain Magazine 59<br />
Texto: Dora Assis<br />
Com a capacidade de carga aérea cada vez<br />
mais difícil de segurar e as taxas de frete<br />
em alta, as transportadoras que planeiam<br />
com antecedência e exploram opções<br />
alternativas serão capazes de superar os<br />
desafios actuais, enquanto se preparam para o<br />
que as espera no pós-COVID-19. Pelo menos a<br />
IATA assim crê.<br />
Duramente atingido por bloqueios globais,<br />
restrições de viagens, escassez de mão-deobra<br />
e outros problemas que surgiram quando<br />
a pandemia de COVID-19-19 atingiu países<br />
em todo o mundo, o sector de frete aéreo<br />
experimentou um declínio no volume de 10,6%<br />
em 2020 em comparação com 2019.<br />
Mas há outros números que caracterizam<br />
o ano mau. A capacidade global, medida em<br />
toneladas-km de carga disponível (ACTK),<br />
diminuiu 23,3% em 2020 por comparação com<br />
2019.<br />
Devido à falta de capacidade disponível, os<br />
factores de ocupação de carga aumentaram<br />
7,7% em 2020. A IATA afirma que isso contribuiu<br />
para aumentar os rendimentos e as receitas,<br />
apoiando as companhias aéreas e alguns<br />
serviços de passageiros de longa distância.<br />
Em Dezembro, a procura global estava<br />
0,5% abaixo dos níveis do ano anterior e a<br />
capacidade global estava 17,7% abaixo dos<br />
níveis do ano anterior.<br />
“Isto é muito mais profundo do que a<br />
contracção da procura, indicando a contínua<br />
contracção severa da capacidade”, observa<br />
a IATA. “Com a recuperação estagnada nos<br />
mercados de passageiros, não há fim à vista<br />
para a crise de capacidade.”<br />
com a rEcupEração EsTagnada<br />
nos mErcados dE passagEiros,<br />
não há Fim à visTa para a crisE<br />
dE capacidadE<br />
IATA<br />
CAuTelosAmenTe opTimisTA<br />
Avaliando o ambiente actual do transporte<br />
aéreo, a IATA diz que as condições económicas<br />
estavam “a melhorar” no início de Fevereiro<br />
e que o sector de carga está a “sobreviver<br />
à crise de melhor forma do que o sector de<br />
passageiros”.<br />
“Para muitas companhias aéreas, em 2020,<br />
o frete aéreo tornou-se uma fonte vital de<br />
receita, apesar da fraca procura. Mas com<br />
grande parte da frota de passageiros em<br />
terra, responder à procura sem capacidade de<br />
carga continua a ser um grande desafio”, disse<br />
Alexandre de Juniac, da IATA, num comunicado<br />
à imprensa.<br />
“E, à medida que os países aumentam as<br />
restrições às viagens face às novas variantes do<br />
Coronavírus, é difícil ver melhorias”, continuou<br />
de Juniac. “<strong>2021</strong> será outro ano difícil.”
60<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
TAxAs esTão A subir<br />
De acordo com a Supply Chain Dive, a falta<br />
de capacidade associada à procura contínua<br />
empurrou as taxas de frete aéreo para níveis<br />
acima de 2019. “As taxas mais do que dobraram<br />
de ano para ano da China para os EUA, para<br />
chegar a US$ 7,57 por quilo na última semana<br />
de Dezembro”, avança a publicação, “mas os<br />
preços já caíram para US$ 6,19 por quilo na<br />
primeira quinzena de Janeiro.”<br />
Estas flutuações provavelmente continuarão<br />
à medida que <strong>2021</strong> avançar, o que significa que<br />
os carregadores terão que aprender a planear<br />
com incertezas para deste modo garantirem<br />
a sua capacidade de frete aéreo nos próximos<br />
meses. “A previsão precisa pelos carregadores<br />
será crucial para gerir requisitos e custos<br />
de envio de forma eficiente, já que as taxas<br />
dos fretes aéreos parecem permanecer altas<br />
durante este ano.” diz a este propósito o The<br />
Loadstar.<br />
O Baltic Air Freight Index teve há umas<br />
semanas um aumento anual de 100%,<br />
acrescenta, enquanto nas últimas semanas<br />
os números de falta de capacidade foram dos<br />
mais altos desde o segundo trimestre de 2020.<br />
No entanto, na Ásia, os operadores notam um<br />
mercado enfraquecido fora da China, em parte<br />
devido aos bloqueios, embora o comércio<br />
electrónico continue forte.<br />
“Quanto ao frete aéreo, as taxas de câmbio<br />
à vista foram reduzidas após o ano novo, mas<br />
não foi uma queda”, disse um despachante<br />
do sudeste da Ásia ao The Loadstar. “O<br />
frete aéreo [taxas] em geral pode não cair<br />
significativamente nos próximos seis meses,<br />
pelo menos. Afinal, o aumento da capacidade<br />
da cabine de passageiros ficará ausente por um<br />
tempo.”<br />
TanTo quanTo possívEl, uma maior<br />
colaboração com os parcEiros<br />
é EssEncial: comunicação com<br />
os TransiTários E opEradorEs<br />
E inTEgração dE dados E<br />
FErramEnTas TEcnológicas<br />
The Loadstar<br />
AbordAGem flexível<br />
Com a escassez de capacidade a continuar a<br />
pressionar as taxas de frete aéreo, em parte<br />
devido ao crescente mercado de e-commerce,<br />
as transportadoras também devem estar<br />
preparadas para lidar com tendências sazonais<br />
incertas. A procura contínua por EPI, grandes<br />
eventos climáticos e a distribuição global da<br />
vacina também afectarão o sector este ano e<br />
até 2022, dizem os especialistas.<br />
Para lidar com estas e as outras questões<br />
relacionadas com a carga aérea de forma<br />
eficaz, as transportadoras devem investir mais<br />
tempo a fazer uma boa previsão e planeamento<br />
da procura e paralelamente partilhar esses<br />
dados com os seus fornecedores de serviços<br />
logísticos.<br />
“Tanto quanto possível, uma maior<br />
colaboração com os parceiros é essencial:<br />
comunicação com os transitários e operadores<br />
e integração de dados e ferramentas<br />
tecnológicas”, aconselha o The Loadstar.
SCM Supply Chain Magazine 61<br />
Dada a conjuntura e todas as incertezas que<br />
ainda se fazem sentir e em que é quase preciso<br />
ponderar o impensável, a Inbound Logistics<br />
também sugere que os carregadores continuem<br />
a avaliar outros modos de transporte e tirem<br />
o máximo proveito da tecnologia que lhes<br />
permite gerir e reservar fretes com eficiência,<br />
comparar taxas, modos... No fundo, adoptar<br />
uma abordagem flexível e trabalhar em estreita<br />
colaboração com operadores e fornecedores de<br />
serviços logísticos responsáveis, idóneos, para<br />
que em conjunto as empresas possam superar<br />
os desafios actuais, enquanto se preparam para<br />
o ambiente de negócios pós-COVID-19, que será<br />
outro grande desafio. •<br />
TOGETHER<br />
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62<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
CARREIRA<br />
Os desafios do<br />
trabalho remoto<br />
Texto: Claúdia Brito, EMEA distribution<br />
director da McCormick & Company<br />
o Que eu<br />
Aprendi sobre<br />
A GesTão<br />
de eQuipAs<br />
remoTAs<br />
pArTe i<br />
No âmbito da<br />
minha recémterminada<br />
Pós-<br />
Graduação em<br />
Gestão de Pessoas<br />
e Talentos, na Nova<br />
School of Business &<br />
Economics, um dos trabalhos individuais<br />
que submeti para avaliação (em Janeiro<br />
de 2020) era sobre a gestão de equipas<br />
remotas. Este é um tópico que me é querido<br />
há muito tempo; mal sabia eu, na altura em<br />
que escrevi sobre ele, que se tornaria do<br />
interesse de tantas pessoas, poucos meses<br />
depois, infelizmente não pelas melhores<br />
razões. Partilho aqui partes do meu ensaio,<br />
no intuito de dar mais algumas pistas<br />
aqueles que experimentam esta maneira de<br />
trabalhar pela primeira vez.
SCM Supply Chain Magazine 63<br />
Nos últimos dez anos trabalhei<br />
remotamente, em organizações matriciais,<br />
reportando a chefes baseados noutro<br />
país e liderando equipas dispersas geográfica<br />
e funcionalmente. Os desafios que surgem<br />
neste “ecossistema” amplificam os do trabalho<br />
em equipa e são significativos e actuais, seja<br />
porque a tecnologia pode ajudar, mas também<br />
dificultar, seja porque não deixamos de ser o<br />
homo sapiens que se formou evolutivamente<br />
há dezenas de milhares de anos, com o nosso<br />
cérebro ainda a privilegiar tudo o que nos<br />
aproxima da vida numa tribo, sempre à espera<br />
de poder ver e tocar aquilo que é importante.<br />
O trabalho remoto em geral (ou seja, pessoas<br />
trabalhando juntas, mas em diferentes espaços<br />
físicos), pontual ou estrutural, tem impacto<br />
positivo na satisfação, produtividade e custos<br />
dos empregados duma empresa (Olmstead,<br />
2019). De notar que o “presenteísmo” (um<br />
problema organizacional em que o empregado<br />
está presente fisicamente, mas de resto<br />
alheado do seu trabalho, emocional e<br />
mentalmente) não existe por definição quando<br />
as pessoas trabalham em espaços diferentes.<br />
Além disso, o trabalho remoto contribui<br />
directamente para a sustentabilidade do meio<br />
ambiente, pela redução dos fluxos diários de<br />
pessoas que se cruzam nos transportes para os<br />
locais de trabalho (segundo estimativas várias,<br />
os transportes são responsáveis por cerca de<br />
um quarto das emissões de gases com efeito de<br />
estufa da União Europeia).<br />
No que ao trabalho em equipa diz respeito,<br />
a estas vantagens acresce a possibilidade de<br />
aumentar a diversidade e o talento dos seus<br />
membros, dado que a sua composição não<br />
está limitada àqueles que podem viver numa<br />
mesma localização e cumprir com horários prédeterminados.
64<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
As equipas remotas, também chamadas de<br />
virtuais, são geralmente descritas como grupos<br />
culturalmente variados, geograficamente<br />
dispersos e comunicando electronicamente.<br />
Algumas formam-se, mudam e dissolvemse<br />
rapidamente, outras são mais estáveis ao<br />
longo do tempo. Muitas são matriciais, em<br />
que os chefes funcionais são distintos do<br />
chefe da equipa ou do projecto. As falhas<br />
de comunicação são fatais em equipas<br />
deste tipo, mais ainda do que em equipas<br />
de membros fisicamente próximos. As<br />
companhias tecnológicas, pela sua própria<br />
natureza, têm investido muito neste tipo de<br />
modelo organizacional e há cinco áreas que<br />
determinam a qualidade da comunicação<br />
à distância: confiança, relacionamentos<br />
interpessoais, diferenças culturais, liderança e<br />
tecnologia (Daim et al, 2012).<br />
Em relação aos relacionamentos,<br />
cada vez mais reconhecidos como<br />
importantes a todos os níveis (no<br />
fundo, os soft-skills mais não fazem<br />
do que alimentá-los) estamos<br />
“programados” para ler as mensagens<br />
não verbais dos nossos pares, com<br />
todos os nossos sentidos, e numa relação<br />
remota ficamos seriamente manietados.<br />
É preciso uma grande dose de boa vontade,<br />
paciência e inteligência para ultrapassar as<br />
barreiras físicas e emocionais que existem<br />
quando não nos podemos encontrar para tomar<br />
um café ou simplesmente conversar sobre os<br />
pequenos assuntos que tecem a malha<br />
da nossa vida. É, no entanto, essencial<br />
fazê-lo, porque o mundo mudou, o<br />
terreno em que operamos é global e<br />
provavelmente vamos interagir com<br />
pessoas que nunca veremos a não ser<br />
por skype.<br />
Finalmente, como a imensa literatura ligada<br />
à psicologia comportamental tem posto a<br />
descoberto, as interacções humanas são<br />
baseadas no modelo que se estabeleceu nas<br />
sociedades originais do homo sapiens préhistórico,<br />
suportadas por rituais e eventos em<br />
comunidade, com vista à coesão social. Uma<br />
empresa tem necessariamente de estabelecer e<br />
alimentar continuamente uma cultura própria,<br />
a qual lhe dá a identidade e agrega num grupo<br />
coeso os seus membros. Esta união “espiritual”<br />
torna-se mais fácil quando o próprio ambiente<br />
fomenta o espírito que se quer propagar. É<br />
assim exigido maior esforço e intencionalidade<br />
por parte da empresa para integrar os<br />
empregados remotos. •
SCM Supply Chain Magazine 65<br />
CARREIRA<br />
DHL Resource Center<br />
inovAr nA<br />
formAção O<br />
Resource<br />
Tecnologia de ponta, realidade virtual,<br />
óculos 3D ou simuladores virtuais aplicados<br />
à logística são algumas das vertentes do<br />
centro de formação que a DHL Supply Chain<br />
tem operacional desde o início de <strong>Maio</strong>, na<br />
Azambuja. Se no contexto do grupo é um<br />
projecto importante, em Portugal trata-se<br />
de um centro de formação inovador e único,<br />
qƃuơeċ cýoŝnœtƙrƄiİbüuơiİ pƁarƄa amőpƁlňiİfiǟcýarƄ a cýoŝlňabüoŝrƄaçĀãùoŝ<br />
e a capacitação dos trabalhadores do<br />
operador logístico.<br />
Texto: Dora Assis<br />
Fotos: DHL Resource Center<br />
Center da DHL Supply Chain já<br />
foi desenvolvido durante a conjuntura<br />
pandémica e hoje traduz-se num centro<br />
de desenvolvimento e atracção de talentos<br />
muito focado no desenvolvimento dos seus<br />
trabalhadores. Através da combinação de<br />
formação teórica com tecnologia de ponta,<br />
realidade virtual e software de gestão<br />
avançado, todos os utilizadores do centro<br />
podem conhecer melhor a empresa e os seus<br />
parceiros, experimentar através de simulação<br />
novos processos, bem como testar soluções<br />
tecnológicas inovadoras, num ambiente<br />
controlado e seguro e até mesmo conduzir<br />
virtualmente máquinas ou visitar os armazéns<br />
internacionais da DHL Supply Chain.
66<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
À Supply Chain Magazine, Rui Gomes, country<br />
manager do operador logístico explica que<br />
o Resource Center “permitirá, de uma forma<br />
mais célere e objectiva, suportar os processos<br />
de selecção, formação e desenvolvimento<br />
dos nossos colaboradores. Potenciará a<br />
redução da sua curva de aprendizagem,<br />
aumentando os seus conhecimentos através de<br />
utilização de tecnologia de topo. Este centro<br />
permitir-nos-á também realizar investigação<br />
e desenvolvimento dos nossos processos<br />
logísticos, de modo a suportar a agenda de<br />
inovação e de melhoria contínua”.<br />
Rui Gomes, country manager<br />
seGurAnçA é prioridAde<br />
Actualmente, cada funcionário da DHL Supply<br />
Chain Ibéria recebe mais de 25 horas de<br />
formação por ano, com a empresa a investir<br />
perto de 800.000 euros anuais na área de<br />
formação e desenvolvimento. Actualmente e<br />
ainda com a lotação limitada a 50% devido à<br />
pandemia, o novo centro de formação tem a<br />
capacidade estimada de poder formar mais de<br />
600 pessoas/ano.<br />
“A experiência indica-nos que com<br />
colaboradores em processos longos de<br />
aprendizagem, a produtividade geral dos<br />
nossos armazéns é afectada”, avança Rui<br />
Gomes. Com a entrada em funcionamento do<br />
novo centro, num local controlado e seguro,<br />
“os colaboradores podem testar e aprender<br />
os processos sem afectar a sua produtividade<br />
geral. Além disso, a nossa preocupação pela<br />
segurança é sempre uma prioridade e, desta<br />
forma, conseguimos transmitir<br />
as normas de segurança, sem<br />
qualquer risco”, acrescenta o n.º 1<br />
da empresa em Portugal.<br />
linhAs de forçA<br />
O centro irá permitir “de uma<br />
forma mais célere e objectiva,<br />
suportar os processos de selecção,<br />
formação e desenvolvimento<br />
dos nossos colaboradores.<br />
Potenciará a redução da sua curva<br />
de aprendizagem, aumentando<br />
os seus conhecimentos através<br />
da utilização de tecnologia de<br />
topo”, diz-nos. Por outro lado
SCM Supply Chain Magazine 67<br />
e não menos importante, face à<br />
revolução tecnológica que está a<br />
acontecer nas supply chains, esta<br />
nova infra-estrutura vai permitir ao<br />
operador logístico – com clientes<br />
que vão do grande consumo ao<br />
industrial ou ao farmacêutico, por<br />
exemplo – desenvolver em Portugal<br />
“investigação e desenvolvimento dos<br />
nossos processos logísticos, de modo a suportar<br />
a agenda de inovação e de melhoria contínua”,<br />
sublinha o country manager da DHL Supply<br />
Chain.<br />
O novo Resource Center já se encontrava<br />
no roadmap de inovação do operador logístico<br />
mas, como lembra Rui Gomes, “fazer este<br />
projecto num contexto de pandemia, foi não<br />
só uma necessidade, mas também um acto de<br />
coragem necessário”.<br />
O centro é utilizado pelas equipas da DHL<br />
Supply Chain tanto no âmbito de determinados<br />
projectos que estejam a ser desenvolvidos<br />
e para acções concretas e igualmente<br />
numa lógica de aprendizagem constante e<br />
de melhoria contínua. “Ou seja, os nossos<br />
colaboradores utilizarão o centro para receber<br />
formação de reciclagem, para conhecer novos<br />
processos, suportando a polivalência e a<br />
investigação, bem como a agenda de melhoria<br />
contínua e desenvolvimento”.<br />
Building<br />
the future<br />
together.<br />
Lisboa<br />
Telf.: +351 213 187 100<br />
Fax: 351 213 187 109<br />
E-mail: apatlis@apat.pt<br />
Porto<br />
Telf.: +351 229 962 329<br />
Fax: 351 229 964 241<br />
E-mail: apatnorte@apat.pt<br />
www.apat.pt
68<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
TrAbAlhAr por AnTeCipAção<br />
A existência de centros deste género poderá ser<br />
importante para que mais do que dar resposta<br />
às necessidades dos clientes, a DHL Supply<br />
Chain possa nalguns casos antecipá-las ou até<br />
mesmo criar no cliente e/ou no mercado uma<br />
necessidade que ainda nem existia. O country<br />
Manager da DHL Supply Chain corrobora<br />
este ponto de vista explicando que “uma vez<br />
que o centro trabalhará em antecipação às<br />
necessidades dos nossos parceiros, acreditamos<br />
que conseguiremos entregar de uma forma<br />
mais ágil e consistente os colaboradores<br />
devidamente formados e preparados para<br />
responder às exigências dos nossos clientes”.<br />
O futuro é sempre uma incógnita e muito<br />
mais ainda quando o contexto é o que o mundo<br />
vive na actualidade. Ainda assim, Rui Gomes<br />
não tem dúvidas que “a pandemia fez-nos<br />
procurar novas formas de trabalhar, sem nunca<br />
esquecer a segurança e o desenvolvimento<br />
das nossas pessoas e das nossas operações.<br />
A nível operacional, implementámos todas as<br />
recomendações da DGS, e em muitos casos<br />
fomos mais além. A nível de suporte e áreas<br />
funcionais, o trabalho remoto foi potenciado<br />
sempre que possível, situação que continua<br />
vigente”. •<br />
dA TeoriA à práTiCA<br />
O novo Centro de Formação Avançada destina-<br />
-se a combinar formação teórica e prática de<br />
alto nível em três secções: Academia; Formação<br />
em Gestão e Sala Virtual. Os candidatos vão<br />
receber formação de 16 horas de indução,16<br />
horas de reciclagem para pessoas que já<br />
têm experiência em armazém e 50 horas<br />
de actividade prática em simuladores para<br />
motoristas de empilhadores.<br />
A secção da Academia dos novos centros tem<br />
uma base eminentemente teórica para mostrar<br />
aos alunos a cultura e história da empresa,<br />
bem como as funções técnicas do trabalho de<br />
armazém, com especial ênfase no módulo que<br />
visa a prevenção dos riscos profissionais. Por<br />
seu lado, a secção de Formação em gestão foi<br />
concebida como um laboratório prático no qual<br />
os processos operacionais do armazém são<br />
replicados com o mesmo sistema de frequência<br />
de rádio, software de gestão de armazéns e<br />
automatismos utilizados no armazém real.<br />
Por fim, a Sala Virtual do centro proporciona<br />
um ambiente de formação que, apoiado por<br />
tecnologias como óculos 3D e simuladores<br />
virtuais semelhantes aos utilizados nos voos<br />
de formação de pilotos, proporciona aos alunos<br />
uma grande mais-valia na aprendizagem dos<br />
principais processos operacionais no armazém<br />
e no desenvolvimento de conhecimentos<br />
e agilidade suficientes para manusear<br />
empilhadores, que são fundamentais para a<br />
carga e descarga segura de paletes.
SCM Supply Chain Magazine 69<br />
Logística Compras Operações<br />
ACADEMIA DE FORMAÇÃO EM SUPPLY CHAIN<br />
GESTÃO DE PROCUREMENT I> 15,<br />
Procurement as a value drive<br />
in the organization<br />
GESTÃO DE ARMAZÉM> 7<br />
As melhores práticas para a optimização<br />
dos processos logísticos<br />
QUALIFICAÇÃO, SELECÇÃO ><br />
E AVALIAÇÃO<br />
DE FORNECEDORES<br />
GERIR COM SUCESSO A<br />
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10h00 – 12h00<br />
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& 10 SETEMBRO<br />
17h00 – 19h30<br />
180€ + IVA | 5H<br />
20 & 21 SETEMBRO<br />
10h00 – 12h30<br />
180€ + IVA | 5H<br />
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ACADEMIA DE FORMAÇÃO EM SUPPLY CHAIN
70<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
CARREIRA<br />
Novas competências<br />
vonTAde de reinvenção<br />
A GS1 Portugal promoveu um debate sobre “O futuro do trabalho:<br />
reskilling, upskilling & newskilling – Liderança e Gestão do Talento”<br />
reunindo, para isso, responsáveis de recursos humanos de grandes<br />
empresas nacionais. Apesar das diferentes experiências e visões há,<br />
em boa parte, uma perspectiva consensual: “faltanos<br />
a visão para o futuro”, mas as empresas<br />
portuguesas apostam na recapacitação<br />
dos seus colaboradores e na<br />
oportunidade de captação de<br />
talento internacional.
SCM Supply Chain Magazine 71<br />
Na primeira parte do<br />
encontro, o foco esteve<br />
direccionado para o tema<br />
“Pessoas, Educação e Mérito”<br />
e arrancou com a intervenção<br />
de João Pita Negrão, senior<br />
manager da área de Business<br />
Consulting | Human Capital, da<br />
Deloitte Portugal, em conjunto<br />
com Marisa Garrido, directora<br />
de Recursos Humanos dos CTT.<br />
João Pita Negrão comparou o modo de<br />
trabalho no período pré-pandémico e o<br />
sistema actual, realçando a necessária<br />
capacidade de adaptação. O senior manager<br />
destacou ainda o estudo que a Deloitte<br />
realizou sobre o futuro no trabalho, contando<br />
com a participação de várias empresas que<br />
dão a conhecer os desafios que enfrentaram<br />
e também aqueles que se avizinham<br />
num médio prazo. Dando como exemplo<br />
prático a realidade dos CTT, Marisa Garrido<br />
destacou “a audácia e cooperação de todos<br />
os colaboradores em assegurar o foco no<br />
trabalho e a saúde e protecção das pessoas”<br />
no primeiro confinamento. Sendo um serviço<br />
essencial, afirmou ainda que “as competências<br />
dos trabalhadores se mostraram relevantes<br />
nesta situação, nomeadamente a capacidade<br />
de liderança para assegurar que todas as<br />
decisões tomadas, no dia-a-dia e no terreno,<br />
eram as mais indicadas”.<br />
a mElhor Forma dE aprEndEr<br />
algo, é TEr a nEcEssidadE dE o<br />
Ensinar a ouTros<br />
Pedro Santa Clara<br />
oporTunidAdes de<br />
CresCimenTo<br />
Já Cléber Castro, líder de Produtos e Estratégia<br />
da Great Place to Work® Portugal, falou<br />
da importância de analisar o interior das<br />
organizações, ouvindo as pessoas, ajustando<br />
e implementando planos e acções com base<br />
no feedback recebido. “Desta forma, avaliar se<br />
se trata de um Great Place to Work, revela-se<br />
fundamental para a missão das empresas na<br />
análise de oportunidades de crescimento e<br />
desenvolvimento de negócio”, concluiu Cléber<br />
Castro.
72<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
A fechar a primeira parte do evento, Pedro<br />
Santa Clara, professor Catedrático de Finanças<br />
na NOVA SBE e co-fundador da Shaken Not<br />
Stirred, empresa orientada para projectos de<br />
educação, um dos quais a Escola 42 Lisboa,<br />
realçou que “a melhor forma de aprender<br />
algo, é ter a necessidade de o ensinar a<br />
outros”. Para tal, salientou a importância de<br />
desenvolver capacidades humanas como<br />
a colaboração, autonomia, criatividade e<br />
adaptação. “O programa Escola 42 é um modelo<br />
de aprendizagem radicalmente diferente e<br />
que consiste em lançar aos alunos um desafio:<br />
apesar de terem a possibilidade de se deslocar<br />
até à escola física, estes não possuem aulas<br />
nem professores. Desta forma, para responder<br />
aos desafios propostos, fica à responsabilidade<br />
de cada aluno adoptar métodos de pesquisa<br />
para os concretizar. O objectivo é leválos<br />
a adaptar-se à resolução de problemas<br />
complexos, preparando-os para o futuro”,<br />
explicou durante a sua intervenção.<br />
sE há coisa quE a pandEmia nos<br />
TrouxE dE bom Foi a possibilidadE<br />
dE conTraTar pEssoas quE EsTão<br />
Fora do país<br />
evolução diGiTAl e eColóGiCA<br />
O painel-debate, sobre o tema central do<br />
evento e moderado por Luís Ferreira Lopes,<br />
consultor da Presidência da República para a<br />
COTEC e para o Conselho da Diáspora, contou<br />
com a participação da Luís Simões, Grupo<br />
SECIL, Nestlé Portugal, Randstad Portugal e<br />
Sonae SGPS.<br />
Para Ana Vicente, head of People &<br />
Leadership da Sonae SGPS, “o período que<br />
atravessamos tem sido muito desafiante,<br />
com muita mudança”, mas acredita que<br />
“ainda teremos de nos adaptar para o que aí<br />
vem”. A responsável de recursos humanos da<br />
Sonae SGPS, destacou também “a janela de<br />
oportunidade criada com a pandemia no que<br />
diz respeito à evolução digital e ecológica das<br />
empresas”. Neste âmbito, Ana Vicente acredita<br />
ser essencial “preparar melhor o futuro para a<br />
capacitação dos colaboradores”, destacando<br />
o digital como uma oportunidade para a<br />
formação de pessoas.<br />
“Se há coisa que a pandemia nos trouxe de<br />
bom foi a possibilidade de contratar pessoas<br />
que estão fora do país. Há agora uma abertura<br />
para a captação de novos talentos, ainda que<br />
seja igualmente importante manter o foco na<br />
formação de lideranças, porque uma maior<br />
flexibilidade no modelo de trabalho também<br />
Ana Vicente
SCM Supply Chain Magazine 73<br />
traz desafios”, explicou Ana Vicente. Para o<br />
futuro, prevê que seja essencial o upskilling e<br />
reskilling dos colaboradores, não esquecendo “a<br />
necessidade de preparar as lideranças para esse<br />
futuro também”.<br />
Na sua intervenção, Isabel Moisés, directora<br />
executiva de Recursos Humanos do Grupo Secil,<br />
realçou o desafio da empresa em lidar com uma<br />
crise pandémica estando presente em vários<br />
países com culturas e formas de trabalhar<br />
muito distintas. “Esta situação revelou a<br />
necessidade dos líderes estarem mais próximos<br />
das suas equipas, além de ter vindo realçar a<br />
solidariedade e a empatia com o outro dentro<br />
da organização”, explicou Isabel Moisés. Quanto<br />
ao futuro, acredita “que é responsabilidade das<br />
empresas analisar a mudança que já aconteceu<br />
e transformá-la numa oportunidade”.<br />
mais do quE aTrair novos<br />
TalEnTos é EssEncial<br />
rEqualiFicar E rEcapaciTar o<br />
TalEnTo quE já ExisTE dEnTro das<br />
Equipas<br />
Maria do Rosário Vilhena<br />
fuTuro é hibrido<br />
Já Maria do Rosário Vilhena, head of Human<br />
Resources da Nestlé Portugal, acredita que<br />
o futuro passa por um modelo de trabalho<br />
híbrido, porque o momento de convivência<br />
entre as pessoas é importante para o<br />
desempenho das suas funções. Sobre o que<br />
se segue para as empresas, Maria do Rosário<br />
Vilhena reforça que “mais do que atrair novos<br />
talentos é essencial requalificar e recapacitar<br />
o talento que já existe dentro das equipas”.
74<br />
MAIO <strong>2021</strong><br />
TEm dE havEr uma aposTa ForTE<br />
no Ensino dual, no Ensino Técnico,<br />
prEcisamos dEssEs proFissionais<br />
para o FuTuro<br />
Maria do Rosário Vilhena<br />
“Aquilo de que precisamos hoje não é aquilo<br />
de que iremos precisar daqui a cinco ou dez<br />
anos e também sabemos que há pessoas que<br />
não vamos conseguir reconverter, mas é crucial<br />
mantermos o nosso papel de responsabilidade<br />
social para com esses colaboradores”, clarificou.<br />
A responsável de recursos humanos da Nestlé<br />
Portugal falou do projecto-piloto com a Sonae<br />
SGPS e a Sapo com vista a capacitar pessoas<br />
desempregadas ou em risco de desemprego<br />
para voltarem ao mercado de trabalho.<br />
“Ainda não existe uma estratégia nacional de<br />
requalificação. Falta-nos a visão para o futuro,<br />
estamos focados no hoje. Tem de haver uma<br />
aposta forte no ensino dual, no ensino técnico,<br />
precisamos desses profissionais para o futuro”,<br />
concluiu.<br />
máximA liberdAde<br />
máximA responsAbilidAde<br />
Mariana Canto e Castro, directora de Recursos<br />
Humanos, Randstad Portugal, reforçou,<br />
na sua intervenção, a importância de não<br />
“desaprender” as lições retiradas desta<br />
pandemia, destacando a “capacidade de liderar<br />
em proximidade sem necessidade de intrusão”<br />
como essencial para a gestão e liderança de<br />
pessoas e equipas. “Tem de existir um equilíbrio<br />
entre a proximidade e o distanciamento,<br />
sob a máxima liberdade com a máxima<br />
responsabilidade”, explicou, realçando ainda<br />
a importância “do feedback do gestor directo,<br />
identificando pontos bons e pontos a melhorar,<br />
assim como do feedforward”. Para o futuro “é<br />
crucial que haja um alinhamento entre o sector<br />
do ensino e o sector empresarial, porque temos<br />
empresas a pedir-nos pessoas que não existem<br />
ainda no mercado de trabalho”, afirmou.<br />
O painel de debate contou ainda com a<br />
participação de Pedro Palmeiro, gestor de<br />
Recursos Humanos da Luís Simões Portugal<br />
que acredita que a pandemia “trouxe às chefias<br />
a oportunidade de conhecerem melhor os<br />
seus colaboradores e até aprofundar relações<br />
com um contacto mais próximo e pessoal”.<br />
Para Pedro Palmeiro, “o teletrabalho será<br />
uma ferramenta de futuro, porque as pessoal<br />
já provaram que facilmente se adaptam às<br />
exigências do dia-a-dia”.<br />
Em jeito de síntese, Luís Ferreira Lopes,<br />
moderador do debate, concluiu que “é tempo<br />
de arregaçar as mangas com nova energia,<br />
não desperdiçar a experiência adquirida e<br />
continuar a ter uma permanente vontade de<br />
reinvenção”.•
SCM Supply Chain Magazine 75
76<br />
DIÁRIO DE BORDO<br />
Marco Morgado<br />
Supply Chain & Operations Management<br />
irá ser (mAis) um<br />
novo reComeço..<br />
Para muitas empresas o curto prazo irá<br />
representar um novo recomeço, e se o que<br />
Portugal faz, faz bem, caberá em grande<br />
parte às PME portuguesas reverem de<br />
forma transversal as suas estruturas e o<br />
formato das suas operações.<br />
O<br />
fim (da pandemia) irá certamente<br />
representar o início de um novo ciclo<br />
(económico). Há que ter em conta que<br />
as oportunidades surgem nos momentos de<br />
maior adversidade e dificuldade e a adaptação<br />
a cada nova realidade, e ao que é pedido<br />
pelos consumidores, é a palavra-chave para a<br />
sobrevivência.<br />
Acredito que essa mesma sobrevivência irá<br />
passar pela exploração de novos mercados,<br />
sejam internos ou externos, e em ambas as<br />
vertentes o papel das empresas de logística<br />
será fulcral para que o sucesso se torne a<br />
realidade, pois a otimização dos custos de<br />
transportes poderá ajudar as empresas a se<br />
decidirem em sair da sua zona de conforto<br />
geográfico, desafiando-se nos objetivos.<br />
Acredito que as empresas de distribuição<br />
e logística portuguesas estão mais do que à<br />
altura dos desafios dos novos tempos, e que<br />
serão mais do que capazes de dar conta do<br />
recado, dando o devido suporte para que os<br />
bens cheguem devidamente acondicionados<br />
e dentro dos prazos estipulados aos locais de<br />
destino.<br />
Ocorre que estas empresas serão apenas<br />
o meio para um determinado fim, que é a...<br />
Exportação.
SCM Supply Chain Magazine 77<br />
A exportação em si consiste no envio direto<br />
dos produtos para os clientes no exterior<br />
ou através de distribuidores localizados a<br />
distâncias consideráveis.<br />
Esta é a forma mais utlizada pela maioria<br />
das PME portuguesas, pois o risco inerente<br />
ao processo é limitado e poderá ser mais<br />
facilmente controlado. A rentabilidade do<br />
processo é razoável e a necessidade de<br />
controlo dos produtos ao longo dos canais de<br />
distribuição é normalmente reduzida.<br />
Concretamente sobre a exportação, podemos<br />
afirmar que existem dois tipos, a Exportação<br />
Direta e a Exportação Indireta.<br />
No caso da primeira, ocorre que é a própria<br />
empresa produtora dos bens a responsável por<br />
todas as etapas, ficando obrigada, entre outros,<br />
a ter que providenciar toda a documentação<br />
para a exportação, a ter conhecimento dos<br />
acordos comerciais<br />
existentes, a tratar<br />
do embalamento,<br />
assim como, de<br />
todas as transações<br />
financeiras<br />
relacionadas com a<br />
mesma.<br />
No segundo caso,<br />
a empresa produtora<br />
dos bens utiliza um intermediário especializado<br />
para negociar com o mercado externo, fazendo<br />
a ponte entre a empresa exportadora e o<br />
respetivo interessado.<br />
com o apoio dE um inTErmEdiário,<br />
a ExporTação aconTEcErá mais<br />
rápido, não havEndo a nEcEssidadE<br />
dE invEsTimEnTo Em mão-dE-obra<br />
EspEcializada<br />
Além disso a exportação indireta pode<br />
ocorrer de diversas formas, seja através de um<br />
consórcio de exportadores, ou de empresas<br />
comerciais que podem atuar no mercado<br />
interno ou apenas na exportação, ou por último<br />
por Trading Companies que são empresas<br />
especializadas em operações no exterior.<br />
Quando se tem um bom produto, pouco<br />
conhecimento sobre o comércio exterior e/ou<br />
existir a inviabilidade de ter algum colaborador<br />
especializado dentro da empresa, o melhor<br />
caminho, pelo menos no início, é contar com o<br />
auxílio de um destes intermediadores.<br />
Com o apoio de um intermediário, a<br />
exportação acontecerá mais rápido, não<br />
havendo a necessidade de investimento em<br />
mão-de-obra especializada, além de que a<br />
pesquisa de mercado é realizada pela própria<br />
empresa de comércio exterior, ficando assim<br />
as operações<br />
terceirizadas,<br />
tornando-se mais<br />
práticas e simples.<br />
Além disso, existe<br />
inclusivamente uma<br />
maior segurança<br />
de investimento,<br />
pois os riscos serão<br />
do intermediário,<br />
havendo lucro garantido com a venda in situ.<br />
Então, se tem um bom produto, porque não<br />
arriscar e ir (muito) mais longe? •
78<br />
O MUNDO É REDONDO, por Cláudia Brito<br />
“Os hábitos da felicidade”<br />
Matthieu Ricard, 10 milhões de visualizações, 2004<br />
É possível treinar a mente para se ser feliz. Sabe-se hoje que a constituição cerebral se altera ao longo da<br />
vida, em função do treino mental. Um violinista, por exemplo, ao praticar durante anos, cria novas sinapses<br />
em zonas específicas do cérebro. Do mesmo modo, alguém que medita durante 20 a 40 mil horas evidencia<br />
em laboratório uma grande capacidade de controlo das suas ondas cerebrais, num espectro associado ao que<br />
chamamos felicidade pura.<br />
A felicidade é algo central na nossa vida, um<br />
estado que todas as pessoas ambicionam. Uma<br />
das suas definições é a ausência de sofrimento,<br />
e é muitas vezes associada ao sentimento de<br />
prazer. Contudo o prazer é efémero, ao depender<br />
do momento, do objecto e do lugar. É também<br />
perverso, porque podemos senti-lo intensamente<br />
mesmo quando outros ao nosso lado sofrem. O<br />
prazer consome-se à medida que se experimenta,<br />
enquanto a felicidade é algo que perdura. Por isso,<br />
é mais adequado associá-la a um sentimento de<br />
bem-estar, uma serenidade que pode coexistir<br />
com estados de alegria ou tristeza, tal como o mar<br />
profundo é imutável, apesar das tempestades à<br />
sua superfície.<br />
Quando dizemos “tenho tudo para ser feliz”, a<br />
própria frase contém em si a ruína da felicidade,<br />
porque basta a mais pequena falta para tudo<br />
colapsar. As condições como a educação ou a<br />
saúde são desejáveis para nos sentirmos felizes,<br />
mas não são suficientes. O nosso controlo do<br />
mundo exterior é limitado, temporário e ilusório.<br />
Por outro lado, as nossas condições interiores<br />
são mais fortes, para o bem e para o mal. Temos<br />
o conhecimento intrínseco da experiência dos<br />
estados mentais - como a ira, o ódio ou a inveja<br />
- que nos levam a sentir-nos mal. Outros estados<br />
– como a manifestação da generosidade - são<br />
decerto mais adequados à nossa natureza, porque<br />
nos fazem sentir bem. Para cada sentimento<br />
negativo haverá um positivo que o neutraliza, mas<br />
este antídoto não é de fácil acesso.<br />
Em alternativa, uma vez que a mente tem a<br />
propriedade de ser consciente, somos capazes<br />
de avaliar os nossos pensamentos e emoções. A<br />
mente funciona neste caso como um espelho,<br />
e, como ele, não é alterada pelas imagens que<br />
reflecte. Por seu lado os estados mentais não<br />
são permanentes, pelo que podem ser alterados<br />
interiormente, desde que deixemos de ruminar<br />
nos elementos exteriores que lhes deram origem.<br />
A meditação é assim um treino intenso e<br />
longo, que se baseia na observação interna dos<br />
pensamentos para os neutralizar no seu conjunto,<br />
com o fito de os deixar atravessar a mente como<br />
um pássaro atravessa o céu, sem deixar rastro.<br />
Matthieu Ricard, filho de um conhecido filósofo<br />
francês e doutorado em biologia molecular pelo<br />
Instituto Pasteur em 1972, é um monge budista, para<br />
além de fotógrafo, escritor e interprete do Dalai<br />
Lama. Em 2012, pesquisadores da Universidade de<br />
Wisconsin, nos Estados Unidos, declararam que ele<br />
era “o homem mais feliz do mundo”, porque, graças<br />
à meditação, o cérebro de Matthieu Ricard produz<br />
ondas gama a um nível muito alto, o que reflecte uma<br />
capacidade extraordinária de sentir felicidade e uma<br />
propensão reduzida para a negatividade.
PARCEIRO<br />
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