Enunciação: desenho palavras e escrevo aprendências

yansaothiago

Trabalho de conclusão de Curso apresentado para obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal de Minas Gerais.
orientadora: Janaina Barros Silva Viana

Enunciação:

desenho palavras e

escrevo aprendências

Yan Nicolas


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ENUNCIAÇÃO:

desenho palavras e escrevo aprendências

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Yan Nicolas São Thiago

ENUNCIAÇÃO:

desenho palavras e escrevo aprendências

Trabalho de conclusão de Curso apresentado para

obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais,

Escola de Belas Artes, Faculdade Federal de Minas Gerais.

orientadora: Janaina Barros Silva Viana

Belo Horizonte

2021

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Tudo começa ontem, tudo termina no início 8

SEM DATA 26

encruzilhada dos saberes 38

o ato de se criar e guiar, através do corpo que se faz

desenho e que desenha corpo 42

Amanhã 57

caminho pelas falhas 58

brincante das imagens 68

Abrigar o mundo em mim 80

sonho-lembrança 88

ENUNCIAÇÃO 92

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Tudo começa ontem, tudo termina no início

Das voltas na árvore do esquecimento

faço constantemente como Paulo Nazareth

o caminho de fasto no ipê

Lá da Kalunga Grande

meu avô se faz presente nas músicas que escuto.

O mar é profundo e desejoso, a travessia é longa

Pela clareza ofuscante.

O que sua brancura não lhe deixa enxergar?

A noite é escura. No negrume do ser, quem é você?

Quem sou?

Ajuntar nossos fragmentos assim como Rosana Paulino

através da sutura da identidade.

Como cuidar dessa cicatriz que ficou?

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Quando eu era uma criança, visitávamos com frequência

a família da madrinha de batismo do meu irmão do meio, pois

eram pessoas com quem minha mãe havia construído uma grande

ligação afetiva no período em que morou próxima a eles, ali em

Santa Luzia, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte.

Só me recordo do período em que moramos lá, através de relatos

feitos por minha mãe. Diz ela, que nos mudamos para Belo

Horizonte quando eu tinha quase dois anos e então, viemos para a

casa onde moramos ainda hoje, a casa de minha avó, onde minha

mãe cresceu. O que para ela foi como um retorno, para mim foi

como se eu nunca tivesse morado em outro lugar.

Nessas visitas que fazíamos a essa família, me recordo de

uma casa simples e geminada. Dividida entre a casa da madrinha do

meu irmão e a da mãe dela. Casa pequena, com uma família grande.

Nesta casa, duas imagens me marcaram fortemente: na entrada

da casa tinha um altar direcionado às entidades do candomblé,

os quais toda essa família era praticante, assim como minha mãe.

No altar, me recordo de figuras que hoje identifico como imagens

de Exus, sempre muito misteriosas, que mesmo não tendo grande

conhecimento sobre, sentia a existência de uma relação de respeito

entre eu e as imagens. Na sala da casa me lembro de um quadro

grande, que para mim era a reprodução em grande escala de um

dos quadros de Leonardo da Vinci, a Mona Lisa, com seus braços

postos um sobre o outro em repouso, uma paisagem pitoresca ao

fundo e o seu olhar penetrante. Recordando dessa memória com

minha mãe, ela diz que na verdade, se tratava de uma imagem

cristã, a da Virgem Maria.

Assim, tais imagens ainda hoje permanecem desenhadas

em minha pele. Quando me recordo sobre as memórias da casa

em Belo Horizonte, a casa de minha avó, e também minha casa,

me vêm à lembrança algumas tardes antes de iniciar os estudos na

escola. Junto ao meu irmão do meio, tínhamos alguns aprendizados

de costura com a minha avó, meu irmão dois anos mais velho do

que eu obtinha sucesso na proposta, enquanto eu fazia apenas

amontoados de tecidos com as linhas e trapos.

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Chegando ao fim desse período, para em seguida iniciar

no ensino formal, lembro bem da ajuda de minha mãe para que

eu escrevesse meu nome. A letra “Y” sempre foi um desafio, já que

comecei assinando a perninha desta letra “ao contrário”, e assim

faço até hoje. Essas são algumas memórias que me remetem a

força das imagens na minha história, e que relaciono com o meu

pensamento e prática com o desenho. O desenho como fazer

manual e como organizador de pensamento. Pensar o desenho

como uma presentificação e afirmação da minha existência, que

me ajuda a construir um olhar de temporalidade a partir do que

chamo de o “Desenho do Ontem”, o “Desenho do Hoje”, e o

“Desenho do Amanhã”.

No Desenho do Ontem, posso

encontrar memórias distantes da infância

como apresentei no início, ou até algo

recente, que podem ser literalmente de

ontem. Desenhar sempre foi para mim

um lugar de encontro. Um modo de me

encontrar afetivamente com os outros,

como por exemplo, em desenhos feitos

para a minha mãe com mensagens

carinhosas, ou na escola, que além de

entrar já sabendo escrever o meu nome

(pelo menos, o primeiro) eu me “destacava” entre as outras

crianças porque sabia desenhar, esse saber desenhar talvez dentro

de parâmetros comparativos, e daquilo que se espera que seja um

“bom desenho”.

Por várias razões eu era uma criança muito silenciosa. Diz

minha mãe que eu só fui sorrir aos dois anos de idade. Na escola, o

ato de desenhar me apresentava e aproximava das outras crianças.

Tenho observado que essa relação do desenho e do brincar na

infância, sofre uma transformação no decorrer do percurso escolar

dos estudantes e por conta disso, outros sistemas de pensamento

ganham espaço e protagonismo, como o pensamento matemático,

o pensamento científico, que tem a lógica e a racionalidade

como forma principal de organizar o mundo em que se vive. O

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pensamento artístico, ou um pensamento acompanhado da arte,

procura olhar os processos de maneira mais sensível, abrindo

possibilidade para algum tipo de poética.

Nesses períodos escolares então, eu menino preto e cheio

de silêncios encontrava o desenho como a minha palavra, antes de

qualquer outro tipo de palavra. Através dele eu me sentia sendo

visto e ouvido.

Na adolescência o meu principal repertório era o universo

das animações de TV estadunidenses e japonesas, além de

também me interessar pelos quadrinhos e pelo mangá. E foi por

esses caminhos que quis seguir por um tempo no desenho, até

o momento que começo a me aprofundar em discussões raciais,

sobre negritude. a O que refletiu em todo o meu processo artístico.

Nessa perspectiva, como minhas referências estavam no

universo das animações, comecei a me interessar também pela

criação de personagens e suas narrativas, o que despertou em

mim maior interesse pelo desenho da figura humana. Quando

começo a ter acesso à informações mais aprofundadas sobre o que

é negritude, Movimento Negro, surge uma questão principal: que

corpos são esses que eu estou apresentando com o desenho?

a O termo negritude é citado pela primeira vez pelo poeta e político

martinicano Aimé Césaire (1913-2008), junto a outros nomes marcantes como

Leon Damas (1912-1978) e Léopold Sédar Senghor. Na época entre 1933-1939

eles eram estudantes em Paris e, fundaram com outros estudantes negros de

diferentes origens, a revista Étudiant Noir (Estudante Negro). O movimento da

negritude também tem nomes como o norte-americano, historiador, sociólogo

e autor W. E. B. Du Bois (1868-1963). E chegou aqui no Brasil através de nomes

como do intelectual Abdias do Nascimento (1914-2011). A negritude se

converge com diferentes ideais, que refletem questões como território e período

histórico. A negritude pode ser entendida como um movimento político cujo a

ideia é evidenciar uma consciência racial positiva sobre ser negro, de maneira

a quebrar com os esteriotipos e inferiorização da população negra, que são

definições existentes em detrimento do periodo colonial, e da ideia do branco

como hegemonia. Pode se dizer que a negritude surge como uma reação contra

o racismo, mas também como uma forma de conscientização, criando uma

dimensão de pertencimento etnico, sendo assim a negritude é também uma

forma de ver e conceber o mundo através de modos plurais de conhecimento.

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Na mídia, na publicidade, e em discussões pela internet,

o termo representatividade b aparecia com frequência. Nesse

momento o termo se faz muito importante para o meu entendimento

sobre o lugar das múltiplas representações c , da imagem do corpo

negro em evidência e apresentado de forma positiva em diferentes

espaços. Assim, fui compreendendo os modos de criar espaços

para um sentimento de identidade através de uma coletividade

negra plural.

O Desenho do Hoje, que passou por diferentes percursos

e percepções, funciona agora como modo de permanência e

continuidade. Onde o desenho faz parte de uma esfera maior que

engloba meus outros meios de fazer imagem, alguns meios mais

próximos do desenho sobre o papel, como o recorte e a colagem

e de onde nasce também o interesse na criação de bonecos. Em

paralelo, com mídias que se distanciam do desenho propriamente

dito, como a fotografia e o vídeo. Para chegar até aqui hoje, eu tive

alguns familiares como rede de apoio e referências, como a minha

avó, mãe, e o avô que não conheci pessoalmente. Nas artes visuais,

para desenvolver pensamentos e práticas dentro da representação

de corpos negros, assumo minhas referencias artisticas como meus

outros familiares, tanto próximos quanto distantes ou até mesmo

um vizinho da frente de casa.

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b

Sendo facilmente adequada pelo mercado que pouco aprofundou-se

na discussão para além da questão estética visual mas que foi/é financeiramente

lucrativa para grandes empresas, a representatividade da qual tive contato se

referia a um discurso muito direcionado à falta de pessoas negras em filmes,

seriados, propagandas e publicidades.

c

A representação construída através da imagem cria sentidos que são

fruto de uma cultura e linguagem, o sentido é construído pelo sistema de representação,

de modo que, ao pensar a “cultura” [...] é importante visualizá-la como

um sistema de linguagem compartilhada e de códigos que governam as relações

de tradução entre eles. ( DA COSTA, 2018. p. 248.)


Dos Desenhos de Ontem

- aprendendo a grafia

das letras pela copia e

ato de desenhar.

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2009


2012

2016

Caminhos que compõem os Desenhos de

Ontem e suas mudanças no decorrer do

tempo na prática do fazer e olhar.

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Dentro dessa linhagem de referências reconheço Heitor

dos Prazeres (1898-1966) como meu bisavô (o meu parente mais

antigo) aquele sobre o qual pouco sei e só o reconheço pelas

fotografias e obras que deixou. Com suas músicas e pinturas, ele

ressoa em mim de uma outra maneira, não no meu modo de fazer,

nem no meu material, mas em algo do olhar, do tempo e lugar.

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Os meus avós são Charles White (1918-1979) e Elizabeth

Catlett (1912-2012). Para mim, eles são quase parte de uma

necessidade de continuidade, mas também um deslocamento.

O fazer deles e o meu são mais próximos; esses dois artistas

trabalhavam o desenho, a pintura, a xilogravura e a litogravura, que

são linguagens de mídias mais tradicionais. As imagens em litos

me encantam, pois estão próximas do desenho de material com

lápis grafite, carvão e/ou lápis conté, materiais que tenho insistido

e investigado no meu processo.


Heitor dos Prazer.

Samba de Terreiro,

1957

e

Heitor dos Prazers.

O artista 1959

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ELIZABETH CATLETT . Negro es Bello, 1968

Charles White. Freedom, 1956

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Alguns parentes ainda vivos, como tios ou tias, contribuem

muito no aprofundamento das minhas pesquisas. Cito aqui Rosana

Paulino (1967), Paulo Nazareth (1977) e Antonio Obá (1983).

Com eles, o corpo ganha uma totalidade no discurso e em sua

performatividade. Seus deslocamentos (físicos ou não) questionam,

denunciam e evidenciam imaginários e apagamentos da população

negra no Brasil.

Tenho também um vizinho, que nas conversas que temos no

portão de casa, me instiga a pensar na ação do gesto, no erro e na

efemeridade de certos materiais como parte da minha linguagem

artística, e seu nome é William Kentridge (1955).

E também fazem parte alguns familiares mais distantes, do

qual não consigo identificar de primeira a linhagem, mas os sinto

bem próximos, talvez um padrasto e madrasta, que seriam Kerry

James Marshall (1955) e Kara Walker (1969). Os dois em um primeiro

olhar se distanciam em termos de materialidade na construção de

seus trabalhos se comparados um ao outro. Kerry se destaca nas

pinturas e Kara em seus recortes de silhuetas e esculturas, mas

esses dois artistas têm uma relação muito próxima com o desenho,

seja como obra, seja como parte de um processo de planejamento.

À todas as referências apresentadas aqui, direciono o meu

olhar - também, mas não só- para o desenho que esses artistas

produzem, mesmo quando não estão trabalhando diretamente

com ele. Contribuindo assim na estruturação da minha pesquisa

em arte.

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Ros

ASSE

Paulo Nazareth e

Moisés Patricio. What

is the color of my

skin?

Qual é a cor da minha

pele?, 2013

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Antonio Obá.

FABULA DOS

ERÊS

2019


ana Paulino

NTAMENTO

2013

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Kerry James Marshall. Untitled

(Seated Figure), 1998


William Kentridge.

Trieste Ledger series (6),

2002

Kara Walker. Imposter

Syndrome, 2020

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Começa assim, sem avisar,

seguindo pra onde ninguém

sabe bem onde vai dar, as

vezes só, as vezes não, é um

de lá pra cá e de cá pra lá.

...

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Encruzilhada dos saberes

Sou alguém que nasceu na encruzilhada a dos saberes, em

um período do mundo com imagens em excesso. A proximidade

e acesso a tecnologia digital, moldaram meu olhar de alguma

maneira.

Hoje possuo uma câmera fotográfica automática simples,

que revela fotos através de filmes analógicos e que minha mãe

costumava levar para festas e passeios. Também temos uma

caixinha com várias dessas fotografias reveladas, para que em algum

momento possamos visitá-las. O curioso é que em um período da

vida, minha mãe deixou de lado essa câmera e no decorrer dos anos

seguintes ela teve outras, agora digitais, mas ainda de baixo custo.

Tal fato ocasionou na mudança do armazenamento dos álbuns de

fotografia, que antes eram guardados em uma caixinha e agora são

arquivados no computador.

Meu irmão mais velho, nascido no fim dos anos 80, gostava

de eletrônicos e acredito que até antes disso. Minha mãe conta que

uma vez minha avó deixou ele brincar com alguns relógios que

ela guardava e meu irmão, criança de mãos nervosas, desmontou

todos os relógios por curiosidade para saber como funcionava.

Acredito, que isso despertou ainda mais o interesse dele por

esses equipamentos e em decorrência disso, quando tivemos o

nosso primeiro computador, ele sempre era o responsável pela

manutenção (hoje em dia isso faz parte da sua profissão).

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a

Por outro lado, eu apenas tinha o interesse em brincar

De acordo com Leda Maria Martins a noção de encruzilhada, utilizada

como operador conceitual, oferece-nos a possibilidade de interpretação do

trânsito sistêmico e epistêmico que emergem dos processos inter e transculturais,

nos quais se confrontam e se entrecruzam, nem sempre amistosamente, práticas

performáticas, concepções e cosmovisões, princípios filosóficos e metafísicos,

saberes diversos, enfim. A autora complementa ainda dizendo que a encruzilhada

é lugar radial de centramento e descentramento, interseções e desvios, texto e

traduções, confluências e alterações, influências e divergências, fusões e rupturas,

multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, origem e disseminação.

(MARTINS, 2003, p. 69-70)


nestas complexas máquinas, mesmo quando não tínhamos acesso

a internet. Porém hoje, com a evolução de tais máquinas, há maior

funcionalidade e possibilidades quanto a seu uso, bem como minha

relação com elas. Cabe ressaltar ainda, que o que sinto ao explorar

e experimentar com as imagens - principalmente no digital - é que

de alguma forma isso seja o meu ato de brincar e assim como meu

irmão com os relógios, talvez eu esteja tentando entender como as

imagens funcionam.

Nas intersecções entre a materialidade do desenho sobre

o papel e as mídias digitais - aqui fotografia e vídeo- encontro a

possibilidade da experiência compartilhada e não hierarquizada

desses meios, já que entendendo o meu trabalho como o próprio

processo, o meio e o fim se tornam os mesmos. Pensar a obra como

processo, implica pensar este processo não como meio para atingir

um determinado fim - a obra acabada - mas como devir. Implica

pensar que a obra não avança segundo um projeto estabelecido,

ela avança segundo este a priori: a obra está constantemente em

processo com ela mesma. (REY,1996, p. 87)

Quando, por exemplo, um desenho ou escrita, se transformam

em fotografia ou vídeo. Ou até mesmo, quando alguns frames de

vídeos se tornam fotografias. É assumir uma alquimia das imagens,

quando elas se tornam imagens moventes, através do ato da criação

e transformação.

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40

A fotografia como um

ponto de interseção,

onde se abre diversas

possibilidades de

caminhos.


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O ato de se criar e guiar, através do corpo que se faz

desenho e que desenha corpo

Ainda que essas três linguagens - desenho, fotografia, e vídeo

- se cruzem para se transformarem e se potencializarem, elas também

coexistem no meu fazer de maneira individual. Em tudo existe uma

contradição e aqui, apesar da tentativa da desierarquização desses

meios, de alguma maneira eles acabam se ordenando. Esse modo

o qual se ordenam, está ligado à minha intimidade com cada um.

O desenho me acompanha há mais tempo e por isso me guia na

construção do pensamento artístico, e só posteriormente, veio a

fotografia e o vídeo.

Entender-se corpo através do desenho e desenhar corpo,

tem sido para mim, parte do processo de compreensão de como

é/foram estabelecidas as relações entre diferentes indivíduos.

Partindo das experiências de um sujeito de corpo negro, procuro

olhar para as fricções, os incômodos, e as possiveis convergências,

que acontecem ou não através da imagem. Diferente de alguns

artistas os quais o suporte ou material para a produção do trabalho

vem posteriormente como forma de potencializar uma ideia, no

meu processo a insistência e investigação do material - aqui destaco

o lápis grafite - me fez descobrir meios de reforçar uma ideia. O

jornalista e sociólogo Muniz Sodré diz que:

Todo indivíduo percebe o mundo e suas coisas a partir de si

mesmo, de um campo que lhe é próprio e que se resume, em

última instância, a seu corpo. O corpo, o lugar zero do campo

perceptivo é um limite a partir do qual se define um outro, seja

coisa ou pessoa. (SODRÉ, 1988, p. 123)

No momento em que me entendo corpo e percebendo o

mundo, vou entendendo esses limites entre quem sou e o outro

que não sou eu. Que nos leva a algo relacionado a corporeidade, o

espaço e o olhar. Características essas também fortemente ligadas

ao desenho. A performance do corpo a tridimensional em ação

42

a

Segundo Leda Maria Martins o corpo em performance é, não apenas,

expressão ou representação de uma ação, que nos remete simbolicamente a um


no ato de desenhar, acontece simultaneamente a percepção do

desenho que surge no bidimensional e se pensarmos nesse corpo

que desenha outros corpos, podemos observar que as três palavras

citadas: corporeidade, espaço e olhar ganham uma percepção

ampliada.

Essa percepção ampliada se faz aqui através de tais

entendimentos: a corporeidade como a forma que o corpo se

relaciona com o espaço, as coisas e as pessoas. De um corpo que

também aprende e apreende com os movimentos, com a repetição

e com a percepção de si mesmo. O espaço, para o corpo que

desenha seria a compreensão dos seus limites e territórios, o espaço

da folha do papel e suas dimensões, por exemplo, e/ou lugar onde

esse corpo ocupa. Para um corpo que performa o desenho, o olhar

primeiramente parte de si mesmo, para assim olhar de forma atenta

o mundo, e deter-se sobre as coisas e em seguida para aquilo que

o seu olhar irá falar sobre o mundo através da materialidade.

Esses conceitos se aplicam no desenho em si, através de

seus elementos de construção básicos como a linha, cor, volume,

e superfície. Os meus desenhos de figura humana também se

englobam nesses conceitos pensando nas performatividades dos

corpos representados, nessa representação pelo desenho, encontro

duas instâncias - não fixas, mas observadas pela repetição - e sujeitos

em duas situações, a primeira, em que um dos sujeitos que é visto

em cena, no súbito momento de uma ação, só ou acompanhado,

onde você/eu observador vê alguém com um olhar “de fora para

dentro da cena”, às vezes, aquele que observa sem permissão do

observado. E a segunda, em que o retrato apresenta sujeitos que

olham diretamente para quem os observa, criando uma relação

de diálogo, o sujeito representado a nos olhar do retrato funciona

como um espelho que nos interroga diretamente nos olhos, nos

fixa, nos enlaça. (DONDERO, 2019, p. 24)

sentido, mas principalmente local de inscrição de conhecimento, conhecimento

este que se grafa no gesto, no movimento, na coreografia [...] Nesse sentido, o

que no corpo se repete não se repete apenas como hábito, mas como técnica e

procedimento de inscrição, recriação, transmissão e revisão de memória do conhecimento

[...] (MARTINS,2002, p.66)

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No trabalho em que nomeio por “Àqueles que tem na pele a

cor da noite”, 2021 , um tríptico, faço referência à tese de doutorado

e livro, de mesmo nome, de Vanda Machado, Àqueles que têm na

pele a cor da noite: ensinâncias e aprendências com o pensamento

africano recriado na diáspora (2006). Sua tese me aproximou de

questões que eu vinha refletindo, como formas diversas de se

aprender e ensinar, a ligação com a espiritualidade e religiões de

matriz africana, e como diz a autora no seguinte trecho:

O pensamento africano não separa, não hierarquiza. Corpo,

mente, memória, tradição, sentidos, imaginário, símbolos,

signos, espiritualidade e as vivências cotidianas, tudo faz parte

de uma tradição na sua multidimensionalidade que não se

presta a explicações reduzidas, a categorias que fragmentam

sentidos. (MACHADO, 2006. p.52)

Nesse tríptico procuro através das figuras representadas

e apresentadas trazer um pouco do que poderia ser essa

multidimensionalidade, pensando o canto, a voz, e o corpo que se

relaciona em suas ensinâncias e aprendências. Uma relação temporal

(ou atemporal) entre os mais velhos e mais novos e as formas de

circular conhecimentos, ou até mesmo algo sobre representar -

como no teatro - um corpo que precisa representar uma identidade,

muitas vezes controversa.

Retomo a materialidade insistente do grafite, penso no

lápis grafite como aquele material supostamente universal, que

pressupõe um saber através da escritura como linguagem que

cria significações e significados, e que é reveladora de uma noção

singular de uma pessoa, e mesmo usando dos signos de uma

estrutura coletiva que é a língua e a cultura, ela se manifesta de

formas específicas a cada um, tanto no âmbito da fala/expressões,

quanto no âmbito da escrita (a grafia). O desenho e a escrita têm

uma origem comum, ambos surgiram da necessidade de registrar a

linguagem por meio de signos, e assim transmitir uma mensagem.

(CADÔR, 2007. p.7)

44

Observando o tríptico, ao desenhar corpos procuro

evidenciar através de camadas tonais do grafite algo de um corpo


que se inscreve e afirma uma leitura como uma pessoa negra. Uso

do branco do papel para ressaltar as figuras, tons que poderiam

começar por uma gradação mais leve do lápis grafite, opto pela

tonalidade sempre “a mais”, onde pode-se ver o cinza já bem

próximo da cor preta, mesmo que seja apenas por percepção de

proximidade de tons mais claros e escuros.

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Observar a cena, observar

aquele que não sabe que

é observado. Minha avó

em sua cama, se torna

imagem, sonha, não sabe

que é olhada. Dorme? Ou

só descansa “as vistas”?

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Quando nós olhamos - você aí fora, e eu aqui dentro - nós

permitimos, esperamos a conversa, ela acontece, silenciosamente,

eu te encaro, mas você desvia o olhar, e quando os

nossos olhares se fixam, existo. Mas te digo, não preciso da

sua permissão, existo. Existismo.

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corpo-palavra

Se inscrever

(escrever)

corpo

palavra


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“Àqueles que tem na pele a cor da noite”, 2021

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Clementina de Jesus

Mateus A

De onde vem o c

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leluia

TEN - Teatro Experimental do Negro

onhecimento?

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Amanhã

Os cadernos de processos, funcionam como lugar do

pensamento em construção. São tempos em aberto, lá encontro

com o passado, presente e futuro (talvez os cadernos sejam sempre

os desenhos do amanhã).

Os cadernos de processos, que chamo carinhosamente

de “caderninhos’’, não importa o tamanho que tenham, possuem

uma força de elo com o tempo. Eles funcionam como um lugar

de produções ativas, investigações e experimentações. Em meus

caderninhos, tudo é imagem e pensamento, neles observa-se a

construção de ideias, que podem ou não se tornar algo além do

que já se é. A escrita em forma de anotações de alguma leitura, aula,

palestra, ou vídeo que acompanhei, se misturam com os desenhos.

Convivendo junto a uma escrita mais livre e íntima, onde discorro

de maneira poética, e muitas vezes, nas entrelinhas sobre questões

dos meus afetos e desafetos pessoais, que também são fontes

para os meus trabalhos. É a criação como movimento, onde reinam

conflitos e apaziguamentos. Um jogo permanente de estabilidade e

instabilidade, altamente tensivo. (SALLES, 2008. p. 28)

Os caderninhos, refletem minha relação com o processo de

criação e todas as suas mutações no decorrer do tempo, pois é da

natureza do desenho uma estrutura de execução mutável. (MAURA,

2010) Compartilho o mesmo entendimento sobre a palavra

“desenho” em que compreende Daniela Maura (2010, p.44) como

dar forma a uma ideia: esse formar não está restrito a traçar sobre o

papel.

Compreendo os desenhos do amanhã, como aquele lugar

onde irei sempre revisitar. Como os caderninhos falam de processos,

eles apresentam pensamentos que serão desenvolvidos e outros

que não. Mas quando faço esse reencontro com os cadernos mais

antigos, consigo acompanhar os caminhos da estruturação dos

meus pensamentos de criação, sendo assim, alguma ideia que

não foi desenvolvida anteriormente pode ganhar vida em outro

momento. É um lugar para rever minhas próprias referências de

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outros tempos (em imagem e escrita).


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caminho pelas falhas

Ter o desenho como base para o meu pensamento é

reconhecer no processo uma dinâmica do pensar e fazer artístico

acontecendo de maneira simultânea, conforme Cecília Almeida

Salles (2008, p. 52) o desenvolvimento contínuo da obra deixa

claro que não há ordenação cronológica entre pensamento e ação:

o pensamento se dá na ação, toda ação contém pensamento.

Mas antes de reconhecer o desenho como esse pensamento que

transpassa as outras mídias, vivenciei um momento de dúvida e

desencontro em relação a fotografia e vídeo, até assimilá-las como

parte das minhas linguagens artísticas.

A razão foi porque encontrei-me em confronto com a

questão técnica. Quando pensava em trabalhos de artes que tem

a fotografia como linguagem, parecia que estava inerente um

certo tipo de visualidade fotográfica, de uma imagem limpa, com

altos pixels e que só poderia ser feita através de uma máquina

fotográfica fantástica e que provavelmente teria um preço que eu

não poderia pagar (de certa forma isso ainda me assombra). Mas

naquele momento, no início da vivência na universidade, isso foi

como uma limitação do meu fazer, um certo tipo de impasse, que

eu só iria conseguir colocar em prática o que vinha aprendendo

sobre fotografar quando eu tivesse esse certo tipo de máquina.

Olhando hoje para a minha relação com a fotografia, sinto

que minha aproximação com ela já existia no período em que eu

via minha mãe fotografando de tudo um pouco, nosso dia a dia,

festas de família, e passeios. Contudo, a minha curiosidade em tirar

fotos, foi surgindo quando tive um modelo de celular com câmera,

já que nesse momento eu produzia as imagens. O meu modo de

fazer fotos começou assim como as fotografias familiares, que são

feitas principalmente com o intuito de guardar a memória de um

momento sem um tipo de olhar técnico e crítico, da fotografia.

Sendo assim um fazer sem pretensão e com a espontaneidade do

momento, algo relacionado a experiência a .

62

a Procuro entender aqui a experiência/sentido ligado à vida assim como

na citação de Heidegger feita por Jorge Larrosa Bondía: Fazer uma experiência


Um fazer que é definido pelos recursos técnicos disponíveis

naquele tempo e lugar, não se importando pela imagem precária ou

de baixa qualidade. Quando falo em uma imagem de baixa qualidade

não é apenas questionando a relação do recurso técnico, de um

instrumento que faz “x” imagem e outro que faz “y”, mas da relação

com o que o mercado e a academia escolhe abraçar ou rejeitar, e o

que antes para mim era apenas proporcionado por uma situação,

me aproprio desse lugar das “imagens feias”, na procura de colocálas

nesse mesmo patamar da imagem que é aceita e comumente

vista nas galerias, com grandes impressões fotográficas, feitas de tal

maneira e por uma máquina “excepcional”.

Entendi então que os recursos de qualidade técnica,

relacionado a fotografia e filmagem são uma parte, mas não o

central. Fui compreendendo a construção das minhas imagens

através do ruído, da falha, daquilo que não parece tecnicamente

certo. O que me levou a ter uma percepção de como potencializar

a criação através de uma experimentação, muitas vezes facilitada

pelos recursos de edição digitais cada vez mais intuitivos.

Compreendi assim que os limites caminham junto ao

conhecimento que adquirimos das coisas (uma relação com o tempo

e lugar novamente) e que o desejo e a vontade de criação muitas

vezes é pulsante e que sobressai aquilo que parece ser uma barreira.

Penso então, durante o processo de criação: “Eu quero criar algo,

uma imagem estática ou em movimento, então quais recursos eu

tenho disponíveis? O que do meu repertório agora pode contribuir

na hora de usar esses recursos?”.

quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela,

entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais

experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo. (2002, p. 143)

Ainda para o autor o saber de experiência se dá na relação entre o conhecimento

e a vida humana. De fato, a experiência é uma espécie de mediação entre ambos.

( 2002, p. 26-27)

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Da caixinha de memórias, eu,

minha mãe e, irmão do meio.

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- Frames de vídeo -

sem título

2019

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brincante das imagens

Na fotografia que tenho feito em sua maioria com o celular e

algumas vezes com uma câmera fotográfica, tenho a experimentação

como método a e por meio dela vou brincando com algumas funções

que essas máquinas me permitem. As imagens digitais carregam

uma certa maleabilidade, quase como um trabalho em argila ainda

úmida para se moldar.

Os recursos de edição disponíveis para essas imagens são

muito interessantes, pois eles imitam diversos artifícios no que

diz respeito às possibilidades da fotografia em seus processos

primários, que vão desde os momentos da revelação de um filme

fotográfico, que envolvem procedimentos como: aumentar ou

diminuir a densidade de claro e escuro, saturação, e dupla exposição

por exemplo. Até aspectos gerados muitas vezes pela passagem

do tempo, como texturas, rasuras, e manchas. A brincadeira e

a recriação de rasuras através do digital, me cativam. Encontro a

minha intenção poética modificando a imagem do seu ponto inicial

dentro do que a máquina permite para diversos outros lugares

e vou abrindo caminhos para a criação de conceitos nos meus

trabalhos em fotografia. A edição é um meio importante para que

essas imagens moventes ganhem forma.

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Procuro em alguns trabalhos evidenciar aquilo que revela

a origem dessas imagens, funcionam frequentemente como

uma chamada de atenção, na própria obra, para a existência do

dispositivo técnico que lhe garante a existência. (NOGUEIRA. 2010,

p.122) Utilizo como recurso estético as falhas inesperadas, uma

baixa resolução das imagens e seus ruídos que são normalmente

provenientes de dispositivos tecnológicos “ultrapassados”. Quando

essas falhas não são aparentes ou evidentes, procuro “falsificá-las”

e evidenciá-las pelos meios já citados através da edição.

a

Dizer de uma ‘ experimentação como método’ talvez seja uma forma

que encontrei de reconhecer no meu processo de pesquisa visual as tentativas

despretensiosas, mas intencionais, uma tentativa de oposição ou não adequação

a uma visão sistemática, mas de um método mais próxima do caótico, para posteriormente

organizar o que for necessário.


Nos meus trabalhos, a fotografia e o vídeo andam lado a lado,

sendo guiados e atravessados pela experiência do desenho. Desde

meu conhecimento sobre a existência de um cinema experimental b ,

busco um uso mais criativo nos meus trabalhos em vídeo, parto do

pressuposto que a maioria das pessoas que tiveram contato com

o cinema e acredita saber o que é sua linguagem, desconhece sua

amplitude e multiplicidade, e tem proximidade apenas com o que

podemos chamar de um um cinema mais convencional c . A partir

daí procuro tensionar esse olhar utilizando daquilo que está mais

próximo desse cinema convencional, em sua estrutura visual e

modos de fazer caminhando junto a uma tentativa de oposição,

fugindo dessa convenção.

O curta Elã 7’:55’’, de 2020, é um filme sem falas, e suas

personagens são marionetes de pano e biscuit criadas por mim,

não pensadas especificamente para o filme, pois, já fazem parte de

uma outra pesquisa ainda no início sobre bonecos. Assim, entre o

elo do cinema experimental e convencional, procurei trazer minhas

experiências de montagem e som, brincando com questões de

tempo e sonho.

Durante o processo de criação do curta, utilizei aquilo que

tenho de conhecimento de um cinema convencional, quando

penso a questão da narrativa linear, que procuro através de um

planejamento da escrita de um roteiro e esboços para pensar nas

possíveis cenas. No decorrer do processo, algumas coisas foram

tomando outras formas no encontro técnico/prático da criação,

b

O cinema experimental não tem uma definição fixa, mas ele é uma

categoria cinematográfica que busca fugir do mainstream, o cinema experimental

consistiria numa série de obras marcadas por estratégias e propósitos muito

claros de transgressão das concepções vigentes e dominantes do cinema –o seu

princípio primeiro é o da oposição. (NOGUEIRA, 2010, p.124)

c

Quando me refiro a um ‘cinema mais convencional’ como oposição ao

cinema experimental, falo sobre filmes que tem normalmente sua circulação em

salas de cinema, que podem ser enquadrados em alguns dos tipos de gênero

cinematográfico clássico, e que tem também práticas fílmicas mais comuns em

sua concepção.

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A travessia pelo Atlântico, a ida

O exílio, a perda da imagem

a procura de si, o encontro através do seu corpo mapa

70

o aqui e a volta


talvez nesse momento eu pude dar abertura para o erro, deixando

ser influenciado para fora do planejado anteriormente. Foi o que

aconteceu na questão narrativa, sua linearidade se confundiu com

a experiência estética audiovisual, proporcionando novos sentidos

para a história proposta.

Pensando no cinema experimental, tentei trazer uma

metalinguagem, de um filme que falasse sobre cinema, e utilizasse

uma estética próxima dos famosos filmes noir, a definição do film

noir enquanto gênero está longe de ser consensual. Alguns autores

advogam tratar-se mais de um estilo, de um tom ou de uma certa

ambiência comum a diversas obras do período clássico americano

do que propriamente de um gênero no sentido mais convencional.

(NOGUEIRA, 2010, p.31-32) que tem suas características visuais

reconhecidas pela fotografia a preto e branco, altamente contrastada,

com nítidas influências do expressionismo alemão [...] Este tipo de

fotografia cria fortes oposições de claro e escuro na iluminação dos

espaços, essencialmente urbanos [...] como citado por Luís Nogueira.

(2010, p.32) Utilizei dessas características dos filmes noir para

aproximar daquilo que já ando investigando em minha pesquisa -

principalmente no desenho - quando comparado ao claro-escuro

no desenho, e as figuras de pele preta apresentadas no filme em

contraste com os cenários de fundo mais claros. Observando todo

o processo, é aparente como o pensamento do desenho e o caráter

multimídia e/ou seus cruzamentos são uma constante, partindo das

etapas de planejamento, até a construção visual final do filme.

Tratando-se do tema, quis trabalhar a questão da intimidade,

da solidão, do amor e desamor, tema frequentemente abordado no

cinema, em músicas e livros, através do amor romântico. O amor

romântico em sua essência, pressupõe a realização de algo que seria

inerente ao ser humano. (NOGUERA, 2020. p. 82) E que seria sempre

como a busca por algo que lhe falta, e que irá encontrar ali na pessoa

amada. Muitas vezes apresentado no cinema de formas exageradas

e idealizadas. E em sua maioria representada no cinema por corpos

que pressupõe uma norma, o casal heterosexual, cisgênero e branco.

Uso a imagem deste casal apresentado no cinema como um flash

no meu filme, no qual as personagens assistem e se emocionam, e

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desejam aquilo para si mas, que parece algo impossível, por serem o

“oposto” dos corpos em cena que estão representando o amor, mas

que tomam para si esse protagonismo do amor no fim do filme. O

momento do encontro.

Link para o curta “Elã” https://www.youtube.com/

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- Frames do filme Elãe

processos

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- Frames do vídeo “Vazando”-


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SENTIMENTO

Se te amo

amo

como quem ama

no granito

o volume,

no poema

a textura,

na alavanca

o impulso,

na melodia

o sussurro,

na colméia

o arrulho,

no plenilúnio

a cor,

no bailado

o risco,

no espelho

a ausência,

na eternidade

o instante,

no amado

o amor

Leda Maria Martins

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Abrigar o mundo em mim

Muitas vezes uma imagem pode surgir a partir de outras imagens,

e também a partir de palavras, e vice-versa. Nesse processo chego

em palavras que surgiram de imagens, e palavras que surgiram de

outras palavras. Sendo o amor uma delas.

Escolho então falar sobre o amor a partir de um desconhecimento.

O amor é invisível apenas por ser um sentimento? Os sentimentos

são invisíveis? Do que depende um sentimento para existir se

não de nós mesmos? Os sentimentos existiriam mesmo se não

existíssemos? Se usamos palavras para nomear um sentimento,

o quanto ele deixa de ser? Quando um sentimento passa a ser

apenas palavra? É preciso ter uma certeza sobre o amor ou ele se

faz na dúvida? O amor é sempre certo? Bonito? Puro?

Olha, eu não sei se quero aqui definir o que é o amor. Quero

refletir sobre esse sentimento. Refletir como ele pode ser uma

forma de criar movimentos. Ou apenas uma forma de criar. O

amor tem muitas facetas.

Quando leio a frase de bell hooks (2010) que diz: O amor cura.

Nesta curta frase me permito mergulhar e aceitar isso como uma

grande verdade e se alguém contestar, não darei ouvidos. Porque

é nisso que quero acreditar e assim como bell hooks que traz o

amor em suas diversas perspectivas, quero reafirmá-lo enquanto

“uma intenção e uma ação”. Entendo que o processo violento da

colonização e suas consequências, fizeram com que nós, pessoas

negras principalmente, vivamos hoje esse e outros sentimentos de

maneira truncada.

80

Acredito que o amor tem suas várias definições e indefinições,

e que pode ser olhado por diversos ângulos, apesar de que nos

fizeram acreditar que o amor, o tal ‘verdadeiro amor’ existe e

acontece de uma só maneira. Eu mesmo sempre me pergunto

se eu sei o que é o amor. Mas talvez o que eu deveria estar

me perguntando é: como vejo ele sendo expressado, como eu


expresso ele, como o meu corpo fala do amor; com o amor, para o

amor. O que das pequenas coisas do dia a dia pode-se chamar de

amor? Parece até que ele é algo tão excepcional e inatingível, que

chegamos a desacreditar ser possível vivê-lo.

Gosto de pensar que umas das coisas que me faz criar, é o amor.

Como falei no começo, o amor é movimento e para mim, criar

também é. Desenhar é tudo isso, sendo assim, desenho pelo

movimento que o amor me proporciona, e às vezes também

desenho algo sobre o amor. Mas prefiro definir que desenho algo

que seria “a pergunta sobre o amor”, bem assim em aberto, por

entre a dúvida, esbarrando na certeza de uma incerteza, que não

paralisa.

A ‘pergunta sobre o amor’ é onde procurando entender esse

sentimento, eu me perco nesse caminho entre a oralidade, a

língua, a linguagem e a palavra. Até se tornar matéria visual e,

nesse ponto, a imagem irá ser um reflexo que traz de volta a

pergunta, essa que é feita de movimentos em espiral.

Frame do documentário experimental “Linguas

desatadas, 1989” de Marlon Riggs

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Sonho-lem

Existe uma certa lembrança da infância que habita em mim e pa

reinvenção), essa lembrança é quase como a busca por rememor

Enquanto brincava no terreiro de casa próximo a algumas plantas, d

de-macaco e a árvore da felicidade, me encontrava não apenas ent

de abacate e as outras duas de manga. Elas me viram crescer, assim

- as árvores- crescem ainda hoje, guardando e sustentando memó

Voltando ao sonho-lembrança. Então enquanto eu brincava, minh

cidade. Ela que além de cuidar sozinha de toda a gestão da casa e

à minha avó e tias avós, já idosas. Em seguida me dá um beijo p

simultaneamente, um sobre miniaturas de móveis que minha mã

tivesse condições financeiras e o outro pensamento é em meu a

um acidente de ônibus muitos anos antes de eu nascer. O conhec

o quanto eram próximos. Sempre consegui sentir o amor dela po

momento do beijo de despedida, me vem um choro, que question

meu avô e sentir através de minha mãe, seu sussurro, seu sopro de

ouvidos - ainda não sei o que ele disse - mas é como se voltasse tod

O que me faz lembrar uma fala que li de Rainha Belinha, Isabel Cas

Guardas de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senh

com si seus ancestrais, que eles estão presentes através das histó

de não derrubar o que não foi você que construiu, de manter o

você quem plantou a . E acrescento, de sempre lembrarmos que

para aqueles de sua linhagem de sangue, mas pensar em um s

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a Texto do depoimento dado por Isabel Casimira para a pesquisadora Thaíse Va

missão à mis en scene da cultura tradicional no processo de festivalização. 2014. Tese d

Social?) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Minas Gerais,


brança

ssa pelo espectro principal da memória, que é a invenção (ou

ar um sonho cheio de veladuras. Hoje narro ela dessa maneira:

o qual sei identificar hoje seus nomes “populares”, como a canare

essas plantas, mas também diante três árvores frondosas, uma

como viram minha mãe e tia crescerem. E da mesma forma elas

rias e segredos de outros, revelados apenas entre si na ventania.

a mãe se aproximou de mim e disse que precisava ir ao centro da

filhos naquela época, também tratava questões que pertenciam

ara se despedir, e em minha cabeça surgem dois pensamentos

e prometera comprar para mim em algum momento, quando

vô, quem eu nunca conheci pessoalmente, pois ele faleceu em

i apenas por fotos e falas de minha mãe, e foi assim que soube

r ele em suas histórias e assim aprendi também a amá-lo. Nesse

o ainda hoje, se era pelo brinquedo desejado ou por pensar em

vida. É como se esse sussurro ainda estivesse distante dos meus

os os dias. Nesta energia, nesse axé revitalizante de um ancestral.

imira Gasparino, Rainha Conga do Estado de Minas Gerais e das

ora do Rosário. Ela diz, que de alguma forma cada um carrega

rias e daquilo que ergueram em vida e de ter responsabilidade,

que já está construído, de não deixar cair a árvore que não foi

somos potencialmente ancestrais dos que virão, não apenas

enso de comunidade, sempre expandindo a visão de família.

lentim Madeira, In: MADEIRA, T.V. A mediologia das práticas culturais: da transe

(Doutorado defendida junto ao Programa de Pós Graduação em Comunicação

2014. 89


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Melodia Sentimental

2021 91


ENUNCIAÇÃO

“É preciso comprometer a vida com a escrita

ou é o inverso? Comprometer a escrita com a vida?”

Conceição Evaristo

Preciso dizer que a palavra me assusta. Começar a escrever é

sempre difícil, parece que as palavras estão sempre mentindo

para mim. Mas existe essa ânsia do fazer que algumas vezes só se

alimenta dela - da palavra escrita ou falada - e eu preciso então

tomar o meu lugar de enunciador, recupero o fôlego que perdi e

me preencho de mim. Enunciação é para Benveniste a a instância

entre a apropriação que um sujeito faz da língua transformando-a

em fala, ou seja, discurso. Quando produz um ato de fala, o

enunciador apropria-se do conhecimento linguístico e, ao fazêlo,

institui-se como “eu”. (FIORIN, 2019, p.971) Tomando a palavra

esse “eu” se dirige a outrem que se apresenta como um “tu”,

Benveniste diz que a instância de mediação entre a língua e a fala -

a enunciação - só acontece em detrimento de uma pessoa, espaço

e tempo, que já são identificáveis em primeiro instante enunciado.

Na escrita do corpo-palavra meus poros transpiram, quero falar

em imagens e mostrar palavras, tudo se mistura. Tu enunciatário

espera o desfecho, mas aqui apenas me desfaço, e me despacho.

Construímos juntos um jogo intersubjetivo, dividindo aprendências

através da linguagem, disse Benveniste (1989. p. 222), bem

antes de servir para comunicar, a linguagem serve para viver.

a

Émile Benveniste 1902- 1976, foi um linguista francês, conhecido por

seus estudos sobre as línguas indo-europeias, principalmente sua teoria da enunciação

e a relação linguagem e subjetividade.

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Referências bibliográficas:

BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral II. Campinas, SP:

Pontes, 1989.

BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de

experiência. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, ANPEd,

n. 19, p. 26-27, Abr. 2002.)

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EVARISTO, Conceição. DA GRAFIA-DESENHO DE MINHA MÃE,

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LOBATO DA COSTA, Vanessa. A PRÁTICA DA REPRESENTAÇÃO

POR MEIO DOS DISCURSOS MIDIÁTICOS. Revista TEL, Irati, v. 9, n.2,

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MACHADO, Vanda. Àqueles que têm na pele a cor da noite:

ensinâncias e aprendências com o pensamento africano recriado na

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MARTINS, Leda. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória.

Letras (Santa Maria). Santa Maria, v. 25, p. 55-71, 2003.

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NOGUEIRA, Luís. Manuais de cinema II: Gêneros Cinematográficos.

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NOGUERA, Renato. Por que amamos: o que os mitos e a filosofia

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OLIVEIRA, Luciana. Malungos == irmãos de barco: carrancas de

Mestre Orlando e Paulo Nazareth / curadoria Luciana Oliveira. Belo

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REY. Sandra. Da prática à teoria: três instâncias metodológicas sobre

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SALLES, Cecília. Gestos Inacabados. Processo de Criação Artística.

São Paulo, Fapesp. Editora: Annablume, 2008.

SODRÉ, Muniz: A Verdade Seduzida. Rio de Janeiro-RJ, DP&A, 2005.

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