Revista Dr Plinio 283

revistadp

Outubro de 2021

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 283 Outubro de 2021

Verdadeira paz:

fruto da oração e da luta


Yerpo (CC3.0)

O deslizar do cisne

m um cisne que desliza sobre as águas, é encantador contemplar

sua autossuficiência. Ele não precisa de nada nem de ninguém

para flutuar como uma espuma. Não necessita de com-

panhia ou distração. Basta-lhe ser ele mesmo e viver no encanto de

suas penas brancas, na elegância de seu pescoço esguio, com seu olhar

tão distinto e porte tão nobre, deslocando-se sobre a água com a na-

turalidade com que o homem caminha sobre a terra. Este, entretanto,

faz força para andar. O cisne, não; desliza lentamente com um peque-

no trocar de patas, as quais não aparecem porque são feias. Assim,

dele só se vê a beleza. Oh, sabedoria de Deus!

(Extraído de conferência de 10/2/1974)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 283 Outubro de 2021

Vol. XXIV - Nº 283 Outubro de 2021

Verdadeira paz:

fruto da oração e da luta

Na capa,

Dr. Plinio em 1987.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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assinatura anual

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Segunda página

2 O deslizar do cisne

Editorial

4 Remédios de ontem,

de hoje e de sempre

Piedade pliniana

5 Oração para pedir

a virtude da pureza

Dona Lucilia

6 Modo de ser de

Dona Lucilia

Revolução Industrial

10 Desequilíbrios da

civilização industrial

Hagiografia

19 São Simão e

São Judas Tadeu

Eco fidelíssimo da Igreja

22 Glória de ser perseguido

por amor a Deus

Calendário dos Santos

26 Santos de Outubro

O pensamento filosófico de Dr. Plinio

28 A verdadeira amizade

Luzes da Civilização Cristã

30 Dignidade, distinção e

disposição para a luta

Última página

36 Terra imaculada da qual

se formou o novo Adão

3


Editorial

Remédios de ontem, de hoje e de sempre

Em nossos dias se formou, entre os inimigos declarados da Igreja e os fiéis católicos, partidos intermediários

que pretendem conciliar o espírito do mundo com o dos Evangelhos.

Entre os sinais característicos desses semicatólicos podemos destacar principalmente a pretensão de

tudo conciliar. Desse falso espírito de conciliação nasce a diminuição e confusão das verdades sobrenaturais,

o laxismo, a indiferença religiosa, a deturpação de nossa Fé como, por exemplo, a visão unilateral das verdades

reveladas: realçam-se as suaves e consoladoras, ocultam-se as austeras. É o império da prudência da carne.

Para o verdadeiro católico, a paz não consiste em cruzar os braços diante dos erros procedentes do espírito

do mundo. “Disse-vos isto para que tenhais a paz em Mim. No mundo passareis tribulações; mas tende confiança!

Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). É neste sentido que o Divino Mestre nos assegura que não nos veio trazer a

paz, mas a espada.

A paz, diz Santo Agostinho, é a “tranquilidade da ordem”. Ora, é a Fé que nos faz conhecer as relações cuja

harmonia constitui essa ordem desejada por Deus no mundo.

Em primeiro lugar, será necessária a aceitação prática do soberano domínio do Criador sobre todas as obras

de suas mãos; portanto, sobre os povos e as nações. Em segundo lugar, a afirmação da supremacia do espírito

sobre os sentidos, isto é, sem desconhecer o que há de animal em nossa natureza, devemos nos lembrar de que

é a nossa alma com suas potências que nos distingue dos seres irracionais e nos coloca na dignidade de filhos de

Deus. Por fim, o amor sincero e prático a nossos semelhantes. Sem essa tríplice harmonia, nenhuma “tranquilidade

da ordem” é possível.

Em resumo, a paz para o cristão se reduz no Reino de Deus que está dentro de nós (cf. Lc 17, 21). E como ele

– afirma São Luís Maria Grignion de Montfort – também o Reino da Santíssima Virgem encontra-se principalmente

no interior do homem, isto é, em sua alma, onde a Rainha dos Corações é mais glorificada com seu Divino

Filho do que em todas as criaturas visíveis.

Em Fátima, para alcançar a paz para o mundo, a Celeste Medianeira de todas as graças não propôs aos homens

um programa de assistência material ou de reajustamento de fronteiras, mas nos veio exortar a mudar de

vida e a não mais afligir com o pecado a seu Divino Filho. Para obter a tranquilidade que tanto almejamos neste

mundo conturbado por misérias e sofrimentos, convida-nos a Mãe de Deus a recitar o Santo Rosário e a fazer

penitência pelos nossos pecados.

Entretanto, não foram esses remédios que, em plena Idade Média, a Santíssima Virgem confiou ao zelo de

São Domingos contra os erros e devastações dos hereges albigenses, os mesmos recomendados à humanidade

por meio de três crianças, as quais, em 1917, usavam cilícios como se ainda vivessem no tempo de São Jerônimo

ou São Francisco de Assis? Não estamos no século da energia atômica? Maria Santíssima não vê, então, que os

tempos modernos não comportam essas velharias?

Certamente a Rainha dos Céus não Se deixa levar pelas opiniões dos sábios e orgulhosos desta Terra. Ela não

ignora que seu Divino Filho é o mesmo ontem, hoje e para todo o sempre, e que o problema do mal e das misérias

humanas se prende àquela mesma serpente antiga, o pai da mentira que roubou a paz e a felicidade terrena

de nossos primeiros pais.

Hoje, como ontem, para a conquista da paz e da concórdia entre os homens é preciso trabalharmos para que

Cristo reine nos corações.

A fim de obtermos este dom, volvamo-nos à nossa Mãe e Advogada. Não impeçamos, através de nossos atos

e malícia, que se realizem as comunicações sobrenaturais entre o Céu e a Terra, mas, pelo contrário, tenhamos

abertos os corações às moções da divina graça e não poupemos esforços, sacrifícios e orações para que, mediante

a Rainha dos Corações, Cristo volte a imperar em nossas almas, em nossas famílias, em todas as nações. *

* Cf. O Legionário n. 684, 16/9/1945.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Oração para pedir a

virtude da pureza

Tomas T.

ÓSantíssima Mãe de Deus e minha, fortaleza

dos fracos e refúgio dos pecadores! É

chegado o momento em que terei de passar

por circunstâncias nas quais o demônio mais

especialmente me tenta.

Tenho horror à impureza porque sei o quanto

ela é oposta ao vosso espírito e contrária à escravidão

a Vós, na qual tanto desejo ser perfeito.

Ajudai-me – vô-lo peço por intercessão de São

Luís de Gonzaga, modelo admirável de pureza

– a não vos ofender nesta ocasião, para que eu

possa, desde já, oferecer-vos minha resistência

à tentação; resistência esta que desejo opor ao

inimigo infernal agora e sempre. Eu vos imploro

que todos os dias de minha vida sejam transcorridos

na prática exímia da virtude angélica da pureza.

Assim seja.

Angelo L.

La Virgen Blanca

(acervo particular)

São Luís de Gonzaga - Santuário

de São Luís de Gonzaga, Itália

5


Dona Lucilia

Fotos: Arquivo Revista

Com base em fotografias, Dr. Plinio comenta

alguns aspectos de Dona Lucilia: o carinho

e o afeto para com seu filho, os quais o

acompanharam até o fim da vida dela;

disposição de piedade, voo de espírito,

doçura; alegria, vigilância, compostura;

suavidade em meio à luta e à dor.

Recebi de presente um álbum

de fotografias de mamãe,

abrangendo as etapas

sucessivas de uma vida que é apresentada

muito antes de eu ter nascido,

e depois vai se desenvolvendo

até o momento em que sou mostrado

nos braços dela, onde há um sorriso

no qual reconheço mil e mil outros

sorrisos. Existe um carinho, um

afeto, no qual constato o mesmo carinho

e o mesmo afeto que me acompanharam

até o fim da vida dela.


Elevação de

alma, piedade,

sofrimento, luta

As fotos registram também

a continuação dessa vida.

Naquela em que mamãe me

segura nos braços, ela está risonha,

alegre. Já na de Paris encontra-se

muito preocupada.

Em todas as fotografias anteriores,

desde a primeira, está presente

um pensamento, há uma elevação

de alma, uma disposição de piedade,

um voo do espírito. Mas salta-se de

repente, da época em que estou tão

pequeno e mamãe ainda moça, para

a idade na qual ela já passou por

uma grande provação: a cirurgia feita

na Alemanha, precedida de uma

longa fase de doença dolorosíssima.

Naquele tempo não havia os anestésicos

como em nossos dias, de maneira

que ela sentiu dores lancinantes.

Ela me disse uma vez que sentia

vontade, na cabine do navio que

a levou para a Europa, de ficar de pé

na cama e se agarrar na parede, tal

era a dor. Em determinado momento,

os padecimentos foram tais que

o capitão do navio chegou a mandar

preparar o esquife mortuário dela.

De repente, tudo isso passa e ela

se encontra numa dessas fases decisivas

da vida espiritual, em que a pessoa

não é mais jovem, mas tem força,

ênfase. Nada nela conhece ainda

as suavidades do crepúsculo. Está na

ponta da vida.

Na fotografia seguinte, nota-se

algo que, sem ter quebrado, atingiu

uma zona de tranquilidade indicativa

de uma velhice que começou.

Ela está mais sorridente, mais complacente,

prestando muita atenção

no que se passa. Lembro-me perfeitamente

do que se trata: a inaugu-

7


Dona Lucilia

ração das máquinas do Legionário

no andar térreo do

prédio da Legião de São Pedro,

da Congregação Mariana

de Santa Cecília. Era

um acontecimento de muita

importância, com a presença

do Arcebispo Dom

Duarte, do Bispo de Sorocaba,

Dom José Carlos

Aguirre, senhoras da alta

sociedade de São Paulo.

Dona Lucilia estava muito

comprazida com o que

ocorria. Ao contrário da

fotografia anterior, em

que ela ainda se encontrava

na batalha.

O corpo cada vez

mais enfraquecido, mas a

alma voando para cima

Em outras ocasiões, nota-se que

o anoitecer começou a projetar as

suas primeiras suavidades. Mas, no

fundo, percebe-se que a luta e a dor

continuam.

Na fotografia, por exemplo, do encerramento

de uma Semana de Estudos,

na Escola Caetano de Campos,

na Praça da República, a atitude

de mamãe é de um corpo com menos

força, mas o olhar está atento, e

muito. E ela permanece vigilante em

toda a sua posição, sua compostura,

mesmo encontrando-se entre ín-

8


timos, pois estava entre seu sobrinho

e a senhora dele. Provavelmente

o conferencista era eu. Mas ela atenta,

procurando analisar todas as coisas.

Inclusive, se fosse para me dar

um conselho, depois ela daria.

Em outra fotografia, o tempo já

caminhou mais e alguma coisa da alma

vai como que se distinguindo do

corpo e se separando. O corpo está

cada vez mais affaissé 1 , mas a alma

voando para cima.

A extrema velhice comporta

sorrisos. Nessa ocasião

Dona Lucilia estava

brincando com o bisnetinho,

mostrando-se muito

interessada no assunto.

O Quadrinho 2 nos deu o

último brilho, o último lance

daquele modo de ser, daquele

olhar, daquela doçura, daquilo

tudo que parece ter sido

feito para encantar o meu

João 3 e, através dele, maravilhar

todos os que vieram ao

seu encalço, no caminho seguido

por mim.

Tudo isso não pode deixar

de me comprazer enormemente.

Eu peço a mamãe, cuja alma

não tenho dúvida estar no Céu,

que reze por todos nós, a fim de

que nos mantenha sempre mais unidos,

mais voltados a Nossa Senhora

e caminhando para aquele ponto terminal,

que é a bem-aventurança eterna,

para onde ela nos precedeu. v

(Extraído de conferência de

29/6/1987)

1) Do francês: declinado, enfraquecido.

2) Quadro a óleo, que muito agradou

a Dr. Plinio, pintado por um de seus

discípulos, com base nas últimas fotografias

de Dona Lucilia.

3) Dr. Plinio se refere a Mons. João

Scognamiglio Clá Dias, EP, seu fiel

discípulo e secretário pessoal durante

mais de quatro décadas.

9


Revolução Industrial

Desequilíbrios da

civilização industrial

Iniciado com a eclosão da Revolução, um longo movimento de

incompatibilidade progressiva do homem com as condições comuns de

sua existência quebrou a ordem do universo, substituindo-a por outra

fabricada pela Revolução Industrial. Todo o desvario de uma época,

entretanto, foi precedido por um século de tédio e seriedade engomada

que reprimiram no homem energias, as quais, uma vez desencadeadas,

não tiveram contrapesos que as equilibrassem e harmonizassem.

www.rijksmuseum.nl (CC3.0)

Família reunida em torno de

um cravo (pintura de Cornelis

Troost, 1739) - Museu do Estado,

Amsterdã, Países Baixos

No período de 1920 a 1930,

anos da norte-americanização,

com base nas invenções

todo o ritmo da vida humana mudou.

Não era propriamente um ritmo,

mas um estilo de velocidades,

ao qual correspondia outro gênero

de reflexos. Todos os reflexos do homem

mudaram com essa alteração

de velocidade, e com isso toda a psicologia

e a própria ordem moral se

alterou também.

Embriaguez do brusco

e da velocidade

Consideremos uma pessoa que

não mora em bairro industrial nem

tem contato com o mundo das fábricas,

e vive num local onde os ruídos

industriais não chegam senão sob a

forma de produto feito para ela gozar

a vida. Sem embargo disso, há

uma mudança nas velocidades e nos

ruídos fazendo com que ela encontre

um verdadeiro deleite em saltar para

velocidades extremas.

10


Charles Clyde Ebbets (CC3.0)

Almoço no topo de um

arranha-céu de Nova York, em 1932

Com isso, passou a existir uma espécie

de fobia da velocidade intermediária

e um desejo de pular, à maneira

de um macaco ou de uma fera,

do completo estado de inércia para

o de embriaguez na velocidade,

a qual só dá aquilo que o indivíduo

quer quando esse salto é brusco e lhe

permite sentir inteiramente o gosto

da velocidade.

Por exemplo, antigamente um

trem não arrancava bruscamente,

mas a locomotiva dava uma sapecada

para a frente e todos os vagões estremeciam,

só então o trem partia.

Eu notava que meus coetâneos gostariam

que fosse de outra maneira:

fechassem todo o trem e houvesse

um alarme, após o qual o veículo saísse

em alta velocidade como um foguete.

Um cretino se voltaria para

uma cretina sentada ao lado e diria:

“Que progresso!”

De início, a mudança brusca de

velocidade encantava, mas depois o

fenômeno evoluiu e passou a cativar

o brusco em si mesmo. De maneira

que também a freada passou a

maravilhar. Então, curiosamente, o

homem que tivera a embriaguez de

partir de repente extasiava-se com

a brecada repentina a qual o jogava,

sem estágios intermediários, na

inércia, conferindo-lhe uma espécie

de participação mística no poder da

máquina enquanto uma força encarcerada

na natureza e que o talento

humano liberou.

Inconformidade

com a harmonia

Este é um dos aspectos da civilização

industrial: a imersão brusca do

homem em algo que lhe causa prazer.

Por exemplo, o homem foi feito

para contemplar a bordo de um barco,

de uma ilha ou na costa, a superfície

do mar. Entretanto, num submarino

ele é levado para abismos

profundos que são para ele a própria

imagem do terror, do perigo.

Se houvesse um jeito de o submarino

descer numa velocidade doida

e, ao chegar a certa profundidade,

estancasse subitamente entestando

com um polvo, haveria gente que ficaria

encantadíssima. É a supressão

das velocidades intermediárias com

uma alegria enorme em frear de repente.

E aí não entra apenas o poder

da mecânica arrancando o homem

das velocidades intermediárias, mas

Edward Lamson Henry (CC3.0)

“Acomodação do 945” - Museu

Metropolitano de Nova York

11


Revolução Industrial

tirando-o de seu habitat. Com isso

ele, que está farto da natureza comum,

bondosa, gentil e amável, desce

a abismos, os quais lhe dão a ilusão

da coragem, porém não é a verdadeira

coragem porque sabe não

correr risco de vida.

Então, nós vemos que há mais um

dado a acrescentar: o sair da atmosfera

comum do homem para uma atmosfera

subaquática, a qual é comum

aos seres com quem o homem

não convive, em condições que não

são feitas para ele viver, fazendo

com que force sua natureza para ir

até lá embaixo.

Matar a curiosidade? Sem dúvida

para alguns, talvez até para muitos.

Porém há mais: é a evasão de qualquer

coisa de proporcionado, de harmônico,

de condizente com nós mesmos

de que o homem foge quando

está reputando a normalidade insípida,

e quer ter experiências colossais,

mas não maravilhosas.

Se oferecessem ao homem a possibilidade

de encontrar no fundo

do mar um jogo de luz à maneira

da Gruta de Capri 1 , e lhe dissessem

que as águas, batendo no submarino,

produziriam um som harmônico que

Cenas Militares do Ancien Régime - Museu de História Militar, Viena

lhe faria lembrar o minueto de Boccherini

2 , talvez ele desceria com menos

ênfase, porque há algo nele profundamente

inconformado com a

harmonia da natureza, e não se satisfaz

enquanto não sacie nele esse desejo

entranhado de desarmonia.

Incompatibilidade com

as regras de cortesia

A partir do momento em que

passou a dominar a natureza, o homem

deixou de tê-la como amiga

e começou a achá-la monótona. É

Eryk K S Sopoćko (CC3.0)

Samuel Holanda

Flávio Lourenço

Patrulha de “Orzel” - Livraria Nacional da Polônia

12


Deror_avi (CC3.0)

Gruta de Capri, Itália

um fenômeno psicológico curioso

parecido com aquele pelo qual os

filhos, ao atingirem a época da puberdade,

principiam a considerar

monótonos os pais e o ambiente

da casa paterna. O filho pródigo da

parábola do Evangelho tinha algo

disso. Lança-se na aventura porque

todas as vivacidades, a amizade, todo

o clima da casa paterna não o

contentam mais. Houve qualquer

coisa que se desatarraxou nele e o

levou a querer outras coisas, ainda

que seja o monstruoso. No caso do

homem do século XX há mais: ele

só se consola encontrando o monstruoso.

E é à procura disso que ele

vai.

Daí decorre também a incompatibilidade

com as regras de cortesia,

pois estas têm velocidades intermediárias.

O que o homem contemporâneo

gosta é o cumprimento

simplificado: “Oi! Como vai, bicho?”

Porque é uma simples interjeição,

e o episódio de que ali se

saudaram está feito num sinal, o

resto são velocidades intermediárias

que ele não pode suportar. Pelo

contrário, ele tem a sensação de

que aquilo que um cumprimento

pode dar – e que na ótica dele não

é o respeito nem o afeto – possui

muito mais sabor se sorvido num

golinho assim.

Antigamente era costume, ao menos

em São Paulo, as famílias tomarem

o lanche da noite. Então, cerca

de meia hora antes de se recolherem,

os empregados punham a mesa,

traziam docinhos, bolinhos, broinha

de fubá ligeiramente temperada com

anis, biscoitos de polvilho, alimentos

fáceis de digerir e de sabor muito

discreto, que preparavam o sono

agradável.

Nessa hora, conversava-se sobre

temas amenos, brincava-se um pouco

com as crianças que ainda estivessem

acordadas ou com o cachorrinho

da casa. Depois todos se despediam

e cada um ia para os seus aposentos.

Isso, para as mudanças das velocidades,

considerava-se uma coisa

completamente inútil. Mais prático

era ter um jantar forte, comido

depressa e sem conversar, para

fazer tudo rápido, numa velocidade

que não é a habitual do homem,

e mastigando de maneira a deixar

por demais evidente a função fisiológica.

Filho Pródigo

Museu do Prado, Madri

13


Revolução Industrial

A ruptura com

a normalidade

Visitor7 (CC3.0)

No sistema cinematográfico,

“hollywoodizado”,

vêm sanduíches

compostos de vários

andares que o indivíduo

corta de alto a baixo.

Nota-se que ele está

com as mandíbulas cansadas

e, ao mesmo tempo,

falando com a sua

namorada que o acompanha

em idêntico passo.

Ambos de chapéu,

botas e, mesmo que seja

a última refeição do dia,

pouco importa, estão

como que a cavalo, porque

a posição psicológica

do homem e da mulher

é de estarem a cavalo

o dia inteiro, atendendo

um clamor interno

pelo qual sacrificam

as velocidades intermediárias

e saem do comum

aprazível, agradável,

amável, para se jogarem

no corre-corre e

na aflição de um mundo

transformado por eles,

em que um certo poder da máquina

acompanha como uma matraca tudo

quanto fazem.

Os elevadores nos arranha-céus

também tiveram nisso o seu papel.

Não se podia subir num prédio de

vinte andares a pé, ninguém aguenta.

Com a evolução dos elevadores,

num instante se subia e noutro instante

se descia. Para as pessoas bem

na moda, a melhor hora do elevador

não era aquela em que ele subia,

mas quando descia. A descida brusca

produzia nas pessoas mal habituadas

um pequeno arzinho no estomago.

Era mais uma vez a fratura das velocidades

intermediárias e normais.

Rindo, uma velha senhora dizia

para outra:

Interior do elevador no

Edifício Bradbury, Los Angeles

— Ih, senti uma coisa....

— Olha, medo a gente sempre

tem, hein!

Um homem de negócios, sem

qualquer relação com elas, que estava

pensando nos assuntos dele, e

se devia a si mesmo uma afirmação

de sua varonilidade, sem se meter

na conversa, dava um ligeiro sorriso

de doce desdém, como quem diz:

“Isso acontece com ela, mas eu já

não sinto isso assim porque mudei

a minha personalidade para ajustá-

-la a esse novo modo de ser diário,

a essa forma nova do universo, em

relação ao qual sou um homem que

enfrenta, esmurra tudo, continuamente

numa batalha.” Era o business

man, que é o estágio mais desenvolvido

do cowboy

quanto à ruptura com

a normalidade.

Naquele tempo, se

o elevador subisse fazendo

barulho, o business

man gostaria ainda

mais, porque teria

mais a noção de algo

da máquina, e ele precisava

ser acompanhado

de um ruído mecânico

o dia inteiro, exceto

na hora de dormir,

quando então ia

sozinho para uma cidade

dormitório, deitava-se

em uma cama

14

Josephus Daniels e Henry Ford,

entre os anos de 1908 e 1919


CBS Radio (CC3.0)

All Star Jazz Band, em 1944

National Photo Company Collection (CC3.0)

supermacia e caía meio desmaiado,

com os nervos em frangalhos, mas

não reconhecendo isso, julgando estar

no seu apogeu, na sua apoteose.

Isso veio se transformando num

desejo de conhecer uma velocidade

como que absoluta a qual se desprende

da natureza e nos conduz

para um mundo de uma pressa, uma

eficácia, uma subtaneidade que impressionava

profundamente. Essa

disposição leva o homem a perceber

que a natureza tem uma porção

de forças com as quais ele pode

compor um mundo inteiramente diferente

do atual, produzido pela Ciência.

Busca da diversão

sem a harmonia

Sem dúvida isso cansa, mas a época

das psicoses ainda não começara,

o mundo estava sacando em um banco

de uns cinco mil anos de existência

calma e, portanto, com muito para

gastar ainda, antes de ficar neurótico.

Tratava-se de buscar a diversão

e o prazer enxotando a harmonia.

Foi quando surgiu o jazz-band.

O jazz-band é a música sem harmonia,

onde tudo é uma surpresa

um pouco dada a caretas e que convida

para a gargalhada. É uma música

completamente sem seriedade.

Tem-se a impressão de que aqueles

instrumentos – elaborados não mais

para fazer ouvir o belo, mas o inesperado

– são, em matéria de som, o

que é o polvo para o tripulante do

submarino. Era como se um demônio

tivesse deformado a antiga harmonia,

cortando-a sem quebrar, e

mandasse tocar.

Tudo isso levava as pessoas a evadir-se

para uma prodigiosa aventura

da qual tinham apetência. E se

um senhor respeitável quisesse parar

a orquestra e dizer: “Minhas senhoras,

meus amigos, meus caros jovens,

eu queria fazer ver como tudo isto é

uma coisa inaceitável...”, ele se tornaria

o mais impopular possível. Se

tivesse cometido um crime, ele não

ficaria tão desmoralizado quanto fazendo

isso.

Começaram a aparecer algumas

coisas que punham mais em relevo

para o homem essa ideia de forças

soltas na natureza as quais lhe permitem

preparar o dia de amanhã.

Eram progressos modestos, mas que

causavam grande sensação na São

Paulinho de então. Por exemplo, a

solda autógena. Era comum, no início,

porque depois tudo se torna banal,

duas ou três pessoas pararem a

fim de olhar alguém soldar trilhos

de bonde. E o operador vaidoso por

sentir-se uma espécie de ente mitológico

manejando aquela coisa.

Depois vinham os comentários:

“Até onde o mundo levará a Ciência?

Que maravilhas se podem esperar,

que coisa magnífica!”

15


Revolução Industrial

Arquivo Revista

Plinio e Dona Lucilia no

início da década de 1920

Adoração de novos deuses

Os progressos da Física vinham

acompanhados pelos da Química,

dando lugar a indústrias fabulosas

com a possibilidade de tornar acessível

a todo mundo artigos que o

conjunto dos homens antes não poderia

possuir: pérolas falsas, tecidos

que imitavam a seda, mas já não tinham

nada a ver com o bicho-da-seda.

Nas conversas, as pessoas atualizadas

diziam:

— Ahahah, você não sabia?

— Mas como, seda sem bicho-da-

-seda?!

— Ahahah, olha lá, ele pensa que

seda é feita pelo bicho-da-seda. Não,

senhor! Esse tecido aqui se faz com

fio de vidro.

E o pobre ingênuo, que podia conhecer

Aristóteles e São Tomás, mas

pensava que seda só podia ser feita

pelo bicho-da-seda e que vidro daria

numa coisa quebradiça, mostrava

sua surpresa:

— Fio de vidro!

— Ah, meu caro, você precisa

nascer de novo.

Pisando naquele indivíduo porque

era um ímpio que não adorava

os novos deuses nem tinha ido de

encontro às alvoradas da Ciência, e

ainda estava se rolando nos compassos

aburguesados e idiotas de outrora.

Todas essas invenções se afiguravam

como algo de miraculoso. Por

exemplo, a dinamite.

Diziam:

— Você com isso faz uma bomba

e pode estalar uma montanha!

Produz um túnel debaixo do Mont

Blanc, o monte que Bonaparte realizou

o prodígio de andar por cima...

Hihihih, pobre Bonaparte… nós fazemos

um buraco por baixo. Diga

para que lado você quer perfurar,

meu caro, porque tendo dinheiro –

sem dinheiro não se consegue nada

– tal empresa lhe faz esse túnel em

questão de trinta dias. A natureza

não tem mais obstáculos.

Sempre com a ideia de produzir

um impacto científico por meio de

uma surpresa que introduz

o indivíduo, de repente,

numa situação com

a qual ele não contava,

com vistas a preparar

inteiramente

o mundo para a entrada

numa ordem

de coisas completamente

nova, dominada

por forças

naturais inimagináveis.

Vemos, assim,

um longo movimento,

iniciado com a

eclosão da Revolução,

de incompatibilização

progressiva do homem

com as condições

comuns de sua existência e

com as harmonias do universo.

Uma quebra da ordem do universo,

substituída por outra ordem fabricada

pela Revolução Industrial para a

qual se vai caminhando passo a passo

ao longo dos séculos.

Arquivo Revista

Dona Lucilia era o

oposto de tudo isso

Eu senti, quando menino entre

doze e dezesseis anos, em relação

a todas essas coisas uma oposição

enorme proveniente do meu temperamento

calmo, meu modo de ser

cordato e de toda a atmosfera criada

por mamãe em torno de mim. Aliás,

Dona Lucilia era o oposto de tudo

isso, de uma oposição que ela nem

fazia intencionalmente, porque nela

isso transcendia o intencional.

Mas de vez em quando eu sentia

como se brotasse em mim certas vibrações

em cadeia, as quais me inclinavam

a gostar de cantarolar – eu

não cedia – tal trecho de jazz-band

que vinha à mente. Ou, então, reproduzir

tal barulho mecânico que

ouvi. Aquilo se apresentava como

tendo um certo sentido, ou porque

era uma coisa muito diferente e uma

16


vibração se desprendia de mim em

cadeia, tinha apetência daquilo que

ficava fervendo em mim enquanto

não cantarolasse; ou porque eu percebia,

em algumas coisas novas que

surgiam, algo de bom, que deixava a

ordem antiga meio superada.

Por exemplo, durante algum tempo

usou-se serrote como instrumento

de música no jazz-band. Parecia-

-me que, às vezes, do som do serrote

se desprendiam expressões mais

categóricas no aspecto sentimental,

afetivo, do que a música comum.

E que era preciso saber aproveitar

aquilo. Daí uma certa complacência

para com o serrote.

Como também uma ideia de que,

a partir do momento em que se tinha

descoberto a solda autógena,

deveria haver um meio de fazer fogos

de artifício muito mais brilhantes

do que os antigos. Portanto, havia ali

algo para aproveitar. E, assim, várias

outras coisas dessas.

Resultado da velocidade:

os desequilíbrios nervosos

Mas eu percebia, ao mesmo tempo,

que se consentisse nisso entrava

o resto todo junto. Logo, não podia

cantarolar, não podia ceder, e

deveria haver alguma coisa de ruim

no serrote porque, do contrário, eles

não o utilizariam; e que, portanto,

precisava reagir até contra a ideia

de aprimorar, porque não era legítimo

aceitar a ideia de melhorar alguma

coisa colhendo peixes nessa lagoa

envenenada. Eu perderia minha

integridade contrarrevolucionária se

fosse me entregar a cogitações dessa

natureza. Em última análise, faria

o papel de bobo: estaria vendendo

meus ouros e minhas esmeraldas

por espelhinhos, como faziam os índios

daqui com os colonizadores. E

não estava disposto a executar esse

papel.

Eu percebia que nos indivíduos

que davam entrada a essas coisas

constituía-se uma zona da personalidade,

a não sabendas deles, onde

se produzia uma forma de desequilíbrio

nervoso. Contudo não deixavam

transparecer, porque um homem

nervoso era o auge do depreciativo.

Mas as gerações que se seguiram

à minha começaram a dar

mostras de nervosismo. Era a concessão,

e depois a adoração de certas

energias que em mim e nos de

meu tempo começaram a se desatar,

e contra as quais eles não reagiam.

Um século de tédio e de

educação engomada...

Qual a causa desse desatar?

Quando eu era menino, as pessoas

mais velhas tinham um jeito assim:

riam pouco, não se emocionavam

muito, levavam uma vida a mais

acomodada que se possa imaginar

e, ainda quando trabalhassem bastante,

procuravam disfarçar porque

era um ritmo de vida no qual não cabiam

grandes alegrias, movimentos,

Las Ventanas del Cielo (CC3.0)

Fogos de artifício em Ávila, Espanha

17


Revolução Industrial

Arquivo Revista

expansões, mas uma espécie de monotonia

grave e ligeiramente sonolenta,

correspondente à era do domínio

da burguesia.

Eu via, por exemplo, quando era

criança, nas casas que minha família

costumava visitar como eram as

salas de visita. Às vezes, chegávamos

em uma hora inesperada e víamos

as salas serem aberta. Eram

ambientes conservados quase como

sarcófagos, onde só nessas ocasiões

entrava certa luminosidade, porque

antes não era permitido para a luz

não prejudicar os tecidos muito preciosos

ali guardados. Caminhava-se

sem ouvir qualquer ruído, pois os

pés pisavam duas camadas de tapetes.

Às vezes se encontrava uma almofada

no chão, não por desordem,

mas ornamental, e na qual se pisava

por inadvertência quase caindo...

Via-se que não tinha nenhuma importância

se uma visita quebrasse

um osso por tropeçar ali, desde

Dr. Plinio em 1986

Príncipe Luís Felipe, em 1834

que não rompesse

um dos vários bibelôs

que decoravam

a sala.

Todos se sentavam

e começava a

visita, mas de uma

caceteação tremenda!

De fato, precedeu

isso mais de um

século de tédio e de

seriedade engomada

que acumulavam

energias que deveriam

ter tido seus

contrapesos, mas

não tiveram. Estava,

assim, preparada

a descompressão

com seus resultados.

Os contemporâneos

de Luís

Felipe 3 , que substituíram

o cravo pelo

piano, foram os

precursores do jazz-band. O cravo

sorri, brinca, mas tem um som angelical

e pode tocar melodias que na

Terra não se ouvem. O piano, não.

Ele é pesadão, um pouco sério à racionalista.

A partir de Luís Felipe,

cuja fisionomia correspondia a este

perfil que estou descrevendo, até a

ascensão dos Estados Unidos, o clima

era esse e não comportava outra

coisa. Simbolicamente, poder-se-

-ia dizer que os últimos sorrisos na

Terra cessaram quando o cravo foi

substituído pelo piano. v

(Extraído de conferência de

18/9/1986)

1) Situada na Ilha de Capri, Sul da Itália.

2) Luigi Rodolfo Boccherini (*1743 -

†1805), compositor italiano.

3) Louis-Philippe I (*1773 - †1850), filho

de Philippe Egalité. Foi rei dos franceses

de 1830 a 1848.

Achille Devéria (CC3.0)

18


Hagiografia

São Simão e

São Judas Tadeu

Considerando o respeito com que

a Igreja cerca a memória desses

Apóstolos, a gratidão com que ela

os trata, a afirmação da santidade

pessoal que alcançaram,

compreendemos terem eles

correspondido de modo pleno aos

desígnios da Providência Divina.

Suas missões se realizaram

inteiramente e eles morreram

em paz dentro do aparente

fracasso de seu apostolado.

Flávio Lourenço

No dia 28 de outubro

a Igreja comemora

a festa de São

Simão e São Judas, Apóstolos.

A respeito deles, temos os

seguintes dados extraídos de

uma obra de Dom Guéranger 1 ,

entre outros.

Na Sagrada Escritura

há mil refutações

do igualitarismo

Uma antiga tradição refere que São

Judas Tadeu pregou o Evangelho na

Mesopotâmia, e São Simão no Egito.

Depois, reuniram-se na Pérsia onde

sofreram o martírio no ano de 47.

Simão era designado o Zelota talvez

por ter pertencido antigamente ao

partido nacionalista dos zelotas, que

não queriam admitir o jugo estrangeiro

sobre a Palestina.

Judas era sobrinho de São José por

Cléofas ou Alfeu, seu pai, portanto legalmente

primo do Homem-Deus. Era

daqueles que os seus compatriotas

chamavam irmãos do Filho do carpinteiro.

Ele escreveu uma curta epístola

para combater a heresia gnóstica,

então nos seus começos.

As relíquias dos dois Apóstolos

foram transportadas, em 1605, para

a Basílica do Vaticano e colocadas

no altar que a tradição diz estar situado

mais ou menos no lugar onde

São Judas Tadeu - Igreja de São

Francisco, Cidade do México

19


Hagiografia

Gabriel K.

teria sido implantada a cruz de São

Pedro.

Os zelotas eram aqueles que tinham

o zelo pela independência da

Palestina para que ela não caísse no

jugo gentio. E se entre os zelotas havia

elementos maus, existiam também

elementos bons porque a causa

zelota tinha alguns aspectos simpáticos,

dignos de apreço. Compreende-se,

portanto, porque nesse meio

Nosso Senhor tenha recrutado um

de seus Apóstolos, São Simão.

São Judas era primo de Jesus. Aliás,

não era o único parente entre os

Apóstolos. Isso mostra bem a extraordinária

predestinação da Casa de

Davi. Seria uma honra para imortalizar

uma estirpe o fato de ter entre

si um Apóstolo, e a de Davi possuiu

mais de um. E não só isso, há um fato

que eclipsa este parentesco de todos

os modos possíveis: dela nasceu

também o Homem-Deus.

Para deixar bem marcado o amor a

essa estirpe, o que por sua vez nos indica

quanto Deus toma em consideração

a hereditariedade, e como andam

desvairadamente os igualitários

que reputam ser o princípio da hereditariedade

de nenhum valor. Isto

é uma das coisas do igualitarismo

que encontram mil refutações no

conteúdo das Escrituras.

A celebridade consiste

em ser conhecido

pelos ignorantes

Diante da escassez de

informações a respeito

desses dois Apóstolos, poderíamos

nos perguntar se

convém comentá-los em

nossa reunião. Respondo

que sim, porque todos

os Apóstolos, pela sua ligação

com as origens da

Igreja, devem ser objeto

de nossa especial devoção.

A festa de um Apóstolo

não pode ser indiferente

ao bom católico.

Mas quando vejo nomes

de Apóstolos que

deixaram dados bastante

pequenos na história

escrita, fazendo com

que uma pessoa não

muito instruída nessa

matéria quase nada saiba

a respeito deles – porque

a celebridade consiste

em ser conhecido não pelos cultos,

mas pelos ignorantes –, lembro-me

muito da disparidade de fecundidade

da evangelização dos Apóstolos que

agiram na bacia do Mediterrâneo e a

dos que atuaram em outros lugares.

E penso a respeito da resignação

que estes devem ter tido, muitos deles

morrendo em paz, vendo que seu

apostolado não havia produzido nenhum

fruto, mas sabendo que todas as

ações feitas de acordo com a vocação

de cada um, realizadas com integridade

de espírito e retidão de intenção,

obedecendo à moção da Providência,

serão premiadas no Céu e concorrem

para a glória de Deus, ainda que

os homens na Terra tenham dado um

aplauso pequeno ou um consentimento

insignificante a essas ações.

Ponto de partida para a

fecundidade do apostolado

É interessante notar que um bom

número de Apóstolos na aparência

exerceu um apostolado ineficiente

e fracassado. Dir-se-ia hoje que os

Apóstolos da bacia do Mediterrâneo

se realizaram e os outros morreram

irrealizados, conforme essa mania

da “realização” e esse horror do fracasso

que existe atualmente.

É indispensável compreendermos

que isso contém uma lição para nós,

considerando o respeito com que a

Igreja cerca a memória desses Apóstolos,

a gratidão com que ela os trata,

a afirmação da santidade pessoal que

alcançaram, quer dizer, eles corresponderam

inteira e plenamente aos

desígnios da Providência Divina. Portanto,

Deus estava contente com eles,

suas vidas se realizaram na plenitude

e morreram em paz, dentro do aparente

fracasso de seu apostolado.

Mais ainda, sabendo que outros

estavam tendo um apostolado muito

frutífero. Os Apóstolos sofreram o

martírio, compreendendo que algum

dia seu sangue seria de utilidade para

aqueles povos.

São Simão - Igreja do Sagrado

Coração de Jesus, Montreal, Canadá


Flávio Lourenço

Martírio de São Judas Tadeu e São Simão - Museu Episcopal, Vic, Espanha

pregnar de aroma os pés do Redentor

e a Ele servir.

Há outra lição para nós. Mesmo o

apostolado bem sucedido vale, principalmente,

por essa espécie de imolação,

de holocausto, de adoração sem

mais porque Deus é Deus. E digo

mais: se é verdade que um apostolado

com essas intenções pode não ser

bem sucedido, eu não creio que haja

apostolado fecundo sem essas intenções.

Se uma pessoa soubesse que seu

apostolado seria como o de São Simão

e São Judas, isto é, sem nenhum

Ainda que não tivesse utilidade

para povo nenhum, eles prestaram

a Deus o culto de sua adoração

e de seu sacrifício desinteressado,

até mesmo sem objetivo terreno.

Apenas porque eram criaturas

de Deus, chamados por Ele para

uma certa obra, realizaram-na e nela

morreram para a glória do Criador.

Quer dizer, fizeram de si como

aquela ânfora cheia de perfume

que Santa Maria Madalena quebrou

diante de Nosso Senhor, e que

não teve outra utilidade senão imfruto

humano, e por isso diminuísse

sua dedicação, ela não daria ao seu

apostolado a fecundidade necessária.

Porque é esse estado de espírito que

deve ser o ponto de partida para que

o apostolado seja fecundo. v

(Extraído de conferências de

28/10/1963 e 28/10/1965)

1) Cf. GUÉRANGER, Prosper. L’année

liturgique. Vol V. Librairie Religieuse

H. Oudin. Paris: 1900. p. 523-525.

21


Eco fidelíssimo da Igreja

Gabriel K.

Retábulo do altar-mor

da Igreja do Sagrado

Coração de Jesus,

Montreal, Canadá

Glória de ser perseguido

por amor a Deus

A vida da Igreja não teria beleza nem mérito se muitas

vezes os bons não tivessem sofrido. Os justos terão de

passar por fases cruciais, enfrentar situações terríveis, mas

serão libertos. A Providência intervirá a favor deles.

Consideremos um trecho extraído

da Carta Circular aos Associados

da Companhia de Maria, de São

Luís Maria Grignion de Montfort, que

se encontra em suas obras completas.

Nele podemos ver a amplitude do auxílio

de Nossa Senhora para aqueles que

sabem, de fato, invocá-La:

Proteção de Nossa Senhora

para os que sabem invocá-La

“Eu sou a vossa proteção e a vossa

defesa, ó pequena companhia” – disse

o Padre eterno.

Companhia quer dizer batalhão,

na linguagem de São Luís Maria

Grignion de Montfort.

“Eu vos tenho gravado em meu coração

e em minhas mãos, para vos amar e

vos defender, porque vós pusestes vossa

confiança em Mim, e não nos homens,

na Providência e não no ouro.”

Quer dizer, aqueles que se dão

inteiramente a Nosso Senhor, por

meio de Maria, têm seus nomes gravados

no Coração e nas mãos do

próprio Deus.

O coração é um símbolo, e significa

ter o nome gravado no Amor do

próprio Deus. As mãos simbolizam a

operosidade da Providência que atua

e encaminha os acontecimentos.

Uma ilustração muito bonita disso

é o quadro representando Nossa

Senhora de Guadalupe. Ao ser analisado

recentemente com lentes especiais,

verificou-se que na menina

dos olhos da imagem estava o índio

para quem a Santíssima Virgem apareceu.

É um modo de Nossa Senhora

exprimir o seu carinho singular tem

para com aqueles que A servem, e

que podem ser fustigados por essas

ou aquelas tempestades: são sempre

22


levados a bom termo pela Providência

Divina.

Seremos libertos dos

assaltos infernais

“Eu vos libertarei das ciladas que

vos fazem,…”

É bem o nosso caso.

“…das calúnias que são levantadas

contra vós.”

Portanto, é próprio aos verdadeiros

filhos de Nossa Senhora, em todos os

tempos, sofrer ciladas e calúnias.

“Eu vos livrarei dos terrores da noite,

e das trevas que vos metem medo.”

O que são os terrores da noite?

Não são apenas os fantasmas ou os

medos que as pessoas podem

ter durante a noite, mas são

os terrores que aparecem aos

homens nas situações obscuras

e tenebrosas da vida. Nas

quadras difíceis da existência

em que o homem não sabe

como agir, ele se vê como

que numa noite cheia de terrores.

Então, Deus, por intercessão

de Nossa Senhora

que é nossa Medianeira, nos

auxiliará nas trevas das quais

possamos estar circundados.

“Eu vos livrarei dos assaltos

do demônio do meio-dia

que vos quer seduzir.”

Ao que parece, esse demônio

do meio-dia é o da idade

madura, ao qual estão sujeitos

os homens quando chegam

à época em que se perguntam:

“O que fiz na vida?

Que carreira segui? Que grau

ocupei? A que cargo cheguei?

Que dinheiro economizei?

Que prestígio granjeei?”

E vendo que não granjearam

o que queriam, embora às vezes

tenham granjeado muito,

resolvem vender-se.

Essa forma de tentação é

chamada de o demônio do

meio-dia, porque o homem

está no pináculo de sua vida, naquela

hora em que ele vai caminhando

para o seu declínio, pois a tarde começa

e, então, faz um retrospecto do

que foi toda a sua manhã, e se pergunta

o que ele fez, o que colheu.

Preocupação que não se põe de

modo tão aflitivo aos vinte anos como

aos trinta; nem tão aflitiva aos

trinta quanto aos quarenta, mas parece

que chega ao seu zênite entre

os quarenta e os sessenta. Essa

é a idade na qual o homem procura

consolidar-se, e pode tornar-se

venal. Provavelmente Judas Iscariotes

encontrou-se com o demônio do

meio-dia quando resolveu vender

Nosso Senhor.

Nossa Senhora de Guadalupe

(acervo particular)

Se perseguidos, seremos

cobertos com o poder de

Deus e o afeto de Maria

“Eu vos esconderei sob as minhas

próprias asas.”

Essas foram as belas palavras de

Nosso Senhor a respeito de Jerusalém,

quando disse: “Jerusalém, Jerusalém...

quantas vezes Eu quis reunir

os teus filhos, como a galinha reúne

seus pintinhos debaixo de suas asas...

e tu não quiseste! (Mt 23, 37)”

Assim também parece dizer Nossa

Senhora àqueles que forem perseguidos

pela ação do demônio e seus

sequazes, por amor ao nome d’Ela:

“Eu te reunirei debaixo das minhas

asas. Eu te cobrirei com o

meu afeto.”

“Eu vos carregarei nos

meus próprios ombros.”

É uma referência à parábola

do Bom Pastor que toma

a ovelha doente e a carrega

nos próprios ombros com

todo o afeto.

“Eu vos nutrirei no meu próprio

seio.”

A Providência fará conosco

o que a mãe faz com o seu filhinho,

o que Nossa Senhora

fez com o Menino Jesus. Assim

Ela trata aos que somos

perseguidos por amor a Ela.

“Eu vos armarei com a minha

verdade, e tão poderosamente,

que vós vereis os vossos

inimigos cair aos milhares

ao vosso lado. Mil maus

pobres à vossa esquerda, dez

mil maus ricos à vossa direita,

sem que a minha vingança sequer

se aproxime de vós.”

A metáfora é linda! É o

justo que, embora perseguido

por amor a Nossa Senhora,

continua avançando. Ele verá

caírem, de um lado e de outro,

os inimigos d’Ela. À esquerda

dele cairão mil maus

pobres, à sua direita cairão

Luis C.R. Abreu

23


Eco fidelíssimo da Igreja

Felix Reimann (CC3.0)

dez mil maus ricos, mas a vingança de

Deus não o atingirá, nem de longe.

Por que esses mil maus pobres e

esses dez mil maus ricos? Em primeiro

lugar, é preciso notar quantos

inimigos tem o justo. Ele olha para a

esquerda e tem mil homens; isso dito

numa época em que a população do

Globo era muito menor... São todas

frases bíblicas. Mil homens já era um

exército que metia medo.

Do outro lado, ele tem dez mil

maus ricos. Quer dizer, está assediado

de maus por todos os lados. Cercaram-no

para liquidá-lo. Mas põe a

sua confiança em Nossa Senhora e

nada lhe sucede.

Agora, por que de um lado os pobres

são mil, e os maus ricos são dez

mil? São Luís mostra que o bem e o

mal não estão condicionados ao fato

de ser pobre ou rico. Por isso diz

que, de um lado, há ricos e, de outro,

pobres; uns e outros são ruins.

Mas como o rico é mais poderoso do

que o pobre – ao menos era naquele

tempo – constitui uma manifestação

maior do poder de Deus liquidar

o número superior de ricos.

“Vós caminhareis com coragem sobre

a áspide e o basilisco, o invejoso e

caluniador.”

São animais bravios. A áspide é

uma forma de cobra e o basilisco é

um animal mitológico. Caminhar sobre

cobras não é nada prudente, é perigoso;

caminhar sobre o basilisco, um

animal mitológico, deve ser uma coisa

horrorosa, mas nada acontecerá; serão

todos calcados aos pés. Então, a

áspide deve ser a invejosa, e o basilisco,

o caluniador. Quer dizer, “vós caminhareis

sobre os invejosos e os caluniadores

e nada vos acontecerá.”

“Vós calcareis aos pés o leão e o

dragão ímpio, arrogante e orgulhoso.

Eu vos ouvirei nas vossas orações, vos

acompanharei nos vossos sofrimentos,

vos livrarei de todos os males e vos

glorificarei com toda a minha glória.”

O justo pode sofrer, e quantas vezes

tem sofrido... A vida da Igreja

não teria nenhuma beleza, nem mérito

se muitas vezes os bons não tivessem

padecido. Os justos terão de

passar por fases cruciais, enfrentar

coisas terríveis, mas serão libertos. A

Providência intervirá a favor deles.

Bem-aventurados os perseguidos

por amor à justiça

E serão objeto de uma linda promessa:

“Eu vos glorificarei com toda a minha

glória, que vos mostrarei no meu reino

descoberto, depois que Eu vos tenha enchido

de dias e de bênçãos nesta Terra.”

Essa é a majestade de Deus providíssima.

Naturalmente, Ele não diz que todos

os bons viverão muito tempo,

mas diz uma outra coisa: Deus não

permitirá que os maus matem aqueles

que, segundo o seu desígnio, devem

viver muito tempo, pois fará que

eles cumpram os seus dias na Terra.

Os maus só matarão aquele que Deus

permitir, por desígnio divino, morrer

numa determinada ocasião, por meio

de uma doença, um desastre, ou qualquer

outra coisa que pudesse matar.

Esses justos serão cumulados de

dias e de bênçãos nesta Terra, e no

Céu serão glorificados com toda a

glória de Deus. Prêmio magnífico

concedido não a qualquer perseguido,

mas apenas para quem o é por

amor a Deus.

Um pai de família, por exemplo,

pode ser muito solícito; entretanto,

ateu. Vem um bandido qualquer, implica

com a sua solicitude e comete

um crime contra ele. É um crime

abominável, um homicídio. Mas esse

homem não tem a glória de quem é

perseguido por amor a Deus.

Outro caso hipotético pode ser de

alguém com ódio de um antepassado

meu, porque outrora tiveram uma

disputa de terras. Então diz: “Bem,

agora vou me vingar daquele homem

nesse que é seu descendente.”

A vingança é um ato mau, ainda

mais quando realizada contra um

inocente, porque não tenho parte no

delito ou crime que esse me antepassado

tenha cometido. De maneira

que tudo é mau. No entanto, absolutamente

não se compara a quem é

perseguido por amor a Deus.

O mérito especial de ser perseguido

por amor a Deus está no fato de

ser uma das bem-aventuranças no

Evangelho. Aquele justo que é perseguido

recebe da Providência uma

espécie de delegação, representação

ou mandato. Ele é um procurador de

Deus diante dos homens. E sendo

odiado, é a Deus que odeiam nele.

24


Essa alma contrai, assim, um vínculo

com Deus que é uma prova do

amor d’Ele por ela. Ele a chama para

junto de Si e a quer cumular de

seu afeto e carinho precisamente

nessas circunstâncias, porque fizeram-na

sofrer por amor a Ele.

Dou outro exemplo terreno. Imaginem

um rei que é duramente insultado

por um cavaleiro de um reino

vizinho. O soberano dirá: “Lutar

com um simples cavaleiro de outro

reino não tem propósito. Sou rei e

combato contra outro monarca, não

contra um simples cavaleiro. Mas,

por outro lado, a minha honra não

pode deixar de se desagravar desse

ultraje. Então, vou nomear alguém

para lutar contra aquele.”

O cavaleiro designado vai e luta.

Não foi uma prova de afeto do rei tê-

-lo nomeado para o combate? Sim,

porque o monarca quis sentir-se representado

por aquele, incumbindo-

-o da função digna e gloriosa de defender

a honra real.

Nosso Senhor disse expressamente:

“Em verdade eu vos declaro: todas

as vezes que fizestes isto a um

destes meus irmãos mais pequeninos,

foi a mim mesmo que o fizestes”

(Mt 25, 40). Isso vale tanto para

a esmola como para o ultraje. E se

Deus permitiu que, no cumprimento

do dever, fôssemos atacados, estamos

fazendo o papel de um cavaleiro

constituído como seu representante,

suportamos a perseguição, a calúnia

e a injúria em nome d’Ele e somos

seus representantes, como Anjos. É

uma missão lindíssima que nos reveste

de toda a glória.

vendo nele a personificação de Nosso

Senhor Jesus Cristo, levou-o para

o próprio leito conjugal, e ali foi tratar

dele.

Mas essa santa rainha tinha uma

sogra intrigante que presenciou a cena

e contou para o filho, o Duque da

Turíngia, esposo de Santa Isabel:

— Venha ver o que fez sua mulher!

Colocou um leproso na cama

onde você dorme, com a intenção

de passar a lepra para você. Vá lá no

quarto ver se não é verdade.

Ele entrou nos aposentos e, ao

retirar o lençol que cobria o pobre

morfético, viu no lugar deste o próprio

Redentor. Aquele leproso representava

Nosso Senhor Jesus Cristo

que por causa desse ato de caridade

realizou tal milagre.

No Evangelho, o Divino Mestre

diz que no Juízo Final vai julgará os

homens segundo o seguinte critério:

“Tive fome e não me destes de comer;

tive sede e não me destes de beber;

era peregrino e não me acolhestes;

nu e não me vestistes; enfermo e

na prisão, e não me visitastes.” Deus

estava na pessoa de todos os aflitos e

necessitados, e aos que não os socorreram,

Ele diz: “Ide, malditos, para

o fogo do eterno!” (Mt 25, 41-43).

Assim também Deus Se faz representar

pelos que sofrem aflições ou

necessidades por causa d’Ele.

Se é verdade que Christianus alter

Christus, então o cristão crucificado

é um outro Cristo crucificado.

Devemos pedir a Nossa Senhora

que nos torne dignos de enfrentar

a fúria dos inimigos d’Ela. Que a

Mãe de Misericórdia afaste de nós a

provação e a perseguição, mas se estiver

no seu desígnio enfrentarmos

isso durante algum tempo, que Ela

nos dê a confiança imperturbável de

que, debaixo de quaisquer cinzas, renascerá

a TFP para a glória d’Ela.v

(Extraído de conferência de

21/10/1971)

Flávio Lourenço

Das cinzas renascerão

os justos perseguidos,

para glória de Deus!

Em histórias de Santos vemos

com frequência casos como o de

Santa Isabel da Hungria. Ela cuidava

dos doentes, inclusive leprosos. Certa

ocasião, viu um pobre leproso e,

Santa Isabel da Hungria dando esmola

Igreja de Santo Ulrico, Ortisei, Itália

25


Bridgeman (CC3.0)

C

alendário

1. Santa Teresa do Menino Jesus e

da Santa Face, virgem e Doutora da

Igreja (†1897). Muito jovem ingressou

no Carmelo de Lisieux. Pio XI

a canonizou no ano de 1925 e dois

anos mais tarde a proclamou, junto

a São Francisco Xavier, Padroeira

Universal das Missões.

2. Santos Anjos da Guarda

São Beregiso, abade (†c. 725).

Fundou um mosteiro de cônegos

regulares na região de Ardennes,

Bélgica.

3. XXVII Domingo do Tempo

Comum.

Bem-aventurados André de Soveral

e Ambrósio Francisco Ferro,

presbíteros, e companheiros, mártires

(†1645).

4. São Francisco de Assis, fundador

(†1226).

Santa Áurea (†c. 666). Abadessa

do Mosteiro de São Marcial, em Paris,

onde viviam cerca de trezentas virgens

sob a regra de São Columbano.

5. Santa Maria Faustina Kowalska,

virgem (†1938). Religiosa das Ir-

São Phillip Howard

dos Santos – ––––––

Johann Salver (CC3.0)

Beato Adalberon

de Würzburg

mãs da Bem-Aventurada Virgem Maria

da Misericórdia, que muito trabalhou

em Cracóvia, Polônia, para manifestar

o mistério da Misericórdia

Divina.

Santa Flora, religiosa da Ordem de

São João de Jerusalém (†1347). Dedicou

sua vida ao cuidado dos doentes.

6. São Bruno, presbítero e fundador

(†1101).

Beato Adalberon de Würzburg,

bispo (†1090). Foi perseguido pelos

cismáticos e expulso de sua Diocese

de Würzburg, Alemanha, por haver

defendido a Sé Apostólica.

7. Nossa Senhora do Rosário.

São Marcos, Papa (†336). Em seu

curto Pontificado instituiu o pálio, fez

o primeiro calendário das festas religiosas

e mandou construir as Basílicas

de São Marcos e de Santa Balbina.

8. São Félix, Bispo de Como

(†s. IV). Foi ordenado por Santo Ambrósio.

Beatos João Adams, Roberto Dibdale

e João Lowe, presbíteros e mártires

(†1586). Mortos após sofrerem

atrozes suplícios, no reinado de Isabel

I.

9. Santo Inocêncio da Imaculada,

presbítero passionista, e oito

companheiros mártires (†1934).

Padeceram o suplício em Turón,

Astúrias, durante a perseguição

religiosa na Espanha.

10. XXVIII Domingo do Tempo

Comum.

São Paulino de York, bispo

(†644). Monge e discípulo do Papa

São Gregório Magno, enviado para

pregar o Evangelho na Inglaterra.

Batizou o rei Santo Eduíno da Nortúmbria,

seus dois filhos e muitos outros

nobres.

11. Santo Anastácio, presbítero

(†666). Companheiro de São Máximo,

o Confessor, na defesa da Fé e

nos sofrimentos, morreu exilado nas

montanhas do Cáucaso.

12. Solenidade de Nossa Senhora

da Conceição Aparecida.

Beato Pacífico Salcedo Puchades,

religioso e mártir (†1936). Irmão leigo

capuchinho fuzilado em Massamagrell,

perto de Valência.

13. São Venâncio de Tours, abade

(†s. V). Com o consentimento de sua

esposa, ingressou no Mosteiro de São

Martinho, em Tours, a fim de viver só

para Cristo.

14. São Calisto I, Papa e mártir

(†c. 222).

São Domingos Loricato. Seguindo

o conselho de seu mestre, São Pedro

Damião, fundou a comunidade

eremítica da Santíssima Trindade do

monte San Vicino, Itália (†1060)

15. Santa Teresa Jesus, virgem e

Doutora da Igreja (†1582).

26


––––––––––––––– * Outubro * ––––

Flávio Aliança

Santa Tecla de Kitzingen, abadessa

(†c. 790). Religiosa beneditina de

Wimborne, Inglaterra, enviada à Alemanha

para ajudar São Bonifácio.

16. Santa Margarida Maria Alacoque,

virgem (†1690). Religiosa da Ordem

da Visitação, no convento de Paray-le-Monial,

França, recebeu revelações

de Nosso Senhor para propagar a

devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

17. XXIX Domingo do Tempo Comum.

Santo Inácio de Antioquia, bispo e

mártir (†107).

Santo Isidoro Gagelin, presbítero

e mártir (†1833). Sacerdote das Missões

Estrangeiras, morto durante as

perseguições no Vietnã.

18. São Lucas, Evangelista.

Santo Amável, presbítero (†s. V).

Sacerdote de Riom, França, elogiado

por São Gregório de Tours por suas

virtudes e dons de milagres.

19. São Phillip Howard, mártir.

Conde de Arundel, padeceu por professar

a Fé católica, sob a perseguição

de Elizabeth I.

Santa Maria Faustina Kowalska

20. Santo André Calibita, monge

cretense. Por defender o culto às imagens

foi cruelmente torturado e depois

lançado do alto de uma muralha

(†767)

21. São Hilarião, abade (†c.371).

Santa Laura Montoya y Upegui,

virgem (†1949). Religiosa colombiana,

fundou em Medellín a

Congregação das Irmãs Missionárias

de Maria Imaculada e Santa Catarina

de Sena.

22. São Marcos, Bispo de Jerusalém

(†s. II).

São Donato Scoto, bispo (†c. 875).

Nobre irlandês que, desejoso de perfeição,

iniciou uma vida de peregrinações.

Foi eleito Bispo de Fiesole, Itália,

quando estava a caminho de Roma.

23. São João, Bispo de Siracusa, na

Sicília, Itália (†c. 601).

São Teodoreto de Antioquia, presbítero

e mártir (†c. 362). Morto por

ordem de Juliano, o Apóstata, por recusar-se

a renegar a Fé.

24. XXX Domingo do Tempo Comum.

Santo Antônio Maria Claret, bispo

(†1870).

Santo Aretas e companheiros,

mártires (†523).

25. Santo Antônio de Sant’Ana

Galvão, presbítero (†1822).

Beato Recaredo Centelles Abad,

presbítero e mártir (†1936). Membro

da Irmandade dos Sacerdotes Operários

Diocesanos, assassinado junto ao

cemitério de Nules, Espanha.

26. São Fulco, Bispo de Pavia, Itália.

(†1229).

Beato Damião Furcheri, presbítero

(†1484). Sacerdote dominicano, incansável

pregador nas regiões da Ligúria,

Lombardia e Emília, Itália.

Beato Pacífico Salcedo Puchades

27. Santo Evaristo, Papa (†108).

Foi o quarto sucessor de São Pedro.

Morreu mártir no tempo de Trajano.

28. São Simão e São Judas Tadeu,

Apóstolos.

São Rodrigo Aguilar, presbítero.

Martirizado durante a perseguição no

México, em 1927.

29. São Narciso, bispo e mártir (†s.

IV). Exerceu seu ministério em Girona,

Espanha.

30. São Gerardo, Bispo de Potenza,

Itália. (†1122).

Beato Aleixo Zaryckyj, presbítero

e mártir (†1963). Sacerdote da Arquieparquia

ucraniana, preso no campo

de concentração de Dolinka, Cazaquistão,

onde morreu.

31. XXXI Domingo do Tempo Comum.

Beato Domingos Collins, religioso

e mártir (†1602). Irmão coadjutor

jesuíta, preso, torturado e enforcado

na Irlanda.

Divulgação (CC3.0)

27


O pensamento filosófico de Dr. Plinio

A verdadeira

amizade

Concebidos no pecado original, todos temos algo a ser aperfeiçoado e

corrigido. O amigo verdadeiro é aquele que, considerando sua própria

debilidade, é cônscio das lacunas alheias e se dispõe a auxiliar seu

próximo rumo à perfeição; aceita as reprimendas daqueles que lhe

são benquistos como meio salutar de combater o amor-próprio.

Flávio Lourenço

Há um conceito semi-generalizado

de que, sendo o afeto

mútuo impossível sem a confiança

mútua, e de si ambos são sentimentos

e disposições de alma tendentes

a desvanecer barreiras de um em

relação a outrem, os que participam

da mesma estima e amizade devem,

dentro das possibilidades, dispor tudo

quanto têm em comum; não manifestar

atitudes que lembrem a possibilidade

de desconfiança recíproca,

ou que insinuem reprimenda de um

a outro, mas, isto sim, permeadas de

despreocupação terna e completa.

De modo que, se no trato cordial

aparecer a menor reserva, por onde o

interlocutor entenda, conforme as circunstâncias,

ser objeto de represália, isso

tisna as relações, prejudica e pode levar

à retração recíproca e irremediável.

Entretanto, a amizade e a confiança

verdadeiras não são assim. O descrito

acima poderá ser um de seus aspectos,

não o único, pois o homem reto

não é amigo autêntico de quem lhe

demonstra apenas esse lado benévolo.

É preciso antes de tudo considerar

o seguinte ponto.

28

Os chefes da Confraria dos Alabardeiros de

San Sebastián - Museu do Louvre, Paris


“Repreende o justo

e ele te amará”

Toda criatura humana é concebida

no pecado original e está em estado

de prova, logo, é pecável. Portanto,

ao nos relacionarmos manifestaremos

ao próximo que ele tem de fato

toda a confiança que merece. Porém

ela não será ilimitada, porque o

homem reto duvida de si mesmo e vigia-se.

Agindo assim consigo, também

deve estar atento em relação ao

outro, por ver na sua própria miséria

a alheia. Os santos que praticaram de

modo extraordinário as maiores virtudes

eram, exatamente nessas virtudes,

mais especialmente vigilantes de

si e dos outros.

A Escritura diz: “Repreende o

justo e ele te amará” (cf. Pr 9, 8). No

amigo no qual eu note uma vigilância

e uma repreensão pelo menos em

potencial, ali o amo. Se sou um homem

reto, devo esperar de meu amigo

uma repreensão. E devo amar nele

a disposição de alma por onde ele

é assim.

Em consequência, o convívio humano,

por mais afetuoso que seja, não

pode ser despreocupado, sem fronteiras,

e, no sentido psicológico da palavra,

desarmado.

Devemos sentir, sobretudo nos superiores,

a permanência da vigilância,

e por detrás dela, a aptidão de corrigir.

Entretanto, muitas vezes um homem

justo não repreende porque o

repreendido não tem amor.

Pilar fundamental do

relacionamento mútuo:

a consideração da

fraqueza humana

Todas essas observações desagradam

as pessoas. Pois não querem

aceitar essa consequência necessária

de três pontos: o pecado original, a

existência do demônio e o estado de

prova sujeito ao homem.

Adão, sem pecado

original, estando no

Paraíso, sofreu tentação

e caiu, haveremos

de imaginar, nós

e nosso amigo, impassíveis

de queda? Como

nós, ele também

é ser humano, pode

começar a decair

e a qualquer instante

olhar com agrado para

o fruto proibido.

Sendo assim, como

poderei não ter restrição,

ao menos em potencial,

em relação a

ele? Será ela carregada

de consideração, é

verdade, mas não deixará

de ser imposto

certo limite.

A verdadeira

amizade implica

disposição à

correção

O que não for isso,

não é sério, não é amizade.

Se o repreender

é um dos ofícios do amigo, aquele que

por moleza ou qualquer motivo não está

disposto a fazer-me esta incumbência,

não pode ser reputado como tal.

Imaginem alguém que tivesse um

amigo que fosse grande cirurgião, em

determinado momento julga necessário

ser operado, e pede a ele. Contudo,

por pena, este se recusa a fazer a

cirurgia:

— Ah, eu gosto tanto de você que

não quero lhe operar.

— Mas estou precisando, você

não quer fazer-me esse favor?

Assim diríamos àquele ao qual devotamos

verdadeira amizade: “Preciso

que me repreenda, você não quer

me repreender?”

O que não for isso, absolutamente,

não é amizade séria.

A visita do cardeal - Museu de Cádiz, Espanha

Autêntico trato amigável,

averso ao amor-próprio

É inegável que entre nosso povo

todas as formas de trato onde transparece

um pouco disso elimina a popularidade

e cria isolamento. Também

os brasileiros apenas a meio sangue,

e os habituados a morar em nosso

país há muito tempo, se não estiverem

atentos, aderem a esse modo

de pensar e agir. Inclusive o alemão

prussiano, por mais militarista que

seja, se viver no Brasil, passado algum

tempo isso lhe entra no subconsciente.

Porque o amor-próprio se habitua

demasiado a tudo o que o afaga. v

(Extraído de conferência de

7/5/1983)

Flávio Lourenço

29


Luzes da Civilização Cristã

Dignidade, distinção e

disposição para a luta

Profundamente encantado, Dr. Plinio tece belas considerações

a respeito do espírito medieval impregnado nas muralhas de

Ávila, descrevendo seus múltiplos aspectos bélicos e artísticos,

quase como que discernindo a alma dessa histórica cidade.

Á

vila, na Espanha, é a cidade onde nasceu a

grande Santa Teresa de Jesus. Ali ela fundou o

seu principal convento e nele está sepultada.

Síntese celeste entre a guerra e a paz

Vejam a maravilha de uma cidade pequena dominada

por uma imponente construção; poderá ser uma fortaleza,

uma igreja ou um mosteiro. É muito agradável ver o

contraste entre o casario que dorme, lembrando uma vida

calma, tranquila, pacata, séria, sem as excitações da

vida contemporânea, mas, ao mesmo tempo, cheia de bonomia,

protegida por uma muralha magnificamente iluminada,

onde a beleza do gótico e do medieval se nota

por inteiro.

A iluminação faz sentir muito a força da muralha e

qualquer coisa de épico, de heroico que há dentro disso.

Choniron (CC3.0)

Gabriel K.

30


Flávio Lourenço

Nós imaginamos de bom grado essa muralha guarnecida

por guerreiros com couraças e elmos, com estandartes

e instrumentos musicais, postados ali para homenagear

algum personagem ilustre ou para receber na ponta

da lança os adversários que pretendam tomar Ávila. Essas

muralhas falam da beleza, firmeza de alma, coerência,

seriedade e sacralidade. Tudo isso está ali representado

de um modo magnífico. Em suma, é a Idade Média.

Alguém perguntará: “Mas por que há tanta harmonia

nisso?” Porque ali se encontram a guerra e o direito, ou

seja, a legítima defesa de uma população que na guerra

é protegida, pois suas muralhas a amparam, e por isso,

pode dormir tranquila. A muralha assegura o sono, como

o guerreiro garante a ordem, o direito e a paz. É algo

esplendoroso!

Alguém poderá questionar: “Está bem, Dr. Plinio,

mas essa fotografia apresenta uma realidade ou ela é um

pouco à Claude Lorrain?”

É preciso notar que essa fortificação foi construída

com a preocupação exclusiva da estratégia. A distância

entre os muros não visa apenas a beleza, mas permitir

que o adversário seja atingido por três lados quando

queira atacar o intervalo entre dois torreões.

A torre é muito mais forte do que o muro e se defende

por si mesma. Seu feitio redondo contribui para dispersar

o adversário. O muro, que é mais fraco, fica defendido

pelas duas torres. As diferentes distâncias e alturas

das muralhas são calculadas para opor resistência

aos projéteis lançados. Portanto, tudo planejado de modo

estrito, de acordo com o necessário. Tem-se a impres-

31


Luzes da Civilização Cristã

são de que cada torre é uma garra que segura o monte e

que domina a terra.

Entretanto, essas muralhas, que abrangem o povoado

como uma cintura, têm uma inegável beleza. O que

há nisso, então, de ideal? É estritamente real, mas tem

qualquer coisa de celeste. Há algo nessa síntese entre a

guerra e a paz, o direito e a luta, o repouso e a batalha,

que nos deixa maravilhados. É a Idade Média em todo o

seu esplendor.

Profundo senso de defesa

Notem a solidez dessa porta de Ávila! Como é robusta

e como a entrada estava bem protegida! Havia duas torres

que guarneciam a passagem. Quem conseguisse entrar

debaixo de uma chuva de pedras e azeite fervendo,

Elena F D (CC3.0)

M.Peinado (CC3.0)

32


Flávio Lourenço

esbarraria com a porta interna. E ali já havia outro passadiço

para jogar flechas e pedras sobre quem atravessava.

Ademais, a certa altura, havia também um patamar

de onde, quando o adversário passava, descia uma

grade e ele ficava encurralado, impossibilitando-o de

voltar para trás. E aí levava uma pancadaria grossa.

Nesses aspectos se traduz o senso de defesa que eles possuíam.

Tudo tático, entretanto, que maravilha! Quando o

defensor da cidade jogava uma flecha da parte superior, escondia-se

atrás de uma dessas ameias para não ser atingido

pelo invasor que respondia de baixo com outra flecha.

Ao perceber que o de baixo estava desprotegido, lá vinha

outra flechada de cima. Nas torres antigas havia seteiras

por onde também podiam jogar projéteis sobre o agressor.

De maneira que era árduo agredir uma cidade assim.

Em outra fotografia vê-se uma bonita vegetação, o chão

está bem cuidado, o canteiro realça a beleza da muralha,

e há até um pequeno monumento acrescentado no século

passado ou neste século. Não podia faltar o poste de

iluminação pública. Mas como ele é bonitinho em comparação

com esses pontos “dinossáuricos” que estão sendo

instalados hoje em dia com luz de mercúrio. Ali não. Como

é bem proporcionado; é quase um escrínio dentro do

qual ainda se encontra, talvez, iluminação a gás.

Há também um edifício que mais parece uma fortificação

central do que uma igreja, com as suas torres pontudas,

e o alto das torres formando uma massa de defesa.

Quando essas torres e muralhas eram forçadas, toda

a população se aninhava ali, e do outro lado continuava

a batalha à espera dos aliados que eram chamados

Flávio Aliança

33


Luzes da Civilização Cristã

por meio dos pombos correios para correrem em auxílio

dos sitiados.

Vê-se em uma das fotografias um monumento do tempo

dos romanos, ainda no estilo clássico, que foi deixado

lá e tem muita elegância e leveza. Devia ser provavelmente

um templo pagão. Onde outrora houve um altar

pagão, hoje se encontra um altar erguido em honra

da Santa Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Magnífica

afirmação do triunfo da Cruz sobre o paganismo. Os

antigos sustentavam que o paganismo nunca poderia ser

destruído. Pois bem, sua carcaça serve hoje para realçar

o esplendor da Cruz.

Contradição entre o antigo e o moderno

Em Ávila encontra-se a Basílica de São Vicente, cuja

arquitetura remonta ao estilo românico. Nota-se nos arcos

das janelas algo já de ogival e, portanto, gótico, embora

o acabado do teto não o seja. É um estilo de transição,

muito bonito e variado. Distinguem-se muito bem as

três partes do edifício.

A iluminação também está muito bem feita. Quem a

concebeu teve a boa ideia de iluminar o interior da galeria,

causando no espectador uma espécie de atração e

dando-lhe vontade de entrar.

Gabriel K.

Por outro lado, os automóveis são como trambolhos

que enfeiam a praça, deixando o moderno completamente

sem face diante do antigo. Quando se justapõem elementos

antigos, por mais distantes que sejam as épocas

a que pertencem, eles não entram em contradição. É o

caso, por exemplo, das casas que circundam a basílica.

Parecem ser de uma idade indefinida. São, por certo, velhas,

e chegam a atingir uma idade na qual não se sabe

se tiveram juventude. Estão entre o provisório e a eternidade.

Entretanto, a contradição entre a praça e os automóveis

é aberrante. Já não causaria estranheza imaginar

ali carros puxados a cavalo, ainda que fossem do século

passado. É a contradição do moderno com todo o passado.

Gabriel K.

34


Pedro Henrique Ponchio (CC3.0)

Gabriel K.

Aspectos vários do ambiente

e das construções

Uma das fotografias nos mostra uma ponte sobre

um rio. Não se trata dessas pontes atuais feitas

de concreto e asfalto, fininhas e suportando dinossauros.

É uma ponte que transmite confiança,

com pilastras bonitas e robustas fincadas no fundo

do rio; arcos harmônicos feitos com uma pedraria

nobre, sólida e leal. Tudo isso sustenta e dá

forma à ponte.

Gabriel K.

No interior da cidade vê-se uma praça pública com um

jardinzinho provincial, ingênuo, bonitinho; até parece ter sido

feita para crianças brincarem, senhoras idosas fazerem

tricô, homens aposentados lerem o jornal e comentarem as

notícias do dia, mais as de Ávila do que as do mundo.

O prédio da Prefeitura é muito engraçadinho e proporcionado.

É um encanto o sino usado para dar os avisos

municipais. Trata-se de um palacinho com janelas muito

dignas, muito compostas flanqueando por duas torres.

Contraste harmônico entre

austeridade e riqueza

A fachada principal do convento de Santa Teresa é

uma verdadeira beleza! Tem uma característica muito

frequente em edifícios espanhóis e que eu acho linda:

as laterais bem simples, enquanto a parte central muito

rica. Esse contraste entre a austeridade e a riqueza dá

uma nobreza excepcional.

O corpo central se compõe de uma cruz no topo de um

triângulo, no meio do qual há uma esfera. Duas janelas ladeiam

um brasão, abaixo do qual há uma grande janela

seguida da imagem de Santa Teresa, ambas rodeadas por

brasões. Por fim, as portas da igreja. Tudo isso forma uma

linha central muito rica, enquanto as duas laterais são menos

ricas, mas constituem um todo sólido, sério e solene.

Dignidade, distinção e disposição para a luta. Assim

como as muralhas, também a igreja e as residências têm

qualquer coisa de guerreiro, é admirável! v

(Extraído de conferência de 27/5/1972)

35


Flávio Lourenço

Virgem com o Menino lendo - Museu de Santa Clara, Valência, Espanha

Terra imaculada da qual se

formou o novo Adão

Segundo São Luís Grignion de Montfort, a Santíssima Virgem é o Paraíso Terrestre do Homem-Deus,

constituído “de uma terra virgem e imaculada, da qual se formou e nutriu o

novo Adão, sem a menor mancha ou nódoa, por operação do Espírito Santo que aí habita.”

É uma linda comparação! Assim como Deus formou o primeiro homem a partir da terra virgem,

ainda livre das maldições que sobre ela caíram com o pecado original, também o novo

Adão foi formado, por obra do Espírito Santo, de uma terra imaculada, que é a carne virginal

de Nossa Senhora.

(Extraído de conferência de 5/6/1972)

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