Revista Dr Plinio 284

revistadp

Novembro de 2021

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 284 Novembro de 2021

Mãe e Medianeira

da Divina Graça


öhringer friedrich (CC3.0)

Uma pequena joia mais

saborosa que champagne

D

eus difunde a água às criaturas em condições muito diferentes. Se conside-

ramos o globo terrestre, notamos como ela nos é dispensada aos borbotões:

os oceanos, os rios que saem de dentro da terra e correm para o mar, os la-

gos e tudo quanto de água está colocado em estado gasoso nas nuvens.

Com esta criatura quantas maravilhas o Criador fez! Entre elas está uma peque-

na joia multiplicada por Ele indefinidamente.

Quem não se encantou vendo uma gota de orvalho tão pura, límpida e com um tal

modo de guardar a luminosidade que sobre ela incide, que a luz parece passear den-

tro daquela gotinha e se regalar de imergir naquela pureza?

De tal maneira a gota de orvalho me encanta que, em pequeno, vendo-a numa flor,

aproximava-a dos lábios e a sorvia, pois não podia me convencer de que uma coisa

tão linda não tivesse um sabor muito gostoso.

Entretanto, ao perceber que não era assim, arranjava um pretexto para conservar

minha ilusão, pensando: “Quando eu for adulto, entrarei na mata com um copo

e o encherei de orvalho. Só essa gota não faz sentir todo o seu sabor, mas se eu ti-

vesse um copo cheio de orvalho, que delícia seria! Certamente mais saboroso do que

champagne.”

(Extraído de conferência de 30/7/1994)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXIV - Nº 284 Novembro de 2021

Vol. XXIV - Nº 284 Novembro de 2021

Mãe e Medianeira

da Divina Graça

Na capa,

Dr. Plinio em 1989.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

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Segunda página

2 Uma pequena joia mais

saborosa que champagne

Editorial

4 Verdade consoladora

Piedade pliniana

5 Arco-íris, síntese da

grandeza

Dona Lucilia

6 Amor abrangente

e acolhedor

Hagiografia

9 Intransigência e

ductilidade

A sociedade analisada por Dr. Plinio

12 Beleza divina do Reino de Cristo

Denúncia profética

16 Significado da Realeza

de Jesus Cristo

Calendário dos Santos

20 Santos de Novembro

Reflexões teológicas

22 Majestade, ápice da

grandeza

Apóstolo do pulchrum

30 Aliança divina entre

o prático e o belo

Última página

36 Luz por trás das brumas

3


Editorial

Verdade consoladora

N

este momento de aflições e de perigos, quando a humanidade inteira geme sob o peso de

desditas que se multiplicam a cada momento, crescem nossas necessidades e mais prementes

se tornam nossas preces. Poucas verdades da Fé concorrem de modo tão poderoso para

valorizar nossas orações quanto a Mediação Universal de Maria, quando a estudamos seriamente e a

fazemos penetrar a fundo em nossa vida de piedade.

Ensina a Teologia que todas as graças que recebemos de Deus devemo-las à mediação de Maria.

Assim, a Mãe de Deus é o canal de todas as preces que chegam até seu Divino Filho e dos favores

que Ele outorga aos homens.

Embora esta verdade suponha que, em todas as nossas orações, peçamos a intercessão de Nossa

Senhora, ainda quando não A invoquemos explicitamente podemos estar certos de que só seremos

atendidos porque Ela reza conosco e por nós.

Daí se infere uma conclusão sumamente consoladora.

Se devêssemos nos apoiar apenas em nossos méritos, como poderíamos confiar no êxito de nossos

pedidos? Contudo, Deus quer que nossas orações sejam confiantes; aliás, essa confiança é mesmo

uma das condições de sua eficácia. Mas como teremos confiança se, olhando para nós, sentimos que

nos faltam as razões de confiar?

É das tristezas desta reflexão que nos arranca, triunfalmente, a doutrina da Mediação Universal de

Maria.

De fato, nossos méritos são mínimos e nossas culpas grandes. Mas o que não podemos alcançar

por nós, temos todo o direito de esperar que as preces de Nossa Senhora alcancem. E jamais devemos

duvidar de que Ela Se associe às nossas súplicas, quando convenientes à maior glória de Deus e

à nossa santificação.

Sendo a Santíssima Virgem nossa Mãe autêntica na ordem da graça, pois gerou a cada um de nós

para a vida eterna, a Ela se aplica fielmente a frase que o Espírito Santo esculpiu na Escritura: “Pode

uma mulher esquecer-se de seu filho e não se compadecer do fruto de suas entranhas? Mesmo

que ela o esquecesse, Eu nunca me esqueceria de ti” (Is 49, 15). É mais fácil sermos abandonados por

nossos pais segundo a natureza do que por nossa Mãe segundo a graça.

Assim, por mais miseráveis que sejamos, podemos com confiança apresentar a Deus nossas petições.

Convém que meditemos incessantemente sobre esta grande verdade.

Católicos que somos, devemos enfrentar nesta vida as lutas comuns a todos os mortais e, além disso,

as que decorrem do serviço de Deus. Mas, ainda que os horizontes pareçam prestes a verter sobre

nós um novo dilúvio, mesmo quando os caminhos se cerrem diante de nós, os precipícios se abram e a

própria terra se abale debaixo de nossos pés, não percamos a confiança: Nossa Senhora superará todos

os obstáculos que forem superiores às nossas forças.

Enquanto esta confiança não desertar de nossos corações, a vitória será nossa e de nada valerão os

ardis de nossos adversários; caminharemos sobre as áspides e os basiliscos, e calcaremos aos pés os

leões e os dragões (cf. Sl 91, 13). *

* Cf. O Legionário n. 455, 1/6/1941.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Eric Rolph (CC3.0)

Arco-íris,

síntese da

grandeza

Oh, Mãe indizivelmente

grande! Oh, Rainha inexprimivelmente

doce e

acessível! Oh, arco-íris que reunis

em uma síntese incomparável

os dois aspectos da grandeza, isto

é, a superioridade e a dadivosidade!

Este vosso escravo Vos suplica

que preenchais o vácuo que

existe em sua alma, ajudando-o a

compreender, a analisar e a enlevar-se

com a vossa grandeza.

Concedei-lhe que, pela meditação

de vossa grandeza, suas cogitações

e suas vias sejam as vossas.

Atendei a esta súplica, ó Coração

Régio, Sapiencial e Imaculado

de Maria.

Assim seja!

(Composta em 1967)

Flávio Lourenço

Virgem do Socorro - Igreja da

Mercê, Córdoba, Espanha

5


Dona Lucilia

Luis Samuel

A bondade era a virtude que representava o pináculo

da alma de Dona Lucilia. Porém, não uma bondade

filantrópica, mas sacral, por onde primava o amor à

hierarquia e a tudo quanto é divino. Isso em nada

diminuía nem enfraquecia nela o amor por aquilo que era

pequeno, débil e fraco, tudo quanto merecia proteção.

Daniel A.

T

eoricamente falando, a ordem

do universo é uma coisa

e a hierarquia é outra. A

primeira é a disposição bela, sábia e

santa com que Deus pôs todas as coisas

no Universo. A segunda é a gradação

dessa disposição.

Entretanto, São Tomás nos ensina

que não seria possível existir uma

sem a outra, pois a ordem do universo

é hierárquica, de maneira que

quem ama a ordem do universo ama

a hierarquia e vice-versa.

Dona Lucilia favorecia a ambas

simultaneamente. E, sem fazer uma

distinção muito clara, mais implícita

do que explícita, ela tinha um modo

de louvar ou elogiar certas coi-

6


sas, por onde se percebia ao mesmo

tempo o amor à ordem do universo

e à hierarquia, que vinham entrelaçadas.

De maneira que posso tirar

a seguinte conclusão: Dona Lucilia

me ensinou a amar tudo isso, amando

em cada coisa todas as outras.

Amor, doçura e carinho

que acolhe os pequenos

Em geral, quando mamãe tinha

a oportunidade de estar diante de

um passarinho bonitinho, quer solto,

quer numa gaiola, com muito agrado

ela se detinha na análise dele. E,

bem entendido, se ela notasse que

faltava alpiste na gaiola, logo mandava

comprar em alguma loja próxima

e pôr o alimento para a ave comer

até fartar-se; ademais, mandava

renovar a água, limpar a gaiola, podia

até enternecer-se na consideração

do passarinho.

Nesse gesto, por exemplo, notava-se

que seu amor por tudo quanto

era pequeno, débil e fraco, tudo

quanto merecia proteção, estava

contido no amor materno manifestado

a seus filhos. Portanto, a

priori e a fortiori, estavam os filhos

dela.

Para ter uma ideia disso, imaginemos

uma sala com muitos espelhos

paralelos refletindo-se uns nos outros,

uma espécie de ping-pong de

luzes de dentro de um espelho para

outro, e deste para o primeiro, e os

jogos de luz mudando pela inflexão

da sala. Assim era o amor dela a vários

pontos.

A impressão que eu tinha quando

me aproximava de Dona Lucilia,

era de emanar dela uma certa

doçura, à maneira de um

círculo, um halo que a envolvia

toda, e se exprimia num

carinho e num sorriso invisível

cheio de acolhida,

de proteção e de alegria

por aquela pessoa ser

daquele jeito.

Diz o Evangelho que quando

Nosso Senhor encontrou o moço

rico (cf. Mt 19, 16-30), tendo olhado

para ele, amou-o. Esse querer

bem vinha, portanto, no seu primeiro

movimento, do olhar. Ele olhou,

viu e quis bem. E isso para mostrar

como é, por assim dizer, o mecanismo

da formação da amizade,

do afeto, do respeito. Em mamãe, a

alegria por ter um filho bom se manifestava

por essa acolhida, por esse

olhar.

Nela eu posso confiar

sem limites!

Ora, ao lado dessa doçura surgia

muita segurança da sinceridade dela.

Mas era uma certeza tal, que se

alguém dissesse: “Oh, que sinceridade!”,

eu ficaria chocado porque estaria

dizendo uma coisa evidente. O

óbvio não se diz. Assim era a sinceridade

dela.

Outra coisa relevante era a estabilidade

dela. Diante das incompreensões

mais rotundas,

seu modo de ser não

mudou até morrer, foi sempre

o mesmo. E isso levava

a pessoa que se aproximava

dela a sentir

uma grande desmobilização

e quietude: “Nela eu posso

confiar sem limites. Ela não vai

encrencar comigo por causa de um

capricho, uma mania, um interesse

grande ou pequeno, mesquinho ou

até generoso que seja, a não ser que

eu faça o mal.”

Tudo isso trazia uma espécie de

estabilidade que, misturada com a

doçura, com o carinho, com a capacidade

de atração, tinha uma beleza

imponderável que eu não sabia

no que resultava. Não era tanto dos

traços dela, mas era uma beleza que

parecia irreal. Não é próprio às coisas

concretas, terrenas, materiais,

serem bonitas dessa maneira. Bem

Arquivo Revista

7


Dona Lucilia

se podia supor que algum Anjo projetasse

sobre ela algo de sua própria

luz. Poderia imaginar alguma outra

hipótese do gênero, mas é muito difícil

entrar em afirmações diante de

matéria tão bonita, mas tão misteriosa

também.

Bondade e sacralidade na

alma de Dona Lucilia

Tomemos, por exemplo, aquele

vestido de gala com que Dona Lucilia

se fez fotografar em Paris. É

um vestido bonito, que se não fosse

usado por ela, mas por outrem,

perderia muito. Ela acrescentava

um quê inexplicável a esse vestido.

Quer dizer, mamãe transmitia uma

certa forma de harmonia e de beleza

que a criatura terrena não tem.

Daí a sensação de fada. É verdade

que não existem fadas, mas a Providência

pode dar essa impressão à

criatura terrena.

Arquivo Revista

Arquivo Revista

Dr. Plinio em abril de 1993

Qual era a virtude que

representava o pináculo

da alma de Dona Lucilia?

Sem dúvida nenhuma,

a bondade era a nota característica

do feitio dela.

Mas é preciso entender

bem esta palavra, pois

as pessoas hoje em dia a

consideram, de um modo

abusivo e errado, como

uma filantropia às vezes

até ruim. Com ela não

era assim.

Nela a bondade se

conjugava com a sacralidade,

a qual é o pináculo

do amor à hierarquia.

Porque ao amarmos a hierarquia,

amamos com maior intensidade

o que é mais alto, e, portanto, acima

de tudo, aquilo que diz respeito

a Deus, aos seus Anjos, Santos,

à sua Igreja gloriosa, militante e penitente,

o culto divino. Isto é sagrado,

é sacral. E ela amava tudo isso

mais do que as outras coisas. Nela,

evidentemente, essa sacralidade se

estendia também a pessoas, como

acabo de dizer, sobretudo às pessoas

sagradas e a outras coisas do gênero.

v

(Extraído de conferência de

2/4/1993)

8


Flávio Lourenço

Hagiografia

Intransigência

e ductilidade

Comentando a diretriz de São Gregório Magno a São Justo, relativa

ao apostolado na Inglaterra, Dr. Plinio ressalta a perenidade da Igreja

até nas coisas inteiramente secundárias. A carta indica, ao mesmo

tempo, muita ductilidade, maleabilidade, naquilo que é secundário

e uma enorme intransigência no que é realmente importante.

Interior da Catedral de

Córdoba, Espanha

A

10 de novembro comemora-se

a festa de São Justo,

bispo, a respeito do qual

diz Rohrbacher 1 , na sua obra Vida

dos Santos, o seguinte:

Diretriz de São Gregório

Magno sobre o apostolado

na Inglaterra

São Justo foi companheiro de Santo

Agostinho, em seu trabalho de conversão

da Inglaterra.

É, portanto, Santo Agostinho que

foi Arcebispo de Cantuária, no sécu-

lo VI, e não Santo Agostinho de Hipona.

Escreveu-lhe São Gregório o seguinte,

a respeito de uma consulta.

São Justo fez a São Gregório

Magno uma consulta e este lhe deu

a resposta que segue.

Quando chegardes ao pé de nosso

irmão Agostinho dizei-lhe que, depois

de ter pensado longamente, examinado

bem a questão dos ingleses,

julguei que não devia destruir os templos,

mas somente os ídolos que neles

estão. Purifique-os com água benta,

desça do altar os ídolos e lá coloque

relíquias. Se esses templos são

bons, bem edificados, que passem do

culto dos demônios ao serviço do verdadeiro

Deus, a fim de que aquela

nação, vendo conservados os lugares

aos quais estão acostumados, neles

passem a ir mais à vontade. E como

9


Hagiografia

Johnson0323 (CC3.0)

estão acostumados a sacrificar bois

aos demônios estabeleça qualquer cerimônia

solene como a da consagração,

ou dos mártires de quem ali estão

as relíquias.

Que façam barracas em volta dos

templos transformados em igrejas e

celebrem a festa com refeições discretas.

Ao invés de imolar animais ao

demônio, que os matem para comer

e render graças a Deus que lhes deu

o alimento, a fim de que, deixando

quaisquer manifestações sensíveis de

júbilo, possam insinuar-se mais facilmente

nas alegrias interiores. Porque é

impossível destituir os duros espíritos

de todos os costumes de uma só vez. É

devagar que se vai ao longe.

Todos os deuses dos

pagãos são demônios

Essa carta é muito interessante,

antes de tudo por causa dessa afirmação

que nós encontramos numerosas

vezes em Padres e Doutores

da Igreja, bem como na Escritura

que diz: omnes dii gentium dæmonia

(Sl 95, 5) – todos os deuses dos

povos, das nações que não Israel, são

demônios.

E isso provém deste fato que

São Luís Grignion de Montfort põe

muito em relevo: o homem, depois

do pecado original, nasceu escravo.

Ou é escravo de Deus, de Nossa

Senhora, ou é escravo do demônio.

Não tem outro remédio. E como

esses povos pagãos não são escravos

de Nossa Senhora, nem de Deus, são

necessariamente escravos do demônio.

E aquelas coisas que eles adoram

são realmente demônios. Sem

falar nos numerosos casos que se conhecem

de manifestações preternaturais

diabólicas, a propósito do culto

dos demônios.

De maneira que a expressão é

muito característica, violenta, profundamente

antiecumênica. Exatamente

nesse sentido é interessante

essa carta porque ela indica, ao mesmo

tempo, muita ductilidade, maleabilidade

naquilo que não tem importância,

e uma enorme severidade no

que é realmente importante.

Pagode chinês em Nanjing

Templos pagãos purificados

pela celebração do

verdadeiro culto

Os templos dessas nações pagãs

não tinham nada em comum com

a arte moderna. Esta é uma negação

violenta, blasfematória, de toda

forma de verdade e de bem.

É a arbitrariedade artística erigida

em afirmação normal da desordem

e da feiura. Evidentemente, a

arte moderna não pode servir para

uma igreja católica. Mas os templos

10


constituídos em outras escolas artísticas

que não terão a elevação, a sacralidade

do gótico, mas são escolas

dignas e que realmente contêm verdadeiros

elementos de beleza, podem

adequadamente servir para o

culto católico.

Lembro-me que nós publicamos

um “Ambientes-Costumes”, em “Catolicismo”,

no qual havia uma fotografia

de um pagode chinês, e mostrávamos

como ele era próprio para

servir ao culto católico dentro de

uma nação chinesa. Não que se fosse

construir um pagode para ali pôr um

culto católico, porque quando se faz

procura-se fazer o melhor possível.

Mas quando se recebe o fato consumado,

procura-se aceitar o aceitável.

E o pagode, bonito, com muita

nobreza, muitos valores, mereceria

perfeitamente ser aceito pelo culto

católico.

Por exemplo, os heróis da Reconquista,

quando tomavam aquelas cidades

antigamente mouras que possuíam

mesquitas muito bonitas, como

a famosa de Córdoba, purificavam

as mesquitas, tiravam todos os

emblemas do islamismo e instalavam

o culto católico, o qual até hoje continua

a ser celebrado nesses locais.

E isso é uma coisa digna, feita pelos

próprios heróis da Reconquista.

Isabel, a Católica, quando penetrou

em Granada, uma das primeiras

preocupações dela foi precisamente

de mandar purificar a mais importante

mesquita da cidade e rezar ali

uma Missa. Era o principal símbolo

da vitória alcançada contra o Islã.

Intransigência no necessário

e ductilidade no secundário

É exatamente nessa ordem o conselho

que São Gregório dá a Santo

Agostinho. Se os templos têm características

que não destoam do culto,

devem-se aproveitar.

E ele indica então uma razão de

caráter psicológico: as pessoas estão

habituadas a ir ao templo. Uma vez

que se elimine o elemento ruim, que

é o culto idolátrico, esse hábito desinibe

o indivíduo de frequentá-lo.

Então, convém aproveitar essa circunstância

de nosso lado.

Notem quanta intransigência no

necessário e quanta ductilidade naquilo

que é secundário e realmente

não tem nenhuma atinência com os

princípios. Não quer dizer o seguinte:

ser intransigente com os princípios

fundamentais e tolerante com

os princípios secundários. Isso seria

uma abominação. Com os princípios

se é intolerante em toda linha,

até onde eles vão. Mas uma parte da

realidade que escapa, sob vários aspectos,

ao ângulo dos princípios pode

ser vista com essa largueza.

Observem as quermesses realizadas

junto a igrejas. Muitas delas são

de moralidade duvidosa, culturalmente

repelentes e sem expressão de

valor piedoso em nenhum sentido da

palavra.

No caso acima, vemos o contrário.

São Gregório Magno manda fazer

barraquinhas em torno das igrejas,

o que, naquela noite dos tempos,

era propriamente a quermesse. Para

quê? A fim de distribuir comilanças

porque aquele pessoal estava habituado

a comer. E ele indica um sentido

religioso à refeição: celebrem a Deus

que lhes concedeu essa comida, e fiquem

alegres com isso; era um pouco

de regozijo depois do trabalho. E

com isso se atraía o povo

Vemos como essas coisas se ligam

e dão bem uma expressão da perenidade

da Igreja até nas coisas inteiramente

secundárias. v

(Extraído de conferência de

9/11/1966)

1) ROHRBACHER, René-François.

Vida dos Santos. São Paulo: Editora

das Américas. 1959, v. XIX, p.

287-288.

São Justo - Catedral de

Rochester, Inglaterra

Divulgação (CC3.0)

11


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Flávio Lourenço

Cristo em sua majestade

Igreja de São Salvador,

Dinan, França

Beleza divina do

Reino de Cristo

O reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo se exerce sobre

as almas. Cada indivíduo, nação, Ordem religiosa, forma

como que uma província, um céu. A harmonia dessas

almas individuais e desses grupos humanos constitui no

seu todo a beleza divina do Reino do Divino Salvador.

Aprimeira vez que fui à Europa,

o avião que me conduziu

chamava-se Ciel de

Lorraine. Notei depois que havia

uma série de aviões com títulos assim:

Céu disto, Céu daquilo...

Teoria da diversidade

dos céus culturais

Encontra-se envolta nisso a

ideia de que o céu da Lorena não

é o mesmo da Île-de-France e este

não é o céu de Auvergne. Portanto,

a cada província, com suas características

regionais e sua forma

de cultura, corresponde um céu, já

não o atmosférico, mas outra espécie

que não é também o sobrena-

12


tural. Trata-se de um céu de cultura.

Embora a partir da terra vejamos

o mesmo azul na Lorraine ou

na Champagne, há qualquer coisa

que os diferencia entre si como

também da doçura do céu da Île-

-de-France, por exemplo.

Então, embora se saiba que as nuvens

e o céu, realmente com algumas

variantes, mas afinal de contas

são os mesmos por toda a parte, tem

um sentido em se falar de um céu de

Lorena, um céu de Auvergne, etc., e

esta teoria da variedade dos céus inclui

uma espécie de teoria da diversidade

dos céus culturais, e de uma

projeção para o céu físico de valores

culturais da Terra e de uma impregnação

destes por elementos vindos

do céu astronômico-celeste, conforme

se apresenta num lugar, constituindo

um todo só que forma cada

província a bem dizer um céu. O luar

do Ceará, por exemplo, compõe

um céu, pelo menos noturno, inteiramente

especial.

Cada província é uma espécie de

valor de alma que tem um significado

próprio, e cuja posse é um elemento

capital para a integridade do

reino. Este, perdendo uma província,

mais do que ficar privado de uns

tantos territórios, perde algo que é

Jules (CC3.0)

um valor moral, cultural, o qual, desmembrado

do reino, faz com que este

perca a sua integridade e fique como,

por exemplo, uma imagem sagrada

da qual se cortasse uma parte.

Quer dizer, algo de irremediavelmente

mutilado, enquanto aquela

unidade não se reintegrar.

Por causa disso, por exemplo, os

franceses, com muito senso para as

coisas, fizeram o seguinte: Quando

a Alsácia e metade da Lorena foram

Divulgação (CC3.0)

Gabriel K.

Auvergne

Metz, capital da província de Lorena

13


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Existem céus para as

várias famílias de alma.

Qual será o que corresponde

à nossa? Na harmonia

de valores espirituais, que é o

Reino de Cristo Rei, o que representa

nossa família espiritual? Que valores

morais, que vocação, que apelo

para a virtude, para o heroísmo,

para a dedicação incondicional, para

enfrentar todas as formas de risco,

de trabalho, de despesa, de humilhação,

enfim tudo quanto está contido

neste valor especial que Nosso

Senhor Jesus Cristo criou para esta

época, e para o qual Ele nos chamou!

Então nós devemos ter, na festa

de Cristo Rei, a seguinte preocupação:

o desígnio do Redentor a nosso

respeito está se realizando e, portantomadas

na Guerra de

1870, eles envolveram

com crepe de luto as

estátuas que representavam

em Paris essas

províncias, significando

que o crepe seria tirado

quando aquelas províncias

fossem reconquistadas.

Era um luto da França

e da província. Um

luto de alma por causa

dessa unidade ideal que

é a substância da verdadeira

unidade do reino.

Cada indivíduo

é como uma

província do

Reino de Nosso

Senhor

Arquivo Revista

A que propósito vêm

essas considerações na

festa do Reinado de

Cristo?

Tenho a impressão

de que quem não deteve

a sua atenção sobre

essa realidade de que

acabo de falar, não possui

toda facilidade desejável

para compreender

bem o que é o Reino de Nosso

Senhor Jesus Cristo.

É o Reino sobre pessoas e não

territórios. Um Reino sobre almas

em que cada indivíduo, grupo humano,

nação, Ordem religiosa, família,

constitui como que uma província,

um céu. É a harmonia de todos esses

grupos humanos, todas essas famílias

de alma, todas essas almas individuais

que constitui no seu todo a

beleza divina do Reino de Nosso Senhor

Jesus Cristo. E o Redentor, como

Rei, defende cada alma contra o

ataque do adversário com um amor,

um conhecimento do valor daquela

alma e do que ela significa para a

Dr. Plinio em 1964

unidade do seu Reino, muito maior

do que o Rei da França defenderia a

Auvergne, a Lorena ou qualquer outra

coisa.

Cada um de nós é a Lorena, a Alsácia,

a Île-de-France de Nosso Senhor

Jesus Cristo. Ele sabe que, assim

como há o céu de uma província,

existe o céu de um indivíduo o qual

corresponde à sua luz primordial objetiva

e subjetiva 1 . Isso no seu todo

é uma espécie de firmamento de beleza

espiritual próprio a cada um de

nós, que o Divino Salvador ama com

um empenho com que um verdadeiro

francês deve, por exemplo, amar a

Lorena ou o céu da Lorena.

Quer dizer, é este

valor de caráter moral

e espiritual que se deve

amar. Isto nos leva, então,

a considerar o seguinte:

As províncias

ou os municípios do

Reino de Cristo Rei são

os homens. Cada vez

que Nosso Senhor perde

ou diminui o exercício

efetivo de sua realeza

sobre uma alma,

dá-se n’Ele, na sua vida

terrena, uma tristeza

parecida com a do

rei que perde sua província;

uma espécie de

ordem de beleza ideal

se perde. Mas cada vez

que se volta a Ele, o Divino

Salvador tem todas

as alegrias dessa recondução.

É isto que se

joga continuamente na

festa de Cristo Rei.

O céu para o qual

Nosso Senhor

nos chamou...

14


to, o Reino d’Ele é efetivo em nós,

como tem o direito de ser? Nós somos

aquilo que Ele quereria que fôssemos?

É preciso dizer que, embora não

se possa responder pura e simplesmente

sim, sobretudo, graças a

Deus, não se pode responder pura e

simplesmente não. Devemos, ao formular

esta pergunta, ter a alegria de

dizer que o fundo de quadro é uma

afirmação. E graças a Deus nós somos

para Nosso Senhor Jesus Cristo,

nessa época em que Ele é tão perseguido

e tão flagelado, uma grande

consolação.

Mas, por outro lado, isso nos deve

dar o desejo de ser e dar ainda

mais, para que se integre sobre nós

o exercício efetivo do poder d’Ele.

De maneira tal que tenhamos toda

aquela beleza de alma, a qual seria

propriamente o nosso céu nesse

conjunto de formosuras que deveria

ser, nos dias de hoje – e de fato

é –, a Santa Igreja Católica. Porque

esta, por mais desfigurada e

conspurcada que esteja, é um jardim

onde continuamente desabrocham

flores para Nosso Senhor. E

nós, talvez só no dia do Juízo Final,

poderemos saber quantos santos

florescem no desconhecimento,

na ignorância, no abandono, isolados

e odiados aqui, lá e acolá, dando

a Deus uma glória completa e

magnífica.

...e cuja estrela

central é o Imaculado

Coração de Maria

É assim que cada um de nós deve

ver a atual situação e, quando for comungar,

perguntar com que disposição

o Redentor me recebe. Que graças,

que generosidade Ele está disposto

a me conceder?

Essas coisas na vida são uma espécie

de regra de três. Nosso Senhor

recebe a cada um de nós na

Eucaristia com uma alegria, uma

certa medida de tristeza e muita

esperança. Isto no conjunto constitui

a incompleta realeza de Cristo

sobre cada um de nós, mas que,

marchando para ser completa, é

uma razão contínua de gáudio para

Ele.

Assim, peçamos ao Redentor, por

meio do Imaculado Coração de Maria,

que nos dê a compreensão

de todos esses

céus da Igreja

Católica, do Reinado

de Nosso

Senhor Jesus

Cristo, de que

nós somos individualmente

e como família

de almas uma

espécie de céu dentro

desse conjunto de

céus. Um céu preciosíssimo

porque sua estrela central

é o Imaculado Coração

de Maria. Estrela mais preciosa

não poderia haver.

Que compreendamos

as graças recebidas, quanto

motivo temos para esperar

perdão, misericórdia,

e roguemos muitos favores

com grande empenho

e desembaraço, com

uma respeitosa desenvoltura.

A isso nos conduzem

essas altíssimas

considerações. v

(Extraído de conferência

de 21/10/1964)

1) Luz primordial é o aspecto

de Deus que cada

alma deve refletir e contemplar,

em função do

qual precisa ordenar

toda a sua existência, a

sua vocação pessoal. A

luz primordial objetiva

está no Criador e a subjetiva

se encontra na alma

da pessoa.

Flávio Lourenço

Cristo Rei - Igreja de

Cristo Rei, Barcelona

15


Flávio Lourenço

Denúncia profética

Significado

da Realeza de

Jesus Cristo

O Reino de Deus está dentro de

nós. Ora, apesar de pequeno como

extensão, ele possui um valor

infinito porque custou o Sangue

de Cristo. Por isso, cada um de

nós deve conquistá-lo para Nosso

Senhor, destruindo tudo aquilo

que, em nosso interior, se oponha

ao cumprimento de sua Lei.

Sagrado Coração de Jesus - Igreja dos

Santos Juanes, Valência, Espanha

No domingo em que a Santa

Igreja de Deus celebra

a Realeza de Nosso Senhor

Jesus Cristo, encher-se-ão, no

mundo inteiro, os templos católicos

com uma multidão piedosa, que irá

depositar aos pés dos altares suas súplicas

e suas orações. Contemplando

em espírito essa imensa multidão,

composta de pessoas oriundas de todas

as raças e de todos os pontos do

globo, tão numerosa que, segundo a

previsão do Apocalipse, “ninguém a

pode recensear” (Ap 7, 9), um pensamento

se apodera de mim. E ao

mesmo tempo experimento o desejo

imperioso de o comunicar aos meus

leitores.

Uma verdade áspera

e dolorosa

Ser-me-ia, sem dúvida, muito

mais grato e fácil cingir-me exclusivamente

a considerações de ordem

geral sobre a Realeza de Nosso Senhor

Jesus Cristo. Tenho, porém, a

certeza de que tais considerações

outros as farão. Mas o pensamento

que está em mim, posso eu porventura

ter a certeza de que todos

os demais o tiveram, e de que, em

hipótese afirmativa, o externarão?

Uma dolorosa negativa me responde

a esta pergunta. E por isso,

deixando a outros uma tarefa, ali-

16


atenderam aos bons conselhos! Ai

também dos que, por covardia ou

egoísmo, calaram os bons conselhos

que poderiam ter dado! Estes

conselhos salutares, que eles não

externaram, queimá-los-ão a eles

próprios pelo interior, como brasas

ardentes. E no dia do Juízo serão

levados à conta de talentos inaproveitados.

Quando pronunciou, em Lisieux,

sua magistral alocução, o enás,

incontestavelmente indispensável

e fundamental, vou fazer a

mais ingrata, obscura e desagradável,

porém mais necessária: a de dizer

uma verdade áspera e dolorosa

neste grande dia de festa.

Os bons pensamentos têm isto

de característico que, quando

aproveitados, servem de remédio

tanto a nós mesmos quanto ao próximo.

Quando, porém, nós os rejeitamos

em nossa vida interior, ou os

calamos em nossas relações com o

próximo, eles se transformam, segundo

São Paulo, em carvões ardentes

que nos causticam e calcinam

a alma. Ai dos que receberam

e, por egoísmo ou covardia, não

Flávio Lourenço

Juízo Universal - Santuário do Sagrado

Coração de Jesus, Gijón, Espanha

Correio da Manhã Fund, Arquivo Nacional (CC3.0)

tão Cardeal Pacelli, já predestinado

pelo Espírito Santo a reger futuramente

a Igreja de Deus, fez uma

queixa amarga que nos cabe recordar.

Disse ele que, entre os muitos

homens que desobedecem hoje às

palavras dos Pontífices, há uma categoria

que causa especial mágoa

ao Papa. Não se trata dos que não

têm Fé e nem dos que, tendo uma

Fé morta e inoperante, não procuram

ouvir o que o Papa lhes diz. Os

Papa Pio XII

17


Denúncia profética

que mais fazem sofrer o Papa – e este

é o ponto que nos interessa – são

os que, aos pés do púlpito, em atitude

externa correta e reverente, ouvem

a palavra do Vigário de Cristo

comunicada pela hierarquia eclesiástica,

mas não a compreendem, se

a compreendem não a amam, e se a

amam platonicamente não lhe dão

execução!

“Veio para o que era

seu, mas os seus não

O receberam”

Assim, no dia de hoje, quantos

e quantos católicos, elevados pelo

Batismo à dignidade de cidadãos

do Reino de Deus, nem sequer

cumprirão o preceito dominical!

Quantos outros católicos ainda, indo

à igreja, ouvirão algum sermão

sobre a Realeza de Jesus Cristo,

sem saber, entretanto, e sem procurar

saber em que sentido se deve

atribuir a esta tão clara e tão litúrgica

festa!

Quantos católicos, finalmente,

acompanhando até o próprio texto

da Liturgia Sagrada, lerão as maravilhosas

lições que ela contém sobre

a Realeza de Jesus Cristo e não

a compreenderão! Quantos católicos

que procuram implantar o Reino

de Cristo no mundo inteiro, esquecidos

ou ignorantes de que devem

começar por implantar dentro

de si mesmos! E quantos outros

supõem que podem implantar

realmente dentro de si o Reino

de Cristo, sem sentir um desejo ardente

e devorador de o implantar

no mundo inteiro! Em outros termos,

não são tais católicos do mesmo

jaez daqueles que ouvem corretamente,

porém só com ouvidos do

corpo e não com os da alma, o que

lhes diz a Igreja pela voz dos Pontífices?

A doutrina da Realeza de Jesus

Cristo está intimamente ligada à belíssima

e piedosíssima prática da entronização

do Sagrado Coração de

Jesus nos lares. Se se entroniza a

imagem do Sagrado Coração de Jesus

no lugar mais nobre do lar, é exatamente

porque se reconhece que

Ele é Rei. Entretanto, quanto lar há

por aí em que a imagem está entronizada

na sala, mas Cristo não está

entronizado nos corações!

Evidentemente, não quero exagerar

a tristeza já, de si, tão grande

deste quadro, cometendo a injustiça

de desprezar o que há de belo

e de bom, apesar dessas lacunas.

Qualquer ato de piedade, qualquer

atitude de reverência para com a

Igreja de Deus, por mais superficial

e insignificante que seja, deve

ser por nós, católicos, apreciado,

amado e estimulado com um zelo

imenso, reflexo direto de nosso

amor a Deus. Longe de nós, pois,

um pessimismo de sabor farisaico

que nos fizesse contestar todo e

qualquer valor a essas práticas de

piedade, desde que sejam sinceras,

por mais que a frieza ou a ignorância

lhes toldem o brilho sobrenatural.

Entretanto, feita esta reserva, a

verdade aí está: a queixa de São João

ainda hoje é muitas vezes procedente:

in propria venit et sui eum non receperunt...

(Jo 1, 11) 1

Cristo é Rei por ser Deus

Não seria, aliás, difícil conhecer

a Doutrina da Igreja sobre a Realeza

de Jesus Cristo. Na sua infi-

Flávio Lourenço

Gabriel K.

18


nita misericórdia, Deus

Se dignou de comparar

o amor infinito com que

nos ama ao amor que nos

têm nossos pais. Evidentemente,

não quer isto dizer

que Ele tenha reduzido

na comparação as insondáveis

dimensões de

seu amor, para as amesquinhar

até as proporções

exíguas dos afetos de que

os homens são capazes.

Pelo contrário, se Ele serviu-Se

dessa comparação

do amor paterno foi apenas

para nos dar a entender,

de longe, o quanto

Ele nos ama. Se dermos

à palavra “pai” o sentido

que ela tem na ordem natural,

Deus não é apenas

nosso Pai, mas muito mais

do que isto, por ser nosso

Criador. Porém, como a

função de pai, na natureza,

não é senão de coadjuvar

a Deus na obra da Criação, se

alguém merece na realidade o nome

de Pai é Deus. E nosso pai segundo

a natureza outra coisa não é

senão o depositário de uma parcela

da paternidade que Deus tem sobre

nós.

O mesmo se dá com a Realeza

de Jesus Cristo. Para nos fazer compreender

a autoridade absoluta que,

como Deus, Ele tem sobre nós, Jesus

Cristo dignou-Se de Se comparar

com um rei. Entretanto, como é

por Ele que reinam os reis, e a autoridade

dos reis só é autêntica por

provir d’Ele, na realidade, o único

Rei, Rei por excelência, é Ele. E os

reis ou chefes de Estado não são senão

seus humildes acólitos, dos quais

Ele Se digna servir-Se na obra da direção

do mundo. Cristo é Rei por ser

Deus. Chamando-O de Rei queremos

simplesmente afirmar a onipotência

divina, e nossa obrigação de

Lhe obedecer.

Dr. Plinio em 1939

Obediência! Eis aí um dos conceitos

contidos essencialmente no conceito

da Realeza de Nosso Senhor Jesus

Cristo. Cristo é Rei, e a um rei se

deve obediência. Festejar a Realeza de

Nosso Senhor Jesus Cristo é festejar

seu poder sobre nós. E, implicitamente,

nossa obediência em relação a Ele.

Como é que se obedece a um rei?

A resposta é simples: conhecendo-

-lhe as vontades e cumprindo-as com

amorosa e pormenorizada exatidão.

Assim, pois, o único modo de obedecermos

a Cristo Rei é conhecer sua

vontade e segui-la.

Sejamos soldados

de Cristo Rei

Revista da Semana, 29 de abril de 1939

Desta noção tão clara, simples e

luminosa um programa de vida, também

ele claro, luminoso e simples, se

segue.

Para conhecer a vontade de Cristo

Rei devemos conhecer o Catecismo.

Porque é ali, através

do estudo dos Mandamentos,

estudo este que

só será completo com o

de toda a Doutrina Católica,

que conhecemos a vontade

de Deus. E para seguir

esta vontade devemos

pedir a graça de Deus pela

oração, pela prática dos

Sacramentos e por nossas

boas obras. Finalmente,

pela vida interior, isto

é, pela leitura espiritual,

pela meditação e pela vida

vivida exclusivamente à

luz do Catecismo, seguiremos

a vontade de Deus.

Disse Nosso Senhor que

o Reino de Deus está dentro

de nós mesmos. Ora,

este pequeno Reino, pequeno

como extensão, mas

infinito como valor porque

custou o Sangue de Cristo,

cada um de nós o deve

conquistar para Nosso

Senhor, destruindo tudo aquilo que,

dentro de nós, se oponha ao cumprimento

de sua Lei.

Finalmente, as Leis de Cristo se

aplicam não apenas a um indivíduo

em particular, mas aos povos e

nações. Que os povos conheçam e

pratiquem na sua organização doméstica,

social e política, as encíclicas

que são a expressão da própria

vontade de Deus, e Jesus Cristo será

Rei.

Em outros termos, sejamos bons

católicos; sendo-o, seremos necessariamente

apóstolos; e sendo apóstolos,

seremos necessariamente soldados

de Cristo Rei.

v

(Extraído de O Legionário n. 372,

29/10/1939)

1) “Veio para o que era seu, mas os seus

não O receberam”.

Sagrado Coração Rei - Igreja de São

Carlos Borromeu, Anvers, Bélgica

19


Arquivo Revista

C

alendário

1. São Nuno de Santa Maria (Nuno

Álvares Pereira), religioso (†1431).

Nobre general português, conhecido

também como o “Santo Condestável”,

depois de ter comandado a defesa do

Reino de Portugal, foi recebido entre

os irmãos da Ordem dos Carmelitas,

onde levou uma vida pobre e escondida

em Cristo. Tinha uma admirável

piedade para com a Santíssima Virgem

Maria. Morreu em Lisboa, no Convento

do Carmo por ele fundado, no Domingo

da Ressurreição.

2. Comemoração de todos os Fiéis

Defuntos.

3. São Pedro Francisco Néron,

presbítero e mártir (†1860). Membro

da Sociedade das Missões Estrangeiras,

de Paris. Após sofrer terríveis tormentos,

foi martirizado em Tonquin,

Vietnã, sob a perseguição do Imperador

Tu Duc.

4. São Carlos Borromeu, bispo.

(†1584)

5. São Donino, mártir (†307). Ainda

jovem médico, no início da perseguição

de Diocleciano, foi condenado

ao trabalho nas minas de Mísmiya,

em Cesareia da Palestina, onde, depois

de sofrer cruéis vexações, foi lançado

ao fogo por ordem do prefei-

dos Santos – ––––––

to Urbano, por permanecer firme na

confissão da Fé.

6. Santos Calínico, Himério, Teodoro,

Estêvão e companheiros, mártires

(†638). Eram soldados em Gaza

e foram presos quando os sarracenos

ocuparam a cidade. Encorajados

pelo Bispo São Sofrônio, confessaram

a sua Fé em Cristo e por isso

foram degolados, alcançando glorioso

martírio.

7. Todos os Santos e Santas. (No

Brasil, Solenidade transferida do dia 1.)

8. Santo Adeodato I, Papa (†618).

9. Dedicação da Basílica de Latrão.

Santo André Avelino, presbítero

(†1608). Sacerdote teatino, nasceu

em Nápoles e foi levado por São Carlos

Borromeu a Milão, onde sua pregação

converteu inúmeros pecadores.

Morreu ao fazer o Sinal da Cruz no

início da Santa Missa que ia celebrar.

10. São Leão Magno, Papa (†461).

11. São Martinho de Tours, bispo

(†397).

12. São Josafá, bispo e mártir

(†1623). Incitou com incessante zelo

o seu povo à unidade católica, cultivou

com piedoso amor o rito bizanti-

Santa Hilda

no-eslavo e, em Vitebsk, na Bielorrússia,

então sob a jurisdição da Polônia,

cruelmente perseguido por uma multidão

inimiga, morreu pela unidade

da Igreja e defesa da verdade católica.

13. Santo Eugênio de Toledo, bispo

(†657). Foi incansável na luta pela

perfeita observância da sagrada Liturgia.

14. XXXIII Domingo do Tempo

Comum.

15. Santo Alberto Magno, bispo e

Doutor da Igreja (†1280). Tendo ingressado

na Ordem dos Pregadores,

em Paris, ensinou as disciplinas filosóficas

e teológicas. Foi mestre de São

Tomás de Aquino, conciliando admiravelmente

a sabedoria dos Santos

com as ciências humanas e naturais.

Morreu santamente em Colônia, na

Lotaríngia, atualmente na Alemanha.

16. Santa Inês de Assis, virgem

(†1253). Adotou, junto com sua irmã,

Santa Clara, a vida religiosa sob a direção

de São Francisco.

Divulgação (CC3.0)

São Josafá

17. Santa Isabel da Hungria, viúva

(†1231).

20


–––––––––––––– * Novembro * ––––

Flávio Lourenço

Santa Hilda, virgem (†680). Abadessa

de Whitby, na Nortúmbria, território

da atual Inglaterra. Depois de

abraçar a Fé e receber os sacramentos,

foi nomeada para reger o mosteiro,

dedicando-se à formação das monjas

na vida regular, à manutenção da paz e

do espírito de caridade, ao trabalho e à

leitura das divinas Escrituras.

18. Dedicação das Basílicas de São

Pedro e São Paulo.

Santo Odon, abade (†942). Com

seus sucessores, Santo Odilon, São

Mayeul e Santo Hugo, fez da célebre

Abadia de Cluny, França, o centro

de irradiação da espiritualidade

beneditina.

19. Santos Roque González, Afonso

Rodríguez e João del Castillo, presbíteros

e mártires (†1628).

Santo Eugênio de Toledo

Santa Matilde de Hackeborn, virgem

(†1298). Era irmã de Santa Gertrudes

de Hackeborn. Desde jovem

teve notáveis experiências místicas,

no centro das quais está o Sagrado

Coração de Jesus.

20. São Gregório Decapolita, religioso

(†s. IX). Após levar vida monacal

e de anacoreta, lutou contra a heresia

iconoclasta em Constantinopla.

21. Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei

do Universo

22. Santa Cecília, virgem e mártir.

Beatos Salvador Lillo, presbítero,

Juan e outros seis companheiros,

mártires (†1895). Por não trair sua Fé

ante a imposição dos soldados otomanos

de renegar a Cristo, foram atravessados

por lanças, na cidade de Maras,

na Cilícia.

23. São Clemente I, Papa e mártir

(†s. I)

São Columbano, abade (†615).

Santa Cecília Yu So-Sa, mártir

(†1839). Por ódio à Fé, confiscaram-

-lhe os bens e a encarceram. Foi açoitada

aos 80 anos de idade e morreu

no cárcere, na Coreia.

24. Santo André Dung-Lac, presbítero,

e companheiros, mártires (†1839).

Santo Alberto de Lovaina, bispo e

mártir (†1192). Bispo de Liège, Bélgica,

foi martirizado em Reims.

25. Santa Catarina de Alexandria,

virgem e mártir.

São Pedro Yi Hoyong, mártir

(†1838). Catequista, foi aprisionado

por sicários, juntamente com sua irmã,

Santa Águeda Yi So-sa. Depois

de lhe quebrarem os ossos por três vezes,

mantiveram-no por quatro anos

no cárcere, onde finalmente morreu

permanecendo firme na confissão da

Fé, sendo o primeiro do glorioso esquadrão

dos mártires coreanos.

Santo Adeodato I

26. São Leonardo de Porto Maurício,

presbítero (†1751). Religioso da

Ordem dos Frades Menores, que empregou

quase toda a sua vida na predicação,

na edição de livros de piedade.

Realizou mais de trezentas missões

em Roma, na Córsega e por toda

a Itália setentrional.

27. Nossa Senhora das Graças.

Beato Bronislao Kostowski, mártir

(†1940). Na ocupação militar da Polônia

durante a guerra foi levado para

o campo de concentração de Dachau

onde, cruelmente atormentado

no cárcere, alcançou a palma do martírio.

28. I Domingo do Advento

29. Bem-aventurados Dionísio da

Natividade (Pedro) Berthelot, presbítetro,

e Redento da Cruz (Tomás) Rodríguez,

mártires (†1638). Religiosos

da Ordem dos Carmelitas Descalços,

a quem os maometanos de Sumatra

(Indonésia) submeteram à escravidão

e, por fim, transpassam com flechas e

decapitaram, por ódio à Fé.

30. Santo André, Apóstolo.

Biblioteca comunale di Trento (CC3.0)

21


Reflexões teológicas

Flávio Lourenço

Cristo Rei

Catedral de

São Bavão,

Gante, Bélgica

Majestade, ápice

da grandeza

Em Nosso Senhor Jesus Cristo o equilíbrio entre a majestade e

a bondade encantava a Dr. Plinio. O Sagrado Coração de Jesus

tão majestoso, mas sempre com uma bondade levada ao último

limite do excogitável, deu-lhe a ideia, desde pequeno, de que o

padrão mais alto da majestade era Ele. E, por sua vez, havia ali

um lugar naturalmente posto para a devoção a Nossa Senhora.

22


Amajestade se distingue da grandeza,

porque ela é o ápice da

grandeza. Mas não é qualquer

ápice dela que define a majestade.

U.S. Military (CC3.0)

Conjugação entre

finalidade e perfeição

Tomem, por exemplo, algo banal

como os quatro dentes de um garfo.

Há uma razão para que sejam nesse

número: corresponde às dimensões

do bocado que a boca humana normalmente

ingere, ao menos nos costumes

do Ocidente. Eles foram calculados

pelo costume, pela tradição

e por um certo bom senso presente

em tudo.

Entretanto, se o garfo perder um

dente, não vale mais nada. Pode-se

jogá-lo fora. Se for de prata, mandamos

fundi-la para vender o metal,

mas ele, enquanto instrumento,

já não tem utilidade.

A imagem do garfo íntegro traz

consigo uma ideia de perfeição.

Rainha Elizabeth II em 1983

Aquilo que é completo é perfeito.

Embora a perfeição possua graus,

no seu gênero determinado, naquele

seu estilo, tudo quanto é completo

é perfeito.

A coisa perfeita é, então, aquela

que por si mesma realiza toda a sua

missão. O garfo não realiza a missão

de alimentar o homem e, sim, de espetar

alimentos, e isto é suficiente.

As noções de completo e suficiente

se conjugam. E quando algo adquire

esta suficiência, passa a ter,

em linguagem filosófica, a perfeição.

Possui um grau, pelo menos mínimo,

de perfeição. Eu posso imaginar, por

exemplo, um garfo de ouro pertencente

à Rainha Elizabeth. Este seria,

sem dúvida, mais perfeito.

Majestade: a grandeza

daquele que tem o

poder supremo

Ora, a majestade é a grandeza daquele

que está colocado como primeiro,

ou numa ordem de coisas, ou

numa associação perfeita possuidora

de todos os elementos necessários

para subsistir como deve. Ele é

a chave de cúpula fora da qual todo

o resto se esvai.

Só há duas sociedades perfeitas,

de fato: a Igreja e o Estado.

Este é o ensinamento da Igreja:

Ela é uma sociedade perfeita, tem

todos os elementos para realizar a

sua missão, e tem o governo soberano,

acima do qual não há nenhum.

A Igreja é destinada à ordem espiritual,

o Estado à ordem temporal.

O Estado é aquela sociedade perfeita

de um povo, ou de vários, colocados

sob a direção de um mesmo

poder público soberano, não há

nenhum outro acima dele.

Alguém dirá: “Mas a família

não é uma sociedade

perfeita?”

Não, ela é a cellula

mater da nação.

Se quiserem,

em certo sentido, do Estado. Mas não

é uma sociedade perfeita.

Outro objetará: “Um partido político

não pode ser tido como sociedade

perfeita?” Chama-se partido, logo

não é perfeito, porque é uma parte.

A sociedade perfeita é um todo.

“Bem, mas uma Universidade não

é uma sociedade perfeita?” Não.

Porque ela existe dentro do Estado

e precisa dele. O Estado não precisa

dela, está por cima.

Então, a verdadeira majestade, no

sentido pleno da palavra, é a grandeza

daquele que tem o poder supremo

na sociedade perfeita: É o Rei,

ou é o Imperador.

Assim se compreende melhor a

etimologia: majus stat 1 . É aquele

maior do que todos. Este tem majestade.

A majestade é, antes

de tudo, de Deus

A majestade é, antes de tudo, de

Deus. Ele é a Majestade. Em comparação

com Deus, quis sustinebit? 2

Quem é qualquer coisa em comparação

com Ele? E em união com

Ele, logo abaixo d’Ele, Cristo Rei.

Nosso Senhor Rei tanto da Igre-

J. P. Ramos

23


Reflexões teológicas

Flávio Lourenço

ja quanto do Estado. É evidente.

O Estado tem obrigação, em suas

leis, de conformar-se em tudo com

os desígnios de Nosso Senhor Jesus

Cristo.

Abaixo de Nosso Senhor Jesus

Cristo, Nossa Senhora. Porque o governo

de todo o universo foi entregue

por Deus a Ela, que Se tornou a

Imperatriz. Depois vem o Papa, e de

Nossa Senhora do Sagrado Coração - Basílica de Nossa

Senhora dos Remédios, Naucalpan, México

modo sucessivo o Rei, o Imperador,

o chefe de Estado.

Como se explica que chefes de Estado

se constituam com um poder

que nega a majestade?

Por erro deles. Porque mesmo numa

nação independente, de índole

republicana, se deveria reconhecer a

grandeza daquele que ocupa, embora

temporariamente, as funções supremas.

O fato de elas serem provisórias

diminui a grandeza da situação

pessoal de quem as exerce. Porém,

não diminui a função em si.

Por exemplo, o doge de Veneza

era chefe de Estado provisório. Ele

era eleito por dez anos. Mais tarde

parece ter passado a ser vitalício.

Enquanto era provisório, não era hereditário,

ou seja, não pertencia à família

dele aquele poder. Qual era a

dignidade dele? Era a de ser doge.

Doge quer dizer duque, em dialeto

veneziano. Duque temporário, mas

soberano de uma região riquíssima,

mas pequena. Ficava ridículo ser imperador.

Ninguém é imperador de

Luxemburgo, por exemplo. No entanto,

ele estava cercado de um fausto,

do qual dá bem ideia o Palácio

dos Doges. Ou seja, o poder público,

de si, deve ter majestade.

Em Saint-Germain

l’Auxerrois, um fato que

ilustra a majestade

Alguém poderia dizer: “O senhor

tratou da majestade enquanto ligada

ao cargo. Uma pessoa não pode ter

majestade por um dom natural?”

Pode, mas nesse caso ela tem um

dos elementos da majestade e, por

ampliação, se afirma que ela tem

majestade. Quer dizer, se ela tem

uma tal supremacia pessoal que,

olhando-a se pensa na realeza, ela

tem os elementos que caracterizam

o rei. Ela não é um rei, mas é majestosa.

Certa vez, minha família ouviu

Missa na Igreja de Saint-Germain

l’Auxerrois, em Paris. E viram entrar

a Princesa Isabel acompanhada

de uma dama. Como ela era princesa,

e a Primeira Guerra Mundial

não tinha arrebentado ainda, se

prestava, mesmo nas Repúblicas, a

honra de dar-lhes um lugar no presbitério.

Ela entrou e foi direto para

lá, ocupando o lugar que lhe estava

reservado.

24


pjposullivan (CC3.0)

Igreja de Saint-Germain l’Auxerrois, Paris

Insley Pacheco (CC3.0)

Terminada a Missa, minha mãe

e minha avó, que não a conheciam

pessoalmente, viram a dama de honra

da princesa se levantar e ir caminhando

em direção a elas, dirigindo-

-lhes a palavra:

— Eu sou a Baronesa de Muritiba,

dama de honra da Princesa Isabel.

Ela viu as senhoras desde o presbitério,

achou que fossem brasileiras.

Então, me mandou manifestar

seu desejo de conhecê-las. Se quiserem,

ela as espera na sacristia.

Foram até lá: Cumprimentos, homenagens,

e, na conversa, a princesa

soube que minha mãe era casada

com um parente do João Alfredo

3 , deputado no tempo do Império,

muito chegado à Imperatriz. Soube

também que meu avô era chefe monarquista

em São Paulo, e uma porção

de histórias assim. E o resultado

foi um convite da Princesa

Isabel para todos os membros

de minha família irem tomar

lanche na sua residência, em

Boulogne-sur-Seine.

Foram todos, até as crianças,

porque naquele tempo

era costume conhecerem-

-se as famílias inteiras, e não

algumas pessoas. Eu tenho

certeza que a Princesa Isabel

não se espantou nenhum

pouco de ver umas dez ali.

E para elas era uma ocasião

de poder dizer a vida inteira:

“Eu conheci a Princesa Isabel!”

Um dos meus tios tinha

um filho surdo-mudo que

aprendeu a falar com um

sistema inventado em Viena,

o que naquele tempo

Princesa Isabel em 1887

25


Reflexões teológicas

era novidade. Esse menino

era meio détraqué 4 . Apesar

disso o levaram, por medo

de deixá-lo muito deprimido

se todos os outros

fossem e ele não. Acredito

bem, aliás, ter Dona Lucilia,

a grande favorecedora

desse sobrinho, votado em

favor da ida dele.

Chegamos, ficamos todos

em pé esperando a

princesa. Afinal, ela entrou,

cumprimentos. Quando

ela foi se aproximando,

meu primo, que elevava a

voz muito mais alto do que

o natural, pois não ouvia,

começou a falar:

— Essa é a princesa?

Onde se viu? Princesa tem

coroa, tem cetro, tem manto

bonito! Ela está vestida

como vovó!

A Princesa Isabel ouviu

isto e, com muita bondade,

disse-lhe sorrindo:

— Pois é, meu filho, não

tenho nem o manto nem a

coroa, mas eu sou a Princesa

Isabel, e tenho gosto em

conhecer você.

Ela era muito majestosa,

um modelo de majestade!

Pendor para

o excelente

Inspetoria Salesiana de São Paulo

É próprio do espírito

humano reto, bem constituído,

ver uma coisa boa e apetecê-

-la. Voltemos mais uma vez ao exemplo

do garfo: O espírito humano bem

formado apetece sempre a algo melhor.

De maneira que, tendo se alegrado

por algum tempo com um garfo

bom, ele começa a pensar: “E como

seria um garfo melhor?”

Assim, dependendo do pendor

pessoal, o ser humano é atraído por

mil outras coisas que o levam a cogitar

na perspectiva de serem cada vez

Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

melhores, algumas delas atingindo o

nível de perfeição. Esta, a seu modo,

corresponde à majestade naquele

gênero.

Por exemplo, existem milhares de

idólatras de automóveis. Imaginem

um indivíduo desses tão tacanho,

que nunca tivesse ouvido falar numa

Rolls-Royce. Mas quando ele encontra

um veículo desses, numa propaganda,

fica encantadíssimo. Lê os

prospectos, contente por existir algo

dessa categoria que jamais

será dele, porque nunca terá

o dinheiro para comprá-

-la e mantê-la. Qual é a razão

dessa alegria? Ele viu a

possibilidade de um exemplar

melhor dentro da ordem

de coisas de que ele

gosta.

Contudo, se aparecesse

um automóvel superior,

mais perfeito, ele se alegraria

ainda mais. Porque

é natural que esse pendor

para o excelente, para o

supremo de determinadas

coisas, e para o muito bom

de várias outras, desabroche

na alma humana.

Logo, é compreensível

que, desde pequeno, eu tenha

desejado, conhecido e

voltado minha alma a certas

majestades. Como isto

se fez?

Coração de Jesus de

majestade infinita

Na Igreja do Coração de

Jesus 5 havia todas as impressões

ocasionadas pelo

culto, pela liturgia, pelos

cânticos, pelo órgão,

pelo ambiente de recolhimento,

mas, sobretudo, pela

Pessoa de Nosso Senhor,

enquanto mostrando o Seu

Coração aos homens. Esta

devoção, pelo próprio

nome da Igreja, era inculcada nela

por várias formas. Na torre, aquela

imagem dourada do Coração de Jesus,

com os braços abertos para toda

a humanidade. Aquela majestade

d’Ele com os braços abertos, me entusiasmava!

Dentro tem também uma imagem,

no altar lateral à esquerda de

quem olha para o Tabernáculo. Não

pretendo dizer nem um pouco que

ela tenha valor artístico, nem é uma

26


Luis C.R. Abreu

obra de arte, é de artesanato.

No entanto, muito tocante,

muito nobre, e com

o coração de Jesus exprimindo

muita bondade, com

uma grandeza misteriosa,

parecendo emanar algo para

mim, vindo do vermelho

bem escolhido do seu manto,

dos ornatos dourados…

Mas, sobretudo, de sua cabeça,

os cabelos… sobretudo,

o olhar, os traços do rosto.

Ele me parecia tão majestoso,

e tão bom ao mesmo

tempo! Tão infinitamente

superior, e com tanta

pena, tão voltado para

mim, e tão misericordioso,

que eu pensava: “Majestade

é isto! E eu gosto desta

majestade!”

Quando me deparei, na

ladainha do Coração de

Jesus, com aquela invocação “Cor

Iesu majestatis infinitæ, miserere nobis”

6 , adotei-a e a inscrevi entre as

minhas invocações prediletas, desde

logo!

No teto do Coração de Jesus vem

a mesma majestade expressa por

uma pintura representando Nosso

Senhor aparecendo a Santa Margarida

Maria Alacoque. E há um letreiro,

em caracteres dourados sob fundo

verde, escrito em francês, pois essa

Santa era francesa: “Eis aqui o

Coração que tanto amou os homens,

e por eles foi tão pouco amado.”

Esse equilíbrio entre a majestade

e a bondade me encantava! Ele,

tão majestoso na aparição, mas sempre

com uma bondade levada ao último

limite do excogitável. Deu-me

a ideia de que ali estava o padrão

mais alto e pleno da majestade. Sendo

Ele Rex regum et Dominus dominantium

– Rei dos reis e Senhor de

J.P. Ramos

Interior do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

27


Reflexões teológicas

é uma criatura. Por isso,

ouso me aproximar

d’Ela e recitar o Memorare,

a Salve Regina,

e florescer! Porque Ela

faz ponte entre Ele e

mim. Este é o bem-estar

de minha alma!

Naquele episódio do

boletim do Colégio São

Luís 7 , quando eu estava

rezando aflito diante

da imagem de Nossa

Senhora Auxiliadora

e me sentia olhado

por Ela com uma

bondade, uma ternura,

uma disposição para

me perdoar, com uma

pena de mim, uma coisa

extraordinária, duas

ideias vieram juntas,

como num relâmpago.

A primeira era: “Parece

mamãe!”; a segunda:

“Mamãe não chega,

nem de longe, aos

pés d’Ela!”

A maternalidade

d’Ela comigo, não por

ser eu, Plinio, não. É

por um qualquer, um

prequeté pecador, um

cisco de menino pecador,

aparecendo diante

d’Ela, trêmulo, mais

movido pela atrição do que pela contrição;

a esse menino, Ela deixa cair

a pétala de um sorriso!

Deste fato veio-me a convicção:

Ou eu me agarro a Ela a vida inteira,

ou eu me perco! Meu negócio é

com Ela! Recorrendo a Ela, pedindo,

querendo saber a respeito d’Ela,

e girando em torno d’Ela, ao serviço

d’Ela. Minha vida é para Ela!

Com frequência, rezando a Salve

Regina, eu me lembro disso e, de

algum modo, revivo bem exatamente

aquela sensação. Quando vou ao

Coração de Jesus, visito-A enquanto

sendo a Mãe que me sorriu! É evitodos

aqueles que têm

domínio –, era natural

que se concebesse

n’Ele uma majestade

dessa elevação.

Nossa Senhora

preenche o

hiato entre

Nosso Senhor

e o pecador

Luis C.R. Abreu

Donde, por sua vez,

um lugar naturalmente

posto para a devoção

a Nossa Senhora. Porque

o culto à majestade

do Sagrado Coração

cria a seguinte situação:

Quando deitamos

atenção, a majestade

d’Ele é tão grande,

que a pessoa se sente

aniquilada: “Como me

aproximar d’Ele? Como

dizer-Lhe: Eis-me

aqui? Quando sinto em

mim o pecado original

no qual fui concebido,

experimento o primeiro

impulso de todas

as desordens que todo

homem tem em si! Isso

tudo me distancia

d’Ele.”

Fazendo essas considerações, eu

adorava a majestade d’Ele enquanto

me recusando, olhando para aquilo

que em mim causa-me desgosto e,

se eu pudesse, jogaria fora. Esta exclusão,

eu a adoro! De outro lado,

porém, ela me apavora. Porque Ele

é tudo. E, rejeitado por quem é tudo,

o que eu sou? Se Ele não me rejeitasse,

eu não O adoraria. Se Ele me

rejeita, desapareço… Então, qual é a

solução?

No hiato entre Ele e mim ‒ que,

por alguns lados, deve ser visto como

um abismo escuro ‒ há uma réstia

de luz: Nossa Senhora, Mãe d’Ele

e minha, a qual, como ensina a Igreja,

quis a morte de seu Divino Filho

para nos redimir, e a teria querido

mesmo se fosse para salvar somente

a mim ou a qualquer outro homem

que há na Terra. Quanta misericórdia!

A superioridade de

Maria Santíssima

Mas Nossa Senhora não é divina,

não tem aquela superioridade Nosso

Senhor Jesus Cristo. Ela é superior a

mim a jardas, anos-luz, centúrias de

séculos, não tem dúvida! Contudo,

28


dente. E o meu hábito é este mesmo:

entro, inclino-me diante do Santíssimo,

faço uma adoração rápida e vou

direto para junto do altar d’Ela, para

vê-La de perto.

E a imagem do Sagrado Coração

de Jesus? É claro, vou vê-la, adoro

ao Sagrado Coração de Jesus, venero

a imagem d’Ele, sei que a maior

homenagem, a primeira, se deve a

Ele. Mas, em consideração à ideia da

mediação d’Ela, sem a qual eu não

me salvaria, creio ser mais respeitoso

ir pedir primeiro a Ela para pôr

minha alma em condições de aparecer

diante d’Ele. E acredito que nenhum

teólogo sério tenha alguma

objeção a isto.

A admiração diante da

grande majestade

Pelo velho hábito de lecionar,

que leva à deformação de dar a muitas

coisas o caráter de aula, apresentei

o conceito de majestade tão claro

no seu conteúdo abstrato. Entretanto,

ao tratar do Sagrado Coração

de Jesus, passou-se do abstrato para

o concreto mais sublime, mais perfeito

que possa haver, provocando

uma impressão de majestade muito

grande que convida ao silêncio na

consideração das naturezas divina e

humana na Pessoa d’Ele, sob a invocação

do Sagrado Coração. Esta

é a majestade das coisas postas por

Deus na ordem do universo.

Desde quando eu era pequeno me

intrigava ver certos líquidos que postos

em recipientes de gargalo muito

estreito não saíam, permanecendo

retidos por uma rolha invisível. Passei

anos sem entender o porquê, julgando

que um dia compreenderia isso

em função de algo mais alto. Meu

professor de Física deu-me uma explicação,

mas não me interessou.

Porém, essa velha imagem de meu

curso de Física me veio ao espírito,

de repente, quando foi abordado o

tema a respeito da majestade. Pensei:

“Está vendo? É como a admiração.

Ela, diante da grande majestade,

fica sem saber se expandir, como

o líquido no gargalo, porque desperta

movimentos de alma tão grandes,

que o ‘gargalo’ da voz humana é insuficiente

para transmitir.” E nós ficamos

no mutismo de quem quisera

ter outros meios de expressão e não

os tem. Se fosse músico, tocaria uma

melodia; se fosse poeta, comporia

uma poesia, porque elas dizem muitas

coisas que as palavras não exprimem.

Não sendo músico nem poeta,

admiro pelo silêncio.

No caso de Nosso Senhor Jesus

Cristo, é muito mais do que uma admiração,

é uma adoração, um ato de

culto. Eis o que se deu. Fico feliz por

minhas palavras terem conseguido

despertar este ato de culto em relação

a Ele.

v

(Extraído de conferência

29/10/1985)

1) Do latim: (sentido literal) o maior está

de pé.

2) Do latim: Quem subsistirá?

3) João Alfredo Corrêa de Oliveira, tio-

-avô de Dr. Plinio.

4) Do francês: desequilibrado, demente.

5) Santuário do Sagrado Coração de Jesus,

igreja situada no Bairro Campos

Elíseos, em São Paulo.

6) Do latim: Coração de Jesus, de majestade

infinita, tende piedade de nós.

7) Sobre isso, ver Revista Dr. Plinio n.

122, p. 18-23.

Dr. Plinio em 1985

Arquivo Revista

29


Apóstolo do pulchrum

Mateus S.

Aliança divina entre

o prático e o belo

Na Terra, o homem não vive só para gozar, mas, sobretudo, para

ser herói e ter uma alma capaz de grandes arrojos. Para isso a

Providência aliou o prático ao belo na Criação, e assim supriu

as necessidades corporais e espirituais do homem, a fim de que

ele pudesse estar sempre convidado a atingir o Paraíso Celeste.

Em meados do século XX, a ideia de arte que entrava

na arquitetura conjugava alguns elementos:

o máximo de uniformidade e simplicidade,

com cores inexpressivas, visando principalmente o aspecto

funcional, tetos baixos, linhas retas, preponderando

a figura geométrica do quadrado.

Decorrem daí dois movimentos, duas tendências: o

prático, o funcional, o simples e o econômico, contra o

artístico, o elegante e o leve. O prático achata. O elegante

eleva.

O prático para o corpo e o belo para a alma

Ora, o conflito dessas tendências, que relação tem

com a doutrina da Igreja e com a luta entre a Revolução

e a Contra-Revolução? A tese a desenvolver é: não há um

conflito verdadeiro entre o prático e o belo, mas é algo

criado pela Revolução para produzir no homem um efeito

que daqui a pouco explicarei. Na realidade, esse conflito

é falso e deixa o homem desnorteado, pois ele precisa

de coisas práticas para viver. Ninguém pode viver

30


Hugo Naves

Luis Samuel

Tomas T.

J.P. ramos

num mundo só de beleza, respirando apenas arte e poesia.

Quando Nosso Senhor disse “Não só de pão vive o homem”

(Mt 4, 4), Ele afirmou de modo implícito ser o pão

também indispensável. E a experiência de todos os dias

o torna evidente. O econômico, o viável, o exequível, o

prático, portanto, corresponde a uma necessidade imperativa;

o útil, inclusive, é um dos valores da ordem do

universo.

O princípio, então, é o seguinte: o homem precisa do

prático para o corpo, mas precisa do belo para a alma,

pois ela não come pão nem respira oxigênio. O ser humano

não é apenas, como se costuma dizer, um conjunto

de alma e corpo, como se fossem dois valores de igual

alcance, justapostos na constituição de um mesmo indivíduo.

O elemento principal do homem é a alma e o corpo

existe para servi-la. A alma humana deseja a verdade

e a beleza, porque foi criada à imagem e semelhança

de Deus, Ele é a Verdade e a Beleza infinitas. Por isso,

o Criador encheu sua Obra destes dois predicados para

que a alma humana, amando na Terra esses dois atribu-

tos, se tornasse, ela mesma, autora de pensamentos verdadeiros

e de realizações belas…

Duas descendências opostas

do espírito humano

Eu chamo as obras do engenho humano de “netas de

Deus”, porque a alma humana é filha, mas o que ela engendra

pode ser considerado como um neto do Criador.

O homem, engendrando as “netas” de Deus, as verdadeiras

obras de arte, prepara-se para o momento de comparecer

diante d’Ele, a Eterna Verdade e a Eterna Beleza;

e, voando de entusiasmo em relação a Ele, o espírito humano

quase poderia compor a seguinte oração:

Meu Deus, durante minha vida inteira procurei a beleza

e a verdade, sabendo que só as encontraria em Vós,

pois só contemplando-vos face a face as poderia conhecer!

Entretanto, posso afirmar: encontrei-as na Santa

Igreja Católica Apostólica Romana! Mas, por santa e

bela que fosse a vossa Igreja, vossa Esposa, Vós éreis, ó

Senhor, não apenas o Deus da verdade e da beleza, mas

31


Gabriel K.

Gabriel K.

Apóstolo do pulchrum

Tomas T.

Luis Samuel

éreis tudo isso em essência, em grau inimaginável e insondável.

Minha alma agora vos deseja encontrar, Justo

Juiz, Vós sois a minha recompensa demasiadamente

grande!

A Revolução quer eliminar isso da vida, pondo-nos a

alternativa:

— Escolhei: O prático ou a beleza; em matéria de verdade

fique apenas a pequena verdade terra-a-terra das

ciências úteis. O resto é velharia.

A isso nós podemos responder:

— Não! O resto é tradição, é eternidade!

Explicarei agora o prático e o verdadeiro na obra de

Deus, para vermos depois como a Revolução a desfigura,

engendrando realizações netas do demônio. Porque se é

filho do demônio todo aquele que faz a obra da Revolução,

aquilo engendrado por ele é neto do demônio. Veremos,

portanto, duas descendências: Aos pés da Virgem,

os filhos d’Ela; e as obras da serpente. Contemplaremos

o sorriso de Deus, e a maldição de Deus.

Um reflexo do prático e belo

plasmado por Deus na Criação

Vemos em uma das ilustrações um lindo espetáculo

da natureza, diretamente criado por Deus: o litoral, o

mar. Essa massa líquida enorme se move bem próxima à

praia umedecendo a areia, mas não alcança a areia mais

distante. Algumas ondas parecem dar a impressão de serem

enormes, trazendo um vagalhão colossal, mas são

pequenas. Elas são de uma tal beleza, repetem em ponto

pequeno, gracioso e encantador, toda a majestade e toda

a grandeza das coisas enormes.

Se nós imaginássemos um homem pequenininho colocado

em presença dessas ondas, seria uma tragédia.

Mas que linda tragédia enfrentar uma espuma tão bela,

tão banhada pelo Sol, e vista nas culminâncias, quase se

diria ser uma espuma de luz. Por detrás, a massa d’água

parece mais um tecido, um cetim maravilhoso, com movimentos

diversos, plácida no fundo, aproxima-se mais

movediça e cheia de Sol. No raso fica um pouco agitada,

para morrer de modo manso no contato com a terra. Tudo

isso é lindo e tão artístico! Bem poderíamos imaginar,

do fundo daquele Sol invisível e daquele litoral, uma estrada

de luz, e Nossa Senhora vindo, caminhando sobre

as águas nessa estrada de luz. Que maravilha!

Contemplem esse dourado. Nosso Senhor diz no

Evangelho: Nem Salomão, com toda a sua glória, vestiu-se

como os lírios do campo (cf. Mt 6, 28-29). Eu lhes

pergunto: Que potentado, em toda a sua glória, vestiu-se

com um tecido parecido à “seda” desse mar?

Pois bem, esse é o mar profundamente funcional, sem

cujo movimento e influência no equilíbrio do universo,

32


João C. V. Villa

todo o desenvolvimento da Terra seria impossível; ele

é um viveiro enorme de uma quantidade incontável de

bens preciosos para o homem, desde peixes úteis para

a alimentação humana, até o tão precioso petróleo, que

a humanidade começa a adorar… Tudo se encontra no

mar, e se encontra em tal quantidade, que alguns técnicos

da UNESCO chegaram a afirmar que as riquezas

havidas na terra são menores do que as existentes para o

homem no mar. Vejam como tudo isso é belo, e ao mesmo

tempo prático. Essa é a sabedoria de Deus!

Não há dúvida: a água é uma das mais belas criaturas

de Deus! É bela em todos os seus aspectos, inclusive

quando espumante, dir-se-ia que atingiu o auge de sua

beleza; é maravilhosa! Também é bela quando a vemos

plácida, quase parada, esgueirando-se num longo serpentear,

refletindo o céu de um modo tão admirável, parecendo

mais bonito visto dentro d’água. É uma verdadeira

beleza!

Quanto capricho e fantasia nessa linha que nenhum

dedo humano traçou! Que utilidade enorme! Toda a vegetação

da paisagem, brilhando e vicejando à luz do Sol,

existe por causa da água. Imaginem que essa água não

existisse ou não chovesse nessas redondezas, com certeza

teríamos o deserto do Saara. A alegria, a fecundidade

e a beleza da terra vêm do contato com a água. Água plácida

e bela, mais parece uma laje de pedra preciosa feita

para um rei ou para uma princesa caminhar. Água prática

e útil, que maravilha de Deus!

Bens do espírito aliados aos bens do corpo

As obras de Deus são muito variadas. Às vezes elas

têm um ímpeto extraordinário como o trovão, ou uma

avalanche caindo, ou até as ondas do mar num maremoto.

Outras vezes elas são tranquilas e plácidas. Nessa

paisagem, por exemplo, há um rio. Ele não tem nenhuma

pressa de chegar até a embocadura, vai escorrendo tranquilamente,

quase que brincando com a terra. Ele tende

para um lado, mas a terra lhe impõe obstáculo, então

sorri e ladeia sem pressa, e continua para o outro lado.

Há a imensa mata verde atrapalhando o curso do rio...

Que bonita península!

Como seria interessante imaginar se aqui, junto a

esse pequeno bosque refrigerante, houvesse uma casa

agradável, toda cercada de água e de terra fecunda, num

ambiente prático feito por Deus para o homem. Como

seria bom morar ali! E não perto de uma rodoviária feita

pelos homens. Quanta beleza Deus quis que tivessem as

coisas práticas. Como o corpo é bem atendido nesse lugar!

É possível que nesse rio haja peixes.

Essa terra dá tudo. É terra do Brasil, da qual disse Pero

Vaz de Caminha, escrevendo ao rei D. Manuel, na primeira

reportagem feita sobre o Brasil: “Essa terra, senhor,

é dadivosa e boa; e nela, em se plantando, tudo dá”.

Aqui está a terra dadivosa e boa, a água formosa e o

suave movimento de colinas, feitos para o homem sorrir

um pouquinho. Ali desponta uma planta que retém

33


Apóstolo do pulchrum

os raios do Sol e parece feita de luz, para os homens pensarem

como o este astro é belo. As nuvens se miram sobre

a superfície tranquila da água. Dir-se-ia que elas se

espantam com sua própria formosura refletida na água.

Bens do espírito ao lado dos bens do corpo. Como a

Providência soube aliar o prático ao belo, de tal maneira

que a primeira coisa notada pelo o homem é o belo e sorri

encantado. E tudo isso nós temos nesta Terra de exílio.

Imaginem o que seria o Paraíso Terrestre. Imaginem, sobretudo,

como será esse lugar incomparável, o Paraíso

Celeste!

Ambiente que convida a alma

para a contemplação

Nessa fotografia a natureza é europeia e, portanto,

bem diversa da nossa. Encontramos no alto desse monte

uma pirâmide, não feita por algum faraó, mas feita

por gigantescos movimentos da crosta terrestre, em épocas

incalculáveis. Vejam a beleza do jogo de luzes nesse

panorama! Aquela luz prateada, discreta, se concentra

na encosta gelada desse pico de morro, parecendo iluminar

toda a parte nevada. Depois, um verde denso e profundo

desemboca num abismo escuro. Não. A luz desce e

é condensada por essa névoa ligeira refletida em vários

pontos, e traz para junto do homem todos os esplendores

desse pico inacessível.

Novamente aparece a água. Desta vez corre compacta,

caudalosa, serena, frígida, quase tanto quanto o pico

desse morro. Todo o panorama é feito de alturas. As próprias

árvores parecem píncaros vegetais tendentes a subir

e a se comparar com o píncaro mineral. Elas são graciosas

e leves para compensar o maciço da montanha.

Porém, veio o frio e a árvore perdeu suas folhas, que aos

poucos começam a renascer. A árvore demonstra aí toda

sua beleza e delicadeza extrema, mas também força,

luz brilhante e radiosa; obscuridade, ambas convidam

à contemplação recolhida e séria. Águas que indicam o

passar contínuo de todas as coisas terrenas. É a frase da

Escritura: Sic transit gloria mundi! 1

As grandes luzes estão nos píncaros da fé

As grandezas desta Terra escoam como a água, mas

só Deus é eterno. Deus está representado naquele monte,

que nunca muda, é sempre o mesmo. O rio da História

passa, os homens passam. Deus, no mais alto de sua

glória e de sua luz, continua intacto. É uma verdadeira

lição de religião, de harmonia de virtudes: delicadeza

e força, pureza, recolhimento, esplendor,

sabedoria, tudo reunido

nesses ambientes. Habitável para

o homem; deleitável. Não há quem

não gostaria de morar lá perto

num chalé bem agasalhado, vendo

essa natureza frígida, mas saudável,

e se nutrindo dos seus frutos e

criações. Prático e belo!

Ora, diante desses grandes panoramas

o homem acaba por ser

desafiado: “Você tem coragem de

subir?” Veja as pedras escorregadias!

Que caminhos resvaladios e

Viccente T. Marques

João C. V. Villa

João C. V. Villa

34


Rodrigo C. B.

Marcus Ramos / Viccente T. Marques

difíceis! O desafio está na atração.

Não há quem não sinta vontade

de chegar até o alto, de se banhar

nessa luz e ficar imerso nela.

Quanta energia é preciso!

Grande lição moral: realmente,

as grandes luzes estão nos píncaros

da virtude, da fé e da sabedoria.

Mas é preciso força para

galgar esses píncaros. Diz Nosso

Senhor no Evangelho: “O Reino

dos Céus é arrebatado à força e

são os violentos que o conquistam”

(Mt 11, 12). Aqui é o alto desse panorama. Ele

convida os violentos às grandes ascensões, aos grandes

feitos. Na Terra, o homem não vive só para gozar.

Ele vive para ser herói, para ter uma alma capaz de

grandes coisas.

De outro lado, quanta coisa prática tem aí! Alguém

me dirá:

— Não vejo. Nessas plantinhas que talvez um gado

coma? O que há de prático em tudo isso?

Imaginem a Terra sem montes, é evidente que todo o

seu equilíbrio se prejudicaria. Essas montanhas enormes,

são colunas do equilíbrio terrestre.

O que dizer? Parece um conto de fadas como o da

“Alice no país das maravilhas”. Nós achamos tão apetecível

essa neve, dá vontade de pegar uma colher e comê-la.

Tão simpático esse caminho, pensamos num trenó

e numas renas para correr por ele velozmente. Mas,

depois disso, quem não teria a tristeza de não poder chegar

até um píncaro desses? Esse, um píncaro acima de

muitos outros que já foram atingidos por ascensões penosas,

e que convida a outras ainda mais arriscadas. E

os montes, postos uns em cima dos outros, banham o

azul profundo que nos fala no céu de todos os ideais.

Há um trecho da Escritura, aplicado a Nossa Senhora,

que diz “Mons domus Domini in vertice montium, et elevabitur

super colles” (Is 2, 2) – a montanha da casa do Senhor

será colocada no cume das montanhas e se elevará

sobre as colinas. Ali está Nossa Senhora: mais virginal,

mais nívea, mais pura do que tudo o que se possa imaginar.

Ali estão os outros Santos da Igreja Católica: alvos,

brilhantes, altos, mas nenhum deles chega até Maria

Santíssima. Por cima d’Ela, apenas está Deus, representado

por esse céu de anil criado por Ele mesmo, para

nos dizer que está por detrás e só na outra vida O atingiremos.

v

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de 10/2/1974)

1) Do latim: Assim passa a glória do mundo.

35


Luz por trás das brumas

Daniel A.

H

á algo na imagem de Nossa Senhora

das Graças que diz:

“Meus filhos, é verdade que está

tudo muito apertado, mas detrás dos acontecimentos

preparo uma solução. Pedi, rezai, Eu virei

e atenderei, pois há sempre algo para vós.

Não vos atemorizeis, por trás das brumas estou

Eu com meus anéis luminosos que a vossa súplica

pode tornar ainda mais brilhantes. Quando

caminhardes um tanto nas névoas, já elas começarão

a ficar luzidias, por efeito de minhas graças

cuja luminosidade chegará até vós.”

(Extraído de conferência de 28/9/1981)

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