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RISCO#24

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OPINIÃO FIDELIDADE

Sérgio Carvalho

«Pensar o futuro tem de ser

um tema presente»

ENTREVISTA ACCENTURE

Ana Almeida

«O sector segurador tem um papel

fundamental numa economia com

menor consumo carbónico»

GREEN BONDS ISQ

João Safara

«Investir capital em produtos

financeiros com impactes

positivos no planeta»

MERCADOS, INSIGHTS E TENDÊNCIAS DO SECTOR FINANCEIRO

PRODUTOS

FINANCEIROS EM

QUE VALE A PENA

INVESTIR

POR QUE ESTÃO

A SUBIR AS TAXAS

DE JURO?

TAXAS de

JURO

SUBIR

a

COMO FICAM

OS CRÉDITOS

E OS DEPÓSITOS

A PRAZO

OS EFEITOS

NA ECONOMIA

MERCADOS FINANCEIROS NO PÓS-PANDEMIA

O IMPACTO DO REGRESSO

À NORMALIDADE

OS RISCOS QUE PERSISTEM

APESAR DO OPTIMISMO

OS EFEITOS DO AUMENTO

DA INFLAÇÃO

24

PRIMAVERA 2022 • TRIMESTRAL

2,30 euros (cont.) revistarisco.pt

APS

OS SEGUROS DE CRÉDITO

NA ACTIVIDADE EMPRESARIAL

CIBERCRIME

OS IMPACTOS NO SECTOR

FINANCEIRO


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Ricardo Florêncio

ricardo.florencio@executivedigest.pt

COORDENADOR EDITORIAL

Paulo Mendonça

paulo.mendonca@multipublicacoes.pt

REDACÇÃO e ONLINE

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Sarmento, Beatriz Caetano, Filipa Almeida,

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M. Pinto, Sara Afonso, Simone Silva

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UMA NOVA

CRISE

PAULO MENDONÇA

COORDENADOR EDITORIAL

paulo.mendonca@multipublicacoes.pt

O optimismo do pós-pandemia está

novamente adiado. O eclodir

do conflito na Ucrânia volta a mudar

o mundo, desta vez com efeitos

económicos potencialmente mais

graves e duradouros do que aqueles

trazidos pela pandemia.

H

á poucas semanas, os economistas

estavam a discutir se o

aumento da inflação seria ou

não um fenómeno transitório,

e a subida das taxas de juro,

embora provável, continuava a ser adiada

pelos bancos centrais. Essas incertezas parecem

ter sido completamente desvanecidas no

final de Fevereiro, quando eclodiu o conflito

entre a Rússia e a Ucrânia, tornando real um

aumento ainda mais acentuado dos preços

da energia e das matérias-primas e uma ainda

maior volatilidade dos mercados do que

aquela que se verificou no início da pandemia.

Independentemente do tempo que durarem

as operações militares na Ucrânia, 2022 já

não será o ano que se perspectivava num contexto

optimista de pós-pandemia. O crescimento

económico, que já se adivinhava menos

acelerado do que em 2021 mas, ainda assim,

EDITORIAL

animador, volta a ser colocado em causa na

Europa e também noutras regiões do mundo.

A inflação deixou de suscitar dúvidas quanto

à sua persistência e não nos deixará tão cedo.

Já antes da guerra, 50% do aumento da inflação

eram explicados pela subida dos preços da

energia; com o conflito no terreno, esta subida

é ainda mais acentuada e já tem efeitos junto

das famílias, nos preços de bens essenciais,

electricidade, gás e outros combustíveis.

Uma das formas utilizadas pelos bancos

centrais para tentar travar a inflação é, historicamente,

a subida das taxas de juro. À data de

fecho desta edição, as taxas de juro já tinham

subido em duas sessões no Reino Unido, e ainda

não se sabe se a União Europeia será a próxima

a accionar este mecanismo. Resta saber a

que ritmo estas taxas irão subir e quanto, visto

que os efeitos sobre as famílias e empresas são

bem conhecidos.

Do outro lado da equação, a confirmar-se a

subida das taxas de juro, esta terá efeitos positivos

para quem investe em produtos financeiros

a prazo. Com as taxas a subir, depósitos a prazo

e alguns produtos de seguradoras ganharão

maior atractividade, devido ao aumento das remunerações

expectáveis deste tipo de investimento.

Este poderá ser, por isso, o melhor

momento para investir neste tipo de produtos

financeiros, depois de vários anos de menor

popularidade devido aos valores negativos que

as taxas de juro atingiram na Zona Euro.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 3


ESTA

EDIÇÃO

6 NOTAS

Comércio mundial atingiu níveis

pré-pandemia em 2021

12 TEMA DE CAPA

Taxas de juro a subir

24 26 SEGUROS DE CRÉDITO

DIFICILMENTE

UMA CONJUNTURA SERIA

TÃO APROPRIADA,

COMO A ACTUAL,

PARA DEMONSTRAR OS MÉRITOS

DOS SEGUROS DE CRÉDITO

18 MERCADOS

Opinião de Sérgio Carvalho, director

de Marketing da Fidelidade

Opinião de Miguel Guimarães,

director-geral adjunto

da Associação Portuguesa

de Seguradores (APS)

22 SEGUROS

Entrevista com Ana Almeida,

Senior Manager, Financial Services,

Accenture Portugal

30 ECONOMIA

Os grandes desafios para

a economia global em 2022

34 TECNOLOGIA

O centro tecnológico no Porto que

apoia todas as bolsas da Euronext

36 ESTUDO

A expansão da conectividade na visão

de um estudo da Vodafone

40 CIBERSEGURANÇA

Entrevista com Nuno Cândido, Cloud

& Security associate director na Noesis

42 TRADING

Como (não) investir nos mercados

financeiros

48 FINTECH

Entrevista com António Ferrão, board

member da Portugal Fintech e director

da Fintech Solutions

Entrevista com Alexander Emeshev,

co-fundador da Vivid

54 OPINIÃO

Eulalia Flo, directora-geral

da Commvault para Portugal e Espanha

Rita André, senior associate Corporate

Risk & Broking e responsável pelo

Comité WTW Ibérico de Travel & Tourism

na WTW Portugal

58 PAGAMENTOS

Tácticas para combater fraudes

nos pagamentos online

62 GREEN BONDS

Entrevista com João Safara, administrador

do ISQ

66 ESTANTE

Entrevista com Bárbara Barroso, autora

do livro “Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar

para Si”

ESTATUTO EDITORIAL REVISTA RISCO A Risco é uma revista trimestral de informação

geral que aposta numa informação diversificada abrangendo os mais variados campos

de actividade e que pretende ir ao encontro das motivações e interesses de um público

plural. A Risco pretende atingir uma ampla cobertura dos mais importantes e significativos

acontecimentos nacionais e internacionais em todos os domínios de interesse. A Risco é uma

revista que dá primazia às matérias de finanças no seu sentido mais lato e abrangente.

A revista Risco reger-se-á pelo seguinte projecto de estatuto editorial: 1. Cumprimento

rigoroso das normas éticas e deontológicas do jornalismo; 2. Identificação com os valores da

democracia; 3. Independência face a quaisquer grupos de pressão, poderes políticos ou económicos;

4. Salvaguarda do espaço privado dos cidadãos; 5. Defesa do pluralismo de opinião.

04 RISCO MARÇO / MAIO 2022


PAGAMENTOS COM

GOOGLE PAY JÁ DISPONÍVEIS

NO UNIBANCO

A marca Unibanco, da Unicre,

vai passar a permitir pagamentos

efectuados através do Google Pay.

Os clientes passam, assim, a ter acesso a um

novo meio de pagamento digital, bastando

para isso associar o Cartão de Crédito

Unibanco ou a Conta Unibanco à wallet de

pagamentos da Google.

De acordo com um comunicado enviado

pela Unicre à imprensa, «este novo serviço

está alinhado com a estratégia de digitalização

que o Unibanco tem vindo a adoptar

na sua oferta, e que já conta com medidas

como a adesão 100% digital e livre de papel

às soluções de cartão e de crédito ou, mais

recentemente, o lançamento da Conta

Unibanco, uma conta digital que pode ser

movimentada a partir de um cartão virtual

pré-pago recarregável».

Com a associação dos cartões de crédito

e conta digital Unibanco ao serviço Google

Pay, passa a ser possível fazer pagamentos

através de dispositivos Google, como smartphones,

tablets ou smartwatches, bastando

para isso aproximar estes equipamentos

a um terminal com suporte a tecnologia

contactless. A wallet Google Pay permite, do

mesmo modo, fazer compras online.

Fernando Carvalho, administrador da Unicre,

explica que «a disponibilização do Google

Pay na oferta do Unibanco constitui mais um

passo significativo na jornada de digitalização

dos pagamentos que temos vindo a

traçar e que faz parte do nosso propósito de

facilitar a vida dos nossos clientes, proporcionando

uma experiência

de simplicidade

nos pagamentos».

Além do Google Pay,

o Unibanco permite

pagamentos com

outros serviços digitais,

como são os casos

do Apple Pay, Fitbit

Pay e Garmin Pay.

A Crédito y Caución

divulgou o seu mais recente

Economic Outlook, onde

prevê que os dados finais

de crescimento do comércio

mundial em 2021

confirmem que

as trocas comerciais

internacionais

voltaram a alcançar

os níveis anteriores

à pandemia.

COMÉRCIO MUNDIAL

ATINGIU NÍVEIS

PRÉ-PANDEMIA EM 2021

A

pós um crescimento, que estará entre

os 8 e os 10% em 2021, a seguradora de

crédito antecipa que o crescimento perca

força até próximo dos 5 a 6% em 2022 e

dos 3 a 4% em 2023. «Evidencia o regresso a um padrão

de crescimento normal, no qual o crescimento

do comércio mundial estará mais ou menos a par

com o do PIB, contrapondo-se às oscilações do

dobro do PIB observadas em 2020 e 2021», salienta

o relatório.

O Economic Outlook destaca a evolução desigual do

comércio global de bens e de serviços. O comércio

de bens recuperou significativamente graças à forte

procura de veículos automóveis, produtos electrónicos

e artigos de exterior. Apesar dos constrangimentos

na cadeia de fornecimento durante a segunda

metade do ano, o comércio mundial de bens

manteve-se firmemente acima do nível pré-pandemia.

O comércio de serviços, por seu turno, está

a recuperar lentamente, sob o peso das restrições

06 RISCO MARÇO / MAIO 2022


O ECONOMIC OUTLOOK

DESTACA A EVOLUÇÃO

DESIGUAL

DO COMÉRCIO

GLOBAL DE BENS

E DE SERVIÇOS

ainda vigentes devido à pandemia. Contudo,

está cerca de 5% abaixo dos níveis registados

em 2019, uma percentagem que se eleva para

47% no caso do segmento do turismo.

De acordo com o relatório divulgado pela

Crédito y Caución, a evolução regional reflecte

este panorama. O crescimento do comércio da

China abrandou devido ao impacto do nível

pouco habitual de trocas comerciais registado

em 2020. O resto da Ásia emergente apresenta

crescimentos acima da média mundial vinculados

ao seu papel de destaque na fabricação

de bens. Nas economias avançadas, o comércio

cresceu fortemente nos EUA, impulsionado

pelos enormes pacotes de estímulo. A

evolução da Zona Euro está mais em sintonia

com a média mundial. A perda de impulso das

trocas comerciais no segundo e terceiro trimestres

de 2021 é generalizada e especialmente

visível na China, EUA e América Latina.

A Crédito y Caución não espera que os

constrangimentos ao comércio mundial se

dissipem totalmente até 2023. Ao longo de

2022 ver-se-ão aliviados pelo progressivo deslocamento

da procura para os serviços e pelo

descongestionamento dos portos, mas será

necessário tempo para ampliar a capacidade

no transporte marítimo e nos semicondutores.

O relatório da seguradora de crédito

salienta, ainda, que a ameaça de expansão das

guerras comerciais dos EUA com a China e a

União Europeia diminuiu.

PORTUGAL QUASE

DUPLICA FACTURAÇÃO

ELECTRÓNICA

De acordo com a Seres,

durante o primeiro semestre

de 2021, Portugal emitiu mais

2 824 638 facturas electrónicas

relativamente ao mesmo período

de 2020.

Este aumento na adopção da factura

electrónica «reflete-se directamente nas

poupanças das empresas, não só a nível

de despesas de gestão, como também

no número de horas, permitindo uma

gestão de poupança de 47.383.100 euros

e de sete anos laborais (25 820 horas)»,

refere a empresa especialista em serviços

de intercâmbio electrónico seguro

de documentos, em comunicado.

O estudo, que conta com a participação

de mais de 34 500 empresas de diversos

sectores de actividade, dimensão e

localização geográfica, mostra que Lisboa

é a cidade que tem maior percentagem

de emissão de facturas (+81%), seguida

de Faro (+8%), Porto (+2,38) e Aveiro

(+2,22%). No que diz respeito à

percentagem do valor total de facturas

recepcionadas, Lisboa e Faro mantêmse

nas mesmas posições, com +22%

e + 17,08%, respectivamente, estando

Setúbal na terceira posição (+11,89%) e,

em quarto lugar, o Porto (9,02%).

«A pandemia fez aumentar

exponencialmente a utilização da factura

electrónica, pois a obrigatoriedade do

teletrabalho resultou na contratação

de soluções e serviços tecnológicos por

parte das empresas que, antigamente,

estavam postos em segundo plano.

A assinatura digital, por exemplo,

foi uma das ferramentas que mais

cresceu neste período, tendo sido em

muitas empresas o primeiro passo para

a digitalização de muitos negócios,

nomeadamente a adesão à factura

electrónica», refere Alberto Redondo,

CMO da Seres Iberia.

O “Estudo sobre a Factura Eletrónica em

Portugal” é o primeiro sobre a utilização

e adopção da facturação electrónica no

nosso país e pretende ser uma referência

nacional para se conseguir ter uma

visão ampla do estado do crescimento

da emissão e recepção de documentos

electrónicos. «Com este estudo,

conseguimos perceber o actual nível

de digitalização das empresas

portuguesas, e como está o estado da

arte da facturação electrónica por região,

dimensão ou sector de actividade a nível

nacional», comenta Tiago Cancela, Sales

manager da Seres Portugal.

A ASSINATURA

DIGITAL FOI UMA

DAS FERRAMENTAS

QUE MAIS CRESCEU

NESTE PERÍODO

RISCO MARÇO / MAIO 2022 07


MARKO SEBASTIAN É O NOVO

DIRECTOR FINANCEIRO DA

VOLKSWAGEN AUTOEUROPA

BANKINTER COM DUAS

NOVAS ASSISTENTES

TELEFÓNICAS INTERACTIVAS

O Bankinter e o Bankinter Consumer Finance apresentaram

uma dupla de assistentes telefónicas interactivas que darão

assistência aos clientes 24 horas por dia, sem filas de espera e com

grande abrangência.

B

IA (Bankinter

Interactive

Assistant) e

Beatriz são os

nomes destas novas assistentes

telefónicas interactivas do Bankinter e

do bankintercard, respectivamente.

Em comunicado, o banco explica

que, com o apoio da BIA, os clientes

do Bankinter podem realizar «um

conjunto de operações seleccionadas

com muito mais celeridade e em

qualquer momento, tais como activação

de cartões, recuperação de códigos

de acesso, alteração de contactos e

cancelamento urgente de cartão em

caso de perda, furto ou roubo».

Já a Beatriz permite aos clientes

bankintercard consultarem saldos, obterem

dados para pagamentos, solicitar

transferências de fundos, recuperar

códigos de acesso e pedir o cancelamento

urgente do cartão em caso de

perda, furto ou roubo, entre outros.

Sempre que necessário, a BIA e a

Beatriz transferem a chamada com a

identificação do cliente e do assunto,

para uma resposta mais personalizada.

Para Alberto Ramos, CEO do Bankinter

Portugal, «esta nova solução, que se

enquadra na estratégia de proximidade

digital do Bankinter, permite um

alargamento da disponibilidade de

atendimento e uma maior celeridade

na realização das operações mais comuns.

Esta nova capacidade proporciona

maior agilidade e comodidade na

utilização destes serviços pelos nossos

clientes, que continuam a poder optar

por tratar dos seus assuntos com os

especialistas da Linha de Apoio bankintercard,

do Banco Telefónico Bankinter

ou, ainda, em qualquer agência do

banco, em função do que entendam

mais conveniente em cada momento».

Criadas em conjunto com a IBM,

a BIA e a Beatriz incorporam «os

mais recentes avanços tecnológicos

de inteligência artificial, incluem

capacidade de aprendizagem e

progresso contínuos e inserem-se no

conjunto de soluções inovadoras que

o Grupo Bankinter tem implementado

para melhorar a experiência dos

clientes no atendimento telefónico,

tendo em vista uma maior proximidade

digital, agilidade e comodidade na

realização de operações».

Aos 48 anos e com formação em

economia, Marko Sebastian assumiu, em

Fevereiro passado, a liderança da Direcção

de Finanças e Tecnologias de Informação

da Volkswagen Autoeuropa, juntando-se

assim ao novo director-geral, Thomas

Hegel Gunther, e ao director de Recursos

Humanos e Organização, Dieter

Neuhaeusser, no conselho de gerência.

Marko Sebastian iniciou a sua carreira na Volkswagen

Autoeuropa em 2002, no departamento de

planeamento financeiro, onde esteve até 2015. Desde

então desempenhou funções em várias empresas do

Grupo Volkswagen, nomeadamente na Volkswagen

Hannover, onde foi responsável pelo controlo financeiro,

e na Volkswagen Poznań, onde esteve à frente

do pelouro financeiro e tecnologias de informação

e foi membro do conselho de gerência. Após estas

experiências trabalhou na área de controlo financeiro

do Grupo Volkswagen, em Wolfsburgo. Regressa

agora a Portugal como director de Finanças e Tecnologias

de Informação e membro do conselho de

gerência da fábrica de Palmela.

O cargo foi, até aqui e desde 2018, assegurado por

António Costa, que, ao fim de 30 anos de carreira na

indústria automóvel, abandona o Grupo Volkswagen

para abraçar projectos pessoais.

08 RISCO MARÇO / MAIO 2022


NOVO ESTUDO REVELA QUE A MAIORIA

DOS BANCOS TEM UMA ESTRATÉGIA

PARA A SUSTENTABILIDADE

Foi divulgada a terceira edição do estudo anual da Mazars

sobre práticas responsáveis na Banca. O relatório de 2021 mostra

que a maioria dos bancos avaliados demonstrou interesse no

tema da sustentabilidade.

N

o entanto, a plena

implementação

de práticas

relevantes

para alcançar a transição para uma

economia neutra e socialmente

responsável continua a ser um desafio.

Este estudo incide sobre 37 bancos

em África, Américas, Ásia-Pacífico

e Europa, e identifica as melhores

práticas e tendências na gestão

do risco associado às alterações

climáticas e questões sociais e de

governança mais amplas.

Para Pedro Jesus e Filipe Carvalho,

respectivamente partner e associate

partner da área de Audit & Assurance,

Financial Services da Mazars, «o

sistema financeiro tem vindo a tomar

consciência e a reconhecer o seu

importante papel na transição para

um futuro mais sustentável, alinhado

com objectivos de desenvolvimento

partilhados». A análise global mostra

que a maioria dos bancos:

• Alocou responsabilidade formal

sobre temas de sustentabilidade

às suas direcções e funções de

gestão, com processos de supervisão

específicos. Em média, 66% dos

bancos passaram a incluir critérios

de sustentabilidade na remuneração

variável, contra 41% no ano

passado. No entanto, apenas 33%

dos bancos identificam critérios

claros ligados a iniciativas internas

de sustentabilidade e actividades

de financiamento.

• Identificou metas ambientais para as

suas actividades, mas apenas 24%

estabeleceu metas líquidas de zero

emissões financiadas alinhadas com

os objectivos do Acordo de Paris.

A metodologia “Paris Agreement

Capital Transition Assessment”

(PACTA) também avança na Europa,

Austrália e América do Sul.

• Utiliza uma variedade de abordagens

para avaliar a sua exposição ao risco

de alterações climáticas. 70% dos

bancos estão a desenvolver análises

de cenários e recursos para testes

de stress, mas as lacunas

nos dados revelam-se um desafio

para a avaliação do risco das

alterações climáticas. Apenas 19%

dos bancos divulgam, através de

métricas de risco de crédito ou de

mercado, como se materializa o

risco climático.

• Implementa critérios para

relatórios sobre sustentabilidade,

principalmente focados em

objectivos climáticos. Cada vez mais

países admitem tornar os relatórios

TCFD (Task Force on Climate-

-Related Financial Disclosures)

obrigatórios e cerca de 92%

dos bancos já alinharam os seus

relatórios de sustentabilidade com

as recomendações da TCFD. No ano

passado eram 76%.

70%

DA INSURTECH

PROSPERITY GROUP

SÃO AGORA DA FIDELIDADE

A Fidelidade anunciou a aquisição de 70%

do capital da insurtech Prosperity Group.

A seguradora já tinha chegado a acordo com

os accionistas maioritários e com a equipa de

gestão no segundo semestre de 2021 e obtido

as autorizações regulatórias necessárias.

Concluiu o negócio em Fevereiro passado.

Em comunicado enviado à imprensa, a Fidelidade

afirma que esta transacção lhe assegura «o controlo

de gestão, bem como a manutenção da equipa de

gestão executiva, que reforça a sua posição accionista

para 30%».

Para Rogério Campos Henriques, CEO da Fidelidade,

«com a finalização desta transacção, a Fidelidade

reforça a sua oferta aos clientes e famílias que

procuram investir as suas poupanças a longo prazo.

O Prosperity é um grupo inovador com mais de 98%

dos seus clientes provenientes da Suíça e Alemanha,

dois dos mercados europeus com o mais alto nível de

sofisticação e maturidade nesta linha de negócio, cuja

aquisição permitirá que a Fidelidade possa melhorar

a sua oferta em seguros de poupança e disponibilizar

soluções mais flexíveis aos seus parceiros de negócio

na distribuição».

O Prosperity Group tem como principal actividade o

desenvolvimento de produtos de poupança de longo

prazo, assentes em soluções tecnológicas inovadoras,

actuando, para além da Suíça e Alemanha, onde tem a

maioria dos seus clientes, também na Áustria, Itália e

Liechtenstein. Com um total de 75 mil apólices e prémios

brutos em 2021 de 200 milhões de euros (ME),

tem um volume de prémios globais comprometidos

expectáveis de mais de 5,5 mil ME nos próximos anos.

10 RISCO MARÇO / MAIO 2022


MERCADOS

TAXAS DE JURO

ATÉ ONDE PODEM SUBIR?

Com a invasão russa à Ucrânia,

a tendência de aumento das taxas de juro

pode acentuar-se ou ficar novamente

adiada. A volatilidade domina

os mercados financeiros.

POR PAULO MENDONÇA

E

mbora possa parecer contraditório, a subida das taxas de juro

é um dos instrumentos de que os bancos centrais dispõem

para controlar a subida do custo de vida. A lógica é mais ou

menos simples: quando as taxas de juro sobem, os consumidores

têm uma maior tendência para poupar e uma menor inclinação para a contratação

de crédito, o que tem como consequência a redução da procura e, depois,

dos preços. É exactamente este o caminho que vários bancos centrais, incluindo o

Banco Central Europeu (BCE), podem tentar percorrer com o objectivo de contrariar

uma subida da inflação, que já atinge máximos de várias décadas e que está a

ter impacto no custo de vida para as famílias.

À data de fecho desta edição, o Banco de Inglaterra já atingiu o valor de 0,5%,

após duas subidas consecutivas das taxas de juro. Do lado da Reserva Federal Americana

(FED), existe a expectativa de que as taxas de juro possam vir a subir já neste

mês de Março.

12 RISCO MARÇO / MAIO 2022


MERCADOS

COM A SUBIDA

DAS TAXAS DE JURO

PRETENDE-SE

A INIBIÇÃO

DA INFLAÇÃO, MAS

EXISTEM OUTROS

EFEITOS

NA ECONOMIA

co na Zona Euro. Ainda para mais, sem que

a inflação deixasse de permanecer em níveis

mais elevados do que o desejado. Com a mudança

repentina das expectativas económicas

na Europa para este ano, estas considerações

fazem ainda mais sentido.

Até onde vamos?

No momento em que os bancos centrais

das principais economias estiverem numa

trajectória crescente das taxas de juro, uma

das questões que irão colocar-se é até quanto

estas taxas de referência poderão subir.

Aliás, a inacção do BCE nesta matéria, até à

data de fecho desta edição, não será alheia à

má memória do ano 2011, quando as taxas

de juro na Zona Euro subiram precisamente

com o objectivo de contrariar os efeitos da

subida dos preços da energia, tendo por resultado

uma crise económica.

Da mesma forma como está a acontecer

no Banco de Inglaterra, o normal será que

os bancos centrais façam uma subida incre-

Na Zona Euro, o Banco Central Europeu

(BCE) continua a manter as taxas de juro em

mínimos históricos (0% para refinanciamento

e - 0,5 para remuneração de depósitos não

obrigatórios), apesar de uma subida da inflação

que já ultrapassa os 5%. Em Fevereiro,

Christine Lagarde decidiu não mexer nas políticas

que já estavam a ser seguidas, adiando

para o mês de Março outras decisões, com o

objectivo de conter a inflação e que poderão

envolver mexidas nas taxas de juro. A hesitação

teve uma razão clara: a convicção de

que a subida da inflação teria um carácter

provisório e de que uma subida das taxas de

juro só teria efeito daqui a seis ou nove meses,

havendo inclusivamente um risco de travar o

crescimento económico. No entanto, a teoria

de que a inflação poderia ser um fenómeno

transitório tornou-se muito menos provável

com o eclodir do conflito na Ucrânia no final

de Fevereiro e as suas consequências para a

subida dos preços da energia.

De facto, com a subida do preço de matérias-primas

como o petróleo e o gás natural

a manter-se (e a agravar-se ainda mais do

que aquilo que se esperava), o BCE até pode

conseguir controlar a procura através do aumento

do custo do dinheiro e dos entraves ao

crédito, mas dificilmente conseguirá resolver

os problemas com a oferta global, principalmente

no meio de uma guerra que envolve

um grande fornecedor de gás natural como a

Rússia. Tendo em consideração que antes do

conflito na Ucrânia 50% do movimento da inflação

já se devia à subida dos preços no mercado

da energia, é fácil perceber que este é um

grande problema que o BCE não conseguirá

resolver unicamente através de um controlo

da procura. Para alguns economistas, de resto,

a subida das taxas de juro no contexto que

tínhamos antes da guerra na Ucrânia já era

a receita certa para uma desaceleração maior

do que a esperada do crescimento económimental

das taxas de juro, para evitar choques

abruptos nos mercados financeiros. A

manter-se a subida dos preços da energia,

as taxas de juro poderão acompanhar essa

tendência, com subidas ajustadas e ocasionais

descidas naqueles momentos em que

se justificar.

Todas as dúvidas estão no volume que

esta subida das taxas de juro poderá atingir.

Grande parte dos economistas concorda

que as taxas de juro irão acompanhar a

subida dos preços no mercado da energia, e

se esta trajectória já seria difícil de antecipar

antes do conflito na Ucrânia, agora tornou-

-se bastante imprevisível. Do mesmo modo,

há não muito tempo a previsão seria a de

que as taxas de juro pudessem subir até aos

3,5% no máximo, o que estaria abaixo dos

níveis experienciados nas últimas décadas.

Actualmente, também este valor máximo

expectável poderá ser posto em causa.

Com a subida das taxas de juro pretende-se

a inibição da inflação, mas existem

outros efeitos na economia que afectam

directamente as famílias. O efeito potencialmente

mais indesejado é o que atinge o

crédito, nomeadamente à habitação, devido

à indexação às taxas de referência que

faz com que, perante uma subida das taxas

de juro, aumente o valor da prestação a pagar

ao banco.

Do lado oposto, a subida das taxas de

juro terá efeitos positivos em diversos instrumentos

de poupança, como depósitos e

seguros. Se os valores negativos das taxas

de juro tornaram, até aqui, estes instrumentos

pouco apetecíveis para as famílias,

o movimento inverso terá a tendência

contrária, visto que a remuneração destes

instrumentos a prazo poderá aumentar de

acordo com as taxas de juro em vigor.

Aconteça o que acontecer, é certo que

a invasão russa da Ucrânia é um elemento

novo com o qual não se contou, nos dois

primeiros meses do ano, quando foram

feitas as projecções, seja para a subida das

taxas de juro, seja para o crescimento económico.

Num conflito com consequências

pesadas nos preços da energia, é provável

que todas as previsões do início do ano

sejam revistas tendo como cenário a persistência

da inflação e uma subida praticamente

inevitável das taxas de juro.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 13


MERCADOS

2022

REGRESSO

À VOLATILIDADE

14 RISCO MARÇO / MAIO 2022


MERCADOS

A invasão russa da Ucrânia trará a incerteza

aos mercados financeiros. Em caso de conflito

prolongado, deverá beneficiar activos como o ouro

e o iene japonês e prejudicar aqueles mais expostos

ao risco, como as acções e o euro.

POR ANTÓNIO SARMENTO

O

ano de 2022 será dos mais desafiantes nos mercados financeiros devido

a vários factores: o aumento da inflação e alterações das políticas

monetárias dos bancos centrais para controlá-la, aumentando as taxas

de juro; a evolução das tensões entre a Rússia e a Ucrânia e também

entre Taiwan e China; as eleições intercalares norte-americanas em Novembro; e

também a abertura progressiva das economias, sendo que a Covid-19 avança para

uma fase endémica. «Em suma, 2022 será um ano com uma maior volatilidade,

sendo que podemos assistir a uma maior procura pelos investidores em activos de

refúgio como o ouro, acções defensivas e também obrigações do tesouro», explica

Henrique Tomé, analista da XTB, à Risco.

Para o especialista, a escalada dos preços devido ao efeito da inflação faz com

que os bancos centrais optem por uma postura mais agressiva (hawkish), com vista

a travar a propagação do aumento generalizado dos preços e que se pode estender

para outras categorias. Por outro lado, os investidores também estão preocupados

com as subidas das taxas de juro durante os próximos meses, uma vez que estes

aumentos poderão provocar um abrandamento do crescimento económico e das

empresas. Entre os principais acontecimentos internacionais que deverão captar as

atenções dos investidores salienta as tensões a leste da Europa, as tensões no Mar

do Sul da China, entre a China e Taiwan; a

evolução do coronavírus e a eventualidade

PARA O ESPECIALISTA,

A ESCALADA DOS PREÇOS

DEVIDO AO EFEITO DA INFLAÇÃO

FAZ COM QUE OS BANCOS

CENTRAIS OPTEM

POR UMA POSTURA

MAIS AGRESSIVA

de surgirem novas variantes mais letais e/

ou transmissíveis; assim como as eleições

norte-americanas em Novembro. «Num

ambiente de taxas de juro mais elevadas, as

empresas do sector tecnológico acabam por

ser das mais prejudicadas. Espera-se que

continuem a crescer, mas a um ritmo mais

lento», acrescenta Henrique Tomé.

Numa altura em que os bancos centrais

se preparam para dar início a um novo ciclo

de subida das taxas de juro, o sector financeiro

deverá beneficiar com a subida das

taxas. Além disso, os sectores mais atingidos

durante a pandemia também poderão

beneficiar com a reabertura das economias

HENRIQUE

TOMÉ

ANALISTA DA XTB

RISCO MARÇO / MAIO 2022 15


MERCADOS

este ano, se as restrições continuarem a

diminuir. «Dadas as actuais incertezas nos

mercados, os activos de refúgio têm sido os

mais procurados pelos investidores. No entanto,

os investidores deverão retomar para

os activos de risco assim que o clima de instabilidade

desaparecer.»

Optimismo

David Brito, director-geral da Ebury

Portugal, tem uma visão optimista sobre a

economia global e os mercados para 2022. A

maioria dos principais países, ou já eliminou

quase todas as restrições relacionadas com a

Covid-19, ou está em vias de o fazer; por outro

lado, os países em desenvolvimento estão

a fazer progressos na vacinação das suas populações.

«Os confinamentos prolongados

e rigorosos, que caracterizaram o período

pandémico, são, em nossa opinião, coisa do

passado. Isto, combinado com as posições

ainda altamente acomodatícias de política

fiscal e monetária na maioria dos países, deverá

apoiar o crescimento e, por sua vez, os

activos de risco durante 2022», explica.

Além da geopolítica, o principal foco dos

investidores a curto e médio prazo serão as

respostas dos bancos centrais às crescentes

pressões inflacionistas. Na sua maioria, a

inflação excedeu, de longe, as expectativas,

tanto dos bancos centrais como dos economistas

nos últimos meses – uma tendência

que provavelmente se manterá ainda por

algum tempo. «As perturbações das cadeias

de abastecimento e logísticas continuam

DAVID BRITO

DIRECTOR-GERAL

DA EBURY PORTUGAL

A INVASÃO RUSSA

DA UCRÂNIA É AGORA

O PRINCIPAL FACTOR

A INFLUENCIAR

OS ACTIVOS E AS

MOEDAS A NÍVEL

MUNDIAL

presentes, a procura tem sido bem apoiada

pela reabertura das economias, e os preços

das matérias-primas continuam a subir, particularmente

após a invasão russa da Ucrânia.

Com tudo isto, falamos de um ambiente

altamente inflacionista, que exige uma política

monetária muito mais restritiva», afirma.

Para David Brito, a invasão russa da

Ucrânia é agora o principal factor a influenciar

os activos e as moedas a nível mundial.

CRIPTOMOEDAS E NFT

O crescente interesse por

criptomoedas e NFT veio para

ficar, na medida em que já

se verificou a adopção de

criptomoedas nos balanços

de algumas empresas como

a Tesla, para além do facto

de cada vez mais existirem

empresas que aceitam

criptomoedas como meio

de pagamento.

Recentemente, El Salvador

tornou-se o primeiro país do

mundo a adoptar a bitcoin

como moeda oficial.

«Num futuro próximo

poderemos vir a assistir a mais

países a adoptar, assim como

a aprovação de um ETF

de criptomoedas nos EUA.

O interesse pelos NFT

ainda está numa fase mais

A notícia desencadeou uma forte reacção

contra activos de risco, estando, neste momento,

os investidores a privilegiar os activos

de refúgio e a vender activos de maior risco,

como, por exemplo, o próprio rublo russo.

Para o especialista, a situação na Ucrânia

parece estar a deteriorar-se e, assim sendo, o

“sell-off” de activos de risco parece vir a ser

uma realidade persistente no curto prazo.

«À medida que a situação na Ucrânia

começar a ser resolvida, consideramos que

as moedas dos mercados emergentes serão

favorecidas pelos investidores. Na sequência

das suas políticas monetárias, estas moedas

oferecem rendimentos mais atraentes para

os investidores. Também temos uma avaliação

optimista do apetite pelos activos de

risco este ano. Pensamos que a reabertura total

das economias a nível mundial deverá ser

propícia a um forte crescimento global, o que

tende a ser um sinal para os mercados favorecerem

as moedas de maior risco, as moedas

dos mercados emergentes», sublinha.

Para este ano, o director-geral da Ebury

Portugal tem uma visão menos optimista

sobre os activos de menor risco. «Em termos

cambiais, no entanto, pensamos que

o dólar vai continuar a receber algum su-

embrionária do que as

criptomoedas, sendo que

é algo que está a despertar

o interesse do retalho

e instituições. Até a

ex-primeira dama da Casa

Branca, Melania Trump,

lançou recentemente uma

colecção de NFT», explica

Henrique Tomé, analista

da XTB.

16 RISCO MARÇO / MAIO 2022


MERCADOS

porte no curto prazo. Por um lado, o dólar

está a beneficiar do “sell-off” dos activos

de risco desencadeado pela invasão russa

da Ucrânia. Por outro lado, considera-se

como bastante provável que a FED aumente

as taxas de juro a um ritmo bastante

agressivo em 2022. Este seria um ciclo de

subida de taxas de juro mais agressivo do

que a maior parte das moedas G10, o que

pode, de facto, ter um efeito positivo para

o dólar americano», conclui David Brito.

Riscos

Ricardo Evangelista, director executivo

da ActivTrades Europe, considera que,

com a invasão russa da Ucrânia, o cenário

tenderá, em caso de conflito prolongado,

a beneficiar activos como o ouro e o iene

japonês e a prejudicar aqueles mais expos-

AS ACÇÕES

TECNOLÓGICAS QUE

DOMINARAM NO

PERÍODO PANDÉMICO

TENDERÃO

A PERDER

PREPONDERÂNCIA

COM O REGRESSO A

UMA VIDA NORMAL

tos ao risco, como as acções e o euro, por

exemplo. Outro sector que também parece

estar a beneficiar da incerteza é o da

energia, com mais ganhos esperados para

o petróleo, gás natural e carvão. «Neste

momento, as preocupações dividem-se

entre, por um lado, a inflação e potencial

impacto que poderá ter no crescimento

económico e postura dos bancos centrais;

por outro lado, temos o risco geoestratégico

que surge com a invasão da Ucrânia

pela Rússia», afirma o especialista à Risco.

Para Ricardo Evangelista, as acções tecnológicas

que dominaram no período pandémico

tenderão a perder preponderância.

Esta desvalorização já se iniciou com

o NASDAQ, índice com um peso muito

grande no sector tecnológico, a perder

quase 15% desde o princípio do ano.

Sobre os sectores que poderão captar

mais interesse em 2022, o especialista destaca:

a energia; a banca (caso se confirme a

mudança de postura dos bancos centrais e a

adopção de políticas monetárias mais restritivas);

o consumo discricionário; as viagens e

turismo. Do lado de activos de menor risco,

que poderão abrir o apetite dos investidores,

enumera: as obrigações soberanas

de rating elevado (treasuries,

bonds, gilts, etc.), o dólar e o ouro

(embora estes dois últimos tenham

uma relação invertida, sendo que quando um

sobe o outro baixa – tudo vai depender da

agressividade da FED a apertar políticas e da

evolução do conflito na Ucrânia).

RICARDO

EVANGELISTA

DIRECTOR EXECUTIVO

DA ACTIVTRADES EUROPE

COMO FOI

O ANO PASSADO

Em 2021, os mercados financeiros no

geral tiveram um bom desempenho,

tendo o S&P 500 registado uma

valorização de 28,71%; quanto ao índice

tecnológico NASDAQ, registou uma

valorização de 26,63%.

«Muito deste crescimento ficou a

dever-se à compra de activos por parte

da Reserva Federal norte-americana,

tendo injectado uma enorme liquidez na

economia americana desde Março de

2020, devido ao coronavírus», afirma

Henrique Tomé, analista da XTB. «Foi

ainda determinado pelas condições

resultantes da pandemia e do estímulo

sem precedentes oferecido por governos

e bancos centrais. O sector da tecnologia

manteve-se em alta, como aliás as

acções em geral e todos os activos de

maior exposição ao risco. Esta tendência

tornou-se menos pronunciada com

o aproximar do fim do ano, a ameaça

crescente da inflação e a mudança de

paradigma de vários bancos centrais, com

a energia a ver os seus preços começarem

a subir», acrescenta Ricardo Evangelista,

director executivo da ActivTrades Europe.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 17


MERCADOS

ALÉM DA PREVISÍVEL

IMPREVISIBILIDADE

Num mundo que já estava em mudança,

tudo mudou outra vez. Quais as consequências

e soluções para a vida prática?

POR SÉRGIO CARVALHO,

DIRECTOR DE MARKETING DA FIDELIDADE

P

reparávamo-nos para seguir. Depois de dois atípicos anos e embora

ainda com algumas incertezas, parecíamos prontos para retomar uma

nova normalidade desenhada com o que aprendemos nos últimos

tempos: valorização da saúde e da vida; percepção clara de que a imprevisibilidade

é uma palavra que teremos de interiorizar para, de alguma forma,

conseguirmos antever e fazer face a situações inesperadas no futuro. E eis quando,

a Leste da Europa, surge a prova clara de que o imprevisto talvez seja mesmo o

maior dos factores a condicionar os passos futuros da Humanidade, pese embora

a situação política a que assistimos agora na Europa fosse já, por alguns, temida,

relembrando também que os valores maiores, que pareceram aproximar governos

e sociedades durante os últimos tempos, são efémeros para uns e facilmente esquecidos

quando outros, incompreensivelmente, se sobrepõem.

À data esperamos que o conflito a Leste não alcance proporções ainda maiores,

passíveis de pôr fim a ainda mais vidas humanas indiscriminadamente, de levar à

destruição de tanto. Esperamos também que não coloque o mundo no limite de

uma crise económico-financeira de sérias repercussões. As consequências, muitas

delas, serão já inevitáveis e, por menores que venham a ser, terão seguramente

impacto, numa Europa onde se previam já desafios económicos, particularmente

pressões inflacionistas e uma subida das taxas de juro, com consequências na sustentabilidade

das empresas e na vida de muitas famílias.

Assim, num futuro que por ora parece incerto, há, contudo, alguns dados de

que dispomos, nomeadamente demográficos, e que nos impõem uma tomada de

consciência imediata e uma mudança na nossa actuação.

Com o índice de longevidade a alcançar

recordes numa sociedade ocidental

que não está preparada, a nível de gestão

de política social, para dar resposta a este

exponencial aumento de uma população

que será muito mais exigente, não apenas

nos recursos sociais que poderá consumir

após o final da vida activa profissional, mas

também em termos de saúde e cuidados,

cumpre a todos, mas muito a nós, seguradoras,

enquanto pilares de uma sociedade

sustentável, criar mecanismos para, por

um lado, informar e até “educar”, mas também

para desenvolver soluções simples que

apresentem respostas para uma sustentável

longevidade, quer em termos de qualidade

de uma vida que se prevê longa, mas também

em termos económicos e financeiros.

Pensar o futuro tem de ser um tema

presente e é necessário consciencializar as

pessoas para a importância de poupar e investir,

com soluções atractivas e simples de

utilizar. Não se trata apenas de apresentar

os tradicionais complementos de reforma

que durante anos constituíram um bom

reforço deste rendimento. Temos de evoluir

e conseguir pensar além disto. Criar

hábitos de poupança e aprender a gerir

o dinheiro de forma eficaz deve ser uma

preocupação de todos desde cedo.

Segundo o European Consumer Payment

Report de 2020, mais de seis em cada

dez (66%) consumidores portugueses afirmam

que melhorar a sua segurança financeira

se tornou uma das suas principais prioridades

desde o início da crise da Covid-19.

18 RISCO MARÇO / MAIO 2022


MERCADOS

Sérgio Carvalho,

director

de Marketing

da Fidelidade

PENSAR O FUTURO TEM

DE SER UM TEMA PRESENTE

E É NECESSÁRIO

CONSCIENCIALIZAR

AS PESSOAS

PARA A IMPORTÂNCIA

DE POUPAR E INVESTIR

RISCO MARÇO / MAIO 2022 19


MERCADOS

O desenvolvimento de produtos simples

e intuitivos para facilitar o acesso à

poupança está assim no topo das prioridades

da Fidelidade, enquanto

pilar estratégico de uma maior

sustentabilidade financeira futura

dos portugueses.

É verdade que com a rentabilidade

de instrumentos financeiros tradicionais

próxima de 0%, as poupanças dos portugueses

continuam muito assentes em depósitos

a prazo ou mesmo à ordem, mas o

bom desempenho de produtos associados

a fundos que oferecem aos clientes um

maior potencial de rentabilidade está a

abrir várias oportunidades.

Por outro lado, com a esperada pressão

inflacionista, a capacidade imediata

de constituir poupança terá tendência

a diminuir, sendo canalizada para fazer

face ao aumento dos preços, quer dos

bens, quer dos créditos, ainda que a subida

das taxas de juro possa, por outro

lado, tornar de novo mais interessante a

alocação dos recursos a produtos de poupança,

ditos tradicionais.

Neste contexto, sabemos a priori que

temos de despertar o interesse e consciencializar

as pessoas para a importância de

poupar e investir, com soluções atractivas,

tendo também presente que a aversão ao

risco, para a maioria, é um tema central.

Temos por isso de ser capazes de aproveitar

as oportunidades existentes para conseguir

rentabilizar os recursos dos nossos

clientes, mas com garantias.

Num contexto que nos impõe um papel

activo como agentes de sustentabilidade,

inerentemente social pelo desígnio próprio

da nossa actividade, mas também económica

e ambiental, o nosso papel torna-se,

neste contexto financeiro, ainda mais desafiante

e fulcral. Cabe-nos não apenas desenhar

soluções interessantes para os nossos

clientes em termos de rentabilidade futura,

mas também garantir que a aplicação do

seu dinheiro é feita em activos seguros,

credíveis e que tenham, na sua essência,

empresas idóneas e com uma responsabilidade

activa e séria em termos de sustentabilidade

futura. Empresas comprometidas

com o futuro da humanidade e do planeta.

É sobre estas que assentará a nossa escolha.

TEMOS DE SER CAPAZES

DE APROVEITAR

AS OPORTUNIDADES

EXISTENTES

PARA CONSEGUIR

RENTABILIZAR

OS RECURSOS

DOS NOSSOS

CLIENTES

Como exemplo, posso referir um plano

de poupança reforma que desenvolvemos

exclusivamente para venda no canal bancário

CGD. Mais de 50% do seu índice era

investido em acções de empresas integradas

em índices ESG, ou seja, empresas que

estão identificadas como respeitando as

práticas de boa governação.

A Fidelidade já está assim a trabalhar

neste sentido e 2022 será um ano decisivo

neste caminho que queremos percorrer e

que nos colocará certamente muitos desafios

pela frente: cuidar do todo e simultaneamente

de cada cliente. É esta a nossa missão.

Do ponto de vista do acesso a produtos

simples de poupança e investimento que

estimulem o interesse, mas que garantam

simultaneamente a confiança, o Fidelidade

Savings é um bom exemplo.

Trata-se de um seguro de vida individual

que integra soluções de poupança e investimento,

que permitem definir objectivos de

poupança e/ou realizar investimentos. Se o

cliente pretender pode definir um objectivo

de poupança e, simultaneamente, alocar dinheiro

para a componente de investimento.

É assim um produto com grande flexibilidade,

para responder às expectativas de vários

clientes, e que permite uma gestão 100% autónoma

e digital, através da App MySavings.

É simples poupar e investir

O cliente começa por escolher se o que

pretende é poupar ou investir. Se o que pretende

é poupar, deve definir o seu objectivo

de poupança, podendo optar por um já definido,

como férias, aquisição de um carro

ou suportar os estudos dos filhos. Ou pode

criar o seu objectivo personalizado.

Depois terá de indicar quanto quer

poupar, a periodicidade das suas entregas

e o prazo da sua poupança. Qualquer que

20 RISCO MARÇO / MAIO 2022


MERCADOS

seja o objectivo, o mesmo é sempre personalizável

pelo cliente.

De acordo com toda a informação colocada

pelo cliente, a app informa qual o prazo

estimado para atingir o objectivo.

A seguir, o cliente escolhe a opção mais

adequada ao que pretende:

Opção Seguro – Garante 100% do capital

investido;

Opção Protecção Acções – Com 90%

de capital garantido e rendimentos mais

conservadores;

Opção Dinâmico Acções – Sem capital

nem rendimento garantidos, mas com

oportunidade de obter rendimentos potencialmente

superiores.

O Fidelidade Savings disponibiliza assim

uma opção absolutamente segura que

garante 100% do capital investido, mas

coloca também ao dispor uma opção para

quem quer investir e obter maior rentabi-

2022 SERÁ UM ANO

DECISIVO NESTE CAMINHO

QUE QUEREMOS

PERCORRER E QUE

NOS COLOCARÁ

CERTAMENTE MUITOS

DESAFIOS PELA FRENTE

lidade, mas sem correr riscos. É esta capacidade

de dar resposta a vários perfis que

tem de estar presente, e, neste aspecto, o

Fidelidade Savings é inovador.

Se o que pretende é realizar investimentos

para potenciar a rendibilidade do seu

dinheiro, o Fidelidade Savings também tem

solução. O cliente começa por definir o valor

que pretende investir e de seguida pode também

definir entregas mensais, caso pretenda.

No caso dos investimentos, estão disponíveis

duas opções, cada uma com um

prazo predefinido:

Opção Protecção Acções – Com 90% de

capital garantido e com rendimentos mais

conservadores; 5 anos e 1 dia.

Como se percebe, até na componente

de investimento, o Fidelidade Savings tem

em consideração o perfil dos clientes que

de facto querem rentabilizar o seu dinheiro,

mas sem correrem riscos.

Opção Dinâmico Acções – Sem capital

nem rendimento garantidos, mas com

possibilidade de rendimentos potencialmente

superiores; 8 anos e 1 dia.

Finalizado o processo, o cliente vai poder

movimentar o seu investimento como e

quando quiser, sem penalizações. Tal como

acontece no caso de objectivos de poupança.

O Fidelidade Savings, através da App

MySavings, permite aos clientes uma gestão

totalmente autónoma da sua poupança

e investimento, de forma totalmente digital.

Mas é claro que temos sempre à disposição

dos clientes o aconselhamento da

rede comercial da Fidelidade, que está apta

a ajudar os clientes na utilização desta aplicação,

caso seja necessário.

Temos assim de seguir. Conseguir estar

além da previsível imprevisibilidade e preparar

o futuro. Porque independentemente

da conjuntura económico-financeira poder

ser agora determinada por novas pressões

inflacionistas e subida das taxas de juro, ou

não, os próximos anos irão exigir a todos

uma maior literacia financeira e capacitação

para garantir rendimento individual, sobretudo

na idade após a reforma, mas também

uma preocupação com a sustentabilidade

do todo. E a Fidelidade, enquanto empresa

humana, estratégica para o País, tem de conseguir

responder a estes desafios, em todas

as suas frentes. Para que a vida não pare.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 21


SEGUROS

O FUTURO

DO SECTOR SEGURADOR

Dois anos de pandemia e o eclodir de um conflito na Europa têm

como efeitos mudanças no comportamento dos consumidores de

seguros, que procuram agora mais proactivamente soluções que

representem mais-valias. Ana Almeida, Senior Manager da área

de Financial Services da Accenture Portugal, explica à Risco como

está a ser moldado o futuro do sector segurador.

O

que esperam hoje os clientes empresariais e particulares, das

companhias de seguros, em termos de oferta e experiência?

O comportamento dos clientes tem sofrido uma alteração considerável

nos últimos anos, que se reflecte na sua procura por seguros. Hoje os

clientes são muito mais exigentes, questionam o valor que lhes é entregue e esperam

que haja não só um conhecimento sobre o seu perfil, mas uma adequação

consequente da oferta às suas necessidades.

Os serviços de seguros sempre estiveram muito ligados à “obrigação” e não à “protecção”.

Aparecem ligados a um momento de compra de carro, aquisição de uma casa,

ou em cláusulas de serviços, e muitas vezes numa linguagem de obrigação. Em muitos

casos, a utilização de letras pequenas em contratos é interpretada como sinal de menor

transparência – uma imagem que tem comprometido a relação das seguradoras com

os seus clientes, embora se note um caminho de inversão desta ideia. Neste momento

os clientes querem ter na sua seguradora um conselheiro em quem podem confiar. Alguém

que ajude na prevenção do risco. Exigem mais transparência na relação e simplicidade

na linguagem. Além disso, os clientes estão muito preocupados em ter alguém

que os ajude a planear e alertar para todos os riscos associados à saúde, bem-estar e

contributo para a sustentabilidade, e estão dispostos a contribuir para isso.

Quais os factores que levaram a estas alterações do comportamento

do consumidor de seguros?

Existem alguns factores que ajudam a explicar estas mudanças. Desde logo, o

contexto de evolução tecnológica e maior acesso a informação e novas experiências

levam a uma alteração comportamental natural, que se faz acompanhar pela percepção

de maiores riscos associados ao clima ou à cibersegurança. Todo o contexto

de pandemia e agora de guerra aumenta também a valorização de protecção dos

hábitos, interesses e experiências, e não apenas dos activos. A visão geracional neste

contexto é bastante relevante. Num estudo da Accenture realizado em 2021, 70% dos

clientes (na sua maioria millennials) dizem estar dispostos a partilhar mais dados de

Ana Almeida,

Senior Manager

da área de Financial

Services da

Accenture Portugal

22 RISCO MARÇO / MAIO 2022


SEGUROS

saúde, do seu estilo de vida e comportamentos,

se isso for reflectido num modelo de

relação e valor diferente com a seguradora.

Adicionalmente, o contexto demográfico

também tem tido um efeito muito relevante

na alteração dos comportamentos,

e vai continuar a ter. Em 2050 é previsível

que, na Europa, uma em cada quatro pessoas

terá mais de 65 anos e haverá três vezes

mais pessoas com mais de 80 anos. As

preocupações e procura por seguros ligados

a um “pay as you live” tornam-se muito

relevantes. O consumidor não quer pagar

seguros de saúde durante uma vida inteira

e chegar ao momento de os utilizar e sem

que tal seja possível.

O fundamental é perceber que se está

à procura de modelos mais personalizados,

até porque cada um de nós avalia o risco de

uma forma diferente.

De que forma o sector dos seguros

está a modernizar-se face a estas

novas exigências?

Nos últimos dois anos, o sector segurador

demonstrou ser bastante resiliente a

todo o contexto de pandemia e conseguiu

manter os seus planos e projectos de transformação

e adaptação a estas exigências.

Considerando o mercado em Portugal,

já são visíveis várias soluções e respostas,

como novos seguros para os animais domésticos,

os serviços de estímulo à prática de

comportamentos de realização de exercício

físico, os ecossistemas de acesso a serviços

de outros parceiros que tragam uma visão de

prevenção, que vá além do seguro, etc. Todas

estas alterações implicam desenvolver,

nas operativas das seguradoras, novos modelos

de negócio, desenvolvimento de novas

competências, aplicação de tecnologias que

simplifiquem a interacção com o cliente, etc.

OS CLIENTES QUEREM

TER NA SUA SEGURADORA

UM CONSELHEIRO EM

QUEM PODEM CONFIAR

RISCO MARÇO / MAIO 2022 23


SEGUROS

Qual o papel da inovação tecnológica

nesta transformação do sector?

A inovação e as novas tecnologias têm e

vão continuar a ter um papel muito relevante

em todo este processo. Permitir que haja

uma peritagem através de vídeo em caso de

um acidente automóvel, ter um chatbot que

valide de forma confidencial informação

médica para aprovar uma cirurgia, utilizar

sensores em casa para prevenir um incêndio,

além de tudo o que pode ser possível

através da correcta utilização dos dados

(eg., perfil de condução), para garantir uma

maior personalização do serviço, são exemplos

da utilização mais visível da tecnologia.

Além disso, se pensarmos no modelo

de venda de seguros, muito baseado numa

rede de agentes, a tecnologia pode ajudar

a atenuar o desafio de garantir a qualidade

e simplicidade do serviço prestado, através

da uniformização da experiência e da celeridade

de respostas assertivas.

Como podem ser aproveitadas novas

tecnologias já existentes como o 5G ou

emergentes como o metaverso?

O 5G é, sem dúvida, uma tecnologia

fundamental para gerar credibilidade de vários

novos serviços que estão a ser lançados,

nomeadamente nos exemplos da assistência

médica remota. Neste mesmo contexto,

mencionaria a tecnologia blockchain na

medida em que pode garantir entre os vários

intervenientes a simplificação dos processos

de validação e aprovação de actos médicos.

O metaverso pode vir a potenciar um ecossistema

maior da relação com o cliente, mas

terá de se esperar para validar se traz efectivamente

uma melhor experiência de serviços

e e-Commerce que o Second Life, sem

ficar focado na vertente de gaming.

Quais os vectores em que estas

mudanças já são visíveis para os

clientes empresariais e particulares?

Em Portugal, além dos serviços que

mencionei anteriormente, ainda há espaço

para evolução. Pensar o seguro automóvel

com tudo o que está ligado à manutenção

do carro, ao comportamento de condução,

à utilização de infra-estruturas, ou um seguro

de vida visto da perspectiva do meu

plano de reforma, são passos adicionais

para ganhar a confiança e proximidade ao

cliente. O modelo de preço dos seguros

deve ser diferente, mais focado em incentivar

e premiar a pessoa, sempre que haja

comportamentos que reduzam o nível de

risco. A nossa relação com as seguradoras

está ainda muito ligada a momentos emotivos

e difíceis, ou seja, um acidente, um

problema de saúde, e é preciso alterar esta

forma de pensar os seguros.

Por exemplo, no tecido empresarial

português, maioritariamente de PME, as

seguradoras podem posicionar-se na ajuda

à minimização das incertezas relacionadas

com um novo mundo virtual que as expõe

a todos os riscos de cibersegurança que são

desconhecidos por parte destes clientes.

De que forma estas renovações estão a

dar lugar a novos modelos de negócio

no sector segurador?

Esses modelos estão a ser pensados e alguns

já estão em funcionamento. Actualmente

já existem alguns modelos de subscrição

associados à utilização de serviços que visam

prevenir riscos. Mas há outros modelos que

podem ser explorados: a subscrição de serviços

de prevenção e alerta, a redução dos valores

a pagar por demonstração de eliminação

de risco, são alguns exemplos. Segundo um

estudo da Accenture, prevê-se que até 2025

o sector segurador tenha um crescimento

próximo de 3,5% nas receitas. No entanto,

aqueles que não ajustarem os seus modelos de

negócio serão penalizados na rentabilidade da

sua operação. Na definição destes novos modelos,

para além da vertente de preço, é ainda

importante que as seguradoras clarifiquem o

ACTUALMENTE JÁ EXISTEM

ALGUNS MODELOS DE

SUBSCRIÇÃO ASSOCIADOS

À UTILIZAÇÃO DE

SERVIÇOS QUE VISAM

PREVENIR RISCOS

papel que querem ter na gestão mais ou menos

directa da relação com o cliente, face a outras

indústrias que actualmente já “entram em

casa” dos consumidores, como é o caso dos

operadores de telecomunicações.

Uma das exigências dos consumidores

actuais é o compromisso com a

sustentabilidade. O que está o sector a

fazer para dar resposta a este desafio?

A sustentabilidade, neste momento, não

é apenas uma exigência dos consumidores,

mas sim de toda a comunidade. Consumidores,

reguladores, parceiros, investidores,

colaboradores, todos exigem esta alteração.

No estudo da Accenture aos consumidores

fica claro que mais de 2/3 dos jovens (entre

os 18 e 34 anos) querem ter experiências

digitais que promovam práticas de comércio

e viagens mais sustentáveis. Com esta

base de interesse as seguradoras têm uma

oportunidade única de criarem uma maior

aposta na sustentabilidade e responderem

às expectativas dos seus clientes em terem

24 RISCO MARÇO / MAIO 2022


SEGUROS

O sector segurador tem um papel

fundamental em financiar uma mudança

para uma economia com menores níveis

de consumo carbónico, em identificar e

medir riscos ESG, sendo importante trabalhar

com todos os stakeholders para

promover estas acções. A título de exemplo,

as seguradoras podem recusar-se a

renovar coberturas para negócios com

alto risco ESG. Aproximadamente 15% do

crescimento previsto para as seguradoras

está associado a novos produtos e serviços,

onde se incluem todos os que estejam

relacionados com a sustentabilidade.

uma seguradora mais ética e sustentável.

Neste momento, o sector já está a preparar-se

para esta realidade e podemos perceber

esta mudança pelos compromissos

que têm sido assumidos publicamente com

o apoio a iniciativas ligadas à mobilidade,

responsabilidade social e saúde e bem-estar

da população. Mas o papel das seguradoras

vai além e internamente nota-se um

caminho de revisão das suas práticas no

sentido de serem um influenciador destes

comportamentos, tanto nos seus parceiros

como colaboradores. É uma transformação

progressiva, na medida em que a sustentabilidade

pode ser vista como o “novo digital”

e necessita de ser “embebida” em todos

os processos e até nas tecnologias utilizadas

e é nesse sentido que a Accenture está

a apoiar os seus clientes. O compromisso

com uma atitude mais focada no “green IT”

e maior utilização de cloud nas empresas é

outra acção interna menos visível, mas que

tem um grande impacto no contributo para

os compromissos ESG.

Qual o impacto previsível, deste maior

foco na sustentabilidade, para os

negócios no sector segurador?

Esta questão é bastante relevante. Ainda

há uma visão global nas empresas que

associa a resposta aos desafios ESG a uma

factura elevada. Nessa medida, tem-se

caminhado com alguma cautela e sempre

focando na vertente de revisão de oferta

ou iniciativas mais pontuais de exposição

pública. A verdade é que se houver uma

visão clara e bem programada da resposta

ao contexto da sustentabilidade, ou seja,

foco em iniciativas com impacto, mensuráveis,

e evolutivas, é possível captar valor.

No ano passado a Accenture fez uma

análise com o World Economic Forum a

mais de 4000 empresas sobre o seu ADN

de sustentabilidade, e as que tinham um

índice de sustentabilidade maior (+9,2

pontos no seu índice) estavam a captar

um impacto financeiro superior, ou seja, a

margem EBITDA destas empresas era 21%

superior às demais (+3,4 pp).

Estamos perante um ano de grande

volatilidade, com uma guerra a decorrer

na Europa, cujas consequências ainda

não percebemos. Qual o impacto desta

nova crise no sector?

Diria que é mais um ano de volatilidade,

a juntar aos dois anteriores no contexto

de pandemia, e ainda a toda uma

realidade diferente, onde os riscos de

catástrofes naturais e de cibersegurança

são diferentes e maiores. Independentemente

da causa, e o tema da guerra ainda

é recente e indefinido. O que se previa

inicialmente ser uma intervenção com a

duração de uma semana, tem agora menos

clarividência. O importante é perceber

que estamos a ter uma alteração na

forma de viver e actuar economicamente.

As empresas têm sempre um papel a

desempenhar, na medida em que podem

influenciar atitudes e comportamentos.

A indústria seguradora tem respondido a

estes factores externos, tem-se adaptado

e, como referi anteriormente, demonstrou

ser bastante resiliente – algo que se

consegue com flexibilidade, identificação

clara das tendências, previsões, e capacidades

necessárias para responder às mesmas.

É possível que algumas medidas de

controlo económico se mantenham mais

algum tempo, aguardando também maior

visibilidade sobre o caminho e evolução

deste novo contexto. Adivinhar o futuro é

uma tarefa difícil, mas trabalhar com cenários

de previsão, actuar proactivamente

na prevenção, e ter alternativas claras de

actuação, minimizam o impacto dos factores

externos não controlados.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 25


SEGUROS

OS SEGUROS DE CRÉDITO

NO SUPORTE À ACTIVIDADE

EMPRESARIAL

Dificilmente uma conjuntura seria tão

apropriada, como a actual, para demonstrar

os méritos dos seguros de crédito.

POR MIGUEL GUIMARÃES,

DIRECTOR-GERAL ADJUNTO DA APS

O

risco é o terreno da actividade seguradora; e o risco de negócio, a parcela

dos seguros de crédito. Embora possam ter origem em problemas

microeconómicos que afectam especificamente algumas empresas ou

sectores de actividade, os riscos de negócio são particularmente sensíveis

a fenómenos sistémicos que abalam os mercados, e que tão presentes têm

estado no nosso dia-a-dia.

Olhando apenas para os últimos três anos, já assistimos: a um confronto comercial

entre dois grandes blocos mundiais, os EUA e a China; a uma pandemia de proporções

históricas que, além das consequências humanas, fragilizou grave ou fatalmente inúmeros

pequenos negócios e sectores económicos por inteiro; a constrangimentos logísticos

em circuitos de distribuição globais, problemas de escassez de matérias-primas

e agravamento dos custos energéticos, que

têm condicionado a produção em diversos

sectores económicos e gerado tendências inflacionistas

e pressões sobre as taxas de juro;

e, mais recentemente, a uma inimaginável

guerra no coração da Europa, com a invasão

da Rússia à Ucrânia, de consequências ainda

imprevisíveis, mas certamente muito nefastas

para a economia europeia e mundial.

Ou seja, uma sucessão de fenómenos

com impactos à escala global, que carregam

uma enorme incerteza sobre a evolução

macroeconómica nas mais diversas

geografias, o mesmo é dizer uma enorme

incerteza para a actividade das empresas no

desenvolvimento do seu negócio, seja no

plano interno, seja no plano externo.

Acresce que conjunturas de contracção

da actividade económica, como a que caracterizou

o período pandémico, tendem

ainda a projectar as empresas para negó-

26 RISCO MARÇO / MAIO 2022


SEGUROS

no pagamento de bens ou serviços, e assegurando

uma estabilidade financeira tão crítica

para o desenvolvimento da actividade.

Depois, porque acrescentam uma informação

especializada sobre os mercados

e os clientes, a partir de bases de dados que

registam e actualizam milhões de transacções

à escala global, que não só facilitam

a avaliação e escolha dos clientes no que

respeita à sua capacidade creditícia, como

providenciam uma monitorização constante

dos respectivos níveis de cumprimento

e de riscos a que estão expostos.

Por fim, porque envolvem ainda serviços

de apoio complementares, nomeadamente

para o desenvolvimento de projectos de exportação,

desde a avaliação de oportunidades

de negócio, análises de enquadramentos

regulatórios, recomendações de estratégias

comerciais, aconselhamento sobre cláusulas

contratuais, alertas sobre práticas fraudulentas

e, numa fase mais adiantada, suporte

na recuperação de créditos em mora.

Os seguros de crédito permitem, portanto,

que os empresários se concentrem

verdadeiramente no seu negócio, na resposta

competitiva às necessidades dos mercados de

destino, protegendo-os de riscos de perdas

por incumprimento dos clientes, que podem

afectar gravemente a tesouraria e a capacidade

financeira das suas empresas, e aliviando-

-os de análises e preocupações de uma complexidade

pouco conciliável com abordagens

individuais e isoladas. Conferem, assim, uma

grande estabilidade e tranquilidade aos emcios

ou mercados de maior risco, numa

busca mais ou menos desesperada, e nem

sempre devidamente ponderada, de recuperação

da sua tesouraria, ou mesmo de

sobrevivência económica.

Por outro lado, o contexto pandémico,

pelo menos nas economias mais desenvolvidas,

promoveu um conjunto de apoios estatais

às empresas de sectores económicos

mais afectados, protegendo-as de insolvências,

mas apoios esses que estão agora em

fase de recuo, o que acabará por expor novamente

as debilidades financeiras de parte

do tecido empresarial.

Sobretudo em relação aos mercados de

exportação, há ainda a somar a este cenário

um conjunto de riscos próprios parcamente

percepcionados ou controlados pelos

empresários dos países de origem, por

exemplo de natureza política, regulatória,

cambial ou até climática. A propósito, as

questões ambientais são também factor de

incerteza, não apenas por incrementarem

a probabilidade de desastres naturais, mas

também por imporem frequentes ajustamentos

regulatórios e alterações nas escolhas

e critérios dos consumidores.

E esta é a complexa realidade que os

empresários, incluindo os portugueses, têm

de enfrentar: por um lado, a recuperação da

sua actividade deve passar pelo alargamento

dos mercados, nomeadamente o reforço das

exportações, que é aliás natural no processo

de globalização que, em condições normais,

tenderá a caracterizar o comércio mundial;

mas, por outro, são inúmeros os factores de

incerteza que podem condicionar o sucesso

desta estratégia, sejam de ordem global, sejam

localizados, mas em qualquer caso de

muito difícil percepção.

Independentemente da sua dimensão

e do sector económico em que intervêm, o

percurso das empresas por este terreno de incertezas

não deve ser feito sozinho. Pelo contrário,

deve ser suportado exactamente nos

seguros de crédito, um instrumento fundamental

para os empresários poderem expandir

a sua actividade económica sem ameaças

graves sobre os respectivos balanços.

Desde logo, porque mitigam os riscos

de crédito da carteira de clientes, maioritariamente

transferidos para as seguradoras,

protegendo assim a tesouraria das empresas

em caso de incumprimento dos seus clientes

OS RISCOS DE NEGÓCIO

SÃO PARTICULARMENTE

SENSÍVEIS A FENÓMENOS

SISTÉMICOS QUE ABALAM

OS MERCADOS, E QUE TÃO

PRESENTES TÊM ESTADO

NO NOSSO DIA-A-DIA

RISCO MARÇO / MAIO 2022 27


SEGUROS

presários, mas acrescentam também factores

de competitividade, ao aportar uma preciosa

informação e suporte de consultoria especializada

sobre os mercados alvo.

As amplas funções dos seguros

de crédito

Na sua função central, os seguros de

crédito protegem as empresas do risco de

não lhe serem pagos bens ou serviços que

forneçam a crédito. Ou seja, em caso de

incumprimento do dever de um cliente em

relação a uma venda que se acordou ser

paga a prazo, este seguro suporta a correspondente

perda da empresa tomadora

do seguro em função da percentagem das

vendas que estiver garantida.

Mas complementa esta função central

um conjunto de serviços bem mais amplo,

que envolve informação detalhada sobre

a qualidade creditícia da carteira de clientes

(efectiva e potencial), a monitorização

constante do risco, o aconselhamento legal

e comercial e o apoio na recuperação de

créditos em mora.

Os seguros de crédito e os seguros

de caução

Os seguros de crédito e os seguros de

caução têm funções próximas, mas perspectivas

opostas. Enquanto no seguro de crédito

o que se cobre é o risco de incumprimento

do cliente da empresa tomadora do seguro,

no seguro de caução é o risco de incumprimento

desta última que é garantido. Ou seja,

os seguros de caução são instrumentos para

assegurar o cumprimento de obrigações contratuais

assumidas pela própria empresa tomadora

do seguro em relação ao beneficiário

da caução, que assume aqui a condição de

segurado. Normalmente, estes seguros resultam

de exigências contratuais, sobretudo em

grandes empreitadas e fornecimentos.

Os seguros de crédito e a cobertura

de guerras

Os seguros de crédito podem cobrir

riscos de natureza política (na cobertura de

risco país), incluindo sinistros gerados por

situações de guerra.

OS SEGUROS

DE CRÉDITO PERMITEM

QUE OS EMPRESÁRIOS

SE CONCENTREM

VERDADEIRAMENTE

NO SEU NEGÓCIO

Nas coberturas de natureza puramente

comercial, contudo, os riscos políticos não

estão abrangidos e a guerra está, por isso,

excluída. Ou seja, se a causa do incumprimento

for, directa ou indirectamente, a

própria guerra, estaremos perante uma exclusão

de cobertura.

Assim como estão excluídas, por regra,

operações que infrinjam sanções económicas

e comerciais impostas por organizações

internacionais a países ou entidades responsáveis

pelos conflitos.

Os seguros de crédito como

instrumento de política pública

Em Portugal, como em muitos outros

países do mundo, o Estado recorre aos seguros

de crédito como instrumento de política

pública, em concreto na promoção de

exportações para países com níveis de risco

comercialmente menos atractivos para as

seguradoras. O sistema de Seguros de Créditos

com Garantia do Estado (SCGE) vem

colmatar esta falha de mercado, promovendo

a aquisição destes seguros em exportações

para países como os PALOP e os do

Norte de África e da América do Sul, desde

que os produtos tenham um valor significativo

de incorporação nacional.

E nas soluções com garantia do Estado,

a cobertura pode incluir riscos de natureza

política, monetária e catastróficos.

28 RISCO MARÇO / MAIO 2022


SEGUROS

ASSISTIMOS A UMA

SUCESSÃO DE FENÓMENOS

COM IMPACTOS

À ESCALA GLOBAL,

QUE CARREGAM UMA

ENORME INCERTEZA

SOBRE A EVOLUÇÃO

MACROECONÓMICA

NAS MAIS DIVERSAS

GEOGRAFIAS

OS SEGUROS

DE CRÉDITO

EM PORTUGAL

Apesar da referida relevância dos seguros de

crédito para a actividade empresarial, e não

obstante serem um instrumento com projecção

crescente, há ainda muitos empresários

em Portugal que não os contratam ou não

aproveitam devidamente as suas potencialidades,

gerando um significativo protection gap também

neste domínio.

3450 tomadores de seguros, embora seja bem

mais amplo o universo empresarial que, de facto,

beneficia destes seguros, ou seja, os clientes das

empresas tomadoras dos seguros.

38 mil milhões de euros de vendas anuais seguras,

o equivalente a quase 20% do PIB nacional.

20% das exportações nacionais, total ou parcialmente,

protegidas pelas seguradoras de crédito.

Em todo o caso, de acordo com os dados à

disposição da APS referentes a 2020, quase 3500

empresas portuguesas recorrem actualmente aos

seguros de crédito como instrumento de gestão

do seu risco de negócio, mitigando por esta via a

eventualidade de incumprimento da contraparte

no pagamento dos bens ou serviços por elas fornecidos

e obtendo de seguradoras especializadas

informações preciosas sobre a qualidade creditícia

dos seus clientes e, mais genericamente,

dos mercados de destino das suas vendas.

N.º EMPRESAS

TOMADORAS

DE SEGUROS

2019.12 2020.12 Var.%

3 472 3 450 -0,6%

Note-se, porém, que é bem mais amplo o universo

empresarial que, de facto, beneficia destes seguros,

correspondendo basicamente ao conjunto das

entidades clientes destas 3500 empresas tomadoras

de seguro, conjunto esse que ascenderá já a

algumas centenas de milhares de empresas.

E note-se igualmente que estes seguros não são

dirigidos apenas às empresas de maior dimensão

ou de determinados sectores económicos, havendo,

por exemplo, soluções adaptadas ao perfil das

PME, tipicamente mais simples e standardizadas.

Em volume, as vendas anuais previstas no âmbito

de seguros de crédito rondariam os 38 mil milhões

de euros em 2020, o equivalente a quase 20% do

PIB português do ano. Deste total, cerca de 14 mil

milhões de euros correspondiam a vendas para o

mercado externo. Significa isto que também quase

20% das exportações se encontram, pelo menos

parcialmente, protegidas pelas seguradoras, o que

revela bem a importância deste instrumento no

fomento da economia.

Ao mesmo tempo, as garantias em vigor nestes

contratos de seguro ascendiam a cerca de 21 mil

milhões de euros, dos quais 9,5 mil milhões de

euros eram garantias sobre o mercado externo e

11,6 mil milhões sobre o mercado interno.

Seguros de crédito às empresas são hoje comercializados

por quatro seguradoras com estabelecimento

em Portugal e geraram em 2020 uma receita

de prémios (o preço dos seguros) da ordem dos 68

milhões de euros e em 2021 de 63 milhões de euros.

É um volume que vinha aumentando sistematicamente

nos últimos anos, acompanhando o dinamismo

demonstrado pela economia portuguesa,

mas que recuou em 2021, obviamente por efeito da

contracção macroeconómica e, provavelmente, do

adensar das dificuldades da economia e do agravamento

do risco de crédito médio dos clientes. Isto

apesar do reforço dos apoios públicos às empresas

para contratação deste seguro, uma vez que, no

contexto conturbado dos últimos anos, as seguradoras

tiveram que conter a sua própria exposição

ao risco, reduzindo as garantias concedidas.

VENDAS E GARANTIAS

2019.12 2020.12 Var.%

VENDAS ANUAIS PREVISTAS 38 249 399 37 998 740 -0,7%

MERCADO INTERNO 24 246 334 23 903 309 -1,4%

MERCADO EXTERNO 14 003 066 14 095 431 0,7%

GARANTIAS EM VIGOR NO FINAL DO PERÍODO 24 053 065 21 118 528 -12,2%

MERCADO INTERNO 13 381 689 11 572 480 -13,5%

MERCADO EXTERNO 10 671 376 9 546 048 -10,5%

U: MILHARES DE EUROS

RISCO MARÇO / MAIO 2022 29


ECONOMIA

OS GRANDES

DESAFIOS

PARA A ECONOMIA

GLOBAL

2022

Entrámos num ano que desde o início se adivinha

incerto, devido ao crescimento da inflação

e ao impacto pesado que a pandemia ainda

tem sobre a economia.

A

s economias globais dos últimos dois anos ficaram marcadas por uma

série de fenómenos excepcionais, como estímulos governamentais a

todos os sectores e às famílias, e intervenções dos bancos centrais. As

campanhas de vacinação em 2021 também ajudaram a recuperar da

forte crise de 2020, causada pelos confinamentos e por muitos layoffs motivados

pela pandemia.

Chegados a 2022, a economia global assiste a um conjunto de movimentações

sem precedentes, onde se destaca um crescimento económico e do emprego aliado

a um disparar da inflação, bem como um aumento das dívidas dos Estados e uma

pandemia que ainda não terminou. Neste cenário, e depois de um crescimento do

PIB global em cerca de 5,5% em 2021, as projecções para este ano apontam para

um valor mais moderado, na ordem dos 3,9%. A maioria dos analistas está também

a avançar com a previsão de que o ritmo do crescimento económico global

abrande ligeiramente para regressar aos níveis pré-pandémicos, em 2023 ou 2024.

Apesar destas previsões, com a inflação a subir, alguns analistas têm vindo

a questionar até que ponto é possível que o crescimento global real se torne

negativo em algum dos trimestres de 2022, apoiados no facto de no terceiro

trimestre de 2021 esse crescimento não ter passado dos 0,6%. Na prática, isto

significaria que, em algum ponto do tempo, o crescimento real em 2022 pode-

ria atingir um valor negativo, mesmo que

o crescimento nominal mantivesse a sua

trajectória positiva.

Este tipo de cenário, possível em teoria,

é apontado porque continua a haver muita

incerteza no que diz respeito à robustez

e ao ritmo do crescimento económico em

2022. Estas são algumas das preocupações

económicas que persistem e que potencialmente

podem interferir no crescimento

económico global deste ano.

Incertezas quanto às políticas

da Reserva Federal (FED) americana

Os EUA são determinantes no que diz respeito

ao crescimento económico global e

muitos analistas identificam como o maior

risco do ano a incerteza quanto às políticas

que a FED irá implementar para gerir

30 RISCO MARÇO / MAIO 2022


ECONOMIA

UM DOS ASPECTOS QUE

CONTINUAM A SER CRUCIAIS

PARA A EVOLUÇÃO

DA ECONOMIA É A

RELAÇÃO ENTRE OS EUA

E A CHINA

o aumento da inflação. Continua a existir

a dúvida sobre se esta inflação é um fenómeno

temporário, a mitigar ao longo deste

ano (como a FED previu), ou se estamos

perante um período de tempo sustentado

de escalada dos preços. Neste momento a

inflação é impulsionada por factores complexos

que vão além das cadeias de fornecimento

e do aumento do consumo, e que

estão relacionados com o fornecimento de

dinheiro nos EUA.

Embora as causas e consequências da

corrente inflação possam ser alvo de debate,

os analistas americanos têm poucas

dúvidas de que a solução está na FED, visto

que a única política que o governo americano

pode adoptar para tentar conter o

aumento da inflação é aumentar impostos.

Em última análise, uma das soluções poderá

ser a FED reverter o seu programa de

compra de obrigações, fazendo aumentar

as taxas de juro e, possivelmente, protelar

o crescimento económico.

A pandemia de Covid-19 (mais uma vez)

Incontornável em todos os debates económicos,

a pandemia é a causa de grande parte

do que está a acontecer e nunca é demais

lembrar que ainda não chegou ao fim. As

economias globais ainda são alvo das ondas

de choque do surgimento da Covid-19

e assim deverão permanecer ao longo do

ano. Com uma proporção elevada de pessoas

não vacinadas no planeta e o crescimento

de novas variantes, o número constantemente

elevado de casos da doença vai

criando novas ondas de choque económico

que, segundo as previsões dos analistas, estarão

presentes mesmo depois de 2022.

A Covid-19 é uma preocupação nos

países em desenvolvimento – principalmente

devido à falta de vacinas. A sua

disponibilização, por parte das maiores

economias do mundo, poderia ter efeitos

positivos na economia, dificultando o aparecimento

de novas variantes que, sempre

que surgem, provocam disrupções na produção,

gerando inflação.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 31


ECONOMIA

Instabilidade no emprego

O crescimento do emprego continua em

trajectória positiva, com o último relatório

da Secretaria de Estado do Trabalho dos

EUA em 2021 a dar conta da existência de

10 milhões de vagas de emprego para apenas

7,4 milhões de desempregados. Mas o

emprego está longe de ser uma área estável

nos EUA: desde o início da pandemia,

cinco milhões de pessoas abandonaram o

mercado de emprego e, só no mês de Setembro

de 2021, um recorde de 4,4 milhões

deixaram voluntariamente os seus postos

de trabalho.

Caso se mantenham estes desequilíbrios,

é de prever que a produtividade seja

seriamente afectada e tenha efeitos, com o

passar do tempo, no crescimento económico.

Há muitos trabalhadores que têm

demonstrado hesitação em regressar ao

trabalho durante a pandemia e, se juntarmos

a isto uma população envelhecida, o

resultado será um aumento expressivo de

pessoas na reforma. Por outro lado, aqueles

que mudam de emprego conseguem,

muitas vezes, obter salários mais altos, o

que tem como resultado a maior onda de

aumentos de remunerações num período

de mais de duas décadas. Estes aumentos

fazem crescer os custos das empresas, que

por sua vez aumentam os preços dos produtos

que vendem, contribuindo para a subida

da inflação – por si só, uma preocupação

económica.

DESDE O INÍCIO DA PANDEMIA,

CINCO MILHÕES DE PESSOAS

ABANDONARAM

O MERCADO

DE EMPREGO NOS EUA

do se trata de cadeias de fornecimento, o

problema alastra-se a mais do que um determinado

país ou região. As empresas têm

sempre de considerar a proporção que vão

ter de fornecimentos internacionais versus

domésticos, de forma a mitigar futuros

problemas de produção e de fornecimento

de bens. A escalada deste problema tornou

claro, nos últimos dois anos, que as cadeias

de fornecimento podem ter efeitos negativos

na economia porque, se houver menos

produção e os bens se tornarem mais escassos,

os preços vão subir. E, de novo, isto

traduz-se em inflação.

Relações entre EUA e China

Um dos aspectos que continuam a ser cruciais

para a evolução da economia é a re-

Cadeias de fornecimento

Tendo em conta as ameaças recorrentes

da pandemia, os problemas nas cadeias de

fornecimento poderão não ficar resolvidos

em 2022, o que se reflecte negativamente

tanto nas empresas, como nos consumidores.

Além das dificuldades à superfície,

há problemas mais profundos nas cadeias

de fornecimento que têm de ser endereçados

pelas empresas em todos os sectores:

como aceder a matérias-primas e produzir,

e como distribuir pelo resto do mundo,

Estes problemas surgiram logo no início

da pandemia, quando a produção em

Wuhan, na China, foi interrompida. Como

resultado, algumas empresas mudaram de

fornecedores regionais, por exemplo, da

China para o Vietname. No entanto, quanlação

entre os EUA e a China. Apesar da

esperança de alguma acalmia depois do fim

da administração Trump, a verdade é que

as tensões se mantêm, agora com a situação

em Taiwan a poder causar grandes impactos

no comércio externo e na economia

global, bem como no panorama geopolítico.

Caso haja uma escalada desta situação,

será muito difícil aos EUA ignorarem o

crescendo das ameaças que podem emergir

da China, e é possível que venham a reunir

aliados para fazer frente àquele país.

Incerteza

A forma como a economia e a inflação

irão crescer em 2022 continua incerta devido

ao tamanho, a complexidade e a incerteza

de problemas que permanecerão

no próximo ano. Existem grandes riscos

de consequências negativas caso a FED

não consiga dar resposta ao desafio que a

inflação representa este ano. Estes factores,

aliados à ameaça contínua da pandemia e

ao aumento de tensões políticas, indicam

um clima económico cheio de riscos e incertezas,

mas que, ainda assim, será aquele

com que os empresários vão ter de lidar.

Existirão soluções locais e globais que obrigarão

os líderes a serem ágeis e a pensarem

no futuro de forma estratégica.

32 RISCO MARÇO / MAIO 2022


TECNOLOGIA

O CENTRO

TECNOLÓGICO

NO PORTO

QUE APOIA TODAS

AS BOLSAS DA EURONEXT

É a partir da Euronext Technologies, sediada

no Porto, que é prestado todo o apoio tecnológico

às sete bolsas de valores integradas no Grupo Euronext.

A empresa completa cinco anos neste mês de Março.

POR PAULO MENDONÇA

O

mercado bolsista tem critérios apertados e uma forte regulação que

obriga a princípios de transparência e equidade implementados, quase

sempre, através da tecnologia. Para garantir todas as condições exigidas,

existe a Euronext Technologies, uma empresa do Grupo Euronext

que, em Março de 2017, migrou de Belfast, na Irlanda, para o Porto.

Esta empresa tinha, no final do ano passado, 180 colaboradores, estando agora

prevista a contratação de mais 50 em 2022. A transferência deste centro tecnológico

para Portugal ficou a dever-se à necessidade de concentrar nas operações core

do grupo uma parte do negócio fundamental para a sua estratégia de desenvolvimento.

De acordo com Manuel Bento, CEO desta empresa do Grupo Euronext, «a

opção por Portugal teve vários drivers, mas um deles foi a fonte de recursos. Um

centro tecnológico é composto por pessoas, neste caso altamente especializadas,

e o nosso país (e o Porto, em particular) tem uma base de conhecimento vinda

das universidades que poderia suprir os interesses. Falamos das universidades do

Porto, de Braga, de Guimarães, Aveiro, Coimbra... Todas têm um conjunto de

cursos tecnológicos que correspondem à especialidade que nós queríamos para a

Euronext Technologies. Não se coloca um centro tecnológico num sítio onde esta

base de conhecimento não exista».

Hoje, as equipas que trabalham neste

centro tecnológico no Porto são fundamentais

para as operações do Grupo Euronext.

A equipa de IT operations gere a

infra-estrutura numa base 24/7, e garante

o funcionamento dos sistemas e aplicações

que suportam os negócios do grupo, tendo

também as competências de gestão de serviço

IT; a equipa de infrastructure e cloud

services gere a infra-estrutura tecnológica

do Grupo Euronext, incluindo servidores,

redes, backups, storage e serviços cloud; a

equipa de cibersegurança garante todos os

mecanismos que garantem a segurança de

todas as operações do Grupo Euronext; e as

equipas de desenvolvimento dão suporte a

diversas áreas da empresa, como, por exemplo,

corporate aplications, advanced data

services, digital transformation, plataforma

de gestão de mercados (OPTIQ), etc.

A entrada de 50 novos profissionais

no decorrer deste ano vai servir, segundo

Manuel Bento, «para o reforço das funções

críticas e para a criação de novas equipas

relacionadas com a migração do data center

do grupo para Itália. Com esta migração

passaremos a ter uma nova área de negócio

e, por isso, serão necessárias novas equipas

para a gestão técnica».

34 RISCO MARÇO / MAIO 2022


TECNOLOGIA

AS EQUIPAS QUE

TRABALHAM NESTE CENTRO

TECNOLÓGICO NO PORTO

SÃO FUNDAMENTAIS PARA

AS OPERAÇÕES DO GRUPO

EURONEXT

OPTIQ

A Euronext Technologies gere

as competências core de todo o Grupo

Euronext, nomeadamente no que diz

respeito à cibersegurança

e ao desenvolvimento e customização da

plataforma OPTIQ, dado que esta

é utilizada não apenas pelos mercados

de capitais da Euronext, mas também

por outras empresas e parceiros,

com as devidas personalizações aos

diferentes sectores.

A OPTIQ é a plataforma tecnológica

proprietária da Euronext, e já está

implementada em todas as bolsas

do grupo, excepto na italiana, que foi

recentemente adquirida.

Esta plataforma assegura todas as

classes de assets, incluindo acções

públicas e privadas, ETF, certificados,

fundos e derivados, entre outros.

A migração da antiga plataforma, a

UTP, para a OPTIQ, permitiu a redução

da pegada de servidor em 66% e de

carbono em 13%.

Manuel Bento,

CEO da Euronext

Technologies

Mitigar riscos

Tratando-se da empresa responsável por

toda a infra-estrutura das bolsas integradas

no Grupo Euronext, é fácil perceber que os

projectos trabalhados na Euronext Technologies

são, por norma, de carácter crítico.

Um desses projectos, que irá decorrer até

meados deste ano, é a migração do data center

do grupo do Reino Unido para Bergamo,

em Itália. Uma mudança que é motivada

essencialmente pelo Brexit, de acordo com

Manuel Bento: «O nosso principal data center

estava no Reino Unido, mas, com o Brexit,

este país deixou de fazer parte da União Europeia.

Assim, e com a introdução recente da

bolsa italiana na Euronext, resolvemos avançar

com a movimentação do data center para

Itália. Cabe à Euronext Technologies executar

toda a deslocalização da infra-estrutura e

dos grandes traders e clientes que, devido a

particularidades deste mercado, têm de migrar

para o novo data center. Isto exige um

grande trabalho de cooperação, com equipas

de vários países, e também toda a coordenação

técnica para garantir que conseguimos

construir uma infra-estrutura semelhante à

que tínhamos no Reino Unido».

Com esta deslocalização do data center,

o Grupo Euronext espera mitigar as incertezas

regulatórias do pós-Brexit, devolvendo

ao espaço europeu toda a infra-estrutura física.

Por outro lado, a Euronext está a projectar

o novo data center com preocupações

ambientais, de forma a reduzir a pegada

ecológica do grupo.

Manuel Bento refere que, além deste

projecto, a Euronext Tecnologies está também

a levar a cabo transformações na área

de post-trade. «O mercado de trading é o

que vemos nas cotações do dia-a-dia, mas

depois há uma série de processamentos a

que chamamos de post-trade, que são introduzidos

por outras empresas do grupo.

Fizemos uma série de aquisições ao longo

dos últimos anos: já tínhamos em Portugal

a Interbolsa, mas adquirimos outras empresas

na Noruega, Dinamarca e Itália. Vamos

fazer uma série de transformações de consolidação

de todas essas operações, o que tem

um forte impacto nas equipas tecnológicas.»

Outro projecto-chave para este ano é a

integração definitiva da bolsa italiana no Grupo

Euronext e na plataforma OPTIQ.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 35


ESTUDO

A EXPANSÃO

DA CONECTIVIDADE

Esta década ficará marcada por um

aumento exponencial da conectividade,

que se tornará «o tecido sob toda

a infra-estrutura digital, aplicações

e conteúdo», segundo a visão da Vodafone.

A

Vodafone apresentou em Janeiro o seu estudo “The Connected Consumer

2030” (CC2030), onde dá a conhecer a sua visão sobre as alterações

do comportamento do consumidor ao longo dos próximos oito anos.

De acordo com a operadora britânica, a conectividade vai tornar-se

«muito mais visível aos olhos dos consumidores, ao mesmo tempo que permitirá

novas experiências capazes de transformar a vida individual e em sociedade».

Numa altura em que o mundo enfrenta uma série de desafios, como as alterações

climáticas, o envelhecimento da população, a instabilidade geopolítica e as crises

dos sistemas de saúde, entre outros exemplos que coexistem nos dias de hoje, os

últimos dois anos ficaram inevitavelmente marcados por uma pandemia que trouxe

uma enorme disrupção não apenas à vida em sociedade, mas também à forma como

as pessoas consomem bens e serviços. Para Alex Froment-Curtil, chief commercial

officer do Grupo Vodafone, «ao longo dos últimos 18 meses, houve uma mudança

drástica na dinâmica e na procura por conectividade,

dado que as pessoas tiveram

de depender da tecnologia para manterem

o contacto com o mundo lá fora. Agora os

consumidores têm uma melhor percepção

da conectividade e de como esta acrescenta

valor transformativo ao seu quotidiano».

De acordo com o estudo apresentado

pela Vodafone, esta percepção tende a aumentar

ao longo desta década, com uma

explosão da conectividade a criar novas

oportunidades que irão ajudar o mundo a

ultrapassar os grandes desafios sociais e a

melhorar a vida dos consumidores. As previsões

da MarTech Advisor indicam que em

2030 o número de dispositivos ligados globalmente

atingirá os 125 mil milhões, representando

cerca de 15 dispositivos por cada

consumidor. Permitir a mais pessoas entrar

no fluxo global de comunicações e serviços

deverá acrescentar cerca de 1,7 biliões de

36 RISCO MARÇO / MAIO 2022


ESTUDO

euros ao PIB global em 2030, de acordo com

a McKinsey, ao mesmo tempo que desbloqueia

um enorme potencial humano.

Neste contexto, o estudo CC2030, lançado

em parceria com o The Future Laboratory,

prevê de que forma a inovação nos

cuidados interligados, cidades inteligentes,

transportes, conectividade ética (as instituições,

marcas e consumidores estão a

reavaliar o poder da inovação tecnológica

e da conectividade, procurando criar um

código moral adequado à era digital), sustentabilidade

e tecnologia futura ajudarão a

resolver os desafios da presente geração e a

melhorar a vida quotidiana.

Avanços na saúde

Uma das previsões avançadas no estudo

é a de que os dispositivos inteligentes

que detectam e previnem doenças vão

apoiar a indústria de cuidados de saúde de

uma forma sem precedentes. A crise global

de saúde que a pandemia desencadeou

em 2020 provocou perturbações nos serviços

de saúde essenciais em 90% dos países,

e isto é razão mais do que suficiente para

que as preocupações com o bem-estar e a

imunidade façam emergir uma nova era de

cuidados interligados, segundo o estudo

CC2030. Prevê-se também que, ao longo

dos próximos 10 anos, existam nas casas

das pessoas dispositivos capazes de activamente

monitorizar a saúde, com benefícios

claros: um diagnóstico mais atempado de

eventuais doenças, que permitirá um modelo

preventivo de cuidados de saúde com

a capacidade de poupar à indústria da saúde

39 mil milhões de euros por ano.

Segundo o estudo, que os espelhos das

casas de banho poderão vir a ser equipados

com sensores que verifiquem o fluxo sanguíneo

e as alterações anómalas da cor da

pele, ou com microfones inteligentes que

solicitem automaticamente uma prescrição

através da detecção de sons de tosse e

de espirros. Estes dispositivos serão ainda

capazes de realizar medições vitais, tais

como a hidratação, o açúcar no sangue e a

pressão sanguínea, para prever ou prevenir

condições de saúde crónicas. A conectividade

nos cuidados integrados será também

fundamental para aumentar a independên-

PREVÊ-SE QUE, AO LONGO

DOS PRÓXIMOS 10 ANOS,

EXISTAM NAS CASAS

DAS PESSOAS

DISPOSITIVOS CAPAZES

DE ACTIVAMENTE

MONITORIZAR A SAÚDE

cia da população envelhecida, dando às

pessoas a possibilidade de viverem de forma

independente durante mais tempo, enquanto

dão aos membros da família e aos

prestadores de cuidados uma garantia do

bem-estar dos seus entes queridos.

A força do pensamento

Uma outra previsão deste estudo é a de

que até 2030 os consumidores consigam

controlar os seus hábitos de consumo com

os seus pensamentos. Com 125 mil milhões

de dispositivos conectados e uma adopção

digital acelerada por causa da pandemia, as

soluções inteligentes não terão dificuldade

em impor-se na vida das pessoas, transformando-se

numa das grandes tendências da

próxima década. Haverá um grande desenvolvimento

por parte dos dispositivos wearable,

que irão além do actual controlo por voz,

«passando a interagir directamente com o

pensamento do utilizador», sugere o estudo.

As interfaces cérebro-computador serão

capazes de identificar os sinais que o

cérebro envia para a boca quando falamos,

permitindo o controlo dos dispositivos

sem recurso a comunicação verbal. Esta

capacidade possibilita uma nova era de

dispositivos sem ecrã ou um metaverso,

conforme sugere o estudo, onde a comunicação

com dispositivos ocorre através de

redes neuronais, permitindo ao utilizador

tomar notas mentais ou até comunicar silenciosamente

com os seus dispositivos.

125 25%

MIL MILHÕES DE DISPOSITIVOS

CONECTADOS

(15 POR INDIVÍDUO)

DOS EUROPEUS TERÃO

MAIS DE 65 ANOS EM 2050

(SÃO 20% AOS DIAS DE HOJE)

RISCO MARÇO / MAIO 2022 37


ESTUDO

Cumprir metas ambientais

Numa outra vertente, este estudo prevê

que a conectividade possa conduzir a um

terço das reduções globais de emissões necessárias

para atingir os objectivos de 2030.

A menos de 10 anos do cumprimento do

objectivo de limitar o aquecimento global a

1,5 graus, a Vodafone acredita que a conectividade

será um parceiro-chave nas tentativas

globais de restaurar a biodiversidade,

fornecendo informação em tempo real sobre

o estado do ambiente. No final da década,

a conectividade será incorporada em

árvores, campos e até mesmo nos oceanos,

permitindo a monitorização do impacto

dos esquemas de regeneração e a avaliação

de potenciais ameaças.

A recolha de dados permitirá também

que as cidades inteligentes identifiquem e

reponham o excesso de energia, permitindo

que a energia e o calor não utilizados

dos edifícios sejam redistribuídos pelas

casas ou espaços públicos circundantes. A

conectividade será fulcral para alcançar os

objectivos de sustentabilidade, juntamente

com ferramentas que ajudam os consumidores

a tomar decisões mais conscientes,

tais como a criação de “certidões de nascimento”

digitais que mostram os movimentos

e origens dos produtos para avaliar a

sua pegada ambiental.

4800 1,7

INTERACÇÕES COM

DISPOSITIVOS CONECTADOS

POR DIA ATÉ 2025

(UMA INTERACÇÃO A CADA

18 SEGUNDOS)

Veículos autónomos

No que diz respeito ao transporte das

pessoas, também haverá grandes disrupções,

a começar pela afirmação dos veículos

autónomos e pela utilização de hologramas

e inteligência artificial para criar

espaços de retalho.

De acordo com este estudo, a conectividade

nos transportes terá um impacto

no PIB global de cerca de 241 mil milhões

de euros até 2030. Com recurso a hologramas

imersivos, as marcas de e-Commerce

UMA PREVISÃO DESTE

ESTUDO É A DE QUE ATÉ

2030 OS CONSUMIDORES

CONSIGAM CONTROLAR

OS SEUS HÁBITOS DE

CONSUMO COM OS SEUS

PENSAMENTOS

BILIÕES DE EUROS

SERÃO ADICIONADOS

AO PIB GLOBAL EM 2030

PELA CONECTIVIDADE

poderão mostrar as gamas de veículos aos

passageiros enquanto viajam, permitindo

que os clientes passem pelos produtos

e até sejam deixados num local de retalho

para fazerem uma compra. Ao entrar num

veículo, os passageiros poderão controlar

a sua viagem através dos seus dispositivos

pessoais, seleccionando antecipadamente

uma série de definições – que vão do turismo

ao trabalho e ao lazer – com o objectivo

de criar uma experiência completamente

personalizada a cada passageiro.

Os dados

Não é segredo que nesta era da conectividade

os dados assumem um valor muito

significativo, mas o estudo da Vodafone

vai ainda mais longe ao afirmar que estes

tornar-se-ão uma nova forma de moeda. À

medida que a consciência em torno do valor

dos dados pessoais cresce, os futuros consumidores

exigirão serviços e experiências

personalizados em troca dos mesmos. Com

44% das pessoas a nível mundial a preferirem

renunciar o conteúdo personalizado ao

invés de partilhar informação, o relatório

prevê que os dados pessoais se tornem uma

moeda que as marcas terão de pagar ou oferecer

em troca de uma experiência elevada.

O relatório CC2030 também explora

os comportamentos humanos que estão

a moldar a inovação futura, incluindo as

preocupações sobre o bem-estar físico e

mental, bem como a procura de cidades

que sejam melhores para as pessoas após

longos períodos de confinamento.

38 RISCO MARÇO / MAIO 2022


CIBERSEGURANÇA

“OITO EM CADA

DEZ ATAQUES

POR RANSOMWARE

OCORREM POR ERRO

HUMANO”

Nuno

Cândido,

Cloud & Security

associate director

na Noesis

Numa altura em que se intensificam os ciberataques

a empresas em Portugal, falámos com Nuno Cândido,

Cloud & Security associate director na Noesis, para

perceber a ameaça no âmbito do sector financeiro.

POR PAULO MENDONÇA

Q

ual será a evolução do cibercrime ao longo deste ano?

Com os negócios cada vez mais digitalizados, verifica-se um aumento

crescente de ataques informáticos que se acentuou a partir de Março

de 2020 e, em Portugal, de forma mais mediática, nas últimas semanas.

Vários relatórios identificam este aumento exponencial e indicam que o número de

ataques e ciberameaças não irá diminuir.

Qual o impacto previsível nas empresas do sector financeiro?

Todas as empresas, independentemente do seu sector de actividade, devem estar

preparadas, e é verdadeiramente relevante que as organizações desenvolvam

uma cultura de ciberdefesa com a premissa de que um dia serão atacadas. Começando

pelos CEO e terminando nos colaboradores que no dia-a-dia garantem as

operações, o foco deverá estar no trabalho cooperativo entre a organização, colaboradores,

fabricantes de soluções de cibersegurança e consultoras TI especializadas

neste tipo de serviços. É necessário garantir as capacidades de segurança

da tecnologia holísticas em relação à especificidade das arquitecturas de TI, que

permitam minimizar o risco e mitigar o impacto de um ciberataque.

Quais os tipos de ataques que estão a evoluir mais e por que estão reunidas as

condições ideais para esses ataques em particular?

Os ataques mais frequentes são machine-to-machine

(M2M), ataques silenciosos,

altamente personalizados e sofisticados,

clonagem de websites ou esquemas de

phishing. Os mais comuns são:

Falsos emails ou mensagens falsas. Utilização

de mensagens e imagens aparentemente

reais, de forma a persuadir o utilizador

a fazer determinadas acções. Caso

o utilizador não perceba que é um email

de phishing, pode acabar por clicar num

link fraudulento ou alterar a password

da conta.

Ataques aos dados na cloud. Actualmente

armazena-se cada vez mais dados na

cloud, o que aumenta a possibilidade de

cibercrime. O modus operandi é similar

ao referido no exemplo anterior, muitas

vezes com envio de emails falsos.

Phishing por ransomware. Neste tipo

de phishing o utilizador também recebe

um link malicioso. Porém, em vez de

ser direccionado para um site falso, esse

link procede à instalação de malware no

computador. A intenção do ataque passa

não só pelo roubo da informação, mas

também pelo sequestro virtual do próprio

computador ou por uma entrada

“silenciosa” na rede de uma organização,

permitindo-lhe, a partir daí, permanecer

40 RISCO MARÇO / MAIO 2022


CIBERSEGURANÇA

incógnito nessa mesma rede, roubando

quantidades gigantescas de dados, ou assumindo

controlo sobre outras plataformas,

sistemas, por exemplo.

De que forma as empresas do sector

financeiro podem envolver os seus

colaboradores na segurança dos dados?

Há alguns passos que ajudam as empresas

e os seus colaboradores a reduzir

o risco. As organizações podem e devem

É RELEVANTE

QUE AS ORGANIZAÇÕES

DESENVOLVAM UMA

CULTURA DE CIBERDEFESA

COM A PREMISSA

DE QUE UM DIA

SERÃO ATACADAS

realizar simulações de phishing e acções de

sensibilização junto dos seus colaboradores.

Este tipo de iniciativas e testes permite não

só avaliar o nível de preparação e atenção

dos colaboradores a possíveis ataques, mas

também que todos se preparem da melhor

forma possível para lidar com ameaças reais.

Faz sentido que esta consciencialização

passe por acções de formação?

Sim, com toda a certeza. O relatório

anual da Expel conclui que a maioria dos

ataques de ransomware em 2021 é auto-instalada.

Os investigadores identificaram que

oito em cada dez ataques por ransomware

ocorrem por erro humano, após as vítimas

terem aberto um ficheiro com código malicioso.

É, por isso, fundamental que todas

as organizações, independentemente da sua

dimensão ou sector de actividade, estejam

cada vez mais atentas e, sobretudo, preparadas

para um eventual ataque. Os colaboradores

são parte essencial nesse processo.

Considera que a cibersegurança tem

de passar a ser um tema transversal a

todos os departamentos da empresa?

O tema da cibersegurança é um dos

grandes desafios que se colocam às organizações,

independentemente do seu perfil,

sector de actividade ou dimensão. A cibersegurança

é um problema que nos afecta a

todos, não só a nível empresarial, mas também

pessoal. É muito importante analisar

os riscos a que estamos expostos e definir

roadmaps que os permitam mitigar. A cibersegurança

já não é apenas um tema dos

departamentos de TI. É central e deve estar

na agenda de qualquer CEO.

Que conselhos deixa às empresas para

criarem um ecossistema seguro?

É fundamental que se foquem na arquitectura

de segurança através de uma abordagem

holística que inclua capacidades

tecnológicas “inteligentes” e que contemple

standards, guidelines, processos e práticas

que garantam mecanismos de salvaguarda

das políticas de segurança e de privacidade

da informação e dos acessos. Nesse contexto,

a inteligência artificial é um forte aliado

ao serviço da cibersegurança e um investimento

essencial nos dias de hoje.

ARQUITECTURA

DE SEGURANÇA

Soluções e serviços cloud-oriented que

apoiem o uso crescente de ambientes

multi cloud, capazes de controlar os

acessos em pontos onde a política de

segurança deve ser aplicada, desde

on-premise até aos diferentes modelos

de deployment. Soluções de Intelligent

Monitoring capazes de detectar todos os

tipos de ameaças: internas, ciberataques,

manipulação de dados e ameaças do

supply chain.

Mecanismos de Compliance e Auditing

adequados a cada um dos diferentes

modelos de deployment.

A segurança das aplicações e dos dados

que transitam entre elas não pode ficar

sob a responsabilidade individual de cada

Service Provider.

Governance de dados: com o aumento

da mobilidade, da crescente adopção

de aplicações SaaS e do shadow IT,

a capacidade de governar o uso de

aplicações na cloud é essencial para

assegurar o cumprimento das políticas

de segurança E2E.

Digital Identity: as soluções de Identity and

Access Management (IAM) devem possuir

níveis de sofisticação que permitam

federar a autenticação em multi-

-ambientes e gerir o aprovisionamento

de forma integrada e segura.

Cybersecurity Managed Services: serviços

que actuem 24x7 com talentos altamente

qualificados e experientes, versados

na utilização de tecnologias de ponta

e princípios proactivos de prevenção e

neutralização de ameaças.

Next-Gen Cybersecurity: ambientes cloud

mais complexos e esquemas de intrusão

cada vez mais sofisticados exigem

paradigmas e soluções mais exigentes,

automatizadas e sofisticadas, com

recurso a soluções que incorporem AI

e algoritmos de auto-aprendizagem.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 41


TRADING

COMO

(NÃO)

INVESTIR

NOS MERCADOS

FINANCEIROS

POR ADELINO MATOS,

CEO & FOUNDER DA ESCOLA TRADING

Uma das maiores ilusões é achar que a liquidez

é a base fundamental para ser bem-sucedido na área

de investimentos em mercados financeiros.

H

á uma dificuldade em comum que liga a grande maioria dos meus alunos

e que sempre se destacou ao longo de mais de 10 anos que dou

formação nos mercados financeiros: a falta de robustez psicológica e

de uma estratégia de controlo emocional capaz de encarar a imprevisibilidade

do mercado. É, sem dúvida, uma das características que mais

tento trabalhar e incutir nas formações e simples contactos que me chegam, dada

a inegável importância da psicologia e de um mindset correcto para que o sucesso

seja uma realidade no mundo dos mercados financeiros.

Esta incapacidade manifesta-se principalmente nos investidores iniciantes, que

normalmente procuram alcançar rentabilidade imediata nesta área, recorrendo a

estratégias de curto prazo e pouco fiáveis. Quando junta esta vontade desmedida

a um controlo emocional frágil, é inevitável que o overtrading se comece a desenvolver

e a pautar todas as decisões do investidor, hipotecando qualquer aspiração

de sucesso nas primeiras semanas – ou até mesmo dias – de pesquisa e exploração

dos mercados.

Considero uma das maiores ilusões achar que a capacidade de investimento é

a base fundamental para ser bem-sucedido na área de investimentos em mercados

financeiros. Sem dúvida que uma maior flexibilidade de orçamento permite outra

margem de manobra, mas é preciso ter os

pés bem assentes no chão, porque o verdadeiro

factor diferenciador de quem entra

e permanece no jogo a longo prazo será o

lado mental e a forma como está preparado

para superar os altos e baixos e as surpresas

do mercado.

Com tantos casos que experienciei de

perto de investidores que se deixaram levar

pelo overtrading, o meu ponto de vista

sobre este problema, que assola tantas

pessoas que desejam um dia alcançar um

nível estável de rendimento nos mercados

financeiros, está bem fixado.

O problema mais grave de incorrer em

overtrading baseia-se no facto de entrar

num volume exagerado de operações de

forma totalmente desproporcional às suas

42 RISCO MARÇO / MAIO 2022


TRADING

o antídoto perfeito para sairmos (ou evitar

por completo) desta armadilha e entender

o porquê da necessidade de desenvolver

robustez psicológica quando decidimos

que queremos ser traders eficazes; esta é

uma competência que nunca me cansarei

de destacar.

Quando falo da importância da psicologia

do investidor refiro-me aos objectivos

que deseja alcançar e, mais importante do

que isso, que noção tem do esforço necessário

que precisa desenvolver para efectivamente

chegar ao nível a que se propõe.

Na sua essência, qual foi o “clique” que o

motivou a querer aprender a investir nos

mercados financeiros? O que o move rumo

aos seus objectivos, aspirações e desejos

em se tornar um investidor estável, capaz

e independente?

A trajectória para a profissionalização

é, no mínimo, duríssima. Mas é esta capacidade

de entender quem somos, o que queremos

e como queremos alcançar os nossos

objectivos que permite uma absorção mais

rápida e natural de todas as competências

necessárias para ter sucesso no informalmente

chamado forex. Nunca irei minimizar

a importância do desenvolvimento de

competências directamente relacionadas

com a análise pura dos mercados e acticapacidades

(tanto financeiras como de

expertise). Por si só, entrar em várias posições

é uma má prática? Não. O real problema

é fazê-lo sem qualquer consciência ou

preparação, alimentado por emoções que

retiram o foco às suas decisões/previsões

potencialmente mais acertadas.

Para agravar todo este cenário, o perigo

do overtrading cresce exponencialmente

quando, na grande maioria das vezes, não

tem a mínima noção que entrou neste estado

e o processo de tomada de decisão é

desenrolado quase em modo de piloto automático.

Fica sem controlo sobre as decisões

e tudo é feito com ânsia de sucesso

imediato e a todo o custo. Investe valores

superiores àqueles que pode pagar, tudo

com o objectivo de compensar perdas ou

decisões anteriores de insucesso.

Fica claro como a água a ligação que o

overtrading nutre com a psicologia e a força

mental do trader. Um mindset correcto é

O PERIGO DO OVERTRADING

CRESCE EXPONENCIALMENTE

QUANDO NÃO TEM

A MÍNIMA NOÇÃO QUE

ENTROU NESTE ESTADO

RISCO MARÇO / MAIO 2022 43


TRADING

vos – quer sejam elas mais voltadas para a

componente técnica, fundamental ou uma

fusão de ambas. O fio condutor da opinião

que partilho está perfeitamente identificável:

trabalhar e moldar a parte psicológica

do investidor, alertando para potenciais

catalisadores que identifiquei ao longo dos

anos como os principais responsáveis para

que o overtrading, infelizmente, seja uma

realidade bem comum para a esmagadora

maioria dos traders iniciantes.

Quando investir é confundido

com apostar

Não quero “massacrar” a um nível exagerado

a fatia de investidores iniciantes que

todos os dias equacionam começar a operar

nos mercados financeiros, mas é perfeitamente

natural que sejam a audiência que

mais sofre com a falta de uma mentalidade

forte e à prova de bala. Não existirá um

único investidor de sucesso – e por sucesso

refiro-me a resultados consistentes num período

de tempo considerável – que psicologicamente

tenha falhas realmente limitadoras

e que influenciam os seus resultados.

Endereçada esta nota que tem pautado

praticamente todo o meu discurso até esta

fase, ao longo do tempo fui reparando que,

para muitos investidores, o forex é como

apostar ou ir ao casino testar a sorte, em

busca de um pico inesperado de retorno

financeiro que, muito provavelmente, raramente

acontecerá uma segunda vez. Esta

PARA MUITOS INVESTIDORES,

O FOREX É COMO APOSTAR

OU IR AO CASINO TESTAR

A SORTE, EM BUSCA

DE UM PICO INESPERADO

experiência nutrida pela mentalidade de

gambler é muitas vezes transportada para

a forma como se olha e investe nos mercados

financeiros.

Não considero um erro infantil, apenas

uma consequência natural da falta de

percepção, adaptação e preparação mental

para uma área tão imprevisível. Trading é

completamente diferente de betting, onde

simplesmente não existe qualquer margem

para a postura de tentativa-erro inconsciente

(sem vontade de aprender com o que

se fez menos bem) ou simplesmente de se

deixar levar pela equipa de futebol favorita

e apostar sem qualquer sentido, jogando

sempre com o coração e nunca com a razão.

É muitas vezes induzido em erro por

ter obtido alguns resultados em apostas,

geralmente numa modalidade que gosta ou

até que já praticou. Dá aquela sensação de

segurança, porque está familiarizado com

o desporto e sente-se confiante nas suas ac-

ções. O comportamento do mercado não é

amigo ou não favorece ninguém, é como se

tivesse vida própria sem qualquer preocupação

com o que o rodeia.

O limite financeiro deve ser um alerta

Quando tem a necessidade ou urgência

em realizar dinheiro de um dia para o

outro, toma decisões impulsivas e a uma

velocidade incomportável. Olhar para o

forex como meio imediato que possibilita

estabilizar a nível financeiro, caso esteja a

atravessar por dificuldades, é uma utopia.

Sem dúvida que os mercados financeiros

podem ser uma fonte segura de rendimento

extra ou até, caso seja o objectivo, tornar-se

na fonte principal de rendimento,

44 RISCO MARÇO / MAIO 2022


TRADING

mas nunca deve olhar para esta prática

como a solução milagrosa para um problema

tão delicado como é o caso de dificuldades

a nível financeiro.

Um dos pensamentos mais vezes partilhados

comigo, sendo este problema a verdadeira

pedra no sapato, é o de assumir que

quantas mais operações realiza, maior será

o seu lucro – esta forma de pensar é um bilhete

instantâneo para entrar automaticamente

em overtrading num piscar de olhos,

muito antes sequer de executar a primeira

operação. O overtrading é, geralmente,

potenciado por decisões mal tomadas ou

comportamentos de mercado inesperados,

mas, neste caso em específico, já deu o primeiro

passo. Basta premir o gatilho.

É IMPERATIVO

SABER LIDAR E APRENDER

COM AS PERDAS,

PARA QUE EM CENÁRIOS

FUTUROS SEMELHANTES

ESTEJA MELHOR

PREPARADO

Como investidor deve pensar que está

a competir numa maratona e nunca num

sprint e qualquer ganho avultado que

aconteça de forma inesperada deve ser

encarado como natural numa jornada que

será sempre pautada pela imprevisibilidade.

As prioridades são os seus encargos

pessoais e o que é necessário para viver

com as melhores condições possíveis.

Antes de investir dinheiro que não

deve, precisa delinear uma estratégia de

Poupança versus Investimento, que pode

demorar o seu tempo até chegar a um nível

em que está confortável para dar o primeiro

passo nos mercados financeiros. Durante

este período deve investigar, pesquisar,

estudar, treinar numa conta de demonstração

até se sentir financeiramente preparado

– se assim o fizer, estará à frente de 90%

das pessoas que começam no forex.

A procura incessante por resultados

para ontem

A ligação com a procura intensa de resultados

imediatos, estando num estado financeiro

delicado, é quase automática. As

semelhanças são incontestáveis, mas aqui

o que sobressai é a capacidade emocional

e de autocontrolo. Mesmo que tenha um

plano de trading e uma estratégia perfeitamente

definida e pronta a utilizar, se não

tiver a paciência necessária, de pouco ou

nada lhe valerá.

Costumo dizer que o overtrading é

como o primo afastado do overthinking.

Pensa em demasia e deseja tudo ao mesmo

tempo, mesmo quando sabe que existem

formas bem mais seguras de alcançar lucro

do que respirar gráficos 24 sobre 24 horas.

Pequenos ganhos constantes são bem melhores

do que uma grande operação isolada,

difícil de repetir e ainda mais difícil de

acontecer pela primeira vez.

Já mencionei que o antídoto para prevenir

e combater o overtrading é o desenvolvimento

de uma força mental e psicológica

capaz de suster a volatilidade dos mercados,

mas qual será uma das bases cruciais para

este processo? A paciência. É fundamental

saber esperar e, acima de tudo, saber esperar

de forma activa e com uma constante

procura por melhoria de competências,

com foco na componente psicológica.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 45


TRADING

A lacuna deixada pela falta

de estratégia

O conceito de estratégia está praticamente

presente em tudo o que faz, quer

seja a nível pessoal ou profissional. Está

muitas vezes mascarada por outra palavra:

rotina. Transportando isto para os mercados

financeiros, sem uma matriz que diga

exactamente o que fazer segundo determinadas

situações, muito dificilmente se tornará

num investidor consistente e, acima

de tudo, consciente das suas acções.

Não há qualquer tipo de desvantagem

associada a ter algo que suporte as nossas

acções e o que devemos fazer em determinado

momento. Os investidores mais

bem-sucedidos têm sempre consigo um

plano de trading que seguem quase religiosamente,

mesmo com tendências repentinas

que possam surgir – é o que lhes

permite ter controlo em situações de impulso

ou até mesmo de ganância. Sem dúvida

que o risco estará sempre presente em

qualquer investimento, mas ter um plano e

uma estratégia que o suportem torna este

factor mais controlável e previsível.

Perder é incontestavelmente mais

importante do que ganhar

Este ponto nem pode ser considerado

opinião, é simplesmente a realidade: é 100%

certo que, em vários momentos ao longo

INVESTIR EM MERCADOS

FINANCEIROS É UM UNIVERSO

ACESSÍVEL A TODOS,

SEM EXCEPÇÃO,

MAS SEMPRE DEFENDI

QUE ISTO NÃO SIGNIFICA

QUE RESULTE PARA TODOS

da jornada nos mercados financeiros, vai

perder e ter um dia, semana ou mês menos

bom. Quando isto acontecer, não deve

procurar constantemente por operações

que permitam de imediato recuperar o que

perdeu. É imperativo saber lidar e aprender

com as perdas, para que em cenários futuros

semelhantes esteja melhor preparado.

Para além disso, há outro aspecto que

vejo ser menosprezado: da mesma forma

que é importante ser bom perdedor, temos

igualmente de saber ganhar. Não deve deixar

que o entusiasmo, adrenalina ou ganância

tomem conta do seu discernimento. O

excesso de confiança pode ser a “morte do

artista”, porque os mercados financeiros são

uma fonte inesgotável de volatilidade.

Da mesma forma que deve aprender

com os erros, deve aprender com as vitórias.

Não só com o que fez bem e que pode ser replicado

em operações futuras, mas também

o que acha que poderia ter feito melhor na

perspectiva de no futuro os resultados serem

fruto de acções perfeitamente identificáveis.

Expectativas desalinhadas com

a realidade

Se quiser fazer uma reflexão sobre tudo

o que mencionei até aqui, muita da minha

opinião sobre o que potencia o overtrading

está ligado a um alinhamento de expectativas

irrealistas e imensuráveis.

Investir em mercados financeiros é um

universo acessível a todos, sem excepção,

mas sempre defendi que isto não significa que

resulte para todos – por outras palavras, exige

uma preparação que nem todas as pessoas

estão dispostas a cultivar. Operar com mercados

financeiros exige várias decisões ao longo

do tempo (segundo o seu perfil de trader, até

pode executar dezenas no mesmo dia). Controlar

as expectativas e lutar para conseguir

alcançar o que, claro está, tem definido muito

antes de mergulhar em gráficos e operações,

dita muito dos passos que dará no futuro.

Conclusão

O overtrading não deve ser visto como

algo a evitar, mas sim como um obstáculo

que faz parte da sua curva de aprendizagem

– é tão comum, que mesmo os traders de

maior sucesso em algum ponto das suas

carreiras cometeram este erro. Tudo é uma

aprendizagem e os mercados financeiros

não fogem à regra. O mais acertado é reflectir

sobre decisões inconscientes, analisar

o que deve corrigir e delinear um plano

de trading com uma forte gestão de risco,

procurando sempre por pontos que permitam

aprimorar a sua estratégia e abordagem

aos mercados.

Cada perfil de trader exige um plano

ajustado às nossas necessidades, competências

e capacidade de investimento, mas sem

dúvida que existem aspectos comuns ao sucesso.

Não pode deixar chegar a um ponto

sem retorno, onde nem o melhor plano de

trading o consegue salvar de uma situação

financeira delicada, agravada por decisões

tomadas sob impulso e desespero.

46 RISCO MARÇO / MAIO 2022


FINTECH

“O ECOSSISTEMA FINTECH

PORTUGUÊS TORNOU-SE

RELEVANTE A NÍVEL

INTERNACIONAL”

António Ferrão, board member da Portugal

Fintech e director da Fintech Solutions,

explica como é que um mercado de pequena

dimensão se tornou num ecossistema

relevante e plataforma de lançamento para

o mercado europeu.

POR ANTÓNIO SARMENTO

C

omo surgiu a Portugal Fintech e quais as suas principais missões?

A Portugal Fintech foi criada em 2016 com o objectivo de mostrar internacionalmente

que o ecossistema português de startups fintech tem

tracção e maturidade. Na sua origem, a associação focava-se na ligação

das startups a investidores, porque esse era o principal desafio, mas rapidamente

evoluímos para outras dimensões de suporte às startups.

Hoje, somos uma associação sem fins lucrativos que tem como missão apoiar

empreendedores e o ecossistema, como um todo, no acesso a capital, players maduros

para parcerias, reguladores e talento.

Queremos ser o motor do ecossistema fintech em Portugal e a nível internacional,

apostando sempre num mindset startup – “think big, start small, scale fast”.

Gerimos a Fintech House, o maior hub fintech em Portugal, publicamos o Portugal

Fintech Report, a publicação mais compreensiva do ecossistema fintech português

e lançámos a Fintech Solutions, uma consultora dedicada exclusivamente à

criação de serviços financeiros digitais.

Como caracteriza o ecossistema das fintech em Portugal?

Ao longo dos últimos quatro anos, o ecossistema fintech português consolidou-

-se e tornou-se relevante a nível internacional. Ainda que continue a ser um mercado

de pequena dimensão, tornou-se um ecossistema relevante, acima de tudo pelo

talento e como plataforma de lançamento

para o mercado europeu.

No que toca a investimento, Portugal

começa a consolidar um conjunto relevante

de VC locais, que trabalha em rede com VC

globais. O desafio passa em parte por consolidar

uma layer forte de business angels e

early investors. A dimensão de early investors

é crítica, visto que, em fases iniciais das

startups, este investimento determina a sua

sobrevivência até gerarem receita. Em fases

mais maduras de investimento, o Portugal

Fintech Report mostra que a maior parte

dos investimentos tem origem estrangeira.

No que toca a startups, o ecossistema

cresce, não só fruto de iniciativas nacionais,

mas com uma elevada entrada de startups

no país em fases iniciais, e com objectivo de

estabelecer em Portugal a base para crescimento.

A este nível importa referir que

48 RISCO MARÇO / MAIO 2022


FINTECH

QUEREMOS SER

O MOTOR DO ECOSSISTEMA

FINTECH EM

PORTUGAL E A NÍVEL

INTERNACIONAL

cerca de 70% das startups fintech em Portugal

estão no segmento B2B, ou seja, focadas

em vender a outras instituições financeiras.

Por fim, penso que importa destacar a

evolução do ecossistema em termos de talento.

A este nível, as dificuldades de recrutamento

continuam a subir, acima de tudo a

nível de engenharias, criando uma nova pressão

nos recrutamentos e no trabalho remoto.

António Ferrão,

board member da Portugal

Fintech e director

da Fintech Solutions

Cerca de 70%

das startups fintech

em Portugal

estão no segmento B2B,

ou seja, focadas

em vender a outras

instituições financeiras

Na sua opinião, como tem evoluído a

relação das fintech com os bancos?

A cooperação entre instituições estabelecidas

e startups é um bom indicador

da maturidade do ecossistema como um

todo. A este nível, os bancos em Portugal

têm mostrado sinais de mudança e abertura,

ainda que a ritmos distintos e, em parte,

provocados pelos desafios da pandemia.

De forma genérica, os bancos iniciaram

um processo de abertura ao ecossistema

fintech em duas vertentes.

Por um lado, procuram novos fornecedores

e parceiros que apresentam soluções

disruptivas e seguras para complementar

os seus sistemas e ofertas. Esta forma de

colaboração tem vindo a mostrar-se muito

interessante, encontrando apenas forte resistência

em fases iniciais de definição do

modelo de parceria.

Os bancos ainda têm dificuldade em gerir

oportunidades e testar novas soluções em

tempo útil. Por outro lado, começam a procurar

formas de fornecer serviços bancários

através de API a outras fintech. À medida que

soluções de banking as a service proliferam

no mercado, também os incumbentes procuram

tirar proveito desta democratização.

A colaboração entre startups e incumbentes

encontra tipicamente resistências a

nível cultural ou de governance interno. Tal

como referi, a maior resistência é encontrada

em fases iniciais de prova do conceito,

em que os bancos tipicamente não têm um

processo organizado para estudar e testar a

viabilidade de uma parceria.

Ao longo de 2022 e nos próximos anos

é esperado que os bancos fortaleçam

processos de experimentação

com parceiros externos e

que cargos como “head of fintech

partnerships” ganhem nova

relevância nas organizações.

Na Portugal Fintech, criámos

em 2020 a Fintech Solutions,

para ser um braço de

consultoria interno que apoie

estes temas de colaboração entre

incumbentes e startups, especialmente

nas fases de prova

de conceito e MVP (minimum

viable product). Desde a sua

criação temos vindo a trabalhar

com bancos e outro tipo de instituições

com o objectivo de fortalecer a sua capacidade

de inovar e adoptar tecnologias de

startups fintechs.

Como é que players maduros e fintechs

podem andar de mãos dadas?

A capacidade de extrair valor do ecossistema

fintech passa, em grande parte,

pela capacidade do banco em compreender

a realidade de uma startup. Esta aproximação

cultural passa muitas vezes por recrutar

ex-founders de startups para cargos de

liderança da transformação ou inovação,

RISCO MARÇO / MAIO 2022 49


FINTECH

ou por estabelecer parcerias com entidades

próximas do ecossistema, como universidades

ou hubs de inovação.

Em termos de futuro, os bancos irão

tornar-se plataformas agregadoras de serviços

de fintechs. Os bancos terão como

principal asset uma grande base de clientes

onde podem alavancar os serviços em formato

Marketplace.

As fintechs vão tornar-se cada vez

mais críticas para garantir a proximidade

a esses clientes e também uma maior capacidade

de os conhecer e aconselhar. À

medida que os serviços bancários se tornam

commodities, a relação com o cliente

será a chave do crescimento.

Que balanço é que faz do Programa

Fintech 365?

O Fintech 365 foi uma experiência interessante,

que representou um formato

concentrado do trabalho que temos vindo

a fazer de ligação entre players maduros e

startups. Na prática criámos um programa

de aceleração de provas de conceito com

base em desafios concretos de seis instituições

financeiras.

No que toca a balanço desta primeira

edição, temos vindo a acompanhar as parcerias

que foram estabelecidas; tanto as que

seguiram para uma dimensão comercial

como as que ficaram pela prova de conceito.

No Fintech 365 tivemos oportunidade

de trabalhar com top players do mercado,

tanto do lado das instituições maduras

como do lado das startups.

Em relação ao futuro, o ecossistema

fintech precisa deste tipo de plataformas

agregadoras e que geram pretexto para

leads comerciais. No entanto, as startups

são muito exigentes em relação ao formato

e ao valor extraído destas iniciativas e, em

2022, queremos apostar em formatos inovadores,

mantendo o foco na vertente digital

e na interacção directa sobre use cases

pré-seleccionados.

De que forma é que o “venture

capital” tem sido fundamental no

desenvolvimento das fintechs no País?

O investimento é determinante no

crescimento de startups em todos os ecossistemas

a nível mundial, e Portugal não é

O ECOSSISTEMA FINTECH

É ALTAMENTE REGULADO

E A TENDÊNCIA É QUE

SEJA CADA VEZ MAIS

REGULADO

excepção. Em Portugal, em 2021, o Top 30

de fintech do Portugal Fintech Report tinha

levantado 437 milhões de euros, versus 275

milhões de euros em 2020. Este crescimento

mostra como as startups em Portugal

continuam a precisar de levantar investimento

para continuar a crescer.

Com a pandemia, os próprios VC tornaram-se

mais permeáveis a investir à distância,

o que permitiu colocar as startups

portuguesas em melhor posição.

Em 2022 vemos um elevado interesse

de investidores estrangeiros no nosso ecossistema

fintech. Este movimento é fundamental,

não só porque os investidores na-

cionais actuam muitas vezes em parceria

com outros investidores, mas também porque

aumenta a concorrência de investidores,

tornando as condições mais vantajosas

para as startups.

O desafio passa, em alguns casos, por

fases de investimento muito iniciais em

que o ecossistema de early investors ou business

angels não é capaz de dar a margem

pretendida às startups nesse stage.

Da nossa parte continuaremos a apoiar

o matchmaking de investidores com as

nossas startups, pelo que poderão entrar

em contacto caso tenham interesse nestas

áreas. Da mesma forma, iremos organizar

o Lisbon Welcomes Fintech, o nosso

evento anual paralelo ao Web Summit,

que junta startups e investidores.

Qual o papel da regulação no

crescimento do ecossistema fintech?

O ecossistema fintech é altamente regulado

e a tendência é que seja cada vez

mais, mas permitindo maior coexistência

de soluções inovadoras. Temas como open

banking ou blockchain desenvolvem-se ao

ritmo da regulação e de case studies que

vão sendo identificados como possíveis.

Neste aspecto, o Portugal Finlab é

uma iniciativa única na medida em que

os três reguladores mais relevantes para

o ecossistema fintech, ASF, Banco de Portugal

e CMVM, se juntaram para disponibilizar

uma plataforma de interacção com

as startups. O objectivo é permitir a uma

startup compreender qual o enquadramento

legal que se aplica ao seu negócio,

permitindo criar proposta de valor compliant

by design.

Porém, existem ainda oportunidades

por explorar e a publicação do decreto

que estabelece as Zonas Livres Tecnológicas

vem abrir novas portas de colaboração

entre reguladores, aceleradores do ecossistema

e startups.

50 RISCO MARÇO / MAIO 2022


FINTECH

Alexander

Emeshev,

co-fundador

da Vivid

“EDUCAR OS CLIENTES

PORTUGUESES SOBRE

COMO FAZER CRESCER

O SEU DINHEIRO”

A alemã Vivid anunciou uma nova ronda de financiamento

Série C, que duplica a sua avaliação para 775 milhões

de euros. Em entrevista à Risco, Alexander Emeshev,

co-fundador da Vivid, revela que estes fundos serão

utilizados para estender a oferta da app.

POR PAULO MENDONÇA

omo se caracteriza a

plataforma da Vivid?

C

A Vivid é uma solução

financeira completa para

operações bancárias

diárias, de poupança e

investimento. É uma plataforma com uma

aplicação móvel onde os clientes podem

facilmente gerir o seu dinheiro, gastá-lo

e investi-lo. Operamos em duas vertentes.

Por um lado, disponibilizamos contas

à ordem com cartões de débito, onde

ficam disponíveis todos os pagamentos,

transferências e débitos directos. E, por

outro, oferecemos um serviço para investimentos

com taxas gratuitas e ganhos

em cofres.

A Vivid é também o único neobanco

que oferece acessos a investimentos em

50 das criptomoedas mais importantes,

além de um programa educacional gratuito

exclusivo intitulado “Vivid Classes:

in-app financial education”. Este programa

inclui um conjunto exclusivo de

artigos adaptados ao respectivo idioma

52 RISCO MARÇO / MAIO 2022


e mercado, destinados a ajudar os utilizadores

a navegar, aprender e a tomar

decisões informadas face às suas necessidades

financeiras.

Quais os factores de diferenciação

da plataforma da Vivid face a outras

existentes no mercado?

Oferecemos uma gama mais vasta de

produtos do que qualquer outra plataforma

e estamos constantemente a desenvolver

novos produtos. A Vivid reúne numa

única aplicação os gastos, poupanças e

uma extensiva função de investimentos.

Cada utilizador recebe uma conta bancária

gratuita e um cartão metálico gratuito,

mais um generoso cashback a partir

de 25% nas compras e um programa de

Recompensa de Stocks. Também disponibilizamos

a troca de mais de 100 moedas

com taxas de câmbio ao vivo e um

programa educacional gratuito exclusivo.

Os nossos cartões oferecem uma segurança

extra, uma vez que não contêm

dados de identificação: não possuem número

de cartão, data de validade ou número

de verificação. Todos estes dados

são armazenados em segurança na aplicação

e, assim, protegem de forma fiável

os clientes em caso de perda do cartão.

Além disso, os clientes podem criar um

novo número de cartão de débito, incluindo

data de expiração e código de verificação,

a qualquer momento, e ligá-lo

ao cartão.

Para além disso, este Verão lançámos

uma nova funcionalidade que permite

aos clientes personalizar os seus cartões,

escolhendo entre uma grande variedade

de opções de desenho.

A VIVID ESTÁ

A FAZER CRESCER UMA

COMUNIDADE

DE UTILIZADORES

EM PORTUGAL

QUE TENDEM

A INVESTIR UM

POUCO MAIS

EM CRIPTO (CERCA

DE 500 EUROS)

DO QUE EM ACÇÕES

Como é que está a evoluir o negócio

em Portugal?

Estamos a assistir a uma evolução positiva.

A Vivid está a fazer crescer uma

comunidade de utilizadores em Portugal

que tendem a investir um pouco mais

em cripto (cerca de 500 euros) do que

em acções. Este é realmente um dado

interessante, já que este montante de investimento

é superior à média europeia

total da Vivid. Assim, de momento, continuaremos

a concentrar a nossa estratégia

tanto em cripto, como em acções,

fornecendo aos nossos utilizadores portugueses

as ferramentas certas que lhes

permitirão continuar a fazer crescer o seu

dinheiro de forma segura e o mais informada

possível.

Os portugueses estão hoje mais

disponíveis para este tipo de

plataformas online? O que mudou no

consumidor nos últimos anos?

Sim, consideramos que sim. Neste

momento, em Portugal, temos apenas

os nossos serviços de investimento disponíveis

– o banco irá chegar em breve.

Como referi, os nossos utilizadores portugueses

tendem a investir um maior valor

em criptomoedas e acções do que a

média europeia, e acreditamos que isto se

deve às novas gerações. Os millennials e,

em particular, a geração Z, olham para o

mundo financeiro como digital – fazem

tudo pelo telemóvel, não precisam de um

banco físico, e por isso temos de acompanhar

esse ritmo.

FINTECH

A Vivid anunciou recentemente uma

ronda de financiamento Série C, que

duplica a sua avaliação para 775

milhões de euros. Que utilização se

prevê para estes fundos?

Os nossos clientes precisam de mais

do que apenas uma aplicação bancária;

precisam de um lugar onde possam poupar,

investir e organizar os seus assuntos

financeiros do dia-a-dia. Nós queremos

ser o lugar onde é possível fazer tudo isso.

Assim, esta nova ronda de investimento

financeiro será utilizada para melhorar

e desenvolver novos produtos. Actualmente,

estamos nas primeiras etapas

de implementação da nossa oferta de seguros

e, até ao final do ano, pretendemos

apresentar os nossos primeiros produtos

de crédito financeiro.

Esta ronda também nos permitirá

continuar com os nossos planos de expansão.

Estamos a planear iniciar operações

em, pelo menos, mais cinco novos países.

Queremos servir todos na Europa através

de uma superaplicação que oferece, entre

outras características, pockets, um cartão

para tudo e uma segurança extra.

Quais os objectivos de negócio para

Portugal e para a Europa em 2022?

A chegada a Portugal visa ajudar a

educar os clientes portugueses sobre

como fazer crescer o seu dinheiro, fornecendo-lhes

as ferramentas certas para

atingirem o seu verdadeiro potencial de

riqueza. Como tal, o nosso objectivo será

continuar a aumentar a nossa base de utilizadores,

bem como fornecer uma linha

de conteúdo contínua, simples e de confiança

que possa ajudar os portugueses

a tomar decisões instruídas em relação

às suas necessidades financeiras. Além

disso, vamos melhorar as nossas características

de investimento e não apenas

ao nível da expansão da nossa carteira de

acções, ETF e Cripto tokens. Vamos introduzir

novos produtos muito em breve!

A nível europeu, planeamos expandir

a nossa equipa utilizando a Série C para

impulsionar o recrutamento para os nossos

escritórios europeus. E, no final do

ano, o nosso objectivo é o de atingir 1 milhão

de clientes em toda a Europa.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 53


OPINIÃO

POR EULALIA FLO,

DIRECTORA-GERAL DA COMMVAULT

PARA PORTUGAL E ESPANHA

COMO GARANTIR

UMA RÁPIDA

RECUPERAÇÃO

DE DADOS

Nos dias que correm,

é impossível não se estar

consciente do fenómeno

do ransomware, que

cresce vertiginosamente

e ameaça todos

os sectores, com

os cibercriminosos

a tentarem activamente

travar o quotidiano

dos negócios.

E

nquanto há 10 ou 20 anos as empresas protegiam os seus dados de erros

humanos ou catástrofes naturais, que podiam destruir os servidores que

continham os seus dados, actualmente, temos de proteger os dados de

outras pessoas. Se as empresas não se protegerem adequadamente, é

apenas uma questão de tempo até que um cibercriminoso aceda aos seus

dados. Esta é uma ameaça a que todos devem prestar a devida atenção, pois

nenhum sector está imune.

A premissa “trabalhar em qualquer lugar, a qualquer hora” impulsionou o panorama

das ameaças nos últimos anos, já que uma enorme parte da força de trabalho

mundial trabalha remotamente, muitas vezes fora das redes corporativas. Isto levou,

e continua a levar, a um aumento drástico dos potenciais vectores de entrada para

os cibercriminosos. Além do mais, com muitos ficheiros armazenados localmente e a

trabalhar offline, há um risco acrescido de não se fazer o devido backup.

Embora a maioria das empresas já tenha estratégias de protecção de dados, trata-se,

frequentemente, de soluções herdadas e que precisam de ser modernizadas. São muitas

as empresas que tentam implementar patches para adaptar as suas soluções ao actual

panorama, mas isto tem um efeito limitado e deixa os dados desprotegidos. Para garantir

que as estratégias actuais se adaptam aos tempos que correm, deve ser atribuído

um orçamento a investir em novas soluções de protecção de dados. É crucial que as

empresas implementem uma solução eficaz de protecção de dados para negar o acesso

não autorizado e garantir uma rápida recuperação dos dados perdidos, caso aconteça o

pior dos cenários.

54 RISCO MARÇO / MAIO 2022


Apesar de ainda não vermos as empresas a

adoptarem estas novas tecnologias em massa,

espero que isto mude gradualmente.

GARANTIR UMA RÁPIDA RECUPERAÇÃO

DE DADOS

Um dos aspectos mais importantes na

protecção de dados é a rapidez com que se

pode recuperar os dados perdidos em caso

de incidente. Para garantir essa recuperação

rápida, as empresas devem adoptar as seguintes

boas práticas:

Manter-se actualizado: certifique-se de que

a sua plataforma de dados está actualizada

e adopta as novas funcionalidades que os

fornecedores estão a trazer para o mercado, para

evitar a fuga de dados através de lacunas em

soluções herdadas.

Definir camadas de protecção: tal como precisa

de mais uma peça de roupa para se proteger

no Inverno, existem diversas soluções que

pode adoptar numa estratégia de protecção de

dados, como, por exemplo, uma abordagem de

zero-trust em matéria de segurança, permitir

aos colaboradores acesso apenas às áreas que

precisam para trabalhar, ter soluções de protecção

air-gap para os activos mais críticos e utilizar

autenticação multifactorial.

Testar, testar e voltar a testar: confie nas

suas soluções apenas após ter testado a sua

capacidade para recuperação de dados e repelir

qualquer tentativa de ataque.

Vivemos tempos de mudança, com um

panorama de ameaças complexo e em constante

evolução. As empresas, mais do que nunca, devem

estar atentas e proteger-se adequadamente

contra potenciais ciberataques.

UM DOS ASPECTOS

MAIS IMPORTANTES

NA PROTECÇÃO

DE DADOS

É A RAPIDEZ

COM QUE SE PODE

RECUPERAR OS

DADOS PERDIDOS

EM CASO

DE INCIDENTE

RECOVERING DATA...

A PREMISSA “TRABALHAR EM QUALQUER LUGAR, A QUALQUER HORA”

IMPULSIONOU O PANORAMA DAS AMEAÇAS

NOS ÚLTIMOS ANOS

RISCO MARÇO / MAIO 2022 55


OPINIÃO

POR RITA ANDRÉ,

SENIOR ASSOCIATE – CORPORATE RISK

& BROKING E RESPONSÁVEL PELO COMITÉ WTW

IBÉRICO DE TRAVEL & TOURISM NA WTW PORTUGAL

PROTEGER

A REPUTAÇÃO:

UM IMPERATIVO

NO SECTOR TURÍSTICO

A importância

da reputação, como um

activo intangível, cresceu

e representa uma parte

significativa do valor total

das empresas.

O

s danos à reputação devem ser considerados um risco importante para qualquer

negócio, mas ganham cada vez mais importância e peso no sector do lazer e do

turismo, que é um daqueles onde existem maiores riscos reputacionais.

No mundo hiperconectado onde vivemos, em que qualquer caso é

divulgado pelos meios de comunicação e pelas superpoderosas redes

sociais, muitas vezes ampliados, retocados e alterados, há uma mudança

de paradigma no que diz respeito às fontes que elegemos para obter informação, mas

também no que se refere à interpretação que podemos fazer dessa informação, pois a

credibilidade das fontes é mais vezes colocada em causa.

Não é em vão que já se diz que vivemos na era da “pós-verdade”, onde abundam

embustes e fake news, vídeos falsos, links maliciosos, artigos difamatórios ou imagens

controversas, que, com a sua capacidade viral, levam a claros exemplos de manipulação

de massas e podem danificar significativamente a reputação – e, consequentemente,

o negócio - de um hotel, restaurante, companhia aérea ou qualquer outra empresa do

sector do lazer e turismo, especialmente vulnerável devido à sua própria idiossincrasia.

As alterações demográficas, de perfil de consumo e a queda da confiança dos cidadãos,

a manipulação da opinião pública e a ausência de verificação de fontes, e o aumento

exponencial da quantidade e qualidade dos dados e informações divulgadas nos media e

redes sociais, são factores que dão lugar a um novo panorama reputacional, no qual as

empresas do sector turístico – especialmente a hotelaria – têm de se desenvolver e saber

como se proteger. Para dar um exemplo, todos os anos existem tentativas de enganar os

hotéis em cerca de 60 milhões de euros. Os dados da Confederação Espanhola de Hotéis

e Alojamentos Turísticos indicam que mais de 90% das reclamações recebidas pelos

operadores turísticos são fraudulentas e visam defraudar os estabelecimentos hoteleiros.

Estas fraudes estão, geralmente, relacionadas com níveis de higiene supostamente

baixos, saúde e segurança, e não só têm impacto económico, como afectam muito

negativamente a reputação do estabelecimento. Este tipo de esquema, apesar de não

visar o dano reputacional, utiliza-o como um meio para atingir um fim, que neste caso é a

compensação financeira.

Além da multiplicidade de situações e riscos que devem estar devidamente identificados

e acautelados pelas empresas no sector do turismo, através da cobertura dos mesmos

nas suas apólices de seguro, somam-se agora vários riscos reputacionais susceptíveis

de “viralização” na opinião pública, pela sua dimensão, público alvo ou questões de

actualidade, tais como danos a pessoas nas instalações (por exemplo, uma queda ou

intoxicação alimentar), prejuízos a clientes por falhas de segurança (roubo, danos a bens),

56 RISCO MARÇO / MAIO 2022


denúncias de falta de condições de higiene ou

limpeza, condutas discriminatórias ou maus-

-tratos a clientes ou mesmo com o próprio staff,

agressões, acusações de empregados em relação

à igualdade de oportunidades, discriminação,

condições de trabalho ou segurança… São temas

que estão na ordem do dia e que devem ser

considerados como riscos reputacionais reais.

Neste contexto, com um consumidor cada

vez mais informado e exigente, e devido à

ampla divulgação que qualquer evento pode

alcançar através das redes sociais ou outras

vias, o cenário das reclamações mudou de

forma significativa e é crucial que as empresas

do sector turístico se questionem sobre se os

seus actuais programas de gestão de risco e

apólices de seguro respondem a esta mudança

de paradigma e a uma crise que envolva algum

destes aspectos. Em caso afirmativo, é essencial

ter um plano de actuação definido e preparado

para dar uma resposta rápida e eficaz a cada

um dos cenários identificados. Se a resposta for

não, devem reavaliar este tema e considerá-lo

como uma das principais preocupações para

a reputação da empresa e a forma como

é vista no mercado. Deverão tomar medidas

e estar conscientes de que existem propostas

no mercado dos seguros que têm em

consideração estes e outros cenários de

potencial crise de reputação.

O sector dos seguros tem a obrigação de se

manter à frente do mercado e das realidades

políticas e sociais. Por esta razão, foram

desenvolvidas ferramentas que permitem uma

análise exaustiva dos dados de reputação em

A REPUTAÇÃO É

VIRAL, MENSURÁVEL

E REVERSÍVEL

COM UMA

ESTRATÉGIA DE

ACTUAÇÃO BEM

DEFINIDA

E POLÍTICAS

DE COBERTURA

ADEQUADAS

tempo real, através da aplicação de modelos de

Inteligência Artificial, que permitem medir o risco

reputacional, fornecendo métricas específicas e

tornando-os seguráveis.

Estão disponíveis no mercado segurador

seguros de gestão de crise, nomeadamente

o risco reputacional, que possibilitam a

transferência de riscos para uma apólice,

indemnização por interrupção da actividade,

comunicação de crises e reabilitação da marca.

E existem equipas de consultores altamente

especializados em gestão de crises, que

prestam assistência directa quando necessário

pelo tomador do seguro, para que a empresa

afectada possa ter apoio para gerir as tarefas

e a informação em situações de crise (gestão

de mensagens para os meios de comunicação,

relações institucionais, gestão de redes sociais

e comunicação online, comunicação interna,

comunicação para os clientes…), cujo custo é

coberto pelas seguradoras.

Uma crise de reputação pode surgir a

qualquer momento e normalmente acontece

de forma surpreendente e viral, como um

acontecimento negativo que, de maior ou menor

gravidade, ameaça prejudicar a imagem das

empresas e de toda a sua cadeia comercial,

económica e financeira. Porém, existem

ferramentas e modelos tecnológicos para

antecipar potenciais cenários de crise e receber

alertas prévios de problemas que podem estar

a desenvolver-se no horizonte, para que o

tomador do seguro possa preparar e planear a

sua resposta.

Da mesma forma, existe a indemnização

pelos lucros perdidos e os custos associados à

reabilitação e recuperação da marca, conceitos

especificamente desenvolvidos para ajudar os

tomadores de seguro a recuperar após uma crise.

A boa notícia é que a reputação é viral,

mensurável e reversível com uma estratégia de

actuação bem definida e políticas de cobertura

adequadas. Desde incidentes ambientais

a ciberataques, passando por processos

de reclamações, as crises de reputação no

turismo podem destruir marcas, desvalorizar as

empresas e até pôr fim a carreiras profissionais

promissoras. Estar preparado, antecipar-se

e actuar com precisão, rapidez e agilidade é a

chave para resolver uma crise de reputação.

Importa ter presente que este tipo de risco

pode ser transferido para o mercado segurador,

onde os peritos e os especialistas nestas matérias

ajudarão a definir, avaliar e parametrizar

as contingências que uma empresa ou estabelecimento

pode enfrentar. Ter uma cobertura

específica e personalizada contra incidentes que

afectam negativamente a reputação de uma

empresa é, agora, um imperativo.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 57


PAGAMENTOS

TÁCTICAS

PARA COMBATER

FRAUDES

NOS PAGAMENTOS

S

empre que uma tecnologia passa a ser mais utilizada, cresce também o

número de pessoas dispostas a explorar as principais vulnerabilidades

para lucrar com isso. É isto que está a acontecer com os pagamentos

online, principalmente depois do crescimento significativo que estes

tiveram nos últimos dois anos, impulsionados pelos confinamentos da população,

motivados pela pandemia de Covid-19.

Segundo dados de um estudo da Merchant Risk Council em 2019, ainda antes

de toda esta evolução no sector dos pagamentos, 2,5% de todas as tentativas de

pagamento online já eram rejeitadas devido a suspeitas de fraude. Em Portugal, o

mais recente Retail Report da plataforma de pagamentos Adyen refere que quase

quatro em cada 10 empresas portuguesas tem um sistema para identificar fraudes.

Os sectores da hotelaria, cultura e electrónica são os que atribuem maior importância

a esta implementação (60%).

Esta realidade faz com que se torne cada vez mais fundamental, aos retalhistas,

estarem protegidos com sistemas de gestão de fraude adequados e actualizados.

Do lado do comprador, os portugueses recorrem a sistemas já conhecidos de quem

está habituado a este tipo de pagamentos, como é o caso do 3D Secure (30%), palavras-passe

de utilização única ou códigos por SMS (27%) e sistemas de identificação

de comportamento do cliente (28%) para prevenir potenciais ataques.

Mas que tipo de fraudes podem chegar aos retalhistas? A Ayden partilhou cinco

exemplos que podem ajudar a perceber melhor como as lojas online podem evitar

cenários de fraude.

Teste de cartões

Uma das técnicas de fraude

mais utilizadas é o teste a cartões

de crédito roubados para verificar se se

mantêm activos. Aqueles que se confirma

poderem ser utilizados são depois vendidos

na dark web por preços substancialmente

mais elevados do que aqueles cartões que,

depois de roubados, não são alvo de nenhum

teste.

Para confirmar o estado do cartão, uma

técnica comum é a subscrição de serviços

online em que a primeira mensalidade é

oferta, mas que pedem o número de cartão

de crédito logo no momento do registo

– uma situação comum, por exemplo, em

serviços de streaming de música e filmes.

Para confirmar o estado do cartão, estes

serviços costumam fazer uma cobrança

sem valor, por isso, caso não se consiga

concluir o registo, é sinal de que o cartão

não se encontra válido.

58 RISCO MARÇO / MAIO 2022


PAGAMENTOS

ONLINE

Os pagamentos digitais

são cada vez mais

utilizados e, por isso

mesmo, estão a aumentar

as fraudes relacionadas

com as compras online.

OS PEDIDOS

DE REEMBOLSO EM LOJAS

ONLINE SÃO, HOJE EM DIA,

UMA FONTE

DE RENDIMENTO

PARA GRUPOS QUE

SE DEDICAM À FRAUDE

COM PAGAMENTOS

NA INTERNET

Como combater este tipo de fraude? Por

exemplo, através de tecnologia de análise

comportamental capaz de identificar tentativas

de fraude. Com base na análise do

comportamento dos consumidores, é possível

estabelecer regras para bloquear alguns

cenários e continuar a autenticar transacções

legítimas. Este tipo de tecnologia analisa

situações em que há muitas tentativas

de transacções num curto espaço de tempo,

o que pode indiciar a presença de robots ou

scripts criados para testar cartões.

Roubo de contas e dados

de pagamento

Este tipo de fraude resulta de

uma combinação de phishing e roubo de

identidade, onde são criados websites falsos

com o intuito de roubar senhas e informações

de pagamentos para fraudes futuras.

O combate dá-se através de um sistema de

gestão de risco flexível, que permite que o

vendedor adicione informações, capazes de

gerar perfis e assim distinguir entre compradores

genuínos e fraudulentos. Através

destes perfis, é possível estabelecer uma timeline

de visualização para compreender o

comportamento de consumidores em compras

legítimas e aquilo que os distingue de

fraudes com uso de roubo de identidade.

Fraude de triangulação

Existem três elementos que

compõem uma fraude de triangulação:

o consumidor fraudulento, o consumidor

legítimo e uma loja virtual. O consumidor

legítimo é levado a realizar uma

compra numa loja falsa, onde o consumidor

fraudulento rouba os dados de pagamento

do pedido; depois, faz uma compra numa

loja legítima, realizando de seguida um pedido

de reembolso. Em última instância, os

dados do cartão de crédito podem ser vendidos

na dark web após a fraude.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 59


PAGAMENTOS

Este tipo de fraude é combatido através

de ferramentas que permitam aos vendedores

bloquear compradores associados a

suspeitas de fraudes de triangulação.

Fraude de reembolso

Os pedidos de reembolso em lojas

online são, hoje em dia, uma

fonte de rendimento para grupos que se dedicam

à fraude com pagamentos na internet.

Esta fraude consiste em configurar websites

que oferecem serviços de reembolso,

ligando-se a consumidores legítimos, para,

de seguida, entrarem em contacto com

a loja online, fazendo-se passar por um

consumidor com uma queixa de fraude ou

aproveitando-se de regras de políticas de

devolução em relação a itens perdidos ou

danificados. Tudo isto com o objectivo final

de obter o valor de reembolso de uma compra.

Este é um dos tipos mais comuns de

fraude, mas é também um dos mais difíceis

de detectar.

Para o combater, é necessário ter implementado

um sistema de comércio unificado

que possa ajudar a compreender o

percurso completo de um comprador, analisando

se existem pedidos anteriores que

possam ajudar a identificar uma fraude. Por

UMA DAS TÉCNICAS

DE FRAUDE MAIS UTILIZADAS

É O TESTE A CARTÕES

DE CRÉDITO ROUBADOS

PARA VERIFICAR

SE SE MANTÊM

ACTIVOS

exemplo, compradores que utilizam diversos

cartões ou identidades para abrir muitos

pedidos de reembolso.

Outra forma de combater estas fraudes

é através de uma combinação de funcionalidades

que permitam criar regras personalizadas

de risco. Estes cenários ajudam a

identificar um comprador que possa estar a

utilizar dados de forma irregular.

Uma terceira forma de combate pode

ser a criação de listas de bloqueio – através

de lista de referência é possível restringir

o acesso deste tipo de consumidores à

loja online.

Fraude com cartões presente

Os cartões presente que muitas

lojas online disponibilizam podem

ser alvo de várias formas de fraude.

Estes cartões são particularmente interessantes

para os burlões, por serem difíceis

de rastrear e porque não estão sujeitos à

mesma regulamentação que um cartão de

crédito ou débito.

Um exemplo desta fraude é quando a

pessoa fraudulenta utiliza dados de pagamentos

roubados para fazer uma compra

online. E, de seguida, pede a devolução dos

itens, com geração do valor da compra em

créditos num cartão presente.

Uma das formas apontadas pela Ayden

para combater este tipo de fraude é através

da adição de dados de contexto do comportamento

dos consumidores para ajudar

a construir uma defesa mais robusta contra

fraudes relacionadas com cartões de

presentes. Por outro lado, uma combinação

de verificações de risco personalizadas

e uma lista de bloqueio assente nesse tipo

de dados poderá ajudar a identificar este

tipo de transacção.

Uma das ferramentas de gestão de risco

ao dispor dos comerciantes para combater

fraudes com pagamentos online é o RevenueProtect,

que utiliza uma rede global que

envolve diversos sectores para tomar melhores

decisões, baseadas em dados, para

combater as fraudes de forma efectiva.

60 RISCO MARÇO / MAIO 2022


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VÁLIDOS PARA

CONTINENTE

E ILHAS


GREEN BONDS

GREEN BONDS:

INVESTIR

NO PLANETA

As Green Bonds são cada vez mais uma

proposta que agrada aos investidores,

porque obtêm resultados ao mesmo

tempo que permitem o desenvolvimento

de empresas ligadas à protecção do meio

ambiente. João Safara, administrador

do ISQ, falou com a Risco sobre este tema.

POR PAULO MENDONÇA

Q

uais os factores que explicam uma maior popularidade

das Green Bonds nos últimos anos?

A actual sociedade, ao ter um conhecimento mais profundo sobre

o estado do planeta e uma constatação de que as consequências

das alterações climáticas estão cada vez mais presentes e

com eventos extremos na vida de todos nós, começa a ter comportamentos e objectivos

no curto prazo que podem vir a gerar efeitos positivos a médio e longo prazo.

A COP21 de Paris e a COP26 de Glasgow vieram trazer ao mundo um compromisso

de alcançar a neutralidade carbónica em 2050 e o principal meio para o

conseguir é através da transição energética, o que vai levar à criação de uma infra-

-estrutura energética de muito baixa emissão de carbono (ou mesmo zero). Para

esta transição, os orçamentos públicos dos países não são suficientes, o que impõe

a captação de recursos junto do mercado de capitais e de investidores tanto por

emitentes privados como públicos.

O sucesso e popularidade das Green

Bonds é o reflexo de que actualmente é

possível investir capital em produtos financeiros

(geralmente com rating de qualidade

e de baixo risco) em que o retorno não

será apenas o cupão associado da emissão

obrigacionista, mas também preponderantes

impactes positivos no planeta a longo

prazo, na medida em que estão fundamentalmente

associadas a financiamentos que

asseguram o cumprimento das metas da

neutralidade carbónica.

62 RISCO MARÇO / MAIO 2022


GREEN BONDS

João Safara,

administrador do ISQ

No fim do dia, o investidor considera

que investiu numa boa taxa de juro, mas

também é retribuído com um prémio “moral”

de estar a ajudar a salvar o planeta e as

próximas gerações.

Adicionalmente, em alguns países,

como forma de potenciar a transição energética

e climática, são oferecidos benefícios

fiscais para os emitentes e/ou para os

subscritores das Green Bonds, o que ori-

gina por vezes uma vantagem no pricing

comparado com as obrigações tradicionais,

o que também ajuda na popularidade

das mesmas. Em Portugal não existem benefícios

fiscais associados às Green Bonds.

Além das vantagens do ponto de vista

dos factores ESG, quais as mais-valias

em termos de rentabilidade?

Para já, na óptica dos subscritores, estes

não encontram nas yields das obrigações

verdes ganhos financeiros superiores

face às obrigações tradicionais. Já existem

alguns estudos de revistas científicas que

comparam as yields do mercado primário

e secundário das Green Bonds face às

yields das obrigações tradicionais e esses

estudos têm constatado que as yields das

Green Bonds possuem um valor inferior

entre 15 a 20 pontos base face às obrigações

tradicionais. Esse prémio, que na gíria

das finanças sustentáveis apelidam de

Greenium, permite assim aos emitentes

ter um custo mais baixo.

Um outro ponto relevante nestes estudos

é a constatação de que os emitentes

RISCO MARÇO / MAIO 2022 63


GREEN BONDS

de Green Bonds, que sejam sociedades

abertas cotadas, vêem os valores das suas

acções subirem nos dias seguintes após o

sucesso da emissão. Os investidores accionistas

percebem que um emitente, ao

fazer essa emissão “verde”, está disposto a

mudar os seus comportamentos e estratégias

de curto para médio/longo prazo e

não tem constrangimentos do seu investimento

ser certificado por uma terceira

parte, o que vai impulsionar um aumento

do valor da acção.

Se excluirmos casos raros de emissões

obrigacionistas verdes através de veículos

próprios (os vulgos SPV – special purpose

vehicle), no qual o activo verde é apenas o

único activo do respectivo balanço, o risco

de um detentor de uma obrigação verde é

praticamente igual ao de um detentor de

uma obrigação tradicional, na medida em

que não está exposto directamente ao risco

do projecto “verde”, mas sim exposto à

totalidade do balanço do emitente e à sua

respectiva liquidez.

Como se distinguem outros tipos

de instrumentos financeiros que estão

a aparecer, como as Social Bonds

e as Climate Bonds?

Dentro das finanças sustentáveis, e de

forma a cobrir os factores ESG (Environmental,

Social e Governance), existe uma

enorme quantidade de instrumentos financeiros,

mas geralmente “apenas” diferem

entre si no projecto subjacente, no qual

esse capital vai ser canalizado, na medida

em que a lógica, o processo de implementação

e o processo legal são praticamente

os mesmos entre os diversos instrumentos.

Por exemplo, as Social Bonds levantam

capital para projectos que tragam resultados

positivos para a sociedade em áreas

tão distintas como a educação, reinserção

social, habitação, saneamento, justiça,

saúde e emprego, entre outras. Com o

surgimento da pandemia de Covid-19, as

Social Bonds começaram a ter um amplo

destaque, na medida em que os governos

centrais e regionais de diversos países necessitaram

de se financiar para ajudar as

populações mais afectadas pela pandemia.

O SUCESSO DAS GREEN

BONDS É O REFLEXO

DE QUE ACTUALMENTE

É POSSÍVEL INVESTIR

CAPITAL EM

PRODUTOS

FINANCEIROS

EM QUE O RETORNO

NÃO SERÁ APENAS

O CUPÃO ASSOCIADO

As Climate Bonds são uma subárea das

Green Bonds referente a projectos com impactes

positivos no clima e na redução dos

gases com efeito de estufa, mas que ainda

não estão enquadrados na framework das

Green Bonds, através da Climate Bonds

Standard and Certification Scheme.

Actualmente, com bastante dinamismo

e relevância no mercado de dívida das

finanças sustentáveis, encontra-se a tipologia

“sustainability-linked bonds (SLB)”

em que o cupão da obrigação se encontra

ligado à performance ou às metas a atingir

pelo emitente e não apenas à monitorização

do projecto, como acontece com as

Green ou Social Bonds.

Como se caracteriza o novo serviço de

Second Party Opinion do ISQ e a que tipo

de investidores se dirige?

O ISQ, pela sua experiência na área ambiental

e de sustentabilidade ao longo dos

últimos anos, tem a capacidade de realizar

second party opinions referentes às diferentes

tipologias de dívida sustentável.

Tendo por base os princípios e guias

da International Capital Market Association

(ICMA), da Loan Market Association

(LMA) e os Environmental, Social

and Governance Principles (ESG), o

ISQ analisa e avalia a adequabilidade dos

projectos candidatos a financiamento de

acordo com as categorias de elegibilidade,

64 RISCO MARÇO / MAIO 2022


GREEN BONDS

de modo que se possa oferecer às empresas

emitentes, bem como às instituições

financeiras e a outros investidores, a segurança

de que os seus fundos estão alinhados

com as principais “frameworks” de finanças

sustentáveis e que vão ao encontro

dos objectivos estipulados.

Sendo o ISQ um centro de interface e

de tecnologia de apoio à indústria, um dos

principais factores de distinção perante os

outros concorrentes é a sua capacidade de

engenharia e observação técnica no terreno

dos referidos projectos “green”. Dessa

forma tenta-se garantir de uma forma

independente que comportamentos de

greenwashing não sejam executados.

OS INVESTIDORES

ACCIONISTAS PERCEBEM

QUE UM EMITENTE,

AO FAZER ESSA

EMISSÃO “VERDE”,

ESTÁ DISPOSTO

A MUDAR OS SEUS

COMPORTAMENTOS

E ESTRATÉGIAS

De que formas o ISQ presta apoio aos

investidores nos seus projectos?

O ISQ e as empresas do Grupo ISQ

possuem conhecimento, ferramentas e soluções

idênticas ao que melhor se faz internacionalmente

no apoio aos investidores e

promotores dos vários projectos, consoante

as especificidades e estado de maturidade

de cada projecto.

Numa altura em que grandes projectos

estão em fase de desenvolvimento e/ou

implementação, quer associados ao Plano

de Recuperação e Resiliência, quer a outro

tipo de financiamentos com características

ESG, o ISQ consegue apoiar os seus clientes

na identificação de grandes condicionantes,

que no futuro possam inviabilizar

a implementação de um projecto, quer por

constrangimentos legais, administrativos,

quer por incompatibilidade com instrumentos

de gestão territorial, perímetros urbanos,

biodiversidade, património arqueológico,

recursos hídricos e paisagísticos.

A identificação dos roteiros para obtenção

de autorizações e licenças, o apoio

nos processos de licenciamento municipal,

industrial e ambiental e a realização de estudos

técnicos nos regimes ambientais são

fundamentais para o sucesso dos processos

de legalização dos projectos.

Por outro lado, nos últimos anos, o

interesse cada vez maior de investidores

internacionais pelo país trouxe para a ordem

do dia a realização de Due Diligences

ambientais e energéticas em processos de

M&A e também de promoção imobiliária

e respectiva caracterização do passivo

ambiental, como seja a avaliação da contaminação

de solos e águas subterrâneas,

bem como a realização de diagnósticos de

circularidade dos processos (economia circular),

uma vez que a maioria dos investidores

internacionais está sensível para os

objectivos de desenvolvimento sustentável.

É de destacar, também nos últimos

anos, o apoio dado em matérias de monitorização

de programas de ciclo de vida

e pegada de carbono e hídrica, soluções

de mitigação e adaptação das alterações

climáticas, a sustentabilidade de edifícios

(BREEAM, LEED, WELL), bem como a

elaboração e revisão de relatórios ESG,

entre outros.

RISCO MARÇO / MAIO 2022 65


ENTREVISTA

CONHECER

A SUA IDENTIDADE

FINANCEIRA

Bárbara Barroso,

autora do livro

“Ponha o Seu Dinheiro

a Trabalhar para Si”

No livro “Ponha o Seu

Dinheiro a Trabalhar para Si”,

Bárbara Barroso apresenta

uma metodologia para

ajudar os leitores a investir

as suas poupanças.

POR PAULO MENDONÇA

A

credita que os portugueses

se tornaram mais

“poupados” devido às

mudanças na sociedade

que ocorreram nos últimos dois anos?

Os dados demonstram que, em alturas

de crise, a taxa de poupança tende a aumentar,

pela incerteza que existe quanto ao futuro,

levando a uma diminuição do consumo.

Com a pandemia e as pessoas em casa, quem

conseguiu manter os seus empregos naturalmente

acabou por conseguir poupar mais.

No entanto, poupar não é a mesma

coisa que investir…

Poupar é aforrar, guardar dinheiro. Investir

significa criar riqueza. Em Portugal,

há poucos hábitos de poupança e, de investir,

menos ainda. A falta de literacia financeira

leva a que as pessoas não entendam que,

a cada dia que passa sem investirem o seu

dinheiro, estão a ficar mais pobres. Antes de

falarmos de mentalidade, temos de falar de

educação financeira. Trabalhar o mindset

ou a identidade financeira faz parte de um

processo maior de capacitação financeira.

De que forma o seu livro vai ser útil

para ajudar os leitores a investir

com sucesso?

O livro “Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar

para Si” apresenta um processo, uma

metodologia que foi testada, primeiro, na

minha própria vida e, depois, na vida de

centenas de pessoas que já acompanhei. O

livro tem um passo a passo que qualquer

pessoa pode seguir para se sentir capacitada

a gerir e a investir melhor o seu dinheiro.

O seu livro fala sobre “reprogramar”

a mente. A relação que temos com

o dinheiro é primordial para atingir a

liberdade financeira?

A identificação da nossa relação com o

dinheiro é essencial para conseguirmos dar

os passos seguintes. É isso que vai permitir

entendermos qual é a nossa identidade

financeira e por que tomamos certas decisões

de consumo, de poupança e/ou investimento.

Grande parte da relação que

temos com as finanças pessoais na idade

adulta advém das experiências e influências

que tivemos desde crianças. Muitas

crenças estão tão enraizadas que nem nos

apercebemos, e damo-las como “normais”.

No livro confrontamos o leitor com muitas

das suas crenças, que o vão ajudar a entender

como está programada a sua mente e

de que forma, ao reprogramá-la, conseguirá

alterar também a sua relação com o

dinheiro e, consequentemente, ter também

resultados diferentes.

O que é, para si, poupar de uma

forma inteligente?

É investir a poupança!

66 RISCO MARÇO / MAIO 2022

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