Revista Dr Plinio 288
Março de 2022
Março de 2022
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Publicação Mensal<br />
Vol. XXV - Nº <strong>288</strong> Março de 2022<br />
O valor e verdadeiro<br />
sentido do sofrimento
Lewis Hulbert (CC3.0) Michael Figiel/ Bff (CC3.0)<br />
A águia, a rosa e<br />
o miosótis<br />
H<br />
á uma florzinha chamada miosótis, minúscula, mas de um azul encantador, cuja<br />
constituição das pétalas é uma verdadeira beleza!<br />
As perfeições de Deus não poderiam exprimir-se igualmente numa enorme rosa<br />
e num pequeno miosótis, porque este tem um certo encanto que nos leva a sorrir, enquanto<br />
uma rosa majestosa não provoca o mesmo sorriso.<br />
Algo por onde Deus é infinitamente gracioso e que não pode se manifestar na rosa, manifesta-se<br />
no miosótis. Portanto, era preciso que houvesse a rosa e o miosótis no mundo vege-<br />
tal para se ter uma ideia de conjunto das perfeições divinas.<br />
Assim, Deus criou seres para nos deleitarem e nos descansarem do sublime, mas estes<br />
nunca estão na linha oposta do sublime.<br />
Por exemplo, a águia é sublime, porém entre ela e o<br />
miosótis não há contradição. Enquanto o miosó-<br />
tis é encantador e faz sorrir, a águia empolga,<br />
entusiasma. Entretanto, o miosótis é uma<br />
gota daquela beleza da qual a águia é um<br />
oceano. Ora, entre a gota e o oceano<br />
não há contradição, mas continuidade.<br />
(Extraído de conferências de<br />
5/9/1974 e 27/11/1976)
Sumário<br />
Publicação Mensal<br />
Vol. XXV - Nº <strong>288</strong> Março de 2022<br />
Vol. XXV - Nº <strong>288</strong> Março de 2022<br />
O valor e verdadeiro<br />
sentido do sofrimento<br />
Na capa,<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1981.<br />
Foto: Arquivo <strong>Revista</strong><br />
As matérias extraídas<br />
de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
— designadas por “conferências” —<br />
são adaptadas para a linguagem<br />
escrita, sem revisão do autor<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />
<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />
propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />
ISSN - 2595-1599<br />
CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />
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Serviço de Atendimento<br />
ao Assinante<br />
editoraretornarei@gmail.com<br />
Segunda página<br />
2 A águia, a rosa e<br />
o miosótis<br />
Editorial<br />
4 O tumor carnavalesco<br />
e a guerra<br />
Piedade pliniana<br />
5 Oração pedindo a<br />
virtude da insistência<br />
Dona Lucilia<br />
6 Aceitação digna, forte e<br />
doce do sofrimento<br />
Denúncia profética<br />
9 Os juízos temerários favoráveis<br />
e seus malefícios<br />
Reflexões teológicas<br />
12 Necessidade do sofrimento<br />
Eco fidelíssimo da Igreja<br />
17 Reflexões sobre o Santo Sudário<br />
Calendário dos Santos<br />
24 Santos de Março<br />
Hagiografia<br />
26 Um príncipe segundo o<br />
plano de Deus<br />
Luzes da Civilização Cristã<br />
33 Virgem-Mãe, Rainha e<br />
General<br />
Última página<br />
36 A mais alta lição de obediência<br />
3
Editorial<br />
O tumor carnavalesco e a guerra<br />
Certos escritores, pretendendo dar-se ares de profundos, psicólogos, filósofos ou de qualquer outra<br />
coisa em que se lhes possam estatelar o pedantismo e a superficialidade, costumam afirmar ser durante<br />
a mascarada carnavalesca que o homem, “tirando a máscara dos preconceitos e das convenções<br />
sociais”, mostra a sua verdadeira fisionomia. Este ultracediço chavão e pretendido paradoxo encontra<br />
sempre, entre certas pessoas graves, o acolhimento devido aos grandes oráculos.<br />
Ora, a realidade é exatamente o contrário. No carnaval, não só a humanidade não tira máscara alguma,<br />
antes se aferra mais encarniçadamente à que, nestes últimos tempos, não cessa de usar.<br />
Lembro-me de que, quando era menino, certo professor me contou o episódio de um diplomata japonês,<br />
o qual, tendo assistido ao carnaval que em sua pátria não se comemora, enviou ao seu governo a seguinte<br />
descrição: “Durante três dias ficam todos loucos e praticam os maiores absurdos; depois, repentinamente,<br />
o senso lhes volta e recobram o juízo.”<br />
A observação muito me impressionou na ocasião e é realmente interessante. Entretanto, cumpre acentuar<br />
que ela não reflete toda a realidade.<br />
Com efeito, há uma regra de moral que afirma: “Nada de péssimo se faz subitamente.” Não nos iludamos.<br />
Erra miseravelmente quem supõe que o carnaval constitui apenas um parêntesis de loucura. Ele é<br />
um tumor que explode, e através de suas secreções pode-se bem avaliar todo o vulto da infecção, a qual,<br />
de maneira mais ou menos disfarçada, já minava anteriormente o organismo. Três dias depois, esse tumor<br />
se cicatriza, na aparência. Fá-lo, entretanto, deixando uma base sempre mais profunda, dolorosa e perigosa<br />
para o tumor do ano seguinte.<br />
Assim, o carnaval não é um oásis ou uma trégua; é um auge, um recrudescimento, crise delirante de um<br />
estado crônico. De fato, o carnaval moderno não passa de uma torpe falsificação, de uma reles intrujice,<br />
de uma atroz mistificação. Sob o pretexto de cultuar a alegria, o carnaval trai a alegria.<br />
Em verdade, o que é a alegria carnavalesca? Embriaguez de álcool, embriaguez de éter, embriaguez de<br />
ritmo. Em suma, a completa desordem do sistema nervoso, a alucinação de pessoas que desejam fugir de<br />
si mesmas, porque em si mesmas morrerão de tédio ou de náusea. Para uma humanidade falsificada, idiotizada,<br />
brutalizada, que detesta a sua alma e não quer contemplar a sua própria face, só mesmo uma alegria<br />
falsificada: o carnaval é inumano.<br />
Há quem discuta se, em tempo de guerra, o carnaval deve ou não ser festejado. Nós achamos que não<br />
só em tempo de guerra, mas em qualquer outro tempo se devem suprimir as festas pagãs do carnaval. A<br />
guerra apenas vem trazer um argumento a mais. Na medida em que as calamidades sejam consequências<br />
dos pecados, façamos penitência, e muito especialmente, afastemos as causas das iniquidades, a fim de<br />
que Deus se compadeça de nós.<br />
Mesmo porque há uma inegável afinidade, íntima e secreta, entre o carnaval e a guerra. Ambos nada<br />
mais são, no fundo, do que a mesma animalização do homem, que o torna cruel e sensual, duas coisas<br />
idênticas. Na realidade, as orgias de Nero não eram completas sem o martírio de muitos cristãos.<br />
Portanto, para que mais três dias de carnaval, se nos ameaçam anos de guerra? A bestialidade de nosso<br />
século já tem este grande carnaval sangrento, não precisa da ninharia do tríduo carnavalesco. *<br />
* Cf. O Legionário n. 492, de 15/2/1942 e n. 551, de 28/2/1943.<br />
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />
4
Piedade pliniana<br />
Oração pedindo<br />
a virtude da<br />
insistência<br />
Flávio Lourenço<br />
Quando sentimos que não rezamos<br />
bem, ao menos devemos rezar muito.<br />
Esta verdade encontra-se expressa na<br />
parábola evangélica do homem que, estando<br />
já dormindo em sua casa, é importunado por<br />
outro que bate à sua porta pedindo pão. Desta<br />
metáfora o Divino Mestre aufere a seguinte<br />
conclusão: “No caso de ele não se levantar<br />
para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente<br />
por causa da sua importunação se levantará<br />
e lhe dará quantos pães necessitar”<br />
(Lc 11, 8).<br />
Por certo, a oração qualitativa é a melhor,<br />
mas a quantitativa nos abre a porta do Céu.<br />
Assim sendo, peçamos:<br />
Ó Mãe do Bom Conselho, recordai-me o<br />
ensinamento do vosso Divino Filho: não era<br />
pessoa grata ao chefe de família aquele homem<br />
que lhe pedia pão, mas por sua extrema<br />
importunidade obteve o que suas qualidades,<br />
de si, não lhe obteriam.<br />
Aqui estou diante de Vós, oh, minha Mãe!<br />
Se olho para mim, quantas razões encontro<br />
para não me sentir pessoa grata! Porém, se<br />
considero vossa misericórdia, tenho a certeza<br />
de que, à força de acumular quantitativamente<br />
orações carregadas com meus defeitos,<br />
acabareis por abrir as portas que, segundo a<br />
estrita justiça, eu não teria o direito de transpor.<br />
Dai-me, pois, a virtude da insistência recomendada<br />
por vosso Divino Filho, pois a ela<br />
foi prometido o prêmio de ser atendida pela<br />
quantidade a prece que não tem qualidade.<br />
Amém.<br />
(Composta em dezembro de 1970)<br />
A Santíssima Virgem - Capela da casa da<br />
Beata Rafaela Ybarra, Bilbao, Espanha<br />
5
Dona Lucilia<br />
Dona Lucilia compreendeu muito bem a sublimidade<br />
do sofrimento, aceitando-o sempre tranquila, digna e<br />
serena, realizando assim um constante ato de união e<br />
semelhança com o Varão das Dores e sua Mãe dolorosa.<br />
J.P. Ramos<br />
Minha mãe era uma pessoa<br />
muito expressiva, comunicava-se<br />
mais pela sua<br />
forma de ser e por seus exemplos<br />
do que pelos seus conselhos. Ela os<br />
dava e, evidentemente, eram muito<br />
bons, mas ela era uma simples dona<br />
de casa, mãe de família como tantas<br />
outras, não uma filósofa ou teóloga,<br />
nada disso. Mas, sua forma de<br />
ser, seu exemplo e sua maneira de<br />
conduzir a vida possuíam uma riqueza<br />
de ideias muito grande para mim.<br />
Sofrendo, dava um<br />
exemplo de caráter<br />
essencialmente religioso<br />
Uma das coisas mais preciosas<br />
que aprendi com ela, e que estava<br />
no seu espírito associada à devoção<br />
ao Sagrado Coração de Jesus – de<br />
quem mamãe era muitíssimo devota<br />
–, era a aceitação e a admiração do<br />
sofrimento como um elemento que<br />
compõe a vida, e sem o qual a existência<br />
não tem valor.<br />
Já naquela época, os homens tinham<br />
horror ao sofrimento e lhes<br />
6<br />
Jesus com a Cruz às<br />
costas - Catedral de Santa<br />
Maria de Nazaré, Belém
parecia que o normal da vida era não<br />
sofrer, mas lhes acontecer apenas<br />
coisas gostosas, saborosas. Quando<br />
lhes sucedia algo desagradável,<br />
reputavam isso um desastre, uma<br />
monstruosidade, que não devia ser.<br />
Mamãe teve muitos sofrimentos<br />
durante sua vida. Tinha a saúde muito<br />
fraca e, sendo relativamente jovem, foi<br />
submetida a uma operação muito arriscada,<br />
na Alemanha, pois do contrário<br />
poderia morrer, e essa cirurgia não<br />
se fazia no Brasil, naquele tempo. Eu a<br />
vi muitíssimas vezes doente. Nas ocasiões<br />
de maior dor, permanecia deitada<br />
na cama durante uma, duas ou três<br />
horas ao dia, conforme o caso, até que<br />
seu fígado melhorasse um pouco e ela<br />
pudesse caminhar.<br />
A pessoa hepática, com frequência,<br />
é muito temperamental, pois o<br />
fígado recebe a descarga nervosa dos<br />
sofrimentos morais. Porém, muitas<br />
vezes penetrei no quarto dela quando<br />
se encontrava nesse estado, e mamãe<br />
estava sempre tranquilíssima,<br />
com uma fisionomia tanto mais elevada<br />
quanto maior era a dor. Como<br />
quem compreende que, oferecendo<br />
esse sofrimento a Deus, ao Sagrado<br />
Coração de Jesus, adquire uma certa<br />
semelhança com Ele, que foi o grande<br />
sofredor, e com sua Mãe Santíssima,<br />
a grande sofredora.<br />
Eu percebia que Dona Lucilia praticava<br />
inteiramente um ato de união,<br />
com o qual ela não se sentia esmagada,<br />
nem pisoteada, mas dignificada.<br />
E tudo isso lhe dava um certo bem-<br />
-estar interior, vindo do equilíbrio da<br />
alma, fazendo com que o sofrimento<br />
não fosse para ela um drama inexplicável<br />
e estúpido, mas sim uma cruz<br />
cheia de significado a carregar.<br />
Ela compreendeu muito bem a sublimidade<br />
e a magnificência do sofrimento<br />
e da aceitação deste, quando<br />
se faz de forma digna, forte e doce.<br />
Eu notava com facilidade quando<br />
o sofrimento de mamãe era mais<br />
acentuado, pois ela ficava mais doce<br />
e delicada de alma. Ela era muitíssimo<br />
carinhosa comigo, em todas<br />
as circunstâncias, sem nenhuma exceção.<br />
Aliás, procedia assim com todos,<br />
mas eu era filho dela, e as mães<br />
são especialmente inclinadas a demonstrar<br />
esse carinho para os filhos.<br />
Eu chegava à seguinte conclusão:<br />
uma pessoa adquire a verdadeira<br />
bondade quando sabe sofrer. Quem<br />
não sabe ou não gosta de sofrer pode<br />
até adquirir uma amabilidade diplomática<br />
ou comercial, mas essa não é<br />
a bondade autêntica. Esta, mamãe a<br />
tinha em alto grau.<br />
Quando comecei a sofrer – o que<br />
se deu muito cedo – olhava para Dona<br />
Lucilia e procurava sofrer como<br />
ela. Tenho certeza de que mamãe,<br />
com isso, dava-me um exemplo<br />
de caráter essencialmente religioso,<br />
muito autêntico.<br />
Sofrimento humano<br />
misturado com o Divino<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo morreu<br />
na Cruz por causa dos nossos pecados.<br />
Seu sofrimento foi necessário, in-<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
7
Dona Lucilia<br />
Samuel Holanda<br />
tra isto. No momento do Ofertório,<br />
portanto, antes da Consagração, o<br />
sacerdote coloca um pouquinho de<br />
água no cálice; ainda não é o Corpo<br />
e o Sangue de Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo, é apenas vinho. Essa gotinha<br />
de água mistura-se com o vinho, mas<br />
este não perde sua substância, porque<br />
a quantidade de água é muito pequena.<br />
Finalmente, o padre consagra<br />
aquele líquido, de maneira que a matéria<br />
da gotinha de água também se<br />
transubstancia no Corpo e Sangue de<br />
Nosso Senhor Jesus Cristo.<br />
O que simboliza isso? A gotinha de<br />
água é o sofrimento humano, e o vinho<br />
é o sofrimento do Homem-Deus.<br />
Quando nós oferecemos nossos sacrifícios<br />
em união com o Sangue de Cristo<br />
e as lágrimas de Maria, então, o nosso<br />
sofrimento se mistura com o de Cristo.<br />
E nós teremos a honra de contribuir,<br />
desta forma, para que o sacrifício tenha<br />
para os homens a eficácia inteira desejada<br />
pela Providência. É por isso que<br />
devemos amar o sofrimento. v<br />
Nossa Senhora das Dores - Málaga, Espanha<br />
(Extraído de conferência de<br />
27/7/1983)<br />
dispensável para a salvação do gênero<br />
humano. Seu Sangue tinha um tal valor<br />
aos olhos do Pai Eterno, que tão-somente<br />
uma gota bastaria para conquistar<br />
esse resgate. Entretanto, Deus Pai<br />
quis que seu Filho sofresse tudo quanto<br />
sofreu, e Jesus assim o quis também.<br />
Quando Nosso Senhor, no Horto<br />
das Oliveiras, pediu “Meu Pai,<br />
se é possível, afasta de mim este cálice!<br />
Todavia, não se faça o que eu<br />
quero, mas sim o que Tu queres”<br />
(Mt 26,39), veio um Anjo para lhe<br />
dar forças. Ou seja, para esse sofrimento<br />
imenso, um Anjo veio consolá-Lo.<br />
Mas teria sido suficiente uma<br />
só gota, e não a imensidade daquele<br />
sofrimento. Quer dizer, Ele quis nos<br />
ensinar a amar o sofrimento e a cruz.<br />
Porém, Deus quis associar os homens<br />
ao seu sofrimento. Na missa há<br />
um símbolo lindíssimo que demons-<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em julho de 1983<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
8
Denúncia profética<br />
Os juízos temerários<br />
Flávio Lourenço<br />
favoráveis e seus<br />
malefícios<br />
Um Anjo consola Nosso Senhor no<br />
Horto das Oliveiras - Basílica de<br />
São Pascoal, Villarreal, Espanha<br />
A Igreja e a sociedade têm padecido<br />
muito mais devido aos juízos temerários<br />
favoráveis do que aos desfavoráveis. A<br />
liberdade de ação, o amplo prestígio e<br />
o domínio sobre o mundo de que goza<br />
o mal se devem à confiança, por vezes<br />
infantil e ridícula, com a qual os bons<br />
abrem seus ambientes aos maus.<br />
Em meu último artigo 1 mostrei<br />
como não pode haver confusão<br />
mais grosseira do que a<br />
de certas pessoas que identificam os<br />
conceitos de juízo temerário e suspeita.<br />
Evidentemente, uma suspeita, pelo<br />
próprio fato de não ser uma certeza,<br />
envolve uma forte possibilidade<br />
de erro. Nem por isto, qualquer suspeita<br />
fundada em indícios seguros deve<br />
ser considerada temerária. Desde<br />
que não tenha havido desproporção<br />
entre os indícios e a suspeita, nenhuma<br />
temeridade terá existido.<br />
Ferir gravemente os<br />
direitos de terceiros<br />
Formular uma suspeita razoável<br />
será, assim, um mal? Não. Pelo contrário,<br />
pode implicar em grave violação<br />
dos mais elementares deveres<br />
não a formular. Demonstrado isto<br />
em meu último artigo, passarei agora,<br />
dentro do mesmo assunto, a outra<br />
ordem de considerações.<br />
Analisemos a palavra “temerário”.<br />
Que significa ela? Imprudente,<br />
inconsiderado. Assim, qualquer juízo<br />
só será temerário se inconsideradamente<br />
formado, isto é, sem aquela<br />
madura análise que deve preceder<br />
todos os nossos julgamentos.<br />
Entretanto, de nenhum modo se<br />
deve daí inferir que, quando erramos<br />
em nosso juízo sobre alguém,<br />
agimos sempre temerariamente. O<br />
homem é falível, e as circunstâncias<br />
muitas vezes o enganam. Por isto,<br />
sempre que se tiver agido com cau-<br />
tela, pode a consciência ficar plenamente<br />
tranquila.<br />
É curioso notar que nem todo juízo<br />
temerário é necessariamente desfavorável.<br />
Se é temerário todo juízo<br />
imprudente, é óbvio que, quando as<br />
conclusões desse juízo forem favoráveis,<br />
nem por isto terão deixado de<br />
ser temerárias.<br />
Não é necessário dizer que, enquanto<br />
o juízo temerário desfavorável<br />
pode lesar gravemente os direitos<br />
da pessoa por ele alvejada, o juízo<br />
temerário favorável é, deste ponto<br />
de vista, inócuo. Entretanto, um juízo<br />
temerário favorável, não ferindo<br />
os direitos da pessoa a quem se refere,<br />
pode ferir gravemente os direitos<br />
de terceiros. E, neste caso, o pecado<br />
daí decorrente será tanto mais gra-<br />
9
Denúncia profética<br />
J.P. Castro<br />
pregado, sócio, cliente, etc. Não há<br />
nisto um evidente desequilíbrio?<br />
Outro exemplo: em geral, os professores<br />
conservam sobre seus antigos<br />
alunos alguma autoridade moral;<br />
entretanto, é tão grande a cegueira<br />
de muitos deles para com esses produtos<br />
de seus esforços educacionais<br />
que só veem neles qualidades e não<br />
defeitos; e, em última análise, a influência<br />
moral dos antigos professores,<br />
em grande número de casos, se torna<br />
inteiramente inútil para os alunos.<br />
Outro exemplo ainda: os presidentes<br />
de setores de Ação Católica ou de<br />
associações religiosas têm obrigação<br />
estrita de discernir, nos associados,<br />
os defeitos que os tornem perigosos<br />
aos demais, a fim de que, se inúteis<br />
as advertências amistosas, os elementos<br />
nocivos sejam eliminados. Conheço,<br />
entretanto, um caso concreto de<br />
certa associação que, tendo relutado<br />
durante anos inteiros em expulsar alguns<br />
membros, acabou por ficar reduzida<br />
a uma inanição absoluta, pela<br />
corrupção dos elementos bons que<br />
tinha conseguido laboriosamente formar.<br />
Não houve, no juízo temerariamente<br />
bom das autoridades dessa associação,<br />
uma grave falta no cumprimento<br />
dos encargos?<br />
Tudo isto posto, é certo que não<br />
são só os juízos temerários desfavoráveis<br />
podem acarretar pecados.<br />
Suspeitas temerariamente<br />
indulgentes<br />
Apóstolos dormindo durante a Agonia de Jesus no<br />
Horto - Colegiada de San Gimignano, Itália<br />
ve quanto mais respeitáveis forem os<br />
direitos assim desrespeitados, bem<br />
como quanto mais numerosas forem<br />
as pessoas prejudicadas.<br />
Pais, professores,<br />
associações religiosas<br />
Exemplifico. Um pai tem deveres<br />
sagrados para com seus filhos. Se<br />
ele, entretanto, levado por uma exagerada<br />
complacência ou por um culposo<br />
descuido, forma de seus filhos,<br />
temerariamente, um juízo muito melhor<br />
do que merecem, viola gravemente<br />
seus deveres, pois que se coloca<br />
na impossibilidade de corrigir seus<br />
filhos. Esse mesmo pai, entretanto,<br />
teria talvez escrúpulo em formar uma<br />
suspeita legítima quanto a algum em-<br />
Penso que chocarei muitos leitores<br />
se a isto eu acrescentar que minha<br />
experiência me vem demostrando<br />
terem a Igreja e a sociedade padecido<br />
muito mais dos juízos temerários<br />
favoráveis do que dos desfavoráveis<br />
formados hoje em dia. Entretanto,<br />
esta é uma importante verdade.<br />
Se o mal goza tantas vezes de uma<br />
imensa liberdade de ação, se ele conquista<br />
círculos de influência cada vez<br />
mais largos, estende seu domínio sobre<br />
o mundo de modo cada vez mais<br />
insolente, enquanto a influência dos<br />
elementos bons se retrai, ferida muitas<br />
vezes de uma oprobriosa impotência,<br />
de uma infecundidade evidente, a que<br />
se deve isto senão à confiança, por vezes<br />
infantil e ridícula, com que os bons<br />
abrem seus ambientes aos maus?<br />
Ora os pecados contra os interesses<br />
da Igreja são, de sua natureza,<br />
maiores e mais graves do que os<br />
cometidos contra interesses humanos.<br />
Por outro lado, os pecados contra<br />
a sociedade são maiores, de sua<br />
natureza, do que os praticados contra<br />
os indivíduos. Tudo isto posto,<br />
quem por juízo temerariamente bom<br />
prejudica a Igreja e a sociedade peca<br />
mais gravemente do que quem por<br />
juízo temerariamente mau prejudica<br />
um indivíduo.<br />
10
Tudo quanto dissemos sobre os juízos<br />
temerários se aplica, ponto por<br />
ponto, às suspeitas temerárias. Também<br />
há suspeitas temerariamente boas.<br />
Quando concebemos uma infundada<br />
e temerária esperança de que alguém<br />
é bom; quando supomos temerariamente<br />
que podemos dar a estas<br />
ou aquelas pessoas as maiores provas<br />
de confiança, com o intuito de as comover<br />
e assim arrastá-las para a Igreja;<br />
quando deixamos de exigir deste<br />
ou daquele indivíduo as garantias necessárias<br />
em matéria de interesses espirituais<br />
ou temporais, por julgarmos<br />
muito auspiciosa sua fisionomia franca<br />
e leal; em todos estes casos cometemos<br />
suspeitas temerariamente boas,<br />
porque nos teremos deixado empolgar<br />
por esperanças infundadas, aparências<br />
enganosas, por ilusões contra as<br />
quais um homem sério deve estar premunido<br />
internamente. E, assim, prejudicamos<br />
seriamente os nossos interesses,<br />
os de nossas famílias, de nossa Pátria<br />
e, o que é pior do que tudo, os da<br />
Santa Igreja. Livre-nos Deus,<br />
pois, das suspeitas temerariamente<br />
severas. Mas livre-nos<br />
também das suspeitas temerariamente<br />
indulgentes.<br />
Caridade neurastênica,<br />
iracunda misericórdia<br />
Flávio Lourenço<br />
Jesus repreende os Apóstolos após<br />
encontrá-los dormindo - Basílica de Santa<br />
Catarina de Alexandria, Galatina, Itália<br />
A este respeito, não julgamos<br />
dever desmascarar o erro<br />
infantil dos que supõem<br />
que todo juízo severo, pelo<br />
próprio fato de ser severo, é<br />
temerário. Achar que um assassino<br />
é um assassino, um<br />
adúltero é um adúltero ou<br />
um ladrão é um ladrão constitui<br />
para muita gente juízo<br />
temerário. Poderá haver opinião<br />
mais ridícula?<br />
Assim, quando Nosso Senhor<br />
chamava os fariseus raças<br />
de víboras e sepulcros<br />
caiados, cometia juízo temerário?<br />
Quando os Apóstolos,<br />
os Papas, os Padres e Doutores<br />
da Igreja estigmatizavam em palavras<br />
candentes os erros dos potentados de<br />
seu tempo cometiam juízo temerário?<br />
E a caridade, segundo essa estranha<br />
moral, consistiria em achar pertinazmente,<br />
e contra toda a evidência<br />
dos fatos, que um assassino é um<br />
cordeiro, um adúltero um lírio, e um<br />
ladrão uma pomba. Isto não é virtude,<br />
mas imbecilidade. Diz-se de Santa<br />
Teresa que ela afirmou que a humildade<br />
consistia na verdade. É também<br />
certo que a caridade não consiste<br />
nem no erro nem na mentira.<br />
Tudo isto está certo, dirá muita gente.<br />
Mas deixemos aos que detêm qualquer<br />
autoridade, seja na família, na sociedade,<br />
no Estado ou na Igreja, o encargo<br />
de formar essas dolorosas certezas<br />
e essas tristes suspeitas. Conformemo-nos<br />
com a nossa condição de súditos<br />
e aproveitemos nela ao menos a<br />
satisfação de viver sem preocupações.<br />
Todo mundo reconhece que para<br />
as altas funções – e quantas funções<br />
há que, sendo humildes, são altíssimas<br />
– é necessária uma preparação<br />
remota. Se todos aqueles que<br />
exercem no movimento católico, na<br />
sociedade ou na família, funções que<br />
os obrigam absolutamente a suspeitar<br />
do próximo – dentro da medida<br />
do justo e do razoável, repetimo-lo<br />
–, prepararem-se para isto só depois<br />
de terem recebido nos ombros o peso<br />
da autoridade, que espécie de chefes<br />
teremos? Não haveria uma analogia<br />
entre eles e um general que só começasse<br />
a aprender estratégia depois<br />
de promovido a essa alta dignidade?<br />
Tenho a certeza de que a leitura<br />
destas reflexões terá causado a muitos<br />
leitores, que sofrem de uma caridade<br />
neurastênica e de uma violenta<br />
e iracunda misericórdia, uma irritação<br />
sem nome. Estas linhas lhes terão<br />
causado, no fundo da consciência, estranhos<br />
e agudos remordimentos. Estavam<br />
em tal paz, e de repente o cenário<br />
se muda diante de seus olhos.<br />
Qual o jornalista impertinente que<br />
assim perturba seu sossego?<br />
O mundo está atravessando<br />
uma tremenda hora de<br />
crise. A “caridade” com que<br />
muita gente, fechando os<br />
olhos ao perigo, dorme o sono<br />
da paz, muito mais se parece<br />
com o torpor dos Apóstolos<br />
no Horto das Oliveiras<br />
do que com uma verdadeira<br />
virtude sobrenatural. Se esses<br />
membros sonolentos da<br />
Igreja militante não querem<br />
ouvir nossa voz, meditem ao<br />
menos nas palavras de Nosso<br />
Senhor: “Una hora non<br />
potuistis vigilare mecum?” 2 v<br />
(Extraído de O Legionário<br />
n. 477, 2/11/1941)<br />
1) Cf. <strong>Revista</strong> <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> n. 287,<br />
p. 8-12.<br />
2) Do latim: Não pudestes vigiar<br />
um hora comigo? (Mt 26, 40).<br />
11
Reflexões teológicas<br />
Flávio Artur<br />
Necessidade do<br />
sofrimento<br />
O homem é criado em estado de prova e sente, ao mesmo<br />
tempo, horror e necessidade dela. É semelhante à psicologia<br />
do guerreiro medieval que deseja a batalha, mas se cobre<br />
de malha de ferro e outras proteções; embora se proteja<br />
contra os ferimentos, quer o risco, pois percebe que assim<br />
a sua vida toma sentido e ele passa a merecer o Céu.<br />
No conjunto dos sofrimentos<br />
que o homem precisa<br />
ter nesta Terra, há modalidades<br />
diferentes correspondendo,<br />
por assim dizer, a zonas em que a alma<br />
humana necessita padecer.<br />
O estado de prova e<br />
o sentido da vida<br />
O homem foi criado, independente<br />
do pecado original, em esta-<br />
do de prova. Assim, é normal haver<br />
no fundo do seu ser algo que o faça<br />
sentir obscuramente que, não sendo<br />
provado, ele não viveu. Embora sinta<br />
de modo confuso o quanto a prova<br />
o faz sofrer, possui uma espécie<br />
de vontade de passar por ela, pois<br />
percebe como isso dá sentido à sua<br />
vida e fá-lo merecer o Céu.<br />
Nunca vi elementos que me habilitassem<br />
a responder esta pergunta:<br />
“Os Anjos e, posteriormente, Adão<br />
e Eva saberiam que seriam provados?”<br />
Se soubessem, teriam desejo<br />
de que chegasse a hora da prova<br />
para, na dor, encontrarem algo para<br />
além de todos os gáudios da existência.<br />
Por assim dizer, ao engolir esse<br />
trago amargo, seu ser tomaria maior<br />
consistência levando-os a uma perfeição<br />
de ordenação necessária para<br />
serem eles mesmos.<br />
Pensemos em Adão passeando no<br />
Paraíso, contemplando aquelas ma-<br />
12
avilhas, e Deus baixando para conversar<br />
com ele. Tudo isso era muito<br />
bonito, não oferecia dificuldade e<br />
formava a alma dele, que ia crescendo<br />
em santidade. Estava tudo magnífico.<br />
Mas, ou haveria um determinado<br />
momento em que ele sofresse<br />
a prova, ou a sua vida não teria significado.<br />
A sofritiva é algo dentro da<br />
alma humana que ao mesmo tempo<br />
tem horror da prova e sente necessidade<br />
dela.<br />
De certo modo, é semelhante à<br />
psicologia do guerreiro medieval<br />
que quer a batalha e a luta, mas se<br />
aplica enormemente em se cobrir de<br />
malha de ferro, de proteções contra<br />
as pancadas que ele deseja. Então,<br />
ao mesmo tempo, quer o risco e<br />
se protege contra os ferimentos. Entretanto,<br />
consideraria frustra a luta<br />
se os seus armamentos de defesa<br />
fossem tais que ele não corresse nenhum<br />
risco. Isso parece um movimento<br />
contraditório, mas não é.<br />
A meta do guerreiro medieval, de<br />
um cruzado, era libertar o Santo Sepulcro,<br />
e para isto enfrentar o sofrimento<br />
com risco da própria vida.<br />
Mas, além disso, havia a noção de<br />
em algo a sua existência dever desfechar<br />
numa coisa muito<br />
dura, sob pena de ser<br />
frustrada. Se passasse<br />
pela vida sem um sofrimento<br />
bruto, ele não teria<br />
vivido.<br />
Uma das piores<br />
frustrações na vida<br />
freram brutalidades. Olharíamos<br />
com interesse. Se nos mostrassem<br />
um com uma aparência mais conservada,<br />
contentinho, e dissessem: “Este<br />
foi preservado maravilhosamente<br />
de todo risco e dor, e passou contente<br />
o tempo inteiro.” Acharíamos que<br />
ele deveria ser posto fora do barco,<br />
enquanto teríamos um certo alívio<br />
ao contemplar o velho lobo do mar,<br />
de perna ou braço cortado, olho vazado,<br />
mas contando suas façanhas.<br />
Isso precisa estar na alma de toda<br />
criatura. É a sofritiva, algo no senso<br />
do ser por onde o indivíduo sente<br />
que se encontra em estado de prova,<br />
e seu próprio ser pede a prova para<br />
se completar a si mesmo. Assim como,<br />
naturalmente, o menino quer<br />
crescer e tomar estatura de um adulto,<br />
com o mesmo empenho o homem<br />
deseja passar pelas dores da vida.<br />
Uma das piores frustrações na vida<br />
sucede quando os pais não ensinam<br />
isto aos filhos, ou os sacerdotes<br />
aos seus fiéis, criando neles a ilusão<br />
de que a existência é feita para não<br />
ter nenhum sofrimento. Quando sobrevém<br />
alguma dor, é um azar pelo<br />
qual Deus parece estar violando as<br />
regras do jogo.<br />
O que hoje se ensina nesse sentido<br />
– no mais das vezes explicitamente<br />
e de todos os modos possíveis – é<br />
simplesmente fabuloso! Resultado:<br />
o indivíduo fica mais ou menos como<br />
alguém que tivesse encalhado aos<br />
doze anos, sem atingir a maturidade.<br />
Então, vão passando as gerações e a<br />
pessoa está com setenta anos, mas<br />
brinca com os netos como companheiro<br />
de brinquedo.<br />
O homem que não sofreu não tem<br />
problemas em matéria de doutrina,<br />
não faz perguntas, comentários, nem<br />
apresenta dificuldades, ouve uma exposição<br />
com cara de boneca de louça.<br />
Terminada a palestra, o orador<br />
lhe pergunta:<br />
— Estava boa?<br />
— Muito boa, o senhor foi bastante<br />
feliz na sua exposição…<br />
Se no salão entra o chá, ele está<br />
muito mais interessado no chá do<br />
que em todo o resto. Faz isto porque<br />
é todo torto, não lhe puseram na<br />
cabeça esta grande verdade: “Você<br />
tem uma sofritiva: ou sofre ou morre<br />
com a impressão de não ter vivido.”<br />
É preciso notar que não entra<br />
aqui a noção de pecado, nem sequer<br />
a de expiação pelos outros. Prelimi-<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Penso que todo o desequilíbrio<br />
das pessoas<br />
está nisso: ou correm<br />
freneticamente em direção<br />
ao sofrimento, quando<br />
não era o caso; ou fogem<br />
porcamente da dor.<br />
Imaginemo-nos uma<br />
conversa em um cais entre<br />
muitos marinheiros,<br />
piratas antigos, que so-<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> durante conferência em fevereiro de 1986<br />
13
Reflexões teológicas<br />
narmente, é essa consideração do estado.<br />
O indivíduo a apetece porque<br />
se encontra neste estado de prova. E<br />
quando ele foge disso, está condenado<br />
a ser a vida inteira um perpétuo<br />
meninão. Não tem remédio.<br />
Holocausto e gravidade,<br />
sem os quais a vida<br />
torna-se insuportável<br />
Há homens sobre os quais paira<br />
uma providência especial e outros<br />
que estão na linha da providência<br />
geral. Esta, porém, não se apresenta<br />
de maneira à vida de cada indivíduo<br />
não possuir uma unicidade. Neste<br />
sentido, creio – salvo se houver melhor<br />
ensinamento da Igreja – que para<br />
cada homem existe uma providência<br />
peculiar, a qual gira em torno do<br />
seguinte:<br />
Há algo que, pelo próprio senso<br />
do ser, a pessoa apetece como centro<br />
de sua vida e, por vezes, precisa renunciar.<br />
Em determinado momento,<br />
isso lhe é solicitado e essa renúncia<br />
corresponde a um holocausto, equivalente<br />
a pedir a vida.<br />
O holocausto pode ser este: o indivíduo<br />
tem a tendência a ser relaxado<br />
e fazer do relaxamento o gran-<br />
de gáudio de sua existência. Colocado<br />
diante de certa situação, ele decide:<br />
“Não serei relaxado, mas pelo<br />
contrário, tornar-me-ei um modelo<br />
de observância e exatidão.” E toma<br />
essa deliberação com tal força que,<br />
para o resto de sua vida, vai ser observante.<br />
Todos os fatos menores de sua vida<br />
valem em virtude do momento<br />
em que ele resolveu realizar este holocausto:<br />
“O relaxamento do qual eu<br />
ia fazer a delícia de minha vida, não<br />
terei.”<br />
Essa prova pode ser um grande<br />
ato fundamental à maneira de<br />
um homem que oferece em sacrifício<br />
a Deus o seu pomar e diariamente<br />
queima diante do Criador todas<br />
as frutas produzidas no dia anterior.<br />
Assim também, ele pega os frutos do<br />
relaxamento, os quais poderia comer<br />
com delícias, e queima-os diante de<br />
Deus, mediante a observância perfeita.<br />
Nesse sacrifício há um elemento<br />
primeiro, o alicerce da gravidade.<br />
De fato, um homem que tenha<br />
resolvido isto vê a vida de outro modo,<br />
e quando não a considera assim,<br />
torna-se incapaz de gravidade. É um<br />
meninão fazendo planos no vácuo,<br />
vagueando de cá para lá, e sem uma<br />
ordenação definida.<br />
Ora, o meninão sem gravidade sofre<br />
mais do que esse mesmo homem<br />
padeceria sendo grave. Tomem um<br />
rapaz dono de um automovelzinho<br />
reluzente com o qual passeia o dia<br />
inteiro, brinca o tempo todo e que<br />
chega aos vinte e cinco anos sem ter<br />
feito nada senão isso. Todos olham<br />
para ele e pensam: “Que rapaz feliz!”<br />
Na realidade, ele vai carregando<br />
dentro de si algo parecido com<br />
um desses aparelhos de alarme instalados<br />
nos automóveis para denunciar<br />
ladrão. O rapaz se roubou a si<br />
próprio e fica ouvindo o alarme gemendo<br />
dentro de si: “Você não está<br />
vivendo, você não está vivendo, você<br />
não está vivendo... Isso não é vida,<br />
isso não é vida, isso não é vida...<br />
Não seja assim, não seja assim, não<br />
seja assim...”<br />
Então ele procura rir e brincar<br />
ainda mais para dar a ilusão aos outros<br />
de estar vivendo bem. Todos se<br />
divertem com ele, mas depois o desdenham.<br />
Porém, ainda que não o<br />
desprezassem, dentro dele continuaria<br />
a soar o alarme insuportável.<br />
Fidelidade à inocência em<br />
face do sofrimento<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Outro dia eu estava lendo trechos<br />
da história do último Imperador<br />
da China. Ele possuía vários<br />
palácios cheios de objetos de<br />
arte, ouro, peças de valores incalculáveis.<br />
Mas vê-se que isso para<br />
ele era como o arroz e o feijão<br />
são para nós. Faltou que se pusesse<br />
no centro de sua vida o holocausto.<br />
É a sofritiva que atormenta o<br />
homem enquanto ele não sofrer.<br />
Mas não se trata de um padecimento<br />
qualquer; é o sofrimento<br />
de sua vida. Cada um de nós<br />
é chamado para uma cruz. Devo<br />
carregar a minha e não adianta<br />
cair-me sobre os ombros a de<br />
14
Flávio Lourenço<br />
Cavaleiros medievais - Igreja de Santa Segolène, Metz, França<br />
um outro para eu levar. Há uma cruz<br />
feita para <strong>Plinio</strong> Corrêa de Oliveira.<br />
Preciso encontrá-la. Ela vai me doer<br />
no ombro de modo especial, mas devo<br />
carregá-la!<br />
Existe na criatura racional uma<br />
apetência que não é necessariamente<br />
errada, mas corresponde a um<br />
problema, a partir do qual a prova se<br />
transforma em tentação. Por exemplo,<br />
satanás não cometera o pecado<br />
original; tinha um problema, uma<br />
questão de orgulho, que desfechou<br />
num choque. Ele precisava quebrar<br />
algo em si.<br />
Aqui está a questão: trata-se de<br />
algo que é necessário quebrar em<br />
si. Não devemos nos considerar como<br />
um bebê de porcelana intacto,<br />
que com qualquer golpe se parte. Isso<br />
é falso. Nós somos como as árvores:<br />
ou somos podados, ou realmente<br />
não damos em nada.<br />
Se alguém disser: “Jardineiro bárbaro,<br />
que podas a planta!” A resposta<br />
será: “Oh, crítico imbecil, que não<br />
conheces a árvore!”<br />
O indivíduo, na sua inocência primeva,<br />
não tem noção de qual é esse<br />
ponto. A prova lhe chega inopinadamente,<br />
parecendo contrastar com as<br />
luzes da inocência. De repente, tem<br />
um desapontamento, uma dor que<br />
parece ser o contrário de toda aquela<br />
luminosidade da inocência, e entra<br />
qualquer coisa de meio antiaxiológico<br />
1 a lhe dizer: “Ou você, para<br />
ser fiel a essa inocência, aguenta essa<br />
dor antiaxiológica, ou foge dela e<br />
perde a inocência.”<br />
Então, axiologia e inocência parecem<br />
uma coisa só, e em determinado<br />
momento a dor se levanta como um<br />
problema. Ela é antiaxiológica e pede<br />
que todos os homens entrem nesse<br />
corredor escuro. Se a pessoa foge daquilo,<br />
a própria inocência – tão axiológica<br />
–, passa, sigilosa e inadvertidamente,<br />
a secretar venenos na alma.<br />
Peleja contínua em todos<br />
os aspectos da vida<br />
A vida pediu-me algo de fundamental,<br />
já na minha infância: de<br />
minha tendência à moleza passar<br />
para a vida de combate até o fim de<br />
meus dias. Uma batalha integral,<br />
antes de tudo, para ser eu mesmo<br />
e não me deixar arrastar nesse turbilhão,<br />
mas fazer o holocausto de<br />
ponta a ponta.<br />
Mais tarde, quando a compreensão<br />
se tornou maior – com sete ou<br />
oito anos de idade eu não era capaz<br />
de entender isto –, surgiu a necessidade<br />
de combater pela Causa da<br />
Igreja Católica e da Civilização Cristã,<br />
que vinha como prolongamento<br />
daquela opção fundamental.<br />
Eu via dois mundos e devia escolher,<br />
por amor, um contra o outro, e<br />
não me deixar separar daquele que<br />
eu amava para me unir ao outro.<br />
Embora não formulasse esta prece<br />
diretamente a Nosso Senhor Jesus<br />
Cristo, eu rezava neste sentido: “Ne<br />
permitas me separari a Te; ab hoste<br />
maligno defende me!” 2<br />
É a peleja contínua, presente em<br />
todos os aspectos da vida. Não estou<br />
considerando aqui a culpa original.<br />
Sem dúvida, essa minha inclinação<br />
à moleza era consequência desse<br />
pecado; Adão – antes de cometê-lo<br />
–, satanás, São Miguel Arcanjo não<br />
a tinham. Mas, como exemplo nes-<br />
15
Reflexões teológicas<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
do, era a Vítima inocente; nós somos<br />
vítimas culpadas. Mas torna-se<br />
notório que boa parte dos nossos<br />
sofrimentos não se dirigem à expiação<br />
de nossas culpas, mas dos pecados<br />
dos outros. Começam, então, a<br />
acontecer coisas que não têm sentido,<br />
a respeito das quais não sabemos<br />
se são por expiação das nossas<br />
faltas ou das alheias. Nisso há um<br />
sofrimento colateral, o qual se soma<br />
ao primeiro.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de<br />
26/2/1986)<br />
ta Terra, só posso mencionar pessoas<br />
concebidas no pecado original.<br />
Essa luta é tão dura que toma a<br />
vida inteira, mas restam muitas coisinhas<br />
colaterais aprazíveis com as<br />
quais o indivíduo pode e – notem<br />
bem – deve se deleitar. Para uns poderá<br />
ser a boa saúde, para outros um<br />
bom apetite e a possibilidade de comer<br />
bem, para uma criança será um<br />
brinquedo. Por exemplo, não me<br />
lembro, mas é possível que no dia seguinte<br />
a ter passado por uma provação,<br />
ganhei uma caixa nova de soldadinhos<br />
de chumbo e me regalei com<br />
isso. É perfeitamente compreensível,<br />
está na boa ordem das coisas.<br />
Contudo, quando a pessoa pensa<br />
estar exausta de tanto sofrer, na hora<br />
em que julgaria menos adequada,<br />
a Providência começa a lhe pedir outro<br />
sofrimento. E aqui sim, entra algo<br />
com certo caráter expiatório: ela<br />
pecou e, além daquilo que deveria<br />
aguentar segundo o plano inicial,<br />
precisa carregar mais. Ou então, não<br />
pecou, mas outros pecaram e não<br />
carregam. E se a pessoa quer que a<br />
grande batalha seja vencida, deve suportar.<br />
Nosso Senhor, o Cordeiro de<br />
Deus que tira os pecados do mun-<br />
1) Axiologia provém do latim axis, is:<br />
eixo. Assim, na concepção de <strong>Dr</strong>.<br />
<strong>Plinio</strong>, a palavra “axiologia” e os seus<br />
derivados fazem sempre referência ao<br />
“eixo” que deve nortear a vida da pessoa,<br />
isto é, o fim para o qual o homem<br />
é criado e sua vocação específica, em<br />
torno do que devem girar todas as suas<br />
ideias, volições e atividades.<br />
2) Do latim: Não permitais que eu me<br />
separe de Vós; do inimigo maligno,<br />
defendei-me.<br />
“Ne permitas me separari a Te;<br />
ab hoste maligno defende me!”<br />
<strong>Plinio</strong> na Congregação Mariana do Colégio São Luís, em 1921<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
16
Eco fidelíssimo da Igreja<br />
Reflexões sobre o<br />
sintone.org<br />
Santo Sudário<br />
Ao contemplar o Santo Sudário<br />
vemos como, durante sua vida<br />
terrena, naquele Corpo o pensamento<br />
enunciado nos Evangelhos repercutia<br />
na voz, aflorava na fronte, bailava<br />
nos olhos, exprimia-se pelos lábios<br />
e gestos. Assim, a imagem ali<br />
estampada é a prova, não só da<br />
existência, mas da Divindade de Nosso<br />
Senhor Jesus Cristo. É o Homem-Deus!<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Analisando o Santo Sudário,<br />
parece-me que mesmo tomando<br />
em consideração estar<br />
a Sagrada Face um tanto alterada<br />
pelos golpes recebidos – como, por<br />
exemplo, o nariz –, ela revela outras<br />
excelências de Nosso Senhor.<br />
É fato que na sua forma nativa,<br />
perfeita, a fisionomia de Nosso Senhor<br />
se apresentaria de modo ainda<br />
mais excelente. Mas per accidens uma<br />
certa excelência maior aparece devido<br />
às próprias deformações que ela<br />
sofreu. Deve-se entender isso como<br />
uma espécie de preliminar da análise.<br />
Abismo de maldade<br />
que causa assombro<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1983<br />
Chama a atenção ver como não<br />
só o nariz visivelmente recebeu uma<br />
pancada e ficou deformado, mas o<br />
17
Eco fidelíssimo da Igreja<br />
sintone.org<br />
Flávio Lourenço<br />
queixo também caiu um tanto. A<br />
distância entre o ponto mais alto da<br />
fronte e a parte mais baixa do queixo<br />
é um pouco maior do que seria normalmente.<br />
Isto tem, a meu ver, um efeito<br />
curioso: na harmonia perfeita e divina<br />
de Nosso Senhor, sua Face deveria<br />
dar uma dupla impressão de<br />
uma Pessoa muito entregue ao pensamento,<br />
mas nem um pouco tenso.<br />
O que é natural, pois o pensamento<br />
não Lhe custava o menor esforço.<br />
Ele pensava com a facilidade e<br />
a abundância próprias à excelência<br />
das suas duas naturezas unidas hipostaticamente<br />
na Pessoa d’Ele.<br />
Por causa dessa alteração fisionômica<br />
provocada pelos golpes, Jesus<br />
parece um pouco afanoso no pensar.<br />
E, por uma coincidência feliz,<br />
percebe-se também que o seu pensamento<br />
versa sobre a dor e a perseguição<br />
sofridas por Ele, e a injustiça<br />
ali cometida, e também a respeito<br />
de tudo quanto Lhe aconteceu,<br />
as mais atrozes ingratidões, aberrações<br />
que chegaram a um ponto inimaginável.<br />
Sendo Ele a vítima, medita sobre<br />
os criminosos e o crime, a respeito<br />
do qual qualquer meditação tem como<br />
ponto de partida a sua própria<br />
santidade e, portanto, a imensa gravidade<br />
do fato de que contra o Santo<br />
dos Santos tenha sido feita a violência<br />
das violências.<br />
Por causa do estiramento da Face<br />
tem-se certa impressão de ser-Lhe<br />
meio penoso sondar até o fim, pela<br />
meditação e pela reflexão, esse abismo<br />
de maldade, o qual não é próprio<br />
a Ele estar medindo, pois mais Lhe<br />
compete permanecer com a atenção<br />
voltada para as perfeições excelsas<br />
de Deus. E esse abismo de maldade<br />
causa uma espécie de assombro expresso<br />
na fotografia do Santo Sudário.<br />
E, junto com esse assombro, uma<br />
tomada de atitude em consequência,<br />
ou seja, Ele repele totalmente a<br />
atitude das pessoas que fizeram isso<br />
e, embora não esteja no momento<br />
emitindo um juízo de quem vai<br />
condenar, a condenação já está vindo<br />
no horizonte, inapelável e tremenda.<br />
18<br />
Cristo atado – Igreja de São João<br />
dos Reis, Toledo, Espanha
Convicção de que a<br />
Ressurreição virá<br />
Notam-se a profundidade, a serenidade,<br />
a seriedade da reflexão e a<br />
firmeza da consequência da conclusão.<br />
O pensamento durante todo o<br />
tempo é de uma solidez inabalável,<br />
todas as suas impressões foram nítidas<br />
e definidas. Tudo quanto Ele viu,<br />
rejeitou, pensou ficou para todo o<br />
sempre.<br />
Por detrás aparece a Divindade.<br />
Porque se percebe que Ele não tem<br />
apenas em vista o criminoso, mas a<br />
Santíssima Trindade. Noto isso em<br />
algo de aveludado, sereno, imperturbável,<br />
de sublimemente elevado pelo<br />
que Nosso Senhor não desce de corpo<br />
inteiro até esse poço de infâmia<br />
para sondá-lo, mas tem um padrão<br />
do alto do qual Ele mede tudo isso.<br />
A unidade de Pessoa com duas<br />
naturezas, a divina e a humana,<br />
em União Hipostática é inatingível<br />
por tantas ofensas que nem de longe<br />
tocam a fímbria da majestade serena<br />
d’Ele, mantida de tal maneira<br />
por inteiro que um mosquito, voando<br />
do lado de fora de uma pirâmide,<br />
é menos extrínseco ao que está dentro<br />
dela do que todos esses pecados<br />
são extrínsecos à santidade, à majestade,<br />
à divindade de Nosso Senhor.<br />
Jesus está completamente de fora,<br />
como quem diz: “Eles cometeram<br />
esse pecado, mas a minha santidade,<br />
a de Deus Pai e do Espírito<br />
Santo não foram atingidas. Nós nos<br />
amamos na Trindade Santíssima de<br />
um amor ao qual esse ódio não afeta<br />
em nada. Há uma paz enorme, uma<br />
serenidade, uma dignidade que essa<br />
corja de nenhum modo atingiu.”<br />
Por outro lado, imaginemos Nossa<br />
Senhora, doloridíssima, dirigindo<br />
algumas palavras a seu Divino Filho.<br />
Ele Lhe responderia com tal suavidade<br />
que se diria estar sendo carregado<br />
nos braços d’Ela. Sem dúvida,<br />
existia neste Varão a consciência<br />
de que ao pé da Cruz estava a Mãe<br />
d’Ele. A Santíssima Virgem é o Paraíso<br />
de Deus. Portanto, dentro de todo<br />
esse horror, Ele estava junto ao seu<br />
Paraíso e tinha com isso um gáudio.<br />
Isso excede a todas as cogitações humanas.<br />
Uma parte dessa serenidade vem da<br />
noção da inatingibilidade. E aí a atitude<br />
diante da morte é a mais surpreendente<br />
possível. Porque Ele está morto, mas<br />
há uma qualquer coisa parecida com<br />
a consciência ou convicção da Ressurreição<br />
que virá. De tal maneira que, de<br />
algum lado, a condição d’Ele de morto<br />
parece dizer: “Está tudo encerrado!”<br />
Mas de outro lado há algo que afirma:<br />
“Nada está encerrado!”<br />
Só de olhar isto deveria dar aos assassinos<br />
d’Ele uma insegurança de saírem<br />
ganindo pela rua, sem ter o que dizer.<br />
Batalha dos definitivos<br />
O queixo de Nosso Senhor parece<br />
ter recebido um golpe em virtude<br />
do qual a distância entre a parte<br />
superior e a fissura dos lábios ficou<br />
Santíssimo Cristo da Misericórdia – Igreja<br />
da Santa Cruz, Sevilha<br />
Helio G.K.<br />
19
Eco fidelíssimo da Igreja<br />
Flávio Lourenço<br />
maior, e dá ao rosto um embasamento<br />
um pouco mais amplo do que se<br />
não fosse a pancada.<br />
Seu queixo seria normalmente<br />
muito harmônico e, com a barba,<br />
quase se diria que o rosto terminava<br />
num mistério. Isso devido à própria<br />
perfeição d’Ele, pois as coisas muito<br />
excelentes, quando terminam, muitas<br />
Ecce Homo - Igreja de Santa Clara,<br />
Querétaro, México<br />
vezes não se percebe bem como acabaram.<br />
Porém, assim o queixo toma<br />
um embasamento maior. A meu ver,<br />
é das tais deformações que ampliam<br />
uma certa expressão magnífica e servem<br />
de comentário vivo da situação.<br />
Nota-se uma resolução como<br />
quem diz: “O que está feito, está feito<br />
para todo o sempre! A atitude to-<br />
mada por eles diante de Mim é definitiva!<br />
A que Eu tomo diante deles é<br />
definitiva! A minha morte é definitiva!<br />
Definitiva será minha vitória! É a<br />
batalha dos definitivos. Nesse embate<br />
só falta o último lance que compete<br />
apenas a Deus e, portanto, a Mim.<br />
Esse lance é a minha Ressurreição, e<br />
esta não depende nada dos homens,<br />
mas inteiramente de Mim! E isto virá!”<br />
Com a pancada recebida, o nariz<br />
se alongou e isso confirma a impressão<br />
de ter passado por várias peripécias.<br />
Através de seu traçado, tornado<br />
assim indeciso, há uma decisão no<br />
fundo, mais ou menos como a do homem<br />
que passa por muitas provas e<br />
as vence, permanecendo inabalável,<br />
imutável.<br />
O Divino Redentor passou por todas<br />
as vicissitudes da Paixão, e em<br />
todas elas a perfeição da atitude foi<br />
inteiramente a mesma. Através das<br />
várias peripécias estampadas no nariz,<br />
se nota a indefectível continuidade<br />
d’Ele até o “Eli, Eli, lamma sabactani”<br />
1 . Essa fisionomia parece dizer<br />
a quem a contempla: “Tu passarás<br />
pelas mais assombrosas peripécias.<br />
Sê firme, igual a ti mesmo, para seres<br />
igual a Mim até o fim! Os firmes<br />
vencerão, e não há bofetada nem<br />
golpe que os deforme. Para frente!”<br />
Olhar que increpa todos<br />
os pecados do mundo<br />
Esse olhar de pálpebras fechadas<br />
eu não ouso comentar, pois logo que<br />
começasse a fazê-lo, senti-lo-ia fixar-<br />
-se em mim e dizer:<br />
“Tu ousas transpor para teu miserável<br />
vocabulário e o jogo das tuas<br />
impressões aquilo que é superior<br />
a qualquer cogitação? Eu estou<br />
te olhando e tu pensas que alguma<br />
palavra é capaz de descrever esse<br />
olhar? A todo momento ele continua<br />
o mesmo e variado. Tu pensas seres<br />
capaz de acompanhar essa variedade<br />
dentro da estabilidade perfeita?<br />
20
Meu olhar te convida a penetrar no<br />
fundo de Mim mesmo, e quando começas<br />
a adentrar percebes que estás<br />
entrando no Sanctum Sanctorum 2 ,<br />
dobras os joelhos, baixas a cabeça e<br />
te deixas envolver, não consegues erguer<br />
a tua fronte. Não fales do que<br />
não ousas ver!”<br />
Sente-se que esse olhar increpa<br />
não apenas os pecados cometidos<br />
contra Nosso Senhor durante a Paixão,<br />
mas todos os pecados do mundo.<br />
Portanto, também tem a atenção<br />
posta nos nossos defeitos, embora<br />
não com uma recusa tão colossal;<br />
porém, enquanto defeito, Ele rejeita.<br />
No Santo Sudário Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo está nos ensinando por<br />
contraste. Há representações do Divino<br />
Redentor que nos fazem sentir<br />
uma certa afinidade com Ele, mas<br />
esta é a imagem do contraste por excelência.<br />
Diante dessa figura só tenho<br />
vontade de dizer a Nossa Senhora:<br />
“Minha Mãe, obtende que Ele<br />
me cure!”<br />
A boca também traz a marca da<br />
Paixão, porque possui o sinal da dor,<br />
e ao fechar-se exprimiu algo da alma<br />
d’Ele que normalmente não se exprimiria.<br />
Não é propriamente uma boca<br />
de mistério, mas dá a entender:<br />
“Não falarei nada, e no meu silêncio<br />
está tudo dito, não me perguntes.”<br />
Não está na nossa medida ouvir<br />
o que Ele tem a dizer. Portanto, não<br />
O interroguemos, mas compreendamos<br />
por meio de seus lábios cerrados.<br />
A Sagrada Face apresenta algo à<br />
maneira de uma contradição, porque<br />
o rosto do homem é o repositório<br />
da sua honra; entretanto, nessa<br />
Face Divina se encontra toda a honra<br />
como nunca houve, junto com todas<br />
as bofetadas e insultos que jamais<br />
foram descarregados contra alguém;<br />
tudo está acumulado ali. Calculem<br />
o que Nossa Senhora sofreu<br />
vendo isso! Simplesmente não há palavras!<br />
Crucifixão – Basílica Nossa Senhora do<br />
Rosário, Cidade da Guatemala<br />
J. P. Braido<br />
21
Eco fidelíssimo da Igreja<br />
Flávio Lourenço<br />
Harmonia, equilíbrio<br />
e beleza só possíveis<br />
no Homem-Deus<br />
A fronte tem uma proporção e está<br />
numa harmonia celestíssima com<br />
o restante do rosto, é a própria ima-<br />
gem da perfeição moral. O tamanho<br />
normal dela não aparece devido ao<br />
cabelo desalinhado, maltratado, desordenadamente<br />
posto pelo Sangue<br />
que escorre. Tudo isso causa uma<br />
sensação de que a testa desapareceu,<br />
como se diria de um castelo cuja parte<br />
mais alta pegou fogo.<br />
Nosso Senhor curando os leprosos – Mosteiro de<br />
San Millan de la Cogolla, La Rioja, Espanha<br />
Pode-se perguntar: a Paixão acrescentou<br />
algo a Ele? Poder-se-ia resumir<br />
a questão numa outra: a cicatriz<br />
acrescenta algo ao guerreiro? É claro!<br />
Nosso Senhor Se tornou cheio de<br />
cicatrizes. Quando nós, pelos rogos<br />
de Maria, O contemplarmos no Céu,<br />
veremos na Face d’Ele uma espécie<br />
de plenitude do que era em todas as<br />
idades da sua vida. Mais do que como<br />
era no Santo Sudário e na Cruz.<br />
Todas as suas cicatrizes estarão irradiando<br />
esplendores e aumentarão<br />
a beleza da Santa Face. Não temos<br />
ideia de como Ele será pulcro para<br />
nós olharmos.<br />
Consideremos a estatura d’Ele.<br />
Percebe-se a extensão de ombro<br />
a ombro, a altura do pescoço e do<br />
tronco, o comprimento dos braços,<br />
formando uma proporção simplesmente<br />
monumental!<br />
Em Nosso Senhor existe a conjunção<br />
de dois aspectos: a estabilidade<br />
e o movimento. Ele tem uma estabilidade<br />
perto da qual uma pirâmide<br />
do Egito é uma mexerica. E, de<br />
outro lado, possui uma facilidade de<br />
Se mover a qualquer momento, para<br />
um movimento dominador, natural,<br />
que afasta qualquer obstáculo<br />
para longe. Ele é o Rei rompu, brisé,<br />
anéanti – quebrado, despedaçado,<br />
aniquilado –, segundo a expressão<br />
de Bossuet, mas a essência d’Ele está<br />
completa. Ele domina plenamente.<br />
Olhando só esse equilíbrio já se<br />
compreende não se tratar de um mero<br />
homem. É o Homem-Deus.<br />
Pode-se perceber nesse Corpo<br />
inerte o pensamento enunciado nos<br />
Evangelhos que repercute na voz,<br />
aflora na fronte, baila nos olhos, exprime-se<br />
pelos lábios e gestos. D’Ele<br />
saíram virtudes de toda espécie e cada<br />
uma delas era um hino de ordem<br />
e de elevação, algo que não podemos<br />
imaginar.<br />
A meu ver é inteiramente óbvio<br />
que isso traz consigo a prova de que<br />
Ele existiu e era Homem-Deus. Só<br />
alguém de um valor igual ao d’Ele<br />
22
Gabriel K.<br />
Sainte-Chapelle, Paris<br />
poderia conceber aquilo que ali se<br />
encontra.<br />
A tal ponto que se eu não conhecesse<br />
Jesus e O visse passar pela rua,<br />
me ajoelharia e diria: “Meu Senhor<br />
e meu Deus!”<br />
Em contrapartida, ao entrar em<br />
uma catedral gótica, no ambiente silencioso<br />
ou onde se tocasse uma música<br />
inteiramente adequada, causando-me<br />
a impressão de que todas as<br />
luzes e formas do recinto sagrado se<br />
corporificavam em sons; uma igreja<br />
toda florida de maneira a encher-se<br />
de perfumes odoriferíssimos, meu<br />
espírito desejoso de unum seria levado<br />
a perguntar: “Mas não haverá<br />
alguém que englobe e exprima melhor<br />
tudo isto?” Se nesse momento<br />
aparecesse Jesus, eu daria um brado:<br />
“Eis! Porém, Ele é muito mais<br />
belo do que tudo isso!” E, mais uma<br />
vez, exclamaria: “Meu Senhor e meu<br />
Deus!”<br />
E ainda que, enquanto eu me desfizesse<br />
de veneração, gratidão e pedido<br />
de perdão, Ele me quisesse fazer<br />
um agrado, não era para mim<br />
o mais importante. O principal era<br />
querer a Ele: gratias agimus tibi propter<br />
magnam gloriam tuam 3 .<br />
Pois bem, a Igreja Católica é o<br />
Corpo Místico de Nosso Senhor<br />
Jesus Cristo. Tudo quanto ela possui<br />
e ainda aparecerá dela no Reino<br />
de Maria é isso, com uma intensidade,<br />
uma fragrância da qual nós<br />
temos dificuldade de formar uma<br />
ideia. <br />
v<br />
(Extraído de conferência de<br />
9/2/1983)<br />
1) “Meu Deus, meu Deus, por que Me<br />
abandonaste?” (Mc 15, 34).<br />
2) Do latim: Santo dos Santos.<br />
3) Do latim: Nós vos agradecemos por<br />
vossa imensa glória.<br />
23
Gabriel K.<br />
C<br />
alendário<br />
São Lúcio I<br />
1. São Marnock, bispo († 625). Pregou<br />
o Evangelho com enorme zelo<br />
nas terras da Escócia. Faleceu com<br />
avançada idade e operou inúmeros<br />
milagres após a morte.<br />
Santa Inês Cao Kuiying, mártir<br />
(†1856). Após ficar viúva, dedicou-se<br />
ao ensino da Doutrina Católica. Por<br />
isso foi presa e torturada até a morte<br />
em Xilinxian, China.<br />
2. Quarta-feira de Cinzas<br />
Santa Inês de Praga, virgem (†1282).<br />
Nobre, parente de Santa Isabel da Hungria,<br />
após ter-se enviuvado tomou o véu<br />
das clarissas. Trocou correspondência<br />
com Santa Clara de Assis.<br />
3. Santa Teresa Eustóquio Verzéri,<br />
virgem (†1852). Fundadora da congregação<br />
das Filhas do Sagrado Coração<br />
de Jesus, na Bréscia, Itália.<br />
4. São Casimiro, príncipe (†1484).<br />
5. São Lúcio I, Papa, mártir (†254).<br />
Promoveu a piedade, a defesa da Fé<br />
dos Santos – ––––––<br />
até ao sangue e combateu a heresia<br />
de Novaciano. Sucessor de São Cornélio,<br />
foi insigne confessor da Fé e<br />
afrontou as dificuldades do seu tempo<br />
com moderação e prudência.<br />
São João José da Cruz, religioso<br />
(†1734). Franciscano que abrasado de<br />
zelo pela salvação das almas, nada recusava<br />
em favor de seus irmãos. Recebeu<br />
muitos dons místicos em vida e<br />
operou numerosos milagres.<br />
6. I Domingo da Quaresma<br />
Santo Olegário, bispo (†1137). Religioso<br />
agostiniano.<br />
7. Santas Perpétua e Felicidade,<br />
mártires (†203). Receberam o Bastimo<br />
estando presas e não negaram a<br />
Fé diante dos interrogatórios<br />
São Paulo, o simples, ermitão (†340).<br />
Discípulo e imitador de Santo Antão.<br />
Foi um dos solitários mais célebres da<br />
Tebaida.<br />
8. São João de Deus, religioso<br />
(†1550). Fundador da Ordem dos Irmãos<br />
Hospitaleiros.<br />
São Vicente Kadlubek, bispo (†1223).<br />
Bispo de Cracóvia, Polônia.<br />
9. São Paciano, bispo (†c. 390). Bispo<br />
de Barcelona, Espanha. Ao pregar<br />
a Fé, afirmava: “Cristão é o meu nome<br />
e Católico o meu sobrenome.”<br />
10. Santa Maria Eugênia Milleret,<br />
virgem (†1898). Aos 22 anos, fundou,<br />
em Paris, a Congregação das Irmãs da<br />
Assunção.<br />
11. Santos Trófimo e Tales, mártires<br />
(†308). Irmãos de sangue, sofreram<br />
a perseguição em Laodiceia, no<br />
tempo de Diocleciano.<br />
12. São Luís Orione, fundador<br />
(†1940). Fundou a Congregação da<br />
Pequena Obra da Divina Providência.<br />
São José Zhang Dapeng, mártir<br />
(†1815). Morto por ter recebido o batismo<br />
e hospedado missionários em<br />
sua residência, na China.<br />
13. II Domingo da Quaresma.<br />
Beato Agnelo de Pisa, presbítero<br />
(†c. 1236/1275). Enviado por São<br />
Francisco à França e depois à Inglaterra,<br />
aí instituiu a Ordem Franciscana<br />
e promoveu as ciências sagradas.<br />
14. Beata Ângela Salawa, religiosa<br />
(†1922). Nasceu em Siepraw, Polônia<br />
e aos 16 anos inscreveu-se na Associação<br />
de Santa Zita. Progrediu rapidamente<br />
nas sendas da virtude, nunca<br />
recusando as penúrias e os sofrimentos<br />
corporais devido à falta de saúde.<br />
15. São Raimundo de Calatrava,<br />
religioso (†1163). Ingressou na ordem<br />
reformada de Cister e acabou encarregado<br />
de propagar a reforma aos<br />
São Ruperto de<br />
Salzburgo<br />
mosteiros na Espanha. Estabeleceu-<br />
-se em Calatrava. Para defender-se<br />
dos ataques dos mouros, fortificou o<br />
mosteiro e reuniu armas. Originou-se<br />
assim a Ordem de Calatrava.<br />
Santa Luísa de Marillac, viúva<br />
(†1660). Fundou junto com São Vicente<br />
de Paulo, em Paris, o Instituto<br />
das Damas da Caridade, para cuidar<br />
dos doentes, pobres e abandonados.<br />
16. Santa Eusébia, abadessa<br />
(†c. 680). Abadessa de Hamay-sur-<br />
-la-Scarpe, França, que após a morte<br />
do pai retirou-se com sua mãe, Santa<br />
Rictrudes à vida monástica.<br />
Flávio Lourenço<br />
24
––––––––––––––––– * Março * ––––<br />
J.P. Ramos<br />
17. São Patrício, bispo (†461).<br />
Evangelizar incansável da Irlanda.<br />
São João Sarkander, presbítero<br />
e mártir (†1620). Jesuíta, pároco de<br />
Holesov, na Morávia, foi condenado<br />
ao suplício da roda por ter recusado<br />
revelar segredos de Confissão.<br />
18. São Cirilo de Jerusalém, bispo<br />
e Doutor da Igreja (†c. 386).<br />
São Salvador Grionesos de Horta,<br />
religioso (†1567). Religioso franciscano,<br />
em Barcelona, Espanha, que por<br />
seus dons de taumaturgo, foi incompreendido<br />
e perseguido pelos seus<br />
próprios confrades.<br />
19. Solenidade de São José, esposo<br />
da Bem-Aventurada Virgem Maria,<br />
Padroeiro da Igreja Universal.<br />
Beato Isnardo de Chiampo, presbítero<br />
(†1244). Religioso dominicano<br />
que fundou em Pávia, Itália, um convento<br />
de sua Ordem.<br />
20. III Domingo da Quaresma.<br />
Beato Francisco Palau y Quer,<br />
presbítero (†1872). Fundou as Car-<br />
São Gualter<br />
melitas Missionárias Teresianas. Morreu<br />
em Tarragona, Espanha.<br />
21. São Nicolau de Flüe, eremita<br />
(†1487). Considerado o patrono da Suíça,<br />
com seus conselhos fez renascer a<br />
unidade do país evitando a guerra civil.<br />
22. Beato Francisco Chartier, presbítero<br />
e mártir (†1794). Morreu decapitado<br />
em Angers, durante a Revolução<br />
Francesa, em ódio à Fé Católica.<br />
23. São Toríbio de Mongrovejo,<br />
bispo (†1606). Fundou em Lima, Peru,<br />
o primeiro seminário da América<br />
Espanhola.<br />
São Gualter, abade (†1095). Primeiro<br />
abade do mosteiro beneditino<br />
de Pontoise, França. Ensinou aos<br />
monges a regra monástica com o próprio<br />
exemplo e combateu os costumes<br />
simoníacos difundidos entre o clero.<br />
24. Beata Maria Karlowska, virgem<br />
(†1935). Fundadora da Congregação<br />
das Irmãs do Divino Pastor da Divina<br />
Providência, em Pniewite, Polônia.<br />
Santa Hildelita, abadessa (†524).<br />
Princesa inglesa que se fez religiosa<br />
na França. Mais tarde voltou à Inglaterra<br />
e organizou em seu país a vida<br />
monóstica.<br />
25. Solenidade da Anunciação do<br />
Senhor.<br />
26. São Ludgero de Münster, bispo<br />
(†809). Fundou vários mosteiros que<br />
se converteram em centros de propagação<br />
da Fé. Pregou o Evangelho na<br />
Frísia, Dinamarca e Saxônia.<br />
Santo Eutíquio e companheiros<br />
mártires de Alexandria (†356). Foram<br />
perseguidos pelo falso bispo Jorge que<br />
usurpou a sé de Santo Atanásio.<br />
27. IV Domingo da Quaresma.<br />
São Ruperto de Salzburgo, bispo<br />
(†c. 718). Edificou em Salzburgo,<br />
Áustria, uma igreja e um mosteiro<br />
Beato Bertoldo<br />
com sua escola, a partir dos quais difundiu<br />
a Fé Cristã. Pregou o Evangelho<br />
na Baviera.<br />
28. São Cirilo, diácono e mártir<br />
(†c. 362). Foi cruelmente assassinado<br />
no tempo do imperador Juliano, o<br />
Apóstata, em Heliópolis, Líbano.<br />
29. Beato Bertoldo, cruzado (†1188).<br />
Eleito prior dos carmelitas, na Palestina,<br />
consagrou sua comunidade à Mãe<br />
de Deus. É considerado o segundo<br />
prior geral da Ordem.<br />
30. São João Clímaco, abade (†649).<br />
Viveu no mosteiro do Sinai onde desempenhou<br />
o cargo de abade com grande<br />
sabedoria e vida exemplar.<br />
31. São Guido, abade (†1046).<br />
Abade do Mosteiro beneditino de<br />
Pomposa, recebeu nele muitos discípulos<br />
e reconstruiu edifícios sacros.<br />
Morreu em Borgo San Donnino (Fidenza),<br />
Itália.<br />
Flávio Lourenço<br />
25
Hagiografia<br />
EugeneZelenko (CC3.0)<br />
Um príncipe segundo<br />
o plano de Deus<br />
Realizando o altíssimo plano de<br />
Deus para a Civilização Cristã,<br />
o Príncipe São Casimiro soube<br />
aliar a nobreza e o laicato à<br />
santidade perfeita, sendo uma<br />
pedra de escândalo para sua época<br />
e difundindo o aroma da Santa<br />
Igreja pela sua pureza ilibada<br />
e seu zelo na defesa da Fé.<br />
T<br />
emos uma ficha biográfica 1 sobre<br />
um príncipe da época em<br />
que a Hungria era chamada o<br />
“Reino Apostólico da Hungria”. Trata-se<br />
de São Casimiro, da Polônia, cuja<br />
festa se comemora no dia 4 de março.<br />
São Casimiro, príncipe polonês, veio<br />
ao mundo em 5 de outubro de 1458. Foi<br />
o terceiro filho de Casimiro III, Rei da<br />
Polônia e Grão-Duque da Lituânia, e<br />
de Isabel da Áustria, filha do Imperador<br />
Alberto II. Desde o berço foi formado<br />
na virtude e piedade pelos cuidados de<br />
sua mãe, princesa muito católica.<br />
Esta ficha biográfica traz uma série<br />
de observações. A primeira delas, a respeito<br />
da qual não podemos deixar de<br />
insistir, é o grande número de nobres e<br />
de pessoas pertencentes a dinastias reinantes,<br />
que foram elevadas, durante a<br />
Idade Média, à honra dos altares, esfarrapando<br />
a lenda revolucionária de que<br />
26<br />
São Casimiro - Basílica de<br />
São José, Califórnia
os nobres não eram senão<br />
uns imorais, corruptos,<br />
sanguessugas.<br />
No caso concreto, eu<br />
me comprazo em afirmar<br />
o fato de São Casimiro<br />
ter vivido na corte de<br />
seus pais, no século XV.<br />
Como vemos, a mãe dele<br />
era descendente da família<br />
imperial Habsburg.<br />
Uma corte segundo<br />
a Civilização Cristã<br />
Jean-Marc Nattier (CC3.0)<br />
PancoPinco (CC3.0)<br />
Para efeito das teses<br />
que temos em vista não é<br />
uma coisa tão concludente<br />
considerar um príncipe<br />
qualquer que, em determinado<br />
momento, deixou a<br />
corte para abraçar o estado<br />
religioso. Sem dúvida, é uma ação<br />
nobre, piedosa, edificante, mas para<br />
as nossas teses o mais concludente é<br />
o fato de ele ter continuado a viver na<br />
corte e aí se ter santificado.<br />
Por causa da impregnação de “heresia<br />
branca” 2 sob a qual o mundo<br />
contemporâneo está sujeito, ainda<br />
prevalece no subconsciente de muitas<br />
pessoas a ideia de que só padres e freiras<br />
podem alcançar a santidade. Fora<br />
desse âmbito é tão raro o surgimento<br />
de um santo, que se considera um<br />
caso extraordinário, quase monstruoso.<br />
Como na natureza pode brotar um<br />
rabanete de tamanho excepcional, assim<br />
a graça produz, às vezes, um santo<br />
leigo. Parece uma coisa maravilhosa,<br />
uma exceção à regra.<br />
Contudo, um santo leigo não é exceção<br />
à regra, mas a realização perfeita<br />
do plano da Providência. Ademais,<br />
o fato de um nobre ter se conservado<br />
íntegro na corte de um rei,<br />
mostra-nos esse ambiente como um<br />
elemento dentro do qual um católico<br />
pode viver e santificar-se.<br />
Neste sentido, constitui uma espécie<br />
de elogio ao ambiente onde o<br />
santo viveu e uma afirmação de que,<br />
Delfim Luís Fernando<br />
Galeria do Museu de Arte de<br />
Birmingham, Reino Unido<br />
Madame Clotilde - Coleção do<br />
Castelo Real de Racconigi, Itália<br />
com frequência, a santidade perfumou<br />
a atmosfera nobiliárquica, contrariamente<br />
à pregação revolucionária.<br />
Então, em vez de serem lupanares,<br />
lugares medonhos de perdição e<br />
corrupção, as cortes foram, em numerosos<br />
casos, receptáculos da santidade<br />
onde a virtude atuou, teve<br />
prestígio e influência, realizando assim<br />
o ideal da Civilização Cristã.<br />
Segundo esse ideal, o que é a corte<br />
real? O rei é a imagem terrena de<br />
Deus; logo, a corte terrena é imagem<br />
da celeste. Numa corte autenticamente<br />
católica, em face de um<br />
rei santo, os cortesãos deveriam ser<br />
a representação dos Anjos e Santos<br />
diante de Deus três vezes Santo.<br />
Ora, que isso tenha tido, em determinadas<br />
circunstâncias históricas,<br />
importantes parcelas de realização<br />
deve nos encher de entusiasmo<br />
e alegria, são exemplos que devemos<br />
opor à crítica revolucionária.<br />
Alguém poderia objetar: “Em um<br />
número grande de casos, as cortes<br />
foram assim. Mas esse número grande<br />
é colhido a esmo ao longo de mil<br />
anos de história, de maneira que é<br />
possível encontrar numerosos exemplos<br />
de muitas coisas. Isto não prova<br />
que as cortes, a fortiori, tenham sido<br />
sempre assim, mas apenas uma vez<br />
ou outra. Daí nada se deduz.”<br />
Ora, se as monarquias produziram<br />
isso pouco, eu quero saber o que as<br />
repúblicas produziram. Por exemplo,<br />
quem já ouviu falar em senador santo?<br />
Vê-se, então, a diferença existente<br />
entre uma coisa e outra, e quanto<br />
esses fenômenos são significativos.<br />
Por outro lado, está provado que<br />
nas cortes mais depravadas houve<br />
sempre uma prestigiosa corrente<br />
de reação. Por exemplo, um personagem<br />
histórico sobre o qual pouco<br />
se tem falado entre nós, e que é<br />
muito interessante, é o Delfim Luís<br />
Fernando, filho de Luís XV, homem<br />
excelente, irmão da Madame Louise<br />
de França, que morreu carmelita<br />
e da qual ainda se procuram elementos<br />
para o processo de canonização,<br />
e também da Rainha da Sardenha,<br />
Madame Clotilde, irmã de Luís XVI,<br />
declarada bem-aventurada pela Santa<br />
Sé. Isto na tão putrefata corte de<br />
Versailles, no tempo de Luís XV.<br />
Continuemos a análise da ficha<br />
sobre São Casimiro.<br />
27
Hagiografia<br />
Andrzej Otrębski (CC3.0)<br />
São Casimiro - Vitral da Basílica da Assunção, Gidle, Polônia<br />
Alma penitente e de uma<br />
pureza convidativa<br />
Sua pureza e castidade foram, desde a<br />
infância, absolutamente virginais e evangélicas.<br />
Era difícil imaginar um príncipe<br />
de maior inocência, de maneiras mais<br />
belas e com méritos mais elevados. A pureza<br />
de seu coração e de seu corpo brilhava<br />
em toda a sua conduta, de modo que<br />
todos os que o viam ou com ele tratavam,<br />
sentiam-se movidos à castidade.<br />
Seu espírito era tão unido a Deus, que<br />
sua paz interior se manifestava na grande<br />
serenidade do seu rosto. Todos os seus<br />
servos, ao seu exemplo, eram cheios de<br />
bondade e se destacavam pela extraordinária<br />
misericórdia para com todos os visitantes<br />
e os pobres que iam lá pedir esmola.<br />
Pode-se formar uma ideia da felicidade<br />
dos súditos de tão santo príncipe.<br />
Aqui temos um personagem que<br />
poderia figurar na pintura de um vitral<br />
em uma catedral. Príncipe da casa<br />
real, com irmãos reis, São Casimiro<br />
era um jovem de alta cultura e<br />
condição social, no qual se reuniam<br />
todos os dons físicos, intelectuais e<br />
espirituais; era um varão muito justo,<br />
misericordioso e bondoso.<br />
É interessante notar a castidade<br />
enorme deste Santo. Uma nota<br />
curiosa desta castidade é a sua comunicatividade.<br />
Ele era tão puro<br />
que transmitia aos outros o desejo<br />
de o serem também. Isso tem uma<br />
beleza especial, porque muitas vezes<br />
encontramos pessoas puras, dignas<br />
de admiração e homenagem,<br />
mas a quem Nossa Senhora não deu<br />
o dom de tornar comunicativa essa<br />
virtude.<br />
Ora, uma das melhores formas de<br />
fazer apostolado é ter essa virtude<br />
comunicando-se de uma pessoa para<br />
outra, como por osmose.<br />
Mas, como Deus está irado com o<br />
mundo, esses dons se tornam raríssimos.<br />
Por esse motivo, devemos recorrer<br />
a São Casimiro para compreender<br />
o que é a pureza convidativa<br />
e irradiante, e assim atrair as pessoas<br />
para a prática dessa virtude contrária<br />
à impureza, à voluptuosidade,<br />
também conquistadoras, e que arrastam<br />
para o mal. A virtude arrastando<br />
para o bem é uma coisa que pouco<br />
se vê em nossos dias e, no entanto,<br />
dá tanta glória a Nossa Senhora!<br />
São Casimiro teve, entre outros, o<br />
dom da continência, que o tornou casto<br />
toda a vida, num celibato muito puro.<br />
Para corresponder com maior facilidade<br />
a tantas graças, cobriu seu corpo<br />
com rudes cilícios e o macerou com<br />
longos jejuns. Com frequência, passava<br />
noites inteiras dormindo sobre uma tábua<br />
e, algumas vezes, dormia nas portas<br />
das igrejas, onde era encontrado de<br />
manhã, com o rosto virado para o chão.<br />
Todas essas mortificações, o Santo praticava<br />
sem ferir qualquer das pompas<br />
que a dignidade de sua Casa, ou a consideração<br />
das pessoas com as quais vivia,<br />
pareciam exigir do seu estado.<br />
Há um outro aspecto interessante<br />
aqui: é a atitude de São Casimiro<br />
vestindo roupas régias e levando<br />
cilício por baixo. Ele quer fazer penitência,<br />
mas sabe que sua condição<br />
lhe impõe vestir-se com a pompa<br />
inerente à sua categoria. E como<br />
ele não é igualitário, usa tudo quanto<br />
é necessário para a manutenção<br />
de seu estado. Vemos nisso o equilíbrio<br />
do verdadeiro Santo.<br />
Qual o valor disso? Este Santo considerava<br />
tão nobre e justo que um<br />
príncipe, ou qualquer pessoa de maior<br />
categoria social, tivesse um estado de<br />
vida superior, que ele, fazendo penitências<br />
de todos os modos, encobria<br />
sua mortificação para ostentar sua nobre<br />
condição aos olhos de todos, qua-<br />
28
lificando isso como um verdadeiro dever<br />
de estado a ser cumprido.<br />
Desde seus primeiros anos São Casimiro<br />
se desinteressou dos prazeres<br />
do mundo, das diversões e da vida folgada.<br />
Seus prazeres, os mais atraentes,<br />
eram de passar várias horas seguidas<br />
rezando diante dos altares. O palácio<br />
de nosso Santo era um lugar de devoção,<br />
onde se rezava a Deus o dia inteiro.<br />
Quando ele assistia ao Santo Sacrifício<br />
da Missa, não era raro que tivesse<br />
êxtases no momento de se operar<br />
a transubstanciação.<br />
Uma das virtudes em que mais se esmerou<br />
o grande São Casimiro foi a cordial<br />
devoção a Nossa Senhora, à qual<br />
chamava de “minha Boa Mãe”. Daqui<br />
veio a conservar os virgíneos candores<br />
desse arminho, apesar do real estado e<br />
da viçosa idade… Não contente de recitar<br />
todos os dias um longo hino, composto<br />
por ele, no qual cantava os mistérios<br />
da Encarnação e os gloriosos privilégios<br />
da Mãe de Deus, quis ainda ser enterrado<br />
com essa oração e uma imagem de Nossa<br />
Senhora, a qual cento e vinte anos depois,<br />
por ocasião do processo de canonização,<br />
quando foi aberta a sua sepultura,<br />
foi encontrada junto ao corpo.<br />
O Santo é sempre uma<br />
pedra de escândalo<br />
da a seu pai, para fazê-lo abandonar<br />
a empresa.<br />
Foi então que o jovem príncipe<br />
percebeu a demasiada facilidade<br />
com que seu pai escutara os deputados<br />
húngaros. Tendo, então, reconhecido<br />
a injustiça da expedição a que o<br />
tinham atraído, ele se recusou a fazer<br />
qualquer outro ataque e voltou para a<br />
Polônia.<br />
Foi mandado pelo pai para tomar<br />
conta da coroa da Hungria, e só<br />
quando chegou à fronteira percebeu<br />
que não estava depondo um usurpador,<br />
mas o rei legítimo. A partir desse<br />
momento ele se recusou a combater.<br />
Vejam a preocupação em não derrubar<br />
um governo legítimo. Ao con-<br />
trário desta nossa época em que os<br />
governos são tão mais perecíveis<br />
quanto mais legítimos, e tanto mais<br />
estáveis quanto mais ilegítimos são.<br />
Estes são alguns preciosos exemplos<br />
de virtudes dados por São Casimiro,<br />
e temos que aproveitá-los para<br />
a nossa santificação.<br />
Para não aumentar o desgosto de<br />
seu pai, que planejara aquele empreendimento,<br />
retirou-se para o Castelo<br />
de Dobczyce, onde se entregou<br />
a austeras penitências. Ao fim deste<br />
tempo voltou ao palácio real, onde já<br />
encontrou tudo mais em paz.<br />
Casimiro, inimigo nato de toda espécie<br />
de intriga, era sumamente vigilante<br />
em tudo o que dizia. Tinha pala-<br />
Minnetonka Lapkiadó Kft. (CC3.0)<br />
Ao completar Casimiro treze anos,<br />
os Estados da Hungria, não estando<br />
satisfeitos com seu Rei, Matias Corvino,<br />
enviaram deputados ao Rei Casimiro<br />
III para que seu filho obtivesse<br />
a coroa da Hungria em detrimento<br />
de Matias. Casimiro III prometeu-lhes<br />
seu filho e o enviou com um exército<br />
para apoiar seu direito à eleição, contra<br />
Matias, que não aceitava sua deposição.<br />
Tendo chegado às fronteiras<br />
da Hungria, São Casimiro soube que<br />
Matias acabava de reunir dezesseis<br />
mil homens para ir à frente dos poloneses<br />
e que tornara a conquistar o coração<br />
dos súditos. Soube também que<br />
o Papa Sisto IV se declarara pelo rei<br />
destronado e enviara uma embaixa-<br />
Rei Matias Corvino - Museu Histórico de Budapeste<br />
29
Hagiografia<br />
Divulgação (CC3.0)<br />
vras inflamadas quando falava a respeito<br />
da beleza da virtude e do feliz estado<br />
de uma alma em paz, em amizade<br />
com Deus.<br />
Seu zelo pela Religião Católica correspondia<br />
a tanta piedade. Fez conhecer<br />
em diversas ocasiões sua aversão<br />
pelos que corrompem a Fé da Igreja.<br />
Ele empregou todo o seu poder em extirpar<br />
o cisma dos russos. Em virtude<br />
disso, fez agir seu zelo ante o Rei, seu<br />
pai, a fim de confiscar todas as igrejas<br />
cismáticas e impediu mais tarde que<br />
estas fossem restituídas aos cismáticos.<br />
É muito bonito ver o seu zelo contra<br />
os hereges, virtude que sempre<br />
acompanha a alma da pessoa verdadeiramente<br />
pura. Havia certas igrejas,<br />
no reino do pai dele, entregues<br />
aos cismáticos, e ele fez questão de<br />
que de lá fossem expulsos.<br />
Nesta biografia consta um grande<br />
gesto de heroísmo e de energia<br />
da parte de São Casimiro: o confisco<br />
dos bens da igreja cismática e o<br />
impedimento desta funcionar na Polônia.<br />
Gesto que está à altura de um<br />
inquisidor ou da alma de um Santo.<br />
Mas, tirando esse gesto, o que nós<br />
vemos? As virtudes suaves, amáveis,<br />
que tornam um homem atraente.<br />
Não notamos as virtudes do batalhador.<br />
Por quê? Precisamente porque<br />
Detalhe do Castelo de Dobczyce<br />
na Europa de então vivia-se o período<br />
chamado de “anarquia feudal”.<br />
Os senhores feudais, os príncipes<br />
se destacavam todos pela tendência<br />
excessiva a combater, a manter, uns<br />
com os outros, um estado de guerra<br />
contínuo, por razões muitas vezes<br />
fúteis que levavam a Santa Sé a<br />
pronunciar condenação em cima de<br />
condenação.<br />
Duas influências nefastas contribuíam<br />
para a existência desse estado<br />
de coisas. Em primeiro lugar, pela<br />
influência bárbara, embora remota,<br />
mas que ainda se fazia sentir e levava<br />
esses homens a não poder viver<br />
tranquilos. De outro lado, houve<br />
também uma explosão de vaidade<br />
a que, infelizmente, as Cruzadas do<br />
Oriente tinham dado lugar.<br />
Como se sabe, na Europa houve<br />
várias Cruzadas, das quais a mais<br />
vitoriosa foi a da Espanha e Portugal<br />
contra os mouros que invadiram<br />
a Península Ibérica. Também houve<br />
Cruzadas coroadas de belo êxito<br />
contra os turcos, vindos do Sul, que<br />
invadiram mais de uma vez a Hungria,<br />
ou contra os pagãos do Mar<br />
Báltico que queriam impedir a expansão<br />
da Religião Católica.<br />
Mas, ao par dessas, empreendeu-<br />
-se a série de Cruzadas mais célebres<br />
destinadas à libertação do Santo<br />
Sepulcro, que, no total, umas pelas<br />
outras, redundaram no fracasso,<br />
em grande parte por causa do espírito<br />
de vaidade e de exibição que se<br />
apoderou dos cruzados. Sabendo<br />
que todo o Oriente tinha os olhos<br />
voltados para eles e que os atos de<br />
coragem praticados para a reconquista<br />
do Santo Sepulcro haveriam<br />
de redundar em fama, boa reputação<br />
e em glória para eles, tinham a<br />
pretensão de ocupar, no Oriente, os<br />
primeiros lugares nas batalhas, destacando-se<br />
e ganhando celebridade<br />
no Ocidente, dentro do contexto<br />
deles. Portanto, não abandonaram<br />
o contexto que ficava na Europa;<br />
apenas saíram fisicamente dele,<br />
mantendo a preocupação de ali se<br />
tornarem célebres.<br />
Assim, acontecia muitas vezes que,<br />
com pasmo e verdadeiro escândalo<br />
para todo o mundo, quando chegava<br />
a hora de o General-chefe distribuir<br />
as posições de guerra, e não distribuía<br />
para esse ou aquele nobre um lugar<br />
onde ele teria ocasião de realizar<br />
grandes proezas, esse nobre não aceitava<br />
e entrava em luta contra o outro<br />
designado para tal posição. Então, na<br />
primeira linha, os cruzados guerreavam<br />
entre si em vez de lutar contra o<br />
adversário. Resultado: naturalmente,<br />
saíam derrotados.<br />
Isso contaminou toda a nobreza<br />
europeia com uma espécie de vício<br />
de fanfarronada militar, cujo resultado<br />
foi que, terminadas as Cruzadas,<br />
mesmo na Europa as lutas entre<br />
os feudos fossem incessantes, e<br />
todos os Estados europeus vivessem<br />
numa agitação e numa fermentação<br />
contínua por causa disso. Essa era a<br />
“anarquia feudal”.<br />
Essa situação favoreceu indiretamente<br />
a causa da Revolução, pois<br />
para coibir essa anarquia, os reis começaram<br />
a exercer uma autoridade<br />
brutal sobre os senhores feudais até<br />
quebrá-los, passando para a monarquia<br />
absoluta dos tempos modernos,<br />
certamente muito menos digna de<br />
30
aplauso do que a feudal como o ideal<br />
medieval a tinha imaginado.<br />
Tratava-se, nesse tempo, de fazer<br />
uma reação contra esse espírito<br />
de fanfarronada, de vaidade<br />
militar, em favor da luta<br />
contra o gérmen da Revolução<br />
que se vinha acumulando.<br />
Temos, então, um príncipe<br />
que faz o escândalo<br />
daquele século. São Casimiro<br />
vai invadir a Hungria<br />
porque, em virtude<br />
de direitos hereditários e<br />
por aclamação popular, fora<br />
eleito Rei daquele país<br />
no lugar do monarca deposto.<br />
Porém, quando chega<br />
à fronteira e recebe a notícia:<br />
“O Papa considera a sua causa<br />
falsa. Julgou o assunto e reconhece<br />
o Rei Matias como verdadeiro<br />
monarca. Aliás, este já subiu ao trono<br />
novamente, porque as diferenças<br />
existentes entre ele e os súditos foram<br />
aplacadas. Portanto, o Rei legítimo<br />
está no seu palácio”, São Casimiro<br />
se detém na fronteira e diz: “Se<br />
esse é o pensamento do Papa, eu paro,<br />
submeto-me e volto para trás.<br />
Não irei conquistar um reino ao qual<br />
não tenha direito.”<br />
Isso era o contrário da mentalidade<br />
da “anarquia feudal”, segundo<br />
a qual ele deveria dizer: “Eu provarei,<br />
pela ponta de minha espada,<br />
que sou homem de coragem e conseguirei<br />
o que eu quero!” E avançaria<br />
contra toda razão e todo direito, para<br />
mostrar ser audacioso.<br />
Suscitado para rebater a<br />
Revolução de seu tempo<br />
Milagre de São Casimiro<br />
durante o cerco de Polotsk<br />
Igreja Jesuíta de Grodno,<br />
Bielorrússia<br />
Também, nessa época, começava<br />
a se acentuar a ideia de que um príncipe<br />
que reza muito, dá esmola aos<br />
pobres e tem um trato muito afável<br />
não possui as virtudes verdadeiramente<br />
militares e não é um homem<br />
corajoso, o qual, segundo a concepção<br />
errada, não é afável nem piedoso;<br />
ao contrário, é um fanfarrão disposto<br />
a toda hora a brigar com qualquer<br />
pessoa, e não conhece o oposto<br />
harmônico que é exatamente a placidez,<br />
a serenidade, o amor à paz, o<br />
equilíbrio que dão o verdadeiro valor<br />
à coragem.<br />
Na realidade, a fanfarronada estava<br />
substituindo a coragem sincera.<br />
Ora, São Casimiro enfrentou toda<br />
essa posição errada de seu século<br />
e praticou tais virtudes, ditas moles,<br />
mas que naquela época era preciso<br />
ter uma coragem extraordinária<br />
para praticar, porque todo o mundo<br />
as desprezava.<br />
Com efeito, o Santo é equilibrado,<br />
forte, vigoroso, heroico se necessário,<br />
mas capaz também de não praticar<br />
esse falso heroísmo de ponta de<br />
faca se as circunstâncias pedem dele<br />
outra forma de heroísmo, que consiste<br />
em enfrentar a opinião pública.<br />
Esse herói é, portanto, o tipo do verdadeiro<br />
príncipe que devemos venerar<br />
e honrar.<br />
Nota-se como Nossa Senhora o suscitou,<br />
no fundo, para salvar o feudalismo.<br />
Se os senhores feudais tivessem<br />
seguido esse exemplo, a “anarquia<br />
feudal” se aplacaria por si mesma,<br />
e teria sido muito difícil a<br />
implantação da monarquia<br />
absoluta e pré-revolucionária<br />
dos tempos modernos.<br />
Nós devemos ver em<br />
São Casimiro o varão que<br />
teve coragem de resistir à<br />
pressão de seu tempo, de<br />
fazer o contrário do que<br />
convinha à Revolução da<br />
época. Esta é a verdadeira<br />
coragem, e quem a possui<br />
conquista as demais, inclusive<br />
a de derramar o seu sangue<br />
no campo de batalha se as<br />
circunstâncias exigirem.<br />
Se vejo alguém com coragem<br />
de enfrentar a opinião pública, embora<br />
nunca tenha dado provas de<br />
bravura numa batalha campal, sou<br />
capaz de afirmar: “Esse homem tem<br />
grande possibilidade de ser um herói<br />
no campo de batalha.”<br />
Entretanto, de um herói no campo<br />
de batalha, eu me perguntaria:<br />
“Que probabilidade ele tem de enfrentar<br />
a opinião pública?”<br />
Porque quem enfrenta o mais difícil,<br />
isto é, a opinião vigente, é capaz<br />
de expor a sua vida.<br />
Alguém perguntará: “Mas será<br />
verdade, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, que é mais difícil<br />
enfrentar a opinião pública do que<br />
o adversário no campo de batalha?”<br />
É nobilíssimo, belíssimo, empolgante<br />
enfrentar o adversário no<br />
campo de batalha a serviço de uma<br />
guerra justa e, sobretudo, sagrada.<br />
Mas há muita gente disposta a correr<br />
o risco de entrar em combate<br />
por medo de ser objeto de caçoada<br />
se permanecer na retaguarda. Logo,<br />
tais pessoas têm mais medo da risada<br />
do que da metralhadora.<br />
Assim, nós podemos considerar<br />
São Casimiro como um verdadeiro<br />
herói.<br />
AsNory (CC3.0)<br />
31
Hagiografia<br />
Difundindo o aroma<br />
de santidade<br />
Estando São Casimiro enfermo, diziam<br />
os médicos, e o importunavam seus<br />
domésticos, que lhe era necessário o casamento<br />
para conservar sua vida e saúde,<br />
tão importantes ao bem público. Desprezando<br />
com uma heroica constância<br />
os avisos dos médicos, respondeu-lhes ele<br />
uma sentença digna de seu espírito casto,<br />
generoso e celestial: “Não conheço outra<br />
vida e outra saúde mais que a Cristo, por<br />
cuja companhia desejo desatar-me”.<br />
Deus lhe fez a graça de revelar o dia<br />
e a hora de sua morte, para a qual ele<br />
se preparou particularmente. No dia 4<br />
de março do ano de 1483, aos vinte e<br />
quatro anos, expirou docemente entregando<br />
a sua alma a Deus. Seu corpo<br />
foi levado com grande pompa fúnebre<br />
para a Catedral de Santo Estanislau,<br />
em Welms, capital do ducado do qual<br />
ele era senhor, e recebeu ali as honras<br />
da sepultura. Operou-se grande número<br />
de milagres por sua intercessão.<br />
Cento e vinte anos após a sua morte,<br />
seu corpo e as ricas vestes com que<br />
fora enterrado foram encontrados incorruptos,<br />
construindo-se uma riquíssima<br />
capela de mármore para conservação<br />
desta relíquia. São Casimiro é<br />
padroeiro da Polônia e modelo de pureza<br />
para a juventude.<br />
Arquivo <strong>Revista</strong><br />
Nós temos falado em muitas ocasiões<br />
a respeito dos Santos fundadores<br />
de povos ou de ciclos de civilização,<br />
e que por sua ação extraordinária<br />
movem a História. Porém,<br />
também podemos considerar que há<br />
uma outra categoria de Santos que<br />
nascem e se tornam exímios na prática<br />
de uma virtude, a qual eles vão representar<br />
em toda a vida da Igreja.<br />
E, para que a atenção dos fiéis não<br />
se desvie deste ponto central, esses<br />
Santos morrem relativamente jovens<br />
e a sua vida fica circunscrita à prática<br />
daquela virtude.<br />
Considerem, por exemplo, São<br />
Luís Gonzaga. Ele fez pouca coisa,<br />
mas morreu no apogeu da virtude,<br />
ainda adolescente. Se ele tivesse realizado<br />
numerosas obras, as atenções<br />
se voltariam para o que ele fez, em<br />
vez de se concentrarem no que ele<br />
foi, e o principal exemplo a ser dado<br />
por ele acabaria esquecido.<br />
Tais Santos nos mostram que a<br />
santidade consiste, sobretudo, em<br />
ter uma ação de presença dentro da<br />
Igreja, em difundir o aroma dessa<br />
santidade, não só enquanto estão vivos,<br />
mas depois de mortos. E que a<br />
vida deles, tão precocemente imolada<br />
e, em geral, oferecida em benefício<br />
da Igreja Católica, é um elemento<br />
preciosíssimo para a salvação das<br />
almas. <br />
v<br />
(Extraído de conferências<br />
de 3/3/1964, 3/3/1966,<br />
3/3/1967 e 25/11/1974)<br />
<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1974<br />
1) Cf. ROHRBACHER, René-François.<br />
Vida dos Santos. São Paulo: Editora<br />
das Américas, 1959. v. IV, p. 177-180.<br />
2) Expressão metafórica criada por <strong>Dr</strong>.<br />
<strong>Plinio</strong> para designar a mentalidade<br />
sentimental que se manifesta na piedade,<br />
na cultura, na arte, etc. As pessoas<br />
por ela afetadas se tornam moles,<br />
medíocres, pouco propensas à<br />
fortaleza, assim como a tudo que signifique<br />
esplendor.<br />
32
Luzes da Civilização Cristã<br />
M. J. Rodríguez Rechi<br />
Virgem-Mãe,<br />
Rainha e<br />
General<br />
Na imagem de Nossa Senhora da Esperança Macarena vê-se Maria<br />
Santíssima como a Rainha que tem um mando natural presente em toda<br />
sua pessoa. Há qualquer coisa de virginal no seu porte esguio, delicado,<br />
fino, que faz pensar, ao mesmo tempo, em uma virgem e matriarca.<br />
Uma das imagens que mais me agrada é a que representa<br />
Maria Santíssima de tal maneira na<br />
sua realeza, na sua distinção e no seu caráter de<br />
Virgem Mãe de Deus, Rainha do Céu e da Terra, que resolvi<br />
comentá-la sob o prisma de “Ambientes, Costumes<br />
e Civilizações”. Trata-se da famosa imagem exposta em<br />
Sevilha, chamada La Macarena.<br />
Ao fundo, há um lindo trono dourado e vermelho no alto<br />
de uma escadaria, diante da qual encontra-se a imagem que<br />
se reveste de um tom régio, uma nobreza, elevação, virginalidade<br />
e de uma força de mãe de família extraordinárias, por<br />
onde se vê ser Ela, verdadeiramente, a Rainha Mãe de Deus!<br />
Os trajes da Macarena<br />
A primeira impressão que causa, ao menos para meu<br />
olhar, é a excepcional riqueza do manto e do traje. São tecidos<br />
de primeira ordem nos quais o ouro e a prata abundam.<br />
Não só o ouro e a prata, mas os tecidos são muito<br />
abundantes. É um vestido bastante rodado e a capa que<br />
a Rainha traz é enorme. Pega do alto da cabeça, vai até<br />
abaixo, nos pés, com uma sobra de pano que não se pode<br />
imaginar bem como Ela conseguiria Se conduzir no<br />
meio daquilo tudo. Entretanto, Ela está tão distinta e<br />
elegante, domina tão bem aqueles panos, que toda aquela<br />
abundância de tecidos está a serviço d’Ela.<br />
De maneira que se Ela fosse andar, andaria perfeitamente<br />
bem, sem que nenhum dos tecidos sobrasse, nem<br />
atrapalhasse. Porque Ela é de tal maneira senhora de todos<br />
os seus movimentos, senhora de Si e de tudo, que Ela<br />
é Rainha de seu próprio luxo! E em vez de Se deixar abafar<br />
ou esmagar pelo luxo, Ela tem um domínio absoluto<br />
sobre ele, com gestos muito naturais e simples.<br />
A imagem não tem nem um pouco o ar de uma senhora<br />
que queira estar dominando. Ela está com toda a naturalidade,<br />
é Rainha por natureza própria e tudo Lhe<br />
obedece porque Ela quer que obedeça.<br />
É de se notar que se os braços estivessem em uma postura<br />
um pouco diferente, Ela perderia o domínio da ca-<br />
33
Luzes da Civilização Cristã<br />
pa. Porém, eles estão postos com tanta naturalidade, que<br />
se diria nem ter passado o problema pela cabeça d’Ela.<br />
A estatura d’Ela é de uma pessoa em nada agigantada,<br />
mas nobremente alta e que tem sobre o chão o domínio<br />
da distância. Ela olha o piso como uma Rainha deve<br />
olhar: dominando de longe.<br />
A riqueza dos adornos<br />
O mais interessante é o seguinte: Ela está adornada.<br />
Os críticos afirmam que os espanhóis empetecam as coisas<br />
com tantos adornos. Eu não participo dessa crítica do<br />
bom gosto espanhol, mas sei de povos que acham isso.<br />
Se consideramos como o vestido e o manto já são carregados<br />
de enfeites, e ainda assim, há uma espécie de mantilha pelo<br />
lado de dentro que sai por debaixo da coroa além do manto,<br />
notamos essa insistência em adornar à maneira espanhola.<br />
O rosto está altaneiro e nobre, ainda mais encimado<br />
por uma coroa enorme. Pois bem, percebe-se que Ela poderia<br />
Se mover inteiramente à vontade, sem temer ser<br />
esmagada pela própria riqueza, porque esta Rainha tem<br />
dentro de Si uma riqueza pessoal muito superior a todas<br />
aquelas que A adornam: Ela é Ela!<br />
É necessário ter bem presente isto para compreender<br />
as coisas espanholas, quando são acertadas.<br />
A dama General<br />
Notem, na cintura, a faixa de general.<br />
É preciso considerar esses dois aspectos: primeiro, a<br />
faixa; depois, é de general.<br />
Poder-se-ia dizer não ser necessário esse adorno, além<br />
de tudo o que já existe. Mas a faixa concorre enormemente<br />
para dar toda a esbelteza à figura geral e para acentuar esse<br />
domínio d’Ela sobre a riqueza. Tirem essa faixa e a divisão<br />
entre a parte superior e a inferior perde sua elegância.<br />
Agora, que faixa é? General do Exército espanhol.<br />
Alguém poderia objetar: “Mas uma dama, general?<br />
Como fica pesado!”<br />
Eu digo: Não entendeu nada!<br />
Para mim, uma das figuras femininas mais leves que<br />
houve na História é Santa Joana d’Arc com armadura.<br />
Ademais, quem pode ser Rainha, não pode ser a fortiori general?<br />
Pois o mando supremo de uma tropa não cabe naturalmente<br />
ao chefe de Estado? É ridículo que se esteja à altura de<br />
cingir uma coroa e não se possa usar a faixa de general.<br />
O hipotético objetante replicará: “Aqui está a minha<br />
objeção: se Ela é Rainha, por que ainda mais a faixa de<br />
general? Já não está tudo expresso?”<br />
Não. Porque é glorioso para um rei ser general, logo é<br />
uma glória para Ela o Exército espanhol tê-La tomado como<br />
esse tipo de Rainha de quem se espera uma interferência<br />
no campo de batalha, em uma hora difícil, num momento<br />
delicado. Eu considero simplesmente monumental!<br />
Por outro lado, há em tudo isso algo de virginal e matriarcal<br />
ao mesmo tempo. Ela como Rainha tem um mando<br />
natural presente em toda a pessoa d’Ela. Mas há qualquer<br />
coisa de virginal no seu porte esguio, delicado, fino,<br />
que faz pensar numa virgem-mãe. Ela é uma Virgem! E<br />
como fica bem para Ela todo esse conjunto de predicados!<br />
Ornatos exagerados?<br />
Poder-se-ia levantar ainda a seguinte questão: Está<br />
bom, mas depois dessa coroa, não era dispensável esse<br />
resplendor de prata atrás?<br />
Ao que respondo levantando outras perguntas: As flores<br />
colocadas pela devoção popular seriam dispensáveis?<br />
Quando amamos muito alguém, na hora de dar-lhe<br />
algo perguntamos se é dispensável? E se for, não damos?<br />
É esta a regra do amor?<br />
Para se interpretar cada povo é preciso andar com<br />
cuidado, procurando ver o lado bom e entender as coisas<br />
como são.<br />
Nos povos da Europa, as criteriologias são variadas.<br />
Alguns têm o receio de abusar da palavra humana de maneira<br />
a levá-los a dizer mais do que eles desejam. Seu<br />
grande cuidado, portanto, é de serem comedidos no falar.<br />
O próprio do espanhol é o contrário: um receio de que<br />
a palavra humana não diga tudo quanto eles querem.<br />
Compreendo ambos os receios, porque depois da dispersão<br />
da Torre de Babel com a confusão das línguas, não<br />
existiu mais o idioma perfeito. E só manuseia bem a própria<br />
língua quem entende o lado fraco que ela tem.<br />
Então, há no modo de os espanhóis usarem o seu idioma<br />
uma espécie de exagero didático, segundo o qual eles vão<br />
além do que sabem ser a realidade, mas julgando que o ouvinte<br />
inteligente saberá dar o desconto e ficar no ponto ideal<br />
não esgotado pela palavra, e que constitui a verdade inteira.<br />
Dentro dessa concepção, a pergunta a respeito do resplendor<br />
não é se ele é necessário, mas sim outra: se cabe<br />
e se comporta para dizer tudo a respeito de uma tão<br />
grande Rainha. É como quem diz: “Entendam bem que<br />
não há ornato suficiente. Portanto, desde que tal adorno<br />
não fique inestético, vai mais isso!”<br />
Quem ousará dizer que fica inestético?<br />
Se alguém objetasse: “Eu acho supérfluo.”<br />
Eu responderia: Você não teve vontade de dar tudo.<br />
Isso significa que a posição espanhola é a única aceitável?<br />
Não estou afirmando isto. Pelo contrário, são inteiramente<br />
admissíveis também outras concepções, de<br />
acordo com a índole de cada povo.<br />
O melhor é saber compreender e amar a beleza existente<br />
em todas as formas de expressão das diversas nações.<br />
v<br />
(Extraído de conferência de 2/2/1983)<br />
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Gabriel K.
Flávio Lourenço<br />
Anunciação - Museu Episcopal, Vic, Espanha<br />
A mais alta lição de obediência<br />
Ao ser consultada para ser a Mãe de Deus, Nossa Senhora não respondeu o seguinte: “Eu aceito<br />
porque é uma grande honra.” Ou então: “Eu aceito porque adoro a Deus, e ter com Ele a vinculação<br />
tão íntima pela qual, além de já ser filha do Padre Eterno, me tornarei esposa do Divino<br />
Espírito Santo e mãe do Verbo Encarnado, faz com que meu amor exulte!”<br />
Em sua resposta a Santíssima Virgem colocou na frente a obediência: “Eis a escrava do Senhor, faça-<br />
-se em mim segundo a tua palavra”.<br />
Tão elevado é o mérito da obediência, que Maria julgou manifestar mais amor agindo desta maneira.<br />
Esta é a mais alta lição de obediência de toda a História que, evidentemente, Aquela que esmaga a<br />
cabeça de Satanás, o revoltoso por excelência, teria que dar para nos indicar nosso caminho.<br />
(Extraído de conferência de 25/3/1973)