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RISCO #25

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SUSTENTABILIDADE FIDELIDADE

José Eduardo Bonito

Investir para gerar impacto

positivo

INOVAÇÃO ACCENTURE

João Alves

Tendências e inovação no sector

financeiro

FINANÇAS NOVOBANCO

Carlos Brandão

Sustentabilidade: uma jornada

em curso

MERCADOS, INSIGHTS E TENDÊNCIAS DO SECTOR FINANCEIRO

Rui Miranda

TRANQUILIDADE | GENERALI

A RESILIÊNCIA

DAS EMPRESAS PERANTE

OS RISCOS ACTUAIS

GESTÃO

de

RISCO

Em cenário

de incerteza global

INFLAÇÃO

GALOPANTE

AS RAZÕES

PARA O AUMENTO

OS SECTORES

MAIS AFECTADOS

MEDIDAS

DE PROTECÇÃO

DAS EMPRESAS

25

VERÃO 2022 • TRIMESTRAL

2,30 euros (cont.) revistarisco.pt

APS

CIBER RISCO EM DEBATE NO

XVIII ENCONTRO DE RESSEGUROS

CRIPTOMOEDAS

O PERFIL DOS NOVOS

INVESTIDORES


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Ricardo Florêncio

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Paulo Mendonça

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Manuel Lopes da Costa · Ricardo Florêncio

RISCO E

INCERTEZA

PAULO MENDONÇA

COORDENADOR EDITORIAL

paulo.mendonca@multipublicacoes.pt

Já não há dúvidas de que a grande

recuperação esperada para

o pós-pandemia ficou pelo caminho,

adiada para dias melhores

que inevitavelmente virão. Falta

saber quando.

D

epois das previsões optimistas

do início do ano, quando ainda

se considerava a hipótese de o

aumento da inflação ser um fenómeno

transitório, o FMI reviu

em baixa, no seu relatório de Primavera, o

crescimento do PIB global, com destaque para

a desaceleração europeia, que se explica em

grande parte pela guerra. De novo os tempos

adivinham-se difíceis, e desta vez o desfecho

da crise depende muito mais da vontade de

líderes internacionais do que da ciência por detrás

da fórmula de uma vacina, o que confere

ao cenário em que o mundo mergulhou um

grau muito maior de imprevisibilidade.

Enquanto houver guerra na Europa, o retrocesso

da inflação não passará de uma miragem,

e outros períodos da História já mostraram

as consequências, para as famílias e para

as empresas, que estão associadas a este tipo

EDITORIAL

de cenário. A inflação é, por si só, um fenómeno

a que tipicamente se seguem problemas

que afectam toda a economia: perda do poder

de compra, aumento da despesa, escassez de

bens, aumento do crédito malparado, desemprego.

Uma sucessão de fenómenos que muitas

vezes acaba por redundar no mais receado

conceito da economia: recessão.

As escolhas dos governos e a hesitação na

tomada de medidas drásticas, como uma subida

abrupta das taxas de juro, pode explicar-se

pela cautela adquirida nas experiências mais

recentes da crise de 2008, mas também porque

esta crise é diferente de outras motivadas por

conflitos geopolíticos, com riscos diferentes,

porventura maiores e com uma margem de

incerteza superior. De resto, a guerra é neste

momento o maior problema para a economia,

mas não é o único, e a cada probabilidade de

cenário negativo torna-se necessário contrapor

uma equivalente probabilidade de cenário

positivo. Enquanto se mantiver esta incerteza,

nem tudo vai mal... Embora também não vá,

indubitavelmente, bem.

É neste tipo de cenário que a gestão de

risco se torna um aspecto fulcral para as empresas.

Se, por um lado, se recomenda cautela

face ao futuro, por outro, nenhuma empresa

quer deixar passar as oportunidades do pós-

-pandemia. É por isso que, mais do que nunca,

as empresas devem tomar consciência de

que hoje o risco chega de todos os lados e é

fundamental geri-lo: traçar cenários, conhecer

as consequências de cada um e calcular o

potencial de perdas face a cada factor de risco,

tendo em conta o seu grau de previsibilidade.

A gestão de risco é necessária sempre, mas

para muitas empresas pode ser agora o segredo

para sobreviver a uma crise sem precedentes

em que o maior risco é mesmo a incerteza.

E essa, sim, veio para ficar.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 3


ESTA

EDIÇÃO

6 NOTAS

PME acreditam em crescimento

entre 10 e 30%

25 12 TEMA DE CAPA: GESTÃO DE RISCO

OS PROFISSIONAIS DE RISCO DEVEM

AJUDAR A RESTANTE ORGANIZAÇÃO A

IDENTIFICAR RISCOS

COM IMPACTOS

NEGATIVOS

20 INOVAÇÃO NO SECTOR

FINANCEIRO

Entrevista com João Alves,

Financial Services da Accenture

24 SUSTENTABILIDADE

Entrevista com José Eduardo

Bonito, head of Life Savings

Divison da Fidelidade

28 FINANÇAS SUSTENTÁVEIS

Entrevista com Carlos Brandão,

General manager de Global Risks

do novobanco

32 CIBER RISCO

Reportagem no XVIII Encontro de

Resseguros, organizado pela Associação

Portuguesa de Seguradores (APS)

36 ECONOMIA

Inflação: qual o impacto?

40 MACROECONOMIA

Cenário de guerra: os riscos para

a economia global

47 TECNOLOGIA

Desafios da cibersegurança no trabalho

híbrido, por Carlos Jesus, Country

manager da Colt Portugal

48 PME SUSTENTÁVEIS

Entrevista com Sofia Santos,

economista especializada em

Financiamento Sustentável e fundadora

da Systemic

52 CRIPTOMOEDAS

O perfil do investidor deste tipo de activos

54 TRADING

As ambições de quem investe nos

mercados financeiros, por Adelino

Matos, CEO e founder da Escola

Trading

58 CBDC

As moedas digitais dos bancos

centrais, por Nuno Sousa Pereira,

director de Investimentos da Sixty

Degrees

Opinião de Rui Miranda,

Chief Risk Officer,

Tranquilidade | Generali

60 ACÇÕES

Os caminhos do PSI, por Carlos

Rodrigues, presidente da Maxyeld –

Clube dos Pequenos Accionistas

64 CIBERSEGURANÇA

A transição para serviços de

segurança geridos, por Carlos Vieira,

Country manager da WatchGuard

para Portugal e Espanha

66 ACTIVOS

Criptomoedas: um futuro presente,

por Ricardo Branco, Outsourcing

senior da Mazars em Portugal

70 FINTECH

Entrevista com Filipe Moura,

CEO da ifthenpay

74 ESTANTE

Sugestões de leitura

ESTATUTO EDITORIAL REVISTA RISCO A Risco é uma revista trimestral de informação

geral que aposta numa informação diversificada abrangendo os mais variados campos de

actividade e que pretende ir ao encontro das motivações e interesses de um público plural.

A Risco pretende atingir uma ampla cobertura dos mais importantes e significativos acontecimentos

nacionais e internacionais em todos os domínios de interesse. A Risco é uma

revista que dá primazia às matérias de finanças no seu sentido mais lato e abrangente.

A revista Risco reger-se-á pelo seguinte projecto de estatuto editorial: 1. Cumprimento rigoroso

das normas éticas e deontológicas do jornalismo; 2. Identificação com os valores da

democracia; 3. Independência face a quaisquer grupos de pressão, poderes políticos ou económicos;

4. Salvaguarda do espaço privado dos cidadãos; 5. Defesa do pluralismo de opinião.

04 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


ACCENTURE SONG É O

NOVO NOME DA ACCENTURE

INTERACTIVE

Accenture Song é a nova designação

da empresa para a Accenture

Interactive.

De acordo com a consultora, «a mudança

reflecte os serviços globais oferecidos pela

empresa num contexto pós-pandemia, os quais

permitem reinventar a relação das organizações

com o cliente, vendas, e-Commerce e marketing

e inovação. Estes serviços foram concebidos para

responder à acelerada necessidade de crescimento

das empresas para criar maior relevância

junto dos seus clientes».

O nome Accenture Song tem por base uma

cultura de mudança da empresa, cimentada

ao longo dos anos, e «uma forma duradoura e

universal de arte, conexão, inspiração, proeza

técnica e experiência humana – dando asas à

imaginação e às ideias dos seus profissionais

para entregar resultados tangíveis», pode ler-se

em comunicado da Accenture.

David Droga, CEO & creative chairman, explica

que «a Accenture Song simboliza o processo de

crescimento dos nossos clientes nesta fase pós-

-pandemia. Desde a sua génese que a Accenture

Interactive – agora Accenture Song – ajudou

as empresas a construir e a expandir os seus

negócios por meio da experiência que ofereciam.

Porém, as necessidades dos consumidores de

hoje são consideravelmente diferentes, pelo que a

captura de novas ondas de crescimento, por parte

destas empresas, será apenas possível através

de um processo de aceleração de operações,

capaz de demonstrar perpetuamente a sua

relevância para clientes, colaboradores e

restantes stakeholders».

A Accenture Song, que deverá atingir

US$ 14 biliões em receita até ao

final do ano fiscal de 2022 (31 de

Agosto), trabalha com marcas

voltadas para o futuro, incluindo a

Coinbase, Blue Buffalo da General

Mills e Shiseido. Além disso,

está a unir-se à Capri Holdings,

um grupo global de moda e

luxo composto pelas marcas

icónicas Versace, Jimmy

Choo e Michael Kors, traduzindo

a sua experiência de compras

de luxo numa experiência digital, que

se alinha com o perfil dos seus clientes.

As PME estão

confiantes no seu

crescimento nos

próximos três anos, com

mais de 50% dos gestores

a perspectivar um

crescimento significativo

entre 10 e 30%.

PME

ACREDITAM

EM CRESCIMENTO

ENTRE

10%

C

omo efeito da pandemia, 69,6% revela

que a sustentabilidade se tornou um

tópico mais importante para a sua

empresa e a relevância da avaliação e

gestão de risco aumentou em 26,8% face ao período

pré-pandemia. Estes são alguns dos principais resultados

do primeiro Barómetro Heróis PME, lançado

pela Yunit Consulting, consultora nacional especializada

em investimento e capitalização das empresas,

que visou a participação de mais de 200 PME.

«Após a leitura atenta dos resultados, é possível

afirmar que as empresas estão dispostas a enfrentar

os desafios que se avizinham para construir um

futuro mais sustentável e digital, que a maioria saiu

fortalecida no pós-pandemia e que as perspectivas de

crescimento para os próximos três anos são animadoras.

Por outro lado, é de salientar que saiu reforçado

o sentimento e a necessidade de apostar no estabelecimento

de parcerias de negócio, bem como de olhar

de forma mais atenta para temas como avaliação e

gestão de risco ou plano de continuidade de negócio»,

afirma Bernardo Maciel, CEO da Yunit Consulting.

De referir que 80% das empresas que responderam

ao inquérito já o fizeram após 24 de Fevereiro e,

dessas, 78% fizeram-no após 11 de Março. «Isto

permite-nos concluir que o sentimento de confiança

partilhado pelos empresários já teve em conta o

contexto actual económico e geopolítico. Este facto

reforça a nossa visão sobre a grande resiliência que

06 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


E

30%

caracteriza as nossas pequenas e médias

empresas», conclui Bernardo Maciel.

A transformação digital foi outra das áreas

que ganhou preponderância neste contexto.

50,7% dos gestores afirma que a pandemia

acelerou a digitalização e 62,7% reconhece

que a adopção de uma estratégia de transformação

digital tem influência na vantagem

competitiva da sua empresa.

É possível apurar também que as empresas

começaram a dar maior importância ao

plano de continuidade de negócio (aumentou

22,6% para 84,8%) e à importância de estabelecer

parcerias de negócio (94,5%). Por outro

lado, os gestores identificam a organização

e a melhoria de procedimentos, a eficiência

produtiva e o desenvolvimento de novos

produtos/processos como principais áreas

onde existe mais margem de melhoria do

desempenho das suas empresas.

Entre os principais factores que contribuíram

para enfrentar os desafios de mercado actuais,

95,8% dos gestores salientam a capacidade

de adaptação e empenho dos colaboradores.

concordando também que a sua empresa saiu

fortalecida no contexto pandémico (69,7%).

16%

O impacto do ambiente

económico no risco de crédito

da carteira de clientes é sentido

por 86% das empresas, segundo

dados da Crédito e Caución.

Em 2021, 16% das empresas portuguesas

sofreram incumprimentos significativos,

apesar da dimensão das injecções de

liquidez e dos estímulos fiscais que

o tecido empresarial nacional recebeu

para mitigar os efeitos económicos

da Covid-19. Este é um dos dados mais

relevantes do inquérito de Primavera

do Estudo de Gestão de Risco de Crédito

em Portugal, impulsionado pela Crédito

y Caución e pela Iberinform, no qual

participaram os gestores de mais de 300

empresas de todas as dimensões

e sectores.

O impacto do contexto económico no

risco de crédito da carteira de clientes

é sentido por 86% das empresas

portuguesas. Neste cenário, coloca-

-se a questão de saber qual o principal

evento que está a deteriorar os níveis

de solvência dos clientes. A lista é

encabeçada pelo assinalável aumento dos

preços da energia (destacado por 21%

das empresas), seguido pela escalada

da inflação (19% das empresas). Por

outras palavras, a evolução dos preços

dos insumos, que as empresas não

repercutem de forma directa nos seus

preços finais, mas que repercutem

nas suas margens, é o principal factor

DAS EMPRESAS INCORRERAM EM

INCUMPRIMENTO SIGNIFICATIVO EM 2021

desestabilizador do risco de crédito

neste momento. O terceiro evento mais

relevante são os problemas na cadeia

de fornecimento (destacado por 18%

das empresas). A menção genérica da

Covid-19 (13%) ocupa já um discreto

quarto lugar, enquanto as tensões

geopolíticas (assinalado por 10% das

empresas) e a evolução dos custos

financeiros (6%) têm uma presença

menos significativa.

Apesar do cenário de deterioração do

risco de crédito confirmado por este

estudo, apenas 16% do tecido produtivo

registaram uma diminuição das suas

vendas, face a 70% que observaram

algum tipo de crescimento. O tecido

produtivo mostra confiança em poder

manter esta dinâmica em 2022. Destaca-

-se pela positiva que 64% das empresas

esperam que os seus níveis de facturação

continuem a crescer, face a uns exíguos

10%, que esperam que este exercício seja

pior que o anterior em termos de receitas.

69,6% REVELA

QUE A SUSTENTABILIDADE

SE TORNOU UM

TÓPICO MAIS IMPORTANTE

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 07


UNIPARTNER COM NOVO LÍDER

PARA A ÁREA DE DATA & IA

GUERRA NA UCRÂNIA

REDUZ CRESCIMENTO

ECONÓMICO DA ZONA EURO

Segundo as estimativas da Crédito y Caución, o crescimento

na Alemanha e em Itália será mais afectado do que em França,

Espanha ou nos Países Baixos.

A

Crédito y Caución

prevê que a

invasão russa

da Ucrânia retire

um ponto de crescimento do PIB da

Zona Euro em 2022, situando-o nos

2,9%, devido à interrupção da cadeia de

fornecimento, ao aumento dos preços

das matérias-primas e ao impacto

negativo na confiança das empresas e dos

consumidores. Esta avaliação do impacto,

sujeita a um elevado nível de incerteza,

assenta em dois pressupostos: que o

conflito bélico não se prolongue para lá de

2022 e que as sanções sejam reforçadas,

mas não até ao ponto de interromper

totalmente as exportações de energia. Se

os combates na Ucrânia se prolongarem

até meados de 2023, se as sanções se

intensificarem e se os fluxos de gás russo

se restringirem, o crescimento poderá

descer até 1% em 2022.

No seu cenário de referência, a

seguradora de crédito prevê que a

redução do crescimento afecte com

diferentes intensidades os distintos

mercados europeus: 1,8 pontos na

Alemanha, 1,5 em Itália, 0,7 em França,

0,6 em Espanha e 0,3 nos Países

Baixos. Alemanha e Itália estão entre

os países mais afectados. Além de

terem estreitas relações comerciais

com a Rússia, é provável que as suas

indústrias automobilísticas sejam

afectadas negativamente pela guerra.

Os fabricantes de automóveis alemães

já anunciaram reduções temporárias

na produção, devido à escassez de

peças provenientes da Ucrânia, e é

provável que surjam problemas de

fornecimento semelhantes em Itália.

A Alemanha também depende em

grande medida da Rússia para as suas

importações de gás. O impacto é mais

reduzido em França, Espanha e nos

Países Baixos, na medida em que são

menos dependentes da Rússia.

De acordo com as previsões da

seguradora de crédito, a Zona Euro

irá registar um abrandamento da sua

actividade empresarial nos próximos

trimestres, num contexto de aumento

sem precedentes dos preços dos

insumos. A Crédito y Caución prevê que

as compras de activos por parte do Banco

Central Europeu terminem totalmente

em Dezembro de 2022 e que a primeira

subida das taxas de juro não aconteça

até ao quarto trimestre deste ano ou no

primeiro de 2023.

A Unipartner, empresa de consultoria

e integração de sistemas de informação

que apoia instituições financeiras, o

sector público, ONG e grandes empresas,

anunciou a integração de Rui Miguel para

assumir a liderança da área de Data & IA,

reforçando assim a aposta da consultora no

domínio da exploração dos dados através

de tecnologias disruptivas.

Com quase 25 anos de experiência, Rui Miguel

liderou inúmeros projectos como consultor

especialista nos sectores de Telecomunicações,

Energia, Utilities, Media e Serviços Financeiros,

que ajudaram clientes a definir e implementar

soluções de alta complexidade.

«O Rui junta-se à Unipartner para nos ajudar a

acelerar o desenvolvimento e inovação dos projectos

de Data & AI. Através do seu expertise e experiência

comprovada, acreditamos que é a pessoa certa

para apoiar o crescimento desta área e alcançar os

objectivos que definimos», refere Fernando Reino da

Costa, CEO da Unipartner.

Licenciado em Informática e Gestão de Empresas

pelo ISCTE, Rui Miguel possui uma pós-graduação

em Media, Telecomunicações e Tecnologias

da Informação pela Universidade Católica, e

certificação em Gestão de Projecto pelo Project

Management Institute.

08 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


DECSKILL REFORÇA A

ESTRATÉGIA DE LOW CODE

COM A WORKATO

A DecSkill, especialista em outsourcing e tecnologias de

informação, anunciou uma nova parceria com a WorKato, uma

plataforma global de automação empresarial.

A

linhada com

os desafios da

transformação

digital nas

organizações, a Decskill capacita as

empresas com serviços em tecnologias

de informação e comunicação, através

de modelos de negócio flexíveis e ágeis.

O desenvolvimento de Low & No Code faz

parte da sua estratégia e sai reforçado

com esta parceria com a WorKato.

A Decskill e a WorKato visam ampliar

a capacitação de integrações de

sistemas complexos nas organizações,

contribuindo para a criação de equipas

e serviços inovadores e ágeis para os

seus clientes.

«A missão da DecSkill é simplificar

o processo de transformação digital,

através de modelos de negócio ou

do talento das equipas. A WorKato

vem reforçar a nossa estratégia de

especialização e diversificação de

portefólio com o acesso a sistemas

Low Code que potenciam o negócio e

a operação dos clientes e parceiros,

com integrações entre sistemas e

plataformas – pagamento, facturação,

CRM, gestão documental, Governance,

etc.», afirma Diogo Mendonça,

Executive Board Member e Cross Market

Lead da DecSkill.

A plataforma de automação da WorKato

permite a integração de sistemas

empresariais através de uma abordagem

visual ou de elementos gráficos versus

desenvolvimento de software. Responde

a uma necessidade de automação

inteligente, permitindo atingir objectivos

de inovação, capacitação, optimização

de processos de negócio e melhoria da

experiência de cliente.

A oferta de serviços baseada em

centros de competência distribuídos

globalmente abrange a análise,

desenho, implementação e

evolução de soluções, em formatos

customizados e escaláveis.

A DECSKILL E A WORKATO

VISAM AMPLIAR

A CAPACITAÇÃO

DE INTEGRAÇÕES

DE SISTEMAS

COMPLEXOS NAS

ORGANIZAÇÕES

ALTICE PORTUGAL ABRE

CANDIDATURAS PARA RECRUTAR

JOVENS TALENTOS

As candidaturas para a próxima edição do

Programa DarWIN, o programa de estágios

da Altice Portugal, já estão abertas e podem

ser realizadas através do site telecom.pt.

Através deste programa, a Altice Portugal pretende

atrair jovens de elevado potencial, finalistas das

áreas de Engenharia, Tecnologias da Informação,

Gestão, Economia e outras similares, dotados de um

espírito inovador, empreendedor, dinâmico e ágil. As

candidaturas para a edição de 2022/2023 já podem

ser submetidas na área de estágios do site oficial da

Altice Portugal.

Desde o início do programa, foram recrutados mais

de 70 estagiários, integrados em diferentes direcções

da Altice Portugal. Em comunicado enviado à

imprensa, a Altice afirma que estes números «são representativos

da aposta que a empresa faz nas novas

gerações e na preparação dos líderes do amanhã.

Durante 12 meses, os estagiários do programa vão

integrar diversos departamentos da empresa e assim

contribuir para os seus objectivos estratégicos, ao

mesmo tempo que entram no mercado de trabalho e

vivem uma experiência ímpar e enriquecedora».

10 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


GESTÃO

GESTÃO

DE RISCO

12 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


GESTÃO

NUM CENÁRIO

DE INCERTEZA

GLOBAL

Guerra, pandemia, inflação e subida das taxas

de juro. Numa altura em que o risco vem

de todos os lados, este é um verdadeiro teste

à resiliência das empresas.

POR PAULO MENDONÇA

N

o âmbito financeiro, o termo “risco” existe para definir a possibilidade

de prejuízo ou insucesso num determinado empreendimento,

em resultado de um acontecimento imprevisto

e independente da vontade dos envolvidos. De acordo

com esta definição, o risco acaba por enquadrar-se em todas

as dimensões da nossa vida, e em todas elas é preciso fazer

uma análise, de forma a compreender o risco envolvido em

determinada actividade, e, depois, a sua gestão.

No caso específico dos riscos financeiros, esta gestão corresponde fundamentalmente

a uma análise e medição, tendo por base um determinado projecto ou

transacção, com o objectivo de identificar o potencial de perdas decorrentes das

movimentações do mercado. Os profissionais que se dedicam à área de gestão de

risco têm as suas próprias metodologias, com estudos de probabilidade e estatística,

que visam identificar os diferentes eventos que podem ter um impacto negativo no

sucesso projectado.

As empresas estão sujeitas a diferentes tipos de riscos financeiros, que incluem a

má gestão do fluxo de caixa e o retorno inferior ao esperado em investimentos e outras

transacções. No entanto, existem outros tipos de riscos financeiros, como a gestão

inadequada das finanças, altos níveis de endividamento, exposição a taxas de juro ou

variações de câmbio, operações e investimentos de alto risco e má qualidade das informações

que levam às tomadas de decisão. A juntar a tudo isto, a conjuntura actual

implica outros riscos externos, como o conflito na Ucrânia e a pandemia de Covid-19,

por exemplo, que podem agravar os já existentes. Em todos estes casos é necessário

avaliar o potencial de prejuízos para proteger a empresa de transtornos futuros.

Análise de riscos

Fazer uma gestão de riscos financeiros

passa, em primeiro lugar, por uma análise

do efeito potencial que um dado evento

pode ter num projecto ou numa transacção.

Em termos simples, esta gestão consiste em

quantificar a exposição da empresa a um

dado risco, tendo em conta todas as variáveis

e considerando que estas se podem alterar

de acordo com a volatilidade do mercado

ou outros factores. A crescente inflação

que se verifica aos dias de hoje é um bom

exemplo disso, em que a gestão do risco tem

de ter em consideração diversos cenários e

diferentes tectos máximos de até onde este

indicador pode crescer, em que condições e

quando. A incerteza é, assim, um dos factores

onde reside a maior dificuldade de uma

boa gestão de risco.

Um método comum de analisar um risco

consiste em fazer uma comparação entre

a probabilidade de um evento imprevisto

acontecer e as possíveis perdas financeiras

decorrentes dessa mesma ocorrência.

Por outro lado, em alguns casos, a gestão

de risco ajuda a criar mecanismos que permitem

detectar de forma automática (ou

mesmo prever) a ameaça, com o objectivo

de neutralizá-la antes que os efeitos negativos

se manifestem. Esta é a estratégia mais

utilizada pela área de cibersegurança, por

exemplo, em que se recorre a software e a

procedimentos defensivos e proactivos de

segurança para interceptar um ciberataque

antes deste ocorrer ou, pelo menos, antes

que as consequências nefastas tenham a

oportunidade de se fazer sentir.

Nestes e noutros riscos, é fundamental

estabelecer uma quantificação do risco para

poder prever o impacto. Se a área de influência

se limitar apenas a uma parte da empresa,

o cálculo do efeito previsto pode ser feito

multiplicando a probabilidade de ocorrência

pela perda financeira potencial. Com esta

quantificação, é possível criar gráficos que

permitam compreender quais os riscos que

a empresa consegue tolerar e quais aqueles

que representam uma ameaça grave à saúde

financeira da empresa. Com estes dados torna-se

possível uma tomada de decisão mais

informada quanto aos riscos, enquadrada

igualmente no cenário macroeconómico e

nas tendências preponderantes no mercado.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 13


GESTÃO

Em resumo, a análise de risco compreende

o planeamento, a gestão, a organização e

o controlo das incertezas locais e de mercado.

O objectivo é prever o comportamento

do fluxo de caixa e a oscilação de outros indicadores

financeiros antes que o risco ocorra

de facto. Trata-se, assim, de uma estratégia

de prevenção que nos permite reduzir os

riscos e acompanhar indicadores fiáveis que

assinalam com precisão os ajustes a fazer.

Do ponto de vista das empresas, a gestão

de risco é principalmente uma medida

preventiva que serve a todos os sectores

de actividade; e não se trata de um requisito

reservado a grandes empresas. Aliás, a

sua ausência é frequentemente notada nas

PME, onde a falta deste tipo de gestão acarreta

riscos desnecessários.

OS PROFISSIONAIS QUE SE

DEDICAM À ÁREA DE GESTÃO

DE RISCO TÊM AS SUAS

PRÓPRIAS METODOLOGIAS,

COM ESTUDOS

DE PROBABILIDADE

E ESTATÍSTICA

Instrumentos de gestão

Identificar os riscos é fundamental para

criar mecanismos capazes de os mitigar,

controlar ou prever, e existem diversas tácticas

e instrumentos que as empresas utilizam

tendo em vista este objectivo. O primeiro a

ser utilizado é a metodologia What If, que

consiste na realização de várias reuniões

onde é apresentado em detalhe o processo

através do qual são feitas as operações financeiras.

Nestas reuniões, os colaboradores

são convidados a fazer perguntas com o objectivo

de identificar todos os problemas que

podem ocorrer ao longo do processo. Estas

perguntas devem começar por “E se…”, daí

o nome desta metodologia. Alguns exemplos

de perguntas comuns são: E se o cliente

não pagar? E se o fornecedor não aceitar

pagamentos flexíveis? E se o empréstimo ao

banco for pago mais tarde? Face a estas perguntas,

a equipa tenta encontrar soluções,

olhando para o processo de uma forma mais

ampla e de diversos pontos de vista.

Um outro instrumento de gestão

é a análise preliminar de risco.

Esta abordagem preliminar tem

por objectivo identificar os riscos

de uma operação ainda em fase de

implementação. Assim, os possíveis

problemas são abordados antes

do processo acontecer, sendo

possível prever e corrigir factores

de risco. Na análise preliminar,

é criada uma tabela onde se

descreve o risco, as potenciais

causas, as consequências e a

categoria da ameaça. Por fim,

indica-se a frequência (residual

ou provável), a gravidade (marginal, grave,

muito grave, crítica) e a matriz de risco, que

mistura todos os itens e cria um ranking de

prioridades. Por fim, a tabela de análise preliminar

deve incluir uma coluna com as medidas

a tomar para resolver cada problema.

Um terceiro instrumento de gestão é a

metodologia Failure Mode and Effect Analysis

(FMEA), criada pela NASA em 1960 e utilizada

com sucesso, posteriormente, na indústria

automóvel. Esta metodologia identifica, categoriza

e tenta eliminar falhas nos processos

antes de serem produzidos efeitos negativos.

Em primeiro lugar, é necessário identificar

todas as falhas e efeitos negativos que podem

ocorrer, para depois criar um ranking de prioridades

influenciado por três factores: a ocorrência

da falha, a gravidade da consequência

e a possibilidade de ser identificada antes de

criar prejuízo. Com esta abordagem é possível

verificar os erros mais graves e com piores

consequências, de forma a eliminá-los ou reduzi-los

por via da prevenção.

Prevenção e mitigação de riscos

Por melhor que seja uma estratégia de gestão

de riscos, existe um número de incertezas

que não são possíveis de prever. No entanto,

a preparação para uma grande variedade de

eventos prováveis ajuda a evitar muitos problemas

e também a lidar com o inesperado.

Uma das formas mais eficientes de fazer

gestão de riscos é focar no essencial sem

esquecer o acessório. Isto significa que não

vale a pena elencar um enorme número de

TIPOS DE

RISCOS FINANCEIROS

Embora existam muitos riscos diferentes

a que as empresas estão sujeitas, e mesmo tendo em conta

a variedade de imprevisibilidade que existe hoje

em dia, podem identificar-se quatro tipos fundamentais

de riscos financeiros:

DE MERCADO

Este risco está directamente

1.RISCO

relacionado com a volatilidade

das cotações e preços, com impacto

nas empresas. Tomemos como

exemplo uma empresa portuguesa

que importa matéria-prima e faz o

pagamento em dólares, para depois

transaccioná-la em euros, em

território nacional. Esta empresa fica

sujeita à variação do valor do euro e,

no limite, pode não conseguir honrar

os seus compromissos se o euro

baixar face ao dólar.

DE CRÉDITO

Este é um risco cuja gestão é

2.RISCO

muito comum na actividade

das empresas do sector financeiro

e a sua aplicação serve para avaliar

a resiliência das empresas face ao

crédito. Tipicamente, quando uma

empresa resolve subscrever uma

linha de crédito, a entidade credora

14 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


GESTÃO

UM MÉTODO COMUM DE

ANALISAR UM RISCO CONSISTE

EM FAZER UMA COMPARAÇÃO

ENTRE A PROBABILIDADE

DE UM EVENTO IMPREVISTO

ACONTECER E AS POSSÍVEIS

PERDAS FINANCEIRAS

riscos e preparar uma solução para todos

eles. Muitos eventos de baixa probabilidade

podem não ser de alto risco e estes não

têm razão para ser prioritários. No entanto,

a história recente ensina-nos que também

existem riscos improváveis com grande

impacto, pelo que faz sentido ter planos de

contingência para algumas situações.

Mesmo assim, a gestão de risco trata, mais

aprofundadamente, de riscos com maior probabilidade

do que uma pandemia, por exemplo,

e deve focar-se de forma mais abrangente

em situações que podem ocorrer com relativa

facilidade e impacto para a empresa.

Dentro deste tipo de riscos de maior probabilidade,

existem aqueles com que a empresa

já lidou anteriormente e os que nunca

ocorreram. Deverão existir soluções para os

primeiros, visto que não são uma novidade

para a empresa; já os riscos sem precedentes

poderão ter mais impacto por não haver um

histórico de resolução na prática.

Outra forma de trabalhar uma boa gestão

de risco é ter em conta as especificidades

de cada empresa, visto que existem particularidades,

na área financeira, que fazem com

que um mesmo risco tenha impacto diferente.

É importante identificar algumas vulnerabilidades

que poderão fazer com que aumente

a probabilidade de determinados eventos

de risco. Tendo em consideração que a área

financeira tem relação directa com todos os

departamentos da empresa, é fundamental

que a gestão de risco tenha uma visão global

da empresa e de como ela funciona.

A relação entre a probabilidade de um

evento e o seu impacto é outro factor a ter

em conta, dado que um evento improvável

poder ter muito ou pouco impacto e vice-

-versa. O cálculo desta relação é o que permite

definir uma lista de prioridades.

A última etapa é aquela que traz mais

benefícios à empresa. Com toda a análise

concluída, poderá implementar processos

e sistemas, criar relatórios e indicadores

de desempenho e definir

políticas e procedimentos, entre

outras acções.

O importante é ter em conta

que este trabalho nunca acaba.

A gestão de riscos financeira é

extremamente dinâmica e muda

rapidamente, pelo que exige um

esforço constante de actualização

das medidas adoptadas.

avalia a sua capacidade de honrar os

pagamentos devidos. Se o risco for

demasiado grande, a entidade que

concede o crédito poderá aumentar

as taxas de juro como contrapartida

para controlar o grau de risco. No

entanto, o risco de crédito não se limita

a empréstimos prestados pelos bancos

ou outras instituições financeiras. Uma

empresa que forneça bens ou serviços

sem ser a pronto pagamento está

sempre sujeita ao risco de crédito, que

ocorre sempre que uma entidade não

tem a capacidade de honrar os seus

compromissos de pagamento.

DE LIQUIDEZ

O risco de liquidez está

3.RISCO

relacionado com o de

crédito, mas reporta não a quem

empresta, mas a quem tem de

pagar. Uma empresa que não honra

os seus compromissos deverá estar

com problemas de liquidez, que se

traduzem na existência de contas para

pagar sem que haja uma previsão de

recebimentos que garantam a liquidez

necessária a esses pagamentos. O risco

de liquidez tem como consequências o

endividamento, a exposição a coimas

e juros e o aumento do risco de crédito

em caso de pedido de um empréstimo.

OPERACIONAL

O quarto risco é também

4.RISCO

o mais difícil de medir

quantitativamente. Trata-se do

risco operacional, que se relaciona

com a possibilidade de perdas

para a empresa em resultado de

falhas causadas por processos,

colaboradores, sistemas e eventos

externos. A insatisfação dos

colaboradores, a baixa qualificação, o

obsoletismo de sistemas e máquinas

ou a falta de materiais indispensáveis

à actividade da empresa são

exemplos de riscos operacionais.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 15


GESTÃO

A IMPORTÂNCIA

DA GESTÃO DE RISCOS

De acordo com o dicionário da Língua

Portuguesa da Porto Editora, o risco

é definido como «possibilidade de

um acontecimento futuro e incerto»,

«perigo» ou ainda «diferença entre o

retorno esperado e o retorno obtido».

POR RUI MIRANDA

CHIEF RISK OFFICER, TRANQUILIDADE | GENERALI

A

o nível das organizações, a percepção de risco é fundamental

porque é o efeito que a incerteza tem sobre os objectivos.

Por esse motivo, qualquer organização, independentemente

da natureza dos seus objectivos, terá necessariamente de

considerar os riscos existentes na sua actividade. Até porque,

em última análise, um objectivo primordial será assegurar a

continuidade do negócio, o que, sem a devida análise e consideração

dos riscos existentes, irá seguramente ser colocado em causa.

A pandemia evidenciou a existência de vários sectores que, não sendo regulados

do ponto de vista da gestão de riscos, prestam serviços ou vendem produtos sem os

quais não conseguimos “viver”. Todos os sectores acabaram por alterar de alguma

forma os seus processos e não existem grandes dúvidas que estarão mais bem preparados

para riscos futuros de natureza similar.

Os riscos emergentes, cuja probabilidade de ocorrência e impactos não é facilmente

mensurável, até porque não existe informação histórica que permita auxiliar

o processo de identificação e avaliação destes riscos, não devem ser, no entanto,

ignorados. Pelo contrário, devem fazer parte integral do processo de gestão de riscos

e ser reavaliados regularmente, com a colaboração da gestão de topo e com um olhar

atento, não só para o interior das organizações, mas também para todo o contexto

que as rodeia.

Seria desafiante, para não dizer injusto, pedir que todos os sectores da economia,

ou mesmo apenas alguns, estivessem preparados antecipadamente para um

risco sem precedentes na era moderna,

pelo menos com a magnitude experienciada.

Mas já será razoável esperar que as

organizações estejam pelo menos melhor

preparadas para fazer face a riscos menos

disruptivos, não emergentes, sejam eles

legais, fiscais ou riscos sobre colaboradores

e infra-estruturas.

Os riscos externos, como, por exemplo,

a alteração do comportamento dos clientes,

ou a subida das taxas de juro, são riscos

que não podem ser controlados, mas onde

podem ser colocadas em prática medidas

que minimizam o impacto dos mesmos,

e, no melhor cenário, podem até criar

oportunidades que não tinham sido identificadas

antes. Não existindo neste caso a

possibilidade de prevenção, o foco está na

identificação e mitigação destes riscos.

Outro risco relevante é o operacional,

surgindo no seio da organização, em que

as empresas gerem os riscos das suas pessoas,

processos e sistemas. Apesar da tolerância

que pode existir relativamente a

estes riscos, por exemplo por serem residuais

ou pelo facto de não ser economicamente

viável eliminar completamente os

mesmos, não existe por norma interesse

em assumir este tipo de riscos, porque

não existem benefícios estratégicos e que

podem colocar em causa a concretização

dos objectivos de longo prazo.

Não menos importante é o risco estratégico,

que inclui, por exemplo, os

riscos no desenvolvimento de novos

produtos ou na expansão para diferentes

geografias, em que as empresas aceitam

aqueles que lhes permitem gerar valor

16 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


GESTÃO

através das vantagens competitivas que

consideram ter.

A gestão de riscos

A gestão de riscos encontra-se presente

em todas as organizações, mesmo quando

não é enquadrada formalmente como

tal. Por exemplo, a existência de controlos,

mais ou menos formais, implica que essa

gestão de riscos exista, porque o controlo,

por definição, existe para minimizar

a ocorrência de um determinado risco. E

nunca é de mais salientar a importância do

ambiente de controlo interno, sem o qual

nenhum sistema de gestão de riscos poderá

funcionar.

Alguns sectores são regulados e obrigados

por lei a terem sistemas de gestão

de riscos. A obrigação regulamentar, não

sendo o mais proactivo dos motivos que

leva à existência de um sistema de gestão

de risco, é, sem dúvida, eficaz.

Outro factor que leva as organizações a

considerarem a implementação de um sistema

de gestão de riscos, e talvez um dos

mais frequentes, é quando algo corre mal.

Organizações que não tinham considerado

antes a gestão estruturada de riscos começam

a questionar-se sobre um determinado

evento e sobre os motivos que explicam

que não estivessem preparadas para a ocorrência

do mesmo.

É importante também olhar para a gestão

de riscos de uma forma mais abrangente,

incluindo não só ameaças, mas também

oportunidades, complementando a abordagem

tradicional da gestão de riscos de

se concentrar nos aspectos negativos e na

possibilidade de ocorrência de perdas. Por

norma, são as organizações que não consideraram

anteriormente a gestão de riscos

de forma estruturada que mais se focam

nos impactos negativos dos riscos.

As fintech/insurtech no sector financeiro

são um bom exemplo de riscos que

eram inicialmente vistos como negativos

para as instituições financeiras e que são

agora encarados como positivos. «O que

inicialmente aparentava ser um tsunami

sobre o sector bancário e segurador, demonstra-se

agora uma onda necessária e

que deve ser surfada», como referido na

edição 21 da revista Risco, que contém

A GESTÃO DE RISCOS

ENCONTRA-SE

PRESENTE EM TODAS

AS ORGANIZAÇÕES,

MESMO QUANDO

NÃO É ENQUADRADA

FORMALMENTE

COMO TAL

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 17


GESTÃO

OS PROFISSIONAIS DE RISCO

DEVEM AJUDAR A RESTANTE

ORGANIZAÇÃO

A IDENTIFICAR

RISCOS COM IMPACTOS

NEGATIVOS, BEM

COMO OPORTUNIDADES,

OU RISCOS POSITIVOS

vários artigos sobre as possibilidades da

relação colaborativa entre bancos/seguradoras

e fintech/insurtech.

Para capturar todos os benefícios da

gestão de riscos, é assim essencial considerar

não só os riscos sobre as oportunidades

identificadas através do processo estratégico,

mas também as oportunidades

que podem surgir depois da identificação

dos riscos. Em resumo, destacar o que é

positivo e não só o que é negativo, consolidando

a reciprocidade entre riscos e oportunidades

e o processo de criação de valor.

Independentemente da natureza dos

riscos, tanto para criar valor como para

proteger a organização, é crucial continuar

a fazer bem o que já se faz actualmente,

enquanto é assegurado o alinhamento

continuado da implementação

da estratégia com os interesses dos diferentes

stakeholders.

E se considerarmos todos os stakeholders

existentes, desde os accionistas até

à comunidade em que a organização se

insere, é fácil perceber que é imperativo

considerar e ponderar os riscos existentes,

sejam eles externos, estratégicos ou operacionais.

Ainda mais quando os stakeholders

têm frequentemente interesses distintos

e conflituantes entre si.

É importante que empresas com menor

dimensão, ou, ainda que de maior dimensão

e não reguladas, não sejam desencorajadas

pelo vasto ecossistema da gestão

de riscos. Ao invés, os gestores devem alavancar

o conhecimento que têm das suas

organizações, fomentando o debate de

ideias interno do ponto de vista da gestão

de riscos. A utilização de um framework

de gestão de riscos irá suportar uma abordagem

estruturada e sistematizada na

identificação, mensuração, monitorização

e reporte dos riscos.

Independentemente das ferramentas

utilizadas, a troca de ideias e conhecimento

na identificação dos maiores riscos a

que uma organização se encontra exposta,

assente numa abordagem exploratória

e transversal à organização, pode ser uma

ferramenta muito poderosa e benéfica

para a concretização dos seus objectivos.

Envolver a primeira linha das organizações

é também essencial em vários aspectos,

e não apenas no que diz respeito

ao risco operacional. É usualmente esta

que tem uma percepção em primeira instância

da alteração ao nível dos riscos externos,

que implementa a estratégia nas

organizações e que está mais exposta ao

risco operacional. É por isso, para benefício

da organização como um todo, que a

primeira linha saiba qual o papel que tem

a desempenhar na gestão de riscos e que

o seu input tenha o merecido destaque na

definição da estratégia subjacente.

Transmitir os benefícios da gestão

de riscos e salientar o retorno do investimento

destas actividades é crucial no

envolvimento da linha da frente, porque

é nesta última que a primeira linha, legitimamente,

se irá focar. Para assegurar o

envolvimento transversal da organização,

é também decisivo que a gestão reforce a

importância da gestão de riscos e seja um

facilitador da missão que os responsáveis

por estas actividades têm pela frente.

Os profissionais de risco devem ajudar

a restante organização a identificar riscos

com impactos negativos, bem como oportunidades,

ou riscos positivos, através de comunicação

permanente e bidireccional, não

se focando apenas na identificação de riscos

potencialmente negativos com base num

circuito de informação com sentido único.

Olhando para o momento actual, vemos

que as organizações estão a usar a

seu favor a transformação digital necessária

para fazer frente ao risco cibernético,

ou a mitigar o risco de custos através da

identificação de fornecedores alternativos

com melhores condições ou com políticas

mais sustentáveis, ou ainda como o sector

financeiro irá capturar as oportunidades

que resultam da subida das taxas de juro

através da introdução de novos produtos.

As mudanças internas e externas têm

sido muitas e a uma velocidade cada vez

maior, sendo de crucial importância a integração

da gestão de riscos no processo

estratégico e de decisão das empresas.

O caminho a percorrer dependerá em

muito das especificidades e recursos disponíveis

de cada empresa, sendo certo

que, quem o fizer, extrairá dividendos desse

percurso.

18 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


INOVAÇÃO

BANCOS DEVEM CRIAR NOVAS

EXPERIÊNCIAS PARA CLIENTES

& COLABORADORES

O mundo mudou e o

comportamento dos

clientes bancários

também. Compreender

essas mudanças é

fundamental para que

os bancos mantenham

a confiança e fidelidade

dos seus clientes. Em

entrevista à Risco,

João Alves, Senior

Manager, Financial

Services, da Accenture

Portugal, explica-nos

a onda de inovação a

que estamos a assistir

no sector financeiro, a

criação de uma nova

banca e o perfil dos

novos consumidores.

omo estão a ser endereçados os desafios colocados pelo

C

contexto geopolítico, pelas perspectivas de desaceleração

económica e pela imprevisibilidade da pandemia?

A instabilidade no leste da Europa tem tido um impacto relativamente

suave na banca nacional, devido à reduzida exposição

directa ao sistema bancário russo. No entanto, os impactos indirectos

estão ao virar da esquina, fruto da disrupção das cadeias de abastecimento

e do aumento do preço dos combustíveis, contribuindo para a aceleração dos preços.

Estes dois efeitos negativos têm sido amortecidos pelo nível elevado de poupança das

famílias portuguesas no pós-pandemia e pela reduzida taxa de desemprego.

Os picos de inflação que se deverão manter, no curto prazo, são o grande desafio

para os bancos, prevendo-se um ambiente de taxas de juro crescentes nos próximos

meses para conter a inflação. Entrámos num ambiente de incerteza, onde a eventual

desaceleração da economia, aumento do desemprego e dificuldades no pagamento

do crédito à habitação poderão gerar perdas para os bancos. No entanto, provavelmente,

não antes do 2.º semestre de 2023.

A inflação pode levar os bancos a explorarem novos modelos de negócio baseados

em microprodutos e novos serviços de crédito e poupança. Em paralelo, os

bancos devem continuar a transformar-se do ponto de vista de eficiência, tecnologia

e gestão de risco e liquidez.

Que grandes investimentos irão ter mais impacto nos próximos anos?

A operacionalização de vários modelos de negócio na mesma instituição levanta desafios

de investimento e questões a serem endereçadas pelos bancos, incluindo sobre a:

Capacidade de criar uma base tecnológica e operacional única e transversal;

Gestão de conflitos e canibalização de receitas entre os canais de distribuição;

Propriedade dos dados e dos clientes transversais.

Simultaneamente, os bancos precisarão de lidar com uma série de outras questões,

que irão moldar os investimentos nos próximos anos, nomeadamente:

Como podem ser mitigados os ataques cibernéticos?

20 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


INOVAÇÃO

João Alves,

Senior Manager,

Financial Services, da

Accenture Portugal

Quais devem ser as prioridades de AI,

cloud, metaverso e outras tecnologias?

Qual o posicionamento num contexto

de cashless e aumento dos pagamentos

digitais?

Como criar empatia e aconselhamento

personalizado num mundo digital?

Quais os movimentos de preparação

para as futuras moedas digitais dos

bancos centrais?

Como deve ser gerido o imperativo

da sustentabilidade?

Como irá evoluir o ambiente

regulatório?

Como serão as novas formas de

trabalhar?

Os investimentos estarão, certamente,

centrados na capacitação tecnológica dos

bancos, que permita ganhos de agilidade

na reformulação dos modelos de negócio.

De que forma é que tecnologias já

bem presentes no mercado, como a

IA e o ML, contribuíram e ainda vão

contribuir para a grande transformação

SEGUNDO O “ACCENTURE

TECHNOLOGY VISION

2022”, 89% DOS

EXECUTIVOS

BANCÁRIOS CONCORDAM

QUE A CAPACIDADE DE

GERAR VALOR ESTÁ CADA

VEZ MAIS DEPENDENTE DA

SUA ARQUITECTURA

TECNOLÓGICA

do sector nos últimos anos?

Segundo o “Accenture Technology Vision

2022”, 89% dos executivos bancários concordam

que a sua capacidade de gerar valor está

cada vez mais dependente da sua arquitectura

tecnológica. De facto, existe uma alta correlação

no sector bancário entre a adopção de

tecnologia e o crescimento de receita.

Embora o leque de tecnologias continue

a expandir-se, o Technology Vision 2022

confirma que IA/ML e cloud, seguidas pela

cibersegurança, serão provavelmente as

que terão maior impacto, nomeadamente

na aquisição de clientes, desenvolvimento

de produtos, serviços de advisory, etc.

A combinação destas tecnologias permite

que os bancos revolucionem o seu front,

middle e back offices e, fundamentalmente,

repensem seus negócios.

Em relação a IA, 77% dos executivos portugueses

afirmam que a sua organização já

depende de tecnologias de IA para funcionar

de forma eficaz e 92% concordam que “a IA

está a tornar-se generalizada nos processos

de negócio”. No entanto, há alguma desconfiança

dos clientes em confiar totalmente na

IA. Os clientes esperam transparência e responsabilidade

para evitar o uso indevido.

A tecnologia é o factor-chave que continuará

a viabilizar novas propostas de valor

e modelos de negócio.

Qual o papel para o sector financeiro

de tecnologias emergentes como o

metaverso, por exemplo?

Ainda faz sentido começar por questionar

o que é o metaverso. Construído em

tecnologias como a realidade aumentada

(RA), realidade virtual (RV) e blockchain, o

metaverso é um lugar onde as pessoas podem

encontrar-se e interagir, e onde activos

digitais (terrenos, edifícios, avatares, etc.)

podem ser criados, comprados e vendidos.

Este mundo virtual onde se podem realizar

transacções sobre activos digitais precisará

de serviços financeiros. Na economia

do metaverso residem oportunidades para os

bancos promoverem serviços de pagamentos,

investimento, seguros e empréstimos.

Além disso, é uma oportunidade de restabelecer

os diálogos perdidos nos canais digitais.

Vários bancos estão já a explorar o metaverso.

O BNP Paribas lançou uma app que

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 21


INOVAÇÃO

permite aos clientes consultar a sua actividade

bancária num ambiente de RV. O Bank

of America oferece formação em RV aos colaboradores

para simular interacções com os

clientes. Um grande banco sul-coreano oferece

um banco virtual onde os clientes podem

interagir com consultores financeiros.

Não há certeza de como este canal irá

evoluir, mas a mudança é inevitável. Os

bancos precisam de explorar o seu potencial

e preparar-se para criar novas experiências

para clientes e colaboradores.

Como podem os bancos aproveitar

estas tecnologias desde já?

O metaverso está ainda no início do

seu desenvolvimento. No entanto, os bancos

devem estar preparados para uma trajectória

semelhante à verificada no mobile

banking, que levou cerca de cinco anos para

se difundir totalmente no sector bancário.

Um bom ponto de partida é avaliar o contexto

de mercado e tecnologia para entender

como está a evoluir o metaverso, bem como

eventuais oportunidades e parceiros. Os bancos

devem também avaliar a sua preparação

tecnológica para estas mudanças iminentes.

Uma adopção madura da cloud é um requisito

base. Pode haver espaço para investimentos

mais direccionados em RV, RA, distributed

ledgers e marketplaces virtuais.

Os bancos devem avaliar quais os casos

de uso que podem alavancar sem alto nível

de custos ou riscos. Por exemplo, o uso de

RV para formação já tem vindo a ser testado

ao longo dos últimos anos.

Paralelamente, os bancos precisarão de

um novo conjunto de competências para

um futuro impulsionado pelo metaverso,

que podem incluir artistas 3D, designers de

jogos, especialistas em plataformas e profissionais

com experiência em blockchain. É essencial

começar a desenvolver talento hoje.

Este período de forte inovação é uma

resposta à mudança do perfil de

consumidor? Como se caracteriza o

novo consumidor do sector financeiro?

Em anos de mudanças sem precedentes,

os clientes bancários moveram-se para

os canais digitais mais rápido do que nunca.

A Covid-19 só acelerou este movimento

em direcção à hiperdigitalização.

O mundo mudou e o comportamento

dos clientes bancários também. Compreender

essas mudanças é fundamental

para que os bancos mantenham a confiança

e fidelidade dos seus clientes. Neste contexto,

a Accenture identifica quatro perfis

principais de clientes bancários:

Pragmáticos: agnósticos ao canal,

vêem a tecnologia como um meio para um

fim e não como uma paixão duradoura;

Tradicionalistas: valorizam o

contacto humano e evitam a tecnologia

sempre que possível;

Pioneiros: assumem riscos, entendem

a tecnologia e têm fome de inovação,

privilegiando o contacto por meio de

canais digitais;

Cépticos: preocupados com a tecnologia

e geralmente insatisfeitos com os bancos.

Os clientes estão focados na competitividade

de preços e na relação qualidade-preço,

mas também desejam um toque pessoal quando

se trata de aconselhamento financeiro.

É improvável que a mudança para os

canais digitais seja revertida completamente,

mesmo após a Covid-19. Nem os bancos

nem a maioria dos seus clientes o querem.

EMBORA O VOLUME DE

ACTIVIDADE BANCÁRIA

REALIZADA NOS BALCÕES

CONTINUE A DIMINUIR,

OS CLIENTES

AINDA DESEJAM

INTERACÇÕES

HUMANAS EM

MOMENTOS-CHAVE

Numa banca cada vez mais digital, qual

o papel do balcão tradicional?

A forte adopção das plataformas digitais

tem colocado os balcões tradicionais

sob forte pressão. Há uma percepção generalizada

de que haverá uma redução da

rede de balcões. Mas a realidade é mais

complexa. Embora o volume de actividade

22 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


A Accenture lançou recentemente o seu estudo anual - “Banking Top 10 Trends

for 2022” – que identifica as tendências que estão a impulsionar a disrupção

no sector num mundo pós-Covid, nomeadamente:

QUEREM SER

UMA SUPER-APP

1.TODOS

Os bancos devem decidir competir

ou colaborar com as super-apps.

2.O VERDE TORNA-SE REAL

Os bancos vão ter um papel

decisivo na promoção

da sustentabilidade.

ESTÁ DE VOLTA

Os bancos estão a reinventar

3.INOVAÇÃO

o seu espírito criativo e a

questionar “Porque não?”

UM PASSEIO

MISTERIOSO

4.COMISSÕES...

Produtos “gratuitos” de players

digitais estão a forçar os bancos

a ser mais transparentes – e

criativos – com as comissões.

DIGITAIS

PROCURAM EMPATIA

5.PLATAFORMAS

Os bancos estão a procurar

conexão humana em espaços

digitais.

INTELIGENTES

COM OBJECTIVO ZERO

6.OPERAÇÕES

A aplicação de IA/ ML vai

incrementar a eficiência das

operações bancárias.

DIGITAIS ESTÃO

A CHEGAR

7.MOEDAS

Com a evolução das

criptomoedas, estão a

ganhar ritmo os casos de uso

em torno das moedas digitais

dos bancos centrais.

EM

QUALQUER LUGAR,

QUALQUER HORA… E

8.PAGAMENTOS:

AGORA DE QUALQUER

FORMA

A próxima revolução nos

pagamentos resulta da

adopção de redes abertas,

que obrigam os bancos a

reimaginar a sua oferta.

VOLTAM À

ESTRADA

9.BANCOS

A partir de 2022 esperam-

-se movimentos de

crescimento transfronteiriço

e consolidação.

PELO TALENTO

Os bancos necessitam

10.BATALHA

de uma ambiciosa

estratégia de talento, que

permita voltarem a ser

atraentes para os jovens.

NOVAS TENDÊNCIAS

bancária realizada nos balcões continue a

diminuir, os clientes ainda desejam interacções

humanas em momentos-chave.

Para os bancos, o caminho é transformar

a rede de balcões em “lojas de experiência”,

que coloquem a experiência do cliente no

centro. As lojas de experiência irão permitir:

Promover produtos e disponibilizar

consultoria complexa;

Operar como um componente integrado

da estratégia global de canais, trazendo humanidade

e empatia para a experiência digital;

Promover espaços comunitários, ferramentas

digitais e áreas de retalho, combinando

serviços bancários e de retalho;

Gerir o território, não o balcão, usando

uma combinação de lojas, incluindo

“Experience Hubs” de alta visibilidade, lojas

de “Complemento” e “Satélites” pop-up

ou móveis.

Uma vez que o balcão tradicional continuará

a ser percebido como um must-have,

os bancos terão o desafio de atender às expectativas

dos seus clientes em novos espaços

físicos e canais, proporcionando-lhes

experiências imersivas.

Como são endereçadas as questões

de cibersegurança, numa altura em

que os ciberataques apresentam uma

tendência crescente?

Segundo o estudo “Accenture State of

Cyber Resilience”, e apesar do forte aumento

do investimento em cibersegurança, o

número médio de ataques aumentou 31%

em 2021. Por outro lado, 61% dos ataques

foram indirectos, ou seja, através da cadeia

de valor das organizações e não directamente.

Para além da reforço da capacidade

de defesa a ataques indirectos, as equipas

de cibersegurança das organizações com

maior ciber-resiliência têm continuado a

endereçar um conjunto de outras medidas:

Equilibrar os investimentos de cibersegurança

com os objectivos de negócio;

Reportar a cibersegurança directamente

ao CEO e ao conselho de administração;

Consultar regularmente o CEO e o

INOVAÇÃO

CFO no desenvolvimento das estratégias

de cibersegurança, colaborando mais com

os restantes gestores de topo;

Incorporar a segurança nas iniciativas

de transformação para a cloud;

Medir a maturidade dos programas de

cibersegurança pelo menos uma vez por ano;

Proteger melhor a organização da

perda de dados.

Para alcançar ciber-resiliência de uma

forma sustentada, os CISO precisam obter

uma visão 360º dos riscos e prioridades de

negócio. Gastar mais em cibersegurança

sem um alinhamento com o negócio não

torna uma organização mais segura.

De que forma as questões de

cibersegurança impactam o

funcionamento interno dos bancos?

Tal como já mencionado, o maior risco

são as crescentes ameaças de ataques indirectos,

feitos por meio das vulnerabilidades

nas defesas dos fornecedores, parceiros ou

entidades subsidiárias.

A resposta a este problema seria fácil de

explicar, embora muito mais difícil de implementar

e gerir a longo prazo. Seria exigir os

mesmos padrões de segurança da sua organização

a qualquer entidade terceira. Caso contrário,

a sua rede é tão segura quanto a entidade

menos segura conectada à sua organização.

O recurso a relatórios externos de avaliação

do rating de segurança de entidades externas

pode ser uma alternativa para priorizar riscos

e proteger o ecossistema corporativo.

Para além da forma de interacção com

terceiros, os desafios da cibersegurança impactam

em muitos outros domínios o funcionamento

interno das entidades financeiras,

nomeadamente:

No lançamento de novos produtos;

Na definição de novas formas de trabalhar

– trabalho remoto;

Na priorização de investimentos

tecnológicos;

Na formação a toda a organização em

temas de segurança;

Na maior colaboração interna para

uma visão 360º dos riscos de cibersegurança.

As instituições financeiras devem continuar

a reforçar a sua ciber-resiliência, impactando

o menos possível as consequências

para o seu negócio.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 23


SUSTENTABILIDADE

JÁ NÃO SÃO ACEITÁVEIS

MODELOS DE NEGÓCIO

ASSENTES NUMA

EXPLORAÇÃO DOS

RECURSOS ATÉ

À EXAUSTÃO

José Eduardo

Bonito,

head of Life

Savings Divison

da Fidelidade

24 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


SUSTENTABILIDADE

«INVESTIR PARA GERAR

IMPACTO POSITIVO»

Com 214 anos de história, a Fidelidade tem

a responsabilidade social e a sustentabilidade integradas

num modelo de negócio, desde sempre, pensado

de pessoas para pessoas. José Eduardo Bonito,

head of Life Savings Divison da Fidelidade, explicou à

Risco como as novas soluções da seguradora

se enquadram nesta estratégia.

Q

ual a importância do tema da sustentabilidade para a Fidelidade?

A sustentabilidade na Fidelidade é, acima de tudo, um investimento

no futuro e uma transformação que toda a sociedade terá de ganhar a

consciência de que terá de acontecer. Em termos corporativos, há muito

tempo que a Fidelidade já tem essa consciência, e por isso a sustentabilidade está

perfeitamente integrada no modelo de negócio. Há anos que a Fidelidade aposta em

projectos diferenciadores para o mercado português no âmbito da responsabilidade

social. E este é um facto que está no ADN da seguradora; a sustentabilidade está na

nossa génese.

Não é segredo que este tema já não é uma moda. É, em si mesmo, um novo

modelo de negócio, e por isso os factores ambientais, sociais e de governance são

integrados em tudo o que fazemos, seja nas operações internas, seja no desenvolvimento

de produtos e serviços para o cliente, seja na relação com parceiros, distribuidores

e fornecedores. Os modelos de negócio tradicionais, que assentavam

puramente no aspecto económico-financeiro, mudaram totalmente e este é um

caminho que já não volta atrás.

É certo que o objectivo económico-financeiro não se pode perder nesta nova

lógica de mercado, mas é agora exigido às empresas que o façam de uma forma

consciente e com benefícios para o planeta e para a sociedade. Assim, já não são

aceitáveis modelos de negócio assentes numa exploração dos recursos até à exaustão.

Exige-se que exista um equilíbrio entre a componente económico-financeira e a

sustentabilidade que garanta que, no final, continuaremos a ter um planeta, na plenitude

do termo, e não apenas um espaço para viver. Certo é que no que diz respeito

às questões ambientais, chegámos a um ponto sem retorno.

As empresas e a sociedade, com especial

envolvimento das novas gerações, estão

a tomar consciência da importância de

investir numa oferta de produtos sustentáveis

e de ter valores e atitudes em conformidade

com esta necessidade de proteger

o ambiente. E, por isso, este é um tema de

extrema importância e que tem de estar incorporado

na gestão do dia-a-dia da Fidelidade

e, arrisco dizer, de qualquer empresa.

Além dessa tomada de consciência por

parte das empresas, a sustentabilidade

tornou-se igualmente uma exigência

dos clientes...

Sem dúvida. A sociedade e os clientes

têm sido impulsionadores essenciais para

esta tomada de consciência e levam as empresas

a pensar as suas ofertas com objectivos

enquadrados no âmbito da sustentabilidade.

Hoje em dia, já não é viável lançar um

produto ou serviço sem ter em consideração

o risco de sustentabilidade. O retorno

dos produtos de poupança e investimento

continua a ser importante, mas já não é o

único objectivo, nem o pode ser, nem para

a empresa que o lança, nem para o cliente

que o subscreve. É fundamental que estes

produtos tenham a capacidade de gerar impacto

positivo na sociedade.

Esta preocupação dos clientes com o

meio ambiente já não é nova, mas continua

a ser crescente. Cada vez mais as pessoas

estão muito atentas a estas questões e já

não vêem com bons olhos produtos de investimento

cujo retorno tenha por base activos

que possam ter impacto negativo em

termos ambientais.

Além dos clientes, também o regulador

está a levar as empresas e os agentes econó-

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 25


SUSTENTABILIDADE

micos a terem a sustentabilidade em linha

de conta nas suas políticas corporativas.

Os riscos financeiros já não são os únicos

a serem tidos em conta; também os ambientais,

sociais e de governance têm de ser

considerados e avaliados.

Neste sentido, em Dezembro do último

ano, a Fidelidade criou um produto PPR

ESG (Environment, Social and Governance).

Este é um bom exemplo de produto em

que equilibramos os modelos de retorno

do investimento com os factores de ESG.

O produto promove características ambientais

e sociais através do investimento

em índices de acções, com boas classificações

de rating ESG, emitidos por entidades

reconhecidas neste âmbito, considerando

o investimento em emitentes com rating

ESG igual ou superior a “A” (ou equivalente),

sendo assim alinhados, por um lado,

com boas práticas e critérios do ponto de

vista ambiental e social, bem como com os

princípios emanados pelos Objectivos de

Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos

pela Organização das Nações Unidas

na implementação da Agenda 2030 para o

Desenvolvimento Sustentável.

Foi a partir desse projecto piloto que foi

criada a app Fidelidade MySavings?

O Fidelidade Savings, baseado na App

MySavings, já existia, mas está a evoluir

também numa óptica de sustentabilidade

e literacia financeira. É uma aplicação end-

-to-end (da Fidelidade directamente para o

cliente) e inclui um conjunto de informações

que podem ser consultadas antes da

subscrição de produtos de poupança ou

investimento, e que esclarecem o cliente

quanto a vários conceitos financeiros: o que

é o risco, como planear um investimento,

qual a diferença entre investimento e poupança,

entre outros temas. É uma academia

in-app – aliás, é assim mesmo que lhe chamamos

dentro da aplicação.

Esta questão da literacia financeira é

uma outra forma de sustentabilidade, neste

caso, do ponto de vista social. Portugal tem

uma literacia financeira baixa e a Fidelidade

quer contribuir para formar os seus clientes,

com o objectivo de lhes fazer perceber

como funcionam os serviços que subscrevem,

qual o retorno expectável, quais os

riscos inerentes e qual o impacto ambiental,

que se pretende cada vez menor.

A app permite ao cliente, de uma

forma completamente desmaterializada

(todo o processo é online e sem papel),

criar uma poupança ou investir capital.

No que diz respeito à poupança, queremos

explicar aos nossos clientes que esta

deve ter um objectivo. Vivemos numa sociedade

de imediatismo, em que, quando

se quer comprar algo, recorre-se ao crédito.

É importante formar as pessoas para

que tomem consciência que isto não é

sustentável. Quem não tiver liquidez para

comprar determinado bem, deve planear

essa compra com antecedência e fazer

uma poupança que conduza a essa liquidez.

Assim, na app, o cliente encontra vários

objectivos predefinidos de poupança

(comprar casa, carro, um telemóvel, obras,

entre outros) e é apresentada uma solução

de poupança para cada um desses objectivos,

com um valor mensal e um prazo não

inferior a seis meses.

Além desta secção de poupança, o

Fidelidade Savings tem uma opção de investimento,

com diferentes graus de risco,

e também aqui a literacia financeira é

baixa e muito necessária. Culturalmente,

Portugal tem pouca dinâmica de mercado

de capitais, seja em termos colectivos ou

individuais, porque as pessoas associam o

mercado de capitais a alavancagem, arbitragem,

especulação e jogo. Na verdade,

não é disto que se trata, mas sim de uma

forma de investir as nossas poupanças.

A SOCIEDADE E OS

CLIENTES TÊM SIDO

IMPULSIONADORES

ESSENCIAIS

PARA ESTA TOMADA

DE CONSCIÊNCIA

Nesse sentido, foi criada uma opção de

investimento do Fidelidade Savings, que dá

acesso a activos diversificados de índices

ESG, complementando as duas opções já

existentes, inclusive uma com 90% de capital

garantido (oferta equilibrada, para todos os

perfis e necessidades, na óptica investimento).

Logicamente, o retorno destes investimentos

depende da opção por uma ou outra

modalidade, sendo maior o retorno expectável

quando não existe capital garantido.

Esta opção tem 52% em índices de acções

e 48% em dívida pública da Alemanha

e da França. Dos índices S&P e MSCI, são

seleccionadas as empresas com melhor

rating ESG, excluindo sectores ou empresas

controversas. A médio e longo prazo,

acreditamos que estas empresas vão gerar

maior valor para os nossos clientes, porque

apostam em modelos de negócio assentes

no desenvolvimento sustentável.

Em 2023 a Fidelidade irá lançar mais

produtos com esta dinâmica. No entanto,

além de novos produtos que venham a ser

lançados, toda a nossa carteira de investimentos

está a ser repensada de acordo com

os Princípios para um Investimento Responsável.

Os novos investimentos já têm estes

princípios em conta, mas existe um legacy

que tem de ser adaptado com o tempo. É um

caminho que se vai fazendo gradualmente.

Uma outra opção que poderá vir a integrar

o Fidelidade Savings no futuro é um

PPR geracional, que se adapta ao ciclo de

vida de cada pessoa. O risco que uma pessoa

de 20 anos pode assumir é diferente

daquele que uma de 60 assume. Mas todas

podem investir ao longo da vida e todas podem

continuar a investir, mesmo depois de

já se encontrarem em situação de reforma.

O objectivo desta nova oferta é, mais uma

vez, o de apoiar os nossos clientes na construção

da sua sustentabilidade financeira.

Qual o feedback dos clientes?

O feedback que temos recebido é que

este é um produto muito simples e funcional

na sua contratação, gestão e acompanhamento.

No negócio segurador, este

nível de transparência é muito importante,

ainda mais quando este é um produto que

transfere riscos de mercado para o cliente

e muitas vezes este não sabe o que isso sig-

26 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


SUSTENTABILIDADE

PORTUGAL TEM UMA

LITERACIA FINANCEIRA

BAIXA E A FIDELIDADE

QUER CONTRIBUIR

PARA FORMAR

OS SEUS CLIENTES

nifica. É por isso que é tão importante este

caminho que estamos a fazer de aposta na

literacia financeira.

Outro ponto interessante é que esta

aplicação está a chegar a clientes mais jovens,

e foi pensada precisamente tendo esse

como um dos objectivos. Não basta, no entanto,

entregar um produto a estes novos

clientes: é fundamental que eles percebam

que existe um valor real e que se trata de

uma solução ampla, eficaz e que se adapta

às suas necessidades.

O que também é muito interessante

no Fidelidade Savings é o facto de permitir

gerir o ciclo de vida e o ciclo económico.

Num produto tradicional, quando se faz o

resgate de uma poupança, é preciso criar

uma nova apólice para reinvestir. Neste

caso não. É possível mudar de modalidade

de poupança ou investimento para mitigar

os riscos em determinadas alturas e, depois,

se assim o entender, voltar à modalidade de

maior risco. Tudo sem mudar de apólice.

Por tudo isto, este é um produto para a

vida toda, se o cliente assim o entender, e

permite gerir todas as dinâmicas de mercado.

Os produtos tradicionais não conseguem

ter esta dinâmica.

Queremos, acima de tudo, que os clientes

tenham a consciência de que é importante

poupar por objectivos e planear o futuro.

Para isso, apresentamos uma aplicação que

é equilibrada em termos de custo/retorno e

tem uma dinâmica interessante de elasticidade

que serve para todas as condicionantes.

Quais os maiores obstáculos?

O maior obstáculo é mesmo a baixa

literacia financeira. O negócio segurador

alicerça-se na confiança, e essa a Fidelidade

tem, ou não fosse uma empresa com

mais de 200 anos, e uma solidez financeira

inquestionável (rating A pela agência

de notação Fitch). Tudo o que fazemos é

para acrescentar valor aos clientes. A maior

dificuldade é mesmo a estrutura da nossa

sociedade, onde este tipo de dinâmicas,

conceitos e modelos de negócio ambientais

ainda têm um caminho muito longo para

fazer. A nossa população não tem o grau de

literacia que gostaríamos. E esse caminho

tem de ser feito.

Estamos num processo de transformação

de um negócio de capital e taxa garantidos

para um negócio de risco tomador

(jargão segurador: unit-linked), e isto implica

outros tipos de riscos a que as nossas

redes de distribuição e os nossos clientes

não estavam habituados.

É por isso que estamos a dar tanta importância

à formação de clientes, para que

os subscritores destes produtos percebam o

significado do que estão a subscrever, o seu

valor real e os riscos. Transparência total.

Que boas práticas internas se

destacam na Fidelidade em matéria

de sustentabilidade?

A Fidelidade é um casa de valores humanos

e de grande consciência social. Procura

recorrentemente apoiar os seus colaboradores,

parceiros, clientes e a sociedade em

geral, está na sua génese e no seu modelo de

negócio, não fosse um negócio de pessoas

para pessoas – o “S” (do ESG) está “entranhado”.

Além disso, na sua cadeia de valor e

na relação com todos os seus stakeholders,

procura recorrentemente ter um impacto

positivo, tendo sempre presente a inclusão

dos impactos ambientais e sociais na forma

como o seu retorno económico-financeiro

é gerado, i.e., um valor real sustentável.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 27


FINANÇAS SUSTENTÁVEIS

SUSTENTABILIDADE:

O novobanco anunciou

em Maio uma nova

estratégia de ESG com um

compromisso a três anos.

Carlos Brandão, general

manager de Global Risks

do novobanco, explica

à Risco as premissas

desta estratégia.

«UMA JORNADA

EM CURSO»

C

omo vê o novobanco as matérias ESG e como as incorpora na sua

estratégia de negócio?

A sustentabilidade e as preocupações ESG, sigla em inglês para Ambiente,

Social e Governo Corporativo, dominam a agenda mundial e

têm merecido uma especial atenção por parte da maioria das grandes empresas,

não sendo o novobanco uma excepção.

Em particular, a preocupação com as alterações climáticas deu origem a muitas

iniciativas ao longo dos últimos 30 anos, mas, na realidade, não é ainda um tema

verdadeiramente integrado na maioria dos modelos de negócio, é antes uma jornada

em curso, não completamente dominada e com desafios muito significativos.

Desde 2015, aquando do Acordo de Paris, e em particular nos últimos cinco

anos, governos, investidores e sociedade em geral têm intensificado a pressão para

acelerar a integração, nos modelos de negócio, dos temas do combate às alterações

climáticas e da sustentabilidade.

Neste contexto, o quadro regulatório do sector financeiro tem evoluído significativa

e aceleradamente, reconhecendo o papel da banca como principal financiador

da economia e, consequentemente, catalisador de uma transição justa para

uma economia de baixo carbono.

O plano de acção da Comissão Europeia para um crescimento sustentável é a base

para iniciativas regulatórias com impacto nos bancos e nas empresas em geral, que procuram,

entre outros, reorientar capitais para investimentos mais sustentáveis e reforçar

a transparência e visão de longo prazo na condução do negócio e na gestão dos riscos.

São disso exemplo a Taxonomia Europeia, que estabelece critérios para determinar

em que condições uma actividade económica contribui substancial-

mente para um objectivo ambiental, o

Regulamento SFDR, que define requisitos

adicionais de divulgação de informações

relacionadas com a sustentabilidade no

sector financeiro, ou os requisitos adicionais

de informação não financeira aplicáveis

a todas as grandes empresas e, a prazo,

previsivelmente também às pequenas e

médias empresas.

O novobanco, consciente deste importante

papel do sector financeiro, definiu

como um dos pilares do seu plano estratégico

a integração dos riscos ESG no seu

modelo de negócio, procurando adoptar

uma abordagem estruturada, ambiciosa e

eficaz para enfrentar os desafios ambientais

e sociais na transição para uma economia

sustentável e de baixo carbono.

A nossa actuação incide não apenas nas

questões ambientais, onde queremos minimizar

o impacto negativo no ambiente

das nossas operações próprias e apoiar os

nossos clientes nas suas jornadas de transição,

mas também nas questões sociais e de

28 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


FINANÇAS SUSTENTÁVEIS

governance. Queremos maximizar e medir

o impacto positivo que o novobanco tem

na sociedade e nas comunidades que serve,

endereçando em primeira instância os nossos

clientes e colaboradores.

Recentemente, o novobanco anunciou

o seu compromisso a três anos no

financiamento da transição energética,

economia circular e economia de baixo

carbono. Quais são os eixos principais

desta estratégia?

A nossa estratégia e abordagem endereça

os temas ambientais e sociais não apenas

como riscos, mas também como oportunidades

que queremos incorporar intrinsecamente

na estratégia de negócio.

Na definição da nossa estratégia, compromissos

e objectivos ESG, estruturámos

a nossa abordagem em três eixos que reflectem

a forma como endereçamos os

temas materiais e objectivos de desenvolvimento

sustentável identificados pelos

nossos stakeholders:

Negócio sustentável: assegurando

um desempenho financeiro robusto que

crie valor para todos os stakeholders;

minimizando o impacto ambiental das

nossas operações; e investindo de forma

responsável, incorporando riscos e oportunidades

ESG no negócio e na oferta.

A minimização do nosso impacto ambiental

passa pela redução de consumos

internos, optando pelo digital em substituição

do papel, pela racionalização das

deslocações e pela utilização de energias

Carlos Brandão,

general manager

de Global Risks

do novobanco

A SUSTENTABILIDADE

E, PARTICULARMENTE,

OS TEMAS ASSOCIADOS ÀS

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

DOMINAM A AGENDA

MUNDIAL

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 29


FINANÇAS SUSTENTÁVEIS

renováveis, para citar alguns exemplos,

mas principalmente pelo apoio que pretendemos

dar aos nossos clientes na redução

da intensidade carbónica da sua

actividade, através da disponibilização de

produtos e financiamento que lhes permitam

transitar para modelos de negócio

mais sustentáveis.

Bem-estar social e financeiro: promovendo

o bem-estar dos nossos colaboradores

e uma cultura corporativa inclusiva, que

tem a diversidade como alavanca estratégica;

e garantindo uma troca justa de valor

com os nossos clientes, servindo com conveniência,

proximidade e transparência.

Neste âmbito, desenvolvemos iniciativas

junto dos colaboradores, como o Programa

de Bem-Estar, que promove iniciativas

de conciliação entre a vida pessoal e

profissional ou a saúde mental e física dos

colaboradores, bem como uma oferta comercial

para clientes particulares que incentiva

hábitos de poupança saudáveis e

regulares, acessíveis a todas as bolsas.

Banca responsável: queremos ser

uma referência de impacto positivo na sociedade,

actuando num modelo de governance

robusto, com transparência e ética.

Alguns exemplos da nossa actuação

neste âmbito são as iniciativas desenhadas

para promover a equidade e igualdade de

género nas equipas do banco, bem como

A NOSSA PRIORIDADE

É APOIAR OS NOSSOS

CLIENTES NA TRANSIÇÃO

PARA UMA ECONOMIA

DE BAIXO CARBONO

iniciativas de impacto nas comunidades

que servimos, que contribuem para o aumento

da literacia financeira e digital.

De que forma o modelo de negócio

do banco está a ser alinhado em

conformidade com as directivas

decorrentes do Pacto Europeu para

o Clima e com os compromissos

assumidos pela União Europeia no

âmbito do Acordo de Paris?

O nosso programa de transformação do

modelo de negócio para garantir o alinhamento

com as metas europeias estrutura-se

em três linhas de actuação para endereçar

os riscos climáticos e sociais e promover

um impacto social e económico positivo

nas comunidades que servimos: adaptação

da estratégia de negócio, governance e gestão

de risco, e divulgação e reporte.

No que respeita à adaptação da estratégia

de negócio, a nossa prioridade é

apoiar os nossos clientes na transição para

uma economia de baixo carbono, com forte

valorização da sua circularidade.

Esta transição envolve riscos e oportunidades

para o sector bancário, das quais

decorrem novas formas de fazer negócio,

estando o banco a assumir um papel activo:

i) na reorientação dos fluxos financeiros

para investimentos sustentáveis,

com a incorporação ESG na oferta e nos

investimentos;

ii) no reposicionamento do investimento

nos sectores mais poluentes, apoiando

os esforços de transição das empresas e;

iii) na integração dos riscos ambientais,

sociais e de governance na análise de risco,

respeitando as directivas decorrentes do

Pacto Europeu.

Neste contexto, estamos a rever e

adaptar a nossa estratégia de financiamento

e investimento, o apetite pelo risco

e a nossa oferta de produtos e serviços

para garantir um alinhamento gradual da

carteira para cumprir os objectivos da

COP26, o Plano de Acção da UE e os compromissos

climáticos nacionais.

MODELO DE DIVIDENDO SOCIAL

O modelo de Dividendo

Social do novobanco

é composto por três

programas com cinco

indicadores cada,

e define objectivos

para 2024.

30 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


Quais os objectivos definidos pelo

novobanco para esta estratégia

até 2024? Qual a estratégia para

financiamentos verdes?

A estratégia para o financiamento verde

do banco passa pela caracterização da

nossa carteira de crédito e investimentos

de acordo com a Taxonomia Europeia, pela

reavaliação do nosso apetite de risco e integração

dos riscos ESG no quadro global

de gestão de riscos do banco e, principalmente,

por um plano de apoio à transição

de sectores e empresas nacionais.

A nossa estratégia transversal de sustentabilidade

estabelece os objectivos, os

planos de acção calendarizados e a capacitação

interna das equipas com conhecimentos

especializados. Mas estabelece

também um compromisso de divulgação

e monitorização da nossa performance

na sustentabilidade.

O banco lançou recentemente o seu

modelo de Dividendo Social, composto por

três programas com cinco indicadores cada

e com objectivos definidos para 2024.

No programa Ambiente, o banco estabeleceu

um objectivo de 600 milhões

de euros em novo investimento verde até

2024, i.e., investimento ou financiamento

a empresas ou projectos cuja actividade

económica principal seja elegível para

a Taxonomia Europeia. Monitorizamos

mensalmente este indicador e divulgamos

trimestralmente a nossa evolução.

Que desafios existem neste

realinhamento do modelo de negócio

para uma actividade mais sustentável?

O complexo quadro regulamentar e

ESG em constante evolução insta os bancos

a rever e incorporarem novos requisitos

regulamentares ao longo de cadeias de

valor inteiras, a reverem as estratégias de

negócio em relação aos clientes e produtos-alvo,

a ajustarem as ferramentas e modelos

de risco e de preço e a desenvolverem

capacidades para quantificar e monitorizar

novos tipos de risco, sejam riscos de transição,

físicos, sociais ou de governação.

Esta transformação é particularmente

desafiante, uma vez que exigirá:

Uma quantidade substancial de novos

dados e informações a serem solicitados

A ADOPÇÃO DESTA

ESTRATÉGIA ESG PERMITIRÁ

POSICIONAR-NOS

COMO BANCO

DE REFERÊNCIA ESG

NO MERCADO

FINANCEIRO NACIONAL

aos clientes bancários, nomeadamente micro,

pequenas e médias empresas (PME),

que não estão preparadas para recolher,

monitorizar ou reportar este tipo de informação,

com potenciais custos adicionais

para o fazer. Alguns exemplos são os dados

relativos às suas emissões de gases com

efeito de estufa ou ao alinhamento das suas

actividades com a Taxonomia Europeia.

Operando em Portugal, um mercado

composto quase na totalidade por PME,

este poderá ser um dos maiores desafios

na procura de fontes alternativas de dados

e, simultaneamente, no apoio aos clientes

a prepararem-se e a evoluir os seus modelos

de negócio não só para reportar, mas

também transitar para um modelo de negócio

de baixo carbono.

Igualmente desafiante é o desenvolvimento

de metodologias e processos sobre

questões para as quais a experiência e

a informação de mercado ainda são limitadas

(por exemplo, quantificação a longo

prazo de impactos de transição ou risco

físico). A estratégia terá de ser uma de test

and learn, com evolução gradual das metodologias

por incorporação de resultados

e nova informação.

Finalmente, a disponibilidade em

mercado de exposições verdes/ESG é ainda

algo incipiente, o que constitui uma

limitação aos objectivos de negócio a

curto/médio prazo e, face à procura elevada

para as exposições existentes, vemos

potencial para algum impacto adverso nos

FINANÇAS SUSTENTÁVEIS

preços/rentabilidade dessas exposições

nos balanços do banco.

Qual o impacto no negócio do banco

desta estratégia de ESG?

Talvez o principal impacto para a banca

seja a disrupção da passagem para primeiro

plano e a gradual quantificação dos impactos

e riscos indirectos, positivos ou negativos,

sobre o ambiente e a sociedade das actividades

que financiamos ou nas quais investimos.

Com este novo paradigma, o banco

pretende reforçar o seu apoio aos clientes,

adequando e reformulando a sua oferta de

produtos e serviços para incluir progressivamente

considerações ambientais, sociais

e éticas, cada vez mais presentes nas necessidades

de clientes, tendências de mercado

e exigências regulamentares.

A adopção desta estratégia ESG, alicerçada

numa política de sustentabilidade

recentemente publicada, permitirá posicionar-nos

como banco de referência ESG no

mercado financeiro nacional.

Conscientes do importante papel que

temos que desenvolver, assumimos, de forma

voluntária, importantes compromissos

de sustentabilidade, que ultrapassam as

nossas obrigações legais e consubstanciam

o nosso papel na sociedade e o impacto positivo

que queremos imprimir na relação

com os nossos diferentes stakeholders.

Acredita que as estratégias para a

sustentabilidade serão cada vez mais

uma tendência no sector bancário

em Portugal?

Sem dúvida, a estratégia para a sustentabilidade

terá que ser inevitavelmente incorporada

no modelo de negócio do sector

financeiro em Portugal. Mais do que uma

tendência, diria antes um vector de transformação

inevitável para o sucesso de uma

gestão que se quer a longo prazo, tanto no

sector financeiro como globalmente no tecido

económico e na sociedade.

Uma robusta análise dos impactos ESG,

seus riscos e oportunidades por parte do

sector financeiro e a capacidade de apoiar

os seus clientes na implementação de um

modelo de gestão sustentável dos seus negócios,

será basilar para a competitividade

e para a resiliência do sector financeiro.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 31


CIBERSEGURANÇA

Quatro anos depois,

voltou a realizar-se

o Encontro de Resseguros,

depois de suspensa

a edição de 2020, devido

à pandemia. Os desafios

e as oportunidades

do sector estiveram

em debate durante dois

dias no Estoril.

CIBER

RISCO

ENTRE A AMEAÇA

E A OPORTUNIDADE

32 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


CIBERSEGURANÇA

N os dias 26 e 27 de Maio, decorreu no Estoril

o XVIII Encontro de Resseguros, promovido

pela Associação Portuguesa de Seguradores

(APS). “Ciber Risco, entre a ameaça e a oportunidade” foi um

dos grandes temas em debate e contou com a participação

do keynote speaker Martin Kreuzer, senior risk manager de

Cyber Risks do grupo alemão Munich RE, que esquematizou

o seu enquadramento nos seguintes tópicos: a situação actual,

os maiores riscos e a sua gestão.

Para ilustrar o ponto em que nos encontramos hoje no

que diz respeito ao ciber risco, Martin Kreuzer recordou que,

à data do evento, contavam-se 19 204 dias desde que a internet

surgiu pela primeira vez, e que desde então foi percorrido

um longo caminho, desde o envio do primeiro e-mail em

Da esquerda

para a direita:

Pedro Santos

Guerreiro

(CNN Portugal),

Jorge Portugal

(Cotec)

e Javier Mora

Rubio

(Mapfre RE)

Foto: Associação Portuguesa de Seguradores (APS)

Outubro de 1969 até à complexidade dos

sistemas actuais.

Hoje, a internet tem 5,3 mil milhões de

utilizadores em todo o mundo e já existem

16,4 mil milhões de dispositivos IOT ligados

à rede. Todo este crescimento alterou

por completo o mundo em que vivemos,

bem como os modelos sociais e de trabalho,

mas Martin Kreuzer lembra que também

existe um «lado negro que corresponde ao

cibercrime e aos seus efeitos económicos.

Para termos uma ideia, só no ano passado,

o impacto de custos estimados, em termos

globais, devido ao cibercrime, foi de 6 biliões

de dólares. É esta a dimensão do que

estamos a tratar».

Entre os principais riscos da actualidade

no que diz respeito à cibersegurança,

Martin Kreuzer coloca no topo da lista o

ransomware, «a ameaça mais altamente

sofisticada que se colocou aos sistemas nos

últimos anos. Existem especialistas que

trabalham apenas nesta área e que seguem

uma lógica económica de negociação de

um resgate para ganhar dinheiro. Mais do

que isso, estes especialistas tentam atrair

pessoas para o seu “negócio”, porque têm

interesse em alargar a sua comunidade para

aumentar a sua eficiência. Existem manuais

para formar novos especialistas, há formações

por subscrição e este é um negócio

que irá continuar».

Outro dos grandes riscos actuais é o

conjunto de ataques informáticos às cadeias

de fornecimento, que está a atingir novos recordes

e se coloca como uma ameaça muito

real e sistémica. A contribuir para este

aumento do risco sistémico está também o

incremento de interdependências digitais,

que faz com que uma enorme parte dos

dispositivos esteja ligada à internet e interligada

entre si. Um bom exemplo disto é o

número de dispositivos IOT que continua

em crescimento e que implica não só uma

conexão constante à internet, mas também

uma interdependência de várias dimensões

do funcionamento das infra-estruturas.

Martin Kreuzer identifica um outro risco,

que é a digitalização dos conflitos geopolíticos,

de que a guerra na Ucrânia está a ser

um exemplo paradigmático. E, neste sentido,

torna-se cada vez mais necessária uma

regulação para lidar com os ciber riscos.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 33


CIBERSEGURANÇA

Perante todas estas ameaças, é essencial

uma gestão de risco eficaz, tendo em

vista este tipo específico de riscos. A diferença

entre a forma como as grandes e

as pequenas empresas lidam com o ciber

risco continua a ser um problema, dado

que nas organizações de menor dimensão

existem casos em que não há sequer uma

abordagem básica à cibersegurança.

Outro problema a resolver é a falta

de especialistas nesta área. De acordo

com dados do WEC, referidos por Martin

Kreuzer, existem apenas 3 milhões de

profissionais de cibersegurança em todo o

mundo – o que é manifestamente pouco.

Os seguros cibernéticos apresentam-

-se como uma grande parte da solução

para as empresas, sendo que a Munich RE

prevê um forte crescimento dos prémios,

em termos globais, de 9,2 mil milhões de

dólares em 2021 para 22,1 mil milhões de

dólares em 2025.

O debate

Após a intervenção de Martin Kreuzer, o

painel sobre ciber risco prosseguiu com um

debate entre António Gameiro Marques,

contra-almirante da Autoridade Nacional

de Segurança e director-geral do Gabinete

Nacional de Segurança; Javier Mora Rubio,

head of Infrastructure and IT Governance

da Mapfre RE; e Jorge Portugal, director-geral

da Cotec – Associação Empresarial para

a Inovação. A moderação do debate esteve

a cargo de Pedro Santos Guerreiro, director

executivo da CNN Portugal.

Perante o contexto apresentado pelo

keynote speaker, o contra-almirante António

Gameiro Marques afirma que este é

«um reflexo do mundo em que vivemos. O

ciber risco coloca-nos uma pressão e um

desafio permanentes, mas continuamos

a ter uma visão transversal à sociedade. É

por isso que empenhamos muitas das nossas

energias na formação e na sensibilização

das pessoas». Esta aposta na formação

prende-se com o facto de existirem «indicadores

da União Europeia que referem

que a literacia digital dos portugueses é baixa,

embora esteja a subir nos últimos anos.

E, quando não sabemos utilizar os meios

digitais, então também não os sabemos utilizar

com segurança».

O contra-almirante refere também a

aposta da Autoridade Nacional de Segurança

e do Gabinete Nacional de Segurança

nas políticas públicas que enquadram a

actividade do Centro Nacional de Cibersegurança

e a colaboração com outras entidades

públicas e privadas. Neste sentido,

António Gameiro Marques afirma que o

sector dos seguros também pode ser um

veículo de transmissão de formação em cibersegurança

para as empresas. Uma ideia

seria a promoção de seguros cujo prémio

dependesse da maturidade digital da empresa,

contribuindo assim para uma sensibilização

quanto à segurança. «Não há

desenvolvimento económico ou social sem

segurança», afirmou.

Por seu lado, Jorge Portugal referiu um

ciberataque recente a um operador de telecomunicações

para lembrar que o tempo

de recuperação até que todos os serviços

fossem restabelecidos foi de 200 dias. E referiu

ainda os 3.000 milhões de dólares de

impacto global do vírus NotPetya, atribuído

por um conjunto de países à Rússia. «A

tendência destes ataques é para aumentar.

Nas empresas há um imperativo para a digitalização,

e por isso é preciso inovar cada

vez mais, mais barato e, se possível, by design.

Só que nem sempre isto é seguro». O

problema é que sempre que se desenvolve

uma componente de software que liga

um dispositivo a uma cloud, por exemplo,

é aberta uma nova frente, ou mesmo um

conjunto de novas frentes de ataque.

O director-geral da Cotec refere que,

«se por um lado a digitalização é essencial

para aumentar a produtividade e manter a

empresa na linha da frente do mercado, por

HOJE, A INTERNET TEM 5,3 MIL

MILHÕES DE UTILIZADORES

EM TODO O MUNDO

E JÁ EXISTEM 16,4

MIL MILHÕES DE

DISPOSITIVOS IOT

LIGADOS À REDE

Martin Kreuzer

falou dos diferentes ciber

riscos que as empresas

enfrentam hoje

outro, existem riscos incrementais que são

incorporados se não se endereçar uma segurança

adicional».

Javier Mora Rubio entrou no debate

com um caso prático, que foi o ataque

informático de que a Mapfre foi alvo em

2020. O head of Infrastructure and IT Governance

da seguradora recordou que a

empresa foi vítima de um software de ransomware,

que conseguiu entrar na rede

através de um anexo de e-mail aberto por

um colaborador.

Rubio refere que o ataque foi «bem planeado

e organizado, com diferentes versões

do malware a serem instaladas na rede, o

que provocou um grande impacto nas operações

em Espanha. Felizmente, estávamos

preparados para reagir». Compreender

o problema e tentar conter a propagação

do malware na rede informática foram as

grandes prioridades, assim que o problema

se manifestou; depois disso, o primeiro passo

foi restabelecer os serviços aos clientes.

34 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


CIBERSEGURANÇA

OS SEGUROS CIBERNÉTICOS

APRESENTAM-SE

COMO UMA GRANDE

PARTE DA SOLUÇÃO PARA

AS EMPRESAS

Ataques com impacto

Em Portugal, desde o início deste ano,

foram oito os ciberataques significativos a

entidades (duas públicas e seis privadas).

António Gameiro Marques afirma que «os

ataques mais destrutivos não foram por

ransomware; foram aqueles em que o atacante

entrou e pura e simplesmente apagou

tudo, incluindo a parte do sistema que permite

que tudo o resto funcione. Em alguns

casos, até os backups foram apagados, o que

é dramático para uma empresa. Há histórico

que se perdeu para sempre. Isto aconteceu

em dois dos ciberataques deste ano».

Outro ponto que o contra-almirante

ressalva é o facto de pelo menos duas entidades

deste grupo de oito estarem muito

bem preparadas e terem investimentos

avultados em cibersegurança. A diferença

desses dois casos foi precisamente esta preparação,

que permitiu «uma recuperação

muito mais estruturada, sem perda de informação

e com a restituição dos serviços

aos colaboradores e aos clientes de uma

forma previsível. Num destes casos, a comunicação

para o exterior foi exemplar».

A lição a tirar é que a diferença entre

os casos de sucesso e os que têm mais dificuldades

em lidar com um ciberataque está

na percepção de risco por parte do C-Level.

«Se o CEO continua a achar que a cibersegurança

é um assunto do departamento de

TI, a empresa está num mau caminho».

Jorge Portugal concorda com esta posição

e diz que as empresas têm de partir do

princípio de que vão ser atacadas, mais cedo

ou mais tarde. É por isso que é tão importante

«perceber de que forma o risco digital

está contemplado. Se ao C-Level temos um

investimento em tecnologia e em digitalização,

do mesmo modo devemos ter um

acompanhamento sobre os riscos incrementais

em termos futuros». O director-geral da

Cotec defende, assim, que deve haver uma

preparação e uma política de segurança que

contemple vários cenários e que defina o

Foto: Associação Portuguesa de Seguradores (APS)

que acontece no caso de um ciberataque,

qual o impacto e quem faz o quê na fase de

reacção. Para isto, as simulações de treino

operacional são uma prática fundamental

no que diz respeito à cibersegurança.

Javier Mora Rubio também realça a importância

desta política de treino e deixa alguns

conselhos às empresas para reduzirem o

possível impacto de um ciberataque: realizar

treinos operacionais, fazer backups externos,

reforçar a segurança, adaptar a segurança aos

dispositivos utilizados na empresa e recorrer a

múltiplas autenticações, entre outras. O head

of Infrastructure and IT Governance da Mapfre

RE lembra ainda que «é fundamental trabalharmos

tendo em conta que os cibercriminosos

estão sempre um passo à nossa frente».

Como nota final, o contra-almirante

António Gameiro Marques afirmou que

«não é cultural na nossa sociedade pensarmos

de uma forma “risk oriented”, mas

é preciso que o façamos. O Centro Nacional

de Cibersegurança coloca ao dispor das

empresas ferramentas que as ajudam a avaliar

o seu risco de cibersegurança, a saber

em que estado de maturidade digital estão

e, sobretudo, a indicar um caminho para

aumentar esse nível de maturidade».

Jorge Portugal concluiu que «o sector

segurador vai representar um papel absolutamente

crucial no futuro, através da criação

de confiança para a estabilização da economia.

Sem que o sector segurador compreenda

como os riscos se estão a acumular nas

empresas, não é possível servir o propósito

para o qual existe, que é o de transferência

de risco. Isto é crítico para as empresas».

Em jeito de conclusão, Javier Mora

Rubio reforçou que «o risco de um ciberataque

é real e acontece. A educação é um

factor crítico».

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 35


ECONOMIA

INFLAÇÃO

Um dos riscos com que as

empresas terão de contar nos

próximos tempos é a inflação,

que já se encontra a níveis só

vistos nos anos 90. Hotelaria,

transportes, têxtil, construção ou

retalho são alguns dos sectores

mais impactados.

QUAL

POR ANTÓNIO SARMENTO

processo de cálculo da inflação

é elaborado pelo Eurostat, que

O

todos os meses recolhe os preços

de cerca de 700 bens e serviços

em Portugal. Estes bens

consistem em produtos do

dia-a-dia que compõem aquilo

a que se chama “cabaz” médio.

Em cada um dos produtos é analisado

o preço em diversos estabelecimentos

comerciais e regiões, por forma a ser calculado

um preço médio. Na análise feita

posteriormente, entram os bens mais preponderantes,

como a electricidade, por

exemplo, que têm um peso superior a outros

com menos importância nas necessidades

do dia-a-dia.

Para completar o cálculo é feita uma

comparação dos preços com o período

homólogo anterior, obtendo-se assim uma

percentagem que representa a variação de

preços. Quando positiva, estamos perante

um cenário de inflação.

A oferta e a procura são um dos factores

catalisadores da inflação. Numa altura

de crise económica, as famílias consomem

menos, provocando uma diminuição da

procura, que leva à redução dos preços.

Do lado inverso temos o exemplo provocado

pelo pós-pandemia, em que a activi-

36 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


ECONOMIA

O IMPACTO?

dade económica ressurgiu, a procura aumentou

e, consequentemente, os preços.

Há, no entanto, outros factores que influenciam

um cenário inflacionário, como

é o caso do aumento do custo das matérias-primas,

as dificuldades nas cadeias

de abastecimento ou ainda um cenário de

tensão geopolítica, como a que se verifica

actualmente com a guerra na Ucrânia.

O antigo ministro da Economia e actual

director do Departamento de Economia da

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento

Económico (OCDE), Álvaro

Santos Pereira, disse, durante as comemorações

do 1.º de Maio, estar preocupado

com o aumento da inflação, e alertou para

potenciais «efeitos dramáticos».

Dando como exemplo os créditos à habitação,

o antigo governante questionou:

«Que consequências terá um aumento de

1 ou 2% das taxas de juro dos empréstimos

das casas? E para os Estados? Terá um impacto

dramático para as pessoas em muitos

países.»

De facto, os preços em Portugal aumentaram

mais 1% durante o mês de Maio,

colocando a taxa de inflação homóloga em

8%, o valor mais alto desde 1993. O País,

que desde o início do ano passado manteve

sempre uma taxa de inflação inferior à da

maioria dos seus parceiros da moeda única,

evitando impactos tão imediatos nos preços,

está agora já ao nível do resto da Zona

Euro neste indicador.

Do lado das empresas, o presidente

da Confederação Empresarial de Portugal

(CIP), António Saraiva, disse recentemente

ser «impossível as empresas, com todos

os custos exponenciais que suportam, por

estas crises que vivemos, acompanharem

os aumentos da inflação». António Saraiva

explicou que as empresas estão a sofrer

aumentos acentuados dos factores de produção,

explicando que a energia eléctrica e

o gás natural subiram 300% e que os transportes

aumentaram 500%.

Da hotelaria ao têxtil

A inflação e a escassez de matérias-primas

e de recursos humanos são actualmente

as principais preocupações da Associação

de Hotelaria, Restauração e Similares de

Portugal (AHRESP). Segundo Carlos Mou-

OS PREÇOS EM PORTUGAL

AUMENTARAM MAIS 1%

EM MAIO, COLOCANDO A TAXA

DE INFLAÇÃO HOMÓLOGA

EM 8%, O VALOR

MAIS ALTO DESDE 1993

ra, vice-presidente da associação, os empresários

do sector vêem-se actualmente confrontados

com «dificuldades decorrentes,

essencialmente, da inflação dos preços dos

combustíveis e da energia, da escassez das

matérias-primas, sobretudo devido à guerra

na Ucrânia, e também de recursos humanos

disponíveis para trabalhar». Relativamente à

inflação, o dirigente lamentou que não haja

«medidas para que as empresas possam suportar

este círculo inflacionista» e que «não

se avizinhe uma inversão do problema».

O sector têxtil, um dos motores da

economia do País durante várias décadas

e uma das indústrias mais importantes de

Portugal, com grande epicentro no Norte e

na zona do Vale do Ave, passou, ao longo

dos anos, por grandes crises. Nos anos 80,

as paisagens misturavam o verde das árvores

com o cinzento das paredes das grandes

fábricas têxteis, que empregavam milhares

de pessoas, famílias inteiras, e que faziam

girar a economia das regiões à sua volta.

Mais tarde, tudo caiu. Foram cerca de

duas mil as empresas que desapareceram,

mais de metade sediadas no distrito de

Braga. 100 mil operários perderam o emprego

e o sector viu o número de trabalhadores

reduzido de 240 mil, à data, para 123

mil registados no ano passado.

Nas mesmas paisagens só se viam gigantes

de betão abandonados, que seguravam

apenas a memória de um motor da

economia de um país. Durante anos prevaleceu

um sector que trabalhava arduamente

para se manter vivo, enfrentando a concorrência

da fast fashion chinesa e as crises

económicas que assolaram o nosso país.

Mas, anos mais tarde, tudo acabou por mudar,

e o sector reergueu-se, começou a empregar

pessoas e a exportar cada vez mais.

No coração do baixo Minho, uma empresa

atravessou todos os altos e baixos do

sector desde o seu ano de fundação, em

1927. A Riopele é uma das mais antigas

empresas têxteis portuguesas e uma referência

internacional na criação e na produção

de tecidos para colecções de moda

e de vestuário. Agora, um novo desafio se

apresenta a esta e a outras empresas do sector.

A inflação tem impactado fortemente a

actividade produtiva das empresas e a sua

lucratividade, sendo necessário engenho e

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 37


ECONOMIA

estratégia para que as empresas continuem

a ser lucrativas.

José Alexandre Oliveira, presidente da

Riopele, admite que o impacto da inflação é

genérico, comum aos mais de 50 mercados

onde actua, sublinhando que a empresa exporta

mais de 95% da sua produção.

«A nossa actividade tem sido particularmente

afectada pelo aumento de preços

das matérias-primas, dos químicos, dos corantes

e dos transportes, desde o primeiro

semestre de 2021, registando-se um agravamento

no final do ano, dado o rápido crescimento

da procura com a reabertura da economia.

Esta subida de preços está ainda a ser

acompanhada pelo aumento substancial dos

custos energéticos, com a subida do preço

do gás, petróleo e electricidade», afirmou.

Por forma a dar resposta aos desafios

apresentados pela conjuntura económica

actual, ao longo da última década a Riopele

investiu 35 milhões de euros em várias

áreas críticas, muito especialmente no domínio

da sustentabilidade (eficiência energética,

optimização das operações, entre

outros), que permitiram à empresa «minimizar

os impactos externos e promover um

aumento da competitividade».

O presidente da empresa admitiu ainda

que ao longo de 2022 continuarão a realizar

investimentos complementares, como a

criação de uma central de biomassa e uma

segunda central solar fotovoltaica, que permitirão

poupanças ao nível dos consumos.

Paralelamente, para além de uma política

concertada de investimentos, a Riopele

tem procurado assegurar novos ganhos de

eficiência operacional em todos os níveis

da organização e no desenvolvimento de

produtos inovadores resultantes de novos

projectos de I&D.

Questionado sobre como é que a inflação

se está a reflectir no preço final dos produtos

da empresa, José Alexandre Oliveira

admite que o aumento generalizado de preços

acaba por impactar o preço de venda,

e que a Riopele começou a incorporar estes

custos no preço dos seus produtos. No

entanto, uma vez que estes preços são, na

sua maioria, calculados por colecção, esse

incremento leva o seu tempo a reflectir-

-se. «Trata-se naturalmente de um processo

complexo, que implica um exercício de

O PAÍS DEFRONTA-SE COM

UMA CRISE ENERGÉTICA E UMA

INFLAÇÃO GALOPANTE

COMO JÁ NÃO

SE VERIFICAVA HÁ MAIS

DE DUAS DÉCADAS

grande pedagogia com os nossos clientes»,

explica. Apesar do cenário actual adverso,

José Alexandre Oliveira acredita que há razões

para crer na normalização das cadeias

globais de fornecimento e perspectivar uma

estabilização de preços até ao final do ano.

Transportes

«Relativamente ao impacto da inflação

na nossa operação e nos preços praticados,

o que lhe podemos dizer é que estamos,

obviamente, a acompanhar de perto o seu

impacto, e apesar do aumento generalizado

dos preços, a FlixBus continuará a disponibilizar

os melhores preços aos seus clientes,

de acordo com a situação do mercado», disse

Pablo Pastega, director-geral da FlixBus

(o maior operador europeu de transporte

expresso de passageiros) para Portugal e Espanha,

em entrevista à Executive Digest.

Segundo este responsável, o sector dos

transportes tem sido fortemente afectado

nos últimos anos, primeiro pela pandemia,

em que foram forçados a parar ou a reduzir

drasticamente a operação, e depois, no

momento em que se inicia o processo de

recuperação, são confrontados com a crise

dos combustíveis, com a guerra na Ucrânia,

que está a impactar as economias um

pouco por todo o mundo.

«O transporte expresso de passageiros é

vital para Portugal, não só porque é cada vez

mais uma alternativa mais económica e sobretudo

mais sustentável para todos aqueles

que precisam de viajar dentro e fora do país,

quando comparada com a viatura particular.

É preciso não esquecer que, em 2019 e

de acordo com dados oficiais, viajaram nos

chamados expressos cerca de 6,6 milhões de

passageiros, praticamente o mesmo número

de pessoas transportado pelos comboios

de longo curso (6,7 milhões). Isto confirma

a importância deste meio de transporte para

o País», acrescenta Pablo Pastega.

38 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


ECONOMIA

Dois anos de pandemia depois, o País

defronta-se com uma crise energética e

uma inflação galopante, como já não se

verificava há mais de duas décadas. «Naturalmente,

os efeitos não são desejáveis

para nenhum sector e o de transportes e

logística não é excepção. Como primeiro

impacto, sofremos com os aumentos

de custos fixos, que resultam em resultados

financeiros menos favoráveis para

as empresas. Como efeito secundário, em

particular para os negócios de produto

acabado e de retalho, a subida dos preços

reflecte-se na retracção do consumo,

a qual, por sua vez, faz com que haja uma

redução, quer no transporte dessas mercadorias,

como na actividade logística de

armazém, que tem de movimentar quantidades

menores de produtos. O cenário

provável é o de uma recessão económica,

ainda que os seus efeitos talvez não sejam

imediatos, pois o consumo pós-Covid-19

ainda é muito forte», afirma Luís Ribeiro,

director comercial nacional da Garland

Transport Solutions.

«Tem sido inevitável o aumento do

custo do serviço final que prestamos aos

nossos clientes. Na vertente do transporte

marítimo, o aumento dos preços deve-se

sobretudo à escassez ou ao desequilíbrio

nos fluxos de contentores, que continua a

afectar o transporte de mercadorias. Por

sua vez, nos transportes rodoviário e aéreo

é a escalada dos preços dos combustíveis

que afecta de forma muito significativa os

nossos serviços. Para nos mantermos absolutamente

operacionais e continuarmos

a ser um parceiro de confiança para as

empresas nacionais, foi necessário tomar

medidas excepcionais de introdução de actualizações

periódicas aos valores acordados

para fazer face à escalada de custos do

principal consumível do transporte, o combustível.

De uma forma global, os preços de

O PRESIDENTE

DA REPÚBLICA CONSIDEROU

QUE TERÁ DE HAVER

UM «REAJUSTAMENTO

DA INFLAÇÃO» PREVISTA

PARA 2022

transporte estão a crescer a dois dígitos»,

acrescenta Tiago Matosinhos, director comercial

da Garland Logistics.

Reajustamento

O Presidente da República considerou

que, tendo em conta os indicadores disponíveis,

terá de haver um «reajustamento da

inflação» prevista para 2022 dos actuais 4%

para pelo menos 6%. Marcelo Rebelo de

Sousa deixou esta mensagem durante um

encontro com cerca de 200 presidentes de

câmaras municipais no antigo picadeiro

real, junto ao Palácio de Belém, em Lisboa,

avisando que enfrentamos um período

«muito, muito complexo», de elevada «imprevisibilidade»,

sobretudo devido à invasão

russa da Ucrânia.

«É verdade que os números conhecidos

mostram que há factores económicos que

têm constituído uma almofada positiva na

vida nacional: o crescimento abrupto do

turismo para um destino considerado mais

seguro, como se fosse uma ilha no meio do

Atlântico, longe da realidade do continente

europeu, o investimento imobiliário que

acompanha muito esse turismo, e outro

investimento que continua a vir para Portugal»,

apontou.

Segundo o chefe de Estado, «isso resulta

nos números de aumento do emprego e

na recuperação de algum salário médio naquelas

actividades como o turismo, a restauração,

alguns serviços ou sectores nos

quais há falta de mão-de-obra».

«Mas também sabemos que a inflação

sobe – os indicadores mostram que a previsão

de 4% terá de ser reajustada em relação

ao ano para certamente não menos

de 6%», acrescentou. Interrogado se são

suficientes as medidas de apoio a famílias e

empresas aprovadas pelo Governo, o chefe

de Estado considerou que é preciso esperar

para ver se a inflação estabiliza ou não e ir

constantemente avaliando a situação.

«Se a evolução for no sentido da subida

da inflação, isso naturalmente tem influências

financeiras, nomeadamente nos meses

mais perto do fim do ano e no Orçamento

para o ano que vem. Se estabilizar, já tem

menos consequências financeiras. Vamos

ver. Isto é um processo que tem de ser visto

quase semana a semana», disse.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 39


MACROECONOMIA

CENÁRIO

DE

GUERR A

40 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


MACROECONOMIA

OS

RISCOS

PARA A

ECONOMIA

GLOBAL

O impacto do conflito

na Ucrânia já se faz

sentir na economia e as

projecções de Primavera

mostram o que já se

esperava: a recuperação

do pós-pandemia vai

desacelerar.

POR PAULO MENDONÇA

R

ecentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu

as suas expectativas para o crescimento económico global ao

longo dos próximos dois anos, devido à invasão russa à Ucrânia,

e comparou os efeitos do conflito a um terramoto. De

acordo com o relatório divulgado em Abril, «as consequências

económicas estão a alastrar-se» e, por isso, o FMI prevê

agora um crescimento da economia mundial de apenas 3,6%

nos anos 2022 e 2023. Este valor representa uma queda acentuada face aos 6,1%

registados em 2021 e uma descida de 0,8% em 2022 e de 0,2% em 2023, face às previsões

que o FMI tinha apresentado em Janeiro, antes da guerra começar.

Segundo avança a CNN Business, estas previsões assumem três premissas: que a

guerra se mantém localizada apenas na Ucrânia, que as sanções à Rússia não visam

directamente o sector energético e que as consequências da pandemia continuam

a esbater-se. De notar que pelo menos as duas últimas condições são, actualmente,

muito voláteis.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 41


MACROECONOMIA

NÚMEROS

CONDIÇÕES

(para manter as previsões de crescimento)

QUE A GUERRA NÃO SAIA

DAS FRONTEIRAS DA UCRÂNIA

QUE O SECTOR ENERGÉTICO

NÃO SEJA AINDA MAIS

AFECTADO PELAS SANÇÕES

À RÚSSIA

QUE A PANDEMIA SE

MANTENHA CONTROLADA

Ao separar-se

do mundo ocidental,

a Rússia poderá

estar a abdicar

de parte da ambição

de internacionalizar

a sua economia.

CONSEQUÊNCIAS PARA A RÚSSIA

Excluído do sistema

financeiro internacional,

ao mesmo tempo que se

encontra sujeito a um embargo

crescente das suas importações

por parte dos EUA e da Europa,

o país poderá entrar numa

espiral de inflação e depressão,

com o rublo a perder mais de

30% desde o início da guerra e

mais de 70% desde a anexação

da Crimeia. Actualmente a

Rússia ainda beneficia das

importações de petróleo e gás

natural para a Europa, mas há

cada vez mais sinais, por parte

da União Europeia, de que a

dependência de alguns países

face a estas matérias-primas

deverá reduzir-se ou mesmo

anular-se até ao final do ano.

Apesar deste cenário pouco

animador, alguns economistas

acreditam que o futuro da

economia da Rússia e das suas

relações com o Ocidente ainda

não é um assunto fechado, dado

que um acordo satisfatório e o

fim da guerra poderiam levar ao

levantamento das sanções que

hoje atingem mais directamente

o núcleo financeiro daquele país.

Pelo contrário, o prolongamento

indefinido do conflito na Ucrânia

poderá levar a uma contracção

cada vez maior da economia

russa. Aliás, apenas com base

nas sanções já em vigor, o FMI

estima que o PIB da Rússia caia

7% em 2022.

Embora esta queda pareça pouco

relevante face à severidade das

sanções, segue-se a um forte

crescimento no início deste ano,

entretanto interrompido pelo

início do conflito na Ucrânia.

Para alguns economistas

internacionais, a estratégia

de Putin conduzirá a Rússia

a uma depressão duradoura,

com perdas permanentes entre

15 e 20% e um declínio pelo

menos equivalente da receita.

Isto coloca em causa qualquer

sonho que o presidente russo

possa ter de ser uma referência

económica: desligada do

Ocidente, a economia russa

dependerá mais do que nunca do

poder financeiro da China.

42 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


MACROECONOMIA

3,6% 35% 8,5%

PREVISÃO

DE CRESCIMENTO

ECONÓMICO

GLOBAL PARA

2022-23, SEGUNDO

O ÚLTIMO RELATÓRIO

DO FMI

CONTRACÇÃO

DA ECONOMIA

DA UCRÂNIA JÁ

EM 2022

IMPACTO PREVISTO

DAS SANÇÕES

NO PIB DA RÚSSIA

EM 2022

Na mesma linha, o Banco Mundial reviu

em baixa as suas previsões para este

ano, esperando agora um crescimento da

economia global na ordem dos 3,2%.

Sem surpresas, de acordo com o relatório

do FMI, a Ucrânia e a Rússia serão

os países mais seriamente afectados economicamente

pelo conflito armado. As

actuais previsões apontam para uma contracção

da economia ucraniana em 35% já

este ano; já as sanções impostas pelo Ocidente

à Rússia poderão contrair a economia

daquele país na ordem dos 8,5%.

No entanto, é evidente que as consequências

serão globais. A guerra provocou

um aumento muito significativo do

preço da energia e de outras matérias-

-primas, o que veio piorar os problemas

que a pandemia já tinha causado nas cadeias

de fornecimento de bens. Por outro

lado, esta conjuntura veio reforçar a ideia

de uma inflação persistente e não temporária,

como os EUA acreditavam há poucos

meses, o que terá consequências um

pouco por todo o mundo.

«A guerra irá atrasar severamente

a recuperação económica global, desacelerando

o crescimento e aumentando

ainda mais a inflação», pode ler-se no

relatório do FMI, que enfatiza o facto

desta guerra surgir numa altura em que a

economia mundial ainda não tinha recuperado

das consequências da pandemia

de Covid-19.

Esta conjuntura é particularmente

grave na Europa, que depende significativamente

da Rússia para satisfazer

as suas necessidades energéticas, e, por

isso, o FMI espera uma desaceleração

DE ACORDO COM O RELATÓRIO

DO FMI, A UCRÂNIA E A RÚSSIA

SERÃO OS PAÍSES MAIS

SERIAMENTE AFECTADOS

ECONOMICAMENTE PELO

CONFLITO ARMADO

POLÍTICAS

ECONÓMICAS

Antes da invasão à Ucrânia, as escolhas

dos bancos centrais quanto às políticas

económicas resumiam-se a uma lógica de

“fazer o suficiente, mas não demasiado”.

A hesitação quanto à subida

das taxas de juro, por exemplo,

dependia da percepção sobre a

natureza da inflação, que já se apresentava

crescente, havendo a esperança de que se

tratasse de um fenómeno transitório.

Fiscalmente, havia o objectivo de reduzir

os défices públicos causados pela

pandemia, mas com o cuidado de o fazer

de uma forma, nem demasiado brusca,

nem demasiado rápida, para não intervir

na recuperação.

A nova conjuntura altera este paradigma,

confirmando os receios de uma inflação

persistente e de uma desaceleração do

crescimento económico que compromete

a recuperação esperada após a pandemia.

Assim, no que diz respeito à Zona

Euro, é de esperar que haja uma maior

flexibilidade, por parte da Comissão

Europeia, no que diz respeito aos défices

dos países. O impacto da estagflação, o

aumento da despesa em áreas da Defesa,

os custos relacionados com o movimento

de refugiados e a aceleração de

investimentos em infra-estruturas para

o sector da Energia, com o objectivo de

reduzir a dependência face à Rússia, são

factores que resultam, inevitavelmente,

num grande aumento da despesa pública.

Muitos economistas acreditam que, face

a este novo cenário, haja um aumento

do orçamento para financiar um plano

dedicado à economia de guerra.

do crescimento económico na Zona Euro

para 2,8% em 2022 – uma revisão de 1,1

pontos percentuais face às previsões

de Janeiro.

Nos EUA existem questões económicas

que neste momento são mais relevantes

do que as causadas pela guerra,

como o fim dos incentivos atribuídos durante

a pandemia e a subida das taxas de

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 43


MACROECONOMIA

encontra-se «muito acima do normal»,

devido à natureza sem precedentes do

«embate». Os riscos de uma ainda maior

desaceleração, combinada com uma inflação

persistentemente alta, estão a escalar.

Na sequência destas projecções, outros

organismos avançaram com as suas

posições, como o Goldman Sachs, que

estima em 15% a probabilidade dos EUA

entrarem em recessão nos próximos 12

meses e em 35% nos próximos dois anos.

Por outro lado, o banco japonês de investijuro.

O FMI projecta, assim, um crescimento

económico de 3,7% em 2022 e de

2,3% em 2023 – apenas menos 0,3% do

que apontavam as previsões do relatório

de Janeiro.

A segunda maior economia do mundo,

a chinesa, também está a ser menos

influenciada pela guerra do que por questões

internas, nomeadamente um ressurgimento

da Covid-19, que leva a novos

e alargados confinamentos, que não só

afectarão o crescimento económico interno

como trarão, provavelmente, mais

problemas com efeito de contágio para o

resto do mundo, nomeadamente no que

diz respeito às cadeias de fornecimento.

No seu novo relatório o FMI prevê um

crescimento económico de 4,4% para a

China, muito abaixo dos objectivos de

Beijing, que se situam a cerca de 5,5%.

Embora estes números signifiquem

que «as projecções económicas globais

pioraram significativamente», o relatório

do FMI não prevê uma recessão, que tecnicamente

apenas teria lugar se o crescimento

económico global caísse para 2,5%

ou menos. Mas o mesmo relatório refere

que a incerteza quanto a estas projecções

NÚMEROS

A GUERRA IRÁ ATRASAR

SEVERAMENTE A RECUPERAÇÃO

ECONÓMICA GLOBAL,

DESACELERANDO

O CRESCIMENTO

E AUMENTANDO AINDA

MAIS A INFLAÇÃO

ALGUNS ECONOMISTAS

ACREDITAM QUE O FUTURO

DA ECONOMIA DA RÚSSIA

E DAS SUAS RELAÇÕES

COM O OCIDENTE AINDA

NÃO É UM ASSUNTO

FECHADO

2,8% 4,4% 15% 3,7% 2,3%

E

DESACELERAÇÃO

DO CRESCIMENTO

ECONÓMICO

NA ZONA EURO

JÁ ESTE ANO

CRESCIMENTO

PREVISTO PELO

FMI PARA A CHINA

EM 2022. BEIJING

PREVÊ 5,5%

PROBABILIDADE

EM PERCENTAGEM

DOS EUA ENTRAREM

EM RECESSÃO

AO LONGO DOS

PRÓXIMOS 12

MESES, SEGUNDO

O GOLDEN SACHS

CRESCIMENTO ECONÓMICO

DOS EUA, RESPECTIVAMENTE,

EM 2022 E 2023

44 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


MACROECONOMIA

mento Nomura já afirmou que estão a aumentar

as probabilidades da China entrar

em recessão ainda durante a Primavera.

Muito do que irá acontecer depende

dos próximos passos de Vladimir Putin

na Rússia. Caso o fornecimento de gás

natural à Alemanha seja repentinamente

suspenso, a maior economia da Europa

poderá perder 238 mil milhões de dólares

ao longo dos próximos dois anos, de

acordo com as previsões daquele país.

Por outro lado, há cada vez mais pressão

para que a Europa agrave as suas sanções

à Rússia no sector energético. Recentemente,

o primeiro-ministro francês

Bruno Le Maire afirmou a possibilidade

de um embargo ao petróleo russo de toda

a União Europeia, tudo indicando que

Emmanuel Macron quer mesmo avançar

com esta sanção. Segundo as declarações

de Le Maire à rádio Europe 1, não é por

falta de vontade da França que ainda não

se chegou a este nível sancionatório – é

apenas porque outros países da Europa

permanecem hesitantes.

CASO O FORNECIMENTO DE GÁS

NATURAL À ALEMANHA SEJA

REPENTINAMENTE SUSPENSO,

A MAIOR ECONOMIA

DA EUROPA PODERÁ

PERDER 238 MIL MILHÕES

DE DÓLARES

ESTAGFLAÇÃO

A conjuntura de guerra

na Europa está

a arrastar a economia

mundial para um estado

de estagflação, ou seja,

uma situação de inflação

persistentemente

alta, aliada a um

desenvolvimento

estagnado

da economia.

Ainda antes da invasão à

Ucrânia os economistas já

identificavam este factor

como um risco para a economia

global, devido ao aumento do

preço das matérias-primas e aos

problemas nas cadeias de produção.

No entanto, este era um receio

transitório, existindo a expectativa

de que as cadeias de fornecimento

voltassem a um determinado nível

de normalidade no pós-pandemia.

Agora, a estagflação é um cenário

mais provável. O aumento dos

preços das matérias-primas

abrange mais activos do que antes

e as ondas de choque nas cadeias

de produções afectam um espectro

mais alargado de canais - situação

que poderá piorar ainda mais se as

restrições motivadas pela Covid-19

na China se mantiverem por um

período prolongado de tempo.

Inevitavelmente, estas perturbações

irão reduzir a actividade em sectores

que já tinham sido afectados pela

pandemia, como são os casos da

indústria automóvel e da produção

de componentes electrónicos.

Ao mesmo tempo, a inflação

crescente tem como efeito a

redução do poder de compra

das famílias, o que diminui a

actividade económica num período

de inflação crescente, resultando

numa tempestade perfeita para o

cenário típico de uma estagflação.

Para completar este quadro,

teoricamente o desemprego poderá

aumentar e os lucros das empresas

baixarão, levando a uma redução

dos investimentos.

As consequências de uma

estagflação dependerão, no

entanto, do tempo que a guerra

ainda vai durar. Mesmo na melhor

das hipóteses, o regresso à

situação económica anterior à

invasão poderá ser lento, porque a

inflação não irá parar de aumentar

bruscamente e será preciso que

os bancos centrais encontrem

soluções para lidar com essa

situação, sem atrasar a recuperação

económica. Mas o cenário mais

provável parece cada vez mais ser o

de uma guerra prolongada com um

alargamento das sanções à Rússia,

o que tornará mais desafiante para

a economia global regressar a um

crescimento equilibrado. Seja qual

for o futuro, todos os países serão

afectados por esta conjuntura

económica, embora em diferentes

graus. Na Europa, por exemplo,

países como a Alemanha e a Itália

encontrarão mais dificuldades

por estarem mais dependentes da

Rússia do que o Reino Unido ou

França, por exemplo. Mas haverá

certamente ondas de choque em

toda a Europa e principalmente na

Zona Euro, cujo principal motor

económico é a Alemanha.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 45


OPINIÃO

POR CARLOS JESUS

COUNTRY MANAGER DA COLT PORTUGAL

E VP GLOBAL SERVICE DELIVERY DA COLT

NO TRABALHO

HÍBRIDO

A experiência do trabalho remoto – acelerada

pela pandemia de Covid-19, provou-nos que as formas

alternativas de trabalho afinal têm um impacto positivo

e duradouro na nossa felicidade, bem-estar e níveis

de produtividade.

DESAFIOS

DA CIBERSEGURANÇA

E

m todo o mundo, as empresas estão a repensar a forma

de trabalharmos. O futuro do trabalho é, necessariamente,

flexível. Uma característica que passou a ser

exigida pelos colaboradores e que se tornou um factor

decisivo para as empresas reterem talento.

A maioria das pessoas gostou da liberdade ganha ao poderem

trabalhar a partir de casa e agora não quer regressar aos modelos

anteriores. Um estudo conduzido pela Wakefield Research, em Abril

passado, revela que 47% dos trabalhadores, caso o seu actual empregador

não lhes dê a oportunidade de terem um modelo de trabalho

flexível, irão procurar um novo emprego. Também as empresas acham

que uma abordagem híbrida do trabalho é uma boa opção,

por conjugar os benefícios de trabalhar a partir de casa e

os de o fazer no escritório.

Porém, o modelo híbrido - que reúne quase todos

os benefícios do trabalho remoto e lhes acrescenta

maior autonomia e flexibilidade, traz desafios acrescidos de

segurança para as empresas. Havendo maior dependência das

tecnologias de informação e uma maior dispersão das comunicações

por vários locais, aumentam as potenciais vulnerabilidades.

Os empregadores terão agora de assumir a responsabilidade

adicional de disponibilizarem ligações seguras às infra-estruturas

das empresas e de implementarem sistemas de

backup e planos de recuperação.

A maior dependência da conectividade cria desafios

incontornáveis para as empresas. Foi assim

quando, em Março de 2020, tiveram de migrar

para o trabalho totalmente remoto, e também

será assim com o trabalho híbrido, que obriga

a pensar a segurança de forma diferente. Num

escritório tradicional, todos os computadores,

telefones e ligações à internet são cuidadosamente

controlados e a sua utilização depende do

acesso físico ao edifício onde se encontram. Com

o trabalho híbrido sucede exactamente o contrário:

as pessoas conectam-se remotamente,

usando hotspots Wi-Fi partilhados ou públicos e

vários dispositivos diferentes.

Mas o trabalho híbrido é também uma oportunidade

para as empresas reverem a sua cibersegurança,

encontrando parceiros de confiança,

que possam ajudá-las a redesenhar os processos,

integrando-os totalmente, conferindo-lhes

uma visão única da segurança transversal a

todo o seu negócio, enquanto tornam o trabalho

híbrido seguro.

O trabalho híbrido nas empresas depende

do ecossistema da cloud e da conectividade

remota através de uma Rede Privada Virtual

(VPN), e os hackers sabem disto. Já os trabalhadores,

quando estão em modo remoto, podem

aceder aos servidores das suas empresas ou a

tecnologia cloud através de redes públicas, o

que cria oportunidades e vulnerabilidades que os

cibercriminosos exploram. As empresas devem,

por isso, desenvolver a consciência da segurança

no seu seio e permitir que os seus colaboradores

se transformem na primeira linha de defesa.

São cada vez mais as empresas que estão a

adaptar as suas telecomunicações para que o

trabalho híbrido possa funcionar. Actualmente,

a conectividade tornou-se na espinha dorsal de

qualquer negócio e o seu correcto funcionamento

é vital. A tecnologia está a preparar o caminho

para o futuro do trabalho híbrido. Esta é uma

alteração profunda, que não se resume à simples

mudança do local onde trabalhamos, mas tem a

ver com a forma como o fazemos. O que implica

repensarmos os actuais processos de negócio

e usarmos a tecnologia para trabalharmos

de forma mais eficiente e segura.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 47


SUSTENTABILIDADE

«EMPRESAS MAIS EFICIENTES,

MAIS COMPETITIVAS

E MAIS DIFERENCIADORAS»

Em 2024, todas as grandes

empresas a operar na UE terão

de publicar um relatório de

sustentabilidade. As PME cotadas

terão de o fazer em 2026.

E será uma questão de tempo

até esta medida ser aplicada às

restantes PME e microempresas.

Sofia Santos, economista

especializada em Financiamento

Sustentável e fundadora

da Systemic, explica à Risco

o que está em causa.

A

s PME estão conscientes de que estas medidas de

sustentabilidade existem e já para daqui a poucos anos?

Não, não estão. Diria mesmo que as PME estão muito

longe de terem esta ideia de que vão ter de começar a

reportar informação ambiental, social e de governação.

No entanto, as PME já hoje podem estar a sentir pressão

para começarem a reportar alguma informação desta

natureza. Por exemplo, o Crédito Agrícola começou,

desde Julho de 2021, a questionar todas as empresas –

grandes, PME, micro e empresas em nome individual – sobre as suas práticas

ambientais e sociais a nível corporativo, bem como ao nível do projecto que

está a solicitar empréstimo. Por outro lado, as PME portuguesas, ao serem

clientes de grandes empresas europeias, e estas, ao terem a obrigatoriedade

europeia de reportar sobre as suas práticas

de sustentabilidade e ao longo da sua cadeia

de valor, irão necessariamente acelerar a

pressão sobre as PME. Não esquecer que

o COMPETE também vai ter de garantir

que o financiamento que proporciona na

economia não prejudica significativamente

o ambiente e que os projectos financiados

estão alinhados com os objectivos ambientais

europeus, o que significa que as PME,

que recorrem normalmente ao co-financiamento

público, terão também de construir

projectos mais verdes e terão de ser capazes

de reportar e comunicar essa mesma faceta.

Como vão as empresas portuguesas

adaptar-se a estas medidas?

É inevitável e não é complicado. O

acesso ao capital vai estar associado às

boas práticas ambientais e sociais das

empresas. Quem não as tiver poderá ter

taxas de juro mais altas, ou mesmo não

ter acesso a capital. O que é exigido parece

ser muito difícil, mas não é. É apenas

algo que não aprendemos nas escolas e

por isso ficamos assustados. Ter boas práticas

ambientais e sociais, e reportá-las,

não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, e

na realidade contribui para a eficiência e

48 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


SUSTENTABILIDADE

«O ACESSO AO CAPITAL

VAI ESTAR ASSOCIADO

ÀS BOAS PRÁTICAS

AMBIENTAIS

E SOCIAIS DAS

EMPRESAS»

Sofia Santos,

economista especializada

em Financiamento

Sustentável e fundadora

da Systemic

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 49


SUSTENTABILIDADE

competitividade das empresas. Penso que

algumas PME quererão ter os chamados

ratings ESG, que são atribuídos por entidades

terceiras e que lhes conferem um

certo “grau” de sustentabilidade. Obter um

desses ratings implica um trabalho interno

estratégico, de compromissos, de recolha

de informação ambiental e social, mas é

algo que com uma boa equipa transversal

se consegue fazer bem e com qualidade.

Faz sentido que a sustentabilidade

se apresente como uma imposição

legal, principalmente quando chegar a

pequenas e microempresas?

Não existe imposição legal para chegar

às pequenas e microempresas. Actualmente,

a única imposição legal que

está em discussão pública a nível europeu

é as PME cotadas em bolsa passarem

a ser obrigadas a reportar um relatório

de sustentabilidade em 2026. Obrigatoriedade

apenas para as PME cotadas. Em

Portugal não existe nenhuma. E não há

obrigatoriedade para as microempresas.

A meu ver, antecipo que irá existir

obrigatoriedade para todas as PME reportarem

estes temas, mas as microempresas

serão apenas pressionadas pelo

mercado e pelos financiadores, o que

pode ser uma pressão ainda mais forte

do que a legal.

«IRÁ EXISTIR

OBRIGATORIEDADE

PARA TODAS AS PME

REPORTAREM

ESTES TEMAS,

MAS AS

MICROEMPRESAS

SERÃO APENAS

PRESSIONADAS

PELO MERCADO

E PELOS

FINANCIADORES»

Qual o impacte positivo que se espera

que as finanças sustentáveis tenham?

Torná-las mais eficientes, mais competitivas

e mais diferenciadoras. As finanças

sustentáveis vão induzir as empresas a

emitirem menos emissões de CO 2

, a consumirem

mais energia verde, a aumentarem

a eficiência energética, a adquirirem

equipamentos menos poluidores, a terem

menos resíduos para aterro e a colaborarem

mais umas com as outras. Tal irá

levar ao surgimento de novas empresas,

serviços e produtos, e, obviamente, aquelas

que não se conseguirem adaptar a uma

economia mais verde perderão o seu lugar.

O impacte positivo tem essencialmente

que ver com o aumento da independência

energética fóssil e com a inovação que este

tipo de pensamento pode criar nas áreas

50 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


SUSTENTABILIDADE

Os planos nacionais de recuperação e

resiliência devem dedicar pelo menos

37% dos gastos totais a investimentos

e reformas que apoiem os objectivos

climáticos. Esta meta é realista?

Devia ser mais alta. Na realidade todos

os projectos deveriam apoiar objectivos

climáticos. Todos os projectos a financiar

deveriam ser neutros em carbono, utilizar

o mais possível energias renováveis, contribuir

para a independência energética

dos combustíveis fósseis e garantir a manutenção

dos serviços dos ecossistemas.

Não ter isto exposto e garantido nos vários

mil milhões de euros que vão ser investidos

em Portugal pode significar um atraso injustificado

no investimento no combate às

alterações climáticas.

de inovação de produto, processo e serviço

das empresas.

«O IMPACTE POSITIVO

TEM ESSENCIALMENTE

QUE VER

COM O AUMENTO

DA INDEPENDÊNCIA

ENERGÉTICA

FÓSSIL E COM

A INOVAÇÃO»

O que é a taxonomia, que actividades

económicas vai impactar e como se vão

adaptar as empresas nacionais?

A taxonomia é uma lista de actividades

económicas que têm critérios científicos

mínimos que garantem o alinhamento com

a neutralidade carbónica em 2050. Ou seja,

são tecnologias e critérios que certos sectores

têm de cumprir para estarem alinhados

com a neutralidade carbónica em 2050.

Obviamente que a grande maioria das empresas

europeias e a nível mundial não está

neste nível, e é por isso que temos o desequilíbrio

do planeta e o aquecimento global.

Esta lista de actividades abrange praticamente

todos os sectores: desde a agricultura,

energia, manufactura, imobiliário, até

turismo, transporte, educação, têxtil, etc.,

e diz-nos as tecnologias e as emissões de

CO 2

limite que cada actividade pode emitir

(estou a simplificar para efeitos de comunicação)

para ser coerente com a neutralidade

carbónica em 2050. Quem não cumprir

com estes requisitos mínimos não está alinhado

com a taxonomia.

Um estudo feito pela Associação Europeia

Bancária, em 2021, calculou que apenas

7,9% dos empréstimos de 29 bancos europeus

estavam alinhados com a taxonomia.

Estes números são de esperar, pois, como

já disse, temos um aquecimento global

premente, que se deve a uma não utilização

das melhores tecnologias e métodos de

gestão. Assim, as empresas terão de entrar

no chamado processo de transição, em que

deverão incluir em todos os projectos uma

componente para baixar o seu impacte ambiental

significativamente, de forma a atingir

estes critérios e assim estarem alinhadas

com a taxonomia. Como os bancos e investidores

serão estimulados a emprestar e a

investir em projectos verdes (devido à ideia

de que empresas poluentes são aquelas com

mais risco, o que implica aumentos de capital

para o banco), então as empresas sentirão

também o estímulo em introduzir uma

componente verde em todos os projectos

que necessitem de empréstimos. Será assim

que as empresas se irão adaptar. Obter os ratings

ESG será também uma ajuda.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 51


CRIPTOMOEDAS

QUEM INVESTE

CRIPTOMOEDAS?

EM

Cada vez mais as criptomoedas são

consideradas pelos investidores para

integrarem as suas carteiras de activos.

Mas qual o perfil de quem investe hoje em

criptomoedas?

POR PAULO MENDONÇA

D

esde que a Bitcoin – a primeira criptomoeda – foi lançada em 2009, o

entusiasmo em torno deste tipo de activos tem vindo a crescer, bem

como o número de investidores dispostos a integrá-lo nas suas carteiras.

Para perceber de uma forma mais detalhada quem são estes investidores,

a corretora internacional XTB elaborou um estudo com o título “O perfil

do investidor de criptomoedas”, onde analisa dados demográficos, transacções e

dispositivos presentes na sua plataforma desde o início de 2021.

De acordo com este estudo, o investidor típico da XTB em criptomoedas «é

homem (somente 9,6% são mulheres), tem 34 anos e faz, em média, cinco transacções

por ano em criptomoedas através da utilização de CDF».

Acrescenta-se que este perfil de investidor

utiliza a aplicação móvel (66,7%)

para executar as suas ordens no mercado,

que tendem a durar, em média, cerca de

três dias e 21 horas.

Entre as oito mil criptomoedas disponíveis

no mercado, os investidores

inscritos na XTB demonstraram, desde 1

de Janeiro de 2021, uma clara preferência

pela Ethereum (33%), seguida pela Bitcoin

(17%), Ripple (13%), Litecoin (10%) e BitcoinCash

(7%). O relatório acrescenta que

«também a Cardano, desde que integrou

o portefólio de CFD de criptomoedas da

XTB, passou a revelar-se um activo de

grande popularidade».

Ao contrário da ideia comum de que

a actividade de investimento em criptomoedas

é uma área maioritariamente dos

jovens, os dados da XTB indicam que a

As criptomoedas mais transaccionadas entre

os investidores na XTB desde 1 de Janeiro de 2021

O INVESTIDOR TÍPICO

DA XTB EM CRIPTOMOEDAS

«É HOMEM (SOMENTE 9,6%

SÃO MULHERES),

TEM 34 ANOS E FAZ,

EM MÉDIA, CINCO

TRANSACÇÕES POR ANO

EM CRIPTOMOEDAS»

52 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


CRIPTOMOEDAS

Quão populares

são as

criptomoedas?

É NOS PAÍSES DA EUROPA

OCIDENTAL QUE SE

REGISTAM OS MAIORES

NÍVEIS DE POPULARIDADE

DAS CRIPTOMOEDAS

ENTRE OS INVESTIDORES

DA XT

Investidor de criptomoedas

idade média dos investidores em criptomoedas

está em linha com a idade dos

investidores em activos tradicionais, independentemente

da classe de activos

com que iniciou a sua jornada de investimento.

Os investidores em criptomoedas

registados na plataforma da XTB vão dos

18 aos 89 anos, provando que não há uma

idade melhor do que outra para investir

em criptomoedas. No entanto, os números

mostram que três em cada quatro investidores

que negoceiam criptomoedas

através de CDF, têm menos de 43 anos.

No que diz respeito às mulheres registadas

na plataforma da XTB e que

investem em criptomoedas, a maior percentagem

encontra-se na Roménia, representando

12% do total de investidores

desse país inscritos na plataforma.

Em Portugal, essa percentagem desce

para os 10,5%, ainda assim acima da

média global de 9,6% e muito próxima do

Reino Unido (10,6%).

A análise indica ainda que é nos países

da Europa Ocidental que se registam os

maiores níveis de popularidade das criptomoedas

entre os investidores da XTB.

Em Portugal, em 2021, 36,3% dos investidores

inscritos na plataforma da corretora

investiram em criptomoedas, ficando somente

atrás da República Checa (41,2%) e

de Espanha (37,7%).

No que diz respeito aos dispositivos

utilizados para as transacções, o estudo

refere que 67,2% dos investidores recorrem

à app móvel, contra 32,8%, que utilizam

o computador.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 53


TRADING

AS AMBIÇÕES

DE QUEM INVESTE

NOS MERCADOS

FINANCEIROS

Deve haver uma base sólida de iniciação,

um mapa perfeitamente identificável

a seguir. Caso contrário, as ambições não

passam de sonhos que rapidamente

se podem tornar pesadelos.

POR ADELINO MATOS

CEO & FOUNDER DA ESCOLA TRADING

É

indissociável falar-se em ambições, independentemente da área, tópico

ou sonho, sem pensar no trajecto a percorrer até ao dia em que estas

se tornam realidade e passam a um ou mais objectivos finalmente alcançados.

Falar em ambições, fazendo desde já a transição para quem

investe nos mercados financeiros, é, no mínimo, um desafio. Chegar, ver e vencer,

não é assim que se diz? Infelizmente, para a grande maioria dos traders iniciantes,

isto nunca passará de um velho ditado.

A linha que separa um investidor que desiste de um que permanece a longo

prazo no “jogo” é muito ténue, mas é suportada por características perfeitamente

identificadas, as quais nunca me canso de incutir e promover nos meus alunos: paciência,

autocontrolo e, acima de tudo, mentalidade.

Parece tão fácil falar disto ou deveria ser simples de entender: ninguém nasce ensinado,

mesmo aqueles que são tratados como deuses das suas áreas de intervenção.

A psicologia está em tudo e em todo o lado, mesmo que não tenhamos essa noção

– aliás, ter esta inconsciência é já prova desta minha afirmação.

O que trago para mais um dos meus desabafos é como pode ser o trajecto de

investidores que têm como ambição iniciar-se nos investimentos, com a profissionalização

à vista. Mas, afinal, como se pode traduzir para bom português o que as

pessoas procuram com os investimentos nos mercados financeiros?

A tão procurada liberdade

A definição de liberdade poderia muito

bem ser explicada através de uma única

palavra: independência. Investir nos mercados

financeiros, ou melhor, saber investir

nos mercados financeiros e tornar-se

profissional pode, sem qualquer dúvida,

tornar esta ambição realidade. O sonho de

não ter de dar mais explicações, de não ter

de cumprir horários e saber que tudo está

nas nossas mãos – o rendimento e desempenho

nunca mais estarão sujeitos a avaliações

de terceiros.

O mundo corporativo passa para segundo

plano e um dos grandes objectivos

passa por lançar um negócio rentável. Já

ouvi este testemunho muitas vezes, mas

é necessário ter a noção de que os mercados

financeiros não dão retorno a nin-

54 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


TRADING

guém do dia para a noite. Consolidar um

plano de negócios demora tempo. Ter a

capacidade de entender o mercado, a sua

imprevisibilidade e volatilidade demora

tempo. Criar condições para construir

a ambicionada liberdade demora tempo.

Os desafios são constantes e diários, mas

com esforço e dedicação é possível ser-se

dono do próprio destino.

Ganhar dinheiro

Vou tocar no calcanhar de Aquiles

de todas as ambições: ganhar dinheiro e,

acima de tudo, ganhar dinheiro rápido.

É um passo gigante para o precipício. É

uma das principais culturas promovidas

por propaganda e por histórias de investidores

“bem-sucedidos”, acabando com

a carreira de quem ainda mal começou e,

O PRIMEIRO PASSO

ONDE A MAIORIA FALHA

É NA CONSTRUÇÃO

DE UM PROGRAMA

SÓLIDO BASEADO NUMA

PSICOLOGIA INABALÁVEL

a uma escala superior, descredibilizando

os benefícios que o entendimento sobre

investimentos pode trazer para a vida de

qualquer pessoa que esteja disposta a, simplesmente,

esperar e respeitar o mercado.

A ânsia em alcançar sucesso semelhante

e instantâneo ao dos grandes especialistas,

que por aí apregoam as suas capacidades,

toma conta do discernimento de quem remeteu

alguma esperança em aprender a

investir nos mercados financeiros. A desilusão

é ainda maior, intensificada pela sensação

de engano e falsas promessas. É verdade

que há a possibilidade de rentabilizar de

forma exponencial os ganhos, dado que os

fundos que podem ser negociados são infinitos

e o volume de transacções envolvidas

diariamente permite investir e criar uma

banca na verdadeira acepção da palavra.

Nunca me vou cansar de frisar: é um

longo e árduo processo até conseguir ganhar

dinheiro para ser independente com

investimentos – não é uma tarefa de um

mês nem tão-pouco de uma operação louca

que, com sorte, acabou por sorrir. O

primeiro passo onde a maioria falha é na

construção de um programa sólido baseado

numa psicologia inabalável.

Tornar-se profissional: a mãe

de todas as ambições

Intrinsecamente ligado aos dois pontos

anteriores, tornar-se profissional é

uma sensação que parece uma miragem e

um sonho ao mesmo tempo – esta poderia

igualmente ser uma definição de ambição.

O ponto mais alto, e ao contrário do

que referi anteriormente, é alavancar uma

carreira no mundo corporativo, ingressando

num fundo de investimento ou numa

empresa que gere fundos privados. Este

é igualmente um dos relatos que particularmente

vou ouvindo em conversas com

pessoas, que reúnem as condições para se

profissionalizar nesta área.

Mas assim como os objectivos têm de

ser realistas e mensuráveis, as ambições

têm de seguir os mesmos pergaminhos. A

não tomada de consciência deste jogo de

cintura pode levar a operações desmesuradas

e, para agravar, em volumes proibitivos.

Se leu o meu artigo na Risco, número 24,

“Overtrading”, é automático pensar no vício

ao investir – sim, apesar de nunca considerar

investimentos como um jogo, não

tenho dúvidas de que é muito fácil entrar

neste loop negativo em busca do que foi

perdido de forma totalmente irracional.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 55


TRADING

As emoções vêm à flor da pele quando

se investe e há dinheiro envolvido. Isto é

ponto assente, é a natureza humana e um

dos instintos mais primários a manifestar-

-se. O grande problema é que há quem vá

muito além disso e apenas esteja no mercado

de investimentos não pelo dinheiro,

mas pela adrenalina e emoções. É a partir

daqui que o problema do vício entra com

toda a força em cena. O sentimento de ter

dinheiro em jogo, que proporciona um

“sentimento bom”, tem o nome de dopamina

– a química do prazer.

Por incrível que pareça, a dopamina

aparece quando o trader tem posições

abertas no mercado e “esconde-se” quando

ele ganha dinheiro. É muito importante

ter uma mentalidade correcta para saber o

que realmente se está a fazer nos mercados

financeiros e se os objectivos são ganhar

dinheiro ou apenas diversão.

Com tudo isto a acontecer, existirá

mais algum factor que esbarra nas ambições

de quem investe nos mercados financeiros?

Infelizmente sim e é um problema

tão intangível como grave: a solidão, por

natureza, deste tipo de actividade.

Estou nesta área há mais de 15 anos

e iria estar a omitir uma verdade gigantesca:

investimento não é uma prática

comum, muito menos em Portugal. Há

muito mais desconfiança em torno desta

prática do que propriamente curiosidade

verdadeira em conhecer os benefícios de

bem investir dinheiro.

Ser investidor é uma actividade solitária

e, em muitos casos, anónima. Quando

se ganha, ganha-se sozinho. Quando

se perde, enfrenta-se uma dor que não é

partilhada com ninguém – ou raras vezes

o é. A responsabilidade pelas atitudes e

resultados – como mencionei no ponto

sobre a liberdade como ambição – ao

mesmo tempo que a sociedade ecoa e

rotula esta prática como “uma coisa para

loucos”, apenas para milionários ou onde

simplesmente são desperdiçados rios de

dinheiro, é exclusivamente de quem está

a olhar para o ecrã a tentar entender

como, mais uma vez, foi tomar uma decisão

errada.

A jornada que se inicia com grandes

ambições de investimento nos mercados

É MUITO IMPORTANTE

TER UMA MENTALIDADE

CORRECTA PARA SABER

O QUE REALMENTE

SE ESTÁ A FAZER

NOS MERCADOS

FINANCEIROS

financeiros e onde, para muitos, a intenção

é terminar com chave de ouro e tornar-se

profissional, é pautada por quatro

fases nas quais é necessário o tão aclamado

mindset de ferro para ultrapassar

barreiras rumo a uma carreira segura e

estável em investimentos. Quais são então

estes quatro desafios mentais e de consciência

até à profissionalização?

1.

Inconsciência incompetente

O que dizer sobre esta atribulada

primeira fase? Basicamente, não há capacidade

em entender o grau de incompetência

em que o investidor se encontra.

Movido por emoções ou desejos, é infelizmente

comum entrar em posições sem

a aquisição de conhecimento capaz sobre

o mercado em que opera.

Pode até ser negada esta necessidade

de aprender novas aptidões sobre um

determinado assunto que, aos olhos de

56 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


TRADING

TER A CAPACIDADE

DE ENTENDER

O MERCADO, A SUA

IMPREVISIBILIDADE

E VOLATILIDADE

DEMORA TEMPO

É UM LONGO E ÁRDUO

PROCESSO ATÉ

CONSEGUIR GANHAR

DINHEIRO PARA SER

INDEPENDENTE

COM INVESTIMENTOS

quem olha para o ecrã com enganadora

clarividência, é tão claro e a solução é

tão óbvia que fazer algo em contrário parece

absurdo. Não conseguir atingir que

se tem uma deficiência de aprendizagem

pode, assim, ser sintoma desta fase.

É imperativo ter esta necessidade sobre

aquisição de conhecimento sobre investimentos

e sobre os mercados financeiros

para passar para a próxima fase.

Uma grande ajuda durante momentos

como este é alguém que, contrariando a

solidão desta actividade, consegue dar a

entender que, sem estudo e compreensão,

nunca se sairá do modo de inconsciência

incompetente.

2.

Consciência incompetente

Como mencionei, aqui existe a noção

de que há uma deficiência na compreensão

de uma determinada aptidão. A

relevância da aprendizagem torna-se evidente.

Ter a humildade para se aperceber

de que deve existir a aquisição de conhecimento

mostra, igualmente, que as capacidades

técnicas irão também melhorar.

Sentir que o benefício da aprendizagem

pode trazer algo em troca é o principal

motor de ambição e esperança.

Idealmente existe uma noção genética

do nível de aprendizagem necessário para

alcançar o objectivo. E existe um comprometimento

claro por parte do investidor

em treinar esta nova aptidão de maneira

consistente e permanente.

3.

Consciência competente

A maturidade no exercício de uma

qualquer actividade é alcançada nesta etapa.

Fazer com sucesso uma determinada

tarefa é o reflexo mais claro desta fase.

Pensar, raciocinar, reflectir, antes de agir,

marcam-na, onde o exercício da actividade

sem um esforço de raciocínio e reflexão,

no entanto, ainda não é alcançado.

Desenvolver a actividade sem assistência

de ninguém caracteriza igualmente o

desempenho individual nesta etapa, o que

pode levar à fase número quatro, onde a

maior característica em destaque é a capacidade

de mostrar a aptidão para outras

pessoas, sem ser necessário qualquer esforço

de explicação.

4.

Inconsciência competente

A prática gerou o quarto e último

patamar de desenvolvimento, possibilitando

que, na fase de inconsciência compe-

tente, a actividade se torne instantânea e

mecanizada. Passa a ser possível exercer a

função ao mesmo tempo que outras actividades

são desenvolvidas em paralelo.

A capacidade de ensino é igualmente

impulsionada e os assuntos tornam-se pessoais

e de fácil compreensão. A necessidade

de constante actualização e prática manterá

este nível de inconsciência competente.

Por experiência própria afirmo com

toda a certeza de que é a ajudar o próximo

o momento onde mais aprendemos e,

acima de tudo, ganha-se a noção de pontos

de melhoria que outrora nunca eram

identificados. Tudo isto só é possível com

plena consciência do estado actual, que só é

alcançado com força mental robusta, adaptável

e que encara desafios como oportunidades

de crescimento.

Conclusão

Quem nunca olhou para alguém que

alcançou enorme sucesso na vida e em

seguida se interroga como essa pessoa foi

capaz? Considero isto um acto de coragem

e receio, em simultâneo. É importante haver

referências que façam sonhar e motivar

quem deseja desenvolver ambições

como investidor, mas, em contrapartida,

pode ter o efeito de afastar ou, pior, dar a

entender que tudo parece fácil.

Ter ambições deve ser considerado

como a poção que faz querer lutar por

algo na vida – aplicado a 100% a investimentos

ou não. Mas, como em tudo, deve

haver uma base sólida de iniciação, um

mapa perfeitamente identificável a seguir.

Caso contrário, as ambições não passam

de sonhos que rapidamente se podem tornar

pesadelos.

Não é, nem nunca será, fácil dominar

de forma tranquila e segura a natureza dos

mercados financeiros, onde eu próprio enfrento

desafios todos os dias, sempre que

me sento em frente ao ecrã. A diferença

está no mindset desenvolvido, não só com

estratégias bem fundamentadas para operar,

mas principalmente com a consciência

do ponto em que estou e onde posso

melhorar diariamente.

Como disse, nunca será fácil – mas

não tem de ser tão difícil, perigoso e desgastante

quanto isso.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 57


OPINIÃO

POR NUNO SOUSA PEREIRA

DIRECTOR DE INVESTIMENTOS

DA SIXTY DEGREES

CBDC

AS MOEDAS DIGITAIS

DOS BANCOS CENTRAIS

Raramente reflectimos sobre o que é o dinheiro,

por que razão tem o valor que colectivamente

lhe atribuímos, ou qual a estrutura

de intermediação para o movimentar.

N

o entanto, todos os dias à volta do mundo, milhões de transacções são

processadas através de empresas privadas, maioritariamente bancos,

utilizando o dinheiro emitido por Bancos Centrais, com permissão dos

respectivos governos, sem que tenha um valor atribuído para além da

confiança. Existe uma versão do dinheiro detido nos bancos que é apenas um

conjunto de zeros e uns num qualquer computador, e a versão do dinheiro

físico representado através de moedas e notas.

Alguns eventos da história monetária recente, nomeadamente a criação das moedas

digitais (criptomoedas), os elevados níveis de dívida governamental face ao PIB ou os valores

recentes de inflação, muito elevados quando comparados com as últimas décadas, voltaram

a trazer desenvolvimentos sobre a estrutura do dinheiro e da sua utilização e os deveres e

benefícios das entidades governamentais e reguladores financeiros nessa estrutura.

Enquanto muitos advogam que o poder das criptomoedas não está apenas ligado ao

potencial tecnológico de muitos dos projectos, mas, acima de tudo, à sua descentralização

e capacidade de resiliência face ao autoritarismo governamental, outros criticam a falta de

regulamentação deste espaço, o elevado risco associado – recentemente uma das maiores

moedas alternativas em circulação implodiu praticamente de um dia para o outro (valor total

de mercado de cerca de 40 mil milhões de dólares) – e a falta de curso legal* destas “moedas”.

Adicionalmente, o número de pessoas sem acesso a contas bancárias ou internet no

mundo também limita a adopção de alternativas 100% digitais.

Têm surgido muitas iniciativas para tentar resolver estas questões de ambos os lados.

O maior destaque tem ido para a adopção da bitcoin como moeda legal de alguns países,

caso de El Salvador, que aparece em primeiro plano por ser o país onde, na teoria, todos os

pagamentos podem ser feitos usando bitcoin (desde pagamentos ao Governo a transacções

comerciais). Na prática, esta experiência não estará a correr tão bem como esperado, até

porque a desvalorização recente dos preços das criptomoedas trouxe obstáculos adicionais à

penetração de mercado destas soluções.

Na esfera pública e num movimento considerado

rápido pelos padrões históricos, vários

Bancos Centrais começaram a desenvolver

alternativas para emitir dinheiro digitalmente.

Convém, por isso, tentar perceber em que difere

o dinheiro emitido actualmente, um conjunto de

zeros e uns na nossa conta bancária, das CBDC

(Central Bank Digital Currencies).

No actual sistema, uma unidade monetária é

igual a outra qualquer, não se conseguindo distinguir

que nota, moeda ou conjunto de “zeros e

uns” foi utilizado numa determinada transacção.

Esta forma de moeda, por muito que já tenha

uma aplicação desmaterializada, continua a ser

diferente do conceito de criptomoeda.

Baseada na tecnologia blockchain, cada

criptomoeda é identificável, assim como todas as

transacções em que essa unidade esteve envolvida,

permitindo um escrutínio total das transacções

a quem consulte o histórico do blockchain.

Esta transparência é um dos atractivos das

criptomoedas privadas, já que o “ledger” –

histórico de transacções – está acessível a

quem quiser consultá-lo. No caso das CBDC,

essa informação privilegiada está nas mãos

dos Bancos Centrais e potencialmente dos

Governos, com todos os efeitos nefastos que

daí possam resultar.

Além das valências do dinheiro “actual”,

como meio de transacção, as CBDC estão a

ser olhadas pelos Bancos Centrais como uma

excelente alternativa, não só para controlar as

transacções económicas que hoje escapam às

malhas das autoridades (“shadow economy”),

mas também como uma ferramenta que

58 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


permite implementar outros mecanismos de

controlo monetário, como a distribuição universal

de rendimentos ou a tributação universal

do património.

Esta ferramenta, estando a ser desenvolvida

pelos Bancos Centrais, que até agora têm dado

algum espaço de manobra ao ecossistema das

criptomoedas privadas para mapear os eventuais

problemas a enfrentar, vai trazer simplificações

na operacionalidade das transacções, tornando-

-as mais seguras e baratas (uma das vantagens

que os proponentes das criptomoedas destacam

face ao circuito bancário).

Por outro lado, como referido, o lançamento

das CBDC vai fazer aumentar o grau de informação

que passaremos a dar às instituições no

poder. Este é, sem dúvida, um dos principais

problemas que teremos pela frente, sendo já

possível verificar alguns exemplos da utilização

deste poder, que se tornará especialmente

preocupante se for cruzado com métodos de

avaliação do cumprimento social. O exemplo

mais avançado desta situação pode ser observado

no Sistema de Pontuação Social Chinês (Social

Credit System), onde os elementos da sociedade

que não cumpram um determinado padrão de

comportamento vêem limitada a sua capacidade

de interagir com a sociedade em inúmeras actividades

essenciais, que vão desde a concessão

de crédito à simples utilização de transportes

públicos. É fácil imaginar que todas as transacções

estarão também contidas num ambiente

controlado pelo Governo, pelo que os membros

da sociedade, que não respeitarem inteiramente

as regras impostas, poderão ficar completamente

sem recursos pelo simples apertar de um botão.

Neste ponto da história, em que tanto se fala de

literacia financeira, é essencial que as pessoas

percebam o potencial da tecnologia associada às

CBDC e que tomem uma opção informada sobre

o uso generalizado da mesma.

Outro problema adicional associado ao

desenvolvimento das CBDC reside na possibi-

VÁRIOS BANCOS

CENTRAIS COMEÇARAM

A DESENVOLVER

ALTERNATIVAS PARA

EMITIR DINHEIRO

DIGITALMENTE

lidade de tornar os bancos comerciais redundantes.

Todos os utilizadores da rede passam a

poder efectuar transacções directamente com o

Banco Central, não necessitando de uma conta

bancária, o que, no momento inicial, poderá levar

à quebra abrupta do sistema vigente em favor do

“novo” sistema.

Assim, apesar das etapas estarem a ser

ultrapassadas a uma velocidade anteriormente

impensável, falta ainda ultrapassar uma série

de obstáculos que permitam a total adopção

das CBDC de um modo generalizado. É assim

essencial que seja promovido um debate sério na

sociedade civil sobre os poderes que um sistema

destes entregará tanto a Bancos Centrais como

a Governos. No entanto, não faltam já entidades

com vontade de saltar esta discussão, tal como

foi sugerido em Davos, no final de Maio, onde foi

adiantado que as CBDC poderiam ser adoptadas

como forma de substituir o sistema SWIFT,

utilizando a tecnologia blockchain e criando um

cabaz de CBDC para se obter um preço mais

estável entre elas.

*Curso legal - Uma moeda de curso legal é aquela que,

segundo a lei, pode ser usada para quitar dívidas públicas,

dívidas privadas e cumprir obrigações financeiras como

pagamentos de impostos, contratos, multas ou danos legais

e é aceite pelo valor facial de emissão.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 59


OPINIÃO

POR CARLOS RODRIGUES

PRESIDENTE DA MAXYIELD – CLUBE

DOS PEQUENOS ACCIONISTAS

OS CAMINHOS

DO PSI

A

nível

O mercado de acções nas bolsas de valores

mobiliários caracteriza-se por forte volatilidade

e variabilidade diária das cotações, com

significativas oscilações nos ciclos longos em

que se encontram e num enquadramento

económico internacional adverso.

nacional, o PSI apresenta uma grande resiliência a estes

fenómenos e um comportamento em contraciclo com os principais

índices de referência do mercado europeu e americano. Através deste

artigo, pretendemos identificar os caminhos que se abrem ao PSI no

contexto referido.

1. ENQUADRAMENTO ECONÓMICO

1.1 – As pressões inflacionistas

Os estímulos económicos e monetários de combate à pandemia provocaram um aumento da

massa monetária em circulação, acompanhada por uma redução da velocidade de circulação

da moeda devido às situações de confinamento.

O fim do confinamento e regresso progressivo à normalidade têm como consequência o

retorno aos níveis pré-pandémicos da velocidade de circulação da moeda, e respectivo ajustamento

económico pelo aumento dos preços, provocando pressões inflacionistas persistentes

de natureza permanente.

Este quadro foi agravado por um crescimento dos preços dos combustíveis e de um

amplo conjunto de matérias-primas não energéticas, provocado por disfunções nas

cadeias de abastecimento e dificuldades logísticas, que a agressão da Rússia à Ucrânia veio

agravar significativamente.

1.2 - O aumento das taxas de juro

Para conter as tensões inflacionistas, as

autoridades monetárias recorrem ao aumento

das taxas de juro directoras, cujo processo já se

iniciou nos EUA, no Reino Unido e nas yield das

dívidas soberanas, sendo expectável o aumento

das taxas de referência pelo BCE a curto prazo.

A FED aumentou a taxa de juro em 0,25% em

Março e 0,5% em Maio para responder à inflação,

que atingiu 8,5% no final do 1.º T/2022.

O Banco Central de Inglaterra, um dos mais

antigos bancos centrais do mundo, para responder

à taxa de inflação de 5,5% em Janeiro,

procedeu a aumentos de 0,25% nas suas taxas

de referência, nos meses de Fevereiro, Março

e Maio.

São expectáveis novos aumentos das taxas de

juro conforme já foi anunciado pelos responsáveis

da FED, Banco Central de Inglaterra e

posições avulsas de responsáveis do BCE, que

sinalizam a subida das taxas de juro para este

Verão, após a taxa de inflação anual de 8,1%

verificada em Maio na Zona Euro.

A redução dos balanços através da diminuição

das compras líquidas de activos, designadamente

títulos de dívida soberana, deverá ter o seu início

no limiar do 2.º S/2022.

Merece uma referência especial a evolução

das taxas de juro reais (corrigidas da inflação)

num contexto inflacionista, que poderá determinar

uma evolução das taxas nominais com

amplitude assinalável.

60 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


PARA CONTER AS

TENSÕES INFLACIONISTAS,

AS AUTORIDADES

MONETÁRIAS RECORREM

AO AUMENTO DAS

TAXAS DE JURO

DIRECTORAS

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 61


OPINIÃO

O BANCO CENTRAL DE

INGLATERRA, PARA

RESPONDER À TAXA

DE INFLAÇÃO

DE 5,5% EM JANEIRO,

PROCEDEU A

AUMENTOS DE 0,25%

NAS SUAS TAXAS

DE REFERÊNCIA,

NOS MESES

DE FEVEREIRO,

MARÇO E MAIO

vo), em contexto de evolução anual positiva do

PIB, através da desaceleração e abrandamento

do ritmo de crescimento.

1.4 - E Portugal?

Relativamente ao nosso país, a Comissão

Europeia e o FMI em 2022 vêem o PIB a crescer

5,8% e 4,9%, respectivamente. Paralelamente, a

Comissão Europeia e o FMI prevêem uma inflação

de 4,4% e 6%, respectivamente.

Esta evolução deve-se ao impulso do consumo

privado apoiado pela normalização da

taxa de poupança das famílias, à alavancagem

do investimento pelo Plano de Recuperação e

Resiliência, à recuperação do turismo e ao facto

de Portugal ter sido uma das economias mais

afectadas pela pandemia.

Em conformidade com as previsões da UE, em

2023 Portugal regressa a uma baixa trajectória

de crescimento em torno de 2,7%, sendo que a

inflação, os preços da energia, as disfunções na

cadeia de abastecimentos, o aumento das taxas

de juro e a bolha imobiliária são riscos que não

podem ser subvalorizados.

1.3 - Arrefecimento económico internacional

O ciclo económico tem pela frente políticas

monetárias restritivas, provocando maior lentidão

na retoma, abrandamento ou desaceleração

do ritmo de crescimento económico.

Depois do crescimento de 5,7% do PIB dos

EUA em 2021, o 1.º T/2022 fica marcado por

uma evolução negativa em cadeia de -1,4%,

cuja economia deverá sofrer um acréscimo de

2,8% em 2022, influenciada pelos níveis de

emprego, evolução salarial, manutenção da

despesa das famílias e gastos públicos.

O crescimento homólogo do PIB chinês no

1.º T/2022 situa-se em 4,8%, com expectável

agravamento no 2.º T, e encontra-se muito

longe do aumento de 8,1% em 2021 e da

meta de 6% para o ano em curso, a qual, com

excepção de 2020, não tem precedentes nas

últimas três décadas.

Após a quebra de 5,9% da economia europeia

em 2020, verificou-se um crescimento de

5,3% em 2021, sendo que em 2022 a inflação

(7,5% em Abril) e a guerra na Ucrânia vão provocar

uma forte desaceleração para 2,3%, em

conformidade com as previsões do Eurostat.

O arrefecimento económico internacional

pode originar situações de recessão (dois trimestres

consecutivos de crescimento negati-

62 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


2. COMPORTAMENTO DOS

MERCADOS BOLSISTAS

EUROPEUS E AMERICANOS

A tendência decrescente dos índices bolsistas internacionais

já incorpora alguns efeitos macroeconómicos

referidos, sendo que o PSI apresenta

uma surpreendente situação inversa com um

crescimento anual de 12,4% no final de Maio.

O índice S&P 500, composto pelas maiores

500 sociedades cotadas na NYSE, que atingiu

em 4 de Janeiro o valor máximo de sempre 1 ,

apresenta no final de Maio uma diminuição

anual acumulada de -13%, tendo atingido o bear

market no dia 20 deste mês.

O índice STOXX 600, que agrega as 600 maiores

sociedades cotadas europeias, que atingiu

em 5 de Janeiro o valor máximo histórico 2 , e, no

final de Maio, uma baixa anual acumulada de

-9%, que não deixa ninguém tranquilo, face às

características da conjuntura e ciclo económico

no 2.º S/2022.

O índice tecnológico americano NASDAQ

entrou no mês de Abril em bear market (quebra

acumulada superior a 20% relativamente ao

último máximo ocorrido em 22 de Novembro/2021),

para o qual contribuiu a decepcionante

earning season das FAANG (Facebook, Amazon,

Apple, Netflix e Google).

As bolsas dos diversos países europeus

apresentam uma evolução bastante diferenciada,

sendo que o índice alemão DAX30 e o índice

francês CAC40 são aqueles que sofreram uma

quebra mais acentuada.

É de referir que o índice espanhol IBEX 35 e o

londrino FTSE 100 ainda não atingiram os valores

anteriores ao crash de 2020.

SUCESSÃO DE PICOS E VALES

NOS CICLOS LONGOS DO PSI

8 000

6 000

4 000

2 000

2011 2013 2015 2017 2019 2021

3. PERSPECTIVAS PARA O PSI

Estas tendências colocam interrogações sobre

a capacidade de resiliência do PSI até ao final

do ano e a persistência de uma evolução em

contraciclo com os mercados internacionais.

A actividade das maiores sociedades do PSI

vai ser influenciada pelo arrefecimento económico

internacional, devido ao peso da internacionalização

nos seus negócios.

Pelo contrário, a actividade das sociedades

do PSI, com actividade concentrada no mercado

doméstico, será potenciada pela favorável conjuntura

económica do País em 2022.

A evolução do PSI poderá ser influenciada

por estes dois efeitos de sentido inverso e pelo

grau de volatilidade.

EM CONFORMIDADE

COM AS PREVISÕES

DA UE, EM 2023

PORTUGAL

REGRESSA A UMA

BAIXA TRAJECTÓRIA

DE CRESCIMENTO

EM TORNO DE 2,7%

No actual contexto estaremos confrontados

pela permanência do PSI na faixa de variação

[6300 3 -7750 4 ] ou um regresso à faixa

[5750 5 -6300].

A permanência na faixa de variação

[6300-7750] significa que o PSI se manterá

ao nível de máximos de 2014-2015 e numa

significativa tendência ascensional.

O regresso à faixa [5750-6300] significa que

o índice se manterá ao nível de 2016-2018, com

o perigo de regressão, com quebra da zona de

sustentação ao encontro daquele que sempre

vem e se esconde na sucessão de picos e vales

dos períodos longos de variação: o bear market.

No fundo, estaremos perante o “pesadelo”

da histórica intermitência, alternando

anualmente variações positivas e negativas,

com fraca correlação com a evolução do PIB,

ou “romper” com esta tradição dos últimos

10 anos?

Os price targets da generalidade das

sociedades cotadas não afastam esta

interrogação, pelo que estamos perante

tempos desafiantes para a evolução do PSI

e também de verificação se o novo índice,

baptizado no mês de Março, continua sujeito

a bear markets de periodicidade bianual ou

interrompe esta tendência.

1 O valor máximo de sempre foi de 4.818,62 pontos em 4 de

Janeiro de 2022.

2 O máximo histórico atingiu 495,46 pontos em 5 de Janeiro

de 2022.

3 Pico observado em 10 de Abril de 2015 e anterior ao bear

market de 2016.

4 Pico ocorrido em 1 de Abril de 2014, que precedeu o crash

verificado neste ano.

5 Valor ocorrido em 21 de Maio de 2018, correspondente ao

pico anterior ao bear market de 2018.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 63


OPINIÃO

POR CARLOS VIEIRA

COUNTRY MANAGER DA WATCHGUARD

PARA PORTUGAL E ESPANHA

A TRANSIÇÃO

PARA SERVIÇOS

DE SEGURANÇA

GERIDOS

São inúmeras as oportunidades para os MSP

(Managed Service Providers) que querem adoptar

um modelo de segurança gerida. Seja criterioso,

verifique qual o valor acrescentado que aporta

e escolha sabiamente o seu parceiro.

O

aumento da complexidade e do número de ciberataques torna o panorama

da cibersegurança cada vez mais desafiante. Encontrar a solução certa

para determinado problema pode ser avassalador para as empresas, que

se confrontam com a existência de um enorme volume de tecnologias de

segurança e de opções de fornecedores.

De alguma forma, a complexidade parece ser o problema primário quando se está

a trabalhar numa estratégia de segurança eficaz. Quando combinado com a escassez

sistémica de pessoal especializado, é, de certa forma, a tempestade perfeita.

No entanto, estas mesmas dinâmicas de mercado estão a levar à necessidade e a

um crescimento exponencial de fornecedores de serviços de segurança geridos (MSSP).

Nos últimos dois anos, os profissionais do sector têm reconhecido estas oportunidades e

trabalhado para evoluir para modelos de serviços de segurança geridos. E é fácil perceber

o porquê: os ganhos são elevados do ponto de vista de uma segurança eficaz e eficiente,

mas, também, de uma perspectiva financeira.

1.

Quem tudo quer, tudo pode perder. Seja criterioso quanto aos serviços de

segurança geridos que pretende fornecer. A variedade de necessidades de

segurança é grande e é fácil perdermo-nos neste mundo. Concentre-se num conjunto

diferenciado de serviços de segurança geridos e fora do âmbito do qual a sua actual

base de clientes pode beneficiar. Além disso, preste especial atenção à gestão do fluxo

de dinheiro de caixa e ajustes das comissões de vendas, para melhor satisfazer as

necessidades do seu negócio.

2.

Conhecer a mais-valia do serviço.

A segurança resulta de uma intersecção

entre pessoas, processos e tecnologia. Estes

três vectores têm de ser completamente

compreendidos para que possam aportar

valor. Uma das vantagens em fazer uma

parceria com um MSSP já estabelecido é, por

exemplo, o contacto prévio com diferentes

clientes e situações, o que ajuda a desenvolver

melhores práticas (e trabalhar dentro dos

enquadramentos legais e de privacidade

indicados).

3.

A eficácia da segurança não é suficiente.

Embora um sistema de segurança óptimo

seja um imperativo, deve certificar-se que os

seus serviços têm um custo material adequado.

A eficiência operacional é o ponto central deste

modelo de negócio. Os MSSP precisam de ter um

melhor serviço a um melhor preço, ao mesmo

tempo que tentam manter-se rentáveis. Este

é um caminho cheio de obstáculos, que pode

64 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


desviar clientes e redireccionar as receitas.

Deve concentrar-se em pontos como a

flexibilidade de compra, facilidade de gestão

e um único fornecedor para apoiar a sua

base de clientes. Reduzir o seu portefólio de

fornecedores melhora a eficiência e eficácia na

gestão das plataformas dos seus clientes.

OS PROFISSIONAIS

DO SECTOR TÊM

RECONHECIDO ESTAS

OPORTUNIDADES

E TRABALHADO

PARA EVOLUIR

PARA MODELOS

DE SERVIÇOS

DE SEGURANÇA

GERIDOS

4.

One too many models. Esta

dica é essencial, mas, por vezes

(dolorosamente), subestimada. Um MSSP

não é a mesma coisa que uma empresa de

segurança em outsourcing (seja no cliente ou

remotamente).

O modelo económico é diferente, as

características são diferentes e a rentabilidade

esperada é diferente. Um MSSP tem de

prever, operar e entregar um serviço sob a

premissa “one-to-many model”. Isto significa

que é necessário haver um elevado nível de

replicabilidade e transportabilidade, o que ajuda

a encontrar o valor acrescentado do serviço, a

diferenciação e a eficiência operacional.

5.

Cada acção tem um impacto,

especialmente na escolha de parceiros.

São poucas as empresas que conseguem

juntar pessoas, processos e tecnologias num

formato convincente. E um parceiro de canal,

por definição, já tem relação com alguns

fornecedores. Na migração para um modelo

MSSP, é importante ter os fornecedores certos.

Esta análise pode acrescentar ou diminuir a sua

mais-valia, diferenciação e rentabilidade.

Há imensas oportunidades para os MSP que

querem avançar para o modelo de segurança

gerida. Mas esta mudança é uma transição não

só na forma como se entrega valor aos clientes,

mas também em muitos aspectos intrínsecos

do modelo de negócio. Antes de iniciar esta

viagem, pense nas implicações que vai ter o seu

negócio já existente. Seja criterioso e perceba

onde está o valor do serviço. E escolha o seu

parceiro sabiamente.

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 65


OPINIÃO

CRIPTOMOEDAS

UM FUTURO

POR RICARDO BRANCO

OUTSOURCING SENIOR DA MAZARS

EM PORTUGAL

PRESENTE

Há momentos na história da Humanidade

que serão relembrados como verdadeiramente

transformadores.

A

31 de Outubro de 2008, nos primórdios da crise financeira, foi

publicado um livro branco intitulado “Bitcoin: A Peer to Peer

Electronic Cash System”, por alguém que utilizava o pseudónimo

Satoshi Nakamoto. A sua principal premissa seria defender a

realização de transacções financeiras sem a necessidade de um

intermediário, como um banco ou outras instituições financeiras. Em última instância, esta

tornar-se-ia uma transferência de informação.

Actualmente, é possível enviar fotografias e vídeos quase instantaneamente e praticamente

de graça, mas, se quisermos realizar uma transferência de dinheiro de Portugal para

o Japão, esta irá demorar cerca de dois dias, pagar comissões bancárias diversas e custos de

conversão da moeda, e só o podemos fazer em dias úteis. A tecnologia utilizada pela Bitcoin

(BTC) é o blockchain que, de forma muito simples, podemos caracterizar como uma lista de

transacções que, agrupadas em blocos que vão adicionando a blocos anteriores, pode ser

visualizada e verificada por todos os utilizadores, já que o seu código é Open Source.

No entanto, a BTC é apenas uma das criptomoedas que utilizam esta tecnologia. Segundo

dados do site CoinmarketCap, existem mais de 19 mil criptomoedas que utilizam o Blockchain

ou desenvolvimentos desta tecnologia. A Bitcoin e a Ethereum são, de longe, as mais conhecidas,

já que, em conjunto, representam mais de 60% do total da capitalização do mercado

das criptomoedas. A tecnologia tem evoluído de uma forma exponencial e tem sido uma base

para o desenvolvimento de novas aplicações em vários sectores. Exemplo disso são moedas

digitais como a BTC, XRP, Dogecoin e Litecoin; plataformas de contratos inteligentes (Smart

Contract Platforms), sendo as mais conhecidas a Ethereum (ETH), Cardano (ADA), Solana

(SOL) e Polkadot (DOT); na área da interoperabilidade, a Quant (QNT); e nos jogos, a Enjin Coin

(ENJ) e a Axie Infinity (AXS). Até no mundo do futebol, clubes como o Futebol Clube do Porto, a

Juventus, o Barcelona e o Manchester City já aderiram à tecnologia com a emissão de tokens

(representação digital da criptomoeda).

66 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


Outra área muito importante tem sido a das

finanças, com as moedas DeFi (Decentralized

Finances) ou finanças descentralizadas, que,

de um modo geral, oferecem um conjunto de

serviços que rivalizam com o nosso sistema

bancário actual, tais como investir e receber

juros, solicitar financiamentos, transaccionar

activos financeiros de uma forma mais rápida,

segura, barata e sem a necessidade de intermediários,

que encarecem todo o processo. Entre

as criptomoedas que usam tecnologia para estes

serviços contam-se, por exemplo, a Wrapped

Bitcoin (WBTC) ou a Avalanche (AVAX).

Um outro mercado que tem proliferado

rapidamente é o dos NFT (Non Fungible Token).

Basicamente, estes são um direito de propriedade

sobre um activo digital. Como o seu nome

indica, cada um é não fungível, ou seja, é único

no mundo e pode ser utilizado para a autenticação

da propriedade de activos digitais, tais como

arte digital, músicas, vídeos, bilhetes de cinema

e até mesmo um tweet. As utilizações podem

ser variadas e os mais entusiastas da tecnologia

afirmam que nos próximos anos o mercado dos

NFT irá ser preponderante nas nossas operações.

Ainda recentemente, verificaram-se problemas

na final da Liga dos Campeões com a venda de

bilhetes falsos. Com esta tecnologia, o problema,

muito provavelmente, não existiria.

Mas como podemos comprar ou transaccionar

criptomoedas? Primeiro, é necessário ter uma

carteira digital associada a duas chaves: uma

chave privada, que serve de password para aceder

aos fundos, e uma chave pública, que constitui o

endereço da carteira e que serve para terceiros

enviarem moedas. O processo é muito idêntico

a enviar um e-mail. Uma outra forma consistirá

ALGUNS ANALISTAS

FINANCEIROS

TÊM RECOMENDADO

ALOCAR UMA PARTE

DO PATRIMÓNIO

EM CRIPTOMOEDAS

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 67


OPINIÃO

em abrir uma conta numa Exchange. As mais conhecidas

são a Binance, Coinbase, Kraken, Huobi

Global e Bitfinex. No entanto, estas plataformas

não são necessárias para transaccionar criptomoedas,

bastando uma carteira digital e chaves

públicas para a realização de transacções. Uma

das primeiras transacções em BTC teve lugar em

2010, quando um programador comprou duas

pizzas por 10 mil BTC. Aos preços actuais, o valor

total pago seria de cerca de 268 milhões de euros.

Em Portugal, muito recentemente, registou-se o

primeiro imóvel liquidado em BTC.

Podemos ainda adquirir moedas virtuais

através de dois mecanismos: a Prova de Trabalho

(Proof of Work) e a Prova de Participação (Proof

of Stake). A primeira é utilizada pelas primeiras

criptos, tais como a BTC ou ETH 1.0 (está em

desenvolvimento a ETH 2.0), e consiste num

processo denominado mineração, no qual, através

de um processo de resolução de problemas, os

“mineiros” ganham o direito de criar blocos na

Blockchain, assim conquistando tokens. O grande

problema deste processo é que a quantidade de

energia necessária é enorme, o que o torna pouco

atractivo, mesmo em questões ambientais. É por

este motivo que em alguns países a mineração

está já a ser proibida. Adicionalmente, os programadores

verificaram que, com a quantidade de

novas aplicações a serem desenvolvidas, a própria

rede iria sofrer limitações. As novas criptomoedas

têm utilizado a Prova de Participação, que consiste

em contribuir com criptomoedas e aceder à

oportunidade de validar novas transacções. É a

TEMOS ASSISTIDO,

NOS PAÍSES OCIDENTAIS,

A UMA INFLAÇÃO

QUE NÃO ERA TÃO ALTA

HÁ PELO MENOS

20 ANOS,

O QUE LEVANTOU

NOVAMENTE A

QUESTÃO DE INVESTIR

NESTES ACTIVOS

própria rede que, através de critérios variáveis,

atribui essa possibilidade e, consequentemente, a

recompensa. Em termos práticos, podemos considerá-lo

quase como fazer um depósito e receber

os juros. Só que os juros são mais criptomoedas.

Utilizado maioritariamente por jovens, alguns

analistas financeiros têm recomendado alocar uma

parte do património em criptomoedas. Como qual-

68 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


Fonte: CoinmarketCap.com

quer outro activo, o preço é fortemente influenciado

pela lei da oferta e da procura. Por exemplo,

a BTC obteve uma subida exponencial desde a sua

criação e criou muitos milionários. No entanto, a

volatilidade destes activos é tão grande que, tal

como cria fortunas muito rapidamente, também as

destrói. Uma outra moeda digital muito conhecida,

até pelo facto de no momento de elaboração deste

artigo estar a ser alvo de um processo por parte da

SEC (Securities Exhance Commision), a congénere

norte-americana da Comissão de Valores e Mercado

(CMVM), a Ripple (XRP), registou o seu valor

mais alto (ATH - All Time High) há cerca de quatro

anos e está actualmente a perder cerca de 88%

do seu valor. A BTC está a perder cerca de 57% e a

Ethereum (ETH) 63%. Mais recentemente, um episódio

abalou o mercado, associado à criptomoeda

Terra Classic. Como pode ser observado no gráfico,

em meados de Abril cada token valia mais de 100

euros, tendo o preço afundado em meros dias.

Estes exemplos mostram que as criptomoedas

precisam ainda de estabilizar o seu preço de forma

a serem uma alternativa viável para investidores

mais avessos ao risco.

Em países em que os sistemas financeiros são

consistentes e as moedas nacionais são estáveis, a

procura por estes activos não tem a mesma importância

que em países em que o contrário acontece.

Em geografias como a Argentina, o Zimbabué ou

mesmo a Venezuela, a moeda nacional sofre fortes

desvalorizações, devido a valores elevados de

inflação derivados da impressão desenfreada de

dinheiro por parte dos seus governos, prejudicando

aforradores e pensionistas. Nestes casos, existem

vários exemplos de pessoas que transferiram as

suas poupanças para BTC e conseguiram manter o

seu poder de compra. Entretanto, temos assistido,

nos países ocidentais, a uma inflação que não era

tão alta há pelo menos 20 anos, o que levantou

novamente a questão de investir nestes activos.

Quanto à fiscalidade, em termos de IRS, em alguns

países a tributação dos rendimentos obtidos

VIVEMOS NUMA ERA

DIGITAL, SENDO

O SURGIMENTO

DE MOEDAS DIGITAIS

APENAS UMA

EVOLUÇÃO NATURAL

já começou a ser efectuada, sendo que em Portugal

o assunto está ainda em discussão. Assim,

à data de elaboração deste artigo, existe a possibilidade

de esta se tornar uma actividade profissional

enquadrada em rendimentos da categoria

B. Quanto ao IRC, estamos também numa “área

cinzenta”, sendo que alguns autores defendem

a sua tributação aplicando os termos presentes

no Sistema de Normalização Contabilística (SNC)

e as Normas Internacionais de Contabilidade no

apuramento do resultado tributável.

Vivemos numa era digital, sendo o surgimento

de moedas digitais apenas uma evolução natural.

É algo que os próprios bancos centrais já interiorizaram

e estão em curso vários desenvolvimentos

para a criação de moedas digitais disponibilizadas

por estas entidades. As chamadas CBDC (Central

Bank Digital Currency) são nada menos que a

resposta que estas instituições têm desenvolvido

de forma a acompanharem esta evolução.

Tal como já referido, a tecnologia está em

constante evolução. A criptomoeda Hedera

(Hbar) é o caso mais visível desta evolução. Através

da tecnologia Hashgraph resolve grande parte

dos principais problemas inicialmente identificados,

tais como a velocidade das transacções,

os fees cobrados por transacção e o consumo de

energia. Por isso finalizo com a frase presente em

Hedera.com: “Hello Future.”

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 69


FINTECH

PAGAMENTOS

À ESCALA

GLOBAL

Com 17 anos de actividade em Portugal,

a ifthenpay proporciona a empresas

de qualquer dimensão uma plataforma

de pagamentos para e-Commerce. Filipe

Moura, CEO da empresa, falou com a Risco

sobre a evolução do sector.

A

ifthenpay comemora 17 anos de actividade em Portugal. Qual o balanço?

O balanço é muito positivo, a começar pelo crescimento constante e

robusto nestes 17 anos. Estamos muito perto de atingir os mil milhões

de euros anuais em volume de pagamentos e 23 mil empresas aderentes.

Do mesmo modo, estamos muito satisfeitos por ter ajudado milhares de

empresas no seu percurso para o comércio online e para os pagamentos digitais.

Fomos pioneiros na democratização da utilização das referências multibanco,

ajudámos à implementação do MB WAY e estávamos no lugar certo e com as ferramentas

certas para ajudar as empresas portuguesas a ultrapassar os obstáculos

que a pandemia trouxe, contribuindo para o aumento dos seus canais de vendas

digitais. Para muitas, foi a tábua de salvação, e, para outras, foi uma alavanca para

o seu crescimento online.

Quais os grandes factores de diferenciação da ifthenpay no mercado face a

outras empresas do mesmo sector?

Eu diria que a ifthenpay tem crescido fundamentalmente por dois factores:

primeiro, pela inovação e especialização que trouxe na área dos pagamentos digitais.

Por sermos da área das tecnologias, somos mais ágeis na integração dos

pagamentos em todo o tipo de plataformas digitais e software. O nosso ADN é a

tecnologia e fazemos a ponte entre a tecnologia e os serviços de pagamento, tradicionalmente

mais associados à Banca.

Mas, mais importante do que termos um bom produto e serviço, é o nosso help

desk e o foco no cliente. Oferecemos um serviço de help desk em português, por

vários meios, muito próximo do cliente e efectuado por colaboradores internos,

predominantemente da área das tecnologias (engenheiros informáticos), que entendem,

conhecem e resolvem as questões técnicas que sempre surgem quando se

integra um universo de software e plataformas digitais.

Filipe Moura, CEO da ifthenpay

Quais os principais desafios que uma

fintech com aspirações globais encontra

no mercado português?

Por um lado, a questão da legislação, supervisão

e compliance, indispensáveis neste

tipo de actividade, é sempre um desafio para

quem tem formação mais ligada às tecnologias

e menos ao direito. Mas estes 17 anos

de actividade, a formação contínua, a ajuda

das entidades que nos supervisionam, como

o Banco de Portugal, e o crescimento dos

recursos humanos em todas as vertentes,

ajudaram-nos a crescer também nessas matérias.

Por outro lado, o mercado português

está muito fechado e centrado nas entidades

financeiras incumbentes. Isto dificulta

bastante o acesso das fintechs às infra-estruturas

ligadas aos meios de pagamento.

70 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


FINTECH

QUALQUER EMPRESA,

DE QUALQUER DIMENSÃO,

DE UMA FORMA FÁCIL,

CÓMODA E SEGURA,

PODE ABRIR O SEU

NEGÓCIO AO MUNDO

resposta atempada a todos. Felizmente, já

antes da pandemia tínhamos as soluções

que eles precisavam. A pandemia veio acelerar

a adopção do e-Commerce para muitas

empresas, que passaram a ver no canal

digital uma alternativa ou complemento ao

canal presencial.

A ifthenpay encerrou o exercício de

2021 com um crescimento de 28% no

volume de negócios e um valor total de

4.267.675 euros. Quais os factores que

Quais os principais desafios que a

pandemia apresentou ao negócio?

Apesar de ter prejudicado os negócios

de forma geral, a verdade é que a pandemia

veio impulsionar ainda mais as vendas

online e os pagamentos digitais. Em consequência

disto, a quantidade de pagamentos

e o número de clientes a aderir ao serviço da

ifthenpay aumentou ainda mais. Durante os

primeiros meses da pandemia, praticamente

triplicou o número de clientes diários

que aderiram ao serviço. Isto foi um desafio

em termos de logística, porque, de repente,

além de termos grande parte dos colaboradores

em teletrabalho, ainda tínhamos o triplo

do trabalho. A somar a isto, as empresas

tinham uma urgência compreensível em ter

o serviço activo, porque, para muitas delas,

as vendas online e os pagamentos à distância

passaram a ser a única alternativa.

Mas com a boa vontade e dedicação de

todos os colaboradores, conseguimos dar

RISCO JUNHO / AGOSTO 2022 71


FINTECH

escolhendo o método de pagamento que

desejarem. Isto pode ser utilizado de várias

formas: pode, por exemplo, ser utilizado

por uma empresa para receber os pagamentos

das suas facturas em Portugal ou

no estrangeiro; pode ser usado para receber

os pagamentos de inscrições em eventos;

donativos; venda directa (pelas redes

sociais, por exemplo); etc. Na pandemia foi

também muito útil para os take-away.

contribuíram para este crescimento

num ano difícil?

Como podem ver no nosso site, em ifthenpay.com,

o crescimento da empresa tem

sido constante e robusto todos os anos. A

pandemia veio impulsionar os canais de vendas

digitais e, apesar de haver alguns sectores

em que as quedas foram impressionantes,

como os ligados ao turismo, viagens e eventos,

no geral, as vendas online aumentaram

e contribuíram para este nosso crescimento.

No mesmo período, registou um

crescimento de 27% no volume de

pagamentos face ao período homólogo.

Este crescimento também está

relacionado com a pandemia?

Sim, também. Este crescimento no volume

de pagamentos é um resultado directo

do crescimento do volume de pagamentos

dos nossos clientes. Claro que também

conquistámos muitos novos clientes, criámos

novos serviços e integrámos em mais

plataformas… Mas a pandemia acelerou

isto tudo.

Também em 2021, a ifthenpay lançou

a “Gateway Pay By Link”. Em que

ESTÁVAMOS NO LUGAR

CERTO E COM AS

FERRAMENTAS CERTAS

PARA AJUDAR

AS EMPRESAS

PORTUGUESAS

A ULTRAPASSAR

OS OBSTÁCULOS QUE

A PANDEMIA TROUXE

consiste esta plataforma e a quem

se destina?

O pay-by-link é um mecanismo que

permite a uma empresa enviar um link aos

seus clientes para que estes lhe paguem,

Actualmente, a ifthenpay tem

uma parceria com a Visa. Quais os

objectivos e como se desenvolve?

A ifthenpay já alcançou uma quota

muito relevante nos pagamentos digitais

em Portugal, quer no B2B, quer no B2C.

E em Portugal, os métodos de pagamento

locais, como a referência multibanco e o

MB WAY, têm um peso muito grande nas

preferências dos utilizadores. No entanto,

para as nossas empresas exportarem mais e

abrirem o seu negócio ao mundo, é necessário

integrar nas plataformas que utilizam

métodos de pagamento internacionais,

como o Visa e outros. A nossa parceria com

a Visa procura precisamente fomentar a internacionalização

das empresas portuguesas,

oferecendo-lhes soluções de pagamento

internacionais integradas na nossa oferta

e nas plataformas que eles utilizam. Assim,

qualquer empresa, de qualquer dimensão,

de uma forma fácil, cómoda e segura, pode

abrir o seu negócio ao mundo.

Quais os objectivos de negócio até

ao final do ano?

Em termos de resultados, conforme

anunciamos no nosso site, vamos continuar

com crescimentos elevados, quer a

nível de volume de pagamentos, quer a nível

de novos clientes. Ficaremos perto dos

mil milhões de euros em volume de pagamentos

anual.

Em termos estratégicos, o nosso novo

grande desígnio é ajudar as empresas portuguesas

a levar os seus negócios ao mundo.

Vamos continuar a aumentar a oferta

dos pagamentos internacionais em cada

vez mais software e plataformas.

A internacionalização dos nossos

clientes será também, de forma indirecta,

a nossa internacionalização.

72 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022


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VÁLIDOS PARA

CONTINENTE

E ILHAS


UM MUNDO

EM MUDANÇA

A QUEDA

DE UM UNICÓRNIO

“Bad Blood” conta a história

da ascensão e colapso da

Theranos, a multimilionária

startup de biotecnologia fundada

por Elizabeth Holmes, pela voz

do jornalista que a contou em

primeira mão e a perseguiu até ao

fim, apesar da pressão da CEO e

das ameaças dos seus advogados.

Esquemas elaborados, intriga corporativa,

relações familiares destruídas e

a morte de uma empresa avaliada em

dez mil milhões de dólares compõem

uma história que parece ficção, mas é

pura realidade.

Em 2014, a fundadora e CEO da Theranos,

Elizabeth Holmes, era vista como a versão

feminina de Steve Jobs: uma brilhante

ex-aluna de Stanford, cujo unicórnio

prometia revolucionar a indústria médica

com uma máquina que tornaria as análises

ao sangue mais rápidas e eficientes.

Apoiada por investidores como Larry

Ellison e Tim Draper, a Theranos vendeu

acções numa rodada de levantamento de

fundos que a valorizou em mais de 9 mil

milhões de dólares - o que fez o valor de

Elizabeth Holmes aumentar para cerca

de 4,5 mil milhões de dólares. Mas houve

um pequeno problema: a tecnologia não

funcionou.

Em “Bad Blood”, John Carreyrou conta

a história fascinante da maior fraude

corporativa desde a Enron, um conto de

ambição e arrogância em Silicon Valley.

-------------------------------

BAD BLOOD: FRAUDE MULTIMILIONÁRIA

EM SILICON VALLEY

John Carreyrou

Editora: Editorial Presença

Género: Biografias/Memórias

/Testemunhos

376 páginas

Ray Dalio passou meio século

a estudar economias, impérios

e mercados globais. Nesta obra,

“Princípios para Lidar com a Nova

Ordem Mundial”, o autor examina

os períodos económicos e políticos

mais turbulentos da História

para revelar por que os próximos

tempos serão radicalmente diferentes

dos que temos experienciado

nas nossas vidas – mas

semelhantes ao que já aconteceu

muitas vezes.

Com “Bitcoin: O Ouro Digital”,

Nathaniel Popper oferece uma

visão ímpar sobre a ascensão

drástica da criptomoeda. É um

livro jornalístico que esclarece

os detalhes de uma intrincada

tecnologia – que o leitor vai

ficar a perceber como funciona

- e as suas persistentes lutas e

actualizações contra utilizadores

BITCOIN: O OURO DIGITAL

Nathaniel Popper

Editora: Talento Intemporal

Género: Finanças

368 páginas

á alguns anos, Ray Dalio observou uma confluência

de condições políticas e económicas

H

com que nunca se tinha deparado. Entre elas,

enormes endividamentos, e taxas de juro zero

ou quase zero, que levaram à impressão massiva

de dinheiro nas três principais moedas de

reserva do mundo. A isto, somam-se grandes conflitos políticos

e sociais internos nos maiores países, especialmente os EUA,

devido às maiores divergências do nível de riqueza, da política e

dos valores ao longo de mais de 100 anos.

E por fim, o crescimento de uma potência mundial (China)

desafiando a potência mundial existente (EUA), bem como a

ordem mundial. A última vez que esta confluência de factores

ocorreu foi entre 1930 e 1945. Essa constatação levou Ray Dalio

a uma busca por padrões repetidos e relações de causa/efeito

subjacentes a todas as grandes mudanças na riqueza e no

poder nos últimos 500 anos.

Numa adição notável e oportuna à sua série “Princípios”, Dalio

leva-nos ao seu estudo dos principais impérios – incluindo o

holandês, o britânico e o americano –, colocando em perspectiva

o Grande Ciclo que impulsionou os sucessos e fracassos dos

principais países do mundo ao longo da História.

-------------------------------

PRINCÍPIOS PARA LIDAR

COM A NOVA ORDEM MUNDIAL

Ray Dalio

Editora: Self PT

Género: Economia

608 páginas

A ASCENSÃO DAS CRIPTOMOEDAS

perversos, bancos e governos.

“Bitcoin: O Ouro Digital” é, porém,

mais do que essa explicação,

na forma romanceada como

apresenta as personalidades de

um grupo de talentosos e revolucionários

desajustados, que se

conheceram quase todos online.

De Pequim a Buenos Aires, desfilam

por estas páginas os crentes

numa mudança para uma

estrutura económica mais justa,

incluindo um estudante finlandês,

um milionário argentino, um

empresário chinês, os gémeos

Tyler e Cameron Winklevoss (que

afrontaram Mark Zuckerberg na

criação do Facebook) e ainda o

misterioso criador da Bitcoin,

Satoshi Nakamoto.

74 RISCO JUNHO / AGOSTO 2022

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